Finalizada em: 01/03/2026
— Então é mais fácil usar o “will”, certo? — A japonesa perguntou.
— Pessoalmente, eu acho que sim, mas são duas opções válidas que vocês verão conforme a localização. — Andei pela sala, checando o relógio acima da porta. — O “will” é mais visto aqui na América do Norte. Canadá e Estados Unidos. Agora o “going to” é mais visto no Reino Unido. E como eu sempre digo...
— Você nunca sabe como vai receber a informação! — Meus seis alunos falaram, me fazendo rir.
— Exatamente! — Ri fracamente. — Vamos tirar uns 20 minutos de intervalo depois voltamos?
— Eba! — Eles falaram se levantando apressadamente e eu ri fracamente, vendo-os combinarem de ir à cafeteria da esquina.
Juntei os materiais acumulados em cima da mesa, vendo a lista de exercícios que eu passaria para eles logo depois e esperei todos os alunos saírem para ir logo atrás deles e puxar a porta. Passei pelos corredores da escola, dando um aceno de cabeça para os alunos e professores de outras salas e entrei na sala dos professores.
Fui direto até a cafeteira, pegando um copo de isopor e enchendo-o. Há quase um ano aqui, é a primeira vez que eu realmente pego o frio de fim de ano, e nunca soube lidar muito bem com isso nem quando estava no Brasil.
Coloquei duas colheres de açúcar e apoiei o quadril um pouco mais para a esquerda para dar espaço para outros professores se servirem. Tirei o celular do bolso, vendo algumas notificações e uma delas era o foguinho do Tinder e só puxei a notificação rapidamente para ver o que era e vi o tal do Eric que eu estava conversando há uns dois dias.
“Quer sair hoje à noite?”
Suspirei fundo. Apesar de estar solteira toda minha vida, eu não estava tão desesperada assim. Os papos eram entediantes e ele só sabia falar de carros, e eu não sou a mais expert no assunto. Bloqueei o celular de novo e voltei-o ao bolso.
— ...Não, Carly. Infelizmente não poderemos te ajudar... — Ouvi Vera na recepção logo ao meu lado. — Não, só trabalhamos com inglês mesmo, nosso trabalho é com estrangeiros...
— Ah, tem certeza? Seria para algo mais básico... Nada fora do comum. — A mulher na frente dela falava com um tom desapontado na voz.
— Sim, Carly. Somente inglês e francês...
— E tem algum lugar que vocês podem me indicar? — A mulher falou.
— Hum... Para italiano é complicado... — Vera disse suspirando. — Você precisa para uma turma particular, né?!
— Sim! Seria para minha chefe e para os outros membros da empresa, é algo meio urgente... — Vera suspirou, pensando.
— Eu posso perguntar aqui, mas não conheço ninguém que dá aulas de italiano por aqui... — Arregalei os olhos.
— Com licença? — Minha voz saiu mais rápida do que eu me mexi. — Desculpe me intrometer, mas vocês estão buscando professor de italiano?
— Sim, você conhece alguém, ? — Vera virou para mim.
— Sim, eu! — Falei rindo.
— Mesmo? — A tal da Carly falou empolgada.
— Sim! — Falei rindo. — Eu não sou fluente porque nunca fui para Itália, mas eu completei todos meus cursos e sou avançado...
— Ah, isso já é o suficiente! Seria para o básico, sabe? E algo mais específico, para reuniões e compreensão em alguns eventos e palestras... — Assenti com a cabeça.
— Nisso eu posso te ajudar, eu tenho material também...
— Perfeito! — A mulher me interrompeu. — Você pode me passar seu contato? Assim conversamos depois.
— Claro! — Peguei uma folha do bloquinho de Vera e anotei meu nome e o telefone. — Estou disponível após as seis.
— Perfeito! — Ela pegou. — Eu sou Carly, falando nisso. — Ela esticou a mão por entre a divisão de vidro.
— , mas todo mundo me chama de . — Apertei sua mão.
— Obrigada! Entrarei em contato. — Ela disse saindo animada, me fazendo rir.
— Nunca vi alguém tão animada por aprender italiano... — Brinquei com Vera que riu ao meu lado.
— Ela não está animada por aprender italiano, ela está animada por conseguir alguém para ensinar italiano aos chefes dela... — Vera riu negando com a cabeça.
— Você sabe do que se trata? — Perguntei.
— Ela é assistente de grandes executivos aqui, então é meio que O Diabo Veste Prada, não existe tarefa impossível...
— Entendi... — Falei, pressionando os lábios.
— Ah, , quando ela entrar em contato contigo, aproveita essa oportunidade, tá?
— Como assim? — Franzi a testa.
— Pode cobrar be-e-e-em caro. — Vera disse e franzi a testa. — Ela trabalha para família Stroll, eles são praticamente donos de Montréal. — Ela deu um sorriso, pegando o telefone que tocava.
Olhei para a grande estátua no centro da praça e o edifício logo atrás. Montréal não é conhecida por prédios incrivelmente altos como outras cidades, mas eles possuíam arquiteturas diferentes dentre si que era fácil diferenciá-los no horizonte.
Eu estava na frente do prédio que parecia um triângulo, ou uma caixa de leite se preferir, ele era inteiro espelhado e homens e mulheres com roupas sociais saíam dele após o fim do expediente.
Dei uma olhada novamente para minha roupa e suspirei. Apesar do termômetro começar a atingir os 24 graus alguns dias agora no fim de abril, o fim do dia voltava a esfriar e esperava que eu não gelasse dentro desse blazer e blusa de manga comprida por baixo, além do jeans e do tênis sem cadarço.
Observei algumas mulheres saindo e fiquei feliz pelo mundo corporativo estar um pouco mais despojado. Ajeitei minha mochila nas costas e suspirei, entrando no prédio.
Se eu achava que o lado de fora estava caótico, dentro estava muito mais. Pessoas desciam dos diversos elevadores e a recepção à minha frente estava apinhada de pessoas. Me aproximei lentamente e olhei em volta, em busca de um homem engravatado, em sua maioria seguranças, para me dar uma informação.
— Madame? — Um deles me chamou e respirei fundo ao ser chamada pelo francês. Sei que Montréal tem sua dominância francesa, mas simplesmente não consigo gostar ou aprender a gostar dessa língua. Engoli em seco ao me aproximar com o cartão que Carly havia me entregue.
— Sportswear Holdings, s'il vous plaît? — Perguntei e ele deu um aceno com a cabeça.
— Décimo oitavo andar. — Ele falou em inglês. — Preciso de um documento, por favor. — Assenti com a cabeça e lhe entreguei meu passaporte, vendo-o anotar as informações na minha frente. — Olhe para a câmera, por favor. — Ele indicou a webcam e dei minha melhor cara de paisagem para entrar no registro de um dos prédios comerciais de Montréal. — Pronto, agora só seguir à direita. — Ele disse ao devolver meu passaporte.
Dei um aceno com a cabeça e segui para o local que ele disse, me espremendo entre as pessoas saindo do elevador para poder entrar antes que fechasse e apertei o número 18. Pressionei os lábios com a tradicional música de elevador e ri sozinha até chegar ao andar.
O local estava bem mais vazio do que lá embaixo e uma mulher bonita estava na recepção repassando ligação atrás de ligação. Me movimentei para tentar me colocar na linha do olhar dela que anotava os recados no computador.
— Um minuto, por favor! — Ela disse de forma mais despojada e acenei com a cabeça, ouvindo—a mudar do inglês para o francês em algumas ligações, antes de abaixar o fone da cabeça e me dar completa atenção. — Pode falar.
— Eu tenho reunião com... — Chequei o papel novamente. — Claire Stroll. — Falei.
— Ah sim, , certo?
— Isso. — Dei um sorriso.
— Venha comigo, por favor. — Ela disse, se levantando e ouvi o telefone tocando.
— Você não vai...
— Não se preocupe. — Ela disse e assenti com a cabeça, andando com ela pela empresa.
O local cheirava empresarial, então vários computadores, salas grandes de reunião tomavam conta do andar, mas muitas estavam vazias pelo horário próximo às oito da noite. Não me preocupei com isso, somente segui a mulher que deveria ter minha idade.
— Com licença, Claire? — A mulher falou em inglês e fiquei relaxada, já que Carly me garantiu que dentro da empresa, eles falavam inglês, não francês.
— Sim... — A loira do lado de dentro falou.
— A professora de italiano.
— Ah, sim, pode deixá-la entrar! — Ela abanou a mão animada enquanto se levantava e a mulher deu um aceno para mim e entrei, vendo-a fechar a porta atrás de mim. — , que prazer te conhecer! — Ela disse animada e estiquei a mão, vendo-a fazer o mesmo.
— Olá, senhora Stroll, o prazer é meu! — Falei.
— Pode me chamar de Claire. Stroll é do meu ex-marido, não estamos mais juntos, mas é mais difícil tirar o sobrenome do que colocar. — Ela disse brincalhona e dei um aceno com a cabeça. — Pode se sentar, por favor.
— Nesse caso, pode me chamar de . — Falei e ela se sentou à minha frente.
— É realmente um prazer enorme te conhecer, . — Ela sorriu. — Acho que você quem vai salvar a minha vida...
— Eu só sou uma professora, senhora... — Falei rindo.
— Bem, pelo que eu vi sobre você, seu foco é ajudar os outros a realizarem os sonhos, certo? — Pressionei os lábios ao descobrir que ela havia pesquisado meu Instagram profissional.
— Sim... — Falei rindo.
— Bom, eu tenho um sonho a realizar e ele está na Itália. — Assenti com a cabeça. — Vou te dar uma explicação geral, . Eu tenho uma reunião na Itália em setembro, nossa marca está crescendo e vamos precisar de uma equipe lá. Nossa empresa não produz roupas, não fazemos desfiles, nem nada do tipo, mas trazemos marcas famosas para o Canadá e Estados Unidos. Nos tornamos uma distribuidora de confiança para empresas como Pierre Cardin, Ralph Lauren, Michael Kors e Tommy Hilfiger, agora empresas italianas como Versace, Dior, entre outras, querem que nossa empresa, ajude na divulgação da marca mundialmente... — Dei um aceno com a cabeça ao reconhecer as marcas. — E italianos são tradicionais, então falar italiano...
— É primordial. — Falei e ela deu um aceno com a cabeça.
— Exatamente. — Ela suspirou. — Nós temos um grupo de 12 pessoas, inclusive eu, que precisam destravar o italiano em quatro meses. É possível?
— Possível é, senhora, mas serão preciso várias horas de dedicação. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
— Eu sei que você tem a escola e, também, dá aulas particulares, mas teria como nos encaixar? Dinheiro não é o problema, como Carly deve ter te dito. — Engoli em seco, sabendo que Carly já havia falado sobre isso comigo e respirei fundo.
Falamos de valores que realmente mudariam minha vida aqui no Canadá, mas eu teria que abrir mão dos meus precisos horários de folga pelos próximos quatro meses. Isso era algo que pesava na balança, já que eu praticamente só trabalhava, mas também poderia ser minha chance de finalmente investir na minha escola ou até realizar meu sonho de trabalhar na Itália.
— Eu tenho alguns horários disponíveis de quinta-feira à noite e sábado à tarde eu tenho livre. — Falei, minhas sextas-feiras acabavam para eu dedicar à preparação das aulas da semana seguinte e domingo é dia de não fazer nada.
— Para gente conseguir destravar em quatro meses, quanto tempo por dia você acha necessário? — Ela perguntou e suspirei.
— O ideal seria quatro horas, mas é impossível alguém ficar completamente focado por esse tempo, então sugiro cinco, com pausa para alguns intervalos. — Falei.
— E você aguenta cinco horas seguidas? Com 12 velhos com a cabeça de uma formiga? — Ri fracamente.
— Acredito que vocês falem francês também...
— A maioria. — Ela disse.
— O cérebro já está bem elástico, então. — Falei e ela confirmou com a cabeça.
— Eu preciso disso com urgência, , é possível? — Ela perguntou em um tom mais sério e assenti com a cabeça.
— Sim. — Falei. — Eu só preciso de uma semana para preparar o material.
— E o pagamento? Não quero que fique com vergonha de cobrar, . Sei sua média de valores, mas você trabalha com alunas particulares. Serão 12 alunos particulares ao mesmo tempo. Muitos bem mais velhos do que eu. — Engoli em seco, assentindo com a cabeça.
— Serão quatro meses? Cinco horas por semana? 12 pessoas? — Perguntei e ela assentiu com a cabeça.
— Exatamente. — Ela falou e tirei o celular da bolsa, abrindo a calculadora, digitando os números:
250 dólares a mensalidade por uma hora semanal. Cinco horas mensais. Quatro meses. 12 pessoas. 60 mil dólares. Engoli em seco. Eu tinha problemas com cobrar, era difícil falar que cobrava 250 dólares mensais para uma vez na semana, agora imagina falar esse número? Era alto demais, mas era literalmente o meu preço.
— E então? — Ela disse e olhei para ela, respirando fundo.
— É... 50 mil dólares... O valor completo pelos quatro meses. — Falei, sentindo a garganta doer ao falar isso e ela assentiu com a cabeça, pensando isso.
— Entendo... — Ela disse, se ajeitando na cadeira.
— Posso dar um desconto se...
— Não, não! — Ela disse. — É que não foi esse valor que a Carly me disse sobre você. Esperava por volta de uns 60 mil. — Ela disse e assenti com a cabeça.
— Sim, senhora, mas eu dou desconto para aulas em grupo. — Falei e ela confirmou com a cabeça.
— 10 mil é um belo desconto... — Ela disse em tom de deboche e pressionei os lábios. — Que tal fecharmos em 80 mil, ?
— Senhora? É mais do que meu preço. — Falei.
— É, eu sei, mas tem seu transporte para vir aqui todo sábado, o material que você vai comprar para gente, além de aguentar essa turma toda por quatro meses direto. Talvez eu devesse arredondar para 100 mil para você pagar uma terapeuta muito boa. — Ri fracamente de nervoso.
— Que isso, senhora. — Ela me olhou séria.
— Acredite em mim. — Ela disse suspirando. — O mundo corporativo é uma porcaria... — Ela negou com a cabeça e assenti com a cabeça casualmente. — Então, 100 mil?
— Não, senhora, não precisa de tudo isso...
— Tem uma cota sobrando nesse projeto, e prefiro gastar com alguém que valha a pena. — Ela disse.
— A senhora nem me conhece. — Falei.
— Brasileira, 29 anos, veio para o Canadá porque era um intercâmbio mais barato, acabou ficando ao ser contratada pela escola que veio estudar. Trabalha pela manhã e tarde lá, dá aulas particulares até tarde da noite e está de pé no dia seguinte para começar tudo de novo. E agora está aceitando perder seu sábado quase inteiro para dar aula para um bando de velhos que poderiam ter feito isso bem antes... — Ela disse. — Eu fucei no seu Instagram. — Ela disse e assenti com a cabeça. — Não te conheço, , mas sei identificar alguém que quer crescer na vida. Não custa nada eu te ajudar.
— Obrigada, senhora. — Falei.
— Meu ex-marido trabalha mais na parte de carros e afins, mas ele tem um programa para jovens talentos, acho que eu posso ter um também, e começar contigo. — Dei um pequeno sorriso.
— Me ajudaria muito, senhora, mas eu não posso aceitar... — Suspirei.
— É minha oferta, . É pegar ou largar! — Ela disse e dei um pequeno sorriso.
— CEM MIL DÓLARES, AMIGA! CEM MIL DOLARES EM QUATRO MESES! — Gritei a plenos pulmões enquanto saía da empresa com o botão no áudio do WhatsApp. — É 25 MIL DÓLARES POR MÊS, É MUITO MAIS DO QUE EU GANHO NA ESCOLA E NAS AULAS PARTICULARES. — Suspirei, relaxando os ombros, vendo que eu estava do lado da estátua estranha de novo. — Cem mil dólares, Ama. Eu vou conseguir montar minha escola. — Suspirei. — Pequenininha, claro, mas é um começo. — Soltei o botão.
Meu Deus!
Cem mil dólares!
Eu sabia que o trabalho não seria fácil, nunca dei aula para mais do que seis pessoas em uma sala, e em sua maioria são intercambistas muito empolgados com a nova língua ou brasileiros tentando melhorar aqui. Isso sem contar que seria minha primeira experiência como professora de italiano oficialmente.
Merda!
Eu tinha muito o que fazer até a próxima semana. O valor vai compensar, mas vai ser um trabalho bem pesado.
Olhei o horário no celular e era quase nove da noite. Eu não estava tão longe de casa, mas não queria pegar transporte público agora. Vim de Uber para não chegar suada e nem atrasada, mas eu iria pegar para voltar novamente, tinha que estar de pé as sete para ir para a escola.
Observei em volta, vendo diversos letreiros de fast food e fiz um uni duni tê mentalmente antes de ir na escolha mais óbvia: KFC. Peguei um balde pequeno com meu molho de mostarda e mel e Coca-Cola, e pensei por alguns segundos se levava para casa, mas o descarte de todo esse papelão me deixou com preguiça.
Me sentei em uma banqueta alta, devorando meu KFC com a mão direita, enquanto a esquerda tinha dificuldades em contar as novidades para meus pais no Brasil. Menos de 15 minutos depois, eu lambia a ponta dos dedos e limpava no guardanapo. Passei álcool nas mãos e chamei o Uber.
Entrei apressada em minha kitnet, tirando a roupa e fui para um banho quente. O tempo estava esfriando cada vez mais e eu somente com uma cacharréu e o blazer por cima. Esperei somente esquentar meu corpo e saí novamente, colocando meu pijama. Joguei as almofadas no chão e deitei entre as cobertas, encarando o verde do teto.
— Cem mil dólares... — Suspirei, deixando um sorriso se formar em meus lábios.
— Fica calma que vai dar certo, teacher! Você sempre fala que fica nervosa com novos alunos e se dá superbem com todos. Vai dar tudo certo. — Minha aluna Thaís falava pela chamada do Google Meet.
— Ah, tomara que esteja certa! — Falei rindo e ela sorriu. — Bom, Thaís, páginas 25 e 26 do workbook para semana que vem.
— Obrigada, teacher! Até quarta. — Ela disse e esperei que ela fechasse a ligação antes de fechar também.
Empurrei a cadeira rapidamente, abrindo a geladeira e peguei uma lasanha congelada e coloquei no micro-ondas. Aproveitei para tomar banho enquanto ela descongelava e esquentava. Saí do banheiro, vestindo a calça preta que eu comprei com o adiantamento de Claire e da Sportswear Holdings, e comi somente de sutiã à mesa, tomando cuidado para o molho quente não espirrar em meu corpo.
Joguei o pote no lixo e lavei os talheres antes de terminar de me arrumar. Diferente da reunião na semana passada, dessa vez eu coloquei uma camiseta branca com alguns desenhos discretos e minha jaqueta jeans. Escovei os dentes, fiz uma maquiagem bem discreta e coloquei os tênis. Peguei os dois sacos com materiais novos, colocando na mesa, juntei o notebook na mochila e tirei o celular da tomada.
A ansiedade me bateu mais uma vez enquanto eu pedia o Uber, mas respirei fundo. Já tinha passado por esses altos e baixos nesses cinco dias, mas o contrato já estava assinado, o salário de maio já estava na minha conta e Claire contava comigo.
Eu não a conhecia, dei uma pesquisada rapidamente pelo Wikipedia. Ela é belgo-canadense, estilista e dona de uma marca chamada Callens. Devido ao seu casamento com o bilionário canadense Lawrence Stroll, possui ações na empresa dele e hoje cuida da área de divulgação de marcas de roupas famosas. Já Lawrence cuida da parte de carros, inclusive possui até uma equipe de Fórmula Um. Quando falam que Lawrence é dono de Montréal, agora eu entendo o porquê.
Apesar de ambos serem divorciados, aparentemente eles possuem uma boa relação. Talvez pela holding, os dois filhos, ou só sabem viver em harmonia como deveria ser com qualquer casal. Uma rápida pesquisada nos links do Wikipedia, descobri que seu filho é piloto e sua filha uma aspirante a cantora. Acho que não encontraria um professor de inglês na família Stroll.
Desci do Uber e segui para a recepção, lá peguei meu crachá de visitante e fui até o elevador. A empresa não estava totalmente vazia, mas poucas pessoas ocupavam as salas de reunião. Uma recepcionista diferente me guiou até a sala e engoli em seco quando vi a sala com vários engravatados lá dentro. Apertei as mãos nos materiais e respirei fundo quando ela guiou a porta aberta.
— Ciao... — Falei tímida, rindo em seguida.
— Ciao! — Claire disse animada, se levantando do outro lado da mesa. — Reservei a ponta da mesa para você! — Ela indicou o canto em que eu já estava e assenti com a cabeça.
— Obrigada. — Deixei minhas coisas na ponta da mesa, tentando manter um sorriso rosto.
— Precisa de alguma ajuda? — Ela perguntou mais baixo quando se aproximou.
— Não, não, só organizar e já começo. — Sorri e ela assentiu com a cabeça, voltando para seu lugar.
Tirei o notebook da mochila, liguei-o e tirei os livros e os kits de lápis e caderno que eu fiz com o nome da minha escola. Não podia perder a oportunidade de fazer divulgação para pessoas com um pouco mais de dinheiro, né?! Vai que...
Ergui meus olhos para os presentes e suspirei. Tinham 12 pessoas ali. Nove deles eram homens, três mulheres, e a faixa etária da maioria deve passar de 50 anos. Tinha somente uma mulher que deveria regular comigo e era a única que sorria junto de Claire.
Sempre falei que queria uma turma de idosos, mas eu imaginava algo como o grupo de velinhas da igreja que eu frequentava no Brasil, não vários ricaços de uma empresa que manda em Montréal.
— Buongiorno, mi chiamo e sono la tua insegnante! — Falei, me colocando na frente do pessoal. — Eu sou , e eu fui convidada pela Claire para ensinar italiano para vocês. — Tentei manter um sorriso amigável. — Nós temos quatro meses para aprender entre o básico e o intermediário, além de deixá-los confortável com o idioma para que possam se comunicar livremente. — Alguns assentiram com a cabeça. — Para quem fala o inglês, ele pode ser um pouco diferente, mas estamos em Montréal, então creio que a maioria de vocês já fala dois idiomas, um terceiro vai ser fácil... — Alguns riram, me fazendo sorrir. — Ok, vamos lá, eu gostaria de saber o nome de todos e, se possível, o que fazem aqui na empresa, para gente fazer amizade. Que tal? Começando por “mi chiamo...” e dizendo seu nome.
Essa pergunta não agradou a maioria dos homens, mas todos se apresentaram entre pronúncias boas e ruins, mas não era o foco agora, então só deixei rolar. Começar é difícil, especialmente quando a maioria não parecia estar animada em passar cinco horas do seu sábado comigo.
— Muito bom! — Sorri. — Eu me chamo , podem me chamar de , e estarei com vocês nessa jornada. Vou distribuir os materiais que foi pensado com o foco mais empresarial, ele é de vocês e espero que abusem bastante dele.
Peguei os materiais, dando a volta na larga mesa, deixando um na frente de cada pessoa antes de voltar para meu lugar. Conectei o notebook no data show e abri a apresentação em Power Point, não costumo trabalhar assim, é com as mensagens do chat do Google Meet ou um quadro branco, mas achei que fosse melhor para mostrar para eles.
Quando virei para eles novamente, as caras não eram mais animadas, então só respirei fundo.
— Andiamo? — Falei, vendo o sorriso de Claire e foi nisso que foquei.
— Ah, Ama, você sabe que eu não estou acostumada com isso, né?! — Ela riu comigo.
— Eu fico imaginando sua cara, deve ter sido a pior coisa de todas...
— Foram cinco horas, Ama! — Suspirei. — Você não tem noção! Tiveram cinco pessoas que interagiram! Cinco! — Tombei a cabeça para trás.
— Ah, mas vai ver foi só a primeira vez, ... — Ela disse. — Como você mesma diz: começar é difícil...
— Difícil, não impossível! Eu estou acostumada com pessoas que querem aprender um idioma, agora eu estou com dois, talvez três verdadeiros interessados...
— Você está indo para lá agora, certo? — Ela perguntou.
— Sim, acabei de descer do ônibus. — Suspirei, olhando para o prédio. — Respirando fundo antes de voltar para sofrência. — Ela gargalhou alto.
— Ah, miga, só você! — Ela riu.
— Ai, foi péssimo, de verdade...
— Então pensa nos cem mil, miga! Cem mil dólares! Sua escola, sua chance de nunca mais voltar para o Brasil...
— Você sabe que eu não penso assim...
— Eu sei, eu sei, você ainda gosta dessa terra de sofredores... — Ri fracamente.
— Eu gosto... — Suspirei. — Só apareceu a oportunidade...
— Eu sei, também sinto sua falta! — Rimos juntos e chequei o relógio.
— Também sinto, miga... — Suspirei. — Chegou minha hora. Te mando mensagem mais tarde.
— Combinado, miga! Boa sorte! — Ri fracamente.
— Obrigada! Manda um abraço para o Edu.
— OUTRO! — O namorado dela gritou, me fazendo rir.
— Ah, no viva-voz de novo! — Falei rindo. — Tchau!
— TCHAU! — Duas vozes falaram em tons diferentes, me fazendo rir antes de desligar.
Guardei o celular antes de entrar na empresa e foi fácil passar pela segurança agora. Fiz o mesmo caminho das outras duas vezes até estar perto da sala envidraçada novamente, entrando devagar pela porta.
— Buongiorno! — Falei.
— Buongiorno! — Alguns responderam e me coloquei na ponta da mesa, deixando minha mochila e contei nove pessoas ali hoje. — Estamos com alguns atrasos? — Perguntei.
— Alguns... — Claire disse claramente incomodada com isso.
— Bom, eu vou devolver a lição de casa enquanto eles não chegam. — Falei, pegando minha pasta e tirando as folhas soltas. — Para uma primeira aula, gostei que vocês foram muito bem. — Atravessei a sala, distribuindo as tarefas de casa, passando por Claire. — Parabéns! — Falei, vendo-a sorrir e voltei para meu lugar. — Eu vou abrindo as coisas aqui, enquanto eles chegam.
Eu devo dizer que demorei o dobro do tempo para abrir o Power Point e me preparar para a aula, mas pela cara de Claire, eles não iam aparecer, então quando finalizei tudo, eu me virei para eles.
— Bom, vamos começar? — Falei e Claire abriu o livro com calma.
— Péssimo?
— TERRÍVEL! — Falei dramática. — Tiveram três pessoas na última aula, Ama! TRÊS! É a quinta aula! Está ficando ridículo! Eu sinto uma idiota ali na frente.
— Acho que não tem problema, a Claire fez um acordo contigo, ela não vai dar para trás.
— Eu estou com medo de ela desistir! Ela não vai ficar pagando cem mil à toa, Ama. E eu não acho que seja só uma “reunião de negócios” ou viagem para sei lá onde... Isso está ridículo.
— Ah, miga, pior que eu nem sei o que te dizer... — Suspirei, encarando a empresa.
— Hoje é o começo do segundo mês, é para eles me pagarem na segunda-feira, eu tenho planos, eu...
— RELAXA, MULHER! — Ama gritou, me fazendo suspirar. — Olha a ansiedade falando de novo. Relaxa! — Suspirei. — Entra naquela empresa, peito estufado e ensine esses velhos a parlare l’italiano! — Ela forçou o sotaque, me fazendo rir. — Ninguém te falou nada ainda, . Lida um dia de cada vez, você fica nervosa com coisas que não pode controlar.
— Por isso que eu fico nervosa, se fossem coisas que eu pudesse controlar, eu não ficaria assim... — Ela ficou em silêncio por um tempo.
— Bom ponto! — Rimos juntos.
— Está quase na hora, Ama. A gente se fala mais tarde, ok?!
— Eu estarei aqui. — Ela disse ainda.
— Beijo, Edu! — Falei.
— Beijo-o-o-o! — Ele disse, me fazendo rir e desliguei o celular.
Respirei fundo, tombando a cabeça para trás e segui para dentro do prédio. Tentei manter um sorriso no rosto, mas por dentro eu sentia que estava borbulhando, talvez fossem gases, mas não podia pensar nisso agora.
Acenei para a recepcionista, seguindo o caminho de sempre e nem me surpreendi quando encontrei Claire sozinha na sala, na ponta da mesa. Engoli em seco e entrei devagar.
— Buongiorno, Claire...
— Ciao... — Ela disse desanimada.
— Acho que não deu certo, né?! — Me aproximei dela, puxando a cadeira ao seu lado.
— Pelo visto eu fui empolgada demais com isso... — Ela disse.
— Sinto muito, Claire. Estou acostumada com isso, até quando as pessoas querem, elas desistem pelos mais variados motivos, imagina sem querer... — Ela suspirou.
— Eu odeio isso! Eu nunca pedi nada, eles não podiam ter feito um favor para mim? — Notei sua voz mais irritada e Claire tinha uma figura tão calma que era difícil imaginar ela irritada.
— Sinto muito... — Suspirei, sabendo que as próximas palavras me ferrariam, mas o que é certo, é certo. — Se você quiser rescindir o contrato, podemos...
— NÃO! — Ela falou rapidamente. — Não, não! Nada de rescindir, eu ainda preciso de você. Eles podem não me ajudar, mas eu preciso disso! Eu não vou deixar meu sonho morrer por um bando de velhos. — Ri fracamente.
— Feliz que está animada. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
— Creio que a gente só precise mudar nossa tática... — Ela ponderou com a cabeça.
— Claro, o que ficar melhor para você, alguma ideia? — Perguntei e ela deu um curto sorriso.
— Acho que tenho algumas. — Ela disse, me fazendo sorrir com ela.
— Creio que sim... Por quê? — Perguntei.
— Hum... Essa é a casa do Lawrence Stroll... — Ele disse e pressionei os lábios.
— É aqui mesmo. — Suspirei. — Obrigada!
— De nada. — Ele disse rindo e empurrei a porta do carro, ajeitando minha mochila nas costas.
Realmente, entendia a surpresa do cara, quem iria na casa do cara mais rico de Montréal, né?! Pois é! Creio que a separação de Claire e de Lawrence era a mais saudável que eu vi em toda minha vida, eles ainda moram na mesma casa, apesar de ele ficar longe boa parte do ano, e parecem possuir uma relação de respeito. Ao menos nunca ouvi Claire falar mal dele na minha frente.
Depois do primeiro mês de aulas completamente fracassado, Claire decidiu mudar as aulas para casa dela. Ela ainda quer continuar com as aulas, meu pagamento será exatamente o mesmo, ela só pediu se podemos fazer na sua casa, para que nós duas possamos ter conforto.
Confesso que até prefiro, é mais perto de casa do que o lado corporativo de Montréal, mas não esperava ser uma mansão enorme como essa, com grandes e lindos portões de ferro, que de fora parece que era só uma casa normal.
Me aproximei da campainha, respirando fundo antes de apertá-la. Esperei alguns segundos, olhando para o céu azul. Maio estava começando um pouco mais quente e eu agradecia, estava cansada do frio desse país. Às vezes eu penso se não deveria ter ido para Austrália, mas não podia negar que o Canadá estava me dando boas opções.
— Quem é? — Ouvi uma voz masculina.
— , vim a pedido de Cla…
— Pode entrar! — Disse e o portão duplo se abriu, me deixando surpresa.
Entrei assim que tive espaço o suficiente para uma pessoa passar e segui pelo caminho. Passei pela entrada curva de carros até ver a mansão aparecer em minha frente. Ela é branca com os telhados cinza, chama bastante atenção, devo dizer. A rua seguiu para a direita, mas um homem me esperava em uma porta.
— Seja bem-vinda, senhorita .
— Oi! — Me aproximei.
— Eu sou Sebastien, responsável pela casa e criadagem... — Assenti com a cabeça.
— Prazer, eu sou . — Dei um sorriso e o homem confirmou mais uma vez.
— Venha, senhora Claire já está te esperando. — Ele indicou e entrei, notando que estava entrando em uma cozinha. Tudo era claro, com granitos brancos e decoração discreta. Eu gostava de inventar um pouco na cozinha, então aquele local era incrível para mim. — Venha, por favor. — Sebastien disse e o segui.
Saímos da cozinha, descendo alguns degraus e passamos por uma sala de jantar ligada à cozinha e por outros cômodos menores. Tudo era muito claro e bonito, eu estava evitando não parecer surpresa demais.
Descemos mais algumas escadas e chegamos num largo hall com uma sala à frente, uma longa escadaria à esquerda e portas de vidro incrivelmente limpas do lado direito. Notei que havia entrado pela lateral da casa. Talvez a entrada de serviços mesmo.
— A Claire logo estará aqui. Fique à vontade. — Ele disse e assenti com a cabeça.
— Obrigada. — Ele disse, se retirando por baixo da escadaria e dei uma olhada em volta. O pé direito deveria ter uns cinco metros de altura, tudo era muito claro, eu me sentia minúscula aqui, mas não tinha um quê de coisa chique, só grande demais mesmo.
Ouvi um latido fino e virei o rosto, vendo o que parecia ser um filhote um pouco maior de Golden, descer as escadas todo atrapalhado, soltando vários latidos.
— Ah, que coisa linda que você é! — Ele veio direto em meu pé, fazendo seu latido fino ecoar na sala vazia e começou a cheirar os cadarços do meu tênis. — Oi, sua coisa fofa. — Me abaixei, deixando-o me cheirar antes de afagar os pelos brancos deles.
— , não! — Ergui as mãos, vendo Claire na minha frente. — Ela é pequena, mas ela morde forte.
— Opa! — Olhei para a bolinha de pelos que insistia em me cheirar. — Ela não parece querer me morder.
— Ah, ela é chata, , se você soubesse. Ela me morde, se quer saber.
A bolinha de pelos continuou cheirando meu All-Star até começar a brincar de cabo de guerra com meu cadarço, continuando a soltar finos latidos, como se meus sapatos fossem atacá-la.
— Ela não parece perigosa, Claire. — Disse, me atrevendo a acariciar a cabeça da cachorra de novo, vendo-a se assustar.
— ... — Claire me avisou e desci o carinho para o pescoço dela, vendo-a começar a se aninhar em mim.
— Acho que ela gosta de mim, Claire! — Falei rindo, parando o carinho segundos depois, ouvindo a cachorrinha latir agora por eu ter parado de fazer carinho. — Ah, folgada, agora gostou?
— Isso é realmente estranho, . — Claire desceu as escadas. — Ela odeia mulheres no geral.
— Talvez ela saiba de algo que eu não sabia. — Rimos juntas e Claire me deu dois beijos.
— Essa é a Kenya, meu filho a deu para sua ex-namorada, quando eles terminaram, ele ficou com ela, então ela não gosta de nenhuma mulher, só da Sarah. — Ela disse e imaginei que Sarah fosse a ex-namorada de seu filho.
— Bom, ao menos ela não parece querer me matar. — Falei rindo.
— Talvez seja um bom sinal. — Ela disse e ri fracamente.
— Ela é filhotinha ainda, para que tanto ódio no coração? — Brinquei, sentindo Kenya ainda me cheirar.
— Ela não é filhote, ela é só pequena mesmo. Tem uns três anos. Meu filho e a Sarah terminaram tem um ano, mais ou menos. Como ele viaja muito, ela fica aqui me enchendo o saco. — Claire disse rindo. — Olhe! — Ela indicou os dedos com marcas de dente.
— Kenya? — Ela assentiu com a cabeça. — Se ela não desmontar meu apartamento, posso cuidar dela, se quiser. — Falei.
— Não brinca que eu aceito. — Claire disse, me fazendo rir. — Bom, vamos?
— Claro! Vim preparada, trouxe várias coisas extras para gente trabalhar um pouco mais de conversação. — Falei.
— Ah, perfeito! — Ela disse. — Vamos aqui na sala... — Ela indicou a sala à frente. — Já deixei minhas coisas aqui embaixo, podemos pegar mais claridade do sol.
Segui com ela até a outra sala e tinha uma mesa redonda com umas oito cadeiras, e atrás tinha uma sala de TV com três sofás que pareciam ser muito confortáveis. Tudo mantendo as cores pastéis de branco e bege.
— Fique à vontade. — Ela disse e apoiei minha mochila na mesa, tirando os materiais.
— Como será somente nós duas, não trouxe o note. Podemos fazer algo mais dinâmico.
— O que achar melhor. — Ela disse e tirei os materiais, meu estojo e a pasta com a tarefa dela.
— Vamos começar na tarefa, notei que você ainda está com um pouco de dúvidas na conjugação do futuro no plural. — Abri a pasta, tirando as tarefas dela rabiscadas.
— Muita dificuldade, pelo jeito. — Lhe entreguei.
— Isso é normal, você está tentando absorver muita coisa em pouco tempo, é normal essas confusões. — Peguei outra folha. — Trouxe textos para gente trabalhar, e um livro, se te interessar.
— Ah, eu adoro O Pequeno Príncipe. — Ela disse.
— Imaginei que já tivesse lido, por isso talvez a leitura seja mais fácil para você. — Lhe empurrei o livro usado que tinha achado na Biblioteca Municipal de Montréal.
— Obrigada, vai ser ótimo! — Ela disse.
— Vamos dar uma repassada? — Perguntei.
— Vamos lá! — Ela disse, abrindo seu caderno.
— Ai, minha cabeça dói! — Ela disse e ri.
— Ah, Claire... — Parei a caneta antes de erguer o rosto para ela. — Você não tem noção como está sendo guerreira nisso tudo...
— Por que diz isso? — Ela perguntou.
— Porque você está tentando aprender um conteúdo de pelo menos dois anos, em um período de quatro meses. — Falei. — Os alunos dificilmente fazem cinco aulas semanais, quiçá mensais. — Adicionei um pouco de drama na voz. — Você está sendo uma verdadeira guerreira...
— Não é você que diz ajudar a realizar os sonhos?
— Exato! — Dei um curto sorriso. — Você está se esforçando para realizar seus sonhos, fazendo sacrifícios e dificuldades... — Dei de ombros. — E tem ido muito bem com isso... — Lhe estiquei o papel em que corrigia. — Parabéns. — Ela sorriu ao ver o número 10 no papel.
— Ao menos algumas coisas valem à pena. — Ela disse e sorri.
— Exatamente. — Estiquei a mão para ela na mesa. — Vai valer à pena, Claire. Tudo dá certo no final.
— Que você esteja certa. — Sorri.
— Eu não sou a melhor professora do mundo, mas eu sei das dificuldades que eu tive para aprender, então poder passar essas dificuldades para os outros e inspirar eles, é demais!
— Você é uma brasileira, que fala português, morando em um país que fala inglês e francês, dando aula de italiano... Você é meu deus, ... — Ri.
— Não se esqueça que não falo francês. — Disse.
— Ainda... — Ela disse e ri fracamente.
— Talvez eu nunca aprenda essa, eu não consigo gostar...
— Meu filho também não, acredita? E nascido e criado aqui! — Ri fracamente.
— Eu provavelmente vou gostar dele. — Rimos juntas.
— Falando nisso, que horas são? — Cheguei meu relógio.
— Três e quarenta e cinco. — Falei.
— Ah, meu Deus. Podemos fazer um intervalo? Está na hora da classificatória...
— Hum... Claro! — Não entendi muito, mas estava na casa dela, ela que mandava.
— Sebastien! — Ela chamou o homem que me atendeu anteriormente.
— Sim, senhora. — Ele apareceu rápido.
— Poderia providenciar um café para mim e para a , por favor? — Ela pediu fofa.
— Claro, senhora. Em alguns minutos. — Ele disse. — Ligo a TV para ver o senhor Lance?
— Eu cuido disso, não se preocupe. — Ela disse e ele assentiu com a cabeça.
— Bom, , você vai conhecer meu filho agora. — Ela disse animada. — Metaforicamente, é claro. — Assenti com a cabeça. — Venha, vamos na televisão um pouco. — Ela disse já se levantando e deixei meus materiais à mesa para segui-la. — Fique à vontade.
Ela começou a ligar a grande televisão e se sentou no sofá bege, colocando os pés para cima. Ela procurou o canal de esportes e logo identifiquei a Fórmula Um. Eu não sou a mais conhecedora de Fórmula Um, mas agora eu entendi a classificatória que ela disse. A que definia o grid da corrida de amanhã.
Me sentei no outro sofá, somente cruzando as pernas e observei a televisão. Agora tudo ficou claro! Todas as informações que procurei sobre a família finalmente fizeram sentido. Lawrence Stroll é dono de uma equipe de Fórmula Um e seu filho mais novo, Lance, é piloto da equipe. E eu dou aula para mãe dele! Que louco!
— Ah, ele aí! — Claire disse como a verdadeira mãe orgulhosa.
Olhei para a televisão e uau! O filho dela é realmente bonito! A foto do Wikipedia com certeza está desatualizada. Os cabelos escuros e as grossas sobrancelhas faziam sua pele clara se destacar mais. Os lábios finos e fechados, junto do seu semblante sério, deixavam-no bem gat...
— Você acompanha Fórmula Um, ?
— Oi?! — Virei rapidamente para Claire.
— Fórmula Um, você acompanha?
— Ah, não! — Olhei para a TV, vendo que a imagem mudou para o circuito. — Meu pai e avô assistem, mas confesso que não presto muito atenção... Seu filho corre?
— Ah, o Larry é fogo, viu?! Ele sempre foi ligado em corridas e carros desde que namorávamos. Quando o Lance nasceu, ele logo foi colocando o menino em corridas, equipes juniores, até que ele decidiu começar a investir em equipes, primeiro com a Williams, depois a Force India, até que veio a oportunidade com a Aston Martin e ele como CEO... — Uau. — E o Lance adora...
— Há quanto tempo na F1? — Perguntei.
— Desde 2017, ele recebe muitas críticas, sabe? Dizem que só pilota porque o Larry é dono da equipe, mas ele tem melhorado bastante, poxa... — Ela disse com um verdadeiro aperto no peito. — E tem tudo para o carro ficar melhor ainda ano que vem, estamos esperançosos que venha ao menos uma vitória...
— Ele não ganhou ainda? — Perguntei, tentando tomar cuidado com as palavras.
— Ainda não, mas já tem pole, pódio, estamos esperançosas pela vitória.
— Legal! Então mesmo que digam alguma coisa, ele tem as glórias dele. — Dei um curto sorriso e ela assentiu com a cabeça, em agradecimento. — E ele está em terceiro! — Indiquei a televisão.
— Ah, é só o começo, tem tempo, ele precisa ficar ao menos entre os 10 primeiros. — Ela disse.
— Com licença... — Sebastien apareceu com uma bandeja com muito mais do que só um café e colocou na mesa de centro.
— Obrigada! — Claire disse e dei um aceno de cabeça.
— Quer que eu sirva? — Ele perguntou.
— Não se preocupe. — Falei, deslizando o corpo para frente para pegar o bule. — Posso?
— Por favor. — Claire disse e servi café para as duas, depois coloquei um pouco de leite em cada um.
— Açúcar?
— Para mim não. — Ela disse e lhe entreguei a xícara com o pires. Peguei o meu, colocando duas colheres de açúcar antes de roubar um biscoitinho.
— Deve ser legal, não? — Comentei, puxando minha xícara para mim.
— O quê? — Ela perguntou.
— Sabe... Viajar o mundo. — Indiquei a televisão novamente.
— Ah, é cansativo, viu?! Além da distância, o Lance mora na Suíça para ficar mais fácil. A Europa acaba sendo mais foco para essas coisas, sabe? Então ele fica lá, e o Larry fica muito na Inglaterra, que é a base da equipe. Eles adoram a vida agitada, mas adoram voltar para casa por um tempo. — Assenti com a cabeça. — Eles precisam abrir mão de muitas coisas por isso, cada semana está em um lugar diferente, cuidar bem da saúde... — Ela negou com a cabeça. — Mas se meu menino está feliz, eu também estou. — Assenti com a cabeça.
— Eu sempre quis viajar o mundo, mas imagino que uma vida corrida dessa não seja tão prazeroso.
— Ah, que nada! Tem todas as vantagens, eles possuem uma ótima estrutura em todo lugar, desde moradia até comida, mas....
— Nem tudo que reluz é ouro. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
— Exatamente. Adoro quando o Lance vem e fica um pouco em casa, parece que é criança de novo. — Dei um curto sorriso.
— Parece que está sentindo saudades, Claire. — Falei e ela riu fracamente.
— Ah, estou! Não o vejo desde março quando a temporada começou, mas estou ansiosa pela corrida no Canadá, vai ser no meio de junho e é aqui em Montréal, vou poder passar uma semaninha com ele.
— Que gostoso! — Falei, tomando um gole do café e vi o sobrenome STR em sexto lugar, fora da zona de risco.
Não acompanho Fórmula Um, mas creio que não precisa ser tão expert para entender. A classificatória era dividida em três partes. Nessa primeira parte, Lance acabou se mantendo em sexto lugar. Pilotos como Magnussen, Zhou, Albon, Latifi e Ocon ficaram de fora.
— Ah, que pena, o Estie ficou em último, que droga! — Claire disse.
— Oi? — Virei para ela.
— O Ocon, Esteban, é um grande amigo do Lance. — Ela disse e assenti com a cabeça.
— Ele não teve tempo. — Comentei.
— Algo pode ter acontecido no terceiro treino e ele não conseguiu sair. — Ela disse, pegando seu celular e assenti com a cabeça.
A segunda parte da classificatória começou sem os pilotos anteriores, e voltou com todos eles fazendo voltas rápidas — como o narrador dizia — para ver quem fazia o menor tempo. Lance — ou o filho de Claire — começou mal essa parte, em décimo primeiro, não teve nenhum avanço por quase todo o tempo do relógio, mas em sua última volta ele conseguiu ficar em oitavo.
Ver os pilotos finalizando suas voltas e ver quem ficaria em cima ou embaixo, era realmente empolgante. O tempo finalizado e eles lutando para ver quem ficaria com as últimas vagas.
— Dá um frio na barriga, né?! — Comentei e Claire riu.
— Acho que alguém vai começar a se interessar por Fórmula Um. — Ela disse e ri fracamente.
— Quem sabe? Ainda mais tendo a companhia de quem entenda. — Falei e ela sorriu.
— Ah, é muito gostoso, você vai ver! — Ela disse sorrindo, virando para a televisão novamente. — Vettel em décimo terceiro, coitado... Não está sendo um ano fácil para ele.
— Vettel em Sebastian Vettel? — Perguntei.
— Viu?! Conhece até alguns nomes...
— Tem alguns que é impossível não saber. — Falei rindo.
— Ele é da nossa equipe, boatos que quer se aposentar no fim do ano. É uma pena, ele é uma ótima pessoa e um ótimo piloto, só tem tido azar...
— Não deve ser fácil... — Comentei e ela somente negou com a cabeça.
Além de Vettel em décimo terceiro lugar, Alonso — outro nome que eu conhecia — Russel, Ricciardo e Schumacher, ficaram de fora também.
— Schumacher? — Perguntei confusa para Claire. — Mas ele não...
— Boatos que está vegetando há quase 10 anos. — Ela disse, assentindo com a cabeça. — É o filho dele, Mick, grande amigo do Lance também, mas também não tem tido sorte. — Ela disse.
— Deve ser complicado...
— Ah, bastante. A pessoa pode ser ótima, mas se o carro não está bom, não tem o que faça ser bom... — Assenti com a cabeça. — Esse ano não estamos tão ruins, mas não bons o suficiente para competir por alguma coisa... — Ela disse.
— Sinto muito.
— Sempre tem o próximo ano e sempre tem a próxima corrida. Falo isso para o Lance quando ele está desanimado... — Confirmei com a cabeça.
— Ao menos entre os 10 primeiros ele já está... — Comentei aleatoriamente, para mudar de assunto.
— Sim, ao menos isso! — Ela deu um curto sorriso.
E foi exatamente em décimo lugar que Lance finalizou. Ele até fez algumas voltas que o deixaram em nono e oitavo, mas foi em décimo que ele iria largar amanhã.
— Não é perfeito, mas ele já conseguiu chegar até a Q3, está ótimo. — Claire disse orgulhosa novamente e sorri.
— Sim, ao menos tem 10 atrás dele. — Falei.
— Acompanha a corrida amanhã, . — Ela disse. — Vai ser as 16:30 da tarde. — Ela disse.
— Ah, eu não... Eu acho que só passa na TV a cabo. — Falei.
— Ah, acompanha pelo app. — Ela disse, se levantando. — Espera aí! — Ela falou, sumindo pela sala e ouvi os latidos serem ouvidos novamente.
— Oi, Kenya. — Falei, vendo a bola de pelos tentando subir no sofá. — Por que você quer ser minha amiga, hein?! — Me abaixei para acariciar sua cabeça, mas não sabia se podia colocá-la no sofá. — Eu sou legal, mas se a Claire disse que você odeia mulheres... — Ela latiu mais uma vez, me fazendo rir.
— Aqui, . — Claire me esticou um cartão, estilo de crédito, verde, com o nome Aston Martin escrito. — Nós temos algumas cotas do app da Fórmula Um. Só entrar em F1 TV, aí você raspa as informações e faz login. Pode usar à vontade. — Ela disse.
— Ah, obrigada! Vou acompanhar sim. — Falei sorrindo.
— Vou adorar ter com quem conversar. — Ela disse e assenti com a cabeça.
— Bom... Vamos voltar ao italiano? — Ela bufou alto.
— Vamos! — Ela disse rindo.
— Hoje a gente perdeu um tempinho pela Fórmula Um, mas a gente compensa na semana que vem. — Falei, fechando meu livro.
— Ah, nem se preocupe com isso, ! Eu te tenho toda para mim agora, podemos fazer as coisas com mais calma. — Claire disse, imitando minha ação. — E foi por um pedido meu, você não vai ser prejudicada por isso. — Assenti com a cabeça.
— Agradeço, Claire. — Sorri. — Foi um dia divertido e produtivo, eu diria.
— Foi, eu gostei muito! — Ela disse sorrindo. — Melhor ainda por estar finalmente entendendo o que é a “particella ci e ne”. — Rimos juntas.
— Quando você perceber, não vai parar de usar ele. — Ela disse e abri minha pasta plastificada.
— Você pode fazer essas duas folhas de lição de casa... — Puxei as folhas grampeadas. — E como está o livro? — Perguntei e ela riu fracamente.
— Está indo... — Ela disse. — Por saber a história, fica mais fácil, mas ainda tem muita coisa que eu não conheço.
— Que tal um jogo para semana que vem? De soletração?
— Ah, ! — Ela disse em um gemido, me fazendo rir.
— Vamos! Vai ser legal! — Ela suspirou, jogando a cabeça para trás.
— Ai, vamos! Mas não fica brava se eu não souber, hein?! — Rimos juntas.
— Vai dar tudo certo. — Falei, vendo-a sorrir. — Deixa eu organizar minhas coisas e te deixar à vontade.
— Ah, que nada, menina! Ficar sozinha nessa casa enorme é chato. Minha filha disse que apareceria mais tarde, mas acho que ela esqueceu... — Chequei o relógio e vi que passava das seis da tarde.
— Ela vive aqui?
— Chloe? Mais ou menos. Ela namora um snowboarder, ele vive em competições, então eles sempre estão juntos, mas ela está aqui essa semana. — Ela disse.
— O que ela faz? Pilota também? — Perguntei.
— Ela está tentando fazer a vida de cantora, não é fácil também, mas uma hora sai. — Ela disse e assenti com a cabeça.
— Uma hora sempre sai. — Ouvi uma terceira voz e vários latidos de Kenya que estava quieta no sofá.
— Ah, filha! — Claire disse, abraçando-a e a semelhança entre ambas é incrível. Elas são muito parecidas.
— Oi, mamãe! — Chloe a abraçou animada.
— Que bom te ter aqui. — Guardei minhas coisas delicadamente enquanto elas aproveitavam o abraço.
— Deixa eu te apresentar minha salvadora, filha. — Claire disse. — Essa é , minha professora de italiano.
— Ah, ouvi muito sobre você! — Ela me deu um grande abraço, me fazendo retribuir. — Você está virando uma santa para minha mãe.
— Ah, que isso! Só fazendo o que posso com o que me foi dado. — Falei sorrindo.
— Cada um com seu talento, certo? — Ela disse, me fazendo rir. — A gente nem sempre consegue, mas tentamos sempre. — Sorri.
— Com toda certeza. — Claire disse. — Gostaria de ficar para jantar, ?
— Ah, não, senhora, que isso. Vou deixar vocês aproveitarem. — Falei, guardando o estojo na bolsa. — Aproveite seu momento com ela.
— Que isso! , certo?
— Isso! — Sorri.
— Quanto mais melhor. — Ela disse.
— Ah, não se preocupem, hoje o dia foi cheio, acho que eu preciso de banho e cama...
— Estou tirando todos os horários livres dela... — Claire brincou, me abraçando de lado.
— É por uma boa causa, só quero ver seu sucesso. — Falei e ela assentiu com a cabeça.
— Eu agradeço muito por isso, esse apoio é incrível. — Claire sorriu.
— É mesmo, fazia tempos que minha mãe não se empolgava com alguma coisa, . Vê-la animada assim é demais. — Chloe disse, me fazendo sorrir.
— Que bom, fico feliz! — Sorri, colocando a mochila nas costas. — Nos vemos na semana que vem, então?
— Claro, ! Eu te acompanho... — Claire disse.
— Não se preocupe, aproveite sua filha, eu sei o caminho. — Sorri e ela assentiu com a cabeça.
— Então até semana que vem, ! — Ela me abraçou e sorri, retribuindo fortemente. — Obrigada por mais um dia.
— Que isso. — Falei sorrindo. — Bom te conhecer, Chloe.
— Você também, ! — Ela disse sorrindo e dei um aceno. O latido fino foi ouvido de novo e virei o rosto, vendo Kenya vir em minha direção.
— Kenya, não! — Chloe disse.
— Olha só! — Claire disse e acariciei a cabeça de Kenya quando ela chegou em mim.
— O quê? — Chloe falou surpresa para a mãe.
— Pois é! — Claire disse e ri fracamente.
— Acho que o problema são vocês, meninas. — Brinquei, ouvindo elas rirem.
— Não, não, o problema é definitivamente você! Acredite! — Chloe disse dramática. — Endoidou, Kenya. — Rimos juntos.
— Brinquei que ela deve saber algo que eu não sei. — Falei, ouvindo-a rir.
— Talvez... — Chloe riu.
— Bom, gente, eu estou indo! Tchau e até semana que vem! — Acenei, seguindo para fora da sala.
— Tchau, boa semana! — Claire disse.
— Eu vi o que eu acabei de ver? — Ouvi Chloe comentar.
— Pois é! Estou em choque há cinco horas. — Ela disse e sorri, seguindo pela porta da frente, para o sol se pondo da área rica de Montréal.
— E menos um capítulo... — Falei sozinha, feliz por terminar mais um capítulo da minha história.
Podem falar o que quiser, mas é muito bom poder escrever minha fanfic em paz e ninguém para julgar. É uma ótima forma de distrair e ainda ocupa a cabeça. Especialmente nesses momentos sozinha e de saudades de casa.
Suspirei e vi uma notificação subir no WhatsApp do computador.
“A corrida começa em 10 minutos... Vai ver?” Era uma mensagem de Claire.
Virei o rosto para a televisão, vendo o relógio ao lado dela e ponderei com a cabeça. Apoiei o note no sofá / cama e me levantei dele, indo até minha mochila. Abri alguns bolsos laterais e peguei o cartão que Claire havia me dito, o virei, vendo a área para raspar e peguei a chave para fazer isso, vendo um e-mail e um PIN aparecer, quase como se fosse um cartão de celular.
Voltei para o sofá, colocando o note no colo e digitei “F1 TV” no Google, vendo os resultados e abri o primeiro. Coloquei o login e a senha do cartão, vendo a conta aparecer. Logo apareceu “2022 Grande Prêmio de Miami”. Cliquei na opção em assistir ao vivo, vendo a imagem carregar e mostrar imagens do circuito igual ontem.
— Vamos ver o que é isso. — Falei, vendo as organizações ainda e me levantei novamente.
Peguei um saco de pipoca, colocando no micro-ondas e coloquei três minutos. Fiquei um olho no computador e outro nas minhas coisas e peguei um pote de pipoca e sal, deixando tudo pronto para a pipoca que logo ficou pronta.
Puxei a mesinha para perto do sofá / cama e coloquei o note ali, vendo que a volta de formação estava rolando já. Enchi a mão de pipoca e coloquei na boca, observando as imagens.
Deve ser louco esse mundo de Fórmula Um. Viajar toda semana, estar em um lugar diferente sempre, além de todo o luxo e caos que se misturava. Loucura!
Pelo que os narradores falavam, é a primeira vez que tem essa corrida em Miami, e tinha tudo para ser eletrizante. Ao menos seria uma boa forma para me entrar nesse mundo.
Os carros chegaram no grid, se alinhando em suas posições e vi o carro verde escuro da Aston Martin e do filho de Claire do lado, fora da pista principal. Não entendi o que o narrador falou, mas imagino que fosse alguma punição por algo, especialmente que os dois carros estavam lá.
— E vamos lá! E vai começar o GP de Miami! — O narrador disse animado. — LIGHTS OUT AND WAY WE GO!
— Eu já vi algumas corridas antes, então não sou uma completa tonta sobre o assunto... — Bebi um gole da Coca-Cola gelada.
— É fácil, só a parte de tempo entre os carros, quantas voltas demoram para eles ultrapassarem que me deixa um pouco confusa... — Ela sorriu. — Mas eu gosto.
— É seu filho, Claire. Quem não gostaria?! — Dei de ombros e ela riu.
— Você está certa. — Ela suspirou. — Aí, eu sou uma mãe coruja, .
— Não julgo, se um dia eu tiver filhos, provavelmente serei também. — Ri sozinha. — Ainda mais com as condições que podem oferecer para eles.
— Falando neles, o Lance vai passar essa semana aqui. — Ela disse, se ajeitando na poltrona. — Vamos fazer um churrasco amanhã, por que não vem? O Larry vai estar aqui, a Chloe, seu noivo, aposto que algum dos amigos do Lance...
— Ah, não, Claire, é algo de família...
— Acredite, querida, quando os amigos do Lance estão envolvidos, nada é “de família”. — Ela disse rindo e a acompanhei, suspirando em seguida.
— Sério, eu não quero atrapalhar... — Falei.
— Você não vai. — Ela disse. — Sei que talvez queira um descanso da sua aluna mais necessitada...
— Que isso, Claire, você é ótima. — Ela abanou a mão.
— Mas! — Ela frisou. — Também sei que não tem muitos conhecidos na cidade. E Chloe gostou de você... Vai! Pode ser uma oportunidade para fazer amigos. — Suspirei, pensando na proposta. Não seria nada mal fazer amigos além dos professores da escola e dos alunos que rotacionavam demais.
— Com uma condição! — Falei firme, vendo-a bater palmas, animada. — Duas, na verdade.
— Diga! — Ela disse rindo.
— A primeira é você me garantir que eu não vou atrapalhar. — Falei e ela riu.
— Você não vai! — Ela disse rindo. — Confie em mim. — Suspirei, assentindo com a cabeça.
— Ok.
— E a segunda? — Ela disse e ri.
— Você terminar essa lista de exercícios para amanhã e eu corrigir. — Ela riu fracamente, suspirando.
— Combinado! — Ela sorriu. — Vou terminar logo depois daqui e deixo prontinha para amanhã.
— Vou cobrar, hein?! — Rimos juntas e terminei a Coca-Cola.
— Pode cobrar, promessa é dívida. — Ela riu comigo.
— Combinado! — Fechei minha pasta. — Agora deixa eu ir, que eu preciso passar no mercado. — Falei, colocando tudo na mochila.
— Combinado! — Falei rindo. — A gente se vê amanhã, então.
— Meio-dia, combinado? — Ri fracamente.
— Combinado, Claire. Não vou faltar.
— Eu sei onde você mora, , eu tenho seu contrato. — Rimos juntas.
— Tentarei não dormir tanto. — Ouvi os latidos e Kenya saiu do sofá, vindo para perto de nós novamente. — Te vejo amanhã, sua fofa. — Me abaixei para fazer carinho nela que se aninhou rapidamente ao meu lado.
— Ainda vou entender os motivos de ela gostar de você. — Ela disse.
— Eu já falei, provavelmente ela sabe de algo que eu não sei.
— Bonita do jeito que é, acho muito difícil. — Rimos juntas.
— Nos vemos amanhã?
— Claro! — Ela se levantou.
— Se tiver alguma dúvida, pode me mandar mensagem, ok?!
— Eu te vejo amanhã, posso deixar você descansar ao menos por 18 horas. — Rimos juntas.
— Combinado! Eu peço para o Sebastian abrir para mim. — Coloquei a mochila nas costas. — Até amanhã.
— Até, meu anjo! — Trocamos um rápido beijo. — Se cuida!
— Vocês também! — Acenei e ela acenou enquanto saía da mansão dos Stroll.
A ideia de fugir do almoço com a família Stroll ficou martelando literalmente desde o momento em que eu falei para Claire que eu iria. Não me leve a mal, mas eu não estava muito a fim de fazer parte de um momento tão família quanto o encontro deles. Claire estava tão empolgada com a chegada do filho e eu não queria atrapalhar.
Mas quando eu acordei tarde domingo, já tinha várias mensagens dela perguntando o horário que eu chegaria. Eu só consegui respirar fundo, jogar as pernas para o lado e ir direto para o banho.
Já passava das 11, então eu não tinha muito tempo para me arrumar. Tomei banho, sem lavar os cabelos, escovei os dentes e coloquei uma calça jeans, camiseta tradicional, meu All-Star mais limpo e peguei a jaqueta jeans escura. Penteei os cabelos para fazer um rabo de cavalo alto e firme, e passei um lápis de olho e um batom nude.
Enquanto eu lavava as louças de ontem, procurei sobre os horários do ônibus, mas o mais próximo passaria em meia hora, eu chegaria atrasada, mas não poderia chegar tanto. Pedi um Uber e em 15 minutos eu já estava parando nos portões dos Stroll novamente.
Respirei algumas vezes antes de tocar o interfone. Sabe quando você é a última a chegar na festa? Em que você se sente obrigado a cumprimentar todo mundo? Então, era como eu estava me sentindo. E eu odiava ser a última a chegar em festa!
— Sim? — Ouvi Sebastian.
— Oi, Seb, é a !
— Entre! — Ele disse, liberando minha entrada.
Passei pela fresta quando os portões de metal abriram e andei pelo caminho do carro. Já vi alguns carros distribuídos no gramado. E do outro lado um... Helicóptero? Deus, o que eu estou fazendo aqui?
— Seja bem-vinda, ! — Vi Sebastian na porta e sorri.
— Oi, Seb! Quanto tempo! — Brinquei e ele riu comigo, me cumprimentando com um aceno.
— A senhora é hilária. — Ele disse num tom sério, me fazendo rir. — Venha, vou te levar para o pessoal.
— Seb, poderia me dar uma informação privilegiada? — Perguntei enquanto andava ao seu lado.
— Creio que sim, senhora. O que quer saber? — Ele perguntou.
— Quem tanto está aí?
— A família Stroll completa, o noivo da senhora Chloe, alguns amigos do senhor Lance e alguns colegas de Lawrence. — Respirei fundo. — Senhora Claire está ansiosa em te receber.
— Que bom... — Falei aleatoriamente, não querendo demonstrar meu nervosismo em conhecer várias pessoas novas.
Segui Sebastian pela entrada em que estava acostumada, mas diferente de irmos para a sala aonde eu ia sempre, seguimos pelo outro lado da cozinha, passando por um corredor que parecia de serviço, já que encontrei outros dois funcionários enquanto andava por ali.
Quando saímos pelo outro lado, se abriu um jardim bonito com piscina e algumas mesas espalhadas, e foi lá que eu vi o restante do pessoal. Tentei parecer menos surpresa de quando vi o helicóptero, mas parecia aqueles jardins de filmes, muito verde e muito colorido. Quase como uma Riviera francesa dentro de uma casa.
As mesas estavam num deck com o estilo clássico, depois desciam as escadas para a piscina que ficava coberta pelas árvores, mas não tinha nenhuma folha dentro dela. É assim que vive a outra metade do mundo.
— Senhora Claire! — Sebastian chamou atenção de Claire que falava com Chloe e arregalei os olhos. Não tinha dado tempo de eu analisar o território.
— Ah, ! — Claire se levantou de onde estava e vi os olhares virarem para mim.
Vai, . Simpática! Você é professora e troca de alunos quase toda semana. Vamos!
Segui por entre o jardim, até encontrar Claire nos primeiros degraus do deck, sentindo-a me abraçar fortemente.
— Que bom que não fugiu! — Ela disse próximo ao meu ouvido.
— Desculpe, eu dormi demais. — Falei e ela riu.
— Não se preocupe, você merece descansar. — Assenti com a cabeça. — Venha, venha conhecer o restante do pessoal. — Ela me abraçou pelos ombros, me puxando escada acima e Chloe já estava lá.
— Oi, . — Ela disse animada.
— Oi, Chloe! — Nos abraçamos rapidamente.
— Que bom te ver novamente! — Ela disse sorridente.
— Bom te ver também!
— Venha! — Ela disse.
Claire me puxou à frente e fui com ela, vendo-a se aproximar de três homens mais velhos. O mais velho identifiquei ser Lawrence, de várias fotos que eu já havia visto, agora os outros dois deveriam ser seus colegas.
— Larry! — Claire o chamou e ele se levantou, dando alguns passos até ela. — Gostaria de te apresentar a , ela é quem está me ajudando com o italiano.
— Ah, olá, ! Prazer em te conhecer. — Ele disse em um forte sotaque canadense, enquanto esticava a mão.
— O prazer é meu! — Seu aperto de mão era forte, mas ele tinha um sorriso amigável.
— Claire disse que é brasileira. Acabou gostando daqui de Montréal? — Ele perguntou.
— Sim! Eu vim para fazer um curso, acabaram me contratando e eu fiquei... — Sorri.
— Espero que essa cidade esteja te recepcionando bem.
— Sim, está, agradeço muito. — Sorri.
— O que precisar, , pode contar conosco. Claire gosta muito de você! — Assenti com a cabeça.
— Pode deixar! Agradeço muito! — Ele assentiu com a cabeça.
— Venha! — Claire me puxou pelo braço e imaginei que os outros dois não eram nada relevantes. Claire me levou mais para perto da piscina, onde tinha cinco homens, incluindo seu filho, em que evitei regalar os olhos. Ele ficava mais bonito sorrindo.
— Filho! — Claire o chamou e ele segurava Kenya em seu colo.
— Ei, mãe! — Ele se aproximou alguns passos.
— Quero te apresentar minha salvadora.
— A famosa ! — Ele disse e ri fracamente.
— Estou com fama demais para o meu gosto. — Brinquei e rimos juntos.
— Eu sou Lance, . — Ele disse.
— Prazer em te conhecer, sua mãe também disse muito sobre você. — Ele ponderou com a cabeça.
— Medo do que ela disse. — Rimos.
— Só coisas boas! — Falei. — E parabéns pela carreira, estou acompanhando um pouco por causa dela agora.
— Ah, finalmente alguém que não é viciado em Fórmula Um. — Ele disse rindo, então não soube dizer se era brincadeira ou para valer.
— Ainda. Eu não consigo gostar de nada na superfície. — Ele riu.
— Droga! Durou pouco. — Ri e ouvi o latido de Kenya.
— Oi, sua chata. Não estou te ignorando. — Falei para ela.
— Desculpe, , ela é chata... — Lance disse.
— Não comigo.
— Não com ela. — Claire disse comigo.
— Sério? — Lance achou estranho e levei a mão até a cabeça de Kenya, acariciando devagar, vendo-a tentar se aninhar.
— Viu?! — Falei.
— Estranho! — Lance disse.
— Já me disseram. — Rimos juntos. — Ela sabe de algo que eu não sei. — Cochichei, vendo-o abrir um sorriso.
— Espero que não. — Ele disse, entendendo a piada e sorri.
— Bem, , aqueles são Stephan, Donato, Kimon e David, amigos de infância do Lance. — Os quatro ergueram as mãos e fiz o mesmo em um aceno.
— Oi! — Sorri.
— Agora que todos se conheceram, vou pedir para Nicka servir o almoço. — Claire disse. — Ah, , esqueci de te falar, comemos kosher, tudo bem para você? — Ponderei com a cabeça.
— Eu não sei o que é exatamente, mas eu como de tudo. — Falei.
— A refeição kosher segue alguns princípios do judaísmo. — Lance cochichou para mim. — Alimentos permitidos ou não, combinações, forma de preparo, ocasião de consumo, até modo de abate de animais... — Assenti com a cabeça. — Mas o principal é não misturar carne e leite na mesma refeição...
— Ah, creio que já ouvi falar. — Assenti com a cabeça.
— Hoje é peixe assado. — Ele sussurrou.
— Está seguro, então. — Falei rindo.
— Venha! — Ele indicou com a cabeça, colocando Kenya no chão que já queria se aninhar em meus pés.
Me sentei entre Chloe e um dos amigos de Lance, Kinon, Kibon? Não sei. A comida servida era salmão assado e o outro era quase da mesma cor, mas menor, poderia ser truta. A comida visualmente era simples. O salmão estava em uma cama de limão e tinha tomilho em cima. Agora o outro estava em uma cama de tomates e azeitonas. Fora isso, tinha várias opções de saladas cruas e cozidas, inclusive uma caponata de berinjela que estava sorrindo para mim, carpaccio de peixes e alguns bolinhos com um molho levemente amarelado, imaginei ser falafel com homus, mas só por já ter comido vários aqui no Canadá.
Apesar de estar na família dos “donos” de Montréal, era um verdadeiro jantar em família. Lance, seus amigos e o noivo de Chloe, além do próprio Lawrence, eram como quaisquer homens quando se juntavam. Os colegas de Lawrence foram embora assim que o almoço foi servido, então eu era realmente a única de fora do grupo.
Os assuntos passaram de piadas, viagens, carros, passando bem rapidamente pelo trabalho de corredor de Fórmula Um quando Claire perguntou um pouco em particular para Lance, mas no geral eram só familiares conversando. E a comida! Hum, que coisa deliciosa.
Não descobri muito o que os amigos de Lance faziam, mas acho que a maioria trabalhava em trabalhos convencionais em Montréal mesmo. Scotty era um snowboarder profissional, ele até tinha jeito de quem não parou de usar as roupas de skatista do ensino médio, agora Chloe tentava a sorte como cantora.
Na hora da sobremesa, enquanto comia as tortinhas de amora-limão e as peras escaldadas com calda de laranja, eu me senti até confortável em deslizar o corpo um pouco na poltrona e só aproveitar a companhia. Os observando, eu senti falta da minha família.
— Gostou da comida, ? — Saí de meus devaneios, olhando para Claire.
— Sim, estavam deliciosas. — Falei em um sorriso, sentindo que a atenção tinha sido voltada para mim.
— Então, , há quanto tempo está no Canadá? — Virei para o lado, notando que a pergunta veio de Lance.
— Quase um ano. — Falei.
— Minha mãe disse que você decidiu ficar... — Assenti com a cabeça.
— É... Foi um misto de coisas, vim passar três meses, mas a escola me ofereceu um emprego, então eu acabei ficando...
— E acabou se adaptando?
— Eu odeio o frio. — Ele riu fracamente. — Mas fora isso, eu gosto da cidade, o pessoal me recepcionou bem...
— Talvez você só não tenha tido experiências boas no frio... Certo, Chloe? — Lance virou para irmã que riu.
— Não começa, Lance! Ela odeia frio. Ela não vai querer esquiar em dezembro! — Chloe disse, fazendo todos rirem.
— Espera... Se você odeia o frio... — Um dos amigos do Lance perguntou. — Por que sair do Brasil... Brasil, certo? — Assenti com a cabeça. — E vir para o Canadá? — Ri fracamente.
— Eu queria uma experiência internacional, e estava na hora de sair da casa da minha mãe, então vir para o Canadá foi a escolha mais barata... — Dei de ombros. — Eu queria ir para Itália, mas...
— Você ainda vai realizar seus sonhos, querida. — Claire falou do outro lado da mesa e assenti com a cabeça. — E vai colocar todos os italianos no chinelo. Ela fala melhor do que eles, Larry. — Ela cutucou o ex-marido e sorri.
— É... Eu espero por isso... — Dei um curto sorriso.
— Claire tem falado muito bem de você, . — Larry disse e sorri.
— Eu preciso de alguma companhia, né?! — Claire cutucou Lawrence, se levantando da mesa, o que causou uma debandada dos amigos de Lance.
— Então, quem quer ir para a piscina? — Arregalei os olhos. Não estava frio para que eu colocasse a jaqueta, mas aposto que a água não estaria quente.
— Nada de ir para água depois de comer. — Claire falou séria.
— Ei, , se aproxime-se! — Chloe falou na beira da piscina — que descobri ser aquecida — e onde os Lance e seus amigos faziam um tipo de polo aquático. A visão era boa, pelo menos.
Me levantei da mesa, onde eu ainda estava, somente com Lawrence e Claire conversando na outra ponta. Quem olhava para os dois assim, poderia jurar que eles estavam juntos ainda como um feliz casal. Fui até Chloe, me sentando na beirada da piscina, mantendo as pernas dobradas.
— Não se isole. — Ela disse e ri fracamente.
— Só aproveitando o momento. Aqui é bem gostoso. — Chloe sorriu.
— É, certo? Eu tenho um apartamento em Laval com o Scotty, mas eu gosto muito daqui.
— Nem parece que está no caos de Montréal, né?! — Comentei e ela assentiu com a cabeça.
— E você? Onde você mora aqui?
— Eu vivo em Petite-Bourgogne... Desculpe meu francês, não é um idioma que eu domino. — Falei e ela riu.
— Acredite, eu também não. — Ela disse rindo. — Devido as viagens dos meus pais, acabamos sendo criados mais no inglês. — Ela deu de ombros. — Minhas notas do francês sempre ficavam em C— ou C+. — Ri com ela.
— Eu nunca gostei muito do idioma, e acabei caindo na área do Canadá que fala francês. — Ouvi algumas risadas mais do que Chloe e vi Lance se aproximar pela piscina.
— Você acaba gostando... Ou suportando. — Ri, concordando com ele.
— Suportar! Essa é a palavra! — Levantei o indicador e eles riram.
— Bem, as pessoas odeiam quando eu dou entrevistas em francês, só sai palavrão... — Eles riram.
— Pardon pour mon français. — Falei e ele riu.
— É isso aí.
— Ei, amor! Pega uma toalha para mim? — Scotty pediu para Chloe que se levantou do meu lado.
— Vamos fazer uma partida de futebol depois, quer participar? — Lance ofereceu.
— Chloe vai participar? — Perguntei.
— Só quando os porcos voarem. — Ele disse, me fazendo rir.
— Seis homens e eu? Acho que eu passo! — Brinquei, vendo-o rir.
— Mas você gosta, certo? Futebol? Brasil? — Ele perguntou.
— Sim, eu adoro! Uma das minhas paixões pela Itália é devido ao futebol. — Sorri.
— Sério? Demais! — Ele abriu um bonito sorriso.
— É... Acho que minha professora não aguentava mais ouvir eu falar de Juventus... — Ele riu.
— Soccer? — Ele perguntou e virei para ele.
— Ah, não! — Tombei a cabeça para trás. — Você está falando de american football?
— Football! — Ele disse firme.
— Não! Football é jogado com os pés. — Ele riu comigo.
— Isso é soccer! — Ele disse firme.
— Ah, não! Achei que só os americanos falassem assim. — Tombei a cabeça para trás.
— É football e não se fala mais isso. — Ele disse.
— Não! Nem vem! — Rimos juntos. — Football, pé, bola. Soccer vem de meiões, qual o sentido?
— O que você usa para proteger a canela? — Ele perguntou ironicamente, fingindo seriedade.
— Caneleira! — Falei, fazendo-o rir.
— Quem é seu jogador favorito de soccer? — Ele perguntou.
— Meu jogador favorito de football é o Buffon da Itália. — Falei, vendo-o sorrir.
— Não é o melhor goleiro do mundo.
— Retire o que disse! — Falei rindo de nervoso.
— Não! Por acaso ele tem uma Champions? — Ele disse, me fazendo negar com a cabeça.
— Isso não quer dizer nada. — Falei.
— Ah, quer! Totalmente! — Ele disse rindo.
— Quem é o melhor goleiro do mundo para você? — Perguntei.
— Neuer, com toda certeza. — Ele disse e fingi vomitar, colocando a língua para fora e ele riu. — O melhor.
— E eu ia torcer por você, Lancelot. — Falei, fazendo-o rir.
— É só Lance. — Ele disse.
— Lancelot é mais legal. — Fiz um pequeno bico e ele riu.
— Eu deixo você me chamar assim. — Ele disse e dei um curto sorriso, vendo-o retribuir.
O tal jogo de futebol que eles falaram, era o american football. E não, eu realmente não queria participar disso. A cada dois minutos, Claire gritava para eles tomarem cuidado, já que um derrubava o outro, ou os barulhos dos encontrões eram mais altos do que o esperado. Lawrence por outro lado, só gritava para Lance e Scotty, já que ambos tinham competições vindo por aí. Eu acabei ficando próxima à mesa novamente, somente observando.
— ! — Virei para o lado, vendo Claire aparecer com algumas folhas. — Olhe o que eu fiz!
— Ah, os exercícios! — Virei o corpo na cadeira.
— Eu fiquei a noite toda estudando ontem... — Ri fracamente.
— Fico feliz pela insistência, mas você precisa aproveitar seu dia, Claire. Seus filhos estão aqui!
— Xí! — Ela disse, abanando a mão. — Eu fico feliz por vê-los, eles pegam qualquer oportunidade para ficar com os amigos. — Ri fracamente.
— Ah, Claire. — Neguei com a cabeça. — Deixa eu pegar uma caneta que eu já vejo agora.
— Não, aproveite!
— Deixa disso! Faço isso em dois minutos! — Me levantei, seguindo para área interna da casa, abrindo minha bolsa que estava em cima de um banco e peguei meu estojo, voltando para a larga mesa montada do lado de fora.
Claire falava algo com Chloe, então me sentei à mesa novamente e peguei os exercícios de Claire, colocando vários corretos seguidos ou corrigindo poucas doppias erradas. Não julgo, a letra dupla do italiano sempre me pegou.
— Achei que domingos fossem para descansar. — Virei para o lado, vendo Lance parado ao meu lado, se enxugando com uma toalha.
— Você trabalha aos domingos. — Falei e ele riu, puxando a cadeira ao meu lado.
— Touché! Você não deixa passar uma, né?! — Ri.
— Eu não aceito perder sem lutar. — Dei de ombros.
— Ah, imagina você em um carro de Fórmula Um. — Ele riu, apoiando a toalha na mesa.
— Melhor não... — Ele riu.
— Não gosta de velocidade?
— Só de assistir. — Dei de ombros. — Gosto de ser uma lesminha para dirigir... — Ele riu.
— Depois de andar rápido sempre, a gente acaba preferindo algo mais lento também. — Assenti com a cabeça.
— Mas parece legal! Confesso que nunca tinha acompanhado de verdade antes de semana passada. — Fiz uma careta.
— Sério? Você é brasileira, Senna...
— Eu conheço Senna, e admiro muito sua história, mas eu nasci pouco depois de ele morrer, não acompanhei sua carreira. — Ele ponderou com a cabeça.
— Faz sentido. Qual sua idade? Se eu puder perguntar.
— 29. — Falei e ele assentiu com a cabeça.
— Gosta de mais novos? — Ele disse e senti meu rosto esquentar, me fazendo rir.
— Você diz que meu jogador favorito é ruim, depois flerta comigo? — Ele riu.
— Estou indo bem?
— Nem um pouco. — Rimos juntos.
— Eu vou melhorar... — Assenti com a cabeça. — Você estava dizendo sobre Fórmula Um...
— Certo! Eu nunca acompanhei 100%, meu pai e avô deixavam a TV ligada no domingo, então a gente acabava assistindo, mas torcer por alguém faz toda diferença.
— Para quem você está torcendo? — Virei para ele.
— Se não for para você, sua mãe me demite! — Rimos juntos.
— E como ela está indo? — Ele indicou o papel.
— Muito bem... — Lhe estendi a primeira folha. — Quase sem erros. — Suspirei. — Ela é esforçada, ela realmente quer isso...
— Eu sei... Fico feliz de ela ter te encontrado, ela está aprendendo e ficando um pouco mais relaxada, porque com os acionistas da empresa... — Ele negou com a cabeça.
— É... Tive uma experiência com eles... — Arregalei os olhos e ele sorriu.
— E você? Seu sonho é Itália? Por quê? — Suspirei.
— Ao contrário de Fórmula Um, sou muito apegada ao futebol, então o amor acabou crescendo por isso. — Dei de ombros. — Apesar dos meus ídolos já terem quase todos se aposentado ou saído do meu time, quero muito ir, ver um jogo, curtir a cultura, comer a pizza... — Ele assentiu com a cabeça.
— A pizza italiana é a melhor do mundo. — Sorri.
— Eu imagino. — Suspirei. — Não penso em morar lá, me satisfaria só com uma viagem calma, sem pressa, para realmente curtir a cultura.
— Quão perto está de realizar? — Ele perguntou e ponderei com a cabeça.
— Por causa da sua mãe... Mais perto. — Ele assentiu com a cabeça.
— Bom saber. — Ele deu um sorriso.
— VAMOS, LANCE! — Viramos o rosto para o campinho, vendo um dos amigos chamá-lo.
— Vai lá, trabalho chama! — Falei e ele riu.
— Você também! — Ele indicou enquanto se levantava.
— Alguns mais legais do que outros. — Falei.
— Vamos trocar, eu corrijo as tarefas e você enfrenta a imprensa... — Ele disse.
— Eu sou boa em falar. — Falei e ele riu.
— Eu sou péssimo em italiano. — Sorri.
— Melhor cada um ficar no que sabe fazer melhor. — Disse e ele assentiu com a cabeça. — Mas também posso te ensinar...
— É, quem sabe? — Ele sorriu e se virou. — Hum, ...
— Sim?! — Virei para ele.
— Minha vida é um pouco louca, semana que vem estarei na Espanha, depois em Mônaco e Baku, e devo voltar para o Canadá só daqui um mês, mas... Poderia me dar seu número? — Sorri. — Assim, se você gostar de novinhos... — Ri fracamente.
— Por que não? — Dei de ombros, escondendo um sorriso no rosto.
Virei as folhas de Claire e rasguei o rodapé de uma delas, anotando meu número e entreguei a ele. Um sorriso dançava em seus lábios, me fazendo corar cada vez mais.
— Não guarda no bolso... Suor mancha tinta. — Ele riu.
— Vou guardar em um lugar bem seguro. — Ele disse, me fazendo sorrir.
— VAMOS, LANCE! CHEGA DE NAMORAR! — Outro amigo gritou, nos fazendo rir.
— Inconveniência... — Lance ralhou, revirando os olhos.
— Não, não, Lance... Isso são amigos! — Falei e ele assentiu com a cabeça.
— Bom ponto. — Ele disse e se afastou de volta para o campinho.
Ouvi um latido alto e vi Kenya correndo em minha direção. Sorri, me abaixando para pegá-la e fiz um carinho em sua cabeça. Ela tentou me escalar e ri fracamente, vendo-a tentar me lamber.
— O que você sabe, hein?! O que sabe? — Falei, tentando me esquivar dela.
Joguei as pernas para fora da cama, coçando os olhos e tirando os cabelos armados do rosto. Peguei o celular, ligando o Wi-Fi e esperei as notificações carregarem, como eu fazia todas as manhãs. Não demorou cinco segundos para um sorriso aparecer em meu rosto, tinha mensagem de Lance. Da mesma forma que tinha quando fui dormir ontem à noite.
“Bom dia! Você sabe o quão difícil é dar entrevistas depois de ter dormido somente quatro horas essa noite? Você gostaria daqui, o tempo está bom. Tenha um ótimo dia, !”.
Suspirei, fazendo as contas e era uma da tarde para ele. Fazia duas semanas que estávamos conversando todos os dias por WhatsApp, de manhã até tarde da noite. Os únicos momentos que não conversávamos era quando ele estava em seus compromissos e na fábrica da Aston Martin, ou quando eu estava nas minhas aulas. Mas ele acabava se dando pior do que eu. Ele sempre estava fusos à frente, então enquanto eu dormia as dez da noite, ele dormia as quatro da manhã.
“Bom dia, Lancelot! Acordando agora, inveja das minhas nove horas de sono? Hahahah! Imagino que Mônaco deva ser um lugar lindíssimo. Hoje é quinta, dia cheio, mas tem café na escola, dia de comer bannock e buttertarts*! Tenha um lindo dia e não vá levar multa de velocidade!”
Fui para o banheiro saltitante e respirei fundo. As coisas mudaram muito rápido nessas duas semanas. Eu não sei explicar, mas é uma situação que eu nunca tinha passado antes. Os papos começavam, a gente trocava meia dúzia de palavras e era isso. Agora com Lance o papo simplesmente não acabava. Era como se uma chave tivesse virado na minha cabeça e eu não conseguisse mais parar de pensar nele.
E quando ele perguntou se eu gostava de “novinhos”, minha cabeça imediatamente foi para “não”.
Que loucura! Eu sempre procurei por homens mais velhos do que eu, agora estava caidinha por alguém seis anos mais novo do que eu... E eu quero saber muito o que isso vai dar. Ele ainda tinha uns 20 dias para voltar para Montréal, e eu ansiava cada minuto por isso.
Deus! O que está acontecendo comigo?
Me arrumei para ir para a escola da mesma forma de sempre, somente pulando o café da manhã de hoje. Todas as quintas-feiras tinha uma confraternização na escola, já que muitos alunos finalizavam seus cursos na sexta e terminavam seus intercâmbios. Eu não perderia nenhum aluno, nem com a turma da manhã e nem da tarde, mas eu adorava me esbaldar.
Fiquei de olho no WhatsApp enquanto eu finalizava, vendo outra mensagem aparecer de Lance.
“Há, há, há, muito engraçadinha você! Ainda me faz vontade com bannock e buttertarts, que ultraje!” Ri fracamente, jogando a mochila nas costas e respondi enquanto descia as escadas do prédio de dois andares.
“Eu ainda não te fiz vontade, mas logo estou na escola e faço com todo prazer. Mas aposto que tem algo mais gostoso para comer em Mônaco do que buttertarts, vai!”
“Bem... Eu não sou o maior fã de comida francesa, mas o melhor sorvete que eu tomei na vida vem daqui.” — Sorri, puxando a porta para sair para a rua e tomando cuidado para não ser atropelada por nenhuma bicicleta.
“Melhor do que Itália?” — Desviei o olhar do celular para ver se o ônibus não estava aparecendo no final da rua.
“Não dá para generalizar, mas das minhas experiências, sim...” — Sorri.
“Ah, meu sonho tomar um gelato e falar que o de Mônaco é melhor, hahaha.”
“Você vai, , tenho certeza.” — Dei um sorriso, parando embaixo do ponto de ônibus, me escondendo atrás de duas adolescentes que sempre paravam na frente de uma.
Mordisquei o lábio inferior, suspirando e peguei o bilhete do ônibus no bolso externo da mochila. Apesar da constante vontade de responder Lance, mudei de conversa, mandando a mensagem tradicional de bom dia para minha família no Brasil, já vendo a mensagem de minha mãe ali.
“Bom dia, meu amor. Hoje acordou chovendo muito forte aqui, decidi não ir à academia, está com vários pontos de alagamento na cidade. Tomara que dê para ir ao aniversário da Cida mais tarde. Tenha um lindo dia”.
“Bom dia, mãe! Aqui está um pouquinho mais gelado, estou indo de ônibus porque choveu ontem à noite. Nada alagado, mas o tempo gelado não colabora com a respiração. Nada de aniversário se o tempo estiver ruim. Não inventa moda! Amo vocês!”
Ouvi o barulho do ônibus e me coloquei na curta fila para conseguir lugar. Esse é o mesmo ônibus que para em uma escola de ensino médio há alguns quarteirões daqui, então ele já chega cheio, mas esvazia antes de chegar na ponte.
Me ajeitei em um canto perto de uns adolescentes e peguei o celular novamente, mudando para a conversa de Lance novamente.
“Depois de comer gelatos em Mônaco, o que se faz aí?” — Enviei, esperando retorno.
“Depende do seu estilo, festas é o que não falta, pode tentar a sorte em alguns casinos também”. — Sorri.
“Já vi que Mônaco não é para as caseiras!”
“Nesse caso, eu gosto de observar a cidade do topo dos morros ou do iate mesmo. Dá uma sensação de paz”.
“Ai complicou, não sou esportista e nem tenho um iate”. — Brinquei, vendo um assento esvaziar, mas vi que era vago por uma senhora.
“Talvez eu possa te ajudar com os dois...” — Sorri.
“Vou comprar minha passagem para Mônaco agora, então”. — Respondi rindo.
“Eu te pego na estação!” — Ele disse e suspirei.
“Quem sabe um dia?” — Enviei alguns emojis de coração junto. — “Nunca pensei nessa possibilidade, ir para Mônaco me parece irreal”.
“Não é, é um lugar como todos, cheio de turistas, coisas caras, acessíveis e bastantes pontos turísticos... Só é mais fácil encontrar carros de luxo”. — Dei um curto sorriso.
“Se tiver ônibus, eu estou feita!” — Me esgueirei para um assento quando os alunos desocuparam o ônibus.
“Tem... Mas você não vai precisar dele”. — Sorri, mordiscando o lábio inferior.
“Talvez um dia...” — Suspirei, emendando outro assunto. — “Sem reuniões hoje?”
“Em breve, Mônaco é um pouco mais caótico”.
“Estou perto da escola, logo começa o meu caos”. — Respondi.
“Aceito o café da manhã caótico daí”. — Ri fracamente.
“Aposto que encontra melhores aí em Mônaco”. — Respondi.
“Não com você”. — Sorri, mordiscando o lábio inferior.
“É... Não... Isso é exclusivo daqui”. — Respondi.
“É a melhor parte!” — Ele respondeu, me fazendo suspirar.
*Bannock e buttertarts: São duas comidas típicas canadenses. Bannock parece um salgado e buttertarts empadinhas com recheios doces.
“Fique com inveja!” — Enviei para Lance junto da foto da mesa de comidas na escola e vi que só deu um tique. Ele deveria estar em reunião.
— Uh, quem é?! — Me assustei, me virando para o lado e encontrei Carly ali.
— Ei, Carly! — Falei, bloqueando o celular rapidamente.
— É aquela cara ainda? — Ela perguntou.
— Que cara? — Franzi a testa, não tinha falado sobre Lance para ninguém. Por vários motivos: primeiro que eu ainda tinha receio de isso não dar certo, fazendo com que minha ansiedade atacasse um pouco; segundo que ele é Lance Stroll, além de ser piloto de Fórmula Um, sua família é dona de Montréal; e terceiro que... Voltamos para o primeiro motivo, minha ansiedade atacava de vez em quando só de pensar que tudo podia passar de uma brincadeira.
— O do Tinder! — Ela disse.
— Ah, não... — Ri fracamente. — Não deu certo... Eu conheci alguém e estamos conversando...
— Em MTL? — Ela usou o apelido da cidade.
— Sim... Eu estava... — Travei um pouco. — Ah, certo! — Fingi lembrar. — Estava saindo do trabalho lá com Claire Stroll. — Falei. — Ele trabalha na empresa.
— Uh! Parece bom, então! — Ela disse.
— Parece promissor, mas muitos parecem, não? — Falei.
— Ai, , um pouco de ânimo. — Ela disse.
— Eu estou animada! — Falei, rindo. — Mas também não quero parecer mu-u-u-uito animada e não dar nada como das outras vezes.
— Às vezes só precisa de uma vez para dar certo. — Ela disse e assenti com a cabeça.
— É... Talvez você esteja certa. — Suspirei, vendo-a piscar e neguei com a cabeça.
Peguei o celular novamente, desbloqueando e reduzindo a iluminação quase a zero, mas não tinha resposta de Lance ainda. Me desviei de alguns alunos, dando bom dia e tirei algumas moedas do bolso. Contei 60 centavos e coloquei na máquina, selecionando capuccino. Esperei a máquina fazer seu trabalho e tirei a bebida quente dali de dentro.
Passei pela mesa novamente, pegando mais um bannock e coloquei-o na boca antes de entrar na minha sala. Me sentei à mesa, apoiando o café e vi a sala vazia. Peguei o celular novamente, vendo a notificação que me fazia sorrir há duas semanas e deslizei para ver que era Lance.
“Não é só você que faz inveja!” — E uma foto junto.
Desbloqueei o celular, abrindo a conversa e era uma selfie dele segurando uma casquinha, um sorriso largo sem mostrar os dentes e a boca suja de algum sorvete branco, neguei com a cabeça, colocando os dedos para digitar.
“Você está só se complicando. Eu posso te levar para comer bannocks quando você quiser. E o contrário?” — Enviei.
“Eu posso te trazer para cá também... É só você deixar”. — Suspirei, dando um curto sorriso. Isso fazia meu coração palpitar, não poderia ser só empolgação.
“Um dia eu vou gostar... mas aposto que tem cooler em Mônaco”. — Escrevi, rindo comigo mesma.
“Ter, até tem, mas ainda temos Baku antes de eu voltar, não acho que vá sobreviver até lá...” — Sorri.
“Achei que você tinha me dito que precisava de uma dieta perfeita!”
“Ah, temos! Kakaka! Mas também podemos perder de três a seis quilos por corrida. Te garanto que perco rapidinho! — Ri fracamente.
“Que sonho! Acho que eu preciso de umas duas ou três corridas para ficar em forma!” — Ri sozinha, apesar de ser verdade.
“Você é perfeita do jeito que é!” — Ele escreveu e meu peito palpitou, me fazendo suspirar.
“Você me deixa encabulada assim...” — Escrevi.
“Bom!” Foi sua resposta, me fazendo suspirar.
Bom, agora ele sabe o efeito que tem sobre mim...
Droga!
— Teacher? — Virei o rosto, vendo a aluna espanhola ali.
— Oi, Majo! Posso te ajudar?
— Sim, queria tirar uma dúvida, posso voltar depois se preferir...
— Não, não! Puxa uma cadeira e venha! Qual a dúvida? — Falei, bloqueando o celular, ansiando nossa próxima interação.
Cheguei na casa de Claire como todo sábado, mas dessa vez eu estava acompanhada de um lindo sol! Dei a liberdade de colocar short, uma camiseta regata e uma rasteirinha. Espero que Claire não se importe. Antes de tocar a campainha, como todo sábado, dei uma olhada no celular novamente.
“Não tem o que falar, , o dia foi péssimo. Pior que em Mônaco a gente sabe que a corrida vai ser tão ruim quanto”.
“Tente se distrair um pouco, aposto que isso não falta em Mônaco. Acabei de chegar na casa da sua mãe, devo sumir um pouco”. — Enviei de volta.
“Baladas é o que não falta, mas não estou com pique para isso. Yey! Passatempo favorito da dona Claire!” — Sorri.
“Achei que fosse mais animado, Lancelot”. — Enviei.
“Eu até sou... No tempo certo e com a companhia certa...” — Suspirei, mordiscando meu lábio inferior.
“Está dizendo que eu sou a companhia certa?” — Engoli em seco.
“Não poderia ser mais claro do que isso”. — Ele disse e suspirei, checando o relógio.
“Eu tenho que ir... Nos falamos depois?” — Perguntei, mordiscando o lábio inferior.
“Levando em conta que sua aula com minha mãe dura umas quatro, cinco horas, talvez eu aproveite esse tempo para dormir mais cedo hoje. Vou fugir de você!” — Ri fracamente.
“Você deveria fazer isso. Amanhã o dia é cheio!” — Suspirei.
“É... Talvez eu faça...” — Esperei mais resposta, mas não veio.
“Se você for, tenha uma boa noite, Lancelot”. — Suspirei.
“Você também, ”. — Bloqueei o celular, apertando o botão da campainha.
— Bem-vinda, senhora ! — Me assustei com a rápida resposta de Sebastian.
— Ei! Você está... — Me calei quando os portões se abriram e olhei o relógio, vendo que passava uns três minutos das duas da tarde. Será que ele me esperava?
Fiz o caminho de sempre para dentro da mansão dos Stroll, encontrando Sebastian na porta com seu semblante sério de sempre. Ele me parecia alguém... Só não conseguia perceber quem... Um dia vai vir.
— Boa tarde, Sebastian! — Falei animada como sempre.
— Boa tarde, senhorita ! — Ele disse, sério.
— Você estava me esperando? — Perguntei.
— O celular me parece uma ferramenta bem empolgante, senhorita. — Ele disse, dando a volta para dentro da casa e mordisquei meu lábio inferior.
O segui em silêncio, fazendo o mesmo caminho que eu estava acostumada a fazer todos os sábados. Ouvi alguns burburinhos antes mesmo de chegar à sala onde eu e Claire fazíamos as aulas. Lá encontrei-a com Chloe, além de uma terceira mulher, todas sentadas à mesa, claramente almoçando ainda.
— Acho que cheguei cedo! — Comentei.
— ! Que surpresa! Não, que isso, nós que nos atrasamos mesmo! — Claire limpou sua boca antes de se levantar.
— Posso esperar se quiser...
— Não, não, por favor, venha! — Ela me encontrou, enquanto ia em sua direção e trocamos um rápido abraço. — Como foi sua semana? Tudo bem?
— Sim, feliz porque o calor voltou! — Sorri, seguindo-a e Chloe também já estava em pé.
— Ah, nem fala! Está perfeito! Espero que continue assim até outubro agora! — Ela disse, me fazendo rir, pois sabia que não era be-e-e-em assim que funcionava esse país, mas sorri.
— Oi, ! — Chloe disse, me abraçando e eu retribuí.
— Oi, Chloe, tudo bem? — Ela sorriu.
— Tudo ótimo! Adorei seu cabelo! — Ela disse e sorri, colocando uma mecha solta atrás da orelha.
— Obrigada. — Falei, me distraindo para a terceira mulher.
— , essa é Beatrice, ela é assistente de marketing da empresa, ela ficou sabendo que ainda estávamos tendo aula e perguntou se podia participar. — Claire disse.
— Claro! — Falei animada, vendo que mais alguém havia se interessado. — Você já tem algum conhecimento?
— Pouquíssimo. — Ela disse, se levantando e trocamos dois rápidos beijos. — Meu avô é italiano, então ele fala um pouco em casa, mas nada o suficiente para que eu pegue.
— Não sei se tem algo que possamos fazer. — Claire disse.
— Será um pouco mais complicado, mas não é impossível. — Falei, tirando a mochila das costas e apoiei na cadeira mais perto. — Será quase como nivelar uma sala de aula, eu dedico uns minutos para cada uma de vocês, enquanto passo teoria para uma, a outra faz exercícios e vice-versa! Se tiver tudo bem para você, Claire.
— Claro! Nossa, o que eu mais quero é isso! Você sabe, , isso é muito importante para mim! Esse projeto é muito importante para mim. — Assenti com a cabeça.
— Vai dar tudo certo, Claire! Confie em si mesma! — Falei, vendo-a sorrir.
— Bom, me dá dois minutinhos, , já estou finalizando. — Ela disse.
— Sem pressa. — Falei.
— Você gostaria de almoçar? — Ela ofereceu.
— Não, obrigada! Já almocei. — Falei. — Eu faço companhia.
— Mas aposto que vai aceitar um pedaço de torta de chocolate, não? — Claire ofereceu e pressionei meus lábios.
— Ah, Claire! Assim não resisto! — Falei, ouvindo as outras mulheres rirem.
— Então, , você chegou a ver o treino hoje? — Claire perguntou, durante a pausa das quatro horas.
— Sim, sim, eu vi. Sinto pelo seu filho. — Falei.
— Ah, nem fala. — Ela suspirou. — Mônaco já é difícil, pequena, minúscula, aí eles ficam dando de tudo com o carro e já viu, né?! — Ela negou com a cabeça. — Ao menos ele está bem e o carro conserta até amanhã.
— Ele-eu ouvi falar que é uma pista difícil... — Falei, engolindo em seco quando quase o mencionei.
— Sim, ela é muito estreita e cheia de curvas, é muito difícil a ultrapassagem. — Ela disse e assenti com a cabeça.
— Vamos ver como vai ser amanhã, né?! — Falei e ela assentiu com a cabeça.
— E você? Tem falado com Lance? — Engoli em seco, evitando arregalar os olhos.
— Hum...? — Virei para ela? — Ah, Lance? Não... Não... — Falei.
— Ah, meu filho é lento... — Ela revirou os olhos.
— Senhora? — Franzi a testa.
— Eu vi que ele pediu seu telefone, achei que... Enfim! — Ela abanou a mão e evitei dar um sorriso.
Será que Claire estava dando uma forcinha em um possível relacionamento entre mim e Lancelot?
— Eu vou pedir para Sebastian algo para bebermos, com licença... — Ela disse, se levantando e ouvi Kenya latir para ela quando ela passou em sua frente.
— Ah, sua chata! — Falei para Kenya, chamando-a com a mão. — Vem aqui! — Ela veio saltitante até mim e peguei-a com uma mão, acariciando-a. — Sua chata! Chata! Chata! — Ela deu uns latidos, mas sabia que eu estava imune a ela.
— Então, ... — Ergui o rosto, vendo Chloe aparecer por cima do sofá.
— Sim... — Falei.
— Então, você não está mesmo falando com Lance, certo? — Ela disse, dando um sorriso de quem sabia e senti meu rosto esquentar. — Tipo... Não tem nenhum motivo para as noites mal dormidas dele? Tipo... Quatro da manhã?
— Chloe! — Falei e ela gargalhou alto, assim como Beatrice.
— Ele é meu irmãozinho, falamos tudo para o outro. — Ela disse e ri.
— Não fala nada para sua mãe! — Pedi em tom de voz baixo.
— Por que não? Ela está superanimada com um possível relacionamento. — Ela disse e suspirei.
— Exato. Um possível relacionamento! — Falei firme. — Estamos nos falando há somente duas semanas, não quero me empolgar demais...
— Por que não? Ele está animado, .
— Porque eu... Eu nunca fiz isso antes. — Suspirei.
— O quê? — Ela perguntou.
— Estive em um relacionamento. — Falei, suspirando.
— Não?
— Não... — Dei de ombros. — E é a primeira vez que eu passo do “oi, tudo bem?” — Suspirei. — Tenho medo de dar tudo errado.
— Não, ! Não! Não pensa assim. Meu irmão é meio lento, mas não é babaca! Se ele está indo atrás de você, confia que as intenções dele são as melhores. — Ela disse e assenti com a cabeça.
— Eu tenho ansiedade... Eu...
— Vá atrás de uma psicóloga, então. — Ela disse. — Não tem por que ficar mal por coisas boas... — Suspirei.
— Mas será que são coisas boas mesmo? — Falei.
— Aí, eu vou te bater! — Ela disse, fazendo com que eu e Beatrice ríssemos. — Para de apressar as coisas, aproveite! Curta esse momento! Você o terá por diversos momentos, mas as primeiras vezes só acontecem uma vez... — Ela disse e assenti com a cabeça.
— Eu vou tentar... — Falei, sabendo que minha cabeça só surtaria mais após essa conversa.
— É bom mesmo, porque senão...
— Por que não combinamos uma noite das mulheres? — Claire sugeriu, fazendo Chloe se calar e se esconder atrás do sofá novamente. — Assim, se não se importarem em sair com uma mulher do dobro da idade de vocês... — Ri fracamente.
— Não acho que tenha idade para se divertir. — Falei. — Eu adoraria.
— Eu só não posso hoje, mas super topo. — Chloe disse.
— Hoje eu tenho algumas reuniões após aqui também. — Claire disse. — Mas podemos combinar para semana que vem.
— Para mim está combinadíssimo! — Falei.
— Eu também topo, depois que saí da faculdade, mal tenho amigas. — Beatrice disse.
— Pode me chamar, viu?! — Falei. — Eu trabalho a maior parte do tempo, mas sábado à noite e domingo eu costumo estar entediada.
— Eu também! — Chloe disse. — Eu namoro, mas Scotty viaja muito e eu fico sozinha na maior parte do tempo. — Ela disse.
— Então está combinado! — Claire disse. — Semana que vem, vamos sair nós quatro.
— Combinado! — Falamos quase juntas.
Cheguei em casa chutando a rasteirinha para longe e deixando as coisas na minha mesinha de jantar. Apesar de não termos combinado de fazer algo, acabei saindo de lá quase oito horas da noite. Fazia tempo que não juntava tanta mulher assim. A gente realmente não ficava quieta. Só esperava que Claire pudesse ainda fazer suas reuniões.
Tomei um longo banho enquanto deixava uma lasanha congelada no micro-ondas. Saí do banheiro enrolada na toalha e me troquei no meio da minha sala-quarto-cozinha. Soltei os cabelos, secando-os ao máximo com a toalha e depois penteei. Não estava com pique de secar agora. Até eu jantar, assistir um episódio de alguma série atrasada, ele já teria secado para eu poder dormir.
Peguei minha lasanha um pouco menos pelando, colocando num prato e peguei os talheres, colocando tudo em um canto da mesa e me sentando do mesmo lado. Peguei o celular, desbloqueando e fui direto na conversa de Lance, que eu tinha deixado de lado durante todo tempo na casa de Claire. Confesso que não queria ninguém espiando por cima do meu ombro.
“Durma com Deus, !” — Logo após a minha mensagem.
“Sabe, tem um problema com Mônaco, o barulho é muito alto, talvez seja difícil dormir”. — Essa última tinha umas duas horas.
“Acho que você vai dormir na minha casa hoje, pena que eu não estou aí!” — Há uma hora.
“Ei, , a brincadeira acabou, tá tudo bem?” — Há menos de 20 minutos. Me surpreendi com o horário. São seis horas de diferença, são duas da manhã para ele.
“Achei que a ideia fosse dormir, senhor Lancelot!” — Enviei para ele, rindo fracamente.
“Ah, finalmente apareceu!” — Sua resposta foi imediata.
“Lancelot! O que faz acordado?” — Perguntei, encarando o celular.
A resposta demorou um pouco, então apoiei o aparelho em um copo, olhando para ele fixamente enquanto comia pedaços pequenos da minha lasanha. De repente a foto do WhatsApp de Lance apareceu em uma chamada de vídeo e arregalei os olhos.
Meu Deus!
Atender ou não atender?
Fiquei o que pareceu cinco minutos decidindo o que fazer, mas acho que foi coisa de trinta segundos. Eu estou de pijama, com os cabelos totalmente bagunçados e a boca suja de molho de tomate, mas ainda assim eu deslizei o dedo aceitando a chamada.
— Achei que não fosse atender. — Sua voz chegou antes de seu rosto aparecer e somente deu tempo de deixar o decote do pijama menos evidente.
— Não sabia se era para atender... — Falei, ajeitando o decote do pijama, tentando deixar menos em evidência ainda.
— Claro que é! — Ele disse e vi seu rosto aparecer em um ambiente com pouca luz, creio que um abajur.
— O que faz acordado? — Perguntei.
— Acho que me acostumei a dormir tarde... — Ele disse e dei um sorriso. — Conversar contigo virou parte da minha rotina.
— E o que quer conversar? — Perguntei e ele riu.
— O que está comendo aí? — Ele perguntou e ergui meu prato, mostrando a ele.
— Lasanha congelada. — Falei, ouvindo-o rir.
— Que banquete, não?
— Nem sempre dá para correr, né?! — Dei de ombros, cortando mais um pedaço e colocando na boca.
— Não, não dá... — Ele disse, rindo. — E como foi na minha mãe?
— Foi bom! — Sorri. — Tem uma nova assistente de marketing que quer participar das aulas, agora são quatro Marias Fifi para ficar fofocando.
— “Maria Fifi”? — Ele perguntou e eu ri.
— Uma expressão para mulheres que gostam de fofocar. — Falei, rindo.
— E que tanto fofocaram? — Ele perguntou e ri.
— Uma mulher nunca conta as fofocas. — Falei e ele riu.
— A Chloe pelo visto não passou no teste... — Neguei com a cabeça.
— Aí, vocês dois... — Neguei com a cabeça.
— O quê? Preferia que a gente não compartilhasse? — Ele perguntou e eu ri.
— Não, mas eu fui pega desprevenida mais cedo. Você podia ter me falado que falou de mim para Chloe. — Falei.
— Não achei que fosse segredo. — Ele disse.
— Não é... É só... — Suspirei. — Eu sou ansiosa, Lance. — Falei. — Tenho medo de me empolgar demais e as coisas darem errado.
— E por que as coisas dariam errado? — Ele disse sério, encarando a câmera do celular.
Não soube responder.
Na verdade, não quis responder. Porque falar “porque já deu errado antes” estava na ponta da língua.
— Só preocupação... — Suspirei.
— Não precisa ter, garanto que minhas intenções contigo são as melhores... — Ergui o rosto para ele.
— Quais suas intenções comigo? — Perguntei, vendo-o sorrir.
— Nada menos que tudo, senhorita . — Ele disse sério e dei um curto sorriso.
— O que seria “tudo”? — Perguntei.
— Tudo que puder imaginar. — Ele disse e assenti com a cabeça, escondendo um sorriso nos lábios.
Não sei exatamente quando ele viria, mas sei que a corrida de Montréal seria no próximo fim de semana, então até quinta-feira ele estaria aqui. E a ansiedade começava a falar mais alto.
No momento em que eu acordei essa manhã, eu fui correndo para o banheiro. Dor de barriga é o primeiro sinal, depois foi a falta de apetite e, por último, o medo do próprio celular. Qualquer mensagem que eu recebi durante o dia me fez pular, mas ironicamente, nenhuma era de Lance.
O dia passou bem, segundas-feiras são legais, é dia de entrada de alunos novos nas turmas, então sempre tinha aquelas apresentações novamente, falar as intenções da pessoa com o curso, porque ela escolheu Montréal e tudo mais — provavelmente os mesmos motivos do que eu.
Apesar da falta de apetite, nas segundas-feiras eu não tinha nenhum aluno fora da escola, então acabava sendo o dia de eu adiantar algumas coisas da casa. Saí da escola e parei no mercado perto de casa para comprar algumas coisas que estavam faltando. Alguns temperos, carne, minha tradicional massa caseira e muito tomate para fazer molho caseiro. Como eu recebia por semana na escola, acabava fazendo minhas compras semanalmente também.
Cheguei no meu apartamento, fazendo um sinal da cruz ao passar pela igreja próxima e fui aos fundos para deixar minha bicicleta e prender o cadeado. Carreguei a sacola retornável em um ombro e a mochila no outro enquanto subia as escadas para o segundo andar.
Eu adoro esse apartamento, mas ele me faz reclamar duas vezes ao dia que eu preciso voltar para uma academia urgentemente.
— Oi, !
— AH! — Me assustei, erguendo o rosto. — LANCELOT?!
— Surpresa?
— É claro! — Ri, deixando as bolsas no chão antes de abraçá-lo. — Oh, meu Deus! O que está fazendo aqui?
— O próximo GP é aqui, você sabia que eu viria... — Ele me apertou forte, me fazendo suspirar.
— Eu sei, eu sei, mas eu pensei que você viria depois! — Nos afastei, segurando seus braços e vendo seus olhos pela aba do boné.
— Não, eu não perderia a oportunidade de passar mais uns dias contigo. — Ri nervosa, sem acreditar.
— Oh... Você é real? — Ele riu fracamente. — Vem, vamos entrar e... Cadê minha bolsa...? — Dei uma volta a redor do meu corpo.
— Eu pego! Eu pego! — Ele disse, se inclinando para pegar a sacola e mochila.
— Deixa essa comigo... — Peguei a mochila, tirando a chave dali de dentro e abri a porta, parando para pensar por um segundo. — Ah, espera... — Fiz uma careta. — Não é grande, sabe? — Ele riu fracamente.
— ... — Ele revirou os olhos.
— O quê? É uma quitinete, é... Menor do que a sala da sua casa...
— ! — Seu tom foi repreendedor.
— Ok! Ok! Só dizendo... — Ergui as mãos antes de abrir a porta, entrando primeiro.
Já parei na porta para deixar a mochila no cabideiro, depois dei três passos para frente, entrando na minha cozinha-quarto-sala que tinha mais uns dez passos de cumprimento.
— Bem-vindo ao meu cantinho! — Fiz uma careta e ele fechou a porta, andando em minha direção.
— É fofo! — Ele disse e tirei a sacola de sua mão, colocando na mesa com duas cadeiras. — É bem fofo. — Ri com ele.
— Eu gosto daqui. É quente no inverno, fresco no verão, e eu me sinto bem.
— Acho que é o que importa. — Ele disse.
— Senta, eu só vou organizar aqui. — Falei e ele se sentou no meu sofá-cama.
— Onde você dorme? — Ele perguntou.
— Exatamente onde você está! — Falei rindo, tirando as coisas da sacola.
— Uh! Então é aqui que a mágica acontece? — Ele perguntou, abrindo os braços no encosto do sofá, cruzando a perna. Encarei-o seriamente, revirando os olhos e virando para meu trabalho novamente. — Ah, eu gosto dessa cara! — Ele disse, me fazendo rir.
— Você é tonto demais! — Guardei as coisas na geladeira, depois no armário. — Você quer algo? Algo para beber, comer? Você veio direto do aeroporto?
— Eu comi no jatinho, não se preocupe. — Ele disse. — Você tem algum compromisso agora? Estou atrapalhando?
— Uh, “eu comi no jatinho”. — Imitei-o, com uma voz fina, fazendo-o rir. — Eu não comi no jatinho, então eu vou fazer molho de tomate e comer com ravioli. — Falei e ele riu.
— Não se incomode comigo. — Ele ergueu as mãos. — Mas eu poderia usar o banheiro. Onde é?
— Na outra porta que não seja a saída! — Falei sorrindo e ele riu. — Tem certeza de que não quer comer? Eu cozinho bem, de verdade.
— Hum... Já que faz tanta questão! — Ri com ele.
— Deve ser esfomeado para caramba! — Falei rindo, procurando pela tábua de carne.
— Só repondo as energias de volta depois da corrida. — Ele disse na porta do banheiro.
— Falando nisso, como você está?
— Ah, foi ok. — Ele disse, fechando a porta do banheiro.
— Ei! — Segui até a porta. — Você disse que estava bem.
— E estou! Por isso não quero seguir no assunto. — Sua voz saiu abafada, me fazendo suspirar.
Estamos conversando há um mês, cada vez mais íntimos mesmo com a distância, mas ainda era difícil fazê-lo falar sobre a parte difícil do esporte. Entendia sua frustração. Ele era tachado como “filho do dono”, mas parecia que ninguém se importava com seu talento — eu sei, eu pesquisei, Claire é uma ótima fonte. E o carro não estar das melhores formas não era ideal.
— Ok, esse é o melhor molho que eu já comi na minha vida. — Lance disse, procurando por um guardanapo na minha mesinha quadrada.
— Uhum, tá! — Falei rindo.
— Não, sério! É delicioso!
— Agradeço, mas não é o melhor molho de tomate do mundo.
— Como não? — Ele disse chocado, raspando o pão italiano no prato.
— Você tem acesso aos restaurantes mais sensacionais de Montréal e do mundo, e vai dizer que o meu molho de tomate feito em casa é o melhor molho do mundo? — Olhei para ele sugestivamente.
— Exatamente! Eu tenho propriedade para falar. — Ele cruzou os braços, encostando na cadeira e só consegui assentir com a cabeça.
— Obrigada, então. Apesar de ainda achar que você só está sendo gentil, aposto que na Itália tem muito melhores. — Ele riu fracamente.
— Você vai ter que descobrir. — Ele disse e assenti.
— Um dia! — Falei esperançosa, mas suspirando em seguida.
— Mas temos ótimos restaurantes italianos aqui em MTC, você está aqui há o quê, um ano?
— Quase...
— Já deve ter ido em alguns... — Ponderei com a cabeça.
— Mais simples... As coisas começaram a ficar mais fáceis agora com o trabalho com sua mãe, mas eu tenho vontade de ir em alguns.
— Quais?
— Ah, tem vários aqui em volta da baía Rei Edward. — Falei.
— Fala o nome de um! — Ele pediu.
— Por quê? — Perguntei, cruzando os braços quanto a ele.
— Para saber se eu já fui... — Ele deu um sorriso engraçado e revirei os olhos.
— Ok, o que eu mais tenho vontade de ir é no Mangiafoco. — Falei.
— Já estive, é muito bom! — Ele disse. — É perto da Basílica Notre-Dame, não?
— Exatamente! Atrás, se eu não me engano. — Falei.
— Eu conheci o dono, supersimpático, toca guitarra em uma banda...
— VOCÊ CONHECEU O JEFF?! — Minha voz saiu mais alta do que eu esperava e coloquei as mãos na boca rapidamente.
— Não era esse o nome, Jean... Jean—Franç...
— JEFF! — Falei forte, me levantando. — Meu Deus, você conheceu o Jeff! — Apertei as mãos no rosto.
— Você conhece?
— É! É só o guitarrista da minha banda favorita! — Falei, animada.
— Ok, então está marcado. — Ele disse, se levantando.
— O quê? — Perguntei.
— Vamos no Mangiafoco e em um show da banda. Sabe se eles estão em turnê? — Sacudi a cabeça.
— Eu não tenho essa informação, mas você não precisa fazer isso...
— Por que não? Vamos ter encontros, não?
— Isso é o quê? — Indiquei os pratos, me aproximando da mesa de novo.
— Um encontro, podemos ter outros. — Ele disse. — Deixa eu te ajudar.
— Eu lavo! — Falei.
— Você cozinhou, eu lavo. E sim, eu sei lavar louças, eu moro sozinho. — Ri fracamente, colocando os pratos na pia.
— Toda sua! — Ergui as mãos, me sentando na minha cama-sofá.
— Prometo não quebrar nada. — Ele disse e ri fracamente, não acreditando naquele homem bilionário lavando a louça no meu micro apartamento.
— Então, como foi ontem? — Perguntei.
— Ah, você sabe, abandonei no final, nenhum ponto, nada de muito novo.
— Não! Não fala assim. — Ele se virou para mim.
— O quê? Só estou dizendo.
— Se lamentando! — Falei. — Não faça isso.
— Ah, qual é. Participar é legal, estar entre os 20 melhores pilotos do mundo é legal, mas não tive sorte esse ano. Minha melhor posição foi décimo.
— Mas você comentou que Vettel está indo tão ruim quanto.
— Sim, mas vamos ser honestos, ele é Vettel, tetracampeão, adorado por todos, senhor Salve as Abelhas, ninguém vai falar que ele está tendo um péssimo desempenho porque é filho do dono da empresa. — Suspirei.
— Isso te incomoda muito, né?! — Perguntei e ele suspirou.
— Eu sou muito grato por tudo que meu pai fez por mim, e sei do meu talento, antes que você comente isso. — Assenti com a cabeça, vendo-o secar as mãos num pano de prato. — Mas eu gostaria de não ter essa pressão em cima de mim.
— Você faria algo diferente se tivesse a chance? Saísse da F1, faria outra coisa? — Perguntei.
— Eu não sei. Eu gosto de esportes, mas não sei... — Ponderei com a cabeça. — Independente do que falam, eu sei que lutei muito por isso. Ganhei na Fórmula 4, Fórmula 3, outras quando mais novo, tenho pódio, tenho pole, mas é difícil ignorar algumas coisas.
— Você é bem quieto fora do âmbito F1 mesmo.
— As pessoas já falam de mim mesmo sem eu dar motivos, imagina se eu abrir a boca... — Ele se sentou ao meu lado.
— É, você não está errado... — Virei uma perna para dentro da cama-sofá.
— Mas vamos mudar de assunto. — Ele disse. — O fim de semana do GP começa quinta, sei que você tem seus compromissos, suas aulas, mas gostaria que estivesse lá. — Ele disse.
— Eu? — Falei, surpresa.
— É claro! — Ele disse, rindo. — Não fique surpresa, eu disse que eu quero tudo contigo. — Sorri.
— Eu sei, mas eu tenho meus receios, você sabe...
— Você nunca namorou, eu sei, mas prometo que não vou te machucar, ok?! — Assenti com a cabeça, dando um pequeno sorriso.
— Ok... — Ele sorriu.
— Quinta é puramente coletiva e visitas, à noite vai ter um evento beneficente, e eu gostaria que fosse. Chloe vai estar lá, meus pais, você não estará sozinha.
— Que tipo de evento beneficente? — Perguntei.
— Cuidados com o câncer de mama.
— Uau, eu vou! Eu consigo mudar umas aulas! Pode deixar! — Ele sorriu.
— Perfeito! Vai ser um leilão e tal, terão outros pilotos, mas é um coquetel e tal, nada muito longo...
— Eu preciso dar um lance? — Perguntei.
— Não, é claro que não! Só quero sua companhia. — Sorri.
— Ok... E qual roupa eu vou nesses lugares? — Perguntei.
— Ah, nada muito chique... — Encarei-o.
— Eu já vi os filmes, Lancelot! — Ele riu.
— Ok, gala! — Ele disse, suspirando. — Mas posso ver com a Chloe, ela pode te emprestar algo.
— A Chloe é uns 10 centímetros mais baixa do que eu. — Falei, sacudindo a cabeça e ele riu. — Eu dou um jeito! — Falei, ouvindo-o rir.
— Eu posso enviar um. — Ele disse.
— Não, não! Não se preocupe! — Falei, indicando-o. — Sua mãe me deu bastante dinheiro para trabalhar com ela.
— Achei que o dinheiro fosse para sua escola. — Ele disse.
— É! Mas seria egoísmo eu não tirar um pouco para eu comprar um vestido e te acompanhar. — Falei. — Um vestido, não gastar tudo. Nem tudo vai para escola, a ideia de trabalhar além da escola é ter uma vida mais confortável aqui.
— Pretende mudar para um lugar maior? — Ele perguntou.
— Ei, não fale mal do apartamento! — Empurrei-o, fazendo rir. — Eu gosto daqui.
— Eu estou brincando! É até legal! — Ele disse. — A cama é pequena, mas...
— E você está pensando muito nela! Para! — Rimos juntos.
— Não, sério! É pequena até só para dormir.
— Eu estou acostumada a ela. — Dei de ombros e ele sorriu.
— Você não tem aula hoje? — Ele perguntou.
— Não, não. — Falei. — Segundas são os dias de eu organizar as coisas para a semana.
— E o que você fez para adiantar isso? — Ele deu um sorriso sarcástico e suspirei, pressionando os lábios.
— Molho de tomate! — Falei, rindo.
— Que eu raspei da panela...
— É... — Rimos juntos. — Não se preocupe, eu peço take out essa semana. — Ele riu. — E sempre tem lasanha congelada.
— Não é ravioli com molho caseiro, mas ei... — Rimos juntos.
— Para, seu chato! — Empurrei-o, fazendo-o rir.
— Mas você trabalha amanhã, não? É melhor eu ir! — Olhei o relógio, vendo que passava das dez.
— Você pode ficar, tem uma ótima cama aqui embaixo. — Chutei a bicama e ele riu.
— Há, há, há, engraçadinha!
— Não convido mais, então... — Falei, mostrando-lhe a língua.
— Talvez outro dia, na minha cama... — Ele disse e ri fracamente.
— Você é cara de pau mesmo, hein?!
— O que seria isso? — Ele perguntou confuso pela expressão.
— Atrevido, sem-vergonha! — Falei, fazendo-o rir.
— Só sendo honesto! — Ele ergueu as mãos. — Mas é melhor eu ir, vim direto do aeroporto, nem fui para casa ainda.
— Você deve estar cansado também. Voo direto? — Perguntei.
— Sim, de jato é mais confortável, mas o fuso-horário ainda é chato. — Ele ponderou com a cabeça.
— Não, é melhor você ir. Eu não tomei banho ainda, tenho que dar uma revisada na aula de manhã e você precisa ver sua mãe, ela me mata se souber que você passou aqui antes. — Ele riu.
— Contou para ela?
— Claro que não! — Falei, rindo. — Agora não sei se a Chloe falou algo.
— Ah, não, ela provavelmente não vai querer encarar a responsabilidade. — Ele riu. — Eu faço isso... Depois.
— Eu te levo até a porta.
— Porque é mu-u-u-uito longe mesmo. — Ele disse, rindo.
— Chato! — Empurrei-o um pouco, vendo-o dar três passos até a porta e ele deixou espaço para eu abrir a porta. — Eu estarei no WhatsApp.
— Se eu demorar um pouco para aparecer, é o caos de chegar em casa. — Ele disse.
— Não se preocupe. Se eu demorar, é porque eu dormi. — Falei.
— Tenha uma boa noite, ok?! — Ele deu um beijo em minha testa, me fazendo sorrir.
— Você também! — Falei, dando um sorriso e ele assentiu com a cabeça, se afastando devagar. — Me dá um sinal de vida quando puder.
— Pode deixar! — Ele sorriu, afastando alguns passos.
— Até mais.
— Até! — Ele sorriu, dando um aceno.
— Vai logo! — Falei, rindo.
— Sabe... Eu não contei para minha mãe, mas meu pai sabe de tudo! — Ele disse.
— Lance! — Falei, vendo-o rir.
— Boa noite! — Ele disse, sumindo pelo corredor.
— Estou atrapalhando? — Ergui o rosto para porta, vendo Carly.
— Oi, Carly, não, pode entrar. — Ela se aproximou com algumas folhas nas mãos.
— As provas de nivelamento dos alunos que entram na próxima semana.
— Ah sim, por deixar aí, te dou um retorno até o fim do dia. — Pedi e ela assentiu com a cabeça.
— Belo vestido! — Ela indicou o vestido verde na tela e suspirei.
— É... Eu só não tenho ideia de onde encontrar um parecido, e o prazo é para quatro dias, eu preciso para amanhã. — Suspirei.
— Uau, é um vestido chique, não?! — Ela viu o valor de quase cinco mil dólares.
— É sim, mas é para um evento importante... — Suspirei.
— Posso perguntar qual? — Ela virou para mim, olhando sugestivamente.
— É complicado...
— É aquele cara que você tinha falado? — Ela perguntou.
— Sim... — Suspirei, virando para ela. — Eu posso confiar em você!? — Falei em um tom confuso.
— Espero que sim...
— Não! Foi uma afirmação! — Falei, rindo. — Desculpe... É... Eu não sei como falar isso. — Suspirei.
— Conta! O que te aflige? — Ela puxou uma cadeira para perto e inclinei o corpo para trás, apoiando na cadeira.
— O cara que eu estou saindo é o filho da Claire... — Falei e sua boca entreabriu.
— Espera! Lance? — Ela falou baixo e assenti com a cabeça. — Mentira! — Ela colocou as mãos na boca. — Mentira! — Ri fracamente. — Ele é dono de Montréal... E piloto de Fórmula Um!
— Eu sei, eu sei, por isso que não falei muita coisa... — Passei as mãos nos cabelos. — Estamos conversando tem um mês, sei que vai acontecer, mas ainda não estou pronta para dividir isso com todo mundo...
— E nem com o mundo, né?! — Ela disse e suspirei.
— Eu estou evitando pensar nessa parte. — Ri com ela. — E tem o GP aqui esse fim de semana, ele já me convidou, vai ter um evento beneficente que ele me convidou...
— É por isso o vestido? — Ela indicou.
— Sim... — Suspirei. — Eu nunca fui em um evento como esse, tirando algumas formaturas, então eu pensei em um vestido bonito, mas discreto... — Suspirei. — Mas não chega no prazo e ainda tem chances de não servir...
— Por que você não compra aqui? — Ela perguntou.
— Porque eu não tenho a mínima ideia de onde comprar um vestido assim que não seja nas lojas de marca. Cinco mil já seria caro, mas cabe no meu orçamento... — Falei.
— Bem... Você não é daqui, mas eu sou. — Ela sorriu. — Podemos ir depois do trabalho.
— Droga, eu vou ter que cancelar algumas aulas... — Suspirei. — E eu já cancelei de quinta, sexta e sábado...
— Às vezes você tem que fazer um investimento se quiser que dê certo. — Ela disse e suspirei. — Então...
— Ok, vou mandar mensagem para os meus alunos... — Ela riu.
— E te garanto que vai pagar mais barato do que na internet! — Sorri.
— Já vi vantagem, então! — Rimos juntos.
— Vou te deixar finalizar aí. — Ela disse e rimos juntas.
— Até mais! Obrigada! — Falei, vendo-a rir enquanto saía da sala.
Carly disse que o local era perto da escola, então pegamos as bicicletas e seguimos pela cidade. O sol estava começando a se pôr, mas estávamos em maio, então o tempo estava mais fresco, mas o trânsito estava caótico.
Chegamos em uma área da cidade que eu não conhecia, tinha muitos galpões grandes e várias placas de outlet, seja de marcas grandes ou desconhecidas. Ela guiou à frente, seguindo para o lado esquerdo, até uma loja de vestidos de festa.
— Vem, isso vai te ajudar! — Ela desceu da bicicleta, seguindo para o bicicletário e fui atrás dela. Prendemos nossas bicicletas antes de entrar na loja. — Minha tia trabalha aqui, ela vai saber te ajudar.
— Oi, Carly! — Uma moça disse assim que entramos.
— Oi, Sandy! Minha tia está aqui? — Ela perguntou e fui ficando boquiaberta com a quantidade de vestidos ali, de todos os tipos.
— Claro, ela estava no caixa, deixa eu chamar! — A Sandy disse, saindo pela loja e me atrevi a me aproximar dos vestidos ali perto.
Separei um vestido dos outros e vi a etiqueta ali, me atrevi a virar e fiquei surpresa por custar 800 dólares... E estava aqui, à pronta entrega.
— ...
— Eu te amo! — Virei para Carly, vendo a moça ao seu lado rir.
— Você me ama! — A moça disse. — Eu sou Sandy.
— Oi, Sandy. ! — Falei, esticando minha mão, cumprimentando-a.
— Carly me disse que precisa de algo meio urgente...
— Sim, preciso. — Suspirei.
— Conte-me o problema. — Ela cruzou os braços.
— Eu tenho um evento beneficente com... — Respirei fundo. — Minha chefe. Ela é Claire Stroll...
— Espera, Stroll em...
— Sim, ex do Lawrence Stroll e tudo mais. — Suspirei. — Comecei a trabalhar com eles tem um tempo e me chamaram, mas eu não tenho nenhum vestido à altura disso... Eu nem sou daqui, não trouxe um vestido de gala na mala. — Sandy riu.
— Não se preocupe, vamos fazer isso acontecer! — Ela disse. — O que você tinha pensado?
— Uma cor escura, para eu ficar o mais invisível possível. — Fiz uma careta.
— Vamos por aqui, então... — Ela indicou para um lugar do largo galpão. — Algum estilo em especial?
— Nada vulgar, nem aparecendo muita pele.
— Você vai ter um par ou vai sozinha? — Ela perguntou e olhei para Carly que ficou quieta.
— Eu vou com a família... — Falei aleatoriamente.
— Bom, você é convidada de convidados, não precisa chamar tanta atenção, mas é legal chamar alguma atenção...
— Terão vários ricos e famosos lá, vai que você também não arranja um namorado com um amigo? — Carly falou sugestivamente, me fazendo rir.
— Ela está certa! Não dá para ficar completamente apagada. — Ponderei com a cabeça.
— Ok... Meu orçamento era de cinco mil dólares, mas eu adoraria que ele se tornasse metade disso, porque eu ainda tenho que pagar cabelo e maquiagem... — Fiz uma careta.
— Consigo algo sensacional por até um quinto disso. — Ela disse.
— Eu te amo! — Falei, ouvindo-a rir.
Me olhei na frente do espelho, vendo o bob preso na franja e dei duas batidinhas de blush nas bochechas. Não sou muito fã das bochechas rosadas, mas como dizia minha avó: para dar uma cara de saúde. Deixei o pincel de lado, vendo-o causar um dominó e derrubar todos os outros itens na pia e ignorei.
Tirei o bob da franja, ajeitando-a bonitinha e suspirei. Carly foi minha verdadeira fada madrinha, ela e sua tia. Ambas me ajudaram na escolha do vestido preto de uma manga só, com glitter e uma fenda na perna esquerda, e ainda me indicaram uma conhecida de outra vendedora do outlet para fazer meu cabelo. Eu me virei na maquiagem, mas já fiz curso de automaquiagem, provavelmente não está à altura de um evento desse tamanho, mas...
Me assustei quando ouvi dois toques na porta e me arrependi de não ter porteiro.
— Espera! — Falei um pouco mais alto, guardando as coisas bagunçadas dentro da necessaire de maquiagem.
Olhei no espelho novamente, esbarrando no box do banheiro ao me afastar e suspirei. Corri de volta para o quarto, colocando o sapato preto de salto, esse ela já tinha comprado há algum tempo. Me olhei novamente no reflexo da TV e suspirei.
Era agora ou nunca.
Fui até a porta entre uma bufada e outra e suspirei antes de abrir. Me surpreendi e, pelo visto, causei surpresa. Lance usava um terno verde escuro, talvez preto na luz opaca do corredor. Os cabelos bagunçados propositalmente.
— Uau! — Falamos juntos, rindo em seguida.
— Você está linda! — Ele disse mais rápido, me fazendo sorrir.
— Espero que esteja apropriado...
— Está mais do que apropriado, você está incrível. — Dei um pequeno sorriso quando ele pegou minha mão.
— Você também está bonito. — Falei e ele beijou minha mão, me causando um arrepio.
— Você está pronta? — Ele perguntou e assenti com a cabeça.
— Um pouco nervosa...
— Não se preocupe, minha família estará lá, Chloe, Scotty que é um evento à parte... — Rimos juntos. — Vai dar tudo certo... — Assenti com a cabeça.
— Espero que sim... Me dá um segundo... — Voltei para dentro do apartamento, pegando minha bolsa e a chave na bancada, e voltei para a porta. — Podemos ir.
— Damas primeiro... — Ele indicou e eu desliguei as luzes antes de puxar a porta, pendurando a alça no ombro.
Segui um pouco à frente, sentindo-o apoiar a mão na base das minhas costas e descemos os dois lances de escada. Ele passou à minha frente para abrir a porta do prédio e senti um leve ventinho, minha distração durou dois segundos até eu ver o carro esportivo na minha frente.
— Uau! — Saiu no automático.
— Gostou? — Ele perguntou.
— Ele é lindo! — Falei, rindo.
— Ela! — Virei para ele.
— Qual o problema dos homens? Vocês querem “dirigir” a mulher? — Ele gargalhou alto. — Não é fácil assim na prática, tá?!
— Desculpe, é força do hábito! Pensando com clarividência, fica um pouco estranho.
— Você sobe em mim e faz “vrum vrum”? — Ele gargalhou e até eu o acompanhei nessa.
— A ideia não é ruim... — Ele disse rindo e bati a mão no rosto.
— Aí, as besteiras que eu falo e você ainda ri! — Ele sorriu.
— Estou me divertindo, não posso negar! — Rimos juntos.
— Uma coisa é certa, você não vai se entediar nunca! — Dei de ombros.
— É assim que eu quero mesmo! — Ele disse, abrindo o lado do passageiro.
— Então acho que encontrou a pessoa certa. — Ele me deu um sorriso largo e entrei no carro.
Seguimos uns dez minutos até o local do evento, o carro conversível e o ronco do motor não permitiam que eu compreendesse a música que tocava no sistema de som, mas não me importei. Analisar Lance dirigindo era muito melhor e muito sexy.
O evento era perto do cais Rei Edward e da Basílica de Notre—Dame, então era um local que eu já estava familiarizada. A rua fina fazia com que um pequeno caos estivesse formado ali, inclusive alguns fotógrafos, levei a mão levemente ao rosto, pois eu realmente não sabia como agir. Estava um tanto perdida.
— Assim que eu parar, você entra na porta do seu lado, ok?! — Lance falou e assenti com a cabeça.
Alguns carros estavam na nossa frente, então o trânsito ficou lento com os convidados saindo de seus carros esportivos. Assim que chegou nossa vez, Lance deu um aceno de cabeça, e a porta ao meu lado já estava aberta. Um segurança me deu a mão para eu sair e eu segui rapidamente para dentro do evento, tentando não tropeçar nos meus pés e nem me cegar com os fotógrafos.
Assim que entrei no local, notei que a decoração era escura, mas a iluminação era bem clara. Me aproximei um tanto receosa, mas tentando sair da porta e vi um local para as fotos logo ao lado da entrada, um palco ao fundo com o logo do centro beneficente e algumas mesas altas distribuídas pelo salão, além de vários garçons com taças de champanhe.
Será que tem comida? Eu não jantei.
— ! — Virei para o lado, vendo Chloe chegar apressado com Scotty em seu encalço.
— Ei! — Falei, sentindo-a me abraçar e retribuí.
— Como você está? — Ela perguntou, me soltando.
— Um pouco nervosa... — Falei rindo, abraçando Scotty rapidamente.
— Você está linda! — Chloe disse, me fazendo sorrir.
— Estou à altura do seu irmão? — Perguntei.
— Mais fácil perguntar se ele está à sua altura! — Ele disse, indicando com a cabeça e me virei para porta, vendo os fotógrafos focarem em Lance que entrava e se colocava no espaço para as fotos.
Ele deu sorrisos para os fotógrafos, outros mais sérios, até que seu pai apareceu, dividindo as fotos com ele. Suspirei, um tanto perdida de onde eu estava fisicamente e onde eu estava me enfiando, mas Chloe me abraçou de lado e sorriu.
— Ele merece você. — Ela disse e sorri.
— É... Espero que eu o mereça também.
— Ah, querida! — Sorri ao ver Claire vir em minha direção, de braços abertos.
— Oi, Claire! — Sorri, sentindo-a me abraçar fortemente. — Você está maravilhosa! — Comentei sobre seu vestido prata.
— Eu? Olhe você! — Ela segurou uma mão, me obrigando a virar, me deixando envergonhada quando outras pessoas olharam para mim.
— Não está? Eu falei! — Chloe se aproximou, me fazendo rir.
— E o que está achando do evento? — Claire perguntou e dei um sorriso fraco.
— Um pouco fora da minha realidade... — Tentei falar de forma mais delicada possível e ela riu.
— Não julgo, pois também acho chato e um pouco entediante. — Claire falou ao aproximar o rosto do meu e ri. — Mas acaba sempre tendo umas pérolas.
— A começar com nosso amigo Lance, certo? — Um homem se aproximou e o identifiquei do almoço na casa de Claire no dia em que conheci Lancelot. — Olá, !
— Stephan, certo? — Conferi e ele piscou em afirmativa.
— Donato está aqui também, mas... Ele é irrelevante. — Ele apoiou o cotovelo no ombro de Claire que revirou os olhos.
— Nunca dê intimidade a eles, . Eles não sabem quando parar. — Claire disse, tirando o braço dele de seu ombro e ri.
— Uma amiga sempre disse que é melhor dar dinheiro do que intimidade. — Falei, dando de ombros e todos riram, menos Stephan.
— Ela não está errada. — Scotty cochichou.
— Você também, seu inconveniente! — Chloe disse e ele revirou os olhos, me fazendo sorrir.
— Vamos dizer que eu sou o único normal nessa família. — Virei para o lado, vendo Lance se aproximar.
— Você? — Eu e Chloe falamos juntas.
— Ei, até você? — Ele falou para mim, me fazendo rir.
— Qualquer pessoa que tenha coragem de andar em um carro há 350 quilômetros por hora, não é normal, Lancelot. — Falei.
— Ai! — Ele disse.
— Gostei dela. — Vi o pai de Lance aparecer ao seu lado. — Olá, !
— Oi, senhor Stroll! — Falei.
— Lawrence ou Larry está bom! — Ele disse, esticando a mão, e apertei-a.
— Você gostaria de beber algo, ? Champagne, vinho? — Lance ofereceu.
— Água? — Perguntei e ele assentiu com a cabeça, indicando para um garçom que deu um aceno de cabeça. — Para voltar dirigindo a Aston Martin na volta. — Ele riu.
— Eu deixo, se quiser! — Ele disse, me deixando assustada.
— Não, não! Está tudo bem. — Ele riu.
— Saiba que o convite está aberto para quando quiser. — Ele disse e assenti com a cabeça.
— Aqui está, senhorita. — O garçom apareceu com uma taça sozinha em uma bandeja e vi que o líquido não tinha bolhas antes de pegar. Queria minha Coca-Cola, mas não achei que fosse à altura desses lugares.
— Mercí. — Falei e ele assentiu com a cabeça.
— Lance... — Uma mulher o chamou e ele pediu dois segundos a ela.
— Com licença, , preciso fazer um social. — Assenti com a cabeça.
— Não se preocupe, eu ficarei bem.
— Eu farei companhia para ela. — Chloe disse, me abraçando de lado.
— Me chame qualquer coisa. — Ele disse antes de se retirar.
— Não chamo, podemos fofocar em paz. — Ela disse, me fazendo rir.
— De quem vamos falar hoje? — Scotty disse, colocando a mão no queixo e piscando os olhos.
— Cai fora! — Ela disse e ele riu, se afastando com Stephan e Donato que havia chego.
Lance realmente foi fazer um social, seja com outros famosos, que, pelo meu recente conhecimento em Fórmula Um, tinha Esteban Ocon e Mick Schumacher, amigos íntimos de Lance, além deles, veio George Russel. O restante com quem ele falava, eram empresários ou filhos de empresários bem-sucedidos, além de pessoas mais velhas que pareciam ter muito mais dinheiro do que eu.
Ele demorou quase uma hora nesse “social”, nesse meio tempo fiquei com Chloe, Scotty, e os amigos de Lance, além de Claire que aparecia eventualmente. Chloe fez algumas perguntas sobre mim e Lance, mas durou pouco, porque eu realmente não tinha muito que falar, só nos encontramos no dia em que ele chegou e hoje. A vida da pessoa que precisa trabalhar não é tão legal.
Mas depois disso, ele voltou a ficar perto de mim. Muitas pessoas ainda falavam com ele, mas ele ficava ao meu lado ou perto de mim, o que causava alguns flashes em meu rosto. Não estávamos exatamente em uma pose de casal, mas ele claramente me mantinha em segurança ao seu lado. O problema é que eu nunca fui muito fotogênica, então até beber água foi difícil para mim, mas os flashes simplesmente não paravam. Esperava que elas fossem só de Lance, mas sou curiosa sobre o mundo dos famosos, então ia querer saber com quem meu ídolo está namorando.
A festa foi passando e vi as pessoas começarem a preparar o leilão, várias plataformas começaram a ser montadas e verdadeiros baús foram colocados em cima deles.
— Como funciona? — Perguntei, bebendo um gole da água, observando os organizadores arrumando o palco.
— Fizemos cestas, cada uma com um tipo de encontro diferente, comida, lugar, diversão... — Lance falou, olhando para mim. — As pessoas, mulheres no geral, dão lances nas cestas, e depois saímos com essa pessoa. Nada romântico, já adianto. — Ele piscou para mim e ri fracamente.
— Ah, vai saber quem pode dar um lance na cesta. — Sorri.
— Não! Você não vai fazer isso! — Ele disse.
— Por que não? — Franzi a testa.
— Eles fazem lances muito altos, não vale à pena, não vou deixar você fazer isso.
— Ah, qual é, o que são mil dólares? Posso usar o dinheiro da sua mãe. — Dei de ombros.
— Não! — Ele disse sério e revirei os olhos. — É sério!
— Eu sou mais velha do que você, você não manda em mim! — Falei com um sorriso e ele riu, negando com a cabeça.
— Só você mesmo! — Ele disse, me fazendo sorrir.
— Senhoras e senhoras, em nome do Centro de Recuperação Contra o Câncer de Mama, gostaríamos de agradecer à família Stroll pelo seu apoio há 16 anos e por organizar esse evento há sete. — Uma mulher falou e todos aplaudiram. — E agora, nosso tão esperado leilão! Hoje temos cestas de 10 dos homens mais cobiçados aqui.
— Uhul! — Algumas mulheres gritaram e parabenizaram, nos fazendo rir.
— Como sabem, as cestas são secretas, mas podemos revelar quem são nossos pretendentes da noite. Por favor, senhores, venham ao palco. — Ela disse e os quatro pilotos, além de outros seis homens subiram ao palco, se colocando lado a lado e as pessoas aplaudiram. Realmente, tinha outros homens tão bonitos quanto Lance ainda.
“Vamos lembrar como funciona! Cada cesta é de um desses pretendentes, nelas contém itens para vocês aproveitarem um café da manhã, uma tarde ou uma noite com nossos pretendentes. Esse encontro inclui comida, música, diversão e todo melhor tratamento que nossos meninos podem dar para vocês! Elas foram feitas por eles pessoalmente, com seus gostos e suas personalidades. Mas não pensem que será fácil, nossos pretendentes foram bem minuciosos em esconder!”
— A do Lance é fácil, é só ver o que tem comida italiana. — Falei e Chloe riu. — Ou hamburguer!
— Você não está errada! — Ela riu.
— Sei que sou convidada igual todos, mas eu posso dar um lance? — Perguntei.
— Sim... Eu só não indicaria...
— É para caridade, qual seria o problema? — Perguntei.
— Primeiro que você pode acabar comprando a cesta de alguém que não é o Lance...
— Você não pode me falar qual é?
— Pior que eu não sei! — Ela fez uma careta, me fazendo rir.
— Ok... E o outro problema?
— Lance não gostaria que você gastasse com isso. Ele te leva em qualquer jantar que queira...
— Eu sei, mas... É só diversão, e é por uma boa causa! Eu ajudava um lugar assim na minha cidade, mas o foco deles era geral, e uma ajuda mais física, transporte, remédios, se a pessoa precisasse de uma cama hospitalar, uma cadeira de rodas, ou até roupas...
— Legal! — Ela disse e assenti com a cabeça. — Mas eu ainda não indicaria, depois você pode entrar no site deles e doar quanto quiser... — Ponderei com a cabeça.
— É... Vamos ver!
— Vamos começar? — A apresentadora disse, causando aplausos do pessoal.
O leilão começou e eu entendi o que Lance quis dizer sobre eu não dar um lance, ba dum ts, mas o primeiro lance começou com cinco mil dólares e foi parar em 37 mil dólares. Eu fiquei em choque. Tá, eu poderia dar um lance de cinco mil dólares, mas duvido que pararia aí. Tínhamos quatro pilotos de Fórmula Um no palco, Lance podia não ser o mais popular, mas aqui ele com certeza era. Quando foi anunciado que a cesta com comidas francesas era de um empresário de 57 anos, foi engraçado a reação de “tristeza” da senhora dos seus 60 com a revelação.
Apesar de minhas chances de dar um lance em alguma cesta, na esperança de ser Lance, eu prestei atenção bastante nas cestas. O pessoal realmente abusava nas decisões e, pelo que eu entendi, não era permitido nenhum restaurante, o próprio “leiloado” precisava escolher a comida, ele podia encomendar, mas não para levar no local.
Eu suspeitei que a cesta fosse de Lance quando chegou em uma cesta com comida italiana, vinho e jantar à luz de velas, mas me pegou na diversão, um passeio de Ferrari pela toscana. Estava entrando na Fórmula Um agora, mas ficou óbvio que era Mick. Com essa descoberta, a cesta chegou a 60 mil dólares. Eu fiquei boquiaberta como as pessoas simplesmente davam assim.
Ok que vai para caridade, mas aí, doeu.
Lance ficou em penúltimo. Sobrou ele e um jovem empresário dos seus 30 e poucos anos. Deveria ter suspeitado que deixariam “o melhor da festa” para o final, mas sem ficar muito óbvio. Não conhecia nada da nata de Montréal, mas o empresário parecia pouco conhecido.
— Agora só faltam dois, hein, senhores?! — O pessoal riu. — Temos mais uma cesta mais do que especial. Essa daqui vem recheada com comida italiana! — O pessoal comemorou. — De entrada, temos uma degustação de embutidos e queijos italianos direto da região da Emilia-Romanha... — Dei um curto sorriso, meu maior sonho é comer comida italiana em Parma. — De prato principal, temos Tortelli d’Erbetta, um prato muito famoso na cidade de Parma... — Ergui meu olhar para ele, vendo-o com um curto sorriso nos lábios, mas sem olhar diretamente para mim. — De sobremesa, só o melhor, Tiramissù.
— Uuh! — As mulheres comemoraram.
— O jantar será servido aqui em Montréal mesmo, no Chalet du Mont-Royal, com uma vista linda da cidade ao anoitecer. A chegada até lá é uma caminhada generosa, mas a vista é de tirar o fôlego! — As mulheres riram. — Para diversão, que tal uma patinação no gelo? Precisaremos de coordenação enquanto vão para o Patin Patin. Ao final da diversão, será servido sflogliatelle com chocolate quente do Tim Hortons.
— Uaaau! — As meninas falaram, aplaudindo e senti um gostoso no peito.
— É a do Lance. — Falei e Chloe virou para mim.
— Tem certeza? — Ela perguntou.
— Certeza. — Sorri, suspirando.
— Os lances começam com 10 mil dólares. — A mulher falou e suspirei.
— Vai dar um lance? — Chloe perguntou e suspirei.
— Não... mas eu gostaria muito. — Suspirei. — É o encontro perfeito... — Ela deu um sorriso.
— Como sabe que é ele? — Ela perguntou.
— Acho que ele fez pensando em mim. — Suspirei. — Ele sabe que eu morro de vontade de ir para Parma comer... — Ela riu. — A vista do Mont-Royal é a mais linda da cidade e romântica, mas ele sabe que eu odeio fazer exercícios... e ele ama hockey, e a patinação se assemelha a isso, acho que seria mais fácil que futebol... — Ela riu. — E quem não gosta do chocolate quente do Tim Hortons? É um tesouro nacional, com sfogliatelle, fica perfeito.
— Bingo...
— 30 mil aqui! — Uma mulher falou.
— É... Mas eu sou alguém normal, não consigo competir com elas... — Mordi meu lábio inferior, voltando a prestar atenção no leilão.
Voltei a prestar atenção nos números que foram subindo, subindo e subindo.
— 159 mil dólares...
— Dou-lhe uma... Dou-lhe duas...? — A mulher esperou. — Vendido para a mulher de vermelho, número 37.
Observei a mulher e engoli em seco ao ver uma mulher muito bonita entre seus 35 a 40 anos. Idade não importa, não é mesmo? Minha nova visão.
Suspirei ao som dos aplausos e sabia que estava na hora de ir embora.
— Só cansada... — Virei para ele, dando um curto sorriso.
— Eu sei que não é. — Ele disse. — Você ficou assim logo após o leilão.
— Foi um pouco demorado, bateu o sono... E eu trabalhei normal hoje, trabalho normal amanhã... Nada que um sono não resolva... A gente se vê sexta... — Falei.
— Eu te acompanho até lá... — Ele saiu do carro e acabei encontrando-o do outro lado ao me bagunçar com a porta que abria para cima. — Aqui! — Ele esticou a mão e eu a peguei, sentindo-o me ajudar a sair do carro, levei meus saltos na mão, pisando rapidamente para dentro do prédio.
Segui escadas acima com os pés no chão, sentindo Lance ao meu encalço, com os passos bem mais pesados que o meu. Cheguei no segundo andar, pegando a chave dentro da bolsa e abri o apartamento, virando para Lance novamente.
— Você está chateada por causa do leilão. Que eu falei para você não dar nenhum lance...
— Não, não é isso, é...
— O quê? — Ele apoiou a mão na parede e suspirei.
— Eu me senti um peixe fora da água... — Dei de ombros. — Achando que eu podia dar um lance em você... — Ri sarcasticamente. — Que idiotice minha.
— Não é idiotice, . — Ele suspirou.
— É! — Falei firme. — Eu fiquei feliz por sua mãe me pagar 100 mil dólares por um trabalho que eu vou fazer em quatro meses e multiplicar esse dinheiro com muito trabalho e horas sem dormir... E pessoas gastam isso literalmente em uma noite... — Ri sarcasticamente. — Eu não sei o que você viu em mim, eu claramente não faço parte do seu mundo...
— E quem disse que eu quero alguém do meu mundo? — Ele disse sério e olhei seus olhos direcionados a mim. — Eu vivi nesse mundo minha vida toda, e nesse mês, você me mostrou uma visão totalmente diferente do que eu já vi na vida. Se eu posso ter alguma vantagem nele, que seja para ajudar os outros ou para dar algumas regalias a você... — Dei um curto sorriso. — Você tem seus sonhos, deixe-me realizar eles...
— E o que eu faço com seus sonhos? — Perguntei, olhando para ele. — Eu não posso oferecer muito... Eu sou uma boa moça, venho de uma boa família, tive boas condições, mas... O normal, sabe?
— Eu preciso de um pouco de normalidade na minha vida... — Ele sorriu, acariciando meu rosto. — E eu encontrei...
— Em mim? — Perguntei rindo e ele assentiu com a cabeça.
— Sim... — Ele se aproximou. — Você, ...
Dei um sorriso, sentindo seus lábios encostarem nos meus. Ele inclinou seu corpo para perto do meu, fazendo meu corpo endireitar na porta e trocamos alguns selinhos antes de suas mãos me abraçarem pela cintura. Meus sapatos foram para o chão junto da bolsa e levei as mãos para seu pescoço, apoiando os braços nos seus.
O beijo foi lento, mas firme, sua mão apertava minha cintura, me causando pequenos arrepios. Dentro de mim tudo estava explodindo. Estava na expectativa disso pelo último mês inteiro e foi melhor do que a expectativa.
Nossos lábios se afastaram devagar, fazendo os narizes colarem e eu tinha um largo sorriso no rosto. Percebi que Lance também quando abri os olhos e encontrei seu rosto colado no meu. Rimos juntos e nos abraçamos novamente, me fazendo suspirar.
— Você quer entrar? — Sugeri. — Não com essa intenção, mas...
— Nem daria para fazer algo nessa sua cama... — Ele disse.
— Ai! — Brinquei, empurrando-o de leve.
— Você precisa acordar cedo amanhã e eu tenho media day, é um saco. — Ri fracamente. — A gente se vê na sexta.
— Ok, me passa as informações para eu ir lá...
— Eu peço para Chloe te pegar, assim você não precisa ir tão cedo e nem pegar o caos de imprensa e afins ao chegar comigo... — Assenti com a cabeça. — Não dizendo que não é para você ser vista, só...
— Eu entendo, Lance, não se preocupe. Eles já estavam em cima de mim hoje. Chegar no GP juntos talvez não seja a melhor coisa tão cedo...
— É... — Rimos juntos e ele segurou minhas mãos.
— Mas eu quero você lá comigo. — Assenti com a cabeça e nossos lábios se colaram de novo.
— Eu estarei lá. — Sorri. — Não vou perder a oportunidade de ir ao meu primeiro GP.
— De dentro do paddock...
— No paddock! — Rimos juntos e trocamos outro beijo e o abracei novamente, suspirando. Era muito bom ficar nos braços dele.
— Tenha uma boa noite, ok?! — Ele disse quando nos separamos.
— Você também. Dorme bem!
— Vou dormir. — Ele sorriu, colando nossos lábios novamente e se afastou devagar.
Acenei enquanto ele seguia pelo corredor até sumir pelas escadas. Fechei a porta, sentindo meu corpo leve e ri sozinha, dando pulinhos animados no lugar. Eu não ia parar de sorrir nunca.
Dei um passo para trás, esbarrando no box do banheiro, ouvindo-o fazer um barulho alto quando bati nele e suspirei. O banheiro era minúsculo!
Fiquei na ponta dos pés para tentar ver os tênis brancos junto com a calça jeans pantalona e uma camiseta de botões branca com corações pretos. Eu estou de , mas isso é suficiente para uma Fórmula Um?
Eu fiquei procurando algumas fotos nesses dois dias e as mulheres iam muito estilosas. Algumas muito sem noção, se quer saber. Agora eu não sei ser estilosa. Eu sou tradicional! Eu uso jeans, regata e tênis. Eu sou professora, eu ando de bicicleta, não uma Kendall Jenner da vida. Ou sei lá que famosas esses caras namoram.
— ! — Ouvi um chamado antes de algumas batidas na porta e suspirei, saindo do banheiro e imediatamente abrindo a porta.
— Eu preciso de um minuto! — Falei, vendo Chloe e Scotty do lado de fora.
— Uau! Você está fofa! — Ela disse e suspirei.
— Ah, fofa? — Voltei para o quarto, abrindo meu armário.
— O quê? Não é uma forma ruim! — Ela seguiu atrás de mim.
— Ela diz isso para todo mundo. — Scotty diz.
— Ah, que lugar fofo! — Ela disse sobre minha casa.
— Viu?! — Scotty disse, me fazendo rir.
— Não está mal? — Virei de frente para elas.
— Você está ótima! É cansativo, então é melhor você ir o mais confortável possível. — Ela disse e notei-a com um conjunto de macacão caramelo com um casacão por cima. — Só acho que vai passar frio.
— Ah, isso... — Peguei minha jaqueta jeans.
— Você tem algum moletom? — Ela perguntou.
— Sim, mas não vai ficar legal...
— Vai sim, acredite! — Chloe falou. — Faz muito frio lá.
— Muito! — Scotty disse.
— Virou ventríloquo agora?
— Desculpe! — Ele disse rindo e peguei um moletom rosa escuro que eu tenho da GAP.
— Ah, linda! — Ri fracamente.
— Eu estou nervosa.
— Nem dá para notar. — Scotty falou sarcasticamente e revirei os olhos.
— Relaxa. Vai dar certo. — Chloe disse. — Não prometo que não vá ser caótico, mas é como criança. Adora o brinquedo novo por dois minutos, depois já larga...
— Bem, não é bem assim...
— Xi! — Chloe disse e suspirei. — Vai dar certo.
— Por favor, não me deixem sozinha. — Pedi em um gemido.
— Não vamos. — Ela sorriu. — Vamos arrasar, garota. E eu quero saber tudo sobre o beijo.
— Como? — Perguntei e ela deu de ombros. — Lance! — Eles riram.
O clima estava menos frio do que Chloe mencionou, mas meu corpo tremia, provavelmente de nervosismo. Eu não sabia muito o que esperar, na verdade. Lance estava me deixando bem relaxada, havia me mandado fotos da mesma forma que nas últimas corridas que eu não fui, mas algo estava me deixando nervosa.
Ontem eu senti um pouco do que é o caos na Fórmula Um, fotógrafos a cada centímetro quadrado, pessoas com milhões de dólares sobrando na carteira e tudo que respira dinheiro, fama e publicidade. Eu não sou nada disso. Minha escola é pequena, está crescendo devagar. Meu maior momento de atenção foi no discurso de formatura do terceiro ano.
Afinal, eu fui a única que fechou inglês e português com 10... O resto é história!
— Não se preocupe, vai dar tudo certo. — Chloe disse.
— Eu não sei por que eu estou nervosa. — Falei.
— Você está entrando em um mundo totalmente novo. E eu não digo só sobre a F1, digo sobre Lance também. — Ela disse. — Um relacionamento gostoso, algo saudável...
— Totalmente fora da minha realidade em vários sentidos. — Suspirei.
— Então, acho que é a oportunidade perfeita para você ignorar esse nervosismo e deixar a vida acontecer... — Scotty disse e olhei-o pelo retrovisor do carro. — O quê? Não dá para ficar nervosa pelo que não conhece.
— Isso se chama ansiedade, Scotty, e dá sim. — Falei e ele ficou em silêncio por algum tempo.
— Se eu disser que você vai comer e beber de graça te deixa mais feliz? — Ri fracamente.
— Pior que sim! — Sorrimos.
Eu confesso que mesmo vendo fotos e vídeos, eu não sabia o que esperar. E realmente não era nada parecido com isso. A entrada do paddock nada mais era do que um estacionamento, e os fãs e fotógrafos se espremiam para tirar fotos de pessoas que chegavam ali. Eu não reconheci ninguém chegando, mas os fãs estavam gritando.
Mas eu sou brasileira, sei que a gente gritava até para o helicóptero no céu. Acho que a palavra “fã” não tem nacionalidade.
Scotty me entregou um passe e eu os copiei quando passamos da catraca. Fiquei surpresa quando vi a foto do meu perfil do Instagram na catraca. Louco.
Ao passar, era um largo corredor, com tudo que você podia imaginar. Começava com várias barracas, várias marcas, mulheres com largos sorrisos no rosto paradas como modelos e pessoas. Muitas pessoas. Seja andando, atrás ou dentro das barracas, repórteres, jornalistas, fãs, e sua maioria completamente uniformizada. As cores das equipes predominavam entre os funcionários e fãs.
Alguns fotógrafos se aproximaram para tirar fotos de Scotty e Chloe e alguns flashes saíram em minha direção, não sei se foi intencional, mas tentei agir igual ambos e fingir que nada aconteceu e continuar seguindo em frente. Alguns passos eles pararam e mais alguns passos, chegamos na área dos motorhomes.
Eu já tinha visto algumas fotos, mas não esperava nada desse tamanho. Eu já achava um motorhome grande, essas coisas eram uns seis motorhomes empilhados. Quando chegamos no verde da Aston Martin, eu deveria estar com feição embasbacada.
— ! — Foi a primeira coisa que eu ouvi quando entrei no motorhome, ainda tentando entender como aquilo tinha três andares e viajava entre países.
— Oi, mãe! — Desviei o rosto de Claire.
— Oi, Claire! — Sorri, abraçando-a.
— Ah, querida! Que bom te ver! Nem conversamos direito depois de quarta.
— Ah, não se preocupe. Eu trabalhei ontem normal.
— E o que está achando de tudo? — Ela perguntou, animada.
— É tudo tão grande! — Falei rindo. — Não estou acostumada.
— Você se acostuma com o tempo. — Vi o pai de Lance aparecendo atrás dela. — Venha ver quem chegou, Larry.
— Ei, pai! — Chloe deu um abraço no pai.
— Fala, sogrão! — Ele e Scotty deram um abraço.
— Oi, .
— Oi, senhor Lawrence. — Trocamos um rápido aperto de mão.
— , essa é Raquel, esposa do Larry. — Claire disse da mesma forma que apresentasse sua melhor amiga o que foi difícil não parecer surpresa.
— Oi! — Sorri, estendendo a mão.
— Ela é brasileira também!
— Ah, mesmo? — Falei surpresa, mas apesar do sorriso de canto de boca, não ganhei muito mais da loira.
— Sim, mas estou fora do Brasil desde os 19 anos. — Assenti com a cabeça, pensando quanto tempo fazia, pois ela deveria regular com minha idade.
— Então... Pai! Onde está Lance? — Chloe perguntou para tentar cortar o clima estranho que a nova loura de Lawrence trouxe.
— Ele está finalizando o briefing com a equipe. — Lawrence disse e assenti com a cabeça. — Fique à vontade, . As comidas da cantina são todas gratuitas...
— Obrigada, senhor Lawrence. — Falei, vendo-o colocar as mãos no bolso e logo se afastou com a esposa com o telefone na orelha.
— Bem, isso foi desconfortável. — Scotty disse.
— Sempre é... — Claire disse.
— Mesmo? Achei que vocês se davam bem.
— Ela não é de falar muito, falta um pouco de tato. — Chloe disse. — O assunto acaba rápido com ela.
— Qual a idade dela? Achei ela bem jovem... — Comentei, tentando não parecer rude.
— 36. — Chloe disse. — E não podemos nem ficar bravas com ela, porque meus pais terminaram antes de eles se conhecerem.
— Ela devia ter uns 20 na época. — Scotty zoou e Claire deu um tapa nele. — É brincadeira, sogrinha! — Ri fracamente.
— Te cuida, Scotty, vocês não casaram ainda! — Eles riram.
— ! — Virei o rosto, vendo Lance descer das escadas com algumas pessoas e me contive em dar só um sorriso.
— Ah, ! — Reconheci Sebastian Vettel ao seu lado e Lance imediatamente ficou vermelho.
— Oi, maninho! — Chloe disse e ambos vieram até nós.
— Chloe, Scotty, oi! — Ele cumprimentou-os.
— Oi, Seb! — Chloe disse e Lance veio ao meu lado. — Essa é , a futura namorada.
— Chloe! — Falei firme.
— Ah, só agilizando o processo. — Lance apertou meu braço.
— Oi... — Falei para ele, vendo-o sorrir.
— Oi. — Ele sorriu, dando um beijo em minha bochecha e senti meu rosto esquentar. — Oi. — Rimos juntos.
— Somos invisíveis. — Scott disse, me fazendo rir.
— Seb, essa é a , a mulher que eu disse. — Lance disse.
— Oi, , eu sou Sebastian. — Ele estendeu a mão. — Prazer em te conhecer.
— Prazer em te conhecer também. — Sorri, apertando sua mão.
— Seja bem-vinda! Se precisar de algo, pode falar comigo. — Ele disse gentil.
— Obrigada! — Sorri.
— Se me dão licença... — Ele disse e com um aceno se retirou.
— Eu tenho alguns minutos, quer subir comigo um pouco? — Lance ofereceu. — Não desse jeito...
— Eu entendi. — Rimos juntos.
— Mostre o local para ela, filho. Te encontramos na garagem.
— Combinado! — Ele disse, estendendo a mão para mim e segurei-a, seguindo atrás dele.
— Venha! — Ele disse e subimos com ele. Fomos até o último lance de escadas e saímos num balcão aberto, parecendo uma varanda de apartamentos com dois andares.
— Uau! — Foi o que falei ao ver tudo de cima. O local parecia um bar com sofás, cadeiras, até uma piscina. Algumas pessoas estavam andando por ali, todo mundo com a mesma camiseta verde da Aston Martin.
— Gostou?
— É legal! — Falei rindo, me aproximando da beirada e apoiando a mão. — É aqui que você vem para relaxar?
— Ah, não, eu me escondo no meu vestiário. — Ele abanou a mão.
— Mas ninguém é mal contigo aqui, certo?
— Ah, não. Todo mundo é bem legal, na verdade. — Ele disse. — Talvez porque precisem...
— Lance! — Suspirei.
— Não, tô brincando! As equipes, os pilotos, é legal. — Ele disse. — Eu só fujo de comentários on-line, apareço pouco no Instagram e tudo mais...
— Não acho que esteja errado. — Dei de ombros, virando para a vista e olhando para a rua embaixo. — Aqui é legal. Um pouco frio, mas...
— Sim, é legal! — Ele se debruçou ao meu lado. — Obrigado por vir. — Virei para ele.
— Eu disse que eu viria! — Sorri.
— Eu sei, mas... — Ele ponderou com a cabeça e me aproximei dele. — Você tem seus compromissos, é isso que eu estou dizendo.
— Não dizendo que eu vou poder viajar o mundo contigo, mas eu posso pedir uma folga. — Ele riu.
— Como foram suas aulas ontem?
— Foi legal! Fiquei um pouco ansiosa, mas tudo bem. — Falei.
— Por quê?
— Ah, de vir aqui, ver sua vida de dentro, te ver...
— É um pouco caótico, os fotógrafos são invasivos no começo, mas tudo dá certo. — Ele disse.
— E quando eu vou te ver mostrando seu talento? — Ele riu.
— Eu tenho treino às 13:30, coletiva às 15:30 e depois treino às 17h. — Chequei o relógio e era pouco mais de 10:30. — Logo o almoço é servido, e lá pelo meio-dia eu já começo meus protocolos.
— Tudo bem, eu me viro.
— Se você quiser ir para a pista, temos vários outros eventos lá, não é só F1.
— É? — Perguntei, curiosa.
— É! Tem outras categorias...
— Legal! Vá fazer suas coisas, eu peço para Chloe ou sua mãe ir comigo. — Falei, animada.
— Ei, não se livre de mim tão rápido assim! — Ele me abraçou pela cintura. — Ainda temos um tempo juntos. — Ri fracamente.
— E é seguro você me abraçar assim? — Perguntei e ele riu.
— Só tem fotógrafos da AM aqui, eles não postariam nada. — Sorri, vendo-o se aproximar. — Dá até para eu te beijar. — Ri fracamente.
— Então, beija! Faz tempo desde o último. — Sorrimos e ele colou nossos lábios, me fazendo passar os braços pelos seus ombros, colando nossos corpos mais perto.
— Uau! É alto! — Falei rindo, vendo algumas Ferrari passando pelo circuito.
— Na hora do treino a gente te leva lá na garagem. — Chloe disse. — Tem os fones, mas o legal é o barulho dos carros.
— Estou animada para ouvir! Na televisão é incrível!
— E pensar que dois meses atrás ela não tinha ideia do que era Fórmula Um! — Claire disse.
— Ei, também não é assim! — Rimos juntas. — Ayrton Senna é brasileiro, não se esqueçam! Eu só nunca prestei atenção. É legal! — Ela riu.
— Eu adoro a adrenalina, mas fico receosa com alguma batida ou algo assim. — Claire disse.
— Você poderia não ter me lembrado disso, eu já sou ansiosa de graça. — Ela riu.
— Bom, há o perigo, eles andam há mais de 300 quilômetros por hora... — Ela disse. — Mas é o sonho, então se a gente conseguiu ajudar a realizar os sonhos, então que vamos.
— E o esporte é muito mais seguro hoje em dia. — Chloe disse, acenando para Scotty que falava com outra pessoa.
— Quem é? — Perguntei de curiosa.
— Ah, é o Daniel Ricciardo…
— McLaren, certo? — Perguntei.
— Isso! Ele é australiano também, grande amigo do Scotty. Eles fazem algumas propagandas juntos... — Assenti com a cabeça quando Scotty se aproximou de nós.
— Meus amores, eu cheguei! — Ele disse rindo, passando o braço pelos ombros de Chloe.
— E como ela está? — Chloe perguntou.
— Elas estão muito bem! — Ele sorriu. — Acharam melhor ela não vir para cá, mas ela vai estar na Inglaterra. Pelo menos o bebê vai estar com um mês completo.
— Ah, que bom! Eu mandei uma mensagem pelo Instagram, mas acho que ela deve ter recebido milhares e ficou perdido.
— Ele agradeceu o presente. Falou que chegou certinho. — Scotty disse.
— Do que estão falando? — Claire tirou minha vontade de perguntar.
— Da Harper, esposa do Daniel...
— Noiva! — Scotty disse.
— Que seja! — Ela disse rindo. — O bebê deles nasceu dia três de junho.
— Sério? Que bênção! — Claire falou sonhadora.
— É um menino! Falaram que um meninão! Ela está com a mãe do Daniel lá em Mônaco. Vai tentar ir em Silverstone.
— Ah, que delícia! E estão bem?
— Sim, mamãe e bebê bem. — Scotty disse.
— Ah, que bênção! — Ela sorriu.
— Só falta o Daniel amadurecer agora, mas não vamos nos apressar. — Chloe disse, fazendo-os rir.
— Não, sem pressa. — Eles riram.
— Bom, vamos almoçar? Estou com fome! — Scotty disse, me fazendo rir.
— Não é nem novidade! — Claire foi irônica, me fazendo rir.
— Eu não tomei café, então estou faminta! — Falei, fazendo as risadas continuarem.
— Você pode se servir à vontade em qualquer lugar dentro do motorhome, tá? No bar, no restaurante, fique à vontade.
— Ah, o senhor Lawrence falou. — Afirmei com a cabeça. — Eu vou me soltando aos poucos, não se preocupem. — Eles riram.
— Logo vai se sentir uma verdadeira WAG. — Scotty disse.
— Uma o quê? — Franzi a testa.
— Deixa quieto! — Claire disse, abanando a mão.
Uma das coisas que eu mais odiava nesse país era que aqui não tinha aquela cultura de ficar, pedir alguém em namoro, e depois sabe lá o que o futuro aguardava, mas eu não queria que o mundo me designasse assim antes mesmo de Lance me pedir. Era loucura!
Durante o fim de semana eu não saí para muitos lugares além da garagem para a hora dos treinos e da classificatória de sábado, mas toda vez que eu estava fora do motorhome, eu sentia que me olhavam. Os fãs, o pessoal da garagem, pelo menos Lance não parecia ser muito popular, então ao menos os fotógrafos não ficavam me buscando por aí. Mas ainda era estranho.
No dia da corrida, parecia que tudo mudou. No mesmo lugar em que tinha X pessoas, parecia que tinha 3X no domingo. Tinha mais pessoas, mais fotógrafos, mais famosos e mais caos — se a língua portuguesa me permitia falar assim.
Tive pouco contato com Lance, a parte de marketing da Fórmula Um era incrível e totalmente fora da realidade, até sentia falta dos meus tempos na área de comunicação. Então ele me encontrou logo que cheguei com Chloe e Claire, tomamos café junto de toda sua equipe e funcionários, e logo ele sumiu.
Me ocupar num lugar sensacional como aquele era fácil, mas ficava um tanto chato quando você não tinha tanta intimidade com ninguém.
O horário da corrida chegou e segui o pessoal para a garagem, nos deram headphones igual a gente via na televisão e me indicaram um canto para eu ficar sentada em uma banqueta alta. Quando estava próximo das duas da tarde, Lance e Sebastian apareceram, cada um seguindo para um lado da garagem.
Apesar de as câmeras da Fórmula Um e da AM estarem em cima da gente, isso não impediu que Lance fosse cumprimentar toda sua família e a mim.
— Já cansou? — Rimos juntos e neguei com a cabeça.
— Não, acho que é impossível cansar. — Brinquei e ele sorriu. — Toma cuidado, tá?
— Pode deixar. — Ele apertou uma mão em minhas costas e colou seus lábios em minha bochecha em um curto beijo, me deixando envergonhada com a atenção. — Te vejo depois.
— Até depois. — Acenei e ele seguiu para fazer seus protocolos com sua equipe.
Vi uma câmera em meu rosto, mas tentei não expressar muito, só mantive o rosto fechado, mas apostava que minhas bochechas estavam roxas.
Os dois carros da AM saíram junto de outros que passaram pelo paddock, e o caos que a gente via na TV começou. Lance largaria em décimo sétimo, isso é péssimo. Sei que Lance não é competitivo para vitórias e campeonatos, mas eu estou aqui, espero que ele tenha um bom resultado.
Após o hino do Canadá, tivemos o “Light out and away we go”.
— Ah, cara, eu quero minha cama! — Lance disse ao sair do banheiro com jeans e um moletom cinza.
— Imagino. — Falei, rindo. — Quantos quilos você perde de corrida para corrida?
— Uns três... Quatro, depende do dia... — Ele se sentou ao meu lado. — Mas nem é a corrida que cansa, é o em torno geral. Se fosse correr e ir embora, não ficaria assim.
— E agora? O que você vai fazer? — Perguntei.
— Pensei em irmos lá para casa, pedimos uma pizza e conversamos até dormir... — Ele disse. — Porque honestamente é só o que eu tenho pique para hoje. — Ri com ele.
— Não se preocupe, Lancelot, sei que não fará nada que eu não queira. — Ele assentiu com a cabeça.
— Exatamente. — Ele deu um beijo em minha bochecha e sorri. — Topa?
— Eu tenho que trabalhar pela manhã... — Gemi. — Na escola.
— Podemos passar na sua casa, você pega uma troca de roupa e amanhã cedo você vai.
— Você não vai embora amanhã, vai? — Perguntei e ele negou com a cabeça.
— Não se preocupe. Ficarei aqui mais uma semana. — Assenti com a cabeça.
— Bom! Podemos fazer assim, então. — Ele piscou, se levantando.
Ele terminou de arrumar suas coisas e logo seguimos para baixo. Lance cumprimentou algumas pessoas, Vettel nos cumprimentou mais uma vez, feliz por me conhecer, e seguimos pelo paddock.
— Onde estão seus pais? — Perguntei.
— Meu pai deve estar em reunião, minha mãe e a Chloe já foram.
— Eu poderia ter ido com eles, não quero atrapalhar. — Falei.
— Você não atrapalha. — Ele disse, me fazendo sorrir. — Estou feliz por te ter aqui.
— Sou feliz por me permitir viver isso. — Falei.
— Espero que viva muito mais. — Sorri.
— Tomara!
O paddock já estava bem mais vazio do que ao longo da corrida, alguns funcionários ainda passavam de lá para cá, levando pneus, partes de carro ou só pastas nas mãos.
— Ei, Estie! — Lance gritou para algum colega e identifiquei Ocon quando ele se virou.
— Ei, Lance, já está indo? — Ocon falou.
— Sim, aproveitar com a família um pouco.
— Não só a família, imagino! — Ocon disse e fiquei vermelha pela milésima vez aquele dia.
— Sutil, cara! — Lance disse e ambos estalaram as mãos em um aperto.
— Prazer em te conhecer, ! — Ocon disse e troquei um cumprimento mais suave. — Se cuidem!
— Você também! — Eu e Lance falamos juntos e Lance esticou a mão para mim e segurei-a.
— Quer andar assim? — Perguntei.
— Não tenho por que não. — Ele disse. — Estamos juntos, não?
— É o que todo mundo está falando, aparentemente... — Falei.
— E você quer isso? — Ele perguntou.
— Quero, mas... — Ele franziu a testa. — Eu quero que você me peça.
— Te peça?
— Sim! Para ser sua namorada. — Falei. — É comum no Brasil, sabe? É algo importante...
— Ok... — Ele ponderou com a cabeça. — Eu não vou fazer isso agora, aqui, no meio do paddock no fim do dia. — Ri com ele. — Eu vou planejar e fazer em um momento mais apropriado, que tal?
— Acho que vou gostar disso. — Ele sorriu.
— Combinado! — Ele esticou a mão novamente e rimos, voltando a andar pelo paddock.
Nós caminhamos pelo paddock até passar pela mesma catraca de entrada, um fã ou outro ainda estava perdido ali, mas não houve gritos da parte dela, então Lance não deu muita atenção. Eu evitava pesquisar sobre o Lance corredor, porque muita gente não gostava dele, mas isso não era motivo para xingar os outros.
Andamos um pouco até chegar no estacionamento privativo onde a Aston Martin, que eu andei no dia do leilão, estava lá. Ele abriu as portas pela chave e entrei do lado do motorista. Dirigimos pela cidade, passando em casa para pegar uma roupa e devo dizer que senti vontade de entrar no meu chuveiro. Depois seguimos por Montréal, pegando um pouco de trânsito até chegar em sua casa. Alguns carros estavam estacionados no jardim.
— Vem! — Ele me disse antes de se aproximar do meio entre os dois bancos.
— Onde? — Perguntei e ele segurou meu rosto.
— Aqui. — Ele sorriu, me fazendo rir com ele quando entendi e trocamos alguns beijos.
— Tentando fugir da sua família? — Perguntei e ele riu.
— Não é isso, é que talvez vá levar um tempo para termos privacidade. — Assenti com a cabeça.
— Vamos lá. — Dei um longo suspiro e confirmamos antes de sair por lados opostos.
Ele abriu o porta-malas para tirar nossas mochilas e ele saiu mais carregado do que eu. Demos à volta pela casa e ao invés de entrarmos na porta de serviços, fomos até a área da piscina e entramos pela porta principal da casa, onde foi o primeiro almoço em que conheci Lance. De fora já deu para ver algumas pessoas lá dentro.
— Minha tia está aqui! — Lance disse, abrindo a porta e suspirei. Mais parentes para conhecer.
— Bem, acho que minha bateria social já era. — Lance disse, afastando o corpo na cadeira.
— Vá dormir, filho. Você já passou da sua hora. — Claire disse e vi que já passava da uma da madrugada. Se eu estava cansada, imagina Lance.
— Eu vou aproveitar a deixa também! — Chloe disse, bocejando logo em seguida.
— Boa noite, galera! Obrigada pelo apoio! — Lance disse ao se levantar e eu e Chloe o acompanhamos.
— Parabéns, filho! Vamos evoluir juntos. — Lawrence disse e Lance deu um curto sorriso.
— Bom te ver, tia! — Lance deu um beijo em sua tia, Vanessa, e aproveitou para passar pela sua mãe que puxou-o pela cabeça, encostando sua cabeça e sussurrou algo:
— Yesimecha Elo-him kê Efraim vechi-Menashe. — Imaginei que fosse algo relacionado ao judaísmo.
— Boa noite a vocês! — Ele disse.
— Boa noite! — Falei fracamente.
— Boa noite, queridos sogros! — Scotty falou pomposo como sempre.
— Comportem-se! — Claire disse, nos fazendo rir e a ouvi sussurrar algo semelhante para Chloe antes de ela nos seguir com Scotty.
— O que sua mãe te disse? — Perguntei, subindo os degraus.
— É uma bênção judaica, basicamente quer dizer “que Deus te abençoe como Efraim e Menashe”. — Assenti com a cabeça.
— E o que quer dizer? — Ele suspirou, rindo fracamente e Chloe riu.
— Vai! Explica! — Ela o provocou.
— A história é meio longa, mas basicamente Yaacov, quem fez essa benção, inicialmente, teve 12 filhos, e um deles, Yossef, permaneceu justo durante toda a provação no exílio, então ele chamou os filhos de Yossef e lhes deu uma bênção especial. Que eles se tornassem modelos para os filhos judeus do mundo todo.
— Legal! — Falei, sorrindo.
— Nota 10 em Estudos Bíblicos, Lance! — Chloe disse, esticando a mão para ele.
— Ufa! — Ele brincou, fazendo-nos rirem e estalarem os dedos.
— Boa noite, galera! — Scotty disse.
— Boa noite! — Falei.
— Não façam tanto barulho, por favor! — Lance o empurrou, fazendo-o sair gargalhando e seguimos em frente.
— Idiota! — Lance disse, rindo e sorri.
Acho que era a primeira vez que eu tinha ido para o segundo andar. Era bem largo, me sentia no corredor dos quartos da casa da Cinderela. As portas eram altas, talvez uns cinco metros e largas. Ele abriu uma porta no começo do corredor e deu espaço para eu entrar.
Apesar da decoração clássica do lado de fora, dentro era igual o quarto de um adolescente... Bem, com um toque de um designer de interiores, é claro. A cama ficava no meio do quarto, literalmente. Atrás tinha um pequeno deck onde ficava toda montagem de escrivaninha, computadores e videogames. Na frente da cama, uma televisão pendia do teto. Em um dos lados tinha uma poltrona com uma mesa de centro, uma poltrona de reclinar e uma prateleira com alguns fios. Um corredor seguia perto da larga janela que cobria de cima a baixo, me permitindo ver um pouco das luzes de Montréal ao fundo.
— O banheiro é pelo corredor, fique à vontade. — Ele disse.
— Deus! — Falei e ele riu.
— O quê? — Ele perguntou.
— Esse quarto é maior do que minha casa. — Falei.
— Qualquer coisa é maior do que sua casa, ! — Ele disse e dei um soco em seu ombro, fazendo-o rir.
— Falei da do Brasil.
— Ah, certo! — Ele riu irônico e lhe mostrei a língua.
— Não quer ir primeiro? Você está mais cansado do que eu.
— Não se preocupe, me troco no closet, depois só escovo os dentes.
— Combinado!
E assim foi feito, enquanto tomava banho e cuidava da minha higiene pessoal no banheiro, Lance se trocou e deu fim em alguns de seus itens na mochila. Quando saí pronta para dormir, ele entrou somente para escovar os dentes.
— Se importa de dividir cama? — Ele perguntou.
— É claro que não. — Falei e ele assentiu com a cabeça.
— Qualquer coisa só me falar, está bem?
— Não se preocupe! — Fui até a cama, começando a tirar o grande edredom que a cobria e que seria usado pelo tempo mais geladinho à noite. Lance se aproximou da janela e apertou um botão, fazendo baixar um blecaute, deixando o quarto iluminado somente pelas luzes amarelas. — Legal! — Falei, rindo.
— Prático! — Ele disse, rindo.
Me ajeitei na cama e ele logo se deitou ao meu lado, puxando o edredom para cima dos nossos corpos e nos encontramos no meio do caminho. Ele me abraçou pela cintura e eu apoiei minha mão em seu peito, sentindo nossos lábios se encontrarem logo em seguida. Os beijos não ficavam rápidos e nem começamos a suar, pois nossos corpos estavam completamente exaustos.
— Você gostou do fim de semana? — Ele perguntou.
— Sim, eu amei! — Sorri. — Podia ter um desse por semana. — Ele riu.
— Ah, não, eu preciso descansar! — Sorri.
— Então descanse, Lancey. Descanse! — Falei
— Boa noite, ! — Ele disse.
— Boa noite, Lancelot! — Sorri, sentindo mais um beijo em meus lábios.
— Alexa, desligar as luzes! — Ele disse.
— Tudo bem! — O som elétrico disse e as luzes se apagaram.
E em menos de dois minutos depois, Lance já estava roncando.
Que inveja!
— É um leilão! Ela venceu! — Lance insistiu. — Não vai acontecer nada, ! Eu prometo! — Ele disse firme pela milésima vez.
— E quem disse que eu estou achando algo de você? É nela que eu estou pensando! — Falei, desfazendo os braços cruzados e o beiço.
— É um leilão, ... não é o primeiro, e provavelmente não vai ser o último. — Suspirei, notando que ele tinha parado de brincar e agora falava sério.
— É estranho...
— Talvez... É um estilo de vida um pouco estranho, mas não estou pensando nisso. Estou pensando na causa. — Suspirei, pensando na amiga de infância da minha mãe que faleceu após dupla mastectomia. — Você confia em mim? — Bufei alto.
— Sim, eu confio. — Falei e ele assentiu com a cabeça.
— Ótimo! — Ele vestiu o casaco de volta. — Nos vemos amanhã? — Suspirei, checando o relógio, vendo que tinha uns 10 minutos para minha próxima aula.
— Sim... — Tentei novamente a tática do beicinho e ele me deu um selinho, me fazendo suspirar.
— Divirta-se? — Falei e ele assentiu com a cabeça.
— Eu vou, na verdade, porque esses jantares costumam ser bem chatos para quem leva para jantar. — Suspirei.
— Vocês deveriam ter me deixado dar um lance. — Falei e ele revirou os olhos.
— Tchau, ! — Ele disse.
— Tchau. — Suspirei. — Boa noite.
— Boa noite! — Ele estalou um beijo em minha bochecha antes de sair pela porta, me fazendo suspirar.
Apesar de ter quatro aulas com uma hora de intervalo, a noite passou muito devagar. Eu só ficava pensando em Lance com sei lá quem. Confesso que na hora não percebi quem foi que ganhou o lance, acho que uma mulher entre os seus 40 anos. Não podia falar nada, pois atualmente não tem isso de idade, e na minha cabeça, uma mulher que dava um lance aleatoriamente para ter um piquenique com um famoso, só tinha uma intenção.
— Você confia nele, você confia nele! — Era o mantra que eu falava enquanto comia meu miojo na hora do jantar, e o que minhas alunas falaram para mim durante as aulas.
Fechei o notebook 22:30 da noite, só querendo esquecer de tudo para que a ansiedade passasse. Tirei rapidamente a roupa que usava e fui para o banho. Queria um banho de cabeça e tudo, mas não estava a fim de secar o cabelo a essa hora. Saí do box enrolada na toalha, ficando assim enquanto novamente escovava os dentes e passava um hidratante no rosto.
Franzi o rosto com as batidas na porta e chequei o relógio novamente ao ver que estava perto das onze horas. Me aproximei dela, colocando a orelha perto da porta.
— Quem é? — Cochichei.
— O amor da sua vida. — Ouvi a voz de Lance e ri fracamente, destrancando a porta e o vi com a mesma roupa da hora que ele saiu. — Uau, que bela recepção!
— Espera um pouco, vou me trocar! — Ele riu e me tranquei no banheiro para colocar o pijama.
— Você viu?! Eu estou vivo! — Ouvi Lance e revirei os olhos, pendurando a toalha no box.
— E espero que sem nenhuma marca de batom! — Falei, abrindo o banheiro, dando de cara com ele. — Filho da mãe! — Ele riu.
— Sem marca de batom! — Ele esticou as golas para cima, me fazendo sorrir.
— Você não tem ideia como eu fiquei. — Ele me abraçou pela cintura. — Como foi? Não precisa falar tão empolgado! — Ele riu.
— Foi ok. — Ele disse. — Depois dos primeiros minutos de surto, só fiz o passeio que tinha programado. — Ele deu de ombros.
— Ela não era su-u-u-u-u-u-per fã? — Revirei os olhos e ele riu.
— Ela é, na verdade. — Suspirei. — Foi nada demais, . Está tudo bem! — Suspirei.
— Ok, ok, vou acreditar! E só de você estar inteiro aqui, me deixa mais feliz. — Ele sorriu.
— Vai dormir aqui? — Perguntei.
— Dormir na sua cama minúscula ou ir para cama e dormir na minha?
— Não fale mal da minha casa! Ela é boa! — Fiz um bico e ele me deu um beijo.
— Eu vou dormir aqui por você! — Ele disse e sorri.
— Bom! — Dei um pulinho para o quarto/sala/cozinha e puxei a cama de baixo, vendo que já estava com o lençol de baixo. — Você quer dormir na de cima ou na de baixo?
— Na de baixo, não vou te deixar dormir na pior cama. — Suspirei, pegando um lençol e uma coberta no armário.
— Mas você é um atleta, precisa dormir bem. — Falei.
— Eu gosto de acampar, já dormi mal antes. — Ele disse e ri fracamente.
— Eu vou me trocar. — Ele foi para o banheiro enquanto eu tirei a proteção da minha cama.
Aproveitei para fechar a cortina e já me deitei na cama, aproveitando para fazer minhas orações diárias. Lance saiu do banheiro mais cheiroso do que entrou e sorri, finalizando minhas orações.
— Pronta? — Ele perguntou e assenti com a cabeça. — Vamos ver se é gostosa mesmo! — Ele se deitou ao meu lado, me fazendo rir.
— Idiota! — Virei o rosto para ele, vendo-o se ajeitar na caminha.
— É bom... até... — Revirei os olhos, batendo a mão no disjuntor.
— Idiota! — Ele riu.
— Adoro seus elogios! — Sorri, vendo-o se virar da mesma maneira, me olhando da caminha mais baixa.
— Chato! — Ele sorriu.
— Vem aqui! — Ele indicou com a cabeça.
— Não cabem duas pessoas aí! — Falei.
— Vem... — Ele disse de novo e inclinei meu corpo para sua cama e ele me puxou para ele, caindo parcialmente em cima dele. — Viu? Cabe! — Ri fracamente, vendo seu sorriso pela pouca luz que entrava.
— Depois reclama que eu te chamo de idiota. — Ele me apertou pela cintura.
— Seu idiota! — Ele disse e colou nossos lábios novamente.
Os pequenos selinhos logo começaram a trazer algo a mais. Meu corpo começou a esquentar e nossas línguas se encontraram, me fazendo suspirar.
— Se eu não sair daqui agora, você vai... — Sussurrei.
— Você não quer? — Ele sussurrou de volta.
— Quero... — Falei. — Aqui? — Ele riu fracamente, tirando o cabelo do meu rosto.
— Quem sabe você me convence de que aqui é gostoso? — Rimos juntos e ele voltou a colar nossos lábios novamente.
Ele inclinou seu corpo, me colocando por baixo, me fazendo rir ao bater a cabeça na quina da cama, e logo seu corpo estava em cima do meu.
— Eu te amo, . — Ele disse, fazendo meus olhos se arregalarem de surpresa.
— Eu te amo, Lancelot. — Repeti com facilidade, fazendo-o sorrir e colar nossos lábios novamente.
O beijo se tornou mais intenso, fazendo com que a ereção de Lance se tornasse aparente, fazendo meu corpo se arrepiar a cada toque. Nossas roupas começaram a ser jogadas para o chão e suspirei quando ele me preencheu, mantendo nossos corpos colados e o suor deslizando pelo corpo.
— Lance, cala a boca! — Falei, ouvindo sua gargalhada em seguida, se escondendo atrás do sofá novamente. — Eu estou aqui como professora da sua mãe, não sua... Sei lá o que somos! — Falei.
— Ainda não oficializaram nada? — Claire voltou da cozinha. — Faz tempo que estão juntos.
— Ela quer que eu peça. — Ele falou detrás do sofá.
— Como assim? — Claire perguntou, colocando alguns salgadinhos na nossa mesa.
— É comum no Brasil você formalmente pedir alguém em namoro, e essa cultura de que depois de alguns beijos já estão em um relacionamento não me agrada. — Falei.
— Hum, interessante. Precisa ser algo pedido para os pais ou...?
— Não! — Falei. — Bem, não necessariamente, casais mais novos acabam pedindo, mas os mais velhos não. — Ela compreendeu. — É um gesto...
— É um gesto bonito! — Claire disse. — Eu super aprovo, Lancey.
— Eu vou preparar algo, mas vai ser surpresa! — Ele disse, se levantando. — Preciso voltar... — Suspirei.
— Não fala sobre isso! — Falei quase em um gemido. — Não quero saber.
— Eu tenho, ! — Ele disse e suspirei. — Mas não hoje.
— É, amanhã, gra-a-ande diferença. — Falei ironicamente e ele suspirou.
— Por que vocês não saem hoje? — Claire sugeriu, comendo uma batatinha. — Aproveitam a noite, a dorme aqui e amanhã cedo ela vai contigo no aeroporto.
— Não tenho nada melhor para fazer. — Falei.
— Combinado! Mas depois! — Falei firme. — Vamos voltar, Claire?
— Vamos! — Ela ajeitou sua postura na cadeira.
— Vamos falar sobre o verbo imperfeito! — Ela deu um longo suspiro.
— Vamos... — Ela disse, rindo e coloquei uma batatinha na boca.
— Ok, estou pronta! — Saí do banheiro de Lance, dando uma batidinha nos cabelos.
Não tinha trazido muitas roupas para passar o fim de semana na casa de Lance, então optei por uma calça jeans, botas e um suéter larguinho. Costumava usá-lo em casa no frio, mas era o que eu tinha por enquanto, para evitar que eu voltasse para casa só para trocar de roupa.
— Você está linda, ! — Ele disse, usando uma calça jeans escura, uma camiseta cinza e um blazer de outro tom por cima.
— E você está todo bem-vestido. — Ele negou com a cabeça, vindo em minha direção.
— Não estou! Chegando lá eu tiro e ficamos iguais! — Suspirei. — Vou te levar para um lugar legal! — Ri fracamente.
— Eu gosto de lugares legais! — Caminhei até ele, segurando sua mão.
— E gosta de comer também? — Ele perguntou e ri fracamente.
— Sim! — Abri um largo sorriso e ele riu, colando nossos lábios rapidamente.
— Então vamos! — Ele indicou com a cabeça e eu ri, seguindo com ele.
Kenya latiu quando saímos do quarto e acariciei-a rapidamente antes de descer as escadas. Acenamos para Claire que estava na sala de leitura e Sebastian que estava na cozinha para a garagem. Entramos na larga garagem, vendo diversos carros de luxo da família Stroll e fomos no mesmo Aston Martin de sempre.
Chegamos perto da baía King Edward e entramos em direção à Basílica de Notre-Dame. A rua começou a ficar movimentava devido ao sábado à noite, fazendo Lance andar mais devagar devido às pessoas na rua, mas ele logo parou.
— Chegamos! — Ele disse, já abrindo a porta e virei o rosto para o lado, vendo “Mangiafoco” no vidro, me fazendo arregalar os olhos ao mesmo tempo que um valet abriu a porta e Lance apareceu ao seu lado.
— É o restaurante do Jeff! — Falei, animada. — Obrigada! — Agradeci ao valete que assentiu com a cabeça.
— Sim! Achei que você gostaria de comer pizza! — Ele riu, me segurando pela cintura.
— Pizza italiana, com você e no restaurante do Jeff?! Si-i-i-im! — Falei animada, saindo da rua e oficialmente entrando no restaurante.
— Vem! Não garanto que ele esteja aqui, mas podemos aproveitar. — Ele disse. — Mesa para dois, por favor. — Falou ao garçom.
— Me sigam! — Ele disse.
— Ah, Lancelot! É incrível aqui! — Segui atrás dele, olhando todos os cantos do restaurante.
O local tinha uma iluminação mais baixa, somente com alguns spots de luz. A maioria das mesas por onde passamos são de dois lugares, mas do outro lado era possível ver mesas em grupo. O garçom indicou a mesa e puxou a cadeira para que eu sentasse.
— Mercí! — Falei e ele nos entregou os cardápios.
— Logo volto para anotar os pedidos.
— O que achou? — Lance me perguntou.
— É demais! — Suspirei.
— Nunca tinha vindo aqui?
— Nunca entrei! — Falei. — Passei na frente algumas vezes logo que cheguei aqui, mas na época estava como turista, então não gastava caro com comida... — Ele assentiu com a cabeça. — Depois a rotina acabou impedindo que eu viesse. — Falei, passando os olhos pelo cardápio. — E os valores nem são tão caros.
— Que tal um vinho suave e uma tábua de frios para começar? — Ele perguntou.
— E depois pizza? — Ele riu.
— E depois pizza! — Ele disse e assenti com a cabeça, vendo-o sorrir comigo.
— Acho que nunca te vi tão feliz! — Lance disse, rindo enquanto eu engolia o último quarto de pizza.
— É pizza! — Suspirei, fechando os olhos enquanto mastigava. — Melhor! Pizza italiana! — Ele riu.
— Bom! Agora já sei como te ganhar se estiver brava! — Revirei os olhos, limpando as mãos do guardanapo.
— Por que me trouxe aqui? — Perguntei e ele riu.
— Porque foi uma das primeiras coisas que me disse quando nos conhecemos... — Assenti com a cabeça. — Eu gosto de agradar as pessoas.
— É fácil para você agradar às pessoas... — Ele deu uma revirada nos olhos.
— Não tão fácil... — Ele deu uma risadinha.
— Quando as críticas te incomodam? — Perguntei, apoiando os cotovelos na mesa.
— Depende... — Ele ponderou com a cabeça. — Alguns dias são piores. E não estou podendo contar muito com a sorte. O carro não está bom! Até o Vettel que é tetracampeão não consegue fazer milagre com o carro, imagina eu...
— E como você lida com isso? — Perguntou.
— Nós temos psicólogos na equipe. — Ele disse. — Meu pai sempre se preocupou com isso desde meus anos de kart... — Assenti com a cabeça. — Mas brincadeiras maiores, problemas maiores... — Confirmei.
— Só me prometa que não vai deixar se afetar com isso... — Ele segurou minha mão na mesa.
— Não se preocupe com isso. — Ele disse. — É por isso que eu me mantenho discreto na minha vida pessoal. Venho para cá nas pausas, nas folgas. Fico com meus amigos de verdade, minha família... — Assenti com a cabeça. — E agora você! — Dei um curto sorriso. — Tenho que admitir que é muito chato vir da Áustria para cá... — Rimos juntos. — Encarar pelo menos 10 horas de viagem...
— Faz muito tempo que eu não faço um voo longo, mas imagino... — Ele riu.
— Mas vale à pena por você. — Confirmei com a cabeça.
— Eu te amo, Lancelot... — Falei, vendo-o arregalar os olhos por uns segundos, aliviando em seguida.
— Ainda não me acostumei com isso... — Sorri. — Eu também te amo, ! — Ele disse rindo e meu sorriso se alargou. — Eu nem fui e já quero voltar... — Meu inclinei sobre a mesa e ele fez o mesmo, tocando nossos lábios rapidamente.
— Só mais duas semanas. — Falei e ele suspirou.
— Só mais duas semanas! — Ele disse e peguei o último pedaço da pizza, dando uma mordida.
— Vai ficar tudo certo, ok?! — Ele disse e suspirei.
— Eu sei... — Suspirei. Sentindo-o me abraçar fortemente.
— Eu volto depois do GP da Áustria. — Ele deu um beijo em minha cabeça, voltando a olhar em meus olhos. — Menos de duas semanas. — Assenti com a cabeça, suspirando.
— Menos de duas semanas. — Suspirei.
— Tem certeza de que não pode ir comigo? — Ele segurou meu rosto.
— Não posso. Eu tenho a escola, meus alunos... Sua mãe! — Ele assentiu com a cabeça.
— Ela precisa de você. — Assenti com a cabeça.
— Sim! — Ele colou os lábios nos meus novamente, me fazendo suspirar. — Vou sentir saudades.
— Eu também. — Ele suspirou, colando nossas testas. — Você vai estar aqui quando eu voltar?
— Não prometo nesse local, mas estarei em Montréal! — Ele assentiu com a cabeça.
— Vem cá! — Ele me abraçou novamente, dando um beijo em minha testa e colando nossos lábios em um selinho. — Eu tenho que ir.
— Ok... — Falei fracamente, assentindo com a cabeça.
— Eu te amo! — Assenti com a cabeça.
— Eu te amo! — Repeti, vendo-o sorrir.
— Nos falamos assim que possível. — Concordei.
— Combinado! Boa viagem. — Ele confirmou novamente e deu um aceno antes de se virar para o jatinho.
Me afastei vários passos, ficando ao lado de Chloe e Claire. Lance deu outro aceno antes de entrar no avião. Acenei rapidamente enquanto a porta se fechava e vi os empregados de solo começarem os procedimentos de saída.
— Uh! Chegaram finalmente no “eu te amo”? — Chloe disse e ri fracamente.
— Sexta! — Senti meu rosto esquentar.
— Ah, eu estou tão feliz por vocês! — Claire disse enquanto Chloe me abraçava.
— Ah, eu vou ter uma irmãzinha finalmente. — Ela foi dramática.
— Eu sou mais velha do que você! — Falei, fazendo-a me soltar.
— Não importa, ainda uma irmã. — Rimos juntas.
Nos afastamos até a cobertura do hangar e fiz um discreto sinal da cruz enquanto o avião taxiava pela pista do aeroporto de Montréal. Esperamos em silêncio até o avião correr pista e subir pelos ares.
— Bom, voltamos à rotina! — Chloe disse.
— Vai para onde agora, ? — Claire perguntou e suspirei.
— Acho que vou para casa, não apareço por lá desde sexta, preciso fazer uma faxina. — Falei.
— Está certo. — Ela confirmou. — Se precisar de qualquer coisa, estamos aqui.
— Não se preocupe, eu vou ficar bem! — Sorri. — Tenho bastantes aulas para me ocupar. — Rimos juntas. — Inclusive, sábado continuamos na sua saga com o italiano.
— Andiamo! — Ela disse, me fazendo sorrir.
— Bem, ao menos você aceita uma carona? — Chloe sugeriu.
— Não vou negar! O táxi do aeroporto é caro demais! — Elas riram e seguimos em direção ao carro que estava dentro do hangar de voos privativos.
— Ah, lá vai! — Suspirei, virando uma dose de tequila, fazendo ela e Beatrice rirem.
— Ah, fala sério! Faz quase uma semana que o Lance foi embora e você parece que está aguentando bem! — Chloe disse.
— É verdade! — Beatrice a apoiou e suspirei.
— É até que fácil lidar com as saudades quando você se entope de trabalho. — Dei de ombros, roubando um nachos do prato, mastigando-o antes de voltar a falar. — Qual é! Ele foi embora domingo, eu limpei meu apartamento e passei o dia lavando roupa, de dias de semana eu trabalho o dia todo na escola e ainda tenho outras quatro aulas em casa, e hoje passei o dia na sua casa... — Indiquei Chloe. — Nos falamos bastante por mensagem, uma chamada de vez em quando, mas ele está cinco horas à frente. Quando eu termino de trabalhar, já são três da manhã para ele...
— Bem, a corrida é amanhã, depois vai faltar somente uma. — Chloe disse.
— É... Vamos ver como ele se sai. — Dei de ombros.
— Querem ver juntas? — Beatrice sugeriu.
— É às 10 da manhã... — Eu e Chloe falamos quase juntas, fazendo-a rir.
— Não somos nós que acordamos seis da manhã para ir correr. — Chloe disse, nos fazendo rir.
— E cadê sua mãe? — Perguntei. — Ela disse que viria conosco.
— Reunião de emergência da empresa. — Foi Beatrice quem respondeu. — Até seu pai estava lá...
— Vish! — Chloe falou em um suspiro. — Ela não chega em casa antes das duas da manhã...
— O que isso significa? — Perguntei.
— Geralmente monetário. — Beatrice disse. — Às vezes é alguma coisa boa, alguma novidade, mas em geral são só contas. Todas as contas da Holding...
— Você não deveria estar lá? — Perguntei.
— Ah, não. Só o pessoal do alto escalão. Eu só sou uma assistente. — Ela ergueu as mãos.
— Mas é legal! Eu gosto das coisas que o marketing faz... — Chloe disse.
— E você? — Virei para Chloe. — Quando oficialmente vamos ouvir sua voz maravilhosa? — Ela riu.
— Estamos movimentando os pauzinhos. Talvez ano que vem eu tenha algo. — Ela ponderou com a cabeça. — Meu pai acha que é melhor tentar algo sem gravadora... — Ela ponderou com a cabeça. — Talvez seja e escolha para agora.
— Você parece incerta...
— Sim, eu sinto isso. — Ela disse. — Eu estou escrevendo músicas, compondo... — Ela ponderou com a cabeça. — Eu aviso vocês... — Rimos juntas.
— Bem, eu agradeço por ter vocês! Foi o melhor presente dessas últimas semanas. — Beatrice disse, nos fazendo sorrir.
— Bem... Eu tenho Scotty, está toda de coraçõezinhos com meu irmão, e você...? — Viramos para ela. — Você nunca falou de nada nesse departamento. — Ela riu fracamente.
— É complicado... — Ela suspirou.
— Bem, descomplique e conte para gente! — Falei.
— Eu sou gay... — Ela nos olhou e continuamos encarando-a.
— Então...? — Falei, mostrando que não nos importamos com isso.
— Eu tive uma namorada por cinco anos. — Ela suspirou. — Eu estava pronta para dar o próximo passo... Eu comprei flores, me vesti adequadamente, comprei o anel e fui pedir a mão com a mãe dela... — Ela suspirou.
— A mãe não deixou? — Chloe perguntou.
— A mãe nunca soube sobre mim... — Ela pressionou os lábios, suspirando. — Foi um milagre ela ter me dado o endereço certo. Ela é do Norte de Alberta...
— Wow! — Falei, até eu sabia o quão longe era.
— É... Aproveitei um fim de semana que ela disse que ia visitar a mãe, fui no dia seguinte, chegando lá eles estavam com uma família feliz, ela tinha um pseudo-namorado que usava para enganar a mãe...
— Oh! — Chloe disse. — Ela não era assumida para família.
— Não... — Beatrice falou em um suspiro.
— O que aconteceu quando você bateu na porta? — Perguntei.
— Eu percebi o que estava acontecendo no minuto que eles abriram a porta. — Ela disse. — Eu fingi que era a casa errada, mas uma tia me reconheceu de algumas fotos no Instagram. Ela disse: “você não é a amiga da Dominique?!” e eu fiquei umas três horas fingindo que eu era bestie da Dominique sem trocar uma palavra para ela.
— E então? — Chloe perguntou.
— Consegui fugir uma hora que chegou um vizinho, usei a desculpa que estava tarde e que precisava trabalhar um pouco. — Ela disse. — Dominique até veio atrás de mim, mas eu não quis conversar. E ela fica tentando até agora... — Assenti com a cabeça.
— Há quando tempo faz isso?
— Um mês... — Franzimos a testa.
— Ah, Deus! — Seguramos sua mão na mesa imediatamente. — E você não nos disse nada? — Chloe foi mais rápida do que eu. — Você deve estar sofrendo sozinha...
— É como a disse, é fácil ignorar o resto quando está trabalhando...
— A cabeça não... — Falei e ela ponderou com a cabeça.
— É... Mas eu só a mais nova entre cinco irmãos, então é fácil me distrair no fim de semana! — Sorrimos.
— Ah, legal! Quais idades? — Perguntei.
— O mais velho já tem 50, eu sou a raspinha... — Sorrimos.
— Ah, legal! E você pode contar conosco. — Chloe sorriu. — Acho que precisamos de outra dose de tequila.
— Eu poderia reclamar de não ser boa com bebida, mas acho que depois dessa conversa, merece. — Rimos. — E eu não me importo em passar por sua namorada se for preciso! — Ela sorriu, apertando minha mão e de Chloe.
— Obrigada, meninas! Vocês estão sendo uma grande distração.
— Ah, você não viu nada! — Chloe disse. — Vamos almoçar no meu apartamento amanhã. Scotty está viajando, então só nós.
— Depois da corrida? — Sugeri.
— É, , você pode dormir um pouco mais e ver a corrida da sua cama! — Rimos juntas.
— Até parece, gosto de ir à missa das oito. É do lado de casa, é mais prático. — Falei. — Além de que parece que a vida sabe que a gente pode dormir mais de domingo e acorda antes das sete. — Elas riram.
— Ah, eu odeio isso. — Beatrice disse, nos fazendo rir.
Manter minha agenda cheia não era difícil. Acordar pouco seis e meia, me arrumar, ir de bicicleta ou de metrô para a escola, começar as aulas às oito e ir até meio-dia. Uma hora rápida de almoço, voltar a uma da tarde, depois sair às cinco. Chegar em casa correndo para tomar um banho e dar aulas a partir das 18:30 às 23h com pausa de meia hora para jantar.
O problema era fazer minha mente parar de pensar em Lance.
Conversávamos muito durante nossos intervalos, mas enquanto ele estava na Inglaterra, estávamos cinco horas de distância, e quando ele foi para Áustria, aumentou para seis horas. Eu praticamente podia conversar durante meus intervalos, mas era quando ele estava trabalhando. E quando ele estava livre, eu estava trabalhando. E nem se fala depois das 23h, ele já estava dormindo há tempos.
Em Silverstone e na Áustria as coisas não foram muito boas para Lance. Na Inglaterra ele ficou em décimo primeiro lugar, e na Áustria em décimo terceiro. Pelo menos ele tinha conseguido terminar, mas como ele disse, o carro não estava ajudando nem Sebastien Vettel que era tetracampeão, já que ele ficou em nono e décimo sétimo, respectivamente.
Mas o que me confortava era que em menos de 48 horas, Lance estaria de novo aqui em Montréal e iríamos passar mais 10 dias juntos. Até o GP da França...
...
...
Acho que eu preciso parar de surtar por antecipação...
E voltar para a terapia.
Era perto da hora do almoço quando vi o nome de Lancelot piscar no celular em cima da mesa. Notei que até perdi um pouco de foco durante minha explicação de used to x would para a turma do avançado.
— Desculpe, perdi o fio da meada! — Os doze alunos riram. — Vamos fazer os exercícios da página 74? Eu vou dar uns minutos e fazemos um repasse antes da aula acabar.
Os alunos fizeram o que disse, seguindo para o fundo do livro e me sentei à mesa do professor. Mudei a aba na tela do notebook, vendo o WhatsApp aberto e vi uma mensagem de Lance.
“Olhe pela janela!” — Dizia, me fazendo arregalar os olhos um pouco.
Dei uma olhada rapidamente em volta, vendo os alunos atentos nos exercícios que eu tinha acabado de passar e me levantei novamente. Escrevi algumas palavras na lousa, já preparando para a correção dos exercícios e me aproximei da janela, espiando pela fresta da persiana.
Os olhos e bocas de Lance se separaram nas listras da persiana, me fazendo abrir um pequeno sorriso. Ele está aqui!
Fazer aqueles vinte minutos passarem, foi difícil. Ao menos a dúvida de uma aluna me distraiu e a correção dos exercícios fez o tempo de aula chegar à zero.
— Bom, gente! Por hoje é só! Aproveitem seu dia, e nos vemos amanhã! — Falei. — Não se esqueçam de se inscrever para a visita ao Museu Redpath na sexta!
— Tchau, teacher!
— Bye!
— Addio! — Os alunos se despediram e acenei para eles, mantendo um sorriso até a última pessoa sair.
— Bye, bye! — Falei, suspirando quando o último aluno saiu.
Fui correndo para meu notebook, desligando-o e guardando todos os materiais no armário. Juntei tudo na minha bolsa às pressas e saí da sala, desligando a luz e puxando a porta.
— Tchau, gente! Eu vou sair para almoçar! — Acenei para a secretária da escola.
— Até mais, ! — Ela respondeu e acenei para alguns alunos que ainda tomavam a recepção da escola.
Saí do prédio em que a escola ficava acenando para alguns alunos e me apressei para virar a esquina, parando ao ver Lance dando atenção para uns quatro fãs, me fazendo frear.
— Mercí! Mercí! — Lance falou após terminar de tirar selfie com o grupo completo.
— Tchau, tchau! — As meninas disseram, saindo apressadas. Visivelmente animadas pela foto que acabaram de tirar.
— Bonjour! — Ele disse, sorrindo para mim, me fazendo abrir um sorriso e correr para abraçá-lo.
— Ah, Lancelot! — Ele riu, apertando meu corpo. — Que bom que você está aqui!
— Sentiu saudades? — Ele perguntou contra meu ouvido em meio a um riso.
— Bobo! — Falei, me afastando dele, vendo seus olhos escuros e sobrancelhas grossas.
— Também senti saudades! — Ele disse, me fazendo rir e colamos nossos lábios por alguns segundos.
— Como você está? Cansado?
— Eu estou bem, dormi no avião. — Ele sorriu. — E você?
— Ah, bem feliz agora! — Ele sorriu.
— Quando eu vi que ia chegar por volta das onze, pensei em te levar para almoçar. Sei que você só tem uma hora de almoço, então podemos ir em algo rápido. — Ele disse.
— Ah, eu vou adorar! — Suspirei, sentindo-o colar nossos lábios novamente.
— Onde você normalmente almoça aqui perto? — Ele perguntou.
— Shelby’s! — Falei, animada e ele riu.
— Ah, você adora Shelby’s! — Ele segurou minha mão. — Para onde vamos?
— A pé? — Perguntei.
— Meu pai me largou aqui, para volta vou pegar um táxi. — Ele disse, me fazendo confirmar.
— Vamos, então! — Falei, rindo. — São só três quarteirões.
— Eu sou uma atleta, você sabe disso, não sabe? — Ele segurou minha mãe, enquanto andávamos.
— Eu sei, mas também sei que não costuma andar muito a pé! — Falei.
— Está tudo bem, ! — Ele disse, rindo.
— E que é bem famoso aqui em Montréal! — Ele seguiu andando com sua risada ecoando.
— É bom estar em casa! — Ele suspirou, seguindo pelo caminho que tinha indicado.
— E como foram as corridas? — Perguntei, colocando mais uma garfada do meu shawarma biryani.
— Você sabe... — Ele disse e assenti com a cabeça.
— Eu sei, eu assisti, mas quero saber como foi para você... — Ele riu fracamente.
— Bom, eu pessoalmente gosto muito de Silverstone, mas a batida do Zhou fez todo mundo ficar em alerta... — Ele ponderou com a cabeça. — A parte boa é que o Daniel levou o filho dele para conhecer.
— É?! — Falei surpresa. — E como ele é?
— Ele é uma graça! — Ele disse, rindo. — Mas é recém-nascido, ainda tem cara de joelho! — Rimos juntos. — Tanto que ele nem ficou na corrida. Pelo menos eu não os vi lá.
— Ah, é bom, muito novo! — Sorri. — E o Zhou, como está?
— Está ótimo! Correu na Áustria...
— É chocante a segurança da Fórmula Um. — Comentei.
— É... Essa é uma vantagem. — Ele disse. — Eu nunca tive nada similar a isso, mas é bom para nós.
— E qual é a próxima?
— França! Le Castellet... — Ele ponderou com a cabeça. — É bom!
— Sua empolgação me dá inveja! — Falei sarcasticamente, ouvindo-o rir.
— Ah, eu não quero ser o Lance corredor aqui, eu quero ser seu Lancelot. — Sorri, colocando um pedaço de falafel na boca. — Não vamos falar sobre isso.
— Então, sobre o que você quer falar? — Perguntei, vendo-o terminar de comer seu shawarma simples.
— Quais seus planos para hoje à noite? — Ele perguntou.
— Trabalhar... — Falei e ele parou para pensar.
— Hum... eu não contava com essa. — Ele riu. — Amanhã e quinta também?
— Sim! — Falei. — Sexta paro uma hora mais cedo, mas é...
— Oh, merda... — Ele suspirou. — E sábado você tem minha mãe...
— Sim! — Dei um sorriso discreto.
— Ok... — Ele suspirou. — Domingo! — Ele disse firme. — No domingo, vamos sair. — Assenti com a cabeça.
— Ok, no domingo! — Falei, rindo. — Mas você vai ficar comigo esse tempo?
— Eu vou! — Ele disse, rindo. — Estou me acostumando com seu cafofo! — Rimos juntos.
— Não fale mal do meu apartamento. — Ele riu.
— Eu te pego na escola e vamos juntos para o seu apartamento, que tal? — Assenti com a cabeça.
— Bom! — Falei. — Aproveita e pensa no jantar!
— Hum... Hortons? — Sorri.
— Você é viciado no Tim Hortons. — Rimos juntos.
— E você no Shelby’s. — Sorri.
— Se você me trouxer um milkshake deles, eu até deixo passar. — Ele riu.
— Caramelo?
— É claro! — Falei e olhei para o relógio. — Oh, droga! Eu tenho 10 minutos para voltar.
— Deixa eu pagar e te acompanho até a escola.
— Não posso ser parado por fãs. — Falei, fazendo-o rir.
— Ah, você? — Ele brincou.
— É claro! — Rimos juntos.
— Que roupa eu coloco? — Coloquei a cabeça para fora do banheiro.
— O que você quiser, . — Lance disse, desviando o olhar da TV.
— O que vamos fazer? — Perguntei.
— Não vou te contar! — Ele disse pela milionésima vez desde que chegou em Montréal na terça-feira.
— Se eu estiver malvestida, a culpa é totalmente sua! — Falei antes de fechar a porta novamente.
Finalizei de fazer uma maquiagem leve e saí do quarto novamente somente de calça jeans. Fui até o armário, pegando uma blusa de manga comprida fina e depois joguei meu tradicional suéter bege com gola larga por cima. Peguei as botas de salto baixo e as calcei antes de voltar para o banheiro para terminar de dar uma ajeitada nos cabelos. Passei um batom nos lábios e saí logo em seguida.
— Estou pronta! — Falei, pegando minha bolsa em cima da mesa.
— Linda! — Sorri. — Vamos lá! — Ele disse, se levantando.
Sua mão se apoiou em minhas costas enquanto saíamos de meu apartamento e quando descemos as escadas para o térreo. A Aston Martin estava estacionada atrás do apartamento e ele abriu a porta para mim antes de seguir para o seu lado.
— Aonde vamos? — Perguntei quando ele entrou no quarto e só recebi uma virada de olhos vindo dele. — Você é irritante demais, sabia?
— Ah, eu, né?! — Ele falou.
Saímos de meu bairro e seguimos pela Avenida Lionel-Grouix, pela Avenida Atwater e depois pela Rue Sherkroke O, até que começamos a andar ao lado do Parc du Mont-Royal. Ele levou o carro até um estacionamento e foi onde percebi aonde estávamos indo.
— Vamos para o Chalet du Mont-Royal, certo? — Perguntei.
— Seu francês está melhorando. — Ele disse e suspirei.
— Ainda bem que eu vim de botas. — Tombei a cabeça, ouvindo-o rir
— Ei, é um encontro romântico! — Rimos juntos.
— Eu sei, mas eu sou péssima com caminhadas... — Ele riu.
— Vai ser divertido! — Ele disse, descendo do carro e suspirei, empurrando a porta do outro lado. — O GPS diz que leva somente 12 minutos
— Seu espírito é de dar inveja! — Saí do carro, fazendo-o rir. — Não tem como a gente ir de carro, não?
— Tem... Mas eu não quero. — Ele me esticou a mão e assenti com a cabeça, segurando-a. — E sei que você vai gostar das fotos. — Sorri.
— Ok, ok! — O puxei, seguindo um pouco à frente.
— Eu vou te matar! — Falei com a voz fraca, enquanto via o Chalet finalmente aparecer na minha frente.
Eu já tinha tirado o suéter e suava nas axilas, enquanto Lance parecia que tinha saído de um catálogo de roupas esportivas.
Talvez no GPS eram só 12 minutos, mas foi muito mais! As escadas que levavam até aqui eram muito íngremes, além de que tinha várias pessoas fazendo o mesmo caminho, e Lance não estava muito a fim de se esconder. Sem contar que ele parava em toda curva para tirar foto com a vista da cidade. No começo era legal, mas depois ficou ruim quando meus cabelos armaram e o suor começou a ficar visível pela camiseta.
— Respira, ! Respira! — Ele disse, acariciando meus ombros.
— Ah, eu te odeio! — Suspirei, arqueando minhas costas para trás, puxando o ar.
— Vem! Eu pego água para você. — Ele disse, seguindo para perto do prédio.
Perdi alguns segundos recuperando o fôlego e logo o segui. Entramos pela porta principal, vendo o grande salão do chalet e o vi comprando uma água no café. Ele me esticou e virei-a quase em um gole, sentindo o corpo se acostumando devagar.
— Melhor? — Ele perguntou.
— Sim! — Suspirei e ele assentiu com a cabeça.
— Vem! — Ele esticou a mão e seguimos juntos.
Subimos os degraus para o segundo andar e tinha algumas pessoas tirando fotos, ele me guiou até o restaurante que tinha ali e um aceno de cabeça fez o garçom se mexer. Lance Stroll, senhoras e senhores.
— Vem! — Ele me guiou novamente e seguimos por uma porta, em uma larga sacada, onde dava vista para todo o local.
— Uau! — Falei, vendo-o sorrir.
— Gostou? — Ele puxou a cadeira para mim.
— É lindo... — Falei ao me sentar e ele se sentou à minha frente. — O que é tudo isso? — Perguntei.
— Um encontro. — Ele disse e rimos juntos.
O garçom que nos levou ao local chegou com duas taças de vinho tinto e uma tábua de queijos e embutidos, fazendo minha boca salivar.
— Ah, isso é incrível! — Falei e ele riu.
— Um brinde? — Ele sugeriu.
— A quê?
— Nós! — Ele disse e nossas taças se tocaram antes de eu dar um gole. — Espere até ver o restante do jantar. — Rimos juntos.
O jantar foi simplesmente impecável, com todas as comidas que eu mais amava da Itália. O prato de embutidos com prosciutto e diversos queijos me fizeram suspirar, depois um Tortelli d’Erbetta com espinafre e ricota e um molho de manteiga divino, me fazendo derrubar um pouco no suéter — que eu havia colocado quando a noite começou a aparecer — e por último, o meu favorito: um tiramissù!
— Ah, Lancelot! Eu poderia comer isso para sempre. — Ele riu.
— Eu sei! Por isso que eu escolhi isso. — Ele disse.
— Tentando me agradar? — Perguntei.
— O máximo que puder — Neguei com a cabeça.
— Só seja você mesmo. — Falei. — É por isso que eu te amo.
— Só por isso?
— Só por isso. — Dei de ombros. — O resto é consequência do seu trabalho. — Ele sorriu.
— Eu te amo por me dar essa oportunidade. — Ele disse. — De ser eu mesmo.
— Sempre. — Falei, trocando um rápido beijo com ele.
— Bem, vamos? — Ele disse.
— Eu quero aproveitar um pouco mais. — Gemi.
— Temos mais coisas para fazer! — Ele disse. — Aqui não é o fim!
— Sério? — Ele assentiu com a cabeça.
— E você ainda quer tirar umas fotos na vista ali da frente.
— Sim! Eu provavelmente nunca mais volto aqui! — Falei e ele riu.
— No inverno é tão bonito! — Ele disse.
— Eu pago um táxi! — Falei, vendo-o rir.
Seguimos para fora do Chalet, indo até a beirada dele e tiramos várias fotos juntos. O Sol já estava quase desaparecendo no horizonte, o que fazia o local estar mais vazio. Somente pessoas que jantariam no Chalet estavam ali em volta.
A descida não foi tão ruim, mas como tínhamos um ditado muito famoso no Brasil: para descer todo santo ajuda. E quase ajudou quando eu deslizei de bunda em um dos degraus um pouco úmidos, fazendo Lance se matar de dar risada.
— Se eu te levar para casa em segurança, vou me sentir no lucro. — Ele me disse ao me ajudar a me levantar.
— Ah, eu vou ficar toda dolorida amanhã! Deveríamos ter feito isso ontem.
— Você que não quis! — Ele disse, me fazendo rir.
— Eu não posso abandonar sua mãe, foi você mesmo que disse.
— Eu sei, eu sei! Mas também sei como não gosta de caminhar. Seria melhor, você teria domingo para descansar. — Ri fracamente.
— Eu tomo um analgésico e rezo para ter bastantes provas amanhã, que tal?
— Seria perfeito! — Ele disse, me fazendo rir.
Terminamos nosso caminho até o carro e seguimos nele novamente. Dessa vez o carro foi para perto do Rio São Lourenço novamente, passando perto de Chinatown, até a roda-gigante Le Grande Roque no Jacques-Cartier Pier. Local onde ficava o famoso Cirque du Soleil. Dessa vez a tenda não estava lá, mas as pessoas enchiam o local. Talvez pelo horário, ninguém reconheceu Lance.
Pensei que iríamos na roda-gigante, mas Lance foi para trás dela e encontramos o rinque de patinação. Quando era inverno, ele funcionava no lago atrás da roda-gigante, mas em tempos de mais calor, funcionava no prédio atrás dele.
— Aonde vamos?
— Patinar! — Ele disse como se fosse óbvio, me puxando para dentro.
Segui animada atrás dele, vendo o local com algumas pessoas e dei pulos animada. Eu adorava patinar e era uma coisa que eu realmente era boa, ironicamente, pois antes de vir para Montréal, eu nunca tinha visto neve antes.
— Vamos lá! — Falei, animada.
Deixamos nossas coisas no guarda-volumes e trocamos nossos sapatos pelas lâminas. Caminhamos de mal jeito até a entrada do ringue e me impulsionei para frente quando pisei no gelo, dando uma rápida volta até o outro lado, vendo Lance vir um pouco mais lento em minha direção.
— Vem! — Falei, rindo.
— Eu não sou bom nisso.
— Como não? Você esquia! — Falei.
— Exato! Eu esquio! No snowboard. Não sou bom em patinação!
— Ah, mentira! A menina que mora num país tropical é boa e você não? — Rimos juntos e ele me segurou pela cintura, girando comigo.
— Quero ver você em cima de um snowboard. — Ri com ele, patinando devagar.
— Não! Muito menos em esquis convencionais. Isso provavelmente nunca daria certo. — Ele riu. — Ainda mais em cima de uma montanha.
— Você pega o jeito! — Ele disse.
— Você pode pegar o jeito também! — Falei, puxando-o pelas mãos.
— Vai ser lindo eu levar um tombo aqui. — Ele disse, rindo.
— Se isso acontecer, faço questão de pedir a câmera de segurança e colocar na internet! — Ele riu, me abraçando pela cintura.
— Ah, não! Nem vem! — Rimos juntos e o abracei apertado, mantendo nossos rostos próximos. —
— Eu amei hoje! — Ele sorriu.
— Eu sei que você ia gostar. — Ele disse. — Planejei tudo pensando em você.
— As comidas de Parma... A patinação... — Ele sorriu. — Foi perfeito.
— Ainda tem mais uma coisa... — Ele disse.
— Mais? — Falei, surpresa. — Que horas são? — Virei o rosto para o grande relógio no rinque e vi que era quase dez horas.
— O último podemos fazer da sua casa. — Ele disse.
— Qual o último? — Perguntei.
— Sfogliatelle e chocolate quente do Tim Hortons! — Ele disse envergonhado e sorri, colando nossos lábios rapidamente.
— Você é incrível! — Falei, ouvindo-o rir. — Parece que eu já ouvi isso antes.
— O quê? — Ele perguntou.
— O Chalet, a patinação, o chocolate quente... — Falei.
— O leilão. — Ele disse. — É minha caixa.
— Oh, é verdade! — Falei, surpresa. — É mesmo! Sua caixa que não me deixaram dar um lance. — Ele riu. — Oh, Lance! Obrigada! — Suspirei, sentindo meus olhos encherem de lágrimas. — Ah, foi perfeito! — Suspirei.
— Eu fiz a caixa pensando em você... Nada mais justo que eu aproveitasse contigo. — Sorri. — Ah, e você cansou menos que a ganhadora. — Rimos juntos. — Foi uma tática para não precisarmos conversar tanto. — Gargalhei um pouco mais alto.
— Ah, só você mesmo! — Sorri, dando uma volta ao redor do corpo.
— Mas o seu tem algo que o dela não tinha... — Ele colocou a mão no bolso, tirando algo de lá e abrindo-a na minha frente.
Era uma pulseira de prata simples, de argolinhas pequenas, e no meio tinha minha inicial e a dele. Delicado, com dois pequenos pingentes, que conseguiam passar totalmente despercebidos do conjunto total.
— Ah, Lance, é lindo! — Falei, esticando o braço para ele colocá-la.
— Feliz que gostou... — Ele ergueu o olho para mim. — Eu te amo, . — Ele disse.
— Eu também te amo, Lancelot! — Falei, vendo-o sorrir.
— Quer ser minha namorada? — Ele perguntou, me fazendo gargalhar, abrindo um largo sorriso.
— Sim! Com toda certeza que sim! — Falei rindo, apertando-o próximo de mim e colei nossos lábios.
Outro motivo para eu me animar, é que minha família sempre vem me visitar em agosto! Então eu tinha três motivos para me animar: minhas férias, férias do Lance e visita da minha família. Mas claro que tinha outra questão: minha família e Lance iriam se conhecer. Mal imagino o que ia rolar quando Lance conhecer minha família.
Agora que eu e Lance oficializamos nossa relação, parece que muita ansiedade sumiu. Ele é meu e eu confio nele, então não tinha mais aquele receio de ele estar com outra pessoa, ou até minha ansiedade normal de cada dia, só as saudades mesmo, que essa sim, parecem que ficaram maiores.
Nossa rotina continuava a mesma, conversávamos por mensagens sempre que possível, fazíamos chamadas esporadicamente — normalmente fora dos quatro dias de GP — e trocávamos declarações de amor sempre que possível. Era estranho ver o Lance das pistas e o Lance comigo. O Lance piloto era quieto, tenso, discreto, evitava ao máximo ser o centro das atenções, agora comigo ele era solto demais. Sempre com aquele sorriso feliz no rosto, fazendo tudo para me agradar, para se divertir e evitava ao máximo falar do Lance piloto.
Mas falando um pouco do Lance piloto, estávamos há cinco horas de distância, tanto enquanto ele estava na França e enquanto ele estava na Hungria, fazer chamadas era quase impossível.
As corridas não foram tão incríveis, mas na França ele ficou em décimo lugar, entrando na zona de pontos, e na Hungria ele ficou em décimo primeiro, faltou pouco. Agora seria um mês inteiro de férias, ou menos, três semanas, levando em conta a volta dos treinos, mas eu queria aproveitar o máximo possível.
— , que horas seus pais chegam amanhã? — Claire perguntou.
— Eles vão chegar super cedo, a previsão do voo é 06:15. — Falei. — Vou madrugar no aeroporto.
— Já falei que te levo. — Lance disse.
— Você não precisa...
— Eu sei que você está ansiosa por eu conhecer seus pais, mas eu prefiro conhecer seus pais logo no primeiro dia, do que você ir às cinco da manhã sozinha pro Pierre Elliott. — Suspirei, acariciando Kenya em meu colo.
— Ok, ok! Você pode vir comigo. — Bufei. — Mas você vai ter que lidar com minha irmãzinha.
— 13 anos, fácil! — Ele disse, me fazendo rir. — Elas me amam. — Rimos juntos.
— Eles vão ficar no seu apartamento? — Claire perguntou.
— AH HÁ! — Lance riu.
— Cala a boca! — Falei.
— Não cabe, Claire. Eles vão ficar em um Airbnb ali perto. — Falei.
— É espaçoso o suficiente? — Ela perguntou.
— Minha casa não é espaçosa o suficiente, então... — Ri fracamente. — Está tudo certo.
— Lance, por que não os colocamos no L'Hotel Particulier Griffintown? — Claire perguntou. — Aposto que eles terão mais conforto e é no mesmo bairro da .
— Não se preocupe, gente! — Falei.
— Não, é uma boa ideia, mãe! — Lance disse e suspirei.
— Eu já paguei, gente! — Falei.
— Mas tem algumas cláusulas de cancelamento, tem mais de 12 horas ainda, pode dar tempo. — Ergui os olhos para Lance, fuzilando-o com o olhar. — Não vai funcionar, não sei como eu não pensei nisso antes. — Revirei os olhos. — Eu vou ligar para o hotel, ver se tem disponibilidade. — Ele se levantou do sofá e Kenya pulou de meu colo, indo atrás dele.
— Aceita, . Só aceita. — Chloe disse e ri fracamente.
— Eu não gosto! — Falei firme.
— Desculpe, querida, eu não queria atrapalhar... — Claire disse e neguei com a cabeça.
— Não se preocupe. — Falei. — Agradeço. — Ela assentiu com a cabeça.
— Bem, voltando ao meu ponto. — Ela disse. — Por que não fazemos um almoço para eles? Nada tão cedo, por volta das duas. Eles terão um tempo para descansar da longa viagem, depois vocês vêm almoçar aqui. — Ela disse.
— Eu não quero atrapalhar. — Falei e Claire abanou a mão.
— Não vai. Vou pedir para Sebastian preparar alguma coisa. Elaborar algumas coisas com carnes, que eu sei que vocês gostam mais...
— Não se preocupe, Claire. O que vocês fizerem, vamos amar! — Falei. — Minha mãe ama peixe, falando nisso. — Ela assentiu com a cabeça.
— Mesmo assim, nem todos precisam comer kosher se não quiserem. — Assenti com a cabeça.
— Obrigada. — Agradeci, mesmo já estando acostumada em comer na dieta kosher. Pessoalmente eu estou adorando, eles comem muito peixe e é algo que eu comia pouco no Brasil, mesmo amando.
— Eles têm disponibilidade. — Lance voltou. — Reservei um quarto família. Duas camas de casal, banheiro e um hall.
— Não precisava ser tanto, um quarto normal. A Marina dormia num sofá-cama, tá tudo certo.
— Agora está! — Ele sorriu, voltando a se sentar ao meu lado, e Kenya pulou no sofá novamente. — E você pode ficar com eles também, aposto que vai querer... — Ponderei com a cabeça.
— É... — Ele sorriu.
— Agora me dá seu celular, vou cancelar o Airbnb. — Suspirei, pegando o aparelho na mesinha e entreguei a ele. — Viu? Ela nem briga mais! — Ele deu um sorriso vencedor e ri fracamente.
— Ai, seu chato! — Falei firme e ele deu um beijo em minha bochecha. — Eu tenho outros motivos agora...
— Ah, português. — Ele suspirou. — Onde é...?
— Se vira! — Falei com o mesmo sorriso que ele deu antes e ele revirou os olhos, voltando a atenção para meu celular. — Bem, vamos voltar, Claire? — Falei, me levantando.
— Vamos lá! — Ela se levantou também, seguindo até a mesa com os materiais de estudo e me sentei ao seu lado, puxando meu lápis e caderno para perto.
— Andiamo parlare di... — Pensei. — Moda!
— Moda! Uh! Mi piace tantissimo! — Rimos juntas.
— Che ne pensi di moda? — Perguntei, voltando para aula.
— Acorda! — Bati a mão na barriga de Lance enquanto ele bocejava.
— Ah! — Ele sacudiu a cabeça. — Desculpe! Está demorando demais.
— Bom, são seis da manhã, é a hora dos voos internacionais! — Inclinei o rosto para o lado, vendo a porta do desembarque se abrir pela milésima vez e outro grupo de pessoa sair. — Você dormiu mal?
— Não muito, mas você se mexe muito! — Ele disse, me zoando e revirei os olhos.
— Há, há, há! Falou o quietinho! — Ele riu.
— Mais quieto do que você! — Rimos juntos e ele me abraçou de lado. — Nervosa?
— Ansiosa, e você? — Falei.
— Um pouco. — Ele assumiu. — É a primeira vez que eu conheço o pai de uma namorada.
— Como assim? — Perguntei.
— A maioria eram filhas de amigos do meu pai.
— Ah, verdade! Eu sou a primeira pobretona que você namora! — Sorri e ele revirou os olhos.
— ! — Ouvi um grito me distraindo e virei o rosto, vendo meus pais passando pelas portas, mas Marina já corria a frente deles.
— A-A-A-AH! — Gritei, soltando Lance e dando alguns passos para minha irmã chegar em mim, me impulsionando em um abraço. — Ai, meu amor!
— Mana! Mana! Mana! — Ela me abraçou fortemente, me fazendo sorrir e senti algumas lágrimas deslizando pela minha bochecha. Não nos víamos desde o Natal do ano passado.
— Ai, Mari! Que saudades de você! — Segurei seu rosto, colando nossa testa. — Como você cresceu! — Falei rindo, vendo a blusa quase mostrando um pouco da barriga.
— Você sabe, menstruei! — Ela deu de ombros. — E você tá mais bonita! — Ela disse, me fazendo rir.
— Boba! — Abracei-a novamente, dando vários beijos em sua cabeça. — Ah, que saudades que eu estava!
— Oi, meu amor! — Minha mãe falou ao chegar perto.
— Mamãe! — Soltei Marina e troquei o braço pela minha mãe.
— Ah, meu amor! Que saudades de você! — Ela acariciou minha cabeça. — Que saudades!
— Também estava, mãe! — Falei fracamente, sentindo-a me apertar cada vez mais e suspirei, me sentindo bem nos seus braços.
— E eu? — Ri fracamente, indo para meu pai, apertando meu careca fortemente. — Ah, meu amor! Que saudades! É tão bom te ver!
— Também é, pai! — Suspirei, vendo seu bigode contrastar com a cabeça careca. — Deixou alguns fiozinhos crescerem? — Brinquei, ouvindo-o rir.
— Só para você! — Ele brincou e beijei sua cabeça, com um largo sorriso no rosto.
— E esse é o famoso Lancelot? — Minha mãe falou com o inglês fornecido por mim.
— Oi, senhora! — Ele disse com as mãos atrás das costas. — Lance, prazer em te conhecer.
— Ah, o prazer é nosso! — Ela abraçou Lance, deixando-o surpreso por alguns segundos, depois ele retribuiu.
— Garoto! — Meu pai lhe esticou a mão. — Saiba que eu sou McLarista. — Lance assentiu com a cabeça.
— À vontade, senhor. Não estou merecendo muita torcida ultimamente. — Ele disse e meu pai riu.
— Para! — Dei um tapinha nele.
— Você tem talento, mas uma carroça como carro. — Ele disse.
— Aposto que você aprendeu “wagon” só para falar isso, né?! — Falei e meu pai riu.
— Bem, fizemos muito bom proveito das suas aulas. — Meu pai riu.
— Você deve ser Marina. — Lance falou.
— Oi! — Marina sorriu. — Cuida dela ou eu brigo contigo! — Ela fechou a cara.
— Pelo menos ela disse “briga” comigo. — Lance disse e ri.
— Pelo menos. — Brinquei.
— Vamos? — Perguntei.
— Vamos! Eu estou cansadão! Um cara ficou chutando minha poltrona o voo todo. — Meu pai disse.
— Tem sempre um! — Falei.
— O check-in do Airbnb é só mais tarde, Miguel. — Minha mãe falou. — Vamos ter que fazer uma hora.
— Na verdade... — Falei. — Mudança de planos. — Fiz uma careta. — Vocês vão ficar em um hotel.
— E o Airbnb? — Marina perguntou.
— Mudança de planos! — Inclinei a cabeça para Lance. — É um hotel perto do meu apartamento, maior, melhor... E com um horário de check-in mais flexível. — Falei. — Patrocínio deles. — Falei a última parte em português e Lance olhou para mim, franzindo a testa.
— Não queremos atrapalhar! — Minha mãe falou para Lance.
— Não estão! — Ele disse. — E minha família quer conhecê-los...
— Então, vamos almoçar na casa deles mais tarde. — Falei e minha mãe me olhou sugestivamente.
— Mas não precisa ser tão cedo. Sabemos que estão cansados e queremos que descansem. — Lance assegurou.
— Meu garoto, eu não posso deixar que vocês...
— Pai, não. — Falei, negando com a cabeça. — Eu já perdi essa briga ontem!
— Mas precisamos compensá-los de alguma forma. — Ele falou em português.
— A gente pensa nisso depois, pode ser? — Falei.
— Ok... — Ele disse, se dando por vencido.
— Quer que eu venha buscar vocês? — Lance perguntou na porta do quarto.
— Não se preocupe! — Falei firme. — Pegamos um táxi.
— Me avisa quando estiverem vindo.
— Pode deixar. — Trocamos um rápido selinho e ele seguiu pelo corredor. Esperei que ele virasse no corredor antes de fechar a porta.
— Mana do céu! Ele é demais! — Marina falou, rindo.
— Ele é normal, a única diferença entre nós e ele são alguns zeros na conta bancária! — Falei, ouvindo meu pai rir.
— Muito mais do que só alguns. — Ele disse.
— O que vocês acharam? Muito? — Perguntei.
— Ah, meu amor! — Minha mãe veio em minha direção. — Eu sei que você não está nessa por dinheiro.
— Não, mãe, eu juro. Só aconteceu. — Ela assentiu com a cabeça.
— Então o que importa é se você está feliz. — Ela disse. — E se ele te trata bem e te respeita, é claro.
— Trata, mãe. E me faz feliz também. — Ela sorriu.
— Então é o que importa. — Ela disse.
— É um pouco difícil por causa das corridas, mas estamos tentando fazer dar certo.
— Não pensa em morar mais perto dele? Digo... A maioria das corridas é na Europa, não? — Meu pai perguntou.
— Ele tem uma casa na Suíça. — Falei. — Mas não falamos sobre isso ainda, é muito recente. — Falei. — Nos oficializamos tem umas três semanas.
— Eu sei, mas é tão distante... — Meu pai disse e assenti com a cabeça.
— E uma via de mão única, né?! Não posso simplesmente ir encontrá-lo nos lugares.
— E o dinheiro que a mãe dele te pagou? Cem mil dólares não é pouco. — Meu pai disse.
— Eu sei que não. Mas eu não quero mexer tanto naquele dinheiro. — Falei. — Eu tiro 600 euros mensais daquele dinheiro para ter um pouco mais de conforto, mas aquele dinheiro vai para quando eu montar uma escola. — Falei.
— E você pensa em fazer isso? — Meu pai perguntou. — Você sempre quis isso, sempre falou que abriria no Brasil, mas agora... — Suspirei, me sentando no sofá ao lado de Marina. — Sua meta eram cinco anos...
— Eu sei... Agora mudou tudo. — Suspirei. — Ou não, eu não sei...
— Você não tem que decidir isso agora, querida. Estamos bem! Você sabe disso. — Minha mãe disse.
— Eu sei. — Suspirei. — Acho que está cedo para essas perguntas mais importantes, eu estou feliz. Deveria bastar agora, não?
— E basta! — Meu pai falou. — Sentimos sua falta, mas você precisa viver sua vida. — Assenti com a cabeça. — Passos de formiguinha, ok?!
— Ok! — Sorri, sentindo-o acariciar minha cabeça.
— Por que não descansam? — Sugeri. — Lance disse que podemos aparecer lá a hora que for, mas acho que no máximo uma da tarde.
— Claro! Não quero deixar os pais dele esperando. — Minha mãe comentou.
— Tenho nem roupa para esse evento. — Marina disse, me fazendo rir.
— Eu perdi o sono. — Meu pai comentou.
— É, não estou com sono agora. — Minha mãe falou.
— Estou com fome. — Marina disse.
— Podemos tomar café, que tal? — Falei, checando o relógio. — São quase oito e meia.
— Nós temos acesso? — Meu pai perguntou.
— Claro! — Falei. — Eles se certificaram de incluir tudo. Inclusive as coisas do frigobar já estão inclusas.
— Já? — Meu pai perguntou.
— Já. — Suspirei. — Eles não são de ostentar muito, mas o pai dele é praticamente dono de Montréal, entã-ã-ã-ão... — Arregalei os olhos.
— Entã-ã-ã-ã*-ão... Estamos em enorme desvantagem. — Marina disse.
— Isso não é uma competição, Mari. — Falei. — Eles não são esse tipo de pessoas... Pelo menos não comigo.
— Vai dar certo! — Meu pai falou e sorrimos juntos.
— Isso não vai dar certo. — Meu pai falou quando saiu do táxi em frente à casa dos Stroll, me fazendo rir.
— Você disse que eles moravam em uma casa. — Minha mãe disse.
— Bem... É uma casa, com mais espaço do que a nossa. — Dei de ombros, tocando a campainha.
— Oi, Sebastian! — Falei.
— Oi, senhorita . — Ele disse e um dos grandes portões abriu ao ser destravado.
— Vamos! Vai ser divertido! — Dei de ombros, atravessando os portões que já estava acostumado.
— Vamos! — Marina disse rindo, me seguindo.
Atravessei a longa entrada, vendo minha mãe não conter a surpresa com a casa dos Stroll. Eu conheço o sentimento. Segui pela lateral da casa, sabendo onde eram os eventos e já vi a mesa montada, mas dessa vez era um pouco menor do que da primeira vez que vim aqui.
Avistei Lance vindo em nossa direção e abri um sorriso, abraçando-o quando nos aproximamos. Vi que além dele, seus pais, Chloe, Scotty e sua madrasta estavam aqui.
— Descansaram? — Ele perguntou.
— Não muito, mas tudo bem! — Falei e ele deu um beijo em minha bochecha.
— Sejam bem-vindos! — Lance disse. — Senhor Miguel, dona Jussara, Marina, esses são meus pais Claire e Lawrence. — Ele disse quando meus pais se aproximaram.
— É um prazer! — Minha mãe esticou a mão.
— O prazer é meu! — Claire disse primeiro. — Sua filha é um amor. — Sorri, fazendo Lance rir.
— Olá, tudo bom? — Lawrence foi mais contido.
— Essa é minha irmã Chloe e seu noivo Scotty. — Lance continuou as apresentações. — E a esposa do meu pai, Raquel.
— Mais brasileiros para o meu lado. — Raquel disse em um ar simpático que até me deixou surpresa.
— Você é brasileira? — Minha mãe perguntou e Raquel assentiu com a cabeça.
— Venham, gente! Sintam-se em casa! — Claire apoiou as mãos nas costas da minha mãe e a levou até a mesa.
— Não precisavam fazer tudo isso para nós. — Minha mãe disse.
— Não se preocupem! Já estava ansiosa em conhecê-los quando conheci , agora que eles começaram a namorar, achei mais importante ainda. — Claire disse.
— Fico feliz! Tem um ditado brasileiro que diz muito isso. — Minha mãe disse. — Como que é, filha?
— Não sei se tem alguma tradução literal, mas seria “quem meu filho beija, minha boca adoça”. — Falei, dando de ombros.
— Venham, venham! — Lawrence chamou e deixei que as coisas se ajeitassem sozinhas.
O começo foi meio quieto, era possível ouvir mais a voz de Claire com minha mãe. Depois Marina perguntou sobre Chloe e emendou um papo muito animado com Scotty. Bem, os dois tem a mesma idade mental. E por último, percebi que você pode ser milionário ou mais humilde que o assunto entre os homens vai ser o mesmo: esporte. Meu pai e Lawrence começaram a falar sobre o assunto e Lawrence claramente estava tentando levar meu pai para o hóquei.
No começo eu fiquei meio tensa. Não que tivesse algo “de errado” para falar, mas nas poucas experiências românticas que eu tive, eu nunca nem cheguei a ter relação com os pais do meu peguete, ou seja, minha família nunca os conheceu, então era algo que eu estava esperançosa demais para que desse certo, especialmente por Claire estar cuidando muito bem de mim aqui.
O dia foi passando e as coisas estavam indo bem, primeiro comemos o delicioso almoço. Claire confiou no paladar de minha família e manteve a tradicional comida kosher. Eu já estava acostumada, e era uma delícia, os funcionários da casa Stroll cozinhavam muito bem.
Depois que o gelo foi quebrado, começou algumas brincadeiras. Lawrence levou meu pai para conhecer sua coleção de carros, Raquel se aproximou do papo com minha mãe, e foi a vez de Lance ser alugado pela minha irmã. A diferença de nossas vidas realmente era curiosa para nós, mas tudo foi lidado de uma maneira tão gostosa, que essa diferença nem aparentava.
Eles ofereceram uma cheesecake deliciosa de sobremesa e o papo foi seguindo até mais para o fim do dia. Foi quando minha irmã reclamou de sono pela primeira vez, que aproveitamos a deixa para encerrarmos o dia.
— Vocês estarão aqui o mês todo, então vamos combinar outras coisas. — Claire garantiu.
— Claro! Com toda certeza. — Minha mãe disse.
— Foi um prazer conhecê-los. — Meu pai falou.
— Nos vemos amanhã? — Lance perguntou baixo para mim e ponderei com a cabeça.
— Vou ver como vai ficar e te aviso, pode ser?
— Combinado! — Ele me deu um rápido beijo. — Dorme bem!
— Você também. — Pisquei. — Amo você.
— Amo você! — Ele disse.
Ele e Lawrence nos acompanharam até a entrada novamente e o Uber já nos esperava. Nos despedimos pela última vez e nos apertamos no carro.
— Tchau! — Acenei, vendo o carro se afastar e suspirei, me sentindo satisfeita. — Acho que deu tudo certo. — Falei.
— Acho que também! — Meu pai falou do banco da frente e sorrimos juntos.
— Vamos! Não se preocupe! — Minha mãe falou firme.
— Eles vão ficar bem, . Qualquer coisa estamos aqui! Eu e sua mãe já trocamos telefones. — Claire disse.
— Viu? Elas trocaram telefones! — Lance falou e revirei os olhos.
— Vão se divertir! — Meu pai disse firme.
— É só um fim de semana. — Marina falou entediada e ri.
— Obrigada, tampinha! — Dei um beijo em sua cabeça e ela riu.
— Até domingo, querida. — Minha mãe me abraçou e sorri.
— Até, mãe! Tchau, pai! — Falei, abraçando-o em seguida.
— Tchau, querida! — Eles disseram e virei para Lance, segurando minha mochila.
— Se cuidem! — Ouvi a voz de Claire e acenei antes de seguir com Lance pelo gravado da casa dos Stroll.
— Pronta? — Ele perguntou após alguns passos.
— Um pouco nervosa. — Falei rindo e ele sorriu.
— Vai ser legal! — Ele disse e um senhor abriu a porta do helicóptero.
— Senhora... — Ele disse, esticando a mão para mim e segurei.
Subi no estribo do helicóptero, se eu puder chamar assim, e pulei na caixa de metal. Me coloquei no canto contrário, tirando a bolsa a tiracolo e coloquei o cinto. Lance entrou do outro lado e a porta se fechou, me fazendo respirar fundo.
Eu não tinha medo de voar, mas eu não sentia muita confiança em voar de helicóptero. Ele parecia não ter estabilidade nenhuma!
Lance se preparou ao meu lado, colocando cinto e puxou um fone de uma parte de cima, colocando em sua cabeça e fiz o mesmo.
— Testando, um, dois. Testando. — Ouvi uma terceira voz e imaginei que fosse do piloto.
— Tudo bem? — Lance segurou minha mão e assenti com a cabeça.
— Está ok. — Ele assentiu com a cabeça, apertando minha mão.
Ficamos em silêncio por alguns minutos e logo outro homem entrou do mesmo lado que eu estava e começou a se preparar. Comecei a ouvir ambos fazendo as checagens.
— Pronto para decolar! — O primeiro homem falou.
— Vamos lá! — Lance disse.
Inicialmente ouvi um barulho de vento, logo depois ele ficou mais alto e percebi as folhas das árvores sacudindo com força, então percebi que eram as hélices. Alguns segundos depois, eu apertei a mão de Lance ao sentir que saímos do chão.
— Respira... — Lance disse e soltei o ar devagar. — Aproveite! — Ele disse e assenti com a cabeça.
Pude ver minha família e de Lance lá embaixo enquanto o helicóptero subia, e depois senti um pequeno solavanco para trás quando o helicóptero foi para frente.
A sensação era que eu ia cair a qualquer momento, não sei, é difícil explicar. Seguimos sobrevoando Montréal e fiquei feliz por não estar ventando tanto, pois parecia que estávamos estabilizados. Montréal vista de cima era incrível, acabei até dando um suspiro.
Saímos logo da área de cidade, e creio que o voo durou uns 40 minutos. Não conversamos muito, pois o barulho das hélices era muito alto. Quando chegamos numa área ainda coberta por um pouco de neve, começamos a baixar. Agora entendi por que Lance falou para eu trazer e colocar roupas de frio.
Assim que o helicóptero pousou, eu senti um alívio enorme passar pelo meu corpo. Lance mesmo abriu a porta do helicóptero e pulou antes de mim. Ele esticou as mãos e saí com o vento forte do helicóptero ainda ligado. Lance me puxou com ele, seguindo correndo para a parte coberta e ficamos em silêncio enquanto o helicóptero subia novamente. Quando ele finalmente criou altura, que voltamos a falar.
— Ah, finalmente! — Lance disse, rindo. — Bem-vinda!
— Onde? — Olhei em volta, vendo uma neve cobrindo toda minha visão.
— Parc Ómega. Vem aqui! — Ele disse e entramos no grande prédio estilo chalé de madeira. A primeira sala tinha uma recepção, uma sala de estar com lareira, mas o que chamou atenção foi a parede de vidro do lado contrário à porta.
Pude ver alguns lobos andando ali. Lobos mesmo, tipo Jacob Black em Lua Nova. Eles não eram tão grandes quanto o Jacob, mas eles eram bem maiores do que um husky siberiano. Vários andavam em volta do local, e ao fundo pude ver vários chalés, com largas janelas de vidro.
— Uau! — Falei, suspirando. — É lindo, Lance. — Suspirei.
— Aqui é um santuário para lobos... E outros animais selvagens. — Ele disse. — Pensei que fosse gostar. — Ele disse.
— Eu adorei! — Sorri e ele me abraçou, dando um beijo em minha bochecha.
— Eu sei! — Ele sorriu. — Eu vou fazer nosso check-in. — Assenti com a cabeça, vendo Lance se afastar.
Ele seguiu para o balcão e eu dei uns dois passos para frente, me abaixando, vendo o lobo mesclado a centímetros da minha visão. Verdadeiramente surpresa! Acho que isso é a coisa mais surreal que eu vi na vida, e talvez a mais bonita.
E eu digo isso depois de sair de um voo de helicóptero.
— Ah, isso foi incrível! — Falei ao entrar de volta no chalé.
— Eu sabia que você ia gostar! — Ele disse, tirando o casaco e fiz o mesmo, atravessando a entrada do chalé e indo para o fundo, no quarto, jogando o casaco numa poltrona.
— Ah, foi demais! — Suspirei, sentando na cama. — Eu nunca tinha visto uma rena na vida real.
— Não é o Rudolph? — Ele brincou.
— Não! — Revirei os olhos. — Mas é fofo! — Falei rindo, deixando meu corpo na cama.
— E agora? O que quer fazer? — Ele se inclinou em cima de mim, se sentando ao meu lado. — Dormir? Comer? — Suspirei, passando os braços em seu pescoço.
— Hum... — Pensei. — Eu estava pensando em um banho, e depois podemos comer uma fondue, que tal? — Sugeri.
— Hum... — Ele pensou. — A ideia não é ruim, mas eu estava pensando em outra coisa... — Ele aproximou o rosto do meu.
— Ah, outra coisa? — Perguntei, ouvindo-o rir.
— Sim, algo legal, que depois vamos precisar tomar banho, porque vamos suar um pouco... — Ele colou os lábios devagar no meu. — E talvez comermos a fondue.
O beijo de Lance era calmo, como se ele estivesse aproveitando cada segundo. Ele passou a mão pela minha cintura, me puxando para mais perto. Senti seu corpo quente contra o meu, e mesmo sem pressa, havia algo nele que dizia que ele me queria ali, daquele jeito, só para ele. Minhas mãos encontraram o caminho até sua nuca, e eu o puxei com mais firmeza, sentindo a pele arrepiar de leve sob meus dedos.
Ele se deitou ao meu lado, ainda me beijando, agora com um pouco mais de vontade. Suas mãos exploravam minha cintura, minhas costas, mas sem pressa. Nossos olhares se encontraram por um segundo, e eu sorri, meio sem graça, mas feliz. Ele retribuiu com um sorriso leve e beijou meu rosto, meu pescoço, cada toque fazendo meu coração bater mais rápido.
Aos poucos, fomos tirando as blusas, sem dizer nada. Apenas seguindo o ritmo um do outro, com cuidado, respeitando o tempo. Não era sobre pressa, era sobre estar ali, juntos. Ele passou os dedos pela minha pele, me fazendo arrepiar, e me olhou de novo como se quisesse saber se estava tudo bem. Eu assenti, acariciando seu rosto com carinho, e ele voltou a me beijar com mais calma ainda, como se quisesse memorizar tudo.
Lá fora, o mundo seguia gelado e silencioso, mas ali dentro só existia calor e proximidade. Ficamos assim por um tempo, abraçados, respirando juntos, sentindo a presença um do outro. Era simples, era bom. E, naquele momento, nada mais importava.
— Eu te amo. — Falei.
— Para sempre. — Ele sussurrou.
— Eu amo isso! — Falei, enchendo a boca novamente de queijo.
— O que exatamente? — Lance perguntou rindo, colocando um pão na boca.
— Tudo isso! — Suspirei. — O lugar, a comida, a privacidade, nós dois juntos com frequência.
— Ei, ficamos juntos o mês todo. — Ele disse, descansando seu garfo.
— Eu sei, mas você já vai embora amanhã, e eu não tenho a mínima ideia de quando vamos nos ver novamente. — Suspirei, enchendo a boca de pão com queijo novamente.
— Setembro! — Ele disse firme. — No meio de setembro. — Suspirei.
— Ah! — Inclinei a cabeça para o lado.
— Pensa bem, da próxima vez que nos virmos, ficaremos duas semanas juntos, suas aulas com a minha mãe vão ter acabado, então podemos passar mais tempo juntos, e depois teremos só seis corridas até o fim do ano.
— E então? — Perguntou.
— O quê? Vamos aproveitar as férias, vou te levar para esquiar, vamos passar o Natal com a sua família no Brasil... — Ele deu de ombros. — O que mais você quer?
— T...Tudo? — Franzi a testa.
— Tudo? — Ele frisou.
— Sim! — Franzi o rosto.
— O que é tudo para você? Quais suas expectativas para nós? — Ele ajeitou o corpo.
— Eu sempre quis casar na igreja... — Suspirei. — E ter filhos... — Ele assentiu com a cabeça. — E só ter uma vida calma... — Dei de ombros. — Fazer uma viagem diferente uma vez ao ano... Nunca fui de querer uma vida luxuosa e grandiosa. — Falei. — É isso.
— Bem... — Ele segurou minha mão. — Vamos fazer um acordo? — Assenti com a cabeça. — Eu te ajudo a realizar todos esses sonhos... Mas no tempo certo. — Ele disse. — Eu ainda tenho uma profissão perigosa, e gostaria de aproveitar tudo que disse também. — Assenti com a cabeça.
— Ok... — Falei.
— Dá para esperar? — Ri fracamente.
— Pode! Não disse para agora-agora, mas para um futuro... — Dei de ombros. — Eu não estou mais tão nova, sabe?
— Para de besteira, amor! Mas eu entendo! — Ele disse. — Você quer saber se tem futuro, certo?
— É... — Falei envergonhada.
— Você vai ter. — Ele disse firme. — Nós temos! — Afirmei com a cabeça. — Vamos ver o que vai acontecer, um dia de cada vez. — Confirmei.
— Ok...
— Ok?! — Ele concordou e ri fracamente.
— Ok! — Disse firme e se aproximou, colando os lábios rapidamente nos meus. — Eu vou provar para você que eu não sou o babaca que a mídia pinta ser.
— Eu nunca achei que fosse. — Falei. — Sua mãe me apresentou você, eu nunca acreditaria em algo diferente do que uma mãe apaixonada faria. — Ele riu.
— Ela fala muito, não?
— Ah, Lancelot, sua mãe tem muito orgulho de você e da Chloe. — Falei. — Minha mãe tem orgulho de mim e eu sou só professora, imagina de vocês.
— Você não é só uma professora, . Nunca fale isso de novo. Já te vi dando aulas, você é incrível! Você realmente é uma ótima professora. — Sorri.
— Obrigada, amor! — Suspirei.
— E só posso agradecer pela minha mãe querer aprender italiano. — Rimos juntos. — Eu conheci você.
— Quem diria que o Canadá teria uma vantagem contra a Itália? — Falei rindo.
— Pois é, que coisa, não? — Sorri. — Nossa comida não é a melhor de todas, mas, ei, temos Tim Horton’s.
— Oh, meu Deus! — Falei, ouvindo-o rir.
— Ei, você ama Shelby’s. — Pressionei os lábios.
— É, culpada! — Rimos juntos, voltando a encher as bocas de pão e queijo derretido.
— Quando chegarmos em Montréal, eu tenho duas surpresas para você. — Lance falou ao fechar sua mala.
— E você me fala isso agora? — Perguntei surpresa. — Não poderia ter esperado a gente chegar lá? — Ele riu.
— Ah, são só 40 minutos de voo, vai! — Ele disse rindo.
— Exato! São 40 minutos de voo, me deixando ansiosa demais! — Fechei minha mochila, ouvindo-o rir.
— Bom, você vai ter que esperar chegar em casa agora. — Ele deu de ombros e revirei os olhos.
— Já falei que você é muito chato? — Falei.
— Já! Com toda certeza já! — Ele deu de ombros, seguindo para fora do quarto.
Neguei com a cabeça, dando uma checada no quarto e no banheiro para ver se não tínhamos deixado nada. Segui logo atrás dele, deixando a mala na porta do chalé e fui novamente para perto da janela de vidro, vendo os lobos andando ali em volta.
— Tchau, seus lindos. — Falei. — Eu volto depois para pegar vocês, tá?
— Você sabe que isso é um santuário de proteção aos animais, certo? — Lance disse.
— E sua maior preocupação é eu tirar eles do habitat deles e não eu enfiar um lobo desse tamanho na minha kitnet? — Falei, rindo.
— E você ficar achando que ele é o Jacob do Crepúsculo, é claro. — Ele disse, rindo.
— É claro! — Ele me abraçou pela cintura. — Pronta para ir?
— É... Vamos lá! — Suspirei e ele deu um beijo em meu pescoço.
— Vamos lá! — Ele disse, dando outro beijo e seguimos para fora do chalé.
Ele levou nossas malas para fora e o segui. Um carrinho de golfe, similar ao que nos trouxe para cá, estava na porta. Entramos, apertando o casaco contra o corpo, e Lance segurou minha mão no percurso entre nosso chalé e a recepção. Descemos do carrinho e o helicóptero já estava lá novamente, dessa vez desligado.
— Só vou resolver uma coisinha, e já volto. — Ele disse e assenti com a cabeça.
— Senhorita ? — O mesmo piloto da outra vez, me perguntou.
— Sim! — Confirmei.
— Posso levar as malas?
— Claro! — Falei, vendo-o pegar e seguir para dentro do helicóptero. Esperei Lance chegar e ele apoiou a mão na cintura para irmos para o helicóptero.
Entramos, nos colocando na mesma posição da ida e coloquei os fones, depois ajeitei o cinto de segurança. Lance segurou minha mãe e se aproximou de mim.
— Nervosa? — Ele perguntou.
— Um pouco menos. — Falei.
— Logo estaremos em casa. — Ele disse e sorri.
O barulho das hélices logo começou, então não quis perguntar novamente. Mas sabia que logo que chegássemos em Montréal, ele pegaria sua mala de piloto de Fórmula Um e seguiria para o aeroporto a caminho de Londres, se preparar para a próxima corrida, que seria na Bélgica.
O voo foi tranquilo. Era no fim do dia, mas o sol ainda estava no céu. O voo teve o mesmo tempo da ida, e logo consegui ver Montréal aparecer no horizonte. O helicóptero começou a descer e pouco tempo depois estávamos pousando na residência de Lance, com sua mãe e a minha aparecendo na parte de fora.
— Obrigada! — Agradeci ao piloto e segui logo atrás dele.
— Oi, crianças! — Claire falou e abracei minha mãe.
— E aí? Fizeram boa viagem? — Minha mãe perguntou.
— Sim, foi demais! Não sabia que estaria aqui! — Ele disse.
— Bom, viramos grandes amigas, então sua mãe veio tomar um café. — Claire disse rindo e sorri.
— Onde está papai e Marina? — Perguntei.
— Foram a um jogo de Hóquei com Larry. — Claire falou.
— Hum, os -Stroll se deram bem, é?! — Falei rindo.
— Sim, graças a Deus! — Minha mãe disse sorrindo.
— Você já tem que ir, filho? — Claire perguntou.
— Meu pai disse que vem para cá, está terminando lá, pelo jeito. — Ele disse, olhando no celular.
— Bem, aceitam jantar, então? — Claire sugeriu.
— Claro! — Falei.
— É uma boa, mas tenho que dar a surpresa para antes. — Ele disse.
— É, por favor! Ele me contou antes de sair de lá, me deixou o voo inteira pensando nisso. — Rimos juntos.
— Está lá dentro, Kenya não gostou. — Lance disse e franzi a testa.
— É óbvio que não. — Lance riu. — Vem, amor! — Ele me puxou para mão e segui para dentro com ele. — Cadê você? — Ele falou baixo e franzi a testa. — Cadê...? — Ouvi um latido e imaginei que fosse de Kenya, mas um labrador bem maior do que Kenya apareceu saltitando até nós.
— Quem é esse? — Perguntei rindo, quando veio em minha direção.
— É a Kimi! — Ele disse. — Minha surpresa para você.
— O quê? — Falei surpresa.
— É! — Ele disse rindo. — Você fica sozinha por bastante tempo, então, achei que precisasse ter companhia.
— Ela é linda, mas como eu vou deixá-la no apartamento? — Falei rindo. — Você já viu o tamanho do meu apartamento?
— Bem, eu pensei nessa parte, ela é adestrada, não é mais filhota, mas não sei ainda como vamos fazer, mas qualquer coisa minha mãe topou cuidar dela até pensarmos nesse caso. — Ri fracamente, fazendo vários carinhos em Kimi. — Kenya não gostou muito disso, mas ela odeia todo mundo.
— Menos eu! — Falei, rindo.
— É, menos você. — Virei para Kimi.
— Oi, sua linda! — Acariciei seus pelos dourados. — Você é maravilhosa, sabia? — Ri fracamente.
— Sabia que ia gostar. — Ele disse e me levantei, sentindo Kimi se aproximar.
— E qual é a segunda surpresa? — Sentia Kimi cheirando minhas pernas e mantive os carinhos nela.
— Ah, essa você só vai descobrir daqui uns dias. — Lance disse.
— O quê? — Falei surpresa.
— É! Minha mãe vai dar para você no tempo correto. — Ele disse.
— Lance! Isso não se faz! — Gemi e ele riu.
— Por que não? Eu sei que você vai gostar! — Ele deu de ombros.
— Ai, seu filho da mãe! — Falei, ouvindo minha mãe e de Lance rir.
— Eu acabei de te trazer de um lugar sensacional, e você faz isso de mim? O quê? — Ele disse rindo.
— Chato! — Bufei. — Ah, que chato que você é!
— Ah, agora você tem a Kimi para te distrair. Pensa bem. — Lance disse e revirei os olhos.
— Ai, te odeio! — Falei e ele me abraçou.
— O que vamos jantar, mãe? — Lance perguntou para Claire, me ignorando completamente.
— Eu vou checar com Nicka. — Ela disse rindo e Lance saiu como se não tivesse acontecido nada.
Aproveitei esse tempo também para tirar uma folga de Claire e dos Stroll. Não que a presença deles fossem ruim, mas eles estavam sendo muito simpáticos e muito solícitos, quase todos os dias íamos jantar com eles. Então quando Lance voltou para seu trabalho, eu usei essa desculpa para ficar um pouco só com a minha família.
Dia 28 de agosto, minha família e de Stroll vimos a corrida de Spa-Francorchamps antes de eu colocar meus pais em um avião para voltar para o Brasil. Depois de derramar mais do que só algumas lágrimas, voltei para casa e fui dormir com dor de cabeça. Toda despedida é assim!
Após esse dia, eu tive mais alguns dias para me preparar para voltar às aulas. Eu tinha parado tanto as particulares quanto as da escola, só com Claire eu tinha mantido, devido a proximidade do evento dela, que seria agora em setembro.
Com esses dias de folga, com minha cabeça só para mim, com Lance e minha família fora, e com um cachorro de 33 quilos tomando conta de metade do meu apartamento, eu tive tempo o suficiente para ficar pensando na segunda surpresa de Lance. Eu não queria parecer tão empolgada, então tentava evitar o assunto quando falava com Lance, mas parecia que ele fazia questão de lembrar e falar que estava chegando. É difícil quando se quer matar alguém à distância.
Dia primeiro de setembro eu voltei a trabalhar na escola, uma quinta-feira. E dia três, seria o último dia de aulas comigo e Claire. Agora fazíamos mais conversações, simulávamos situações que poderiam acontecer em eventos e reuniões que ela teria na Itália. Sua viagem seria logo na segunda-feira, então precisávamos deixá-la pronta.
Eu não consigo acreditar que eu consegui! Eu consegui! Eu consegui deixar uma pessoa num nível B2 em quatro meses! É loucura!
Claro que a dedicação dela e de Beatrice foram essenciais para isso.
Mas eu consegui!
— Você parece feliz, . — Claire disse, me fazendo sorrir.
— Eu estou. — Suspirei. — Eu consegui... Vocês conseguiram! — Claire e Beatrice sorriram.
— Graças a você! — Claire sorriu, apertando minha mão. — Minha cabeça está doendo. — Sorri.
— E deveria! Eu acho que não aguentaria esse pique que você se colocou, Claire. — Falei, ouvindo=a rir.
— Quatro meses... — Assenti com a cabeça.
— Quatro horas na semana. — Ela disse.
— Pois é! — Rimos.
— Você realmente acha que eu estou pronta? — Ela perguntou.
— Troppo pronta! — Falei firme. — A Itália vai ver quem é Claire Stroll e o que ela consegue fazer com essas marcas aqui no Canadá.
— Agora o trabalho de verdade começa. — Claire disse. — Aqui foi só diversão. — Sorri.
— Vai dar certo. Faça suas malas e aproveite a Itália ensolarada nessa época do ano. — Ela assentiu com a cabeça. — Tome um gelato por mim. — Beatrice riu.
— Por que... Por que você mesma não toma? — Ela perguntou e inclinei a cabeça confusa.
— Co-como assim? — Perguntei.
— Bem... Lance disse que tinha duas surpresas. — Ela disse. — Kimi é uma delas, e você vir comigo para Itália é outra. Você vai no evento comigo, e acompanhar Lance no GP de Monza... — Olhei surpresa para Beatrice que somente assentiu com a cabeça, como quem sabia de tudo.
— Você está brincando! — Falei rindo e ela negou com a cabeça.
— Não! — Ela sorriu. — Arrume suas malas, terça-feira você vai conosco.
— Você está brincando! — Falei rindo, mas comecei a chorar no meio da frase, me levantando para abraçá-la.
— Não, querida! — Ela me abraçou fortemente. — Vai dar tudo certo. — Sorri. — Falando nisso... — Ela tirou um papel do bolso. — Para você.
Abri o papel e o pequeno bilhete tinha a caligrafia de Lance:
“Pronta para realizar seu sonho? Estou empolgado para isso”.
— Isso é incrível! — Falei rindo.
— É mesmo! — Ela sorriu. — E, claro, eu talvez precise de uma tradutora... Em caso de emergências. — Ela piscou com um olho só, me fazendo rir.
— Você não precisa de um tradutor, mas vou adorar te acompanhar... Como amiga. — Ela sorriu.
— Melhor ainda! — Ela sorriu. — Bem, acho que isso merece uma celebração. Que tal um champanhe? — Ela se levantou animada e virei para Beatrice.
— Você sabia? — Perguntei e ela riu.
— Sim! Desde as férias! — Ela disse rindo. — Você deveria suspeitar que ele faria algo assim, não? Digo... — Ela abaixou o tom de voz. — Eles são muito ricos.
— Eu sei, mas... — Suspirei. — Meu emprego... Oh, meu Deus, meu emprego. — Suspirei.
— Vamos lidar com uma coisa de cada vez. — Beatrice disse. — E caso eles não deixem, eles que lutem. — Ela usou a expressão que repito frequentemente em português.
— Ah, cara! Lance é louco! — Falei rindo.
— Ele te ama. — Beatrice disse. — E ele pode realizar seus sonhos, por que não o faria?
— Às vezes me pergunto se não está perfeito demais. — Falei rindo.
— Bem... Só o tempo vai dizer, mas eu aproveitaria enquanto está assim. — Ela deu de ombros, me fazendo rir.
— Aqui está! — Claire chegou com uma garrafa na mão e três taças finas. — Precisamos comemorar. — Percebi que a garrafa já estava aberta e ela serviu nas três taças.
— Ah, eu preciso entregar algo também. — Falei, abrindo minha pasta e tirei dois diplomas de lá. Com o nome de Claire e de Beatrice. — Achei que fosse propício.
— Ah, você é um amor! — Claire disse rindo, pegando-o. — Isso merece uma foto.
— Deixa que eu tiro! — Peguei meu celular. — Vou postar “minhas primeiras formandas de italiano”.
— Em breve, em ’s World. — Beatrice falou, me fazendo rir.
— Ah, como se eu tivesse tempo para isso! — Elas se juntaram, segurando os diplomas e tirei algumas fotos. — Ah, lindas!
— Um dia de cada vez. — Claire disse. — Primeiro a Itália, depois focamos na escola, que tal? — Ri fracamente.
— Um dia de cada vez. — Repeti.
— Vamos! Às formandas de ’s World! — Beatrice falou animada, estendendo sua taça e fiz o mesmo.
— Obrigada, meninas! Isso foi demais! — Sorri.
— Eu quero te matar! — Falei quando Lance apareceu na tela, com sua gargalhada alta de fundo.
— O quê? — Ele deu de ombros, se fazendo de desentendido.
— Lance, eu não... Uma viagem...
— Ah, qual é, . Você realmente achou que eu não fosse aproveitar a pouca influência que eu tenho para realizar seus sonhos? — Ele olhou fixo para mim, me fazendo suspirar. — Além disso, você merece vir em mais corridas, você gostou.
— É, eu gostei... — Falei baixo, apoiando o rosto na mão.
— Então! — Ele sorriu. — Quero te dar tudo que eu puder.
— Mas você sabe que eu não posso te dar nem metade do que você pode me dar...
— E por acaso eu pedi algo? — Ele disse.
— E eu? Pedi algo? — Devolvi.
— Não, por isso estou fazendo por livre e espontânea vontade. — Ele disse. — E você tem formas muito boas de me retribuir. — Ouvi uma risada alta e franzi a testa.
— Onde você está?
— Ei, ! — Vi uma mão ao fundo e franzi a testa.
— Quem é? — Perguntei e Lance virou o celular para que eu pudesse ver Vettel. — Oi... — Falei timidamente.
— Oi! — Ele sorriu e Lance voltou a câmera para ti.
— Eu te odeio. — Falei novamente, fazendo-o rir.
— Veja como uma coisa boa, vai. Você vem realizar seu sonho, me vê, a gente curte um pouco de Milão... — Ele deu de ombros. — Não é muito, mas é um começo.
— É mais do que perfeito, Lance. — Suspirei. — Não preciso de muito. — Ele assentiu com a cabeça.
— Estou empolgado! Mais empolgado que eu te verei em dois dias. — Sorri.
— Eu preciso falar no emprego amanhã. — Suspirei.
— Não estou preocupado com isso. — Ele deu de ombros. — Vai dar tudo certo...
— Espero que sim. — Falei.
— Além do mais, a ideia da viagem não foi totalmente minha. — Ele deu de ombros. — Comentei com minha mãe que queria te trazer para Itália, e minha mãe comentou que estava pensando em te chamar para acompanhá-la nos eventos.
— Por quê? — Perguntei.
— Ela está insegura, .
— É normal! — Falei. — Foram quatro meses de trabalho duro, foi caótico.
— Mesmo assim. E minha mãe pode te trazer para Itália. Aí ela pensou em te contratar, com a desculpa de uma tradutora... — Ele deu de ombros. — Eu só juntei as oportunidades.
— Obrigada... — Falei e ele sorriu.
— E parabéns para você. — Ele sorriu. — Você deixou minha mãe fluente. — Ele disse rindo.
— Ah, até agora eu não acredito. — Suspirei. — Por terminar isso! Por deixar sua mãe fluente... — Suspirei, jogando a cabeça para trás.
— Você merece isso, . — Ele disse. — Você lutou por isso. — Ela disse.
— Foi incrível. — Suspirei. — E sua mãe pode parecer insegura, mas ela está muito preparada. — Falei. — Sua mãe atingiu o nível B2. — Tombei a cabeça para trás, suspirando. — Sua mãe lutou para isso. Eu estou empolgada em ver isso.
— Viu? Agora você vai ver. — Ele disse, se achando e revirei os olhos.
— É, eu vou ver... — Neguei com a cabeça. — Você deveria ir dormir. — Falei.
— Nhá, estamos esperando a reunião da equipe ainda. — Ele disse. — Não devo sair daqui antes das onze.
— Bem, eu preciso preparar umas aulas para amanhã e comer alguma coisa. Não almocei ainda.
— Você deve comer. — Ele disse sério.
— Eu vou! — Falei firme.
— Ei, Caitlin! — Falei, entrando devagar na sala da diretora da escola.
— Ei, .
— Estou atrapalhando?
— Não, por favor, entre, entre! — Ela disse, juntando seus papéis e me sentei.
— Não vou atrapalhar, serão só alguns minutos. — Falei, me aproximando da mesa.
— Claro, fique à vontade. Sente-se.
— Não, é rápido! — Falei. — Caitlin, é o seguinte, surgiu uma oportunidade de ir para Itália amanhã, acompanhar uma aluna em um evento. Eu gostaria de pedir por uma semana de folga. — Ela ergueu o rosto finalmente.
— Como assim? — Ela perguntou.
— É, eu preciso de uma semana de folga.
— Assim? Eu não consigo... Eu... — Ela olhou para mim. — Amanhã? Você deveria ter me avisado com no mínimo dois meses de antecedência.
— Eu só soube sobre isso no sábado. — Falei. — Não tinha como te avisar antes. — Falei.
— Me desculpe, , eu não posso. Eu tenho uma turma começando agora. A Mariah já tirou a semana por intoxicação alimentar.
— Caitlin, é uma oportunidade da vida. — Falei. — Eu não posso negar. Essa família me ajudou muito.
— A família Stroll? — Ela perguntou. — É, eu sei que você está ensinando a Claire.
— Você a conhece? — Perguntei.
— Fizemos faculdade juntas. — Ela disse e notei talvez uma mágoa na forma que ela falou. — Enfim, não vem ao caso. — Ela disse. — Sinto muito.
— Caitlin, é uma oportunidade da vida. Eu não posso negar. — Suspirei.
— Sinto muito, . Trabalho é trabalho, não podemos ficar dando folgas, só porque você quer ir para Itália. — Ela deu uma risadinha irônica.
— Eu não vou negar! — Falei firme e ela descansou sua caneta. — Eu me demito. — Falei.
— O quê? — Ela se assustou.
— Eu estou tentando ser razoável, Caitlin. A senhora Stroll me ajudou de uma forma que ninguém pode, sua família tem me feito crescer como pessoa. Eu gosto muito da escola, mas não estou crescendo aqui. E, pelo jeito, você não tem interesse em me ajudar também. — Suspirei. — Então, eu agradeço as oportunidades que vocês me deram, mas é hora de seguirmos caminhos diferentes. — Falei.
— Eu estou em choque. — Ela disse.
— É, eu também. — Falei honesta. — Achei que depois de tudo que passamos, a senhora seria mais compreensiva. — Dei de ombros. — Mas vi que não. — Suspirei. — Eu volto semana que vem para pegar meu cheque. — Pressionei os lábios. — Mas eu ainda desejo tudo de bom para essa escola. Ela é boa! — Suspirei.
— Não esperava que terminássemos assim, .
— Também não queria, mas se a senhora não me dá a oportunidade de eu realizar meu sonho de vida. Eu não tenho outra escolha. — Falei e ela pareceu fechar a cara.
— Está certa sobre isso? — Ela perguntou.
— Absolutamente. — Falei, me preparando para sair da sala. — Ah, e obrigada, senhora. Por ter me contratado e permitido que eu estivesse aqui para que outras oportunidades aparecessem. — Suspirei. — Não se preocupe, eu vou finalizar meu dia. — Falei, deixando a sala sem esperar resposta.
Senti algo ruim dentro de mim. Talvez eu tivesse sido um pouco rude, mas não poderia deixar essa oportunidade passar. Ela é boa demais para isso. Além disso, o valor que Claire me deixou para ensiná-la, e os valores de alguns alunos particulares, daria para sobreviver por bastante tempo.
Agora precisava pensar o que faria depois de voltar da Itália. Tenho uma pequena lista de espera, talvez fosse necessário puxá-la para trabalhar mais.
Mas isso é um trabalho para da semana que vem.
— Não acredito que você fez isso! — Claire levou as mãos à boca.
— Ah, Claire. Eu gosto muito de lá, mas foi o desdém dela que me irritou. — Suspirei. — Ela acha que minha vida é a escola dela? — Suspirei. — Ah, fala sério, foi muito importante para mim, foi o que me deu a oportunidade de conhecer você, de namorar seu filho, mas não é minha vida. — Neguei com a cabeça.
— Bem, eu não posso negar isso. — Ela disse. — Eu liberaria Carly para realizar seu sonho. — Ela mencionou sua secretária que estava no banco da frente.
— Bom, a Claire liberou para eu viajar para Zurique para um curso, logo que eu entrei na empresa. — Carly lembrou.
— Verdade! — Claire se lembrou.
— E pagou a passagem. — Carly disse, voltando sua atenção para o trânsito.
— Eu não sei se eu fiz a escolha correta, mas eu não poderia perder a oportunidade. — Falei.
— Não se preocupe, querida. O problema não é você. A Caitlin sempre foi invejosa. — Ela disse.
— O que aconteceu, Claire? Ela disse que te conhece.
— Fizemos faculdade juntas, basicamente ela flertou com Larry e ele estava interessado em mim. — Ri fracamente. — Acho que ela não superou ainda.
— Acho que não! — Falei rindo.
— E hoje nenhuma das duas estamos com ele. — Ri fracamente, pois Claire nunca falou se ainda tinha interesse em Lawrence e nunca apareceu namorando, então preferi não perguntar.
— Bom, sua mãe disse que seu sonho era montar uma escola, o que acha de usar o dinheiro que eu te paguei para isso? — Claire sugeriu.
— É a ideia. — Falei. — Mas eu não sei onde. Minha vida hoje é em Montréal, mas eu não sei como vai ser ao longo prazo. — Ponderei com a cabeça. — Então estou pensando ainda. Eu não sei onde a vida vai me levar, especialmente agora depois da demissão.
— Entendo. — Ela disse. — Alguma ideia do que vai fazer agora? — Dei um longo suspiro.
— Eu não pensei muito, mas acho que eu vou continuar com as aulas particulares, e tentar entrar em alguma escola. Eu tenho minha formação em Letras do Brasil, é um tipo de linguística. — Expliquei. — Vou ver de fazer equivalência e talvez entrar em alguma escola. Aí eu ganho um tempo de pensar, porque meu visto vence em abril. — Falei.
— Bom, estamos em setembro ainda, você tem um tempo para pensar. Além disso, qualquer coisa eu posso assinar um trabalho para você, não daria nenhum trabalho. — Claire disse.
— Obrigada! Vamos nos falando. — Ela assentiu com a cabeça.
— Sim! Mas aproveite sua viagem agora. — Ela disse, me fazendo sorrir.
O carro entrou na parte lateral da pista do aeroporto de Montréal, e seguimos para a parte dos hangares particulares. O jatinho dos Stroll já estava pronto para nós. O branco dele parecia reluzir com o sol do lado de fora.
Saímos do carro quando ele parou e o funcionário de solo já foi pegar nossas malas. No carro de trás, chegou Chloe, Scotty, que também iriam conosco, e Beatrice. Seria um grande fim de semana.
— Venha, ! — Claire me chamou com a mão e a segui.
Ela subiu as escadas do avião e eu segui ao seu lado, cumprimentando um comissário quando entramos, vendo-o dar um aceno de cabeça. Eu já tinha entrado no jatinho antes, por pura curiosidade, mas nunca tinha andado nele. Claire se sentou em uma poltrona sozinha, com uma mesa entre ela e outra poltrona, então acabei seguindo ao lado dela.
— Fique à vontade, . — Ela disse.
Não sabia os protocolos, mas acabei seguindo os mesmos de um avião normal. Tirei meu celular da bolsa, mandei mensagem para Lance e para minha mãe, avisando que estávamos prontos para decolar, e coloquei minha bolsa embaixo da minha poltrona.
Lance logo respondeu, mas minha mãe não. Coloquei-o no modo avião e dei uma olhada no geral. Claire e Scotty se sentaram ao nosso lado, e Beatrice e Carly um pouco a frente.
O comissário nos ofereceu toalhas quentes, e ofereceu uma bebida. Todos acabaram aceitando somente água. Um prato com alguns petiscos também foi servido na mesa à minha frente. Mordisquei algumas azeitonas e tomates antes do avião estar pronto para decolagem.
— Nervosa? — Chloe me perguntou e assenti com a cabeça.
— Sim, um pouco. — Ela sorriu.
— Também estaria, se fosse realizar meu sonho. — Meu sorriso se alargou e assenti com a cabeça.
— Lesgo-o-o-o! — Scotty disse, me fazendo rir.
O avião logo fechou e foi liberado. Andamos bastante pela pista auxiliar, até estarmos realmente na cabeceira. Demorou bons 20 minutos para nosso voo ser liberado, devido a vários voos que estavam pousando.
— Respira, ! — Claire disse. — Solta devagar. — Fiz o que ela pediu. — Agora vamos!
Parece que o piloto a ouviu, ele começou a correr pista e logo as rodas do jatinho saíram do chão, a caminho do meu sonho.
Ou melhor, para Londres, depois realizaríamos meu sonho.
Depois, fizemos umas três horas de pausa, para abastecer, depois em mais duas horas, estávamos em Milão. Sobrevoar aquela cidade já fez meu coração arrepiar. Mal via a hora de passar pelos pontos que eu tanto pesquisava na internet.
Não descemos em Malpensa, como eu esperava, fomos para Bergamo, uma cidade vizinha. Quase como o aeroporto de Guarulhos ser de São Paulo, mas que não fica na cidade de São Paulo. Mesma coisa com Bergamo, a cidade é outra, mas o aeroporto é considerado de Milão.
O desembarque foi calmo, não tinha ninguém muito famoso para ser parado por estranhos. Scotty talvez, mas não acho que o snowboard é um esporte muito popular na Itália. Uma van nos esperava e foi com ela que seguimos os sessenta quilômetros entre as duas cidades.
Eu estava abismada, apaixonada e curiosa por tudo que via. Chloe e Beatrice estavam rindo da minha curiosidade, mas aposto que isso rendeu muitas fotos no celular das duas.
Quando entramos na cidade, eu fiquei mais animada ainda. Não passamos em nenhum ponto conhecido, mas passamos perto da estação central de Milão, que eu me surpreendi pelo tamanho.
Fiquei mais surpresa quando a van parou na frente do Príncipe di Savoia. Um dos hotéis, senão o mais, caros de Milão. Ele é quase um palácio. Sua fama é gigantesca.
Não entrei em detalhe sobre o pagamento da minha vinda para cá, mas espero que algumas estadias no Príncipe di Savoia estejam inclusas.
— Vamos! — Claire falou animada, saindo da van e fui animada logo atrás.
Todos seguimos para dentro do hotel e eu parecia uma tonta olhando para todos os lugares. Eu estava me sentindo em um museu, olhando para todas as obras, esculturas, tudo era lindíssimo. Carly foi em direção a recepção, mas não foi necessário, já que, o que me pareceu ser o gerente do hotel, veio até Claire.
— Senhora Stroll! — Seu inglês tinha um forte sotaque italiano. — Que prazer tê-la conosco.
— Ciao, come stai? — Ela usou seu italiano, fazendo um sorriso largo aparecer no meu rosto, de Chloe e Beatrice.
— Ah, fala italiano! — O gerente já mudou sua posição e fiquei um pouco mais próxima dela.
Eles falaram rapidamente sobre a reserva e sobre alguns pedidos especiais de Claire, e outro homem nos indicou o caminho. Seguimos com ele, entrando em um elevador grande como de hospital. Subimos para o último andar e o funcionário nos indicou o caminho.
Claire parecia já conhecer o local, e os outros já a seguimos.
— Caso precisem de algo, estamos à disposição! — O homem falou antes de sair.
— Bem, Chloe e Scotty ficam com o primeiro quarto, Beatrice e eu ficaremos com o segundo e Claire com o terceiro. — Carly disse.
— E eu...? — Estiquei a mão.
— Você vai ficar perto do Duomo, o hotel do Lance é para lá. — Claire disse. — Ele logo estará aqui para te buscar. Enquanto isso, pode usar meu quarto para tomar um banho, descansar e se arrumar.
— E nos encontramos à noite para o evento. — Chloe disse.
— Mal vejo a hora disso. — Falei, vendo Claire piscar para mim.
— Vamos, gente! O evento é as oito. Caso precisem de algo, falem pelo celular. — Claire disse.
— Vamos! Eu preciso dormir um pouco. — Scotty disse e seguimos para nossos quartos.
Por um segundo, eu me senti mal por não ficar oficialmente no Príncipe di Savoia, mas depois eu lembrei que estava realizando meus sonhos, que essa viagem estava sendo toda no 0800, que eu tinha vindo para cá em um jatinho particular, e que eu ficaria no mesmo hotel que Lance e pilotos de Fórmula Um, o que eu duvido que fosse ruim.
Nos planos das minhas viagens, as chances de eu ficar em um hostel com oito meninas eram enormes.
Claire permitiu que eu fosse tomar banho primeiro e se sentou na grande escrivaninha vitoriana para praticar seus papéis nessa vinda para cá. Meu papel estava feito e eu poderia dar apoio moral, mas sabia que não adiantaria nada, ela estava muito nervosa. Hoje seria o dia em que ela encontraria donos e investidores de grandes marcas italianas. Até eu estava nervosa só por estar nesse evento.
Tinha que ser perfeito.
Pensando que ainda pararia no hotel em que eu realmente ficaria, eu tomei banho e coloquei shorts e uma blusinha regata, além dos meus tênis sem meia. Passei bastante protetor solar, pois o sol na Itália estava realmente queimando, e passei um lápis e batom, só para não parecer ao lado de Lance sem nenhuma maquiagem.
Quando saí do banheiro, ele já me esperava largado em um dos vários sofás da antessala.
— Lancelot! — Falei animada e ele abriu um largo sorriso quando me viu.
— Ah, ela aqui! — Ele se levantou para me abraçar, me fazendo rir quando ele me tirou alguns centímetros do chão. — Como eu senti sua falta!
— Eu também! — Sorri, colando nossos lábios por alguns segundos. — E eu quero te matar! — Dei um tapinha em seu ombro, fazendo-o rir.
— O quê? O que eu fiz? — Ele riu.
— Olha onde você me trouxe, Lance! — Falei rindo. — Eu estou em Milão.
— Eu sei! — Ele respondeu rindo. — Só aproveitei as oportunidades. — Abri um largo sorriso.
— Você não deveria ter feito isso.
— Você está feliz? — Ele perguntou e assenti com a cabeça. — Então, pronto! — Rimos juntos.
— Ah, eu amei! Amei! Amei!
— Como assim “amei”? Você acabou de chegar! Qual é, temos muito que ver ainda. — Ri fracamente, assentindo com a cabeça.
— Ah, vocês são lindos juntos. — Claire disse, virada na cadeira, me fazendo sorrir.
— Obrigada.
— Eu sei! — Lance disse e neguei com a cabeça. — Bom, vamos? Não temos muito tempo até o evento.
— Sim! Preciso estar lá as sete. — Claire disse e olhei rapidamente no relógio.
— Bom, são quatro e meia. — Lance disse.
— Sim, vamos! — Fui para perto da minha mala e juntei meus itens de higiene nela novamente. — Você vai ficar bem, Claire? — Perguntei verdadeiramente preocupada com ela.
— Não se preocupe, querida. Eu vou! — Ela disse. — Seu trabalho foi feito, . E você o fez magistralmente. — Ela disse sorridente. — Agora o resto é comigo. — Sua última frase foi mais séria, então somente assenti com a cabeça.
— Ok! Estaremos lá às sete. — Falei, me aproximando dela e ela se levantou.
— Combinado! — Ela me abraçou, me fazendo sorrir. — Divirtam-se! — Ela disse e concordei.
— Até mais, mãe! — Lance lhe deu um beijo e puxou minha mala.
Seguimos para fora do quarto em silêncio e coloquei minha bolsa na lateral. Descemos pelo elevador, onde um carregador logo veio ajudar Lance, que negou, e uma Aston Martin verde estava parada no embarque e desembarque do hotel.
— Legal! Em estilo! — Falei e ele riu.
— Vem! Vamos nos divertir um pouco. — Ele colocou minha mala no porta-malas e aproveitei para entrar do lado do carona.
— Não temos muito tempo. — Falei.
— Não se preocupe! Nunca deixaria minha mãe sozinha no dia mais esperado do ano para ela. — Ele disse, ligando o carro.
Seguimos para fora do hotel e permiti abaixar o vidro, seguindo pelas ruas de Milão. Ele deu uma passada pelas estações Milano Centrale e pela Porta Garibaldi. Andamos perto da Pinacoteca di Brera e depois passamos pelo Teatro alla Scala, onde vi a entrada do outro lado da Galleria Vittorio Emanuelle II. Lance deu uma volta um pouco maior, para chegar por trás no hotel NH Collection Milano President.
— Senhor Stroll. — Um valet falou para ele, que assentiu com a cabeça quando estacionamos no estacionamento subterrâneo.
— Obrigada, Giuseppe! — Lance lhe entregou alguns euros. — Por favor, leve o que está no porta-malas para meu quarto. Darei uma rápida saída. — Ele disse. — Vem! — Ele esticou a mão.
— Lance! — Falei, sentindo-o me puxar com ele.
— Vem! — Ele disse rindo e subimos a ladeira do estacionamento subterrâneo, até ter o sol em nossas cabeças novamente.
Lance colocou novamente o boné e os óculos de sol pendurado na gola de sua blusa.
— Onde estamos indo? — Ele colocou a mão na boca, pedindo silêncio, quando andamos até próximo à esquina. — Não olhe para trás. — Ele me puxou e segui com ele, passando por trás de um tapume, e fui aí que vi.
O hotel tomava um quarteirão inteiro, então a entrada dele, e um pouco das laterais, estavam tomadas por fãs. Bonés de todas as escuderias tremulavam ali. Apressamos o nosso passo, seguindo pela lateral contrária do hotel, e a sombra dos prédios deve ter nos escondido.
— Acho que pronto. — Lance disse, andando mais devagar, mas não tirou os óculos e nem o boné.
— Onde vamos? — Perguntei.
— Você vai ver! — Ele disse rindo.
Andamos por alguns quarteirões arredondados, então não sei ao certo quanto andamos, mas pelo passo apressado de Lance, não demorou nem menos do que dez minutos, para eu ver a lateral do Duomo de Milão.
— Espera! Aqui é...? — Fiquei sem voz por um tempo.
— É... — Ele disse e segui correndo para frente. — ! — Ele gritou rindo e corri pela lateral da imensa catedral gótica no centro de Milão.
Corri cerca de 100 metros até finalmente vê-la na diagonal, junto com o portal da Galleria Vittorio Emanuelle II à minha frente.
As emoções tomaram conta de mim, me fazendo perder as forças por alguns segundos, então apoiei minhas mãos no joelho, me fazendo respirar fundo. Algumas lágrimas deslizaram pelo meu rosto em pura emoção.
— Ela é... — Suspirei, sentindo Lance me abraçar de lado pela cintura. — Gigante! — Lance riu. — Ela é linda! — Lance beijou minha bochecha, me fazendo rir. — Oh, meu Deus! — Suspirei rindo.
— Feliz? — Ele perguntou e assenti com a cabeça.
— Muito feliz! — Suspirei, passando os dedos rente aos olhos para evitar mais lágrimas caírem.
— Me dê seu celular. — Ele pediu e ri fracamente, lhe entregando. — Não se move.
Ele se afastou alguns passos e fez uma sessão de fotos comigo ali, naquela posição. Depois andamos um pouco mais para o lado, repetindo as fotos, depois mais para o lado, pegando a Galleria, até que o chamei para uma foto juntos. Isso certamente pedia uma foto nossa juntos. Ele era o responsável por eu estar aqui.
— Ela é incrível! — Suspirei. Me aproximando das portas fechadas. A catedral é paga para visitação e sua entrada é lateral. — Eu pensava que ela fosse menor.
— Incrível, certo? — Ele disse. — Me lembro da primeira vez que vim aqui, eu também fiquei abismado.
— É incrível! E pensar que eles construíram isso sem as máquinas que temos hoje. — Falei.
— E eles ainda faziam coisas mais bonitas. — Ele disse, me fazendo rir.
— Beh! — Dei de ombros, ouvindo-o rir.
— Quer entrar na Galleria?
— Sim! — Falei rindo e ele esticou a mão.
Seguimos para dentro da Galleria e eu não sabia o que me deixava mais surpresa. Toda a construção em si, a arquitetura e os detalhes, ou as marcas de grife que casualmente estavam lá dentro. Chanel, Yves Saint-Laurent, Prada, Louis Vitton, Dior, Swarovski, Fendi. Só senti falta da Versace ali.
Lance novamente me colocou no centro da Galleria, bem onde a cruz se encontrava e fez questão de encher de mais fotos.
— Você sabe a tradição? — Ele perguntou.
— Qual? — Perguntei e ele indicou o chão. — Está vendo aquele touro?
— Sim. — Vi o mosaico no chão.
— Diz a tradição, que se você girar três vezes com o calcanhar nos testículos do touro, vai te trazer sorte e prosperidade. — Ele disse.
— Bom! Não custa tentar, certo? — Ele riu.
Esperei uma pequena fila de pessoas fazerem exatamente a mesma coisa, antes de eu fazer o mesmo. Era mais difícil do que parecia.
— Você deveria fazer também. — Falei rindo.
— Por quê?
— Quem vai correr domingo é você, não eu. — Ele riu comigo.
— Oh, meu Deus! — Ele bufou, mas acabou fazendo enquanto eu ria dele. — Ok, ok! Se eu não ficar pelo menos em quinto lugar, eu culpo o touro. — Ele riu.
— Quem sabe? — Dei de ombros. — Sempre vou torcer por você. — Ele sorriu, dando um beijo em minha bochecha.
— Vem! — Ele indicou com a cabeça e andamos à diagonal, parando em uma fila, onde percebi ser Savini.*
— Gelatto? — Perguntei animada.
— É claro! — Ele disse rindo e sorri.
— A-a-a-a-ah! — Me animei, vendo-o rir.
— Você pede! — Ele disse, tirando alguns euros do bolso e vi que os preços variavam de cinco a oito euros.
— Qual que eu peço? — Suspirei.
— Pode pedir o grande, eu sei que você vai gostar. — Ele disse rindo.
— E você? — Perguntei.
— Sem doces para mim até domingo. Estou entrando em surto já, triple header mata. — Ri com ele, me aproximando.
— Ciao! — Sorri para o atendente.
— Ciao, come va? — Ele perguntou.
— Bene, grazie! — Sorri. — Per favore, un cono grande di... — Pensei, olhando para as diversas opções de sorvetes naturais. — Fragola e uva. — Pedi, vendo-o preparar a casquinha de morango e uva, antes de me entregar.
— Otto euro. — Lance entregou o dinheiro, pegando o troco em seguida.
— Grazie! — Falei, ouvindo Lance dizer comigo.
— Grazie! — Sorri, dando uma lambida no sorvete que já derretia.
— Ai, que delícia! — Suspirei, lambendo-o mais uma vez, contornando o sorvete com a língua.
— Não vou nem olhar, você está me dando inveja. — Ele disse, me fazendo rir. — Acho que nunca vi alguém tão feliz em tomar sorvete.
— Eu estou na Itália, realizando meu sonho, contigo. Eu vou suspirar e muito! — Falei, ouvindo-o rir.
— Aproveita, meu amor! Você merece! — Ele disse sorrindo.
— Scusa, Lance? — Virei para o lado, vendo um grupo de duas ferraristas, uma mercedista e uma mclarista ali.
— Ah, ciao! — Ele disse surpreso.
— Pode tirar uma foto com a gente? — Ele me olhou surpreso e só assenti com a cabeça.
— Claro! — Ele disse e me afastei alguns passos, continuando minha saga de suspiros contínuos enquanto tomava o sorvete e depois acabava com a casquinha.
— Ok, o que acha? — Perguntei, saindo do banheiro e Lance ficou boquiaberto.
— Uau! Você está linda! — Ele disse e me olhei no grande espelho do quarto.
O vestido prata tinha sido uma escolha de Claire. Ele não era completamente longo, mas tinha uma cauda que dava a impressão de ele ser longo. Fiz somente uma escova nos cabelos, deixando-os levemente cacheados na ponta e tentei fazer uma maquiagem mais forte, mas mantendo tons terrosos nos olhos e somente um batom mais rosado nos lábios.
— Sua mãe disse que é gala, então... — Ponderei com a cabeça.
— Você está perfeita. — Ele disse, me fazendo sorrir.
— Só vou colocar meus sapatos. — Falei, me sentando na beirada da cama, colocando as sandálias da mesma cor. — Hum, isso vai matar meu pé daqui umas horas.
— O evento é rápido. — Ele disse, se levantando. — E já vamos também. — Ele se levantou, colocando um paletó por cima da sua camisa e calça social.
— Você está lindo também. — Falei de seu conjunto inteiro azul escuro, junto do sapato da mesma cor.
— A Boss sabe de uma coisa ou outra. — Ele disse e ajeitei a gola de seu paletó,
— Você está incrível! — Trocamos um curto selinho, para não tirar meu batom. — Merecemos uma foto. — Peguei o celular e ele se colocou ao meu lado na frente do espelho. — Sorria.
— Sempre contigo! — Ele disse, colocando a mão na minha cintura e tirei algumas fotos, sorrindo em como estávamos lindos. — Será que minha mãe realmente quer que a gente vá? Digo, você está gostosa! — Ri.
— Lance! — Dei um tapinha em seu ombro. — Contenha-se.
— Eu tento, pelo jeito. — Ele deu de ombros.
— Vamos! — Falei, pegando minha bolsa e colocando o celular e o passaporte lá dentro.
Lance segurou a porta para mim e o segui. Dessa vez o corredor estava vazio, mas quando chegamos, boa parte da equipe da Aston Martin e da McLaren estava dividindo o corredor. Encontrei o pai de Lance, Vettel, Daniel Ricciardo, Lando Norris, e reencontrei o diretor da equipe de F1 da Aston Martin, Mike Krack.
Apesar da saída mais calma do quarto do hotel, a saída do hotel em si não estava tão calma assim. Mesmo que as ruas estivessem liberadas, e os policiais tivessem colocado grades para manter a frente do hotel livre, os fãs estavam em peso ainda.
Lance deu um rápido aceno quando gritaram para ele, e eu fiz questão de entrar rapidamente no carro. Quando Lance finalmente saiu do caos do hotel, tendo alguns fãs até batendo no vidro do carro, chegamos rapidamente ao nosso destino. O local eu nunca havia ouvido falar, se chamava Palazzo Morando. Fica no Quadrilátero da Moda de Milão, o bairro da moda. Eu deveria esperar por isso.
Ruas fechadas, holofotes e mais famosos nos esperavam mais uma vez. Por mais que eu estivesse com Lance há alguns meses, eu ainda não consegui me acostumar com isso. Um valet abriu a porta para que eu saísse e esperei Lance aparecer ao meu lado para entrarmos juntos. O grande pôster na porta denunciava um Pré-Fashion Week. Eu deveria esperar. Não sabia exatamente quando, mas estávamos perto da semana da moda de Milão.
O local era um palácio antigo e cada sala indicava um museu, seguimos para o local onde todos estavam, e vimos um salão aberto, com teto direito alto e grandes obras de arte. Aposto que era a sala de um dos museus que deveria ter aqui dentro.
As pessoas me olharam quando eu passei, e só consegui fingir costume ao passar por elas. Alguns dos engravatados que tentei dar aula, também me olharam de cima a baixo e só pude sorrir para eles.
— Irmãozinho! — Chloe disse e o abraçou, achei engraçado, pois Lance é o caçula da família, mas bem mais alto do que Chloe.
— Fala aí, mana! — Eles se cumprimentaram.
— Uau! Olha como ela está gata! — Chloe disse, me fazendo rir e trocamos dois rápidos beijos.
— E então? Onde está a mãe? — Perguntei.
— Com Donatella Versace. — Chloe indicou e notei a loira de Milão falando com a loira de Montréal.
— E como estão? — Perguntei.
— Tudo bem, aparentemente. Vamos perto. — Ela disse e seguimos juntos.
— Sì, chiaro, sarà un piacere cenare con te un giorno. — Ouvi Claire falando, me fazendo sorrir.
— È troppo buono vedere donne con grinta. — Donatella disse. — Italia è ancora un mondo di uomini, però stiamo vincendo piano, piano.
— Certo! — Claire respondeu e ela nos viu. — Ah, posso introdurti alcuni personi? — Ela perguntou.
— Sì! — Donatella disse.
— Questo è Lance, mio figlio e pilota di Fórmula Uno.
— Ah, ma che bello! — Donatella disse. — È un piacere.
— Grazie! Anche a me. — Lance disse.
— E questa ragazza è la sua fidanzata, lei che è stata mia insegnante d’italiano. — Claire disse.
— Ciao! — Sorri. — È un piacere.
— Mah! Tu hai fatto un bel lavoro con Claire... — Seu sotaque italiano ficou engraçado no inglês. — Lei è meravigliosa.
— Grazie, però tutto è stato possibile per lei. — Claire sorriu. — Scusate.
— Sì, siete confortevoli. — Donatella disse e dei um aceno para Claire, me afastando aos poucos.
— Ela está indo muito bem! — Falei sorrindo.
— Ela está! — Lance disse. — Vem! Vamos beber algo.
Passar essas quase duas horas observando Claire, foi a prova de que eu precisava de que eu fazia realmente um bom trabalho. Eu estava veramente stanca, como diz os italianos, mas foi possível com dedicação, deixar Claire fluente em uma língua que falantes de inglês e francês não costumam dominar.
Claire deslizava pelo local. Sua conversa com Donatella durou bons vinte minutos, depois ela conversou com Raf Simons, diretor criativo da Prada. Descobri depois que ele é belga, igual ela, mas ambos falaram um italiano perfeito.
Depois ela conversou com Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci. Não sei ao certo que tanto eles estavam discutindo, mas Carly estava ao seu lado anotando todas as informações possíveis. Talvez telefones, contatos ou reuniões já marcadas. Não sei exatamente quando íamos embora, mas sei que ela ficaria em Milão no mínimo até domingo, que é a corrida de Lance.
Ela ainda falou com diretores criativos da Dolce & Gabbana, Valentino e Armani. Podia ver em seu rosto que ela estava feliz, os ombros relaxados mostravam que agora ela estava relaxada, e o olhar positivo de Lawrence, me dizia que boas notícias viriam para a Sportswear Holdings.
Eu parei de beber no meu segundo champanhe, não tinha comida no evento. Talvez fosse pela vibe do local, vestidos de gala, pessoas deslumbrantes, e o estômago colado na barriga. Isso com toda certeza não estava nos planos do dia, mas Claire estava feliz, realizada, e a cara de merda dos outros alunos que não seguiram com o curso, eram as melhores.
Sei que vir para Itália era um sonho de vida para mim, mas poder vê-la realmente conquistando algo que falamos por quatro anos, era simplesmente deslumbrante.
— Ela foi incrível. — Falei, suspirando, tirando as sandálias discretamente.
— Ela foi. — Lance disse, me abraçando de lado. — Eu estou orgulhoso dela.
— É? — Virei para ela.
— Sim! Quando eu era pequeno, ela vivia à sombra do meu pai, mas quando eles terminaram, parece que ele deu mais apoio para ela do que antes. Talvez pela empresa ter sido dividida, não sei... — Ele deu de ombros. — E ela foi realmente construindo seu espaço. E estamos aqui hoje. — Ele virou para mim. — Graças a você.
— Não, graças a ela! — Falei, e ele sorriu, dando um curto beijo em meus lábios.
— Ecco qui! — O garçom chegou. — Una magheritta... — Ele disse, e indiquei a mão. — E una diavola. — Ele entregou a outra para Lance e suspirei.
Sorri com a linda pizza italiana sorrindo para mim, com o molho vermelho vivo, as pequenas bolas de muçarela de búfala derretidas e grandes folhas de manjericão basílico. Com toda certeza o epílogo perfeito.
— Buon appetito, Lancelot. — Falei, pegando uma fatia com a mão.
— Aproveita, , você merece! — Mordi a pizza pouco antes de ele terminar de falar, me fazendo dar um longo suspiro, ouvindo-o rir em seguida.
— Ah, eu mereço! Eu veramente mereço! — Falei, rimos juntos e ele fez o mesmo com sua pizza, dando o mesmo suspiro.
— Ok, é bom! — Rimos juntos, sorrindo com os lábios sujos de molho de tomate.
*Partes do capítulo foram inspiradas nas experiências pessoais da autora.
Fomos no Corso Sempione, no Arco della Pace, andamos de bonde, demos uma passada em Navigli, o bairro para gays, punks e afins. Passamos pelo Bosco Verticale, vimos diversas igrejas, e ainda visitamos até o Cemitério, que é um grande centro museu a céu aberto.
Na quinta de manhã, Lance me acordou com um beijo somente para se despedir. O fim de semana oficialmente começava e era o dia de lidar com a imprensa. Retribuí com um beijo, vendo-o sair do quarto de fininho, e me deixar com aquele quarto gigantesco só para mim. Pelo menos só até ele voltar no fim do dia.
Quando saí para o café da manhã, todas as televisões mostravam que a rainha Elizabeth II havia falecido. Fiquei surpresa, pois há poucos dias, ela estava bem, inclusive recepcionou a nova primeira-ministra britânica. Além disso, sua longevidade de vida e seu reinado, foram diferentes de tantos outros.
Depois de passar o susto, eu saí com Chloe e Scotty. Beatrice e Carly estavam a trabalho com Claire, então não puderam ir conosco.
Apesar de ser uma cidade grande, Milão não tem tantos pontos turísticos, caso você seja igual a mim e não seja tão fã de museu, então você não precisa de mais do que dois dias para conhecer os pontos mais importantes, sem contar voltar diversas vezes ao Duomo de Milão.
Chloe e Scotty conheciam Itália como a palma da mão deles, então eles ainda deram um pulo no Lago di Como, cerca de uma hora de viagem. Que local sensacional! Uma pena Lance não estar aqui comigo. A água cristalina, o local, era tudo incrível. Fiz questão de tirar várias fotos.
Encontrei Lance novamente no hotel, e fomos encontrar sua família em outra Trattoria para eu me matar de comer mais um pouco de comida italiana. Dessa vez eu comi um Spaghetti alla Carbonara. O prato é romano, mas Roma não estava no meu cronograma nessa viagem, mas o macarrão estava tão incrível quanto.
Na sexta-feira de manhã, a van da família Stroll veio me buscar para seguirmos para o primeiro dia oficial de Monza. Até Carly e Beatrice iriam também. Seria bom, pois assim faríamos um fim de semana das meninas.
Quando eu entrei no paddock, entendi o que falavam dos italianos. Já tinha percebido que sim, eles falavam bem altos, eles tinham a melhor comida do mundo, eles se vestiam bem para caramba, e que eles fumavam para caramba, mas também entendi o que falavam sobre a paixão italiana. O que você mais via ali era bandeiras da Ferrari, me senti levemente intimidada com o boné da Aston Martin em minha cabeça.
— ! — Lance sorriu ao me ver e me aproximei dele, trocando um abraço e um beijo. — Se divertindo?
— Bem, impossível se divertir mais do que os italianos. — Vi a braçadeira negra em seu braço esquerdo.
— Ah, eles são calorosos! — Ele disse rindo. — Ei, mãe! Ei, sis! — Ele cumprimentou o resto do pessoal, depois dando um abraço em Scotty e falando rapidamente com Carly e Beatrice.
— E aí, mano, primeira vitória hoje? Com a aqui? — Chloe brincou e rimos juntos. Sabíamos que era quase impossível, mas valia a pena brincar.
— Uh, eu vou adorar! — Falei rindo.
— Ei, olha quem estão aqui! — Vi Lawrence aparecer do segundo andar.
— Ei, Larry! — Claire o abraçou, fazendo-o retribuir feliz.
— Oi, gente! Tudo certo?
— Oi! — Sorrimos.
— Estão confortáveis? Gostariam de comer algo? Acabamos de servir o almoço, Vettel está em Hot Laps, logo tem o primeiro treino.
— Eu sempre aceito! — Scotty disse rindo, seguindo pelo restaurante.
— Eu não vou negar. — Beatrice falou rindo.
— Vamos! — Lance disse e seguimos juntos. — A comida é deliciosa! — Rimos juntos.
— Eu suspiro toda vez que eu como. — Ele riu.
— Fique à vontade. — Ele disse.
Lance já tinha comido, pelo jeito, então ficou só nos olhando comer, enquanto conversávamos.
— Sabe... Eu estou com uma ideia, se você topar. — Lance disse.
— É? Qual? — Perguntei, colocando um pouco mais de comida na boca.
— Que tal fazer Hot Laps comigo amanhã? — Ele perguntou.
— O quê? — Perguntei surpresa.
— É! — Ele riu. — Vai ter novamente na hora do almoço.
— Eu não sei... É seguro? — Scotty riu ao meu lado.
— Não exatamente! — Scotty falou. — Brincadeira, cunhado! — Eles riram. — É legal, !
— Não vamos acima de 250 quilômetros por hora. — Lance disse. — Por questões de segurança.
— Oh, claro! — Falei ironicamente.
— Você decide! — Ele disse rindo.
— Ok, podemos fazer. — Sorri. — Mas antes de eu comer.
— Combinado! — Rimos juntos.
— Vamos lá, galera! 20 minutos! — Vi uma mulher gordinha chamar os pilotos e vi que um piloto mais novo se levantou no lugar de Vettel.
— De Vries vai pilotar pelo Vettel no primeiro treino como parte do programa de jovens. — Lance explicou.
— Bom! — Falei rindo.
— Eu vou lá, nos vemos depois! — Ele disse, dando um beijo em minha cabeça.
— Bom treino! — Falei e ele sorriu, acenando para o pessoal.
Às duas da tarde, tivemos o primeiro treino. Teve um minuto de silêncio para a Rainha Elizabeth II e todos os pilotos e equipe usavam uma braçadeira similar a que Lance usava. Quando o TL1 finalmente começou, Lafiti, De Vries, Giovinazzi (que substitui Mick Schumacher, pelo mesmo programa de De Vries), Magnussen e Norris, ficaram na primeira parte.
Ficamos empolgados por Lance ir para TL2, mas ele ficou em 15º, depois Pérez, Gasly, Zhou e Albon ocuparam os outros lugares. Agora o top 10, ficou composto por Leclerc como mais rápido, fazendo os Ferraristas surtarem. Depois Sainz, Russell, Hamilton, Verstappen, Ocon, Alonso, Tsunoda, Bottas e Ricciardo completaram as outras posições.
Durante a pausa entre os dois treinos, Lance ficou focado em entrevistas, então só o vimos novamente se preparando para o TL2.
Não tivemos tanta sorte quanto na primeira, Mick foi o último, depois Latifi, Lance em 18º, Vettel e Magnussen foram os primeiros eliminados. Depois Tsunoda, Gasly, Bottas, Zhou e Ricciardo. Depois, completando o top 10, ficou com Sainz como mais rápido, Verstappen, Leclerc, Norris, Russell, Pérez, Hamilton, Ocon, Alonso e Albon no top 10.
Não foi o esperado, mas o dia foi divertido. Na verdade, era muito fácil me divertir aqui e tudo que eu vivia, estava sensacional.
Esperamos que Lance finalizasse todos seus compromissos para voltarmos para Milão, por volta das nove da noite. Já tínhamos jantado no paddock, onde comi uma deliciosa pizza de n’duja, um tipo de salame apimentado, então voltar para o hotel foi só para tomar banho e deitar, pois o dia de Lance começava cedo novamente no dia seguinte.
— Pronta? — Lance perguntou e saí do banheiro.
— Eu gostei! — Falei rindo, colocando as mãos na cintura, me vendo com o macacão similar ao de Lance.
— Você está linda! — Ele disse e sorri, me aproximando dele, trocando um rápido beijo.
— Vamos! — Falei e ele me entregou um capacete.
— Você vai adorar! — Ele disse rindo e seguimos para fora da garagem, vendo um carro da Aston Martin estacionado na frente da garagem.
— É demais! — Falei rindo.
— Vem! — Um mecânico falou.
— , esse é o Mark, meu mecânico chefe.
— Oi! — Sorri, e ele cumprimentou.
— Prazer em te conhecer, senhora. — Assenti com a cabeça. — Algumas regras básicas. Não tire o capacete e nem o cinto. De resto, aproveite o passeio. — Ele colocou o capacete em minha cabeça.
— Acho que está fácil! — Dei de ombros.
— Uh, eu adorei a cor! — Chloe disse. — Sorria! — Virei para ela, vendo-a tirar algumas fotos.
— Lance... — Mark falou para ele, ajeitando o capacete. — Não exagere. — Ele disse sério.
— Vamos! — Lance foi para o outro lado e Mark abriu a porta para que eu entrasse.
Ele fez questão de prender bem os dois cintos de segurança que tinham ali, e abriu uma fresta do vidro. Lance se ajeitou do outro lado, já acostumado com o local, e ligou o carro, fazendo o motor me fazer rir.
— Ah, isso é demais! — Ele disse rindo.
— Qualquer problema, me avise, ok?! — Ele disse e concordei. — Saindo do pit, a gente acelera. — Confirmei com a cabeça.
Seguimos pelo pit, passando pelas outras garagens, e saímos devagar pela pista de Monza. Levou somente dez segundos para que ele acelerasse o carro, me dando um leve tranco quando o fez. Me segurei no apoio de mão, soltando um pequeno guincho, ouvindo Lance rir e vi o velocímetro aumentar exponencialmente.
— Tudo bem? — Lance falou mais alto, acima do barulho do vento que entrava.
— Tu—udo! — Falei rindo, sentindo a primeira curva. — A—a—a—h! — Gargalhamos juntos.
Demos uma primeira volta, seguindo pela segunda, e a torcida parecia se empolgar com qualquer coisa que estivesse na pista. Comecei a me acostumar com o balanço do carro, me fazendo soltar pequenas risadas quando sentia o estômago colar nas costas. Demos uma terceira volta, antes do carro entrar no pit novamente.
— Oh, meu Deus! — Falei rindo.
— E aí, gostou? — Lance disse rindo.
— Eu amei! — Falei gargalhando. — Ah, meu Deus. Eu amei!
— Temos mais uma cliente satisfeita! — Mark falou, me fazendo rir.
— Cara! É demais! — Falei rindo. — Agora entendo por que vocês gostam disso. — Rimos juntos.
— Pronta para ser uma pilota de Fórmula Um? — Mark perguntou ao abrir a porta para mim.
— Ah, não! Deixa para eles. — Ri fracamente.
— Aqui! — Ele me entregou uma garrafa de água. — Respire, beba água e não se levante tão rápido. Ou você vai cair. — Confirmei com a cabeça, tirando o capacete e voltando a relaxar no banco. — Fica uns dez minutos aí. — Ele se afastou e vi Lance aparecer do outro lado.
— Ah, cara! Eu adorei isso! — Falei rindo.
— Vamos repetir amanhã novamente? — Ele brincou.
— Ah, eu acho que não! — Rimos juntos. — Mas talvez semana que vem?
— Combinado! — Ele piscou. — Vou pegar água, descanse um pouco aí.
— Pode deixar. — Falei, respirando fundo.
Mark tinha razão, eu fiquei muito grogue depois que levantei, parecia uma criança aprendendo a andar novamente, foi loucura! A ação da gravidade é louca de verdade!
Dessa vez eu assisti o TL3 do restaurante, mas Stroll não foi muito bem. Acabou ficando em último no terceiro treino. Além dele, Mick, Magnussen, Vettel e Bottas fizeram os piores tempos. Depois Ricciardo, De Vries, Latifi, Gasly e Zhou na segunda parte. Os 10 melhores foram Verstappen, Leclerc, Pérez, Sainz, Alonso, Norris, Russell, Tsunoda, Ocon e Hamilton.
Durante o intervalo do TL3, Lance foi novamente fazer trabalho de imprensa, enquanto isso aproveitei para acompanhar as outras questões em pista, o GP de Monza era realmente animado. Tinha mais coisas que o Canadá.
Na maioria do tempo, fiquei com Chloe, Scotty, Beatrice e Scotty, papeando no pátio da Aston Martin e aproveitando da hospedaria. A comida, bebida, tudo era simplesmente incrível. Além de começar a me enturmar mais com os funcionários da Aston Martin como Angelina, a gordinha que os chamou mais cedo, e Monique, assessora da equipe. Essa vida de viajar pelo mundo inteiro deve ser legal, mas parecia ser cansativo. Especialmente quando não podia turistar tanto.
Quando chegou na hora da classificatória, tudo ficou bem alvoroçado, mas todos fizeram questão de se aproximar das garagens, fazendo todos se animarem. Lance ficou em 18º e Vettel tomou a 12ª posição, tornando a classificatória rápida para a Aston Martin, mas acompanhar o pessoal, foi legal.
Latifi, Vettel, Stroll, Magnussen e Schumacher tomaram os últimos cinco lugares. Depois foi a vez de Ocon, Bottas, De Vries (que estava substituindo Albon devido a uma apendicite), Zhou e Tsunoda tomaram as outras 5 posições. Então faltou somente o top 10. Leclerc foi pole na Itália, deixando todos felizes, depois Verstappen, Sainz, Pérez, Hamilton, Russel, Norris, Ricciardo, Gasly e Alonso terminaram o top 10.
Acabei indo embora com Claire e sua família, o dia seria mais longo, então aproveitei para relaxar um pouco no hotel, tomar banho e esperar Lance chegar, mas o sono me ganhou.
Domingo começou agitado. O paddock parecia que estava bem mais lotado que nos dois primeiros dias, acho que o pessoal vinha mais para a corrida mesmo. Além dos ricos e famosos que faziam os fotógrafos ficarem mais loucos do que antes.
A corrida da Fórmula Um era o único evento da Fórmula Um do dia, mas bastante coisa acontecia na pista. Tivemos as corridas da Fórmula Dois, da Três e da Porsche. Perto da uma da tarde, tivemos a parada dos pilotos, depois tivemos uma volta em homenagem a Emerson Fittipaldi.
— Boa corrida, ok?! — Falei para Lance minutos antes de ele ir para a pista.
— Pode deixar! — Trocamos um rápido beijo. — Até mais, gente! — Ele abraçou sua família, recebendo um beijo de sua mãe. — Vamos lá!
Ele seguiu para a garagem, colocando a balaclava, o capacete e entrou no carro. O barulho do carro ficou alto e ele logo saiu, para organizar o grid do outro lado das grades. Quando todos os pilotos chegaram no grid, eles seguiram para os protocolos. Teve um minuto de silêncio para a Rainha Elizabeth II, depois tive o prazer de ver Andrea Boccelli cantando o hino nacional da Itália — junto de vários italianos efusivos — e a Frecce Tricolore e um avião da ITA, passaram voando, em homenagem aos 100 anos Força Aérea Italiana. Foi verdadeiramente emocionante.
Fiz um sinal da cruz quando os pilotos entraram no carro e respirei fundo. Várias namoradas apareciam na tela tão nervosa quanto eu. Acho que era um padrão.
— Lights out and way we go!
Lance ganhou algumas posições na largada, chegando em 11º, fazendo a equipe se empolgar, além de Vettel que ficou em décimo. Faltavam mais 53 voltas, então era só o começo de roer unhas e ficar nervosa.
A corrida seguiu cheia de ultrapassagens, especialmente de Verstappen, que passava Ricciardo, que estava em quarto, depois Russel que estava em segundo, ficando uma briga entre a Ferrari e a Red Bull.
Sainz também estava com tudo, ele queria realmente ficar no pódio com a equipe italiana, passando Alonso e fazendo os Ferraristas, que lotavam o autódromo, gritarem por ele.
Na 12ª volta, tivemos nossa primeira decepção, Vettel começou a desacelerar, até precisar parar o carro e abandonar, ficando com um piloto a menos. Nessa hora, Lance se mantinha firme em 11º. Alguns minutos de Safety Car Virtual, tudo voltou ao normal na volta seguinte.
Verstappen liderou quando os pit stops chegaram, mas Leclerc logo passou novamente, voltando a pegar liderança, e colocando uma distância de 10 segundos entre ambos. Lance não deu tanta sorte com os pit stops, voltando para a pista em 17º lugar. Hamilton e Gasly batalhavam animadamente, fazendo com que o inglês ultrapassasse o francês.
Na volta 31, foi a vez de Alonso abandonar, pelo jeito o carro tinha algum problema, mas deu para chegar no pits stop. As McLaren começaram a ter problemas, quando Norris passou Ricciardo, mas parecia um problema de decisão da equipe. Nessa hora, Verstappen tomou novamente seu primeiro lugar, fazendo os Ferraristas murcharem novamente na arquibancada.
Na 39ª volta, foi a vez de Lance abandonar a corrida, me deixando desanimada. Ele veio como quem iria trocar os pneus, mas acabou precisando abandonar o carro. Pelo jeito o problema dele foi o mesmo que de Vettel: motor.
A corrida tinha acabado para a Aston Martin, todo mundo ficou muito decepcionado com isso, fazendo com que o trabalho da equipe terminasse mais cedo. Lance voltou para a garagem e o acompanhei sair de seu carro, vendo os mecânicos começarem a cuidar do carro dele.
— Tudo bem? — Abracei-o quando ele se aproximou de mim e ele retribuiu, assentindo com a cabeça.
— Está tudo bem! — Ele disse e confirmei com a cabeça, trocando um rápido beijo com ele. — Vou para imprensa. Aproveite o resto da corrida.
— Pode deixar. — Assenti com a cabeça e o vi sair com outro marketeiro.
Passado mais algumas voltas, foi a vez de Ricciardo abandonar, o carro começou a desacelerar e vazar óleo na pista, até que finalmente parou. Já eram quatro abandonados na corrida. O Safety Car foi para pista, para limpar e a corrida acabou finalizando com o Safety Car na pista, deixando todo mundo levemente decepcionado. Verstappen ganhou, mas isso não impediu que os Ferraristas invadissem a pista e comemorassem o segundo lugar de Leclerc. Russell ocupou o terceiro lugar.
Depois Sainz, Hamilton, Pérez, Norris, Gasly, De Vries, Zhou, finalizaram o top 10. Apesar da finalização da Aston Martin, foi bem divertido.
A equipe parecia estar acostumada com isso, então seguiu agindo como se nada tivesse acontecido. Eu fui com sua família de volta para o motorhome, mas aproveitei o restante da hospitalidade da equipe, antes de finalmente finalizar o fim de semana.
Lance e Vettel voltaram para o motorhome com as mesmas feições decepcionadas, e foram acolhidos pelas suas famílias. Lance foi acolhido por seus pais, e nos abraçamos quando ele terminou de cumprimentar todos.
— Está tudo bem, prometo! — Ele disse. — Nada de novo. — Assenti com a cabeça e dei um beijo em sua bochecha. — Só vou tomar banho, depois vamos embora.
— Combinado. — Lhe dei outro beijo antes de ele seguir.
— Não foi o esperado, mas foi bom! — Lance falou quando saí do banho.
— Eu adorei! — Falei passando a toalha no cabelo. — Assim, os dois carros da AM abandonarem foi no mínimo azar, mas eu gostei do clima de Monza, bem mais animado.
— O calor ajuda também. — Lance riu, distraindo o olhar do celular. — No Canadá é muito frio, não dá para se empolgar muito.
— Acho que é algo dos italianos. — Falei. — Eles são muito eufóricos. — Ri.
— Eles são! — Ele disse rindo. — E a comida é incrível!
— Ah, que delícia! Eu quero uma quentinha do chef da Aston Martin todos os dias, para sempre. — Ele riu.
— Bem, do chef da AM não tem, mas a Nicka é uma chef profissional também. — Ele disse. — E ela não faz somente comida kosher, você pode pedir algumas coisas para ela.
— Acho que a ideia não é ruim, ainda mais que agora estou com todo tempo do mundo. — Falei.
— Você pode conseguir outros alunos, você sempre diz que tem uma lista de espera.
— Sim, vou começar ela, mas falei para sua mãe que quero validar meu diploma da faculdade, é linguística, talvez possa entrar em uma escola. — Falei. — É uma ideia.
— Parece que tem um plano. — Ele disse e assenti com a cabeça, voltando para o banheiro.
Penteei meus cabelos, secando-os rapidamente, só para tirar um pouco do enxarcado e pendurei a toalha, voltando para o quarto. Peguei meu celular no carregador e me deitei ao lado de Lance, vendo-o deixar o celular de lado.
— E agora? Quais os planos? Quando voltamos para casa? — Perguntei, virando para ele.
— Bem... Minha mãe, Chloe, Scotty, Carly e Beatrice, voltam para o Canadá. — Ele disse.
— Ok, e nós? — Perguntei e ele riu.
— Bom, nós... — Ele virou para a mesa. — Agora que você não precisa voltar rapidamente para o emprego... Eu tenho outras ideias. — Ele disse.
— Quais ideias? — Franzi a testa e ele me entregou um papel.
Percebi que era uma passagem de trem da Frecciarosa. Desdobrei a parte que cobria o destino e olhei surpresa para onde iríamos amanhã.
— TURIM?! — Gritei surpresa, fazendo-o rir.
— É claro! — Ele sorriu. — Ou você achou que viríamos até aqui e não visitaríamos seu time favorito? — Ele perguntou rindo. — Tem jogo da Champions na quarta. Pensei em assistirmos, depois a gente pensa no que faz. — Gargalhei rindo.
— Ah, meu Deus! — Pulei na cama. — Já falei que te amo? — Perguntei animada, pulando nele, fazendo-o rir.
Colei nossos lábios, sentindo-o me abraçar pelas costas, fazendo nosso corpo tombarem na cama. Os beijos aumentaram lentamente, fazendo nossos corpos se enrolarem nas cobertas.
A mão dele desceu pela minha cintura, percorrendo minha pele, explorando cada centímetro. Eu me afastei um pouco para nos olharmos, e ele sorria travesso, fazendo meu corpo arrepiar.
O puxei novamente, sentindo nossos corpos se encaixarem de maneira perfeita. A mão dele deslizou pelas minhas costas, me fazendo arquear o corpo para mais perto dele, a tensão aumentando a cada segundo.
— Eu te amo. — Murmurei, tocando seu rosto, enquanto ele me olhava com aqueles olhos brilhando de uma maneira quase predatória.
— Eu te amo. — Ele respondeu, com um sorriso que parecia prometer mais do que diziam.
E então, sem mais palavras, os beijos voltaram a crescer, mais profundos, mais urgentes, enquanto a noite seguia, a tensão palpável aumentava entre nós.
*Partes do capítulo foram inspiradas nas experiências pessoais da autora.
Nos despedimos deles na segunda-feira à noite e voltamos a ficar em nosso hotel. O hotel ainda tinha alguns fãs na porta, porque alguns pilotos ainda estavam na Itália. A próxima corrida seria em três semanas, então eles tinham um período de descanso também.
Naquela noite eu não dormi. Fiquei virando na cama diversas vezes, acordando Lance também, tentando fazer com que a ansiedade ficasse mais calma. Nosso trem era 10 horas da manhã, mas antes das seis, eu cansei de tentar dormir e levantei. Comecei a arrumar minhas malas, preparando para viajar, e tomei banho, já me vestindo.
Lance acabou se levantando uma hora depois, pois eu já fazia barulhos e não parava de soltar suspiros e assovios nervosos. Lance era um grande mala quando ele ficava com sono e eu havia causado isso.
— Ok, ok! Chega! — Ele disse, jogando a coberta para o lado e dei um sorriso irônico.
— Eu te amo! — Falei e ele passou por mim, dando um rápido beijo em meu bico.
— Eu também. — Ele suspirou, fazendo cara feia. — Vou tomar banho.
Assim que ele saiu do banho, fomos tomar um rápido café da manhã e esperei Lance finalizar de arrumar sua mochila para seguirmos. A vantagem é que a equipe levava todos os uniformes que ele precisava, então sua mochila era muito pequena. Enquanto eu carregava o mundo nas costas.
Quando chegamos na estação e embarcamos no trem, eu já tinha tomado um calmante para parar de hiperventilar na uma hora de viagem entre Milão e Turim.
Lance até tentou me distrair durante esse tempo, mas eu estava mais interessada no percurso da viagem. Ok, é igual andar na estrada, não tem lá “grandes coisas”, mas é legal acompanhar o movimento.
Turim é uma cidade majoritariamente industrial, então quando o trem começou a entrar na cidade, ele seguiu pela parte periférica, onde era possível ver algumas empresas se formando ali, além da moradia um pouco mais precária. E quando nos aproximamos do centro da cidade, a linha do trem foi para o subterrâneo, então não dava para ver mais do que o céu azul.
— Chegamos! — Ele disse e sorri. Me aproximei dele, dando um beijo, fazendo-o retribuir meu sorriso.
— Obrigada! — Falei.
— Acabamos de chegar! — Ele disse rindo.
— Mesmo assim, agradeço por preparar isso. — Ele riu.
— Vamos lá! — Nos levantamos, vendo algumas pessoas saindo, ele colocou seu boné da Boss antes de pegarmos nossas malas no bagageiro. Cada um estava com uma mala de mão somente, além das mochilas.
Seguimos para fora do trem e já estávamos na estação. A parte da frente era larga, com cerca de 20 plataformas. Àquele horário não estava tão cheio, mas Turim é a quarta maior cidade da Itália, então talvez enchesse em um horário de pico.
Lance me deu a mão e andamos pela estação, vendo a divisão de dois andares, alguns restaurantes, cafés e lojas. Saímos pela frente da estação e vi o movimento da cidade de Turim, me fazendo suspirar.
— Eu estou aqui. — Ele sorriu para mim.
— Você está. — Ele abriu um largo sorriso e virei de frente para a estação Porta Nuova, vendo a linda arquitetura antiga, me fazendo suspirar.
— É exatamente como nas fotos. — Ele me abraçou pelos ombros, dando um beijo em minha bochecha e suspirei.
— Tem muito mais para você conhecer. — Ele segurou minha mão novamente. — Vamos deixar as coisas no hotel, depois saímos.
— Onde vamos ficar? — Perguntei.
— Aqui do lado. — Ele indicou com a cabeça e franzi a testa. — Vem!
Ele me puxou com a mão, e seguimos para a lateral direita da estação, do lado do embarque e desembarque. Esperamos uns cinco minutos pelo semáforo abrir, fechar, passar ônibus, bonde e bastantes bicicletas, e atravessamos a rua, andando na calçada contrária a estação.
— Aqui! — Ele indicou o prédio literalmente ao lado da estação e franzi a testa ao ler Hotel Turin Palace.
— Eu nunca imaginei que isso fosse um hotel. — Franzi a testa. — Achei que fosse algum prédio do governo.
— Pois é! Nossa casa pelos próximos dias. — Ele disse antes de entrarmos.
Depois de alguns meses namorando Lance, eu poderia dizer que estava acostumada com certos luxos, mas acho que nunca estaria. A decoração luxuosa, o prédio antigo, o mármore, tudo é simplesmente magnífico.
— Ciao, come stai? — O homem atrás do balcão falou.
— Ciao! — Sorri simpática.
— Riserva per Lance Stroll. — Lance falou em seu italiano simplório, mas o homem claramente já sabia quem era.
— Suíte con terraza. — Ele disse e confirmei a cabeça, sabendo que era um quarto duplo com terraço.
— Sim. — Lance voltou para o inglês e lhe entregou o cartão de crédito. O recepcionista lhe entregou uma folha para assinar, pediu meu documento, e fizemos os trâmites rapidamente.
— Quinto andar, quarto 51. — Ele falou, entregando duas chaves.
— Grazie! — Sorri.
— Grazie! — Ele retribuiu e segui com Lance.
Como eram poucas bagagens, subimos com ela, sem precisar de carregadores ou outro tipo de serviço extra. Subimos no elevador e nosso quarto era ao final do corredor. Como sempre, me surpreendi com o tamanho e a decoração. Tinha uma antessala, um quarto grande com uma cama gigante, um banheiro do tamanho do meu apartamento em Montréal e uma sacada que dava para a lateral do prédio.
— Eu gostei. — Falei.
— É bonito! — Ele comentou como se dissesse algo sem importância. — Quer descansar um pouco? Tomar um banho? — Ele perguntou.
— Aceito o banho, depois comida, aí podemos dar uma volta. — Ele assentiu com a cabeça.
— Combinado.
— Tem algo planejado para hoje? — Perguntei.
— Não, só amanhã. — Ele disse e confirmei com a cabeça.
— Vai me contar o que é? — Perguntei.
— Você sabe o que é! — Ele disse, se jogando na cama e ri fracamente.
— Eu vou tomar banho. — Ele riu.
— E eu vou esperar aqui! — Ele disse rindo e neguei com a cabeça.
— Ah, é linda! — Suspirei com a vista de Turim do topo do Monte dei Cappuccini.
Aqui em cima tem uma igreja, até grande com base em várias que eu passei, mas a vista para a cidade de Turim é incrível. Dá para ver realmente tudo!
— Olha! É o estádio da Juve! — Apontei bem longe para duas antenas do estádio que ficava perto dos Alpes.
— Ah, é longe daqui! — Lance disse.
— A gente vai lá, né?! — Virei para Lance.
— O que você acha? — Ele riu. — Vamos amanhã.
— Ok! — Sorri igual uma criança e ele deu um curto selinho em meus lábios.
— Vai, faz uma pose! — Ele se afastou alguns passos de mim e me apoiei na murada, sorrindo para meu fotógrafo oficial.
Turim é uma cidade grande, mas creio que parte disso se dá pela área industrial e periférica, pois andar no centro é fácil. O turismo está centralizado entre as Piazze San Carlo, Castello e Vittorio Veneto, que formam um triângulo. Entre elas, estão vários pontos turísticos, como o Duomo de Turim — conhecida por ter o Santo Sudário — vários castelos antigos da época da Família Savoia — família italiana que reinou desde a unificação em 1861 — entre restaurantes, várias outras igrejas e lojas de luxo. Já havia perdido quantos gelatos eu já comi, especialmente o de Nociola — de avelã — que é daqui de Turim.
Também havíamos ido mais cedo para a Mole Antonelliana, foi construída para ser uma sinagoga, mas hoje é o Museu Nacional do Cinema Italiano. Além da lindíssima exposição, dessa vez sobre Dario Argento, que pelo visto é um diretor de terror moderno, subimos no elevador que ficava no centro do prédio, para ver a vista do topo da Mole.
— Vamos? A última subida é cinco horas. — Lance disse e desencostei da beirada, suspirando.
— Vamos. — Falei rindo e ele esticou a mão, me fazendo segurar.
Descemos a pé dois níveis da montanha até chegar no local que estacionamos o carro alugado. Descemos mais alguns níveis até voltarmos para a Corso Casale, uma das ruas que cortava Turim, e seguimos até o final, passando por vários estabelecimentos, restaurantes, outras igrejas, até chegar em uma estação de trem. Lance estacionou um pouco longe, e seguimos a pé até lá.
— Ah, estou empolgada! — Falei saltitando, andando.
— Acho que nunca te vi tão feliz, ! — Lancelot disse rindo.
— É meu sonho se realizando, Lance. — Falei rindo. — E nem vem, eu fico feliz com qualquer coisa. — Ele me abraçou pela cintura.
— Mas aqui você está mais. — Ele tirou um cabelo do meu rosto.
— É tudo junto, você me faz bem. — Ele sorriu.
— Você também me faz bem, . — Trocamos um rápido beijo e ouvi um sininho, vendo o trem descendo para a estação Sassi.
— Vamos para a fila! — Falei, me aproximando de um grupinho de umas oito pessoas.
— Ei, Lance Stroll! — O italiano falou com sotaque forte.
— Ciao! — Lance disse envergonhado.
— Una foto? — Ele sugeriu e Lance concordou.
Depois dele, outros três homens aproveitaram para tirar foto também. Enquanto isso, o trem chegou na estação. Entregamos nossos bilhetes para o maquinista e ocupamos um banco para dois. Após o trem encher, ele começou a subir novamente.
A subida é alta. Ela possui 672 metros, e o trem leva cerca de 20 minutos para chegar lá em cima, mas a Basílica de Superga não era vista do trem. Quando chegamos na estação de Superga, precisávamos subir um pouco mais a pé, em uma ladeira bem íngreme, diga-se de passagem, para chegar na linda basílica.
Lá em cima, tem somente ela e alguns restaurantes. Ela é lindíssima por fora e por dentro, mas eu estava mais interessada em ir atrás da basílica, onde sabia que tinha uma homenagem aos “Caídos de Superga”.
É uma tragédia similar ao que houve com a Chapecoense. Em 1949, o Torino, rival local da Juventus, era um campeão invicto, foi o único time a ganhar quatro campeonatos nacionais seguidos, e boa parte da Seleção Italiana fazia parte dela. Voltando de um amistoso em Portugal contra o Benfica, um denso nevoeiro cobria Turim, e o piloto errou a manobra de descida, batendo no muro posterior à Basílica, exatamente na parte de trás dela, um pouco abaixo.
Foi impossível não derramar algumas lágrimas ao ver as fotos dos falecidos, e do memorial logo atrás, onde também tinha várias homenagens de outros times e jogadores. Eu só tinha um boné do Brasil comigo, então o coloquei junto as outras homenagens.
Devido a esse acidente, Torino e Chapecoense são dois times muito próximos. Outras homenagens e acontecimentos emocionantes se sucederam ao cortejo de mais de 500 mil pessoas: Torino estava quase para se consagrar campeão pela quinta vez, então todos os outros times colocaram seus jogadores da base para jogar, certificando que a base do Torino também ganhasse. Outro acontecimento foi que esse acidente fez a seleção italiana — no caso a base Italiana — ir de navio para a Copa do Mundo no Brasil em 1950, temendo outra tragédia.
Infelizmente, após o acidente, o Torino entrou em decadência e só ganhou outro campeonato em 1976. Daí para frente, tem subido e descido da Serie A italiana quase anualmente.
— Eu nunca soube disso. — Lance disse.
— Foi em 49, não tem por que ficar lembrando. Eu sei por causa da história de Turim. — Passei a mão no nariz escorrendo. — E da relação com a Chapecoense do Brasil.
— É bonito, . — Ele deu um beijo em minha bochecha e suspirei, perdendo mais alguns minutos naquele lugar.
— Para! Para! Para! — Falei animada ao ver o estádio pela janela do carro.
— Calma-a-a! — Lance respondeu no mesmo tom desesperado, entrando em uma vaga no entorno do estádio. — Pronto-o-o-o-o!
Abri a porta rapidamente, olhando as pressas antes de atravessar a rua e caminhar pelo largo quarteirão que fica o Allianz Stadium da Juventus.
— ! — Ouvi a voz de Lance ao longe e logo ele me alcançou, segurando minha mão.
Em volta do local tinha algumas barraquinhas de comida e souvenirs, para o jogo que aconteceria à noite. Me aproximei de uma, vendo alguns bonés e flanelas da Juve.
— Ciao! — O vendedor falou.
— Ciao! — Respondi animada. — Quanto?
— 20 o boné, 15 a flanela. — Ele disse.
— Um de cada, por favor. — Falei, abrindo minha bolsa, mas Lance só tocou na minha mão. Não! Eu pago!
— Eu pago todos os gastos da viagem! — Ele disse sério.
— E o que eu pago? — Perguntei e ele deu de ombros.
Revirei os olhos, mas já enrolei a flanela no pescoço e depois o boné na cabeça, e me afastei da barraquinha, seguindo para o estacionamento, chegando mais perto do estádio e já comecei a tirar várias fotos. Lance logo se aproximou, tirando algumas fotos de longe, ou só também aproveitando, ele também é um fã de futebol.
— Feliz? — Ele me perguntou, me abraçando pela cintura.
— Você nem imagina. — Suspirei e ele riu, me dando um beijo na bochecha.
Aproveitamos um pouco mais aquela direção do estádio, depois começamos a andar em direção ao Museu da Juve. Paramos perto do J-Medical para tirar algumas fotos da clínica médica ligada ao time, depois seguidos para a loja oficial.
Lance fez questão de comprar uma blusa oficial do time, uma blusa da linha street wear, preta com escrito “Juventus EST 1897”, e uma pelúcia do Jay, mascote do time.
— Ele é fofinho! — Abracei o Jay, vendo Lance rir.
— É! Ele é fofinho! — Ele revirou os olhos, me fazendo rir. — Deixa que eu carrego ele.
— Vai cuidar dele? — Perguntei séria.
— Sim, senhora , eu vou cuidar da sua zebra de pelúcia! — Rimos juntos e lhe beijei na bochecha. — Vamos entrar no museu, nosso tour é em 40 minutos.
— Vamos! — Falei animada, saltitando à sua frente.
Já tínhamos adiantado a compra dos ingressos online, então só apresentamos o QR code na porta e entrei, já abismada com a entrada circular preto e branca, com o nome do time.
O museu em si não é muito grande, mas só de ter vivido todas as conquistas, prêmios, foi emocionante! Lance já tinha virado meu fotógrafo particular, ele tirou fotos minhas em todos os pontos: nas fotos, nos prêmios, nas blusas dos jogadores, nas interatividades, tudo! Além de tirar algumas comigo. Eu não sabia se era possível ficar cada vez mais emocionada.
Depois, tem um museu um pouco menor, sobre alguns famosos que são torcedores da Juventus, e doaram prêmios para o Juventus Museum.
Lance me deixou aproveitar todos os detalhes possíveis. Ele não tinha pressa nenhuma. Parecia que ele estava realmente só para mim!
Bom, ele estava aqui só para mim.
— Ai, foi lindo! — Suspirei, saindo do museu, vendo uma fila para entrar no museu.
— Foi lindo sim! — Lance piscou para mim e lhe mostrei a língua. — O quê? Por que faz isso? — Rimos juntos e ele me abraçou pelo ombro. — Bom, vamos?
— Sim! — Falei animada, seguindo para fora da área do museu.
Seguimos para fora da área do hotel, paramos rapidamente na frente do J—Medical para eu tirar mais uma foto, e fomos para a área aberta do estádio novamente. O local já estava cheio para o jogo que teria daqui umas duas horas.
— Onde a gente vai jantar? — Perguntei, seguindo em direção ao carro.
— Lá dentro... — Ele falou.
— Lá dentro onde? — Virei para ele, vendo-o parado há alguns metros de mim.
— Lá dentro! — Ele apontou para o estádio.
— LÁ?! — Falei um pouco mais longe.
— O quê? Pensou que eu ia te trazer até aqui em dia de jogo de Champions League e a gente não ia ter a experiência completa? — Ele disse sarcástico. — Fala sério, , eu não sou tão mau.
— Ah, mentira! — Falei rindo, abraçando-o fortemente e ele riu. — Eu te amo! Eu te amo!
— Eu sei! — Ele disse rindo, me abraçando fortemente. — Vamos! Vamos nos divertir! — Ele me beijou e ri, andando um pouco à frente dele. — Me espera! — Rimos.
Seguimos até o portão de entrada, e aproveitei um pouco do Allianz Stadium. Lá dentro tinha fotos de alguns jogadores, salas, eventos para os fãs, além de bar e restaurantes.
Lance nos encaminhou pelas placas, até entrarmos no salão Agnelli que ficava antes do camarote. Quando saí para a parte de fora, foi como se eu tivesse ignorado todos à minha volta e olhado para aquele estádio preto e branco que eu sempre sonhei em estar aqui.
Ele ainda não estava lotado, nem a parte do camarote, então pude ver os pontos vazios do estádio, os desenhos nos locais das arquibancadas, a torcida organizada do lado direito com bandeiras e imagens de jogadores antigos, tudo era lindo.
Dei uma rápida olhada no camarote e encontrei o presidente Agnelli e o vice-presidente Nedved — ex-jogador do time — isso me fez falta da presidente Serena*, que saiu em 2021 com a saída do Buffon. Pensa em uma mulher incrível? É ela! Sem contar no time, muitos dos meus jogadores favoritos já saíram ou se aposentaram, então não tinha nem ideia de quem eu veria aqui hoje. Talvez o técnico Allegri seja quem eu mais queira ver.
— Quer aproveitar e tirar umas fotos? — Lance ofereceu.
— Sim! — Falei rindo e ele aproveitou para tirar mais algumas fotos minhas com a vista do estádio.
— Ei! Olha quem está perdido aqui! — Viramos e Leclerc estava lá.
— Ei, cara! — Lance o cumprimentou.
— Como vocês estão? — Ele me cumprimentou também.
— Essa é , minha namorada.
— Tudo bem? — Leclerc sorriu.
— Tudo bem!
— E aí, o que vieram fazer aqui? — Ele perguntou.
— é fã da Juventus, viemos passar uns dias aqui em Turim. — Lance disse e sorri.
— Ah, legal! Posso fazer companhia para vocês? Vim sozinho. — Ele disse. — Se não for servir de vela, claro.
— Não, não! — Falei rapidamente rindo. — Tudo certo.
— Claro, cara! — Lance disse. — Quer comer?
— Sim, por favor! — Falei para Lance.
Seguimos para o lado interno, pegando uma mesa perto da janela envidraçada, e tivemos o jantar completo pelo chef do dia. Entrada, prato principal e sobremesa. Estava tudo perfeito, só faltava ganhar do Benfica.
Durante o jantar e tempo de espera, alguns jogadores passaram pelo camarote e me permiti tirar fotos com alguns deles, como Claudio Marchisio, Paul Pogba, Paul Nedved, ex-jogadores da Juve, além de Júlio César, ex-goleiro da Seleção Brasileira. Entre todos, o que mais me deixou feliz foi Jay, a zebra mascote do time! Ele é muito fofo-o-o!
Eu sei que é um cara vestido de zebra, me deixa!
O jogo começou bom para Juventus. Milik abriu o placar com quatro minutos de jogo, mas parou aí! Antes do fim do primeiro tempo, uma confusão com os benfiquenses, trouxe em um pênalti roubado para eles, além de vários cartões para todos os lados. A derrota veio no começo do segundo tempo, e daí para frente, não teve nada realmente relevante citar, mas vários torcedores estavam reclamando da arbitragem, e eu evitei fazer o mesmo, mas só por estar no camarote, do contrário eu estaria xingando junto.
E os xingamentos em italianos são demais! Não de uma forma boa!
— Acho que você é pé frio, ! — Lance disse e virei o rosto para ele, vendo Leclerc rir.
— Que jogo horrível! — Falei, fazendo-o rir.
— É, realmente! — Ele disse, provavelmente escondendo seus comentários para não me deixar mais irritada.
— Vamos embora? — Perguntei e ele riu.
— Vamos, amor! Vamos sim! — Ele sorriu com os lábios fechados. — Amanhã temos mais um pouco de turismo para fazer. — Sorri.
— Vai me deixar mais feliz! — Ele riu.
Depois de despedidas e um pouco de demora para chegar até o carro, seguimos para o hotel, e nada como um banho e cama para me fazer esquecer que meu primeiro jogo da Juventus na vida foi um desastre.
Juventus 1 x 2 Benfica.
*Serena, personagem da fanfic Ciao e Arrivederci.
*Partes do capítulo foram inspiradas nas experiências pessoais da autora.
Mas não era bem assim.
Após nossos dias em Turim, pegamos um trem para Genebra, na Suíça. E, para ser sincera, acho que fiquei ainda mais empolgada do que em Turim. Digo... ir para a Suíça é quase como ir para Mônaco — ou deve ser. Só os mais ricos e tops vão para lá! Uma loucura.
Lance queria me mostrar onde morava, o lugar em que passou boa parte da vida enquanto tentava construir sua carreira como piloto. Eu não preciso de muito para ser feliz, ainda mais viajando e conhecendo lugares lindos. E foi exatamente assim em Genebra — sem falar na própria viagem de trem até lá.
Dizem que a Suíça é especial. E nem estávamos no inverno. O sol forte refletia na água, criando um clima delicioso no ar. Quase de cartão-postal.
Clima de rico, sabe?
— Eu moro aqui! — Lance anunciou ao estacionar diante de um prédio.
Genebra não tem arranha-céus como os de São Paulo ou Montréal. O prédio dele tinha apenas seis andares — com elevador, graças a Deus — e parecia um daqueles predinhos antigos que eu tinha visto na Itália. Mas, ao entrar, tudo era surpreendentemente moderno.
O apartamento ficava na cobertura. Não era tão gigantesco quanto a casa em Montréal, mas tinha uma sala ampla e aberta, com uma vista espetacular da cidade por quase todos os lados, e uma cozinha americana de um canto. Fui até a varanda, senti o sol na pele e me apoiei na marquise, de onde podia ver o lago Léman — e só sabia o nome porque havia placas em toda a volta.
— Vem! — Lance puxou minha mão, e eu quase tropecei nos meus próprios pés.
Seguimos para dentro. Vi dois quartos e um banheiro, além de outro maior, que só podia ser o dele. O quarto principal era simples, com uma cama e uma mesa perto da janela. Já os outros dois tinham bem mais personalidade. O primeiro parecia um quarto de visitas improvisado, cheio de prêmios da carreira, meio bagunçado. O segundo era um cinema particular, com poltronas macias, videogames, pôsteres de super-heróis e iluminação colorida.
— Eu gostei desse quarto! — falei, rindo.
— Você ia adorar ver alguns filmes aqui! — ele sorriu.
— Eu ia dormir nessas poltronas em dois minutos! — me joguei em uma delas, sentindo o corpo afundar. — Ai, que delícia! — Ele riu.
— Você está cansada? Quer descansar um pouco? — perguntou, apoiado no braço da poltrona.
— Ah, Lancey, foram só seis horas de viagem. Eu não sou tão velha assim! — ele riu comigo e deu um beijo na minha bochecha. — Eu quero conhecer a cidade!
— Que tal se você descansar um pouco enquanto eu preparo algo para a gente comer? Depois saímos para dar uma volta. — Ele acariciou meu cabelo.
— Você vai cozinhar? — perguntei, surpresa.
— Ei! Moro na Suíça há dez anos, tive que aprender a fazer fondue, raclete e rösti! — respondeu com sotaque francês. Eu sorri. — Pierre deve ter renovado o estoque de comida quando soube que eu viria.
— Quem é Pierre? — franzi o cenho.
— Tipo um concierge do prédio. Além de mim, tem outros pilotos e empresários que moram aqui. Ele cuida de algumas coisas pra gente. No meu caso, sempre deixo que ele abasteça minha geladeira antes de eu chegar. Aposto que comprou batatas.
Arregalei os olhos, surpresa.
— Eu queria um Pierre pra mim! — rimos juntos.
— Bem, temos bastante espaço para nós dois aqui. — disse ele, e minhas bochechas esquentaram.
— Vamos dar tempo ao tempo, que tal? — respondi.
— O tempo que for melhor pra você. — Ele me deu um selinho e sorriu. — Então, gostou da ideia?
— Sempre! — estendi as mãos, e ele me puxou para cima. — Mas vou ficar na sala com você!
— Ótimo. Vem! — rimos juntos.
Lance realmente sabia fazer uma ótima batata rösti — e eu, sinceramente, me arrependi no segundo em que aceitei dar uma volta assim que terminamos de comer. Mais ainda: me arrependi de ter aceitado ir a pé, em vez de convencê-lo a tirar aquele carro caríssimo da garagem.
— Isso é parte da experiência suíça, — ele disse, rindo, enquanto eu me arrastava morro acima.
— Experiência suíça? Eu só queria digestão.
Nos dois dias que ficamos em Genebra, tentamos absorver tudo o que podíamos: caminhamos pelo centro da cidade, visitamos a Catedral de São Pedro, o Palácio das Nações, o Jardin Anglais… e mais uma lista interminável de museus e monumentos. Até o CERN entrou no roteiro — mas só de relance. Nossos pés já não suportavam entrar em lugar nenhum.
E eu? Comi fondue, raclette, rösti… tudo que vinha derretido, gratinado ou douradinho. Estávamos no verão, é verdade, e talvez essas comidas façam mais sentido no inverno. Mas olha… o inverno ainda estava longe, então aproveitei mesmo assim. Que me julguem.
No terceiro dia, nossa temporada suíça chegou ao fim. Lance tinha um convite da Boss para comparecer à Milan Fashion Week. Foi lá que, oficialmente, fiz minha estreia no mundo da alta sociedade — ou pelo menos foi assim que ele descreveu quando viu minha cara de pânico no avião.
— Você vai estar linda. Ninguém vai perceber que você não é de lá.
— Estou mais preocupada em perceberem que eu sou da roça. — Ele riu.
— Não se preocupe, a maioria é!
Eu já tinha participado de alguns eventos importantes com ele, inclusive nos GPs de Montréal e Monza, mas esse era um ambiente diferente. Um desfile de moda. Onde, teoricamente, ninguém sabia quem eu era. E, honestamente, eu preferia que continuasse assim.
A Boss é conhecida por seu estilo mais sóbrio, cheio de alfaiataria elegante. O vestido que Lance conseguiu para mim era um tubinho preto, sem grandes firulas — mas realçava meu corpo como se tivesse sido feito sob medida. Coloquei um sapato colorido para quebrar o preto total e, para minha surpresa, a própria marca me ofereceu maquiador e cabeleireiro.
Passei pelo tapete vermelho ao lado de Lance, que usava um terno claro da Boss, parecendo que tinha nascido desfilando. Eu, por outro lado, tentava lembrar de não demonstrar que não fazia parte daquele grupo.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o cuidado com os detalhes: a iluminação milimétrica, o silêncio ensaiado do público antes do desfile começar. Era outro tipo de espetáculo. Diferente dos paddocks, mas ainda assim coreografado à perfeição, mesmo em um espaço pequeno.
Nos receberam com sorrisos rápidos e olhares analíticos. Uma assessora da marca nos conduziu até nossos lugares: terceira fileira, lado direito da passarela. Lance cumprimentou algumas pessoas no caminho, e eu reconheci alguns rostos — modelos, editores, influenciadores. Nada que me deixasse sem ar, só curiosa sobre o que viria a seguir.
— Terceira fileira é um bom sinal, né? — murmurei, ajeitando a barra do vestido para sentar.
— Melhor que isso, só se teu nome estivesse no convite da marca. — Ele lançou aquele sorrisinho lateral que só usa quando está se divertindo às minhas custas.
— Quem sabe um dia as professoras sejam valorizadas e convidadas a desfiles de moda? — Ele suspirou, entendendo a ironia, e me beijou nos lábios.
— Elas merecem isso e muito mais. — Sorri com ele.
Antes que pudesse me provocar de novo, as luzes baixaram.
A música começou suave, depois ganhou camadas, texturas, quase como uma batida techno em slow motion. Então a primeira modelo surgiu: impecável num conjunto cinza de cortes retos, blazer oversized com lapela marcada. Elegante, quase arquitetônico.
Era bonito de ver.
A cada entrada, os tecidos ganhavam movimento, as cores oscilavam entre neutros sofisticados e tons terrosos inesperados. Nada gritante. Nada fora do lugar. A alfaiataria da Boss fazia sentido com aquela trilha sonora e com o público perfeitamente alinhado.
— Eles sabem contar uma história, né? — comentei, ainda de olhos na passarela.
Lance se inclinou, falando baixo.
— Sabem. Mas eu ainda prefiro ver você com aquele macacão de moletom do GP de Monza.
Sorri, mantendo os olhos à frente.
— Foi bom te deixar babando.
— E você faz isso com perfeição. — Ele cochichou.
— Eu sei! — rimos juntos.
O desfile terminou com um aplauso contido, mas cheio de aprovação. Nada exagerado. As pessoas ali sabiam exatamente como demonstrar entusiasmo sem parecer emocionadas demais.
Levantamos. Lance foi cumprimentar um dos estilistas da marca, e eu fiquei um pouco para trás, observando o vaivém do pós-desfile. Era engraçado: mesmo com tanta sofisticação, no fim das contas todo mundo parecia estar fazendo exatamente o mesmo que se faz num paddock depois de uma corrida — cumprimentar, analisar, planejar o próximo evento.
Quando ele voltou para o meu lado, ainda com um sorriso discreto no rosto, ofereceu o braço.
— Pronta para o jantar?
— Desde a quarta modelo. — respondi, e ouvi sua risada.
— Vai dizer isso pra eles?
— Foi lindo, mas minha fome não achou o mesmo!
Ele riu de novo. E, enquanto caminhávamos em direção à saída, cercados por perfumes caros e vozes em vários idiomas, percebi que — mesmo em um desfile de moda em Milão — ainda era fácil encontrar um pouco de normalidade ao lado de Lance.
Voltar para o Canadá foi o ponto alto da viagem. Honestamente!
Pode parecer hipócrita dizer isso depois de realizar tantos sonhos, mas chegar a Montréal, receber o abraço apertado de Claire e Chloe, e ver Kimi e Kenya pulando em cima de mim me deu a sensação de ter encontrado um cantinho só meu. Não era como estar com minha família no Brasil, e nunca seria, mas era um lar.
No domingo, Nicka preparou um grande almoço em família antes de Lance voltar para sua vida de piloto. A próxima corrida seria em Singapura, mas antes ele precisava passar pela Inglaterra para resolver algumas questões.
— Me avise de todos os seus passos, ok? — pedi, ao soltá-lo do abraço.
— Sempre! — respondeu, colando nossos lábios mais uma vez.
O beijo não durou muito — a família inteira estava olhando —, mas foi o suficiente para me deixar com saudade antecipada. Depois de quatro semanas incríveis juntos, talvez eu só o visse de novo na corrida dos Estados Unidos.
— Amo você! — ele disse, me arrancando um sorriso.
— Amo você também. Sempre! — respondi.
Ele abraçou a mãe e a irmã antes de embarcar no helicóptero. Acenou para nós até a porta se fechar.
— Bem, acho que preciso voltar à rotina agora! — brinquei.
— Quer uma carona? — Claire ofereceu.
— Acho que sim. Preciso levar a Kimi comigo! — acariciei o pelo claro da cadela. — Nenhum Uber vai aceitar levar ela! — Todos riram.
— Precisa de um porta-malas grande! — Sebástien comentou no seu tom sarcástico de sempre, e sorri.
— Vem, eu te levo! — Chloe disse. — Preciso passar em casa mesmo.
Despedi-me de Claire com um abraço apertado.
— Não suma, hein?! — ela pediu. — Não é porque não teremos mais nossas aulas que não quero você sempre conosco.
— Não se preocupe. Eu pedi demissão, lembra? Vou ter bastante tempo livre até conseguir novos alunos.
— Bom, eu tenho várias amigas… e elas têm filhos e netos. Logo vamos preencher sua agenda. Você nem vai sentir falta da escola.
— Olha, nesse mês nem deu tempo de sentir falta! — rimos juntas. — Mas é, vou aproveitar esse tempo para me organizar, dar uma geral no apartamento, separar roupas, colocar as coisas nos eixos.
— Bom, precisando de algo, estamos aqui.
— Obrigada! — sorri.
Kimi tentava brincar com Kenya, mas logo correu até mim.
— Não, não! — segurei-a antes que pulasse no colo. Acariciei seu pelo. — Vamos, menina, hora de ir pra casa!
Coloquei minhas malas no banco da frente, e Chloe tirou a tampa do porta-malas para que Kimi pudesse viajar com a cabeça para cima. Recolhi sua almofada e alguns brinquedos e seguimos para meu apartamento.
Chloe me ajudou a subir com as coisas. Uma fina camada de poeira cobria os móveis, prova das semanas em que fiquei fora. Por um instante, me arrependi de ter levado Kimi junto, mas a deixei no banheiro enquanto limpava a sala. Depois arrumei sua almofada embaixo da janela, e ela logo se acomodou ali, observando a rua.
No fim do dia, estourei um saco de pipoca, coloquei um filme antigo e me joguei no sofá.
Enquanto a luz da tela iluminava a sala silenciosa, pensei no que viria a seguir. O futuro começaria no dia seguinte.
— Merci! — falei para o motorista e fechei a porta, vendo-o sair logo em seguida.
A rua estava quieta, como sempre. O horário não era propício para entradas e saídas, mas eu ainda respirei fundo, como se segurasse isso durante a viagem. Tirei o celular do bolso, chequei se tinha alguma mensagem e vi uma de Lance.
“Vai dar certo, boa sorte!” — Sorri e empurrei a porta da minha antiga escola.
Andei alguns passos até a entrada, encontrando Carly na recepção e vendo-a olhar surpresa para mim.
— ! O que está fazendo aqui? — disse ela, em um cochicho.
— Só vim resolver umas pendências — falei. — Caitlin está? — Apoiei os braços no balcão.
— Está sim, mas ela não ficou muito feliz com a sua demissão — disse.
— Bom, eu não tinha um mínimo contrato de trabalho. Não conheço muito a Justiça Trabalhista Canadense, mas aposto que ao menos um contrato precisássemos ter. — Dei de ombros e ela riu.
— Ah, eu te amo! — disse rindo. — Você sabe o caminho. — Assenti com a cabeça.
Segui pelo corredor, vendo as salas em aula, e acenei para um professor ou outro que me viu, causando o mesmo olhar de surpresa que Carly. Pelo visto, a forma como pedi demissão ficou famosa na escola. Vai saber o que Caitlin falou para eles.
Dei dois toques na porta, ouvi uma resposta rápida e a empurrei, colocando o rosto para dentro.
— Com licença — tentei falar de forma suave, sem parecer um filme de terror.
— — disse ela, séria.
— Caitlin — repeti no mesmo tom, automaticamente franzindo o rosto em confusão.
— O que faz aqui? — perguntou, e entrei na sala mesmo sem convite.
— Caso não se lembre, você ainda me deve vinte dias de salário. — Dei um sorriso discreto.
— Ah, disso você lembra? — Ela riu, abrindo uma gaveta.
— Ah, desculpe, devo lembrar da nossa última conversa? — perguntei, vendo-a erguer o olhar para mim. — A viagem foi incrível, falando nisso. Obrigada por todas as visualizações. — Comentei sobre todos os stories vistos.
— Me desculpe. Sente-se! — disse ela, e assenti com a cabeça, abaixando minhas armas antes de me sentar. — Me desculpe pela forma como te tratei, eu fiquei com um pouco de ciúmes. A família Stroll...
— Eu sei a história — comentei, não achando necessário que ela mencionasse. — Eles foram importantes para mim, Caitlin, mas não quer dizer que você não tenha sido. — Disse. — Esse emprego foi o que me permitiu conhecê-los. Conhecer Lance... — Dei de ombros. — Uma conquista não reduz a outra. — Ela assentiu com a cabeça, esticando um envelope na mesa. — Fui honesta quando agradeci a oportunidade. E a escola é realmente boa.
— Por que você não volta? — disse, me fazendo sorrir. — Passamos uma borracha em tudo que houve e seguimos em frente.
— Agradeço a oportunidade, Caitlin — assenti com a cabeça. — Mas nossa conversa, minha saída e essa viagem me mostraram algumas vontades que eu nem sabia que tinha — falei. — Ainda não tenho nada em vista, só minhas aulas particulares, mas isso me abriu oportunidades, e quero aproveitá-las.
— Alguma ideia, pelo menos? — Ponderei com a cabeça.
— Sim e não... Eu sou indecisa, mas vai dar certo. — Ela confirmou.
— Bom, só posso te desejar sorte, então — disse, e me levantei junto dela. — Um aperto de mãos amigável?
— Eu sou brasileira, prefiro um abraço! — disse, e ela riu, saindo de trás da mesa para me dar um abraço. — Obrigada, Cait!
— Muita sorte, ! Vai dar certo. — Sorri.
— Vai sim! — Assentimos com a cabeça. — A gente se esbarra por aí.
— Com certeza! — Sorrimos, e foi com essa mensagem que peguei o envelope novamente e saí de sua sala.
Conferi o valor do cheque assim que saí, vendo meu salário residual, além de um bônus que não calculei, mas estava listado como tal. Guardei o cheque dentro da bolsa que usava e segui pelo corredor novamente, voltando para a recepção.
— A gente se esbarra por aí, Carly! — falei, vendo-a sorrir.
— Espera! — disse rindo, e saiu da recepção, me abraçando quando me encontrou à minha frente. — Sucesso, tá?!
— Para você também! — Sorrimos. — Obrigada pela oportunidade. — Afirmei com a cabeça.
— Que isso! Continuarei te indicando sempre que possível. — Sorrimos, e vi uma lágrima deslizar de seu rosto.
— A gente se vê por aí, chorona! — Ela riu. — Ainda estarei em Montréal! — Ela riu de novo.
— A gente marca um café, me manda mensagem. — Assenti com a cabeça.
— Combinado! — Sorrimos.
Dei um último aceno, olhando o local em que passei mais de um ano da minha vida, e saí, fechando a porta — e minha história com aquela escola. Apesar da sensação amarga, havia um gosto bom de encerramento.
— Xi! Xi! — Chloe falou, rindo.
— Espera! Me deixa segurar! — falei, pegando o bolo na mesa. — Acende, Chloe.
— Fiquem quietas! — Monique, assessora da AM, nos falou, e Angelina espiou pela garagem novamente.
— Agora! Agora! — a última disse, e Chloe acendeu as velas com os números 23 e as velas faiscantes.
— Vamos! — Ajeitei o bolo e segui logo atrás delas. — Agora!
— PARABÉNS PARA VOCÊ! — puxamos o coro, e o pessoal da garagem foi junto. — PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS, QUERIDO LANCELOT! PARABÉNS PARA VOCÊ! — Lance abriu seu sorriso envergonhado, me fazendo sorrir também, e os mecânicos o zoaram. — PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS PARA VOCÊ! PARABÉNS, QUERIDO LANCELOT! PARABÉNS PARA VOCÊ! — Me aproximei dele, vendo-o negar com a cabeça, e sorri.
— Assopra a vela! — falei, vendo-o se inclinar e assoprar as velas dos números, esperando a vela brilhante apagar.
— Você fez a garagem inteira me chamar de Lancelot?
— Mas é claro! — falei, rindo, e ele inclinou por entre o bolo, colando nossos lábios rapidamente, fazendo os mecânicos gritarem animados. Fiquei envergonhada, sabendo que as câmeras estavam por ali, por causa da classificatória do México, que começaria em breve.
— Eu te amo — ele disse, rindo, e sorri.
— Eu te amo, aniversariante! — Ele piscou.
— Ah, eu adoro esse casal! — Vettel passou os braços em nossos ombros, me desequilibrando pela diferença de altura.
— Seb, o bolo! — falei, rindo.
— Meu Deus! — Angelina correu em nossa direção. — Deixa eu organizar isso. — Ela tirou o bolo da minha mão, levando-o para o fundo e fazendo-o ser cortado e distribuído entre alguns convidados e familiares, enquanto os mecânicos terminavam de organizar os carros.
— Vão! Está na hora — falei, vendo Vettel rir e se afastar.
— Você e eu, jantar, mais tarde — disse Lance.
— Sua mãe não vai deixar — falei, e ele riu.
— Uma ceia, então? — Ponderei e assenti em seguida.
— Vai ter que ser — ele me puxou pela cintura, colando nossos lábios novamente.
— Vai! — Empurrei-o pelos ombros, fazendo-o rir.
— Até mais! — Ele ergueu o macacão pelos ombros, e dei alguns passos para trás, vendo seu mecânico pessoal se aproximar com o capacete. Logo ele estava paramentado. Deu uma última piscadela para mim antes de entrar no carro.
Fui na direção do bolo, vendo-o já cortado, e observei o pouco recheio dentro dele, fazendo uma careta. Achei que, pelo menos, o México teria um bolo mais recheado que os dos Estados Unidos e do Canadá. Teria que voltar para o Brasil para isso.
Os carros logo saíram para a primeira parte da classificatória, mas Lance voltou para a garagem, ocupando o 18º lugar. Apesar do mau resultado, ele não parecia bravo com isso. Chateado, claro — mas consegui fazê-lo esquecer disso alguns minutos depois, dentro de seu camarim, durante a segunda parte da classificatória. Só não foi durante a terceira, pois ele ainda precisava se apresentar para a imprensa.
— Não me solta! — falei, apertando a mão dele.
— Feche as pernas! Feche as pernas! — disse ele rapidamente, e fechei as pernas.
— A-a-a-ah! — Caí para trás, sentindo um dos skis escapar dos pés. — Ai!
— Você precisa manter suas pernas fechadas! — Lance apareceu no meu campo de visão, e eu ri. — E a bunda para cima.
— Ah, é claro! Esqueci desse detalhe! — falei, irônica, e ele me estendeu as mãos, me fazendo levantar pela quarta vez.
— Aqui! — Scotty se aproximou com meu outro ski. — Firma o pé. — Ele o colocou embaixo do meu pé, e ouvi a bota travar. — Respira — disse, e o obedeci.
— O Scotty você ouve, né?! — Lance falou, rindo.
— O Scotty é snowboarder profissional! — falei, rindo, e ele fez uma careta para mim.
— Finca os bastões no chão — Scotty disse, e fiz o que ele pediu, sentindo meu corpo ficar reto. — Bom! Agora você vai inclinar seu corpo levemente para frente — falou, e o obedeci. — Não inclina tanto; quanto mais inclinado, mais rápido vai. — Assenti com a cabeça.
— Ok! — Respirei fundo.
— Agora tira os bastões do chão, mantendo-os para trás de você e os pés próximos. Você vai ver que... — Fiz o que ele disse e senti o esqui deslizar um pouco.
— Está deslizando! — falei rapidamente.
— Eu sei! — Scotty disse. — Deixa ele ir, estamos aqui! — Ele e Lance me rondavam enquanto o esqui deslizava na pequena ladeira nevoada, ganhando velocidade devagar.
— Isso, ! — Lance disse, animado, me fazendo rir.
— Quando quiser parar, coloque os bastões no chão, na direção dos seus pés — ele disse, e eu ergui o corpo. — Não! Não! Inclina!
— Ah! — Senti meu corpo cair para trás.
— Ou isso acontece! — Scotty disse, rindo. — Você precisa frear antes, ou seu corpo vai virar um pêndulo e te jogar para trás. — Suspirei, vendo ele e Lance aparecerem à minha frente. — Achei que soubesse patinar.
— Eu sei! — Suspirei. — Mas meus pés não parecem estar concretados no chão.
— É por isso que eu prefiro snowboard, não é assim — Lance disse, e ambos me ajudaram a levantar.
— É sim! — Scotty cochichou, e rimos juntos.
— Agora eu vou! Devagar! — falei, vendo-os me entregarem os bastões novamente, e ajeitei a touca que caía da minha cabeça.
— Devagar! — Scotty disse novamente.
Finquei os bastões na neve, inclinei meu corpo levemente e deixei a gravidade fazer o trabalho na descida. Senti meu corpo descer devagar, inclinando para frente, e ri quando fluiu da forma que Scotty tinha dito. Deixei meu corpo deslizar cerca de dez metros e finquei os bastões no chão quando me aproximei de umas crianças.
— Isso! — falei, rindo, vendo Lance parar ao meu lado.
— Viu?! Eu disse que era fácil! — ele disse, rindo.
— Metido! — Ele se aproximou de mim, pisando nos esquis.
— E você me ama, que coisa, não?! — disse ele, rindo.
— Amo! Mas podia ser menos metido! — Ele aproximou o rosto do meu.
— Sim... mas não posso! — Rimos, e ele colou nossos lábios gelados.
— Pelo menos não posso dizer que não sei onde me meti. — Ele sorriu.
— É, ao menos isso! — Rimos juntos.
— Vamos subir a ladeira? — ele perguntou. — Agora eu te acompanho de snowboard.
— Vamos! — falei, animada, vendo-o rir. — Eu tiro isso? — Indiquei os esquis.
— É melhor! — Ele riu.
— Deixa que eu te ajudo! — falei, rindo, sentindo-o destravar os esquis.
— É bonitinho! — falei, rindo. — É perto de casa, então até que é movimentado, mas também não é tão grande!
— Onde é? — ele falou perto do meu ouvido.
— Sabe a padaria perto de casa? — perguntei.
— Qual?
— A da torta de damasco! — falei.
— Sei! — ele disse, surpreso.
— É do lado! — falei, rindo. — É uma oportunidade para eu sair de casa, trabalhar de outro lugar, mas ainda estarei perto de casa, perto de Kimi. Posso ir para casa se precisar, é fácil! — falei.
— Posso te ajudar na decoração e afins — ele ofereceu, e afirmei com a cabeça.
— Combinado! — sorrimos, e segurei suas mãos. — Está pronto?
— Para o quê? — ele disse, rindo.
— Segura minha mão — falei, segurando as duas, ficando de frente para ele, vendo meu rosto fazer sombra sobre o dele. — Firme!
— É! — ele disse, rindo.
— HERE WE GO-O-O-O-O! JUMP! — Pierre gritou, fazendo toda a plateia pular no ritmo da música, e Lance pulou comigo, nos fazendo sorrir.
— I don't wanna wake up today, 'cause every day's the same, and I've been waiting so long for things to change. — Cantava junto com Pierre, fazendo Lance sorrir comigo. — I'm sick of this town, sick of my job, sick of my friends, 'cause everyone's jaded. Sick of this place, I wanna break free...
— Pronto? — falei, rindo.
— I JUST WANNA JUMP! JUMP! — Voltamos a pular com o ritmo da música.
— EU TE AMO! — Lance gritou alto, me fazendo rir, e parei de pular. — Eu te amo, ! — Ele ainda falava meu sobrenome de forma estranha, me fazendo rir.
— Eu te amo, Lancelot! — Sorrimos, e o abracei forte, sentindo seus lábios nos meus, ignorando completamente a música, as pessoas, o festival — e até minha banda favorita tocando ao fundo. — Para sempre!
Vi uma notificação de Lance subir.
“Estou aqui!”
“Me dá uns minutos!” — respondi.
— Ok! Eu vou fazer uma reunião com elas, depois te aviso. — Assenti com a cabeça.
— Combinado! Estarei fora até segunda, mas pode me mandar mensagem se precisar de algo. — Ela confirmou.
— Obrigada, ! — disse.
— Até segunda, Christina! — falei, acenando na tela antes que ela desligasse a chamada.
Fechei o notebook rapidamente, deixando-o na mesa de centro, e me levantei. Calcei o tênis, prendi o cabelo e puxei a malinha de bordo que estava na porta. Enquanto esperava o elevador, enviei uma mensagem para Pierre pedindo que trouxesse o carro.
Desci com calma, saí do prédio e esperei alguns minutos até que o carro apareceu na rua. Coloquei a mala no porta-malas e entrei no banco de trás.
— Bom dia! — cumprimentei o motorista.
— Olá, . Como está? — perguntou.
— Tudo bem, e o senhor? — retruquei.
— Ótimo, ótimo! Para o aeroclube? —
— Sim, por favor. — Sorri, e o carro voltou a se mover.
Não demoramos mais que dez minutos para chegar ao aeroclube de Genebra. Me despedi de Jean, peguei minha mala e atravessei praticamente da rua para a pista, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho.
Saí para o sol e avistei o jatinho de Lance no pátio, com ele me esperando na pista. Aproximei-me, vendo-o sorrir para mim, e rimos quando nos encontramos.
— Oi, Lancelot! — falei, sorrindo.
— Oi, meu amor! — ele respondeu, me abraçando pela cintura. — Saudades de você.
— Também estava — suspirei, colando nossos lábios.
— Como estão as coisas? — ele perguntou.
— Tudo certo. — Sorrimos.
— Vem! — ele pegou minha mala. — Vamos lá.
Subi as escadas do jatinho, notando que éramos só nós dois hoje, e me sentei. Lance entrou logo atrás, guardou a mala no bagageiro e se acomodou ao meu lado.
— Quantas horas de viagem? — perguntei.
— Uma hora e meia — respondeu. — É rápido. Precisa fazer algo? — Suspirei e encostei a cabeça em seu ombro.
— Não. Só quero aproveitar um pouco do nosso tempo juntos. — Ele beijou minha cabeça.
— Silverstone é sempre caótico, né? — comentou.
— Não tanto quanto Mônaco — falei, rindo.
— Pensa, depois teremos algumas semanas no Canadá. Sua família vem... — ele sorriu.
— É, a gente dá uma folga do caos da Fórmula 1 e entra no caos do casamento — virei para ele, ouvindo-o rir.
— Isso que estamos fazendo algo simples — disse.
— Sua mãe e a minha estão empolgadíssimas! — ele riu. — Nossos cinquenta convidados já são motivo de sobra para elas — falei.
— Eu deixo o casamento gigantesco para a Chloe. Por mim, íamos no cartório, assinávamos e pronto — ele disse, e eu sorri. — Tiraríamos umas fotos e acabou.
— Eu ia gostar disso, mas também gosto da ideia de termos uma bênção judaica e católica — virei para ele. — É a nossa cara.
— É sim. — Ele colou os lábios nos meus. — Então, já que o assunto casamento está mais caótico que a Fórmula 1, que tal aproveitarmos o fim de semana antes do caos? — sugeriu.
— Combinado! — Apoiei a cabeça em seu ombro novamente, sentindo-o me abraçar pelos ombros. Apoiei minha mão em sua perna e vi o pequeno diamante da aliança brilhar em meu dedo — junto à pulseira que ele me dera no nosso primeiro encontro oficial, três anos atrás.

