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New Sunset

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"Não posso te pedir pra me esperar, mas também não vou pedir para me esquecer."

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Capítulo 1

Nova Iorque, Residência — 16 de setembro, 3:30 p.m.



Era sexta-feira. Aquele seria o dia em que eu o visitaria pela primeira vez. Adiei esse momento por meses. Eu não sabia como seria quando chegasse lá, só sabia que precisava fazer aquilo. Estava com saudades. Muita.
Encarei meu reflexo no espelho, checando a roupa que escolhi. Aquele vestido tinha uma história.
‘Ele vai adorar.’
Tranquei a porta de casa e caminhei até o ponto de ônibus. O dia estava lindo e ensolarado, e o verde ainda tomava conta da paisagem da cidade. O outono se aproximava dali poucos dias e o vento que soprava suave em minha pele quase conseguia fazer eu me sentir viva.
In the stars tocava em meus fones. Era como se o compositor tivesse vasculhado minha alma e traduzido em notas e frases tudo o que eu guardava nela há meses. Me senti verdadeiramente compreendida. Cada palavra que ecoava para dentro dos meus ouvidos eram as mesmas que ecoavam do meu coração para ele.

“Eu ainda estou me agarrando a tudo que já se foi. Eu não quero dizer adeus, porque dessa vez é para sempre. Agora você está nas estrelas e sete palmos nunca pareceram tão longe. Estou sozinha aqui, entre os céus e as cinzas. Isso dói muito por um milhão de razões diferentes. Você tomou o melhor do meu coração e deixou o resto em pedaços...”

Subi no ônibus que me levaria ao meu destino e sentei junto à janela, observando o movimento durante meu trajeto. Abracei a pequena mochila marrom em meu colo, sentindo o estômago inquietar-se. A ansiedade parecia iminente, me obrigando a fazer um exercício respiratório para conseguir me controlar. Eu havia me preparado para aquele dia e nada me faria recuar.

Dante: Olha sua pessoa favorita no mundo chegando! — A frase veio acompanhada de uma foto dele fazendo uma careta ridícula. Não pude deixar de rir — Já disse que te amo hoje? Se eu fiz isso, foi mal... mandei mensagem pra pessoa errada. — Bem a cara dele — E aí, tá livre hoje à noite? É bom que esteja, dê seus pulos. Te adoro, marmota! Bjão!

Meu irmão era assim, um bobo querido, sempre investindo em alguma gracinha pra me fazer rir, especialmente naquele dia do mês. Aquela data significava algo, e mesmo estando fisicamente distante, Dan se esforçava para se fazer presente ao seu modo. Conversávamos, ríamos, ele cantava — dedilhando seu violão com o incrível talento que sempre teve — e eu o ouvia. E por uma ou duas horas, durante aquelas chamadas de vídeo, eu esquecia dos meus problemas e da minha dor.
Respondi sua mensagem e voltei a observar a agitada cidade através da janela. Em momentos como aquele você percebia que não era ninguém, que a vida não para quando o seu mundo vira de cabeça pra baixo. Você é apenas mais um naquele mar de pessoas.
O percurso pareceu ainda mais longo do que realmente era. Eu estava com um pouco de receio de como reagiria ao ver aquele lugar novamente, sabendo que ele estaria lá. Desci no ponto e caminhei até uma pequena loja.
‘Lírios... Amo seu significado’.
Saí da loja e atravessei a rua até parar de frente para aquele imponente portão. Meus passos estavam vacilantes, mas adentrei o lugar tentando relembrar o caminho que fizera naquele fatídico dia — na época, cercada por aqueles que nos amavam.
‘É isso... Cheguei’.
Fechei os olhos por longos segundos, como se o simples ato de respirar já exigisse esforço. Era minha tentativa de conter a maré que se erguia dentro de mim — Pensamentos e lembranças. Eles vinham como ondas, umas suaves, outras violentas.

— Hoje é 16 de setembro. Fazem exatos onze meses que você partiu. Sinto muito não ter vindo te visitar antes. Eu simplesmente não... conseguia. — Agachei e depositei os lírios sob aquela lápide, enquanto tentava recuperar a estabilidade da minha voz — Ainda não sei como parar de chorar. Alguns dias são mais difíceis que outros... — Fiz uma breve pausa, me esforçando para ser resiliente ao menos em público — Mas espero que aí do outro lado, você esteja feliz e em paz. Eu... eu sinto tanto a sua falta, . Você não imagina o quanto.

Mal consegui pronunciar as últimas palavras. Um nó se formava em minha garganta e minha vista começou a embaçar. Balancei a cabeça em negação, puxando para meus pulmões a maior quantidade de ar que eu conseguia. Eu não queria ter uma crise de choro. Não como as que eu tinha em casa.
A umidade que crescia em meus olhos já era impossível de ignorar, apesar dos meus esforços. E foi naquele momento, que uma voz inesperada atravessou o ar.

— Tudo bem... — O dono da voz se agachou ao meu lado — Chorar também é uma das formas mais bonitas e sinceras de demonstrar o quanto você ama alguém. — Virei a cabeça e me deparei com um rapaz à minha direita. — Aqui, pode pegar. — Meu olhar seguiu a sua mão quando ele retirou um lenço de seu bolso e, gentilmente o ofereceu a mim — Como se chama?
... — Respondi sem muita certeza se deveria fazer aquilo.
— É um nome lindo. — Esbocei um sorriso amarelo, ainda desconfiada, resistente à sua tentativa de estabelecer um diálogo. Ele levou seu olhar até a lápide à minha frente — Seu irmão?
— Meu noivo. — Corrigi, voltando meu olhar para a lápide novamente — Bom... ele foi. — Minha voz vacilou. Ficamos alguns segundos em silêncio enquanto ele parecia ler a inscrição na pedra. Eu estava esperando que fosse embora, mas ele não parecia ter a intenção de fazê-lo.
— Você... também veio visitar alguém? — Decidi perguntar.
— Não. — Respondeu sem desviar o olhar daquele mármore.
— Trabalha aqui?
— Também não.
— E então? Não há muito o que fazer em um cemitério, suponho.
— Estou aqui ouvindo histórias.
— Ouvindo o quê?
— Este lugar é cheio delas... — Ele ficou de pé mirando as inúmeras lápides ao nosso redor — Mas ainda não sei a sua. — Ele me olhou curioso, acomodando suas mãos nos bolsos de seu casaco. Levei alguns segundos para assimilar o que dissera.
Minha história? — Enfatizei, quase cética.
— Sim.
— Espera que eu fale de mim pra você? Foi isso o que entendi? — Me coloquei de pé também, abrindo sutilmente um espaço maior entre nós dois.
— Só se você quiser. — Respondeu calmo.
— Desculpa, mas... eu nem te conheço. — Sorri sem humor — E não estou à vontade com essa conversa. Gostaria de ficar sozinha, se não se importa. — Cruzei os braços sobre o peito, como se quisesse me proteger de algo. Olhei em volta, procurando pessoas por perto caso fosse necessário pedir alguma ajuda. Ele estreitou o olhar me examinando por um instante.
— Você deve achar que sou um louco, não é? — Disse, no tom de quem já se acostumou a ter esse tipo de conversa.
— As circunstâncias não o ajudam.
— Justo. É o que todos, ou pelo menos a maioria pensa no começo. — Ele deu uma olhada ao redor e acenou para um senhor que estava não muito distante e que prontamente retribuiu o aceno — Mas logo mudam de ideia. Num dia eu sou louco, mas depois de um tempo ganho outros títulos. — Nos encaramos por alguns segundos.
— Eu deveria perguntar quais?
— Já perguntou. Bem aí. — Ele apontou para o centro da minha testa — O de “amigo” lidera o ranking, se quer saber.
— Amigo? — Eu quase ri — Certo. Aonde quer chegar com isso? Proposta de amizade? — Concluí com certo desdém.
— Foi o que pareceu?
— Me diz você. — Pra quem não queria alimentar um diálogo, eu já estava dando muita corda pra ele.
— Só achei que gostaria de conversar. — Ele deu um passo em minha direção — Talvez descubra que não sou tão louco quanto pensa. — Deu de ombros e em seguida acenou para outra pessoa. Dessa vez uma jovem, que sorriu assim que o avistou. Meus olhos corriam dele pra ela e vice-versa. O rapaz observou minha cara de confusão enquanto se afastava em uma lenta caminhada.

Por mais que ele fosse um completo desconhecido e com uma conversa nada convencional, ao invés de me afastar, fui movida pela curiosidade. A breve interação dele com aquelas duas pessoas pareciam reforçar a veracidade de sua história, ou parte dela. Constatar isso baixou temporariamente minha guarda. Mas eu ainda me questionava por que raios alguém ia a um cemitério ouvir histórias e, ao que parecia, fazer amizades também.
‘Por que não num bar, num museu ou numa praça? Mas em um cemitério? Sério?’.

— O que é isso exatamente? — Comecei a segui-lo, ficando alguns passos atrás — É algum tipo de estudo de campo? Pesquisa para algum livro ou artigo? Um hobby?
— São muitas perguntas. — Ele segurou um sorriso, me lançando um olhar furtivo — Mas não é nada disso... — Ele parou de falar, prolongando o suspense — Estou escutando as histórias daqueles que perderam entes queridos. Seus desabafos, seus traumas. Às vezes eles só querem ser ouvidos ou sentir que alguém entende a dor deles. — Ele me olhou checando se sua resposta tinha sido satisfatória.
— E você os entende? — ‘Você faz alguma ideia do que estou passando?’ Continuei a pergunta apenas em meu pensamento.
— Em parte. Eu sei como é não poder estar perto de quem é importante pra você.
— Você é psicólogo ou psiquiatra?
— Seria estranho um psicólogo vir ao cemitério procurar clientela. — Ele pareceu achar graça da minha conclusão.
— Ou conveniente.
— Você não precisa necessariamente de um diploma desses para ajudar alguém.
— Então é um trabalho voluntário? — A essa altura minha curiosidade já era mais do que evidente.
— Me desculpa... , certo? — Disse ele ao conferir o relógio em seu pulso — Vamos ter que deixar essa conversa para outra hora. Tenho um compromisso com uma amiga, mas se quiser continuar nosso papo... Já sabe onde me encontrar. — Disse apressando o passo.
— Espera! Você não me disse seu nome. — Exclamei, antes que ele se afastasse demais.
— Prazer. . — Ele acenou em despedida.

Eu o vi caminhar até uma senhora de idade que carregava algumas flores. Fiquei de longe observando. Ela o recebeu com um sorriso largo e um abraço caloroso. Eles realmente pareciam próximos, como se fossem velhos conhecidos. Era notório que esse tal tinha algo peculiar. Arriscava dizer que ele era diferente de qualquer pessoa com quem já convivi.
Voltei ao túmulo do meu falecido noivo para me despedir.

— Oi, meu bem, eu de novo. — Sentei sobre a grama recém aparada — Você não vai acreditar. Veja, te trouxe um presente. — Retirei da minha mochila um livro — É um exemplar de “Do outro lado do espelho”. Sim. Ele ficou pronto, ! — Tentei fazer minha melhor voz de empolgação — Confesso que eu pensei em desistir dele. Mas eu sabia que, além de mim, você também ficaria chateado se eu deixasse esse projeto de lado. Nicolas é outro que não permitiria isso. Eu não poderia simplesmente abandonar algo que nós dois sonhávamos em ver concluído. E adivinha... Amanhã é o grande dia! Muito obrigada por todo o incentivo e por acreditar em mim... — Beijei as pontas dos meus dedos e toquei com carinho sua lápide — Só consegui graças a vocês dois. — Respirei fundo algumas vezes. Podia sentir aquela angústia impiedosa chegar — Prometo que voltarei com mais frequência, está bem?

Guardei meu livro e abracei minhas pernas fechando os olhos por um momento. Eu não acreditava que ia lançar minha primeira obra literária. Ninguém acreditaria que parte dela foi escrita durante o período mais desolador da minha vida. Para conseguir concluí-lo eu me cercava por crianças. Levava meu laptop para parques, praças, brinquedotecas — qualquer lugar onde eu pudesse ver crianças sorrindo, correndo e se divertindo. Elas eram a luz que empurravam minhas trevas para o fundo, me permitindo escrever linha após linha, capítulo após capítulo. Em minha casa isso era simplesmente impossível. A lembrança de me ajudando, estava estampada em cada cômodo. O silêncio do meu próprio lar era mais ensurdecedor do que qualquer outra coisa. O som das risadas, dos choros e dos gritos infantis, ironicamente, eram minha fonte de paz. Contra todas as probabilidades, era em meio a esse caos gostoso que eu conseguia produzir. Ao menos naqueles lugares havia vida.
Quando eu finalmente conseguia mergulhar na história, era como me teletransportar para outro mundo, um refúgio. E quando o bloqueio criativo me atingia, eu tinha Nicolas — meu editor e um grande amigo. Ele era paciente, sempre com uma carta na manga para esses momentos. E eu seria eternamente grata por ele ter entrado em minha vida.
Ergui os olhos mais uma vez para o mármore à minha frente. Aquela pedra era fria, dura, silenciosa — tudo ali parecia errado, incompatível com quem foi. Ele era caloroso, exalava vida. Iluminava qualquer ambiente com seu carisma despretensioso e com aquela risada alta e irreverente que fazia até os distraídos virarem o rosto.
Desisti de lutar contra a dor que apertava cada vez mais o nó em minha garganta. Finalmente deixei que o choro escapasse. Guardá-lo estava me sufocando, tanto quanto a ausência de ainda sufocava tudo em mim.
Depois de um tempo ali, sentindo todas aquelas emoções avassaladoras, enxuguei minhas lágrimas e me levantei, ajeitando o caimento do vestido.
Observei o local ao meu redor. Algumas poucas pessoas chegavam, enquanto outras iam embora. Ao longe estava ainda com aquela senhora. Caminhavam lentamente. Ela apoiava suas pequenas mãos enrugadas sobre o braço dele, que por sua vez ouvia atentamente algo que ela dizia. Fiquei presa naquela cena por alguns segundos. Foi então que ergueu sua cabeça e, ao varrer o local com seu olhar, me avistou. Ele fez um pequeno aceno com a cabeça e eu retribuí de forma quase imperceptível antes de me virar e ir embora.


Restaurante Harriet's Rooftop — 8:40 p.m.

— Fui visitá-lo hoje, Nico. — No mesmo instante a colher de sobremesa de Nicolas parou no meio do caminho até sua boca. Ele não devia estar esperando por essa, não após tantos meses.
? — Assenti com a cabeça — Se eu soubesse, teria dado um jeito de te acompanhar.
— Não. Eu queria ir sozinha mesmo. Eu precisava.
— E como foi? — Nicolas perguntou um pouco apreensivo. Ele sabia que aquele era um assunto delicado e não costumava tocar nele a menos que eu o fizesse primeiro.
— Você deve imaginar, mas confesso que pensei que seria bem pior.
— Foi um grande passo, . Eu já estava desacreditado de que faria isso um dia.
— Eu queria contar a ele sobre amanhã. Ele também é parte disso.
— É sim.
— Não vai me julgar? Por querer contar algo pra alguém que... enfim.
— Jamais. E sei que não foi fácil ter que voltar lá. — Nicolas disse com suavidade.

Como de costume, ao perceber a sombra em meu olhar, ele mudou de assunto, num gesto discreto de cuidado, puxando-me de volta ao propósito real do nosso encontro.

— Mas me diga, está animada pra amanhã? — Soltei um suspiro longo, como se ele pudesse me ajudar a sair do devaneio que me prendia. Eu estava sensível naquele dia e torcia para estar melhor na manhã seguinte.
— Animada. Ansiosa? Com certeza. Grata também... — Minha voz falhou.

Interrompi a fala puxando o ar com força, tentando acalmar o turbilhão interno. Apoiei os cotovelos sobre a mesa e escondi a testa entre os dedos. Às vezes, ela vinha assim: sem aviso, densa, implacável. Uma avalanche silenciosa de emoções começou a se formar no peito — subindo, descendo, apertando a respiração. E então meus olhos começaram a arder.

— Só um minuto, Nico... — Murmurei, enquanto as lembranças, todas elas, se embaralhavam como um filme silencioso passando dentro de mim. A estrada até aqui tinha sido longa. E agora, que o amanhã finalmente se aproximava, tudo parecia pesar de uma vez só.
— Ei... — Nicolas pegou um guardanapo e se esticou sobre a mesa para enxugar a lágrima que escorreu, deixando-o em minha mão.
— Desculpa por isso. — Eu sorri fraco, me recompondo, antes que pudesse chamar a atenção das pessoas das mesas ao nosso redor.
— Não se desculpe, . — Nicolas puxou uma de minhas mãos e a segurou firme — Sei que tem muita coisa aí dentro. Mas olha que maravilha, você conseguiu! E eu não poderia estar mais orgulhoso.
Nós conseguimos. — Corrigi.
— O mérito é todo seu. Você foi uma guerreira. — Ele insistiu.
— Eu fui, não é? — Ele assentiu apertando mais minha mão, enquanto um pequeno sorriso se desenhava em seu rosto.

Nicolas e eu havíamos saído pra jantar e revisar toda a programação da manhã do dia seguinte. Um jantar de negócios, mas também uma celebração antecipada. O fato de que meu livro estaria nas prateleiras parecia algo tão distante antes, mas estava realmente acontecendo.
A equipe do marketing, minha ilustradora, os contatos de Nicolas; todos os envolvidos, sem exceção, fizeram um trabalho impecável. Meu sonho ganhara vida e eu ainda estava assimilando. O imenso sentimento de gratidão e de dever cumprido tomava conta de mim.

Residência — 10:25 p.m.

Naquela noite quando voltei pra casa fiz a chamada de vídeo com Dante. Nos aproximamos ainda mais depois que me mudei de Washington DC.
Nosso pai vinha de uma linhagem de músicos, e Dan, sem dúvida, herdara o dom. Tocava e cantava com uma facilidade impressionante, mesmo sem ter seguido carreira na música. Ainda que nenhum de nós tenha dado continuidade formal a esse legado, a música sempre esteve presente — desde o ventre da nossa mãe até agora, ecoando inclusive nessas chamadas de vídeo, tal qual um fio invisível que seguia nos unindo.
Como na maioria de nossas conversas eu ria e me divertia com Dan. Suas ligações e mensagens eram como uma dose de endorfina pra mim. Eu tinha sorte por poder chamá-lo de meu irmão.
Quando finalmente me deitei, dentre tantas coisas que sondavam a minha mente, levei meu pensamento ao rapaz que conheci, e no breve diálogo que tivemos. Eu estava segurando o lenço que esqueci de devolver, com a inicial de seu nome bordada nele.
Apesar de sua boa aparência, sua primeira impressão me deixou em alerta. Eu estava pronta para pedir socorro se fosse preciso. Mas, conforme nossa curta conversa avançava, ele foi me desarmando — não com palavras ensaiadas, mas com uma naturalidade sutil.
Tenho um compromisso com uma amiga, mas se quiser continuar nosso papo... Já sabe onde me encontrar.
Foram suas palavras. ‘Será que eu deveria...?’ Me perguntei, já sonolenta. E entre um devaneio e outro, sem perceber, adormeci.


────────────────── ANTES ─────────────────


Nova Iorque, Greenland Garden



Parecia ser apenas mais um dia, mas aquele seria diferente de qualquer outro. Eu não fazia ideia de que hoje ela finalmente apareceria. Eu havia acabado de me despedir do senhor Nobun, um simpático homem na faixa dos sessenta anos, dono de uma aconchegante cafeteria nas proximidades do Greenland Garden, e que estava em mais uma de suas visitas ao cemitério.
Me sentei em um banco, aproveitando a brisa fresca daquela tarde antes de me encontrar com a senhora Jang. Foi aí que uma figura feminina chamou minha atenção. Alguém que eu nunca havia visto por ali antes, em todos aqueles meses. Ela estava caminhando a passos hesitantes até aquela lápide.

— Temos uma pessoa nova visitando aquele túmulo. — Eu conversava com uma coruja próxima a mim que batizei na hora de Brigite — Já vi muitas pessoas visitando-o, mas ela... É a primeira vez que a vejo aqui.

Observei por alguns minutos, de longe, aquela jovem de vestido florido e cabelos semi presos por uma presilha. Ela iniciou um monólogo depois de depositar suas flores sobre o túmulo.
Me lembrei da data grafada naquela lápide, 16 de outubro do ano anterior. Comecei meu trabalho aqui uma semana depois do falecimento daquele jovem. Eu não fazia ideia de quem ele era. Nenhuma foto decorava sua lápide. Mas me recordei de estar caminhando pelo Greenland Garden e ver em seu túmulo uma quantidade exagerada de flores, mostrando que provavelmente ele foi alguém muito querido. Tínhamos a mesma idade. Me perguntei se haveria tanta gente demonstrando seu carinho assim por mim se eu estivesse em seu lugar.
Desse dia em diante, sempre que estava no Greenland Garden, eu observava seu túmulo e as pessoas que o visitavam.
Eu ainda assistia a bela moça, que parecia estar fazendo um grande esforço para não chorar. Talvez ela tivesse muito a dizer.
‘É ela. Só pode ser ela.’
Encolhida como um filhotinho desgarrado, ela passava as mãos nos olhos vez ou outra, provavelmente enxugando as lágrimas que não queria que escorressem.

— Está pensando o mesmo que eu, Brigite? — Perguntei à coruja — Ela parece solitária, não acha? Talvez queira alguém para conversar. — Me levantei do banco e fui em direção àquela moça.

Capítulo 2
Nova Iorque, Residência — 17 de setembro, 3:05 p.m.



Na manhã daquele sábado fui cedo para a livraria McNally Jackson. O grande dia havia chegado. E era quase impossível olhar para aquela pilha de livros, cuidadosamente disposta sobre a mesa e não sentir a ardência em meus olhos. havia sido meu combustível inicial, o que idealizou o livro comigo, e Nico se tornou o responsável pela concretização desse sonho.

— Eu tô nervosa, Nico. — Confessei, sentindo minhas mãos levemente trêmulas.
— Respire fundo, pensamento positivo. Vai ser incrível, . Confie em mim.
— Promete que não vai sair de perto? E nada de rir, eu falo sério. — O medo de ter uma crise no meio do evento me deixava inquieta. Aquele dia carregava um peso que só eu entendia.
— Relaxa. Serei sua sombra. — Ele garantiu, com suas mãos em meus ombros.

Nós três nos conhecemos na faculdade — uma química perfeita. Aquele tipo de amizade que você sente que vai durar pra vida toda.
Nico era nosso veterano e o editor-chefe do jornal do campus. Anos depois, já formados, quando contei que estava escrevendo meu primeiro livro, ele se ofereceu para ser meu editor.
Desde que se foi, Nicolas tem sido meu ponto de equilíbrio. Foi ele quem manteve meu foco quando meu emocional desabava. E embora fosse muito discreto e não tocasse no assunto de , me manter ocupada era sua forma de cuidar de mim.
“Mente vazia, oficina do diabo” Ele dizia.
Diferente de mim, seu luto foi silencioso. Nico engolia a própria dor pela perda do amigo sempre que estava comigo, só pra ser meu apoio. Ele só se permitia ficar mais vulnerável quando sua namorada Vayola o visitava. E, com muita insistência da minha parte, era ela quem acabava me contando o que ele tentava esconder de mim.

— E qual é o seu nome? — Perguntei à pequena e adorável leitora à minha frente.
— Nancy.
— Você tem um belo sorriso, Nancy. — Seus olhos ficaram ainda mais brilhantes quando viu seu nome ser escrito no livro.

Aquela manhã foi ao mesmo tempo realizadora e dolorosa. Cada livro que eu autografava, cada foto tirada, cada sorriso no rosto das crianças — tudo me lembrava dele. Do meu .
As mensagens foram chegando ao longo do dia: Kayla, Zoey, meus pais, meu irmão, colegas do antigo trabalho e da faculdade... todas cheias de carinho. Mas havia uma mensagem que eu sabia que nunca chegaria.
Nicolas me deixou em casa após o almoço e o vazio não poderia ser mais devastador... A ausência de era um eterno e cruel lembrete da realidade que eu não conseguia aceitar. Eu não o tinha ali para dividir a alegria daquela conquista. Eu não teria seus braços quentes me envolvendo, nem seu perfume, nem sua voz dizendo que estava orgulhoso de mim. Não veria novamente aquele olhar penetrante e apaixonado — que me dizia tanto sem precisar dizer uma palavra. Nunca mais. Duas palavras que me torturavam diariamente.
Eu sentia falta daquele que prometeu que envelheceria comigo.

***

— Amoooor, me ajuda! Corre aqui! — Ouvi gritar da cozinha. Não podia ser coisa boa. Um corte, outra queimadura, talvez. Eu já estava tentando lembrar onde havia deixado a caixa de primeiros socorros.
? — Empurrei a cadeira de rodinhas pra trás e corri até ele. era muito bom na cozinha graças a influência de sua avó. Só faltava combinar esse talento com a coordenação — ele usava os utensílios como quem tentava desarmar uma bomba com luvas de boxe.
— Gatinha, será que você podia agilizar?! Merda! Minha mão tá escorregando! — Ele olhou aflito pra mim assim que cheguei à cozinha.

A cena era cômica. tentava desenformar um pudim enorme, segurando a forma e a bandeja de vidro no ar, como se desafiasse as leis da gravidade. Só não contou com o peso da sobremesa, que pendeu perigosamente, ficando quase na vertical. A calda começou a escorrer pela beirada como uma lenta tragédia anunciada, enquanto ele, desesperado, ainda pressionava a forma contra a bandeja, tentando impedir o desastre iminente. Pra piorar, a mão melada e escorregadia tornava tudo ainda mais caótico — o pudim parecia vencer a briga.

, como você conseguiu essa proeza? — Briguei, mas rindo da cara dele. Então me apressei em ajudá-lo.
— Eu fiz pra você, então pense melhor antes de dizer mais alguma coisa, ou esse projeto de pudim vai direto pra senhora Gail.
— Se deu mal. Ela está há um oceano de distância.
— Velha rica. — Resmungou divertido, nos fazendo rir.
— Pelo menos você não se machucou dessa vez.
— Então... — Ele exibiu o polegar e pude notar uma pequena bolha ali — Não te mostrei isso.
! — Ele apenas gargalhou quando o bati com o pano de prato.

Pudim a salvo, com um pouco menos de calda e algumas belas rachaduras, mas inegavelmente saboroso.
Caímos sobre o sofá para curtir um breve momento de preguiça. me aninhou entre suas pernas e braços, e eu pousei minha cabeça na curva de seu pescoço.

— Deixa eu ficar cinco minutinhos aqui antes de voltar para o computador. — Fechei meus olhos me aconchegando ainda mais em seu abraço.
— Fadiga mental? — Ele acariciava meu rosto enquanto eu assentia.
— Unhum.
— Claro... O tempo que precisar. — Sua voz saiu suave, como se estivesse pronto para me ninar. Ele beijou o alto da minha cabeça e apoiou sua bochecha ali, me apertando mais contra seu corpo quente.
— Mas não me deixe dormir ou só acordo depois de duas horas. Preciso seguir meu cronograma senão vou bagunçar minha agenda.
— É sábado, meu bem. Pega leve... E eu posso te ajudar depois. Vamos apenas relaxar sem peso na consciência.
— Seu perfume está me distraindo, amor...
— Muito forte? — Ele puxou a camisa para cheirá-la.
— Não é isso. Você sabe o que esse faz comigo.
— Passei porque sei que gosta.
— Gosto até demais. — Eu ergui a cabeça para encará-lo com um sorriso que ele conhecida bem.
— Ei. Não faz isso... — Ele riu.
— Não fazer o quê? — Sustentei a pequena provocação no ar.
— Amor... no que está pensando exatamente? — Ele semicerrou os olhos, mas já sabia a resposta.
— Adivinha. — Me estiquei dando um longo selinho em sua boca perfeitamente desenhada. Assim que me afastei ele umedeceu os lábios. — Às vezes eu posso estar precisando de outra coisa... — Ele me encarou por alguns segundos.
— Então é assim, né? Vem cá. — Em um movimento ágil e calculado se sentou me puxando para seu colo, encaixando meus quadris ao seu redor.

Ele sorria, sustentando nosso olhar, e meus braços instintivamente envolveram seu pescoço. Sua mão subiu até minha nuca, à medida que a outra me puxava pela cintura pra mais perto. Pude senti-lo. O calor em meu corpo subiu consideravelmente. fez uma pausa dramática, afastando delicadamente algumas mechas do meu cabelo. Seus olhos oscilavam entre os meus e minha boca, num gesto silencioso, quase reverente. Um sorriso malicioso surgiu e seus lábios tocaram os meus de forma lenta e provocante. Me afastei o suficiente apenas para contemplar seu rosto. Suas pupilas dilatadas entregavam aquele olhar cheio de volúpia. Ele me puxou novamente e nossas bocas sedentas se encontraram, sem tanta gentileza como da primeira vez. Meus dedos encontraram um encaixe perfeito em seu cabelo maravilhosamente desalinhado. Sua língua procurou pela minha, faminta, intensificando nosso beijo enquanto o ar ao redor parecia ficar cada vez mais rarefeito.
— Eu não queria descansar mesmo... — murmurei entre risos, ofegante.
— E agora nem se quisesse. — Ele gargalhou baixo com o tom de voz grave que eu amava, antes que sua boca procurasse pela minha novamente, cheia de luxúria.
O resto veio como um instante suspenso no tempo — o pôr do sol filtrando-se pelas cortinas e iluminando nossos corpos suados, o toque quente da pele, e a sensação inconfundível de que naquele momento, nada, absolutamente nada importava, além de nós dois.

***

Olhei para o relógio e me arrastei até a cozinha. Abri uma das gavetas, procurando por aquele frasco. Enchi meio copo com água e depois fiquei parada olhando aquelas pílulas.
‘Até quando?’
Eu queria vencer aquilo com minhas próprias forças, mas de onde eu ia tirá-las? Engoli o medicamento com raiva e me sentei no chão, encolhida. Minha respiração começou a ficar mais pesada. Meu peito apertava, me causando uma dor física e crescente que fez com que eu me debruçasse sobre o piso gélido. Flashes de sua presença naquele cômodo vinham à minha mente. Aquele lugar que já foi palco de tantos momentos calorosos, de risadas e conversas, agora estava vazio, cinza, frio e silencioso. Um silêncio ensurdecedor. O nó em minha garganta era o mesmo que ter alguém me estrangulando. O choro veio de forma avassaladora, e com ele os soluços que cortavam minha respiração. Eu gemia, pedindo por alguma misericórdia, pedindo para que aquilo acabasse.
Como eu disse antes, alguns dias são mais difíceis que outros.
Quando já estava exausta de chorar, levantei em direção ao meu quarto e encarei o espelho do corredor. Eu não me reconhecia. Não apenas de hoje, mas desde que tudo aconteceu. Eu não era a mesma, me sentia oca por dentro. Não parecia que eu tinha vivido uma de minhas grandes conquistas na manhã daquele mesmo dia. Eu precisava falar com . Precisava dessa ilusão de proximidade, mesmo ciente de que o silêncio seria sua única resposta.
Juntei forças para parecer minimamente apresentável. Peguei a primeira peça de roupa que vi — um vestido preto solto que estava pendurado no cabideiro do quarto. Coloquei uma jaqueta por cima e calcei um par de botas que estavam largadas na entrada de casa há pelo menos três dias. Tentei esconder a cara inchada com alguma maquiagem e óculos escuros. E um pouco mais calma, saí de casa ao seu encontro.

Adentrei os portões do cemitério. O Greenland Garden era bem cuidado e arborizado, a grama estava sempre verde e aparada. A morte era algo inevitável, triste, mas não era por isso que o lugar deveria parecer ainda mais lamentável. As almas que ali descansavam foram honradas com um belo lar. Ao menos para quem não estava de luto, era um lugar encantador, poético até.
Sentei na grama e contornei o nome que estava gravado naquela pedra.

... Sua avó lhe deu um lindo nome. — Tirei os óculos escuros e os guardei — Estou aqui de novo como prometi, e com novidades. O lançamento foi um sucesso, meu amor. Você ia adorar ver o sorriso das crianças. — Limpei rapidamente uma lágrima. Era um misto de alegria e tristeza — E a propósito... — Retirei o exemplar do meu livro de dentro da bolsa — Resolvi que vou ler pra você quando vier te ver, o que acha? Vejamos... — Limpei a garganta — “Do outro lado do espelho”, por , capítulo 1...
— Adoro histórias. — Sobressaltei ao ouvir uma voz que exclamou próxima demais de mim.
— Cacete! Quem... — Era ele, .
— Sobre o que é? — Ele apontou para o objeto em minhas mãos, ignorando completamente meu susto.
— É um livro infantil. — Fiz questão de enfatizar a palavra, esperando que ele perdesse o interesse, e reabri na página que acabei fechando sem querer — Agora, se me der licença...
— Posso ouvir também? Acho que não se importaria. Por favor. — se sentou ao meu lado como se o convite já existisse, completamente à vontade.

Eu o encarei, sem esconder o julgamento, e ele sequer percebeu. Mas o pedido veio com tanta educação — e um brilho tão genuíno nos olhos — que eu acabei cedendo.

— Se prometer não me interromper. — O alertei.
— Prometo. — Consentiu com a cabeça.

Recomecei a leitura, ainda pouco à vontade com sua presença. Não sabia se se interessaria pelo conteúdo. Um pensamento ridículo, já que eu estava ali por .
Li até o fim do primeiro capítulo. Ele permaneceu em silêncio o tempo todo, atento, sem interromper uma única vez. Sua presença era tão tranquila que, em determinado momento, quase me esqueci de que ele estava ali.

— Já acabou?
— Por hoje sim. Não quero correr com a história.
— Então acho que eu a verei por aqui mais vezes.
— Bom... Sim. Prometi a que leria pra ele.
— Legal. — Os segundos seguintes foram de um silêncio pacífico, enquanto eu observava a capa do meu livro.
— Você deve achar estranho, não?
— O que?
— Ler pra alguém que já deixou este mundo. Conversar como se ele realmente estivesse ouvindo.
— Na verdade isso é bem comum por aqui. E se isso te ajuda, o que importa o que os outros pensam?
— Gosto de pensar que ele me ouve... — Falei em um sussurro.
— Você não é a única.
— É bom saber. — Disse guardando o livro em minha bolsa.
— Foi você mesmo quem escreveu? — Seu olhar fixo na capa do livro, enquanto eu o guardava, sugeria que ele estava tentando ler o nome do autor.
— Foi sim. — O sentimento de satisfação pulsou em meu peito ao notar o tom de admiração em sua voz. — Assinei alguns desses hoje.
— Sério? Meus parabéns, então.
— Obrigada. — Sorri genuinamente.
— Onde aprendeu a escrever tão bem?
— Concluiu isso com apenas um capítulo?
— Ele foi cativante, mesmo pra um adulto. Livros são um passatempo que eu curto, então me considero um bom crítico.
— Sempre adorei escrever. Não foi difícil escolher o curso de Letras ou o mestrado em Literatura Contemporânea... É. — E então meu olhar se fixou em um ponto distante, em um súbito silêncio.
— O que foi?
— Só estava lembrando... Foi na faculdade que conheci o . — Troquei um breve olhar com , que apenas me observava. Não dissemos nada por um tempo.
Parabéns, meu amor. Estou orgulhoso de você. — Apesar do olhar penetrante, sua voz era doce, mas isso não amenizou o choque que senti ao ouvir aquelas palavras.
— Perdão, o quê? — O encarei perplexa.
— Acho que era isso que diria, não? — Respirei aliviada quando ele se explicou. Mas não pude negar que a forma afetuosa com que disse aquelas palavras preencheram meu coração, apesar do susto. E ele estava certo. Como se soubesse que eu daria tudo pra ouvir dizer aquilo pra mim. Por um momento pude vislumbrar essa cena. Foi bom, mas ao mesmo tempo doeu.
— Seria ótimo poder ouvir isso dele... — Tentei sorrir, mas meus olhos marejaram — Provavelmente teria dito isso sim. também sonhava em ver este livro publicado. — Pisquei algumas vezes, afugentando as lágrimas — Obrigada por dizer isso.
— Eu que agradeço. Foi uma honra ouvir sua história. As duas.
— Por nada.
— Gostaria de caminhar um pouco? — Perguntou pondo-se de pé.
— É... Acho que sim.

Caminhamos lado a lado por algum tempo sem dizer nada. Eu já não me sentia desconfortável de estar em sua presença, mesmo tendo-o conhecido no dia anterior. De uma forma muito sutil ele conseguia transmitir uma certa paz. Não é qualquer um que consegue algo assim.

— Me conte mais sobre como se conheceram. — Ele não estava mentindo quando disse que queria saber da minha história. Não respondi de imediato. Trocamos um breve olhar, mas ele não me apressou. Seu semblante tranquilo parecia dizer que ele tinha todo o tempo do mundo.
— Bom... — Respirei para dar início a uma história que não seria muito longa — Éramos colegas de sala na faculdade, mas até então não nos falávamos. Foi um semestre inteiro cada um no seu canto. Toda terça e quinta eu participava de um trabalho voluntário, lendo histórias para crianças da ala de oncologia de um hospital. começou um pouco depois de mim. Nos aproximamos e descobrimos muitas coisas em comum. Então entre uma conversa e outra, o voluntariado, passeios, trabalhos e seminários, o inevitável aconteceu. Depois de mais ou menos um ano e meio começamos a namorar. E meses após nossa formatura ele me pediu em casamento. E foi assim. — Levantei o anel de noivado que sempre carregava pendurado em meu colar.
— É lindo.
— Sim... — Apertei o pequeno metal em minhas mãos.
— E que tipo de coisas vocês tinham em comum? — perguntou curioso.
— Hum. Por exemplo, ambos nos mudamos de nossas cidades, deixando amigos e nossos pais pra vivermos nossos sonhos aqui. Adoramos livros, música e especialmente o pôr do sol. Detestamos o barco viking dos parques de diversões ou qualquer coisa que tenha cereja. — Suspirei com outras memórias que passavam como um filme, uma atrás da outra.
— Você fala dele no presente. — observou e meu constrangimento ficou estampado na minha cara.
— É que...
— Por favor, não precisa se explicar. Eu entendo.
— Faz tempo que eu não falo dele pra alguém. É complicado... — Mexi com as mãos de forma ansiosa.
— Eu lamento por sua perda, . Acho que ainda não lhe disse isso. — Sua mão pousou sobre meu ombro, em um gesto afetuoso. E mesmo que seu rosto estivesse inexpressivo, seu tom foi sincero. Apenas balancei a cabeça assentindo e soltando um leve suspiro. Se eu dissesse alguma palavra àquela altura, provavelmente desmoronaria. A linha entre estar bem e cair em um choro compulsivo era tênue. E eu não estava em um dos meus melhores dias. pareceu compreender isso, pois não perguntou mais nada por algum tempo, e demos alguns passos em completo silêncio — De onde vocês são?
— Eu sou de Washington DC. nasceu e viveu aqui só até os dois anos, quando se mudou pra Massachusetts. Voltou por causa da faculdade.
— Faz sentido ele estar aqui no Greenland Garden.
— Sim. Os avós maternos são daqui, e os pais dele ainda tinham planos de voltar... A irmã é quem está mais distante, mora fora do país.
— E você? Também tem irmãos?
— Um irmão caçula. Dante. — Sorri com uma pontinha de melancolia.
— Sente saudades, né? — Concordei com a cabeça — São próximos ou é aquela relação de amor e ódio?
— Próximos. Dan é um amor, divertido e muito protetor.
— Então, ... Não se incomoda de eu te fazer tantas perguntas?
— Eu deveria. — Ri — Mal te conheço. Quem sabe do você que é capaz?
— Acho que você teria descoberto se eu fosse perigoso.
— Vai precisar mais do que isso pra me convencer.
— Tenho certeza de que consigo. — Voltei a olhar pra frente com um meio sorriso, seguido de mais uma pausa em nossa conversa.
— Você é um bom ouvinte, .
— E você tem um sexto sentido para pessoas de confiança.
— E presunçoso. — Ele sorriu pra mim. Foi quando me dei conta de que aquele era um gesto raro em nossas conversas. A neutralidade estava quase sempre presente em seu rosto — Minha vez de fazer perguntas. A senhora de ontem... Qual a história dela? Claro, se puder falar.
— Deve estar se referindo à senhora Jang. Ela perdeu o filho primogênito, um tenente da marinha.
— Uma mãe ter que enterrar o próprio filho. É terrível... O que houve com ele?
— Seu navio sofreu um acidente em uma missão. Os amigos relataram a ela que seu filho se recusava a abandonar o navio enquanto tivesse alguém que pudesse salvar.
— Nossa... — Murmurei.
— Apesar da dor que carrega, ela se orgulha do filho ter morrido como um herói. Mas isso não torna a despedida mais fácil. Ela ainda não está pronta para deixá-lo partir. — lançou um olhar furtivo sobre mim — Por isso ela vem tanto aqui.
— Isso é tão... cruel. Pessoas incríveis, jovens, cheias de sonhos, uma vida toda pela frente, e de repente sem aviso prévio... — Arfei sem concluir a frase.
— Parece cruel. Mas como diz aquela velha verdade universal, a única certeza que temos na vida é a morte — Concordei em silêncio — Por isso sempre ouvimos que temos que viver o presente da melhor forma. É uma frase bem batida já, mas não é por isso que ela deixa de ser uma verdade. Nunca sabemos quando tudo vai acabar.
— Não mesmo.
— Mas antes que o fim chegue, espero que a vida da pessoa tenha valido a pena, que a existência dela tenha impactado de forma positiva quem a conheceu. — Fiquei alguns instantes ponderando sobre o que disse.
foi esse tipo de pessoa. — Esbocei um sorriso fraco — Ele sabia viver e conquistar todos ao seu redor. era um ser humano apaixonante. — Olhei pra cima, piscando algumas vezes. Senti o nó se formar em minha garganta, e as lágrimas que ameaçavam vir novamente — Droga. — Murmurei pra mim.
— Mas e quanto a você, ?
— O que tem eu?
— Está vivendo? Ou apenas existindo? — Sua pergunta foi direta, sem rodeios.
— Eu... — Estava pronta para mentir, mas a quem eu queria enganar? — Sendo bem sincera?
— Por favor.
— Depois que ele se foi meu único objetivo era lançar meu livro, enquanto eu fazia meus trabalhos freelancers. Mas agora que o terminei, me sinto um pouco perdida. Cumpro com alguns compromissos e só. Isso não é exatamente viver, é? Eu sabia o que era ter planos e projetos pra dois. Mas agora sou só eu, tentando me encaixar em um mundo sem ele.
— Te entendo. Se reencontrar não é uma tarefa fácil.
— Isso foi uma tentativa de me animar ou de me deixar mais pra baixo?
— Eu disse que não é fácil, mas não que seria impossível.
— Se sente assim também?
— Talvez... — Ele deu de ombros, respondendo de forma vaga.

Poucos metros à frente havia um banco de madeira. me conduziu até ele e então nos sentamos. Ele cruzou os braços sobre o peito, deixando que um silêncio sereno se instalasse entre nós. Observava um grupo de pássaros no chão próximos a nós como se fosse a coisa mais interessante. Me sentei levemente inclinada em sua direção, enquanto ainda divagava. Ri por dentro enquanto lembrava do dia anterior. Examinando-o com calma, a despeito de sua abordagem repentina e nada convencional, ele de fato não parecia uma ameaça nem de longe.
não tinha apenas uma beleza marcante — havia também um senso de estilo que chamava atenção sem esforço. Observei-o por mais tempo do que deveria. Seu visual era simples, casual, mas carregava uma elegância discreta. Observar o estilo das pessoas sempre foi um hábito meu e de Kayla desde a adolescência; algo quase automático. Mas, naquele momento, havia algo diferente nisso — algo estranhamente agradável.
Mas o que mais chamava atenção não era o que ele vestia, e sim a maneira como se comportava. Ele falava com calma e olhava com atenção. Havia confiança em seus gestos e uma serenidade que parecia me convidar a baixar a guarda. Com ele, foi fácil falar o que eu pensava, o que eu sentia — algo que, até então, só acontecia com amigos muito próximos. Foi o que concluí, enquanto estudava, sua figura quase imóvel, se não fosse a respiração fazendo seu peito subir e descer.

...
— Hum? — Ele virou o rosto pra mim.
— Se eu vier amanhã ler para o , você vai estar aqui?
— Claro. — Ele se inclinou um pouco mais em minha direção, imitando minha postura — Posso ouvir a história também?
— Bom... Não vejo porque não.

Conversamos sobre outras amenidades. seguiu uma linha de perguntas mais descontraídas, tirando o foco de , para manter o clima leve.
Perguntei a mim mesma se aconteceria comigo o que aconteceu com outros que o conheceram. Seria possível vê-lo de fato como um amigo um dia? Era apenas a segunda vez que nos víamos, mas sua companhia já tinha um efeito inexplicavelmente forte e reconfortante sobre mim.
Eu queria conhecer o por trás do cara que puxava assunto com qualquer estranho naquele cemitério. E apesar de não saber quase nada a seu respeito, gostava da ideia de poder conversar com ele novamente.

────────────────── ANTES ─────────────────


Nova Iorque, Hospital NYC Health — Anos atrás



— Oi! ? — Perguntou uma voz masculina.
— Kay, daqui a pouco te ligo, ok? Beijo. — Desliguei o telefone e o guardei no bolso — Oi! É o rapaz que começou há poucos dias, não é?
— Isso. , prazer. — Ele estendeu a mão para me cumprimentar — Mas pode me chamar de .
— Prazer! — Apertamos as mãos.
— A garota que senta perto da janela. — Disse ele, referindo-se a nossa sala de aula da faculdade. De fato, meu lugar preferido era ao lado da janela. E apesar de sermos da mesma turma, nunca havíamos trocado nada além de um “bom dia”, até aquele momento.
— Eu mesma. Também te reconheci assim que o vi. — Sorri cordialmente — E então, posso ajudar em alguma coisa?
— Ah, sim! Chegaram duas caixas de doações de livros, daí me disseram para te procurar porque saberia onde e como organizá-los.
— Claro! Vem comigo. É sua primeira vez fazendo trabalho voluntário? — Perguntei enquanto caminhávamos por um corredor.
— Aqui sim. Mas já fiz outros trabalhos.
— Legal! Pode me contar enquanto organizamos os livros.
— Vai ser um prazer.

Foi a primeira vez que trocamos algumas palavras. A turma era grande e costumávamos sentar cada um em um extremo. Mas daquele dia em diante, passamos de apenas colegas de sala para dois inseparáveis amigos.

Capítulo 3
Nova Iorque, Greenland Garden — 18 de setembro, 4:15 p.m.



Não havia nenhum sinal de quando cheguei. Sentei-me próxima a lápide de e aguardei enquanto trocava mensagens com Zoey, uma amiga que estava passando um tempo na Carolina do Norte.

— Devo começar ou ele ainda vem? — Comentei em voz alta. Folheei algumas páginas por alguns instantes até que decidi começar a leitura — Pois bem... Capítulo 2, certo? — Abri meu livro na página marcada.
— Demorei muito? — chegou e apoiou as mãos sobre os joelhos enquanto respirava rápido. Parecia ter corrido uma pequena maratona ou estava em péssimo estado físico.
— Eu já ia começar a ler. — Mostrei o livro aberto.
— Desculpa. Conheci uma pessoa nova hoje. — Ele sentou-se próximo, apoiando uma bolsa ao lado de seu corpo — Quando quiser.
— Ok. — Eu não imaginava que ia gostar de ter uma companhia até vê-lo chegar. Um pequeno e involuntário sorriso quase se formou em meus lábios. estava ali, como havia prometido.

Assim como no dia anterior, ele permaneceu em silêncio, atento, enquanto sua respiração voltava ao normal. O calor que ainda emanava de seu corpo fazia seu perfume se espalhar de forma suave ao nosso redor. Permiti que aquele aroma me alcançasse por um instante enquanto virava uma página. Só percebi que estava inspirando demais quando seus olhos desviaram rapidamente para mim, como se tivesse flagrado o gesto. Tentei não dar importância ao fato de ter sido notada e voltei minha atenção para o livro no mesmo instante.
O breve constrangimento se desfez no ar, à medida que a leitura fluía, embalada pela brisa e o farfalhar das folhas das árvores que nos cercavam. procurou uma posição mais confortável, apoiando-se sobre os braços, genuinamente concentrado naquela história infantil.
Os minutos que se seguiram passaram mais rápido do que eu esperava, e quando dei por mim já havia chegado ao fim do segundo capítulo.

— E encerramos por aqui. — Anunciei, pronta para guardar o livro em minha bolsa.
— Eu posso ver? — segurou de leve meu pulso.
— Aqui, pode pegar. — Entreguei o livro e ele o folheou, prolongando o olhar nas páginas ilustradas.
— São muito boas... Você quem desenhou?
— Quem me dera. Essa ilustradora foi indicação do meu editor.
— Gostei delas. — Disse devolvendo-me o livro e colocando-se de pé — Seus jovens leitores devem estar amando a obra.
— Estou torcendo por isso. — Guardei o livro e notei sua mão estendida em minha direção.
— Vem, vamos caminhar. — me ajudou a levantar e iniciamos uma caminhada quieta. Os segundos se arrastavam e, movida pela curiosidade, quebrei o silêncio.
— Quem é a pessoa que conheceu hoje?
— E o que eu ganho em troca se te disser?
— Então você é do tipo que gosta de barganhar? — balançou a cabeça como quem estava brincando.
— O nome dela é Lia. — Enquanto pensava em suas próximas palavras, colocou as mãos dentro de seu casaco. A brisa daquela tarde estava um pouco mais fria do que de costume. — Ela perdeu o irmão caçula. Um garoto de 10 anos. — Meu coração apertou. Qualquer tragédia que envolvia uma criança, era como ser atingida direto no coração com um punhal — Nunca vi alguém chorar como ela.

Então me contou a trágica história daquele jovem menino. Naquele instante me dei conta de que estávamos cercados de histórias e sonhos interrompidos. Uma criança que se foi cedo demais, um pai que não voltou pra casa, uma mãe que não viu seus filhos se formarem, idosos que cansaram de lutar por suas vidas, jovens que desistiram das suas... Cada lápide era um corte súbito no tempo.
À medida que caminhávamos, lia os nomes dos que conhecia e, com uma placidez difícil de compreender, me dizia como cada uma daquelas pessoas havia deixado este mundo — morte natural, doenças, acidentes, escolhas dolorosas. O tipo de narrativa que costuma apertar a garganta de quem ouve.
Ele as contava com uma calma que parecia alheia à gravidade do que dizia. Sua voz permanecia estável, baixa, quase monótona. Nada no seu timbre denunciava tristeza, choque ou mesmo empatia; era como ouvir alguém descrevendo a sinopse de um filme ou a trama de um livro que não o tocava de verdade. O rosto seguia imutável — expressão neutra, olhar tranquilo, passos cadenciados — como se aquele desfile de tragédias não tivesse peso algum sobre ele.
Havia algo de quase enigmático no contraste: histórias que pediam emoção, narradas por alguém que parecia incapaz ou desinteressado em senti-las. E isso, de um jeito estranho, só tornava ainda mais difícil de decifrar.

— Como consegue fazer isso? Digo. Tudo o que está me contando. E você fala como... Quer saber. Esquece, desculpa. — Desisti de concluir. Por um instante pensei que talvez estivesse exagerando por estar sensível e vulnerável.
— Pode falar o que pensa. Sou bom ouvinte, . — O encarei por alguns segundos antes de falar. Ele aguardava pacientemente.
— É que você conta tudo com tanta... Naturalidade.
— Você é observadora. Isso a incomoda de alguma forma? — não pareceu surpreso, ou incomodado.
— Me deixa intrigada.
— Sabe... Essas pessoas precisam de alguém que as ouça e muitas delas não tem. Outras simplesmente se fecham, recusando qualquer ajuda. — Compreendi o que ele dizia. Eu mesma fui uma dessas pessoas por um bom tempo.
— Ok. Mas isso ainda não responde minha pergunta.
— Sendo bem sincero contigo, as histórias que ouço não me... Afetam. — Disse de forma pausada e cautelosa, mas isso não diminuiu o choque que suas palavras causaram em mim.
— Não te afetam?
— Digo, emocionalmente falando. — Ele notou a enorme confusão estampada em meu rosto e então continuou — Siga meu raciocínio. Já levou alguma anestesia? É a melhor analogia pra você compreender o que quero dizer.
— Sim... Estou ouvindo.
— Quando você está anestesiada, podem te beliscar, te furar ou cortar; você sente o toque, mas não a dor. É isso o que acontece comigo. Eu compreendo o que é a dor, a tristeza, a alegria, a saudade, mas não os sinto. — Não respondi nada por um tempo. Continuamos caminhando enquanto eu refletia sobre suas palavras. Pude sentir o olhar de me avaliando como se aguardasse alguma reação — Parece um pouco confuso de entender, não é? — Perguntou.
— Um pouco. — Admiti. Eu tentava pensar em algum transtorno que pudesse justificar a ausência de emoções em .
— Mas não me julgue como um desalmado ou mesmo um psicopata. Eu nem sempre fui assim... — Sua voz era quase um sussurro na última frase, como se tivesse deixado escapar algo que não planejava dizer.
— O que quer dizer?
Mas também não é permanente... Pode mudar a qualquer momento. — murmurou as palavras, com um olhar distante, como se conversasse consigo mesmo, como se eu não estivesse ali.
... Do que você está falando? — A conversa tinha seguido por um caminho que eu simplesmente não consegui acompanhar.
— Pensando em voz alta. Só mais uma história. — Ele deu de ombros, como quem tenta minimizar algo que não deveria ter dito.
— A sua?
— Talvez. — A resposta veio rápida, sem qualquer contato visual, como se não quisesse falar do assunto.

Não era a primeira vez que escapava pela tangente, escondendo-se atrás de frases vagas, sempre escolhendo as palavras com um cuidado quase ensaiado. Ele se fechou ali, e eu não insisti. Só fiquei observando. E foi nesse instante que percebi um padrão surgindo: entre nós, a conversa fluía com facilidade, desde que o tema não fosse ele. Eu só precisaria de mais tempo para ter certeza.
Continuamos andando a passos bem lentos. Eu podia sentir seu olhar sobre mim de vez em quando, talvez esperando que eu retomasse o assunto — mas eu deixei para lá. As perguntas ficariam para outro momento.
A temperatura estava caindo rápido naquele dia, e meu corpo sempre reagia da pior forma. Bastava alguns graus a menos para que minhas mãos começassem a gelar, deixando meus dedos dormentes logo depois. Esfreguei uma na outra em busca de calor. percebeu.

— Esfriou de repente, não foi? — comentou ele antes de pegar minha mão, sem cerimônias, e colocá-la dentro do bolso largo de seu casaco — Talvez ajude um pouco — Sua mão estava quente, firme, e o alívio foi quase que imediato. Pelo menos meus dedos não congelariam nos minutos seguintes. Instintivamente, coloquei a outra mão no bolso do meu próprio casaco para tentar equilibrar o desconforto — Tudo bem pra você? — Ele se certificou de que eu não estava desconfortável.
— Tudo. Obrigada. — Assenti, ainda levemente surpresa.

O toque dele era gentil de uma forma quase paradoxal. havia me mostrado em alguns momentos que não deixava transparecer muito em seu rosto, mas em seus gestos… havia algo cuidadoso. Quase intuitivo. Como se compensasse no corpo o que economizava em expressões.
Seguimos assim por algum tempo. Minha mão, pequena dentro do bolso dele, ficava completamente envolvida pela sua. De vez em quando, seu polegar deslizava pelos meus dedos, apenas o suficiente para conferir se estavam aquecidos. Era estranho sustentar um contato tão prolongado — estranho e, ao mesmo tempo, reconfortante.
Eu havia esquecido como aquela sensação era. Depois de me despedir de , me fechei num instinto de autopreservação. Raramente permiti que outro homem me tocasse de maneira afetiva, mesmo que fosse algo simples, sutil. Nicolas e Dante eram as únicas exceções, e ainda assim de forma muito esporádica. , sem perceber, atravessava uma barreira que eu costumava guardar com ferocidade.
Ao longe avistamos um grupo de pessoas sepultando alguém. Era possível ouvir o choro baixo, numa aura fúnebre e inquietante. Meu coração apertou e eu soltei uma respiração cheia de pesar. Não queria revisitar minhas próprias memórias. Em reflexo, apertou sua mão sobre a minha, ainda dentro de seu bolso.

— Vocês já tinham marcado a data? Seu casamento. — Ele perguntou dando fim ao silêncio. Achei sua súbita pergunta um tanto curiosa, mas não me importei em responder.
— Na verdade não... Estávamos focados em nosso mestrado, correndo atrás de outras coisas primeiro, juntando as economias. — Suspirei de forma inaudível com a lembrança.
— E como foi? — Ele apontou para o anel pendurado em meu pescoço — O pedido.
— E o que eu ganho se te contar?
— Olha quem quer barganhar agora...
— Eu aprendo rápido.
— Não precisa contar se não quiser.
— Tá tudo bem... — Acariciei o pequeno objeto brilhante antes de continuar — Lembro como se fosse ontem. estava um tanto eufórico naquele dia. “Te pego às quatro. Pode usar aquele vestido que te dei? Te adoro nele!” Ele pediu. O mesmo vestido que usei quando criei coragem para vir visitá-lo. Ele me levou ao Riverside Park. Um cesto de palha, uma toalha. gostava dos clichês.
— Então ele também é desses... Um romântico incurável?
— Total! — Sorri — Ele havia planejado um piquenique à moda antiga com direito ao pôr do sol. Eu não desconfiei de nada. Piqueniques eram um programa comum nosso. Mas aquele foi especial. Comemos, conversamos, ouvimos um pouco de música e depois nos encostamos em uma das árvores dali. Quando o sol estava se pondo, me deu uma carta. Lá estava o pedido dele, com a aliança dentro do envelope. Ele disse que queria eternizar suas palavras de um jeito que fosse a nossa cara. Trocávamos cartas em datas especiais.
— É uma história muito bonita. Ser amada dessa forma... Nem todo mundo teve esse privilégio.
— Eu sei... — Assenti devagar, pressionando os lábios para conter a onda de emoção que subia — Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida, . — Eu o encarei. A voz já começava a sair embargada e eu forcei um sorriso para afugentar as lágrimas.
— Tenho certeza de que foi.

Ficamos em silêncio depois disso. Eu viajei de volta no tempo, vasculhando lembranças como quem toca um objeto frágil, com medo de que se desfaça ao menor movimento. Tinha receio de já ter perdido algum detalhe… Mas não. Eu havia guardado cada instante daquele dia como quem guarda seu maior tesouro.

— É tudo ainda tão nítido… — sussurrei — As texturas, os cheiros, as cores… Tudo ainda tão vivo que chega a assustar.

Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedir. O aperto no peito veio logo em seguida — não um simples incômodo, mas aquela pressão familiar, pesada, como se algo dentro de mim estivesse cedendo. A respiração começou a falhar, curta, e a onda já estava ali: a tristeza que não avisa, só avança. Violenta, pronta para me arrastar inteira. Tirei minha mão do bolso de e a pressionei contra o peito, tentando conter o que eu já sabia que não se continha. As lembranças voltaram todas de uma vez. A saudade latejou, a dor se abriu, e segurar o choro deixou de ser uma opção. E foi ali que eu desabei. Pensar em tudo já era doloroso; colocar em palavras o que eu não tinha mais, o que me faltava todos os dias, era cruel.
Paramos de caminhar naquele momento. Não consegui dar outro passo. E antes de colapsar, os braços de me envolveram — no seu peito, no seu silêncio, no amparo que ele não precisou anunciar. Afundei meu rosto contra seu corpo e chorei compulsivamente. Meu corpo inteiro se contraía. Eu aos poucos fui perdendo o controle sobre ele. Já não havia como fingir força. Doía. E eu chorava numa esperança inútil de que meu sofrimento fosse embora junto com aquelas lágrimas.
manteve-se calado o tempo todo, apenas me segurando em um abraço forte. Eu podia sentir sua respiração quente sobre meu cabelo. Seus dedos o afagavam em um ritmo calmo e constante enquanto eu apertava as costas de seu casaco como se aquilo pudesse ancorar minha dor. A cada gemido que saía de mim, respondia me segurando com mais força, como se quisesse impedir que eu desmoronasse de vez.
Não sei por quanto tempo ficamos assim. Quando finalmente consegui respirar sem soluçar, desfiz devagar o abraço. Mantive a cabeça baixa, limpando o rastro das lágrimas antes de reunir coragem para encará-lo de novo. havia virado de costas no segundo em que nos afastamos. Imaginei que estivesse apenas me dando espaço para me recompor.
Mas quando ele se voltou novamente para mim, fui pega de surpresa. Seus olhos estavam diferentes — ligeiramente vermelhos, brilhando como se algo tivesse escapado do controle. Por um instante pensei em perguntar se eu realmente tinha visto aquilo, mas a ideia se desfez antes que eu pudesse formular as palavras. Ele falou primeiro, e o momento escorregou das minhas mãos.

— Se sente melhor?
— Vou ficar bem, obrigada... — Respondi ainda estudando seu olhar.
— Por que não se senta? — me puxou para um banco pelo qual havíamos acabado de passar. Nos sentamos e ele tirou uma pequena garrafa térmica e duas pequenas canecas de plástico da bolsa que carregava.
— Espera aí... Sério que você anda com isso? — Disse esboçando um sorriso débil, ainda com a voz pesada pelo choro.
— É raro. Só quando quero passar o dia inteiro fora.
— E com duas canequinhas?
— Deduzi que gostasse de café. — Ele me serviu um pouco — Que bom, parece que ainda está quente.
— Eu adoro. Obrigada. — Apreciamos a bebida sem trocar nenhuma palavra, mas a imagem de instantes atrás ainda ecoava em minha mente.
— Percebeu o que estamos fazendo? — perguntou. Franzi o cenho sem entender — O sol... — Ele apontou para o horizonte. Aquela cena era um tanto familiar. Dolorosamente familiar. Trazia à tona uma das melhores, mas também uma das piores lembranças da minha vida. Era um período do dia que eu procurava ignorar. Baixei o olhar, encarando a pequena caneca vazia.
, não. Ainda mais aqui. — Pousei a caneca no banco — É melhor eu ir. — Fiz menção de levantar.
. — Ele segurou meu braço — Por favor.
— Não. E sou eu que te peço por favor.
— Só me escuta. — Ele se arrastou pelo banco diminuindo a distância entre nós dois e se inclinou, procurando meu olhar — Não deixe de fazer o que gosta porque elas te fazem lembrar o ou quem quer que seja. Você me disse que amava o pôr do sol, e que isso foi antes mesmo de conhecê-lo — Ele fez uma breve pausa — Ele não gostaria de ver você vivendo assim.
— Por favor, não diga o que gostaria ou não se nem ao menos o conheceu. — Nem tentei suavizar o tom, embora soubesse que tudo o que dissera era verdade.
— Ok. Me desculpa. Então me diga que estou mentindo, e eu te prometo que vou embora. — Seu olhar me atravessou, firme. Eu não tinha argumentos, e não queria admitir que ele estava certo.
— Ainda machuca, está bem? — Minha voz falhou — Foi num pôr do sol que me pediu em casamento, e foi em outro, como este, que eu o enterrei nesse maldito cemitério! — Senti o ardor nos olhos voltar. Implacável — É tão fácil pra vocês dizerem “faz isso”, “faz aquilo”. — Gesticulei, soltando meu pulso da mão dele. — Você não está na minha pele, não sente o soco na boca do estômago toda manhã quando acorda e lembra de tudo, não fica se perguntando quando vai ter a próxima crise de choro ou quando finalmente vão acabar... Droga, ! Você nem sente nada! Ou sabe fingir muito bem.

As últimas palavras saíram ríspidas demais. Me arrependi no instante seguinte. No fundo eu sabia que ele só estava tentando ajudar — do jeito torto dele. Respirei fundo.

— Você está certa, eu não estou no seu lugar. — Como esperado, não se deixou abalar. A calmaria dele me incomodou, embora eu não soubesse explicar por quê — Mas eu não te disse que seria fácil, . E fugir não vai mudar nada. Nem melhorar.
— Eu já sei de tudo isso! — Soltei o ar, a paciência se esvaindo.
— Olha pra mim. — Ele tocou meu queixo com um cuidado calculado quando tentei desviar o olhar — O óbvio também precisa ser dito. Não se iluda achando que um dia você vai esquecer o . Mas vai chegar um tempo em que lembrar dele não vai doer desse jeito. As memórias ficam. A dor passa. — se ajeitou no banco, encarando a vastidão daquele cemitério, mas se manteve perto o suficiente para nossos ombros se tocarem — Viver o luto é importante, mas sua vida também está passando, . Não a enterre com seu noivo. Você ainda está viva.
— Não sei dizer se a dor diminuiu nesses onze meses sem ele.
— Mas vai. — A voz dele veio baixa, firme — Só que você precisa se esforçar um pouco mais. Não fuja das coisas que te lembram ele. Ressignifique cada uma delas. Porque elas também são parte de quem você é. Comece dando pequenos passos, mas dê. Sempre pra frente. Faça isso por você — e por ele também. Para que a alma de vocês encontre paz, mesmo não caminhando mais juntas.
— Eu vou tentar. — Murmurei. Me senti grata pelo que tentava fazer por mim, reconheci seu esforço… mas ao mesmo tempo me sentia exposta. Frágil. Eu não estava acostumada a mostrar esse lado para alguém que eu mal conhecia.
— Promete que vai mesmo?
— Prometo. — Respondi soltando um suspiro pesado, como se tivesse segurado ar demais dentro dos pulmões. E por um breve momento o silêncio tomou conta do ambiente.
— Posso te dar um abraço? — A pergunta veio de forma inesperada e precisei de um segundo para reagir. Apenas assenti. Talvez fosse exatamente aquilo que eu precisava. se levantou e, com um gesto simples, segurou minha mão para me ajudar a ficar de pé. Depois, passou os braços ao redor dos meus ombros, devagar, como quem se aproxima de algo frágil. Eu o abracei de volta quase no mesmo instante, sem pensar, apenas deixando que aquele espaço entre nós se fechasse. Instintivamente fechei meus olhos. E pela segunda vez naquele dia, me oferecia um pouco mais de seu toque acolhedor.
— Desculpa se fui grossa mais cedo.
— Não foi nada. — Ele tentou aliviar meu lado.
— Obrigada pela conversa. Não vou esquecer dela. — Falei assim que nos afastamos do abraço.
— É bom ouvir isso. Sabe... — Seu olhar varreu o local antes de cair novamente sobre mim — Eu achava que nunca ia te conhecer.
— Não entendi.
— Não foi por acaso que falei com você no dia em que decidiu visitar o . — Ele avaliou minha expressão, confusa. — Na verdade, eu estava te esperando.
— Você o quê?
— A inscrição da lápide diz “Amado filho, irmão, noivo e amigo…”, mas nenhuma das pessoas que o visitou nos últimos meses parecia ser a noiva dele. — A voz dele veio num tom simples, sem grandes ênfases, como se relatasse um fato corriqueiro. — Cheguei a pensar que talvez ela também não estivesse viva. Que bom que eu estava errado. E quando você apareceu naquele dia… eu soube na hora. Era você. A noiva misteriosa.

Não tive reação. Não consegui definir o que senti naquele momento. E continuou, com a voz mais baixa.
— Passei meses imaginando quem você era. Como tinha sido a história de vocês. Os planos que tinham para o futuro e porque nunca vinha visitá-lo. — Ele sustentou nosso olhar, como quem espera uma reação, mas eu continuei em silêncio. — E quando você finalmente chegou… parecia que já te conhecia um pouco.
— Ainda não sei o que pensar sobre isso.
— Não precisa ter pressa. — Ele deu de ombros, gentilmente. — Só achei que você tinha o direito de saber. E desculpa, eu não queria te assustar. — Por um momento, respirei fundo como quem tenta arrumar o próprio mundo interno antes de falar.
— Esse lugar é enorme... por que o ? Por que nossa história?
— Me chamou atenção. Era raro ver a lápide dele sem flores. Para alguém tão lembrado, tão amado, era estranho não ver ali a pessoa que provavelmente foi uma das mais importantes da vida dele.

Minhas mãos formigaram, como se alguma verdade incômoda tivesse me tocado pela primeira vez.
continuou.

— Eu não estava julgando você. — Ele corrigiu, delicado. — Só… me perguntava o que podia ter te afastado. Ninguém some sem motivo. E você tinha um motivo grande demais pra ser ignorado. — Baixei a cabeça e sorri, absorvendo aos poucos tudo o que ele dizia — Foi bom finalmente te conhecer, .
— Acho que também foi bom te conhecer, .
— Acho? Ok. Enquanto você ainda não tem certeza, o que acha de um desafio pra hoje? Você prometeu tentar.
— Do que exatamente estamos falando? — Perguntei desconfiada.

Com uma certa resistência, acabei cedendo ao convite para ver o pôr do sol naquele dia. segurou minha mão, usando o frio como pretexto, embora seu toque parecesse dizer que tudo ficaria bem — que, pelo menos ali, naquele momento, eu não estava sozinha. Não tentei conter a umidade que se formava em meus olhos enquanto o sol desaparecia no horizonte, trazendo com ele lembranças que ainda pesavam no meu coração.

Nova Iorque, Residência

Naquela noite, deitada antes de pegar no sono, repassei a conversa com inúmeras vezes. Era como se cada frase voltasse com um peso diferente — algumas mais leves, outras capazes de desalojar coisas que eu vinha tentando manter quietas dentro de mim. Foi um dia atípico.
Me levantei e procurei por um bloco de notas. A ideia de começar um diário surgiu quase sem que eu percebesse. Talvez eu precisasse registrar algo antes que o tempo, cruel como sempre, desgastasse os detalhes.
A lembrança do modo como me segurou e acolheu meu choro não me deixava em paz. Chorar era algo que eu fazia sozinha havia meses. Poupava ao máximo familiares e amigos de presenciarem momentos assim. Queria que acreditassem que eu estava “melhorando”. No fundo, eu sabia que não era verdade.
E, ainda assim, ali estava eu — desabando nos braços de um homem que eu mal conhecia. Ser acolhida daquela forma era inimaginável. E o mais estranho era que o inimaginável tinha sido… bom. Reconfortante. A simples ideia de que aquilo pudesse se repetir não me soava absurda — apenas inesperadamente possível. Eu gostava de parecer forte, mas uma parte silenciosa de mim gostou da sensação de ser cuidada.
Meu lápis parou no papel quando a frase dele ecoou mais uma vez: “Eu estava te esperando.”
Eu não sabia se deveria me preocupar ou me sentir lisonjeada. Era algo que, em tese, deveria soar inquietante. Mas, estranhamente, não soava. Apenas despertava uma curiosidade que eu não conseguia ignorar. O fato é que, parar de ver não era mais uma opção. No fundo eu sabia: eu havia entrado por um caminho do qual eu não tinha a intenção de voltar.

O celular vibrou.

K
Kayla
online
HOJE
Amiga... Acordada?
Pra sua sorte sim
Insônia de merda por aqui :/
Topa FaceTime até chegar o sono?
Por favor! Vou só pegar um chazinho antes
Chamo o Dante se ele estiver acordado?
Pode ser
📎 😊
Mensagem
📤
Não saberia dizer, se me perguntassem depois, sobre o que conversamos naquela chamada. Não por falta de interesse, mas porque minha mente não estava ali. Estava em outro lugar — ainda presa ao cemitério, às palavras de .

────────────────── ANTES ─────────────────

Nova Iorque, Greenland Garden



Após o sol se pôr, acompanhei até os portões de saída antes que o fechassem, e quando ela pegou um carro pra casa voltei à lápide de .
Fiquei de pé, parado por alguns instantes, apenas refletindo. Ele era o único morador permanente daquele cemitério com quem eu “conversava”.

— Deve estar feliz agora que ela finalmente apareceu. Preciso dizer: sua noiva é muito bonita. Com todo o respeito, claro. — Apoiando uma mão sobre a lápide, me agachei — Eu queria muito saber sua história. Pelo pouco que a me contou, você foi uma boa pessoa, . Então... Hoje foi um dia complicado pra ela. Eu precisei confrontá-la, então, por favor, não fique zangado. Acho que entende que fiz isso para o bem dela. Foi um dia intenso pra mim também... Tenho que confessar.

Fiz uma breve pausa, colocando meus pensamentos em ordem. A lembrança do choro de voltou com uma nitidez inquietante — a forma como sua voz falhou, como sua força simplesmente se dissolveu diante de mim, completamente vulnerável — e aquilo me atingiu de uma forma que eu não soube controlar, de um jeito que eu jamais esperava.

— Acho que ela notou. é esperta, não deixa passar nada. Se eu tivesse dado espaço, ela teria perguntado. Mas ela não estava nada bem. Não era o momento de falar sobre mim. O foco não poderia ser ninguém além dela. E ... Não gostei nada de vê-la daquele jeito. É a primeira vez que algo me incomoda desde que comecei a fazer esse trabalho. Enfim... — Passei a mão no rosto, sentindo subitamente aquele incômodo subir por meu corpo outra vez — Ainda não sei o que te trouxe aqui. E talvez a não esteja pronta pra me contar. Eu vou no tempo dela. — Meu olhar percorreu o nome gravado na pedra. — Mas pode ficar tranquilo. Vou garantir que ela fique bem. Se ela precisar — e quiser — eu estarei aqui pra ajudá-la.

Inclinei a cabeça em um gesto breve.

— Até mais, cara.

Então me virei e fui embora, sentindo o silêncio do lugar me seguir por alguns passos.
Capítulo 4
Nova Iorque, Greenland Garden — 18 de outubro, 4:00 p.m.



Visitar o túmulo de e conversar com já estava virando uma estranha forma de rotina. Sete dias seguidos naquela mesma sequência. Eu reconhecia o quanto aquilo destoava da vida comum — afinal, quase ninguém escolhe um cemitério como parada diária, e talvez nem fosse saudável fazê-lo. Mas ironicamente, o lugar que passei meses evitando — e por algum motivo complicado de nomear — acabou se tornando um espaço onde o caos dentro de mim parecia afrouxar, onde eu podia respirar sem precisar fingir que estava bem.
Mas percebi que precisava de um novo eixo, algum projeto que reorganizasse meus dias. continuava me dizendo, com aquela calma quase irritante, que eu devia dar pequenos passos. Então, após aqueles sete dias nos encontrando diariamente, mudamos a dinâmica das minhas visitas ao cemitério. Concordamos que seriam apenas nas terças e quintas.
Nos demais dias, eu me comprometeria a construir outros caminhos — revisar metas, investir no meu perfil profissional como autora, aceitar novos trabalhos freelancers, e talvez até resgatar ideias antigas que eu havia deixado de lado. Era uma tentativa de equilibrar as partes de mim que ainda estavam inteiras com as que continuavam tentando se recompor.

E assim se passaram três longas semanas.

adorava ouvir histórias, e éramos parecidos nesse aspecto. Eu gostava de sentar ao seu lado e ouvir as que ele trazia consigo — histórias que, curiosamente, nunca eram sobre ele, mas sobre as pessoas que conheceu ali no Greenland Garden. Relatos marcados por perdas, reencontros, segredos e despedidas silenciosas.
Essas histórias, apesar de carregarem tristeza, tinham sua beleza. Especialmente as contadas pelas pessoas mais velhas, que falavam de suas vidas como quem folheia um livro antigo. A maneira como descreviam cada detalhe tinha algo de poético, impregnado de tempo, amor e saudade, dizia .
Quando me despedia dele às quintas, havia um leve desconforto nos dias seguintes, algo que eu preferia atribuir à rotina ou ao silêncio excessivo das tardes. Nada que merecesse atenção, eu dizia a mim mesma. E, ainda assim, quando a terça finalmente chegava e eu o via outra vez, alguma coisa parecia se acomodar por dentro, de maneira quase imperceptível. Não era um sentimento claro, nem algo que eu estivesse disposta a examinar com cuidado. Apenas uma sensação passageira, discreta.

‘Que história ele vai trazer hoje?’

Essa pergunta me acompanhava durante todo o caminho até o cemitério, quase como um pequeno ritual silencioso. E, nos dias em que nenhuma história nova surgia, o tempo se preenchia de outra forma: jogávamos cartas ou dama, enquanto conversávamos banalidades que, pouco a pouco, deixavam de ser tão banais assim. Eu falava da minha família, dos meus gostos, das pequenas preferências que costumam passar despercebidas — músicas, manias, viagens, lembranças antigas que eu mesma já não acessava com frequência.
Havia um alívio discreto no fato de ainda não ter pedido detalhes sobre a partida de . Era um território que eu evitava revisitar. Relembrar aquele dia exigia uma força que nem sempre eu tinha.
Nossas conversas, quase sempre, giravam em torno de mim. E eu sabia que aquilo não era por acaso. De forma cuidadosa, quase estratégica, tentava me lembrar de quem eu era antes de entrar na minha vida — de como eu vivia, do que me fazia sorrir, do que me movia. Eu entendia muito bem onde ele queria chegar. era sagaz, e eu não era ingênua.
Era terça-feira, e eu fiz o que pude, mas não consegui evitar o atraso de duas horas.

‘Será que ele ainda vai estar lá?’

Desci apressada do uber e atravessei os portões sem perder tempo. Incrédula — e aliviada — vi que continuava ali. Estava sentado junto à lápide, absorto na leitura de um pequeno livreto. Seu cabelo, um pouco mais comprido do que no primeiro dia em que nos conhecemos, caía sobre a testa e encobria parte do rosto enquanto ele lia. Um detalhe simples, que até então me passara despercebido, mas que naquele instante me prendeu por alguns segundos a mais.
Continuei caminhando em sua direção. Ele ainda não havia percebido minha presença. Então se levantou, fechou o livreto e o guardou no bolso traseiro do jeans. Em seguida empurrou as mangas compridas de sua blusa verde escura até os cotovelos. Foi quando ele fitou seu velho relógio no pulso.

‘Eu tô encrencada.’ Pensei.

Só depois de passar as mãos no cabelo de forma ansiosa foi que ele notou minha presença. Apressei o passo em sua direção.

— Perdão, . — Me aproximei juntando as mãos uma na outra.
— Vejam quem chegou. — Ele soltou o que me pareceu um suspiro aliviado, dando um pequeno passo em minha direção — Aconteceu alguma coisa? — Perguntou, enquanto me observava minuciosamente até fitar uma sacola grande e parda pendurada em meu antebraço.
— Tive uma reunião com meu editor, mas ela atrasou porque Nicolas precisou fazer um favor de última hora e acabou pegando um trânsito horrível. Sinto muito te fazer esperar tanto. — Disse um pouco constrangida. Eu nunca deixei ninguém esperando por mim por tanto tempo.
— Tá tudo bem. Que bom que foi só isso.

Ele não parecia chateado, mas havia algo diferente. A preocupação era sutil, quase imperceptível para quem não observasse com atenção. Sua postura estava mais rígida, longe da naturalidade tranquila com que costumava me receber. Sua voz permanecia neutra, mas seu olhar parecia querer traí-lo.
Desde o dia em que vi seus olhos vermelhos, brilhando como se tivessem sido traídos por algo que ele não conseguira conter, eu nunca o questionei a respeito. Mas estava claro o que havia acontecido. A imagem permanecia nítida na minha memória, e quando achasse que seria a hora certa, eu traria o assunto à tona.

— Eu poderia ter te avisado sobre o imprevisto de hoje se você ao menos usasse um celular ou qualquer tecnologia que permitisse uma comunicação minimamente decente entre a gente.
— Não me importo de te esperar. — Ele deu de ombros. — Você levou onze meses, lembra? Então... O que são duas horas?

Eu até pensei em fingir indiferença, mas aquelas palavras me atingiram de um jeito inesperado. Não soube dizer se me incomodava ser lembrada do tempo que levei para voltar ali ou se, em algum lugar sensível demais para admitir, eu gostava da ideia de ter alguém esperando por mim.

— Estou sendo repreendida ou algo assim?
— Eu nunca faria isso contigo. — Respondeu prontamente, percebendo como aquelas palavras soariam pra mim — Desculpa se passei a ideia errada.

Assenti, mas não resisti:

— Então não ache ruim se um dia acontecer alguma coisa comigo, eu simplesmente sumir e você ficar sem qualquer notícia.

A mudança nele foi imediata.

— Poderia não brincar com esse tipo de coisa? — Disse sério.

Havia algo firme em seu olhar, uma desaprovação contida também na voz. Aquilo me pegou desprevenida. deixava transparecer algo próximo do incômodo de uma forma como nunca o vi fazer antes. E eu registrei isso em silêncio, como quem percebe uma fresta nova se abrindo onde antes tudo parecia impenetrável, neutro demais.

— Não estou brincando. Mas um imprevisto como o de hoje pode acontecer. — Esclareci. Sua expressão relaxou um pouco. E embora não admitisse, ele sabia que eu estava certa.
— O que tem aí dentro? — Ele desconversou, puxando a beirada da sacola que eu carregava pra espiar o seu conteúdo.
— Na correria eu só almocei uma barra de cereal. Trouxe um lanche pra gente. Imaginei que também pudesse estar com fome.
— Quer comprar meu perdão pela demora? — Ele arqueou uma sobrancelha, deixando escapar um meio sorriso.
— Eu preciso ser perdoada? O que aconteceu com o “não me importo de te esperar”? — Provoquei.
— Continua valendo… mas não vou recusar suborno. — Ele piscou me ajudando com a sacola.

Sentamos em um banco mais afastado, onde a copa de uma das diversas árvores dali fazia sombra sobre ele. Comemos um sanduíche com suco enquanto fazia uma sinopse sobre o livreto que lia. Depois que terminamos o lanche, seguimos rumo à lápide de novamente.

— E como tem lidado com a depressão? — A pergunta de foi direta, me pegando de surpresa. Lancei um olhar perplexo, tentando decifrar de onde aquilo tinha surgido.
— Do que você está falando? — Ninguém sabia. Ninguém além da minha psiquiatra e de Nicolas. Eu fiz questão de esconder até mesmo da minha família.
— Eu vi seus comprimidos, . — Explicou, sem alterar o tom — Eles caíram da sua bolsa naquele dia, quando você foi pegar o livro. Eu reconheci. Enfim… a não ser que você tome isso pra outra coisa.

O silêncio se instalou por um segundo pesado demais.

— Não. — Soltei o ar devagar, como se estivesse admitindo algo em voz alta pela primeira vez — Você está certo. Faz uns oito meses que estou em tratamento. — me observou com atenção, sem julgamento.
— Pela sua expressão, imagino que não gostou de eu descobrir. Você nunca mencionou nada a respeito desde que nos conhecemos.
— Não queria que soubesse. — Respondi com honestidade crua — Nem meus amigos, nem minha família sabem.
— Por quê?

Sustentei o olhar dele por alguns segundos antes de responder. A curiosidade de já não era nenhuma novidade, mas ainda me surpreendia a facilidade com que ele me conduzia até lugares que eu tentava manter trancados. Havia algo na maneira como perguntava — sem pressão, sem urgência — que fazia a verdade simplesmente escorregar para fora de mim.

— Já era difícil o suficiente estar perto deles e sentir aquele olhar de pena. Todo mundo escolhendo cada palavra, me tratando como se eu fosse quebrar a qualquer momento. — Respirei fundo antes de continuar. — Exceto o Nico. Foi ele quem praticamente me arrastou pra um consultório. — assentiu devagar, sem pressa de preencher o silêncio que se formou.
— Entendo.
— Eu só não queria dar margem para mais alarde. Preferi guardar pra mim.
— Que bom que procurou ajuda.
— Não queria que fosse o caso, pra ser sincera. Achei que conseguiria sozinha, se eu me esforçasse... Por isso foi difícil aceitar uma intervenção profissional no começo... Orgulhosa demais pra admitir que eu não era tão forte como achei que fosse. — Confessei.
— Não seja tão dura consigo mesma. — respondeu sem pressa. — Você passou por algo devastador. Em situações assim, perder o controle não é fraqueza, é humano.

Paramos diante da lápide de .

— Eu odeio a ideia de depender de remédios, ainda mais esses. — Continuei, a voz mais baixa — Parece um atestado de que sou fraca. Impotente.
— Fraca? — Exclamou quase incrédulo — , você escreveu um livro enquanto estava no olho do furacão. Tem noção disso? — A constatação me pegou de uma forma que eu nunca havia parado pra refletir a respeito, até ouvir .
— Eu fiz isso, não foi? — Não pude evitar sorrir com a ironia.
— Fez. — Ele confirmou — Não encare esses remédios como sendo algo ruim, uma falha ou rótulo. Eles são só parte do caminho de alguém que não desistiu.

conseguiu me arrancar um sorriso tímido. Suas palavras tinham o efeito de organizar o caos dentro de mim. Era um alívio ele saber mais esse fato a meu respeito.
Eu não esperava, mas naquele momento eu me senti mais leve. Leve. Notei que essa palavra era uma constante sempre que estávamos juntos.

— Chega de conversa fiada. Hora da leitura. — Peguei o livro da minha bolsa e sentei na grama.
— Me diz uma coisa, … você também é daquelas que sente sono depois de comer? — perguntou, bocejando no meio da frase. Eu ainda formulava uma resposta quando, sem qualquer aviso, se deitou na grama e acomodou a cabeça sobre minhas pernas — Quando quiser. e eu estamos prontos.

O gesto foi tão simples quanto inesperado. Ele apoiou um dos braços sobre os olhos já fechados, completamente à vontade, como se aquele fosse um acordo silencioso entre nós desde sempre. Eu permaneci imóvel por alguns segundos, sentindo o peso leve de sua cabeça e o calor atravessando o tecido da minha roupa. Meu corpo reagiu antes da minha razão: um arrepio curto, quase imperceptível, seguido de uma estranha sensação de acolhimento — algo entre o constrangimento e um conforto que eu não lembrava de já ter sentido assim.
não demonstrou qualquer pressa. Não questionou meu silêncio, não abriu os olhos para conferir minha reação. Fingiu, deliberadamente, não notar minha hesitação, como se me desse tempo para aceitar — ou recusar — aquele contato.
Pensei em protestar, dizer qualquer coisa que restabelecesse uma distância segura. Mas, em vez disso, uma risada baixa escapou de mim. Ajustei o livro nas mãos, respirei fundo e permiti que ele ficasse ali, descansando em meu colo.
A brisa da tarde nos abraçava enquanto eu lia parágrafo por parágrafo, com um pequeno sorriso surgindo em meus lábios em alguns momentos. E após um tempo, concluí o capítulo do dia.

— Não diga que já acabou... Parou na melhor parte. — Murmurou ainda de olhos fechados.
— Nada como um bom suspense para fechar um capítulo. Adoro esse, inclusive. — Comecei a contar sobre como foi escrever aquela parte da história, enquanto ajeitava meu cabelo e um coque. Quando dei por mim, eu falava sozinha. havia adormecido em questão de segundos — ? — Chamei baixinho, mas ele não moveu um músculo. Não quis acordá-lo ao ver a tranquilidade com que dormia.

Uma camada espessa de nuvens cobria o sol, proporcionando uma sombra agradável por boa parte do cemitério. Com cuidado, afastei a mecha de cabelo que insistia em cair sobre seus olhos fechados e deixei meu olhar repousar em seu rosto por um tempo relativamente longo. Havia ali detalhes que eu nunca tinha notado — ou talvez nunca tivesse tido coragem de notar — e que agora se revelavam com uma clareza quase íntima.
Um leve sinal na testa, vestígio de alguma cicatriz antiga. Duas pintas lado a lado em seu pescoço, discretas, fáceis de ignorar à distância. O desenho preciso dos cílios, a forma do nariz, a linha dos lábios, o contorno firme do maxilar. Percorri cada traço lentamente, como quem lê algo pela primeira vez.
Estar tão perto assim tornava tudo diferente. Mais humano. Mais real. Mais... bonito. E eu me permiti ficar ali, observando, consciente de que aquele instante — simples — talvez não se repetisse da mesma forma.

— Tudo bem. Pode descansar... — Cochichei enquanto passava delicadamente meus dedos por entre os fios de seu cabelo. Foi involuntário e intuitivo fazê-lo. Era um gesto familiar e corriqueiro pra mim, que há muito tempo estava adormecido. Eu adorava acariciar o cabelo de enquanto assistíamos algo na TV. Ele deitava em meu colo e abraçava meu quadril enquanto eu brincava de despenteá-lo com meu carinho. Sentia falta daquilo, de um contato mais íntimo, embora não quisesse admitir.
Partes de quem eu era pareciam ensaiar um retorno lento e cauteloso. A carinhosa, afetuosa, era uma delas.
Ficamos ali por um bom tempo, e pela primeira vez em meses eu não sentia urgência alguma. Uma de minhas mãos deslizava suavemente por seu cabelo, num gesto automático, enquanto a outra repousava sobre seu peito, acompanhando o subir e descer tranquilo de sua respiração. Havia conforto naquele contato, talvez justamente porque ele dormia, alheio ao efeito que causava em mim.
tinha grande parte de responsabilidade nisso. Desde o início, era ele quem, pouco a pouco, quebrava a distância física entre nós. Conversava não apenas com palavras, mas com gestos — tocava meus dedos distraidamente, roçava meu braço enquanto falava, se aproximava sem pedir licença, como se o corpo também fizesse parte do diálogo. Em outros tempos, eu sequer perceberia. Mas depois da morte de , eu havia me fechado de tal forma que qualquer toque passou a parecer estranho, distante da minha realidade.
Só agora, com , eu começava a redescobrir essa linguagem silenciosa. Nico sempre fora mais contido, cuidadoso — bem característico de sua personalidade. , não. Com ele, o contato parecia natural, espontâneo, despretensioso. Era algo simples, banal até — e ainda assim incrivelmente bom. Então me dei conta, naquele momento, de que sorria sozinha. Senti meu rosto ficar quente, sem que eu pudesse evitar. Foi quando pequenas gotas precipitaram das nuvens. Uma garoa fina, o suficiente para despertar .

— Hum... — soltou um pequeno gemido levando o braço para cobrir seus olhos semicerrados que se abriam aos poucos — Eu dormi mesmo? — Perguntou, parecendo um pouco desconcertado.
— Só um pouquinho. — Disse vendo-o se levantar. Fiz o mesmo assim que ele se colocou de pé.
— Desculpa. Não era minha intenção, sério. — Ver esse lado sem jeito de era divertido. Arriscava dizer que ele ficava especialmente fofo assim.
— Relaxa, tá tudo bem. — Sorri com seu aparente constrangimento, mas torcendo para que a cor do meu rosto já tivesse voltado ao seu tom habitual.
— Melhor corrermos ali para o...
… posso falar a sós com por um instante? — O interrompi — Já te alcanço.

Ele assentiu sem questionar e se afastou, respeitando o pedido, dando-me a privacidade que eu precisava.

— Oi, . Vou ser breve. — Me agachei diante da lápide — E então… o que está achando do meu livro? Espero que esteja gostando tanto quanto o . — Lancei um olhar rápido na direção do coreto, onde se protegia da garoa — Ele é um bom amigo.

A palavra ecoou dentro de mim. ‘Eu disse amigo. Quem diria...’

— Acho que vocês teriam se dado bem, se tivessem se conhecido. — Continuei, num tom quase confessional — tem sido um bom ouvinte. E uma ótima companhia...

Sorri de forma contida.

— Sabe... Às vezes eu ainda sonho com você. Acordar continua sendo a pior parte. A saudade é insistente e teimosa... — Respirei fundo — Mas por outro lado, faz alguns dias que não choro como antes. Achei que ia gostar de saber. Pouco a pouco estou tentando... Você sabe.

Minhas mãos se mexeram nervosas, denunciando o conflito que eu não colocava em palavras. Uma parte de mim ainda achava errado querer superar sua morte, como se isso fosse uma traição silenciosa.

— Não se preocupe. Isso não significa que eu vá me esquecer de você. — Balancei a cabeça, como se precisasse reafirmar — Isso é impossível.

Encarei seu nome por alguns segundos.

— Bom… preciso ir agora. — Beijei as pontas dos dedos e toquei a lápide com cuidado, antes de me levantar e seguir para o coreto.

observava o céu em silêncio, seu olhar se perdia nas nuvens que se acumulavam. Apoiado na grade do coreto, mantinha as mãos firmes ali, como se o corpo estivesse presente, mas a mente vagasse longe. A garoa fina nos mantinha encurralados naquele pequeno espaço, criando uma espécie de pausa no tempo. Talvez fosse justamente por isso — pela quietude, pelo som suave da chuva, pela distância momentânea do resto do mundo — que aquele parecia o momento certo. Um daqueles instantes raros em que as perguntas, guardadas por tempo demais, finalmente encontram espaço para existir.

... — Minha voz saiu suave. Ele olhou pra mim, atento, mas sem dizer nada — Todo esse tempo você me contou dezenas de histórias, mas... eu não sei quase nada sobre você. — Imitei seu gesto, apoiando-me da mesma forma na grade — Podíamos equilibrar essa balança. O que acha? — Ele sustentou nosso olhar por alguns segundos antes de encarar as nuvens acinzentadas novamente.
— Não há muito o que eu possa dizer. — Como de costume nunca dava uma resposta satisfatória. Não pra mim.
— Nada? Não acha um pouco... injusto? Eu sou praticamente um livro aberto pra você.
— Gosto de te ouvir, te conhecer.
— Mas uma coisa não justifica a outra.
— Desculpa... — Ele me encarou por um breve momento e então desviou o olhar para a garoa — Algumas histórias não podem ser contadas. Não completamente...
— Está tentando esconder alguma coisa? Porque se não for isso, não sei o que pode ser...
— Quem sabe... — deu de ombros.
Quem sabe... — Repeti com desdém — É o que você sempre diz quando foge de uma resposta.
— A menos que você me ajude aqui no Greenland Garden, pensarei em te contar.
— E voltamos a barganha. — Respirei fundo, já pensando em desistir daquela conversa.
— Vamos lá. Podemos fazer isso juntos. — Ele roçou seu ombro no meu, como se estivesse propondo algo animador e irrecusável.
— Ajudar tipo como?
— O que eu faço aqui? — Ele passou seu braço por meus ombros.
— Acha realmente que eu estou em condições de ajudar alguém? — Ri sem humor, tirando seu braço de mim.
— Não use seu sofrimento como muletas, . Você é melhor do que isso. Vai se fazer de coitada mesmo?
— Não venha com esse papo pra cima de mim.
— Tá fugindo sem nem analisar minha proposta.
— Você não vai desistir de tentar me convencer, vai?
— Não. Pensa comigo, você sabe o que é se despedir de alguém, compreenderia essas pessoas melhor do que ninguém.
— Não sei se gosto da ideia de bancar a psicóloga, .
— Nem deve. Não estou te pedindo isso. A ideia é só escutá-las.
— Não sei não, ...
— Pense com carinho antes de recusar. — Disse pondo-se de frente pra mim — O que você tem a perder? Você também adora histórias. Ouça algumas...
— Prometo pensar no assunto. — Ergui meu indicador — Eu disse pensar. Não crie expectativas. — Adverti, recebendo um meio sorriso dele.
— Já é alguma coisa. Vamos, quero te mostrar um lugar. — Disse ele me puxando pela mão assim que a garoa diminuiu.
— Que lugar? — Perguntei curiosa. Nunca havíamos saído para além dos muros do cemitério até então.
— Surpresa. — Não tentei descobrir pra onde ele me levaria. Um suspense aqui, um pequeno mistério ali, isso era parte do charme de . Então apenas o segui.

Contornamos o cemitério e caminhamos por alguns minutos. Pouco mais à frente apontou o nosso destino. Uma velha cafeteria. O lugar era calmo, com pouco movimento, assim como a rua onde estava localizada.
A fachada construída com tijolos avermelhados e desgastados pelo tempo, contrastava com o verde escuro e envelhecido da madeira das portas e janelas. Um grande toldo listrado cobria toda a fachada. Passamos pela porta que anunciou nossa entrada com o soar de um sino. O calor do ambiente nos abraçou, causando um alívio instantâneo. Lá dentro uma música tocada ao piano ecoava de velhas caixas de som presas no alto das paredes. A madeira da mobília, as diversas plantas espalhadas, as prateleiras com antiguidades decorativas e as cortinas de um creme transparente deixavam o lugar inegavelmente aconchegante. Lamentei não tê-lo conhecido antes.

— O de sempre, ? — Um senhor perguntou, assim que nos avistou.
— E um para minha amiga também, por favor. — Disse ao cumprimentá-lo. Notei uma micro expressão de surpresa no rosto daquele senhor quando seus olhos se fixaram em mim.
— Certo. Fiquem à vontade. — Disse ele, de forma cordial e sorridente. Retribuí com um sorriso tímido.
— Se não gostar do que pedi pra gente, pode consultar o cardápio. Mas acredito que não vai se arrepender.
— Vou confiar em você.

Meu olhar voltou a percorrer o lugar enquanto eu passava as mãos por minha roupa, expulsando as gotículas de chuva que ainda não haviam penetrado no tecido. , por sua vez, tentava — de um jeito um tanto desajeitado — fazer o mesmo com meu cabelo, usando um guardanapo que havia apanhado na mesa ao lado. Fingi não perceber. Por fora, mantinha a compostura; por dentro, havia algo silenciosamente agradável naqueles pequenos gestos de cuidado.
Era quase sempre assim: uma folha de árvore que se prendia aos meus fios e ele retirava, uma mecha rebelde que insistia em cair fora do lugar e que ele ajeitava com naturalidade. Eu fingia não notar, fingia não sentir que gostava de quando ele agia daquela forma. Fiquei pensando se aquilo era algum tipo de mania, um TOC discreto, ou se apenas reparava em detalhes que a maioria das pessoas ignorava — e se importava o suficiente para agir.
Quando achei que sentaria em alguma das diversas cadeiras vazias dali, me pegou pela mão e caminhou até o fim do balcão de atendimento. Logo atrás, havia um pequeno corredor que levava a outro ambiente, mais estreito, quase íntimo. A sensação foi imediata: como entrar em um vagão de trem. Não por acaso, o espaço parecia ter sido projetado exatamente para isso. Mesas alinhadas com bancos acolchoados, separadas por divisórias de madeira e vidro fosco, criavam pequenos refúgios de privacidade. As janelas, que se estendiam da metade da parede até o teto, revelavam uma vista delicada dos fundos — um jardim bem cuidado, quase escondido do mundo.
percebeu o brilho curioso em meu olhar enquanto eu absorvia cada detalhe daquele novo espaço. E, por um instante, tive a sensação de que ele havia me levado até ali justamente por isso.

— Gostou? — Perguntou, com um quê de satisfação ao notar minha reação.
... Que lugar lindo. Um achado. Eu amei. — Respondi sem conseguir disfarçar o sorriso.
— Quando me contou da viagem de trem que fez com sua família, imaginei que iria gostar daqui.
— Espera. Ainda lembra daquela história? — Perguntei, surpresa dele ainda guardar essa lembrança de uma de nossas conversas.
— Lembro, sim. — Disse com naturalidade — Foi a forma como me contou. Seus olhos mudaram. Você ficou deslumbrada com aquela viagem.

Eu mesma já não me recordava de como havia descrito aquela viagem. parecia ter guardado não só as palavras, mas também o momento. A constatação me atravessou de leve: ele não apenas ouvia o que eu dizia, ele realmente escutava.

— Obrigada por me trazer aqui.
— Foi um prazer. — Um sorriso discreto surgiu no canto de sua boca — E, já que estamos falando de histórias… quer saber a deste lugar?
— Com certeza. — Minha resposta saiu rápida, sem hesitação.
— O homem que veio falar conosco é o dono. Senhor Nobun. — Explicou — Ele conheceu a esposa em um vagão de trem. Depois que ela partiu, Nobun construiu este espaço em sua memória.
— Trágica, mas ainda assim, uma linda história. — Voltei a admirar o ambiente, agora com outro olhar, quase reverente, como se estivesse pisando em um lugar sagrado, carregado de significado — E você conheceu esse senhor no cemitério, imagino.
— Exatamente.
— Você está ficando previsível, .
— Eu duvido. — Respondeu, com um leve brilho desafiador no olhar.

Ele me conduziu até a última mesa do “vagão”, dizendo ser seu lugar favorito sempre que vinha ali. Um canto mais reservado, quase escondido — o tipo de espaço que parecia ter sido escolhido não por acaso, mas por necessidade. Talvez fosse seu refúgio. Sentamos frente a frente, separados apenas pela mesa de madeira.
Durante todo o caminho até o café, minha mente voltava à conversa que tivemos no coreto. sempre encontrava uma maneira de contornar minhas perguntas, desviando com respostas calculadas, como quem protege algo precioso. Ainda assim, eu não estava disposta a desistir. Havia em mim uma vontade quase física de conhecê-lo melhor, de compreender o que se escondia por trás daquela calma constante. Decidi tentar outra vez, com uma abordagem menos direta.

... Esse seu trabalho... Há quanto tempo está nele? — Perguntei, num tom casual.
— Há pouco mais de onze meses. — Ele fez uma breve pausa, como se confirmasse a conta mentalmente. — É… vai fazer um ano, na verdade.
— E é algo temporário ou um projeto que você pretende levar a longo prazo? — Apoiei os braços sobre a mesa.
— Temporário. — Respondeu, enquanto puxava minha mão com naturalidade, distraindo-se ao girar os anéis nos meus dedos.
— Sério? Por quanto tempo mais? — Aproveitei a abertura, surpresa por ele não ter hesitado dessa vez.
— Isso vai depender de mim. — Ele desviou o olhar para fora, observando a paisagem pela janela. Sua mente pareceu vagar novamente. Depois voltou a me encarar. — Quer ouvir uma história?

escondeu um sorriso, ciente do efeito daquela pergunta. E eu, como ele bem sabia, não recusaria.

— Talvez... A sua? — Perguntei com cautela, embora a expectativa já se espalhasse em mim.
— Sim. — Tentei conter a euforia ao ouvir sua confirmação — Uma parte dela, pelo menos. — Ele completou.
— Sou toda ouvidos.

────────────────── ANTES ─────────────────


Nova Iorque, Greenland Garden — 3:00 p.m.



Olhei para o velho relógio analógico pela quarta vez desde que cheguei ao túmulo de . Era a primeira vez que se atrasava daquela forma. A inquietação crescia em mim, e esse não era meu eu habitual. Comecei a criar cenários, imaginar eventos que justificassem sua demora, e cada um deles só me deixava mais agitado por dentro.
Tudo isso só reforçava uma verdade incontestável: as mudanças estavam acontecendo — e de forma muito rápida — desde que a conheci. A cada novo dia eu sentia coisas que há um bom tempo estavam anestesiadas em mim. Por fora eu tentava manter a máscara inexpressiva, a neutralidade já tão familiar, mas eu estava falhando.
Minhas ações vinham de forma involuntária — uma preocupação aqui, um suspiro ali, um sorriso que surgia sem cálculo. Especialmente porque ela tinha esse dom de me arrancar reações sem esforço, sem intenção, apenas sendo quem era. E eu sabia: não era ingênua. Ela percebia. Talvez ainda não juntasse todas as peças, mas sentia que havia algo ali, algo que eu não dizia. Em algum momento eu não ia mais conseguir manter as aparências e explicações seriam dadas. Eu devia isso a ela.
Mas ainda não. Ainda não era o momento certo.

, isso tá estranho. — Comentei, sem esperar resposta e olhando mais uma vez o relógio — É a primeira vez que ela faz isso. Será que ela está bem?

O silêncio ao redor nunca pareceu tão incômodo como naquele dia. Sentei junto à lápide e iniciei um monólogo com , tentando fazer com que a preocupação iminente ficasse em segundo plano.

— Sabe... Quando cheguei ao Greenland Garden fiquei “impressionado”, vamos colocar assim, ao ver tantas flores em seu túmulo. Mas, de todas as pessoas que vinham trazê-las, nenhuma parecia ser ou agir como alguém que perdeu o noivo. Observei seus gestos de carinho, de respeito, de saudade — mas não aquele tipo de ausência que muda a forma como alguém respira. E quando enfim apareceu, eu soube na hora...

Fiz uma breve pausa, escolhendo as próximas palavras com mais cuidado.

— No começo, achei que ela seria só mais uma entre tantas histórias que cruzam meu caminho. Alguém para ouvir, conversar, depois seguir em frente. Eu estava errado... — Soltei um riso breve, sem humor — Me envolvi muito mais do que imaginei que seria capaz. E isso… me assustou. — Inspirei fundo — Mas ao mesmo tempo me deixou estranhamente... extasiado.

A palavra escapou baixa, quase um sussurro. Limpei a garganta.

— Ela está tentando, . Do jeito dela, no tempo dela. Às vezes avança, às vezes recua, mas está progredindo. Mesmo que devagar.

Encarei a lápide, tentando dar um rosto ao nome gravado nela. nunca me mostrou uma foto de , nunca o descreveu em detalhes. Talvez não conseguisse. Talvez não quisesse. E eu não ousaria pedir isso a ela. Havia limites que eu sabia não atravessar.

— Sua presença na vida dela foi impactante... É compreensível que ela não queira te deixar partir, mesmo sabendo que... Você não está mais aqui.

O vento passou leve, fazendo a copa das árvores se moverem, e por um segundo aquilo pareceu uma resposta.

— Já vi outras histórias assim. Pessoas que permanecem vivas dentro de alguém por muito tempo. E quando ela finalmente aceitar e conseguir deixá-lo ir... Eu não... — Respirei fundo, subitamente sentindo um buraco se abrindo aos poucos em meu peito — Não sei como vou me despedir dela. Me pergunto se vou conseguir.

Encarei o chão, franzindo o cenho. Não sabia ao certo se deveria estar dizendo aquilo, mas prossegui.

— Na verdade... Não interessa se eu consigo ou não. Eu simplesmente não tenho escolha. E o que vem depois disso, ainda é incerto. E... é horrível não ter controle sobre essas coisas. — Esfreguei a nuca, inquieto — Perdão, cara. Acho que você era a pessoa menos provável pra eu ter essa conversa. — Ergui a cabeça, tentando afastar a gama de sentimentos conflitantes que eu não conseguia nominar — Eu imagino o quanto deve ter significado pra você. E acredito que assim como sua família e amigos, você também só quer o bem dela. E eu quero o mesmo. É por esse motivo que eu estou aqui. Preciso que saiba disso.

Abri meu livreto para não ficar pensando demais nas coisas que viriam a acontecer e nem na preocupação pelo atraso de . Não havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Só me restava aguardar e torcer para que ela estivesse bem.
Com algum esforço, tentei me concentrar apenas no livro em minhas mãos, até que em um certo momento, sem perceber, eu já estava mergulhado nele.

Capítulo 5
Nova Iorque, Café Nobun Hara — 18 de outubro, 5:50 p.m.



ainda brincava com os anéis dos meus dedos. O sorriso discreto que estampava seu rosto desaparecia lentamente, dando lugar a um semblante quase impassível. Ainda assim, havia algo em seu olhar que denunciava estar se preparando para dizer o que quer que fosse.

— O nome dela era Leah. — Disse por fim — Nos conhecemos no hotel do meu pai, quando eu ainda trabalhava com ele em Maryland. Ela... era uma mulher incrível. — E antes de continuar, por um instante, pareceu hesitar — Nunca imaginei que fosse capaz de amar alguém daquela maneira.

Nossos olhares se cruzaram no mesmo instante. A pausa em sua fala parecia intencional, como se quisesse me dar tempo para compreender cada palavra que dissera. Senti que ele sabia exatamente o que se passava em minha mente.
Amor.
A palavra soou estranha. Era incompatível com o que eu conhecia, alguém que falava sobre emoções como quem que as observa de longe, sem realmente ser tocado por elas.
Eu não disse nada. Então ele continuou, com a serenidade de sempre — embora agora eu tivesse a leve impressão de que aquela calma custava mais do que ele deixava transparecer.

— Leah era uma de nossas melhores funcionárias. Admirada por muitos. Era ambiciosa e adorava o que fazia. Bem diferente de mim.
— Por que diz isso?
— Eu só seguia um roteiro que já estava escrito, como futuro sucessor do meu pai. Eu fazia o que era esperado de mim, o que achava ser o certo. Nunca me permiti sonhar.
— E nunca tentou se perguntar o que queria? — deu um meio sorriso, quase sem humor.
— Naquela época, não. Não sabia se era uma pergunta que eu deveria fazer.
— E quanto a Leah?
— Ela sabia exatamente o que queria, e onde gostaria de chegar. — Eu me vi cada vez mais envolvida por sua história, especialmente porque não estava se desviando das minhas perguntas. Ele parecia disposto a me deixar conhecê-lo.
— Me fala mais sobre vocês...
— Nós nos aproximamos muito em um curto espaço de tempo. Mais do que eu esperava, e com uma intensidade que nunca experimentei antes. Entre reuniões, viagens de negócios, conversas após o expediente, uma coisa levou a outra e... quando dei por mim, já estava completamente apaixonado.

Tentei sorrir, mas não consegui fazê-lo de forma sincera. E reagir daquela forma me incomodou.

— Meses depois, já fazíamos planos para nós dois, mesmo sem ainda tê-la pedido em casamento. Eu queria que tudo fosse perfeito. Éramos loucos um pelo outro... — Houve uma curta pausa — Mas havia um ponto sensível entre nós. Eu sonhava em ser pai, era obcecado por essa ideia. Leah, por outro lado, dizia que ainda era muito nova e que tinha outras prioridades. Em certas ocasiões, ela era ainda mais direta: dizia que não havia nascido para ser mãe. Esse assunto rendeu muitas brigas entre nós. Mesmo assim, eu não conseguia imaginar minha vida sem ela. Não me via abrindo mão da Leah por causa de algo que, naquela época, eu acreditava que ainda poderíamos resolver.

apenas respirou fundo, e mesmo sem esboçar qualquer emoção, aquele gesto parecia dizer muita coisa.

— O que aconteceu entre vocês? — Perguntei de forma cautelosa.
— Algo que eu não desejo a ninguém. — franziu o cenho — Certa vez eu havia esquecido uns contratos que precisavam ser revisados antes da reunião do dia seguinte. Então voltei ao escritório do hotel para pegá-los. A luz fraca que vinha de uma das salas do corredor chamou minha atenção. Tecnicamente não era pra ter ninguém naquela ala. E quando abri a porta... — desviou seu olhar do meu — Ela estava lá, no colo dele. Uma pessoa que, acredite ou não, costumava me chamar de irmão, frequentar minha casa...

Eu não soube o que dizer naquele momento. Minha única reação foi fechar uma das mãos em punho — que logo se desfez ao sutil toque dos dedos de . Ele havia notado.

— Se eu demorasse um pouco mais... a cena seria ainda pior. Era minha mulher, seminua, com outro. Ver aquilo quebrou muita coisa dentro de mim. — enfatizou a última frase com um peso tão grande que senti meu peito apertar, mesmo que ele parecesse indiferente a sua própria narrativa.
... — Comecei, sem saber exatamente como concluir a frase.
— Enquanto ela tentava se explicar eu só conseguia pensar na aliança no bolso do meu terno. Eu havia comprado naquela manhã. E naquele momento, aquele pequeno objeto parecia pesar uma tonelada.
— Eu lamento por isso...
— Eu também. — Ele sorriu com uma ironia discreta — Leah chorou, implorou por perdão, disse que foi um erro e queria recomeçar. Mas eu me conhecia, . Por mais que a perdoasse um dia, nada seria como antes. O estrago já estava feito.

Não havia como compreender de verdade o tamanho da dor que ele sentiu, porque nunca vivi algo parecido. Ainda assim, apertar suas mãos num gesto silencioso de solidariedade, me pareceu melhor do que usar palavras.

— Foi nessa época que me mudei pra cá com meu irmão. Ele ia assumir o hotel que tínhamos aqui em Nova Iorque e eu o ajudaria com minha experiência. Dominic nasceu para isso. Ele tinha aptidão e paixão pelos negócios da família. No início me esforcei para dar a ele todo o suporte, embora ele não precisasse de tanto.
— E não mais teve notícias dela?
— As notícias correm, mesmo que você não queira. Algum tempo depois descobri que Leah seguiu em frente. Assumiu o relacionamento e... pra minha surpresa, estava grávida dele. — O silêncio que veio depois foi longo, pesado e incômodo — Foi ali que tudo começou a ruir... Eu já vivia uma vida que não sentia como minha. Trabalhava em um ramo não por escolha. Mas, depois disso, tudo perdeu o pouco sentido que ainda tinha. Eu acordava sem vontade de levantar da cama e passava os dias funcionando no automático. O hotel continuava cheio, os hóspedes chegavam e iam embora, os problemas eram resolvidos. Mas eu estava presente só no corpo.

Seus dedos pararam de brincar com meus anéis pela primeira vez desde que a conversa começara.

— Eu estava destruído emocionalmente. E conforme os meses passaram, comecei a negligenciar minhas responsabilidades. Deixei de tomar decisões importantes, passei a adiar reuniões, delegava o que podia e ignorava o que não podia. Eu, que nunca tinha desejado aquele trabalho, fazia cada vez menos esforço para fingir que me importava. Aos poucos, fui me tornando a pior versão de mim.

era excelente em escutar os outros, mas falar sobre si parecia um idioma que só agora ele começava a reaprender. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, tive a sensação de que aquilo não era apenas uma história. Era um desabafo.

— Minha família não me reconhecia mais. Dominic e eu vivíamos discutindo. Me sentia culpado toda vez que nossa mãe nos visitava. O jeito como me observava... aquilo doía mais do que qualquer sermão. Então comecei a usar a indiferença como um mecanismo de defesa. Eu me fechei completamente. Parei de confiar nas pessoas. Era mais fácil não sentir nada do que correr o risco de sentir tudo outra vez. E, quando nem isso bastou, comecei a beber. Primeiro para conseguir dormir. Depois para silenciar os pensamentos. O álcool anestesiava a culpa, a vergonha e aquela sensação constante de fracasso. Mas só por algumas horas. Na manhã seguinte, tudo voltava pior do que antes. Eu tinha perdido completamente o controle da minha vida.

Os olhos de encontraram os meus, como se procurassem algum sinal de julgamento depois de revelar uma parte de si da qual talvez não se orgulhasse. Apenas assenti de leve, tentando deixar claro que não havia julgamento algum ali.

— Estou escutando... — Sorri. Queria que ele soubesse que eu também poderia ser sua amiga.
— Um tempo depois, sofri um grave acidente. E poder abrir os olhos depois daquilo foi como renascer, entende? Saber que eu ganhei uma segunda chance foi... — Houve um breve suspiro — Eu queria ser digno daquela oportunidade que a vida tinha me dado. Eu precisava de um recomeço. — Ele se ajeitou no banco e sorriu — Desde então estou aqui, longe de tudo e de todos. Precisei parar, me afastar e desacelerar. Tentar entender quem eu realmente era e o que eu queria. É lamentável alguém não saber seu lugar no mundo.
— Sabe que não foi o primeiro e não será o último a passar por isso.
— Provavelmente não. Bom… e enquanto ainda não tenho minhas respostas, tento ser útil de alguma forma. Ouvir as histórias das pessoas e ajudá-las a lidar com sua dor, é como uma via de mão dupla no fim das contas. Eu aprendo algo com cada uma. E claro... — se inclinou em minha direção — Com você não é diferente.
— O que não é diferente?
— Você me ensina todo dia, . Falo de superação. No pior momento da sua vida, quando você tinha todos os motivos para desistir, se agarrou ao seu sonho, tirando forças de só Deus sabe onde. E você fez um trabalho incrível. Você é resiliente, talvez mais do que imagina.

Repeti mentalmente cada uma de suas palavras. Não sei se teria escolhido esses adjetivos para me descrever. Soltei uma pequena risada, quase sem graça, e balancei a cabeça.

— Sabe o que é engraçado? — Murmurei — Eu passei os últimos meses me sentindo o oposto de tudo isso. Então ouvir você dizer essas coisas... parece até que está descrevendo outra pessoa. — negou com a cabeça.
— Não estou. Essa é você, .

Eu sorri de leve, mas meus olhos denunciaram que o elogio havia encontrado um lugar onde poucas palavras chegavam.

— E tem mais… — Ele continuou — Sempre que você fala sobre o , fica evidente que o que vocês tiveram foi genuíno. Amor, amizade, cumplicidade. Sinceramente... Isso me faz querer acreditar de novo. Depois da Leah, essa ideia não era sequer uma possibilidade.

Por alguns segundos, esqueci de responder. Havia algo reconfortante em saber que, apesar de tudo o que vivera, ainda conseguia enxergar alguma esperança. E, por um instante, me ocorreu que seria um desperdício, uma pena, se alguém como ele passasse a vida inteira convencido de que nunca mais valeria a pena tentar. Tal pensamento surgiu antes que eu pudesse impedi-lo. E foi justamente isso que me desconcertou.

— Continue pensando dessa forma. Nem todas são como a Leah.
— Não. Não são...

A forma como sustentou meu olhar ao soltar aquelas três palavras mexeu comigo de uma forma diferente, sutil. Não consegui decifrar se ele estava apenas concordando ou se havia algo a mais escondido em sua resposta. Era difícil dizer.

— Ainda bem que concordamos. — Respondi num tom mais baixo, quase casual — Seria triste se uma pessoa definisse todas as outras.

A conversa parecia ter mudado de tom naquele instante, mas a chegada do senhor Nobun, trazendo uma bandeja, quebrou aquela nova atmosfera.

— Me perdoem pela demora. Imprevisto com a máquina de café. Preciso urgentemente trocar aquela velharia. — E antes que ele pudesse nos servir, a mistura de aromas invadiu minhas narinas despertando ainda mais minha fome — Um café bem quente e uma torta doce. E esses pãezinhos que acabaram de sair do forno são cortesia da casa. — Nós o agradecemos e ele se retirou em seguida com um dos sorrisos mais simpáticos que já vi em alguém.
... — Com certo receio me atrevi a voltar na parte delicada de sua história, mas precisava saciar minha curiosidade — Você ainda pensa nela? Na Leah. — Ele analisou cuidadosamente minha pergunta.
— Você quer saber se eu ainda sinto algo por ela?
— E não dá no mesmo? — A resposta não veio de imediato.
— Eu sei o que está tentando fazer, . Mas não, eu não penso mais nela.

não admitiria tão facilmente que ele havia mudado desde o dia em que nos conhecemos. Mas, em algum momento, teria que admitir. Ele já havia experimentado o amor, a decepção, a raiva... Havia existido um que eu não conhecia. Um homem que sentiu tudo aquilo com intensidade suficiente para se perder de si mesmo. E três perguntas simplesmente não saíam da minha mente:
‘Em que momento ele deixou de sentir essas coisas?’
‘E por que?’
‘E se aquilo estivesse mudando outra vez?’

Resolvi tentar a sorte mais uma vez. Seria minha última tentativa, pelo menos naquele dia.

— E quando foi que tudo mudou, ? — Ele sustentou meu olhar por alguns segundos, ponderando se ou como deveria responder.
— Isso é um assunto para outra conversa. — Um sorriso discreto surgiu em seus lábios enquanto apontava para minha xícara. — Espero que esteja gostando do café.

Olhei para a bebida quente e depois para ele.

— Sim, está ótimo.

Sua resposta foi curta, mas suficiente para deixar claro que aquela conversa havia chegado ao fim. Decidi que era melhor não insistir. já havia me contado mais do que eu esperava ouvir. Talvez, por hora, aquilo precisasse bastar.
Assim que terminamos de lanchar seguimos para o jardim da cafeteria. Aquele lugar acolhedor me lembrava o quintal da minha mãe — bem cuidado e repleto de flores. Senti a saudade apertar à medida que me aproximava para sentir o perfume delas. estava sentado sobre os degraus que davam acesso ao jardim, me observando com certo humor estampado no rosto.

— O que foi? — Questionei.
— Nada... Só apreciando a cena. Não sabia do seu fascínio por flores. — Ele se inclinou apoiando os braços sobre os joelhos.
— Minha mãe também tem seu próprio jardim. Cultivar flores é seu hobby. Só queria lembrar como seria estar em casa outra vez. — Caminhei em sua direção e me sentei ao seu lado.
— Devia visitá-la um dia. — Assenti com a cabeça.
— Tenho pensado sobre isso há um tempo.
— A minha mãe adora pintar. Ela é artista plástica. — Disse sem esconder o orgulho que carregava em suas palavras.
— Sério?
— E das boas. Não digo isso só porque ela é minha mãe.
— Acredito em você. Mas e aí, não herdou os genes artísticos dela?
— Talvez. Eu costumava pintar antes de começar a trabalhar com meu pai. — Ele sorriu — Eu e minha mãe temos uma conexão maior e mais coisas em comum. Dominic é mais próximo do meu pai. E a Maeva... digamos que é a combinação perfeita dos dois.
— Espera. Maeva? — Perguntei surpresa.
— Sim, minha irmã caçula. Ela foi um presente inesperado pra família.
— Tem foto dela?
— Comigo não. Mas... um dia ainda te mostro.

E ali estava mais um sinal do que insistia em negar. Um sorriso discreto, mas que qualquer um poderia enxergar que estava carregado de afeto, carinho e admiração.
Segui seu olhar fixo no horizonte. Novamente assistimos a outro pôr do sol sentados sobre a pequena escadaria. Enquanto meus olhos contemplavam o céu num perfeito degradê de cores, meu coração ainda apertava com os significados que ele tinha pra mim, mas diferente das outras vezes eu não queria mais fugir.
Como de costume, estendeu a mão na minha direção. Não disse nada. Não precisava. Aquele gesto, agora tão familiar, se tornou um ritual — simples, silencioso. Era o modo dele de me dizer “tá tudo bem, vai passar”. Segurar sua mão não resolvia tudo, mas era um alívio, uma pausa no caos que eu escondia por trás dos olhos.
E, mais uma vez, quando eu estava perto dele, aquela sensação morna e indescritível se espalhava pelo meu peito.


────────────────── ANTES ─────────────────


Nova Iorque, Residência — 4 de junho do ano anterior.



Mal entrei em casa e Dominic veio ao meu encontro. Sua cara não era das melhores. Eu respirei fundo, pois já sabia o que estava por vir.
, é a terceira vez que você chega a essa hora desde que a mamãe veio nos visitar. Qual é a droga do seu problema?
— Nenhum, Dom. Não enche. — Disse jogando minha jaqueta sobre o sofá e indo em direção a cozinha.
— Ela só quer passar alguns dias com a gente. Seria muito pedir que você tivesse um pouco mais de consideração pela nossa mãe? — Dominic me seguiu, alterado.
— Se quer falar de consideração, deixe a mãe longe das nossas discussões, baixe o tom e fale só comigo. Ou você acha que uma parede vai impedi-la de nos ouvir? — Fechei a porta da geladeira com mais força que o necessário, enchendo um copo com água gelada.
— Não está preocupado com ela, só não suporta a ideia de estar errado. Eu não discutiria contigo se você não agisse feito um babaca, mas não posso simplesmente fingir que não estou vendo nada.
— Eu cheguei tarde, e daí? — Estava prestes a sair da cozinha, mas Dominic entrou no meu caminho, me impedindo.
— Tá vendo aquilo ali? — Ele apontou para a mesa posta com louças e talheres para duas pessoas. Entre elas havia uma travessa tampada e cuidadosamente coberta com um pano de prato — Ela preparou a porra do prato que você adora, pra vocês jantarem juntos. Ela sabia que eu estaria em um jantar de negócios. A mamãe sequer triscou na droga da comida, só esperando por você.
Merda... — Murmurei baixo.
— Exato! Não sei o que você vai fazer, mas tenta consertar a sua merda. Ela tá no quarto pintando, se quer saber. — Dominic estava prestes a sair, mas deu meia volta e continuou — Só mais uma coisa. Não desconte sua frustração nas pessoas erradas, . Lembre-se, ela é nossa mãe e não a vadia... Você me entendeu. — Sim, eu entendi perfeitamente o que ele queria dizer.
— Você sabe ser um otário quando quer, Dom.
— Aprendi com você. — Disse enquanto saía da cozinha.
— Vai se ferrar. — Apoiei os braços sobre a bancada da cozinha e abaixei a cabeça. Eu sabia que Dominic estava certo. Segundos depois de sair ele voltou à cozinha — !
— O que é agora? — Me virei e num rápido reflexo peguei a toalha que ele jogara pra mim.
— Tome um banho antes de vê-la. — Ele lançou um pacote de bala de menta sobre a bancada — E chupa isso ou escove os dentes. Você pode até estar sóbrio agora, mas ainda tá fedendo a álcool.

Dominic foi para seu quarto e eu segui para o banheiro. Não prolonguei o banho como gostaria. Precisava conversar com minha mãe antes que ela fosse dormir. Eu não sabia o que dizer. Detestava a sensação de culpa que me consumia, e lutava contra a ideia de abrir o uísque que eu guardava em meu quarto. Precisava me manter sóbrio. Por ela.
Escovei os dentes, vesti um moletom e esquentei a janta que minha mãe preparou. Panquecas, receita da vovó. Eu amava. Usei a louça que estava sobre a mesa e enchi os dois copos com suco, colocando tudo em uma bandeja.
Abri a porta do quarto e ela ainda estava concentrada em sua tela. Fiquei aliviado ao ouvir o som alto de piano que ecoava de seus fones, ela provavelmente não ouviu Dominic e eu discutindo. Deixei a bandeja sobre um móvel e me aproximei dela, que até aquele momento não notara minha presença. Então tirei suavemente os fones de seus ouvidos.

— Desculpa, tô atrasado. — Ela levou um pequeno susto.
— Oi, meu filho...

Ela colocou os materiais de pintura sobre uma pequena banqueta ao lado e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, envolvi seus ombros por trás em um abraço apertado.

— Tá brava? — Perguntei ainda abraçado a ela.
— Vem cá. — Ela disse. Desvencilhei o abraço e me agachei em sua frente — Brava não é a palavra certa. Eu só fico preocupada. — Sua voz suavizou enquanto seus dedos deslizavam por meu cabelo — Quero meu pequeno de volta. Aquele rapaz carinhoso, alegre e atencioso. E eu sei que ele está aí em algum lugar — Ela segurou meu rosto entre as mãos — Estou com saudades dele e... Maeva também sente sua falta. Pergunta por você todos os dias.

Senti um nó se formar em minha garganta, mas não deixei transparecer. Maeva sempre foi meu ponto fraco. Eu era seu herói, alguém pra quem ela sempre vinha correndo. Me mudar e deixá-la pra trás, foi uma das coisas mais difíceis que tive que fazer. Talvez, para ela, eu ainda fosse o mesmo de antes, o irmãozão divertido, e era justamente isso que mais me assustava: que um dia ela me visse como eu realmente estava e que a admiração em seus olhos já não fosse a mesma.

— Me perdoa... — Murmurei.
— Te perdoar não é um problema pra mim, meu bem. Mas nunca vou me conformar em te ver assim, sabendo quem você já foi, quem você realmente é. — Eu não disse nada, apenas juntei suas mãos e as beijei — Me promete que você vai sair dessa, meu amor... Hum? — Seus olhos estavam levemente marejados. Eu não conseguia imaginar o quanto ela se esforçava para não desabar na minha frente. Eu conhecia seu coração — mole, sensível. Não éramos tão diferentes.
— Eu vou... — Respondi. Eu realmente não queria ser uma decepção pra ela, não queria fazê-la chorar. Estava cansado de sentir vergonha ao encarar um espelho. Aquela não seria apenas uma promessa vazia, mas eu também sabia que não seria fácil. Silenciosamente, eu lutava com uma angústia que sugava minhas forças, que me paralisava.
— Aquelas panquecas ficaram deliciosas. — Ela apontou para a bandeja se gabando e soltando um sorriso.
— Eu aposto que sim.

Jantamos ali mesmo, no chão do quarto. E enquanto comíamos, ela me falava da exposição que faria no mês seguinte — os olhos brilhando, os gestos leves, a voz ganhando vida com cada detalhe.
E, por alguns minutos, só por alguns, encontrei um raro momento de paz. Apenas ouvi-la assim, tão entusiasmada, foi o suficiente para me fazer esquecer, por um instante, o peso dos dias.

Continua…
Nota da autora
Eu realmente não queria precisar usar esse ditado popular porque significa que sumi por um tempo, mas lá vai: QUEM É VIVO SEMPRE APARECE! 🙈
Eu não poderia desistir dessa história! E se alguém aqui estava com saudades de ler, eu estava com ainda mais saudades de escrever.
Segue para vocês um capítulo muito especial, onde nosso querido e misterioso começa a revelar um pouco sobre ele.
E se chegou até aqui, muito obrigada por estar acompanhando NS!
Te vejo no próximo capítulo...
Com carinho, Lolah K. ❤
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