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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 03/04/2026

A noite caía sobre Hogwarts com um frio que se esgueirava pelas frestas das janelas e fazia as tochas das paredes tremerem. O castelo, já silencioso depois do toque de recolher, parecia guardar segredos entre as sombras dos corredores intermináveis. Em uma das muitas salas vazias — que os alunos usavam mais para encontros secretos do que para estudos — , Penny Haywood e Rowan Khanna estavam reunidas. As três corvinas sentavam-se sobre almofadas velhas e um tapete empoeirado, iluminadas apenas pela luz das varinhas e da lareira acesa ao fundo. Livros e pergaminhos estavam espalhados por todo lado, mas há muito a conversa havia se desviado dos deveres de Aritmancia.
— Eu ainda acho que a Corvinal vai levar a Taça das Casas esse ano — murmurou Penny, sentada de pernas cruzadas, a varinha girando entre os dedos.
— Com que milagre? — rebateu Rowan, ajeitando os óculos na ponta do nariz. — Grifinória tá na frente, e o próximo jogo vai ser contra a Lufa-Lufa. Se eles ganharem, passam na frente e…
— Lufa-Lufa não ganha… — Cortou com um suspiro, encostada na parede fria da sala vazia. — Eles nunca ganham.

As amigas olharam para ela.
— Não sei… — Khanna começou, mordendo a ponta de sua pena. — Parece que eles estão treinando mais pesado que nunca.
— Claro, com no comando. — Haywood deu um sorriso malicioso. — Dizem que ele está fazendo o time voar como nunca.
revirou os olhos tão forte que quase viu o próprio cérebro.
— Só podia ser. O grande e seus prodígios de ouro.
As outras duas pararam, surpresas com o tom ácido, antes de caírem na risada.

— Merlin, — disse Penny, entre uma gargalhada e outra. — Até parece que falar o nome dele te dá alergia.
Rowan arqueou as sobrancelhas, olhando por cima dos óculos.
— Você parece ser a única garota nessa escola que não cai de amores por ele.
— E com muito orgulho — respondeu , cruzando os braços. — Alguém precisa manter o bom senso por aqui.
— Mas ele é bonito, vai… e ainda é gentil, educado…
— Gentil? Educado? — Ela soltou uma risada sem humor. — Vocês caem direitinho nesse teatrinho. Mas, ao contrário do resto do castelo, eu consigo ver por trás daquele rostinho falsamente angelical e daquela pose de bom moço.
— Então você tá dizendo que é o quê? Um vilão disfarçado?
— Eu tô dizendo que ele é um convencido disfarçado de príncipe encantado. — rebateu, já esquentando com o assunto. — E, se quiserem, eu faço uma lista agora mesmo com todos os motivos pelos quais eu jamais cairia de amores por ele.
— Eu preciso ver essa lista acontecer. — A loira bateu palmas, animada.
— Pois vai acontecer agora. — Ela já estava puxando um pergaminho da bolsa.
— Vai, então, nos convença. — Rowan se ajeitou na cadeira, os olhos brilhando de curiosidade.
molhou a pena na tinta e escreveu com letras grandes no topo do pergaminho:
Motivos pelos quais eu JAMAIS me apaixonaria pelo Zé Bonitinho ):

  1. Ele é convencido demais.
  2. Só liga para Quadribol.
  3. Se acha o bom moço de Hogwarts.
  4. Todo mundo cai de amores por ele.
  5. Nunca leva nada a sério.
  6. Ele é SEMPRE perfeito demais, até quando erra (insuportável), e nunca se mete em encrenca.
  7. Nunca olharia para alguém como eu.
  8. Só se importa com ele mesmo.
  9. Aqueles olhos cinzentos não me afetam nem um pouco (nem quando ele olha daquele jeito que faz metade da escola suspirar).
  10. Eu preferia beijar um trasgo a cair no charme barato dele (incluindo aquele sorriso torto irritante e a voz grave que, obviamente, não me provoca absolutamente NADA).


— Primeiro… — anunciou após limpar a garganta, a voz ganhando aquele tom de professora que fazia as amigas rirem toda vez. — … ele é convencido demais. Acha que é o melhor em tudo: quadribol, feitiços, até no jeito que anda pelos corredores, como se estivesse desfilando numa passarela.
As outras duas soltaram um riso abafado.
— Não tá errada…
— Segundo… — continuou, sem perder o embalo. — só liga pra quadribol. É a única coisa que ele fala, pensa e respira. Aposto que sonha com vassouras.
— Quero ver onde isso vai parar.
— Terceiro… — levantou um dedo no ar. — se acha o bom moço de Hogwarts. Sempre sorrindo, sempre ajudando todo mundo. Ninguém é tão perfeito assim sem esconder alguma coisa. — ela se empolgava mais a cada item: — Quarto… todo mundo cai de amores por ele, e eu não sou todo mundo. Quinto… nunca leva nada a sério, tudo é uma brincadeira pra ele.
— Isso tá ficando bom demais, Ali. Continua!
— Sétimo… ele, definitivamente, nunca olharia para alguém como eu. Porque ele gosta das fãs que suspiram por onde ele passa.
— Ai, Merlin… — Rowan abanava as mãos, sem fôlego de tanto rir.
— Finalmente, o décimo motivo… eu preferiria beijar um trasgo a cair no charme barato do . — Enfim, soltou um suspiro satisfeito. — Pronto. A prova definitiva de que eu nunca, jamais, em hipótese alguma, me apaixonaria por aquele… aquele pavão lufano.
As duas amigas ainda riam, já com lágrimas nos olhos.
— Você precisa guardar isso pra sempre — disse Khanna, ofegante. — Um dia vamos rir muito quando você morder a língua.
— Nem em mil anos. — declarou, cruzando os braços. — Eu sei exatamente quem ele é. E eu tô imune.
, você é um ícone. — Penny se jogou para trás, segurando a barriga de tanto rir, mas, de repente, se enrijeceu, os olhos ficando arregalados. — Vocês ouviram isso?
O riso morreu na hora. Do corredor, passos se aproximavam, lentos, mas certos.
— Droga… — sussurrou Rowan. — Deve ser o Filch. Peguem suas coisas, rápido! — ordenou, o coração disparado.
As três começaram a recolher livros, penas e tinteiros com a pressa de quem sabia o que acontecia com alunos fora da cama depois do toque de recolher. , no desespero, tentou enfiar a lista recém-escrita na bolsa junto com os livros, e elas saíram correndo da sala, os risos agora substituídos por sussurros nervosos e passos apressados, sem notar que, dentro da sala, o pergaminho com a lista repousava no chão, esperando ser encontrado.
E Hogwarts, como sempre, estava atenta.

O salão comunal da Lufa-Lufa ainda estava meio vazio naquela manhã, mas já ria alto ao lado de dois amigos – Zacharias Smith e Ernesto Macmillan — enquanto atravessavam a porta que levava para os corredores de Hogwarts.
— Eu juro por Merlin, — disse Zach, batendo no ombro dele. — Se você treinar a gente mais uma noite seguida, eu desisto e viro comentarista de quadribol.
soltou uma risada fácil, daquele tipo que fazia — quase — todas as garotas que cruzavam com ele pelo corredor trocarem olhares e risinhos abafados.
— Deixa de drama, Smith — respondeu, ajeitando a gravata da Lufa-Lufa de modo distraído. — Quando ganharmos da Grifinória, você vai me agradecer. — O trio entrou na sala e logo notou a aglomeração adiante. Um grupo de alunos estava amontoado em volta de algo, os risos e cochichos ecoando pelas paredes. — Que confusão é essa? — murmurou, franzindo o cenho.
Foram se aproximando, e um aluno da Sonserina, com um sorriso travesso, foi o primeiro a notar a presença deles. Ele apontou diretamente para , que mantinha um semblante confuso.
— Olha só quem chegou! O próprio príncipe de Hogwarts! — Exclamou, atraindo a atenção do grupo. — Parece que alguém resolveu acabar com a reputação do queridinho do castelo.
parou, a sobrancelha arqueada.
— Como é que é?
Outro garoto, rindo tanto que mal conseguia falar, estendeu um pergaminho amassado em sua direção.
— Isso aqui, . Alguém fez uma… lista.
Ele pegou o pergaminho, desconfiado, desenrolou devagar e, ao ler o título, não pôde conter uma risada. À medida que lia os itens – cada um mais ácido que o outro – seu sorriso crescia.
— Que maravilha…
Zach soltou uma gargalhada alta ao espiar por cima do ombro dele.
— Merlin, , alguém te odeia de verdade, hein?
, no entanto, apenas deu um sorriso meio torto, meio intrigado.
— Isso é novo… — murmurou, passando os olhos pela lista mais uma vez. — Quem será que escreveu isso?
— Deve ser alguma garota que não conseguiu um autógrafo seu no último treino — zombou o amigo. — Ou, sei lá, alguém que cansou de ver você ganhando todas as cartinhas no Dia dos Namorados.
Ele riu, balançando a cabeça. Mas, no fundo, uma ideia já começava a se formar na cabeça dele. Uma garota que não suspirava ao passar por ele. Que revirava os olhos sempre que ouvia seu nome. E que, provavelmente, era a única que o chamaria de Zé Bonitinho .

Enquanto isso, do outro lado do castelo, na biblioteca, Haywood e Khanna estavam folheando livros quando ouviram um grupo de alunos cochichando animadamente:
— Uma lista! Escreveu cada motivo pra nunca se apaixonar pelo … — Quem faria uma coisa dessas?
— Tá todo mundo comentando já…
, que até então estava distraída, revisando algumas anotações, parou com a pena no ar.
— O quê? — sussurrou, o estômago afundando.
As amigas congelaram, se entreolhando.
— Não pode ser… — murmurou Rowan, já sentindo o pânico crescer.
A garota largou os livros e começou a vasculhar a bolsa com as mãos trêmulas. Abriu um, depois outro, espalhando os pergaminhos na mesa. Nada.
— Não, não, não… — resmungava, cada vez mais rápida e desesperada. Penny engoliu em seco.
, me diz que você achou a lista. Mas sua expressão já dizia tudo.
— Não tá aqui… — sussurrou, a voz ficando fina. — Eu perdi.
— Ai, Merlin. — Rowan cobriu o rosto com as mãos.
sentiu o mundo girar. Se aquela lista realmente tivesse caído nas mãos erradas – e pelo barulho ao redor delas, parecia que já tinha – ela estava oficialmente…
— Ferrada. — Completou, com um fio de voz.

Os corredores de Hogwarts estavam começando a ganhar um ar diferente naquela semana. Guirlandas com corações flutuavam entre as tapeçarias, flores dançavam no ar e pequenas faixas cor-de-rosa e vermelhas com dizeres românticos surgiam por todo lado, anunciando o baile do Dia dos Namorados que se aproximava.
Mas mal notava.
O contraste com o pânico que dominava seu peito não poderia ser maior. Caminhava ao lado de suas duas amigas, os olhos atentos demais, varrendo cada grupinho que passava, como se pudesse ouvir cada cochicho à distância. Sua mão estava fechada com força na alça da bolsa, e ela nem percebeu quando quase trombou com um garoto da Sonserina no corredor.
, você tá andando feito um trasgo — murmurou Penny, puxando-a pelo braço.
— Eu tô ouvindo… — sussurrou de volta. — Aquele grupo estava comentando algo. Aposto que estão falando da lista.
— Amiga, a escola toda já deve saber. Até os fantasmas tão cochichando sobre isso. — lançou um olhar mortal para Rowan, que continuou: — Talvez ninguém saiba que foi você.
— Mas e se souberem? — Ela quase tropeçou de tanta tensão. — Eu vou ser a piada da escola.
— Relaxa, afinal, como alguém descobriria? Só nós três estávamos lá ontem. — Penny interveiou e apontou adiante. — Agora vamos logo, tô morrendo de fome. Vamos direto pro salão principal.
— Vão na frente. — Disse , tentando soar casual. — Eu… vou passar no banheiro antes.
As duas hesitaram, mas acabaram seguindo, deixando-a sozinha no corredor agora iluminado pelo sol que entrava pelas janelas altas. Respirou fundo, tentando acalmar o coração que martelava no peito. Precisava pensar, descobrir quem tinha achado a maldita lista antes que…
.
A voz surgiu às suas costas, e ela congelou, virando-se devagar. estava ali, encostado despreocupadamente na parede de pedra, com os braços cruzados e um sorriso lento nos lábios. Aquele sorriso que parecia inofensivo, mas que sabia muito bem que escondia perigo.
… — respondeu, apertando ainda mais a alça da bolsa. — que surpresa.
— Engraçado… eu poderia dizer o mesmo. — Ele descruzou os braços e deu alguns passos em sua direção. — Você tá… diferente hoje.
— Diferente? — Tentou rir, mas soou forçado até para ela mesma. — Imagina. Tô só… distraída.
O lufano inclinou a cabeça, os olhos faiscando com algo mais afiado do que o sorriso sugeria.
— Ah, claro… — disse, parando bem à frente dela. — Porque você mente muito mal, sabia?
Seu rosto ficou quente na hora.
— E-eu não tô m-mentindo. — rebateu, erguendo o queixo. — Sem falar que, desde quando você presta tanta atenção em mim pra saber quando eu tô diferente e quando eu minto?
Ele não respondeu. Apenas deu uma risada baixa, e puxou algo de dentro do bolso do manto: um pergaminho. sentiu tudo parar por um segundo e quis enfiar a cabeça num buraco. Ou melhor, lançar um Petrificus Totalus nele e fugir. abriu o pergaminho com toda a calma do mundo, os olhos fixos nela, como se saboreasse cada segundo daquela tortura.
— Vamos ver… Motivos pelos quais eu jamais me apaixonaria pelo Zé Bonitinho . — Leu em voz alta, o sorriso crescendo à medida que ele falava cada palavra. — Que título modesto.
… — deu um passo à frente, mas ele levantou a mão, já lendo o primeiro item.
Ele é convencido demais. Eu prefiro chamar de confiança.
, eu tô falando…
— Próximo… só liga pra quadribol. — Deu de ombros, a voz contida de ironia: — Que crime terrível! É um esporte nobre, sabia?
— Para com isso. — bufou, tentando arrancar o pergaminho da mão dele novamente, mas foi mais rápido, recuando um passo, os olhos brilhando.
Se acha o bom moço de Hogwarts… — Arqueou as sobrancelhas. — Bom, agora isso é pura inveja, . Eu não posso impedir se a escola inteira me ama.
Ela perdeu a paciência. Num impulso, agarrou o braço dele e o puxou para o canto do corredor, longe dos olhares que começavam a se acumular mais adiante. deixou-se levar, surpreso e… divertido. Quando se viu encostado contra a parede fria de pedra, com parada tão perto que podia contar as sardas no rosto dela, seu sorriso mudou de tom.
— Ora, ora… — murmurou, a voz agora mais baixa e rouca. — Tá brava comigo, ? Os olhos dela encontraram os de , e por um segundo, o mundo pareceu diminuir até restar só aquele corredor estreito e o espaço carregado entre os dois. Ela sentia sua respiração, lenta e sem pressa, e odiou o próprio corpo por notar o cheiro levemente amadeirado que vinha dele, misturado com algo fresco, talvez hortelã.
— Você vai me devolver isso agora… — sussurrou, mantendo a voz firme, apesar do coração martelando.
Ele enrolou o pergaminho com calma e o girou entre os dedos, uma expressão lenta, quase provocante.
— Engraçado… normalmente, quando eu falo, as garotas não conseguem manter esse olhar desafiador.
arqueou uma sobrancelha, forçando uma risada seca.
— Você vai devolver ou não? — Estreitou os olhos.
— Nem pensar. Eu ainda não cheguei na minha parte favorita.
— O que você quer, ? — Ela cruzou os braços, sem conseguir esconder a irritação. — Vai ficar zombando de mim agora? Mostrar isso pra escola inteira?
inclinou a cabeça, demorando o olhar em seus lábios antes de voltarem para os olhos, ainda com aquele sorriso que fazia as outras garotas suspirarem – e ela querer jogá-lo pela torre mais alta de Hogwarts.
— Não, eu tenho um plano melhor.
— Que plano? — Sentiu a garganta secar, mas manteve a postura.
Ele se aproximou um centímetro a mais, o suficiente para sentir a vibração de sua voz contra a pele.
— Provar que você está errada. Item por item. E quando eu riscar todos dessa lista… — Seu olhar caiu brevemente para a boca dela, antes de subir de novo. — você vai ter que admitir que perdeu.
O calor subiu pelas bochechas dela com tanta força que quase a fez perder o ar, então cruzou os braços, tentando parecer indiferente, apesar do coração estar batendo rápido demais.
— Você tá delirando. — Murmurou, sem conseguir afastar o olhar do dele, os olhos parecendo mais escuros àquela distância.
— Talvez… — sorriu de lado, com uma confiança tão insolente que fazia o sangue dela ferver. — ou talvez eu só esteja… convencido demais. Como diz aqui, ó… — ergueu o pergaminho de novo, sacudindo na sua frente.
, eu juro por Merlin que se você…
Ele deu um passo mais perto, a voz mais baixa agora, só para ela ouvir:
— Não se preocupe, eu vou guardar isso com carinho. Vai ser o nosso… segredo. — Piscou antes de recuar um passo. — Vejo você por aí, . — Começou a se afastar, com aquele andar despreocupado, assobiando baixinho uma música qualquer. — Ah, e… adorei o apelido. É bem criativo.
ficou parada no meio do corredor, o peito subindo e descendo rápido, enquanto o observava desaparecer entre as decorações rosa flutuantes. A parede fria atrás dela não foi suficiente para apagar o calor que dominava seu rosto.
— Eu tô completamente ferrada…
Porque ela sabia que não iria deixar aquilo passar. E o pior? Uma parte sua estava curiosa para ver como ele tentaria.



Nos dias que se seguiram, tentou a todo custo evitar , mas falhou miseravelmente. Mesmo com a ajuda de Rowan e Penny para tentar escondê-la, o lufano parecia estar em todos os corredores que cruzava, todas as aulas práticas que assistia, e até em todos os momentos que ela só queria passar despercebida. E o pior: sempre com aquele sorriso meio torto, meio presunçoso, que parecia grudar em sua pele como uma corrente elétrica. O salão principal fervilhava com o barulho típico do fim da tarde quando as três corvinas entraram. Grupos espalhados pelas mesas, risadas ecoando, discussões acaloradas sobre quadribol e provas e, claro, as decorações rosadas e vermelhas já começando a surgir para a infame comemoração do Dia dos Namorados.
— Você tá sentindo isso, né? — sussurrou Penny, lançando um olhar desconfiado para a mesa da Lufa-Lufa, onde um grupo de alunos cochichava animadamente.
— Sentindo? Eu tô quase sendo consumida viva — respondeu, apertando o passo e desejando que a terra a engolisse.
Rowan ajeitou os óculos e murmurou:
— Acho que os boatos sobre a lista só aumentaram. Estão todos tentando descobrir quem é a garota que teve a ousadia de… como foi que ouvi ali? “Desprezar o inigualável ” — bufou, claramente irritada com o drama alheio.
fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.
— Ótimo. Agora, além de virar piada, eu sou uma espécie de lenda urbana.
— Olha pelo lado bom… pelo menos ele não saiu espalhando pra todo mundo que foi você. Podia ter feito, né? — Penny tentou consolá-la com um sorriso fraco, mas a amiga abriu os olhos e cruzou os braços, resmungando.
— É, bonzinho até demais… aquele convencido deve estar se divertindo horrores com isso. Não sei como ele ainda não veio encher meu saco…
Então, como se o universo tivesse decidido concordar, havia acabado de entrar no salão. Ela nem precisava olhar para saber. Era sempre assim: o ambiente parecia prender a respiração por um segundo, como se até os vitrais do castelo fossem obrigados a refletir melhor a luz só porque ele estava lá. Caminhava despreocupadamente, com o maldito sorriso que parecia capturar cada raio de sol que atravessava as janelas, e, ao seu lado, os amigos riam alto, batendo nas costas uns dos outros como se o mundo girasse mais leve ao redor deles.
— Ele se acha tanto… — resmungou, mais para si mesma, e Penny, que já estava prestando atenção em tudo, soltou um risinho.
— Você tá olhando sem piscar.
— Não tô — rebateu na hora, sentindo um leve calor subir pelo pescoço.
— Então você tá, apenas… observando com intensidade? — Rowan inclinou a cabeça, analisando com um sorriso de canto.
Mas, quando uma risadinha mais aguda ecoou pelo salão, sem perceber, ergueu os olhos, e lá estava ele, encostado casualmente na mesa da Corvinal, conversando com ninguém menos que Cho Chang.
Cho, com o cabelo brilhando à luz, um sorriso aberto que reservava para poucos, e que todos sabiam que já tivera algo com , por mais que ninguém confirmasse detalhes.
revirou os olhos, quase num ato automático, claro que por ele estar espalhando o charme barato de sempre. Então, por um segundo que pareceu longo demais, desviou o olhar e fitou-a diretamente por cima da cabeça de Cho, mas seu sorriso não vacilou — pelo contrário, pareceu até se curvar um pouco mais, como se tivesse gostado de encontrá-la ali, encarando. Como se fosse um predador, que finalmente havia achado a presa perfeita. prendeu a respiração e desviou o olhar tão rápido que quase derrubou os livros.
— Merlim… — Penny arregalou os olhos. — E você jurava que não era afetada…
— Mas eu não sou. — Ela ajeitou a postura, sentindo o rosto esquentar.
— Que bom, porque ele tá vindo aí — Rowan advertiu, observando andar na direção delas, o sorriso agora mais afiado.
— Falando de mim, ? Que coincidência agradável.
virou devagar, o estômago já se contorcendo, e o encontrou lá, com as mãos enfiadas nos bolsos do uniforme, o corpo levemente inclinado como se estivesse à vontade demais naquele cenário caótico.
— Pelo amor de Merlin… — murmurou, desviando o olhar. — Você me persegue, é isso?
O lufano deu uma risada baixa, inclinando a cabeça com um brilho divertido nos olhos cinzentos.
— Perseguir é uma palavra forte. Vamos dizer que… eu gosto de manter meus desafios à vista.
— Desafios? — ela bufou, sentindo o calor subir pelas bochechas. — Não me diga que você já vai começar com essa história de novo.
deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles com uma tranquilidade irritante.
— Claro que vou. Tenho uma lista para cumprir, lembra? — Sorriu, os olhos caindo para a boca antes de voltarem a encontrar os dela. — E hoje, , acho que tá na hora de começar pelo primeiro item.
— Você só pode estar brincando… — sentiu o coração dar um salto traiçoeiro no peito, mas, antes que pudesse reagir, ele estendeu algo: uma flor mágica, pequena e azulada, que brilhava levemente na palma da sua mão. Penny arfou, Rowan soltou um gritinho abafado. Ela, por outro lado, ficou imóvel, o olhar preso no gesto.
— Pra você… — disse, sem desviar os olhos. — Um gesto humilde do lufano convencido do time de quadribol.
piscou, o rosto queimando.
— Eu não quero essa flor, .
— Tem certeza? — Ele deu um passo à frente, diminuindo ainda mais o espaço entre os dois, e seu olhar desviou novamente até os olhos dela. — Porque, sinceramente… eu acho que você mente mal demais pra recusar.
— Para com isso… — sussurrou , a voz falhando, e sorriu, satisfeito por notar a fissura na muralha dela.
— Anotando aqui: item número um da lista… já meio riscado.
A corvina soltou o ar, tremendo de raiva — ou de algo mais quente e inominável — e arrancou a flor da mão dele, enfiando no bolso da túnica com violência.
— Se você acha que vai me afetar, tá perdendo seu tempo. E isso não o torna menos…
inclinou a cabeça, os lábios curvados em um sorriso que ela já aprendera a detestar.
— Ah, ia me esquecendo… — Estalou os dedos e, como num passe de mágica, alguns garotos se aproximaram com um cesto flutuante repleto das mesmas flores mágicas azuladas. — Hoje é dia de espalhar um pouco de encanto por Hogwarts, não é? — Piscou para antes de se virar, pegando duas flores e caminhando até as amigas dela. — Para você, Penny. Pra iluminar ainda mais seu dia.
A loira arregalou os olhos quando lhe estendeu a flor com um sorriso galanteador, aceitando, meio sem jeito, o rosto corando levemente.
— Obrigada… eu acho?
Rowan, por outro lado, ficou tão sem reação que apenas segurou a flor como se fosse uma peça rara de museu.
— Eu não… sei se isso é apropriado, mas… obrigada?
apertou os olhos, desconfiada, mas, antes que pudesse protestar, já se afastava com seus amigos, distribuindo flores às outras garotas no salão, que recebiam com sorrisos animados, risadinhas abafadas e olhares brilhando de adoração – exatamente o tipo de reação que a fazia revirar os olhos. As outras duas trocaram um olhar cúmplice e depois a encararam com expressões tão sugestivas que ela quase quis se enterrar debaixo da mesa.
— Você tá muito ferrada, . — Penny soltou um suspiro dramático.
— Nem me lembra… — ela murmurou, cruzando os braços e olhando feio para a flor no bolso, sem conseguir tirar da cabeça o modo como os olhos do lufano pareciam sempre voltar para ela — mesmo no meio da plateia sorridente.

tentava esforçadamente manter o foco no pergaminho à sua frente, com as amigas ao lado, cada uma mergulhada em seus próprios livros, enquanto a mesa do Salão Principal se enchia de anotações e rabiscos apressados. A pequena flor azulada repousava ao lado de seu livro, como se tivesse decidido que aquele era seu lugar agora – embora a corvina insistisse que a deixara ali só por acaso.
— Então… vai fingir que essa flor aí não significa nada? — Murmurou Penny, sem levantar a cabeça.
— Significa que eu ainda vou arrancar todas as pétalas dela, quando terminar essa redação — rebateu, a pena pressionando o pergaminho com mais força do que o necessário, até a largar na mesa com um suspiro frustrado, os dedos apertando as têmporas numa tentativa inútil de expulsar aqueles pensamentos inconvenientes da cabeça.
estava tentando estudar — Merlin sabia que estava —, mas, a cada vez que fechava os olhos para se concentrar, o sorriso, torto e presunçoso, e os olhos, que sempre pareciam zombar dela — como se soubessem exatamente o efeito que causavam — de surgiam em sua mente como uma praga persistente. Do outro lado do salão, ele se apoiava despreocupadamente na mesa onde seus colegas estavam sentados, rindo e conversando animadamente.

— Tá, mas fala sério, . Por que essa ideia de sair distribuindo florzinha mágica pra todo mundo? Desde quando você virou o príncipe encantado de Hogwarts? — Zach perguntou, ainda rindo, e o garoto deu de ombros, forçando um sorriso despreocupado. — Sei lá, só achei que seria divertido.
— Aham… — rebateu Ernesto, estreitando os olhos. — Não tem nada a ver com aquela tal lista, né? Porque eu tenho certeza de que só fizeram ela pra tentar zoar com você.
travou a mandíbula por um segundo antes de relaxar o rosto, e desviou o olhar, fingindo ajeitar a manga da túnica.
— Talvez eu só esteja entediado mesmo — respondeu, o tom casual demais para ser convincente, e os outros apenas trocaram olhares desconfiados, mas não insistiram. Ele, no entanto, desviou o olhar quase sem pensar, varrendo o salão até parar em , que ainda estava com as amigas, inclinada sobre um livro aberto, os lábios franzidos numa linha fina de concentração. Ao lado do livro, repousava a pequena flor azul que ele tinha dado — não enfiada no bolso como antes, mas deixada à vista, como se estivesse ali por acidente —, que parecia brilhar mais forte contra o tom gasto da mesa.
Sem perceber, sentiu um pequeno sorriso surgir nos lábios — involuntário, suave e rápido demais para que alguém notasse, mas impossível de conter. Depois, reparou nos dedos, que seguravam a pena com uma força desnecessária enquanto rabiscava algo no pergaminho. Mas, sem aviso e num gesto quase automático, os olhos se moveram até a boca dela, que mordia o lábio inferior com força demais, concentrada, como se quisesse afogar a própria irritação naquele trabalho inútil. Cada vez que os dentes apertavam, a pele ali ficava mais vermelha, mais sensível, e ele se pegou observando cada pequeno movimento, sentindo um músculo de sua mandíbula se contrair. Ele desceu mais, até as pernas esticadas debaixo da mesa, uma das meias um pouco caída, deixando a pele à mostra. A saia do uniforme subia quando ela se movia, distraída, completamente alheia ao fato de que estava sendo observada com tanta atenção. Então, respirou fundo e desviou o olhar rapidamente, como se aquilo fosse o suficiente para limpar a mente, mas não era. Afinal, podia até ter dito que preferia beijar um trasgo a cair no charme barato dele, mas nunca disse o contrário. E, se fosse honesto consigo mesmo, admitiria que, naquele momento, nem de longe conseguia pensar em trasgos.
achava que estava preparada. Depois da maldita flor brilhante, jurou para si mesma que manteria distância e que não deixaria mais afetá-la. Aquilo era só uma fase e logo ele se cansaria daquela lista idiota e voltaria a ser o garoto convencido que ela conhecia tão bem.
— E então? — perguntou Penny, ajeitando a trança atrás da orelha enquanto olhava ao redor do corredor superlotado. — Já pensou o que vai fazer quanto à lista?
— Não faço ideia — bufou, mantendo os braços cruzados contra o peito. — Talvez eu só precise aturar mais um pouco, até ele esquecer dessa palhaçada.
— Você acha mesmo que vai esquecer alguma coisa enquanto todo mundo estiver prestando atenção? — Rowan lançou um olhar cético.
Como se o destino gostasse de rir da cara dela, um grupo de primeiranistas tropeçou com uma pilha de pergaminhos e tinteiros, espalhando tudo pelo chão com um estrondo. A tinta escorria como uma mancha negra, penas voavam e papéis se espalhavam pelos pés de todos ao redor. No susto, as amigas acabaram esbarrando nela, que deixou os próprios livros e anotações caírem também.
— Maravilha — murmurou, ajoelhando-se para recolher seus pertences.
Foi quando ouviu uma voz surgir da multidão com uma rapidez irritantemente graciosa: — Ei, calma aí! — se agachou, ajudando os alunos mais novos com um sorriso tranquilizador. — Tá tudo bem, deixa que eu ajudo.
Não. Não. Não.
Claro que ele estava ali, no meio da confusão, recolhendo os pergaminhos como se fosse um herói perfeito — como sempre. Penny, que também havia se agachado para pegar os livros, não perdeu a chance:
— Oitavo item da lista: ele só se importa com ele mesmo, né? Tá ficando difícil manter isso…
Ela cerrava os dentes com tanta força que a mandíbula doía.
— Isso é cena… ele sabe que eu tô olhando.
Rowan arqueou uma sobrancelha.
— Ou talvez ele seja mesmo legal, . Todo mundo gosta dele por um motivo…
— Claro, porque o é perfeito, né?
Foi aí que os olhos dele se ergueram no meio da bagunça e, como se fossem guiados por um ímã, encontraram os dela. O sorriso que se formou em seus lábios foi lento, preguiçoso, carregado de uma certeza que fez o rosto de queimar. Ela desviou os olhos, sentindo a nuca esquentar, mas, antes que pudesse se levantar, estava ali.
— Deixa eu ajudar com isso — disse, já abaixado à frente dela.
abriu a boca para protestar, mas seus dedos acabaram se encostando quando ambos pegaram o mesmo livro, e ela puxou a mão rápido demais, como se tivesse tocado numa superfície quente. Seus olhares se encontraram novamente e algo ali a fez esquecer como se respirava por um segundo. não falou nada de imediato, apenas continuou olhando. E, Merlin, ele tinha um olhar firme, que parecia enxergar mais do que devia.
— Já posso riscar o oitavo item da sua lista? Ou vai inventar outra desculpa agora? — Quebrou o silêncio com um sorriso enviesado.
— Você só fez isso porque sabia que eu tava vendo. Quantos galeões pagou a eles para armar essa cena?
inclinou a cabeça levemente, o olhar descendo para sua boca por um instante antes de voltar aos olhos.
— Ou talvez eu só tenha um bom coração, . Vai saber…
— Com certeza, um coração enorme — retrucou, com sarcasmo.
deu um passo mais perto e sentiu o calor dele invadir o pequeno espaço entre os dois, um arrepio traiçoeiro percorrendo sua espinha.
— Sabe… quanto mais você nega, mais divertido fica pra mim — murmurou, a voz grave e arrastada, e soltou uma risada seca, tentando parecer no controle.
— Você tem problemas.
— E você tá começando a gostar disso. — Ele aproximou a boca da orelha dela, a respiração batendo contra a pele sensível, até ela empurrar seu peito com a mão, sem força suficiente para movê-lo de verdade.
— Sai da minha frente, … e fique longe de mim.
— Anotado — disse, piscando para ela antes de recuar e se afastar com aquele sorriso que parecia mais uma vitória silenciosa e um andar descontraído.
ficou parada no meio do corredor, o coração batendo tão forte que parecia ecoar nas paredes de pedra.
— Você viu, né? — Penny foi a primeira a falar, com um sorriso malicioso. — Viu a forma que ele te olhou?
— Não começa, Pen. — A garota lançou um olhar mortal para a amiga.
Rowan, mais contida, mas claramente divertida, ajeitou os óculos no nariz.
— Eu diria que aquilo foi mais do que só um olhar. Foi carregado.
— Foi só, sei lá, provocação. — cruzou os braços com força. — É o que ele faz, vive pra me irritar.
— Irritar? — Haywood arqueou uma sobrancelha, inclinando-se mais perto. — Porque, pra mim, pareceu que vocês estavam a um fio de distância de se beijarem no meio do corredor.
— Que exagero! — sentiu o rosto esquentar de novo, rápido demais, e Penny ergueu as mãos.
— Ok, ok. Só dizendo o que nós duas vimos.
Rowan deu uma risadinha, guardando um dos livros que quase tinham sido pisoteados. — E a parte dos dedos encostando? Quer que a gente finja que isso também não aconteceu?
— Foi sem querer! — Ela disse alto demais, atraindo olhares de alguns alunos próximos, e Penny mordeu o lábio para conter a risada.
— Claro, “sem querer”. Do mesmo jeito que vocês, “sem querer”, ficaram se olhando durante dez segundos seguidos.
apertou os olhos com força e soltou um suspiro longo, frustrado.
— Por Merlin… vocês estão me deixando maluca. Eu não senti nada, tá? Nada. Zero.
As duas trocaram um olhar cúmplice, e a loira murmurou:
— Aham, tão “zero” quanto o vermelho na sua cara agora.
virou de costas para as duas, como se isso pudesse esconder o rubor que sentia subir até as orelhas.
— Eu odeio vocês… — resmungou, fazendo Rowan rir.
— Não tanto quanto você “odeia” o , pelo visto.
— Eu tô adorando isso, sério. Esquece a lista. Esse clima de provocação tá muito melhor do que eu esperava.
Ela só queria que o chão se abrisse e a engolisse inteira. Então, determinada a recuperar o pouco de sanidade que ainda lhe restava, decidiu que precisava sumir dali antes que as amigas fizessem algum comentário que a deixasse ainda mais vermelha. — Bom, eu vou pra estufa. — Anunciou, ajeitando a bolsa no ombro e ignorando as caretas significativas das outras. — A última coisa que eu quero agora é perder a primeira aula porque as duas iludidas estão quase escrevendo “ ” dentro de um coração num pergaminho.
— Ótima ideia. — Rowan respondeu, sorrindo com leve sarcasmo. — Vai que o ar puro ajuda a esfriar a cabeça.
Penny segurou o riso, acompanhando as duas.
— Ou o calor da estufa só piora, vai saber.
revirou os olhos e apressou o passo antes que perdesse a paciência de vez. A estufa estava abafada, como sempre, com o cheiro de terra e folhas úmidas preenchendo o ar, e a professora Sprout já os esperava com um sorriso animado e as mãos cheias de terra.
— Muito bem, turma! — disse, batendo palmas. — Hoje vamos trabalhar com mudas de Botão-de-prata. O desafio é fazê-las crescer corretamente, nem mais, nem menos, usando o feitiço certo ou uma poção estimulante que vocês devem preparar com base nas instruções no livro.
ocupou seu lugar ao lado de Rowan e Penny, cada uma com sua própria muda. A dela se mexia sutilmente, as folhas ondulando como se zombasse da sua má reputação com plantas, porque, não importava quantas aulas passassem, herbologia nunca seria seu ponto forte.
— Vamos lá, só não explode… — murmurou para a muda, folheando o livro com a testa franzida
Foi então que, pelo canto do olho, ela viu , algumas mesas à frente, recuando satisfeito, com a muda perfeitamente crescida, folhas simétricas e flores desabrochando.
Claro que ele tinha que ser bom em Herbologia.
Revirou os olhos com tanta força que quase enxergou o próprio cérebro e, como se o universo estivesse empenhado em zombar dela, percebe-o se aproximar, com aquele andar relaxado e um leve brilho de suor na testa, parando exatamente ao lado da bancada dela.
— Precisa de ajuda? — A voz veio suave, próxima demais para o gosto dela, que fechou os olhos por um segundo, respirando fundo antes de se virar.
— Não. Tô ótima.
— Tem certeza? — Ele apontou para a muda, que parecia murchar só com a presença dela. — Porque essa planta já tá pedindo socorro.
percebeu as amigas trocarem olhares significativos logo ao lado, Rowan até mordendo o lábio inferior, claramente se segurando para não rir, enquanto Penny erguia as sobrancelhas, mas acabou fingindo que não viu.
— Vai cuidar da sua planta, .
— Já cuidei — respondeu ele, dando um sorriso preguiçoso e apontando discretamente para sua bancada. — Cresceu direitinho, como tudo que eu planto.
— Parabéns, quer uma medalha?
— Só tô tentando ser gentil — retrucou, inclinando-se um pouco mais, o tom agora baixo e provocante. — mas, se preferir continuar passando vergonha com a sua… técnica alternativa, tudo bem.
cerrou os dentes, o orgulho falando mais alto. — Tá bom. Quer ver a técnica alternativa? — Apontou a varinha, com mais raiva do que precisão. — Engorgio!
A muda tremeu e, por um segundo, pareceu que daria certo, mas a planta acabou crescendo descontroladamente, suas raízes se espalhando como serpentes enlouquecidas, folhas se esticando até alcançar outras bancadas e flores brotando em um único segundo, como se fosse primavera. Uma das folhas gigantes acertou um dos vasos, que caiu no chão com um estardalhaço, enquanto outro rolou até os pés da professora Sprout. deu um passo para trás, de olhos arregalados. A planta agora parecia uma criatura de filme de terror botânico. segurava o riso com dificuldade.
— Bem… pelo menos não murchou.
não respondeu, apenas encarando a planta como se quisesse que ela pegasse fogo ali mesmo.
— Senhorita ! — Sprout correu até a mesa, os olhos arregalados de pavor e admiração. — Isso é o que acontece quando não se domina a técnica antes de lançar um feitiço com força total! Olha essa bagunça!
— Professora, eu…
— Sem desculpas. Menos 50 pontos para a Corvinal… e detenção para a senhorita hoje, após o término das aulas. Vai ajudar a limpar toda essa estufa.
— O quê?
— Talvez assim aprenda a controlar melhor sua impulsividade mágica. — A professora completou, já se afastando, enquanto murmurava algo sobre “energia demais para pouca paciência”.
, ao lado, sussurrou quase com pena – mas nem tanto:
— Detenção por jardinagem agressiva. Esse é um novo recorde.
— Isso é sua culpa. — Ela virou o rosto devagar, fuzilando-o com os olhos.
— Só tentei ajudar. — Deu de ombros, ainda sorrindo. — Mas você é teimosa demais pra aceitar.
— E você é insuportável demais pra desistir.
Ele se inclinou um pouco mais, tão perto que era possível sentir o cheiro de terra e menta da poção que havia preparado.
— Já te disseram que você fica ainda mais bonita quando está irritada?
quase socou o nariz dele, mas apenas respirou fundo e virou de costas, fingindo estar mais interessada em limpar a bagunça botânica do que em responder.
Maldito .



A luz do fim da tarde tingia o céu com tons quentes de laranja e lilás, enquanto uma brisa suave passava pelas janelas entreabertas do castelo. caminhava em direção à estufa três com passos pesados, arrastando os pés como se estivesse indo para a própria execução. Ao empurrar a porta da estufa, sentiu o calor abafado do ambiente envolver seu corpo e o cheiro forte de terra úmida e folhas vivas invadir suas narinas. Sprout já estava lá, organizando alguns vasos em uma bancada próxima.
— Ah, senhorita — disse, sem tirar os olhos do que fazia. — Que bom que chegou pontualmente. Mas receio que eu precise sair por algum tempo para tratar um assunto com o diretor. — já abria a boca para dizer que poderia esperar, que não tinha problema, que até preferia, mas a professora foi mais rápida. — Pedi para um monitor te acompanhar na minha ausência. Ele já está aqui.
Ela virou o rosto, sentindo a raiva subir feito febre. estava encostado na porta da estufa, de braços cruzados e expressão tranquila. A luz do céu poente desenhava sombras suaves sobre o rosto dele e refletia nos seus olhos cinzentos — mais perfeito impossível.
Ótimo. Claro que é ele.
— Se precisar de fertilizantes especiais, há alguns guardados no armário, no fundo da estufa — completou Sprout, limpando as mãos no avental. — E, por favor, sem explosões dessa vez.
Antes que pudesse responder, a professora já tinha saído pela porta dos fundos, deixando um silêncio absoluto que contrastava com o caos barulhento da aula mais cedo. bufou, caminhando até a bancada e começando a mexer onde precisava ser reorganizado.
— Não vai dizer nada? — provocou, sem conseguir se segurar. — Não vai jogar na minha cara que eu estou aqui enquanto você, o senhor perfeito, é chamado para me escoltar?
ficou observando de longe por alguns instantes antes de falar.
— Estava esperando você admitir primeiro. Mas já que perguntou, eu fico lisonjeado, sabia?
— Por quê, exatamente? — ela perguntou, sem se virar.
— Por você ser tão constantemente irritada comigo. É uma forma intensa de atenção.
virou-se com uma tesoura de poda na mão.
— Quer que eu enfie isso onde?
— Calma. — ergueu as mãos, rindo baixo. — Só tô tentando aliviar o clima.
— Você é o clima, . O clima que eu queria evitar.
— Mas não consegue, né? — Ele se aproximou devagar, andando entre as fileiras de plantas como se tivesse todo o tempo do mundo.
— O que você quer? Só fica aí me olhando como se estivesse se divertindo com a minha miséria.
— E não estou?
— Tá bom… — deu as costas a ele, concentrando-se na bancada. — Se não vai ajudar, pelo menos fica calado. — O garoto não respondeu, apesar de sentir o olhar dele ainda preso nela. Depois de alguns minutos, soltou: — Preciso daqueles fertilizantes.
Determinada a terminar tudo o mais rápido possível, caminhou até o fundo da estufa, onde um armário de madeira antiga repousava meio escondido entre vasos e trepadeiras. Abriu a porta rangente e examinou as prateleiras. Os fertilizantes que ela precisava estavam dentro de uma caixa escondida no alto do armário. Esticou as pontas dos pés e encostou de leve os dedos na lateral do recipiente, mas sem força suficiente para puxá-lo.
— Cuidado com isso aí — avisou, aproximando-se ao vê-la tentar puxar a caixa pesada, a voz baixa, quase divertida. — Posso pegar, se quiser…
— Eu sei o que estou fazendo — rebateu, puxando com mais força.
se esticou mais e tentou puxar a caixa novamente, mas ela deslizou de forma abrupta, fazendo-a perder o equilíbrio e tropeçar para trás. , utilizando os reflexos de apanhador, agarrou-a rápido pelo braço antes que ela caísse de costas, mas acabou sendo arrastado na mesma direção. E, de repente, estavam assim: com uma mão firme em seu braço e a outra em sua cintura, os corpos colados, os rostos perigosamente próximos. O peito dele subia e descia lentamente, os olhos estavam cravados nos dela, escuros e intensos, e, por um momento muito breve, o olhar desceu para a boca dela.
— Eu avisei… mas tô começando a achar que você tá fazendo isso de propósito.
— O quê?
— Se meter em encrenca para que eu te socorra.
Ela arfou, empurrando o peito dele com as duas mãos e pondo uma distância pequena entre os dois, apesar de ainda sentir o toque das mãos dele queimando sua pele.
— E-eu não preciso da sua ajuda — respondeu rápido, evitando encará-lo.
— Assim como não precisou mais cedo na aula?
pegou a caixa do chão, ainda sem olhá-lo.
— Se eu explodir essa planta de novo, dessa vez vai ter sido de propósito.
O tempo passou devagar dentro da estufa. A corvina, agora de luvas e com terra até os cotovelos, limpava o canto de uma bancada onde vasos quebrados haviam espalhado pedaços de cerâmica e raízes por todo lado.
— Sabe que pode usar magia, né? — perguntou depois de um tempo em silêncio, encostado em uma mesa próxima, girando a varinha entre os dedos. — Seria bem mais rápido.
lançou um olhar cortante por cima do ombro.
— Eu sei, mas se você ficar me distraindo o tempo todo, corre o risco de eu acabar fazendo o telhado crescer.
— Não que isso fosse a pior coisa que já aconteceu numa estufa… ou a mais divertida.
rolou os olhos e voltou à limpeza, resmungando alguma coisa sobre “ego inflado” e “monitores convencidos”. Mesmo assim, segundos depois, ouviu um barulho leve de um feitiço sendo conjurado e viu os cacos de vaso flutuarem até se juntarem de volta à forma original, brilhando brevemente antes de ficarem sobre a bancada, como se nunca tivessem quebrado. Ela virou-se para , que segurava a varinha erguida com um sorriso enviesado no rosto.
— Eu disse que não precisava da sua ajuda.
— E eu acho que você claramente precisa.
limpou as mãos na túnica e caminhou até ele, parando a poucos passos de distância.
— Por que continua fazendo isso?
— Fazendo o quê?
— Se aproximando… provocando… olhando desse jeito.
— Que jeito?
Ela hesitou. Os olhos dele estavam mais baixos agora, observando a forma como os fios do cabelo dela escapavam do coque malfeito. Depois, voltaram a encontrar os dela, fixos, intensos.
— Como se… como se estivesse esperando eu ceder.
Ele deu um passo à frente, o suficiente para diminuir a distância entre os dois, e levou uma mão até o rosto dela, o dorso dos dedos tocando a bochecha levemente suja de terra. O toque foi lento, quase delicado demais para alguém que passava o tempo todo a provocando. Com um movimento ainda mais suave, começou a descer a mão pelo pescoço… pelo braço… pelo lado do corpo dela. ficou imóvel, os olhos arregalados, até sentir a mão se afastar até o bolso da calça e puxar um pedaço de pergaminho dobrado.
A maldita lista.
ergueu o papel, os olhos brilhando com um divertimento perigoso.
— Olha só o item nove… — leu devagar, a voz ficando mais baixa a cada palavra. — Aqueles olhos cinzentos não me afetam nem um pouco… nem quando ele olha daquele jeito que faz metade da escola suspirar.
A corvina sentiu o estômago afundar.

Mas ele já estava inclinando um pouco mais a cabeça, os olhos cinzentos presos nos dela, demorados, intensos.
— Desse jeito aqui? — perguntou, sem disfarçar o sorriso torto que começou a aparecer no canto da boca.
— Você é ridículo…
— Calma, ainda tem o dez… eu preferia beijar um trasgo a cair no charme barato dele… incluindo aquele sorriso torto irritante e a voz grave que, obviamente, não me provoca… absolutamente NADA. deixou o pergaminho baixar devagar e o sorriso ficou mais largo, mais perigoso. — Essa voz, ? — Sua voz saiu ainda mais baixa, quase num sussurro rouco que fez cada pelo do braço dela se arrepiar.
engoliu seco, odiando cada célula do próprio corpo por reagir exatamente como ele queria.
, se você não parar com isso agora, eu…
— O quê? Vai me beijar? Ou realmente prefere um trasgo? — Ele piscou, a expressão insolente e segura, como se soubesse exatamente o efeito que causava. — Talvez eu realmente esteja esperando você ceder…
Os olhos dela desceram involuntariamente para os lábios de , que imitou o movimento, mas, antes que qualquer decisão imprudente fosse tomada, virou o rosto bruscamente, afastando-se de uma vez.
— Não. — A palavra saiu rápida, firme.
Ced ficou parado, ainda inclinado, por um segundo longo demais. Depois ergueu o corpo lentamente, com um pequeno sorriso no rosto.
— Como quiser.
passou as mãos nos braços, fingindo procurar mais alguma sujeira para limpar.
— Isso aqui já devia estar limpo. Você poderia estar em qualquer outro lugar, mas está aqui só pra… pra…
— Te deixar nervosa? — completou ele, calmamente.
— Não estou nervosa.
— Tudo bem. — Ergueu as mãos em rendição. — É só que… se eu tivesse chegado um centímetro mais perto, você não teria me impedido. — Sem pensar, a garota empurrou o peito dele com as duas mãos, mas apenas riu, nem se movendo. — Tá ficando vermelha… deve ser o calor da estufa, né? Não tem nada a ver comigo.
Ela limpou a garganta, sentindo o corpo inteiro em alerta, mas tentando fingir exatamente o oposto.
— Vai se ferrar, .
— A qualquer hora, .
— Eu… vou terminar de limpar aquilo ali — disse por fim, apontando para um canto aleatório da estufa, sem encará-lo.
não respondeu de imediato. Quando ela arriscou uma olhada, ele ainda estava parado no mesmo lugar, com o pergaminho esquecido na mão e os olhos fixos nela. Mas, ao perceber que havia sido pego no flagra, apenas deu um sorriso curto — não o provocativo de sempre, mas um mais contido.
— Claro, vai lá.
Ela virou de costas e praticamente fugiu para o outro lado da estufa, os pensamentos um caos, o coração ainda acelerado demais para seu próprio bem. Conjurou um Reparo automático, sem nem saber o que estava tentando consertar, tentando ignorar o fato de que a presença dele continuava tão forte quanto antes. Minutos depois dela finalmente ter finalizado tudo, a porta da estufa se abriu com um rangido arrastado e a voz animada da professora Sprout invadiu o ambiente:
— Ora, ora… estão vivos! — anunciou, entrando com as bochechas coradas pelo frio do lado de fora. — Como estão indo as coisas por aqui?
lançou um olhar rápido para , que apenas deu um sorriso charmoso e respondeu:
— Tudo sob controle, professora.
Sprout olhou em volta, satisfeita ao ver os vasos inteiros, a bancada limpa e a estufa em ordem.
— Muito bem! Pode ir, senhorita . E obrigada, , por supervisionar.
pegou suas coisas, tentando não cruzar os olhos com os de ao passar por ele, mas falhou. Ele a olhava como se ainda sentisse o calor daquele quase-beijo. Como se estivesse guardando aquilo para a próxima vez. E ela odiava o fato de — talvez — querer que houvesse uma próxima vez.


O Salão Principal estava barulhento como sempre, cheio de alunos comendo apressadamente antes das aulas, vozes se sobrepondo em um zumbido constante. A mesa da Corvinal, porém, tinha um foco específico de tensão: , sentada entre Penny e Rowan, com os olhos faiscando de indignação e a mão gesticulando como se estivesse prestes a lançar um feitiço em alguém — ou em si mesma.
— Eu quase morri, Penny. Morri! — exclamou, as mãos se erguendo num gesto tão dramático que quase derrubaram a travessa de mingau da amiga.
Haywood inclinou o corpo para trás no banco, segurando a risada.
— E eu achando que você só tinha tropeçado numa caixa.
— Tropecei, sim. Mas foi o jeito que ele… — ela baixou a voz, lançando um olhar ao redor do Salão Principal lotado. — Me segurou! Foi… foi esquisito. Ele tava perto. Tipo… muito perto.
— Perto como…? — Khanna ergueu uma sobrancelha.
— Perto, Rowan! Rosto a rosto! E aí ele ficou me olhando daquele jeito arrogante, como se soubesse alguma coisa que eu não sei!
Penny mordeu o lábio inferior, disfarçando o sorriso.
— Você tá vermelha, Ali.
— É raiva, tá? Ódio puro — ela rebateu na hora, puxando a gola da blusa como se o calor repentino fosse culpa do tecido.
Rowan trocou um olhar cúmplice com Penny, antes de voltar para o prato.
— Claro, ódio. Do tipo que faz você ficar encarando a mesa da Lufa-Lufa desde que sentou aqui?
arregalou os olhos e rapidamente desviou o olhar do outro lado do salão, onde estava distraído conversando com os amigos, aquele sorriso fácil no rosto, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Como se não tivesse invadido o espaço pessoal dela, lido o maldito pergaminho e quase a beijado.
— Eu não estava encarando — disse, cruzando os braços. — Só estava… vendo se ele ia engasgar com o croissant.
Penny soltou uma risada.
— Isso definitivamente é ódio.
— Exatamente — confirmou, firme, mas a expressão vacilou quando olhou de novo para ele. parecia ter sentido, porque, naquele mesmo instante, virou a cabeça na direção dela e, claro, sorriu. Não um sorriso comum, mas aquele arrogante, presunçoso, perigoso. O sorriso torto que ele sabia muito bem que a irritava. Ela largou o garfo. — Eu odeio ele!
— E quando exatamente o ódio virou essa necessidade de contar cada detalhe com tanta… ênfase? — Rowan murmurou, com um sorriso de canto que entregava tudo.
— Eu só tô revoltada — insistiu, cruzando os braços. — Porque ele tá tentando rebater cada item da minha lista, como se… como se tivesse um plano.
— E se tiver? — Haywood apoiou o queixo na mão.
— Aí eu vou ter que acabar com ele antes que ele acabe comigo — resmungou, a testa franzida e o olhar perdido.
— Aham… — Penny disse, entediada, tomando um gole do suco de abóbora. — E você definitivamente não tá pensando em como teria sido se tivesse beijado ele ontem.
— Penny, eu estava sob pressão! Aquilo não significou nada! Eu nem queria beijar ele! — Rowan fingiu tossir algo que soou muito como “queria sim”, e atirou uma uva nela, erguendo o punho como se fizesse um juramento solene. — Meus lábios jamais tocarão o Zé Bonitinho .
Khanna deu um suspiro dramático.
— Certo… e as plantas da estufa três nunca mais vão tentar me agarrar de novo.
— Vocês são péssimas amigas.
— E, novamente, você tá completamente ferrada. — Penny sorriu. — Só digo uma coisa… quando você tropeçar de novo, e sabemos que vai, tenta cair direito dessa vez.
afundou o rosto nas mãos, soltando um grunhido de desespero enquanto, ao fundo, ria de alguma piada boba que Macmillan havia contado.


Continua...


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Eu amei escrever esse cap, é bom demais ela “odiando” cada provocação dele. E acho que já dá pra perceber que essa aproximação repentina tá afetando ambos, né? Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos… Espero que tenham gostado e comentem muito💙💛


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