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Revisada por Aurora Boreal 💫
Finalizada em: 12/06/2025

Verão Sollary

Esta é a história de como nos tornamos amigas e fizemos a esperançosa promessa de nos casar em um ano. As quatro donzelas mais encalhadas e desafortunadas de Londres, na busca pela tão sonhada aliança no dedo e um amor verdadeiro.

Alice Fletcher, Sollary, Emma Sollary e Olívia Miller.

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Londres de 1847


Toda a casa estava um alvoroço pelo baile que meus pais resolveram oferecer para os nobres e grandes comerciantes da cidade. Não contava nem duas semanas que saímos de Liverpool para Londres. Mas enfim, esse era o sonho de minha mãe, ser reconhecida pela sociedade e dar grandes festas, com os convidados mais requintados da aristocracia. Bufei um pouco, assim que a criada abriu as cortinas do meu quarto a mando de minha mãe, que já tagarelava em meus ouvidos. Tentei me cobrir mais, porém, os cobertores foram-me arrancados sem o menor pudor.
Vosso bom dia veio com olhar repreensivo dela.
, como podes ficar nesta cama quando o sol brilha do lado de fora? — Vosso tom alto, era o habitual de sempre.
— Acordei sentindo-me indisposta, por isso não ousei levantar — argumentei, olhando-a chateada.
— Pois trate de se levantar e tomar um banho de sol, vossa irmã já se encontra no jardim — disse, num tom de ordenança.
Um suspiro cansado…
Levantei-me contrariada e com a ajuda da criada, troquei as vestes.
Coloquei-me em frente ao espero e ajeitei o decote do vestido. Tinha que admitir que meu corpo não era tão pequeno quanto o das donzelas de minha idade, e meus fartos seios sempre chamavam a atenção por onde caminhava. Mesmo fazendo de tudo para mantê-los discretos, nunca conseguia o êxito que buscava. Retirei-me do quarto e segui até o jardim, antes pedi para que fosse servido meu desjejum ao ar livre. Se o sol mostrava-se tão belo assim, iria me aproveitar de tal instrumento da natureza. Emma, minha irmã, já se encontrava sentada à mesa, com um livro na mão lendo. Seu hobbie favorito.
— Emma — disse vosso nome, ao me aproximar e me sentar na cadeira a vossa frente.
— Bom dia, flor do dia. — Ela moveu o vosso olhar para mim e sorriu com graça. — Caiu da cama?
— Nem mencione tal coisa, parece-me que a diversão de nossa mãe é mandar e mandar — reclamei, chateada com a situação que sempre se repetia.
— Nossa mãe sempre foste assim. — Ela voltou o olhar para o livro, segurando o riso.
— Mas agora que temos posses, está pior. — Movi meu olhar para o mordomo que se aproximava com a bandeja de brunch.
— Senhorita Sollary, vosso desjejum — disse ele, ao colocar a bandeja sobre a mesa. Esperamos ele se retirar e voltei meu olhar para Emma.
— Pensastes sobre o que conversamos no jantar de ontem? — indaguei, retornando o assunto do dia anterior.
— Sobre casamentos? Ainda não estou inclinada a este assunto — respondeu ela, mantendo a atenção no livro.
— Mamãe disse que já estamos na idade de casar, bem, no meu caso, segundo ela, estou quase ultrapassando tal idade. — Peguei uma uva e coloquei-a na boca, saboreando vosso sabor doce. — Ter 20 anos não significa estar velha demais para o matrimônio.
— Diga isso aos nossos pais. — Emma riu mais abertamente — E a sociedade em que vivemos.
— Ah, que pressão. — Bufei de leve — Pelo menos vós não me pressionas a isso, já que não está ávida para casar-se.
— Bem, se a pessoa cujo meu coração acelera fosse o noivo, casaria-me amanhã mesmo. — Vossa voz soou esperançosa.
— Deverias ter se declarado ao Thomas antes dele entrar para o serviço militar — comentei continuando a saborear meu brunch. — Agora, ele conheceu outra dama e está noivo, perdestes a chance.
— Infelizmente, agora terei que me contentar em ser somente a amiga de infância que ele tanto trata como irmã. — Vosso olhar ficou triste.
— Cada qual com o vosso infortúnio — comentei.
Emma tinha vossa paixonite pelo amigo de infância.
Algo que nunca permiti-me sentir por nenhum homem que se aproximasse. Ao contrário de minha irmã mais nova emotiva, para mim o amor era algo lógico e racional, passando longe das linhas enganosas do sentimento. Afinal, não se ama com palavras, e sim com atitudes, demonstrações práticas e sutis de lealdade e fidelidade. Algo que não via dentro de minha própria casa, entre meus pais. Por isso, não acreditava no amor como a sociedade o apresentava e menos ainda me iludia com palavras doces de cavalheiros oportunistas.
As horas se passaram com os últimos preparativos para a recepção de meus pais, sendo supervisionados por minha mãe de forma detalhista. Mantive-me em meus aposentos até que os convidados começaram a chegar. Rostos que nunca tinha visto em minha vida, porém, vossos nomes na lista da entrada tinham grande significado para os negócios de papai. Desci as escadas de forma pomposa, olhando algumas pessoas passando pela porta da frente. Um dos rostos conhecidos era de lorde Bale e vosso filho de reputação duvidosa, o futuro conde de Bramley, senhor .
Já tinha ouvido rumores sobre o libertino mais cobiçado pelas donzelas da cidade.
— Boa noite, senhorita Sollary. — disse , ao aproximar-se de mim, e fazer uma breve reverência, pegando minha mão direita e beijando-a com vossavidade. — Está mais radiante esta noite.
Já havia cruzado o vosso caminho logo em meu primeiro dia em Londres.
Fato este que descarto qualquer possibilidade de lembrança.
— Agradeço o elogio, senhor Bale, mas guarde vossos adjetivos pomposos para as outras donzelas do salão. — O olhei com firmeza, em tom que transmitia segurança interna. — Não sou iludida como elas.
Afastei-me dele sem importar com o que pensaria de mim e aproximei-me de minha irmã, que se encontrava ao fundo do salão de dança. O olhar triste, rastros de frustração estampados em vosso rosto. Parei diante dela e analisei vossa má postura, enquanto se mantinha sentada na cadeira.
— Por que me olhas assim? — perguntou ela, limpando discretamente uma lágrima no canto do olho esquerdo.
— Porque conheço-a como a palma de minha mão, e percebo que não estás bem como deverias? — perguntei, sentando-me na cadeira ao vosso lado. — Sempre gostaste mais destas festas que eu… Aconteceste algo?
— Acabo de ver a noiva de Thomas com os vossos tios — respondeu ela, num tom mais baixo.
Peguei-me sem reação em como ajudá-la a enfrentar a vossa realidade.
— Emma, nem sei como consolá-la, sabes o que acho a respeito deste vosso sentimento, quanto mais o nutrir, mais ficará machucada — chamei-a a razão.
— Eu sei, mas não consigo deixar de amá-lo. — Ela se voltou para mim, com os olhos marejados de lágrimas. — Amo Thomas, contudo, ele nem mesmo sabe de meus sentimentos, e dizê-lo neste momento só tornaria tudo mais difícil e nossas vidas mais distantes.
— Bem, terá que deixar de amá-lo, pois agora que nossos pais querem nos casar, serás bem mais complicado a escolha. — Voltei meu olhar para os casais dançando de forma divertida ao som dos músicos. — Não quero casar-me com qualquer um, sabes que sou exigente em minhas escolhas.
— Sei muito bem. — Ela riu, baixo.
Passei meu olhar por todos os rostos dali, até que notei uma jovem dama olhando em nossa direção, achei estranho a primeiro momento. Parecia tão sozinha e descolada quanto nós, mas pelo menos esta era nossa casa. A passos lentos e desconfiados, a senhorita se aproximou de nós, parando a nossa frente. Tratava-se de Alice Fletcher, uma donzela tão desafortunada quanto nós, que ao perder o noivo para a morte, demonstrava desesperança.
Todavia, nossa vida ainda demonstrava um toque de otimismo pelo fato de nossas famílias serem conhecidas e não nos faltar prestígio. O que não poderia dizer da pobre Olívia, a criada que sem intenções adentrou em nossa conversa, compartilhando conosco vossas preocupações com seu futuro. Certamente para alguém sem um lar e pais para lhe apoiar, a vida era mais dura e cruel do que se possa imaginar. E com esta realidade de minha nova amiga, começo a sutilmente agradecer pelos gritos e desmandos de minha mãe, todas as manhãs. Nossa conversa foi produtiva e muito divertida, Alice parecia ser uma pessoa muito bem informada dos acontecimentos da sociedade, graças às influências da tia. E Olívia era uma garota tímida que não tinha sonhos grandes e mantinha-se na realidade sempre que possível.
Em Liverpool, eu e Emma não tivemos muitas amigas, ou melhor, não tivemos nenhuma. A entrada de Alice e Olívia em nossas vidas era uma novidade positiva que dava-me a chance de compartilhar meus anseios e temores sobre o futuro com donzelas que detinham as mesmas sensações de insegurança. Em um dado momento, afastei-me das damas e caminhei pelo grande salão, tentando ignorar os olhares dos cavalheiros para mim, ou melhor, para meu decote. Por uma imposição de minha mãe, a modelagem do vestido que havia escolhido, havia sido alterada pela modista.
Em vossas palavras, quanto mais atenções eu pudesse atrair com minhas sinuosas curvas, mais opções eu teria para escolher no final.
— Quanto desconforto — sussurrei para mim, ao finalmente chegar ao jardim de inverno, na lateral de nossa casa.
Atravessar o grande salão pareceu-me mais uma batalha medieval do que apenas uma dama em seus passos sutis e silenciosos em meio aos convidados. Voltei meu olhar ao céu, dando um suspiro cansado, apenas desejava recolher-me em meu quarto.
— A fuga dos olhares importunos. — A voz de um cavalheiro soou ao meu lado, despertando-me a atenção.
Assim que voltei minha atenção para a vossa direção.
— Vós… — Desapontamento, diria eu.
O olhar do senhor Bale estava fixo em mim, sendo sutilmente direcionado ao meu decote de segundos em segundos.
— Não deverias estar em outro lugar? — indaguei a ele, apenas desejando um momento de paz e solitude.
— Assim como a senhorita, reservei-me o direito de desaparecer por um tempo — explicou ele, com um sorriso de canto presunçoso. — Acredite ou não, é cansativo ser o cavalheiro mais desejado entre as donzelas.
— Imagino. — O ignorei a princípio e voltei-me para o horizonte, mantendo minha atenção ao jardim.
— A senhorita me intriga — continuou ele, insistindo em afirmar vossa presença no ambiente.
— Em que eu lhe desperto tal sensação, senhor? — indaguei, demonstrando não estar disposta a lhe dar muita atenção.
— A maioria das dama ambicionam ser o centro das atenções em um baile como este, e mesmo estando em vossa própria casa, sente-se desconfortável e desejando estar em oculto dos convidados — explicou ele, como se descrevesse com exatidão o que me passava internamente. — Percebo que a senhorita não gosta de receber olhares desejosos… Pois fora isso que os cavalheiros lá dentro lhe ofereceram.
— Me impressiona a vossa observação e interpretação do ocorrido — confessei de início. — Certamente por encabeçar tal tradição de ver as mulheres apenas como objetos de posse, algo para se ter prazer e filhos quando necessário.
Por infelicidade de acompanhar de perto alguns casamentos, era exatamente assim que enxergava as ações patriarcais de nossa cultura humana.
— Devo admitir que a senhorita está correta, em partes… Contudo, em minha percepção de um relacionamento, acredito que em ambos os envolvidos, o prazer deve ser mútuo… — Ele manteve seu tom cordial, enquanto construía o vosso argumento. — E quanto a filhos… Em nossa sociedade é uma obrigatoriedade apresentarmos herdeiros dentro de um matrimônio.
— O que não impede os homens de apresentá-los fora também — retruquei, ao mencionar a infidelidade de muitos maridos da elite londrina.
E não era apenas naquela cidade, como em todas as outras.
— Devo presumir que a senhorita está na defensiva? — indagou ele.
— Não, meu senhor, apenas digo a realidade em que nos encontramos. — Voltei-me novamente para ele. — Vais me dizer que um cavalheiro escolhe uma esposa, senão pelo seu dote e pelas curvas de vosso corpo?
— Interessante vossa observação — comentou ele, aparentando estar reflexivo.
— Não confirmaste e nem negaste, devo presumir vosso comentário como uma afirmativa? — continuei pressionando-o a admitir. — Uma confirmação de minhas palavras é o que presencio neste momento, em todo este tempo vossos olhos não conseguiram se distanciar do decote em meu vestido.
Notei que o havia deixado sem resposta.
— Agradeço por vossa honestidade em não negar o óbvio. — Dei o primeiro passo para afastar-me dele.
— O fato de meus olhos estarem direcionados à senhorita não significa que a vejo apenas como um objeto de desejo. — Vossas palavras diretas e precisas deixaram-me perplexa. — Apesar de despertar-me isso com facilidade.
— Bem, devo adverti-lo a não desejar o que não poderá ter — assegurei a ele, meu pensamento a vosso respeito. — Lhe asseguro que cavalheiros como o senhor… Apenas conseguem iludir damas carentes e sem amor próprio.
Fiz uma breve reverência e afastei-me dele.
Ao término da noite, minha mente estava em ápice do cansaço e nem existia mais a paciência para socializações. Na alta madrugada, fui despertada pela sede, o que ocasionou minha breve saída do quarto, ao passar pela porta de Emma, notei seus aposentos vazios, o que me preocupou inicialmente. Descendo as escadas, segui para a cozinha, com a finalidade de encontrar um jarro com água, antes de procurar por minha irmã.
— Emma?! — Em um tom baixo, disse vosso nome ao encontrá-la sentada no banco do jardim, posicionado em frente a fonte. — O que fazes acordada a essa hora?
— Deverias lhe perguntar o mesmo, — retrucou ela, não respondendo meu questionamento.
— Acordei sentindo sede — expliquei de minha parte. — E quanto a vós?
— Estava a refletir sobre o futuro — respondeu ela, dando um suspiro fraco. — Estás certa quando disseste para esquecê-lo.
— Novamente tal assunto que já deverias tê-lo encerrado? — Dei mais alguns passos até ela e sentei-me ao vosso lado. — Quanto antes esquecê-lo, melhor para vosso atormentado coração.
— Quem diria que minha racional irmã mais velha daria-me altos conselhos sobre o amor — comentou ela, rindo baixo.
— Ambas temos nossas visões individuais sobre o amor — confessei, inclinando o corpo para trás, apoiando as costas no banco. — Contudo, sabes que o que mais desejo é a vossa felicidade.
— Como sei. — Assentiu ela, inclinando-se também, apoiando a cabeça em meu ombro. — Deveria ser fácil para uma pessoa perceber quando estamos apaixonadas por ela.
— Minha inocente irmã… — Ri baixo, construindo minha fala. — Tudo na vida resume-se ao diálogo, nem sempre a pessoa ao lado vai entender o que desejamos transmitir, se não proclamamos verbalmente.
— Em certos momentos, me soa tão complexo declarar o que sinto — relatou ela, com ar de tristeza.
— Em raros momentos, nem mesmo entendemos o que sentimos — expliquei à ela, e filosofando. — Já diziam os sábios, a vida é um mar de rosas, e nós conseguimos transformá-la em espinhos.
E de fato era real.
Tudo em nossa vida dependia de uma simples decisão, minha irmã estava se encorajando a tomar a mais difícil de todas. Enquanto a mim… Uma pequena reunião com o grupo de donzelas amigas recém formado e uma lista de nomes promissores de cavalheiros solteiros, disponibilizada pela tia de Alice. Quem sabe dali eu poderia encontrar um que racionalmente encaixasse em meus requisitos estabelecidos.
De imediato, consegui notar o olhar discreto da senhora Smith para Alice, demonstrando descontentamento pela presença de Olívia, por ser de classe inferior à nossa. Conhecendo bem os nobres da aristocracia, certamente ela não aceitava nem mesmo a minha presença e de minha irmã, somente tolerava pelo fato do nosso pai ser o novo banqueiro próspero da cidade.
— O que achaste da famigerada lista de tia Charlot?! — indagou Alice, ao aproximar-se de mim.
Mantive minha atenção em minha irmã, que brincava com o cachorro da casa, um labrador extremamente fofo e carismático que parecia querer sempre abraços quentinhos. Enquanto do outro lado da sala, Olívia era orientada pela senhora Smith, acerca da possibilidade de um trabalho em Derbyshire.
— Confesso que interessou-me um ou dois nomes mencionados, contudo, teria que descobrir bem mais do que vossa tia possa me relatar — afirmei a ela, pensativa nas possibilidades. — Um bom pretendente vai além de vossas posses e status social.
— Isso é verdade… — Ela suspirou fraco. — Pego-me insegura se conseguirei encontrar alguém com tantas qualidades atraente quanto meu falecido noivo, todos os relatos que pude ter a respeito de Liam só fizeram aumentar meu interesse por conhecê-lo.
— Tens vossa tia para ajudá-la, certamente não sofrerá tanto quanto nós — assegurei. — E há quem esteja ainda mais desafortunada.
— Sim, a Olívia, é triste a vossa realidade — concordou.
Enquanto nossa esperança se mantinha acesa com nossos encontros semanais e cartas compartilhadas cheias de motivação, a vida se encarregou de mudar todos os planos para nós quatro. A começar por Alice, que precisou retornar a Limerick na mesma semana em que planejamos um chá com as damas solteiras da cidade. Segundo vossa carta, vossos pais tinham uma notícia para dar-lhe a respeito de um novo noivado.

Ao passar das semanas…

As coisas estavam se tornando um pouco mais complicadas para mim, ser a primogênita tinha pontos positivos e negativos, contudo, a parte desfavorável veio logo em uma sexta à noite, em que recebemos para o jantar o sr. Bale e ao vosso filho, . Minha mãe, como de costume em vossa imposição de autoritarismo, forçou-me a colocar o vestido mais provocativo que havia encomendado na modista há dias. Pareceu-me até algo previamente planejado de vossa parte, aquela mente meticulosa e perversa. Mantive-me em silêncio a todo o momento, ignorando os olhares intensos do senhor para meu sinuoso decote.
Um constrangimento de não esquecer-se com facilidade.
Certamente, qualquer que fosse os planos maquiavélicos de minha mãe, estavam por funcionar com precisão, para meu desespero. Após o jantar, nos reunimos na sala de música, para apreciarmos Emma e as vossas habilidades com o piano de calda, recém adquirido. E fora após dois sonetos de Mozart que o assunto da presença dos Bale em nossa casa fora esclarecido.
— Bem, mais uma vez agradeço-vos pelo convite — introduziu lorde Bale, com o olhar orgulhoso, como se tudo estivesse ocorrendo conforme deveria. — Sinto-me honrado por meu filho finalmente ter encontrado a noiva perfeita.
— Noiva?! — disse, num tom alto, fazendo até mesmo minha irmã parar de tocar.
O senhor em minha frente pronunciou a palavra noiva?
— Sim, minha querida. — Meu pai me olhou com um entusiasmo moderado. — Hoje pela manhã aceitei um acordo com lorde Bale e vosso filho a partir de hoje é oficialmente vosso noivo.
Engoli seco, sentindo como uma paralisia geral tomar conta de meu corpo.
— Já está ficando velha para se manter solteira querida — reforçou minha mãe, em um tom baixo e curiosamente discreto, sem o menor remorso em pontuar a minha idade, enquanto sentava ao meu lado. — Por isso, eu e vosso pai encontramos o melhor pretendente para vós.
Um grito ficou preso em minha garganta…
Voltar meu olhar para o cavalheiro em questão fez-me sentir enojada pelo sorriso debochado de vitória de . Aquele era o destino mostrando a realidade da minha vida, que por mais confortável que parecesse em relação a outras, como a de Olívia, também possuía seu peso da responsabilidade de honrar a família e dar bons exemplos à minha irmã. Para a nossa sociedade, uma mulher que casa após os 20 anos, era considerado quase uma desonra, porém, para os homens, estar solteiro aos 32 anos era sinônimo de liberdade e acesso a mais obscura libertinagem. E era esta a liberdade que parecia estar disposto a perder casando-se comigo, todavia, era um fato que o alto dote oferecido por minha mão, também fazia-se presente para dar mais peso a esta balança.
Em instantes, o anúncio deixou-me com sensação de sufocamento.
Como poderia eu casar-me com um libertino?
Pior, doze anos mais velho que eu!
— Está feliz com a notícia? — disse , ao aproximar-se de mim na entrada da casa.
Seu pai o aguardava na carruagem.
— Feliz em casar-me com um homem como vós? Jamais. — Voltei meu olhar para rua. — Se pudesse escolher, o convento certamente ganharia.
— Bem, acho que terás que acostumar-te com a nova realidade. — Ele manteve o vosso olhar em mim. — Pois mesmo que não o quisesse, devo casar-me com a filha do banqueiro para saldar as dívidas de jogo do meu pai.
Voltei meu olhar para ele, de imediato.
Em choque por vossa revelação dos problemas familiares, e ao mesmo tempo, confusa. As fofocas sobre lorde Bale ter um fraco por corridas de cavalo eram recorrentes pelos encontros das senhoras no parque, contudo, não imaginava a seriedade da situação. Ele afastou-se, seguindo para a carruagem, e partiu. Assim que retornei para dentro, coloquei-me frente ao meu pai, firme e séria.
Demonstrei desapontamento em meu olhar.
— Como podes papai? Comprar-me um marido? — A indignação transbordava dentro de mim.
— Do que estás a dizer, ? — perguntou Emma, com vossa inocência.
— Que nosso pai está a usar-me em vossos negócios e que o senhor Bale se casará comigo apenas para saldar as dívidas do pai. — Cuspi, de forma ríspida, a verdade para todos ouvirem, até mesmo os criados.
— Abaixe esse tom, . — Em ordenança, repreendeu-me minha mãe com firmeza. — Vosso pai só estás a fazer o que é melhor para as filhas.
— Ah, sim, então o que é melhor para mim? Ter um casamento como o vosso? Arranjado e por conveniência, onde vosso marido dorme todas as noites no quarto da criada? — Não me contive em jogar em vossa cara a realidade de nossa família.
Mamãe deu-me um tapa em minha cara, sem piedade.
Fazendo-me sentir o ardor em minha face, segurando as lágrimas de raiva que formavam no canto dos olhos.
— Mamãe! — Emma tentou conter a vossa reação, levando a mão na boca, assustada com a cena.
— Nunca mais ouse pronunciar tais palavras — ordenou ela, segurando-se para não olhar para a governanta, a pessoa a qual me referi.
— Já chega, as duas. — Meu pai elevou a voz, levantando-se do sofá. — Eu sou o chefe desta família e deves fazer o que eu mandar.
Seu olhar ameaçador cortou-me por dentro.
— Isla, conduza-a para vossos aposentos — ordenou meu pai à governanta. — E não sairá de lá até segunda ordem.
Segui para meu quarto acompanhada de Isla em lágrimas.
Não queria acreditar na reviravolta que a vida me trazia.
Por certo, aquela madrugada de outono seria mais fria e solitária que a próxima estação.

Passaram-se os dias…

Enquanto mantinham-me confinada em meu quarto, apenas sendo permitida a saída para as refeições diárias, meu alento veio através das cartas de minhas amigas. A de Alice fora extensa e recheada de detalhes, contando as novidades que lhe ocorria em Limerick. Não estava muito diferente de nós, seguia lutando por vossa felicidade. No dia seguinte, escrevemos uma resposta a ela e enviamos uma carta a Olívia também. Nossa amiga, desafortunada, havia se mudado para Derbyshire para finalmente trabalhar na casa da família Bellorum.
Cada uma de nós com vossa novidade e contratempo do destino. Com a distância, não conseguiríamos nos ajudar fisicamente e somente as cartas poderiam nos motivar a não perder as esperanças.
Assim, a sorte estava lançada para as quatro amigas.

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Quando queremos que o tempo acelere, mais ele caminha vagarosamente.
Para meu desespero, minha mãe já estava aprontando meu enxoval. Seu desejo era realizar a cerimônia no próximo verão, assim poderia ter minha lua de mel em Paris, como sempre sonhou para mim. As coisas acontecendo em minha vida e eu trancada no quarto, somente autorizada a sair para receber as constantes e entediantes visitas de meu agora noivo.
— Outra vez — disse, ao entrar na biblioteca, onde ele me aguardava — pergunto-me se não há mais nada de interessante para fazer.
— Vejo que amanheceu de bom humor — comentou ele, num tom sarcástico, mantendo o vosso olhar fixo em mim.
— Ver você me faz ficar assim — confessei, com serenidade.
Adentrei mais e me sentei na chaise.
— Deverias ser mais grata — disse ele, como se me repreendesse com sutileza.
— Como? — O olhei confusa.
— Deverias ser mais grata por me ter como noivo, a maioria das donzelas dessa cidade me cobiçam — completou ele, elevando sua superioridade como um pavão pomposo.
— Admiro vossa autoestima, contudo, faço parte da minoria que não liga para vós e vossos prestígios diante das iludidas da nobreza londrina — retruquei, rindo de leve.
— Vosso sorriso é belo, como vós. — Ele lançou-me um olhar mais intenso.
O que fez minha mente paralisar por segundos, até voltar-me a sanidade correta.
— Não estou sorrindo, estou rindo de vossa cara. — Dei de ombros e voltei meu olhar para o sol que entrava pela janela.
— Donzela indomável — sussurrou ele, ao se aproximar de mim, sentando ao meu lado. — Será mais fácil se aceitar a realidade e se entregar a mim.
— Senhor Bale, jamais o deixarei tocar em mim. — Me levantei, deixando o tom de sarcasmo em minha voz. — Tenha em mente que nosso casamento não passará de aparências, pelo menos valerá a pena para vós por saldar as dívidas de vosso pai.
Manter um casamento por conveniência como os meus pais seria meu pior pesadelo. Entretanto, o destino tinha-me reservado esse sofrimento e o enfrentaria de cabeça erguida. Algo tão preocupante, que não conseguia nem mesmo dar apoio a Emma com vossa dolorosa sina de amar o amigo comprometido. Mesmo ela dizendo estar bem e assegurando, falsamente para si própria, que o esqueceria.
Não me dispus de muito tempo na companhia de meu noivo, naquela altura de meu castigo, estar trancada em meu quarto havia se tornado mais confortável que ser forçada a recebê-lo todas as tardes na biblioteca.
— Senhorita Sollary — disse Isla, ao bater na porta. — Permita-me entrar?
— Sim, claro. — Assenti num tom baixo, fechando o livro em minha mão.
Minha leitura estava mesmo tornando-se cansativa.
Ela abriu um pouco mais a porta, revelando carregar algo na outra mão. Adentrou o quarto a passos cuidadosos e fechou a porta, então, colocou a bandeja com meu jantar em cima da escrivaninha.
— Agradeço — disse. mantendo-me sentada na poltrona, observando-a — Estou impressionada por não ser forçada a participar da refeição em família hoje.
Tentei a compreensão, mas soou com ironia.
— Senhorita. — Ela me olhou com carinho. — Posso falar-lhe por um momento?
Isla, em certos momentos, tratava-me com mais carinho que minha própria mãe, algo que me deixava intrigada. Por várias vezes pensei que pudesse ser a filha bastarda da empregada e do senhor. Não seria uma surpresa se minhas desconfianças fossem reais.
— Diga, Isla, o que desejas? — Mantive o olhar nela, curiosa.
— Saber se está bem. Com tudo que vem acontecendo — revelou, ao se encolher um pouco pela timidez da indagação.
— Na medida do possível, estou bem, sim. — Forcei um sorriso.
— Não é o que vosso olhar demonstra — retrucou ela, e dando mais um passo para perto de mim. — Sei que a vida da criadagem não é de vossa curiosidade… Mas minha família era muito pobre quando conheci vosso pai, me apaixonei no mesmo instante por ele, porém, sabia que jamais alguém como eu seria a altura dele. O filho do comerciante e uma indigente, no entanto, ele também apaixonou-se por mim, e até pensou que poderíamos fugir… Então, a realidade bateu à nossa vida, e ele foi forçado a casar-se com a vossa mãe.
— Por que estás a me contar isso? — perguntei, não entendendo o propósito.
— Confesso que é errado viver essa vida, ser a outra, atrapalhar o bom andamento de uma família. — Vosso olhar estava triste. — Mas eu o amo, e o fato disso acontecer com vossos pais não significa que acontecerá com a senhorita também. Podes ser feliz em vossa vida matrimonial.
Eu não podia julgá-la.
Isla precisava do emprego para ajudar a vossa mãe doente e os vossos irmãos, que também trabalhavam nos campos. Ser criada na casa de meus pais era vosso socorro financeiro. Era a vossa realidade perante a sociedade.
— Como poderei ser feliz? Isla, não és mais inocente, todos sabemos da grande reputação do senhor Bale, um libertino convicto, por isso, não acredito que tal cavalheiro possa amar-me verdadeiramente.
— E o que é o amor para vós? — indagou ela, confrontando-me.
— Tenho certeza que o que meu pai faz com vossa vida não é amor — rebati, com firmeza. — E sabendo a fama de conquistador de meu noivo, tenho certeza que se refugiará no quarto das criadas todas as noites.
— Não se ele apaixonar-se pela senhorita — retrucou ela. — Um homem quando está apaixonado e enlouquecido por uma mulher, jamais a deixa para se refugiar nos braços de outra.
— Não é o que vejo nesta casa. — Olhei com ironia, fazendo-a refletir sobre vossa situação com meu pai.
— Bem, saiba que este é o segundo motivo de eu não estar longe daqui — confessou ela. — Mas não vamos falar de mim, o foco aqui é a senhorita.
— Se estás ávida a aconselhar-me, tenha as honras? — Eu não a estava levando a sério.
— Faça-o apaixonar-se pela senhorita na noite de núpcias — disse ela, dando um sorriso tímido. — Conduza a noite de forma em que ele sinta a necessidade por mais, como se o ar que ele respirasse dependesse de estar com a senhorita em vossos braços.
Para uma criada tímida, ela não me parecia nem um pouco inocente em assuntos de tal natureza.
— Como se fosse fácil. — Suspirei, fraco. — Não sou uma mulher tão atraente quanto gostaria.
— Acredite, a senhorita é atraente o bastante a ponto de atrair o olhar de todos os cavalheiros para si por onde passas — assegurou ela, lembrando-me dos muitos ocorridos desconfortáveis. — Além de que, qualquer mulher consegue ser atraente para o vosso marido, basta apenas traçar a estratégia correta.
Vossas palavras deixaram-me reflexiva a princípio.
E fora estranho escutar os demais conselhos de Isla.
E todos eles havia aprendido no tempo que trabalhou para a família Lewis, antes de conhecer meu pai.
Mais dias passaram.
Tanto eu e certamente Emma, enviamos cartas às nossas amigas. Nossos desabafos em palavras nos traziam forças para aguentar os contratempos da vida. Olívia em vossa carta, relatou que passava por alguns conflitos com o sr. Bellorum, mas que tinha se apegado muito à pequena Molly, filha dele. Alice continuava em vossa busca, tendo Vincent Tenebrae como vosso guia para encontrar o noivo perfeito para ela. Era engraçado imaginar que minha amiga poderia casar-se com um padre, bem mais velho que ela.
Como se eu pudesse julgar algo sobre diferenças de idade.
Minha irmã, Emma, continuava a sofrer por vosso amigo de infância, ele havia retornado dos vossos serviços no exército. E ela tinha se encontrado com ele algumas vezes, para ajudá-lo com os assuntos de vosso casamento. Para piorar, Emma havia viajado para a casa dos pais de Thomas em Bradford, a pedido de nossa mãe. A sra Dominos só confiava no bom gosto dela para ajudar-lhe nos preparativos do jantar oficial de noivado.
E a louca aceitou a missão.
Minha irmã era masoquista e definitivamente gostava de sofrer.
No geral, nada mostrava-se fácil para nenhuma de nós.

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O convite de casamento de Alice para o final da estação chegou de forma repentina. Surpreendendo-me ao ler que o noivo era o padre casamenteiro. Na carta que mandou junto ao convite, ela nos relatava tudo sobre a inusitada declaração de lorde Tenebrae. Tanto eu quanto Emma ficamos felizes por ela finalmente ter encontrado o amor que tanto procurava. Seu casamento foi realizado em um domingo, uma ensolarada manhã de primavera, no castelo dos pais de lorde Tenebrae. Uma pequena festa oferecida para os amigos íntimos.
Era nossa primeira vez reunidas após a separação.
Havia algo que chamou-me a atenção, e não fora o belo vestido da noiva, mas sim, um vislumbre de felicidade que emanava de minha irmã. Nunca havia visto Emma com aquele brilho incomum no olhar. O que me intrigava um pouco, pois pela primeira vez na história, ela estava de segredinhos para mim. Não mais contando-me sobre os encontros de ajuda com o vosso amigo.
— Se casou com um padre — brinquei de leve, lançando-lhe um olhar malicioso. — Será que ele é virgem também?
? Olha os modos, que pergunta — Emma me repreendeu.
Nós quatro rimos daquilo.
Era bonito e motivador ver a felicidade de nossa amiga. A primeira a casar-se com um cavalheiro inesperado. Comecei a pensar, assim como ela, que se surpreendeu ao aceitar o casamento partido de uma promessa de vossos avós e encontrou a felicidade. Talvez eu pudesse também me surpreender com o senhor Bale. Afinal, minha mãe sempre dizia que eu era intensa como o verão, se tratando do meu gênio. E sim, uma dama questionadora como eu, que sempre queria ter razão em tudo. Meu lado racional dominava com precisão e ajudava-me em meus argumentos. Mas naquela batalha eu aparentemente havia perdido.
Casar-me com o senhor Bale não seria o maior dos problemas. Mas encará-lo em nossa noite de núpcias, isso sim, deixava-me apreensiva. Os dias estavam correndo com tanta pressa, que a cada proximidade da data da cerimônia, sentia meu coração se apertar ainda mais pela ansiedade do que poderia ou não acontecer. Se minha mãe em sua pompa de dama reservada não queria orientar-me sobre tal ocasião, tudo o que deveria ou não saber, obtive conhecimentos de Isla, que em seus minuciosos detalhes, desnecessários em algumas partes, deixou-me ainda mais assustada.
Assim que saímos da pomposa festa de casamento organizada com tamanha sofisticação e zelo por minha mãe, segui com meu agora esposo para a residência que meu pai havia nos presenteado. Uma propriedade ao centro de Londres, na área mais nobre da cidade com vista para o monumental Hyde Park. Nunca havia visto um lugar mais limpo, organizado, luxuoso e bem decorado.
Dois criados nos aguardavam para ajudar com as bagagens.
— Donna, agradeço pela ajuda, pode retirar-se agora — disse, assim que ela me ajudou a terminar de me trocar. — Tenha um bom descanso.
— Agradeço, senhora. — Ela fez uma breve reverência e se retirou.
Dei alguns passos até o espelho e alisei a camisola de seda.
Presente inusitado de , dias antes do nosso casamento, causando-me perplexidade imediata assim que desfiz o embrulho e li o vosso cartão de recomendações para usá-la em nossa primeira noite. Pergunto-me quais pensamentos maliciosos passavam em sua mente ao fazer isso. Minutos mergulhada em meus pensamentos, o barulho da porta se abrindo me despertou. Virei meu corpo e o observei entrar com tranquilidade e fechar a porta em seguida. Seu pijama também de seda era da mesma cor que o meu.
Proposital?
Certamente sim.
— Vim apenas para desejar-lhe boa noite — disse ele, mantendo a serenidade no olhar, permanecendo junto a porta.
— Como assim? Veio para dar-me boa noite… — O olhei confusa, com minha mente em desordem instantânea. — Onde vais em nossas núpcias?
— Posso ser um libertino e certamente nunca conquistarei a vossa confiança, mas nunca forcei uma dama a deitar-se comigo, todas as quais tiveram este privilégio, o fizeram por vontade própria — iniciou ele, mantendo a vossavidade, mesmo com o olhar sério. — Minha esposa não será a primeira.
Por segundos, peguei-me estática por sua declaração.
Jamais imaginaria uma postura de admirável cavalheirismo, talvez arrancando-me um breve vislumbre de admiração. Entretanto, lembrei-me quem de fato era o homem diante de mim, retornando ao meu lado racional e o deixando guiar minha reação final.
— Impressionante. — Cruzei os braços, trazendo a seriedade para minha face. — Mas é claro que sempre terá o quarto das criadas para lhe aquecer.
Insinuei abertamente sem piedade.
Não confiava mesmo nele.
— Então é isso que achas que farei? — O vosso olhar ficou um pouco mais profundo, demonstrando faíscas de irritação. — De libertino a marido infiel, é isso que pensas a meu respeito?
— Prove-me o contrário… E talvez, poderá ter tudo de vossa esposa. — Eu caminhei até ele, de forma sinuosa, deixando meu olhar um pouco malicioso. — Te darei uma noite de bônus, pois nosso casamento deve ser consumado para que seja validado.
Eu me inclinei para mais perto e o beijei de forma intensa e doce.
— Estás certa de que és o que desejas? — indagou ele, em uma respiração ofegante, após eu me afastar com leveza.
Mantive meu rosto próximo ao dele, o bastante para que sentisse minha respiração também.
— Se eu iniciar, não conseguirei parar — declarou ele, deslizando suas mãos por minhas costas.
— Acaso não me ouvistes? Não disse para parar — retruquei, ao fechar os olhos, já sentindo seus lábios molhados em meu pescoço.
Um risco a se correr, mas levaria os conselhos de conquista que Isla me dera adiante. Não sabia bem o que estava fazendo, mas quanto mais eu me entregava ao meu esposo, mais ele pedia permissão para saciar vosso desejo por mim. Algo que achei não existir verdadeiramente, porém, testificando ao longo da madrugada. O senhor Bale não se continha em demonstrar sua sede por mais.
Na manhã seguinte, mantive-me deitada ao acordar.
Demorou um pouco para meu corpo ainda sonolento chegar ao lugar e sentir-me disposta a levantar. Com os olhos fechados, senti a mão de acariciar meus cabelos. Nossa noite de verão havia sido ainda mais calorosa do que imaginava que seria, principalmente com as vossas carícias maliciosas, que o levou a fazer um mapeamento completo de cada centímetro de meu corpo. Me remexi na cama espreguiçando e abri os olhos lentamente, para me acostumar com a claridade. Deparei-me com um sorriso fofo e um olhar carinhoso vindo dele, que já se aproximava para me beijar.
— Perdoe-me, mas não. — Toquei vossos lábios com o dedo indicador, dando um sorriso maléfico. — Eu disse que teria o benefício de uma noite apenas… Amanheceu, meu senhor.
— Estás mesmo dizendo-me isso? Depois da noite que tivemos? — Vosso olhar demonstrou a indignação sentida.
Algo que era esperado.
— Achou mesmo que em uma noite conquistaria-me? — Me aproximei um pouco mais dele, para seduzi-lo. — Terá que fazer bem mais do que isso para ter-me novamente.
— Não podes fazer isso comigo? — Um tom de frustração soou de vossa voz.
— Já estou fazendo, senhor meu marido. — Me afastei dele e levantei-me da cama, me espreguiçando um pouco.
Logo senti vossas mãos envolverem minha cintura, aproximando meu corpo do dele. Confesso que senti meu coração acelerar um pouco. Ah, não, não permitiria que sentimentos atrapalhasse meus planos de uma boa partida de xadrez invisível com o libertino em questão. Minha razão manteria-se no controle.
— Não me peças para imaginar-me sem te tocar. — Em um movimento, virou-me para olhá-lo.
— Peço-vos desculpas por ser portadora de más notícias… — iniciei com sarcasmo, segurando o riso. — Mas terás que se esforçar, além do que imaginas...
Pousei minha mão em vosso tórax, olhando-o com seriedade, afastando-o um pouco.
— A não ser que reveja vossas palavras e me force a algo que eu não quero. — Usei a vossa declaração contra si próprio, sem a menor compaixão.
Mantive a segurança no olhar, até que ele afastou-se. Eu não conseguia acreditar que em uma noite havia deixado totalmente encantado por mim, mas gostava da ideia de continuar seduzi-lo e torturando-o.
— O que quer que eu faça? — Vosso olhar estava mais atento.
— Já disse, prove-me que podes viver sem a vida de libertinagem, que podes ser o homem de uma única mulher — disse, tranquilamente.
— Acha que não consigo ser fiel à minha esposa? — retrucou ele.
— Confesso que a vossa pessoa não me transmite credibilidade e segurança. — Cruzei os braços, dando uma risada sarcástica. — Agora, poderia deixar-me sozinha em meus aposentos? Tenho certeza que o quarto ao lado será confortável a vós.
Ele respirou fundo e em silêncio, retirou-se.
Não contive-me em deixar um sorriso de satisfação sair em meu rosto. Mais do que nunca, precisaria manter o foco em meu plano de conquista. As semanas passaram comigo observando o comportamento de , enquanto discretamente, eu o provocava de forma sinuosa. Era divertido ver o vosso olhar intenso de desejo reprimido, voltado para mim. Algo que infelizmente fazia meu coração acelerar ainda mais. Não negaria que nesta altura meus sentimentos pareciam se inclinar a ele, contudo, racionalmente, não admitiria e nem deixaria-me levar por vossos frequentes pedidos de carinho, como uma criança carente, ao bater em minha porta todas as noites.
A neve havia caído de forma surpreendente naquele dia.
Deixando tudo ainda mais frio e monótono. Tarde de inverno, escolhemos a biblioteca de nossa casa para passar o tempo, ele lendo pela décima vez o jornal do dia, e eu com um livro qualquer de história da arte nas mãos. Em um dado momento, minha atenção voltou-se para ele de forma espontânea, ele mostrou um hábil esforço para concentrar-se na leitura. De repente, lembrei-me de nossa primeira noite e o pulsar do meu coração foi mais forte.
Talvez, estivesse com saudade de vosso beijo arrebatador.
E focar meu olhar em vossos lábios não ajudava-me.
— Me queres longe, mas não consegue deixar de observar-me — comentou ele, fechando o jornal e movendo o vosso olhar para mim.
— Não estou a te observar — desconversei, desviando a atenção para a janela, vendo a neve que caía do lado de fora. — Que presunçoso.
— Então por que me olhas assim? — Ele se levantou da cadeira e lentamente se aproximou de mim. — Me desejas tanto quanto eu te desejo.
— Vossa autoestima está muito elevada hoje. — Fechei o livro e me levantei da poltrona. — E continua enganado.
Deixei o livro na mesa de apoio ao lado e dei o primeiro passo para passar por ele em direção a porta. Entretanto, a vossa mão direita me parou no caminho, ao tocar em minha cintura. Prendi a respiração de imediato, então soltei um suspiro sentindo meu coração acelerar.
— Então diga estas palavras novamente, olhando em meus olhos. — Ele se aproximou mais, com vosso charme sedutor. — Diga que não me quer.
— Eu… — Respirei fundo, sentindo vossa mão deslizar por minhas costas, fazendo meu corpo arrepiar-se no processo. — Não…
— Diga. — Ele se aproximou ainda mais. — Diga que não me quer.
A quem eu queria enganar.
O feitiço virou-se contra o feiticeiro, e sentia-me por demasiado apaixonada por ele. Havia duas escolhas diante de mim: negar o óbvio, ou deixar-me ser guiada por aquele amor imprevisível que se colocou em minha vida.
E deixando a razão de lado, joguei-me em vossos braços movendo meu corpo para beijá-lo.
Iniciaria o mais intenso e malicioso momento de nossas vidas.
Elevaria nosso amor tão ardentemente que até mesmo a neve do lado de fora derreteria.

Épocas quentes, quando você abriu meus olhos
Toda a minha vida, eu só preciso de você
E eu preciso reconhecer,
Que mesmo se você disser que não me quer ou me fizer sofrer
Você vai ser a única pessoa pra mim.
- Hot times / SM The ballad

Escolhas: Esta não é a história que eu quero lembrar, é a história que eu quero viver.” - by: Pâms





Fim.


Nota da autora: Welcome to Pâms' Fictionverse!!!
Fic integrante da Saga 4 Estações do Amor - Segunda história.

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