Capítulo 1
Nova Iorque, Residência — 16 de setembro, 3:30 p.m.
Era sexta-feira. Aquele seria o dia em que eu o visitaria pela primeira vez. Adiei esse momento por meses. Eu não sabia como seria quando chegasse lá, só sabia que precisava fazer aquilo. Estava com saudades. Muita.
Encarei meu reflexo no espelho, checando a roupa que escolhi. Aquele vestido tinha uma história.
‘Ele vai adorar.’
Tranquei a porta de casa e caminhei até o ponto de ônibus. O dia estava lindo e ensolarado, e o verde ainda tomava conta da paisagem da cidade. O outono se aproximava dali poucos dias e o vento que soprava suave em minha pele quase conseguia fazer eu me sentir viva.
In the stars tocava em meus fones. Era como se o compositor tivesse vasculhado minha alma e traduzido em notas e frases tudo o que eu guardava nela há meses. Me senti verdadeiramente compreendida. Cada palavra que ecoava para dentro dos meus ouvidos eram as mesmas que ecoavam do meu coração para ele.
“Eu ainda estou me agarrando a tudo que já se foi. Eu não quero dizer adeus, porque dessa vez é para sempre. Agora você está nas estrelas e sete palmos nunca pareceram tão longe. Estou sozinha aqui, entre os céus e as cinzas. Isso dói muito por um milhão de razões diferentes. Você tomou o melhor do meu coração e deixou o resto em pedaços...”
Subi no ônibus que me levaria ao meu destino e sentei junto à janela, observando o movimento durante meu trajeto. Abracei a pequena mochila marrom em meu colo, sentindo o estômago inquietar-se. A ansiedade parecia iminente, me obrigando a fazer um exercício respiratório para conseguir me controlar. Eu havia me preparado para aquele dia e nada me faria recuar.
Dante: Olha sua pessoa favorita no mundo chegando! — A frase veio acompanhada de uma foto dele fazendo uma careta ridícula. Não pude deixar de rir — Já disse que te amo hoje? Se eu fiz isso, foi mal... mandei mensagem pra pessoa errada. — Bem a cara dele — E aí, tá livre hoje à noite? É bom que esteja, dê seus pulos. Te adoro, marmota! Bjão!
Meu irmão era assim, um bobo querido, sempre investindo em alguma gracinha pra me fazer rir, especialmente naquele dia do mês. Aquela data significava algo, e mesmo estando fisicamente distante, Dan se esforçava para se fazer presente ao seu modo. Conversávamos, ríamos, ele cantava — dedilhando seu violão com o incrível talento que sempre teve — e eu o ouvia. E por uma ou duas horas, durante aquelas chamadas de vídeo, eu esquecia dos meus problemas e da minha dor.
Respondi sua mensagem e voltei a observar a agitada cidade através da janela. Em momentos como aquele você percebia que não era ninguém, que a vida não para quando o seu mundo vira de cabeça pra baixo. Você é apenas mais um naquele mar de pessoas.
O percurso pareceu ainda mais longo do que realmente era. Eu estava com um pouco de receio de como reagiria ao ver aquele lugar novamente, sabendo que ele estaria lá. Desci no ponto e caminhei até uma pequena loja.
‘Lírios... Amo seu significado’.
Saí da loja e atravessei a rua até parar de frente para aquele imponente portão. Meus passos estavam vacilantes, mas adentrei o lugar tentando relembrar o caminho que fizera naquele fatídico dia — na época, cercada por aqueles que nos amavam.
‘É isso... Cheguei’.
Fechei os olhos por longos segundos, como se o simples ato de respirar já exigisse esforço. Era minha tentativa de conter a maré que se erguia dentro de mim — Pensamentos e lembranças. Eles vinham como ondas, umas suaves, outras violentas.
— Hoje é 16 de setembro. Fazem exatos onze meses que você partiu. Sinto muito não ter vindo te visitar antes. Eu simplesmente não... conseguia. — Agachei e depositei os lírios sob aquela lápide, enquanto tentava recuperar a estabilidade da minha voz — Ainda não sei como parar de chorar. Alguns dias são mais difíceis que outros... — Fiz uma breve pausa, me esforçando para ser resiliente ao menos em público — Mas espero que aí do outro lado, você esteja feliz e em paz. Eu... eu sinto tanto a sua falta, . Você não imagina o quanto.
Mal consegui pronunciar as últimas palavras. Um nó se formava em minha garganta e minha vista começou a embaçar. Balancei a cabeça em negação, puxando para meus pulmões a maior quantidade de ar que eu conseguia. Eu não queria ter uma crise de choro. Não como as que eu tinha em casa.
A umidade que crescia em meus olhos já era impossível de ignorar, apesar dos meus esforços. E foi naquele momento, que uma voz inesperada atravessou o ar.
— Tudo bem... — O dono da voz se agachou ao meu lado — Chorar também é uma das formas mais bonitas e sinceras de demonstrar o quanto você ama alguém. — Virei a cabeça e me deparei com um rapaz à minha direita. — Aqui, pode pegar. — Meu olhar seguiu a sua mão quando ele retirou um lenço de seu bolso e, gentilmente o ofereceu a mim — Como se chama?
— ... — Respondi sem muita certeza se deveria fazer aquilo.
— É um nome lindo. — Esbocei um sorriso amarelo, ainda desconfiada, resistente à sua tentativa de estabelecer um diálogo. Ele levou seu olhar até a lápide à minha frente — Seu irmão?
— Meu noivo. — Corrigi, voltando meu olhar para a lápide novamente — Bom... ele foi. — Minha voz vacilou. Ficamos alguns segundos em silêncio enquanto ele parecia ler a inscrição na pedra. Eu estava esperando que fosse embora, mas ele não parecia ter a intenção de fazê-lo.
— Você... também veio visitar alguém? — Decidi perguntar.
— Não. — Respondeu sem desviar o olhar daquele mármore.
— Trabalha aqui?
— Também não.
— E então? Não há muito o que fazer em um cemitério, suponho.
— Estou aqui ouvindo histórias.
— Ouvindo o quê?
— Este lugar é cheio delas... — Ele ficou de pé mirando as inúmeras lápides ao nosso redor — Mas ainda não sei a sua. — Ele me olhou curioso, acomodando suas mãos nos bolsos de seu casaco. Levei alguns segundos para assimilar o que dissera.
— Minha história? — Enfatizei, quase cética.
— Sim.
— Espera que eu fale de mim pra você? Foi isso o que entendi? — Me coloquei de pé também, abrindo sutilmente um espaço maior entre nós dois.
— Só se você quiser. — Respondeu calmo.
— Desculpa, mas... eu nem te conheço. — Sorri sem humor — E não estou à vontade com essa conversa. Gostaria de ficar sozinha, se não se importa. — Cruzei os braços sobre o peito, como se quisesse me proteger de algo. Olhei em volta, procurando pessoas por perto caso fosse necessário pedir alguma ajuda. Ele estreitou o olhar me examinando por um instante.
— Você deve achar que sou um louco, não é? — Disse, no tom de quem já se acostumou a ter esse tipo de conversa.
— As circunstâncias não o ajudam.
— Justo. É o que todos, ou pelo menos a maioria pensa no começo. — Ele deu uma olhada ao redor e acenou para um senhor que estava não muito distante e que prontamente retribuiu o aceno — Mas logo mudam de ideia. Num dia eu sou louco, mas depois de um tempo ganho outros títulos. — Nos encaramos por alguns segundos.
— Eu deveria perguntar quais?
— Já perguntou. Bem aí. — Ele apontou para o centro da minha testa — O de “amigo” lidera o ranking, se quer saber.
— Amigo? — Eu quase ri — Certo. Aonde quer chegar com isso? Proposta de amizade? — Concluí com certo desdém.
— Foi o que pareceu?
— Me diz você. — Pra quem não queria alimentar um diálogo, eu já estava dando muita corda pra ele.
— Só achei que gostaria de conversar. — Ele deu um passo em minha direção — Talvez descubra que não sou tão louco quanto pensa. — Deu de ombros e em seguida acenou para outra pessoa. Dessa vez uma jovem, que sorriu assim que o avistou. Meus olhos corriam dele pra ela e vice-versa. O rapaz observou minha cara de confusão enquanto se afastava em uma lenta caminhada.
Por mais que ele fosse um completo desconhecido e com uma conversa nada convencional, ao invés de me afastar, fui movida pela curiosidade. A breve interação dele com aquelas duas pessoas pareciam reforçar a veracidade de sua história, ou parte dela. Constatar isso baixou temporariamente minha guarda. Mas eu ainda me questionava por que raios alguém ia a um cemitério ouvir histórias e, ao que parecia, fazer amizades também.
‘Por que não num bar, num museu ou numa praça? Mas em um cemitério? Sério?’.
— O que é isso exatamente? — Comecei a segui-lo, ficando alguns passos atrás — É algum tipo de estudo de campo? Pesquisa para algum livro ou artigo? Um hobby?
— São muitas perguntas. — Ele segurou um sorriso, me lançando um olhar furtivo — Mas não é nada disso... — Ele parou de falar, prolongando o suspense — Estou escutando as histórias daqueles que perderam entes queridos. Seus desabafos, seus traumas. Às vezes eles só querem ser ouvidos ou sentir que alguém entende a dor deles. — Ele me olhou checando se sua resposta tinha sido satisfatória.
— E você os entende? — ‘Você faz alguma ideia do que estou passando?’ Continuei a pergunta apenas em meu pensamento.
— Em parte. Eu sei como é não poder estar perto de quem é importante pra você.
— Você é psicólogo ou psiquiatra?
— Seria estranho um psicólogo vir ao cemitério procurar clientela. — Ele pareceu achar graça da minha conclusão.
— Ou conveniente.
— Você não precisa necessariamente de um diploma desses para ajudar alguém.
— Então é um trabalho voluntário? — A essa altura minha curiosidade já era mais do que evidente.
— Me desculpa... , certo? — Disse ele ao conferir o relógio em seu pulso — Vamos ter que deixar essa conversa para outra hora. Tenho um compromisso com uma amiga, mas se quiser continuar nosso papo... Já sabe onde me encontrar. — Disse apressando o passo.
— Espera! Você não me disse seu nome. — Exclamei, antes que ele se afastasse demais.
— Prazer. . — Ele acenou em despedida.
Eu o vi caminhar até uma senhora de idade que carregava algumas flores. Fiquei de longe observando. Ela o recebeu com um sorriso largo e um abraço caloroso. Eles realmente pareciam próximos, como se fossem velhos conhecidos. Era notório que esse tal tinha algo peculiar. Arriscava dizer que ele era diferente de qualquer pessoa com quem já convivi.
Voltei ao túmulo do meu falecido noivo para me despedir.
— Oi, meu bem, eu de novo. — Sentei sobre a grama recém aparada — Você não vai acreditar. Veja, te trouxe um presente. — Retirei da minha mochila um livro — É um exemplar de “Do outro lado do espelho”. Sim. Ele ficou pronto, ! — Tentei fazer minha melhor voz de empolgação — Confesso que eu pensei em desistir dele. Mas eu sabia que, além de mim, você também ficaria chateado se eu deixasse esse projeto de lado. Nicolas é outro que não permitiria isso. Eu não poderia simplesmente abandonar algo que nós dois sonhávamos em ver concluído. E adivinha... Amanhã é o grande dia! Muito obrigada por todo o incentivo e por acreditar em mim... — Beijei as pontas dos meus dedos e toquei com carinho sua lápide — Só consegui graças a vocês dois. — Respirei fundo algumas vezes. Podia sentir aquela angústia impiedosa chegar — Prometo que voltarei com mais frequência, está bem?
Guardei meu livro e abracei minhas pernas fechando os olhos por um momento. Eu não acreditava que ia lançar minha primeira obra literária. Ninguém acreditaria que parte dela foi escrita durante o período mais desolador da minha vida. Para conseguir concluí-lo eu me cercava por crianças. Levava meu laptop para parques, praças, brinquedotecas — qualquer lugar onde eu pudesse ver crianças sorrindo, correndo e se divertindo. Elas eram a luz que empurravam minhas trevas para o fundo, me permitindo escrever linha após linha, capítulo após capítulo. Em minha casa isso era simplesmente impossível. A lembrança de me ajudando, estava estampada em cada cômodo. O silêncio do meu próprio lar era mais ensurdecedor do que qualquer outra coisa. O som das risadas, dos choros e dos gritos infantis, ironicamente, eram minha fonte de paz. Contra todas as probabilidades, era em meio a esse caos gostoso que eu conseguia produzir. Ao menos naqueles lugares havia vida.
Quando eu finalmente conseguia mergulhar na história, era como me teletransportar para outro mundo, um refúgio. E quando o bloqueio criativo me atingia, eu tinha Nicolas — meu editor e um grande amigo. Ele era paciente, sempre com uma carta na manga para esses momentos. E eu seria eternamente grata por ele ter entrado em minha vida.
Ergui os olhos mais uma vez para o mármore à minha frente. Aquela pedra era fria, dura, silenciosa — tudo ali parecia errado, incompatível com quem foi. Ele era caloroso, exalava vida. Iluminava qualquer ambiente com seu carisma despretensioso e com aquela risada alta e irreverente que fazia até os distraídos virarem o rosto.
Desisti de lutar contra a dor que apertava cada vez mais o nó em minha garganta. Finalmente deixei que o choro escapasse. Guardá-lo estava me sufocando, tanto quanto a ausência de ainda sufocava tudo em mim.
Depois de um tempo ali, sentindo todas aquelas emoções avassaladoras, enxuguei minhas lágrimas e me levantei, ajeitando o caimento do vestido.
Observei o local ao meu redor. Algumas poucas pessoas chegavam, enquanto outras iam embora. Ao longe estava ainda com aquela senhora. Caminhavam lentamente. Ela apoiava suas pequenas mãos enrugadas sobre o braço dele, que por sua vez ouvia atentamente algo que ela dizia. Fiquei presa naquela cena por alguns segundos. Foi então que ergueu sua cabeça e, ao varrer o local com seu olhar, me avistou. Ele fez um pequeno aceno com a cabeça e eu retribuí de forma quase imperceptível antes de me virar e ir embora.
Restaurante Harriet's Rooftop — 8:40 p.m.
— Fui visitá-lo hoje, Nico. — No mesmo instante a colher de sobremesa de Nicolas parou no meio do caminho até sua boca. Ele não devia estar esperando por essa, não após tantos meses.
— ? — Assenti com a cabeça — Se eu soubesse, teria dado um jeito de te acompanhar.
— Não. Eu queria ir sozinha mesmo. Eu precisava.
— E como foi? — Nicolas perguntou um pouco apreensivo. Ele sabia que aquele era um assunto delicado e não costumava tocar nele a menos que eu o fizesse primeiro.
— Você deve imaginar, mas confesso que pensei que seria bem pior.
— Foi um grande passo, . Eu já estava desacreditado de que faria isso um dia.
— Eu queria contar a ele sobre amanhã. Ele também é parte disso.
— É sim.
— Não vai me julgar? Por querer contar algo pra alguém que... enfim.
— Jamais. E sei que não foi fácil ter que voltar lá. — Nicolas disse com suavidade.
Como de costume, ao perceber a sombra em meu olhar, ele mudou de assunto, num gesto discreto de cuidado, puxando-me de volta ao propósito real do nosso encontro.
— Mas me diga, está animada pra amanhã? — Soltei um suspiro longo, como se ele pudesse me ajudar a sair do devaneio que me prendia. Eu estava sensível naquele dia e torcia para estar melhor na manhã seguinte.
— Animada. Ansiosa? Com certeza. Grata também... — Minha voz falhou.
Interrompi a fala puxando o ar com força, tentando acalmar o turbilhão interno. Apoiei os cotovelos sobre a mesa e escondi a testa entre os dedos. Às vezes, ela vinha assim: sem aviso, densa, implacável. Uma avalanche silenciosa de emoções começou a se formar no peito — subindo, descendo, apertando a respiração. E então meus olhos começaram a arder.
— Só um minuto, Nico... — Murmurei, enquanto as lembranças, todas elas, se embaralhavam como um filme silencioso passando dentro de mim. A estrada até aqui tinha sido longa. E agora, que o amanhã finalmente se aproximava, tudo parecia pesar de uma vez só.
— Ei... — Nicolas pegou um guardanapo e se esticou sobre a mesa para enxugar a lágrima que escorreu, deixando-o em minha mão.
— Desculpa por isso. — Eu sorri fraco, me recompondo, antes que pudesse chamar a atenção das pessoas das mesas ao nosso redor.
— Não se desculpe, . — Nicolas puxou uma de minhas mãos e a segurou firme — Sei que tem muita coisa aí dentro. Mas olha que maravilha, você conseguiu! E eu não poderia estar mais orgulhoso.
— Nós conseguimos. — Corrigi.
— O mérito é todo seu. Você foi uma guerreira. — Ele insistiu.
— Eu fui, não é? — Ele assentiu apertando mais minha mão, enquanto um pequeno sorriso se desenhava em seu rosto.
Nicolas e eu havíamos saído pra jantar e revisar toda a programação da manhã do dia seguinte. Um jantar de negócios, mas também uma celebração antecipada. O fato de que meu livro estaria nas prateleiras parecia algo tão distante antes, mas estava realmente acontecendo.
A equipe do marketing, minha ilustradora, os contatos de Nicolas; todos os envolvidos, sem exceção, fizeram um trabalho impecável. Meu sonho ganhara vida e eu ainda estava assimilando. O imenso sentimento de gratidão e de dever cumprido tomava conta de mim.
Residência — 10:25 p.m.
Naquela noite quando voltei pra casa fiz a chamada de vídeo com Dante. Nos aproximamos ainda mais depois que me mudei de Washington DC.
Nosso pai vinha de uma linhagem de músicos, e Dan, sem dúvida, herdara o dom. Tocava e cantava com uma facilidade impressionante, mesmo sem ter seguido carreira na música. Ainda que nenhum de nós tenha dado continuidade formal a esse legado, a música sempre esteve presente — desde o ventre da nossa mãe até agora, ecoando inclusive nessas chamadas de vídeo, tal qual um fio invisível que seguia nos unindo.
Como na maioria de nossas conversas eu ria e me divertia com Dan. Suas ligações e mensagens eram como uma dose de endorfina pra mim. Eu tinha sorte por poder chamá-lo de meu irmão.
Quando finalmente me deitei, dentre tantas coisas que sondavam a minha mente, levei meu pensamento ao rapaz que conheci, e no breve diálogo que tivemos. Eu estava segurando o lenço que esqueci de devolver, com a inicial de seu nome bordada nele.
Apesar de sua boa aparência, sua primeira impressão me deixou em alerta. Eu estava pronta para pedir socorro se fosse preciso. Mas, conforme nossa curta conversa avançava, ele foi me desarmando — não com palavras ensaiadas, mas com uma naturalidade sutil.
“Tenho um compromisso com uma amiga, mas se quiser continuar nosso papo... Já sabe onde me encontrar.”
Foram suas palavras. ‘Será que eu deveria...?’ Me perguntei, já sonolenta. E entre um devaneio e outro, sem perceber, adormeci.
Nova Iorque, Greenland Garden
Parecia ser apenas mais um dia, mas aquele seria diferente de qualquer outro. Eu não fazia ideia de que hoje ela finalmente apareceria. Eu havia acabado de me despedir do senhor Nobun, um simpático homem na faixa dos sessenta anos, dono de uma aconchegante cafeteria nas proximidades do Greenland Garden, e que estava em mais uma de suas visitas ao cemitério.
Me sentei em um banco, aproveitando a brisa fresca daquela tarde antes de me encontrar com a senhora Jang. Foi aí que uma figura feminina chamou minha atenção. Alguém que eu nunca havia visto por ali antes, em todos aqueles meses. Ela estava caminhando a passos hesitantes até aquela lápide.
— Temos uma pessoa nova visitando aquele túmulo. — Eu conversava com uma coruja próxima a mim que batizei na hora de Brigite — Já vi muitas pessoas visitando-o, mas ela... É a primeira vez que a vejo aqui.
Observei por alguns minutos, de longe, aquela jovem de vestido florido e cabelos semi presos por uma presilha. Ela iniciou um monólogo depois de depositar suas flores sobre o túmulo.
Me lembrei da data grafada naquela lápide, 16 de outubro do ano anterior. Comecei meu trabalho aqui uma semana depois do falecimento daquele jovem. Eu não fazia ideia de quem ele era. Nenhuma foto decorava sua lápide. Mas me recordei de estar caminhando pelo Greenland Garden e ver em seu túmulo uma quantidade exagerada de flores, mostrando que provavelmente ele foi alguém muito querido. Tínhamos a mesma idade. Me perguntei se haveria tanta gente demonstrando seu carinho assim por mim se eu estivesse em seu lugar.
Desse dia em diante, sempre que estava no Greenland Garden, eu observava seu túmulo e as pessoas que o visitavam.
Eu ainda assistia a bela moça, que parecia estar fazendo um grande esforço para não chorar. Talvez ela tivesse muito a dizer.
‘É ela. Só pode ser ela.’
Encolhida como um filhotinho desgarrado, ela passava as mãos nos olhos vez ou outra, provavelmente enxugando as lágrimas que não queria que escorressem.
— Está pensando o mesmo que eu, Brigite? — Perguntei à coruja — Ela parece solitária, não acha? Talvez queira alguém para conversar. — Me levantei do banco e fui em direção àquela moça.