PARIS, FRANÇA
DIAS ATUAIS
Gabriel era um grande apreciador da dinâmica em grupo.
Gostava da sensação de pertencimento, de fazer parte de algo. Se deleitava com a dinâmica dos céus, era participante ativo de simpósios, gincanas, cultos e tudo o que envolvia o calor vibrante da coletividade angelical sendo movida com um único propósito. Mas nada, absolutamente nada, fazia com que o arcanjo se acostumasse com os almoços rotineiros com seus irmãos mais velhos.
Era uma tradição que perdurava por milênios, senão mais. Mas Gabriel, sendo o irmão mais novo, sempre tinha a sensação de que algo inédito ia acontecer. Não dava para dizer que não dava, muito menos usar a desculpa de falta de tempo, porque os outros irmãos literalmente paravam os relógios do mundo inteiro só para passarem uma ou duas horas comendo bifes superfaturados.
O celular de Gabriel havia apitado na manhã do dia seguinte com uma enxurrada de mensagens no grupo dos irmãos. Que, para sua defesa, tinha sido ideia de Uriel para manter a comunicação mais ativa e fácil.
5 novas mensagens de “santíssimos”:
Rafael: Tudo bem pra vocês uma reserva no L’Ambroisie?
Miguel: Odeio comida japonesa
Uriel: Três estrelas Michelin? Eu topo!
Rafael: Servem diversos pratos lá, tem um cardápio bem amplo. E eu preciso estar em Paris depois das 16hras.
Uriel: @Gabriel tudo bem por você, mano?
Gabriel não respondeu; mesmo se dissesse que não, teria que ir. Seus irmãos mais velhos eram irredutíveis. Havia algo profundamente desestabilizador na combinação dos três. Não importava o refinamento do restaurante escolhido, fosse ele celestial ou não, o encontro deles sempre beirava o caos. Era como reunir três forças da natureza e um Gabriel tentando manter a compostura.
Ele chegou por último. Como sempre. Podia alegar acaso, trânsito em corredores dimensionais ou até um súbito chamado da missão, mas a verdade era bem mais banal: Gabriel precisava de uns minutos extras de preparo emocional. Enfrentar os outros três exigia uma espécie de armadura espiritual que o protocolo celestial não fornecia.
Cada um de seus irmãos era um arquétipo. E todos, ao seu modo, o desconcertavam.
Rafael, o primogênito, era o pilar. Alto, largo de ombros, impenetravelmente calmo. Tinha olhos como lagoas em dias sem vento e um tom de voz que poderia convencer até um arcanjo rebelde a pedir desculpas. Gabriel se espelhava nele, às vezes sem querer. Imitava seus gestos quando precisava parecer inabalável. Odiava admitir isso, especialmente porque Rafael sempre percebia.
Miguel, por outro lado, parecia ter sido esculpido em pedra de batalha. Seu corpo não cabia direito nas roupas — ui! — e seu semblante era o de alguém que sempre ouvia um rugido distante. Ainda assim, havia uma delicadeza escondida nos gestos, uma serenidade que só quem lutou demais pode cultivar. Quando Miguel falava, era importante ouvir. Quando ele silenciava, era crucial prestar atenção.
E então havia Uriel. O caos encarnado.
Tecnicamente, o anjo da sabedoria e da iluminação. Na prática, um espelho distorcido onde a verdade dançava nua e zombava de quem ousasse olhá-la de frente. Uriel era provocador, imprevisível, brilhante e um tormento para qualquer ser que quisesse viver uma vida linear. Gabriel nunca soube se Uriel estava rindo com ele ou dele. E suspeitava que, na maioria das vezes, nem o próprio Uriel sabia.
Juntos, eram os quatro pilares. Separados, já eram ameaça suficientes para dobrar reinos celestes. Mas juntos, à mesa... eram apenas irmãos. O que, convenhamos, era ainda mais perigoso.
Gabriel empurrou a porta do L’Ambroisie, recebeu um cumprimento reverente do maître, que era um humano com uma formalidade invejável, e atravessou o salão com um andar firme de quem sabe que está atrasado demais para disfarçar. O ambiente era elegante, cheio de luzes douradas, taças tintilando e uma música ambiente que soava, ironicamente, como um coral celestial versão jazz.
O querubim olhou ao redor, observando grupos e mais grupos de pessoas dispersados pelas mesas. Alguns anjos que ele conhecia das divisões celestiais lhe acenavam com a cabeça e um pequeno sorriso. Todos pareciam adaptados à vida terrena. Um usava um Patek Philippe de ouro. Outros discutiam investimento em criptomoedas. Um terceiro grupo, um pouco mais distante, falava animado sobre como “aplicar fé em startups”.
— A humanidade está indo pro brejo. — Gabriel ouviu a voz de Uriel, que pegava um pedaço de queijo na bandeja. — Sinceramente, acho que o Inferno é aqui mesmo.
— Amém — respondeu Miguel, ironicamente. Foi o primeiro a notar a chegada de Gabriel. — O último dos arcanjos entre nós!
— Pontual como a queda da noite — completou Uriel, sem levantar os olhos da taça. — Só que com menos charme.
Rafael apenas olhou para ele, com aquele olhar de irmão mais velho preocupado, depois para o seu relógio de pulso e soltou um riso anasalado.
— Ainda estamos dentro do intervalo da tolerância divina. Seja bem-vindo, irmão.
Gabriel se sentou, entre Rafael e Miguel, tentando com todas as suas forças parecer indiferente. Falhou. Ajeitava o colarinho da camisa social a cada cinco minutos, engolia em seco e olhava para os lados. Sua confiança de arcanjo evaporava quando estava perto dos irmãos, porque sabia que uma hora ou outra seria alvo de piadinhas e comentários desagradáveis.
— Você está nervoso por quê? — Uriel perguntou, já revirando os olhos.
— Eu não estou nervoso — retrucou Gabriel, passando os olhos pelo cardápio com um milhão de opções.
— Aham…
— A propósito, é bom ver vocês. — Gabriel deu um sorriso.
— Almoço celestial. Quase um culto. — Uriel estendeu a taça. — Vamos brindar ao irmão mais novo que carrega o peso da redenção nas costas... e o da negação nos olhos.
— Uriel — disse Rafael, em tom de advertência suave. — Vamos manter o tom elevado. Por cinco minutos. Depois você pode voltar a ser insuportável.
— O quê? Eu só disse que o menino tá negando. E tá mesmo. — Ele olhou para Gabriel com aquele olhar de quem vasculhava a alma por esporte. — Ela riu duas vezes, não foi?
Gabriel congelou. Claro. Como ele não tinha pensado na hipótese de que seus irmãos estariam vasculhando seus relatórios? Soava inocente demais até mesmo para ele. Miguel olhou para o lado, em direção a Rafael, e o mais velho soltou um suspiro resignado. O sorriso que brincava nos lábios de Uriel era obra do próprio Satã, Gabriel tinha certeza, só não podia provar.
— Eu sabia que tinha acertado — o irmão do meio disse, zombando.
Rafael estalou os dedos. Um pergaminho apareceu com um estalo discreto, flutuando à frente da mesa. Letras douradas, ainda frescas, desenhavam-se em linhas com a precisão de registros eternos. Gabriel sentiu que seu coração ia explodir dentro do peito. Aquilo era tortura.
— Gabriel. Só por formalidade... podemos ler o trecho final do seu último relatório? — Rafael perguntou, como se a resposta dele valesse alguma coisa.
— Irmão, por favor… — o mais novo suplicou, franzindo a testa.
— É só uma frase. Prometo — garantiu o irmão mais velho, com uma expressão tranquilamente implacável.
E leu.
— A Lily riu duas vezes hoje. Isso precisa acabar logo.
O silêncio engoliu a mesa. Gabriel podia jurar que Rafael tinha usado seus poderes para parar o tempo, não seria uma coisa incomum. O mais novo esfregou a palma das mãos no tecido da calça jeans em um ato nervoso, já não tinha mais por que fingir que não estava nervoso. Ele estava… muito. A ideia de comparecer àquele almoço tinha sido terrível!
Uriel levou a mão à boca e abaixou o olhar, claramente se divertindo demais com tudo aquilo. Miguel manteve sua atenção nos petiscos de entrada e se absteve a dar uma leve batidinha no ombro do irmão mais novo, como se dissesse “agora já era”.
— Isso precisa acabar logo — repetiu Uriel, dramatizando. — Parece bilhete de viciado em crack.
— Isso não é o que parece — disse Gabriel, um pouco mais seco. — Não estou... envolvido.
— Gabriel — disse Miguel. — A gente sabe. Mas você não precisa mentir pra você.
— Eu não tô mentindo — respondeu ele, agora um pouco mais baixo. — E vocês sabem o quê? Não tem nada de errado.
O silêncio de Rafael estava começando a tirar Gabriel do sério. Onde estava a língua do irmão mais velho quando ele mais precisava?
— E como vai sua parceira de missão? — Rafael falou, finalmente.
Gabriel nem levantou os olhos do menu.
— Profissional.
— Ah, claro — disse Uriel. — Porque quando um ex-crush angelical é reencarnado em um corpo novo e um humor devastador, a primeira palavra que vem à cabeça é profissional.
— Eu não tinha um crush nela! — Gabriel disse entredentes, irritado demais, o maxilar já travando.
— Tinha sim — Uriel respondeu, calmo demais para quem estava prestes a invocar o caos. — E quer saber? Dá pra ver daqui.
Antes que alguém o impedisse, ele estalou os dedos. Um sopro de luz dourada escapou do ar, girando sobre a mesa e se condensando em uma pequena nuvem translúcida. A bruma flutuou acima das taças, ganhando forma rápido demais. Primeiro, um par de asas suaves. Depois, um corpo elegante, envolto em algo que lembrava um jaleco celestial. Por fim, o cabelo… aquele emaranhado de cachos indisciplinados que se moviam como se tivessem vontade própria.
A miniatura de Lilithiel pairava sobre o centro da mesa, rindo silenciosamente, a boca se curvando com o mesmo deboche perfeitamente memorizado.
Miguel suspirou. — Uriel…
— Olha só pra isso. — O anjo do caos apoiou o queixo na mão, admirando sua própria obra. — Ela era tão fofinha quando era anjo.
Rafael levou uma das mãos à testa, como se a paciência estivesse sendo descontada dos créditos eternos.
— Uriel, estamos em público.
— Relaxa, ninguém aqui é inocente — Uriel respondeu, divertido, enquanto a nuvem-Lilithiel se inclinava para o lado e piscava para Gabriel.
Foi a gota d’água.
Em um movimento rápido, Gabriel cortou o ar com a palma da mão, e a nuvem se desfez em um estalo seco, dissolvendo-se em pequenos brilhos que se apagaram no ar. As pessoas das mesas próximas olharam, confusas, mas Rafael fez um gesto discreto e, em um piscar de olhos, todos voltaram à conversa como se nada tivesse acontecido.
Gabriel encostou-se na cadeira, tenso. — Isso foi infantil até pra você.
Uriel deu um gole na água. — E, ainda assim, funcionou. Você ficou vermelho.
— Eu não fico vermelho.
— Claro, os arcanjos só “manifestam auréola de raiva”.
A narradora, se fosse fofoqueira (e é), diria que Uriel raramente errava o alvo.
— É sério. Estamos fazendo progresso. Ela está abrindo espaço para a instrução. Aos poucos.
— E quanto aos risos? — Miguel perguntou, com um meio sorriso.
— Um. No máximo dois — Gabriel respondeu com relutância.
Uriel gargalhou e olhou para Rafael.
— Podemos falar sobre outro assunto? — Gabriel massageou a têmpora.
— Desculpe. Só tentando manter o ambiente leve. Almoços são pra isso — Uriel disse, com aquele sorriso que era tudo, menos angelical.
O garçom surgiu, trazendo na bandeja uma garrafa de vinho. Os quatro irmãos vestiram a máscara de Arcanjos de Primeiro Nível e começaram a agir como homens adultos, finalmente. Eu sempre achei bem cômica a forma como eles agiam, como se fossem família mesmo. Gabriel era grato a Deus por permitir esse tipo de aproximação com seus irmãos, sem eles, aqueles anos todos teriam sido bem monótonos. As provocações, as brigas e os inconvenientes faziam parte.
— Então... — disse Miguel, servindo-se de algo que parecia compaixão assada com tomilho. — Estive na Terra semana passada. Mediar uma crise diplomática nos bastidores.
— Ah. Política terrena — Rafael murmurou, com um pesar ancestral.
— Não foi uma missão. Foi um castigo. Ficar no campo áurico de Donald Trump por 48 horas quase me fez pedir transferência pro Purgatório.
— Não brinca. Pior que aquele brasileiro? Como é o nome dele...? Pocketnaro? — Uriel perguntou, gargalhando.
— Bolsonaro — Rafael corrigiu com um suspiro. — Por que você sabe esse apelido?
— Ah, eu ouço os memes. Tem Wi-Fi na borda do Inferno, sabia?
— Eu preferia não saber — murmurou Miguel, bebericando o vinho.
— Mas e aí? — Uriel continuou. — Qual dos dois é pior?
Miguel pensou um instante, genuinamente pensativo.
— O americano tem um ego que distorce espaço-tempo. O brasileiro tinha uma habilidade quase demoníaca de parecer burro e ainda assim causar dano espiritual em massa.
— Empate técnico, então. — Uriel brindou sozinho.
Gabriel se limitou a beber seu vinho em silêncio. Não havia mais nada que pudesse dizer para que seus irmãos o deixassem em paz. Em sua defesa — e era uma defesa perfeitamente plausível — ele não tinha um crush em Lilithiel. O simples uso daquela palavra já lhe dava azia. Onde estavam os termos adequados para um arcanjo? Isso não era uma conversa entre adolescentes do segundo ano. Era, ou pelo menos deveria ser, uma reunião celestial de alto nível.
Mas... há histórias que o céu prefere não registrar. Pequenas falhas nos relatórios eternos. Acidentes emocionais que escapam até mesmo ao olhar divino. E se, por acaso, um desses acidentes tivesse o nome dela… bem, ninguém aqui está dizendo que teve.
Na teoria, seria uma história bonita — daquelas que os poetas humanos gostam de inventar sobre anjos e quedas. Na prática, só restou um silêncio incômodo entre dois seres que fingem não lembrar o que aconteceu. O céu, afinal, é rígido. Arcanjos não sentem, não desejam, não se desviam.
E, quando sentem, desejam e se desviam... chamam de missão, para ver se dói menos.
— Rafael — chamou, baixo o suficiente para que apenas o primogênito ouvisse. — Posso te perguntar uma coisa?
Rafael ergueu o olhar devagar, como quem já soubesse qual seria a pergunta.
— Sobre a missão?
Gabriel assentiu. — Eu ainda não entendo por que estamos protegendo o garoto. Ethan. Ele é só um estudante. Não tem sinal, não tem linhagem, não tem... nada.
O mais velho pousou a taça, o gesto simples, mas carregado de significado.
— “Só um estudante” — repetiu. — Engraçado. Vocês falam isso como se a humanidade fosse um erro de escala.
— Eu não quis dizer assim — murmurou Gabriel. — É que... se fosse algo maior, Deus nos teria dito.
Rafael sorriu de lado, um daqueles sorrisos que não revelam nada e dizem tudo.
— Talvez Ele tenha dito. Só não pra você.
Gabriel o encarou, confuso.
— O que isso quer dizer?
— Que às vezes o Céu não precisa te explicar o porquê. Só o quando.
O silêncio que se seguiu pareceu puxar o ar da sala. Gabriel voltou o olhar para o vinho e, por um instante, quis poder lê-lo como lia as estrelas: procurando padrões, tentando entender o que o universo esperava dele. Mas tudo o que encontrou foi o próprio reflexo, borrado e cansado.
Gabriel inspirou fundo, como se aquele gole de ar pudesse, por milagre, reorganizar tudo dentro dele. Não conseguiu. Ainda estava remoendo a frase de Rafael, que parecia ter sido desenhada especificamente para lhe tirar o chão e Rafael sabia disso. O primogênito sempre sabia.
O garçom se aproximou com discrição celestial, oferecendo mais vinho. Rafael apenas ergueu a taça, Miguel assentiu com um gesto militar e Uriel… bom, Uriel sorriu para o coitado como se estivesse prestes a lhe contar segredos proibidos do Universo. Gabriel agradeceu com um aceno breve, tentando se recolher dentro da própria pele. Pena que não tinha pele suficiente para se esconder dos irmãos.
— Você tá pensando alto demais — disse Uriel, mordendo um pedaço de pão como se estivesse julgando a textura espiritual da massa.
— Não estou — Gabriel rebateu, automático.
— Tá sim — Miguel corrigiu, com a serenidade de quem lidou com terremotos emocionais de arcanjos desde que o cosmos se formou. — E quando você pensa alto, você franze a testa. É praticamente um chamado de emergência.
Gabriel passou a mão na própria testa. Ele estava mesmo franzindo. Ótimo.
— Eu só… — ele pigarrou. — Eu só tô tentando entender. Proteger um garoto sem sinal. Sem linhagem. Sem marca. Sem nada. Não faz sentido.
— Não pra você — Rafael disse, em um tom suave demais para não ser calculado.
A irritação subiu antes que Gabriel conseguisse segurar. Ele não costumava perder a calma, não ali, não com eles. Mas havia um incômodo insistente vibrando em seu peito, algo que não diminuía desde que Lilithiel tinha entrado na equação. Aquele pequeno fato estava mesmo consumindo o autocontrole de Gabriel, porque quando a demônia não estava por perto, suas missões desenrolaram sem quaisquer problemas.
— Você sempre fala assim — Gabriel murmurou. — Como se estivesse no meio do terceiro ato de uma peça e eu tivesse perdido a introdução.
Uriel soltou uma risada. Melhor dizendo: ele gargalhou. Mesmo. Com direito a bater a mão na mesa e tudo.
— Gabriel, meu querido — ele disse, enxugando uma lágrima falsa do canto do olho. — Você perdeu a introdução. E a sinopse. E as notas de rodapé.
— Uriel — Rafael advertiu de novo.
Mas já era tarde. Gabriel já tinha entrado na espiral das provocações.
— Vocês sabem de alguma coisa que eu não sei — ele disse, finalmente encarando os três.
Quem já havia presenciado o silêncio entre os quatro irmãos, sabia que ele tinha um peso enorme. Mas aquele que sucedeu a fala de Gabriel tinha até um pouco de textura. Dava para mastigar. Rafael, aparentemente já cansado demais, pousou a faca no prato com uma delicadeza quase ofensiva.
— Existem coisas que não foram ditas a você por que não dizem respeito apenas a você.
Gabriel piscou. Uma. Duas. Três vezes.
— O que isso tem a ver com Ethan?
— Ethan é… uma variável.
— Uma variável de quê? — Gabriel insistiu. Agora sim, a voz parecia trincar.
Miguel olhou para ele com aquela expressão de soldado que viu o desastre antes de todos, mas não tinha como avisar. Afinal, Miguel era centrado demais para se envolver tanto em assuntos como aquele, mas ele sabia quando era a hora ou não de dar uma palavra. E aquela não era uma boa hora.
Uriel foi quem tomou a palavra — claro que foi. Sempre era.
— Irmãozinho, pensa comigo. — Ele sorriu, aquela curvatura felina e incendiária. — Se Deus te coloca em uma missão com ela…
Gabriel travou a mandíbula no mesmo instante.
— Não começa.
— …e coloca os dois pra proteger um garoto que não tem nada especial…
— Uriel.
— …não seria porque o garoto não é o ponto?
Os dois arcanjos mais velhos fecharam os olhos por um instante, sincronizados. Resignados. Aquele almoço tinha azedado cedo demais, perderam mesmo o timing daquela vez. Nossa. É como assistir a terceira guerra mundial se iniciar.
Uriel continuava inclinado sob a mesa, com um sorriso perigosíssimo nos lábios. Ele estava amando tudo aquilo, para ser sincero consigo mesmo. O que eram as missões terrenas comparadas àquilo? Tirar sarro de Gabriel era mais divertido que qualquer coisa no Universo. Gabriel parecia estar congelado, completamente petrificado. Seu vinho havia perdido o gosto; o restaurante tinha perdido o som e até a aura iluminada dele pareceu se engasgar com a luz.
— Isso é ridículo — começou, massageando a têmpora. — Você é ridículo.
— É bem honesto, na verdade — Miguel disse, por fim.
Gabriel afastou sua taça, incapaz de encarar seu próprio reflexo na mesma. Seus olhos azuis encararam seu irmão mais velho, que observava tudo em completo silêncio e soube que, ali, havia mesmo algo errado.
— Não vai acontecer nada entre nós — disse, quase em um fio. — Eu e Lilithiel somos… somos isso. Profissionais. Circunstanciais. É tudo.
— Você acredita mesmo nisso? — Uriel deu aquele sorrisinho e passou a mão no seu cabelo.
Era sempre assim, desde que eles estavam no berçário da criação. Uriel não o deixava em paz. Gabriel até já tinha redigido uma carta para o próprio Deus questionando a possibilidade de o irmão ter vindo de outra divisão por acidente. Para Gabriel, Uriel era mesmo enviado de Satã para atormentar sua vida de forma exclusiva. Deus, com toda sua graça, lhe respondeu apenas com um salmo e mandou que ele se ajoelhasse e orasse quando Uriel o tentasse.
Miguel se inclinou para o irmão, tocou seu ombro, leve como um voto selado e ia lhe dizer algo ao pé do ouvido. Mas naquele instante algo mudou. Não no salão, nem no clima e muito menos nos irmãos. O dedo indicador de Gabriel brilhou. O anel de identificação divina vibrou.
Começou fraca, foi ficando mais forte, até que pareceu urgente demais. Rafael arregalou levemente os olhos depois de perceber que nem o seu anel e nem o dos outros dois brilhavam.
— O que…? — Miguel começou.
Uriel se inclinou, interessado como um gato vendo um laser. Gabriel encarou o próprio dedo, sem sequer ter tempo de pensar. Um clarão dourado atravessou o salão como um sussurro rasgado, invisível para os outros humanos presentes, mas para os anjos e arcanjos ali mais pareceu um grito.
Gabriel mal teve tempo de registrar o clarão dourado vibrando antes de sentir o chão inclinar, não literalmente, mas dentro dele. Era aquele puxão específico, urgente, que os arcanjos só sentiam quando algo estava prestes a romper as costuras do plano físico.
Rafael já estava curvado sobre o brilho dourado, com um olhar clínico.
— Lilithiel — confirmou, a voz ficando grave. — A energia dela oscilou.
Miguel fechou a expressão com a calma típica de quem já encarou o Apocalipse e pediu mais guardanapos.
— Não parece ataque direto — murmurou, analisando o pulso. — Mas é forte o suficiente para tirar ela do eixo.
Uriel? Bem, o irmão do meio parecia ter recebido um convite para uma festa do Gatsby.
— Ah, isso vai ser bom — disse ele, estalando os dedos. — Londres nunca decepciona.
Gabriel, porém, estava imóvel. O pomo de adão subia e descia em uma velocidade admirável e parecia que a armação dos seus óculos de grau havia aumentado de tamanho magicamente, porque ficava escorregando pelo seu nariz. Em termos mais técnicos: estava nervoso. Miguel foi o primeiro que percebeu, afinal, era um soldado veterano de guerra, sabia ler qualquer um. Tocou o ombro do irmão com uma firmeza tranquila, daquelas que segurava céus, guerras e medos.
— Gabriel — chamou, com a voz baixa e compassada. — Se estiver com dúvidas sobre o que é certo e o que é errado quando estiver em missão…
Gabriel levantou os olhos, ainda sem fôlego.
Miguel concluiu:
— …mande um telegrama celestial para o setor de Ética e Conduta. Eles saberão te ajudar.
Gabriel fechou os olhos.
— O setor de Ética e Conduta? — repetiu, incrédulo. — Miguel… ninguém manda telegramas pra lá desde 1342.
— Errado. Mandamos telegramas para lá com uma certa frequência — Miguel disse, sereno como um mosteiro. — Só mantemos a discrição, lógico.
— Ah, manda sim, irmãozinho — Uriel disse, malicioso. — Tenho certeza de que o Azel vai adorar avaliar sua dúvida moral.
— Ele… ele ainda está naquele setor? — perguntou, como quem teme a resposta.
Miguel assentiu, calmo, resignado, como quem confirmava a existência de uma guerra santa.
— Sim. Está… reestruturando processos — ele disse, escolhendo palavras com precisão perigosa.
Rafael bufou. — “Reestruturando” é gentil demais. Eles estão destruindo o setor por dentro.
— Tenho certeza de que eles nunca receberam um telegrama sobre crushes em demônios, mas vai ser épico, irmão! — Uriel ria.
— Mas já receberam os seus sobre atos libidinosos com humanas — Miguel retrucou.
— O que... — Gabriel arregalou os olhos.
— Ninguém sabe — Rafael cortou. — E ninguém quer saber.
Miguel apenas suspirou.
— Mas se você tiver dúvidas… manda o telegrama.
Gabriel encarou os três, incrédulo, traído, desesperado.
— EU NÃO VOU ENVIAR NADA PRA ELES! EU SOU UM ARCANJO!
Uriel levantou as mãos, inocente:
— Problema seu. Eu só acho que seria educativo.
Miguel já havia se levantado, deixado um punhado de dinheiro em cima da mesa e estava se preparando para abrir um portal. O ar começava a vibrar com luz branca e estilhaços dimensionais.
— Vamos — disse ele, voltando à postura de comandante celestial. — A energia de Lilithiel oscilou de novo.
Uriel avançou primeiro, Rafael o seguiu e deu o último passo firme para dentro do portal. Gabriel ainda hesitou por dois segundos, porque o que quer que fosse aquilo, era estranho demais para ele. Quando entrou no portal, as luzes de Paris tremeram, o céu vibrou e em algum canto da burocracia celestial, alguém da divisão de mediação de conflitos aprovou uma lista de novos estagiários.
O apartamento deles sempre parecia mais vivo nos dias cinzentos de Londres. O ar que entrava pelas janelas abertas carregava o cheiro da chuva fina que caía lá fora. Lilithiel sempre achou curioso como a cidade combinava com sua própria condição: antiga, caótica, cheia de história e levemente debochada.
Ela estava recostada no sofá, com as pernas compridas esticadas por cima de uma manta e laptop apoiado nos quadris. Vestia um pijama curtinho composto por uma blusinha de alças e um shortinho que deixava metade de suas coxas à mostra. No fundo, a televisão reprisou uma temporada de Masterchef UK e Gordon Ramsay gritava com um homem que havia servido um purê “com a textura emocional de uma lesma deprimida”, segundo suas palavras.
Lilithiel tomou mais um gole de vinho, descansando a taça no encosto do sofá com precisão. No laptop, ela navegava por um site de compras online. Lingeries. Azuis, vermelhas, pretas, algumas com camadas tão finas que pareciam feitas de sussurros.
Ela clicou em uma especialmente ousada, azul celeste. Pareceu ironia divina.
— Essa cor me persegue… — murmurou, ampliando a imagem. A modelo na foto tinha asas tatuadas no quadril. — Hm. Isso é exagero. Mas bonita. Compreensivelmente bonita.
Ela adicionou ao carrinho.
Não era surpresa para ninguém — e muito menos para ela mesma — que seu corpo tivesse começado a reclamar da abstinência. Ela era uma demônia milenar. Tinha dormido com homens, mulheres, entidades, soldados, faraós, piratas, deuses menores, músicos famosos, celebridades humanas e até mesmo ícones culturais. Ela lembrava de James Dean com um sorriso quase nostálgico. Ele a tinha chamado de dangerous. Ela tinha respondido que ele não fazia ideia.
Louis Tomlinson tinha sido adorável e atrevido na medida certa, e ela riu sozinha ao recordar a energia caótica dele. “Pequeno, mas eficiente”, ela murmurou, bebendo mais um gole.
Zac Efron… bom, ele quase entrou para a lista, mas o destino tinha senso de humor. Hécate, sua amiga do Submundo, a chamou para uma diversão emergencial bem na madrugada em que ela finalmente teria uma noite com o ator. Zac ficou frustrado; ela, mais ainda. “Rain check, baby”, ela disse, dando um beijo na bochecha dele.
Mas agora… Agora havia o Gabriel.
E Gabriel era… complicado.
Ele era cheio de limites, de regras, de doutrinas. Era o tipo de ser que nunca tinha sido tocado de verdade — não no sentido que ela conhecia tão bem, não na maneira carnal, profunda, que derretia almas e convicções. E, ainda assim, o corpo dela insistia em reagir a ele.
Não era racional. Não era prático. Era simplesmente inevitável.
“Ridículo”, ela pensou, e fechou uma aba de vibradores de edição limitada.
Só que então — sem querer, sem planejar — ela pensou na curva do ombro dele. Aquela estrutura larga, sólida, que parecia ter sido esculpida na intenção de abrigar mundos. O pescoço firme. O peitoral que parecia mais uma heresia visual. A linha da mandíbula, sempre suavemente tensa. A forma como ele dizia seu nome. A pureza involuntária da respiração dele. E aquele olhar pidão…
O corpo dela reagiu de forma instantânea.
Uma vibração baixa percorreu a espinha dela, acendendo tudo como se alguém tivesse tocado um fósforo em pólvora antiga. Lilithiel fechou os olhos, exasperada consigo mesma, apoiando a testa no encosto do sofá.
— Não. Não. Não — ela murmurou, como se pudesse brigar com o desejo. — Eu não vou começar com isso. Gabriel é… Gabriel. Ele é um arcanjo. Ele é virgem. Ele não sabe nem onde pôr as mãos quando a gente se encosta. Ele fica vermelho. Eu sou criminosa se pensar nele assim.
Mas foi exatamente o ato de tentar não pensar que derrubou sua disciplina. Uma torrente de imagens proibidas atravessou a mente dela sem permissão: Gabriel sem camisa, Gabriel saindo do banho, Gabriel segurando sua cintura, Gabriel respirando no pescoço dela, Gabriel descobrindo como seria tocá-la pela primeira vez. O corpo dela explodiu em uma onda de calor.
E a aura vibracional acompanhou, traindo-a da forma mais descarada possível. Um estalo atravessou a janela. A luz piscou, a vela se apagou e ela teve certeza de que a plantinha que estava na varanda havia se curvado para o lado, morta de vergonha por ela.
— Que diabos? — A demônia ficou confusa.
Sim, era inédito até para ela. Lily se ajeitou no sofá de novo, respirando fundo, com seu coração humano batendo mais devagar aos poucos e, antes que pudesse fechar o laptop para se desfazer daquelas lingeries, um portal se abriu no meio da sala com a violência de uma tempestade solar. O ar pareceu se rasgar no meio quando os quatro arcanjos surgiram.
Lilithiel não conseguiu conter um grito de pânico.
— Onde está o perigo?! — Gabriel parecia uma avalanche em forma de homem.
Ela estava deitada, congelada, segurando o laptop quase fechando as imagens comprometedoras. O short mostrava um pouco demais de pele e ela ainda estava ofegante pelos motivos errados. E, santo Deus, Gabriel estava vendo aquilo tudo. Miguel e Rafael franziram o cenho em completa confusão enquanto Uriel sorria.
— Não vejo inimigos — Rafael concluiu.
— Nenhum rastro demoníaco — Miguel afirmou.
— A menos que o perigo seja… a vergonha — Uriel disse, quase cantarolando.
Gabriel então olhou para Lilithiel. Olhou mesmo. E nesse instante, sua expressão derreteu do alarme para uma confusão profunda.
— Lily… — ele disse, mais baixo. — Eu senti você entrar em colapso.
— Colapso? Eu? Não! Gabriel, eu só… — Ela arregalou os olhos quando olhou para o laptop e decidiu improvisar a pior desculpa da Terra. — …eu só estava usando o seu cartão black divino.
— O… meu… cartão? — ele repetiu, incrédulo.
— Sim! — ela disse rápido demais. — Sim. Compras online. Nada digno de portal interdimensional.
Gabriel passou a mão pelo cabelo, completamente transtornado.
— Lilithiel… eu pensei que você estivesse ferida.
Lilithiel cobriu o rosto com as duas mãos. Ela estava mesmo com vergonha. Que ironia, uma demônia de primeiro nível com vergonha. O Inferno deveria estar em chamas àquela altura.
— Gabriel… eu estava só… comprando.
Lilithiel se recompôs, olhou em volta e se sentiu ainda mais envergonhada por estar sendo observada por aqueles quatro. Mas o sentimento foi substituído pela curiosidade. Gabriel ainda parecia dividido entre preocupação e… outra coisa que ele se recusava a nomear.
— Vocês podem me explicar por que entraram aqui dessa forma? — ela perguntou, pacífica demais.
— Uma oscilação dessa magnitude não acontece sem causa. Não existe vibração isolada nesse nível — Miguel disse, avaliador.
— Falem como humanos normais, se não for pedir muito. Odeio formalidades.
Miguel ignorou o sarcasmo dela — o que já dizia muito sobre a gravidade do momento. E os quatro permaneceram em silêncio, Lily tinha certeza de que eles estavam conversando entre si sem o uso de palavras. Estava começando a ficar impaciente de verdade com tudo aquilo. Estava confusa. De verdade. Porque ela não sabia mesmo o porquê de a sua própria aura estar se conectando com a de Gabriel e isso, para ela, era desconfortável em níveis quase existenciais.
Ela inspirou fundo.
— Vocês têm dois minutos… — ela disse, tentando manter a dignidade. — Para me explicar por que porra minha aura está conectada a desse arcanjo nervoso?
— Porque vocês já foram parte da mesma esfera, deduzo — Rafael disse por fim.
— Da mesma o quê?
Miguel completou, com a calma destrutiva de sempre:
— Esfera. Núcleo energeticamente alinhado. Dois seres criados — ou moldados — para operar no mesmo fluxo vibracional. É extremamente raro.
— Raríssimo — Rafael reforçou. — Acontece uma vez a cada dez milênios. Talvez menos.
— Eu não fui moldada com ele — disse ela, firme. — Eu não era arcanja. Eu não pertencia a nenhum quarteto divino. Eu era uma entidade livre. Eu—
Rafael ergueu uma mão, interrompendo com suavidade.
— Lilithiel… isso é verdade. Você não foi criada com Gabriel. Mas isso não impede que seus núcleos tenham se ajustado.
Gabriel passou uma mão pelo cabelo, claramente desconfortável. Lilithiel sentiu o estômago despencar.
— Ajustado… quando? — ela perguntou, devagar. — E por quê?
— Quando dois seres especialmente poderosos lutam lado a lado por tempo suficiente… quando dividem energia, criam defesas juntos, sobrevivem às ameaças que deformam o plano astral… — Rafael escolheu as palavras com cuidado — às vezes seus núcleos se alinham. Sem aviso. Sem consentimento. Sem consciência.
Os olhos de Lilithiel ficaram escuros. Uma sensação estranha pesou no seu coração humano e ela podia jurar que viu um lampejo surgir diante dos seus olhos.
— Você está dizendo… — ela murmurou — que minha aura se conectou ao Gabriel naquela época?
Rafael e Miguel assentiram juntos. Uriel completou, doce como veneno:
— Vocês dois ficaram a um passo da morte naquela missão. Unidos. Canalizando energia um do outro. É natural que tenha ficado… um vestígio.
— É mais comum do que parece, na verdade — Miguel tentou remediar. — Meu núcleo já se alinhou ao de Rafael e ao de Uriel.
— Vocês são irmãos, tem uma enorme diferença aí — Lily debochou.
— Todos nós somos, ué. — Uriel deu de ombros. — Você é mais irmã do Gabriel do que os outros agora.
Lilithiel encarou ele com ódio suficiente para apagar três estrelas.
— Cale-se.
Lilithiel cruzou lentamente os braços, como se precisasse proteger o próprio corpo daquele entendimento novo e involuntário.
— Então… — ela disse, com a voz mais controlada do que sentia. — Cada vez que minha aura oscila, você sente?
— Sim. — Gabriel engoliu em seco.
— Isso é… completamente impraticável — ela disse. — E completamente humilhante. Eu sou uma demônia milenar! Eu deveria ser imune a vínculos desse tipo!
— Precisamos investigar. Avaliar o quanto dessa conexão ainda está ativa. Se ela pode se intensificar. Se é perigosa. Se é… previsível. — Miguel levou o dedo ao queixo, fazendo pose de pensador.
Gabriel finalmente falou:
— Não sei por que isso existe. E não sei como desfazer. Mas eu prometo… — a voz dele não falhou nem por um segundo, e quando continuou, era firme de um jeito que doeu —não vou invadir a sua privacidade. Não vou atravessar portais à toa. Não vou interpretar qualquer vibração como perigo. Eu só… fiz isso hoje porque… foi forte demais.
Ela sorriu, curto e forçado.
— Ótimo. Então resolvido.
Rafael então encerrou:
— Vamos conversar sobre isso… só nós — ele disse, com uma calma que escondia muito. — Há registros antigos que eu e Miguel podemos revisar. Precisamos entender as causas, as possibilidades. Antes de qualquer conclusão.
Lilithiel cruzou os braços, aliviada por eles não especularem nada ali, na frente dela.
— Perfeito. Faça isso.
Um novo portal começou a se abrir, e quando os arcanjos passaram por ele, Lily não pôde deixar de olhar para Gabriel por um segundo a mais. Ele também a olhava, meio desconcertado, meio tímido. Mas tinha alguma coisa além daquilo por trás daquele azul sem fim, mas ela ainda não conseguia saber o que era.
O portal fechou atrás de Gabriel com um som seco, quase ofendido pelo absurdo da situação. A sala celestial voltou ao seu estado natural: paredes brancas com reflexos de ouro antigo, cortinas de luz vibrando em silêncio, uma mesa longa de mármore que parecia esculpida em eternidade polida. Mas a expressão dos arcanjos estava longe de ser eterna.
O primogênito respirou fundo.
— Certo — disse Rafael. — Precisamos conversar.
Uriel levantou um dedo.
— Eu voto pra começar com o óbvio: isso foi hilário.
— Uriel — Miguel advertiu.
— Ok, ok… — ele ergueu as mãos. — Foi hilário e preocupante. Mas ainda é hilário.
— “Ligação vibracional espontânea”. Vocês sabem o que isso significa — Miguel tomou a palavra, direto ao ponto.
Gabriel desviou o olhar. Uriel ergueu a sobrancelha, sorrindo.
— Então estamos falando… daquele momento.
— Sim. — Miguel bufou. — A canalização dupla. A explosão.
— Antes da queda de Lilithiel — Rafael completou.
Uriel bateu palmas.
— Aí está! O trauma compartilhado! O caos emocional! A conexão profunda involuntária! — Ele sorriu. — Dá pra escrever fanfic.
Gabriel atirou um olhar mortal na direção dele.
— Eu não quero ouvir “fanfic” sair da sua boca de novo.
— Que pena — Uriel rebateu. — Porque a história está ficando ótima.
— Vamos focar. A questão é: por que a aura dela explodiu hoje? Por que agora? — Rafael esfregou a testa, cansado.
— Gabriel — Miguel chamou, devagar. — Você sentiu algo além do “alarme”?
O arcanjo mais novo hesitou. Por longos três segundos, ou mais, não sabia dizer. Sua cabeça estava rodando em um looping infinito de informações. Mas apenas uma estava se sobressaindo: a lingerie azul na tela do laptop.
— …foi como se o campo dela estivesse em ebulição — ele disse, enfim. — Intenso. Caótico. Mas não parecia dor. Nem medo. Nem ataque.
Uriel soltou a maçã no ar, deixando-a flutuar, e inclinou o corpo para a frente. — Então que tipo de sensação foi?
Gabriel ficou quieto, muito quieto. E isso já era resposta suficiente para os outros três. Bem, Gabriel não sabia bem nomear aquela sensação que sentiu, era muito novo. E aquilo era estranho, porque ele tinha milhões de anos.
— “Forte”, como você disse. Mas não negativa. — Rafael ajeitou a postura.
— Isso — Gabriel admitiu, em um fio de voz.
Miguel e Rafael trocaram um olhar imediato. Uriel abriu um sorriso lento, como um animal que fareja diversão. O do meio teria que, mais tarde, fazer uma carta de agradecimento a Deus por ele permitir que aquele momento acontecesse com ele presente.
Miguel esclareceu:
— Vibrações assim… se manifestam quando o núcleo de alguém atravessa emoções muito fortes. Em casos extremos: raiva. Dor. Desespero.
— Ou… desejo — Rafael completou.
Gabriel arregalou os olhos, horrorizado. Se sentiu traído pelo seu irmão mais velho que, como ele havia pensado desde o início daquele dia, tinha entrado nas brincadeiras infantis de Uriel. Quando iam parar?
— NÃO. Não. Ela NÃO— isso NÃO—
— Isso aqui é melhor que televisão. — Uriel gargalhou forte o suficiente para estremecer o plano.
Miguel apoiou o queixo na mão, pensativo.
— Lilithiel é uma demônia milenar — ele disse, sem malícia. — Desejo é uma assinatura energética dela. Forte. Natural. Não é surpresa que uma emoção desse tipo produza… impacto vibracional.
Gabriel parecia à beira do colapso. Seu cabelo que antes estava perfeitamente penteado já estava completamente bagunçado, seco e arruinado. O colarinho da camisa social estava amassado, quase manchado com as marcas das pontas suadas de seus dedos nervosos.
— Então… — ele murmurou, quase em desespero — toda vez que ela… sentir… alguma coisa…
— Você vai sentir também. — Rafael ficou imóvel.
— EU DISSE! Eu sempre disse que essa história ia render! Olha isso! A demônia fogosa que treme o plano astral e o arcanjo virgem que quase morre achando que ela está sendo atacada! Isso é ouro puro.
— Uriel, eu juro, se você disser “arcanjo virgem” mais uma vez eu—
— Arcanjo virgem — Uriel repetiu, olhando diretamente nos olhos dele com pura maldade divertida.
— Precisamos investigar os registros antigos. Ver se houve casos parecidos. E entender se existe… resolução. — O mais velho parecia pensativo.
— Tô torcendo para a resolução envolver cama — Uriel sussurrou.
— ORA, SEU-
Gabriel, esgotando sua última gota de paciência, partiu para cima de Uriel. A sala celestial balançava com os passos deles, corriam em volta da mesa. Miguel, com seus músculos e sua agilidade, os apanhou pelas camisas e os segurou. Rafael suspirou fundo, cansado do jeito que só um filho primogênito conseguia ser.
— O importante agora… é que ela não saiba.
— Ela não pode saber. Nunca. Jamais. Ninguém menciona essa loucura perto dela. — Gabriel ergueu o rosto rapidamente.
— Muito bem — disse o primogênito, enfim. — Então começamos por isso: cautela absoluta. Nada de comentários leves, nada de piadinhas, nada de… — ele lançou um olhar afiado para Uriel — metáforas desnecessárias.
— Eu sou uma metáfora desnecessária — Uriel murmurou, ofendido de mentirinha. — Mas tudo bem, eu aguento. Em nome do drama.
Miguel assentiu, a postura voltando à rigidez de comandante celestial.
— Vamos verificar os registros — concluiu. — Se houver precedentes, encontraremos. Se não houver… vamos ter que escrever o protocolo nós mesmos.
— Até lá — disse, firme —, você finge que nada mudou. Continua a missão. Mantém o foco no Ethan. Mantém a distância que for possível.
— E tenta… não sentir demais — Rafael concluiu.
Os três começaram a se dispersar, a luz ao redor deles se abrindo em portais discretos, quase elegantes. Gabriel ficou por último, como sempre. Parado no meio da sala, o anel ainda frio no dedo, o peito quente demais.
Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, respirou fundo e tentou convencer a si mesmo de que dava, sim, para controlar aquilo. Que dava para impor freio a um vínculo que o próprio céu chamava de “raríssimo”. Que dava para continuar chamando de missão aquilo que, claramente, já não cabia mais dentro da palavra.
A narradora — que, por dever de ofício, vê de fora — poderia dizer que Gabriel acreditava mesmo nisso. Que, naquela fração de eternidade, ele achou sinceramente que tinha algum controle sobre o que vinha pela frente.
Seria uma boa mentira.
O Céu registraria tudo aquilo como simples flutuações vibracionais. O resto… bem. O resto, oficialmente, não existia. Ainda.