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Revisada por: Júpiter

Última Atualização: 15/03/2026

Santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador,
já que a ti confiou a Piedade Divina,
sempre me rege, me guarda, me governa e ilumina,
agora e sempre. Amém.

No princípio — e quando digo princípio, quero dizer algum momento burocrático entre a Criação e a invenção da cafeteira elétrica —, Céu e Inferno entraram em um acordo raro: certos humanos precisavam ser… supervisionados. Não santos, não monstros, apenas humanos com o inconveniente dom de balançar a balança do universo.

Ethan Miller, dezenove anos, estudante de filosofia, era descrente de qualquer coisa sobrenatural durante a semana. E, no final de semana, era um guitarrista de segunda categoria em pubs e bares de quinta. Um desastre ambulante, para falar a verdade. Ninguém sabia exatamente por quê. Talvez fosse sua música, talvez fosse sua teimosia, talvez fosse o jeito com que conseguia atrair problemas como um ímã. De todo modo, as engrenagens divinas decidiram: ele precisava de guarda-costas.

Um para a Luz.

Um para as Trevas.

E, por alguma ironia cósmica — que, muito provavelmente, deveria ter sido ideia do alto escalão —, precisariam trabalhar juntos. No princípio, também tinha muito silêncio. Não o tipo de silêncio humano, interrompido pelo tique-taque de relógios ou pelo suspiro da respiração. Mas o silêncio cósmico: pesado, reverente, feito de estrelas queimando em explosões distantes e de planetas girando sem pressa em suas órbitas.

E no meio desse silêncio estavam eles.

Ele, todo luz. Asas imensas, brancas, com cada uma das penas tão retas que pareciam ter sido passadas a ferro. Os olhos de um azul quase insuportável de se encarar por muito tempo, a postura impecável de quem foi criado para a perfeita imagem da ordem divina. Chamava-se Gabriel, sim, seu nome estava mesmo nas escrituras sagradas. Sua presença lembrava as manhãs de domingo: clara, calma e levemente monótona.

Observava Ethan com a atenção de quem olha uma obra de arte rara… ou um acidente de trânsito em câmera lenta.

— É frágil — comentou, sua voz ressoando como um órgão de igreja afinado demais. — Mas há muita esperança nele. Há sempre esperança.

Do outro lado da nuvem, reclinada como se assistisse a um show entediante, estava ela. Toda feita de sombras. Asas negras que pareciam ser feitas de fumaça, curvas insinuantes moldadas em trevas, olhos em um âmbar que brilhavam como brasas prestes a consumir tudo. Seus chifres, discretos e escondidos sob o cabelo loiro volumoso, refletiam a luz das estrelas. Seu nome era Lilithiel, embora raramente fosse pronunciado em voz alta; muitos acreditavam que falar poderia atrair azar, fogo ou simplesmente um péssimo humor vindo diretamente do Inferno.

Ela esticou as pernas, apoiou o queixo na mão e bufou.

— Esperança? Gabe, ele acabou de comer batata frita caída no chão. Do chão. — A sombra de um sorriso curvou seus lábios. — Se isso é a sua ideia de esperança, não quero nem imaginar o que considera desespero.

— Ele tem potencial — Gabe insistiu, paciente.

— Ele tem salmonela — Lily rebateu.

Silêncio. Um silêncio pesado, mas não desconfortável. A cidade brilhava abaixo deles, respirando fumaça e sonhos baratos. Assistir a Terra era uma atividade que alguns demônios gostavam para fazer apostas com as vidas dos humanos lá embaixo. Coisas do tipo: “quem vai morrer primeiro?”. Lily, particularmente, adorava.

— É ridículo — disse Lilithiel, apoiando o queixo na mão e encarando os prédios como se fossem brinquedos frágeis. — Milhões de humanos, correndo para lá e para cá, achando que têm importância cósmica. Quando, na verdade, um simples estalar de dedos meu poderia transformar toda essa bagunça em cinzas.

Gabriel lhe lançou um olhar de soslaio. Ele não precisava de palavras para transparecer sua total reprovação. Aquele ar de professor centenário já bastava.

— Você não deveria falar em destruir o que lhe foi confiado a proteger.

— Proteger? — Lilithiel gargalhou, um som que lembrava vidro quebrando. — Querido, eu não protejo nada. Eu provoco caos. É meu trabalho, lembra?

Gabriel ajeitou as próprias asas com compostura, como quem ajusta o paletó antes de uma reunião importante. Lily não o suportava, era fato. Tudo era motivo para que ela revisasse os olhos em completo desdém.

— Talvez esse seja justamente o problema. Você se esquece de que a humanidade precisa de equilíbrio.

— Equilíbrio — ela repetiu a palavra com um sorriso debochado, como se fosse um doce azedo. — Vocês, anjos, e essa mania de ordem. É entediante.

Por um instante, pairou entre eles apenas o brilho da cidade refletido em suas silhuetas. Ele, claro e imaculado; ela, sombria e provocante. Dois polos que jamais deveriam coexistir, e ainda assim… estavam ali.

— E quanto a ele? — Gabe quebrou o silêncio, apontando discretamente com o queixo. — Não acha que ele merece uma chance?

Lá embaixo, o jovem atravessava a rua. Nada chamava atenção nele à primeira vista: calça jeans surrada, mochila pendurada em um ombro só, fones nos ouvidos. Lily arqueou a sobrancelha, seu nariz se enrugou com a ideia de que cheiro aquela criatura deveria ter, porque não aparentava ser dos melhores.

— Essa coisa? — disse, com desdém. — Parece mais frágil que um filhote de coelho.

— Os maiores destinos escondem-se nos detalhes mais frágeis — Gabriel retrucou, em um tom sereno, quase profético.

— Ou talvez você só esteja entediado demais — Lilithiel retrucou, com um sorriso venenoso. — Aposto que o Todo-Poderoso mandou você vigiar esse rapazinho sem graça, e por alguma razão acharam que eu devia acompanhar.

Gabriel manteve-se quieto.

— Não há “alguma razão”. Uma razão clara. Ele é importante.

— Todo mundo é importante pra vocês, até quem espirra torto. — Ela deu de ombros. — Mas tudo bem. Vamos vigiar o coelhinho. Só não espere que eu fique quieta enquanto você recita sermões.

Por um instante, Gabe pareceu refletir.

— Talvez seja melhor vigiá-lo de perto. Um humano assim pode ser... influenciável.

— Finalmente! — Lily endireitou-se, estalando os dedos. Uma faísca vermelha percorreu suas garras. — Achei que ia passar a eternidade aqui em cima ouvindo sermão.

— Não é “finalmente”. É uma missão séria. — Ele lhe lançou um olhar severo. — Exige cautela, obediência e discrição.

Lily gargalhou. Foi um som cheio, como vidro quebrando em sinos de bronze.

— Querubim, você vai morrer de tédio antes desse garoto completar trinta. Eu, pelo menos, pretendo me divertir.

Ela deu um salto gracioso e caiu em queda livre em direção à Terra, espalhando fumaça rubra pelo céu noturno.

Gabe suspirou. Um suspiro angelical, mas ainda assim exasperado.

— Sempre desafiando as regras... — murmurou e, com um bater de asas impecável, desceu atrás dela.

E então, como um estalar de dedos, suas formas grandiosas se dissolveram, luz e trevas se encolhendo até que restaram dois humanos comuns parados na calçada de uma avenida movimentada. Ele, em traje impecável de terno claro, óculos de aro fino que o faziam parecer bastante intelectual. Ela, em calça justa, botas castanhas que iam até o joelho e cabelos selvagens que pareciam raios tirados diretamente do sol.

Dois disfarces perfeitos para se infiltrar entre os mortais.

Dois polos opostos.

Unidos, a contragosto, por uma missão que mudaria não apenas a vida de Ethan Miller, mas também a deles próprios.

Lilithiel ergueu o olhar para Gabriel, e um sorriso lento se abriu em seus lábios.

— Isso vai ser divertido.

Gabriel, claro, só conseguia pensar no quanto não seria.




LONDRES, INGLATERRA
DIAS ATUAIS


Lilithiel odiava a poeira.

Quer dizer, tecnicamente, ela não precisava odiar, já que seu corpo infernal não tinha as mesmas percepções que um corpo humano de verdade. Seu nariz não captava as ondas dos cheiros e era quase que um acessório inútil em seu rosto, já que ela mal se lembrava de fingir estar respirando. Ela tinha uma espécie de aversão ao cheiro da poeira, a consistência dela e ao jeito que ela conseguia qualquer coisa que poderia ser considerada boa.

Poeira a lembrava o Inferno, sua casa. E, por mais que Lily não ousasse admitir, ela odiava estar no Submundo. E, claro, foi exatamente para dentro de uma livraria centenária que serviam café que Gabriel a arrastou logo na primeira manhã em que deveriam, segundo ordens superiores, ou inferiores no caso dela, “observar discretamente” o rapaz.

A livraria era grande, aconchegante, com mesas de madeira polida, estantes altas de livros usados e um aroma forte de grãos caros recém-moídos. Tinha uma espécie de mescla entre o tempo moderno e algo do século dezoito. As prateleiras tinham mais de dois metros e, com toda a certeza, havia mais de mil exemplares organizados alfabeticamente por ali. Estava lotado de universitários batendo teclas em laptops e mães de bebês tomando cappuccinos enquanto fingiam estar relaxadas.

Gabriel entrou primeiro, impecável em sua camisa azul bebê, suéter vinho e calças jeans retas e aquele par de óculos finos que o faziam parecer a caricatura perfeita de quem ele queria ser durante a missão: um professor universitário. Lilithiel o seguiu com passos ruidosos de bota de couro, vestido preto justo na altura das coxas e meias calças fio quarenta.

As cabeças se viraram para eles.

— Você tem que escolher logo o disfarce mais… entediante possível? — ela murmurou, sentando-se elegantemente em suma cadeira de canto.

Gabriel ajustou a haste dos óculos, calmíssimo. — O disfarce é para passar despercebido. E o que, exatamente, você está usando?

Lily olhou para o próprio vestido, confusa. — Um vestido de mangas longas? Se eu pudesse distinguir o frio do calor, eu diria que hoje o tempo está propenso para meias calças e mangas longas.

— E essas botas? — Gabe seguiu o olhar pelo calçado de couro marrom.

— Você gostou? — Tocou o couro com a ponta da unha pintada de vermelho. — Foi um adendo, para ficar mais bonito visualmente. Você, pelo contrário, parece um advogado prestes a cobrar um aluguel atrasado.

Ele a ignorou, como sempre fazia, pedindo a um dos garçons um café americano. Lilithiel ergueu os olhos para o cardápio com um suspiro melodramático. Seu mestre não era conhecido por ser tão agradável quanto o mestre de Gabe, todos sabiam daquilo. Por isso, o corpo de Lily não tinha todas as funcionalidades de um humano comum. Quase não sentia gosto, por isso sempre optava por provar as coisas com os gostos mais fortes e peculiares.

— Hum… traga-me um Bloody Mary, duplo. — Fez uma pausa e sorriu inocente. — Sem o Mary.

O garçom piscou, confuso. Gabriel interveio rápido:

— Ela vai querer um frappuccino de avelã, grande. — E a encarou com aquela expressão angelicalmente irritante de “por favor, colabore”.

Lily cruzou os braços, bufando. — Você é tão sem graça.

— Se eu for contabilizar todas as vezes que evitei que você causasse um colapso social… — ele começou, mas parou, respirando fundo.

— Ah, sim… Nos conhecemos há milhões de anos, Gabe. Sei que você consegue se lembrar bem de como eu era antes de cair. — Lilithiel balançava a perna cruzada como se aquilo não importasse.

De fato, Gabriel e Lilithiel se conheciam fazia muito tempo mesmo. Antes mesmo de o mundo se tornar mundo e antes de Deus ter dado nome às estrelas do universo. Eles estavam lá, no começo de tudo. Quando ela ainda era boa e santa, trabalhavam juntos na segunda divisão. Eram o que se poderia chamar de amigos, naquela época. Mas aí veio a missão em que Gabriel não quis participar, ela foi sozinha e nunca mais voltou para o paraíso desde então. Tópico delicado demais para ser discutido agora, leitor. Quem sabe um pouco mais para a frente?

O silêncio que se sucedeu foi interrompido pela entrada de Ethan Miller.

Ali estava ele, o improvável motivo de toda aquela parceria celestial-infernal. Cabelo castanho desalinhado em vários cachos, mochila, camisa dos Ramones que parecia ter sobrevivido às guerras mundiais. Sentou-se em um banco perto da janela, abriu o laptop cheio de adesivos com o rosto de vários filósofos e começou a digitar, alheio ao fato de que os dois seres imortais estavam debatendo sua existência a poucos metros de distância.

Lilithiel o avaliou de cima a baixo.

— Esse é o grande protegido? — Arqueou a sobrancelha. — Me diga, Gabriel, ele parece mais preparado para salvar o mundo ou para esquecer a senha do Wi-Fi?

Gabriel ajeitou os óculos, olhando para Ethan com os olhos atentos.

— Não subestime. Além disso, não sabemos a real motivação da proteção dele.

— Eu vivo de subestimar — ela respondeu com um sorriso malicioso. — É meu hobby favorito.

O garçom trouxe os pedidos. Gabriel tomou um gole de café como se estivesse degustando a essência da disciplina. Lilithiel, por outro lado, fitou o copo coberto de chantilly como se fosse veneno.

— Se eu tomar isso, você me paga uma rodada de martínis no Inferno.

— Não existem mais bons bares naquele lugar.

— Exato, e isso é trágico. Deve ter sido ideia do chefe.

Gabriel massageou as têmporas discretamente. Foi nesse mesmo momento que Ethan ergueu os olhos do laptop e notou, por acaso, o casal no canto. Ele sorriu, tímido, talvez achando-os apenas duas figuras inusitadas em meio ao café comum. Lilithiel retribuiu o sorriso e Gabriel, por sua vez, ofereceu apenas um aceno educado.

— Own, ele tem cara de coitadinho — Lilithiel murmurou enquanto voltava a olhar para sua bebida, que, para o seu azar, era estupidamente doce. — Me faz lembrar como os humanos conseguem ser fofos e atraentes… principalmente quando têm essas carinhas de cachorrinhos esquecidos na mudança.

— Lilithiel. — A voz do anjo soou firme, repreendedora.

Eu poderia dizer que ela obedeceu, que abaixou a cabeça e se calou como uma boa menina caída. Mas não seria verdade. Lilithiel não foi criada para a submissão, todo mundo sabia daquilo. Em vez disso, ela deu um sorriso enviesado para o anjo e depositou toda a sua atenção na sua bebida.

— Calma, Gabe. Não vou arrancar a alma dele no meio do expediente — ela respondeu com um sorriso preguiçoso, girando o canudo do frappuccino como se estivesse entediada. — Não sou mais tão impulsiva assim.

Ela era, na verdade. Mas não vinha ao caso.

Gabriel inclinou-se para a frente, olhos fixos no garoto da janela. — Ele é importante. E não estamos aqui para brincar.

Lilithiel bufou, um som quase felino, e apoiou o queixo nas mãos.

— Tá bom, professor. Só observando… discretamente.

— E não me chame de Gabe.

— Mas é tão bonitinho. — Ela sorriu, inocente demais para ser sincera. — Soa como um apelido de mascote de futebol. “Vai Gabe, marca aquele gol da virtude!

— Você é insuportável. — Ele bebericou seu café.

— Esse é o meu trabalho, querubim — a demônia disse e se deu conta de que havia bebido todo o conteúdo do seu copo sem mesmo perceber. A bebida estava mesmo agradável. — A que horas temos que nos encontrar com o locador do apartamento?

Gabriel pareceu ter se lembrado e olhou no seu relógio de pulso. Se Lilithiel não fosse a própria personificação do caos e da desordem, até diria que ela parou, mesmo que por pouco tempo, para observar o anjo com outros olhos. Olhos humanos, bem carnais, para ser sincera.

— Hm… Temos alguns minutos — disse. — Podemos pegar o metrô.

— Nem fodendo. — Ela riu. — Com essas botas e esse vestido? Eu seria alvo fácil de um homem asqueroso que não sabe se comportar, e eu não estou a fim de fazer ninguém explodir hoje.

— E o que sugere? Não podemos ir voando.

— Sempre acabo esquecendo que você ainda é virgem aqui na Terra. — Revirou os olhos. — Vamos solicitar um Uber, Comfort, de preferência.



O prédio que Ethan Miller morava não era nada surpreendente.

Blocos altos de concreto bege, estilo tijolinhos, um tanto envelhecidos, com janelas quadradas e sacadas. O tipo de lugar que gritava “classe média emergente”, mas que, estranhamente, transmitia um charme urbano. Lilithiel não tinha gostado muito, preferia que fosse mais perto do centro. E, bem, seria naquele lugar que eles iriam morar pelos próximos meses. Vizinhos de porta de um certo estudante que não fazia a menor ideia da atenção celestial e infernal que atraía.

No corredor do quarto andar, Lily arrastava uma mala preta com rodinhas, usando mais força dramática do que necessário. Seu vestido preto estava escorregando para cima, por conta do atrito com a meia calça, e tudo o que ela conseguia pensar era em como os corpos humanos eram asquerosos e fracos. Ela, uma demônia, estava cansada apenas por ter carregado sua mala por dois lances de escada, porque o elevador estava fora de serviço.

Gabriel já estava parado em frente à porta do apartamento deles, ajustando os óculos e segurando uma pilha organizada de livros que ele havia alugado na cafeteria antes de saírem. A chave prateada parecia bem pequena na sua mão, pela perspectiva de Lilithiel, mas a mala da Rimowa foi o que chamou mais a atenção dela. Em que momento ele havia adquirido aquilo?

— Eu ainda não entendi — ela começou, encostando-se na parede e cruzando os braços — por que eu tive que ser psicóloga.

— Porque você precisava de uma profissão que parecesse respeitável — Gabriel respondeu, enquanto testava a chave na fechadura. — E convenhamos, “agente do caos profissional” não aparece em nenhum currículo.

Ela soltou uma risada curta, inclinando a cabeça.

— Bem, eu gosto de ouvir os problemas das pessoas e ser paga por isso. Mesmo que meu mestre seja o pai da ganância e do dinheiro, é bom ter algo meu. Além do mais… também gosto de dar conselhos ruins. — Sorriu, preguiçosa, como quem saboreia uma travessura.

Gabriel a encarou, incrédulo. — Você vai manipular pessoas inocentes e vulneráveis apenas por… diversão?

— Querido, eu só vou apontar o caminho. Se eles decidem tropeçar no abismo, problema deles.

Gabriel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como quem fazia uma prece silenciosa por paciência.

— Você vai ser o fim da minha sanidade.

— Ah, não se preocupe, eu cobro barato por terapia de grupo. — Ela piscou, divertida.

No mesmo instante, a porta do apartamento ao lado se abriu. Primeiro, uma horda de gatos saiu pela pequena fresta e, logo em seguida, Ethan Miller. Tudo bem, horda era uma palavra muito dramática para ser usada. Eram quatro gatos, todos pretos. E o jovem protegido, que parou no batente, os observava, sem prestar atenção nas duas figuras, usando apenas um calção fino. Lilithiel soltou um risinho.

Ethan, então, olhou primeiro para Gabriel e depois para ela. Piscou algumas vezes, como quem tenta recobrar a lembrança e ficou vermelho como um tomate. Se escondeu parcialmente atrás da sua porta branca.

— Hm… oi? — disse, hesitante. — Vocês… são os novos inquilinos?

Gabriel se adiantou, educado como sempre.

— Sim. — Sorriu gentilmente. — Chegamos agora a pouco. Sou Gabriel Hughes e essa é Lilithiel Edwards. Vou lecionar filosofia na faculdade a partir de amanhã e esse apartamento apareceu em boa hora.

Ethan ergueu as sobrancelhas.

— Sério? Eu estudo lá! Filosofia também.

— Então é muito provável que a gente se veja pelos corredores — Gabriel disse, ajeitando os óculos.

Antes que a conversa pudesse seguir em um tom cordial, Lilithiel se inclinou para a frente com um sorriso radiante nos lábios carnudos e olhou para Ethan. O pobre rapaz engoliu em seco, a olhou rapidamente de cima a baixo e Gabriel pôde notar a ponta das orelhas dele tomarem um tom ainda mais vivo de vermelho sangue. Claro, ela tinha que usar seu charme com ele.

— Pode me chamar de Lily. Psicóloga. — Fez uma pausa dramática e deixou a mão no ar, esperando que Ethan a cumprimentasse. — Especialista em ouvir desgraças alheias.

Ethan piscou, incerto se ela estava brincando ou não. Mas, ainda assim, estava quase se afogando na poça de sua própria saliva enquanto olhava a loira.

— Ah… legal?

— É ótimo. — Lily sorriu de um jeito que soava mais diabólico que acolhedor. — Você não imagina como os humanos são fascinantes quando estão à beira do colapso emocional.

Gabriel a fuzilou com o olhar. Ethan riu, nervoso, sem saber exatamente como reagir.

— Bem… bem-vindos, eu acho. — Ele deu um meio aceno, chamando seus gatos para dentro. — Qualquer coisa, sou o da porta do meio.

— Nós sabemos — Lily respondeu, o sorriso alargado. — Se precisar de uma xícara de chá ou de um chuveiro quente, pode bater.

Ethan hesitou, como se tivesse sentido algo estranho naquela resposta, mas preferiu não questionar. Recolheu-se para dentro do apartamento, fechando a porta com cuidado.

O silêncio voltou ao corredor.

Gabriel olhou para Lily com uma expressão de reprovação.

— Você tem que assustar as pessoas?

— Eu só disse a verdade — ela retrucou, jogando os óculos escuros para cima da cabeça. — Além do mais, você viu o rostinho dele? Aposto que amanhã mesmo ele vai sonhar com terapia.

— Ou pesadelos — Gabriel murmurou, destrancando a própria porta.

Lily empurrou a porta branca com um chute preguiçoso, a mala rodando atrás dela como se fosse um cachorro malcriado. O apartamento havia sido adquirido com mobília, de bom gosto, por sinal. As paredes não tinham muita cor, uma estante de livros vazia encostada na parede, um abajur triste, no canto, tentando iluminar toda aquela monotonia.
— Ah, que maravilha. — Ela girou sob os calcanhares, braços abertos, como se tivesse acabado de entrar em um palácio. — Mais uma das joias da arquitetura humana. É praticamente… um buraco pintado de bege.

Gabriel, que estava de costas para ela, ouviu o comentário com um arzinho de incômodo. Estava descarregando seus livros com a delicadeza de quem está manuseando exemplares originais da biblioteca de Alexandria.

— O apartamento é apenas um disfarce — disse em um tom calmo, grave, paciente demais. — Não estamos aqui para nos sentirmos confortáveis.

Lily se jogou no sofá retrátil bege, que deveria ter mais de um metro e meio, como se fosse uma estrela de cinema em seu divã.

— Ah, meu querido Gabe — ela começou, cruzando as pernas uma sobre a outra —, se eu tiver que passar meses nesse prédio cinzento de quinta, cercada de vizinhos que acreditam que aquário na sala é símbolo de status, eu exijo me sentir confortável. É o mínimo.

Gabriel a olhou com aquela expressão séria que, em qualquer outro contexto, pareceria paternal. Mas em Lily só provocava mais riso.

— Já estive aqui antes, sabe? — disse casual, olhando para o teto. — A Terra. Esse lugar é sempre tão barulhento, tão desesperado. É engraçado como as pessoas sempre acreditam estar vivendo o fim dos tempos. Milênios e ainda não aprenderam que o fim é bem mais… entediante.

Gabriel ficou em silêncio. Ele sabia. Sabia de cada rumor que corria nos céus e debaixo dele: Lilithiel, antes de ser quem era naquele momento, havia caminhado pela Terra com asas brancas, em uma missão que ninguém ousava comentar ou entrar em detalhes. Gabriel sabia demais, na verdade. Porque ele deveria ter ido com ela. Mesmo assim, ele não seguiu adiante. Não ousou.

— Você fala como quem tem bastante experiência. — Foi tudo o que ele respondeu, neutro.

Ela ergueu o olhar para ele e, por um segundo, algo brilhou em seus olhos. Mas logo voltou a sorrir, com aquela ironia felina que lhe caía tão bem.

— Experiência é só um nome chique para cicatriz, Gabe. — Ela piscou. — E eu tenho muitas.

O cheiro dos móveis novos foi tudo o que pairou entre eles depois das últimas palavras dela. Gabriel era controlado demais, sabia que não deveria entrar naquele assunto. Tinha recebido ordens superiores para não se deixar levar pelas falácias de Lily, porque ela era muito boa naquilo. Por isso, Gabe se sentou na beiradinha do sofá, a distância segura, e puxou sua mala da Rimowa para si.

Lily soltou um risinho anasalado, o olhar brilhando em uma malícia contida.

— Sabe, Gabe… — começou, com tom quase inocente — eu já vi muita coisa na Terra. Sexo, poder, tentação, pequenos desastres humanos que fariam qualquer anjo tremer de medo. Mas você… — fez uma pausa, estudando-o de cima a baixo — você é tão certinho que dói.

Gabriel ergueu uma sobrancelha, ajustando os óculos.

— Certinho é melhor que irresponsável.

— Irresponsável é divertido. — Ela deu de ombros, com aquele sorriso travesso que ainda respeitava o disfarce humano. — Mas tudo bem, eu sei que você gosta de colocar limites. Isso é tão… adorável.

— Eu não tento ser adorável. — Gabriel replicou, com a voz seca, porém um leve sorriso traindo seu humor. — Tento manter a sanidade e a ordem divina.

Lily riu baixo, inclinando-se para a frente, mas sem ultrapassar a linha do apropriado.

— Hum… sanidade é superestimada. Mas vou me conter por enquanto.

Gabriel suspirou, passando uma mão pelo cabelo.

— “Por enquanto” não é exatamente uma garantia.

— Exatamente. — Ela recostou-se no sofá, satisfeita com a reação dele. — A vida é mais interessante quando a tensão existe.

Gabriel apenas sorriu levemente, ajustando os óculos e dando meia-volta para colocar os livros de volta na estante. Um silêncio confortável caiu entre eles, um silêncio cheio de tensão, provocação contida e, claro, aquela química irritante que nenhum dos dois admitiria.

No fundo, ambos sabiam: aquele convívio forçado seria muito mais divertido, e perigoso, do que qualquer missão que já tiveram na Terra.




Gabriel gostava muito da cidade de Londres.

Sim, gostava. Porque seria pecado dizer que adorava alguma coisa além de Deus. Mas, se ele pudesse trapacear só um pouquinho, sem que ninguém lá de cima ficasse sabendo, diria, com bastante certeza, que aquela era a cidade que ele mais adorava visitar.

Tudo era agradável! Quer dizer, quase tudo. Se desconsiderarmos os adolescentes com o vocabulário limitado a dez palavrões por frase e um exagero preocupante de autobronzeador, Londres era simplesmente perfeita. Andar pela rua, sentir a brisa fria da manhã enquanto o sol fazia um esforço heroico para atravessar as nuvens cinzentas era bom demais. O paraíso era inigualável, claro, mas viver com os humanos tinha um charme particular. Em que outro lugar ele poderia parar numa esquina, de frente para o Big Ben, e pedir uma porção de peixe frito para viagem?

Gabriel respirou fundo, mesmo sendo inútil, e olhou para o próprio sobretudo azul marinho. O anjo ainda achava que os humanos adultos bem estabilizados só eram respeitados se usassem um daqueles. Era um grande dia.

O dia da sua primeira aula na universidade.

Lhe doía a alma pensar que ele, um anjo milenar, iria lecionar Filosofia Moderna para um grupo de jovens que acreditavam que “Nietzsche” era o nome de uma banda indie qualquer de fraternidade. E se eu, sua onipresente narradora, parar para pensar um pouco, posso dizer que, em nenhum momento da sua existência, Gabriel pensou que passaria por um momento daqueles. Quero dizer, lidar com o apocalipse e ceifar bestas era mais a praia dele.

— Tudo vai correr bem — murmurou para si mesmo, cruzando a rua com a pasta de couro debaixo do braço.

Primeiro, é importante entender que Gabriel se preparou para aquele momento com a mesma seriedade com que os seus irmãos, anjos, se preparam para as trombetas apocalípticas. Se tivesse que ser professor, seria o melhor de todos. Passou horas lendo artigos sobre pedagogia humana, comprou roupas “descoladas” na Tommy Hilfiger e até praticou expressões faciais no espelho.

Treinou dedicadamente seus tipos de sorriso. Porque se tinha uma coisa que ele fazia, até sem perceber, era sorrir.

O sorriso número um era o “simpático, mas profissional”.

O número dois, “sábio, porém acessível”.

E o número três… bem, o número três parecia mais com um espasmo facial do que qualquer coisa. Esse ele decidiu abolir.

O caminho do apartamento para a faculdade não era longo. A pé davam quadras e como o anjo ainda não estava bem familiarizado com o transporte público, preferiu caminhar enquanto comia suas iscas de peixe. O corpo humano era mesmo uma coisa extraordinária, ele pensou. Comer iscas de peixe até o estômago doer não era tão extraordinário assim.
Quando chegou à universidade, percebeu duas coisas imediatamente: primeiro, que todos olhavam para ele como se tivesse saído de um comercial de perfume caro. Segundo, que ele tinha esquecido em cima da ilha da cozinha o seu crachá de professor. E aquilo, mesmo que não fosse possível, o irritou um pouco. Oh, Gabe, sua memória celestial já estava falhando no primeiro dia?

— Poxa vida… — Suspirou, remexendo sua pasta na esperança de achar o cartão plástico.

Logo à frente, próxima às portas duplas da entrada da universidade, uma mulher segurava um copo de café e o observava com um sorrisinho. Tinha o cabelo castanho cortado na altura do queixo e olhos quase tão azuis quanto os dele.

— Primeiro dia? — perguntou.

— É tão óbvio assim? — ele respondeu, com um sorriso desajeitado.

— Um pouco. Professores geralmente não parecem tão… descolados.

Gabriel congelou por um segundo, confuso. O que ele poderia estar fazendo errado? Mas antes que ele pudesse responder, ela já tinha saído e ido embora, deixando o cheiro do caramelo no ar e o anjo tentando descobrir se seu disfarce estava arruinado antes mesmo de começar.

A gente falou do que Gabriel gostava em Londres, mas sabem o que ele não gostava? A presença massiva e extremamente incômoda de Lilithiel, que parecia estar usando suas artimanhas amaldiçoadas para o observar no seu primeiro dia como professor. Ela tinha uma habilidade sobrenatural de aparecer nos piores momentos. Literalmente.

Como, por exemplo, enquanto ele tentava abrir a porta da sala de aula sem destruir a maçaneta, porque sua força angelical é um problema subestimado. O seu aparelho celular, que a demônia havia comprado para ele, vibrou. Era o modelo mais recente da Apple, e aquilo causava um certo incômodo em Gabriel, porque aquele celular que tinha as mesmas funcionalidades de qualquer outro do mercado era caríssimo.

2 novas mensagens de Lilithiel:

“Boa sorte na aulinha, santinho.
Tenta não transformar água em vinho na frente dos seus alunos 😘”

Ah, Londres. Cidade dos encantos, da cultura, da história… e da paciência em teste constante.

Gabriel ajeitou o casaco, respirou fundo e entrou na sala. Trinta e cinco pares de olhos o fitaram imediatamente. Alguns curiosos, outros encantados e pelo menos dois claramente apaixonados. Sim, ele tinha aquele efeito, afinal, ele era um anjo. Era bonito demais para parecer verdade. Mas, como bom anjo que era, não fazia ideia da profundidade daquilo.

— Bom dia a todos. — Sua voz soou calma e serena, com aquele tom grave meio rouco. — Eu sou o professor Gabriel Hughes, e vou ministrar a disciplina de Filosofia Moderna.

Enquanto ele escrevia as primeiras informações no quadro branco, pôde escutar uma garota da primeira fila suspirar e outra sussurrar algo para a amiga do lado que a fez corar até a alma. Mas Gabriel, claro, acreditou que estavam apenas empolgadas com a ministração do conteúdo.

— Eu sei que a palavra filosofia pode parecer intimidadora, mas prometo que, ao final do semestre, vocês verão o mundo com outros olhos. — Ele sorriu, e, caramba, ele tinha aquele sorriso que ia até os olhos. Coitadas das pobres alunas. — O que é ótimo, já que os antigos diziam que o verdadeiro saber começa quando enxergamos o que antes passava despercebido.

Sim. Ele era mesmo bom no que fazia. E, em poucos minutos, a turma inteira o escutava como se ele estivesse revelando todos os segredos do universo. E, para falar a verdade, ele teve que se policiar para não acabar o fazendo. Mas nada ali era perfeito. A sala inteira estava filmando, exceto por Ethan, o vizinho de dezenove anos, com coordenação motora duvidosa.
Gabriel pensou o ter visto olhar diferente para ele quando ele citou “a moralidade nasce do livre-arbítrio”, como quem pensa: ué, e não é que é aquele mesmo cara que mora no 302 e vive brigando com aquela mulher de cabelo cacheado?

Ethan não prestava muita atenção, é verdade. Estava ocupado demais tentando equilibrar o celular, o caderno e o copo de café que acabaria derramando mais cedo ou mais tarde. Gabriel chamou atenção da turma algumas vezes, deixando perguntas no ar e os incentivando a participar. Quando a aula terminou, uma pequena fila se formou na frente da sua mesa. Depois de alguns comentários e cumprimentos, a porta da sala se abriu e os alunos saíram. Exatamente cinco minutos depois se abriu novamente.

E quem estava lá?

A moça do café e agora ele sabia o nome dela: a professora Claire Bennet, colega de departamento e especialista em Ética.

— Sua primeira aula foi incrível — ela disse, sorrindo. — Faz um tempo que não vejo alunos tão atentos.

— Ah, fico feliz. Eu gosto de provocar reflexões. — Ele sorriu de volta, com um encanto sereno. — É o que chamam de boa didática, certo?

— Exatamente. — Ela riu. — Espero que a gente se veja mais vezes pelos corredores.

Ele assentiu, educado demais para entender que aquilo foi um convite disfarçado. Em que mundo Gabriel pensaria que uma gentileza acadêmica poderia ter duplo sentido? Nunca. Na saída da sala, Ethan esperava por ele, ainda tentando limpar a mancha de café do caderno.

— Professor? — chamou, coçando a nuca. — Quase que não acreditei que meu vizinho é mesmo meu professor. Que mundo pequeno!

— Ethan! — Gabriel lhe ofereceu um breve aperto de mãos. — Gostou da aula? Espero não ter falado rápido demais.

— Foi muito boa! Inclusive, tô fazendo um trabalho sobre moral e destino — continuou o garoto, rápido demais. — E seria uma boa se o senhor pudesse me orientar, já que somos vizinhos de porta.

Gabriel sorriu, genuinamente feliz. Aquilo era o que ele mais gostava de fazer. Não havia experimentado prazer maior do que ajudar alguém de boa vontade.

— Seria um prazer, Ethan. A moral e o destino são… tópicos que eu conheço muito bem.

Enquanto eles conversavam sobre as dependências da universidade, sobre as lanchonetes e sobre os outros professores, o celular dele vibrou de novo.

2 novas mensagens de Lilithiel:

“Já deu tempo de converter algum aluno, professorzinho?
Ou só encantou as suas alunas com essa carinha de bom moço?”

Gabriel fechou os olhos, respirou fundo e colocou aquele exercício sobre paciência que aprendeu no Workshop que Jó deu há uns seis meses no Paraíso.

“Lilithiel, eu já lhe pedi que pare de invadir assuntos terrenos.”

Dois segundos depois:

“Eu só tô tentando te ensinar a usar o celular, Gabe. Relaxa. Você escreve como um idoso de 400 anos.”

“Tenho mais de 400 anos.”

“Exatamente meu ponto
😘

Gabriel ficou alguns segundos olhando para a tela. O pequeno retângulo luminoso o encarava de volta, zombeteiro, como se dissesse vai lá, responde. Ele suspirou, rendido à própria curiosidade e à estranha vontade de manter aquela conversa viva.

“E como está indo seu primeiro dia como psicóloga, Dra. Lilithiel?”

Três pontinhos piscando.

Depois, uma enxurrada de mensagens.

“Ah, um deleite, como sempre.
Atendi três humanos chorando porque o namorado visualizou e não respondeu.
Um reclamando de ‘crise existencial’ (como se a existência deles fosse grande coisa).
E o último me perguntou se eu acreditava em anjos.”

“E você respondeu o quê?”

“Que já tinha dormido com um.”

“LILITHIEL!”

“Brincadeirinha. (ou não
😈)”

Ethan acabou se despedindo de Gabriel, dizendo que precisava ir à biblioteca para pagar a multa de algumas libras por ter esquecido de devolver um livro em russo. O que pareceu bastante curioso, porque Ethan não parecia interessado em ler sequer um livro em sua língua materna. Gabriel voltou a dar atenção à mais mensagens que chegavam de Lilithiel, maldita hora que tinha dado atenção àquele aparelho que mais parecia ter sido uma obra do próprio Satã.

1 nova mensagem de Lilithiel:

“Mas sério, Gabe. Humanos são insuportáveis. Eu finjo empatia o dia inteiro. Sorrio, aceno, digo coisas como ‘você é o protagonista da sua própria história’ e ‘abrace sua vulnerabilidade’. Sabe o que é isso pra mim?”

“Trabalho?”

“Tortura.
Ah, e eu descobri o inferno na Terra: metrô de Londres, horário de pico.”
Você já sentiu o hálito de sete almas perdidas ao mesmo tempo?”

“Imagino que não seja agradável.”

“Não é. Desde então, eu juro fidelidade ao Uber.”

“E à humildade, talvez?
Você deveria tentar ver algo bom nas pessoas, Lilithiel. Há beleza até nos corações mais confusos.”

“Claro, professorzinho. Assim que eu achar um coração que bata só de olhar pra mim, eu te aviso.”

Ela enviou um emoji de diabinho e silenciou a conversa.

Lily sempre dizia que tinha nascido para comandar impérios, não para escutar humanos chorando por amores não correspondidos. Mas, adivinhe? Ela estava ali. No seu terceiro atendimento do dia, ouvindo uma garota de vinte e dois anos lamentar porque o namorado “não dava mais bom dia por mensagem”. E Lily não podia acreditar que aquela era a grande tragédia da manhã.

A sala dela era impecável. Moderna, aromatizada, com velas caras e móveis minimalistas em tons preto e vinho. Tudo escolhido milimetricamente para transmitir autoridade e sofisticação. Talvez não fosse o ideal, mas Lily não se importava nem um pouco. Afinal, na sua pesquisa de campo, tinha entrado em outros consultórios, só para observar, e acabou notando que os terapeutas tinham um apego muito grande por plantas e por sofás com mais de dez almofadas.

Lily tinha um divã, uma mesa, uma poltrona confortável e uma máquina de café. E, modéstia à parte, aquilo lhe tornava uma psicóloga melhor que qualquer outra da região. Além do consultório impecável, ela também tinha aperfeiçoado seu estilo pessoal.

Calça de alfaiataria justa, saltos finos, blazer acinturado e um par de óculos com armação pontuda, dignos da própria Bayonetta. E com aquele cabelo loiro lindo e perfeitamente indomado, Lily não precisava de um crachá ou uma formação para impor respeito, bastava apenas existir. Para o inferno Gabriel e sua profissão tão correta e sem graça, ouvir fofocas era bem melhor.

— Então… — disse a paciente, enxugando as lágrimas. — Você acha que eu devo mandar mensagem pra ele?

Lily a olhou por cima dos óculos, com expressão de quem já atendeu almas muito mais perdidas que aquela.

— Depende — respondeu, cruzando as pernas com elegância. — Quer paz ou quer drama?

— Eu… não sei.

— Drama, então. Mande a mensagem.

A garota piscou, confusa. — Sério?

— Claro! Se você acha que vai se sentir melhor mandando mensagem pro cara que claramente está te deixando de lado, por que não? — Lily deu um sorriso.

Ela dispensou a garota e se recostou na cadeira, olhando o relógio. Ainda faltavam duas horas para o almoço. E, honestamente, ela já estava entediada o suficiente para invocar uma tempestade só para movimentar o dia. Gabriel não tinha mandado mais nenhuma mensagem, deveria estar ocupado sendo perfeito em tudo o que poderia ser. Lily suspirou, mal tinha descido para a Terra e já estava quase morrendo de tanto tédio. Precisava movimentar sua vida social. E, bom, se tinha uma coisa que a demônia estava começando a entender sobre os humanos era que o tédio exigia cafeína.

E foi assim que, meia hora depois, ela estava sentada no Starbucks da esquina, com um frappuccino de caramelo na mão e expressão blasé, observando as pessoas passarem. Estava sentada em um dos banquinhos do bar, com uma perna encostada no chão e a outra pendurada, o corpo balançando despretensiosamente para a frente enquanto mastigava o canudo.

Até aquele momento, não havia nada que pudesse chamar sua atenção. Além dos caras que estavam de terno, usando termos técnicos sobre finanças, claro. Tudo o que Lily conseguia ver era nada além de um estabelecimento cheio de pessoas completamente insuportáveis. Até quando ela via os desejos em seus corações, até os mais podres e ocultos, nada nela se acendia. Estava farta da mesmice.

Sem pensar muito, tirou uma foto da sua bebida e mandou para Gabriel. Enquanto observava um casal discutindo por causa de uma senha de Wi-Fi, ela abriu o celular.

1 nova mensagem de Gabe 👼

“Lembre-se do propósito, Lily. Estamos aqui para cuidar do rapaz, não para se perder nos vícios terrenos.”

“Cuidar é um termo muito forte, Gabe. E o frappuccino não é vício. É sobrevivência.”

“Você já tomou seis desde que chegamos.”

“E ainda não destruí o mundo. Acho que estou progredindo.”

Depois de mais três consultas, Lilithiel decidiu que era a hora de ir para casa. Não que pudesse chamar aquele apartamento frio e sem personalidade de casa, mas era o que tinha. Fechou o consultório, que ficava em um dos empresariais Elias Clark, ignorou os cumprimentos dos recepcionistas e tentou solicitar uma corrida de Uber. Estava sem a maldita sorte do seu lado, como sempre. Nenhum da categoria black, ninguém ousou aceitá-la.

— Que porra! — praguejou.

Continuou caminhando pela calçada da rua e encontrou uma loja de móveis. Pela fachada, parecia ser requintada demais. Lily esboçou um sorrisinho porque, finalmente, faria uso do cartão black que o seu Mestre havia lhe dado como presente por más ações. Era uma diabinha consumista, de fato. E, com muita sorte, curaria seu tédio com aquele momento de compras desenfreadas.

Quando Lily voltou para o apartamento já era noite, por volta das nove. Gabriel estava terminando de revisar alguns papéis da aula do dia quando ouviu três batidinhas discretas na janela da varanda. Ele olhou pelo vidro, suspirou e viu a silhueta dela — e, convenhamos, tenho certeza que se ele fosse um pouco mais humano, teria olhado para ela por mais um segundo do que deveria. Aquele blazer justo e saltos finos eram mesmo uma distração.

— Lilithiel… você não conhece o conceito de porta? — perguntou, abrindo a janela.

— Claro que conheço. Só não gosto dele. — Ela entrou como quem era dona do lugar. — As portas são… limitantes. E como eu poderia entrar com os nossos novos eletrodomésticos? O elevador ainda está quebrado.

Gabriel revirou os olhos e voltou a se sentar.

— Eu estava justamente pensando em comer alguma coisa. Não temos panelas aqui.

— Pensando? — Ela olhou ao redor. Deixou as inúmeras sacolas no chão da sala e suspirou, girando o pescoço. — Caramba, fazia tempo que eu não levitava carregando tanto peso.

— Você levitou?

— Sim?

— E quanto aos outros? Tínhamos combinado que precisávamos ser discretos. — Gabriel estava com os olhos azuis arregalados, caminhou de volta para a varanda e olhou o movimento lá embaixo. — Santo Deus, olha a quantidade de gente que está lá!

— Calma, Gabriel! — Ela soltou uma risadinha, se desfazendo do salto alto. — Usei o encanto. Ninguém me viu, fica tranquilo. Agora me diga, o que temos na despensa, além de uma lata de feijão em conserva?

— Nada. Não pensei em ir ao mercado.

— Você é um anjo, não um universitário quebrado. — Lily riu e pegou o celular. — Tá decidido, vamos pedir comida.

Gabriel franziu o cenho.

— O que é que se pede, exatamente? Só sei que... não dá pra sobreviver com café e aqueles biscoitos amanteigados.

Cookies, Gabriel. — Lily já estava começando a soar como uma professora rígida. — Quando sentir fome, é só pedir um delivery. É uma das melhores invenções dos humanos.

Ele ainda não se acostumara ao aparelho celular.

— Aquela tela é absurdamente pequena — murmurou, revirando os olhos. — Não consigo digitar ali sem parecer um idiota.

Lily sorriu de lado e abriu o aplicativo com destreza.

— Pizza? Comida chinesa? Algo com carne humana?

— Lilithiel! — Ele arregalou os olhos.

— Brincadeira — ela respondeu, nada convincente. — Vamos de pizza. O pessoal daquele sitcom, Friends, come essa coisa a cada hora.

Minutos depois, os dois estavam sentados no chão da sala, com caixas abertas e cheiro de queijo no ar. Lily já tinha soltado o cabelo e estava com as pernas estiradas e parecia curiosamente confortável naquele lugar. Gabriel, por outro lado, comia com uma compostura quase cerimonial. Ainda usava aquele óculos de grau, mesmo que não precisasse, e Lily admitiu para si mesmo que ele ficava mesmo bem com aquele acessório.

— Então — começou ela, com aquele tom casual de quem está prestes a cutucar uma ferida —, me conta do seu dia.

— Foi produtivo. Dei minha primeira aula.

— Ah, é? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Encantou algum mortal?

— Eu não “encanto” mortais, Lilithiel. Eu ensino.
— Aham. E essa professora que você mencionou? A da Ética.
Gabriel fez uma pausa.
— Claire.
— Claire. Nome de quem pede cappuccino com leite de amêndoas e usa marcador cor-de-rosa nas anotações. Aposto que ela ficou afim de você.

Ele tossiu, indignado.

— Isso é absurdo. Ela só foi… gentil.

— Gabe, eu sou especialista em dois assuntos: comportamento humano e inferno. E, às vezes, eles se misturam.

Ele desviou o olhar, claramente desconfortável.

— Ela apenas elogiou a aula.

— Ah, claro. — Lily mordeu um pedaço da pizza. — “Admiração acadêmica” é o novo código para “ficaria com ele no intervalo”.

Gabriel franziu o cenho, genuinamente confuso.
— Você acha mesmo que ela…

Sim, Gabriel. — Ela riu. — A mulher ficou afim de você, isso tá na cara.

— Você tem uma imaginação terrível.

Por alguns minutos, ficaram em silêncio. A televisão ligada em uma reprise do Masterchef, a luz amarelada do abajur refletindo no chão e o som suave dos carros passando na rua lá embaixo. Era, de certa forma, aconchegante. Um tipo de paz que nenhum dos dois admitia gostar, mas gostavam. Relembrava um pouco dos velhos tempos, de quando eles corriam do mesmo lado. Gabriel não podia deixar de pensar em como era quando Lilithiel trabalhava junto com ele.

Até que Lily olhou para a caixa de pizza, pensou por um segundo e disse:

— Devíamos levar um pedaço pro garoto do 304.

— Ethan? — Gabriel arqueou a sobrancelha. — Ele provavelmente está dormindo.

— Ele é adolescente, Gabe. Nenhum deles dorme antes das três da manhã.

Lilithiel levantou e foi rebolando em direção à porta da sala. Olhou para o anjo por cima dos outros como se o desafiasse a deixá-la ir sozinha e revirou os olhos imediatamente quando ele levantou em um salto para acompanhá-la. Bateram no 304 com dois toques e em um minuto Ethan colocou a cabeça para fora.

Estava completamente molhado, com o cabelo castanho cacheado pingando. Lily ficou na ponta dos pés para olhar o que estava se passando dentro daquele lugar. O alarme de incêndio tinha disparado.

— Estava tentando colocar fogo na sua casa? — a loira perguntou com ar de riso. Nesse mesmo instante, os três gatos pretos saíram pela brecha, enfileirados. — Own, adoro eles. Já conseguiu dar os nomes?

— É... ainda não consegui decidir — Ethan disse, meio sem jeito.

— Pois agora tem: Caos, Pânico e Destruição. — Ela apontou para cada um, satisfeita.

Ethan piscou.

— Os nomes fazem jus. Eles são umas pragas.

Ethan empurrou a porta com o peito encharcado, os cachos grudados na testa, e fez aquela expressão de menino pego no flagra que ninguém leva a sério, mas todo mundo acha irresistível. Cheirava a shampoo e a bolo queimado, que era por si só uma combinação curiosa demais para passar despercebida por Lily.

— Está tudo bem? — Gabriel questionou, com uma pontada de preocupação real na voz.

— Não — protestou ele, morto de vergonha. — Só... o micro-ondas explodiu. Tipo, faíscas e aquele cheiro de plástico queimado. Tentei salvar uns muffins que tinham sobrado. Achei que dava pra esquentar.

— Comida requentada nunca é uma boa ideia. — Lily riu.

— Sorte sua que estávamos indo te oferecer um pouco de pizza. — O anjo ergueu a caixa engordurada no ar.

— Vocês são, tipo, meus anjos da guarda — o cacheado disse, sorrindo.

— Credo, garoto! — Lilithiel protestou na mesma hora.

Ethan aceitou a pizza como se fosse um bilhete de salvação, e entre um pedido de desculpas e outro, abriu a porta do seu apartamento completamente, deixando pegadas pelo carpete bege. Lilithiel ficou enojada, porque odiava demais carpetes e toda a imundície que eles representavam. A sirene do alarme continuava a apitar, como se fosse um constante lembrete de que Ethan era mesmo um atrator de caos. Gabriel trocou um olhar com Lily — aquele olhar que falava: “e agora, minha cara, quem vai desarmar a bomba?” — e Lily já tinha os olhos brilhando de pura diversão maligna.

— Eu? Claro que não — fingiu indignação, cruzando os braços. — Sou uma profissional responsável. Você deveria saber que eu tenho uma reputação a manter: mentora de caos, não bombeira.

— Lilithiel — advertiu Gabriel, um risinho escapando —, temos que desligar o alarme antes que o síndico pense que é um apocalipse e nós sejamos os culpados.

Lily bufou e passou pelo anjo com passos firmes, tal como uma criança de cinco anos faria. E, ao passar por Ethan, lhe deu um tapinha no ombro que poderia ser interpretado como conforto ou como uma provocação pública. Ethan corou mais ainda.

— Relaxa, garoto. Vamos resolver.

Lily caminhou até a parede onde ficava o painel de alarme com a expressão de quem estava prestes a lidar com uma relíquia amaldiçoada. O som estridente ecoou pelo corredor e fazia seus ouvidos latejarem. O apartamento de Ethan era um completo caos, cheio de desorganização, para falar a verdade. Meias, sapatos, camisetas e… aquilo era uma camisinha jogada debaixo da mesinha de centro?

— Que tipo de tecnologia doentia é essa? — perguntou, franzindo o nariz. — Um simples fogo no microondas e o prédio entra em colapso.

Um simples fogo, Lilithiel? — Gabriel arqueou uma sobrancelha. — O garoto quase abriu um portal pro inferno dentro do forno.

— Bom, seria uma boa visita, pelo menos. — Ela digitou alguns números aleatórios no painel, sem sucesso. — Por que essas coisas sempre pedem senha?

— Porque é assim que a segurança humana funciona. — Ele suspirou, aproximando-se. — Saia daí, deixa que eu resolvo.

— Claro, senhor certificado de boas maneiras. — Ela recuou com um sorriso debochado. — Vamos ver se a sabedoria celestial cobre tecnologia residencial.

Gabriel digitou um código qualquer, e nada aconteceu. Depois outro. E outro. O alarme continuava berrando, e Ethan já segurava um dos gatos como se o animal fosse uma almofada emocional.

— Eu posso tentar... — disse o garoto, hesitante. — Acho que o código é o número do apartamento do síndico.

— E qual é? — perguntou Gabriel.

— 666.

Os dois se entreolharam. Lily arqueou uma sobrancelha, mal conseguindo conter o riso.

— Acho que eu gosto desse síndico.

No instante em que ela digitou o código, o som cessou. Um silêncio pesado tomou conta do corredor, seguido de um suspiro coletivo de alívio.

— Viu só? — Lily deu dois tapinhas na tela. — O caos me obedece.

Gabriel revirou os olhos.

— Por pura familiaridade, imagino.

Ela lhe mostrou a língua e caminhou de volta em direção ao apartamento deles. Ethan, ainda um pouco constrangido, agradeceu.

— Obrigado mesmo. De verdade. Eu... acho que vou precisar comprar outro microondas.

— Ou um extintor — Lily rebateu, divertida. — Pra combinar com o seu talento culinário.

Gabriel suspirou e olhou ao redor. A fumaça já começava a se dissipar, mas o cheiro de muffin queimado persistia como uma lembrança traumática.

— Acho melhor abrirmos as janelas — disse, caminhando até a cozinha.

— Relaxa, professor. — Lily estalou os dedos, e o ar pareceu se renovar, fresco, perfumado de café e caramelo.

Gabriel a encarou com aquele olhar de “isso não é um procedimento autorizado”.

— Lilithiel…

— O quê? — Ela deu um sorrisinho inocente. — Só dei um up na ventilação.

Ethan observava os dois, atônito. — Vocês são tipo... um casal?

Não — Gabriel respondeu rápido demais.

Definitivamente não — Lily respondeu ao mesmo tempo, talvez um tom mais alto do que o necessário.

Lily, então, pensou por um segundo: porque ele negou tão rápido e veementemente? Aquilo tinha afetado seu ego, mas ela jamais admitiria. Afinal, quem era Gabriel? Ele não fazia diferença alguma nessa parte. Lilithiel se sentia auto suficiente para prolongar aquele pensamento. O silêncio que veio depois durou o suficiente para um gato miar e outro derrubar alguma coisa dentro do apartamento.

Lily ajeitou o cabelo, como se quisesse mudar de assunto.

— Bom, antes que o síndico bata aqui achando que o andar está em chamas, que tal transformarmos isso numa ocasião?

Gabriel a olhou com desconfiança.

— Ocasião?

— Sim. — Ela girou nos próprios calcanhares e deu um sorrisinho diabólico. — Um jantar. Algo civilizado. Você cozinha

— Eu não cozinho-

—…E eu supervisiono. — Ela o ignorou solenemente. — Podemos convidar os vizinhos, fazer parecer que somos normais. É o que humanos fazem quando não estão incendiando o microondas.

Ethan deu uma risadinha. — Tipo uma confraternização?

Exatamente, garotinho. — Lily bateu palmas, empolgada. — Eu cuido do vinho e da decoração. Gabriel cuida... de não transformar a água em vinho antes da hora.

Gabriel inspirou fundo, pedindo paciência a todos os santos, arcanjos e talvez até ao atendimento celestial.

— Lilithiel, o objetivo aqui é manter discrição. Não atrair atenção.

— E o que há de mais discreto do que um jantar entre vizinhos? — retrucou ela, com um falso ar de lógica. — Um toque de carisma, um pouquinho de lasanha e ninguém desconfia que o andar abriga um anjo e uma demônia.

Ethan arqueou a sobrancelha. — Espera, o quê?

Lily riu, balançando a cabeça. — Brincadeirinha, docinho.

Gabriel ficou ali, imóvel, olhando o caos recém-controlado e o rastro de caramelo que ela deixava por onde passava. Às vezes, se perguntava se a missão divina que lhe fora confiada realmente envolvia ajudar um garoto humano — ou se era, na verdade, um teste de paciência contra a própria tentação. Ele olhou para Ethan, que ainda segurava o pedaço de pizza meio mastigado.

— Eu… acho que ela acabou de te convidar pro jantar.

— É o que parece — respondeu o garoto, sorrindo. — Espero que ninguém morra.

Gabriel suspirou. — Também espero.

Ele ajeitou os óculos na ponte do nariz, pronto para finalmente encerrar o dia e fingir que nada absurdo tinha acontecido. Passou pela pequena sala, que estava muito bem ventilada, e olhou para a rua dali mesmo. O inverno estava chegando, a brisa já estava começando a ficar fria demais para suportar. Foi quando ouviu Ethan pigarrear atrás dele.

— Sr. Hughes… — começou o garoto, meio tímido.

Gabriel virou só o rosto, desconfiado. — Hm?

Ethan coçou a nuca, olhando para o chão como quem está prestes a dizer uma besteira monumental.

— O senhor acha que… eu poderia chamar a Lily pra sair?

Gabriel piscou. Primeiro, sem entender. Depois, entendendo demais. Silêncio. Um daqueles que até o universo respeita.

— Já que… vocês não têm nada, né? — completou Ethan, com um sorrisinho nervoso.

A temperatura do cômodo pareceu cair uns bons cinco graus, mesmo sem o menor sinal de milagre envolvido. Uma das luzes do teto piscou. O gato espirrou em slow motion. O relógio parou por um segundo — talvez por autopreservação.

Desculpe? — perguntou Gabriel, sorrindo de um jeito que não era nada celestial. Calmo demais.

— É só que ela é… simpática. — Ethan gesticulou, tentando consertar. — Bonita, engraçada… e tem um negócio meio… perigoso, sabe? Tipo, se o perigo tivesse um perfume caro.

Gabriel respirou fundo, tão fundo que parecia puxar o oxigênio do andar inteiro.

— Ela. É. Minha. Colega. De. Apartamento.

— Sim, sim, claro! — Ethan levantou as mãos. — Então… não vê problema se eu—

Um trovão ribombou lá fora. No meio de um céu absolutamente limpo.

Gabriel ergueu uma sobrancelha. — Acho que o tempo discordou de você.

Ethan deu uma risadinha tensa. — Haha… que coincidência, né? Mas o senhor acha que dá?

Gabriel piscou devagar, cruzou os braços e soltou um suspiro que parecia ter vindo direto do Antigo Testamento.

— Ethan…

— Senhor?

— Lilithiel não parece “curtir” garotos, Ethan — disse com a serenidade de um bispo prestes a excomungar alguém. — Tenta com outra pessoa.

O garoto piscou, confuso. — Tipo… ela é—

Outra pessoa, Ethan — repetiu o anjo, sorrindo tão angelicalmente que dava medo. — Boa noite.

Ethan recuou, tropeçando. — C-claro! Boa noite, Sr. Hughes!

Gabriel voltou para o apartamento em completo silêncio, Lily já estava no seu quarto assistindo aqueles reality shows que derretiam o cérebro. O anjo fechou a porta do seu quarto em silêncio, ficou parado, ouvindo a agitação mundana na rua abaixo. Sua escrivaninha estava cheia de papiros abertos, meio amontoados, porque ele estava prestes a começar a redigir os seus relatórios de campo.

— “Perfume caro”… — repetiu baixinho, franzindo o cenho. — Quem esse carinha pensa que é?

Ele passou a mão pelos cabelos castanhos, balançando a cabeça. Perfume. Ele nem fazia ideia. Se Ethan ao menos imaginasse o cheiro que Lily tinha quando estava em sua forma infernal, ele jamais iria querer convidá-la para sair. Mas porque Gabriel estava pensando naquilo mesmo? Cruzes!

— Certo. Dormir. Preciso dormir. Antes que eu comece a elogiar enxofre.

Pegou os papéis da mesa, mas acabou parando de novo, ouvindo o som distante da risada de Lily vindo do andar de cima — alta, leve, completamente fora de contexto com o caos que ela deixava para trás.

Gabriel olhou para o teto e soltou um suspiro cansado.

— É… definitivamente vai ser um longo dia amanhã.

Lá fora, um trovão distante respondeu, só para dramatizar.




Se havia uma coisa que Gabriel não gostava de fazer, essa coisa era fingir.

Era estranhamente constrangedor para ele fingir que não conhecia Lilithiel o suficiente para aturá-la daquela forma, tão de perto. Quero dizer, eles eram amigos, né? A gente não consegue descartar alguém e apagar suas memórias assim tão fácil. Mesmo que tivessem se passado muitos anos… muitos mesmo.

O anjo não sabia distinguir se era a forma como ela estava sempre pronta para retrucar suas frases ou se era aquele cabelo que quase nunca estava preso. Mas algo incomodava verdadeiramente o interior do querubim. Eu arrisco dizer que era a falsa lembrança do ser divino que ela já foi, mas não tenho muita certeza.

Em todo caso, nos dias que se sucederam àquele pequeno incidente no apartamento de Ethan, Gabriel se dedicou a uma coisa além de estudar para as suas aulas no dia seguinte: emitir seus relatórios de campo celestiais. O departamento exigia que toda atividade em campo fosse documentada, com riqueza de detalhes, especialmente com bastante ênfase nas ações da criatura demoníaca.

Não era tarefa fácil redigir os relatórios celestiais, de fato. Aquele era um dos departamentos mais chatos e criteriosos, tinham uma base de dados maior que a Biblioteca de Alexandria e seus funcionários eram tão insuportáveis quanto. Exigiam espaçamento, normas e primeira pessoa. E, acredite se quiser, enviavam uma devolutiva dizendo se o relatório estava dentro do esperado ou não.

Gabriel passava horas escrevendo aquelas coisas, era certinho demais para se deixar levar pelo descaso. Mas era difícil se concentrar. Deus, como era! A presença de Lilithiel era sempre massiva, até mesmo quando ela, aparentemente, não estava em casa. Gabriel sempre ficava desconfiado, usava seus dons para mapear o lugar e ver se ela estava o observando de forma oculta. Estava se tornando paranoico. E quando ela estava presente em matéria mesmo as coisas ficavam dez vezes pior.

— Gabriel, o que acha dos livros do Bukowski?

Perguntou ela, em uma noite daquelas. Já passavam das onze e nenhum dos dois tinha qualquer resquício de sono. Lilithiel estava com os cabelos soltos, ondas e ondas daquele fio dourado caindo por seus ombros e costas, segurando um livro de capa branca com letras vermelhas e pretas e usando nada mais que uma camisola de seda preta, que desenhava todo o seu corpo. Sem qualquer exceção. Gabriel estava mortificado, porque havia sido traído por seus próprios olhos.

Por Deus, o que ela estava tentando fazer? O querubim deu as costas para ela e continuou a mexer a panela que tinha sido comprada poucos dias antes. Uma panela de qualidade ruim fazia a comida grudar no fundo e deixava Gabriel nervoso. Mas, naquele instante, ela parecia ser o instrumento mais interessante do universo.

— Acho ele misógino e pervertido. Não é uma leitura agradável — ele disse, ainda de costas.

Lilithiel, que era muito boa com linguagem corporal, percebeu um pequeno lance de hesitação. Sabia que o tirava do eixo, porque ela era mesmo profissional naquilo. E, com o passar dos séculos, podia admitir que seu hobby favorito era deixar Gabriel sem jeito. A demônia, não se dando por vencida, jogou o livro longe, lá no sofá, e andou com passos lentos até ele. Gabriel retesou, ainda mexendo o molho pomodoro na panela como se ele fosse uma espécie de mantra.

— Engraçado — ela disse, os passos leves demais para serem sentidos pelo piso de tacos. — Porque eu o acho só… honesto. Brutalmente honesto.

— Honestidade não justifica degradação. — Gabriel permaneceu de costas, mas conseguia sentir cada centímetro da aproximação vinda dela.

— Claro que não. — Ela estava próxima demais agora. — Mas às vezes é bom ler algo que não tenta esconder o pior das pessoas.

Ele suspirou, mais pelos próprios pensamentos do que por qualquer coisa que ela dissesse.

— O pior das pessoas não é para ser celebrado.

— Ah, Gabe… — a voz dela saiu como um sussurro cansado, quase terno. — Você ainda acha que tudo pode ser purificado, né?

Era aquilo o que ela fazia. O que ela sempre fez. Desde que eles se conheceram. Lilithiel tinha aquela coisa que ele não sabia nomear direito, aquele toque de sutileza misturada com algo muito desenfreado. Sempre conseguia captar a atenção dele, mesmo no meio de um bilhão de outras pessoas.

Quando Gabriel finalmente se virou, farto de fingir que não se importava com toda aquela conversa categórica, olhou diretamente para ela. Tentou ignorar a camisola, o cheiro adocicado da baunilha que vinha dos cabelos e algo mais…

— Eu não desisti do mundo, Lilithiel.

— Mas e de mim? — Ela ergueu uma sobrancelha, a sombra de um meio sorriso querendo surgir no canto dos lábios.

Por um segundo, Gabriel não tinha a resposta na ponta da língua. O peso daquela pergunta pairou no ar e se misturou com o vapor do molho vermelho na panela. Seus olhos percorreram a face de Lily, mesmo que instintivamente, varrendo aquela expressão. Era uma mistura de avidez, provocação e algo que ela insistia em esconder atrás dos orbes cor de âmbar.

Gabriel já havia participado de guerras, comandado exércitos, pisado na cabeça de demônios, mas responder aquilo parecia ser difícil demais. Ele piscou devagar. Engoliu em seco. E, quando respondeu, sua voz saiu tão firme que ele se arrependeu.

— Nós dois fizemos escolhas, Lilithiel. Você não é uma vítima das suas.

Um pequeno sorriu nasceu nos lábios rosados dela, um sorriso meio torto, contrariado. Lilithiel era boa em esconder suas emoções, tinha participado de um simpósio do próprio Judas na Semana do Caos. Mas em seu interior algo estilhaçou mais uma vez. Era cruel até mesmo para ela esperar que Gabriel lhe desse uma afirmativa, mas, ainda assim, quis perguntar. Mas ele era ele. Perfeito demais, como sempre fora, e irredutível. Lily se sentia como uma criança tola.

— E você não é o herói das suas.

O silêncio os engoliu de novo. Gabriel virou-se para a panela novamente e a mexeu dedicadamente, como uma oração contra aquilo que estava acontecendo ali. Para mim, sua narradora neutra, aquela foi uma típica cena de novela. Era bem claro que havia mais a ser dito, e que havia muita expectativa de ambos, mas eles ainda eram eles. Duas cabeças duras demais. Uma pena mesmo.

— Vai querer jantar? — perguntou, por fim, frio.

Lilithiel soltou um suspiro. E, com uma leveza dolorosa, murmurou:

— Não. Já me alimentei o suficiente.

E saiu da cozinha com os passos leves de sempre, mas não antes de deixar os sentidos do querubim entorpecidos pelo cheiro doce e perturbador que exalava dela. Aquela pergunta voltaria a assombrá-lo, mais cedo ou mais tarde, ele sabia bem.

Gabriel comeu sozinho naquela noite. A massa caseira de macarrão havia ficado muito boa, mas o molho pomodoro estava amargo e ácido demais e ele achou melhor jogar a culpa na caçarola de qualidade inferior por aquilo. Comeu, comeu até que seu estômago humano não aguentou mais e, quando terminou, passou pela sala de estar, onde Lilithiel assistia um filme preto e branco. Silabou um “boa noite” e foi direto para o seu quarto, redigir seu relatório de campo.

No dia seguinte, o relatório celestial estava pronto e Lilithiel agia como se a conversa na cozinha tivesse sido apenas um sonho louco da mente de Gabriel. E quem sabe se não foi mesmo? Eles acordaram cedo, como adultos humanos funcionais faziam mesmo, vestiram suas roupas e se encontraram na mesa de jantar na sala para tomarem café antes de sair.
Gabriel, tenso como uma pedra, não arriscou dizer nada. Serviu as duas xícaras, colocou uma colher de açúcar a mais no café de Lilithiel e bebeu o seu em silêncio. Mas ela parecia mais disposta que qualquer pessoa a passar por cima daquela cena que aconteceu antes.
— Será que Ethan vai precisar de monitoramento hoje? — perguntou ela, enquanto segurava a xícara em uma mão e o celular na outra. Bebeu um pouco e percebeu que estava adocicado na medida certa.

— Fala como se ele fosse um presidiário. — Gabriel balançou a cabeça, o peso do braço pendendo sob o cotovelo. Estava impecável com sua roupa de professor universitário. — Fiz um mapeamento da aura dele hoje, não me parece que exista um perigo real além de uma intoxicação pelo uso de produtos químicos misturados.

Lily ergueu a sobrancelha, pasma. — Esse é um risco bem alto. Ele vai morrer sufocado enquanto lava um banheiro hoje?

— Não. Porque eu vou impedir — respondeu, convicto, com aquela pose de responsável.

Lilithiel precisou desviar o olhar. — Ah, legal! Vou fazer a seleção da minha nova secretária hoje.

— Pro seu consultório? — O anjo parecia genuinamente surpreso.

— Sim. Por alguma razão, as pessoas gostam da forma que eu abordo seus dilemas. Estão voltando aos montes e me indicando. Minha agenda tá uma loucura. — Ela mostrou o calendário na tela do seu iPhone, todo pintado com várias cores. — Para manter a organização, abri uma seleção no Linkedin.

— Linkedin?

— É onde os humanos normais procuram empregos. — Ela revirou os olhos.

— Ah… — Ele terminou seu café e olhou o relógio de pulso. — E quanto ao jantar de boas-vindas que prometeu?

— Merda, achei que você fosse esquecer. — Ela fez muxoxo.

Gabriel se levantou, recolheu as duas xícaras e levou para a cozinha. Quando voltou, pegou seu casaco que estava suspenso atrás da porta de entrada e o vestiu. Abotoou os botões calmamente enquanto Lilithiel tropeçava nos saltos Louboutin de bico fino. Aquele salto poderia servir como uma arma, se houvesse necessidade.

— Você prometeu — ele lembrou.

— Você confia mesmo em mim para alimentar humanos? — Ela suspirou teatralmente.

— Não. Mas vou estar supervisionando. — Aquela frase arrancou uma risada sincera da demônia. — O que foi?

— Me supervisionar? Acha que eu sou o quê? Sua esposa? — Ela limpou o canto dos olhos. — Eu não vou ficar na cozinha gastando minhas horas só pra te agradar. Deveria saber disso.

— E o que isso tem a ver? — ele perguntou, sem entender a risada. Lilithiel não respondeu, estava ocupada demais passando batom. — Tudo bem, eu cozinho.

— Tá bom. Lista de tarefas: eu fico com a decoração, os convites, a trilha sonora e o vinho. Você fica com a comida.

Caminharam até a porta juntos, como faziam todas as manhãs. Gabriel trancou a porta do apartamento e encarou os sapatos lustrosos e, sem querer, reparou no tapete horrendo que Lily havia comprado e colocado ali. Era marrom e tinha um gato preto vestido de fantasma e a frase enorme, totalmente sem graça: “Residência com altos níveis de atividade paramiau”. Feio, para dizer o mínimo, mas estranhamente fofo.

— Boa sorte na sua seleção — ele disse quando chamou o elevador.

— Eu não acredito em sorte. Vou selecionar o menos pior — a loira disse, completamente blasé.


O consultório de Lilithiel estava mais perfumado que de costume naquela manhã. Uma mistura planejada e perfeitamente equilibrada de jasmim, baunilha e ambroxan que preenchia o ar com uma assinatura invisível. Gritava “caro” com bastante sutileza, era cheiro de loja de grife. Havia sido ideia de Jasper, seu funcionário temporário, claro. Ele era absolutamente formidável, com um senso de moda e estilo invejável. Lily pensou ter encontrado o secretário perfeito quando o viu… antes de perceber que os brincos, anéis e colares que ela esquecia nas gavetas de sua mesa sumiam assim que seu turno acabava. Jasper usava um sotaque francês enferrujado, ele não era francês… Mas tentava parecer que sim.

Ela estava sentada em uma das suas poltronas, que ficava de frente para o sofá com almofadas, com as pernas cruzadas e um iPad de última geração equilibrado sobre o joelho. Vestia um blazer de alfaiataria preto, cabelo meio preso com alguns fios caindo propositalmente, e seu par de saltos agulha So Kate da Louboutin.

Sobre a mesinha do lado, repousava um copo de água com gás com uma rodelinha de limão, só para manter as aparências, um cristal em forma de pirâmide e um bloquinho com a frase “Psicologia não cura demônios, mas ajuda a identificar os que você tem”. Ela suspirou de leve e se esticou para acionar o botão que tocava a campainha da sala de espera.

— Pode chamar a primeira, Jasper.

Lily suspirou. Havia algumas pessoas na lista para as entrevistas e, olhando de relance pelas fichas, nenhuma alma ali parecia ser suficientemente desequilibrada e nem interessante o suficiente para aguentar o seu dia a dia.

A porta se abriu com um clique suave e entrou a primeira candidata: Tâmmara, com acento e com dois emes. Ela usava um macacão verde-menta e tinha olhos excessivamente abertos. Tinha um cristal como pingente de colar repousando entre os seios fartos e uma energia que gritava “influencer espiritual”. Lilithiel esboçou um sorrisinho de lado, gostava daquele tipo.

— Boa tarde, doutora! Que atmosfera etérea que o seu consultório tem — disse Tâmmara, entrando como um raio de sol de farmácia.

— Você veio para a vaga de secretária ou para fazer uma leitura de aura? — Lilithiel perguntou, sem levantar os olhos.

— Os dois, se o destino quiser.

— Tâmmara com dois emes. Você mencionou na sua carta de apresentação que sabe lidar com "fluxos energéticos complexos". Pode me dar um exemplo mais... tangível?

— Claro! Uma vez organizei um retiro em Búzios com 47 mulheres num momento de alinhamento cármico. Fiz a mediação dos egos com mandalas de papel semente.

Lilithiel piscou devagar, esperando que aquilo fosse uma brincadeirinha de alguém do Inferno.

— Entendo. E qual foi seu papel prático nisso?

— Eu era a facilitadora da escuta intuitiva e também levei castanhas.

— Obrigada, Tâmmara. Vamos entrar em contato.

Lilithiel odiava aspirantes a cartomantes. Aquela raça já havia sido dizimada fazia muitos anos e qualquer coisa que surgisse depois das fogueiras de Salém era facilmente questionável. Não queria uma pessoa que fizesse uma tiragem de tarot para os seus pacientes, eles já tinham abobrinhas demais naquelas cabeças. A demônia, então, riscou o nome de Tâmmara da lista. Tudo bem, porque ela também havia odiado aquele nome.
Segunda candidata: Sílvia, ex-freira. Entrou com um terninho bege e uma bolsinha de crochê. Tinha uma cruz no pescoço e um sorriso sereno.

— Sabe… eu larguei a vida religiosa pra encontrar um propósito mais aberto.

— Você sabe onde está? — perguntou Lily, semicerrando os olhos.

— Em um consultório onde ajudam almas perdidas?

— Sim. Mas eu sou uma delas. Pode me falar um pouco da sua experiência?

— Claro. Passei vinte anos em um convento antes de decidir me reconectar com o mundo. Sinto que posso ajudar a humanidade de formas mais... horizontais.

— Hm. E você lida bem com assuntos delicados? Tipo compulsão sexual, pactos existenciais e traumas de outras vidas?

— Eu tenho fé.

— Uma pena. Aqui a gente trabalha com faturas e papeladas.

Com um suspiro de alívio, Lily riscou o nome de Sílvia. Terceira candidata: Mônica, virginiana e metódica. Vestia uma blusa cinza, saia midi, e trazia um fichário.

— Doutora Lilithiel, prazer. Aqui estão minhas referências, minhas planilhas modelo e uma sugestão de otimização do seu agendamento.

Lilithiel olhou o fichário como se fosse um cardápio de comida sem pimenta.

— Você parece eficaz. Gosta de lidar com humanos instáveis?

— Amo rotinas com margem de adaptação.

— Tem alergia a gatos?

— Tenho alergia a bagunça.

Lilithiel riu pela primeira vez.

— Você é perigosa, Mônica. Gosto disso.

Quarta candidata: Bianca, a gótica sensitiva. Tatuagens discretas, delineado afiado, bolsa com adesivo "Witch, please".

— Eu adoro ambientes minimalistas com toque de ocultismo contemporâneo.

— Fala mais.

— Tenho experiência em agenda digital, edição de áudio para podcast e sou sensitiva. Sinto presenças.

Lily inclinou a cabeça.

— Tipo agora?

— Sim. Você está… carregada.

Lily sorriu com malícia.

— Fofo. E você tem como lidar com uma poltergeist, demônios e entidades não catalogadas?

— Adoraria presenciar algo assim.

— Amei. Está na pré-lista.

Depois de entrevistar oito — não, nove — candidatas, rejeitar cinco de imediato e aceitar uma por falta de uma opção menos irritante, Lilithiel saiu do consultório exausta e estupidamente atrasada.

O jantar que prometera a Gabriel já batia na porta do inferno da sua memória, martelando como um lembrete malcriado. O relógio, impiedoso como sempre, informava que ela tinha menos de duas horas para transformar um apartamento que parecia ter sido atingido por um feitiço de caos doméstico em algo minimamente apresentável.

E foi assim, carregando quatro sacolas de artigos de decoração duvidosa, uma de vinho de origem suspeita, uma playlist chamada “Girly Girl 2000’s” e um humor impróprio até para horários demoníacos, que Lilithiel voltou para casa pronta para cumprir a promessa que fez, e talvez (só talvez) cutucar Gabriel mais uma vez onde doía.

Tcharam! — anunciou, jogando as sacolas sobre o sofá. — Trago vinho, iluminação temática e um sensor de presença que toca jazz quando alguém entra pela porta. — Pausa dramática. — Eu me supero.

Gabriel ergueu os olhos do livro de receitas.

— Sensor de presença? Você quer assustar os convidados?

— Claro que não. Quero encantá-los com sofisticação e um toque de absurdo. Você devia experimentar.

O querubim bufou, mas havia um princípio de riso no canto da sua boca. A presença dela, como sempre, era uma tempestade de calor e caos em sua atmosfera totalmente ordenada.

— Alguma chance de você ter trazido ingredientes também?

— Não. Eu sou a parte criativa da dupla, lembra? — Ela começou a espalhar as velas pela sala com movimentos quase coreografados. — Você é o executor. O trabalhador. O… mártir do fogão.

— Que honra — murmurou ele, sarcástico, fechando o livro e se levantando. — Bom, vou começar. Vai ser massa com molho branco, cogumelos e peito de frango marinado. E você não tem permissão para interferir. Nem um temperinho “do além”. Estou de olho.

Lilithiel gargalhou enquanto usava o encanto para decorar a sala com um estalar de dedos. Aquela era a parte boa de ter poderes sobrenaturais, era delicioso poder lidar com essas pequenas ocasiões com um simples piscar de olhos. A demônia conectou o celular à caixa de som que estava na mesinha de centro e logo uma nota melancólica de guitarra surgiu e começou a preencher o ambiente. One of These Nights do Eagles, uma boa escolha. A cara dela.

Pegou as sacolas e foi até a cozinha, onde, de junto dos vinhos, tirou um avental verde que tinha escrito com letras brancas “Bless this mess”. Em defesa de Lily, aquele avental era uma graça e era super a cara do querubim, ela não poderia perder a oportunidade de levá-lo para casa. Ela se aproximou dele, se escorando na bancada e o observou.

— Você está nervoso.

— Eu estou cozinhando.

— Nervoso — ela repetiu, sorrindo. — Por que será? Não é por causa do jantar. Nem dos convidados. É… por mim?

— Você está sendo inconveniente.

Lily se posicionou atrás dele, o vestindo com o avental e dando um laço. Ela sentiu o corpo de Gabriel sacudir, como se estivesse tremendo por um segundo.

— Posso cheirar ansiedade como se fosse Chanel nº 5.

Gabriel cortava os cogumelos com precisão quase ritualística. Não respondeu. O silêncio era sua trincheira. Mas Lilithiel sabia invadir trincheiras como ninguém. Aquela era a parte divertida de ser uma criatura das trevas: ela podia jogar a culpa da sua falta de vergonha nas forças malignas, mesmo que, naquele momento, fosse apenas ela e sua vontade de deixar Gabriel sem jeito.

— Sabe — continuou ela, encostando o quadril na bancada ao lado dele —, sempre achei sensual essa coisa estoica sua. Você parece que está sempre prestes a explodir de contenção.

— E você parece sempre prestes a explodir. Ponto — disse ele, sem olhar.
Ela sorriu. — Verdade. Mas ao menos estou viva. Você, às vezes, parece mais morto do que os mortos.

— Lilithiel, por favor. Só hoje… se comporte. Só um pouco. — Ele largou a faca durante o pedido.

Aqueles malditos olhos azuis cristalinos sempre foram uma espécie de kriptonita para Lilithiel. Ela simplesmente não conseguia resistir àquela súplica velada, as sobrancelhas quase se juntando e a voz quase rouca demais. Diabo! De repente, a boca de Lily ficou seca demais.

— Não faço promessas que não posso cumprir. Mas posso tentar fingir que sou uma pessoa funcional. Por duas horas. Uma hora e meia, vai.

— Trinta minutos já seria milagre — ele resmungou.

— Tudo bem, anjinho. Tenho certeza de que nossos convidados chegarão em breve, coloquei no convite às oito. — Ela olhou a tela do celular. — Precisa de ajuda com a massa?

— Vá escolher sua roupa. Você tem menos de uma hora para se tornar apresentável e só uma chance de não me envergonhar.

— Ah, meu anjo… você ainda se importa com o que os outros pensam?

— Eu sou literalmente obrigado a isso. Parte do contrato celestial.

Ela saiu dançando em direção ao quarto, deixando um rastro de baunilha e ironia no ar. Gabriel a observou por um instante, depois voltou ao molho que preparava com uma concentração quase devocional.

Alguns minutos depois, ela gritou do quarto:

— Gabriel! Tem preferência entre vestido vermelho ou azul meia-noite?

— Você tem preferência entre provocar e provocar mais?

— Azul meia-noite, então. É menos escandaloso.

Às sete e cinquenta e dois, a campainha tocou pela primeira vez.

Hora do espetáculo — murmurou Lilithiel, bebendo o último gole da taça antes de caminhar até a porta com seu andar de passarela blasé.

Era Ethan, o vizinho de porta, com um moletom vermelho, o tênis surrado de sempre e uma garrafa de refrigerante artesanal que parecia ter sido feita por um alquimista de feira orgânica. O estômago de Lilithiel se embrulhou na mesma hora.

— Trouxe isso. É de hibisco com cúrcuma, gengibre e própolis. — Entregou a garrafa como se fosse um Dom Pérignon vintage e a expressão de quem realmente acredita que aquela coisa fazia bem. — Dizem que faz muito bem para a digestão.

— Fascinante. — Lilithiel sorriu amarelo. — Gabriel vai amar.

Lá do fundo, Gabriel respondeu sem virar:

— Não vou, não.

Ethan entrou, olhou ao redor e assobiou.

— Nossa, vocês capricharam. Achei que ia ser só vinho e salgadinho esotérico.

— Você confundiu com os jantares da galera do sexto andar. Aqui temos massa artesanal e sarcasmo à la carte — disse Lilithiel, guiando-o para a sala.

Poucos minutos depois, a campainha tocou novamente. Era a família Thorne.

Amélia chegou equilibrando uma torta de limão perfeitamente montada. Lucas segurava os casacos e parecia cansado só de existir. Lindsay e Stevie, os gêmeos de sete anos, invadiram o hall como se estivessem em uma missão secreta da CIA.

— Boa noite! — Amelia disse com um sorriso de livro de receitas. — A casa de vocês está linda!

— Não é? Ainda estou ajustando, mas acho que está ficando muito bom mesmo. — Lilithiel piscou, pegando a torta com as duas mãos. — Podem entrar. Gabriel está terminando o molho.

Stevie correu direto para a mesa de jantar. Lindsay foi atrás de Lilithiel, encantada.

— Você tem cheiro de fada.

— Que bom que não é cheiro de bruxa, já é um avanço — respondeu Lily, sorrindo. Gostava de crianças, lhe fazia lembrar os velhos tempos.

Por fim, às oito e nove, a campainha tocou pela última vez. Lilithiel abriu a porta e lá estava ele: Sr. Armstrong, com sua boina xadrez, suéter bege e passos cuidadosos. Carregava uma pequena caixa metálica com biscoitos amanteigados e os olhos vagos de quem já viveu tempo demais.

— Boa noite, minha flor. Espero que não esteja tão tarde assim. Fiquei olhando pro relógio, achando que já tinha perdido a hora…

— O senhor está bem no horário! Vem cá, entre, tá frio lá fora.

Ele entrou devagar, os olhos explorando o ambiente com uma ternura quase infantil.

— Você e seu namorado grandalhão são muito simpáticos. Aposto que logo, logo terão seus pequenos clones pelos corredores.

Lilithiel soltou uma gargalhada sincera, tão despretensiosa que fez Gabriel erguer os olhos da panela. Eram duas suposições bem ousadas, para falar a verdade. Ela e Gabriel namorando? Nem nos sonhos mais loucos e, partindo desse viés, a ideia de bebês se tornava mais distante ainda. Pobre Sr. Armstrong, não sabia de nada mesmo. Lily entrou na onda do velho ancião:

— A gente ainda está treinando com plantas — disse, segurando o braço dele para guiá-lo até o sofá. — Um passo de cada vez.

Quando voltou para a cozinha, cruzou com Gabriel, que observava Armstrong à distância. Seus olhos brilharam por um segundo, como se examinassem algo além da matéria. Lily não gostava daquele olhar.

— Gabe — ela sussurrou, inclinando-se levemente. — Acho que ele tá meio esquecidinho…

Gabriel soltou um suspiro silencioso, e apenas disse:

— Alzheimer.

Lilithiel sentiu. Não era empatia, porque aquele traço já havia desaparecido séculos atrás. Era outra coisa. Um afundamento súbito, como se o tempo parasse e algo quebrasse dentro dela. Deveria ser a memória muscular do seu próprio coração se encarregando de não a fazer esquecer que quem se apega sofre. Ela se aproximou de Armstrong novamente, sentando-se ao lado dele.

— Morava aqui antes da reforma?

— Ah, sim. Desde antes de tudo virar esse... esse prédio moderno cheio de botão. Tinha uma padaria na esquina, sabe? Vendiam pão de verdade. E a minha filha… ela era parecida com você. Ria como você. Não tanto, claro. Mas os olhos... acho que eram iguais.

Lilithiel tocou levemente a mão dele.

— O senhor é muito gentil. Mas ela deve ter sido bem mais bonita.

— Duvido. Você tem nome de flor? Ou de anjo?

— Um pouco dos dois. — Ela sorriu. Dessa vez, sem cinismo.

A mesa estava cheia. Não só no sentido decorativo e simbólico, estava cheia mesmo. Pratos, travessas, garrafas, uma tigela com algo que Ethan chamou de “molho pesto caseiro”, que ninguém teve coragem de provar realmente. Copos e taças de cristais, uma vela inclinada que insistia em pingar cera no guardanapo de pano que Lilithiel dobrara com encanto artesanal.

Cada assento ocupado contava uma história. Algumas hilárias. Outras levemente trágicas. E pelo menos duas delas envolviam cogumelos que Gabriel havia escolhido pessoalmente em uma feira biológica onde teve que, segundo ele, “lidar com humanos demais por tempo demais”. O jantar estava em andamento há uns vinte minutos quando o caos assumiu seu lugar à cabeceira da mesa.

— Então, você acredita que o livre-arbítrio é real? — Ethan perguntou, equilibrando um pedaço de frango no garfo e olhando fixamente para Gabriel como se estivesse em um seminário de metafísica.

Gabriel, mastigando com lentidão calculada, demorou a responder. Estava entre engolir a comida e a vontade de levantar-se da mesa.

— Acredito que a consciência humana é condicionada por variáveis demais para ser chamada de livre. Mas, sim, tecnicamente, ela ainda pode escolher.

— Tipo aquele experimento do Benjamin Libet? — Ethan gesticulava com o garfo, feliz da vida por finalmente falar sobre algo além de chakras.

— Tipo isso — respondeu Gabriel, com a paciência de um anjo, literalmente. — Mas o experimento foi reinterpretado. O ponto é que a antecipação neural não anula o livre-arbítrio, apenas complica o conceito de intenção.

— O senhor fica muito intelectual quando usa termos técnicos e fala com propriedade sobre filosofia. Tenho certeza de que foi isso que conquistou a Lily, hum? — Ethan piscou, maravilhado.

Lilithiel quase engasgou com o vinho. Gabriel tossiu. Amelia soltou um “perdão?” automático, enquanto Lucas tentava separar os gêmeos Lindsay e Stevie, que agora brigavam por um queijo ralado.

— Stevie, você pegou mais que eu! Eu contei! — Lindsay acusava com o dedo sujo de molho.

— Você contou errado, sua doida! — Stevie rebateu, lançando um olhar que prometia guerra.

A cabeça de Lily parecia que iria explodir a qualquer momento. Aquilo era caos demais, até mesmo para ela. O que eles podiam esperar de duas crianças, gêmeas, que carregavam os nomes dos músicos mais encrenqueiros dos anos 70, onde Amélia e Lucas estavam com a cabeça? Fleetwood Mac é uma maldição. Lilithiel, com um controle emocional invejável, se levantou e serviu mais queijo para os dois com um sorriso de Miss Simpatia do Submundo. Já estava farta, o tempo de bom comportamento que havia prometido a Gabriel já estava se esgotando.

— Stevie, tenho certeza de que você pegou mais que sua irmã — ela disse, com a voz baixa.

— Não peguei nada! — o rapazinho disse e deu língua para Lily.

Foi a gota d’água. Desde que chegaram, a demônia percebeu que era ele quem causou todo o estardalhaço, puxando o cabelo da irmã e fazendo provocações. Lily se pôs entre Stevie e Lindsay e fez contato visual com ele. Usou o encanto só para ele, de uma forma bem especial. Seu rosto se transformou no rosto de uma besta, mas sem chifres para não o deixar tão traumatizado.

— Agora deixe sua irmã em paz, sim? — disse docemente.

— Você é uma fada de verdade? — Lindsay perguntou, encantada, quando viu seu irmão sair correndo.

— Às vezes, querida. Às vezes, só uma mulher de salto alto tentando manter a compostura.

O jantar seguiu uma coreografia desengonçada de pratos passando de mão em mão, crianças comendo com os dedos, Lucas cochichando no ouvido de Amélia sobre o quanto precisava malhar, e Ethan explicando que alinhou seu chakras com uma caminhada ao pico da montanha no norte da cidade.

O Sr. Armstrong dormia profundamente no sofá, com um leve ronco ritmado. Lilithiel havia coberto seus ombros com uma manta, e agora o observava de longe, entre um gole e outro de vinho.

Aquela era uma noite improvável. Um jantar improvável. Mas, de algum jeito, tinha funcionado. E isso, para Gabriel, já era um evento digno de documentação celestial.
Quando a porta finalmente se fechou, ficou o silêncio. Um silêncio bom, mas cheio. Como o ar de uma igreja vazia depois de um casamento. Ou um campo de batalha depois de um armistício cordial.

Lilithiel tirou os sapatos, os largando perto da parede. Estalou os dedos e começou a levitar os pratos sujos da mesa para a pia com elegância preguiçosa. Gabriel recolhia as taças uma a uma, lavando-as à mão, porque dizia que “nem todo milagre é digno de feitiçaria”.

— Poderia ser pior — ela disse, apoiando-se no balcão, os cabelos agora soltos e um leve borrão de maquiagem nos olhos. — Stevie poderia ter invocado uma entidade com aquele tanto de açúcar.

— Ou Ethan poderia ter te pedido em casamento no meio do prato principal.

— Seria difícil dizer não. Aquele refrigerante era afrodisíaco, segundo ele. — Lily deu uma risada.

— Aquele pervertido. — Gabriel fechou a torneira. — E a propósito, obrigado por não causar um colapso interdimensional essa noite.

— Quem disse que não causei? — Ela piscou. — Pode demorar para se manifestar.

Um silêncio leve se instalou. Lilithiel se afastou do balcão e caminhou até a janela da sala, observando as luzes do outro lado da rua. O reflexo dela se misturava ao da cidade.

— Ele gostou da comida — disse Lily, referindo-se a Armstrong.

— Ele provavelmente nem vai lembrar — respondeu Gabriel, enxaguando um garfo.

— Mas enquanto esteve aqui, ele se sentiu em casa. Isso não é pouco.

Gabriel assentiu, sem palavras. Apenas lavou mais um prato. Lilithiel encostou a taça na bancada e olhou para ele, um pouco de vinho ainda nos olhos.

— Sabe, Gabe... você não é tão chato quanto finge ser.

— E você não é tão insuportável quanto insiste em parecer.

— Não me elogie. Vai estragar tudo. — Ela sorriu.

Ele devolveu o sorriso, leve. Foi só isso. Nada mais precisava ser dito. Cada um foi para o seu quarto em silêncio. O apartamento cheirava a alho, vinho e um pouco de humanidade. Lilithiel apagou as luzes da sala com um estalar de dedos, olhou para o corredor onde Gabriel havia sumido e murmurou:

— Boa noite, anjo.


E fechou a porta.




PARIS, FRANÇA
DIAS ATUAIS


Gabriel era um grande apreciador da dinâmica em grupo.

Gostava da sensação de pertencimento, de fazer parte de algo. Se deleitava com a dinâmica dos céus, era participante ativo de simpósios, gincanas, cultos e tudo o que envolvia o calor vibrante da coletividade angelical sendo movida com um único propósito. Mas nada, absolutamente nada, fazia com que o arcanjo se acostumasse com os almoços rotineiros com seus irmãos mais velhos.

Era uma tradição que perdurava por milênios, senão mais. Mas Gabriel, sendo o irmão mais novo, sempre tinha a sensação de que algo inédito ia acontecer. Não dava para dizer que não dava, muito menos usar a desculpa de falta de tempo, porque os outros irmãos literalmente paravam os relógios do mundo inteiro só para passarem uma ou duas horas comendo bifes superfaturados.

O celular de Gabriel havia apitado na manhã do dia seguinte com uma enxurrada de mensagens no grupo dos irmãos. Que, para sua defesa, tinha sido ideia de Uriel para manter a comunicação mais ativa e fácil.

5 novas mensagens de “santíssimos”:

Rafael: Tudo bem pra vocês uma reserva no L’Ambroisie?

Miguel: Odeio comida japonesa

Uriel: Três estrelas Michelin? Eu topo!

Rafael: Servem diversos pratos lá, tem um cardápio bem amplo. E eu preciso estar em Paris depois das 16hras.

Uriel: @Gabriel tudo bem por você, mano?

Gabriel não respondeu; mesmo se dissesse que não, teria que ir. Seus irmãos mais velhos eram irredutíveis. Havia algo profundamente desestabilizador na combinação dos três. Não importava o refinamento do restaurante escolhido, fosse ele celestial ou não, o encontro deles sempre beirava o caos. Era como reunir três forças da natureza e um Gabriel tentando manter a compostura.

Ele chegou por último. Como sempre. Podia alegar acaso, trânsito em corredores dimensionais ou até um súbito chamado da missão, mas a verdade era bem mais banal: Gabriel precisava de uns minutos extras de preparo emocional. Enfrentar os outros três exigia uma espécie de armadura espiritual que o protocolo celestial não fornecia.

Cada um de seus irmãos era um arquétipo. E todos, ao seu modo, o desconcertavam.

Rafael, o primogênito, era o pilar. Alto, largo de ombros, impenetravelmente calmo. Tinha olhos como lagoas em dias sem vento e um tom de voz que poderia convencer até um arcanjo rebelde a pedir desculpas. Gabriel se espelhava nele, às vezes sem querer. Imitava seus gestos quando precisava parecer inabalável. Odiava admitir isso, especialmente porque Rafael sempre percebia.

Miguel, por outro lado, parecia ter sido esculpido em pedra de batalha. Seu corpo não cabia direito nas roupas — ui! — e seu semblante era o de alguém que sempre ouvia um rugido distante. Ainda assim, havia uma delicadeza escondida nos gestos, uma serenidade que só quem lutou demais pode cultivar. Quando Miguel falava, era importante ouvir. Quando ele silenciava, era crucial prestar atenção.

E então havia Uriel. O caos encarnado.

Tecnicamente, o anjo da sabedoria e da iluminação. Na prática, um espelho distorcido onde a verdade dançava nua e zombava de quem ousasse olhá-la de frente. Uriel era provocador, imprevisível, brilhante e um tormento para qualquer ser que quisesse viver uma vida linear. Gabriel nunca soube se Uriel estava rindo com ele ou dele. E suspeitava que, na maioria das vezes, nem o próprio Uriel sabia.

Juntos, eram os quatro pilares. Separados, já eram ameaça suficientes para dobrar reinos celestes. Mas juntos, à mesa... eram apenas irmãos. O que, convenhamos, era ainda mais perigoso.

Gabriel empurrou a porta do L’Ambroisie, recebeu um cumprimento reverente do maître, que era um humano com uma formalidade invejável, e atravessou o salão com um andar firme de quem sabe que está atrasado demais para disfarçar. O ambiente era elegante, cheio de luzes douradas, taças tintilando e uma música ambiente que soava, ironicamente, como um coral celestial versão jazz.

O querubim olhou ao redor, observando grupos e mais grupos de pessoas dispersados pelas mesas. Alguns anjos que ele conhecia das divisões celestiais lhe acenavam com a cabeça e um pequeno sorriso. Todos pareciam adaptados à vida terrena. Um usava um Patek Philippe de ouro. Outros discutiam investimento em criptomoedas. Um terceiro grupo, um pouco mais distante, falava animado sobre como “aplicar fé em startups”.

— A humanidade está indo pro brejo. — Gabriel ouviu a voz de Uriel, que pegava um pedaço de queijo na bandeja. — Sinceramente, acho que o Inferno é aqui mesmo.

— Amém — respondeu Miguel, ironicamente. Foi o primeiro a notar a chegada de Gabriel. — O último dos arcanjos entre nós!

— Pontual como a queda da noite — completou Uriel, sem levantar os olhos da taça. — Só que com menos charme.

Rafael apenas olhou para ele, com aquele olhar de irmão mais velho preocupado, depois para o seu relógio de pulso e soltou um riso anasalado.

— Ainda estamos dentro do intervalo da tolerância divina. Seja bem-vindo, irmão.

Gabriel se sentou, entre Rafael e Miguel, tentando com todas as suas forças parecer indiferente. Falhou. Ajeitava o colarinho da camisa social a cada cinco minutos, engolia em seco e olhava para os lados. Sua confiança de arcanjo evaporava quando estava perto dos irmãos, porque sabia que uma hora ou outra seria alvo de piadinhas e comentários desagradáveis.

— Você está nervoso por quê? — Uriel perguntou, já revirando os olhos.

— Eu não estou nervoso — retrucou Gabriel, passando os olhos pelo cardápio com um milhão de opções.

— Aham…

— A propósito, é bom ver vocês. — Gabriel deu um sorriso.

— Almoço celestial. Quase um culto. — Uriel estendeu a taça. — Vamos brindar ao irmão mais novo que carrega o peso da redenção nas costas... e o da negação nos olhos.

— Uriel — disse Rafael, em tom de advertência suave. — Vamos manter o tom elevado. Por cinco minutos. Depois você pode voltar a ser insuportável.

O quê? Eu só disse que o menino tá negando. E tá mesmo. — Ele olhou para Gabriel com aquele olhar de quem vasculhava a alma por esporte. — Ela riu duas vezes, não foi?

Gabriel congelou. Claro. Como ele não tinha pensado na hipótese de que seus irmãos estariam vasculhando seus relatórios? Soava inocente demais até mesmo para ele. Miguel olhou para o lado, em direção a Rafael, e o mais velho soltou um suspiro resignado. O sorriso que brincava nos lábios de Uriel era obra do próprio Satã, Gabriel tinha certeza, só não podia provar.

— Eu sabia que tinha acertado — o irmão do meio disse, zombando.

Rafael estalou os dedos. Um pergaminho apareceu com um estalo discreto, flutuando à frente da mesa. Letras douradas, ainda frescas, desenhavam-se em linhas com a precisão de registros eternos. Gabriel sentiu que seu coração ia explodir dentro do peito. Aquilo era tortura.

— Gabriel. Só por formalidade... podemos ler o trecho final do seu último relatório? — Rafael perguntou, como se a resposta dele valesse alguma coisa.

— Irmão, por favor… — o mais novo suplicou, franzindo a testa.

— É só uma frase. Prometo — garantiu o irmão mais velho, com uma expressão tranquilamente implacável.

E leu.

A Lily riu duas vezes hoje. Isso precisa acabar logo.

O silêncio engoliu a mesa. Gabriel podia jurar que Rafael tinha usado seus poderes para parar o tempo, não seria uma coisa incomum. O mais novo esfregou a palma das mãos no tecido da calça jeans em um ato nervoso, já não tinha mais por que fingir que não estava nervoso. Ele estava… muito. A ideia de comparecer àquele almoço tinha sido terrível!

Uriel levou a mão à boca e abaixou o olhar, claramente se divertindo demais com tudo aquilo. Miguel manteve sua atenção nos petiscos de entrada e se absteve a dar uma leve batidinha no ombro do irmão mais novo, como se dissesse “agora já era”.

Isso precisa acabar logo — repetiu Uriel, dramatizando. — Parece bilhete de viciado em crack.

— Isso não é o que parece — disse Gabriel, um pouco mais seco. — Não estou... envolvido.

— Gabriel — disse Miguel. — A gente sabe. Mas você não precisa mentir pra você.

— Eu não tô mentindo — respondeu ele, agora um pouco mais baixo. — E vocês sabem o quê? Não tem nada de errado.

O silêncio de Rafael estava começando a tirar Gabriel do sério. Onde estava a língua do irmão mais velho quando ele mais precisava?

— E como vai sua parceira de missão? — Rafael falou, finalmente.

Gabriel nem levantou os olhos do menu.

— Profissional.

— Ah, claro — disse Uriel. — Porque quando um ex-crush angelical é reencarnado em um corpo novo e um humor devastador, a primeira palavra que vem à cabeça é profissional.

— Eu não tinha um crush nela! — Gabriel disse entredentes, irritado demais, o maxilar já travando.

— Tinha sim — Uriel respondeu, calmo demais para quem estava prestes a invocar o caos. — E quer saber? Dá pra ver daqui.

Antes que alguém o impedisse, ele estalou os dedos. Um sopro de luz dourada escapou do ar, girando sobre a mesa e se condensando em uma pequena nuvem translúcida. A bruma flutuou acima das taças, ganhando forma rápido demais. Primeiro, um par de asas suaves. Depois, um corpo elegante, envolto em algo que lembrava um jaleco celestial. Por fim, o cabelo… aquele emaranhado de cachos indisciplinados que se moviam como se tivessem vontade própria.

A miniatura de Lilithiel pairava sobre o centro da mesa, rindo silenciosamente, a boca se curvando com o mesmo deboche perfeitamente memorizado.

Miguel suspirou. — Uriel…

— Olha só pra isso. — O anjo do caos apoiou o queixo na mão, admirando sua própria obra. — Ela era tão fofinha quando era anjo.

Rafael levou uma das mãos à testa, como se a paciência estivesse sendo descontada dos créditos eternos.

— Uriel, estamos em público.

— Relaxa, ninguém aqui é inocente — Uriel respondeu, divertido, enquanto a nuvem-Lilithiel se inclinava para o lado e piscava para Gabriel.

Foi a gota d’água.

Em um movimento rápido, Gabriel cortou o ar com a palma da mão, e a nuvem se desfez em um estalo seco, dissolvendo-se em pequenos brilhos que se apagaram no ar. As pessoas das mesas próximas olharam, confusas, mas Rafael fez um gesto discreto e, em um piscar de olhos, todos voltaram à conversa como se nada tivesse acontecido.

Gabriel encostou-se na cadeira, tenso. — Isso foi infantil até pra você.

Uriel deu um gole na água. — E, ainda assim, funcionou. Você ficou vermelho.

— Eu não fico vermelho.

— Claro, os arcanjos só “manifestam auréola de raiva”.

A narradora, se fosse fofoqueira (e é), diria que Uriel raramente errava o alvo.

— É sério. Estamos fazendo progresso. Ela está abrindo espaço para a instrução. Aos poucos.

— E quanto aos risos? — Miguel perguntou, com um meio sorriso.

— Um. No máximo dois — Gabriel respondeu com relutância.

Uriel gargalhou e olhou para Rafael.

— Podemos falar sobre outro assunto? — Gabriel massageou a têmpora.

— Desculpe. Só tentando manter o ambiente leve. Almoços são pra isso — Uriel disse, com aquele sorriso que era tudo, menos angelical.

O garçom surgiu, trazendo na bandeja uma garrafa de vinho. Os quatro irmãos vestiram a máscara de Arcanjos de Primeiro Nível e começaram a agir como homens adultos, finalmente. Eu sempre achei bem cômica a forma como eles agiam, como se fossem família mesmo. Gabriel era grato a Deus por permitir esse tipo de aproximação com seus irmãos, sem eles, aqueles anos todos teriam sido bem monótonos. As provocações, as brigas e os inconvenientes faziam parte.

— Então... — disse Miguel, servindo-se de algo que parecia compaixão assada com tomilho. — Estive na Terra semana passada. Mediar uma crise diplomática nos bastidores.

— Ah. Política terrena — Rafael murmurou, com um pesar ancestral.

— Não foi uma missão. Foi um castigo. Ficar no campo áurico de Donald Trump por 48 horas quase me fez pedir transferência pro Purgatório.

Não brinca. Pior que aquele brasileiro? Como é o nome dele...? Pocketnaro? — Uriel perguntou, gargalhando.

— Bolsonaro — Rafael corrigiu com um suspiro. — Por que você sabe esse apelido?

— Ah, eu ouço os memes. Tem Wi-Fi na borda do Inferno, sabia?

— Eu preferia não saber — murmurou Miguel, bebericando o vinho.

— Mas e aí? — Uriel continuou. — Qual dos dois é pior?

Miguel pensou um instante, genuinamente pensativo.

— O americano tem um ego que distorce espaço-tempo. O brasileiro tinha uma habilidade quase demoníaca de parecer burro e ainda assim causar dano espiritual em massa.

— Empate técnico, então. — Uriel brindou sozinho.

Gabriel se limitou a beber seu vinho em silêncio. Não havia mais nada que pudesse dizer para que seus irmãos o deixassem em paz. Em sua defesa — e era uma defesa perfeitamente plausível — ele não tinha um crush em Lilithiel. O simples uso daquela palavra já lhe dava azia. Onde estavam os termos adequados para um arcanjo? Isso não era uma conversa entre adolescentes do segundo ano. Era, ou pelo menos deveria ser, uma reunião celestial de alto nível.

Mas... há histórias que o céu prefere não registrar. Pequenas falhas nos relatórios eternos. Acidentes emocionais que escapam até mesmo ao olhar divino. E se, por acaso, um desses acidentes tivesse o nome dela… bem, ninguém aqui está dizendo que teve.

Na teoria, seria uma história bonita — daquelas que os poetas humanos gostam de inventar sobre anjos e quedas. Na prática, só restou um silêncio incômodo entre dois seres que fingem não lembrar o que aconteceu. O céu, afinal, é rígido. Arcanjos não sentem, não desejam, não se desviam.

E, quando sentem, desejam e se desviam... chamam de missão, para ver se dói menos.

— Rafael — chamou, baixo o suficiente para que apenas o primogênito ouvisse. — Posso te perguntar uma coisa?

Rafael ergueu o olhar devagar, como quem já soubesse qual seria a pergunta.

— Sobre a missão?

Gabriel assentiu. — Eu ainda não entendo por que estamos protegendo o garoto. Ethan. Ele é só um estudante. Não tem sinal, não tem linhagem, não tem... nada.

O mais velho pousou a taça, o gesto simples, mas carregado de significado.

— “Só um estudante” — repetiu. — Engraçado. Vocês falam isso como se a humanidade fosse um erro de escala.

— Eu não quis dizer assim — murmurou Gabriel. — É que... se fosse algo maior, Deus nos teria dito.

Rafael sorriu de lado, um daqueles sorrisos que não revelam nada e dizem tudo.

— Talvez Ele tenha dito. Só não pra você.

Gabriel o encarou, confuso.

— O que isso quer dizer?

— Que às vezes o Céu não precisa te explicar o porquê. Só o quando.

O silêncio que se seguiu pareceu puxar o ar da sala. Gabriel voltou o olhar para o vinho e, por um instante, quis poder lê-lo como lia as estrelas: procurando padrões, tentando entender o que o universo esperava dele. Mas tudo o que encontrou foi o próprio reflexo, borrado e cansado.

Gabriel inspirou fundo, como se aquele gole de ar pudesse, por milagre, reorganizar tudo dentro dele. Não conseguiu. Ainda estava remoendo a frase de Rafael, que parecia ter sido desenhada especificamente para lhe tirar o chão e Rafael sabia disso. O primogênito sempre sabia.

O garçom se aproximou com discrição celestial, oferecendo mais vinho. Rafael apenas ergueu a taça, Miguel assentiu com um gesto militar e Uriel… bom, Uriel sorriu para o coitado como se estivesse prestes a lhe contar segredos proibidos do Universo. Gabriel agradeceu com um aceno breve, tentando se recolher dentro da própria pele. Pena que não tinha pele suficiente para se esconder dos irmãos.

— Você tá pensando alto demais — disse Uriel, mordendo um pedaço de pão como se estivesse julgando a textura espiritual da massa.

— Não estou — Gabriel rebateu, automático.

— Tá sim — Miguel corrigiu, com a serenidade de quem lidou com terremotos emocionais de arcanjos desde que o cosmos se formou. — E quando você pensa alto, você franze a testa. É praticamente um chamado de emergência.

Gabriel passou a mão na própria testa. Ele estava mesmo franzindo. Ótimo.

— Eu só… — ele pigarrou. — Eu só tô tentando entender. Proteger um garoto sem sinal. Sem linhagem. Sem marca. Sem nada. Não faz sentido.

— Não pra você — Rafael disse, em um tom suave demais para não ser calculado.
A irritação subiu antes que Gabriel conseguisse segurar. Ele não costumava perder a calma, não ali, não com eles. Mas havia um incômodo insistente vibrando em seu peito, algo que não diminuía desde que Lilithiel tinha entrado na equação. Aquele pequeno fato estava mesmo consumindo o autocontrole de Gabriel, porque quando a demônia não estava por perto, suas missões desenrolaram sem quaisquer problemas.

— Você sempre fala assim — Gabriel murmurou. — Como se estivesse no meio do terceiro ato de uma peça e eu tivesse perdido a introdução.

Uriel soltou uma risada. Melhor dizendo: ele gargalhou. Mesmo. Com direito a bater a mão na mesa e tudo.

— Gabriel, meu querido — ele disse, enxugando uma lágrima falsa do canto do olho. — Você perdeu a introdução. E a sinopse. E as notas de rodapé.

— Uriel — Rafael advertiu de novo.

Mas já era tarde. Gabriel já tinha entrado na espiral das provocações.

— Vocês sabem de alguma coisa que eu não sei — ele disse, finalmente encarando os três.

Quem já havia presenciado o silêncio entre os quatro irmãos, sabia que ele tinha um peso enorme. Mas aquele que sucedeu a fala de Gabriel tinha até um pouco de textura. Dava para mastigar. Rafael, aparentemente já cansado demais, pousou a faca no prato com uma delicadeza quase ofensiva.

— Existem coisas que não foram ditas a você por que não dizem respeito apenas a você.

Gabriel piscou. Uma. Duas. Três vezes.

— O que isso tem a ver com Ethan?

— Ethan é… uma variável.

— Uma variável de quê? — Gabriel insistiu. Agora sim, a voz parecia trincar.

Miguel olhou para ele com aquela expressão de soldado que viu o desastre antes de todos, mas não tinha como avisar. Afinal, Miguel era centrado demais para se envolver tanto em assuntos como aquele, mas ele sabia quando era a hora ou não de dar uma palavra. E aquela não era uma boa hora.

Uriel foi quem tomou a palavra — claro que foi. Sempre era.

— Irmãozinho, pensa comigo. — Ele sorriu, aquela curvatura felina e incendiária. — Se Deus te coloca em uma missão com ela

Gabriel travou a mandíbula no mesmo instante.

— Não começa.

— …e coloca os dois pra proteger um garoto que não tem nada especial…

— Uriel.

— …não seria porque o garoto não é o ponto?

Os dois arcanjos mais velhos fecharam os olhos por um instante, sincronizados. Resignados. Aquele almoço tinha azedado cedo demais, perderam mesmo o timing daquela vez. Nossa. É como assistir a terceira guerra mundial se iniciar.

Uriel continuava inclinado sob a mesa, com um sorriso perigosíssimo nos lábios. Ele estava amando tudo aquilo, para ser sincero consigo mesmo. O que eram as missões terrenas comparadas àquilo? Tirar sarro de Gabriel era mais divertido que qualquer coisa no Universo. Gabriel parecia estar congelado, completamente petrificado. Seu vinho havia perdido o gosto; o restaurante tinha perdido o som e até a aura iluminada dele pareceu se engasgar com a luz.

— Isso é ridículo — começou, massageando a têmpora. — Você é ridículo.

— É bem honesto, na verdade — Miguel disse, por fim.

Gabriel afastou sua taça, incapaz de encarar seu próprio reflexo na mesma. Seus olhos azuis encararam seu irmão mais velho, que observava tudo em completo silêncio e soube que, ali, havia mesmo algo errado.

— Não vai acontecer nada entre nós — disse, quase em um fio. — Eu e Lilithiel somos… somos isso. Profissionais. Circunstanciais. É tudo.

— Você acredita mesmo nisso? — Uriel deu aquele sorrisinho e passou a mão no seu cabelo.

Era sempre assim, desde que eles estavam no berçário da criação. Uriel não o deixava em paz. Gabriel até já tinha redigido uma carta para o próprio Deus questionando a possibilidade de o irmão ter vindo de outra divisão por acidente. Para Gabriel, Uriel era mesmo enviado de Satã para atormentar sua vida de forma exclusiva. Deus, com toda sua graça, lhe respondeu apenas com um salmo e mandou que ele se ajoelhasse e orasse quando Uriel o tentasse.
Miguel se inclinou para o irmão, tocou seu ombro, leve como um voto selado e ia lhe dizer algo ao pé do ouvido. Mas naquele instante algo mudou. Não no salão, nem no clima e muito menos nos irmãos. O dedo indicador de Gabriel brilhou. O anel de identificação divina vibrou.
Começou fraca, foi ficando mais forte, até que pareceu urgente demais. Rafael arregalou levemente os olhos depois de perceber que nem o seu anel e nem o dos outros dois brilhavam.

— O que…? — Miguel começou.

Uriel se inclinou, interessado como um gato vendo um laser. Gabriel encarou o próprio dedo, sem sequer ter tempo de pensar. Um clarão dourado atravessou o salão como um sussurro rasgado, invisível para os outros humanos presentes, mas para os anjos e arcanjos ali mais pareceu um grito.

Gabriel mal teve tempo de registrar o clarão dourado vibrando antes de sentir o chão inclinar, não literalmente, mas dentro dele. Era aquele puxão específico, urgente, que os arcanjos só sentiam quando algo estava prestes a romper as costuras do plano físico.

Rafael já estava curvado sobre o brilho dourado, com um olhar clínico.

— Lilithiel — confirmou, a voz ficando grave. — A energia dela oscilou.

Miguel fechou a expressão com a calma típica de quem já encarou o Apocalipse e pediu mais guardanapos.

— Não parece ataque direto — murmurou, analisando o pulso. — Mas é forte o suficiente para tirar ela do eixo.

Uriel? Bem, o irmão do meio parecia ter recebido um convite para uma festa do Gatsby.

— Ah, isso vai ser bom — disse ele, estalando os dedos. — Londres nunca decepciona.

Gabriel, porém, estava imóvel. O pomo de adão subia e descia em uma velocidade admirável e parecia que a armação dos seus óculos de grau havia aumentado de tamanho magicamente, porque ficava escorregando pelo seu nariz. Em termos mais técnicos: estava nervoso. Miguel foi o primeiro que percebeu, afinal, era um soldado veterano de guerra, sabia ler qualquer um. Tocou o ombro do irmão com uma firmeza tranquila, daquelas que segurava céus, guerras e medos.

— Gabriel — chamou, com a voz baixa e compassada. — Se estiver com dúvidas sobre o que é certo e o que é errado quando estiver em missão…

Gabriel levantou os olhos, ainda sem fôlego.

Miguel concluiu:

— …mande um telegrama celestial para o setor de Ética e Conduta. Eles saberão te ajudar.
Gabriel fechou os olhos.

— O setor de Ética e Conduta? — repetiu, incrédulo. — Miguel… ninguém manda telegramas pra lá desde 1342.

— Errado. Mandamos telegramas para lá com uma certa frequência — Miguel disse, sereno como um mosteiro. — Só mantemos a discrição, lógico.

— Ah, manda sim, irmãozinho — Uriel disse, malicioso. — Tenho certeza de que o Azel vai adorar avaliar sua dúvida moral.

— Ele… ele ainda está naquele setor? — perguntou, como quem teme a resposta.

Miguel assentiu, calmo, resignado, como quem confirmava a existência de uma guerra santa.

— Sim. Está… reestruturando processos — ele disse, escolhendo palavras com precisão perigosa.

Rafael bufou. — “Reestruturando” é gentil demais. Eles estão destruindo o setor por dentro.

— Tenho certeza de que eles nunca receberam um telegrama sobre crushes em demônios, mas vai ser épico, irmão! — Uriel ria.

— Mas já receberam os seus sobre atos libidinosos com humanas — Miguel retrucou.

— O que... — Gabriel arregalou os olhos.

— Ninguém sabe — Rafael cortou. — E ninguém quer saber.

Miguel apenas suspirou.

— Mas se você tiver dúvidas… manda o telegrama.

Gabriel encarou os três, incrédulo, traído, desesperado.

— EU NÃO VOU ENVIAR NADA PRA ELES! EU SOU UM ARCANJO!

Uriel levantou as mãos, inocente:

— Problema seu. Eu só acho que seria educativo.

Miguel já havia se levantado, deixado um punhado de dinheiro em cima da mesa e estava se preparando para abrir um portal. O ar começava a vibrar com luz branca e estilhaços dimensionais.

— Vamos — disse ele, voltando à postura de comandante celestial. — A energia de Lilithiel oscilou de novo.

Uriel avançou primeiro, Rafael o seguiu e deu o último passo firme para dentro do portal. Gabriel ainda hesitou por dois segundos, porque o que quer que fosse aquilo, era estranho demais para ele. Quando entrou no portal, as luzes de Paris tremeram, o céu vibrou e em algum canto da burocracia celestial, alguém da divisão de mediação de conflitos aprovou uma lista de novos estagiários.

O apartamento deles sempre parecia mais vivo nos dias cinzentos de Londres. O ar que entrava pelas janelas abertas carregava o cheiro da chuva fina que caía lá fora. Lilithiel sempre achou curioso como a cidade combinava com sua própria condição: antiga, caótica, cheia de história e levemente debochada.

Ela estava recostada no sofá, com as pernas compridas esticadas por cima de uma manta e laptop apoiado nos quadris. Vestia um pijama curtinho composto por uma blusinha de alças e um shortinho que deixava metade de suas coxas à mostra. No fundo, a televisão reprisou uma temporada de Masterchef UK e Gordon Ramsay gritava com um homem que havia servido um purê “com a textura emocional de uma lesma deprimida”, segundo suas palavras.
Lilithiel tomou mais um gole de vinho, descansando a taça no encosto do sofá com precisão. No laptop, ela navegava por um site de compras online. Lingeries. Azuis, vermelhas, pretas, algumas com camadas tão finas que pareciam feitas de sussurros.

Ela clicou em uma especialmente ousada, azul celeste. Pareceu ironia divina.

— Essa cor me persegue… — murmurou, ampliando a imagem. A modelo na foto tinha asas tatuadas no quadril. — Hm. Isso é exagero. Mas bonita. Compreensivelmente bonita.

Ela adicionou ao carrinho.

Não era surpresa para ninguém — e muito menos para ela mesma — que seu corpo tivesse começado a reclamar da abstinência. Ela era uma demônia milenar. Tinha dormido com homens, mulheres, entidades, soldados, faraós, piratas, deuses menores, músicos famosos, celebridades humanas e até mesmo ícones culturais. Ela lembrava de James Dean com um sorriso quase nostálgico. Ele a tinha chamado de dangerous. Ela tinha respondido que ele não fazia ideia.

Louis Tomlinson tinha sido adorável e atrevido na medida certa, e ela riu sozinha ao recordar a energia caótica dele. “Pequeno, mas eficiente”, ela murmurou, bebendo mais um gole.

Zac Efron… bom, ele quase entrou para a lista, mas o destino tinha senso de humor. Hécate, sua amiga do Submundo, a chamou para uma diversão emergencial bem na madrugada em que ela finalmente teria uma noite com o ator. Zac ficou frustrado; ela, mais ainda. “Rain check, baby”, ela disse, dando um beijo na bochecha dele.

Mas agora… Agora havia o Gabriel.

E Gabriel era… complicado.

Ele era cheio de limites, de regras, de doutrinas. Era o tipo de ser que nunca tinha sido tocado de verdade — não no sentido que ela conhecia tão bem, não na maneira carnal, profunda, que derretia almas e convicções. E, ainda assim, o corpo dela insistia em reagir a ele.

Não era racional. Não era prático. Era simplesmente inevitável.

“Ridículo”, ela pensou, e fechou uma aba de vibradores de edição limitada.

Só que então — sem querer, sem planejar — ela pensou na curva do ombro dele. Aquela estrutura larga, sólida, que parecia ter sido esculpida na intenção de abrigar mundos. O pescoço firme. O peitoral que parecia mais uma heresia visual. A linha da mandíbula, sempre suavemente tensa. A forma como ele dizia seu nome. A pureza involuntária da respiração dele. E aquele olhar pidão…

O corpo dela reagiu de forma instantânea.

Uma vibração baixa percorreu a espinha dela, acendendo tudo como se alguém tivesse tocado um fósforo em pólvora antiga. Lilithiel fechou os olhos, exasperada consigo mesma, apoiando a testa no encosto do sofá.

— Não. Não. Não — ela murmurou, como se pudesse brigar com o desejo. — Eu não vou começar com isso. Gabriel é… Gabriel. Ele é um arcanjo. Ele é virgem. Ele não sabe nem onde pôr as mãos quando a gente se encosta. Ele fica vermelho. Eu sou criminosa se pensar nele assim.

Mas foi exatamente o ato de tentar não pensar que derrubou sua disciplina. Uma torrente de imagens proibidas atravessou a mente dela sem permissão: Gabriel sem camisa, Gabriel saindo do banho, Gabriel segurando sua cintura, Gabriel respirando no pescoço dela, Gabriel descobrindo como seria tocá-la pela primeira vez. O corpo dela explodiu em uma onda de calor.

E a aura vibracional acompanhou, traindo-a da forma mais descarada possível. Um estalo atravessou a janela. A luz piscou, a vela se apagou e ela teve certeza de que a plantinha que estava na varanda havia se curvado para o lado, morta de vergonha por ela.

— Que diabos? — A demônia ficou confusa.

Sim, era inédito até para ela. Lily se ajeitou no sofá de novo, respirando fundo, com seu coração humano batendo mais devagar aos poucos e, antes que pudesse fechar o laptop para se desfazer daquelas lingeries, um portal se abriu no meio da sala com a violência de uma tempestade solar. O ar pareceu se rasgar no meio quando os quatro arcanjos surgiram.
Lilithiel não conseguiu conter um grito de pânico.

— Onde está o perigo?! — Gabriel parecia uma avalanche em forma de homem.

Ela estava deitada, congelada, segurando o laptop quase fechando as imagens comprometedoras. O short mostrava um pouco demais de pele e ela ainda estava ofegante pelos motivos errados. E, santo Deus, Gabriel estava vendo aquilo tudo. Miguel e Rafael franziram o cenho em completa confusão enquanto Uriel sorria.

— Não vejo inimigos — Rafael concluiu.

— Nenhum rastro demoníaco — Miguel afirmou.

— A menos que o perigo seja… a vergonha — Uriel disse, quase cantarolando.

Gabriel então olhou para Lilithiel. Olhou mesmo. E nesse instante, sua expressão derreteu do alarme para uma confusão profunda.

— Lily… — ele disse, mais baixo. — Eu senti você entrar em colapso.

— Colapso? Eu? Não! Gabriel, eu só… — Ela arregalou os olhos quando olhou para o laptop e decidiu improvisar a pior desculpa da Terra. — …eu só estava usando o seu cartão black divino.

— O… meu… cartão? — ele repetiu, incrédulo.

— Sim! — ela disse rápido demais. — Sim. Compras online. Nada digno de portal interdimensional.

Gabriel passou a mão pelo cabelo, completamente transtornado.

— Lilithiel… eu pensei que você estivesse ferida.

Lilithiel cobriu o rosto com as duas mãos. Ela estava mesmo com vergonha. Que ironia, uma demônia de primeiro nível com vergonha. O Inferno deveria estar em chamas àquela altura.

— Gabriel… eu estava só… comprando.

Lilithiel se recompôs, olhou em volta e se sentiu ainda mais envergonhada por estar sendo observada por aqueles quatro. Mas o sentimento foi substituído pela curiosidade. Gabriel ainda parecia dividido entre preocupação e… outra coisa que ele se recusava a nomear.

— Vocês podem me explicar por que entraram aqui dessa forma? — ela perguntou, pacífica demais.

— Uma oscilação dessa magnitude não acontece sem causa. Não existe vibração isolada nesse nível — Miguel disse, avaliador.

— Falem como humanos normais, se não for pedir muito. Odeio formalidades.

Miguel ignorou o sarcasmo dela — o que já dizia muito sobre a gravidade do momento. E os quatro permaneceram em silêncio, Lily tinha certeza de que eles estavam conversando entre si sem o uso de palavras. Estava começando a ficar impaciente de verdade com tudo aquilo. Estava confusa. De verdade. Porque ela não sabia mesmo o porquê de a sua própria aura estar se conectando com a de Gabriel e isso, para ela, era desconfortável em níveis quase existenciais.

Ela inspirou fundo.

— Vocês têm dois minutos… — ela disse, tentando manter a dignidade. — Para me explicar por que porra minha aura está conectada a desse arcanjo nervoso?

— Porque vocês já foram parte da mesma esfera, deduzo — Rafael disse por fim.

— Da mesma o quê?

Miguel completou, com a calma destrutiva de sempre:

— Esfera. Núcleo energeticamente alinhado. Dois seres criados — ou moldados — para operar no mesmo fluxo vibracional. É extremamente raro.

— Raríssimo — Rafael reforçou. — Acontece uma vez a cada dez milênios. Talvez menos.

— Eu não fui moldada com ele — disse ela, firme. — Eu não era arcanja. Eu não pertencia a nenhum quarteto divino. Eu era uma entidade livre. Eu—

Rafael ergueu uma mão, interrompendo com suavidade.

— Lilithiel… isso é verdade. Você não foi criada com Gabriel. Mas isso não impede que seus núcleos tenham se ajustado.

Gabriel passou uma mão pelo cabelo, claramente desconfortável. Lilithiel sentiu o estômago despencar.

— Ajustado… quando? — ela perguntou, devagar. — E por quê?

— Quando dois seres especialmente poderosos lutam lado a lado por tempo suficiente… quando dividem energia, criam defesas juntos, sobrevivem às ameaças que deformam o plano astral… — Rafael escolheu as palavras com cuidado — às vezes seus núcleos se alinham. Sem aviso. Sem consentimento. Sem consciência.

Os olhos de Lilithiel ficaram escuros. Uma sensação estranha pesou no seu coração humano e ela podia jurar que viu um lampejo surgir diante dos seus olhos.

— Você está dizendo… — ela murmurou — que minha aura se conectou ao Gabriel naquela época?

Rafael e Miguel assentiram juntos. Uriel completou, doce como veneno:

— Vocês dois ficaram a um passo da morte naquela missão. Unidos. Canalizando energia um do outro. É natural que tenha ficado… um vestígio.

— É mais comum do que parece, na verdade — Miguel tentou remediar. — Meu núcleo já se alinhou ao de Rafael e ao de Uriel.

— Vocês são irmãos, tem uma enorme diferença aí — Lily debochou.

— Todos nós somos, ué. — Uriel deu de ombros. — Você é mais irmã do Gabriel do que os outros agora.

Lilithiel encarou ele com ódio suficiente para apagar três estrelas.

— Cale-se.

Lilithiel cruzou lentamente os braços, como se precisasse proteger o próprio corpo daquele entendimento novo e involuntário.

— Então… — ela disse, com a voz mais controlada do que sentia. — Cada vez que minha aura oscila, você sente?

— Sim. — Gabriel engoliu em seco.

— Isso é… completamente impraticável — ela disse. — E completamente humilhante. Eu sou uma demônia milenar! Eu deveria ser imune a vínculos desse tipo!

— Precisamos investigar. Avaliar o quanto dessa conexão ainda está ativa. Se ela pode se intensificar. Se é perigosa. Se é… previsível. — Miguel levou o dedo ao queixo, fazendo pose de pensador.

Gabriel finalmente falou:

— Não sei por que isso existe. E não sei como desfazer. Mas eu prometo… — a voz dele não falhou nem por um segundo, e quando continuou, era firme de um jeito que doeu —não vou invadir a sua privacidade. Não vou atravessar portais à toa. Não vou interpretar qualquer vibração como perigo. Eu só… fiz isso hoje porque… foi forte demais.

Ela sorriu, curto e forçado.

— Ótimo. Então resolvido.

Rafael então encerrou:

— Vamos conversar sobre isso… só nós — ele disse, com uma calma que escondia muito. — Há registros antigos que eu e Miguel podemos revisar. Precisamos entender as causas, as possibilidades. Antes de qualquer conclusão.

Lilithiel cruzou os braços, aliviada por eles não especularem nada ali, na frente dela.

— Perfeito. Faça isso.

Um novo portal começou a se abrir, e quando os arcanjos passaram por ele, Lily não pôde deixar de olhar para Gabriel por um segundo a mais. Ele também a olhava, meio desconcertado, meio tímido. Mas tinha alguma coisa além daquilo por trás daquele azul sem fim, mas ela ainda não conseguia saber o que era.

O portal fechou atrás de Gabriel com um som seco, quase ofendido pelo absurdo da situação. A sala celestial voltou ao seu estado natural: paredes brancas com reflexos de ouro antigo, cortinas de luz vibrando em silêncio, uma mesa longa de mármore que parecia esculpida em eternidade polida. Mas a expressão dos arcanjos estava longe de ser eterna.

O primogênito respirou fundo.

— Certo — disse Rafael. — Precisamos conversar.

Uriel levantou um dedo.

— Eu voto pra começar com o óbvio: isso foi hilário.

— Uriel — Miguel advertiu.

— Ok, ok… — ele ergueu as mãos. — Foi hilário e preocupante. Mas ainda é hilário.

— “Ligação vibracional espontânea”. Vocês sabem o que isso significa — Miguel tomou a palavra, direto ao ponto.

Gabriel desviou o olhar. Uriel ergueu a sobrancelha, sorrindo.

— Então estamos falando… daquele momento.

— Sim. — Miguel bufou. — A canalização dupla. A explosão.

— Antes da queda de Lilithiel — Rafael completou.

Uriel bateu palmas.

— Aí está! O trauma compartilhado! O caos emocional! A conexão profunda involuntária! — Ele sorriu. — Dá pra escrever fanfic.

Gabriel atirou um olhar mortal na direção dele.

— Eu não quero ouvir “fanfic” sair da sua boca de novo.

— Que pena — Uriel rebateu. — Porque a história está ficando ótima.

— Vamos focar. A questão é: por que a aura dela explodiu hoje? Por que agora? — Rafael esfregou a testa, cansado.

— Gabriel — Miguel chamou, devagar. — Você sentiu algo além do “alarme”?

O arcanjo mais novo hesitou. Por longos três segundos, ou mais, não sabia dizer. Sua cabeça estava rodando em um looping infinito de informações. Mas apenas uma estava se sobressaindo: a lingerie azul na tela do laptop.

— …foi como se o campo dela estivesse em ebulição — ele disse, enfim. — Intenso. Caótico. Mas não parecia dor. Nem medo. Nem ataque.

Uriel soltou a maçã no ar, deixando-a flutuar, e inclinou o corpo para a frente. — Então que tipo de sensação foi?

Gabriel ficou quieto, muito quieto. E isso já era resposta suficiente para os outros três. Bem, Gabriel não sabia bem nomear aquela sensação que sentiu, era muito novo. E aquilo era estranho, porque ele tinha milhões de anos.

— “Forte”, como você disse. Mas não negativa. — Rafael ajeitou a postura.

— Isso — Gabriel admitiu, em um fio de voz.

Miguel e Rafael trocaram um olhar imediato. Uriel abriu um sorriso lento, como um animal que fareja diversão. O do meio teria que, mais tarde, fazer uma carta de agradecimento a Deus por ele permitir que aquele momento acontecesse com ele presente.

Miguel esclareceu:

— Vibrações assim… se manifestam quando o núcleo de alguém atravessa emoções muito fortes. Em casos extremos: raiva. Dor. Desespero.

— Ou… desejo — Rafael completou.

Gabriel arregalou os olhos, horrorizado. Se sentiu traído pelo seu irmão mais velho que, como ele havia pensado desde o início daquele dia, tinha entrado nas brincadeiras infantis de Uriel. Quando iam parar?

— NÃO. Não. Ela NÃO— isso NÃO—

— Isso aqui é melhor que televisão. — Uriel gargalhou forte o suficiente para estremecer o plano.

Miguel apoiou o queixo na mão, pensativo.

— Lilithiel é uma demônia milenar — ele disse, sem malícia. — Desejo é uma assinatura energética dela. Forte. Natural. Não é surpresa que uma emoção desse tipo produza… impacto vibracional.

Gabriel parecia à beira do colapso. Seu cabelo que antes estava perfeitamente penteado já estava completamente bagunçado, seco e arruinado. O colarinho da camisa social estava amassado, quase manchado com as marcas das pontas suadas de seus dedos nervosos.

— Então… — ele murmurou, quase em desespero — toda vez que ela… sentir… alguma coisa

— Você vai sentir também. — Rafael ficou imóvel.

— EU DISSE! Eu sempre disse que essa história ia render! Olha isso! A demônia fogosa que treme o plano astral e o arcanjo virgem que quase morre achando que ela está sendo atacada! Isso é ouro puro.

— Uriel, eu juro, se você disser “arcanjo virgem” mais uma vez eu—

Arcanjo virgem — Uriel repetiu, olhando diretamente nos olhos dele com pura maldade divertida.

— Precisamos investigar os registros antigos. Ver se houve casos parecidos. E entender se existe… resolução. — O mais velho parecia pensativo.

— Tô torcendo para a resolução envolver cama — Uriel sussurrou.

— ORA, SEU-

Gabriel, esgotando sua última gota de paciência, partiu para cima de Uriel. A sala celestial balançava com os passos deles, corriam em volta da mesa. Miguel, com seus músculos e sua agilidade, os apanhou pelas camisas e os segurou. Rafael suspirou fundo, cansado do jeito que só um filho primogênito conseguia ser.

— O importante agora… é que ela não saiba.

— Ela não pode saber. Nunca. Jamais. Ninguém menciona essa loucura perto dela. — Gabriel ergueu o rosto rapidamente.

— Muito bem — disse o primogênito, enfim. — Então começamos por isso: cautela absoluta. Nada de comentários leves, nada de piadinhas, nada de… — ele lançou um olhar afiado para Uriel — metáforas desnecessárias.

— Eu sou uma metáfora desnecessária — Uriel murmurou, ofendido de mentirinha. — Mas tudo bem, eu aguento. Em nome do drama.

Miguel assentiu, a postura voltando à rigidez de comandante celestial.

— Vamos verificar os registros — concluiu. — Se houver precedentes, encontraremos. Se não houver… vamos ter que escrever o protocolo nós mesmos.

— Até lá — disse, firme —, você finge que nada mudou. Continua a missão. Mantém o foco no Ethan. Mantém a distância que for possível.

— E tenta… não sentir demais — Rafael concluiu.

Os três começaram a se dispersar, a luz ao redor deles se abrindo em portais discretos, quase elegantes. Gabriel ficou por último, como sempre. Parado no meio da sala, o anel ainda frio no dedo, o peito quente demais.

Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, respirou fundo e tentou convencer a si mesmo de que dava, sim, para controlar aquilo. Que dava para impor freio a um vínculo que o próprio céu chamava de “raríssimo”. Que dava para continuar chamando de missão aquilo que, claramente, já não cabia mais dentro da palavra.

A narradora — que, por dever de ofício, vê de fora — poderia dizer que Gabriel acreditava mesmo nisso. Que, naquela fração de eternidade, ele achou sinceramente que tinha algum controle sobre o que vinha pela frente.

Seria uma boa mentira.

O Céu registraria tudo aquilo como simples flutuações vibracionais. O resto… bem. O resto, oficialmente, não existia. Ainda.



Continua...


Nota da autora: Espero que estejam gostando de curtir as aventuras do Gabe e da Lily e se preparem para as próximas, até breve!

Nota da beth: Eu dei boas risadas descobrindo o real motivo da missão deles dois e o porquê da oscilação na aura vibracional, me senti o próprio Uriel achando tudo muito digno de uma fanfic e não perdendo a chance de dar uma zoada hahahahahaha agora, se até a Lily tá começando a perder o controle da situação, eu só quero ver qdo chegarmos ao ápice dessa relação 💜

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