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Codificada por: Sol ☀️

Última Atualização: 16/11/2025.

QUEM É A PORRA DE ?

Se ganhasse uma moeda para cada vez que ouvi essa pergunta, estaria agora deitada em um montante de dinheiro tão grande que facilmente poderia me afogar —— talvez eu gostasse disso. Mais fascinante que isso, era apenas as perguntas nada discretas de esquisitões e fofoqueiros para saber quem era o novo filho da puta que estaria enfiando a língua, dedos ou o pau na minha boceta —— essa era uma resposta fácil, nunca a mesma pessoa por muito tempo. Preciso admitir que já a ouvi tantas vezes que tenho decorado vividamente quem muito provavelmente irá a fazer: apresentadores sem carisma algum tentando entrar em assuntos desconfortáveis para engajar alguma revelação que irá fazer seus números crescerem, ou, apenas alguma criatura aleatória querendo expressar algum falso intelectualismo ao deixar-me sem palavras; não faz, mas é divertido vê-los tentar. A resposta, todavia, varia dependendo do meu humor. Às vezes, quando desejo manter a discrição e escapar da pergunta o mais elegantemente que consigo, direi simplesmente: “Ainda estou descobrindo”, quando estou querendo ser doce, encaro a câmera com um sorriso meigo e digo, até mesmo quase timidamente: “uma garota com sonhos muitos grandes, e um temperamento bem ruim”, quando quero ser sarcástica, apenas murmuro “Não tenho ideia, deixo para que os outros digam”, mas a minha resposta preferida? Quando realmente estou querendo escandaliza-los ou apenas roubar-lhe as palavras, compartilhando do desconforto imposto a mim, simplesmente direi a mais pura verdade, o mais cínica e doce possível que consigo.

é uma vadia sem coração.

Agora, veja só, essa descrição não foi uma conclusão pessoal minha. Na verdade, viera de um ator de cinema estrangeiro, do qual o nome sequer posso dizer que me lembro de fato. Alegava que havia se apaixonado por mim durante alguma gravação de um filme de ação em Lyon, na França. O filme, lembro-me do nome, era Copenhagen, ou algo do tipo. Lembro-me que ele era o protagonista ao lado de uma atriz genérica, mas graciosa e até mesmo divertida. Lembro-me de ter visto o rosto dele em algum lugar, talvez uma cafeteria em Marselha, ou em meio ao Mercado de Pulgas em Paris, nas ruas, disfarçada e a salvo de olhares alheio; conversamos, acho que devo ter flertado com ele também, porque ele ficava facilmente corado com algo que dizia, mas se havíamos tido um caso ou não, isso, eu não saberia dizer ao certo. Não era como se eu estivesse preocupada em lembrar-me de algo daquele dia, muito menos dele. Até onde sabia, ele poderia estar apenas mentindo para ganhar visibilidade —— e é claro, ganhou no fim das contas, todo mundo adora vilanizar uma mulher sem motivação alguma, apenas pelo prazer de dizer “eu sempre soube que ela era ruim” ——, ou ele poderia estar dizendo a verdade; conheço-me bem o suficiente para não duvidar da possibilidade. Uma noite qualquer, em um quarto de hotel qualquer, entediada? A resposta não era muito mais do que “quando no inferno, se entregue ao diabo”, e acredite, eu o faria apenas pelo despeito de tudo. Acontece que o ator em questão, na verdade estava bem certo em descrever-me assim.

No fim das contas, sou mesmo uma vadia sem coração; mas uma puta vadia rica e gostosa, sendo assim, qual seria a necessidade de possuir um coração? A onde isso iria levar-nos?

Sei que devo ter destruído o ego dele de alguma forma, ainda ouço pelos corredores e até mesmo de amigos em comum de que o dito cujo me detesta. Não perde a chance de me xingar sempre que a encontra, mas também sei que se lhe desse mais uma chance, ele igualmente não hesitaria em pular na minha cama o mais rápido que conseguia. Acho que sua maior frustração, é que, ao menos para mim, tenho muitas opções melhores do que alguém tão medíocre, que a coisa mais impactante que poderia ter, era justamente um personagem que contrastava com sua personalidade real. Mas se quiser realmente entender quem é, preciso entrar em um tópico desconfortável.

Quando as pessoas me questionam quem diabos eu sou? Ou ao menos, quem é, eles querem ouvir algo que lhes agrade: a confirmação de um preconceito relacionado ao meu nome, apenas para poder enfatizar como eles “sabiam” disso, ou a pura e inerente motivação de me constranger da melhor forma possível. Às vezes, oferecia a dádiva da dúvida, apenas pelo prazer pessoal de fazê-los andar em círculos. Mas qualquer pessoa realmente interessada em compreender-me, vai perceber, muito rápido, que não há como saber quem é sem entender quem, primeiro, foi a porra de Patrick Rooney.

Um ex? Amante? Stalker? Ah, não, não, Patrick Rooney, ou como os amigos de bar dele o chamavam: Paddy, é algo bem pior do que um ex relacionamento. Ele é meu pai. Patrick Rooney era um homem de classe social média alta, o pai era um neurologista, trabalhava em um hospital público, mas ficou bem conhecido na indústria pelo caso extraconjugal que havia tido com uma das estagiárias de enfermagem, na época com 20 anos; anos depois a mesma enfermeira o processou e venceu um caso de aliciamento contra ele —— quer dizer, bom para ela ——, com uma professora de ensinos religiosos do ensino médio, curiosamente, devota ferrenha da religião católica romana, que acreditava piamente que até mesmo o ato de respirar poderia ser considerado pecado —— não há nada mais sadomasoquista do que um católico desesperado por punição. Apesar de seus problemas internos, construíram uma imagem sólida de uma família perfeita, com um filho perfeito —— veja só, o erro que cometeram, deixaram Patrick acreditar que era alguma coisa. Patrick cresceu assim, um garoto cercado do bom e do melhor, com a certeza de que todos ao seu redor o amavam, enganado pelos pais e amigos, quando na realidade não passava de um garoto medíocre, com uma personalidade narcisista, terrivelmente inseguro e com aspirações de grandeza que nunca condizem com seus “talentos” pessoais. Cresceu no interior de Galway, mas teve que se mudar com seu pai e sua nova família para Dublin quando tinha 12 anos, após o escândalo do caso empestear a cidade. É claro que Patrick escolheu seguir o pai, e não ficar com a mãe, afinal, quem diabos poderia oferecer a ele a vida que desejava se não o pai neurologista? Aos 15 anos, Patrick achava que era o cara mais gostoso da escola —— não era, de acordo com fotografias, na verdade era Cormac Murphy, com olhos intensos e sorriso torto cativante ——, mas na verdade era só um zero à esquerda tão fácil que bastava soprar em seu ouvido da maneira certa que mancharia suas calças em segundos.

Para a sorte de Patrick, e completo azar dela, ele conheceu Siobhan —— se pronuncia Shivawn —— O’Hara, a garota que se sentava na frente de sua mesa durante as aulas de biologia e história. Opinada, destemida, com um olhar intenso como fogo, e um riso capaz de iluminar uma sala inteira, Siobhan tinha suas prioridades bem estabelecidas: iria se formar com honra no ensino médio em Dublin, de lá partiria então para Londres, com o único propósito de se tornar a melhor no curso de Psicologia, e então iniciaria sua carreira como uma terapeuta de casal, em pouco tempo conseguiria estabelecer seu nome com esforço, suor e sagacidade se tornaria um exemplo para a comunidade terapêutica, voltaria para Oxford, é claro, mas desta vez como Mestre, aos 30 anos teria se tornado finalmente Doutora, e com 35, seria PhD, aos 40 anos? Tinha certeza de que o prêmio Nobel lhe era garantido. Siobhan O’Hara possuía toda sua vida scriptada e estava determinada a conquistá-la, custasse o que custasse, mas então, ela derrubou sua caneta preferida no chão. E esse foi seu erro.

Quando se levantou para pegá-la, Patrick Rooney já havia a encontrado, com seu sorriso característico e uma piada ensaiada na ponta da língua. Pode dizer o que quiser sobre Patrick, mas uma coisa era inegável sobre ele: além de ser uma figura patética, miserável em seu cerne e com a profundidade de um pires, o cara sempre havia sido carismático ao menos. É algo comum, se quer saber, as piores pessoas que você irá encontrar, muito provavelmente vai tentar compensar com charme e carisma para agradar-lhe, afinal, quem gostaria de ter por perto alguém ruim, se não há nenhum retorno positivo? De qualquer forma, foi naquele momento que tudo deu errado para Siobhan, mas muito certo para Patrick. Em menos de três meses, começaram a namorar, e os planos de Siobhan passaram a ser “nossos planos”, Patrick, como uma doença contagiosa se infiltrou na vida de Siobhan contaminando tudo ao seu redor, de repente, ela não era mais a estudante modelo, a melhor da turma, mas a namorada do incrível Patrick Rooney, o garoto de ouro do colégio.

Siobhan descobriu que estava gravada no dia de envio para as aplicações para as universidade do país. O choque foi tamanho, que a jovem só conseguiu curvar-se em posição fetal no banheiro de seu quarto. Patrick, por sua vez, estava recebendo o boquete de sua vida na casa da árvore de uma das melhores amigas de Siobhan —— não sabia naquela época, mas essa amiga na verdade só queria ter certeza de sua sexualidade; na verdade, era apaixonada mesmo por Siobhan. A notícia foi recebida com um choque, mas uma vez que a merda já estava feita, o prospecto de uma família tradicional, e o sonho “americano” havia se tornado muito mais forte do que a percepção óbvia da realidade que lhes cabia. Não demorou muito para que Patrick fosse morar com Siobhan; arrumou um emprego que pagava um montante decente com a ajuda do pai, e alugou um apartamento bem ruim no centro da cidade. Já Siobhan trabalhava meio período de casa, revisora de textos para uma editora de livros didáticos na área de tanatopraxia, e atendente.

O nascimento do bebê estava marcado para o final de Maio, mas por uma tentativa de intervenção do destino, talvez por Siobhan ser melhor do que Patrick jamais mereceria, acabou perdendo-o em uma noite chuvosa de Setembro. Estava sozinha quando aconteceu, e levou uma semana inteira para conseguir ter a coragem necessária para dizer a Patrick o ocorrido. Patrick, é claro, fez a situação toda ser sobre ele, mas ao fim de tudo, percebendo que Siobhan poderia abandoná-lo, fez o que jamais seria capaz de comprometer-se, a pediu em casamento.

Agora, veja, Siobhan não é a minha mãe biológica, mas foi, de certa forma, a única que tive em minha vida. Não é culpa dela, todavia, que eu seja do jeito que sou. Siobhan havia tentado seu melhor comigo, o problema é que, talvez, eu seja muito filha dos meus pais para valorizar algo assim tão bom —— para variar ——; mas funcionou com Niamh, minha meia-irmã. Quando Siobhan engravidou novamente, alguns anos depois, deu à luz a uma garotinha adorável, uma mistura perfeita de tudo o que havia de bom em Siobhan, sua inteligência, aparência e até mesmo docilidade, e o nariz de Patrick. O que Siobhan não sabia era que, enquanto chegava aos estágios finais de sua gravidez, Patrick havia ouvido um de seus colegas no trabalho dizer que ele possuía uma voz muito boa e que deveria tornar-se cantor —— era uma piada, mas Patrick nunca foi assim tão inteligente para entender sarcasmo direcionado a si mesmo ——, e sem pensar duas vezes, havia deixado o emprego estável para cantar em pubs e alguns bares da cidade, onde conheceu a Cherry.

Isso aí, minha mãe biológica? É a porra de uma stripper de uma boate de luxo que se chamava Cherry. Como ela ganhou o apelido? Passava cereja nos lábios toda vez antes de subir ao palco, e então dizia aos homens, e às vezes, algumas mulheres, que era apenas o gosto que ela tinha —— alguns idiotas acreditam, e sim, estou totalmente falando de Patrick aqui. De qualquer forma, os dois acabaram se envolvendo quando ele se apresentou na boate que ela dançava, o caso acabou tornando-se algo frequente, Patrick, sendo a criatura patética que era, gostava da sensação de aventura, do poder e do segredo que um relacionamento extraconjugal lhe dava. Sua insegurança —— bem fundamentada, na verdade —— era tão grande que a validação de uma stripper se tornou, para ele, um vício. E quanto a Cherry? Bem, dinheiro era dinheiro, ela estava ali a trabalho, e nada mais —— não dá para julgá-la só por fazer seu trabalho. Acontece que Patrick tinha um modus operandi, e sempre que encontrava alguém que considerava “bom o suficiente” tratava de dar um jeito de furar a camisinha. Precoce como era, ele já teria terminado antes que a mulher em questão sequer pudesse pensar em sentir algum prazer —— já disse que era patético, não? ——, e com Cherry não foi diferente.

Acontece que ter um filho acabaria com a carreira de Cherry, e ela não estava nem um pouco disposta a continuar a gravidez —— as vezes imagino que ela deveria ter prosseguido com sua decisão, teria sido mais fácil para todos, mas novamente, a escolha não era de ninguém senão dela a ser feita ——, mas desesperado para não perder seu depósito de endorfina, Patrick conseguiu convencer sua mãe a conversar com Cherry. No fim, Cherry deu à luz em um curto espaço de meses a Siobhan, que não demorou muito a receber a conta em sua porta. Eu, enrolada em um manto, nos braços de uma mulher desconhecida, a perfeita imagem feminina de Patrick. Dizer que o mundo de Siobhan foi destruído em questões de segundos, seria amenizar sua dor, é algo que não desejo sob hipótese alguma será falar por ela, mas quando Cherry se apresentou e explicou sua situação, Siobhan percebeu o que nunca havia tido; o que havia sacrificado em troca de uma fantasia medíocre de uma desculpa patética de homem.

Patrick, sendo o covarde que era, apenas escolheu desaparecer de sua vida. Fez as malas às pressas, entrou na primeira balsa que encontrou e desapareceu em algum lugar da Escócia. Fui abandonada aos 3 meses, na porta de uma desconhecida que havia acabado de descobrir que o marido, não só havia mantido um caso extraconjugal por quase um ano inteiro, como igualmente, a abandonado com todas as consequências de suas ações para lidar. Cherry não queria uma filha, e Patrick, bem, deste não preciso dizer nada, coube a Siobhan decidir o que fazer com a intrusa em sua vida perfeita e a memória fixa da traição que sofrera. Suponho que a maioria das pessoas teria apenas entregado a criança para os avós paternos e deixado que estes lidarem com a situação, mas Siobhan, não. Siobhan sempre foi a melhor pessoa que poderia respirar nesse mundo, e com uma expressão determinada, e um desejo por evidenciar a todos que a conheciam que Patrick não era nada senão uma barata, arrumou suas malas e as de Niamh, e com nós duas nos braços, mudou-se para Londres desperdiçar um olhar para trás.

Nos estabelecemos em SoHo, o lar dos artistas, boêmios e forasteiros. Embora meu registro ainda estivesse conectado a Patrick, legalmente, sempre fui filha de Siobhan, e puta merda, se ela não fosse a melhor mãe do mundo. Criou a mim e Niamh em pé de igualdade, sem jamais favorecer uma das duas, era justa —— mesmo quando eu acreditava que ela estivesse sendo injusta ——, e apenas se envolvia em nossas vidas quando era necessário um conselho ou um ultimato para melhorar nossas atitudes questionáveis. Quando tínhamos 10, Siobhan se casou novamente, com um colega professor, chamado Liam, um pai divorciado, com riso fácil e olhar carinhoso que nos chamavam por apelidos com a facilidade que respirava —— Niamh era docinho, e eu, amendoim ——, seu filho, Virgil passava apenas os finais de semanas e férias de verão conosco, no restante do tempo morava com sua mãe e o padrasto em São Francisco, na Califórnia.

Agora, as coisas mudam um pouco. Não, eu não tive nada com Virgil, na verdade sempre o achei meio esquisito, até mesmo nojento, cheirava a perfume caro e bala de café —— odeio café. Além disso, foi eu que ensinou ele como chupar um pau, e o cara era mais braços do que qualquer outra coisa. Acontece que enquanto Niamh seguia os passos de sua mãe, focando em seu futuro e esforçando-se para ter uma carreira impecável escolar que lhe rendesse a carta perfeita de aceitação por uma das grandes elites, Virgil e eu não éramos assim tão ambiciosos, tínhamos uma aposta pessoal de ver o quanto de maconha poderíamos fumar no porão sem que nossos pais percebessem que estávamos chapados para porra, e na maioria das vezes, ele acabava envolvido em uma briga e sobrava para mim vingá-lo. Formamos uma boa dupla; o que não era bom para ninguém.

No segundo ano, ele foi expulso do colégio, para não ficar atrás, tive a brilhante ideia de vandalizar o carro do diretor do colégio, o que me rendeu três dias em uma prisão e um aviso de que, em uma próxima vez, haveria consequências mais severas. Meus privilégios de sair e me divertir com coisas estúpidas foram revogados imediatamente por Liam, e tive que passar por pelo menos seis meses de terapia, porque Siobhan sabia que havia algo de errado comigo. Virgil conseguiu para mim uma carta dispensando a necessidade de terapia, então, por uns bons quatro meses, apenas fingia que frequentava a terapia enquanto, na verdade, vagava pelas ruas sem rumo com Virgil, buscando alguma coisa que fosse me oferecer alguma sensação de pertencimento, ainda que momentaneamente —— nunca deu.

Acabamos em um centro comunitário, do conhecido de um conhecido de um ex-namorado de Virgil. Lá, percebi, não era um porto seguro, mas talvez servisse de algo; foi assim que aprendi a tocar instrumentos. A professora de música, Senhora Martinez, era severa, mas do tipo que era capaz de inspirar qualquer um a tentar ser o melhor que podia. Foi ela que havia despertado aquele desejo em mim. O desejo de ser algo; para o bem ou mal, posteriormente, nunca soube dizer se ela foi um anjo em minha vida, ou o demônio que a condenou, mas é inegável o efeito que ela teve um impacto irreversível em minha vida. Entre bandas de quintal adolescentes e apenas passatempos, comecei a entender a atração inegável ao palco, pude compreender porque Patrick gostava daquele lugar, e talvez por isso eu odiasse mais ainda; eu também havia gostado.

Tocar covers de músicas antigas, fazer piadas e encantar a plateia havia se tornado um vício delicioso por minha pele, toda a atenção, os olhares, os sorrisos, as cabeças e corpos se movendo, faz com que você se senta uma deusa entre meros mortais —— mal sabia eu o que viria. Você não precisava ser extremamente talentoso para conseguir a atenção dos outros, você só precisa ser seguro o suficiente, e um pouco de um bastardo charmoso, e isso, eu havia herdado de Patrick como uma doença crônica. Ajuda também que minha aparência fosse muito próxima da de Patrick, tinha os mesmos cabelos que ele, o mesmo tom, e cachos grossos e desalinhados, a diferença era que os meus eram maiores e mais bagunçados, tinha o mesmo tom de pele, os mesmos olhos e nariz, mas a fisionomia, o corpo e os lábios eram de Cherry —— uma fedelha com um corpo de stripper e atitude petulante? Faça as contas do porquê eu recebia tanta atenção assim.

Seja como for, quando Niamh terminou o colégio, e Liam ofereceu-se para nos acompanhar com uma viagem para as universidades, neguei rápido demais, rápido o suficiente para receber uma sobrancelha erguida e um olhar desconfiado. Verdade seja dita a única que sempre havia tido um futuro entre nós três, era Niamh, então, quando a oportunidade surgiu, Virgil foi obrigado a me arrastar com ele para a São Francisco passar um tempo com sua mãe e seu padrasto. Foi durante um desses finais de semana, sem propósito além do desejo de apenas perder-se nas exceções que, ao subir no karaokê para cantar minha pior versão de alguma música, Virgil e eu, percebemos que não estávamos sozinhos. Joel Massaro estava ali, e havia visto tudo —— havia gostado.

Agora, quem diabos é Joel Massaro, você deve se questionar? Um filho da puta desgraçado, podre por dentro que não possuí nenhum resquício de humanidade dentro de si; e também a porra do melhor empresário que já havia andado por Los Angeles. O apelido entre os shareholders e investidores para ele é Midas, porque através de sua orientação, ele é capaz de esculpir e moldar em ouro qualquer um que ele desejar. Joel Massaro é o cara. Sabe exatamente o que funciona para o público, como atraí-lo, como criar controvérsias, como jogar aquele jogo e faturar milhões. Então mesmo que ele seja um desgraçado, desumano e depravado do caralho, tê-lo do seu lado é bom o suficiente para que você tenha o mundo em suas mãos. E foi o que ele nos entregou: o mundo, aos nossos pés, a adoração, os estádios lotados e a porra da endorfina de estar em cima de um palco ouvindo uma multidão gritar por seu nome.

Agora, quem é ? Eu lhe digo: tudo o que Patrick Rooney jamais foi, e mais.

E a melhor parte? É que eu não faço ideia de quem ele seja, de como ele seja, ou tenho o menor interesse por saber. A única coisa que sei é que ele pode me ver, que ele me acompanha, querendo ou não, que não pode fugir do meu rosto, não importa para onde tente desviar o olhar, não importa o que tente fazer. Eu sou o que ele queria ser, e que jamais irá conseguir. Mas é Siobhan quem mora em um casarão confortável no interior de Killarney, é Niamh quem desfila ao meu lado em carpetes vermelhos e premiações. É Virgil quem berra comigo, até a voz ficar rouca, banhando-se na adoração cega de uma multidão de rostos maravilhados e desesperados por nossa atenção. Não Cherry. Não ele. Então sim, eu sou uma vadia sem coração, e tão rancorosa quanto. Acredite em mim, quando digo, não me contento com a mediocridade, se farei algo, então serei a melhor a fazer, independentemente do que seja.

Agora que você sabe exatamente quem sou, permita-me levar você para o maldito problema em mãos. Tudo nos leva para a maldita after party da gravadora Altas Records. Este era o momento em que, após longas horas de sorrisos forçados, elogios disfarçados de ameaças veladas, olhares sugestivos e maneirismos calculados para impressionar os lobos em terno e gravada, disfarçados sob a pele de cordeiros, falsamente preocupados com seus artistas, nos observando como pedaços de carne a disposição, nos era oferecido como “recompensa” ; uma forma enviesada de render mais algumas histórias para impulsionar ou destruir uma carreira. Para mim, sempre foram uma forma de exposição indireta para continuar o trabalho, uma vitrine para os produtores, empresários e até mesmo interessados. Mais do que o dinheiro que ganhava, Joel Massaro gostava de exibir seus troféus como o garotinho mimado que era. E na maioria das noites, seu troféu era eu.

Não nesta noite, todavia. Esta noite todas as atenções estavam voltadas para os malditos novatos. Embora fossem estrangeiros, já se destacavam a um tempo nas listas de mais ouvidos mundiais, eram experientes com o showbiz, sabiam como se portar e encantar, mas somente agora havia conseguido uma parceria deturpada com uma grande gravadora americana —— era quase notório que, para se conquistar o nível internacional de artista, era necessário conquistar o público americano completamente, e quando digo americano, digo o continente americano. Movem-se por entre as pessoas com familiaridade, trocam olhares divertidos, curiosos e até mesmo flertam com alguns para manter o encanto. Alguns julgam disfarçadamente, não parecem estar acostumados com a “promiscuidade ocidental” e sem dúvidas, isso me faz quase rir. Eles já eram um fenômeno fazia um ano inteiro —— eles já deveriam ter se envolvido em muita merda oculta das câmeras e atenções públicas, era apenas teatro. Quase todo mundo havia ouvido falar neles a essa altura; os BEATBOIZ, ou coisa do tipo, mesmo a pequena Grace, filha de 2 anos de Niamh, estava obcecada pelas músicas grudentas e irritantes deles. Não era como se fossem composições elaboradas, liricamente complexas e até mesmo dramáticas, tampouco protestos acalorados, ou inovadoras, eram fabricadas para serem grudentas, repetitivas e viciarem. Isso com a aparência impecável, devastadoramente atraente, era exatamente o que Joel Massaro gostava. Vendia.

E é por isso que estou aqui. Sou a puta dessa noite. Joel quer exibir suas melhores criações para os novatos, apresentar a eles o que eles podem se tornar: lendas, realmente alguém naquela indústria; e quer lembrar-me quem estava no controle de tudo, quem havia sido o responsável por entregar o mundo em uma bandeja para minhas mãos sujas e quem poderia retirá-lo facilmente. Então, se quero ficar no lado bom de Joel, o que, para ser sincera, é um esforço demasiado, pelo bem do contrato e dos outros membros da banda, pelo bem do que está em risco, preciso entregar a ele exatamente o que deseja: a putinha obediente que lhe rende dinheiro.

Posso fazer isso, mas isso não significa que preciso aceitar calada. Se Joel espera que eu interprete aquele papel, irei o fazer da melhor forma que sei. Serei a melhor; darei a Joel motivo para se lembrar quem ele havia criado, e porque aquilo sempre voltaria a morder seu rabo murcho e branquelo. E começaria pelo novo brinquedinho de Joel.

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Tenho que admitir, o líder do grupo —— embora suponho que não seja o cantor principal —— era realmente bonito. Os cabelos escuros como a noite estão desalinhados a essa altura, talvez pelas tantas vezes que ele havia os ajeitado durante a noite, ainda assim, permanecem no slideback elegante, algumas mechas pendem por seus olhos, algo que faria com que qualquer um parecesse cansado, mas nele, estranhamente apenas faz parecer relaxado, confortável, até demais em sua própria pele. Os olhos intensos, percorrem as pessoas com um desinteresse aparente, quase palpável, o rosto proporcional e harmonioso é quase inexpressivo, uma postura falsa de desinteresse que se misturava com uma neutralidade programada. Agia como se fosse superior a tudo aquilo. A máscara é bem óbvia, fácil de quebrar, o protegia e assegurava sua carreira, é claro, mas era treinada para ocultar suas reais intenções e reações diante de situações desconfortáveis. A curva do sorriso torto, charmoso, era calculada para desviar a atenção de si para outra pessoa, o flerte, planejado para distrair do tópico de interesse e dar margem para uma fuga estratégica. Fazemos isso o tempo todo em entrevistas ou interações desconfortáveis. Questiono-me se o príncipe encantado está tão desesperado para rastejar de sua própria pele e sair dali quanto eu me sinto. Mas há algo na postura dele que me faz ter certeza de que ele, na verdade, gosta da atenção. Gosta de receber os olhares interessados, admirando-o, até mesmo desejando-o, gosta do poder que lhe dá, ao dizer não. Gosta de ser inalcançável, impenetrável.

Vou quebrá-lo. E vou o fazer se arrepender de cada segundo dessa noite.

ESTOU ME AFOGANDO OUTRA VEZ, TODAVIA NÃO HÁ NINGUÉM PARA RESGATAR-ME AGORA. ESTOU SOZINHO E ISSO ASSUSTA. QUANTO TEMPO ATÉ QUE TUDO DÊ ERRADO?

Há um gosto amargo pungente em minha língua, se espalha como bile por minha boca, revira o estômago; não sei se veio dos resquícios da bebida que havia acabado de ingerir, a mistura de sabores, algo entre pimenta e chocolate misturava-se ao sabor puro do whisky, ou se era a nauseante certeza de que, após quase cinco anos limpos, havia acabado de jogar tudo pelo ralo com um maldito copo. A culpa é imediata, sufocante, espalha-se por meu peito, corrosiva, congela-me no lugar, prende-me apenas naquele único ponto focal em minhas mãos. O copo de cristal vazio, reluzindo suavemente conforme as luzes estroboscópicas se espalhavam pelo espaço, fazendo projetar pequenos losangos e figuras abstratas contra o dorso pálido, ressalta discretamente os calos que agora se formam pelas falanges dos meus dedos, marcando o esforço e disfarçando as cicatrizes que haviam ali. A maioria havia desaparecido com o tempo, deixando para trás apenas uma pequena linha, uma imperfeição minúscula facilmente disfarçada com maquiagem. A superfície irregular do vidro exibia uma arte intrínseca, com padrões em losangos cuidadosamente modelados, que lembram vagamente a uma composição Art Deco. Opulência pura em seu cerne. O gosto amargo do whisky ainda parece pulsar em minha língua, enviando-me uma mistura de culpa e satisfação que a muito havia conseguido me livrar de sentir; ignoro a culpa, concentro-me no sabor, e impossível desligar a parte de meu corpo que implora por mais. Mais um copo não faria mal, posso ouvir ao fundo da minha mente, tentando ignorar como isso muito provavelmente faria. Mas é o calor que se espalha por minha corrente sanguínea que sinto falta, como os músculos tensos de meu corpo relaxam, como sinto-me mais leve, como o peso de meus próprios pensamentos se dissipa para apenas uma névoa distorcida de satisfação e quase desorientação com a música e luzes pulsando ao meu redor. A sensação de finalmente conseguir distanciar-me da minha própria mente.

Ironicamente, é um erro comum que costumo cometer: beber para esquecer-me de todo o resto, das acusações de meu pai, dos olhares de soslaios desgostosos de minha mãe, da voz baixa de Suho na parte de trás de minha cabeça, questionando sempre “porque ele, não eu” —— também gostaria de saber, e, surpreendentemente, esquecer era a única coisa que não fazia. Pelo contrário, quanto mais desesperado pelo álcool ficava, quanto mais tomava, mais voltava para a superfície. Um mar obscurecido pela desorientação de sorrisos falsos, de olhares divertidos e até mesmo flerte sem intenção alguma, permeado por corpos putrefatos que havia deixado para trás. Não demorava muito para que estes voltasse à superfície para assombrar-me, tampouco para suas garras ficassem em minha carne, puxando-me para mais fundo naquele oceano obscuro e terrivelmente silencioso que a anos tornara-me naufrago.

A voz suave da atendente desperta minha atenção, e forço um sorriso despreocupado, ignorando como ela se inclina para frente para que seus seios avantajados capturem minha atenção. Talvez, em um outro momento, até mesmo o tivessem feito, mas naquele momento tudo o que eu conseguia ouvir, ao fundo de minha mente era o contínuo “porque eu, não você?” de Suho. Meu irmão mais velho teria dado tudo para estar em um lugar como esse, eu consigo facilmente imaginá-lo na pista de dança agora, encantando ou até mesmo permitindo-se uma noite de liberdade completa, sem donos, sem regras, apenas bebida o suficiente para mantê-lo desperto e um corpo quente para o envolver. Suho era esse tipo de pessoa, encaixava-se em qualquer lugar como uma peça de quebra-cabeça que faltava, era sempre a vida na sala, o riso solto que contagiava, o olhar preocupado que o fazia sentir-se visto, o rosto meigo que encantava. Em um mundo justo, seria ele a estar aqui, cercado de celebridades e estrelas que por muito tempo, acreditamos que só existia dentro de um vídeo de celular, dentro da televisão ou de uma fotografia. Deuses tão intocáveis que jamais se poderia imaginar como seria ser reconhecido brevemente em uma multidão, quiçá conhecê-los em pessoa. E era eu que deveria estar em uma urna agora.

Peço por mais um copo de whisky, sentindo o peso da desistência afundar-me mais no abismo que havia me atirado. Era sempre assim, o primeiro copo sempre era o problema, se eu não cedesse de imediato, se eu conseguisse resistir mais um dia, então estaria seguro. Mas se eu o tomasse… então amanhã eu poderia tentar ficar sóbrio, então amanhã eu poderia lidar com o arrependimento e a culpa. Amanhã.

A atendente abre um sorriso encantador, seus dedos acariciam o dorso de minha mão quando retira o copo de cristal para enchê-lo de novo, e me lança um sorriso travesso. Tento suprir um bufar baixo, forçando um sorriso divertido na direção dela, antes de batucar distraidamente contra o balcão. Giro impaciente os anéis em meus dedos, desconfortável com as roupas, com a minha própria pele. Preciso sair daqui, antes que faça alguma merda pior, antes que…

—— Olha, se quer saber, em todos os meus anos frequentando este lugar, essa é a primeira vez que vejo Eleanor Reeds sendo legal com alguém, tenho que admitir, estou morrendo de inveja —— uma voz feminina se projeta a minha direita, baixa, arrastada com um sotaque pesado, lembra um pouco o britânico, mas a maneira com que pronuncia as palavras, como se as palavras se enrolasse em sua língua, não de um jeito ruim. Percebo que é irlandês, quando volto meu olhar na direção da mulher e me deparo com ninguém mais e ninguém menos que , escorada preguiçosamente contra o balcão de madeira, como se fosse uma pintura personificada ao meu lado. Sou tomado por seu perfume, uma mistura intensa de flores com algo mais ácido, disfarçado mas presente; pimenta, percebo. Os lábios cheios, tingidos por um tom profundo de vermelho escuro se curvam em um sorriso torto, convidativo e traiçoeiro. Seus olhos cintilam, e entendo agora porque quase todo mundo que a conhece a assimila com uma gata. —— Comigo? Ela sempre ameaça cuspir no copo, acho que já fez algumas vezes, não que me importe —— observo-a dar de ombros com indiferença, mas o duplo sentido em suas palavras não passa despercebido. —— Mas com você, ela fica manhosa como uma gatinha, só posso imaginar o porquê —— abre um sorriso perigoso, dentes brancos expostos, parecendo achar divertido observar minha interação com a atendente, a tal Eleanor. Tenho vontade de revirar os olhos, mas não consigo desviar meu olhar. Ela se inclina para trás, um pouco mais, interceptando meu copo da mão da atendente com um sorriso largo, quase infantil. Só consigo encará-la, as palavras desaparecem de minha mente como um mal funcionamento, mesmo que tente forçá-las para fora. —— Então, ela tem chance?

Agradeço mentalmente por não ter recebido a bebida antes, porque certamente teria me afogado. Acho que realmente me afogo com a minha própria saliva porque por um momento quase começo a tossir, obrigo-me a inspirar fundo e cometo o erro mais estúpido que poderia ter feito, o perfume dela invade minhas narinas, obstruindo tudo pelo caminho, e percebo o quão bom é. Sinto meu corpo se aquecer, enquanto forço-me a voltar em sua direção, determinado a encará-la de frente, no fundo de seus olhos, e este é meu maior erro.

é de tirar o fôlego.

Sempre havia sido, quer dizer, lembro-me dos posters espalhados pelo quarto de Suho, ou dos clipes que assistia às escondidas no fundo de casa —— era meu pai quem não acreditava que era apropriado assistir os vídeos. Mas estar assim tão perto dela… parece que torna tudo pior.

Porque finalmente compreendo o que Suho via; e se não é mil vezes melhor do que uma câmera seria capaz de capturar. Seja os olhos profundos, as íris tonalizadas em uma cor difícil de definir, parece alterar-se conforme as luzes estroboscópicas espalhadas pelo espaço se moviam, mais claras quando o vermelho e amarelo tocavam seu rosto, mais escuras quando o azul e verde o tocavam, intensos, vibrantes, envoltos por uma longa camadas de cílios curvados, destacados por um rímel que borra nas laterais dos olhos, imperfeito. Os cabelos longos, densos e desalinhados, emolduram seu rosto delicado, falsamente passando a imagem de uma fragilidade produzida inexistente, pendendo em cachos grossos, volumosos e bem definidos. A pele perfeita, uniforme e de aparência terrivelmente macia, sempre parecia perfeita demais nos videoclipes, ou até mesmo nas fotografias postadas dela em redes sociais, mas agora de perto, posso ver as pequenas imperfeições que se espalham, e roubam meu fôlego. Há uma pequena camada de cicatrizes em seu rosto, tão imperceptíveis que passariam facilmente despercebidas, mas estando perto dela, agora, posso observar com uma ponta de surpresa. Uma no supercílio que deveria ter deixado sua sobrancelha falhada, mas que a maquiagem aparentemente havia consertado, outra no canto direito de seu lábio inferior. Evidências silenciosas de sua personalidade problemática, é claro, se não as cicatrizes, certamente as inúmeras tatuagens espalhadas por seu corpo, provam o ponto; padrões e desenhos que não pareciam ter significado algum se não os literais que se apresentava de imediato. Haviam tantas que uma parte de minha mente se desvirtua para um caminho perigoso, tentando imaginar até onde elas iam, até onde cobriam sua pele. Minha garganta subitamente está mais seca do que deveria, controlo minha respiração, tentando mantê-la uniforme e baixa, sou obrigado a tencionar minha mandíbula, tensionando os músculos de meu corpo outra vez, em busca de algo que eu possa me agarrar, que me mantenha centrado —— mas estou em queda livre, e a culpa é inteiramente dela.

E ela parece perceber isso.

Seus lábios carnudos, cobertos por um batom vermelho escuro, quase preto se torcem por alguns segundos antes de se curvar em um sorriso torto, entretido, quase desdenhoso; um pequeno desafio velado, um incentivo silencioso para algo que rastejou por minha pele, quente, arrepiante e frustrante. Fincou suas garras em minha pele e fez-me refém de seu olhar. Uma de suas sobrancelhas angulosas se curvam para cima, suavemente, em uma pergunta silenciosa. O riso suave, depreciativo e afiado escapa por sua garganta, discretamente, mas ainda assim audível para meus ouvidos, retorce meu estômago, inflama minhas veias com um incômodo inconveniente e desproporcional para a situação; é a maneira com que soa, é o desafio, o desaforo, o olhar de desprezo por baixo do tom aveludado, do convite doce com fundo amargo, irrecusável. Não é apenas uma criatura com corpo escultural, provocante em suas roupas que mal esforçam-se para cobri-la de fato, era a eloquência arrebatadora.

pulsava a palavra “problema”. Grande, vermelho, sem nenhum tipo de problema. Era inegável o perigo que parecia esvair-se com cada subir e descer de seu peito acompanhando o ritmo de sua respiração. E se não a tornava ainda mais convidativa.

—— O que? O gato já comeu sua língua, Encantado —— ela provoca, e algo em meu peito se aquece. Não é bom; queima, frio e remexe-se desconfortavelmente, o gosto amargo em minha língua torna-se mais intenso, a pulsação aumenta, reverberando por meus ouvidos suavemente, como um fundo musical marcado, fazendo com que o restante da festa desaparecesse. Fazendo com que até mesmo Suho sumisse de minha mente, ainda que por um breve segundo.

Está provocando, quer minha reação, mas seja lá qual o interesse dela ali, não sou do tipo que aceita algo calado —— não mais. Estreito meus olhos, apoiando meu cotovelo esquerdo sobre o balcão de mogno, observando seu rosto por um longo e deliberado momento. É o meu silêncio que a deixa desconfortável? Ou a minha falta de reação? Estou entrando por baixo de sua pele como está tentando fazer comigo, ? Que jogo era aquele? Movi minha mandíbula, frustrado, não com ela, mas comigo mesmo. Não tenho resposta para a provocação dela, porque ela atinge no ponto certo.

—— Costuma roubar a bebida dos outros também, ou sou o privilegiado da noite? Com tanto dinheiro que você faz, em pessoa, não deveria pagar pela sua própria bebida? —— Obrigo-me a cuspir as palavras, forçando-me a usar todo meu charme com ela, embora minhas palavras sejam enviesadas. Observo aqueles olhos marcantes, cintilarem com algo que não consigo entender, não de imediato ao menos, mas não é ruim. Há uma ponta de frustração naquele rosto estupidamente atraente, e percebo, com mais divertimento do que deveria, que é algo que gosto de ver. Seja lá qual é o jogo que ela pretende iniciar aqui, concluo que, com o silêncio do mundo ao redor, estou inclinado a ver aonde isso pode dar, consequências que se danem. Dou um passo na direção dela, e tomo de suas mãos o copo de volta. Ela não se afasta, pelo contrário, apenas inclina a cabeça para trás, sustentando meu olhar com um ar petulante. Assim de perto, ela parece tangível. A culpa não demora para ressurgir ao fundo de minha mente, rastejando por minha espinha, gélida, cortante, apoderando-se de minha mente aos poucos, tentando corroê-la. Suho deveria estar ali, aquela conversa era de Suho, não minha. Roubei isso de meu irmão, e muito mais. —— Não me chame assim, não temos essa intimidade.

A sobrancelha angulosa dela se curva um pouco mais, e ela inclina a cabeça para o lado, tencionando a mandíbula. Seus olhos se perdem em meu rosto por um momento, e sinto algo se aquecer ao centro de meu peito; detesto. Havia algo nela que desperta alguma coisa, um anseio por ter sua atenção, ainda que por um breve momento, e isso lhe dá controle. Trinco meus dedos, fuzilando seu rosto, questionando-me outra vez o que diabos, , poderia querer comigo. Não era estúpido, embora fosse deslumbrante, não é qualquer pessoa, e seu interesse em mim, súbito, expõe mais do que está dizendo.

—— Nossa —— resmunga com um bufar suave, estupefata. Desvio meu olhar de seu rosto e observei por uma fração de segundos o copo com o whisky. Posso sentir como os músculos de meu corpo se tencionam ainda mais, estão começando a doer, o impulso é mais forte, aquela pequena coceira ao fundo da minha mente se torna um incômodo real. Apoio o copo sobre o balcão de mogno impecável, trincando os dentes com força, obrigando-me a soltá-lo. Inspiro fundo e arrependo-me imediatamente do gesto; o cheiro do perfume de me consome. É tudo o que sinto, tudo o que me envolve. Obrigo-me a sustentar seu olhar, observando-a com intensidade. Preciso sair daqui antes que faça algo que possa arrepender-me amargamente. —— Não é que você tem garras afinal? Achei que vocês, bem… —— passou com um sorriso sarcástico, afiado, sugestiva, lançou um olhar na direção de onde, percebo agora, estavam Min-Hyuk e Eun-Ho conversando baixo e rindo, já um pouco alterados, de alguma coisa que não posso estar ouvindo, mas tenho quase certeza que é de alguma comida, ignorando os olhares interessados de outras pessoas ao redor. O gosto amargo pungente em minha língua parece aumentar com a sensação afiada de irritação que começa a florescer por meu peito. —— São programados para serem assim, não são? Dóceis, adestrados, não achei que tinham força o suficiente para atacar alguém.

era tão bela quanto irritante. Suponho que faça sentido; após tanto tempo tendo todos lhe dizendo como o mundo lhe pertence, você acabava se tornando uma pessoa desagradável. Solto um bufar baixo, um riso sarcástico quase escapa por meus lábios enquanto permito-me perder-se em seu rosto, não a respondi de imediato, apenas observo-a com atenção. Como os cabelos desalinhados emolduram seu rosto marcante, como o batom destaca os lábios convidativos, como as roupas a envolviam, o sutiã de renda com transparência apenas nos lugares certos envolviam seus seios, puxando-os para cima criando um desenho atraente e quase impossível de não perceber, a forma com que a meia calça preta grossa de cintura alta, gruda em seu copo como uma segunda pele, evidenciando uma transparência onde suas coxas começavam, e como a bota de cano alto de couro envolvia as pernas longas e elegantes dela. É uma visão e tanto para se ter, não apenas da pele que está exposta, mas pela confiança que ela usa. sabe que é atraente, ela sabe que pode roubar o fôlego de alguém com as palavras certas, aquele olhar sugestivo e o sorriso torto, em qualquer outra noite, eu até poderia entreter o pensamento de ver a onde aquilo iria, mas não essa. Não quando já estava no meu limite, e, todavia, não consigo conter o impulso…

—— É como dizem que aparência não é tudo, certo? —— pronuncio-me deliberadamente, observando os olhos dela se acendem com algo, e fico feliz quando percebo que não é algo positivo. Não sinto o sorriso que começa a surgir nos cantos dos meus lábios.

—— Esperto —— ela murmura lentamente, a palavra ondulando por sua língua de uma maneira obscena; ela sequer parece estar completamente ciente de todo o efeito que causava, mas posso ver as engrenagens de sua mente funcionando. Obrigo-me a desviar meus olhos do rosto dela, voltando minha atenção para onde Min-Hyuk e Eun-Ho estavam, tentando pedir para que viessem para me tirar dali, mas os dois haviam desaparecido. Os encontro conversando baixo com Taehoon, que surpreendentemente, estava com o braço direito repousado sobre os ombros de uma modelo famosa conhecida por fazer parte de um reality show que não acabava nunca. Merda, isso não iria acabar bem. Busco com o olhar por Jun-Woo, nosso empresário e vejo-o perdido no patamar superior do segundo andar, com um charuto em sua boca, cumprimentando alguns figurões engravatados e estilosos que só poderiam compor o alto escalão Hollywoodiano. —— Tão esperto que veio parar nas mãos de Joel Massaro, huh? Se a piada não escreve por si mesma —— resmungou à minha esquerda, mas algo em seu tom explícita alguma coisa diferente naquelas palavras, algo amargo, afiado escorre por seus lábios convidativos como veneno. Transforma as palavras doces e os quase elogios em um ataque enviesado quase indetectável. Pisco, com o comentário inesperado. Raiva borbulha por meu peito, mas há algo mais perigoso começando a surgir, amortecendo minha mente para o que quer que me atormentava anteriormente, fosse a voz acusatória de Suho ou de meu pai, para apenas focar nela. Não é bom, mas não é algo ruim, pela primeira vez naquela noite, poder ouvir meus próprios pensamentos.

—— Corajoso dizer isso, especialmente quando você continua trabalhando com ele, —— respondo com um sorriso sarcástico, tentando agarrar-me a ironia da situação, mas há algo muito mais divertido ali do que apenas o não dito em suas palavras. Tensiono a mandíbula com força, um pequeno músculo movendo-se, enquanto passo meus dedos por entre meus cabelos, afastando-o de meu rosto, sentindo o suor que umedecia algumas mechas enroscar-se contra as falanges digitais. Apoio meus cotovelos sobre a superfície lisa e fria do balcão, unindo as sobrancelhas enquanto gesticulo para uma das atendentes para que pudesse pegar o dinheiro. Se pelo serviço ou apenas compensação, pouco me importo no momento. Mas é que consegue a atenção de Eleanor, e com um sorriso discreto, ela pede por vodca, pura, e sinto minha boca salivar, não pelo gosto da bebida, porque era horrível, mas pela sensação que proporciona. Preciso sair daqui, agora… —— Não acabou de dizer que ela cospe no seu copo?

lança-me um olhar divertido, estreitando os olhos. Parece considerar minhas palavras por um momento, e então, ela ri. O som que ecoa por meus ouvidos, pega-me desprevenido, porque não era aquele estranho ronronar desdenhoso, baixo, quase imperceptível que soava como uma faca afiada, mas sim, uma risada genuína, rouca e que soava como a de um velho marinheiro fumante, é ridícula a risada dela, falhada; soa estranhamente melhor do que qualquer outra coisa que já ouvi. Envia uma onda de calor por meu corpo, inesperado e desconfortável.

—— Também disse que não me importava, não disse? —— Observo-a pegar o copo das mãos da tal Eleanor, e virá-lo de uma vez. Trinco meus dentes com força, minhas mãos se fecham em punhos firmes, quase trêmulos, músculo tão tensos que parecem à beira de se romper ao observá-la engolir a bebida; o movimento suave que sua garganta faz, como o músculo se moveu, como sua língua se projeta para fora lentamente para limpar o canto de seu lábio inferior. Não sei o que é pior, se é o desejo de afundar-me na sensação que provavelmente tomava seu corpo, ou se se é o estranho impulso, mais perigoso e começando a tornar-se mais forte de apenas beijá-la. Abaixo meu olhar para a porra do meu copo, prendendo a respiração. Isso é tortura…

—— O que você quer de mim, ? —— Não consigo conter a pergunta obrigando-me a manter meus olhos fixos em minhas mãos, girando distraidamente os anéis que envolvem meus dedos. Uso o polegar para traçar o anel de cobra que envolve meu indicador direito, traçando as pequenas escamadas delicadamente feitas de forma manual com o canto da minha unha. Aperto meus lábios, tencionando minha mandíbula com força, um músculo projetando-se em minha mandíbula.

—— O que o faz pensar que eu quero algo?

Lanço lhe um olhar de soslaio, cético.

apertou os cantos dos lábios, um pequeno tique em sua sobrancelha diz-me que ela havia sido pega desprevenida, o que até teria me satisfeito se não fosse pela maneira com que ela se projeta para frente contra o balcão. Alça meu copo antes que eu possa o fazer, girando o cristal distraidamente por entre os dedos elegantes e delicados, suas mãos parecem cobertas por luvas de tatuagens, algumas forma padrões geométricos, outras, parecem com rendas delicadas gravadas na pele macia. As unhas, longas, vermelhas como sangue, batem distraidamente contra o vidro, ritmado, acelerado demais para não ser algo ansioso.

—— Fiquei curiosa, queria saber porque todos não paravam de falar sobre você —— Volto-me em direção dela, sorrindo, desacreditado. Agora isso eu não consigo acreditar nenhum pouco. Observo-a beber outra vez, tão rápido o líquido que sinto o espasmo fantasma em mim, quase posso sentir o calor se espalhar por meu corpo, o álcool rasgando de forma gostosa minha garganta enquanto a sensação de leveza começava a se espalhar.

—— Por que não acredito nisso?

deu de ombros, voltando a me encarar, parecendo espelhar meu sorriso cínico.

—— Porque —— ela suspira, um tanto melodramática, e não consigo conter o sorriso que ameaça surgir por meus lábios. Ela para a minha frente, estendendo o copo de cristal vazio em minha direção. Não movi um músculo para tomá-lo de suas mãos. Ela está perto, perto demais, posso sentir o calor de seu corpo, ainda que coberto por aquele vago montante de tecido questionável, contra o meu. —— Você provavelmente é mais esperto do que eu quero admitir que é, —— obrigo-me a manter minha expressão neutra, mas a maneira sugestiva com que ela pronuncia meu nome, conjura imagens que eu não quero me perder no momento. E todavia, é inevitável. —— E ainda estou esperando por sua resposta.

Esqueço-me do que diabos ela estava falando com a maneira com que ela me encara. O monstro que vivia abaixo do oceano de culpa que ameaçava afogar-me diariamente ainda está ali, posso senti-lo rastejando-se para cima, tentáculos envolvendo meus tornozelos e pernas, tentando submergir-me naquela escuridão sufocante e silenciosa, tentando obrigar-me a confrontar o que não faria; e então havia o estranho silêncio que ela causava. Aquele olhar traiçoeiro que prometia muito mais problemas do que eu estaria disposto a ter que lidar, mas então, também nunca fui o tipo de pessoa que aceitava passivamente avisos para “não fazer” algo. Meu pai chama de fraqueza, minha mãe, teimosia, para mim, era só um pequeno desvio. O calor que se espalha por meu corpo parece mais intenso dessa vez, mais convidativo, umedeço os lábios com minha língua, tentando não sorrir com o comentário dela, erguendo apenas uma sobrancelha. Percebo, tardiamente, porque era tão difícil manter o controle com .

Ela era desejo puro.

Uma doença facilmente contraída e assoladora que oferecia nada mais do que amargos resultados acompanhados por cicatrizes crônicas. Um veneno, doce, delirante e viciante. Talvez até mesmo uma maldição, alguma interpretação ridícula de carma que o universo havia colocado em meu caminho para punir-me, para vingar Suho —— sei que este estaria rindo se me visse aqui, agora. Até onde eu sabia, desde que havíamos chegado em Los Angeles, nada de bom vinha de alguém como ela. Não havia inocência em alguém que se parecia com ela, era o que todos pareciam dizer. teria na palma de sua mão, voluntariamente, quantos corações desejasse, se sequer ousasse desejá-los. Os colecionava tal qual uma criança o fazia com adesivos, aparentemente. E a pior parte? Não era nenhum pouco melhor do que Suho com suas fantasias de grandeza envolvendo a mulher à minha frente.

Sei que deveria apenas tê-la ignorado, inventar uma desculpa e buscar pelo olhar de Jun-Woo para deixar claro que a noite havia acabado para mim. Sei que o melhor que posso fazer é apenas ignorar o tom dúbio em sua voz, e seguir meu caminho antes que possa fazer uma merda maior —— antes que possa não apenas arriscar mais um lapso, pior, antes que possa arriscar meu contrato. Mas não quero. Porque tem algo na maneira com que ela me encara, calculada, traiçoeira e com uma promessa silenciosa, tem algo na maneira com que ela está esperando uma reação minha que inflama meu sangue e faz com que o crepitar de raiva que se acende ao centro de meu peito se misture com algo mais intenso, algo mais pesado e avassalador, espalha-se pelo resto do meu corpo corrosivo, consumindo tudo o que encontra pelo caminho. Estou febril, errático, e determinado, e isso é uma péssima combinação.

Ela dá mais uma passo em minha direção, está tão perto que posso sentir o toque fantasmagórico de seu corpo contra o meu. O ar escapa baixo, vagaroso por entre meus lábios, minha respiração começa a tornar-se mais lenta, irregular, e não consigo desviar meus olhos do rosto dela, da forma com que me encara, da maneira com que os cantos dos lábios dela se curvam naquele maldito sorriso. As palmas das minhas mãos coçam para tocá-la, mas obrigo a mantê-las para mim.

—— Então —— ela ergue uma sobrancelha, observando-me como uma gata —— ela passou a noite te encarando, tratou com um príncipe, ela tem chance?

Não sigo o olhar dela na direção de quem quer que seja, apenas continuo a encará-la. Tudo em meu corpo grita que isso é uma péssima ideia, como se estivesse aproximando-me mais e mais de um precipício do qual o resultado eu conhecia vividamente; aquilo iria virar um problema. Mas ela soava como uma armadilha perfeita. Uma a que suas presas estavam dispostas a cair. Conscientes de seus destinos desafortunados, apegando-se ao anseio da captura com alívio, não com um medo subconsciente ao potencial ferimento mortal que receberia. Uma, da qual, mesmo em sua destruição parecia oferecer os mais doces sonhos, as mais aprazíveis presunções. Uma pura e lancinante obsessão. Irrevogável. E um desespero, é claro, por mais uma dose, mesmo que fosse apenas uma mentira; posso entender porque tantos caem tão facilmente na conversa dela.

é uma sereia —— e estranhamente eu não me importo nem um pouco de ser o próximo afogado.

—— Não. —— Algo brilhou nos olhos de , algo perigoso e terrivelmente convidativo, algo que faz-me perder em seus olhos e aproximar-me mais dela. Ela não se afasta, apenas inclina a cabeça para trás, sustentando meu olhar com um desafio silencioso. —— Vá em frente, faz a pergunta o que eu sei que você quer fazer —— provoco, tão perto dela agora que posso sentir o cheiro de seu hálito, uma mistura suave de menta e bebida alcoólica, questiono-me se a beijar agora, que sabor sentirei em seus lábios?

—— Eu tenho alguma chance essa noite? —— ela abriu um sorriso preguiçoso, traiçoeiro e meus olhos escurecem. O sorriso dela aumenta, os olhos cintilando como os de um gato, inclinando a cabeça suavemente para o lado, um olhar silencioso como se quisesse convir: “te peguei” .

Abro meus lábios para respondê-la, erguendo meu queixo desafiadoramente, sem conseguir conter um sorriso quando um pigarro e uma figura familiar se aproxima de nós. Não me afastado, esperando que o faça, mas a maldita mulher fica plantada no lugar, sem mover um centímetro sequer que pudesse colocar distância entre nós dois, ela apenas inclina a cabeça um pouco mais para trás, expondo a pele macia e delicada de seu pescoço, revelando uma pequena tatuagem que ela possuía entre a parte de trás de sua orelha, à linha de sua mandíbula. É pequena, discreta, mas captura minha atenção no mesmo segundo, o formato de um beijo, o trabalho delicado e cuidadoso é intrínseco e repleto de detalhes, a paleta cromática da tatuagem sendo apenas uma variação entre cinza e preto, monocromática; um sorriso quase escapa por meus lábios enquanto meus pensamentos se desviam para as possibilidades, especialmente qual seria a reação dela se eu beijasse aquele ponto em específico.

—— Ótimo! To vendo que vocês dois já se conheceram e estão se dando bem —— a voz de Joel Massaro se projeta a minha direita, soando falsamente animado, e obrigo-me a dar um passo para trás, colocando distância entre mim e . Umedeci meus lábios secos com minha língua, voltando meu olhar na direção do empresário americano, meus olhos repousam no mesmo segundo no copo de cristal cheio que ele me estende. —— Whisky é sua preferida, não é? Pensei que como a noite é de comemoração, deveria ao menos oferecer-lhe o melhor.

Forço um sorriso mecânico, fingindo estar impressionado e agradado com o gesto aceitando, tenso, o copo. Parece pesar toneladas, e todavia, não posso deixar de pensar em como tenho ansiado por mais a noite inteira. A tinha em minhas mãos agora, e isso era a pior parte de tudo. Merda. Por uma fração de segundos meus olhos focam em , mesmo que não faça ideia do que procuro ali. Apenas a encaro em silêncio, sem saber o que desejava, e todavia, implorando para que ela fizesse algo: que ela tomasse meu copo outra vez, que pudesse experimentar os efeitos da embriaguez apenas ao observá-la sem preocupar-me com o que significava tomar mais um copo, ou se estou verificando se ela irá tomar outra vez meu copo de minhas mãos —— o afastaria antes. Mas está encarando Joel Massaro, uma expressão impossível de ser lida. Então aproveito a distração e viro o copo de uma vez, como um sedento por meses, finalmente encontrando água de verdade.

O álcool desce queimando pela minha garganta; nunca havia tido um gosto tão ruim e tão bom ao mesmo tempo. Preciso de mais. Meu corpo já febril agora parece insuportavelmente em chamas, obrigando-me a agarrar o colarinho de minha roupa, tentando abri-la como se minha vida dependesse disso, desfaço os primeiros botões, massageando meu pescoço, voltando minha atenção para Massaro. Joel Massaro é uma figura no mínimo interessante. Não parece extraordinário, como muitos o fazem parecer. Ele não é alto, nem mesmo bonito, sequer tem uma personalidade marcante, mas ele era bom no que fazia. Observá-lo caminhar pelo império que ele havia construído era, na verdade, no mínimo intrigante. Fazia com que você quisesse seguir os mesmos passos que ele, fazia com que uma parte de você desejasse seguir exatamente suas palavras, para que pudesse ter exatamente o que ele possuía —— não só os montantes infindáveis de dinheiros, não só o poder que ele tinha de construir e destruir alguém com um estalar de seus dedos, mas a aclamação, o respeito que possuía por todos naquela indústria. Chame-o do que quiser, era inegável o trabalho dele ali. Era um homem pequeno em comparação aos outros, todavia, já com os cabelos grisalhos nas laterais, de olhos proeminentes azuis profundos, e um rosto quadrado; cabelos perfeitamente aparados, penteados e ordenados, uma barba cuidadosamente aparada que envolvia sua mandíbula bem pronunciada, rosto com ângulos marcantes e afiados, e lábios finos, completavam o rosto conhecido, mas eram as roupas que ele usava que sempre chamava atenção, os ternos coloridos que haviam criado uma marca para si. Aquela noite usava um vinho escuro, quase parecido com o batom de , mas mais vivo e mais decorado que o batom de . Era uma figura de carisma e poder enviesado; assustada e encantava, talvez por isso estivesse a tanto tempo assim naquela indústria.

—— Que considerativo de sua parte, Joel —— murmura provocativa, o sorriso, deliberado e afiado, de volta com aquela nota de perigo pairando por seus olhos. —— E para mim? Não trouxe nada? —— Ela questiona, e quase posso comprar a “inocência” de suas palavras se não fosse a maneira com que ela encara Joel. Massaro, todavia, parece continuar imperturbável, encarando-a com uma expressão difícil de interpretar.

—— A noite é dos BEATBOIZ, —— Joel responde com um tom de voz aveludado, quase amigável demais. Apoio meu cotovelo esquerdo sobre o balcão de novo, inclinando-me um pouco para trás, sem conseguir conter um sorriso divertido com a cena que ocorre a minha frente. Eu não faço ideia do que está acontecendo, mas nem fodendo que irei perder um segundo disso. —— Por que diabos você iria querer roubar a atenção para si, querida? Já não tem demais?

faz um maldito beicinho, provocativo, que não tem efeito algum em Massaro, mas que tem em mim. Tento aliviar a descarga de adrenalina que percorre meu corpo, ajustando-me discretamente, enquanto afasto a ideia vivida e quase tangível de fincar meus dentes naquela pele macia e convidativa de seu lábio inferior. Agora, tenho certeza, de que é o efeito do álcool.

—— Continua me tratando assim, e vou virar a sininho, enciumada e uma vadia à beira de um colapso —— deu de ombros, ajeitando o sutiã que envolve seus seios aperto, antes de puxar os cabelos volumosos e cacheados para trás, dando de ombros. O movimento não escapa de meus olhos, tampouco de Massaro. Ela faz de propósito. —— Você odiaria que eu me sentisse assim, não odiaria, Joel? Fica impossível de trabalhar assim.

—— Cuidado, , os tempos estão mudando —— é tudo o que Massaro diz, algo surge nos olhos de em resposta, algo que não sabia que era possível que ela pudesse expressar, mas que por algum motivo, apenas agita-me um pouco mais. É raiva, pura e genuína raiva, e a ideia de vê-la frustrada soa bem mais palatável do que ser o alvo de suas palavras afiadas. Então também poderia ter sua pele penetrada por outros, e de repente, pego-me desesperado para atormentá-la; se por despeito ou apenas para ter sua atenção fixa em mim outra vez, pouco posso dizer. —— O mainstream parece estar se cansando de rockstars, e preferindo muito mais Idols.

Dou de ombros, desdenhosamente, sem desviar meus olhos do rosto de .

—— O que podemos fazer? Somos adestrados para a profissão, perfeição é objetivo, mediocridade o pecado —— murmuro, sem conseguir conter o sorriso petulante que começa a surgir por meus lábios quando me lança um olhar afiado, irritado. Puta merda, ela é deslumbrante, mas ainda mais com raiva.

—— Vou esperar ansiosamente para quando você tiver um desses à disposição, Massaro. Estou louca para conhecê-los —— responde meu comentário com aquele tom aveludado, enviesado que transforma meu sangue em puro fogo, rouba meu fôlego e prende-me no lugar. E talvez seja o álcool começando a falar mais alto, mas amo cada minuto disso. Mais do que deveria.

Joel estalou os lábios, em uma advertência que nem mesmo , ou eu escutamos, presos naquela maldita competição de quem encara o outro mais. Não vou perder, não para .

—— Que seja —— revira os olhos, voltando seu rosto na direção do palco, a luz estroboscópica do lugar projetando sombras suaves em seu rosto marcante. Busco por imperfeições, tento criar uma lista e manter-me preso ao chão; não funciona. Não é apenas a óbvia beleza que ela possui, é algo inteiramente nela. Sua essência. É a porra de um farol em meio ao oceano obscurecido que me empurra para baixo, e de repente, não sou mais o naufrago, mas uma mera mariposa. A autodestruição nunca havia soado tão convidativa, nem tão gostosa. —— Tudo bem, , só me responda uma coisa —— comanda ela, imperiosa, e meu primeiro impulso é simplesmente ignorá-la, é apenas murmurar um “me obriga” sarcástico, mas contenho minha língua com uma mordida que arranca um pouco de sangue. O gosto ferroso misturando-se com os resquícios de álcool em minha língua é inebriante. Sua presença é mais forte do que meu controle. —— Qual sua música preferida?

A pergunta pega-me desprevenido, mas lanço um olhar descrente em sua direção. A princípio, pode-se cair na falácia que a pergunta era inocente, uma maneira de agradar, mas algo me dizia que não era o tipo de pessoa que agradava outras, pelo contrário, tudo o que ela parecia interessada em fazer era irritar, era quebrar. Posso ver exposto como uma parede de vidro que ela não está nem um pouco afim de saber qual era minha música preferida, de uma forma bem deturpada e quase pessoal, percebo exatamente o que ela quer fazer. Quer arruinar a minha música preferida para mim, o que quer que eu disser para ela agora, ela irá encontrar uma maneira de deturpá-la e tomar para si; a próxima vez que a ouvir, será em que irei pensar e não no simples fato de gostar do ritmo ou da letra. É uma armadilha sofisticada, posso ver, como as palavras aveludadas dela ocultam suas próprias intenções.

Ergo uma sobrancelha, desafiando-a silenciosamente, meus olhos focam novamente naquela pequena tatuagem entre sua orelha e mandíbula, antes de dar de ombros, fingindo um desinteresse maior do que de fato sentia.

—— Kiss —— Digo por fim, lentamente, vendo-a estreitar os olhos levemente, sem comprar minhas palavras. —— Do Prince & The Revolution. —— Abro um sorriso petulante, largo, encarando-a com uma inocência fingida. A música não é minha preferida, é, na verdade, favorita de Taehoon, que por algum motivo é viciado na batida marcada dos clássicos dos anos 80; é muito alta para que cante confortavelmente, especialmente com a voz baixa e rouca que ela tinha, na maioria das músicas, o que a deixava apenas com duas opções: ou tentava e falhava miseravelmente na frente de tantas pessoas ali, ou ela escolhia outra música aleatória para cantar. Há uma sensação profunda de satisfação ao observar os cantos dos lábios dela se retorcerem um pouco para baixo, em um sorriso irritado, antes de vê-la afastar-se, caminhando elegantemente por entre as pessoas em direção ao palco.

Tento manter meus olhos fixos nas costas dela, mas é impossível não admirar a bela bunda que ela tinha, as coxas torneadas e as pernas longas. Inspiro fundo, obrigando-me a desviar meus olhos, acenando com a cabeça em agradecimento a uma das atendentes, sequestrando a primeira bebida que encontro pelo caminho. Viro o copo de coquetel de uma vez, fazendo uma careta, não é álcool o suficiente, peço então para Eleanor por uma garrafa de Soju, ouvindo Massaro estalar os lábios, impaciente ao meu lado.

—— Não é uma boa ideia desafiar, assim —— Joel murmura a minha direita, puxando um dos bancos do balcão e então sentando-se ali desinteressado. Apoiou os dois cotovelos sobre o balcão atrás de si, mantendo os olhos fixos no palco, com um sorriso torto, difícil de compreender. Ergo uma sobrancelha, desconfiado, e até mesmo entretido. —— Ela não é conhecida por ser um furacão atoa, garoto. Vai acabar voltando para morder seu rabo isso aí.

Ofereço um sorriso cúmplice para Eleanor, observando-a corar suavemente, antes de pegar a garrafa de soju, abrindo-a sem muita cerimônia. Dou de ombros, desdenhosamente as palavras de Massaro.

—— Não é a primeira mulher bonita que conheço, Joel, nem vai ser a última —— aponto com um sorriso forçado para Joel, voltando-me igualmente na direção ao palco, onde a banda de parecia já estar a esperando. Observo-a caminhar em direção ao cara alto de cabelos desalinhados, de um preto escuro envolto por dreads com pequenas contas de ouro puro, ajustando a guitarra em seu corpo musculoso e coberto por tatuagens, e vejo-o abrir um sorriso endiabrado, lançando-me um olhar de soslaio antes de acenar em concordância com , e se aproximar da baterista, uma mulher baixinha, com cabelo colorido, dividido em duas tranças, uma rosa e a outra de um preto azulado, para acertar alguma coisa, antes de voltar para a posição inicial. Aquela deveria ser Danny Storm, e o cara que havia acabado de falar com ela, só poderia ser V. O problema da banda de era que, estranhamente, todos eram únicos em seus próprios estilos, e terrivelmente atraentes, mesmo sob a penumbra oscilante das luzes em neon. O tipo de pessoa que você veria em seus pesadelos, antes de acordar com um alívio gritante por não ter passado de apenas um sonho. —— Além disso, foi ela quem perguntou sobre a música, eu respondi, nada demais.

Joel soltou um riso baixo, nasalado, desdenhoso.

—— Você não faz ideia de onde está se metendo, garoto. Acha que é o primeiro que acredita que tem chance sobre ela? —— Massaro diz com um tom de voz divertido, mas há uma nota visível de aviso ali, algo que me faz dar uma pausa breve e encará-lo de soslaio, meus olhos se estreitam e apenas tomo um longo gole do Soju, sentindo o alívio e o álcool inebriar meus próprios pensamentos. —— Até Logan Doherty achou que tinha chance —— Franzi meu cenho com a menção do astro Hollywood conhecido por interpretar ícones de filmes de ação. —— Faz um favor para todo mundo, garoto, fica longe de , ok? Especialmente com o contrato que você tem. A última coisa que você quer, é que seu nome esteja envolvido com o de na mídia, quando ela te descartar como lixo. —— Tenciono minha mandíbula, esforçando-me para não fazer uma careta quando Joel Massaro refere-se ao meu contrato com Ju-Woo e a Pulse. Ainda assim, sua ameaça velada não parece de tudo apenas um aviso amigável. —— Ela é gostosa sim, mas tem modelos bem melhores por aqui, escolha uma, se divirta pela noite, e só. Ninguém contém , é por isso que ela é quem é, entendeu?

Solto um bufar baixo, meio risonho, sentindo a pequena pontada de amargura pairar por minha voz, mas a contenho. A noite foi interessante o suficiente, com álcool o suficiente para que eu realmente me com o que quer que Joel Massaro estava falando. Verdade seja dita, por aquela noite, a Pulse e aquele maldito contrato poderiam ir para o completo inferno, não me importava.

—— Fala como se fosse uma alegoria para Frankenstein —— digo com um sorriso difícil de esconder de meu rosto. Joel me lança um olhar difícil de compreender mas não é ameaçador, é apenas cauteloso. Sustento seu olhar em com interesse gritante. —— O monstro que você criou não pode mais ser contido nem mesmo por você? —— Provoco, mais para conseguir a informação do que de fato por algum interesse em perturbar Massaro. parecia o suficiente para tomar este posto na vida de Massaro, a última coisa que eu desejava, era atrair aquele tipo de atenção de Joel.

—— Se ela fosse um monstro, garoto, Hollywood já a teria esquecido —— Joel responde, com um olhar significativo. Forço um bufar baixo, desdenhoso, como se não tivesse levado a sério suas palavras, mas volto meu olhar na direção da sereia deslumbrante ao centro do palco. Quando as luzes do grande salão todas se apagam, posso sentir um arrepio de antecipação percorrer por meu corpo, o ar parece ficar um pouco mais eletrizado do que antes, o burburinho se dispersa para alguns gritos animados e algumas palmas que se espalham como uma onda em quebra a uma praia. Merda. —— Sua escolha, garoto, só não diz que eu não te avisei. —— Massaro diz com um sorriso torto, como se soubesse mais do que desejava compartilhar, mas seu desincentivo apenas aumenta mais minha curiosidade. O empresário dá umas batidinhas quase paternalistas em meu ombro, sorrindo como o diabo quando as luzes se acende outra vez, agora só as vermelhas e ouço gemer suavemente contra o microfone, seguido pela introdução da música Kiss do Prince.

Minha garganta fica seca no mesmo segundo, quero sorrir com descrença, mas estou mais irritado por ela não ter se acovardado do que intrigado por sua performance. Que desgraçada… ela sabia exatamente o que estava fazendo! E a pior parte? Eu queria mais, pelo menos, só por essa noite.

—— Relaxa, eu não tenho a mínima intenção de ficar perto de —— a mentira que escapa de minha boca nunca havia sido mais fácil de ser contada.

NÃO SEI DIZER O QUE É MELHOR: PROVAR QUE ELE ESTAVA ERRADO, OU ASSISTIR EM TEMPO REAL A BEIRA DE IMPLODIR.

Danny acompanha o ritmo marcado da música com mais intensidade do que deveria, uma vez que a intenção da performance era justamente projetar aquela sensação de estar sem fôlego e sussurrando, propositalmente projetado para criar uma atmosfera íntima, convidativa, não o que quer que Danny estivesse querendo transformar aquilo. Seja para externar apenas seu próprio desprazer por ter que estar ali aquela noite também, ou talvez —— muito provavelmente —— estivesse apenas exasperada por ter que estar no mesmo palco que eu, para variar. Ainda assim, posso sempre contar com Jex e V para manter o ritmo de Storm sob controle —— no máximo que isso significasse para ela. Aquilo estava saindo fora de controle, eu teria que eventualmente falar com ela, mas sinceramente, o problema era inteiramente de Danika por ter expectativas onde não havia absolutamente nada. Se estava sendo corroída por si mesma agora, era problema dela. Pouco me importo de fato, ela pode lidar com isso sozinha; meu foco está fixo em outra pessoa, para variar, e puta merda se eu não estou tendo o momento da minha vida vendo como ele se contorce discretamente parcialmente sentado no banco alto do balcão.

Faço questão de cantar diretamente para ele.

Sustento seu olhar, em desafio silencioso, provocando-o sem dizer uma palavra. Quero que ele acredite que cada palavra pronunciada da letra da música é dita para ele, quero que infiltrar-me em suas fantasias e acabar com aquela música para ele —— se essa era sua música preferida ou não, pouco importa, estou colocando um show completo para ter a certeza de que ele não conseguia mais ouvi-la sem pensar em mim, e pela expressão dele, consigo o que quero. Quero ver até onde seu autocontrole consegue chegar, quero ver quando ele vai quebrar. Foco, então, em modular minha voz para soar, como um ronronar áspero, tentando manter a música em um tom mais baixo e lento, sensual, diferente da original —— que ele sabia que era mais alta do que minha voz; foi deliberado a escolha, e se era assim, então faria com prazer ele se arrepender ——, a letra explícita, o convite velado por trás das palavras, soam mais intensas; como dos vários sussurros perdidos em meio a uma noite de prazer, e sei que ele está pensando a mesma coisa. Sabia que poderia deixá-lo arrepiado, se ele estivesse prestando atenção em mim, e da forma que ele me encara de onde está parcialmente sentado no balcão próximo ao bar, sei que ele está fixo em mim sem sequer piscar direito, não tenho dúvidas que estou tendo o efeito que desejo.

Mantenho minha atenção fixa nele. Sem importar-me se isso irá gerar alguma especulação externa —— sei que vai ——, se irá gerar burburinhos e blind itens na internet, se serei alvo de perguntas e debates em redes sociais que sequer entro, a única coisa que me interessa é atormentá-lo; quero o fazer se arrepender por cada segundo que ele havia gastado aquela noite. Se para provar um ponto para Joel Massaro, ou fazê-lo pagar por sua própria petulância, já não sou mais capaz de dizer, a única coisa que me importa, todavia, é vê-lo perder a cabeça. Bem devagar, assistir seu controle começar a escapar de suas mãos como nada se não apenas areia por entre seus dedos. É destruir aquela máscara de superioridade que ele exibe com tanta facilidade, observar as rachaduras que sou capaz de criar, e assistir de perto quando entrasse por baixo de sua pele —— porque eu iria. Mal consigo conter um sorriso, satisfeita, quando o observo se ajustar discretamente, trincando um pouco mais a mandíbula perfeita e proporcional, um pequeno músculo bem pronunciado em sua mandíbula acentuando-a ainda mais, revelando uma força demasiada que me entretém.

Retiro o microfone do apoio, liberando meu caminho ao chutar os fios para trás, tentando não revirar meus olhos com o fato de que a escolha havia sido deliberada, por Massaro. Não era porque o equipamento era ruim, era porque ele queria mandar uma mensagem: “eu mando, você obedece” , posso sentir seu aperto em minhas cordas tornar-se cada vez mais sufocante, está rasgando-me de dentro para fora e não há montante de dinheiro, ou glória, ou fama, ou muito menos drogas que consiga apagar a sensação de ter mãos coordenando meus movimentos. Uma perfeita marionete que teve seus cinco minutos de rebeldia mas que voltaria a fazer seu trabalho como lhe era comandando: animar a plateia, prepará-los para oferecer tudo o que tinham, seu dinheiro, sua devoção, tudo, aos pés de Massaro como uma oferenda voluntária a um deus egocêntrico e narcisista. Há um gosto amargo em minha boca, mas, bem, o que posso fazer? Usar o que tenho em mãos e fazer a merda do jeito que quero.

Uso a música sugestiva que ele havia escolhido para provocá-lo, ignorando o riso nasalado de V, familiar com meu próprio jogo. Tenho a atenção de fixa em mim, e tudo o que preciso é fazê-lo é desejar trocar de lugar com Jex ou V quando um deles me puxa em suas direções ou me toca. Posso sentir a energia da plateia aumentar. Crepita como fagulhas por minha pele, a atenção é sufocante, mas igualmente, se distorce com a adoração, a certeza de que não estou afetando apenas , mas qualquer filho da puta que está se esfregando em outro no momento, movidos pelo som de minha voz, pela carícias, pelos gemidos e notas mais longas sem fôlego. Não é difícil ter a atenção de um público voltado para si, faça apenas algo estranho, e terá olhares sobre você, mas há algo de sublime em conseguir dominar uma audiência, de os fazer desejar um local que jamais estarão, de sentir aquele transe crescente percorrer por sua pele, arrepiando-a, como pura estática. Ouço a risada nasalada, baixa de V ao pé de minha orelha, mantendo-me concentrada no tempo e na letra —— faço uma nota mental de acertá-lo na virilha mais tarde —— e ignoro o arrepio inconveniente que percorre aquele ponto sensível de meu corpo. Já conhece meu jogo, então não tem muita cerimônia de sua parte quando ele puxa-me em sua direção, seu braço serpenteando por meu tronco, até repousar em minha coxa —— um movimento que para os fãs, normalmente, os levavam a loucura, fazia-os a questionar qual era nossa relação, e criava uma expectativa do caralho; para nós era só o que era, um ato performático ——, os dedos ásperos dele ficando-se em minha pele, as unhas rasgando a fina camada da meia-calça que usava, criando linhas paralelas e desfiadas, expondo a pele por baixo, enquanto acompanho o movimento dos quadris de V atrás de mim, sem desviar os olhos de .

Observo-o perder seu fôlego, a bebida esquecida em sua mão esquerda. O movimento de seu pomo de adão torna-se visível, quase espasmódico, revelando sua dificuldade para engolir sua própria saliva, ou a bebida que outrora tomava. Os lábios estavam entreabertos, enquanto os olhos dele escureceram, uma sensação de triunfo percorre por meu corpo ao ver seu olhar acompanhar, não minhas expressões, mas o movimento da mão de V em meu corpo, fixo, vidrado, como se não desejasse perder um segundo do espetáculo, perdido demais em seus próprios pensamentos para que eu tenha certeza o que ele provavelmente está pensando. Seus olhos acompanham, em transe, a mão de V percorrer por meu corpo, deslizando por meu abdômen, e brincando com a linha inferior de meu sutiã, provocando a plateia com o acesso que ele poderia ter ali se quiser, antes de sentir a mão de V envolver, sugestivamente, meu pescoço, jogo minha cabeça para trás, em ritmo com o tempo da música, antes de empurrar V para trás, sorrindo, quando a música retorna para o refrão . Tenho-o onde o quero.

A música está quase no final, a plateia pulando, alguns cantando conosco, um pouco mais desafinados, mas não menos animados, quando tenho o prazer de ver, se levantar abruptamente de onde estava, saindo em disparada das escadas, empurrando pessoas cegamente para fora de seu caminho, provavelmente em busca de ar. Abro um sorriso largo que faz minhas bochechas doer, mas não consigo evitar. Volto meu olhar deliberadamente na direção de Joel Massaro, jogando o microfone por meus ombros, quando a música termina e a plateia explode em excitação e antecipação, palmas ecoam pelo espaço, pessoas, até mesmo algumas conhecidas pulam, animadas, ouço Jex murmurar que “agora a festa havia começado” com um sorriso idiota no rosto que espelha o meu, mas pouco me importo. Sustento o olhar de Joel, com um desafio silencioso. Posso ver em seu rosto decrépito e envelhecido pelo tempo o incômodo, há sim, uma ponta de satisfação ali, há aquele olhar de superioridade que fazia minhas entranhas se contorcer e tudo em minha querer gritar até que minhas cordas vocais estivessem permanentemente machucadas, mas há também, raiva. Pura e imprevisível raiva.

Seu novo brinquedinho vinha com uma surpresa. Era estupidez de Joel achar que eu não iria tentar descobrir mais sobre a pessoa que ele estava usando para me ameaçar. Como uma boa parte de grupos do mesmo gênero dos BEATBOIZ, ou seja lá qual o nome deles fossem —— não dá para chamar todo mundo de BTS sem ser uma completa cuzona ——, era comum que seus empresários gostassem de ganhar em cima de fãs desesperadas; relacionamentos parassociais eram doentes, até mesmo perigosos —— se você quiser começar a considerar stalkers ——, mas rendiam muito dinheiro sobre. Uma pessoa disposta a vender sua casa inteira apenas por cinco minutos de atenção de seu ídolo? Não é qualquer um que está disposto a fazê-lo, mas a necessidade primordial a se manter é: a fantasia de que existe chance de uma fã, qualquer, conquistar os astros que eles estão vendendo. É por isso que, teoricamente, nos contratos que Joel Massaro recebeu da companhia que havia criado o grupo, enfatizava a cláusula de que eles não eram liberados para “relacionar-se” publicamente ou criar-se boatos de que estavam envolvidos com alguém, seja homem ou mulher, por pelo menos quatro anos, tempo este que seria necessário para se estabelecerem mais firmemente na indústria mundial —— não apenas a coreana. Ou caia na minha conversa, ou tornava-se impossível para ele ficar no mesmo espaço que eu, e considerando que eu estava sempre na Altas Records, bem, touché, Massaro.

Dois poderiam jogar aquela porra de jogo —— e eu só entrava quando sabia que ganharia, ele deveria saber disso a essa altura.

•••

Suor cobre meu corpo como uma segunda pele, grudando fios de cabelos em meu pescoço, têmporas, obrigando-me a roubar a primeira coisa que encontro —— um canudo de metal do bar, fedendo a cereja e licor —— e usá-lo para prender meus cabelos no alto. Alguns fios ainda pendem pelo meu rosto, mas a sensação de ar gélido noturno, ainda que breve, é um alívio para minha pele em chamas. A água ajuda a diminuir o incômodo na garganta, mas ainda há um gosto metálico em minha boca, e minha voz ainda parece mais rouca do que antes. Meu ouvido esquerdo está parcialmente zunindo, e sei que irei tomar alguma bronca de Jeff amanhã, quando aquela dor se tornar mais forte e ele me relembrar porque usar proteção auditiva era necessária. Algum DJ havia subido no palco, enquanto tudo se desfaz aos poucos em borrões e cores distorcidas. Vejo todos os rostos que empurro para fora do meu caminho, e pior, vejo mais, do que só os rostos. Vejo o passado. Praguejei baixo, irritadiça, conte sempre com Danny para lhe dar algo estragado e de procedência duvidosa. Merda, talvez a LSD apenas tenha batido do jeito errado dessa vez.

Localizada mais afastada do centro de Hollywood Hills, o clube privado The Lótus, que curiosamente havia recebido o apelido popular de Boca do Inferno —— adivinha o porquê ——, ficava afastado, perdido em meio a um pequeno deserto e algumas colinas mais próximas das montanhas. Era propositalmente projetado para dar a privacidade às pessoas que o frequentavam, um espaço que permitia que essas figuras públicas, de grande poder, pudessem permitir-se aproveitar em seus próprios desejos e fetiches. A estrutura era discreta, composta por metal, madeira e vidro, não havia, todavia, transparência ali se não fosse em espaços internos. As festas ali eram comuns por poder oferecer a privacidade necessária para manter os assuntos que aconteciam ali, enterrados ali. A maioria dos convidados precisavam assinar Acordo de Não Divulgação, antes de entrar ali, quem já era da casa ganhava um espaço para si em algum dos andares. Era um espaço gigante, uma mistura entre boate, strip club e clube de swing. A calefação sempre estava ligada mais alto do que deveria, e havia sempre o desejo de aproveitar com o que quer que estivesse a disposição para não lembrar da porra da noite. Acordar ao lado de um desconhecido não era o problema, o problema era as conversas, em lugares privados, os avisos, os olhares. Céus, posso sentir o desconforto se espalhar por meu peito como veneno.

O arrepio que se espalha por meu corpo é conduzido pela adrenalina. Tenciono minha mandíbula, levando por instinto minha mão em direção ao meu pescoço; não é só a performance que havia cansado minha garganta, era a maldita sensação de estar sendo prensada por duas paredes contrárias até ser esmagada, é a sensação de que não importa a onde esteja, olhos, arregalados e vidrados estariam fixos em mim. Posso fechar os olhos, posso fingir que não estou ali, posso fingir que nada disso está acontecendo, mas estaria apenas mentindo para mim. Finco as unhas stilettos em meu pescoço, arranhando-o como se isso pudesse me oferecer algum conforto, mas tudo o que deixa é a maldita linha paralela de vergões avermelhados sob minha pele.

Empurro quase cegamente as portas que se formam em meu caminho. A Boca do Inferno era gigante. Havia espaços específicos para tudo, mas não havia camarins, ironicamente às strippers que possuíam contrato com a casa havia improvisado uma coxia precária próxima do banheiro feminino. Poderia ter seguido para lá com Virgil e Danika, mas a verdade é que conheço Virgil, ele está contando os minutos para sair dali e ir encontrar-se com um de seus amantes aquela noite —— não para transar ou qualquer outra baixaria que aproveitamos, Virgil provavelmente queria apenas encontrar Johnny, ter um jantar calmo e tranquilo e o que quer que um romântico como ele poderia fazer sem atrair a atenção da mídia para si. Tínhamos um acordo muito seguro de nunca mencionar a sexualidade de Virgil, mesmo que ele fosse corajoso e decidido o suficiente para enfrentar o que quer que lhe fosse jogado, o público que nos cercava, por vezes, não seriam assim tão receptivos com a revelação.

Alguns fãs mais sensíveis percebiam, alguns idiotas já faziam piadas o suficiente para que ele temesse por sua vida. Se era na obscuridade que lhe proporcionava segurança e o direito de viver como desejava? Poderia culpá-lo? Ao menos ele não mentia para si mesmo. Questiono-me até quando ele conseguirá fazer tal coisa, até quando conseguirá viver naquela escuridão sem poder se libertar das correntes que o prendia e o sufocava. Sei que eu não consigo por muito tempo, mas então, novamente, não foi uma escolha minha. Era dele. Tudo o que eu poderia fazer era apoiá-lo com o que desejasse fazer, da forma que desejasse fazer e estar pronta para roubar os holofotes quando ele finalmente estivesse pronto para atacá-lo.

Virgil, todavia, era um completo filho da puta maldito, porque sabia que a última pessoa que desejava conversar naquele momento era Danika, e isso significava que sem sombra de dúvidas, ele me deixaria sozinha com ela. Tenho vontade de revirar os olhos, mas apenas faço uma careta de novo ao deparar-me com Jex, já esparramado em um divã, com uma groupie a tiracolo. Quem era aquela garota mesmo? Era Genny? Alisson? Alice? Porra, não, Alice era a bonitinha de bob cut e cheiro de cigarro impregnado em sua pele. Quem era aquela? Reviro os olhos, tentar descobrir com quem Jex se envolvia dessa vez era apenas perda de tempo, e não é como se a garota quisesse muito mais do que a memória sexual de ter dormido com um rockstar. Bem anos 70, mas pelo menos ela poderia validar-se com o pensamento de “cara, Jex Spade me comeu uma vez!” como se isso fosse significar alguma coisa. Talvez significasse, mas sinceramente, com os olhos vermelhos e o cheiro pungente de maconha vindo dele, eu duvido muito que Jex se lembre disso amanhã. Quase quero a sensação que ele tem, mas a ideia de ficar completamente fora de mim é mais assustadora do que o prospecto de me drogar. Usar algo para tentar diminuir minha ansiedade ou me auxiliar a desassociar por algumas horas? Tudo bem, eu poderia fazer isso, mas a ideia de estar completamente vulnerável naquela porra de lugar? Em qualquer lugar? Era assustadora demais para sequer considerar o fazer.

Não de novo. Nunca mais.

Tenciono minha mandíbula atravessando o espaço elegante reservado para nós. A Boca do Inferno sempre oferecia espaços privados para seus clientes mais “tímidos” ou que apenas presavam pela discrição. Era suficientemente espaçoso para lembrar um quarto de hotel cinco estrelas, mas com objetos sexuais o suficiente para que não fosse um. Eram sempre limpos, com pisos de mármore escuro, impecável e lustrados ao ponto de conseguir ver meu próprio reflexo contra o material. O estalo de minhas botas ecoam em unensíssimo com as risadinhas irritantes da groupie de Jex, e o que quer que ele diz a ela. Uma janela panorâmica dava uma visão precisa do centro de Los Angeles a distância, as luzes cintilando como pequenas estrelas vinda dos prédios e estabelecimentos do centro das cidade dos anjos. Faço uma careta quando observo a marca de um corpo curvilíneo contra o vidro. Lanço um olhar, entre a profunda exasperação e o crescente horror com a imagem mental que tenho, para Jex, e vejo-o apenas piscar em minha direção, como se compartilhássemos um segredo —— um bem nojento. Reviro meus olhos, parando na cabine com os licores de Joel, e alço o primeiro, servindo-me um pouco. As luzes amareladas contra o espaço, contrastam com as estruturas de mármore e espelhos, e metal. Um pouco mais a frente do divã em que Jex está, há um sofá largo e macio, que pode servir como cama, em frente a pole dance e um espelho que cobre a parede inteira. A um banheiro a minha direita, mais aos fundos, e um pouco mais a nordeste há uma cama kingsize confortável com cobertas limpas, intocadas. Alguns quartos possuíam piscinas, outros possuíam balanços ou o que quer que seu fetiche necessitava. Havia uma mesa com bebidas e comidas afrodisíacas, e algumas gavetas com brinquedos sexuais.

Para um hedonista, o paraíso. V riu alto quando disse que minha meta era convencer algum líder religioso a participar daquela porcaria de lugar; acontece que já participava, só ficava do outro lado do prédio, onde havia os “Glory holes” . Cada um com seus fetiches, para ser sincera, não era da minha personalidade criticar alguém assim. Levo o copo de cristal em direção aos meus lábios, quase desesperada pela sensação de amortecimento que o álcool oferece. Arrependo-me imediatamente.

—— Tá parecendo que vai vomitar, —— ouço a voz arrastada e carregada com aquele sotaque irritante, britânico polido, enquanto a groupie deitada sobre ele, mordiscando seu mamilo solta uma risadinha abafada. Lanço um olhar cético na direção de Jex. Fantasio acertá-lo com um tijolo, e estranhamente, a imagem mental me acalma mais do que deveria. Não seria divertido o fazer? Certamente, a coragem eu tinha, ao em vez disso, apenas forço um sorriso sarcástico para ele.

—— Você tem esse efeito em mim. —— Devo ter dito algo hilário porque Jex se desfaz em gargalhadas altas, gostosas. Quase me faz rir, quase. Paro à frente da mesa de mogno com a variedade composta de bebidas que Joel gostava de manter em estoque para impressionar algum convidado, alçando um copo de cristal —— Vai passar a noite aqui?

—— Talvez, a Lily aqui me pediu por uma demonstração dos meus talentos, e você sabe que detesto recusar pedidos —— Jex lança-me uma piscadela travessa, e eu o encaro, sem preocupar-me de fingir o falso interesse pelo tópico com ele. Sei o que ele está fazendo, é por isso que entre os quatro, e todos os outros que já haviam passado por aquela banda, é justamente Jex com que me dou melhor. Talvez, sejamos apenas muito parecidos: ambos não temos um pingo de caráter, nossa moralidade é, para dizer o mínimo, questionável e temos a tendência de apenas aceitar a situação como é. Não há subterfúgios, nem expectativas, isso às vezes se torna até divertido, mas não deixa de ser um golpe em meu ego. De todas as pessoas do mundo a com que me dou melhor, é a porra de um lixo radioativo. Que fantástico; igual reconhece igual. —— Se quiser, pode participar também.

Encaro-o, estupefata, já ele, o faz com um sorriso animado.

—— Prefiro morrer.

—— Eu duvido muito disso —— Jex rebate, colocando-se sentado e ignorando o muxoxo que Lily havia soltado. Observo a groupie se deitar languidamente contra o divã, atrás de Jex, e me encarar com um par de olhos com maquiagem borrada em um sorrisinho que estava parecendo tentar decidir se eu era alguma ameaça a sua “conquista” ou se tornara-me parte de sua noite de depravação e baixaria. Fico mais ofendida com o prospecto de Lily assumir que Jex era algum tipo de conquista do que qualquer outra coisa. Quem entrava no lixo e pegava papel higiênico usado como se fosse a porra de ouro? Mas então, eu o conhecia, Lily, não. Faço uma careta, levando o copo em direção aos meus lábios, e bebendo de uma vez o licor. Que merda, tinha que ser de cereja. Tenho vontade de cuspir aquela merda, mas obrigo-me a engolir. —— Além disso, é uma boa maneira de passar o tempo, sabe? Se está fugindo de Danny, no mínimo poderia estar se divertindo. Te dizer, se chamar o galãzinho estrangeiro lá tenho certeza que a gente consegue fazer um acordo interessante, hm?

Lanço um olhar em forma de aviso para Jex, e isso apenas o faz sorrir mais como a porra de um gato. Ah, que merda, é como olhar para a porra de um espelho… se eu tivesse um pau, fosse loiro, britânico, fedesse a maconha e plástico queimado, e minha pele tivesse a resistência de um camarão em pleno sol.

—— Não estou fugindo de ninguém, e você… —— aponto o indicador na direção de Jex, imperiosa. Se ele estivesse perto de mim, tenho certeza que teria mordido a porra do meu dedo, como está sentado no divã, ele apenas alarga seu sorriso, revelando o piercing em sua língua, brincando com objeto metálico, empurrando-o com os dentes para frente e para trás, fazendo a parte inferior do piercing, baixo de sua língua se movesse irritante. Considero o peso do copo em minhas mãos, e quanto tempo levaria para estraçalhar na cabeça dele. —— Já tem distração o suficiente para a noite. Foca primeiro no que você tem em mãos antes de achar que consegue engolir mais do que pode.

Jex não responde de imediato, mas seu olhar está preso ao meu rosto. Detesto que ele me encara por tanto tempo, detesto a possibilidade de que aquele maldito homem possa ter visto algo que eu ainda não percebi, ou não consegui ocultar a tempo o suficiente. Exalo por entre meus dentes cerrados, fechando os olhos e massageando minhas têmporas, praguejando baixo; meus sentidos estão erráticos, graças ao efeito letárgico que a maldita bala de Danika havia causado. Tenho a sensação de estar sendo observada mesmo dentro daquela sala, e por algum motivo, mesmo que esteja apenas com a meia-calça e sutiã, ainda parece que meu corpo está em chamas. Talvez estivesse começando a ficar febril, talvez fosse começar a gripar em breve, levando que minha garganta parece mais sensível, ou pode ser apenas uma das reações que o lugar entupido de afrodisíacos e algo que ainda não faço ideia do que seja fundido com a máquina de fumaça deixava. Eu odiava aquele lugar, mas tampouco poderia escapar dele.

—— Você tá bem, …? —— Arremesso o copo na direção dele antes que ele pronuncie a porra do nome. O grito assustado de Lily, desabando para trás quando o copo se conecta com a parede a alguns metros de distância de onde os dois estavam, desfazendo-se em pequenos fragmentos de vidro, acompanhado do barulho alto do impacto. Lily grita alguma coisa, está me xingando, talvez sobressaltada demais com a reação agressiva de minha parte do que qualquer outra coisa. Jex permanece imperturbável, ainda me encarando. —— Você tá bem, ?

Abro minha boca para respondê-lo, mas percebo naquele momento que não estou com a menor disposição de conversar, e muito menos com Jex. De todos da banda, conversar com Jex era como entregar a porra da faca que seria fincada em suas costas —— exceto por mim, eu costumava a fazer pior que ele.

—— Cai fora, Jex —— solto um pigarro, tentando clarear minha voz, mas porra se não sai falhada, rouca demais. Ah, que merda, era só o que me faltava. —— Por favor, Jex… —— obrigo-me a pedir, e por um segundo, vejo-o franzir o cenho, parecendo surpreso. Sei que está surpreso com o pedido e não o comando; porra mas que idiota de merda! Está surpreso porque pedir por favor, e não porque estou tentando chutá-lo para fora dali. Mas então o segundo passa e os olhos dele voltam aquele desdenho característico, quase divertido por me ouvir pedir por algo; nunca fazia isso. Tenciono minha mandíbula, sustentando o olhar dele.

Jex não se move, apenas me encarando agora com um sorriso idiota no rosto. Merda. Sou poupada de respondê-lo, ou ouvir sua resposta, porque uma Danika furiosa se projeta para frente ao abrir a porta abruptamente —— como se em sua fantasia estivesse prestes a flagrar algo. Já estava vestida com suas roupas comuns, o couro abandonado por uma calça baggy jeans, de lavagem clara e cintura baixa, revelando os ossos dos quadris acentuados e a barriga chapada, o cropped preto era duas vezes maior que ela, e ficava caindo por seu ombro direito. Os cabelos, agora, estavam soltos, as mechas pretas azuladas e rosa pink se misturando enquanto a maquiagem borrada revelava o quão sóbria ela deveria estar —— não muito, mas então, nenhum de nós estava realmente sóbrio.

Leva alguns segundos para que ela registre a situação em mãos. Lily semi nua atrás de Jex com uma expressão irritada que apenas azeda ainda mais com sua presença. O sorriso largo de Jex esparramado no divã como a porra de um deus preguiçoso, e eu, parada do outro lado da sala, com as mãos na cintura, considerando se deveria me jogar da janela ou da porra da primeira sacada que encontrasse em meu caminho. Danny congela no lugar, engolindo em seco, e lançando um olhar confuso, quase decepcionado ao observar o que diabos estava acontecendo ali, antes de fuzilar-me com o olhar. Tenho vontade de rir, porque aquilo era puro absurdo, mas engoli o riso, e o gosto havia sido amargo o suficiente para fazer com que minhas entranhas se revirar.

—— Oh, não, me pegou, Danny, em flagrante, e agora? —— provoco antes que possa conter-me, fazendo um beicinho decepcionado, sarcasmo escorre por meus lábios como veneno, e não sinto nada se não raiva quando ela encara-me ofendida, como se tivesse acabado de tocar em uma ferida. Aperto meus lábios, assentindo, mais para eu mesma do que qualquer outra pessoa, e então me despeço de Lily, a groupie com um aceno de cabeça. Aquela ali iria ter algumas histórias bem interessantes para compartilhar na internet, se Jex quisesse expor seu caráter real para a mídia, algo que eu duvidava muito, mas para todo acordo sempre havia uma brecha. Se Danny fazia questão de ficar ali, então, eu me retiraria. Maldito seja Virgil e sua vida perfeita e equilibrada, maldito seja Jex e Lily, a groupie da noite, maldito seja Joel Massaro e a porra de seus esquemas, mas acima de tudo, maldita seja Danika por não conseguir simplesmente aceitar a realidade como era. Preciso sair daqui antes que enlouqueça.

Tento forçar meu caminho para fora do quarto privado, inspirando fundo, mas minha respiração está escapando mais rápido do que consigo controlar. Tenho a sensação de estar submersa, de ouvir a pulsação do meu sangue, martelar por meus ouvidos. Não é mais só o zunido em meu ouvido esquerdo, é o composto de tudo. Segue o ritmo do meu coração, que assola, como um pássaro selvagem recentemente capturado, contra minha caixa torácica; faz-me considerar se irei vomitar, quando o fizer, vomitarei o órgão inteiro? Passo por Danny, puxando meu braço do aperto de sua mão, e de como suas unhas fincam-se em minha pele; resulta em um arranhado bem mais fundo do que gostaria, antes de conseguir soltar meu braço.

De volta para o corredor iluminado apenas pelas luzes em neon vermelho, por um segundo, sinto tudo girar ao meu redor. Aquela maldita fumaça que se espalhava pelo espaço apenas para ser efeito dramático —— se antes era uma suposição, agora tenho quase certeza que há alguma droga nessa merda. Tento livrar-me da sensação, focando em meus passos enquanto caminho mais para dentro do corredor, ouvindo Danika chiar atrás de mim. Procuro por algum quarto disponível, aberto, qualquer um, mesmo que não seja no meu nome, seria meu essa noite. Qualquer lugar que estivesse aberto.

—— Não! Você não vai! —— Grita Danny atrás de mim, apertando o passo e tentando segurar meus ombros. Consigo empurrar a primeira porta aberta que encontro, adentrando sem muita cerimônia no espaço, e giro o mais rápido que consigo para fechá-la, mas Danny já havia projetado parte de seu corpo para dentro e bloqueia a porta. Tento forçar, obrigá-la a sair daquele entremeio, mas Danny apenas chutou minha canela, e eu cambaleei para trás. Acabo caindo sentada contra o estofado macio próximo da entrada do quarto privado. Fuzilo o rosto de Danny com frustração, mas não digo nada. —— Não se atreva a tentar sair daqui —— ela rosna, e eu tenho vontade de gritar com ela, apenas chegar perto de seu rosto e gritar até que minha voz desaparecesse, ao em vez disso, ergo minhas duas mãos para o alto, em um gesto de redenção. No máximo que essa palavra poderia ser aplicada a mim.

Danny fecha a porta atrás de si, com um clique suave, e por um segundo parece estar tentando decidir o que diabos queria fazer. Vejo-a hesitar e isso apenas me irrita. Todo esse show, essa perseguição para ela hesitar agora? Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inspirando fundo, e trincando meus dentes com força, sem desviar meus olhos de Danika, esperando pelo sermão, pelas acusações e dedos apontados para meu rosto, para variar.

—— Que porra foi aquela, ? —— a voz de Danny escapa mais baixa que o normal, estranha para os meus próprios ouvidos, quase… trêmula, mas isso era impossível, porque Danika não era o tipo de pessoa que se magoa facilmente. Tenciono a minha mandíbula um pouco mais, unindo minhas sobrancelhas e então focando na porra das minhas unhas. O sotaque esquisito, aquela mistura entre sotaque do brooklyn e agora aquele característico alongar de Valley Girl normalmente pede para que se faça piada, mas agora soa estranho, quase afiado como faca. Ótimo, tudo o que eu precisava.

Arranco uma pele no canto de minhas unhas, dando de ombros, indiferente.

—— Uma apresentação, o que mais seria? —— Tento dizer o mais indiferente que consigo, mas soa como se eu tivesse cuspido as palavras. Arranco mais uma pele ao redor da minha unha, fazendo uma careta quando a dor aguda atinge-me, mas ignoro totalmente, ao voltar minha atenção para Storm. Merda, quando pensava que cedo ou mais tarde teria que me resolver com ela, a minha decisão sempre era mais tarde, nunca mais cedo. Especialmente, não agora. Não hoje. Tenciono minha mandíbula um pouco mais, a pressão é o suficiente para fazer com que minhas têmporas fiquem doloridas, ainda assim, não digo nada, desvio meu olhar para o chão, observando os coturnos dela se aproximarem. O desenho idiota de tubarão feito à mão nas pontas dos sapatos com spikes de caneta permanente, me faz revirar os olhos. Quero odiar aquilo, mas bem, é puramente ela, no fim das contas, e por mais que tente, não consigo odiá-la ainda, não que ela não esteja conseguindo me dar motivos o suficiente.

—— Ah, certo, todo mundo sabe que foi só a porra de uma apresentação —— Danny cospe de volta e ergo a linha de meu olhar para a encarar com descrença. Sério? É sério isso? Estreito meus olhos, silenciosamente tentando desafiá-la a dizer o que realmente queria, a expor as garras de uma vez, quando minha paciência já havia sido extinguida. A adrenalina não baixa em minha corrente sanguínea, e isso apenas piora tudo. Estou cada vez no meu limite e não faço ideia do que vai acontecer: se eu irei quebrar, ou se irei explodir. Danny não desvia o olhar, as sobrancelhas grossas unidas, os cantos dos lábios repuxados para baixo, fuzilando-me com o olhar. Então, ela vê algo em meu rosto, e joga os braços para o alto, chutando a parede com a ponta de seu coturno, antes de enterrar suas mãos em seu rosto. —— Porra, você é uma puta do caralho, .

Atinge-me em cheio —— exatamente como ela queria. Levanto-me antes que possa me controlar, sem conseguir conter uma risada amarga. Lanço um olhar depreciativo e desdenhoso na direção dela.

—— Uau —— é só o que consigo dizer. Danny trinca a mandíbula, encarando-me com olhos verdes, brilhantes e furiosos, mas ela ao menos tem a decência de perceber o peso de suas palavras, especialmente sendo quem era. Se ela as compreende, todavia, não sou capaz de dizer. São olhos bonitos, é claro, mas percebo, pela primeira vez desde que a conheço que não estou os admirando, apenas parecem distantes, desconhecidos. —— Terminou o discurso? Já estou liberada do sermão?

—— Porra qual é a merda do seu problema ?! —— Explode Danny. Algo perigoso corrói meus pensamentos. Prendi minha respiração, instintivamente, voltando-me na direção da outra mulher, dando um passo na direção dela e agarrando seu rosto, minhas unhas fincam em seu rosto, mas ela não está assustada, está apenas com mais raiva. Ela me empurrou para trás, e acerta meu rosto com um tapa alto o suficiente para ecoar pelo quarto vazio.

Dor explode por trás dos meus olhos, a lateral do meu rosto esquenta com o contato, e sinto o pequeno incomodo no interior de minha bochecha; que porra meus dentes devem ter batido contra a pele a cortado, porque posso sentir a ardência familiar e o gosto salgado, ferroso do sangue escorrer por minha língua. Cuspo no chão, fazendo uma careta, antes de me endireitar e voltar na direção de Danny. Não estou com raiva dela ter me empurrado, ela estava no direito dela, eu não deveria ter avançado ou cedido a tamanha reação visceral, mas estou com raiva dela ter usado meu nome. A única coisa que tenho que repetir para que não façam, e a única coisa que continua a acontecer. Aponto o indicador na direção dela, aproximando-me até que estivesse perto o suficiente para sentir o cheiro de seu suor e perfume misturados. Não desvio meu olhar, encarando-a agora, realmente irritada.

—— Não me chame assim, entendeu?

Danny move a mandíbula, engolindo em seco, e por um segundo tenho as esperanças de que ela tenha compreendido meu aviso velado, mas é claro, essas esperanças morrem rapidamente quando ela bufa, desdenhosa.

—— Agora eu tenho sua atenção, ? —— Danny cospe em meu rosto, e fecho meus olhos, instintivamente. Não mexe um músculo para limpar a merda do cuspe dela do meu rosto, mesmo que seja nojenta a sensação de tê-lo escorrendo por meu rosto. Obrigo-me a ficar parada. Conheço-a a tempo o suficiente para saber quais eram suas táticas para tirar uma reação de mim, e puta merda, eu a odeio por isso. Sei que vou me arrepender amanhã, mas agora? Não poderia me importar menos. —— Ah, que merda! Porra! —— Dou um passo para trás quando o rosto dela se contorce em uma careta, e vejo as lágrimas se projetarem nos cantos de seus olhos. Ainda estou com meu sangue quente, mas a última coisa que eu queria era que ela chorasse. Sei como lidar com algum desgraçado gritando em meu rosto, eu não sei como consolar alguém. Em nossa casa, sempre havia sido Niamh a responsável por consolar e oferecer palavras gentis; eu sempre fui, e sempre serei, só o problema. A causa do choro. —— Por que você tem que ser assim? Por que tem que me tratar assim? Por que tem que fazer isso com a gente

—— A gente? —— Ecoei desacreditada.

É por muito pouco que não começo a rir. Lanço um olhar ao meu redor, quase esperando a pegadinha em ação, mas estamos sozinhas ali, ou é o que acredito quando minhas reações e sentidos estão amortecidos, distorcidos pela maldita bala dela que havia usado naquela noite. De todas as ideias que eu poderia ter tido, aquela havia sido a mais idiota.

—— Porra, Danika, não pode estar falando sério, né? —— A encaro desacreditada, e fico ainda mais estupefata quando vejo o rosto dela se tornar mais magoado do que irritado. Vejo-a apertar os lábios, os ombros se encolhendo um pouco, quase imperceptível, mas não escapa de meu olhar. —— Sério mesmo? Você realmente quis dizer isso? A gente? —— Imito, por despeito, a voz dela, vendo-a se encolher quando digo “a gente” , trincando os dentes com força.

—— , eu não…

—— Para de me chamar assim! —— As palavras escapam antes que eu possa me controlar. Danny pisca, prendendo a respiração, com força, os olhos fixos nos meus, sem desviar os olhos do meu rosto. —— Não tem a gente, Danika. Nem agora, nem nunca. Caralho, quantas vezes vou ter que dizer isso? —— Merda a culpa vai me matar amanhã de manhã, mas agora? Agora eu não poderia me importar menos. Solto um riso baixo, descrente, mas soa afiado demais, cortante demais. —— A gente não tem um relacionamento, Danika! Nem amigas a gente é! Só trabalhamos juntas porque alguém tinha que assumir a porra do lugar que ficou vago! A gente transou algumas vezes, e daí? Não é como se você também cobrasse Holly ou qualquer outra idiota com quem você já se envolveu, e nem por isso te chamo de puta!

Danny estala os lábios, parecendo no limite das lágrimas ou de uma explosão, mas ela força um sorriso afiado, que parece quase com uma careta e não um sorriso.

—— Ah, é verdade, eu esqueci, ‘cê tá falando do Nolan, não é? —— Ela cospe as palavras dessa vez com uma raiva visceral, e não percebo que dou um passo para trás, instintiva, até que acerto o canto da mesa atrás dos sofás. Prendo minha respiração, tentando obrigar-me a manter minha expressão neutra. Não importa que ela havia conseguido atingir-me exatamente onde doía, o que me importa é não dar a ela a satisfação. Seja lá o que faço, devo ter falhado miseravelmente, porque a risada que se segue, faz meu estômago revirar, e tenho vontade apenas de tampar meus ouvidos. —— O que? Não era para eu ter descoberto isso? Você sabe, enquanto você tá se divertindo por aí com o primeiro filho da puta que aparece como a cadela fácil que é, eu tive bons momentos de conexão com a Holly, sua assistente, sabe? —— Danny abre um sorriso irônico e sinto algo se romper ao fundo da minha mente, não sou capaz de dizer, mas vejo vermelho. A raiva que se apossa de meu peito é visceral, e por um segundo quero apenas jogar-me contra ela e arranhar seu rosto até que não passe de fatias ensanguentadas, mas o nome que ela conjura me congela. Joga-me em espiral antes que perceba onde estou caindo. Não a respondo, porque não consigo, não porque não quero. —— Ela me contou algumas coisas bem interessantes sobre você, , realmente interessantes.

Que Holly faria alguma merda, isso eu já esperava, mas que Danny usaria isso contra mim, , era outros quinhentos. Ainda assim, obrigo-me a manter minha expressão gélida, no máximo que consigo. Minha mandíbula aperta, o suficiente para que uma dor de cabeça nas minhas têmporas comece a se instalar.

—— É mesmo? —— digo com um tom de voz baixo, surpreendentemente mais calmo do que eu esperaria que estivesse. Isso quase faz Danny hesitar, mas não é o suficiente. —— Se casem, então. —— Forço um sorriso falso de animação, antes de deixar meu rosto retornar aquela máscara de raiva controlada. Danny parece mais ofendida com meu comentário, congratulando-a pelo relacionamento do que pelo meu tom, e eu a encaro descrente. Que merda ela estava tentando provar ali?

—— Me responde, , você fez isso com o Nolan também, ou com ele foi diferente? —— Danny dá um passo em minha direção, mas dessa vez, eu não me movi. Agarro seu pulso antes que ela possa pensar em me acertar de novo, minhas unhas pressionadas contra o interior de seu pulso. Ela até tenta puxar o braço de volta, mas não consegue, ou simplesmente desiste. —— Você também usou ele e quando cansou o chutou? Esse é seu modus operandi não é? Puta merda, todo mundo sempre diz que você tem problemas, mas eu não sabia o quanto era! Tem algo que seja especial para você, , ou tudo é só uma ferramenta temporária?!

—— Oh, então isso que você quer saber? Se você é especial, Danny? —— O riso que escapa de meus lábios é amargo, e Danny percebe isso. Não fica muito feliz com minha reação, percebo, ou talvez é só a percepção da mentira que ela havia contado para si mesma sobre mim se partindo. Não posso dizer que me sinto culpada por isso. —— Não é. Nunca foi. —— Encaro-a com desdém, talvez mais do que realmente sinta de fato. —— Que porra fez você achar que eu poderia amar alguém como você, Danny? —— Não consigo terminar a frase antes de levar outro tapa de Danika, merecido e dolorido. Cambaleio um pouco para trás, perdendo o equilíbrio, percebendo tardiamente que ela havia conseguido acertar meu ouvido esquerdo no gesto, e por um segundo tudo o que consigo fazer encolher-me, segurando minha cabeça com a desorientação inesperada.

Tá, eu totalmente mereci o tapa, mas a dor ainda não diminui o peso das acusações, e tampouco minha consciência —— se é que ainda à tenho. Inspiro fundo, com a sensação estranha de que algo em meu nariz não estava certo, com a vaga impressão de que posso sentir o cheiro pungente de ferrugem e ferro em minha narina esquerda, imaginando se estava sangrando, apenas para limpá-lo com as costas de minha mão e descobrir que não havia nada ali. Deixo-me cair novamente no estofado macio que há na entrada do quarto, balançando minha cabeça, tentando livrar-me do pulsar enlouquecedor em meu ouvido esquerdo. Posso ouvir um fungar baixinho de Danny, mas estou com raiva dela demais para me dar ao trabalho de pedir desculpas. Não porque eu não devesse, mas porque minhas palavras, no fim das contas, são verdadeiras.

Chame-me do que for, mas eu nunca fui uma mentirosa.

—— Se falar outra vez sobre… —— Odeio que não consigo pronunciar o nome dele, odeio como as emoções me sufocam, e como toda aquela merda de situação me coloca naquela posição exposta a inquisições. Inspiro fundo, passando as mãos por meus cabelos, coçando com mais força meu couro cabelo do que deveria, antes de tencionar minha mandíbula, ainda sem encará-la. Não consigo. —— Se falar mais uma vez sobre esse assunto, eu acabo com você, entendeu, Danika? Não estou dizendo isso apenas por dizer, eu vou acabar contigo, carreira, reputação, o que restar —— ameaço, ignorando como minha voz soa falha, ou como Danny se encolhe, ignorando o nó que se forma em minha garganta, e como estou presa naquele precipício entre o desejo de avançar no pescoço de Danny, e apenas trancar-me no banheiro do quarto. Se rastejar para de baixo de uma das camas, ainda serei percebida?

Danny não responde a princípio, fungando, não a encaro, foco em minhas unhas outra vez, arrancando as peles que se formam ao redor da tinta vermelha escura com mais força do que deveria. A sensação de dor aguda que se espalha pelas pontas dos meus dedos é um consolo amargo.

—— Como você fez com o Nolan? —— Danny provoca, e a fuzilo com o olhar.

—— Exatamente —— meu tom é amargo, mas direto, e pela primeira vez em toda minha vida, ela finalmente escuta. Prendo minha respiração, vendo-a soltar aquele riso quebrado, realmente magoada. Não vou conseguir consertar isso, tenho plena consciência, mas isso é o que faço. É a única coisa que sou boa em fazer; eu quebro as pessoas, as faço sentir-se insignificantes, doentes. Vejo os olhos dela marejaram com lágrimas que será orgulhosa demais para deixar cair em minha frente, mas não diminui o peso de minhas próprias ações. Sinto meu queixo se contrair, e obrigo-me a inspirar fundo algumas vezes, tentando controlar as minhas emoções.

Sinto o gosto pungente e amargo do desprezo, mas não é voltado para Danny.

—— Então, o rapper coreano, do grupo… —— Danny parece se esforçar a falar e eu tenho vontade de apenas tapar meus ouvidos, tentar emudecê-la pelo resto da noite, ou pedir para alguém me nocautear. Não faço ou digo nada, deixo que ela tome seu tempo, e formule as frases da forma que se sentir mais confortável, escondendo a voz de choro. Ela funga, soltando um riso baixo e sem humor algum, e endireito os ombros, negando com a minha cabeça, frustrada. Danika era incrível, a melhor baterista que já tivemos, e uma puta mente criativa quando se dava ao trabalho de fazer alguma coisa, é uma artista, mas o maior problema dela? Nunca sabia quando parar. —— Tudo aquilo mais cedo? É só porque você quer usar ele?

Dou de ombros, desdenhosa.

—— Por hora —— Apoio minhas duas mãos atrás de mim, deixando-me inclinar para trás um pouco. Sinto algumas mechas rebeldes de meus cabelos deslizarem por meus ombros quando ergo meu queixo, desafiador, sustentando o olhar de Danny em silêncio. Puta merda, eu magoei ela feio.

Danny pisca, incrédula, muito provavelmente com a facilidade com que digo tal coisa, com que admito meus pecados, ela desvia os olhos de meu rosto, encarando algum ponto invisível atrás de mim, antes de mover a cabeça em um sim lento; não o faz para mim, está fazendo para si mesma, obrigando-se a chegar a um acordo consigo mesma.

—— O que… —— a voz dela falha, e obrigo-me a manter-me inexpressiva, obrigo-me a não perceber a forma com que ela clareia a garganta com um pigarro, como inspira fundo, se esforçando para manter a voz firme, indiferente. —— O que você ganha com isso, ? O que…?

—— Não é nada que ele possa me oferecer —— digo por fim, exasperada, se a verdade encerra essa conversa, então que pelo menos ela esteja ciente. —— É o que faz com Joel que estou interessada. Eles são os novos queridinhos de Joel, a nova fonte de dinheiro se quiser chamar assim. Se acerto em , acerto diretamente em Massaro. É isso que me importo.

Danny parece estupefata demais com minhas palavras, para sequer ficar assim tão surpresa. Ou talvez seja a maneira com que cruza os braços sobre o peito, encolhendo-se um pouco como se estivesse tentando se proteger de minha presença. Ela vai me odiar ainda mais amanhã, mas agora, que as emoções estão à flor da pele; puta merda eu sou um monstro, huh? Mas então, de novo, quem diabos havia colocado alguma expectativa em mim assim?

—— E qual é o plano? —— Danny tenta questionar, mas lanço um olhar irritado na direção dela, mordendo minha língua. Já havia quebrado o suficiente essa noite, não preciso sambar em cima também. Inimigos, eu possuía inúmeros, mas não homicidas até o momento, embora uma parte de mim não descarte a possibilidade em um futuro próximo.

—— Pergunta para Holly —— É tudo o que respondo, talvez mais amarga e ressentida do que gostaria de expressar, mas ao menos dá uma falsa sensação de vitória para Danika a percepção de que ela havia me machucado, ainda que de forma pequena. Se é isso que irá a fazer deixar-me em paz, então, que acredite que conseguiu.

Observo-a em completo silêncio ao deixar o quarto, surpreendentemente sem bater à porta dessa vez. Ela só encosta, o que acho esquisito, afinal, desde quando Danika não fechava a porta com violência na minha cara? Descarto o pensamento no segundo que sou deixada sozinha naquele quarto espaçoso e cheirando a algum tipo de perfume amadeirado. Inspiro fundo, apoiando meus cotovelos sobre meus joelhos e então enterrando meu rosto em minhas mãos, fechando meus olhos. Tenho vontade de gritar, tenho vontade de chorar, mas como todas as vezes que o tentava fazer, nada saia. A culpa é sufocante, a auto aversão me corrói de dentro para fora, tenho vontade de usar minhas unhas para rasgar minha pele, de esfregá-la até que estivesse em carne viva, sentindo-me nojenta, pegajosa, estranha. Deixo, por fim, minhas mãos caírem de meu rosto, e escuto apenas o barulho distante da música eletrônica por um longo momento, tencionando minha mandíbula.

Não consigo chorar, por mais que tente. Não consigo livrar-me daquela maldita apatia enlouquecedora mesmo que desejasse o fazer, é como se estivesse agarrada a minha pele tal qual um plástico. Enrosca-se por meus membros, prendendo-me no lugar, e então há apenas aquele vazio. Um grande e insuportável vazio que cresce a cada dia mais, que faz com que tudo se torne cinzento e insuportável. E a pior parte? Sei que a culpa é minha. Siobhan sempre dizia: “você busca sua destruição como um viciado busca a próxima dose” , não dá para dizer que ela está errada, mas sinceramente, o que mais eu tenho a oferecer senão isso? É inevitável. Sempre que alguém se aproxima, consigo encontrar uma forma de machucá-los o suficiente para irem embora. Que merda, mas de novo, colocar alguma expectativa em mim é estupidez pura, todo mundo sabe que não tenho nada a oferecer senão dores e irritações, para que tentar?

O estofado ao meu lado afunda. Teria saltando para longe no segundo que o invasor se fez presente, mas minhas reações nunca foram de luta, mas sim congelar diante de algum ataque inesperado. Então mesmo que queira gritar e pedir ajuda, congelei no lugar, meus olhos arregalados fixos na pessoa que havia se jogado preguiçosamente no sofá ao meu lado. Meu coração massacra minha caixa torácica, o suficiente para fazer com meu peito doer, a pulsação, ensurdecer meus ouvidos, e minha respiração escapa baixa e irregular, rápida o suficiente para me deixar um pouco zonza. Minhas mãos tremem, fechadas em punhos, as unhas fincam-se em minhas palmas com mais força que o necessário, provavelmente as cortando, e levo alguns minutos para compreender quem havia se jogado ao meu lado. Meu estômago se retorce quando o fiz.

Merda…

, com os cabelos desalinhados, um sorriso petulante e afiado como navalha preso no rosto, os olhos intensos obscurecidos por uma raiva contida e algo a mais, algo sombrio, difícil de compreender à primeira vista. Está completamente encharcado de alguma forma, a blusa social elegante agora gruda em seus músculos como uma segunda pele —— surpreendentemente ele está mais em forma do que a figura magricela que eu havia imaginado ——, as calças soltam pequenos estalidos com a movimentação do tecido sobre suas coxas, os cabelos parecem mais escuros, pendem por seu rosto proporcional e atraente, desalinhado. Percebo, com um ponta de divertimento distante, que ele fica mais atraente assim, desalinhado, relaxado. Ou talvez seja apenas a falsa sensação de acessibilidade que ele oferece que chama minha atenção. Está fedendo a álcool e questiono-me o quanto ele deveria ter bebido naquela noite.

Não o suficiente para não ter ouvido minha conversa com Danny, percebo.

—— Então —— abre um sorriso largo, encarando-me com olhos impossíveis de desvendar, e um tom sarcástico afiado como navalha. —— Me conta mais sobre seu plano de me usar, eu vou adorar saber.

Ah, nem foden

LEVA ALGUNS SEGUNDOS PARA ABSORVER MINHAS PALAVRAS, MAS ENTÃO, ELA SURPREENDE-ME AO CORAR.

Meu sorriso aumenta. Acabei de fazer corar? Ou estou muito bêbado —— o que, pelas contas, era mais provável —— ou a sereia deslumbrante na verdade ainda tinha algum resquício de decência em si —— ainda que fosse apenas um grão de areia comparado ao resto. Observo-a abrir a boca algumas vezes, parecendo estar tentando decidir entre se defender ou se justificar, mas se eu havia captado alguma coisa de nossas interações, ainda que tivesse acabado de conhecê-la, era que não era apologética. Fazia o que queria, da forma que bem entendia, sem aparentemente pedir perdão ou se importar com algo. Pela discussão que havia acabado de ter com Danny Storm, sua provável amiga —— ou talvez mais, era difícil saber, e considerando que estou bêbado o suficiente para estar amortecido, prestar atenção nos detalhes é a última coisa que vou fazer. Ao em vez disso, apoio meus cotovelos sobre o encosto do sofá, esticando minhas pernas sobre a mesa de centro de vidro e mogno —— qual o motivo de estar ali, eu não fazia ideia, quer dizer, aquele quarto tinha muitas intenções, mas nenhuma relacionada a sentar e conversar —— bloqueando a passagem dela para a porta, dando de ombros, desdenhoso.

Uma parte de mim está em pura cólera com . Veja, não era a primeira vez que algum desgraçado achava que era conveniente usar-me como uma peça em seu tabuleiro pessoal, na verdade, desde que havia nascido vinha sendo um mero peão no tabuleiro de meus pais, mas havia algo ainda mais irritante em ser feito de idiota pela mulher deslumbrante sentada à minha direita. Quer dizer, não era por falta de aviso, , era a maior placa de “cuidado, ela morde” que havia em Los Angeles. Era mais fácil você encontrar alguém que aparentemente a odiava, do que alguém que tinha como amiga; levando em consideração sua personalidade não era capaz de se esperar muito além disso. Já a outra parte de minha mente, não pode negar o quão entretido sinto-me ao vê-la se contorcer e enrubescer por ter sido pega no ato.

Observo-a tensionar a mandíbula com força, acentuando a mandíbula delicada enquanto fecha os olhos com força. Posso ouvi-la xingar por entre sua respiração quando exala baixo, frustrada. desvia o olhar do meu rosto, e volta a encarar suas unhas longas e afiadas, inclinando-se para frente. Com parte de seus cabelos presos pelo canudo, posso ver suas costas com clareza, a pele macia e suave é coberta por uma série de tatuagens desconexas, mas que, com o composto geral, acaba se tornando visualmente instigante. Há inúmeros desenhos, todos em preto e branco, referências artísticas, até mesmo uma releitura composta de detalhes e ângulos precisos para rascunhos do quadro A Queda de Ícaro, e questiono-me porque ela faria uma tatuagem como aquela, se havia algum significado por trás. Sinto as palmas de minhas mãos coçarem para traçar os desenhos, memorizá-los de certa forma —— sentir a textura de sua pele sob meus dedos, cravar minhas unhas nos músculos agora tensos do corpo dela. Se não pelo desejo que ela havia despertado apenas pela curiosidade de saber se eram tão macios quanto pareciam.

Que efeito essa mulher possuía sobre mim? Que possuía em todos ao seu redor?

—— Ouviu tudo não foi? —— Pergunta com um tom de voz baixo, visivelmente incomodado.

—— Cada palavra —— meu sorriso se alarga um pouco mais, afiado, enquanto tento conter minha própria irritação. Ela move a mandíbula delicada, ainda sem me encarar. Dou de ombros, sem resistir ao impulso de alçar um dos cachos grossos que pendem a frente de seu rosto, e enroscar meu indicador ali. São macios, como seda, puxo a mecha de cabelo, observando-a balançar com o formato encaracolado, achando graça. —— Então qual era o plano? Você iria me usar de que forma? Dormir comigo e então me chantagear? Isso não é um crime?

lança-me um olhar afiado, mas não parece envergonhada por ter sido pega em seus esquemas por mim, apenas… frustrada. Seja lá com o quê, não posso dizer com exatidão se está realmente direcionado a mim. Isso apenas instiga minha curiosidade. Quero saber o que se passa em sua mente, o que sente agora, porque empurra meu pulso, mas encara-me como se fosse me socar ou beijar —— talvez os dois.

—— Só é um crime, se você for pego —— ela cospe de volta, colocando-se de pé com um movimento gracioso e econômico.

Não movi um músculo de onde estava. Apenas ajeito-me contra os estofados macios do sofá, espreguiçando-me preguiçosamente, mesmo que os músculos dos meu corpo ainda não estivessem totalmente relaxados, aquele calor estranho e sufocante que havia despertado em meu peito ainda estava ali, como brasas, mesmo que apagadas, ainda queimando por entre as penumbras de meu ser. Um assopro, por menor que fosse, poderia incendiá-las, sabia disso. Apenas a observo, olhos fixos não apenas em seu rosto, mas como a iluminação azulada daquele quarto brincava com as cores dela. Os cabelos pareciam mais vividos, mais vibrantes, difíceis de não ser notados, a pele, sob o brilho azulado, ganhava um aspecto quase etéreo, a tinta escura das tatuagens pareciam ainda mais pretas, as linhas mais acentuadas, os olhos pareciam ainda mais felinos, os ângulos de seu rosto delicado ainda mais acentuados, presentes, destacava a maçãs do rosto, tornava o vermelho escuro de seus lábios em algo mais arroxeado. Uma visão de tirar o fôlego e facilmente enlouquecer até um maldito celibatário. Ela é tentação pura. Em sua forma antropomórfica e sabe disso, mas estou mais curioso para entender o que ela achava que conseguiria ao me usar. Quero entender se vale a pena aceitar o jogo dela como era, ou se eu deveria apenas contar tudo para Joel.

Veja, querendo ou não, aquilo ainda era uma indústria, e minha prioridade sempre seria o BEATBOIZ. Foram anos de minha vida dedicados para encaixar-me no que Jun-Woo havia projetado para o grupo. Anos de suor, sangue, lágrimas e um declínio para aquela parte sombria de minha mente que sentia paira em minha nuca como os fantasmas que me assombram. Conseguir aquele contrato compartilhado com a Altas Records, sob a orientação do melhor dos melhores, o cara que era responsável por consagrar qualquer artista que tomava para si, era ter a certeza que o mundo me conheceria. Era a certeza de ter sucesso o suficiente para não me preocupar com mais nada se não o que eu desejasse no momento. A ideia de uma garotinha mimada como tentar não apenas me usar para conseguir o que deseja, correndo o risco de me fazer perder tudo, era mais do que frustrante, enlouquecedor: era mesquinho. E inteligente. Perigosamente inteligente.

Mas eu ainda poderia contar tudo para Joel. Talvez Massaro não acreditasse em mim, talvez o enredo todo soasse exagerado e desdenhoso, afinal, Massaro trabalhava com ela a muito mais tempo do que trabalhava comigo; mas ainda era famosa. Ela ainda tinha aquela reputação. Não seria fácil destruir a carreira dela, querendo ou não, —— ou melhor, ? —— estava em um patamar além de minha compreensão de sucesso e fama. Ela sempre seria lembrada, independentemente do que fizesse, mas isso não significava que eu não pudesse ao menos manchar um pouco desta. Torná-la pior. Mais intragável. Mais mesquinha.

Se não por meu ego, então por despeito.

Ainda assim, contar para Joel Massaro o que ela planejava soava apenas infantil demais. Não, eu não poderia fazer isso. Eu queria mais. brincava com todos como se fossem suas marionetes pessoais, suas bonecas para lhe satisfazer da forma que bem entendia, quando queria. Se a conversa com Danny Storm havia mostrado algo era que ela não era o exemplo de decência, céus, talvez, nem sequer fosse uma pessoa funcional, mas uma sociopata disfarçada de femme fatale. Não, eu não quero só garantir a segurança do meu contrato, eu quero destruí-la. Quero fazê-la pagar. Quero entendê-la, e então fazê-la se arrepender de ter sequer considerado usar-me como um de seus brinquedos.

Se estava jogando, então teria a certeza de ganhar aquele jogo —— sempre fui um péssimo perdedor, de qualquer forma. Se não pelo despeito, pelo meu próprio entretenimento. Ela se achava a pessoa mais esperta daquela sala? Vou mostrar que não era. Além disso, provar do próprio veneno nunca havia sido algo ruim, pelo contrário, criava-se resistência, e talvez merecesse um pouco disso. Um choque de realidade; veja só, estou fazendo um favor para o mundo.

—— Qual é a sua com Joel, hm? —— Quebro o silêncio impaciente que se instala com a presença dela naquele quarto privado.

Vejo-a apertar os lábios cheios com uma irritação crescente. Ela está considerando se passa por cima de mim ou se responde-me, quase posso ouvir as engrenagens de seu cérebro funcionando, calculando, analisando quais os potenciais desfechos para aquela situação. Desta vez, coloco-me de pé, determinado a não a deixar escapar, não até que tivesse, ao menos, as respostas que queria. , é claro, não se afasta com minha proximidade, ela apenas tenciona a mandíbula um pouco mais, unindo as sobrancelhas angulosas ao inclinar a cabeça para trás. É, certamente, irritante como ela não parece se intimidar com nada, mesmo quando encurtei a distância dela. Mesmo quando me projeto sobre ela quase como uma sombra, observando-a de cima para baixo, tudo o que ela faz é inclinar a cabeça para trás, sem desviar os olhos dos meus.

Seus olhos roubam a minha linha de raciocínio. É perigoso encará-la, especialmente de perto, percebo, você acaba se esquecendo das prioridades para apenas contemplá-la. Minha garganta está seca, e tenho a sensação de fadiga crescente de que precisava de mais uma bebida, mas sei que não é pela bebida que meu corpo clama —— ao menos não agora. É ela. Tudo nela, atraí, corrompe, intoxica. Uma lufada de ar escapa por entre meus lábios entreabertos, trêmulos. Minhas mãos coçam para tocá-la, e até tento mantê-las fechadas, longe dela, mas o impulso instintivo é quase irrefreável. As pontas de meus dedos quase tocam a lateral do rosto dela, onde Danny Storm havia a acertado duas vezes. A pele está avermelhada, provavelmente sensível, ela não se afasta, mas igualmente, não a toco —— não totalmente. Afasto um dos cachos que pendem a frente de seus olhos, observando as pequenas imperfeições que ela sustenta. A maquiagem borrada, o brilho suave do suor que gruda em sua pele.

era fascinante. Seja sob qualquer ótica que se desejasse analisá-la. Não se intimida; ou era estúpida o suficiente para acreditar em si mesma como invencível, ou… quebrada o suficiente para não se importar com mais nada, nem mesmo a si mesma. Há algo de instigante nesse pensamento, algo que meu corpo reconhece ao fundo do oceano que me corrompe, que me consome em uma corrente revoltosa. Algo se agita em meu peito, mas ignoro, observando como o rímel dela gruda na ponta de meu polegar, permitindo-me puxá-lo para baixo, manchando sua maçã do rosto. Uma pequena imperfeição em sua deslumbrante composição, mas que a torna apenas —— para minha frustração —— ainda mais atraente. Há algo de belo no quão quebrada é por trás da máscara que usa, e tenho vontade de gritar com uma parede por isso.

—— Não se iluda, você não é assim tão especial —— Solto um riso baixo, lançando lhe um olhar, descrente. Sim, talvez houvesse um ponto ali, talvez realmente tivesse apenas um ego descomunal que me cegava para a realidade que me cercava, mas igualmente, talvez ela só estivesse repetindo as palavras que usara com Danny Storm. Ela não parecia, ao menos para mim, alguém que aceitava ou oferecia elogios de qualquer forma. Ela ergue o queixo um pouco mais, desafiadora, sua mão direita enrosca-se em meu pulso, as unhas cravadas no interior de meu pulso. Deixa marcas, a dor aguda das pontas afiadas percorrem meu braço, mas não me afasto. —— Você foi o que estava mais próximo, o mais fácil, mas isso não significa que seja o único ao meu alcance.

Ergo uma sobrancelha, nenhum pouco incomodado com suas palavras. Há algo em seu rosto que me atraí como uma mariposa em direção a uma lâmpada. Algo que não sei descrever, tampouco compreender, algo que está surgindo por trás da máscara que ela usa, e que me tenta com uma promessa silenciosa de abertura. As unhas dela apertam um pouco mais meu pulso quando seguro seu queixo delicado, com força o suficiente apenas para manter a cabeça dela parada, naquele ângulo. Não tenho pressa alguma; o mundo externo derretesse em insignificância e pandemônios cacofônicos desinteressantes atrás de mim. Há somente ela, a mistura de seu perfume com seu suor, intoxicante, e aqueles olhos felinos fixos em meu rosto.

Gosto quando sua atenção é só minha —— que pensamento perigoso para se deleitar, e todavia, ainda o faço.

—— Ah sim, é claro, sou o alvo mais fraco, por favor, me conte mais sobre —— o sarcasmo que escapa de meus lábios a faz sorrir, um sorriso afiado e perigoso, e por uma fração de segundos tenho quase certeza que ela vai me morder. Estranhamente a ideia mais me excita do que aterroriza. —— Não tem nada a ver com a estrutura do grupo, ou Massaro dirigir-se diretamente comigo todas as vezes que se trata dos assuntos do grupo, só estava no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada. —— Ela dá de ombros, franzindo o nariz com desdém, mas o gesto é estranho, a faz parecer adorável. É contraditória por inteiro, e isso quase me faz rir.

—— Então você é o líder do grupo? Olha só, não parece —— ela desdenha, e meu sorriso se alarga um pouco mais. Não consigo desviar meus olhos dos dela; mesmo se pudesse, não o faria. Ela está tão perto agora que posso sentir o cheiro de cereja e álcool em seu hálito. Meu corpo arde, mas a sensação não é incômoda, ainda. —— Sinceramente, eu não fazia ideia, foi só um golpe de sorte.

Nem ela acredita nisso e percebo de imediato. Um riso baixo, rouco escapa de minha garganta, e vejo algo cruzar seu rosto; é rápido, quase passível de confusão, mas está lá, um quase sorriso, ainda que contragosto, paira pelos lábios cheios dela, tingidos por aquele batom vermelho escuro profundo. Perco o foco, meus olhos repousam no lábio inferior dela, na forma com que o batom ainda parece intacto, perfeitamente aplicado, traço com a ponta de meu polegar o lábio inferior dela, sentindo a textura da tinta escura, levemente viscosa, grudar contra meu dígito, assim como a maciez de seus lábio, sinto o pequeno arfar que escapa dos lábios dela, entreabertos, observando com uma ponta de divertimento, e algo mais intenso, ardente, a linha que se forma um pouco abaixo do canto de seu lábio, ao propositalmente borrar seu batom. Minha respiração se torna mais pesada, lenta; só consigo pensar em qual seria a sensação de ter seus lábios nos meus, que gosto teria, que som ela faria. Posso sentir as brasas, outrora contidas dentro de meu ser, aos poucos crepitar, mais uma vez. Merda, isso é uma ideia terrível, e eu não poderia me importar menos.

—— Não responde minha pergunta —— minha voz soa mais rouca do que de fato era, mais gutural, mas não me importo. As unhas dela ainda estavam presas em meu pulso, mas a sensação daquela sensação apenas incendeia-me mais, especialmente quando não há resistência da parte dela, ao deslizar minha mão, de seu queixo para seu pescoço. Puta merda, a pele dela é tão suave, tão macia, sinto quando um tremor percorre seu corpo, quando engole em seco; satisfação atravessa como uma onda elétrica por minha corrente sanguínea. Pressiono meu polegar contra seu ponto de pulsação, apenas para senti-lo contra minha mão. —— O que há entre Joel e você? Foi ele quem quebrou seu coração primeiro e por isso você é esse monstro? Ou é mais sobre o dinheiro, hm?

solta um riso desacreditada, lançando-me um olhar como se eu tivesse acabado de falar algum tipo de absurdo, mas a pulsação dela está acelerada sob meu polegar, estreito meus olhos encarando-a com atenção, tentando descobrir, ou ao menos conseguir identificar onde estava a mentira e onde estava aquele pequeno vislumbre de verdade.

—— Eu e Joel? Jesus, não, que horror! O cara tem o dobro da minha idade, é nojento —— Ergo uma sobrancelha, não muito convencido daquelas palavras. solta uma risada baixa e rouca, quase desprovida de humor, embora exista uma pequena nota enviesada em seu tom, empurrando meu pulso para longe dela. Deixo que meu braço caia, paralelo ao meu lado, respeitando o gesto. —— Não tem nada entre mim e Joel, eu não durmo com todo mundo que conheço —— ela cospe as palavras, e considero-as por uma fração de segundo. Verdadeiras o suficiente para serem compreensíveis, mas ainda assim havia algo que ela não estava contando, além de, é claro, seu interesse em foder com a minha vida para atingir Joel Massaro. —— Nada vem de graça, Encantado, é canibalismo em sua essência —— ela pausa por um segundo, considerando suas palavras, antes de abrir um sorriso sardônico. Detesto que ela consiga roubar meu fôlego tão facilmente, e ainda assim, a visão dela sorrindo, genuína, não é ruim. —— Tecnicamente. Joel é o cara que nos mantém no topo, e não vou perder o meu espaço para uma boyband ridícula que acabou de chegar. Nem serei chantageada com a presença de vocês.

Algo se acende ao fundo de minha mente, e uma estranha mistura de satisfação e divertimento sombrio se espalha por meu peito. Posso sentir os tentáculos enroscando-se por meu corpo febril, misturando-se com a adrenalina e a pulsação acelerada de meu sangue; se espalha por meu corpo inteiro, desta vez, não posso me jogar de roupa e tudo embaixo da água gélida do chuveiro para retomar meu controle. Não quero.

—— Ah —— ela estreita seus olhos com minha exclamação e dou mais um passo em sua direção, dessa vez, ficando a centímetros de distância dela. É tortura, mas uma tortura boa estar tão perto assim dela. Posso sentir o calor que seu corpo emana contra o meu, o fantasma de sua pele, mesmo coberta pelos tecidos de sua roupa, tão dolorosamente próximo, que uma parte de minha mente se desvirtua completamente para aquele ponto em específico, para tomá-la em meus braços, para pressioná-la com meu corpo sobre a primeira superfície que encontrasse, para ter seu corpo moldado ao meu. Obrigo-me, todavia, a manter minha atenção fixa no rosto dela, com intensidade, e satisfação. —— Então é tudo porque você está com medo da gente? Somos uma ameaça para o seu posto de femme fatale, é? Irônico —— inclino-me mais em sua direção, nossos narizes quase se tocam, enquanto sinto o calor daqueles malditos lábios tentadores. Sou tomado pelo desejo, por ela, quaisquer cauções jogadas ao ar em queda livre. Sua respiração cálida mistura-se com a minha, atinge a lateral de minha bochecha e faz minha pele se arrepiar, como se tomada por eletricidade pura. Meu corpo queima com a necessidade de tocá-la, de senti-la. Ela não se afasta, e a maneira com que trinca os dentes, prendendo a respiração, posso ver que está tão afetada quanto eu. —— Nós nem temos a mesma base de fãs, , por que eu seria uma ameaça a você?

Afasto-me dela apenas o suficiente para que possa encará-la, mas ela segura meu colarinho, se por instinto ou deliberadamente, pouco posso dizer; não me importo desde que me segure como o faz. As unhas enroscadas no tecido caro e sofisticado de minha camisa social. Minha pulsação acelera mais um pouco, e respirar se torna difícil. Posso sentir como minhas calças parecem ficar mais apertadas quando o sangue que percorre minhas veias, desliza mais a sul.

—— Está molhado —— ela observa, a voz rouca, arrastada com aquele tom infernal, meio sussurrado, que não demora a percorrer por minha pele como brasas. Meus músculos se tencionam, enquanto um riso meio ofegante escapa de meus lábios. Merda, estou fodido, muito fodido, mas bem, uma vez no inferno…

—— Posso dizer o mesmo de você? —— Provoco apenas pelo prazer de ver aqueles malditos olhos felinos se iluminarem. Há algo em que é insuportável e devastador ao mesmo tempo. Se paradoxos fossem aplicáveis em forma antropomórfica, ela, certamente, seria o mais delicioso deles. Ela ergue uma sobrancelha, parecendo ser pega desprevenida, antes de sua expressão

—— Olha só… —— ela murmura, quase em um ronronar que percorre meu corpo. Uma onda de antecipação e excitação atravessa meu corpo quando ela se aproxima, vencendo os poucos centímetros que nos separa. Minhas mãos imediatamente repousam em sua cintura, meus dedos cravam na pele macia exposta, contendo um grunhido ao sentir os músculos, firmes por baixo da pele macia, mantendo-a perto até quando ela quisesse estar. —— E eu aqui, achando que você era um príncipe da Disney, mas você é só um daqueles lixos glorificados, não é? Quem diria… —— sarcasmo escorre de suas palavras, mas estou longe de sentir-me ofendido por sua dedução.

—— Nunca disse que era santo, foi você que criou essa expectativa —— estreita os olhos, mas seu sorriso é um convite silencioso. Inclino-me em sua direção permitindo-me inspirá-la. É uma merda que o perfume dela seja tão bom, que queime por minhas narinas, mas não seja o suficiente para saciar. Sinto a mão dela deslizar de meu peito para arranhar meu pescoço, uma mistura de dor e prazer percorre meu corpo; tenho certeza de que vai ficar a marca em minha pele, mas isso era algo que o de amanhã iria lidar. —— Frank Sinatra, Somethin’ Stupid —— sussurro, rouco, errático, e bêbado com seu cheiro, contra seu ouvido, sentindo uma de suas mãos agarrarem meu ombro esquerdo.

Aproveito a proximidade do gesto para mordiscar o lóbulo de sua orelha, bem de leve, em uma provocação silenciosa. Ouço-a prender a respiração com um arfar baixo. Encorajado, beijo então a pequena parte entre sua mandíbula, e a parte de trás de sua orelha, onde a maldita tatuagem dela encontrava-se. Tenho o prazer de senti-la derreter-se contra mim, sua pele arrepia, suas unhas se cravam com mais forma em minha pele, enroscam-se nas mechas de cabelo em minha nuca, agarrando-a com força, dolorosamente, mas de uma forma boa. Uma corrente elétrica, anestésica percorre por minhas veias, misturando-se com o fogo que as consomem. Sinto um riso baixo, gutural escapar de minha garganta em aprovação ao gesto. Deslizo meus dedos por sua cintura, contendo um grunhido baixo ao sentir a suavidade de seus músculos por baixo de meus dedos, a curva que se formava, os músculos firmes até repousarem sobre seus quadris, pressionando meu corpo contra o dela, mas não é o suficiente para satisfazer o anseio que inundava não apenas minha mente, mas meu corpo. Afasto-me dela só o suficiente para que possa encará-la, sentindo a maneira com que o peito dela sobe e desce, com sua respiração pesada, contra o meu. Se estou sorrindo, não consigo perceber. Ela ergue uma sobrancelha, parecendo curiosa com meu comentário, então, dou de ombros.

—— Minha música preferida, a verdadeira, mas foi um grande espetáculo o que você fez com Kiss, quase impressionante —— murmuro, sem saber ao certo se estou sendo sarcástico ou se minhas palavras realmente carregam o peso da verdade enviesada que tentava ocultar; mas não poderia me importar menos com isso, não com ela contra mim, não com apenas uma maldita fina camada de tecido nos separando. quase sorri, um brilho travesso preso em seus olhos marcantes, e uma parte traidora, inesperada de minha mente parece sentir-se satisfeito com a visão. —— Mas vi melhores.

—— É mentira, mas suponha-se que não seja, não importa, você não vai conseguir ouvir essa da mesma forma de qualquer jeito —— provoca. Não digo nada, porque é verdade. Ela havia arruinado a música para mim, permanentemente. Não era apenas a forma com que havia a cantado tal qual uma sereia provocando um náufrago em meio ao vazio, ou pela maneira com que a voz dela havia ecoado pelo espaço como uma maldita carícia embriagante, terrivelmente convidativa, mas sim, igualmente, pela performance dela. Pela forma com que ela havia se movido naquele maldito palco, pela maneira com que a iluminação avermelhada do espaço a fazia parecer com um maldito sonho, ao mesmo tempo etérea e provocativa, como havia jogado os cabelos cacheados para o lado e como havia deixado ser tocada por seus colegas de banda. Por mais que meu ego se recuse a admitir, tenho a sensação de que tal visão ainda irá se repetir em minha mente por um longo, longo tempo.

—— Então era esse o seu plano? Corromper meus pensamentos? —— Inclino minha cabeça para o lado, sentindo meus músculos se tensionando e relaxando com a sensação das unhas afiadas, os dedos alongados e macios percorrer de meu pescoço para meu ombro antes de repousar em meu peito. Unhas vermelho escuro brincando com os botões fechados de minha camisa, não a impeço quando desfaz um botão, atrás do outro. A brisa tem um toque mais frio do que esperava, especialmente com minha pele molhada, mas o toque dela é quente. —— Não parece muito elaborado, estou ofendido, estava esperando algo mais… mesquinho.

A sensação de suas unhas traçando devagar os músculos de meu peito, roçando sobre a pele exposta é o suficiente para esvaziar meus pensamentos, por mais que tente agarrar-me a pouca coerência que ainda restava-me. É um caminho perigoso ao qual estou inclinado a seguir —— mas, uma vez aqui…

Seu toque deixa um rastro de arrepios por minha pele, as marcas avermelhadas que se formam tampouco incomodam-me, na verdade apenas aumenta a excitação, posso sentir cada gota de meu sangue correr para o meio de minhas pernas, torna minha respiração mais pesada e irregular, deixa-me zonzo, como se o ar tivesse rarefeito; estou diante de um precipício e nunca estive mais disposto a lançar-me nele. Sei que ela pode sentir-me contra si, que a pressão que se forma contra o tecido de minha boxer, que seu efeito sobre mim e o desejo que despertara desde de o momento que havia subido naquele maldito palco havia despertado em mim; escorre por meu corpo como água, enrosca-se por meus músculos como vinhas.

—— Achei que alguém com o contrato como o seu, seria pelo menos cauteloso com as coisas que faz —— enuncia deliberadamente, mas suas palavras escapam de mim como um mero sopro em meu rosto. Mantenho meu aperto em seus quadris, meus dedos deslizam pelo material espesso de sua meia-calça, enroscando-se contra a cintura de seu tecido, puxando-a para baixo, ouvindo-a rasgar, mas frágil do que aparentava. Ela não me impede, apenas ergue uma sobrancelha. —— Ainda posso acabar com você, sabe disso não?

Estreito meus olhos, encarando-a por um momento, ciente de suas palavras, tento focar em seus olhos, mesmo que estes continuem a desviar-se para os lábios dela. Tenciono minha mandíbula, considerando as palavras com cautela.

—— Você pode, mas se quisesse mesmo acabar comigo, teria simplesmente tirado uma fotografia minha no bar, seria o suficiente para arruinar minha carreira —— Aponto com um tom de voz baixo, cauteloso. Era regra de o lugar manter aparelhos eletrônicos desligados pela privacidade do espaço, mas tratando-se de , tudo poderia ser uma possibilidade. Ainda mantendo seu corpo colado contra o meu, a guiei devagar para a primeira superfície que encontro pelo caminho. Ela apenas segue, com um sorriso preguiçoso, felino, se espalhando por seu rosto de tirar o fôlego. —— Se é tão esperta como parece, e eu acredito que sim, você não se envolveria diretamente, especialmente quando a situação inteira pode recair sobre você. —— move a mandíbula, parecendo tentar ocultar um sorriso, mas seus olhos não ocultam a visão, não percebo que espelho sua reação, apenas noto a forma com que ela prende a respiração quando suas costas se chocam contra a parede atrás de si, como a cabeça se inclina mais para trás, seus lábios quase tocando os meus.

O quase toque é o suficiente para atrair-me em sua direção, minha respiração esvai-se por meus lábios entreabertos, chocando-se contra os dela, meus dentes roçam suavemente seu lábio inferior, mas consigo controlar o impulso de mordê-la. Sinto quando uma de suas pernas desliza pela à lateral de meu corpo, enganchando-se em minha cintura, parte de trás de seu joelho encaixando-se sobre o osso de meu quadril, dando-me espaço o suficiente para prensá-la contra a parede. Faço o que havia sido atormentado a desejar fazer desde o início daquela noite, cravo meus dedos na pele macia e quente de sua coxa grossa, pressionando com um pouco mais de intensidade meus quadris contra os dela. Posso sentir seu calor contra meu corpo, convidativo, tentador, mesmo sob a fina camada de roupas, posso sentir seu cheiro, intoxicante.

—— Afinal… —— Afundo meus dentes na pele aveludada de seu lábio inferior, um tremor percorre meu corpo, inebriante como o álcool que ainda pulsava por minhas veias, com o som que ela solta com minha provocação; um gemido baixo, suave. Meu aperto em sua coxa aumenta. —— Sou apenas… —— Afasto-me quando ela tenta retribuir o gesto, sem conseguir conter um sorriso ardiloso que se espalha por meu rosto. Tento conter um grunhido quando as unhas dela fincam-se em minha mandíbula, segurando meu rosto com um toque quase possessivo; falho miseravelmente, ofegante ao ver aquele sorriso sardônico preso em seus lábios. É uma completa desgraçada, mas uma desgraçada gostosa. Com mão livre, alcanço sua outra perna, alçando-a com um movimento rápido para cima. Uma mistura de grunhido e gemido se desfaz em minha garganta, quando as pernas dela enroscam-se ao redor de minha cintura, firmes, um aperto delicioso que apenas aumenta a temperatura de meu corpo febril. Pressiono-me contra ela com mais força, sentindo como seu corpo se molda ao meu, como o calor que flui de sua intimidade pressionada contra minha ereção apenas aumenta aquele maldito desespero qualquer menor fricção que fosse; por ela. —— Um estrangeiro… inocente… que caiu no… encanto da monstruosa… —— minhas palavras ecoam pelo pequeno espaço que separa meus lábios dos seus, descoordenadas, embriagadas; o que deveria soar como uma provocação, uma ameaça, se perde em tom e intensidade, torna-se um murmúrio pouco coerente.

E ela gosta disso. Posso ver em seus olhos: o divertimento sombrio, a satisfação e algo mais sombrio, mais intenso e pungente, desejo e algo mais, algo que envia uma onda de arrepios por meu corpo, e rouba quaisquer pensamentos que ainda pudesse ter. Não me importo com o que possa vir acontecer, não me importo se ela irá usar-me ou não para seus próprios interesses, não me importo, desde que ela seja minha —— por essa noite. Percebo que farei qualquer coisa para tê-la, mesmo implorar.

—— Quer apostar? —— O desafio em sua voz é completamente esquecido quando seus lábios se encontram com os meus. Não a mais nada que importa ou que seja significativo, tudo desaparece, há apenas aquele ponto focal, apenas sua boca na minha, suas unhas deslizando por minha pele, empurrando minha camisa para fora do caminho, seu corpo moldando-se ao meu, seus quadris movendo-se deliberadamente contra ao meu, enlouquecedor, e o anseio doloroso por mais que pulsa por minhas veias.

Não há nada delicado ou calmo em seu beijo; seus lábios movem-se contra os meus com intensidade, quase violentamente, dentes fincam-se em meu lábio inferior, enviando uma onda de dor prazerosa por meu corpo, apenas amenizar a dor com uma carícia de sua língua contra o lugar provocado. Não há hesitação, não há cautela, só o desespero que aflora pelas veias como veneno. Beijo-a de volta com todo o desejo e raiva reprimido, com todo o anseio que ela havia despertado com aquela maldita performance e suas provocações, faminto, frenético. Quero devorá-la. Quero que me consuma até que tenha esquecido de tudo, menos ela, menos da sensação de tê-la. Com ela agarrada a mim, solto uma de suas pernas, para segurar sua cabeça, meus dedos enrolam-se em seus cachos rebeldes, grossos e espessos, agarrando-a com força, puxando sua cabeça um pouco mais para trás, aprofundando mais o beijo. Sua língua desliza contra a minha, provocante, posso saborear a doçura pungente do licor de cereja que ela havia bebido, assim como algo único que era completamente ela.

Peças de roupas são descartadas com pressa pelo caminho, objetos são quebrados, o eco dos estilhaços em contato com o chão são abafados pelos gemidos arfados dela contra minha boca, botões são estourados, tecido se rasgam até que tudo o que reste seja apenas sua pele completamente exposta, em um borrão desvairado de mãos explorando e marcando cada centímetro novo de pele exposta, lábios sedentos e gemidos sem fôlego que se misturam, pulsando como eletricidade sob minha pele, reverberando como a mais doce sinfonia por meus ouvidos, uma música difícil de ser esquecida —— não vou.

A disparidade de sensações entre a brisa gélida que percorre por minha pele nua e o calor do corpo dela abaixo de mim, enviam uma onda intoxicante de luxúria e desejo, que queima por minhas veias. Afasto-me apenas por um momento, com o único propósito de admirá-la. Quero gravar cada centímetro dela em minha memória, como uma das tatuagens que decoram sua pele. Porra, eu a quero, a quero tanto que nubla minha mente, dissipa quaisquer pensamentos racionais que ainda poderia ter, fixo apenas em como ela está linda assim, toda exposta e vulnerável debaixo de mim. É deslumbrante. Gostosa de uma forma que faz meu peito arder. Cada centímetro de sua pele um convite repleto de malícia e sedutor que não sou capaz —— nem desejo —— resistir, desde a maneira com que seus cabelos se espalham como um manto desordenado de cachos contra o chão, emoldurando seu rosto marcante e traiçoeiro como o de um anjo caído, a maneira com que as luzes do espaço parecem brinca com sua pele, realçando as linhas escuras da tinta de seus tatuagens que adornam sua pele como uma mistura insignificante e, de alguma forma, intrínseca a seu ser de histórias não ditas. O peso de seus seios sobre as costelas delicadas, a curva sensual de sua cintura e a maneira com que a tatuagem de uma cobra se enroscava, da lateral esquerda de sua cintura, deslizando pelo osso de seu quadril esquerdo, serpenteando, até desaparecer no interior de sua coxa esquerda. Posso sentir o que seu corpo faz comigo, posso sentir como todo o resto desaparece e a única coisa que me importo é com o latejar constante entre minhas pernas, dolorosamente duro, sentindo a evidência de minha excitação escorrer pela glande de meu pau.

Mas é o sorriso dela que rouba quaisquer resquícios de autocontrole que ainda tenho.

Aquele sorriso presunçoso, traiçoeiro de quem sabia exatamente o que causava nos outros; de quem sabia que era tão gostosa quando admirada e sabia exatamente o que se passava em minha mente. Contenho o impulso de arrancar aquele maldito sorriso do rosto dela, alçando minha carteira da calça descartada no chão, retirando de lá uma camisinha. Empurro o plástico gelado contra meu pau, sem tempo a perder, antes de voltar a pressionar meu corpo contra o dela, sentindo-a arquear-se contra mim, quando meu pau duro pressiona a parte inferior de sua barriga.

Ouço-a gemer, suas mãos enterrando-se por meus cabelos, agarrando-se a mim, quando minhas mãos e boca exploram seu corpo —— sou um homem faminto e ela é o melhor banquete que poderia ter encontrado em toda minha vida. O gosto salgado e suave de sua pele é pungente em minha boca, quando os beijos quentes que deposito em sua pele, apenas aumenta a antecipação entre nós dois. Traço com minha língua e provoco seus mamilos, deleitando-me em depositar toda minha atenção em seus seios, sem conseguir conter a mistura de um grunhido e gemido escapar ao fundo de minha garganta, quando ela começa a mover seus quadris contra os meus, buscando-me como uma cadela no cio —— ela é boa demais para ser verdade.

Então empurra-me contra o chão, prendendo-me abaixo de si, antes que possa sequer registrar o que ela está fazendo; ela domina-me e não posso dizer que não gosto da visão que tenho dela sobre mim. Puta merda, isso vai me atormentar por muito mais tempo do que meu ego me permite admitir. Minhas mãos agarram sua cintura com força, meus dedos afundando naquela pele deliciosa e macia, ajustando-me abaixo dela, guiando-a contra minha ereção, enquanto ela agarra meus ombros. Uma onda de puro prazer quase cega-me quando ela finalmente senta com força no meu pau, até a base, roubando meu fôlego, minha sanidade e o que mais quisesse tomar. Fecho os olhos, praguejando entre dentes, por um momento apenas aproveitando a sensação de tê-la ao meu redor, ajustando-se ao meu tamanho, e pulsando, agarrando-me apertado. Puta merda, ela não tinha o direito de ser tão gostosa assim, tão molhada, tão pronta para ser consumida por mim. Porra, porra —— finalmente entendo o apelo, o desespero; poderia pedir por minha alma e lhe entregaria tranquilamente desde que não parasse. Apresso-a a mover-se sobre mim agarrando sua bunda com vontade, puxando-a mais em direção a mim, tentando gravar em minha mente a sensação de como sua bunda molda-se ao meu toque, como o músculo sede, firme e macio, ao mesmo tempo. Observo a maneira com que ela fecha os olhos, como sua cabeça pende para trás, e aquele maldito sorriso que me enlouquece mistura-se com prazer e desespero.

Inicia-se lento, intenso, elétrico. Cada movimento preenchido com mais do que apenas luxúria, com puro desespero e vontade de perder-se no momento, na sensação que apenas o corpo um do outro pode oferecer. No consolo, delicioso e efêmero de duas almas perdidas que pela noite fazem um acordo entre si. Sinto-a agarrar-se contra mim, seus lábios roçando meu ouvido esquerdo, gemendo e suspirando, ofegante, enquanto encontro seus movimentos com tamanha, se não mais intensidade. Não vou ser capaz de esquecer a maldita melodia e sei que ela o faz de propósito. Tento não sorrir, mas falhou miseravelmente. Agarro-a com mais força, meus dedos fincando-se na pele macia de sua bunda com força o suficiente para deixar marcas; não me importo. Então o tempo desaparece, contratos e discussões, até mesmo o interesse que a levou até aquele momento soam completamente insignificantes.

Beijo-a como um homem esfomeado, devorando seus lábios, sentindo igual fome quente como inferno, começando a crescer dentro de minhas entranhas. Perco-me na sensação que é estar dentro dela, que é tê-la em meus braços, ainda que por apenas uma noite. Suas unhas fincam-se em minhas costas, posso sentir as marcas vermelhas que se formam pelo caminho que ela deixa para trás, como minha pele arde com uma mistura de prazer e dor que nubla meus pensamentos. Nossas respirações ofegantes se misturam, acompanhados ao som de pele contra pele. Meus olhos se encontram com os dela, e sinto-me bêbado. Bêbado com o cheiro dela, com a visão de seu rosto contorcido por prazer; agarro-a com mais força, desesperado para marcá-la como minha, semicerrando os olhos ao admirá-la, os cabelos desordenados, desarrumados, algumas mechas grudando contra seu pescoço, suas têmporas devido ao suor, os lábios entreabertos com cada suspiro ou novo gemido que escapava de sua garganta, mas são seus olhos que me mandam direto para o paraíso.

Pupilas dilatadas o suficiente para que suas íris se tornassem apenas finos anéis. Desejo, puro em sua essência e algo quente que me prende ali; se fosse uma deusa, cobrando por um sacrifício, facilmente lhe ofereceria de bom grado. Minha alma, meu corpo, tudo, para que ela fizesse o que bem desejasse, da forma que desejasse. Maldita seja…

—— Olhe para mim —— entre arfares e gemidos, comando, minha voz escapando como uma vibração, rouca e irregular. Agarro seu rosto, quando sinto seu corpo começar a responder com a aproximação de seu orgasmo. Posso senti-la apertar-me, tremendo contra meu corpo. O fogo que surgiu em minhas entranhas parece tornar-se mais intenso, aumentando meu desespero e a intensidade de meus movimentos. Empurro-a de volta contra o chão, cobrindo-a com meu corpo. Mantenho meu aperto em seu rosto, determinado a não perder nem mesmo um segundo quando ela gozar, agarrando com minha mão livre a parte de trás de seus joelho, empurrando-a o suficiente para que se enrosque em meu ombro, determinado a encontrar aquele ponto sensível dela, e fazê-la ver estrelas.

A pressão em minha pélvis parece aumentar rápido, mas mantenho o ritmo de minhas estocadas, fixo no rosto dela. fecha os olhos, seus lábios se entreabrindo em um O delicioso, enquanto seu corpo arqueia mais contra o meu. Obrigo-me a conter meu próprio orgasmo, determinado a fazê-la gozar primeiro, e então a sinto choramingar envolta por prazer.

Sinto-a tremer contra meu corpo, suas unhas cravando-se em minha pele outra vez, suas paredes internas apertando-me, os músculos de seu corpo tensionados abaixo de mim, suas pernas tremem ao redor de minha cintura. Continuo-o a estocá-la, tentando prolongar seu orgasmo, quando sinto o êxtase atingir-me com uma onda intensa; explode por meu corpo, cega-me com o prazer que reverbera por minhas veias, apagando quaisquer pensamentos de minha mente. Apoio minha testa contra seu ombro, enterrando-me fundo, grunhindo, ofegante, esvaindo-me até a última gota. Escoro meu antebraço no chão, ao lado de sua cabeça, sustentando meu peso para não a machucar acidentalmente, tentando recuperar meu fôlego. Deslizo minha mão de seu quadril para a curva de sua cintura, traçando deliberadamente as linhas de suas tatuagens, até chegar na parte inferior de seu seio. Posso sentir como seu coração bate, acelerado, com meu peito pressionado ao dela, em ritmo com o meu, a pele escorregadia pelo suor, ofegantes, e com um sorriso preguiçoso preso nos lábios. Puta merda, quero gravar essa visão em minha memória. Inclino-me na direção do pescoço dela, inspirando seu cheiro, antes de mordiscar a pele sensível ali, ouço-a rir, ofegante e errática, seus dedos enroscados em meus cabelos, as unhas arranhando suavemente contra meu couro cabeludo em uma carícia suave, sua respiração, cálida e irregular chocando-se contra a lateral do meu rosto, ao beijar a linha de sua mandíbula.

—— Ainda não terminei com você —— murmuro, ofegante, sem conseguir conter um sorriso ao observar a maneira com que ela retribui meu gesto, um riso ofegante, baixo, mas suas pernas ainda assim enroscam-se outra vez em minha cintura. A beijo, outra vez, determinado a perder-me completamente em , que se danem as consequências. Lido com elas amanhã.

AINDA TENHO O GOSTO DE EM MINHA LÍNGUA QUANDO A PORTA DO ELEVADOR SE ABRE, REVELANDO HOLLY MURRAY, MINHA ASSISTENTE, SORRIDENTE.

Foi ideia de Massaro contratar uma assistente para mim. Alguém que pudesse ficar de olho em tudo o que fazia e deixava de fazer desde o incidente. Era igualmente uma maneira velada de controlar-me. Havia tido muitos desde então, destes aos quais transformei a vida um completo inferno, atormentei, provoquei e fiz questão de que arrependem-se sequer de ter aceitado aquela ideia. Pode-se dizer que ofereci o tratamento completo, e que ainda havia bastante ressentimentos ali se fosse sincera, mas então, Murray apareceu um dia, e fiquei curiosa. Tenho certeza que transformei a vida dela em um completo caos, e que fiz de tudo ao meu alcance para livrar-me dela. Quase consegui. Mas então, em Amsterdã, a alguns anos atrás —— talvez dois anos, não tenho certeza ——, ela havia acobertado uma overdose minha, mentiu para Massaro e prometeu que nunca diria nada a ninguém sobre; cometi o erro de acreditar que havia encontrado uma amiga naquela maldita indústria. Realmente havia acreditado que talvez, ao menos uma pessoa, poderia compreender que nem sempre, minha tendência para destruição era proposital, mas inevitável, talvez alguém pudesse ver-me em uma nota positiva, por menor que fosse.

Percebo agora o quão estúpida fui. Ela nunca foi minha amiga, era só a porra da assistente. Minha babá.

Não faço menção alguma de mover-me, pelo contrário, apenas a encaro por um longo momento, em completo silêncio. Escoro minha cabeça contra o metal gélido atrás de mim, sentindo uma ponta de alívio quando a superfície lisa, uniforme e frígida faz contato com meu couro cabeludo. Mantenho minhas mãos enroscadas nos apoios que permeiam o elevador, meus dedos enroscaram-se com mais força na barra, cravando sob as palmas de minhas mãos, contendo-me de avançar no pescoço dela. Céus, sabiam o quanto eu adoraria agarrá-la pelos cabelos e arrastá-la para longe. Não. Não irei fazer isso —— farei pior.

—— Ainda bem que você chegou no horário! Isso quer dizer que teve uma boa noite, huh? —— A animação dela é como sal em uma ferida aberta, mas tomo cuidado para manter minha expressão contida, distante até mesmo, inclino minha cabeça um pouco mais para o lado, observando-a estender o braço na direção da porta do elevador, impedindo-a de se fechar, sem fazer menção alguma de sair de onde estou. O gosto de pungente em minha boca, mistura-se com o amargor tardio de minha percepção defasada. A dor nos músculos não é pior do que a merda da tensão que espalha-se por meus ombros, ergo meu queixo, ainda silenciosa. Vejo-a conferir no tablet que tem em mãos, ajeitando os óculos grossos que emolduram seu rosto. —— Certo! É bom que você tenha vindo mais cedo, o dia vai ser corrido. A gente ainda precisa discutir sobre os figurinos para as próximas entrevistas, à Billboard soltou uma nota sobre a próxima edição, pode se preparar que a escolha e posição irritaram a cantora pop, já começou até ligar, está tentando barrar o lançamento do álbum de vocês, mas Massaro está no caso. Temos também que decidir o que você irá usar no Norton e no Fallon. Norton está ansioso para ter você sentada no sofá junto com eles, então já sabe, sorriso charmoso, palavras dóceis, você sabe como encantar eles. Agora, Fallon quer você no mesmo dia que Doherty, foi uma sacada de marketing muito boa, gerar polêmica, especulação, já entrei em contato com a assessoria dele, mas a palavra final é sua, , você quem decide se quer participar ou não. Pelo o que pude perceber, são águas passadas, ele seguiu em frente então, talvez um pouco de burburinho não vá fazer mal… —— Holly continua a conversar sozinha, ainda segurando a porta do elevador para impedi-la de se fechar, e repassando a lista de tarefas para o dia. É somente quando ela repete a mesma pergunta que, sequer dou-me trabalho de ouvir, que, finalmente, meu silêncio parece ter tido algum efeito sobre a conversa. —— O que? O que foi? Achei que estivesse de bom humor, ! E que cheiro é esse…

Holly não termina sua frase, parecendo perceber algo. Se foi algum chupão que havia deixado em minha pele ou se foi alguma marca de mordida, não era como se eu tivesse feito questão de ocultá-la, estou com a blusa dele, de qualquer forma, só não peguei a calça porque seria difícil para ele explicar como havia perdido suas calças em uma boate —— não que eu não fosse gostar disso. Percebo agora, a pequena incerteza, um brilho de irritação surgir por seu semblante, e sinto um sorriso vagaroso, torto, começando a surgir por meus lábios. Naquela porra de coisa que tinha com Danny, percebo que nunca foi só algo passageiro, mas um espaço divido —— conscientemente, ou não ——, entre mim e Holly. Não tinha nada sério com Danny, uma coisa era estar entediada e querer uma distração, outra coisa era estar na estrada e precisar de algo para tirar sua mente da tensão, dos desastres que costumavam a acontecer quando estávamos em cima do palco —— algo sempre iria dar errado —— e voltar-se para o primeiro idiota ou para a primeira groupie que você encontrasse pelo caminho. Danny e eu éramos este segundo caso; sabia que ela se divertia com Holly sempre que queria quando retornamos para nossa vida cotidiana, sem shows, gravações e performances, mas nunca havia me ocorrido que talvez, nossa intimidade nunca tivesse sido somente nossa; Holly, mesmo que fosse uma sombra, havia feito mais parte do que eu poderia calcular. Questiono-me se ela está pensando agora com quem eu havia passado a noite. A quem estou cheirando, é Danny quem havia caído em meus encantos mais uma vez. Sinto um riso depreciativo borbulhar por meu peito; não a culpo, quer dizer, eu também iria detestar se eu fosse minha própria competição.

Murray não é uma garota feia, na verdade, para os padrões medianos, ela era deslumbrante. Os óculos grossos passavam uma seriedade e competência que só eram embasados por seu pensamento rápido e afiado, além de sua capacidade estratégica, eram cobertos por uma franja grossa e um coque frouxo, mas ainda descolado em sua cabeça. Pouca maquiagem para adornar o rosto, e roupas adequadas para trabalho, embora a calça jeans skinny fosse uma escolha. Salto alto —— ainda que fosse ela a fazer a maior parte da correria por nós ——, caneta presa entre as mechas de cabelo, e outra na lateral da cintura de sua calça, como uma arma, além de pager, dois celulares diferentes, um bloquinho de anotações enfiado no bolso e um molho de chaves que eu só poderia sonhar para que serviam —— suponho que a do meu apartamento e da mansão estavam ali em algum lugar, talvez, até mesmo do meu carro. Posso entender porque Danny se interessou por ela; tenho quase certeza se não tivesse criado um verdadeiro inferno na vida dela até mesmo poderia ter uma chance. Agora, consigo entender porque Holly contaria algo que não queria para Danny com tamanha facilidade.

Era um erro estúpido, ainda assim, um que continuava por cometer: acreditar que havia algum amigo naquele lugar. Estúpido, eu sei, quer dizer, eram apenas negócios, qualquer um que visse além disso ou era estupidamente inocente ou estava mentindo, duas coisas que não tenho espaço para ser. Deixo meu olhar vagar pelo rosto dela, e então deslizar até os saltos altos, antes de voltar a encará-la. A porta do elevador tenta se fechar novamente, mas a presença de Holly a impede de se fechar. Exalo, alto, revirando os olhos; quero atingi-la, quero a fazer se sentir estúpida, mesmo que por uma fração de segundos, quero que sinta a mesma mágoa que sinto por ela. —— Relaxa, não foi com Danny que passei a noite —— desdenho com indiferença, revirando os olhos e sem paciência para tentar parecer menos irritada do que realmente estou. Desencosto-me do elevador, limpando as palmas de minhas mãos sem percebê-las de fato, há algo estranho ali, uma sensação desconfortável, porém familiar de amortecimento, mas a ignoro completamente. Caminho para fora do elevador, esbarrando propositalmente no ombro de minha assistente, acompanhada apenas pelo ruído contínuo dos saltos de minhas botas. Para Holly, considerando que meu comportamento deve ser, no mínimo, desconfortável para ela, não é uma surpresa para mim que demore alguns segundos até que pareça voltar a si, e me seguir.

—— Então quem… —— Holly começa a dizer, e por um segundo faço uma careta, percebendo que o próximo nome que ela considera soltar é o de Jex. Um arrepio percorre por meu corpo, a bile envolve minha língua, aumentando o amargor que se espalhava e corrompendo o restante do que poderia vir a ter sido o gosto de . Sinto que estou prestes a vomitar apenas com a ideia, mas então Holly parece usar sua inteligência e vejo sua expressão se tornar sombria. Quase abro um sorriso; se não fosse ela a ter contado sobre Nolan para Danny… —— , não… —— Ignoro o comentário, virando a esquerda no corredor da gravadora, descendo um pequeno aglomerado de escadarias que levava para um pátio que servia como área de descanso, antes de seguir para a esquerda, em direção a sala de Massaro. Holly segura meu braço antes que possa dar mais um passo em direção a meu destino final. Os olhos irritados, sombrios evidenciam a falta de paciência e algo mais, algo que quase soa como censura. Solto um bufar entredentes, desacreditada; é sério que ela irá cobrar profissionalismo da minha parte? Justo ela que contou algo que confidenciei em uma noite bêbada demais para retirar as palavras e que havia jurado não dizer a mais ninguém? Não digo nada. —— ! Como você pode?!

Forço um sorriso torto, dando de ombros, indiferente, mas meus olhos queimam o rosto dela. Se arranhar o rosto dela, ela será apenas mais uma das assistentes que havia destruído e tirado do meu caminho por mero capricho; não, quero fazer pior. Consequências para o inferno!

—— Como eu pude? —— Repito suas palavras com escárnio. Holly prende a respiração, mas não solta meu braço. Reviro meus olhos. —— Eu não fiz nada, Murray! Não tenho culpa se o idiota não conseguiu manter o pau dele dentro das calças, mas até onde sei, ele aproveitou bastante a noite também.

—— ! —— Holly parece urgente. Lança um olhar em direção a entrada do corredor, onde a recepção e a área que o time de marketing costumava a trabalhar, antes de voltar a me encarar com uma nota de urgência crescente. Isso me faz rir; o som é baixo, afiado, perigoso, e gosto de ver que ao menos a faz lembrar-se com quem ela estava lidando. —— Tem ideia do que você acabou de fazer?! Isso não é um jogo, ! —— Holly inspirou uma vez, parecendo apenas mais ansiosa do que antes. Estreito meus olhos, isso é estranho, mesmo para ela. —— Pelo menos me diz que você não dormiu com , … —— Holly pede, e abro um sorriso largo, achando graça.

—— Não dormi com o —— respondo tentando conter um riso.

O rosto de Holly desmorona e recebo um chacoalhão. Desta vez, solto uma gargalhada alta, enche o corredor, reverbera pelas paredes, rouca, falhada, terrível; perfeito reflexo de quem realmente sou. Sinto quando ela solta meu braço, mas tudo o que posso fazer é dar um passo para trás abraçando a frente de meu abdômen, sentindo meus músculos relaxarem, meu corpo tremer enquanto a risada escapa de minha garganta como ondas a serem quebradas a beira mar.

—— Você… —— ela começa a dizer, mas então se silencia. Sabe que nenhum xingamento irá funcionar comigo, no fim do dia, havia coisas bem piores que eu dizia a frente do espelho, que jamais seriam comparadas a um mero xingamento de Holly. Por deus, onde cometi o erro de fingir que busco aprovação de alguém?! Se algo, quero a desaprovação, quero o desprezo; ao menos soa mais verdadeiro. —— Você tem ideia do que fez?! —— Holly rosna, lançando um olhar na direção da entrada do corredor, e sinto meu sorriso se esvair aos poucos. Não é a acusação dela que incomoda-me, já ouvi o suficiente das mesmas para ter habituado-me; é o tom, baixo, controlado, até mesmo secretivo, tentando manter mera percepção de controle e elegância que não existiam. Não sou uma pessoa silenciosa. Não sou uma pessoa fácil. E detesto a ideia de que manter uma imagem que não possuo. Detesto gritos sussurrados. —— A Pulse acabou de fechar um contrato com a gente! —— Trinco meus dentes, encarando-a agora com descrença; a gente? Quem era a gente? Sou apenas a porra de um produto, e Massaro é o filho da puta que o vende. Não existe a gente. Não existe nada além da venda. —— Milhões, ! Por causa desses caras! A única coisa que pediram, o único critério para manter o investimento, era que eles seguissem à risca o contrato deles! Não expô-los ao ridículo, priorizar os álbuns a serem lançados e não envolvê-los em relacionamentos. Eles não podem ter relacionamentos! E qual é a primeira coisa que você faz? —— Holly pragueja.

Inclino minha cabeça para o lado encarando-a por um longo momento. Estreito meus olhos, mais com impaciência do que desconfiança.

—— E como isso pode ser culpa minha? —— Quando exponho meus dentes dessa vez, não é em um sorriso, mas uma careta, controlada e diminuta em intensidade. Holly pisca com minhas palavras, parecendo ter percebido o que suas palavras realmente convinham, mas agora, já é tarde demais. As pessoas costumavam a chamar-me de tentadora, de provocativa, mas a verdade era que pouco fazia; só oferecia a porra de um convite, se aceitavam, como poderia ser minha culpa? Eu ao menos pedia por consentimento antes. —— Não obriguei ninguém a me foder, Murray. —— Solto uma risada afiada, descrente antes de erguer o queixo, desafiadora. —— Não é como se isso tivesse importado alguma vez, não aqui, certo? Vocês não costumam pedir por uma noite de sexo e drogas, vocês só tomam.

Holly engole em seco, e posso ver a mistura de raiva por ter sido incluída naquela maldita caixa, mas igualmente não pode dizer que não. Ela sabe tão bem quanto eu a verdade suja ali, sabe exatamente ao que me refiro, às pobre idiotas que aceitam ser acompanhantes sem saberem para o que estavam se oferecendo participar. Não deveria ter incluído Holly naquilo, mas igualmente, ela não deveria colocar a culpa em mim. Não arrastei para cama, ele veio porque quis.

—— , calma, não é assim também, não quis dizer… —— Holly começa a tentar se defender, mas seu tom apologético me dá nojo, e de repente quero rir, mas não há felicidade alguma no som que sairia. Quero gritar, quero empurrá-la para fora do meu caminho; ao mesmo tempo, não sinto nada, perco o interesse na discussão. Novamente aquela sensação desconfortável e sufocante envolve-me como plástico laminado, é apertado demais para que use minhas unhas para arrancá-lo de meu rosto, para que ajude-me a respirar direito. A sensação de ser contida dentro de uma caixa sem buracos para entrada de ar, o vazio gritante que aumenta de tamanho gradativamente. Há um buraco em meu peito, vazando, posso senti-lo, mas ninguém parece enxergá-lo; para meu desespero, parece estar ficando maior.

—— Que corajoso você mudar de opinião assim tão rápido, Murray —— dou um passo na direção dela, e a vejo encolher-se. Não contenho uma careta de nojo ao observá-la se acovardar. Pior do que passividade, era a covardia que pessoas como Holly costumavam demonstrar. Forço um sorriso afiado, observando os olhos agitados dela, moverem-se ansiosamente em direção da entrada do corredor. Ela teme que alguém nos escute, não a mim. O gosto amargo em minha boca parece aumentar. Holly está apenas tentando sobreviver a Hollywood, não posso julgá-la por isso, mas não deixa de ser uma pílula amarga a engolir; dolorosa, e grande demais, parece ficar enroscada em minha garganta, ameaçando sufocar-me. Aperto meus lábios em uma linha fina. —— Porque é fora dos limites? Os outros não têm o mesmo tratamento que ele? —— Cedi a minha própria curiosidade, mas não faço menção alguma de mudar minha postura.

Holly pisca outra vez, parecendo pegá-la de surpresa com a mudança abrupta de assunto. Não a julgo, também ficaria desconsertada e desnorteada se tivesse que acompanhar uma conversa que ia sobre estupro para uma fofoca qualquer. Ainda assim, observar o rosto dela, mas dá pausa: vejo-a desesperadamente tentar livrar-se de seus pensamentos, com um chacoalhar de cabeça, o rubor que subiu para suas bochechas ainda esta ali, os olhos desconfortáveis, pousam em qualquer lugar menos meu rosto. Sempre achei engraçado como as pessoas pareciam ficar envergonhadas, às vezes, até ofendidas por ouvir a verdade, quando uma mentira seria dita com um sorriso largo e nenhum peso na consciência. Espero, mais paciente do que sou, pela resposta dela.

—— Não, é critério da Pulse, nenhum deles pode se relacionar, nem mesmo quando são trainees —— Holly pigarreia, sua voz baixa, cautelosa e incerta, quando assumi que não teria uma resposta para minha pergunta. Aperto meus lábios um pouco mais, inclinando minha cabeça para trás, e voltando a linha de meu olhar na direção da sala ao final do corredor, a direita. A sala de Massaro deveria estar trancada, mas bem, nunca poderia escapar do meu passado como uma jovem delinquente, então é claro que tenho a porra da chave para abrir aquela merda. —— só é… um pouco mais complicado… ele não é só um Idol, , ele é bem importante lá na Coreia, o pai dele… —— Holly começa a dizer, mas então se interrompe abruptamente. Encaro-a com uma ponta de irritação, mas contenho quaisquer palavras que pudesse rosnar para ela. Percebo de imediato que ela não quer falar nada sobre a vida do idiota. Tudo bem, consigo descobrir sobre sozinha. —— A gente pode parar com isso? Não é como se você tivesse com tempo sobrando, podemos só focar no dia de hoje?

Deixo um sorriso preguiçoso se espalhar por meus lábios, assentindo para ela enquanto me afastava, andando de costas, em direção a sala de Massaro.

—— Ah, relaxa, Murray, tira o dia de folga, a gente não tem mais nada importante para fazer mesmo —— digo sarcástica, ciente que estou tornando o trabalho dela impossível, mas bem, ela merece. Giro em meus calcanhares antes que Holly possa tentar convencer-me a comparecer a todos os compromissos que tenho no dia, e então retiro o cartão para liberar minha entrada na sala de Massaro. A vantagem de se fazer amizade com o pessoal da segurança era ter acesso a sala deles com a desculpa que só queria um café. Ou a promessa que, se fizerem o que digo, talvez tenham alguma sorte comigo. Contenho o impulso de revirar os olhos, desdenhosa.

•••

Os troféus que ganhamos espalham-se por uma parede à esquerda do escritório de Massaro. Há vários, grammys, VMA, Billboards, até mesmo marcas de visualizações do youtube. Como Virgil e Jex eram britânicos, temos até mesmo uma medalha da Coroa por nossa “contribuição” para a cultura; lembro-me vagamente desse dia, dos burburinhos, especialmente quando mantive minhas mãos dentro do bolso das calças ao ver a família real se aproximar. Fui desrespeitosa, é claro, o público britânico veio atrás de mim no segundo que as fotos vazaram, mas bem, ainda sou uma rockstar, não sou? Desafiar e ir contra tudo o que dizem é meio que minha marca, não entendo a surpresa disso. Em um canto mais abaixo há uma fotografia da formação original da banda, com um nome ridiculo, idiota, e com quatro jovens que meramente tinham ideia do que estavam fazendo. Tinha ainda aquela foto em casa, mas estava rasgada, uma pessoa faltava na minha cópia. Uma pessoa que permanecia nesta versão.

Nolan.

Minha garganta parece ficar sensível. O gosto de bile mistura-se em minha saliva, parecendo deixá-la mais espessa, escorrendo por minha garganta como arames, sufocando-me à sua maneira. Minha traquéia dói, e meu corpo responde com um arrepio, um tremor que faz minhas mãos tornarem-se ainda mais amortecidas. Não posso deixar de encará-la, todavia, não importa o quanto tente. Porque Nolan parece estar brilhando ali. O sorriso largo, a covinha no canto do rosto, os olhos cintilando como os de um gato, dá para ver que o braço dele envolve minha cintura. Contenho um bufar repleto de escárnio, Joel Massaro não era o tipo de pessoa que colocava à disposição memórias, mas sim prêmios. Tudo naquela sala era sobre controle; é claro que ele deixaria aquele “memento” não por carinho, mas por um lembrete silencioso.

Joel Massaro era um ótimo empresário, mas uma pessoa terrível.

Enterro o porta retrato ao fundo da prateleira, virado para baixo. Não há motivo para chorar sobre o leite que já foi derramado e já havia secado. O passado continuaria sendo o passado, não havia utilidade alguma. Caminho em direção a mesa dele, alçando da bomboniere que deixa no canto da mesa, procurando pelo bombom mais amargo que consigo encontrar, um de líquor ao menos, amarula, antes de lançar-me contra a cadeira estofada macia dele. Estico minhas pernas sobre a mesa, observando o montante de papelada. Boa parte são apenas contratos e campanhas de marketing; duas companhias de jeans que querem explorar quaisquer que sejam a natureza do meu relacionamento com Danny. Uma marca de bebidas quer fazer uma propaganda com Jex, e tenho certeza de que ele vai adorar a chance. Há igualmente previsões de números nos charts, nas listas de mais escutados e no crescimento e decaimento dos ranks. Faço uma careta, exasperada, detesto ter que admitir, mas é por isso que precisamos de Massaro.

Era ele que ficava de olho nos números, nas tendências, era ele que aprendia o que os fãs queriam, e lhe entregava o que desejariam em seguida. No final, mesmo que possa compreender a um certo nível suas intenções, não sei vender melhor do que ele. Por isso que ele torna-se indispensável para nós. Para qualquer um que ele escolha entregar o mundo nas mãos. E em algum momento eu fui essa pessoa; em algum momento, ele quis me oferecer tudo o que poderia, mas então um dia eu comecei a latir, e ele se irritou com isso. Trinco minha mandíbula com um estalo, jogando as pastas de volta para a mesa dele, inclinando-me para trás e encarando o teto. Alongado, feito de gesso com detalhes vitorianos que pouco convém à estrutura moderna de vidros e metal que o prédio possuía.

Ao menos tinha ar condicionado e um ventilador de teto. Suspiro pesado, girando na cadeira para observar a janela panorâmica atrás de mim, considerando onde diabos ele estava, então impulsionou minhas pernas outra vez, de frente para a mesa. Arrasto-me um pouco mais para frente, alçando o teclado de seu computador e tentando lembrar da senha. No fim, acabo contentando-me com o acesso a sua agenda. Estreito meus olhos, há inúmeras reuniões riscadas ali, mas percebo rapidamente que são a tratar-se da banda. Reuniões com acionistas com outros produtores executivos, mesmo diretores para os dois clipes que tínhamos que gravar foram desmarcados e realocados para uma data mais distante. E então, ali, em um claro destaque de importância, o nome BEATBOIZ, e Pulse aparecem com maior frequência do que deveriam. Há igualmente pequenas anotações para outros grupos em potenciais da Pulse para ficarem sob a administração de Massaro. Mordi o interior de minhas bochechas com mais força do que deveria, levando minha mão em direção a boca, passando minha unha contra meu lábio inferior.

Estamos caindo no ostracismo.

Posso sentir o fogo da raiva começar a espalhar-se por meu corpo, do centro do meu peito, para as pontas dos meus dedos dos pés. Aquece-me com uma cólera terrível, ondas elétricas de adrenalina percorrem minha corrente sanguínea, travam meus músculos, prendem-me no lugar. Esfrego os dedos da minha mão esquerda um nos outros, sentindo-os ficar um pouco mais amortecidos, trêmulos, pequenos espasmos que são acompanhados pela sensação desconfortável de formigamento faz-me perceber de imediato que há algo de errado comigo. Uma parte de mim quer destruir aquele maldito escritório inteiro, como Joel ousava nos descartar agora? Como, depois de tudo o que ele já havia nos colocado e feito passar, depois de o fazer ter dinheiro o suficiente para não se importar com mais nada se não a porra da cor de seu terno, ele ousava nos substituir. Já a outra parte, mais racional, compreende o que está acontecendo: faz parte do jogo, ou você se mantém relevante, ou você é esquecido. O que importa são as vendas, e não há coisa que venda mais do que um bando de filho da puta bonitinho apelativos para adolescentes. Eles podem ser considerados piada eventualmente, podem ser rotulados de maneiras pejorativas porque é isso que acontece quando seu público é majoritariamente feminino, você é descredibilizado, mas ainda assim é um público em peso que compra.

Sou a vocalista da TSH, nós somos tudo, menos para o público infanto-juvenil. Nosso público majoritariamente não é composto por meninas sonhando com um amor de cinema ao idolatrar seus ídolos, nós somos sujos, somos problemáticos e polêmicos. Boa parte do apelo não vem do meu talento para segurar uma nota por mais de minutos, mas do quão revelador meu corset no palco será. Sexo nunca irá parar de vender, por mais depreciativo seja essa compreensão, é um fato, tudo o que precisamos fazer é apenas criar algo apelativo e que estaremos de volta ao topo. Mas é uma armadilha: você precisa sempre deixar um gosto de inacabado se quiser manter a atenção, caso contrário, perde-se o interesse. Caso contrário você é só mais uma; além disso não posso implicar um título a mim, precisa ser orgânico. As pessoas já me chamam de vadia o tempo todo, não preciso agregar outro título pejorativo por simplesmente parecer “forçada” . É fácil cair no desespero e complicar-se à toa, é fácil querer resultados imediatos; não, preciso ser mais inteligente que isso. Preciso lembrar a Massaro porque nós nos tornamos quem somos. Preciso lembrar aos acionistas porque depois de tanto tempo, ainda não fomos esquecidos, e preciso lembrar ao mundo, porque eles escolheram me chamar de vadia.

Do que adianta vender algo sem convencer o comprador de que há uma alma para performar a ele? Posso fingir que ainda tenho uma, e posso lembrar Massaro porque ele está dando um tiro na porra de seu pé. Vou gostar de fazer isso. Encosto-me contra o estofado da cadeira dele, alçando uma caneta apenas para girá-la entre meus dedos, esperando que ele chegasse. Em algum momento, acabam por distrair-me pesquisando mais sobre a Pulse. A princípio é apenas idiotice, superficial, e notas oficiais, mas então encontro algo que chama minha atenção, ou ao menos desperta meu interesse: Seok-Woo . Estreito meus olhos, tentando puxar em minha memória de onde já havia ouvido falar daquele nome. Afundo um pouco mais contra a cadeira, girando um pouco mais rápido a caneta por meus dedos. Tento puxar em minha mente de onde vinha aquela sensação de familiaridade.

E então, quando viro meu rosto para a direita e encaro os envelopes elegantes enterrados em meio as pastas de contratos, o papel caro pesado e as letras cursivas cobertas com folhas de ouro, recobro-me de onde já ouvi aquele nome. O evento de alta costura que acontecia todos os anos, anfitriado pela editora chefe de uma revista famosa. Inclino minha cabeça para o lado, tentando encontrar alguma foto do homem, mas é difícil, sua marca é pública, mas sua vida é perfeitamente privada —— quase o invejo. Seok-Woo, repito o nome abaixo de minha respiração, tentando lembrar do momento exato, mas eu deveria estar chapada demais para perceber algo que não fosse os flashes dos fotógrafos no red carpet. Paro de girar a caneta entre meus dedos, jogando-a para o lado e então arranhando com minhas unhas meu couro cabeludo. De onde o conheço…?

Dois minutos depois, encontra a resposta. Herdeiro de uma rede televisiva nobre na Coreia do Sul, atual CEO da marca, tentando imigrar para o streaming em parceria recente com uma produtora cinematográfica importante. A expansão deveria ter chegado agora na casa de bilhões, um montante de dinheiro considerável que dava controle para definir o que tornava-se tendência e o que não seria. Tanto dinheiro que nem mesmo eu, ou Massaro iremos ver em nossas vidas. Faz sentido que Massaro queira afagar o ego de Seok-Woo; é seu filho. A porra do filho de um bilionário, pior parte da família herdeira de um império na indústria cultural; exalo entre meus dentes cerrados, arranhando com um pouco mais de intensidade meu lábio inferior. Então não era apenas o contrato que o colocava como problema em minha vida, era a porra de uma herança bilionária. O desgraçado era um nepobaby e ninguém parecia se importar, ou se o faziam, imagino quais seriam as desculpas. Mas então, também, há sempre uma forma de usar isso para minha vantagem.

De repente, percebo como tudo parece se encaixar. É claro que Massaro irá priorizar os BEATBOIZ, eles tem o dinheiro, a mídia, exatamente tudo para que seus nomes não sejam esquecidos, mas mais importante que isso, eles têm o montante de dinheiro que Massaro quer. Estou tão compenetrada em meus próprios pensamentos que não percebo quando a porta é aberta e Joel atravessa a sala com passos calmos, o solado de madeira reverberando pelo espaço irritante, dirigindo-se a onde estou sentada. Volto meu olhar na direção dele, sem ocultar meu desprezo, e percebo como os olhos dele percorrem meu corpo; sei o que ele nota, as manchas de mordida, os chupões que as tatuagens não podem ocultar, a roupa que não estava usando ontem e que não é do meu tamanho. Não faço menção alguma de sair onde estou, apenas fico ali, encarando-o com intensidade, tentando ver seus pecados, mas apenas vejo meu reflexo. E sinto repulsa.

—— Deveria ter imaginado que você daria um jeito de pegar a chave, não preciso lembrá-la do que acabou de fazer é um delito criminal, certo? —— Joel resmunga e seu tom indiferente quase me faz sorrir. Ajeito-me na cadeira estofada dele, movendo minha mandíbula com um pequeno estalo, irritada. Joel abre as abotoaduras de seus punhos, jogando-as em um pequeno potinho de cristal no canto com as canetas, antes de puxar a gravata para baixo e retirar o fone intra-auricular de sua orelha esquerda e jogá-lo sobre as pilhas de papeis em sua mesa. —— Então, diga logo, o que quer?

Dou de ombros desdenhosa, analisando minhas unhas como se não me importasse com sua presença ali, ou que minhas mãos estivesse amortecidas com a tensão crescente, mas se há alguém que pode ver através de minha máscara, era Joel —— ele havia ajudado-me a criá-la, afinal.

—— Fiquei curiosa —— digo por fim, exalando baixo e voltando meu olhar para ele, indiquei com o queixo na direção dos contratos. —— Quer dizer, por que Joel Massaro, se daria tanto ao trabalho de proteger e blindar uma boyband estrangeira que sequer faz a linha da gravadora? Eles não tem nada aqui. Levou dois anos até que nós conseguíssemos um convite para a Boca do Inferno, e eles mal pisaram em solo americano e já conseguiram —— posso ver uma veia começar a pulsar na lateral da cabeça de Joel, mas se ele está realmente irritado, não posso dizer, sua expressão é contida, os olhos estreitados, são analíticos. Meu rosto se contorce em um sorriso discreto, controlado, ao deixar minha nuca pousar contra o encosto de cabeça. É macio, confortável demais para que consiga ver-me dormindo aqui se não tomar cuidado. Aponto meu indicador em direção a ele, o esmalte vermelho escuro de minha unha parece atrair sua atenção porque ele a encara por um momento antes de voltar o olhar para meu rosto. —— É sobre Seok-Woo, não é? Ora, ora, Joel Massaro —— solto um riso nasalado que soa tudo menos divertido. —— Nunca pensei que veria você se tornar a cadela de um bilionário.

Massaro não reage a minhas palavras, as frustra de imediato com o silêncio, mas é a sobrancelha erguida em seu olhar desdenhoso que coloca meu corpo em alerta.

—— Não consigo ver o porquê, você se tornou a minha, não foi? —— Massaro pontua, um pequeno sorriso começando a surgir por seus lábios. Mais uma onda sufocante de fúria quente, mal contida, percorre por meu corpo, e por instinto, retiro minhas pernas de cima da mesa. Ele percebe meu nervosismo, e isso apenas faz com que seu sorriso aumente. Maldito… —— A verdade incomoda agora? Essa é nova.

—— Se essa fosse a verdade, huh? Mas você deixou muita coisa convenientemente de fora, não? —— forço as palavras por meus dentes trincados, tentando parecer o mais contida e controlada que posso, mas estou falhando miseravelmente, e Joel está percebendo. Levanto-me quando ele se aproxima de sua cadeira. Não é porque quero dar-lhe espaço, mas por mero instinto. Não quero que ele chegue perto, ainda assim, ele o faz. Aponto o indicador em direção ao peito dele. Sabe que vou morder se tentar qualquer coisa, já o fiz antes, mas não adianta de nada quando a pessoa que você tenta ameaçar, também é seu chefe. —— Quando você iria contar que está propositalmente afundando a minha banda para que os garotos de Seok-Woo ganhem destaque?

Massaro revira os olhos, dando um passo em minha direção, mas dou um para trás, empurrando com as costas de meus joelhos a cadeira. Minha unha agora está em seu rosto. Em comparação, temos uma altura próxima, mas mesmo que desejasse rasgá-lo com minhas unhas, além de ser uma ideia estúpida, eu sabia que ele era mais forte do que eu.

—— Tão dramática, você não se cansa disso, ? É drama o tempo todo, parece que você é desesperada por atenção assim, querida —— Joel revirou os olhos, trinco meus dentes com força. É claro que era drama, um drama bom o suficiente que pagava a bunda descarada dele bem o suficiente! Não o respondo, não me movi, apenas fico encarando aquele rosto desprezível, sentindo vontade de arrancá-lo com os dentes, e, ao mesmo tempo, colocá-lo a um braço de distância. Detesto o cheiro do perfume dele, faz com que meu estômago fique sensível, e de repente tudo o que quero e esconder-me em algum lugar até que ele tivesse esquecido de minha existência. —— Anda, se mexe, passei a manhã inteira em pé e quero sentar —— ele gesticula para que eu dê espaço para que ele finalmente se sente em sua cadeira.

Ainda tensa e dura, afasto-me de sua cadeira com alguns passos para trás, fuzilando-o com o olhar. Joel solta um grunhido baixo, ajustando-se contra a cadeira.

—— Este é só o jogo, querida, achei que já havia te explicado antes, mas surpreendentemente, você é bem mais estúpida do que sou capaz de dar crédito —— Joel diz, afiado como uma navalha, e tento conter um sorriso afiado. Eu sou estúpida? Essa era nova para mim. Joel exala suavemente, esticando as pernas abaixo de sua mesa, e então voltando seu olhar em minha direção. Sinto algo dentro de mim se contorcer, e de repente, há uma grande necessidade de minha parte de rastejar para fora de minha pele. Quero rasgá-la com minhas unhas, e contorcer-me até que seja apenas um amontoado de ossos no chão, longe dele. —— Permita-me explicar então, pode ser? Veja , tudo o que existe, é demanda e oferta —— sua voz é condescendente e trinco meus dentes com mais força. Pior do que ser desafiada, detesto ser tratada como se fosse uma criança mimada, é meu orgulho ser ferido por algum idiota como Joel Massaro. Sentir-se diminuída em frente ao filho da puta como Joel nunca deixava um gosto bom em minha boca. Observo sua cabeça, considerando que seria tão fácil apenas agarrá-la e empurrá-la contra a mesa. Considero que seria tão mais fácil só destruí-lo; não posso fazer, mesmo se quisesse. É ele que segura a ponta de minha coleira, não o contrário, então faço o que aprendi com os anos convivendo com ele, eu fico em silêncio, sustento seu olhar, mascarando minha expressão ao máximo que consigo. Esforço-me para não deixar nenhuma emoção escapar. O sorriso deliberado, contido em seu rosto, diz o contrário. —— O público queria uma musa, e eu entreguei exatamente isso para eles. Eles queriam uma deusa, demanda, e então eu entreguei você, oferta. Agora o público quer um rostinho bonito, talvez uma personalidade mais doce e menos vulgar, e porque não, mais instigante. Não precisa exagerar dizendo que estou tentando destruir sua carreira, você não precisa de ajuda para fazer isso sozinha, querida.

O gosto amargo cresce em minha boca, e posso sentir a parte de trás dos meus olhos queimarem o rosto dele. A pressão de lágrimas que nasciam justamente pela minha própria frustração, pela minha raiva do que qualquer outra coisa, mas basta um piscar para que algo mais frio corrompa meu peito. Espalha-se, aplacando o fogo crescente da raiva, mas corroí-me de dentro para fora, aumentando o buraco ao centro do meu peito.

—— Você já foi melhor em mentir, Massaro —— índico com o queixo na direção dele, sentindo o nojo aos poucos se transformar em desdém. Sempre que conversava com ele, ao menos quando éramos somente nós dois, duas emoções batalhavam por dominância em minha mente. A primeira, é claro, era de medo, a incerteza de que não tinha ideia do que se passava em sua mente, e do que poderia fazer comigo. O que quer que me oferecesse, era quase impossível de ser recusado, e eu sabia onde isso terminava. Já a outra parte, apenas sentia nojo por ele ser apenas patético. Espera-se que homens com poder sejam aquelas figuras imponentes, perigosas e até mesmo sexy, que atuem com firmeza e intensidade. Para admirá-los você precisa temê-los, mas a um limiar terrivelmente visível de o quão patético esses homens podem ser se olhar de perto. São como garotinhos mimados, brincando com seus bonequinhos, gritando imperiosamente pela serva para que lhe sejam servidos doces. Não há como admirar alguém como Joel, ele poderia ser bom no que fazia, mas não era o único que o fazia. —— Você não está interessado na demanda, você está criando uma própria. Deixe-me adivinhar, um grande investimento de Seok-Woo, não? —— quase solto um riso desprovido de quaisquer traços de humor em minha voz. Alço da mesa dele o contrato que assumo que provavelmente deveria pertencer a , observando as letras com detalhes holográficos da “Pulse”, agitando-a no ar. —— Quando Seok-Woo conseguir o que quer, que é metade dessa empresa, e espaço para migrar o negócio dele para cá, o que você acha que irá acontecer com você?

Joel solta um riso baixo, parecendo achar graça de minha pergunta. Sinto que atinge em cheio meu ego, despedaça-o em fragmentos dolorosos que cravam-se na piada ridícula e mísera que deveria ser minha alma, mas contenho o impulso de rosnar, de reagir como ele quer que reaja. Não, não desta vez.

—— Virou uma conspiradora agora, ? Querida, já conversamos sobre isso, não fica bem em você —— Joel desdenha, mas mantenho meus olhos fixos no contrato. Há tantas cláusulas, tantas regras que não me surpreendo que tivesse parecido tão inalcançável na noite anterior. Sinto um sorriso amargo surgir por meus lábios, percebendo que para alguém com tanto a perder, ter dormido comigo não era apenas um deslize. Não, ele deveria ter planejado algo também… percebo, um pouco tardiamente, que o que ele planejou na verdade é bem simples. Descredibilizar-me. Não é a invenção de uma roda, na verdade é uma tática bem comum. Quem iria acreditar em minha palavra se sou considerada só mais uma vadia? E ele, sendo um adorável estrangeiro em busca de um sonho? Atribuído a uma infantilidade ridícula pelo público? Como ele poderia ser um filho da puta, huh? Jogo o contrato de volta na mesa de Massaro, apoiando minhas mãos em meus quadris, minhas unhas fincam-se na carne que há ali.

Tudo bem, tudo bem, eu subestimei o idiota. Um erro do qual não cometerei mais.

—— Tudo bem, Joel, você está certo, não combina comigo —— digo vagarosamente, forçando um tom doce que sei que ao menos vai perturbá-lo por um tempo. Joel sempre parece satisfeito quando vê-me prestes a explodir, mas é minha docilidade que o tormenta; todos sabem que se há algo que não sou, é uma pessoa doce. Forço um sorriso agradável para ele, antes de deixar minha expressão se esvair para uma carranca mais confortável. —— Só preciso focar em ser encantadora e continuar fazendo meu trabalho, certo? Meus talentos já foram estabelecidos na indústria, não tem porquê mudar agora. Sou o que você criou.

Joel parece fazer uma pausa, unindo as sobrancelhas por um momento, antes de apoiar os dois cotovelos sobre a mesa. Uniu as mãos a frente de seu rosto, lançando-me um olhar ameaçador, mas acho que já estamos para além daquele maldito jogo de poder. Não, Massaro poderia fazer-me querer pular de uma janela apenas com seu olhar, e uma parte de mim, sabia que era mais inteligente temê-lo, não apenas por quem era, mas pela frieza com que agia, mas a outra? A outra já estava determinada a lançar-se a chamas; se fosse destruída, ao menos que tivesse uma plateia para levá-los junto comigo. Não vou cair sozinha, e disso, tenho certeza que ele também sabe.

—— Espero que esteja dizendo que não irá mais se intrometer nos assuntos que não lhe dizem respeito, e que, desta vez, irá seguir o cronograma como o combinado —— Joel diz com um tom de voz baixo, cauteloso, quase perigoso. Sinto um sorriso torto começar a despontar por meus lábios, ao inclinar-me para frente. Apoio minhas mãos na lateral da mesa, observando-o com cuidado. Ele era tão assustador quanto patético, era por isso que havia uma parte de minha mente que só sentia vergonha por temê-lo. —— Não me faça escolher entre você e eles, , sabe que amo você, temos uma história fantástica, mas serão eles —— Joel quer parecer ameaçador, desdenhoso, mas só faz meu sorriso aumentar. Afiado, sinto-me como uma gata, perto de arranhá-lo apenas pelo prazer de o fazer.

—— Mas o que você é sem nenhum artista para expor? —— Retruco com um sorriso largo, encarando-o com atenção, antes de me endireitar. Ajusto a gola da blusa que roubei de antes de fugir do quarto, com um movimento exagerado para que ele observe o tecido antes de dar de ombros. —— Acho que quero uma assim, gosto da sensação do linho na pele. Pergunte por mim a onde ele conseguiu a camisa, estou pensando em mudar um pouco meu estilo. Você sabe, eu não costumo ficar de conchinha então não tive tempo de perguntar eu mesma —— o veneno escorre por meus lábios, o cinismo tinge minha voz com um escárnio cresce e sei que entrei na pele dele pela maneira com que a veia em sua testa projeta-se por sob a pele, latejando. Sustento o olhar dele, atrevendo-me a lançar-lhe uma piscadela, antes de caminhar em direção a porta, desesperada para sair dali o quanto antes.

Fecho a porta atrás de mim com um clique suave, sentindo o tremor aumentar. Minhas mãos estavam amortecidas o suficiente para que não perceba que sequer consigo fechá-las em punhos. Parecem estranhas, como se não me pertencessem, o tremor se mistura com o amortecimento e tenho vontade de mordê-la. Não tenho certeza se consigo segurar alguma coisa desse jeito, então quando marcho em direção a onde Holly está, sentada, observando um copo de café que deve ter resfriados em suas mãos, parecendo à beira das lágrimas, ignoro sua tentativa de oferecer-me a bebida e apenas indico com o queixo para que seguíssemos com a programação do dia. Caminho com ela em direção aos elevadores, unindo minhas sobrancelhas o mais séria que consigo, aperto de mal jeito o botão do elevador.

—— Consegue para mim um NDA, peça a minha irmã e ao marido dela se for preciso, mas quero um, sobre a noite de ontem. Não a porcaria que a Boca do Inferno tem, quero algo que proíba de dizer uma palavra sequer sobre o que aconteceu —— comando sem esperar uma resposta, ignorando quando o elevador ao lado ecoa com aviso que havia chegado ao lado. Chamo por Holly, para que ela siga-me, esbarrando em alguém, mas não paro ou importo-me em desculpar-me, apenas entro no elevador, e esmurro o botão. Ouço um assobio e um comentário em coreano, mas não importo-me o suficiente para sequer anotá-lo em minha mente. Tenho meus olhos fixos em Holly, e tenho certeza de que ela irá fazer o que quero, custe o que custar.

Era para isso que ela servia.

—— AQUELA ERA ? —— KAIN DIZ COM UM SORRISO LARGO, EM COREANO PARA QUE NINGUÉM MAIS ENTENDA ALÉM DE NÓS.

Não o respondo. Uma parte de mim ainda está chocado com o desdém da rockstar. O golpe, ainda que acidental, parece reverberar por meus ossos, acompanhado daquela sensação elétrica que ela parecia exalar, acompanhado do choque abrupto. Levo minha mão instintivamente para o local acertado, prendendo minha respiração e franzindo o cenho. Então, há uma frustração gritante; acabou de passar por mim e sequer me viu?! Sinto o impulso de estender minha mão para impedir que o elevador se feche, exigir que reconheça-me, mas então, ela já foi, o elevador já começou a descer, e deparo-me com meu reflexo. Solto um chiado entre dentes, minha respiração um pouco mais rápida do que gostaria, com o montante de frustração. Balanço minha cabeça, tentando manter o foco claro; foi só uma transa, só uma noite qualquer, não era como se eu não tivesse tido casos de uma noite na minha vida. Mas sempre havia sido eu a passar com indiferença não? Acho que há uma vingança poética, considerando os corações que parti antes da morte de Suho, elas se sentiriam satisfeitas de saberem que fui eu quem virou só mais um nome na cama de .

Sou acometido, de repente, por uma estranha incerteza: pela maneira que ela estava gemendo, assumi que havia gostado, mas foi só fingimento? era lá assim tão boa atriz? Parte de mim queria acreditar que ela não era, mas então, aquela conversa com Danny, a baterista dela continua voltando à minha mente. As palavras, as acusações, mesmo as expressões era tudo calculado. Sinto minha mandíbula apertando-se, a eletricidade torna-se em algo mais quente, mais profundo e perigoso. Aceitei o papel de palhaço, uma parte porque queria ver até onde ia, já a outra porque queria saber como era estar com ela, mas ser esquecido? É claro, ela é uma rockstar, duvido muito que tenha algo que ela não tenha feito ou experimentado antes, em comparação, considerar-me medíocre chega a ser patético, mas imediatamente esquecido? Quando ela ainda estava com minha blusa? Não é apenas um golpe em meu ego doloroso, é um choque de realidade, uma piada ridícula. Sinto um riso depreciativo começar a borbulhar por meu peito, mas o contenho. Passo minha mão por minha face, tentando livrar-me dos resquícios de ressaca que ainda tornam minha cabeça sensível, que fazem minha visão parecer saturada, suscetível a aceitar a absorção de luz mais fácil. Tento aliviar o montante de frustração crescente, mas quanto mais penso nisso, quanto mais lembro-me da maneira com que ela havia encarado-me e a forma com que sequer parecia ter me enxergado ao entrar naquele elevador, mais irritado fico.

Não sou invisível. Não sou qualquer um. Sei que não, então porque a indiferença dela incomoda? Tsc, perda de tempo…

—— Aish, se for, não é muito educada, huh? —— comento com uma indiferença forçada, abrindo um sorriso torto para Kain, espreguiçando-me languidamente. Meus músculos estão doloridos pela noite, e a sensação é gostosa, se não fosse o amargor da indiferença de e a certeza de que ela sequer parecia reconhecer-me agora, talvez tivesse um bom dia. Ouço Kain soltar uma risada forçada, seguindo-me pelo corredor. Os olhos do segundo vocalista do grupo, cintilando com uma pergunta silenciosa que ignoro deliberadamente.

—— Ela tem liberdade poética para isso —— Min-Hyuk surpreendentemente com sua opinião, projetando-se ao meu lado e dando-me um tapa nas costas, divertido. É um gesto amigável, mas quase me faz soltar um chiado que projeta-se em minha garganta, em resposta a sensibilidade da pele que ele havia acertado; as marcas de unhas de ainda latejavam, condecorando minhas costas como sua obra de arte pessoal. Agora, questiono-me se for tirar satisfações ela irá fingir que nada aconteceu… —— É bem mais impressionante do que achei que seria. Quer dizer, ela é… uau… —— Min-Hyuk diz com um quase sorriso, lançando um olhar em direção ao elevador uma última vez, antes de voltar a encarar-me com uma expressão divertida e um olhar especulativo. Não posso dizer porque, mas algo incômoda na expressão de Min-Hyuk, uma coisa era ter Kain comentando sobre , ele praticamente comentava sobre qualquer mulher ou homem bonito que se aproximava, mas Min-Hyuk quase nunca tinha um comentário sobre.

De todos nós era ele quem levava aquele contrato absurdo a sério. Tão arrisca que suspeitava que já tivesse entrado em celibato sem saber; não que esse fosse o problema. Solto um bufar nasalado, lançando um olhar de soslaio para meu melhor amigo, tentando ignorar o estranho aperto que envolve minhas entranhas.

—— Sério? Já vi mais bonitas. —— não consigo convencer a ninguém, nem a mim mesmo, com aquela mentira, mas não me importo como havia soado. Min-Hyuk estreita os olhos, erguendo uma sobrancelha, e troca um olhar silencioso com Eun-Ho; não gosto do que vejo, então uso Taehoon para divergir a atenção, acertando-lhe um tapa contra o peito usando as costas de minhas mãos, indicando com o queixo para que ele voltasse a si e continuasse andando. Empurro-o à frente de mim, mais porque queria um escudo, do que qualquer outra coisa. —— Você tem que começar a tomar cuidado com as merdas que você faz, cara, sorte que o lugar era privado, mas ainda assim se o boato sair não vai cair bem.

Taehoon deu de ombros, girando em seus calcanhares para encarar-me, um sorriso torto nos lábios e uma expressão petulante. Os cabelos mais curtos ainda estavam desalinhados, apontando para todos os lados como se ele não tivesse se dado ao trabalho de penteá-los, mas ainda estava apresentável. A jaqueta de couro que envolve seu tronco destaca a pele pálida, o rosto fino, quase o faz parecer perigoso, mas é o mesmo idiota que atormentou-me a viagem inteira para assistir Princesa Mononoke e havia chorado como uma criancinha com o final porque “havia sido lindo” o filme. Acho que dormi na metade do filme e acordei com os soluços de Taehoon.

—— Você se preocupa demais irmão —— Taehoon diz com um sorriso torto, e lanço-lhe um olhar silencioso. Ele dá de ombros. —— Se alguma coisa sair, tudo o que a gente tem que fazer é ligar para o seu pai e pedir para que ele dê um jeito, lembra?

Kain solta uma risada baixa, desdenhosa.

—— Isso só funciona com o principezinho aqui, Tae —— Kain pontua, mas percebo o veneno em suas palavras. É enviesado, distorcido para soar como uma piada, mas sei bem que seu desdém não é somente pela minha origem. Ofereço a ele um sorriso sarcástico, considerando quando iremos ter aquela briga. Sinto que a tensão pairar, ainda que imperceptível e leve, crescendo entre nós dois. Desde que nos conhecemos, quando influenciei a entrada dele no grupo que Jun-Woo queria criar, Kain havia desenvolvido algum tipo de repulsa velada comigo. Não o julgo por o fazer, ele era mais próximo de Suho do que a mim, posso perceber que, até uma extensão, ele igualmente culpa-me pelo o que aconteceu, mas Kain nunca deixa de atingir exatamente onde meu ego torna-se sensível. E a pior parte? Apesar do tom de escárnio e desdém que implica enviesado, não deixa de ser verdade. —— A gente é outro caso, pé na bunda na hora.

—— Não tenho culpa se dei sorte de nascer na família que nasci —— faço piada, mas a alfinetada contínua ali. Lanço um olhar enviesado para Kain que abre um sorriso largo, afiado, e por um segundo tenho a vaga consciência de que ele iria adorar conhecer . Os dois pareciam compartilhar ao menos a mesma capacidade de colocar-me em alerta mesmo quando não deveria. A ideia de Kain se aproximando de soa perigosa, o suficiente para enviar-me um desconforto que ignoro completamente, focando na tarefa em mãos. —— Mas isso não significa que as coisas que um faz não vá resvalar em todos —— onde está meu prêmio por ser a merda de um hipócrita?

Min-Hyuk solta uma gargalhada alta, gostosa, deixando sua cabeça pender para trás, enquanto os ombros tremem debaixo da camisa azul escura; destacava-se em sua pele com uma tonalidade azul escura que mais se parecia arroxeada sob a luz que encontramo-nos contrastando agradavelmente com os cabelos tingidos de azuis dele. Forço um pequeno sorriso, ciente do que ele irá falar, mas ainda assim, dói um pouco; sei que deveria ter acostumado-me com aquele tipo de reação, nunca fui o filho perfeito dos meus pais, este era Suho, nunca foi o amigo perfeito, este era Suho, nunca fui sequer metade do artista que ele era, mas observar a descrença de Min-Hyuk, ainda que seja uma piada às minhas custas, não deixa de atingir algum ponto sensível de meu ego já ferido. Não importava o quanto tentasse demonstrar minha mudança, não importava o quanto eu tentava acreditar que desta vez seria diferente, de alguma forma, sempre retornava para o mesmo ponto. Nunca saia do lugar. Os céus sabiam o quanto tentava, mas parecia em vão.

—— Nunca pensei que escutaria você dizer isso, quem é você e o que fez com o que eu conheço? —— Min-Hyuk provoca com um riso nasalado, dando um tapinha brincalhão em meu ombro, antes de seguir em direção ao estúdio. Obrigo-me a segui-lo, mas percebo-me congelado no lugar. Não é a naturalidade com que ele diz as palavras, é como estas reverberam por meus ouvidos. Um lembrete ativo da descrença que havia conseguido construir com meus erros passados. Chegava a ser cômico, se não fosse depreciativo, não importava o quanto tentasse, as marcas de meus erros passados jamais pareciam desaparecer, sequer ficar menos evidentes, ao contrário, a ironia dava-se com o tamanho da profundidade que adquiriam agora.

Mas eu ainda estava dormindo com , não? Ainda havia bebido quando sabia que não, e ainda podia sentir aquela necessidade ao fundo de minha mente. Pulsando, convidativa, mas do que nunca agora sinto-a pesar; tenho a desculpa perfeita para puxar a primeira garrafa que encontrar e finalizá-la o mais rápido que consigo. Tenho a desculpa para esquecer-me por um momento do oceano que puxa-me apenas para baixo. Para esquecer-me dos fantasmas que assombram o vazio e das garras que fincam-se em minha mente, arrastando-me de volta para o fundo, onde tenho certeza de que, quando a água invadir meus pulmões, e começar a afogar-me, não terei dessa vez ninguém para me salvar. Um exalo trêmulo escapa por entre meus lábios, baixo, quase imperceptível. Minha garganta está seca, dolorida, e tudo o que consigo pensar é em beber. Não é que o pensamento suma, fica apenas adormecido, ao fundo de minha mente, pulsando como um pequeno arranhão. Na maioria das vezes, era fácil ignorá-lo. Era fácil fingir que não estava sentindo nada, ou ao menos atuar com uma indiferença da qual não sentia nenhum pouco, mas eram em momentos como aquele que voltava em evidência.

Momentos em que não havia como encontrar uma forma de escapar de mim. Da culpa que parece enroscar-se mais e mais por minhas entranhas, fazendo-as se contorcer, fincando suas raízes fundo em meus músculos, travando-me no lugar. Ouço a risada nasalada de Kain e sinto o gosto amargo, pungente causado pela bile, escorrer de volta para minha garganta. Tenciono minha mandíbula com força. Kain está certo em culpar-me; se fosse Suho ali…

—— Achei que viriam mais tarde, se soubesse que seriam pontuais teria ao menos me preparado melhor —— uma voz grave projeta-se da mesa de som quando atravessamos a entrada do estúdio. —— Podem ficar a vontade —— O homem indica em direção aos estofados um pouco mais atrás de sua mesa de som, girando com a cadeira, para voltar em nossa direção. Ele se recosta contra o apoio da cadeira cruzando os braços sobre o peito largo, mas não parece outra coisa senão amigável. É quase um alívio.

Não preciso de muito para reconhecê-lo, e tenho minha confirmação quando Kain faz um toque um tanto elaborado para cumprimentar um completo estranho; aquele deve ser Doyle, o produtor. Lembro-me de Suho dizer que havia conhecido o produtor durante uma festa da Pulse em que ele havia sido convidado, não lembro-me dos detalhes, não deveria estar sóbrio no dia, mas lembro-me do sorriso largo que Suho tinha em seu rosto; lembro de como falou que o cara parecia ser um gênio, o tipo de pessoa que realmente havia nascido para ser um artista. Daqueles que sabia exatamente o que estava fazendo, o que funcionava e o que não trabalhava bem junto, que parecia ter uma criatividade profunda e uma maneira diferente de enxergar o mundo. Não lembro dos detalhes, mas lembro de Suho dizer que estava ansioso para conhecê-lo. Lembro-me de murmurar algo com indiferença sobre, e apagar no sofá como sempre acontecia. Agora sou eu quem trabalhará com Doyle. Tenho vontade de rir da ironia do destino, mas forço um sorriso agradável, estendendo minha mão em um cumprimento para o produtor.

Ele não me conhece, isso é nítido, mas não parece perceber a tormenta que espalha-se por minha expressão, se o faz, ao menos é discreto. Puxo um banco que encontra-se abaixo da mesa de som, mixagem e gravação dele, sentando-me ali com a estranha sensação de que estou caindo. Em queda livre, só consigo pensar que a única coisa que pode me impedir de atingir o chão é justamente um copo de bebida. Iria ao menos amortecer a queda. Eun-Ho solta um riso baixo de algo que Taehoon diz sobre Kain querer fazer inveja por já ter conhecido o produtor antes. Min-Hyuk puxa um banco e senta-se ao meu lado, lançando-me um olhar tranquilizador, embora sua atenção não demore muito para desvirtuar-se para o sketchbook de anotações de Doyle. Kain se joga no sofá a nossa frente, esticando as pernas sobre a mesa de centro, e apoiando os braços atrás da cabeça. Eu observo Doyle com mais atenção do que deveria.

Cabelos bagunçados, desalinhados, mas de um jeito que parecia deixá-lo menos como um descuidado, e mais como um rebelde sem causa, o tipo de rebelde que faria sucesso com qualquer mulher que gostasse da estética metaleiro dos anos 80. Era um estilo único que possuía, a henley preta que esticava-se sobre seu tronco era simples, mas adornado com os braços fechados de tatuagem, os brincos de ouro nos lóbulos da orelha e o piercing no supercílio esquerdo acompanhado por uma cicatriz o deixava estranhamente estiloso. Olhos verdes intensos, pareciam adquirir uma tonalidade mais caramelizada sob a luz amarelada baixa do estúdio. Ele tinha um sotaque forte, embora falasse de maneira calma e devagar para que Eun-Ho conseguisse acompanhar sem muitos desconfortos. A maioria de nós era versado em inglês, normalmente, cabia a mim ser o interlocutor entre as duas partes, quando não queria o fazer, como agora, era Min-Hyuk que assumia o papel. Nós traduzimos o que era mais complicado de compreender e traduzimos de volta para o interlocutor o que os outros membros estavam falando. Era cansativo, mas instintivo a essa altura. Isso não significa que todos nós não tínhamos a necessidade de compreender inglês, porque era uma regra rígida da Pulse, parte da preparação e treinamento era ter a certeza de que sabemos nos comunicar bem. Doyle tem um rosto forte, marcado por ângulos intensos, e parecia ser exatamente o que qualquer garoto sonharia em tornar-se. O tipo de galã que Hollywood produzia, mas de tudo no homem, o que me chama atenção é a lateral de seu pescoço.

Um pouco mais abaixo da linha de sua mandíbula, coberto pela mecha de cabelos longos que repousam em seus ombros e costas, encaracolados e desalinhados, percebo uma tatuagem escondida, pequena, familiar. Era delicada, discreta, quase impossível de notar, mas evidente se você soubesse o que estava procurando; um beijo. O formato monocromático, baseado em apenas contornos e pontilhados em degradê cinza, se destacava pela pele marrom clara. Estreito meus olhos com a estranha sensação de já ter visto aquela tatuagem em algum outro lugar, tento buscar em minha mente de onde poderia ser, mas meus pensamentos são interrompidos com a pergunta de Doyle sobre nosso processo criativo. Volto meu olhar para os olhos dele, e surpreendo-me com o quão verdes seus olhos são. Solto um pigarro, espelhando a postura dele, cruzando os braços, e esticando minhas pernas para frente. Cruzo meus tornozelos um sobre o outro, tentando conter o impulso de bater a sola de meu pé no chão, tentando aliviar a tensão crescente.

—— Os hits são criados pela Pulse, nós só seguimos o que é adequado para o conceito do grupo —— tento colocar da maneira mais profissional que consigo, a voz arrastada de ecoando por meus ouvidos com o escárnio e cinismo enlouquecedor, “Se a piada não se escreve por si mesma”. Odeio que a memória de sua voz faz com meu corpo, como sinto-me em alerta e ao mesmo tempo eletrizado com a mera lembrança de sua respiração contra minha pele, mas detesto ainda mais como ela parece estar certa. Explicar nosso “processo criativo” para Doyle agora soa estranhamente como uma mera piada, é nítido o quão manufaturado nossas ações, até mesmo personalidades e comportamentos eram; não havia nada de artístico no que fazíamos. Ocorre-me pela primeira vez a diferença de lugares em que eu, e estávamos; ela poderia ser uma femme fatale sem um pingo de consciência, mas suas músicas significavam alguma coisa. Poderia dizer o mesmo sobre as nossas? —— Mas não significa que não tenhamos composições próprias também, na verdade, estamos trabalhando nisso.

Doyle assente, o gesto vagaroso, parecendo considerar minhas palavras com cuidado, então ele levanta-se abruptamente. Faço uma careta, inclinando a cabeça para o lado, meus olhos seguindo o movimento que ele faz, leva a mão esquerda em direção à lateral do pescoço, coçando o manto de tatuagens que envolviam seu pescoço. Sou novamente levado a crer que já havia visto aquela tatuagem. Doyle pega um violão de dentro da cabine de gravação, e então retorna, estende-o em minha direção, mas é Kain quem toma para si o instrumento. O movimento atrai meu olhar para a assinatura elegante e afiada que há na madeira do corpo do instrumento, percebo então de o porque a tatuagem de Doyle me era familiar.

também a tinha.

O choque imediato envia-me uma onda de tensão, meus ombros latejam com a pressão que coloco neles, mas obrigo-me a afastar de minha mente o desconforto. Poderia ser mera coincidência; se fosse popular em qualquer site de imagens era puramente apenas uma ideia genérica que os dois tiveram a infelicidade de fazer. Mas algo a mais na situação que a torna, no mínimo, esquisita. É coincidência demais que compartilhasse a mesma tatuagem com aquele cara, estando no mesmo estúdio que ele, compartilhando o mesmos espaços para que assumisse que não havia algo ali. Pior, havia significado. Não faço ideia do porque, mas certamente não apaga o amargor em minha boca, se algo, apenas o faz crescer. Não cabia-me saber sobre, e tampouco faria diferença; seja lá qual fosse a motivação, seja lá qual fosse a história que ela parecia compartilhar com Doyle, não queria saber. Não importava. Havia sido apenas uma noite, nada mais. Tento afastar os pensamentos, tento focar na tarefa em minhas mãos, mas meu desconforto e frustração estão crescendo.

Preciso pensar em alguma outra coisa. Preciso tirá-la do meu sistema, da minha cabeça.

Apoio meus cotovelos sobre meus joelhos, inclinando-me para frente e estreitando os olhos para Kain. Há um desafio silencioso ali, uma armadilha da qual não irei cair, mas fico tentado a dar-lhe uma resposta equivalente. Doyle balança a cabeça em concordância, assumindo a mesma postura que eu, indicando para que Kain mostrasse as composições que Suho e ele passaram noites trabalhando; mesmo que tivesse sido eu a consertá-las posteriormente, não dava para deixar de sentir o montante de frustração crescente em meu peito. Min-Hyuk acerta minha costela com um movimento discreto, lançando-me um olhar de soslaio, uma advertência silenciosa. Porra, hoje não está sendo meu dia. Há igualmente a percepção pessoal que tanto eu quanto Kain possuímos de que somos dois trens descarrilados à beira de um choque. Não posso dizer que aceito suas justificativas, mas não posso culpá-lo igualmente; se Suho estava morto, era por causa de mim, e se Kain odiava-me por ter matado seu melhor amigo, então teria que lidar com isso pelo resto da vida.

Minha garganta contraí, seca e dolorida, e por instinto levo minha mão em direção a mesma, coçando-a. Está começando a ficar sufocante, até mesmo desvirtuando-me de meus próprios interesses e propósitos ali. Se pelo menos houvesse uma bebida por perto, algo que eu pudesse usar para aliviar o peso de minha própria consciência, de meu ego ferido e da minha frustração. Busco com o olhar por algo mas não há máquinas de venda ali, não tem como eu pedir por um energético ou até mesmo uma garrafa pequena de cerveja sem que Min-Hyuk ou os outros caras percebam. O tempo arrasta-se, insuportável. Passo minhas mãos pelo meu rosto, impaciente, e não tenho certeza se Doyle percebe algo, mas pego-o encarando-me em silêncio. Os olhos estreitam-se por uma fração de segundos, antes de anunciar, uma hora depois, uma pausa.

Para minha sorte é nesse momento que Sumi invade o estúdio com passos assertivos e claramente irritada. Não importo-me nem um pouco quando ela chama por meu nome com os dentes cerrados, parecendo estar se controlando para explodir, tenho vontade de agarrá-la pelos ombros e beijá-la como se não houvesse amanhã por oferecer-me a desculpa perfeita para sair dali. Para colocar um pouco de distância aquele lugar e a sombra de , mesmo que ela não esteja ali. Levanto-me abruptamente, agarrando minha jaqueta e disparo para fora do estúdio, concentrando-me em minha respiração.

Sumi era uma figura reconfortante. A conheci ainda quando ela era chamada por um outro nome, e antes de sua transição, mas ela sempre foi, irrevogavelmente, Soo-Min. Quando Suho e eu não passávamos de crianças idiotas, sempre competindo para ver quem teria um pingo de atenção, por menor que fosse, das pessoas que estivessem ao nosso redor; Suho costumava a ganhar qualquer adulto com sua postura meiga e mínima ridícula de etiqueta que nossa avó tanto fizera questão que nós aprendêssemos; eu costumava a causar o caos, gritar, desafiar e até mesmo rir alto de qualquer mínima gafe e ridículo que os adultos faziam. Soo-Min, ou Sumi, como viera a ser chamada, era o único ponto em comum que Suho e eu sempre tivemos. Ela costumava trabalhar como assistente de meu pai, mas seja lá por qual motivo, acabou se demitindo quando Suho estava finalizando sua graduação, e eu era adolescente demais para me importar. Dois anos depois ela retornou, seu corpo redesignado para espelhar sua alma, e com um diploma de advocacia finalizado, agora trabalhando em parceria com Jun-Woo. Jun-Woo administrava, criava e colocava seu conhecimento da indústria na mesa, e Sumi era aquela responsável por executá-la, e ela era muito boa nisso; encontrava os contratos certos, as palavras precisas para que nós não fossemos usados erroneamente. Mais do que isso, era de certa forma, como uma irmã mais velha —— chamá-la de mãe seria correr o risco de levar um tapa por fazê-la sentir-se velha —— para nós, a única pessoa que importava-se, ainda que minimamente.

Sigo-a sem resistência alguma, deixo-a guiar-me para fora da gravadora, atravessamos a rua movimentada, alguns paparazzis se aglomeram um pouco a distância, no estacionamento do restaurante, parecendo determinados a flagrar algum movimento de alguma grande celebridade que entrasse naquele lugar. Vejo-os tirarem uma ou outra foto minha com Sumi quando puxo a porta do restaurante para que ela entrasse, um ato instintivo de cavalheirismo, então abro meu sorriso mais charmoso e aceno para eles, tentando parecer simpático. Era uma faca de dois gumes aquela situação, ser simpático com um paparazzo era dar a ele a falsa impressão de que havia liberdade para se aproximar e invadir uma conversa privada eventualmente, mas recusar-se e ressenti-lo por aglomerar-se ao seu redor só iria os atrair mais. Além disso, não era a minha marca ser mal educado e agressivo com paparazzis.

Há uma reserva no nome de Soo-Min no restaurante, o que faz-me questionar a quanto tempo ela estava planejando o que quer que estava furiosa, mas ignoro completamente o aviso dela para que a seguisse caminhando em direção ao bar, e apoiando-me contra o balcão de mármore polido. Peço pela primeira bebida que posso pensar, whisky on the rocks, peço sem o gelo. Recebo um olhar exasperado do bartender, ciente de que meu pedido distorcia o que eram normas para preparação dos drinks, mas sem importar-me nem um pouco. Só quero um copo, só isso; não é muito, posso me controlar. Um copo não vai matar-me, não matou ontem, não fará hoje também. Está sob controle. Estou bem.

Estou prestes a pedir para que o bartender deixasse a garrafa ali perto, só por desencargo de consciência, quando Sumi agarra meu braço puxando-me para a mesa na área reservada ao fundo do restaurante. A sigo com uma sobrancelha erguida, um quase sorriso surgindo por meus lábios, achando graça. Ela nunca havia sido pequena, mas com os saltos, e a carranca, parecia-se com uma amazona, elegante, mortal e estava bufando de raiva quando empurra-me contra a cadeira à sua frente e aponta o indicador imperiosamente em minha direção com um aviso silencioso —— estou ferrado. Os cabelos pretos, longos e lisos, estão penteados para trás cheios de gel que dá a impressão que ainda estão úmidos, deixa o rosto livre para a maquiagem suave que usa, apenas para realçar seus olhos e nariz arrebitado. As sobrancelhas angulosas estão unidas, evidenciando sua falta de controle para a raiva que parece exalar de sua postura. O vestido elegante, preto, executivo parece ser composto por alfaiataria cara. Deveria ser novo porque nunca havia a visto com aquele antes, e certamente não havia em sua mala. Quando ela tivera tempo para comprar aquele vestido? Meu sorriso diminui um pouco, incerto, quando ela joga a papelada que carregava com violência sobre a mesa.

É um grande bloco de papel, mas ainda escapa da minha compreensão a razão para sua frustração e nítida raiva comigo devido aquilo. Tento conter um revirar de olhos, levando o copo em direção aos lábios e bebendo o whisky em um único gole. Solto um suspiro pesado, quase arrependendo-me da velocidade com que bebi, sentindo aquele calor familiar percorrer por meu corpo, o álcool queima, é claro, minha garganta, mas a sensação de alívio, relaxa meus músculos, amortece um pouco meus pensamentos e deixa minha cabeça mais leve. Apoio o copo sobre um dos pratos, inclinando-me para frente, para tomar em mãos os papeis e encontrar algum sentido naquela situação toda.

Soo-Min não se senta, o que me diz de imediato que há um jogo de poder acontecendo agora. Pela maneira com que ela encara-me sei que fiz alguma merda, a acusação é nítida o suficiente para que ela não tenha tomado de minhas mãos o copo de bebida, ciente do porque deveria o fazer, tento buscar em minha mente o que diabos poderia tê-la feito se irritar dessa forma, mas não encontro nada, não era como se eu… congelo no lugar, meus olhos quase saltando das órbitas. Porra…

—— Explica! —— Comanda Soo-Min, furiosa.

As palavras somem de minha boca, meus ombros se tencionam mais uma vez, e o efeito letárgico da bebida, que deveria ter servido para aliviar o peso em meus ombros e silenciar minha mente, prende-me no lugar; mistura-se com o alerta que ela havia despertado em mim, acelera os batimentos de forma irregular, prende-me em um limbo desorientador de perigo e a certeza de que estou prestes a ter que lidar com as consequências de minhas ações. Levo minha mão em direção a minha boca, a fim de abafar um praguejar em alto e bom som, ciente de que uma hora ou outra ela e os caras acabariam descobrindo sobre o que fiz, mas torcia para que fosse mais tarde, quando já estivessem longe daqui e a memória fosse apenas uma piada. Não assim. Pego o amontoado de papeis, piscando algumas vezes para conseguir focar-me naquilo, e tento ler; as palavras dançam um pouco por meus olhos, e sei que não é a bebida que causou tal reação. Osso sentir o aperto crescente em meu peito, as palmas de minhas mãos parecem ser feitas de gelo, um tremor está crescendo e percebo que, acumulado com a situação de mais cedo, o desconforto com Doyle e sua maldita tatuagem, estou tendo um pico de ansiedade e isso não é a pior parte.

O garçom que nos atende oferece vinho para Sumi, e ela não impede-me quando pego o copo para mim. Viro a taça de uma vez, e praguejo mentalmente, aquela merda, embora amarga ainda era fraca demais. Precisava de algo mais potente, algo que pudesse ajudar-me a escorar minha própria ansiedade com. Leio as palavras, mas só consigo pensar em .

Um contrato de confidencialidade.

Estava me questionando qual seria a jogada dela. Estava calculando que talvez pudesse ter até mesmo fodido um pouco de simpatia por mim nela, mas não. Não cheguei nem perto. Passo pelas páginas recheadas por jargões jurídicos e apontamentos precisos. Percebo que não deve ser a primeira vez que ela havia feito aquilo; quer dizer, era a porra de uma rockstar não é? Ela deveria ter feito muita merda e ocultado com um contrato de confidencialidade. A oferta de dinheiro não era pequena, pelo contrário, chegava a ser até mesmo generosa, e se a desgraçada tinha todo aquele montante para oferecer em um simples contrato, então… o quão poderosa era ? Até onde o poder de sua influência e seu dinheiro iam? Deixo os papeis caírem outra vez sobre a mesa apoiando meus cotovelos sobre a madeira polida e laminada, antes de enterrar meu rosto em minhas mãos. Puta merda… esfrego com as pontas de minhas unhas meu couro cabeludo, sentindo-a deixar pequenos cortes pela pele sensível, mas ignoro a pequena ardência que se espalha.

Ela havia avisado. Fui eu quem a subestimou. Porra! Isso não podia estar acontecendo; mas estava, e a pior parte é não poder resolver isso da minha forma, comigo mesmo. Se não tivesse sido tão estúpido, se não tivesse aceitado aquela maldita fantasia. Mas eu tinha que envolver-me em problemas, não? Não deveria ter bebido ontem, se não tivesse começado não teria cedido tão facilmente a . Mas então, era ali; a porra de , um sonho inalcançavel para muitos que eu quis saber que gosto tinha. E era bom, bom demais para ser verdade. Não tenho como escapar dessa, não tenho como dizer que ela inventou aquilo porque havia provas claras de que não era mentira. Odeio-me por ter acreditado que talvez, por trás da máscara, houvesse um pingo de decência em . Odeio-me por ter deixado-me seduzir. Odeio-me por ter acreditado que era uma boa distração. Odeio-me por ter acreditado que talvez, ela pudesse ter reservado-me um pingo de graça, e percebesse que não somos inimigos, não sou seu oponente; mas ela me transformou em um. Colocou-me do outro lado, e estava determinada a destruir tudo o que me restava —— o que restava de Suho. Por um momento tudo o que consigo sentir é apenas raiva, abrasiva, violenta, consumindo tudo o que encontra pelo caminho. Odeio-me por ter caído tão facilmente; por ser apenas mais uma de suas vítimas.

Mas odeio mais ela.

—— Olha, eu estava bêbado… —— começo a dizer, entre dentes, defensivo demais, mas não é meu tom que revela a confirmação que Sumi precisava, é minha escolha de palavras. Acabo de confirmar meu erro, e Sumi parece querer explodir. Porra, não era para isso ter acontecido. De repente quero matar o de ontem. Se não fosse a porra de um imbecil que não podia controlar o próprio pau, eu não estaria nesta situação agora. Deveria ter seguido o conselho de Massaro e ficado longe, puta merda, Massaro havia avisado-me, fiz pouco de suas palavras por mero capricho egocêntrico. Se ela fosse um monstro, garoto, Hollywood já a teria esquecido, o empresário havia me dito, acreditei que partira de um lugar de despeito, mas agora? Agora tenho a plena certeza de que não era, e que Massaro igualmente estava equivocado; era um monstro, mas ela era bonita demais para conseguir disfarçar. Esfrego mais uma vez meu rosto, como se isso pudesse acalmar meus nervos, como se pudesse me oferecer alguma solução ou guia para aquela situação. Não ajuda em nada. Havia sido apenas uma noite! Como isso poderia ter virado esse caos?! Repouso meu olhar sobre a papelada outra vez, tentando entender o que ela queria. Tento ignorar a parte ferida de meu ego que espirala imaginando o quão ruim pode ter sido para ela aquela noite para não querer que fosse falado sobre, mas estaria enganando-me se convence-me que ela não havia gostado.

Sei que gostou. Pude sentir; ela queria tanto quanto eu. Ela havia aproveitado cada minuto, lembro-me de seus gemidos vividamente, por mais que seja uma completa desgraçada, dúvido que pudesse fingir aqueles sons. Ela estava tentando foder comigo para atingir Massaro, ela havia admitido isso, mas aparentemente, o plano era mais profundo e preciso, porque agora era minha carreira inteira na mão de uma vadia sem coração.

—— Sabe o que é isso? Estou falando com você, , olhe para mim quando estiver falando! Sabe o que é isso?! —— ela grita em um sussurro urgente, inclina-se para frente e acerta a mesa com um tapa forte. Não tenho uma reação a sua atitude agressiva porque estava familiarizado com aquele tipo de demonstrativo, mas certamente, não faz muito para aplacar minha própria fúria. Deixo-me recostar-me contra a cadeira, apoiando minhas duas mãos sobre a mesa, fechadas em punhos. Sustento seu olhar acusatório, mas não a respondo. Só consigo pensar em como quero acabar com . Sumi inspira fundo, endireitando-se, algo parece ter atravessado meu rosto, para que sua postura mude, de uma irada para uma frustração mal controlada enquanto ela se senta à minha frente pela primeira vez. Gesticulo para o garçom outra vez, a fim de pedir por uma bebida, e manter a garrafa perto desta vez. Isso é demais, mesmo para mim. —— Desculpe, eu não quis te assustar —— ela diz em nossa língua natal, mas não a respondo. Não estou assustado, estou furioso, tenho a sensação de que se disser algo, se fizer algo, irei explodir, e se explodir, o quanto ainda terei controle sobre mim dessa vez? Ela inspira fundo, esperando em silêncio enquanto o garçom coloca mais vinho em minha taça, mas dessa vez sou mais rápido e comando, mais imperioso do que tinha intenção, para que ele deixasse a garrafa. Vejo Sumi unir as sobrancelhas, prestes a abrir sua boca para corrigir-me, mas algo em minha expressão a faz hesitar. Desvia completamente a atenção para o contrato de confidencialidade, puxando-o para si, e trincando a mandíbula. —— Ela mandou um contrato de confidencialidade para você, . Não é uma resposta da gravadora, sequer da boate que estavam, ela pediu para que os advogados pessoais dela o fizessem, isso aqui é pessoal. Sabe o que significa a porra de um contrato de confidencialidade?

Tenho vontade de gritar com Sumi. Amo-a como se fosse parte de mim, é doloroso pensar em sequer descontar a frustração que sinto nela quando ela era a única bóia que impedia-me de submergir outra vez. Já havia perdido Suho, não quero perdê-la também. Mas estava testando minha paciência ao tratar-me com tal condescendência; sim, havia acabado de foder com minha vida, minha carreira e provavelmente o grupo inteiro porque quis uma noite para mim, entretanto não era culpa minha, se a desgraçada da mulher com quem havia dormido era na verdade uma completa maldita. Tenciono minha mandíbula com força, sinto meus dentes travar, meus olhos queimam o semblante impaciente de Sumi.

—— Não, o que significa, Soo-Min? —— Minha voz soou ríspida demais, minha raiva transborda por minhas palavras mesmo sem intenção de atingi-la. Levo a taça em direção aos meus lábios, mas a bebida parece amarga em minha língua agora.

—— Não seja insolente, garoto idiota! —— Sumi chia entre dentes, antes de lançar as mãos para cima, e exalar pesado. Vejo-a esfregar a ponte de seu nariz, massageando-a com impaciência, antes de apoiar os cotovelos sobre a mesa e unir as mãos à frente de seus lábios. O gloss avermelhado deixa os lábios dela rosados, destacam-se na pele clara como porcelana. —— Até onde foi?

Não a respondo, e percebo de imediato que fazer-me de desentendido não irá funcionar, não dessa vez. Ainda assim, tento soar o mais ofendido possível quando retalho de volta, um sussurro afiado escapando de meus lábios:

—— Quer que descreva tudo para você? —— Sumi silencia-me com um chiado entre dentes. Mordo minha língua para não retorquir ela outra vez, já estava em uma situação inimaginável, seria ainda pior se colocasse Sumi como minha inimiga também. A única que possuía agora era , e deus a proteja porque uma parte de mim quer muito arruinar completamente a carreira daquela miserável gostosa. Finalizo mais um copo, antes de exalar alto, cruzando os braços sobre meu peito e erguendo meu queixo ao encarar Sumi. Petulante, é claro, mas não menos obediente. —— Mating press, Reverse Cowgirl, ela é bem flexível quando quer —— solto com um tom afiado, se para chocá-la ou para irritá-la não tenho certeza, mas tenho minha resposta pela forma com que Sumi fecha os olhos e inspira fundo pelo nariz, solta pela boca.

Ficamos em silêncio por um momento, e sinto uma estranha vontade de rir. Talvez seja o nervosismo, talvez seja o amontoado gritante de frustração que se formou em meu peito e agora nubla meus pensamentos, mas quando penso mais a fundo, a situação é tão ridícula que questiono-me se é uma pegadinha. É claro que não é, sabia sobre meu contrato, assim como eu, ela só havia sido um pouco mais esperta que eu ao aproveitar-se de brechas que eu não havia calculado direito ainda. Aos frangalhos, meu ego apenas explicita uma imbecilidade de minha parte que estou apenas começando a compreender. Enquanto o silêncio se estende entre nós dois, alcanço a garrafa de vinho outra vez, tomo mais um copo, e então mais um, é somente no terceiro que Sumi faz algo e toma a garrafa de minhas mãos. Ela lança-me um olhar exasperado, um aviso silencioso, mas tudo o que consigo concentrar-me é na sensação frustrante de ainda estar com meus pensamentos nublados, de ainda permanecer preso naquele precipício iminente entre a completa ansiedade e fúria, e o relaxamento que o álcool costumava a oferecer. Sei que não deveria, estou exagerando demais, mas sinceramente? Que tudo fosse para o inferno… posso parar amanhã. Por hoje tudo o que desejo é esquecer que vi em minha vida.

—— Ouça, a Pulse não é idiota —— Sumi começa a dizer cautelosamente, as sobrancelhas unidas com uma ponta de preocupação que ignoro completamente. Não era por despeito, mas por covardia; seria mais fácil fingir que ela não se importava, minha consciência ficaria mais tranquila, ao menos. —— Eles sabem que há momentos como esses, eles estão preparados para isso. Não há problema nenhum em ficar com alguém, , não transformando isso em um relacionamento público, o contrato está seguro.

Fecho meus olhos, deixando minha cabeça pender para trás. Posso quase ouvir um belo de um “eu avisei, garoto” vindo de Massaro e nem o conheço direito.

—— Mas —— Sumi apressa-se a pontuar. —— só funciona quando é um anônimo. Uma garota qualquer! É fácil descredibilizá-las! Não deixe provas, ! Achei que havia ensinado isso a você —— Sumi diz afiada, e assenti lentamente. Fuzilo-a com o olhar, mas a crueldade de suas palavras são apenas um reflexo do mundo que estamos inseridos, logo, posso culpá-la por isso? Era só o que era. Haviam coisas piores a acontecer. —— O que estava pensando quando escolheu justamente para isso? Tem ideia do inferno que será tentar descredibilizá-la?

Solto um riso nasalado, irritado.

—— Não tão difícil assim, ela já tem a fama de uma vadia mesmo, qual a diferença? Diga que inventou uma história, que está querendo chamar atenção —— rosno em um sussurro para Sumi, e não consigo me sentir culpado pelo o que sinto. Quer dizer, não deixava de ser verdade, de certa forma, que ela fosse uma maldita desgraçada querendo atenção, todos nós éramos, e querendo ou não, ela possuía aquela fama, se fosse ser sincero, tenho quase certeza de que ela gostava de ser vista como uma vadia, isso lhe permitia o que quisesse. Embora fosse passível de críticas duras de algum lado da mídia e até mesmo dos fãs, ainda assim tinha algum tipo de poder ali. Se não, por que diabos ela nunca havia feito nada sobre? Sumi lança-me um olhar indecifrável, mas estou com tanta raiva de que não importo-me de questionar, ou sequer tentar entender o que diabos ela queria convir com aquilo.

Ela solta um exalo baixo, entre dentes, impaciente.

—— Aish, você não está me ouvindo, —— Sumi exala entre dentes, um pequeno sibilo escapando ao servir-se do vinho que tomara de minhas mãos. Observo o líquido, não o rosto da única pessoa ali que poderia confiar minha vida cegamente. Detesto vinho, acho fraco e rançoso, quando coloca-se na boca, parece crescer, é azedo e, em sua maioria, apenas um suco levemente alcoolizado, mas minha garganta ainda seca ao observar o líquido à minha frente. Trinco meus dentes, sentindo a mistura de frustração e raiva crescerem, mas sei que é mais do que isso, uma parte de mim quer gritar com Sumi apenas para que consiga a bebida, já a outra, ainda está enredada demais com o problema que é para importar-me tanto assim com educação, mesmo que devesse. Controlo-me, todavia, esperando que ela ao menos elabore o que quer que esteja tentando com tanto afinco explicar para minha inteligência “limitada”. —— é conhecida por muito, mas não é uma mentirosa, se vier a público, mesmo que não diga o seu nome, as pessoas vão acreditar. Merda, ela é a porra de um sexy symbol a dois anos! Chamam-a de vadia, e a idiotas em podcasts falando um monte de merda, mas tenho certeza que implorar de joelhos por um simples olhar! —— A tensão em minha mandíbula aumenta, e sinto-a espalhar-se como uma pressão frustrante por minhas têmporas. Contenho o impulso de interromper Sumi, de dizer-lhe que era superestimar , mas estaria sendo mesquinho e equivocado; era tudo isso sim, talvez mais, e como eu a odiava por isso. Sumi leva o copo aos lábios, desviando os olhos para as pessoas que sentam no restaurante, sua maioria parte da gravadora ou de uma boutique de moda de alta costura que ficavam naquela rua; não consigo conter o impulso espelhar, engulo em seco ao observar o movimento de sua garganta. —— Além disso —— Sumi umedece os lábios, antes de pigarrear baixo, vejo os cantos de seus lábios se contraírem e então curvarem-se para baixo. —— O contrato é unilateral. Proíbe você de falar sobre o que aconteceu, mas a cláusula dela só a impede de referenciá-lo de quaisquer formas. Ela ainda irá poder falar sobre, e se mencionar rapper e k-pop numa mesma frase, considerando que vocês são os primeiros e talvez únicos no momento na mesma gravadora, quanto tempo irá levar até que eles relacionem vocês dois? —— Sumi termina e sinto como se tivesse acabado de levar um soco.

Um golpe teria doído menos. Pisco, primeiro em choque, e então, tentando conter a fúria que ameaça transbordar por meu peito. Abro minha boca e então a fecho, minha respiração parece perder-se primeiro, antes de encontrar-se mais rápido e irregular. Não consigo pensar, não consigo absorver a dimensão do que havia acabado de fazer. Quando disse que destruiria a mim, achei que o faria por meio de polêmicas e rumores, a maioria na indústrias seguiria por esse caminho; era mais fácil, e muitas vezes, mais prático. Não que ela ativamente tivesse criado aquele tipo de armadilha. Solto um riso seco, desprovido de quaisquer traços de humor em minha voz, incrédulo, frustrado, mas acima de tudo, furioso. Isso é absurdo! É absurdo puro… mas ainda assim, era exatamente o que ela estava fazendo. Proibir-me de sequer mencionar algo que aconteceu ontem a noite, enquanto ela poderia contar a história livremente se quisesse? Ainda posso fazer o mesmo, sei que deve haver alguma lei que protege-me de tal coisa. Posso compartilhar minhas experiências individuais da forma que quiser, mas é aí que a crueldade e, para meu desalento pessoal, sagacidade de parece entrar: ela sabe que, considerando meu contrato, não irei o fazer.

Arriscar dizer que transei com uma rockstar, em uma noite de completa devassidão não era apenas arriscar a quebra e multa de um contrato multimilionário; era provocar a ira em fãs que não iriam hesitar em demonstrar seus desagrados. Que iriam bradar seu desgosto, era manchar para sempre minha imagem, era tornar-me pária em minha própria casa. Ela sabia que jamais o faria; ela sabia que eu aceitaria o que quer que ela oferecesse, fossem quais fossem as condições, para que tivesse a certeza de que ela não poderia dizer nada referente a mim. Apoio meu cotovelo sobre a mesa, outra vez, e então seguro minha boca com força, quero gritar, apenas levantar e gritar; quero quebrar tudo até que minhas mãos estejam ensanguentadas e não sinta nada. Mas é impossível fugir da fúria que direciono aquela única mulher. Isso não vai ficar assim, não, não posso aceitar pensar que ela escapará. Ela havia começado isso, certo? Tudo bem, eu acabaria.

—— Se não assinar? O que acontece? —— Sinto que vou explodir, minhas palavras soam mais baixas que o normal, arrastadas, como se estivesse precisando de um pequeno delay de segundos para projetá-las com a maior calma que consigo exibir. Sumi percebe de imediato, e lança-me um olhar preocupado, ignoro-a, mantendo meu olhar fixo no contrato de confidencialidade à minha frente.

—— O que você acha que ela irá fazer, ? —— Sumi murmura baixo, cautelosa, como se estivesse escolhendo as palavras, mas a pergunta era redundante. Nós dois sabíamos o que faria se porventura não assinasse aquela merda de contrato. Ela iria dizer tudo; iria arruinar tudo. Tudo bem, ela ganhou esta, mas isso é apenas o começo. Recuso-me a ser peão de mais alguém, especialmente se esta pessoa for .

Não respondo Sumi, apenas estendo minha mão em sua direção, o pedido silencioso por uma caneta. Minha respiração, acelerada e irregular, começa a tornar minha mente rarefeito, sinto que tudo no espaço gira, mas ignoro a sensação, puxando as folhas com mais força do que necessária, sem importar-me de ler. Espero por um momento e tenho certeza de que Sumi está hesitando, ela provavelmente não gosta da ideia de que eu assine aquela porcaria de contrato de confidencialidade —— mesmo que houvesse zeros o suficiente para perceber que havia investido uma boa quantidade de dinheiro em silenciar-me ——, mais do que eu gosto de o fazer, mas que outra escolha tenho? O que resta-me a fazer se não abaixar a cabeça para a maldita vadia sem coração que era?

—— Não se preocupe, entrego isso para , eu mesmo —— digo uma vez que todas as assinaturas necessárias estão feitas, e empurro a caneta de Sumi de volta sem gastar mais um olhar na direção da advogada. Sei que não deveria enxergá-la como minha inimiga, e de fato, não o faço, mas não consigo pensar em outra coisa senão no momento. Não tenho ideia de como chegar até o endereço, mas não preciso de muito para localizar-me, só de um carro, então pego o de Sumi, mesmo que isso a faça gritar que tenha perdido a cabeça.

Perdi sim, e agora farei isso ser problema de todos.


Continua...


Nota da autora: grava bem o nome do Doyle, essa não será a última vez que você verá ele por aqui. SEIS capítulos (contando com o próximo) para INICIAR a história, mas finalmente o caos começou! Um grande beijo pra Isy, que cuidou dessa fic com tanto carinho e cuidado que nunca vou esquecer! Além de ser um amor, mesmo eu enviando uma tonelada de texto ruim! VALEU DEMAIS MEU ANJO!! Que seu neneco venha saudável, feliz, conhecer a mãe incrível que ele deu a sorte de ter! Obrigada pelo carinho e a atenção com minhas histórias, viu? (e a ansiedade pela eficiência sksks)

☀️


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