Revisada por Aurora Boreal 💫
Finalizada em: Janeiro/2025
A mulher segurava a pasta azul-escura contra o corpo com uma firmeza quase instintiva, como se temesse que alguém pudesse arrancá-la de suas mãos. Seus saltos altos ecoaram no piso de mármore enquanto ela atravessava a sala e escolhia o banco de madeira mais afastado da porta, acomodando-se com a elegância prática de quem sabia que aquele dia seria longo.
Decidiu reler o caso pela enésima vez, embora soubesse cada detalhe de cor. Ela abriu a pasta sobre o colo, os dedos deslizando automaticamente pelas páginas já marcadas de anotações e post-its coloridos, os dedos ágeis folheando as páginas já conhecidas.
O caso era simples... no papel.
A ONG que representava havia acionado a Justiça para exigir, com base na Lei de Acesso à Informação, os relatórios sobre o uso de pesticidas em terrenos próximos a escolas públicas. Um pedido direto, respaldado pela lei, motivado pela preocupação legítima com a saúde das crianças.
Em teoria, era o tipo de causa que deveria ser fácil de ganhar.
Mas, como quase tudo na vida real, havia um porém. Um porém robusto, com influência política e advogados caros: a empresa estatal responsável pelos documentos. Oficialmente pública, mas, na prática, administrada como um feudo pessoal por um dos empresários mais ricos — e perigosamente bem relacionado — da cidade.
Sabia que enfrentaria uma parede de manobras judiciais, argumentos vazios e tentativas de empurrar o caso até que a opinião pública se distraísse com outro escândalo qualquer.
A porta rangeu ao se abrir de novo. surgiu como uma rajada de vento — terno impecável, gravata ligeiramente desalinhada, o rosto parcialmente escondido atrás de uma pilha de papéis que mal conseguia equilibrar. A pressa estava estampada nele, como sempre. Ele empurrou a porta com o cotovelo, distraído, até que seus olhos cruzaram com os dela.
O ar da sala pareceu ficar rarefeito.
não se moveu. Apenas ergueu uma sobrancelha, um gesto pequeno, afiado, que dizia tudo sem uma palavra. Por um instante, congelou. Não mais que uma fração de segundo, mas o bastante para que seus dedos cerrassem a pilha de papéis nas mãos, amassando discretamente as bordas.
— . — A voz dele soou leve, quase casual, mas carregava uma tensão difícil de disfarçar. — Que prazer... inesperado.
cruzou a sala com passos firmes, cada movimento medido como se encenasse uma tranquilidade que não sentia. Sentou-se no banco diante dela com a naturalidade de quem não carrega peso algum, mas o silêncio entre eles dizia o contrário.
Recostou-se, cruzando as pernas com um desleixo ensaiado, os ombros relaxados como se estivesse à vontade. Mas , que o conhecia melhor do que gostaria, notou o leve balançar do pé. O mesmo tique de sempre, discreto, mas inconfundível. Um sinal de incômodo, ou de raiva contida. Talvez dos dois.
— — respondeu, o nome saindo seco, carregado de ironia mal disfarçada.
Ela segurou a pasta contra o colo, os dedos roçando o couro envelhecido como se o gesto pudesse ancorá-la no presente. Três anos. Era esse o tempo desde que estiveram frente a frente sem a moldura formal de um tribunal entre eles. E, no entanto, bastou um segundo para que o perfume dele a alcançasse — familiar, inconfundível — trazendo de volta lembranças que ela preferia manter trancadas.
Odiava saber disso. Odiava ainda mais que o cheiro trouxesse memórias que deveria ter enterrado.
inclinou a cabeça para trás, os olhos fixos no teto como se encontrasse ali algo mais interessante do que a situação à sua frente. O tédio era claramente teatral.
— Chegou cedo... ou será que eu me atrasei? — perguntou, arrastando as palavras com uma ironia preguiçosa. — Não achei que você fosse abandonar seu charme habitual de chegar depois do horário.
inspirou fundo, devagar, como quem contava silenciosamente até dez. Não lhe daria o prazer de uma resposta impulsiva. Com toda a calma, baixou os olhos para os papéis à sua frente, fingindo reler anotações que já sabia de cor.
— Agora que sei que você representa o outro lado — disse, sem sequer olhá-lo —, faço questão de estar aqui antes.
Ele soltou uma risada curta, abafada. Recostou-se no banco com ares de despreocupação, mas seus olhos seguiam fixos nela. Cada detalhe parecia prender sua atenção: o corte mais moderno do cabelo, o jeito concentrado com que ela franzia a testa, os saltos que acentuavam o movimento preciso de suas pernas.
Não que estivesse interessado, claro. Era apenas observação estratégica. Análise de oponente. Informação útil para a batalha.
— Ainda desconfiada, hein? — murmurou. — Que alívio. – E, de fato, havia algo reconfortante em ver que ela continuava a mesma. — Achei que, com o tempo, você tivesse superado essa mania de me pintar como o vilão da história.
ergueu os olhos com a lentidão de quem mira com precisão. O sorriso que ela lhe ofereceu era doce demais para ser gentil.
— Vilão? Não — respondeu, a voz suave e afiada. — Vilão tem motivações. Você sempre foi só... conivente.
A frase atingiu o alvo com perfeição. Por um segundo, o sorriso de vacilou. Um instante quase imperceptível, mas real. Como sempre, porém, ele se recompôs depressa.
— E você sempre soube usar isso a seu favor, não é, ?
Antes que pudesse retrucar, a porta interna do fórum se abriu com um rangido prolongado, interrompendo-os.
O oficial anunciou o número do processo e ambos se levantaram quase ao mesmo tempo, quase num reflexo automático de anos treinados no embate jurídico. , sempre o cavalheiro estrategicamente irritante, segurou a porta para que ela passasse. passou sem agradecer.
Deu um passo, dois, e então parou. Virou-se ligeiramente e o encarou, soltando uma risada curta, seca.
— Não acredito que estamos em lados opostos de novo. Achei que nossa competição tinha ficado nos TCC's e nos debates sobre jurisprudência.
arqueou uma sobrancelha, o sorriso agora menos cínico e mais... perigoso. Havia algo ali que ela preferia não identificar.
— Desta vez, o prêmio é maior.
Entraram juntos na sala de audiências, lado a lado, porém, separados por um abismo invisível. Um feito de mágoas antigas, orgulho ferido e algo ainda mais instável: tensão não resolvida.
Naquele momento, ninguém ali — nem mesmo eles — sabia que o reencontro reacenderia muito mais do que a rivalidade adormecida. Em poucas noites, estariam dividindo mais do que argumentos e provocações.
As notas mais altas? Dele.
Os elogios dos professores? Frequentemente ditos em voz alta, diante da turma inteira.
Os estágios mais disputados? De alguma forma, caíam em seu colo como se ele tivesse nascido para aquilo, mesmo que seu currículo não fosse tão diferente do restante da classe.
Havia algo em que abria portas. Um carisma tranquilo, uma confiança silenciosa. Era como se o mundo, sem perceber, estivesse levemente inclinado a seu favor. , por outro lado, sentia que não podia contar com o mesmo magnetismo. Ela era excelente e todos sabiam disso. Ela sabia disso. Porém, por mais que se dedicasse, por mais que corresse, a linha de chegada parecia sempre se mover um passo à frente.
Em direção ao .
não sabia dizer se o que sentia era inveja… ou apenas orgulho ferido. As duas coisas costumavam se misturar de um jeito difícil de separar. Mas ela reconhecia bem aquela sensação incômoda: a de ser ignorada mesmo quando dava tudo de si. De ser vista como “muito boa”, mas nunca “a melhor”. Como correr uma maratona em que os aplausos estavam sempre voltados para outro. Mesmo quando chegava quase junto, mesmo quando superava expectativas.
A formatura não encerrou a rivalidade entre e . Ela apenas passou a acontecer no mundo profissional, com tons mais duros.
A última vez que e haviam trocado palavras foi naquele dia específico — tenso, abafado e difícil de esquecer — em que foram chamados para o processo seletivo interno. A vaga em disputa era uma das mais cobiçadas da empresa: uma posição de destaque em um dos escritórios de advocacia mais respeitados do país. O mesmo onde, agora, construía carreira.
se preparou com afinco. Revisou jurisprudências, refez relatórios, organizou apresentações impecáveis. Não era apenas esforço: ela acreditava de verdade que aquele reconhecimento era dela por direito. Por mérito, por entrega, por tudo o que havia enfrentado para chegar até ali. Ela estava pronta. Estava confiante. E, por um breve momento, acreditou que o sistema veria isso.
Mas, no fim, foi quem saiu com a vaga. Outra vez.
Ele entrou na sala sorrindo, agradecendo com aquela humildade polida que tanto irritava , como se ele não tivesse acabado de tirar dela algo que ela acreditava merecer com cada fibra do próprio esforço. Tinha sido apenas mais uma decisão corporativa, rotineira até, mas, para , aquilo foi a confirmação de tudo o que ela sempre temeu: não apenas era uma profissional medíocre, como também uma invejosa de marca maior.
Porque, no fundo, sabia que merecia aquela vaga. Tinha visto a nota dele, assistido à apresentação e ele foi impecável. Sabia que aquela conquista não foi resultado de sorte, nem de favorecimento. Não houve golpe baixo. Foi mérito.
E justamente por isso doía mais. Porque não havia a quem culpar, nem injustiça real a denunciar. Só restava o gosto amargo de admitir que ela era uma orgulhosa ressentida. E, pior ainda... uma fraude.
sentia vontade de esmurrar algo toda vez que lembrava que ela e tinham a mesma profissão. Porque isso significava que dividiam mais do que diplomas: compartilhavam referências, autores favoritos, eventos jurídicos e até alguns amigos em comum.
Era como se a vida tivesse decidido que eles estavam fadados a se esbarrar, sempre.
O juiz pigarreou, trazendo de volta para o presente. Ele ajeitou os óculos na ponta do nariz e folheou os autos com um cenho franzido.
— Doutora , a senhora protocolou todos os pedidos formais previstos no mandado?
apertou os lábios, disfarçando o sorriso que ameaçava surgir diante da pergunta do juiz Carmeli.
Na época da faculdade, quando poucos tinham acesso a computador ou celular, fazia tudo à mão. Escrevia rápido, com determinação quase agressiva, como se o pensamento precisasse sair antes que escapasse. A letra era uma confusão de curvas e ângulos, difícil de ler à primeira vista, mas bastava insistir um pouco para que o conteúdo revelasse sua força.
As palavras, embaralhadas visualmente, refletia a urgência de quem sabia exatamente o que queria dizer. E, apesar da desordem na forma, o conteúdo era sempre afiado. sempre relia os textos de , fingia que era apenas para contribuir academicamente, mas na verdade, ele procurava algum erro, uma distração, algo para questionar. Quase nunca encontrava.
nunca escondeu de ninguém que achava genial. Só que ela gostava de agir como se nem percebesse, fingindo que não sabia que ele meio que a venerava.
De volta à sala de audiência, se adiantou, a voz carregada de falsa inocência: — Meritíssimo, com todo respeito... Está tudo protocolado, sim. Só que com letra de médico.
O juiz lançou um olhar de leve reprovação, mas não conseguiu esconder o canto da boca levantando num quase sorriso.
— Doutor , não sabia que já era especialista em decifrar hieróglifos. Talvez devesse trabalhar como tradutor — retrucou, brincalhão.
— Lamento que meus protocolos não tenham vindo acompanhados de ilustrações infantis, doutor . Imagino que facilitaria sua compreensão — respondeu, quase irritada com a provocação e o tom cordial entre ele e o juiz.
O juiz pigarreou, reprovando com o olhar, mas não interferiu. Estava acostumado com aquele tipo de provocação entre advogados.
— Sempre espirituosa, . — abriu um sorriso amplo, claramente se divertindo.
— É !
— Mudou de nome? — provocou.
O juiz pigarreou novamente, dessa vez com mais firmeza: — Se os senhores puderem se concentrar no objeto da audiência...
Ambos endireitaram a postura como alunos repreendidos. O juiz ajeitou os óculos mais uma vez e retomou a leitura do processo, agora ignorando as farpas que ainda faiscavam no ar.
— Muito bem... — começou, com a voz entediada. — Passando ao mérito da questão... A questão é simples. O Estado deve fornecer, de forma completa e adequada, os relatórios de uso de pesticidas em áreas escolares, conforme pedido da impetrante. A defesa alega sigilo industrial. Correto, doutor ?
— Exato, Meritíssimo. — Ele ajustou levemente a gravata frouxa. — Não se trata de mera resistência burocrática. Estamos falando de informações sensíveis sobre métodos de produção e fórmulas químicas protegidas por segredo comercial. Torná-las públicas colocaria em risco toda a cadeia produtiva agrícola da região.
dominava a arte de argumentar. Mesmo assim, percebeu: ele não estava cem por cento convencido. Só dizia aquilo porque era sua função.
— Meritíssimo, estamos falando de dados que impactam diretamente a saúde de crianças e adolescentes. Não estamos pedindo a fórmula da Coca-Cola. Queremos apenas saber sobre o uso de produtos químicos perto das escolas públicas. Transparência é obrigação. Sigilo não pode virar escudo para práticas que podem fazer mal.
— Não é escudo, . É a lei! — rebateu , com aquele tom provocador que ela conhecia bem.
Antes que pudesse responder, o juiz Carmeli levantou a mão, pedindo silêncio. Ele fez algumas anotações, piscou para os dois e falou, exausto daquela tensão que parecia ser pessoal e não profissional: — Vou analisar os pedidos com calma. As partes serão notificadas.
Com uma batida seca do martelo, o juiz deu fim à audiência. Por um momento, a sala mergulhou em um silêncio espesso, como se ninguém soubesse muito bem como sair dali. Aos poucos, cadeiras rangeram, passos ecoaram e as vozes começaram a soar de novo.
começou a recolher seus papéis com uma calma ensaiada, sentiu a presença dele antes mesmo de levantar os olhos.
— Dramática — murmurou ao passar por ela.
— Previsível — retrucou, sem desviar o olhar das folhas.
O bar próximo ao tribunal de justiça era pequeno e discreto, quase como um refúgio secreto. A maioria das pessoas que passava pela fachada modesta nem suspeitava que ali funcionava um bar. Para os que pertenciam ao meio jurídico, porém, era um ponto conhecido: um esconderijo silencioso, onde se podia afrouxar a gravata e deixar os processos do dia dissolverem-se em álcool e silêncio.
A luz amarelada das luminárias fazia sombras nas paredes de madeira escura. Atrás do balcão, as garrafas estavam alinhadas com cuidado, como se esperassem alguém que quisesse esquecer do mundo por um tempo.
precisava de um drink — talvez de dois — para amenizar a tensão que insistia em se alojar no peito. Pediu uma gin tônica e escolheu uma mesa no canto, longe do burburinho, onde podia observar o movimento sem ser notado.
Ele passara o dia inteiro no tribunal, entrando e saindo de salas cheias de gente tensa, mas apenas uma audiência daquela tarde deixara uma marca diferente em sua mente. Não era o caso em si. sabia navegar bem pelas teias jurídicas. O que o incomodava, o que fazia seu coração acelerar um pouco mais, era a presença inesperada de .
virou o copo lentamente, sentindo o gosto cítrico do gin tônica misturar-se à amargura que despertava.
Ele puxou o celular do bolso do paletó e, num impulso, abriu o aplicativo de fotos. Havia algo de melancólico naquela noite, como uma nostalgia silenciosa que não largava seus pensamentos. Talvez fosse o efeito do gin. Ou a lembrança persistente de . Deslizou o dedo pela tela até chegar ao ano da formatura, quando ele e faziam parte da equipe do jornal da faculdade.
Passou por fotos antigas, onde havia registros de festas, reuniões de pauta, tardes preguiçosas no campus. A maioria dos rostos agora lhe parecia distante, apagados pelo tempo. Em muitas das fotos em grupo da turma de Direito de 2010, ele e estavam lá. Sempre presentes. Mas nunca lado a lado.
Aquilo o fez franzir o cenho. Não era proposital... Ou era? Mesmo quando dividiam o mesmo espaço, havia entre eles uma espécie de barreira invisível. Era como se o universo sempre encontrasse uma maneira de colocá-los próximos, mas não juntos.
Movido pela curiosidade — e pela vontade de fugir da própria mente —, saiu das fotos e abriu o navegador. Começou a procurar, quase sem pensar, por colegas que não via há anos. Digitou nomes no Google, vasculhou perfis no Instagram, no Facebook. Perdeu a noção do tempo enquanto ria discretamente ao encontrar fotos de antigos amigos agora casados, pais de família, donos de escritórios ou totalmente fora do direito. Alguns estavam irreconhecíveis. Outros, exatamente como ele lembrava.
entrou no bar sem grandes expectativas. Só queria uma cerveja gelada. Os ecos das discussões no tribunal ainda reverberavam em sua mente e o celular vibrando sem parar dentro da bolsa tornava impossível qualquer ideia de paz.
Olhou em volta, distraída, procurando um canto onde pudesse esquecer o mundo por alguns minutos. Caminhava em direção ao balcão quando o viu.
.
Estava sozinho, em uma das mesas no canto mais escuro do bar. A cabeça levemente inclinada, os dedos deslizando de forma distraída pelo celular. Ao lado dele, um copo pela metade. parou. Por um instante, apenas observou. Naquele ambiente sem toga e sem argumentação jurídica, parecia... diferente. Ela podia ter virado o rosto, continuado em direção ao balcão, fingido que não o viu, entretanto, algo em a fez mudar o rumo.
Desviou o caminho com passos firmes, como quem já decidiu, mesmo sem saber o motivo. Não foi por educação. Nem por qualquer desejo de reabrir feridas antigas. Foi impulso. Quando se deu conta, já estava parada diante da mesa dele.
Sem convite, sem anúncio, apenas sentou-se à frente sem pedir permissão, como se aquele lugar lhe pertencesse por direito. levantou os olhos, ligeiramente surpreso, mas não deixou transparecer. Apenas esboçou um leve sorriso, mais educado do que espontâneo, mais defesa do que acolhimento.
— Eu só... Vim pelo álcool. — tentou parecer tranquila, quase desinteressada. Mas o olhar… o olhar carregava um peso que ele não soube nomear.
— E acabou encontrando a concorrência. — Ele deu uma pequena risada, seca, puxando o copo até os lábios antes de responder.
— Não vamos tornar isso mais esquisito do que já é — pediu, desviando o olhar, com a voz baixa, firme.
— Sempre gostei do seu otimismo — respondeu com um sorriso de canto, meio irônico, mas sincero.
Por um momento, não disseram nada. O som ambiente — uma mistura de copos, risadas e música — preenchia o espaço entre eles. Quando o garçom se aproximou, agradeceu com um aceno e pegou o copo pela base.
Levou-o aos lábios e tomou um gole longo, quase ansiosa, como se tentasse afogar alguma dúvida que não queria nomear. Ela bufou quando viu que tinha quase terminado o líquido do copo e ergueu a mão pra pedir outra.
a observou com atenção, os olhos estreitando levemente. Esperou que ela pousasse o copo sobre a mesa antes de perguntar, num tom cuidadoso, mas direto: — A audiência te irritou?
— O caso não. Você, talvez — ela falou com frieza, sem desviar o olhar. fechou os olhos por um instante, depois franziu o cenho e apoiou os cotovelos na mesa. — Sério? Você realmente acredita no que fez hoje?
— Lembra do que a gente queria na faculdade? — A voz dele baixou, carregada de um cansaço antigo, quase rouca. — Advogar para quem realmente precisava, nada dessas grandes empresas, nada de interesses corporativos... O tal do “do povo, para o povo” e toda aquela retórica revolucionária.
— Por água abaixo? — supôs, soltando uma risada curta, quase amarga.
— Por água abaixo. — Ele ergueu o copo devagar, como um brinde silencioso a um ideal morto. — E o pior é que, às vezes, nem me incomoda tanto quanto deveria.
O silêncio se instalou por alguns segundos, desviou o olhar, fingindo observar o balcão, mas na verdade, estava tentando escapar daquilo que a voz dele acabava de despertar dentro dela. Com o tempo, as frustrações, mágoas e ressentimentos acumulados entre eles haviam se tornado uma barreira quase invisível que os afastava sem que percebesse.
, sem querer, deixou de lado muitas das lembranças e sentimentos que ainda guardava por . Mas ali, naquele gesto simples e naquela frase carregada de desilusão, ela foi abruptamente trazida de volta a uma realidade que há muito havia esquecido: eles compartilhavam os mesmos ideais.
E, junto a essa lembrança, emergiu outra, mais antiga e cuidadosamente escondida nas profundezas da memória, a aversão que um dia sentira por , aos poucos, havia se transformado em algo totalmente diferente.
Durante os últimos meses da faculdade, algo quase aconteceu entre os dois. Um quase que ainda pesava em silêncios como aquele. E então, no exato momento em que ela deixou a guarda baixar, em que deixou transparecer que talvez quisesse mais, se afastou. Sem explicações. Sem sequer um motivo razoável.
Ela nunca esqueceu.
nunca esqueceu da noite em que ele não apareceu.
— E você? — virou-se para ela com um sorriso contido. — Faz tempo, .
— — corrigiu, quase no automático, esticando a sílaba com uma ironia que soava quase como afeto.
— , você me conhece há, o quê? Dez anos? Quando foi que eu segui o rebanho e comecei a lhe chamar pelo apelido? — Dessa vez, ela não conseguiu segurar o riso. Aquela versão dele, descontraída, era rara e irritantemente contagiante. — Ah, você ainda tem humor!
A voz dele perdeu a provocação, soando quase... aliviada?
engoliu a cerveja em um só gole, escolhendo o silêncio como resposta.
Era estranho. Horas antes, no tribunal, eles trocavam farpas com a mesma precisão com que manejavam argumentos. Pareciam dois profissionais imbatíveis, sempre prontos a desmontar o outro diante do juiz, dos colegas, de quem estivesse assistindo. Mas ali, no bar de luz amarelada, tudo isso parecia distante.
Sentados frente a frente, havia um tipo diferente de silêncio. Era um silêncio que dizia “estamos cansados”, que permitia um certo descanso. A cada gole, a tensão do dia escorria junto com a bebida. E, aos poucos, sem que nenhum dos dois percebesse, a conversa começou. Sem roteiro, sem provocações. Só palavras soltas que iam surgindo, lembranças que escapavam, frases que vinham mais do fundo do que da superfície.
Nada de estratégias, de sarcasmo medido. Só e , se permitindo existir ali, como se fossem dois colegas antigos tentando lembrar como era conversar sem precisar vencer.
Era estranho, sim. Mas não desconfortável. Talvez até necessário.
— Lembra daquela vez que a professora Maristel quase nos pegou colando no simulado de Direito Tributário? — perguntou, com um sorriso maroto.
— Eu? Colando? — retrucou, arqueando uma sobrancelha. — Você é que passou o tempo inteiro olhando por cima do meu ombro, tentando roubar as respostas.
— Juro que tentei decifrar aqueles seus rabiscos ilegíveis, parecia a Ped...
— Pedra de Roseta. — Riu, completando a frase antes que ele pudesse continuar. — Você vivia falando isso.
— Enfim, minha nota acabou sendo melhor. — Ele se inclinou para frente, cotovelo na mesa, o queixo repousado na mão, olhando-a com uma mistura de provocação e saudade.
— Achei que você passasse todas as noites mergulhado nos livros, lutando para ser o primeiro da turma... ou para garantir mais uma promoção que, no fundo, não era sua por direito. — Dessa vez, o sorriso dele veio diferente. Um vislumbre raro de vulnerabilidade escapando pelas brechas da fachada que ele sempre fazia questão de manter. notou. E então, sem rodeios, sem ironias, perguntou o que realmente queria saber. — E você? O que aconteceu com o da faculdade? O que aconteceu com aquele idealista que jurava lutar pelos mais fracos?
Ele deu uma risada baixa, e, pela primeira vez, parecia não se importar em revelar um pouco mais do que normalmente esconderia.
— Ele agora tem contas a pagar. O idealista ficou para trás, eu acho. Talvez seja mais fácil aceitar a realidade quando você percebe que ela nunca vai ser o que você imaginou — ele falou, o olhar vazio por um momento, antes de se reconcentrar nela. — Mas sabe, eu tentei. Eu realmente tentei.
o encarou por alguns segundos, em silêncio. As palavras dele ainda ecoavam em sua mente, se acomodando num lugar que ela não esperava abrir. A conversa — antes pontuada por provocações e defesas afiadas — parecia ter mudado de tom sem que nenhum dos dois percebesse. A rivalidade, as farpas, até o histórico de mágoas... de repente, tudo isso parecia menor, quase irrelevante diante do que ele acabara de dizer.
Não era o tipo de confissão que ela imaginava ouvir de . Mas, ainda assim, havia uma honestidade crua ali.
— E se a gente for pensar bem, a faculdade não foi lá essas coisas — ele continuou, quebrando o silêncio com um tom descontraído.
— Isso é porque você só lembra do jornal. Eu lembro de quando você sumiu da banca final e levou o crédito sozinho no relatório final. Mas, claro, memórias são seletivas.
A provocação foi sutil, mas certeira. O sorriso de vacilou por um instante e ele baixou a cabeça, absorvendo as palavras dela. Por mais que tentasse esconder, havia algo ali que o afetava mais do que gostaria de admitir. Ele sentiu vontade de negar mais uma vez, de rebater, mas, em vez disso, deixou a resposta se formar na mente.
— , você sabe mesmo como acabar com uma noite. — Ele revirou os olhos, num misto de sarcasmo e divertimento.
— Ah, , por favor, não começa com isso agora. — Ela cruzou os braços, fingindo aborrecimento, mas um sorriso teimava em escapar.
— Não vou entrar nesse seu jogo, sabe? — ele respondeu, sério, mas com um brilho nos olhos. — Onde eu fico aqui tentando me explicar e você faz questão de fingir que não entende. — puxou a carteira da bolsa e vasculhou por algumas notas. — Pra mim, já deu.
Era a mesma velha acusação, a mesma briga que ele já ouvira mais vezes do que conseguia contar. Mas havia algo diferente agora. Talvez fosse o cansaço, talvez o tom da voz dela, mais magoado do que irritado. Pela primeira vez, ele não sentiu vontade de se justificar.
As palavras de tocaram em algo que ele passara anos tentando ignorar. De repente, tudo veio à tona. Ele se deu conta de como sempre parecera ser o escolhido, o privilegiado. Como, mesmo sem querer, acabava sendo visto como o “favorito”, o que não precisava lutar tanto, o que sempre recebia os louros.
Mas ele nunca quis tomar o lugar dela. Nunca quis ser mais do que ela. Ele só queria... sobreviver. Navegar em um ambiente onde as aparências pesavam mais do que os esforços. O que nunca soube — ou nunca quis ver — era que ele também carregava suas próprias batalhas. Suas próprias inseguranças. E, ironicamente, quando olhava para ela, era isso que via: tudo o que ele não conseguia ser.
A coragem de ocupar espaço, a firmeza na voz, a convicção sem precisar de aplausos. Ela era tudo o que ele tentava parecer.
Ele se lembrou de como ela o desafiava naqueles dias. não dava trégua. E, embora ele estivesse sempre tentando provar que merecia o que tinha conquistado, sabia que ela nunca acreditava nisso. E aquela era a parte mais difícil.
Não era mais sobre ganhar ou perder um debate. Não era sobre ser o primeiro da turma. Era sobre fazer enxergar quem ele realmente era. E, depois de tantos anos, era frustrante que ele ainda não soubesse como fazer isso.
Sim, era linda, brilhante, desafiadora. Ele adorava debater com ela, dividir madrugada de estudos e, secretamente, observá-la quando ela se empolgava demais defendendo um argumento. Mas aquela frase... aquela frase o lembrou de como era exaustivo tentar fazer com que ela enxergasse quem ele realmente era.
Era sempre assim com : ela entendia tudo, menos ele.
E, de todas as batalhas que ele já travou na vida, fazê-la ver que ele nunca quis competir, nunca quis tomar o lugar dela... essa era a mais difícil.
prendeu o cabelo em um coque improvisado, já arrependida de ter dispensado a ajuda do estagiário. Ela puxava uma das caixas com esforço quando ouviu passos descendo a escada estreita. Rolou os olhos antes mesmo de ver quem era.
— Não confia mesmo em mim, hein? — disse, sem olhar para trás, tamanha era sua certeza.
— Só vim garantir que você não vai subtrair nenhuma relíquia do governo. — A voz de surgiu divertida, mas com aquele fundo provocativo que era quase marca registrada.
Quando chegou ao prédio, a primeira coisa que viu foi , sentado na lanchonete do térreo, com o olhar fixo na xícara de café à sua frente. Ela teve quase certeza: aquele café era a única coisa que ele havia consumido no dia. Conhecia bem o hábito irritante que ele tinha de negligenciar a própria alimentação e a hidratação. Mas então reparou na outra mão dele.
Ele segurava uma garrafa d’água. Simples, dessas de plástico transparente, com o rótulo já começando a se soltar. Estava quase vazia. mordeu o canto do lábio, tomada por uma mistura estranha de ternura e melancolia, percebendo que talvez aquela fosse uma tentativa discreta de mudar aquela rotina antiga.
De repente, ela se perguntou se ele tinha mudado muito desde o tempo da faculdade.
não sabia se isso era bom ou ruim. Só sabia que doía. Porque, mesmo depois de tudo, ainda havia uma parte dela que queria entender quem ele era agora e o que havia sobrado do garoto que ela conheceu quando ambos ainda achavam que sabiam tudo sobre o mundo.
E talvez, só talvez, ela quisesse descobrir se ele também se perguntava o mesmo sobre ela.
Eles trocaram um olhar breve, carregado daquela mistura de reconhecimento e desafio silencioso que sempre existia entre eles. Sem dizer uma palavra, ela desviou o olhar e entrou na área do arquivo. Temia ficar ali parada encarando-o por tempo demais, mas sabia que não precisaria esperar muito: , além de ser um investigador nato, tinha uma curiosidade quase insaciável e logo ela o ouviria se aproximar, seguindo seus passos entre as caixas empoeiradas e o ar pesado do arquivo.
— Vai me revistar? — provocou, revirando os olhos com um sorriso de canto.
— Não, acho que não fazemos mais isso — ele respondeu, segurando uma caixa pesada no alto da estante antes que ela pudesse esticar o braço para pegá-la.
aceitou a caixa que ele baixou, engolindo em seco. Não gostou nada da facilidade com que ele se sentiu confortável para fazer aquele comentário.
Sentiu um leve incômodo, mas logo desviou o olhar e voltou a revirar os papéis com cuidado, separando o que ainda tinha valor do que era apenas burocracia esquecida e acumulada pelo tempo. Até que algo a fez parar. No fundo de uma das pastas, escondido entre folhas de papel almaço amarelado e documentos gastos pelo tempo, estava o relatório oficial sobre um projeto jurídico universitário que o grupo deles havia desenvolvido juntos.
Era um documento oficial, que atestava o sucesso da iniciativa e trazia agradecimentos formais, geralmente reservados aos responsáveis diretos.
Ela abriu o relatório com cuidado, os dedos quase hesitantes ao folhear as páginas já amareladas. A maior parte do texto era formal, repleta de termos técnicos e citações acadêmicas. Mas, ao chegar à última página, seus olhos quase se fixaram num trecho quase apagado, no rodapé da folha. Ali, em letras pequenas e quase imperceptíveis, lia:
“Agradecimentos especiais à , pela revisão técnica fundamental e coautoria no desenvolvimento do relatório.”
ficou imóvel. O nome de não aparecia em lugar algum. Por quê? Ela procurou a página mais uma vez, como se o erro pudesse desaparecer, mas não havia dúvida.
Nesse instante, ouviu passos atrás de si. Virou-se e viu se aproximar devagar, observando cada expressão em seu rosto.
— O que foi? Encontrou algo interessante? — perguntou, com uma voz baixa, quase cuidadosa.
— Por que seu nome não está aqui? — perguntou, estendendo a pasta na direção dele.
— O que é is... — ergueu as sobrancelhas, claramente surpreso por ela ter encontrado aquilo. — Ah, é isso.
— Você não parece surpreso. — Observou, ficando de pé, o encarando curiosa.
— Eu pedi para deixarem só o seu nome — começou, a voz carregada de sinceridade. — Você me acusou, disse que eu queria tomar os créditos do relatório final. Eu quis evitar mais conflitos e desgaste entre a gente e com o grupo.
sentiu o peso das palavras ecoar dentro dela. Por anos, ela havia guardado uma mágoa que agora parecia construída sobre um equívoco.
— Eu… nunca soube disso — falou, baixinho, quase como se estivesse confessando um segredo para si mesma.
— Eu te mandei um e-mail explicando, mas... você nunca respondeu. Ou talvez nem tenha lido. E depois... você simplesmente parou de falar comigo.
ficou em silêncio, o documento ainda firme nas mãos. Por dentro, algo vacilava uma parte dela que há anos se agarrava àquela lembrança com certeza absoluta começava a ruir.
Durante muito tempo, aquele episódio parecia claro, imutável: tinha ido assinar o relatório oficial na prefeitura sozinho, deixando-a de fora. Mas agora... Quanto mais tentava se lembrar, mais surgiam fragmentos confusos. Em algum canto da mente, começava a surgir a imagem dela mesma, indo sozinha assinar, sem ao lado. Era uma lembrança que, até então, ela tinha empurrado para longe, como se não fosse tão importante.
— Por que não me contou sobre isso? — murmurou, guardando o recorte com cuidado, os olhos evitando os dele. — Depois daquele episódio, nos vimos várias vezes pessoalmente. E mesmo assim, você nunca falou nada.
— Porque eu sabia que você iria brigar comigo, . — Ele suspirou profundamente, num tom melancólico e cansado. — Você odiava a ideia de depender de alguém, sempre dizia que não precisava de ‘migalhas de ajuda’... e eu não queria ser essa migalha para você.
sentiu o impacto das palavras de reverberar dentro dela.
— Eu... você me deixou ser injusta com você — admitiu, a voz leve, quase um sussurro. — Isso não é certo.
— Ah, não se preocupe, . — Abanou o ar, assumindo um tom leve novamente. — Ninguém é santo aqui. Para ser honesto, nem tentei explicar direito na época. — A mão dele esticou para ajudá-la a levantar, mas ficou parada, os joelhos ainda fincados no chão frio do arquivo. — Não queria ficar me lembrando o tempo todo de que estava abrindo mão de algo... bom, por você. Você sabe o quanto eu posso ser ambicioso. Mas nunca com você.
ergueu os olhos devagar e encontrou os dele fixos, sinceros, sem nenhuma ironia, sem escudo. Ela respirou fundo, mas não recuou.
— Você é mesmo muito bom com palavras, Qasir.
sorriu, um sorriso leve, quase tímido, que pouco combinava com o homem ambicioso que conhecia.
— Levanta daí, vai. Tudo isso já tem muito tempo, não adianta mais ficar remoendo.
— Faz tempo para você, eu acabei de descobrir.
Eles trocaram um olhar que dizia mais do que palavras poderiam expressar. estendeu a mão mais uma vez, hesitou por um instante, antes de aceitar, permitindo-se ser puxada para cima.
— A faculdade foi uma confusão — começou, com um riso baixo, sem humor. — Você melhor do que ninguém sabe que aquilo ali era uma loucura. Nós dois nunca fomos fáceis… mas os fatores externos também não ajudavam.
— Como assim? — franziu o cenho, curiosa.
Ele deu de ombros, cruzando os braços como se tentasse conter uma lembrança incômoda.
— Ah, todos pareciam gostar da nossa briguinha. Era como se a gente fosse um espetáculo à parte. Sempre tinha alguém apostando em quem ia vencer a próxima discussão, quem ia humilhar quem no seminário, quem ia sair da sala primeiro.
— E a gente entregava um show e tanto, não é? — Ela soltou um meio sorriso e abaixou o olhar, como se buscasse entre as caixas empoeiradas do arquivo algo que pudesse explicar quem ela tinha sido naquela época.
— Me dava uma certa adrenalina... competir com você. Mas, às vezes, eu exagerava. E depois, não sabia como voltar atrás.
— A gente se atropelava o tempo todo. E mesmo assim, eu acho que... nunca te odiei de verdade. — ergueu os olhos para ele, agora mais suaves, vulneráveis.
— Eu sei que nunca me odiou. O que a gente sentia um pelo outro... não era exatamente ódio. — Por um instante, ficou no ar a pergunta não feita, o sentimento não nomeado. Ele então consultou o relógio, desviando o olhar como quem, se olhasse por mais um segundo, não conseguiria ir embora. — Acho que preciso ir.
Quando a porta já estava entreaberta, as palavras escaparam antes que pudesse engoli-las: — . Se não era ódio... — engoliu em seco. — Era o quê?
Ele não respondeu de imediato. O silêncio que se formou não foi hesitação, foi densidade. Ele parecia medir cada palavra, como quem sabe que qualquer escolha errada pode abrir uma ferida que nunca cicatrizou de verdade.
Com um suspiro quase imperceptível, desviou o olhar por um segundo, como se precisasse se proteger do que estava prestes a dizer.
— Acho que era tudo o que a gente insistiu em ignorar.
sentiu a frase atravessá-la como um vento frio.
O silêncio que veio depois não era vazio, era vivo. Um espaço cheio de lembranças que ecoavam entre eles, coisas que nunca foram ditas, mas que sempre estiveram ali. deu um passo para trás, como quem está à beira de algo e, por reflexo, recua.
deu um passo para trás, mas os olhos continuaram presos aos dela. Por um instante, viu os lábios de se entreabrirem, como se ela fosse responder, mas nada saiu. A hesitação dela pairou no ar, densa, quase dolorosa.
Então ele disse, quase num sussurro: — Você sentiu também. Eu sei que sentiu.
Virou-se antes que ela respondesse e foi embora.
ficou parada, imóvel, com a respiração suspensa no peito e o gosto amargo de uma resposta que talvez nunca tivesse coragem de dar.
Ou que, no fundo, ele já conhecia.
— Sessão retomada. Peço que os representantes das partes se dirijam à frente.
levantou-se com a postura impecável de sempre, a pasta firme nas mãos, o salto ecoando no chão polido. Não olhou para . Não precisava. Sentia o olhar dele como uma corrente elétrica na nuca.
Ele vinha logo atrás, com a mesma confiança provocadora de sempre. Quando se posicionaram lado a lado diante do juiz, a tensão era visível. A secretária judicial anunciou os nomes, como de costume, mas, naquele dia, os sobrenomes pareciam mais pesados.
— Doutora , pela parte autora. Doutor Han, pela parte ré.
foi o primeiro a falar.
— Meritíssimo, gostaríamos de solicitar o indeferimento da nova prova apresentada pela parte autora.
respirou fundo. Uma parte dela queria hesitar. A outra... não. A outra era a profissional que passou anos esperando por esse momento. O que houve entre eles — ou o que deixou de acontecer — não mudava os fatos. Nem anulava sua competência.
— Contestamos, excelência. A prova é recente, mas legítima. E pode mudar completamente a direção do caso — rebateu, a voz firme, com uma calma quase cruel. Do tipo que ela sabia que o irritava.
— Ainda assim, chegou fora do prazo. As regras existem por um motivo — retrucou , com a voz firme.
— O documento só apareceu agora porque a empresa ré se recusou a entregá-lo antes. Só conseguimos acesso depois que a Justiça bloqueou as contas. Está tudo aqui: os pedidos, as negativas, os prazos ignorados. — Ela deslizou uma cópia impressa sobre a mesa. — Não é justo que a parte autora seja prejudicada por isso.
O juiz folheou os papéis rapidamente, franzindo o cenho. se inclinou ligeiramente em direção ao microfone, ainda com os olhos em .
— Se essa prova for aceita, então pedimos o mesmo direito. Temos documentos recentes que também não foram entregues no prazo, mas que podem ser úteis agora.
virou o rosto para ele, séria.
— Ou seja, o senhor está pedindo permissão para improvisar uma defesa baseada em um padrão que vocês mesmos violaram. Incrível, doutor Han. A criatividade da sua equipe é quase tão impressionante quanto sua retórica.
— E a sua habilidade com drama continua impecável, doutora . Se não fosse advogada, daria uma ótima atriz.
Um murmúrio percorreu a sala. O juiz pigarreou, visivelmente irritado.
— Chega. Os dois conhecem as regras. Isso aqui não é palco para ironias, é uma audiência. Vamos manter o foco. — Silêncio. Ambos recuaram um passo. O juiz voltou a olhar os documentos. — Irei analisar se essa prova será aceita ou não após o intervalo. Sessão suspensa por quinze minutos.
O som do martelo ecoou, encerrando a sessão. já se afastava, os passos decididos, o salto marcando um ritmo firme no mármore. Mas antes que alcançasse a porta, a voz de a alcançou.
— Você foi brilhante.
Ela parou. O gesto foi sutil, quase imperceptível. Virou apenas o rosto, deixando que ele visse o traço de um sorriso nos lábios, sem mostrar os olhos.
— Cuidado com os elogios, doutor Han. Podem comprometer sua reputação.
— Tem coisa pior do que parecer pessoal?
Dessa vez, ela não respondeu.
Do lado de fora da sala, o corredor estava quase vazio. Alguns estagiários passavam com pastas apertadas contra o peito, cochichando entre si. Um segurança mexia no celular encostado na parede. Estava prestes a seguir direto para a saída quando ouviu a voz de alguém familiar chamando seu nome.
— Doutora ? — Ela parou e virou-se. Era o estagiário da promotoria, o mesmo que havia falado com ela no início da audiência. — O juiz pediu que a senhora se dirija à sala anexa depois do intervalo. Ele quer conversar com vocês antes de retomar.
assentiu, profissional, como se não sentisse o coração bater forte por outro motivo.
A sala anexa era pequena, silenciosa, com cheiro de papel antigo e café esquecido. foi a primeira a entrar. Ajustou a pasta nos braços e se sentou na cadeira indicada. Um minuto depois, a porta se abriu novamente. entrou, calmo como sempre (ou fingindo melhor do que ela). Sentou-se do outro lado da mesa, sem dizer uma palavra. Apenas a olhou por um segundo e depois desviou o olhar.
O juiz já estava ali, folheando um bloco de anotações. Só levantou os olhos quando ambos estavam acomodados.
— Obrigado por virem. Não pretendo me alongar. Preciso fazer algumas observações antes de retomarmos a audiência. A prova apresentada hoje, doutora , é forte. E sim, potencialmente decisiva. Mas o momento em que foi trazida é… delicado. O tribunal precisa preservar o equilíbrio entre as partes.
— Compreendo, excelência. A parte autora só teve acesso ao documento por meio de medida judicial. Antes disso, houve negativa expressa da empresa ré em fornecer qualquer dado.
— Ainda assim, a defesa não foi notificada previamente — falou em seguida, a voz controlada. — Isso compromete nosso direito de contestar adequadamente.
O juiz ergueu a mão, interrompendo.
— Eu não chamei vocês aqui para ouvir os mesmos argumentos que já apresentaram em plenário. Os dois são competentes. Isso ninguém discute. — Ele fez uma pausa, olhando diretamente para os dois, um de cada vez. — O que me preocupa é o tom. O tribunal é um espaço de confronto jurídico, não pessoal. Mas o que se viu hoje… ultrapassa um pouco essa linha.
— Se houve excesso, me desculpo. Mas posso garantir que meu foco continua sendo o caso — garantiu.
— E o meu também — completou , olhando diretamente para o juiz, mas sentindo o olhar de sobre ela.
— Ótimo. Porque se isso se repetir, serei obrigado a tomar providências formais. A condução de um caso não pode se transformar num duelo pessoal. Isso prejudica a justiça e a reputação de ambos. Então, deixem os ruídos fora da sala de audiência. Lá dentro, o que importa são os fatos. — O juiz consultou o relógio, depois voltou às anotações. — A audiência será retomada em cinco minutos. Estão dispensados.
não olhou para trás e caminhou direto até a sala de apoio no fim do corredor, abriu a porta com mãos firmes e fechou-a com cuidado atrás de si. Sentou-se na cadeira fria e inalou profundamente, como se o simples ato de estar sozinha finalmente permitisse que respirasse de verdade.
Tirou os sapatos com um movimento automático e massageou o tornozelo, sentindo a dor miúda se espalhar pela panturrilha. O dia pesava nos pés e nos ombros.
A maçaneta girou.
Ela ergueu os olhos, sem se mover. entrou devagar, fechando a porta com a mesma delicadeza que ela usara. Não disse nada de imediato. Apenas ficou ali, à frente dela, como se aquele fosse o único lugar possível.
— O juiz tem razão. A gente está deixando que isso pareça pessoal.
— “Pareça”? — Ela arqueou uma sobrancelha. — , a gente nunca foi neutro.
— Não. Mas achei que dava para disfarçar melhor.
— Você nunca soube disfarçar. — cruzou os braços, mas sem força. Como se estivesse cansada de manter a defesa levantada o tempo todo. — Até quando me elogia, parece que está discutindo.
Ele sorriu de lado, mas havia algo sombrio nos olhos.
— E você... ataca até quando está certa. Como se não soubesse fazer diferente.
— Talvez eu não saiba mesmo. — Desviou o olhar, encarando o chão.
se afastou da parede e parou à frente dela. Não tocou. Não invadiu o espaço. Só falou baixo, com a voz carregada de exaustão e algo próximo de sinceridade crua: — Olha, … eu sei que entre a gente nunca foi simples. Nem leve. Mas a gente não está mais na faculdade. Não tem mais a professora Maristel para relevar nossos... embates e fingir que isso era só competição saudável. Ou a gente encara isso como dois adultos… ou a gente continua fingindo que dá para viver nesse limbo entre inimigos e rivais.
o encarou por alguns segundos. O cansaço da audiência ainda marcava seu rosto, mas os olhos… estavam vivos. Atentos. Como se algo, lá dentro, estivesse prestes a ceder. Sem energia para mais embates — pelo menos, não fora da sala de audiência — ela apenas assentiu. Um gesto pequeno, mas que dizia muito.
Após o pacto silencioso entre eles, a audiência finalmente chegara ao fim.
As portas pesadas da sala se fecharam atrás deles com um estalo abafado. saiu primeiro, como sempre, mas, dessa vez, a acompanhava. Eles caminharam lado a lado pelos corredores do fórum, sem dizer uma palavra. Pareciam dois soldados abatidos depois de uma batalha que parecia que não ia acabar tão cedo.
Ao atravessar a porta principal, sentiu o ar fresco no rosto como um alívio inesperado. A cidade seguia indiferente a tudo que havia acontecido ali dentro, como sempre fazia. O trânsito fluía, buzinas soavam ao longe e o sol já se despedia.
— Você vai para casa direto? — perguntou, quebrando o silêncio.
— Talvez. Ou talvez eu só ande por aí até conseguir desligar a cabeça. — Ela hesitou por um instante. — E você? Vai fazer o quê?
— Cozinhar alguma coisa. Esquecer do dia com pimenta e alho. — Ele deu um leve sorriso. Ela olhou para ele brevemente e depois soltou uma risada curta, assentindo. Ele ainda cozinhava. — Vem comigo. Prometo que o jantar é melhor do que nossos velhos tempos de macarrão instantâneo.
Ela hesitou por menos de dois segundos.
— Ainda sabe fazer fritata?
— Como se minha reputação dependesse disso.
O cheiro da comida preenchia o ar do pequeno apartamento de . A cozinha era simples, organizada do jeito prático e meio improvisado de quem nunca ficou tempo demais no mesmo lugar. Mas ainda assim, acolhedor.
estava sentada à mesa, mexendo distraidamente no copo d’água, as pernas cruzadas sob a cadeira, os sapatos já esquecidos no canto da sala. Diante dela, o velho anuário da faculdade aberto, páginas marcadas por anotações e fotos um pouco desbotadas.
— Hum... — arqueou uma sobrancelha, com aquele sorriso que ele lembrava bem. — Sabia que você chamava a Brenda de “comitê de boas-vindas”?
— Eu? Por que eu faria um comentário tão maldoso? — Ele fingiu indignação, colocando a mão no peito, ofendido. Ela apenas o encarou, cética. — Tá, tudo bem. Mas convenhamos... ela não facilitava. Nossa querida Bree deve ter feito um tour completo por todos os calouros da universidade.
— Definitivamente comitê de boas-vindas. — riu, balançando a cabeça. — Mas... ela era legal.
Ela voltou ao anuário, os dedos passando pelas páginas com leveza, enquanto soltava comentários ácidos sobre ex-colegas como quem folheava um antigo álbum de guerra. acompanhava, rindo das observações, às vezes rebatendo, às vezes só a observando com aquela expressão de quem não conseguia acreditar que aquilo era real.
Era bizarro. Inacreditável, até. estava mesmo ali. Sentada à sua mesa, descalça, rindo com a boca cheia de ironia e os olhos brilhando. Na cozinha onde ele tomava café sozinho todas as manhãs.
virou mais uma página do anuário, mas dessa vez não disse nada. A foto que ocupava quase metade da folha era de um evento da turma de Direito. Ela e estavam ali. Lado a lado. Jovens demais, sérios demais para quem devia estar apenas começando a vida.
— A gente sempre foi melhor no que diz respeito aos outros, não é? — passou o dedo devagar pela borda da foto, como se pudesse acessar o passado através do toque. — Nos tribunais, nas salas de aula...
— Mas nunca entre a gente — completou, a voz mais baixa agora.
Por um momento, ficaram em silêncio. Só o som do relógio na parede e o cheiro da comida recém-saída do forno preenchiam o espaço.
voltou para a cozinha, pegou o prato e o colocou diante dela com um gesto calmo, natural. Não havia pressa ali. Havia familiaridade.
— Está servido, doutora .
— Hum... — Ela arqueou uma sobrancelha, o tom levemente provocador. — Tentando me conquistar com comida?
— Funcionou da primeira vez — retrucou, dando de ombros, quase automático.
Só percebeu a “gravidade” do que disse quando foi recebido por um silêncio inesperado.
não respondeu de imediato. Apenas desviou os olhos para o prato, como se o simples ato de comer pudesse afastar a memória que se infiltrava entre os dois.
Ele não gostava de pensar naquela semana de julho. Não por falta de carinho, mas porque pensar nela doía. Aquela semana em que, por acaso ou destino, acabaram dividindo jantares todas as noites por causa de um evento no campus. Cada refeição uma trégua silenciosa. Cada risada, um degelo. E aquela última noite…
A sala de descanso estava quase vazia, mergulhada naquele silêncio confortável de fim de noite, enquanto as vozes e risadas da festa ecoavam abafadas do lado de fora. A universidade inteira parecia concentrada naquela comemoração, mas eles... haviam escapado.
Restavam apenas os dois ali, sentados lado a lado no velho sofá de vinil desbotado.
As conversas começaram simples, um comentário sobre a música alta demais, uma piada sobre o ponche aguado, alguma memória compartilhada de aula ou professor. Mas a tensão ali não era acadêmica. Era outra coisa. Algo que vinha se acumulando havia meses, entre discussões acaloradas e olhares mais longos do que deveriam ser.
As mãos que, a princípio, só se tocavam por acaso, começaram a buscar uma à outra de propósito. E quando , finalmente, achou que tinha reunido coragem suficiente para beijá-la… o beijou primeiro.
— Come, . A fritata vai esfriar. — apontou, com um sorriso leve, pegando os talheres. Quando levou a primeira garfada à boca, fechou os olhos por um instante, quase involuntariamente, tomada por uma lembrança que veio com o sabor. — Oh... tão bom.
a observava em silêncio. Havia algo naquele momento — o jeito como a expressão dela se suavizava, os ombros relaxavam, o sorriso surgia sem esforço — que o desarmava mais do que qualquer audiência, qualquer argumento.
— Você sempre gostou mais da minha fritata. Era o único momento em que você não me humilhava publicamente. Aqueles almoços em grupo... eu só era poupado quando levava fritata.
— Não era humilhação. Era provocação pedagógica. — riu, balançando a cabeça, fingindo reprovação.
Enquanto mastigavam, e começaram a conversar sobre como sua profissão que, para ambos, já fora um sonho vibrante e cheio de expectativas, mas que, com o tempo, se transformara em algo muito mais complexo e, por vezes, exaustivo.
falava com uma voz que misturava cansaço e paixão contida, revelando o peso das batalhas diárias, as pequenas vitórias que quase passavam despercebidas e a habilidade que desenvolvera para navegar no jogo político, tanto dentro quanto fora dos tribunais.
a observava com atenção, os olhos fixos nela como se tentasse decifrar cada nuance, cada gesto. Entre uma mordida e outra, ele compartilhou suas próprias frustrações, sem esconder o desgaste acumulado nem a motivação que ainda o mantinha firme.
— Isso tudo... te traz satisfação? — perguntou, baixinho, com um tom quase vulnerável. — Pergunto porque, às vezes, eu não consigo encontrar isso.
Ela pareceu surpresa com a pergunta, não esperando tanta franqueza. Ficou em silêncio por alguns segundos, pensativa, como se estivesse pesando cada palavra antes de responder.
— Eu acho que... depende do dia. Tem dias que é uma montanha-russa. Você vive um sufoco atrás do outro, mas também tem aqueles momentos... os bons. Aqueles que fazem tudo valer a pena, sabe? — sorriu, ainda absorta nas próprias lembranças. — Por mais que eu diga que odeio o estresse, o desgaste, os jogos políticos… eu ainda amo isso tudo. Ser advogada. Brigar por algo. Encontrar aquela brecha no processo que muda tudo.
— Eu sei. Sempre soube. — assentiu, empurrando a comida no prato com o garfo, pensativo. — Você sempre teve um brilho estranho no olhar quando descobria um argumento novo, especialmente quando usava isso contra mim.
Ela riu, e no instante em que os olhos deles se encontraram, algo passou entre os dois. Mais do que humor, mais do que lembrança, era um entendimento silencioso, nascido de uma história compartilhada, cheia de altos e baixos que só eles conheciam de verdade.
— E você? Ainda ama tudo isso? — perguntou, suavemente, girando o copo entre os dedos. apoiou os cotovelos na mesa, o olhar se perdendo por um momento.
— Sinceramente? Não. Mas acho que… eu não saberia fazer outra coisa. — Ela ficou em silêncio por alguns segundos, observando-o com um misto de ternura e compreensão. se recostou na cadeira, soltando um suspiro leve. — Enfim, ossos do oficio, não é? — disse, com um sorriso cansado e uma ponta de ironia.
Levantou-se lentamente e começou a empilhar os pratos com calma, enquanto , sem cerimônia, se esgueirava em direção ao sofá. Ele riu baixinho ao vê-la se acomodar com naturalidade. Lembrou imediatamente do quanto ela odiava lavar louças.
— Claro, . Você está oficialmente dispensada da louça — brincou, falando por cima do ombro, levando os pratos para a pia.
— Eu não iria lavar mesmo — respondeu, com a voz preguiçosa e divertida, enquanto puxava uma almofada para o colo.
sorriu sozinho, o som da água correndo na pia se misturando ao conforto inesperado daquele fim de noite. Lavou os últimos pratos sem pressa e deixou as louças escorrendo sob a pia antes de secar as mãos com um pano limpo.
Caminhou até a sala e sentou-se ao lado de no sofá. A advogada estava ali, quieta, o olhar aparentemente fixo na costura da almofada, os dedos deslizando de leve pelo tecido.
— Você lembra da nossa apresentação final de Direito Constitucional? — perguntou de repente, a voz baixa, mas com um leve sorriso que moldava os cantos dos lábios.
— Aquela em que eu derrubei o data show no meio da sua explanação?
— E continuou falando como se nada tivesse acontecido — completou ele, rindo também.
— Eu odiava isso em você — ela confessou. — Eu odiava que você se saísse bem em qualquer adversidade.
Ele a olhou com mais calma agora, o riso se dissolvendo aos poucos no silêncio que voltou a crescer. O olhar dele, antes distraído, se aprofundou. se virou um pouco mais no sofá, apoiando o cotovelo no encosto, ficando de frente para ela.
— ... Eu lembro de julho.
parou de mexer na almofada. Seu corpo ficou mais quieto, mas seus olhos o procuraram com cautela. Ela sabia de qual julho ele falava. E a lembrança era viva demais para fingir esquecimento.
— Eu também — respondeu apenas, com um aceno sutil, tentando não o encarar demasiadamente.
— Você me beijou primeiro.
— Achei que você estava demorando demais. — Ela soltou o ar em um riso contido, breve, quase triste.
— E se eu não demorar dessa vez?
O mundo parecia ter ficado em suspenso ali. Os olhos dela não desviaram dos dele, mas havia uma luta visível por trás daquele silêncio, entre o impulso e a razão, entre o passado e a possibilidade do agora.
— Isso é uma péssima ideia… — sussurrou, porém, sem recuar.
não fez um movimento brusco. Apenas assentiu devagar e se inclinou, com uma calma cuidadosa, como quem não queria assustar o momento. O gesto era lento, como se cada centímetro fosse um voto de confiança.
Parou ali. Perto o suficiente para que ela sentisse o calor da pele dele. Ele não insistiu, nem avançou. Só ficou ali, esperando.
se permitiu, só por um segundo. Esqueceu as barreiras. Esqueceu os anos. Esqueceu os debates inflamados, os olhares atravessados, as brigas midiáticas. E quando os lábios se encontraram, não houve urgência. Era um toque cheio de lembranças e de perguntas, como se cada movimento dissesse: estamos mesmo aqui?
O beijo era tenso e doce ao mesmo tempo. Nenhum gesto era apressado, nenhum movimento impaciente. Era como se cada segundo carregasse o peso de anos não ditos, de conversas interrompidas, de memórias mal resolvidas.
levou uma das mãos ao rosto dele, os dedos deslizando devagar pela curva da mandíbula até repousarem ali, como se precisasse de um ponto de ancoragem, algo real que confirmasse que aquilo estava mesmo acontecendo. Que eles estavam mesmo ali — finalmente — sem o escudo da ironia, da profissão, do passado.
não puxava. Não exigia. Apenas sustentava o momento com a quietude rara de quem entende o valor de não forçar o inevitável.
Foi quem se afastou primeiro. Lentamente, como quem emerge de um mergulho profundo, os lábios ainda entreabertos, a respiração um pouco mais curta, como se o ar demorasse a voltar ao normal. Os olhos fechados por um instante a mais, como se precisasse desse espaço escuro para reorganizar o próprio mundo. Quando enfim os abriu, encontrou ali. Tão perto quanto antes.
— Eu juro que não tinha planejado isso — ele admitiu, com a voz rouca. Ela assentiu, acreditando, porque era muita coisa, menos desonesto.
— A gente é um campo minado, . Você sabe disso.
— Só por hoje. — Ele se aproximou mais um pouco, sem tocar. Estava ali, presente, oferecendo espaço sem exigir nada. — Fica — sussurrou.
fechou os olhos por um segundo, tentando obrigar a mente a funcionar, como se ainda houvesse tempo para pesar prós e contras, medir riscos, calcular danos. Mas o corpo a traiu antes que qualquer raciocínio se formasse por completo. Quando percebeu, já estava assentindo, quase imperceptivelmente, como quem se rende a algo inevitável.
a puxou com delicadeza, ainda cauteloso, como se pedisse permissão mesmo após o sinal silencioso. E ela deixou.
O segundo beijo veio sem a rigidez do primeiro. Menos tensão, mais entrega. Não havia pressa, apenas um reconhecimento silencioso de que, mesmo sem garantias, havia algo ali que merecia uma chance.
As noites secretas começaram como um desvio. Um momento de fraqueza compartilhado sob o pretexto da exaustão, quase como um alívio cínico entre duas pessoas que sabiam exatamente o que estavam fazendo, mas preferiam não nomear.
O desvio, no entanto, se repetiu. Uma vez naquela semana. Depois duas. Depois três. Até que o número perdeu a importância, e o hábito tomou forma.
sempre chegava primeiro. Fingindo que estava ali por acaso, conferindo um arquivo, pegando um café, bebendo algo rápido no bar da esquina como se fosse rotina. Mas o jeito como ela olhava o relógio entregava. O jeito como ela se ajeitava no banco, esperando. O jeito como seu corpo parecia ficar em pausa até ele chegar.
aparecia minutos depois. Sempre com um andar despreocupado, uma expressão casual demais para alguém que, nitidamente, vinha direto para ela. Tinha a língua afiada, o humor na ponta dos dedos. E quando se aproximavam, era com farpas e provocações, entretanto, era só um embate de vontades.
E, invariavelmente, acabavam juntos. No apartamento dela, no dele. Às vezes sem sequer trocar palavras entre o último gole de vinho e o primeiro beijo. Às vezes conversando demais, como se a intimidade física precisasse ser equilibrada com algum tipo de reconexão emocional que nenhum dos dois admitia procurar.
No dia seguinte, fingiam que nada tinha acontecido. Passavam um pelo outro nos corredores com acenos distraídos, comentários sarcásticos, como se a noite anterior fosse apenas mais um lapso em meio à rotina estressante que compartilhavam.
Mas então acontecia uma troca de olhares mais longa do que o aceitável. Um comentário carregado de ironia e tensão. Um toque acidental que durava demais. E assim, voltavam para aquele padrão silencioso que ninguém ousava romper, porque, sendo totalmente honestos, eles estavam bem ali.
No meio do erro consciente, do desejo reprimido, das decisões não ditas.
Estavam bem demais.
Certa noite, depois de um dia inteiro trocando farpas dentro do fórum, com olhares cortantes e argumentos ainda mais afiados, apareceu na porta do apartamento dele sem aviso. Nem mensagem. Nem desculpa.
não disse nada. Só abriu a porta e deu espaço para que ela entrasse. Quando viu a mesa posta para dois — talheres alinhados, vinho já respirando — ela apenas sorriu, num misto de surpresa e rendição. E o beijou.
Agora, deitada com a cabeça apoiada no peito dele, ouvindo o som ritmado do coração que ainda batia acelerado pós sexo, soltou a frase como quem tenta se convencer de que ainda tem algum controle: — A gente tem que parar com isso, não é?
ficou em silêncio por um momento longo demais. Quando respondeu, a voz dele estava baixa, quase indecifrável.
— É, eu acho que sim.
Mas nenhum dos dois se mexeu.
O quarto permaneceu mergulhado em silêncio, exceto pelo som suave e constante da chuva batendo contra a janela. A penumbra macia envolvia tudo, os lençóis amassados, roupas esquecidas no chão, respirações sincronizadas.
A mão dele deslizava preguiçosamente pelas costas nuas dela, num movimento lento e contínuo, como quem tenta memorizar uma sensação. sentia o cansaço puxando seus olhos para o fundo. Um torpor tranquilo, quase entorpecente, que só vinha depois de noites como aquela. Entre uma piscada e outra, seu olhar se prendeu a um detalhe no quarto, a foto emoldurada na parede.
Era da turma de Direito. Uma foto antiga, tirada no último ano da faculdade, cheia de sorrisos forçados e olhos sonhadores. Ela tinha uma cópia igual, guardada em algum canto da estante em casa. Reconheceu a si mesma no fundo da imagem, rindo de algo fora do enquadramento. E ali estava ele também, , mais jovem, ainda com o brilho de quem acreditava na justiça.
Ela sorriu, quase imperceptivelmente, sentindo o peito apertar com uma saudade que não sabia exatamente de onde vinha. Se ajeitou um pouco mais contra o corpo dele.
— Sabe... eu te odiei por anos — afirmou enquanto analisava aquela foto.
— Eu sei, . — virou o rosto devagar, encarando o teto, soltando uma risadinha leve.
— Mas... não foi por causa do jornal. Nem do relatório. Foi porque você sumiu. Quando a gente... quando quase aconteceu alguma coisa entre nós, aquele dia em que a gente se beijou, eu pensei que talvez… — Ela parou, engolindo as palavras antes que saíssem por completo. — Eu achei que você sentia também. E nos dias seguintes... nada. Foi como se nada tivesse acontecido.
demorou a responder. Ele já sabia que esse momento do acerto de contas viria.
— Foi... demais. A gente só se beijou uma vez e eu já estava pronto para… — Ele parou, não conseguia dizer "largar tudo", embora fosse exatamente isso que queria expressar. Soltou apenas um suspiro, pesado. se virou, apoiando o cotovelo no colchão e a cabeça na mão, ficando de frente para ela. — Você sempre foi brilhante. Feroz. Ambiciosa. E eu também. A gente queria as mesmas coisas, . As melhores notas, os estágios mais cobiçados, os prêmios. O topo. E eu fiquei com medo. De me envolver com você e estragar tudo. De virar um obstáculo no seu caminho. Ou você no meu. A gente era competitivo demais e eu pensei... que se a gente cruzasse aquela linha, ia acabar se destruindo.
demorou a reagir.
— Então você preferiu me deixar achando que eu tinha sido idiota, que tinha fantasiado tudo sozinha. — Seus olhos brilharam com uma raiva contida. — Você fugiu. — quis interromper, mas ela levantou uma das mãos levemente, como quem diz me deixa terminar. — Que talvez eu tivesse confundido as coisas. Que talvez aquele beijo não tivesse significado nada para você.
— O problema nunca foi você, — ele falou, devagar, com pesar. — O problema era o que eu sentia por você. Eu não sabia lidar com aquilo. Acho que ainda não sei.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Quando os abriu, havia mais tristeza do que raiva em sua expressão.
— Que merda, . A gente podia ter sido tanta coisa. — respirou fundo, lutando contra o nó na garganta. — Eu demorei anos para confiar em alguém depois daquilo. E mesmo agora… mesmo aqui com você, eu fico me perguntando quando é que você vai sumir de novo.
Fórum da Comarca. 14h02.
— Excelência, a parte autora requer, mais uma vez, que o réu apresente os documentos solicitados no prazo estipulado. A insistente resistência em cooperar não apenas fere o princípio da boa-fé, mas beira a má-fé processual.
ergueu os olhos dos papéis, um sorriso contido nos lábios ao escutar a voz firme de .
— Excelência, até onde sei, conduta litigiosa não se define por uma petição protocolada com cinco minutos de atraso.
Depois de um breve silêncio, o juiz interveio: — Já que os dois estão tão empenhados em transformar esta audiência em um duelo de egos, sugiro que concentremos as energias no processo em si.
e assentiram, quase ao mesmo tempo. Mas enquanto voltavam aos seus lugares, seus olhares se encontraram por um instante. E por trás de toda a formalidade, havia faíscas. Era guerra declarada. Mas, de um jeito estranho, os dois pareciam se alimentar dela.
Uma hora depois, a audiência havia terminado, mas os ecos da discussão ainda reverberavam nas paredes do auditório. levantou apressada, com os papéis apertados contra o peito, ainda tentando desacelerar o coração por conta da adrenalina que uma sessão com provocava.
observava pelo canto do olho enquanto organizava seus papéis. falava com o estagiário ao seu lado, repassando anotações e explicações com aquela confiança tranquila de quem sabia exatamente o que estava fazendo. O rapaz o olhava com atenção quase reverente, como se fosse o próprio Harvey Specter ou algum outro ícone do mundo jurídico.
Ela teve que segurar uma risada ao notar isso. Balançou a cabeça, meio divertida, meio exasperada, ao lembrar que ela mesma estava sem estagiária há semanas. Claro que ele já tinha um. E claro que parecia ter achado um clone jovem e admirado dele mesmo. , sempre um passo à frente.
Recolheu suas coisas com calma, acenando para alguns colegas e funcionários pelo corredor, já a caminho da saída, quando ouviu a voz dele chamando por trás: — ! Vem aqui um segundo.
Ela parou no meio do passo, hesitando por um breve instante antes de se virar. O tom casual demais de sempre a deixava desconfiada. Ainda assim, caminhou até ele, tentando parecer relaxada.
— Esse aqui é o Matias, meu estagiário. — Apontou para o jovem ao seu lado. — Ele estava curioso para te conhecer desde que contei que fomos colegas de faculdade.
— Oi, Matias. — estendeu a mão com um sorriso. — Curioso por quê?
O estagiário olhou para , como se pedisse permissão para responder. apenas assentiu, com um sorrisinho malicioso nos lábios.
— É que... ele ficou surpreso quando descobriu que nossas tentativas de assassinato mútuo vêm de um tempo bem anterior ao tribunal — explicou , ainda sorrindo.
— Eu fiquei me perguntando se vocês nunca foram prejudicados por serem tão... entusiasmados nos argumentos — completou Matias, com um tom leve. Sua risada contida fez rir junto.
— Quer saber como nunca fomos punidos, mesmo quase arrancando os cabelos um do outro em plena audiência? Pois é. Eu também não sei. — Ela deu de ombros. — Acho que as pessoas gostam de nos assistir. Tipo um espetáculo de gladiadores com terno e salto.
— É definitivamente interessante — Matias concordou, entre impressionado e assustado.
— Não é à toa que falam da gente até hoje. — lançou um olhar divertido para .
— Temos uma má reputação.
cruzou os braços e a observou por mais um instante, o sorriso ainda preso no canto da boca. Tinha sido só uma conversa rápida, mas aquele tipo de troca com sempre deixava o dia dele um pouco mais... vivo.
Conversaram casualmente enquanto deixavam o auditório, os passos ecoando pelos corredores do prédio já mais vazio. Matias, ainda com a energia curiosa de um novato, se despediu por um momento para ir ao banheiro, deixando-os sozinhos diante das grandes janelas do saguão lateral. Do lado de fora, o céu começava a escurecer, tingido de tons alaranjados.
— Sempre foi assim, não é? — disse, quebrando o silêncio que se formou entre eles.
— Assim como? — perguntou, sem se virar completamente para ele.
— Você brilhando e eu tentando não parecer o vilão da história.
— Você fez um ótimo trabalho em parecer o vilão hoje. Nem precisou se esforçar — ela brincou, revirando os olhos.
— Você acha que eu não me importo. Que isso tudo, esse caso... é só mais um processo para mim. Mas eu conheço esse bairro, . Eu cresci aqui perto. Meu pai ainda mora a três quadras daquela estação de tratamento.
Ela finalmente o olhou de frente. Os braços cruzados diante do corpo, mas os olhos atentos, penetrantes.
— E isso muda alguma coisa?
— Muda para mim — respondeu, sem hesitar. — Eu sei que não estou defendendo monstros. Que tem nuance, contexto. Nenhum lado é completamente certo ou errado. Você sabe disso. Nem tudo é preto no branco, .
Ela o estudou por alguns segundos, como se estivesse decidindo se podia ou não acreditar.
— Você sabe o que mais eu sei, ? Que você sempre fala o que eu quero ouvir, na hora certa. Com as palavras certas. E que mesmo quando está dizendo a verdade… eu nunca sei no que posso confiar.
A voz dela não tinha raiva, mas havia algo mais perigoso ali: cansaço. Um desgaste silencioso de quem conhecia aquele jogo bem demais.
— Eu tenho pernas curtas, dá um tempo.
Fazia dias que não via . Os dois estavam presos em compromissos fora do escritório, cada um atolado em tarefas que não tinham nada a ver com o caso que os mantinha conectados. Ainda assim, ele continuava presente em lembranças, em distrações, nas pausas longas demais diante do celular.
Que droga, ela sentia falta dele.
Não apenas das reuniões ou das discussões acaloradas sobre estratégias jurídicas, mas dos pequenos rituais que se formaram entre eles: os encontros despretensiosos depois do expediente, as conversas que começavam com “você protocolou isso?” e terminavam com “você não lavou a louça ontem”.
Era uma bagunça de provocações e intimidade. E, sem perceber, havia se acostumado com a presença dele preenchendo os intervalos do dia.
Naquela sexta-feira, enquanto o relógio avançava preguiçosamente sobre a mesa de trabalho, ela quase cedeu. Pegou o celular, abriu a conversa, escreveu metade de uma mensagem… e apagou.
Orgulho. Sempre ele.
Mas antes que tivesse tempo de racionalizar o impulso, o telefone vibrou. O nome dele apareceu na tela. "Quer sair hoje?"
E, por um instante, o coração dela pareceu se esquecer de como manter o ritmo.
— Você está tentando me matar? — Ela parou, respirando fundo, olhando para o caminho à frente. — Por que me trouxe numa trilha? Estou de sapatilhas!
— Não é uma trilha, é apenas o caminho que leva onde quero te levar. Para de reclamar. — Ela bufou, cruzando os braços, mas não conseguiu esconder o sorriso. Ele tinha esse efeito sobre ela: podia irritá-la e encantá-la ao mesmo tempo. Ele estendeu a mão, e, sem esperar, ela a segurou. — Vamos lá, prometo que não vai se arrepender.
Enquanto subiam, o ar fresco da noite misturava-se ao perfume dele, deixando cada passo mais difícil de ignorar. tentava se concentrar no caminho, mas cada movimento dele, cada toque acidental, cada risada contida, a distraía completamente.
— Pronto. Chegamos.
Ela olhou ao redor, confusa. No meio da mata só havia um muro baixo, coberto de musgo e raízes agarradas à pedra.
— Ou você vai me matar aqui... — Apontou para o muro, em tom de brincadeira. — Ou temos mais um caso para denunciar por crime em área de preservação ambiental?
Ele riu, balançando a cabeça. Aquela desconfiança dela era divertida, mas, se ele parasse para pensar, também ligeiramente preocupante. raramente tinha suposições positivas a respeito dele; se tivesse que adivinhar algo, o primeiro palpite sempre vinha na versão pior. Parecia impossível para ela conceber que ele pudesse propor algo bom sem algum motivo escondido ou ameaça implícita.
— Não, encrenca. Só precisamos subir esse muro. Sem processos, sem assassinatos.
ficou alguns segundos sem dizer nada, tentando recuperar o fôlego e, talvez, o controle.
— Você devia avisar quando suas ideias envolvem escalada — murmurou, ajeitando o cabelo que caía sobre o rosto.
— Se eu avisasse, você não teria vindo.
Ela franziu a testa, avaliando a altura e o musgo úmido que cobria o muro. Depois, olhou para ele, para a mão estendida, para o olhar paciente, para o jeito como esperava, confiante, como se o que pedia fosse a coisa mais simples do mundo.
— Se eu escorregar e cair, a culpa é sua.
— Aceito o risco.
Subiram. Ele a impulsionou com firmeza, a mão deslizando por sua cintura para ajudá-la a se equilibrar. Quando ela alcançou o topo, ele a seguiu, e, num gesto quase instintivo, puxou-a para junto de si, como se segurá-la pudesse evitar qualquer vertigem.
O coração dela ainda batia acelerado — e não apenas pela escalada — quando se acomodaram do outro lado.
O esforço valeu a pena. A cidade se espalhava à frente deles, um tapete de luzes pulsando ao longe.
Um riso baixo escapou de seus lábios, quase involuntário, enquanto os olhos dela brilhavam, refletindo uma mistura de surpresa e nostalgia. Cada detalhe à sua frente parecia acionar lembranças que ela nem sabia ainda guardar.
Ao longe, entre as árvores e a penumbra, erguia-se a UNP. Não muito próxima, mas também não distante o bastante como uma lembrança teimosa. Foi ali que tudo começou. O primeiro palco de e . O lugar onde as inseguranças deles haviam se disfarçado de ironia, onde a competitividade tinha o gosto doce de algo que só eles entendiam. Entre risadas nervosas, provocações ousadas e silêncios que diziam mais do que deveriam, haviam se formado e, de certo modo, se encontrado.
Cada janela acesa parecia devolver um eco de quem foram e sentiu a estranha vertigem de estar simultaneamente ali e em outro tempo.
— Essa é…?
apenas sorriu. ficou imóvel por um instante, observando a silhueta do prédio recortada contra o céu, tentando absorver cada traço que o tempo havia poupado. Ao seu lado, mantinha o silêncio, dividido entre o prédio cinzento da antiga universidade e o brilho suave no rosto dela.
— Achei que seria justo te trazer de volta para cena do crime. — Ele soltou uma risada baixa, quase um sussurro.
arqueou uma sobrancelha, o olhar dançando entre ironia e ternura.
— Crime?
— De orgulho ferido, competição desleal… — Ele deu de ombros. — E talvez um ou dois beijos mal calculados.
Ela riu, balançando a cabeça, mas não desviou o olhar do prédio à frente.
— Dois idiotas, isso que nós éramos.
— Era divertido. — Ele deu ombros, rindo. O silêncio que se seguiu não era vazio, estava cheio de lembranças. — E olha só… — Ele se aproximou por trás dela, segurando suavemente seus ombros e girando-a na direção que queria mostrar. — Nosso dormitório ali. Finalmente foi reformado.
Ela desviou os olhos para o prédio e parou, absorvendo cada detalhe. A fachada antiga, outrora marcada pelo cimento queimado e janelas desalinhadas, agora se erguia impecável, com pintura fresca e esquadrias novas. Era o mesmo, mas não era.
Como se o lugar tivesse seguido em frente.
— Nossa… — murmurou. — Está… diferente.
— Pois é. Acho que até a goteira da sala 304 se aposentou. — Ele riu baixo, o som ecoando próximo ao ouvido dela, provocante e íntimo.
— Mais respeito, ela era um membro extra do dormitório. Dava mais trabalho que a gente.
— Ninguém dava mais trabalho que a gente, . — Ele se inclinou, murmurando e passando o braço levemente ao redor da cintura dela.
Ela não se afastou, pelo contrário, se inclinou um pouco mais, sentindo o corpo dele tão próximo que era impossível não perceber a presença intensa dele em cada detalhe. Ela assentiu, quase sem palavras, os olhos fixos nos dele.
Sentados no chão de terra, as costas apoiadas contra o muro desgastado daquele terreno baldio, eles perderam a noção do tempo, como de costume quando estavam juntos. A conversa foi se desenrolando, carregada de nostalgia, passando pela época da faculdade, pelas confusões dos outros, pelas brigas que hoje soavam quase cômicas. Aos poucos, foram se permitindo atravessar as fronteiras que sempre mantiveram erguidas, tocar em lembranças que por anos foram território proibido: o primeiro beijo, a noite em que quase se confessaram, o medo mútuo de estragar o que ainda nem tinham.
— Obrigada por me trazer aqui — sussurrou, verdadeira. — Eu nem sabia que existia uma vista assim.
Ele não respondeu de imediato; apenas entrelaçou os dedos nos dela, apertando levemente, num gesto que dizia mais do que qualquer explicação poderia. Lá embaixo, a cidade seguia com seus ruídos, suas pressas, suas urgências. Ali em cima, entre o céu e a árvore, havia uma trégua. Temporária e frágil, mas real.
— Valeu a pena?
riu, sentindo o coração bater mais rápido, e o olhou de lado antes de assentir. Ele se inclinou então, devagar, como se esperasse uma objeção que não veio. Quando seus lábios se encontraram, o mundo pareceu suspenso, por um instante, não havia casos, nem lados, nem regras.
Ele a segurou pela nuca, os dedos deslizando por entre os fios do cabelo dela com uma delicadeza que contrastava com a intensidade do toque. respondeu de forma quase instintiva, a mão buscando o peito dele, sentindo o calor e o tremor leve sob a camisa.
Quando se afastaram, ela manteve os olhos fechados por um segundo, respirando devagar, tentando se convencer de que ainda havia chão sob seus pés.
— Posso dizer uma coisa? Você não pode se gabar disso.
— Me gabar? Do quê? — Ele franziu a testa, genuinamente confuso.
— Passei o dia inteiro querendo encontrar você.
piscou, surpreso. Não esperava aquilo, muito menos dito assim, com uma naturalidade quase cruel.
Um sorriso lento se formou em seus lábios enquanto ele a observava. Era sempre assim com , ela lançava as verdades mais perigosas no ar com a leveza de quem comenta sobre o tempo.
Talvez fosse exatamente por isso — porque ela tinha a coragem que lhe faltava — que ele se inclinou e a beijou de novo. Foi sua única resposta possível, a única que sua natureza contida sabia oferecer.
Intimidação não era algo que conhecia bem e ainda assim, ali estava, sentindo exatamente isso por causa dela. Estranho pensar que a primeira vez não fosse diante de um juiz.
— Ok… então — murmurou, buscando um tom leve que não vinha enquanto arrumava os cabelos dela que ele mesmo bagunçou. — Você voltou naquela loja? Conseguiu trocar o sapato?
A tentativa de mudança de assunto foi tão repentina quanto inútil. O sorriso dela denunciava que ele estava tentando fugir.
— Ah, sim. — Ela riu e desviou o olhar para a janela. — O atendente ainda estava lá.
— O mesmo que tentou te paquerar? — A sobrancelha de se ergueu, mas o maxilar ficou rígido, traindo a fachada de curiosidade despreocupada.
— O mesmo — confirmou com um sorriso divertido brincando em seus lábios. — E me abordou de novo. Pediu meu número dessa vez. Acho que ele estava esperando que você não estivesse do meu lado dessa vez.
Ele desviou os olhos por um segundo longo demais.
— E você deu?
— O que você acha? — Ela soltou um riso breve, sem humor.
— Claro que não. Você é inteligente demais para isso.
— Inteligente demais para aceitar uma cantada de um cara de um metro e meio? — Ela riu, agora com uma ponta de provocação.
— Não. — Finalmente, ele se virou para encarar ela. — Inteligente demais para se envolver com alguém que não sou eu.
Ela parou de sorrir. O ar entre eles tinha mudado. estudou o rosto dele, a linha tensa da mandíbula, a seriedade nos olhos que insistiam em não desviar dos dela.
De onde veio toda essa coragem, ? Era o que ele se perguntava.
— Se eu fosse realmente inteligente, me envolveria com todo mundo, menos com você — tentou suavizar, mas as palavras soaram afiadas. Pigarreou, tentando recuperar o tom leve. — Que foi, ? Está com ciúmes de um atendente de loja que você nem conhece?
— Não é sobre ciúmes. — Ele não negou. — É sobre… prioridades.
— Prioridades? — ela repetiu, deixando a palavra pairar no ar como uma armadilha.
— Sim. Prioridade de saber quem merece seu tempo. E seu número.
Ela permaneceu em silêncio, tentando decifrar o que dizia entre linhas. Observou o perfil fechado dele, deixava escapar, mesmo sem querer, tudo o que guardava.
— E quem merece? — perguntou, genuinamente curiosa.
não respondeu. Não podia admitir que a resposta seria ele. Não assim.
Ambos ergueram os olhos para o céu quando sentiram as primeiras gotas finas de chuva. Sem pressa, decidiram voltar para o carro, antes que a trilha enlameada tornasse o caminho de volta mais difícil.
No carro, por um instante, a tensão pareceu se dissolver. Mas não estava mais disposta a permitir que aquele fosse apenas mais um encontro repleto de meias declarações e verdades pela metade.
— O que estamos fazendo, ? — perguntou, quase num sussurro.
Ele não respondeu de imediato. Pois não sabia como formular a verdade sem destruí-la. O carro seguia pela estrada vazia, o motor ronronava baixo, constante, e entre eles havia uma quietude espessa, cheia de coisas que nenhum dos dois queria nomear.
— Acho que estamos tentando o impossível — ele, finalmente, respondeu, sem desviar o olhar da estrada. — Fingir que dá para separar o que sentimos do que fazemos.
— E dá? — perguntou, com a voz baixa, carregada de uma esperança cansada.
— Eu não sei. Só sei que... Entre o que sentimos e o que esse caso exige… não existe muro. Não existe divisão.
— Acho que você só não sabe o que quer, .
— Eu sei exatamente o que quero, . — riu baixo, quase amargo, negando com a cabeça.
— Sabe? Porque, se sabe, você faz de tudo para esconder.
— Eu escondo porque, se eu disser… tudo muda. — A voz dele tinha se transformado em um trovão grave e sombrio. — Não tem volta.
O carro mergulhou num silêncio quase palpável, como se o ar entre eles tivesse ficado sólido. se sentia desconfortável com o silêncio. Havia ali um excesso de meias palavras e de explicações pela metade que a irritava mais do que gostaria de admitir.
Detestava ambiguidades, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Mas com , tudo parecia ser assim: um quase. Quase dito, quase sentido, quase permitido.
— Eu penso em você o tempo todo... — Ele quebrou o silencio, confessando. — Mesmo quando tento não pensar. Principalmente quando tento não pensar.
— Não é justo — disse, num murmúrio que falhou na metade. — Você dizer isso agora. Você complica tudo, . — Ela suspirou, fechando os olhos.
O mundo lá fora seguia em ritmo próprio — carros passando, buzinas distantes, a cidade respirando como se nada tivesse parado —, mas dentro daquele carro, o tempo parecia suspenso, preso entre o que poderia e o que não deveria ser.
— … — ele começou, a voz falhando no meio do caminho. — Eu não sei se consigo ser quem eu preciso ser quando estou perto de você.
— Então talvez o problema não seja eu. Talvez seja quem você acha que precisa ser.
— É isso que me irrita em você. — Ele riu baixo. Um som cansado, quase amargo.
Por um segundo, pensou em completar: uma das centenas de coisas. Poderia listar cada uma delas, mas, no fim, sabia que nada disso importava. Nenhuma dessas irritações, nem todas somadas, seriam capazes de alterar o que ele sentia por .
— O quê?
— Você fala como se tivesse todas as respostas do mundo.
— Não tenho — respondeu, sem hesitar. — Só aprendi a não fugir das perguntas.
A chuva começou a engrossar, batendo no para-brisa com um ritmo irregular, como se o mundo lá fora insistisse em lembrá-los de que o tempo continuava passando, mesmo quando eles não sabiam para onde ir.
— Você me desmonta, . E eu odeio isso. — Ela o fitou, surpresa. — Não me entenda mal. Eu não odeio você. Eu odeio o que você faz comigo.
O silêncio que se seguiu pareceu mais alto do que qualquer discussão que já tivessem tido. Ele desviou o olhar, como se temesse o peso do que acabara de dizer, enquanto ela tentava processar o impacto das palavras dele e das suas próprias.
Mas foi um detalhe — mínimo, quase imperceptível, e ainda assim devastador — que realmente a atingiu: ele a chamara de .
Não de , nem de . Mas .
a chamara simplesmente de . Pela primeira vez em... sempre.
Ela ainda não tinha se recuperado do susto quando a voz de saiu num sussurro quebrado, quase engolido pelo som da chuva: — Eu queria que fosse mais simples.
respirou fundo, o peito subindo devagar, como se aquele ar custasse a entrar. Fechou os olhos por um instante, talvez tentando reunir coragem ou simplesmente aceitar o inevitável. estava com aquele tom — uma melancolia discreta, resignada — e o olhar distante. Ela já tinha visto antes. Anos antes.
Naquela época, ainda eram estudantes e ele havia acabado de perder uma audiência simulada para ela. Lembrava-se da forma como ele ficou parado no corredor, olhando para o nada, com a pasta nas mãos e o mesmo semblante de agora: o de quem não sabia se devia lutar ou se render.
Era o olhar de quando ele desistia sem dizer que estava desistindo.
Ela o observou em silêncio. Quis discordar, gritar, mas no fundo, ela sabia que nada o faria ficar se ele já tivesse decidido ir.
— O que a gente faz agora? — perguntou, a voz rouca, arranhada, como se cada palavra precisasse atravessar algo preso na garganta. — Com... a gente?
Ele demorou, pois não havia resposta que parecesse certa.
— Talvez a gente precise de um tempo... Só para conseguir enxergar tudo com mais... clareza.
virou o rosto para a janela, acompanhando com o olhar as gotas de chuva que escorriam em linhas tortas pelo vidro. Ela não chorou — não daquela forma que fazia o peito dele doer —, mas havia algo nos olhos dela, um brilho contido, quase resignado, que o fez querer se desculpar sem saber exatamente pelo quê.
— É, talvez — ela repetiu, baixo, num tom que soou mais íntimo do que qualquer beijo que já tivessem trocado.
E ali, parado no meio do trânsito, com o coração em suspenso e o futuro se desfazendo entre os dedos, ele compreendeu: amava , o suficiente para permitir que ela fosse exatamente quem sempre foi.
Amava-a com a maturidade amarga de quem entende que precisava deixá-la ser a mulher que ele sempre admirou, mesmo que isso significasse perdê-la.
Quase três semanas depois, gostava de acreditar que já tinha superado . Repetia isso para si mesma todas as manhãs, como um mantra silencioso enquanto se arrumava para o trabalho. Dizia que nada daquilo importava mais, que o tempo havia feito o que precisava fazer. Gostava de pensar que já o superara uma vez e que poderia fazer isso de novo, com a mesma facilidade ensaiada de quem aprendeu a se recompor.
Mas bastava vê-lo pelos corredores do tribunal para sentir o corpo reagir antes da razão. O estômago revirava, as mãos tremiam, e uma vontade irracional de chorar tomava conta.
Era humilhante, no mínimo. Sentir tudo de novo — o mesmo nó na garganta, o mesmo descompasso no peito — como se ainda estivesse na faculdade, presa entre o orgulho e a saudade.
O som do teclado de ecoava no escritório vazio, preenchendo o silêncio com o ritmo impaciente de quem digitava mais para não pensar do que por necessidade. A única luz vinha da luminária sobre a mesa, projetando um círculo amarelado sobre os papéis espalhados.
Ela piscou, lentamente, os olhos semicerrados fixos na tela como se pudesse desintegrá-la pela pura força da vontade. Um cálculo absurdo cruzou sua mente: o preço de um notebook novo não seria, talvez, tão alto quanto o custo emocional de não atirar aquele ali, agora, contra a parede.
O arquivo recém-aberto piscava no canto da tela. rolou o documento, o coração acelerando a cada linha. Os níveis de pesticida ultrapassavam em muito o limite permitido nas terras da empresa que representava. A data, no canto superior, era de meses atrás.
Ele sabia. Sempre soube.
As duas palavras ecoaram na mente dela como uma sentença, fria e definitiva. Primeiro veio a descrença, depois a tristeza e, por fim, a raiva. Raiva por ele, por si mesma, por tudo que havia entre eles e que agora se tornava uma mentira.
Levantou-se num movimento brusco, o barulho da cadeira quebrando o silêncio. Pegou o notebook com as mãos firmes e seguiu pelo corredor. Ela não sabia exatamente o que diria quando o encontrasse. Só sabia que precisava olhar nos olhos dele e ouvir — de uma vez por todas — se era mesmo o homem que ela pensava conhecer.
estava inclinado sobre a mesa, imerso em uma pilha de documentos, quando o estagiário apontou discretamente para a porta. Ele levantou o olhar e ali estava , atravessando o limiar com a mesma força e determinação que usava para derrubar adversários no tribunal.
Não trazia bolsa, nem crachá, apenas o notebook seguro contra o peito, como se fosse uma extensão da própria vontade.
— . O que... — pousou o notebook sobre a mesa com mais força do que pretendia. A tela se acendeu sozinha, revelando o documento aberto. franziu o cenho. Olhou a tela, depois para ela. — Onde você conseguiu isso?
— Isso importa? Esse laudo é de quatro meses atrás. E mostra níveis absurdos de pesticida. O tipo de dado que muda completamente a linha de defesa da empresa. — ficou em silêncio e apontou com a cabeça para seu estagiário sair da sala. — Você sabia.
— … — Ele começou, a voz baixa, defensiva, mas ela levantou a mão.
— Não. — A palavra saiu antes que ela conseguisse contê-la, cortando o ar entre os dois. — Não me chama assim agora. — O tom partiu mais duro do que ela pretendia, mas não recuou. — Eu quero uma resposta, . Você sabia?
— Eu recebi o laudo depois do fechamento preliminar. — A voz dele saiu contida, racional demais. — Era inconclusivo, instável. Eu não podia usar algo que não era sólido, você sabe disso tão bem quanto eu.
— Então você escondeu. — As palavras escaparam num sussurro carregado de incredulidade. — Preferiu deixar a verdade guardada, porque era mais conveniente.
— Eu segui o protocolo. — Ele ergueu o queixo, tentando manter a compostura, o profissionalismo que sempre o salvara.
— Não, . — Ela balançou a cabeça devagar, o olhar cravado nele. — Você seguiu o que era bom para você. Para sua imagem. Para o seu caso.
— Você não entende...
— Não, . — A voz dela cortou firme, seca, quase sem espaço para respiro. — Eu entendo perfeitamente. Eu só me recuso a aceitar.
— Eu estava tentando proteger o emprego de muita gente. Inclusive o... — ele engoliu em seco, a voz falhando no meio do caminho — ...meu pai.
congelou. Por um instante, achou que tinha entendido errado. O coração bateu uma vez, pesada e dolorosamente, antes de ela conseguir reagir.
— Do que você está falando?
— Meu pai trabalha lá. — respirou fundo, o olhar perdido entre arrependimento e defesa. — A empresa ia perder o caso. Ia fechar. Ele seria demitido. Ele e outras oitenta pessoas. — Ele fez uma pausa curta, a voz crescendo em urgência. — Oitenta famílias, . Gente que vive daquele emprego. E tudo isso por causa da ambição de meia dúzia de acionistas que brincam de Deus com o dinheiro dos outros.
Ela o encarou por longos segundos, o silêncio pesando mais do que qualquer palavra.
— Então foi por isso. Você mentiu para mim. Para eles. Para todo mundo. E acha que isso é justificável porque colocou o fardo num discurso bonito de empatia? — abriu a boca, mas nada saiu. Os dois ficaram ali, frente a frente, presos entre o que já sabiam e o que não podiam mais desfazer. — Você podia ter me dito. Qualquer coisa. Uma explicação, uma desculpa... qualquer coisa.
— Por que eu diria, ? — A voz dele saiu baixa, firme, mas carregada de exaustão. — Por que eu entregaria uma informação dessas para a advogada do outro lado?
— Porque... — Ela abriu a boca para responder, mas a voz vacilou antes mesmo que pudesse formar uma frase.
“Porque eu te ajudaria, . Porque eu faria qualquer coisa para tirar esse olhar triste de você.”, ela pensou, mas nunca disse. E, no fundo, ela sabia. Ele estava certo.
— Você ia expor, . Ia transformar isso num manifesto, num discurso inflamado sobre ética e moral, sem nem tentar entender o que estava em jogo.
— E o que estava em jogo? — rebateu, a voz trêmula de raiva, mas ainda carregando o peso contido do profissionalismo. — A sua conveniência? O seu nome?
— Estava em jogo o sustento de famílias inteiras. Inclusive a minha! — Ele respirou fundo, tentando conter o tom, mas o que saiu foi mais ríspido do que pretendia. — E eu sei que, mesmo agora, se eu te contar tudo, você vai usar isso na sua argumentação.
o encarou, incrédula, cada palavra dele parecia um golpe certeiro, arrancando o ar e a fé que ela ainda tinha no que os dois haviam sido.
— Eu sou profissional, . A diferença é que eu não uso isso como desculpa para apagar o que é certo.
— O que é o certo, ? — perguntou ele, quase em um sussurro, a voz rouca de um cansaço que não vinha só das últimas horas, mas de meses — talvez anos — tentando equilibrar culpa e justificativas. — Fala para mim. O que é o certo e o que é o errado? Porque eu... — Ele engoliu seco, o olhar se perdendo por um instante. — Eu honestamente já não sei mais.
o observou por um tempo que pareceu uma eternidade, buscando em cada traço dele algum vestígio do de sempre. Mas o que encontrou foi diferente. A arrogância habitual dera lugar a algo mais humano, mais despido: exaustão. Arrependimento. Um tipo de vulnerabilidade que a confundia mais do que qualquer mentira.
Ela respirou fundo antes de responder, a voz saindo mais baixa, mas ainda firme.
— Não é tão complicado assim, .
— Não? — ele rebateu, cruzando os braços, as palavras vieram embargadas de raiva, mas também de algo que soava perigosamente como mágoa. — Você fala como se o certo e o errado fossem linhas nítidas. Como se nunca tivesse se confundido, como se nunca tivesse machucado alguém só para continuar respirando.
— Você acha que eu nunca precisei escolher. Que eu nunca precisei carregar culpa. Você realmente acha que é isso que eu faço? — perguntou, a voz controlada, mas trêmula nas bordas. — Fingir que nada me atinge? Que eu consigo dormir tranquila depois de ver vidas despencando por causa de uma sentença?
Por dentro, ela tentava sustentar a fachada. Mas a pergunta ecoava de volta dentro de sua cabeça: será que é isso mesmo que eu faço? A dúvida latejava, queimando sob a pele. Talvez ele tivesse acertado mais do que pretendia.
— Eu acho que você aprendeu a se convencer disso. Do contrário, não conseguiria viver com o que faz.
— E você consegue? — ela rebateu, sem hesitar. — Consegue deixar a vitória de lado para satisfazer sua a própria consciência?
deu um passo à frente, o olhar endurecido, a respiração pesada. Mas havia algo nos olhos dele que traía a raiva. Era uma centelha de vulnerabilidade, de desespero contido. O desespero suave de quem tinha todas as suas certezas caindo por terra e não sabia o que fazer com isso.
— Vitória? Eu não quero vencer, ! — As palavras saíram quase como um grito, roucas, cruas. — Isso aqui não é a faculdade, não é um debate de ética em sala de aula. Isso é a vida real! A minha vida! — Ele apontou para si, depois para ela, a voz falhando por um instante. — A do meu pai. A sua.
O silêncio voltou, denso, quase palpável. o observou por um instante o homem à frente dela, cansado, despido de qualquer fachada. A raiva deu lugar a algo mais brando, mais triste. Ela respirou fundo, sem saber se queria abraçá-lo ou deixá-lo ali, preso entre as próprias defesas.
— Você... caramba, . Eu gosto de você mais do que tudo, mas eu não vou pedir desculpas por fazer o que acho certo. Acima das leis, do tribunal, do juiz, do pesticida, do cacete. Eu sei que, no papel, estou errado. No campo jurídico, você ganharia de mim em qualquer audiência. Mas na vida real, não. Na vida real, eu sei o que estou fazendo.
Ela o encarava, sem conseguir decidir se queria gritar ou chorar.
— E se você não enxerga mais isso... talvez devesse voltar a ser aquela menina idealista que eu conheci na faculdade. Aquela que acreditava que o certo e o justo não é a mesma coisa.
piscou algumas vezes, como se precisasse se convencer de que tinha realmente ouvido aquilo. E, pela primeira vez desde que entrara na sala, parecia não ter resposta.
— V-você pode se esconder atrás de cláusulas, de planilhas, de famílias que dependem de você... — A voz dela falhou por um instante. respirou fundo, tentando recompor o tom. — Mas no fim, ainda é uma escolha. Sempre é.
Ele soltou uma risada curta e incrédula, passando a mão pelo rosto, tentando disfarçar o incômodo, e desviou o olhar para o notebook, onde o cursor piscava no documento aberto, insistente, como se esperasse uma resposta que ele não sabia dar. Depois, voltou a encará-la.
— Ainda estamos falando disso? Do caso?
não respondeu de imediato. Piscou devagar, tentando conter o tremor nas mãos. Engoliu em seco, o som pareceu ecoar alto demais na quietude do escritório. Então decidiu chutar o balde. Caso, processo, relacionamento, opiniões...tudo entre eles sempre fora a mesma coisa, um nó impossível de desatar.
O pessoal e o profissional se confundiam desde o início; era assim que funcionavam, entrelaçados em cada escolha, em cada palavra, em cada silêncio. E agora não seria diferente.
— Foi por isso que pediu um tempo? — ficou imóvel. O olhar, antes tão seguro, se desviou. Encontrou o canto da mesa, depois o chão. Em algum lugar ali, entre os papéis e o silêncio, ele tentou achar uma resposta que não existia. Mas não se contentava com silêncios. — Me diz, . — A voz dela vacilou, mas manteve o fio. — Foi o caso... ou fui eu?
A pergunta pairou no ar, densa, quase física.
Não foi o caso. Foi ela. Sempre foi ela. A verdade queimava dentro dele: Ele tinha pedido tempo porque estava apaixonado. Porque cada vez que ela o desarmava com uma ironia, cada vez que sorria no meio de uma discussão ou argumentava bem diante do juiz, ele perdia o rumo.
Mas não podia dizer isso, não agora. Então, apenas assentiu.
Nenhum dos dois se moveu. foi a primeira a desviar o olhar. Precisava respirar, precisava sair dali antes que dissesse algo que não pudesse ser retirado do registro invisível das coisas imperdoáveis e, principalmente, antes que ele visse seus olhos se enchendo de lágrimas.
— Eu te amei, sabe? — ela disse, por fim, antes de se virar e sair. — E mesmo agora, quando tudo em mim quer te odiar, ainda tem uma parte que te defende. Que acredita que, de algum jeito torto, você tá certo.
se sentou, respirando fundo. As mãos ainda tremiam, embora o rosto permanecesse sereno. Inspirou outra vez, mais devagar, tentando convencer a si mesmo de que aquilo era o certo. Que deixá-la ir era a única forma de preservar o pouco que ainda restava dos dois.
Enquanto discutiam no tribunal, enquanto ele a tocava na penumbra do apartamento, enquanto debatiam ética com um vinho amargo na boca. Ele sabia.
A raiva veio primeiro, mas não permaneceu. Cedeu espaço ao cansaço que aprendera a reconhecer nos olhos de , à maneira cuidadosa com que ele desviava sempre que o assunto se aproximava demais da família. A indignação inicial se dissolveu em algo mais espesso, mais pesado, difícil de nomear.
O laudo permanecia no centro da mesa de . Era como se, em algum ponto entre as margens rabiscadas e os carimbos oficiais, houvesse uma resposta que ela simplesmente não conseguia enxergar. Nada se encaixava.
A cada releitura, as linhas pareciam menos números e mais rastros: decisões tomadas em silêncio, escolhas empurradas para debaixo do tapete, pessoas reduzidas a estatística. pensou no pai dele, um homem que conhecia apenas por fotografias antigas, por histórias contadas com um misto de orgulho e exaustão.
Fechou os olhos por um instante. Bastava anexar aquele documento ao processo e tudo se resolveria de forma objetiva, previsível, quase elegante. Manchetes. Investigações. Culpados nomeados. A justiça em sua forma mais reconhecível.
Mas também cairiam outros. Um pai envelhecido. Funcionários invisíveis. E agora, por mais que tentasse separar pessoas de fatos, números de rostos, já não conseguia. Todos tinham história, voz, presença. Pela primeira vez em muito tempo, percebeu que talvez justiça e verdade nem sempre caminhassem lado a lado e que, em certos casos, vencer significava perder algo muito mais essencial.
Foi ali que entendeu que seu dilema já não era jurídico. Não se tratava de denunciar ou não, de ganhar ou perder. Tratava-se de decidir que tipo de justiça ela estava disposta a sustentar. sempre acreditara que o Direito fosse uma bússola. Norte: a verdade. Sul: a lei.
Agora via os abismos entre os pontos cardeais, lugares onde pessoas reais tombavam. havia caído em um deles. Preso entre o dever de revelar um crime e o instinto de proteger o homem que lhe dera tudo. Entre o que era certo pelo código e o que era justo pelo coração.
Ela deixou escapar um suspiro que se desfez numa risada baixa, sem alegria. Era curioso — ou talvez apenas o destino insistente dele — que, mesmo à distância, longe dos corredores da faculdade e dos escombros do que um dia chamaram de relacionamento, ainda fosse capaz de projetar dúvidas sobre aquilo que ela julgava como certo.
Sua mão, por fim, se moveu. Não para abrir o arquivo, mas para puxar a gaveta inferior da mesa. O lugar onde guardava os casos irrespiráveis, os dilemas sem solução elegante. Ao fechar a gaveta, não sentiu alívio. Sentiu o peso de uma toga invisível sobre os ombros, uma que não vinha dos tribunais, mas da própria consciência.
Do lado de fora, a cidade seguiu. E dentro dela, uma advogada descobriu que a sentença mais difícil não é a que se profere em voz alta, mas a que se cumpre no silêncio de uma gaveta fechada.
O caso se encerrou semanas depois. Sem aplausos. Sem discursos. Apenas com a sensação incômoda de que o que é certo, muitas vezes, não faz barulho. Foi só depois de alguns meses que voltou a analisar o caso com calma. E isso só aconteceu quando Matias — o estagiário de — apareceu à sua porta.
Num primeiro impulso, ela pensou que fosse uma tentativa indireta de . Um recado mal disfarçado, enviado por meio de quem ainda transitava entre os dois mundos. A impressão se dissipou assim que Matias lhe estendeu um currículo, as mãos firmes demais para alguém que só fazia uma visita casual.
— Hum… Matias, você é um ótimo estagiário... — comentou, percorrendo o papel com os olhos —, mas acho que o doutor Quasim não ficaria nada feliz em saber que eu roubei o estagiário dele.
Ele se apressou em esclarecer, percebendo a confusão no olhar dela.
— Então, doutora … eu já não trabalho mais com ele. Nada aconteceu, eu juro. É só que… o doutor Quasim pediu demissão do escritório.
— Ele o quê?! — ergueu a cabeça de imediato.
Matias não soube — ou não quis — dar detalhes. Mas não precisou deles. Havia uma coerência silenciosa ali, a mesma que a fazia evitar a última gaveta da sua mesa há meses.
Naquela noite, sozinha no escritório, acompanhada de uma garrafa de cerveja surrupiada às escondidas, ela abriu a gaveta inferior pela primeira vez desde o encerramento do caso. Reabriu o processo. Releu os números, as entrelinhas, os silêncios.
E, então, viu o que antes não conseguira: uma alternativa.
Quando pediu demissão, sentiu o vazio típico que vem depois de batalhas longas demais. Não houve escândalo. Nenhuma justificativa elaborada. A advocacia, que por tanto tempo funcionara como armadura, agora soava como um idioma que ele já não conseguia falar sem se trair. Não sabia o que faria a seguir. Apenas sabia que não podia continuar ali.
Pela primeira vez em anos, não havia urgência. Os dias se estendiam sem prazos e o telefone vibrava apenas de vez em quando. Ainda assim, foi pego de surpresa quando, no meio desse esforço silencioso de se reencontrar no mundo, recebeu o e-mail.
Era de .
Ela não escreveu para reabrir feridas nem pedir explicações. Propôs uma solução. Um acordo confidencial: a empresa admitiria o erro internamente, conduziria investigações, indenizaria as vítimas e reformularia suas práticas. Nenhum holofote. Nenhum espetáculo. Apenas consequência real.
leu a mensagem mais de uma vez. E, pela primeira vez desde que tudo ruíra, sentiu algo próximo de alívio, não por estar absolvido, mas por finalmente enxergar um caminho que não exigia que ele negasse quem era.
Algumas semanas depois, a rotina começava a se reorganizar ao redor do que sobrara.
já não acordava com a sensação de estar atrasado para algo que odiava. Os dias tinham perdido a nitidez das audiências, mas ganhado um ritmo mais honesto. Ele caminhava mais. Pensava menos em estratégias e mais em consequências. Ainda não sabia que forma aquele recomeço tomaria, mas pela primeira vez não sentia a urgência de decidir.
O acordo avançava discretamente. E-mails técnicos, reuniões objetivas, nenhuma palavra que não fosse necessária. Ainda assim, em cada parágrafo redigido por , reconhecia o mesmo cuidado que ela sempre tivera com o que não cabia nos autos.
, por sua vez, sentia o silêncio dos corredores do escritório de um jeito diferente. Sem o caso, sem orbitando seus dias, o tempo parecia mais largo. Ela seguia trabalhando, mas havia algo menos combativo em seus gestos. Como se tivesse aprendido que nem toda vitória precisava ser empunhada.
Eles não se falaram fora do estritamente necessário. Não houve mensagens fora de contexto, nem tentativas de reabrir o que fora encerrado.
Foi numa tarde comum, ao sair do fórum, que o viu do outro lado da rua.
A princípio, demorou alguns segundos para reconhecer. Talvez porque não estivesse procurando. Talvez porque , fora do contexto que sempre os definiu, parecia outro homem. Ele ainda não a havia percebido. Conversava com alguém com gestos contidos, atentos, como quem escuta mais do que fala. Estava sem terno, sem pasta, sem o peso visível que costumava carregar nos ombros. Havia nele algo novo.
Não era felicidade. Leveza.
O peito de se apertou num reflexo automático, quase irritante. Por um instante, sentiu a tentação covarde de virar o rosto, fingir que não o vira, proteger-se do que quer que aquilo despertasse. Mas não conseguiu.
Enquanto o observava, pequenas lembranças surgiram sem pedir licença: o jeito como ele franzia a testa quando a ouvia falar, a inclinação quase imperceptível da cabeça ao ouvir algo que importava, os vinhos das noites de quarta-feira.
Tudo parecia igual. E, ao mesmo tempo, irrevogavelmente diferente.
Quando se despediu da pessoa com quem conversava e seguiu na direção oposta, algo em se desorganizou. Um impulso. Um incômodo. Uma recusa silenciosa em deixar aquele encontro existir apenas como um acaso não vivido. Ela não soube dizer quando começou a andar. Nem quando passou a correr.
Não foi uma corrida bonita, cinematográfica. O cabelo se soltou, se espalhando sem controle, uma das tiras do sapato cedeu, e por pouco, ela não foi ao chão. Ainda assim, continuou. Ofegante, desajeitada, determinada de um jeito que não saberia explicar depois.
Conseguiu alcançá-lo antes que virasse a esquina.
— ! — se virou rápido ao ouvir o próprio nome, segurando-a pelo braço ao vê-la curvada, as mãos apoiadas nos joelhos, lutando por ar.
— Eu… chamei… você... — disse, entre respirações curtas, sentindo o coração bater alto demais para uma situação tão simples.
— Eu estava… — Ele apontou para o ouvido, indicando o fone sem fio, que logo retirou. O olhar, agora completamente nela, carregava uma preocupação genuína. — Você está bem? Se machucou?
— Eu estou bem — disse, enfim, endireitando-se por completo. Ajustou o cabelo com um gesto automático, como se precisasse ocupar as mãos. — Só…
observou o sapato frouxo, o rubor no rosto dela, a respiração ainda irregular. Um canto da boca se ergueu. Era bom demais ver o rosto de na sua frente de novo.
— Continua fazendo tudo como se fosse um argumento final — comentou, baixo.
Ela soltou um ar curto pelo nariz.
— Alguém precisava te lembrar disso.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi atento. inclinou levemente a cabeça, estudando-a com a mesma concentração que antes dedicava a um juiz difícil. Havia perguntas ali. Muitas. Mas nenhuma parecia querer atravessar o limite.
— Eu não sabia se você… — ele começou, depois parou. Recomeçou, mais simples: — Fico feliz em ver você.
— Eu também — respondeu. — Soube que você pediu demissão. — deu de ombros, num gesto quase tímido, pouco habitual nele. — Foi só do escritório… ou da advocacia?
Ele soltou um suspiro baixo. Claro que faria justamente a pergunta que ele mesmo evitava responder havia dias.
— Me dá alguns dias e talvez eu consiga te dizer — respondeu, com um meio sorriso. — Tenho tentado pensar fora da caixa. Pode ser hora de largar as grandes empresas e, quem sabe, fazer algo… — Ele não terminou a frase, nem sabia como. Sustentou o olhar dela por alguns segundos a mais do que o necessário. — Você está com pressa?
— Não — respondeu, quase surpresa com a própria certeza. — Não hoje.
fez um gesto vago com a mão, apontando para a esquina, o tom mais leve do que estratégico.
— Café ou cerveja?
arqueou levemente a sobrancelha. O gesto foi mínimo, quase automático, mas o canto da boca se curvou antes mesmo que ela formulasse a resposta.
— Vinho.
Ele não sorriu, mas algo em seus olhos se acendeu. Um reconhecimento rápido, como quem ouve uma senha antiga e ainda se lembra do código.
— Vinho... — repetiu, como se testasse a palavra. — É claro.
Ele não a tocou. Não ofereceu o braço, não indicou o caminho com a mão. Apenas virou-se, iniciando o movimento em direção à esquina com uma lentidão cuidadosa demais para ser casual. o seguiu. Não por decisão consciente, o corpo simplesmente acompanhou.
Os passos se alinharam com uma naturalidade desconcertante, havia algo de estranhamente íntimo naquele ajuste silencioso, naquele caminhar lado a lado sem precisar negociar ritmo ou destino.
As lembranças vieram sem violência. Noites longas demais, janelas abertas, conversas que começavam triviais e terminavam perigosamente honestas.
Dessa vez, não havia processo a ser julgado. Nenhuma tese a ser defendida. Nenhuma verdade a ser provada. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia a urgência de estar certa. Ela percebeu que também caminhava assim: atento, mas sem rigidez. O homem que antes calculava cada palavra agora permitia pausas. O advogado que sustentava embates agora aceitava o silêncio como resposta suficiente.
Aquilo não apagava o que haviam sido, tampouco corrigia o que fora quebrado. Mas revelava algo novo: a possibilidade de existir fora do conflito, à margem do caos. Algo que percebeu com clareza quando sentiu entrelaçar a mão na sua, sem cerimônia, como se aquele gesto nunca tivesse precisado de autorização.
Ele soltou o ar devagar. Um suspiro aliviado, quase imperceptível.
Sem acordo.
Sem juiz.
Sem objeções.
Fim.
Nota da autora: Gente! Quando resgatei esse plot, fui correndo falar com a Aurora em completo desespero — e fiquei NERVOSA quando mandei o primeiro capítulo pra ela, só pra ver se estava do jeito que ela imaginou. Mesmo com ela dizendo que sim, eu espero de coração que Objeção, Meritíssimo tenha atingido o que a gente sonhou.
Eu devia ter avisado antes, mas... se tiver alguém da área jurídica lendo e pensando “tadinha, não sabe nada de Direito”, você está completamente certo! Eu realmente não sei mesmo 😂 Mas juro que tentei!
No começo, eu não tinha o objetivo de aprofundar OM além de um “romancizinho”, mas os pitacos sobre ética, justiça e moral sempre arrumam um jeito de me perseguir kkkkk
Objeção foi o primeiro resgate de plot que eu fiz e foi muito divertido me desafiar a escrever algo que nasceu da mente de outra pessoa (Aurora, essa é pra você 💛).
Muito obrigada a todo mundo que leu, comentou e acompanhou essa história. De verdade.
Vejo vocês por aí, beijosss
💫
nota galática da beth: Eu me sinto honrada por minha ideia ter sido resgatada por alguém que eu admiro como escritora e transformou isso além do que imaginei. Eu quem te agradeço por você ter resgatado esse plot, Ju! OM se tornou uma fanfic mais do que especial para mim, valiossíma pessoalmente, tornei-a única no meu coração e tomo a liberdade de dizer que ela foi escrita para mim, tá? Adorei Liliana e Daniel, torci por eles e apesar do final não ter deixado explícito, eu sei que eles retomaram um relacionamento mais estável e se casaram!! Gostei de como você moldou a personalidade deles, de como o conflito de ambos batiam-se de frente e como um, nem outro, recusava diante disso, cada um mantendo-se firme naquilo que acreditava. Vou levá-los comigo ❤️
Muito obrigada por dado vida à OM, nunca pare de escrever 💖
Eu devia ter avisado antes, mas... se tiver alguém da área jurídica lendo e pensando “tadinha, não sabe nada de Direito”, você está completamente certo! Eu realmente não sei mesmo 😂 Mas juro que tentei!
No começo, eu não tinha o objetivo de aprofundar OM além de um “romancizinho”, mas os pitacos sobre ética, justiça e moral sempre arrumam um jeito de me perseguir kkkkk
Objeção foi o primeiro resgate de plot que eu fiz e foi muito divertido me desafiar a escrever algo que nasceu da mente de outra pessoa (Aurora, essa é pra você 💛).
Muito obrigada a todo mundo que leu, comentou e acompanhou essa história. De verdade.
Vejo vocês por aí, beijosss
nota galática da beth: Eu me sinto honrada por minha ideia ter sido resgatada por alguém que eu admiro como escritora e transformou isso além do que imaginei. Eu quem te agradeço por você ter resgatado esse plot, Ju! OM se tornou uma fanfic mais do que especial para mim, valiossíma pessoalmente, tornei-a única no meu coração e tomo a liberdade de dizer que ela foi escrita para mim, tá? Adorei Liliana e Daniel, torci por eles e apesar do final não ter deixado explícito, eu sei que eles retomaram um relacionamento mais estável e se casaram!! Gostei de como você moldou a personalidade deles, de como o conflito de ambos batiam-se de frente e como um, nem outro, recusava diante disso, cada um mantendo-se firme naquilo que acreditava. Vou levá-los comigo ❤️
Muito obrigada por dado vida à OM, nunca pare de escrever 💖
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