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Codificada por: Sol ☀️

Finalizada em: 20/07/2025.

Dedicatória

Para todos que já estiveram
presos em relacionamentos ruins
ou escolheram o caminho mais fácil
por medo de ficarem sozinhos.

Não olhe no espelho
para o rosto que você não reconhece

Radiohead


O tempo que passei com Shady Collins me fez odiá-lo. Tudo o que eu desejava era sair daquela casa e nunca mais voltar. Queria deixá-lo para trás com as suas merdas de desculpas e seguir um caminho onde eu poderia viver a minha vida ao lado do cara por quem eu estava de fato apaixonada.

Mas a situação atual era muito mais complicada do que isso.

Há mais de dois anos, eu tivera uma briga terrível com meus pais. Passara pela porta da frente e nunca mais colocara os pés naquela casa. Assim, não os via mais, nem mesmo nas férias. Perdemos o contato, bem do jeitinho que eles desejavam. Quanto mais longe eu ficasse, melhor.

Melhor para eles, no caso.

Mamãe e papai não se importavam mais comigo desde que Harry se afogara no lago — quando ambos tínhamos quinze anos — e nos deixara para sempre. Eles agiam como se fossem os únicos a ter direito ao luto, mas eu também havia perdido Harry naquele dia. Ele era o meu irmão gêmeo. O meu tudo.

Ainda que eu tivesse que lidar com uma rejeição parental, acreditava que eles me aceitariam de volta caso eu tentasse retornar. Não seria boba de pensar o contrário, afinal, papai e mamãe ainda pagavam a parte da mensalidade que a bolsa estudantil não cobria. O problema era que os dois moravam em San Francisco, e a cidade pacata de Riverfork ficava no interior, a muitas e muitas milhas de lá. Então, se agisse como um bebê chorão e voltasse correndo para o aconchego dos braços dos meus pais em San Fran, teria que abandonar a faculdade.

Só que eu já estava no meu último ano. Perder a bolsa agora não era uma opção. Ou seja, não havia escolha a não ser ficar.

Já morara em duas casas com outros estudantes, também maiores de idade, e sempre tínhamos dividido o aluguel. Agora eu estava desempregada e, portanto, sem dinheiro para me manter sozinha. Assim, não havia como fugir de Shady e ir morar em um lugar qualquer com outras pessoas.

Eu costumava preferir casas fora do campus, como esta onde eu preparava o meu café agora. Ainda assim, voltaria para os dormitórios da Riverfork College com o rabinho entre as pernas sem pensar duas vezes. No entanto, essa opção também não estava disponível para — ou, como a coordenadora dos dormitórios tomou gosto por referir-se a mim: a garota festeira.

Trisha me expulsara dos alojamentos no ano anterior por causa de uma reuniãozinha que fizéramos nos quartos e corredores do prédio. Bem, aquilo não poderia ser chamado de “reunião”. O ponto era que havia saído de controle. Completamente. Se a decisão coubesse a mim, eu também teria expulsado pelo menos uma pessoa — mesmo que fosse um bode expiatório —, para mostrar quem mandava naquela merda.

Pelo menos não havia sido expulsa da faculdade e nem perdido a bolsa.

Era engraçado analisar como a minha vida estava nos dias de hoje. Engraçado de uma maneira trágica. Bem trágica.

Servi uma caneca de café preto e o adocei com um pouquinho de açúcar. De amarga, já bastava a situação atual, não é mesmo?

Morar com Shady Collins havia sido legal no início, porém tornou-se o pior de todos os pesadelos. O brilho no meu olhar morreu em poucos meses de convivência e eu raramente conseguia recuperá-lo.

Tomei um pequeno gole da bebida quente e caminhei, de pés descalços, até a janela. Era tarde da noite, mas dava para ver o estádio de futebol americano da faculdade e suas belas luzes noturnas. Essa proximidade com o estádio dos Huskies era a única coisa que ainda me agradava por aqui e, de certa forma, trazia-me um pouco de esperança.

Meu namorado fazia parte dos Huskies, porém aquele não era o seu esporte. Shady jogava em nosso time de basquete, na posição de armador principal, e era muito bom no que fazia. Ao menos era isso o que viviam me dizendo na faculdade. Eu nunca dei muita atenção ao basquetebol, só conhecia alguns nomes mais famosos e ficava por isso mesmo. Quando comecei a namorar um cara do basquete, pensei que finalmente começaria a apreciar esse esporte tanto quanto os outros. Como sempre, porém, Shady dificultou meus desejos.

De que adiantava ser um jogador incrível se ele era um cuzão?

Tomei os últimos goles do meu café e suspirei. O cara por quem eu me encontrava apaixonada nesse exato momento também era jogador. Ele, sim, jogava naquele estádio. E foi exatamente lá que havia notado pela primeira vez.

Eu jamais me esqueceria daquela jogada espetacular.

***
DOIS ANOS ATRÁS…


— Vai, Huskies! — gritei enquanto o nosso time de ataque entrava em campo outra vez, então deixei o silêncio da expectativa me tomar.

Na hora em que a defesa jogava, fazíamos muito barulho para atrapalhar o ataque adversário. Então quando o nosso time ofensivo chegava para jogar, a torcida fechava a boca para que eles pudessem se comunicar. O relógio voltou a correr e algumas jogadas se seguiram. Ganhamos mais território e nos mantivemos com a posse de bola por mais tempo dessa vez.

Eu havia criado uma grande paixão pelo futebol americano ainda criança por causa do meu falecido irmão. Estive ao lado dele o tempo todo desde que ele entrou no time da escola na posição de cornerback*. Sempre prestara-lhe o devido apoio. Ajudava-o até a estudar o posicionamento e as jogadas das outras equipes. Formávamos um bom time, Harry e eu.

Acho que também fora esse o motivo de sempre ter gostado mais de defesas do que de ataques. E isso combinou com a universidade onde viera estudar, afinal, uma das melhores defesas do futebol universitário era nossa. Não chegávamos aos pés da Universidade de Drale, é claro, mas ainda assim, nosso time defensivo era muito bom.

No entanto, a defesa não poderia fazer todo o trabalho sozinha. Nossa situação de jogo estava muito difícil e precisávamos pontuar se quiséssemos sequer ter uma chance de vitória. MarbleU não era o nosso principal rival, mas o jogo contra eles era complicado em todos os anos, sem exceção.

A bola saiu do chão outra vez e Jacob Kalani, o nosso quarterback**, lançou um passe curto para um dos recebedores que se livrara da marcação. Ele fez a recepção que foi, talvez, a mais fácil de toda a carreira universitária dele, e então correu. Fez cortes incríveis, desviando de cada jogador do time adversário que tentava derrubá-lo para acabar com a jogada ou fazê-lo soltar a bola para que eles pudessem recuperar a posse.

Levantei, empolgada com a corrida do nosso número 88. Meu coração disparou e eu gritei e berrei junto com o resto da torcida até minha voz se esvair. Esse era um dos motivos por que gostava tanto de ir ao estádio para assistir a jogos de futebol americano. Não tinha nem como comparar à televisão. O clima era diferente e o sentimento era tão bom que eu poderia até chamar de perfeito.

O camisa 88 desviou de outro adversário e o desespero bateu quando mais um cara apareceu bem na sua frente; o último jogador entre ele e a linha que precisava cruzar para que marcássemos nossos merecidos pontos. Sem parar a corrida, impulsionou seus pés contra o chão e pulou por cima do outro cara. Meus olhos se arregalaram. Os pelos dos meus braços se eriçaram em resposta a cada pequeno instante daquela jogada.

O cornerback de MarbleU conseguiu segurar, então, no tornozelo do nosso recebedor e fazê-lo cair. No entanto, nosso cara manteve a posse de bola, marcando assim, o tão esperado touchdown***.

Era tudo o que precisávamos naquele momento. E aquele homem, seja lá quem fosse, tinha nos trazido isso. Ele podia não ser nosso wide receiver**** principal, mas assim que Isaiah se formasse e deixasse o time para trás, esse cara teria grandes chances de virar o nosso número um. O treinador seria louco de não considerar isso.

Ergui os braços e gritei, assim como todas as pessoas nas arquibancadas que vestiam o azul dos Huskies. Minha melhor amiga e eu nos abraçamos enquanto pulávamos em comemoração.

Quem é aquele cara? — perguntei à Jenny.

— O ? — ela indagou de volta.

— Se eu soubesse que esse é o sobrenome do cara, não estaria te perguntando. — Revirei os olhos.

— Não acredito que você realmente não sabe o nome de alguém desse time. — A garota riu. — Quer dizer, sei que há centenas deles, mas você é viciada, sabe? Pensei que saberia pelo menos os nomes dos principais jogadores da nossa universidade.

— Mas não sei, ué! Milagres acontecem, não viu? Aquele cara do touchdown… Meu deus! — Bati palminhas, empolgada. — O pulo que ele deu por cima do cornerback de MarbleU me fez explodir de felicidade.

— Ai, , você nunca muda. — Encarou-me. — E se o cara for incrivelmente feio?

— Beleza não importa tanto assim, J. — expliquei. — O que importa de verdade são as jogadas incríveis que podem mudar o jogo.

Claro que sim. Certo. Ele não é feio, a propósito. Sei que está morrendo de vontade de me perguntar isso — divertir-se com o fato. — Por que você sempre fica a fim dos caras pelas jogadas que eles fazem? É uma curiosidade que sempre tive.

— Porque é assim que as coisas funcionam — respondi o óbvio. — Harry sempre me dizia uma frase que eu levo para toda a vida: “futebol antes de garotos”.

— Quero ver se esse seu pensamento vai durar para sempre. — Ela caiu na risada. — E se eu me lembro bem do Harry, ele gostava de meninas, então essa frase era bem conveniente para ele.

— É, você tem um ponto — reconheci. — Agora para de me enrolar, Jenny. Quem é esse tal de que fez o touchdown e por que diabos ele é um dos únicos jogadores principais que eu não conheço? Bem, sem contar os calouros, claro, esses ainda não tive muito contato. — Dei de ombros. — Mas olha para aquele homem, ele não é calouro.

— Pensei que você ficasse por dentro das notícias do time. O nome dele é — revelou, enfim. — E você está certa, ele é segundanista, pelo que ouvi dizer. Jogou o ano de calouro na Universidade de Koster Harbor.

— Então ele se transferiu para a Riverfork College? — Levantei as sobrancelhas. — Por que saiu de uma cidade grande para vir jogar e estudar no interior da Califórnia? Fica em outro canto do país!

— Sei lá. Talvez ele apenas goste dos Huskies — sugeriu. — Como vou saber?

, não é? — repeti e ela assentiu. — Já sei o que vou fazer assim que chegarmos nos dormitórios.

Jenny estreitou os olhos, mas optou por ignorar minhas ideias malucas e voltar a prestar atenção no jogo como a menina esperta que era.

***

Acabamos perdendo aquele jogo para MarbleU, assim como perdemos no último ano e no atual. Nada fora do comum, mas estava tudo bem. Ainda mais que aquela jogada tinha virado o jogo para mim. Fazia tanto tempo que eu não sentia aquele calorzinho de paixonite por ninguém, e então marcara aquele touchdown, pulando por cima do cornerback e pousando direto na endzone do meu coração.

A primeira coisa que tinha feito ao chegar no alojamento naquela noite fora tentar entrar em contato com , ainda que fosse de modo superficial. Quando abrira meu notebook, Jenny pensara que eu fosse adicioná-lo ou segui-lo em alguma rede social. No entanto, eu não queria ter que esperar que ele me aceitasse ou seguisse de volta para só então entrar em contato. Precisava de algo mais direto. E nada melhor do que um endereço de e-mail da universidade, já que não havia jeito de eu conseguir o número do celular dele sem falar com outros caras do time.

Entrara, então, no site da Riverfork College, pois sabia que eles disponibilizavam o e-mail acadêmico de todos os alunos por lá, e enviara a primeira mensagem. E o resto era história.

Foi assim que descobrira a verdade sobre sua transferência. Ele não havia sido forçado a se transferir, como acontecia quando faziam algo muito errado — isso foi um alívio, para ser sincera. A cidade natal dele era Oakland, bem do ladinho da minha, e seu pai estava doente na época, então uma universidade com um time bom em um fim de mundo californiano ficava bem mais perto do que continuar jogando no estado de Koster, que ficava quase do outro lado do país.

Trocamos e-mails durante cerca de uma semana, e foi tudo muito bom. Como sempre, porém, os modos superficiais de conversa não duraram muito. Depois de vários dias sem contato entre a gente, exceto por alguns simples “oi” acompanhados de sorrisos amistosos nos corredores da Riverfork College, desencanei da minha paixonite. Era o que sempre acontecia quando eu pensava que não ia dar em nada.

Foi nesse momento que decidi dar uma chance a Shady. Já havia o beijado em meu ano de caloura e até mesmo ido para a cama com ele. Então tudo o que eu pude pensar foi: por que não dar uma chance?

Aquele foi o meu maior erro.

Shady Collins parecia um cara legal e sempre estivera por perto. Ele gostava de mim, me desejava e, o melhor de tudo, demonstrava isso. Mesmo pessoas que não curtem muito demonstrações públicas de afeto necessitam saber quando alguém está a fim delas. Ninguém gosta de investir em alguém que não mostra o que quer.

Começamos a namorar e, com o tempo, aprendi a corresponder os sentimentos dele. Após aquele famoso episódio da dita “festa” que me fez ser expulsa dos alojamentos da universidade e receber o título de “garota festeira”, Shady me oferecera um teto sob o qual morar.

Fomos felizes nos primeiros seis meses. Quer dizer, ele ainda estava feliz hoje em dia; eu era quem não sentia mais um pingo de felicidade ao lado dele. Isso porque, na metade do sétimo mês de convívio, viera a noite em que meu pesadelo aconteceu pela primeira vez. Shady chegara em casa, bêbado e frustrado com a derrota do time de basquete para o nosso maior rival. Ele tivera um dia de merda e, como se isso fosse motivo para ser um lixo de pessoa, descontara em mim toda a sua raiva e insatisfação.

Aquela seria apenas a primeira de muitas vezes, porém um interruptor se ligara com um clique silencioso dentro da minha cabeça. Toda a fantasia de casal perfeito e feliz caíra por terra e eu simplesmente não me reconhecera mais. Foi quando percebera, então, que meu namorado havia me afastado de todo mundo que se importava comigo.

Eu não tinha a quem recorrer. Não restava mais ninguém. Quando abrira a porta do meu coração para que Shady Collins entrasse, não esperava que ele fosse esmagá-lo da pior maneira possível. E agora eu estava em uma prisão que eu mesma o ajudara a construir.

* Cornerbacks são responsáveis por marcar os recebedores e, em caso de jogadas terrestres, têm a função de parar o avanço da corrida. É uma posição que requer velocidade e agilidade.
** O quarterback é o cérebro do time, o armador. É ele quem "faz" a jogada, seja lançando a bola em profundidade para um recebedor, correndo com ela ou entregando-a nas mãos de outro jogador ao seu lado para que ele faça o avanço.
*** O touchdown acontece quando um jogador entra, com a posse de bola, na endzone (área de dez jardas no final do campo). Vale seis pontos e é seguido pela chance de marcar um ponto extra, onde a bola é chutada e, se passar entre as traves do "Y", vale mais um ponto.
**** Wide receiver é o jogador encarregado de penetrar o território inimigo e, lá dentro, receber passes lançados pelo quarterback. Por esse motivo, precisam ter velocidade, impulsão e mãos firmes.

Não acho que eu consiga lidar com isso
Me acorde quando estiver acabado

FM Static


Não enxergava saída para a minha situação. Tudo o que eu conseguia fazer hoje à noite, sozinha nessa casa solitária que eu costumava chamar de lar, era pensar em Julian . Ainda que desejasse, nunca contei os “ois” nos corredores como conversas reais. Uma palavra de duas letras era vazia demais para ser considerada como um avanço em minha relação com ele. Por isso, uma breve faísca de algo parecido com felicidade se acendeu dentro de mim no mês passado, quando o garoto finalmente viera até mim, em carne e osso, e trocamos algumas palavras.

Queria tanto que eu tivesse enxergado o interesse dele mais cedo. Deveria ter tentado me aproximar dois anos atrás, antes de optar por um outro cara apenas porque eu já tinha conhecimento de sua quedinha por mim.

Eu pensava que Shady seria o caminho mais fácil e seguro, afinal, já o conhecia há algum tempo. Entretanto ele fora o caminho mais árduo e passava muito, mas muito longe da segurança. E agora eu andava descalça em uma estrada pedregosa da qual não conseguia ver saída alguma e nem sequer encontrar atalhos.

Se fosse mesmo para eu ter ficado com alguém, esse cara não era ele. Shady Collins havia me destroçado por inteira. Só fazia trazer sofrimento à minha vida. Julian , por outro lado… Esse, sim, me fazia sorrir.

***
CERCA DE UM MÊS ATRÁS…

Saí da última aula do dia, aliviada por ser sexta-feira. Essa era a única noite da semana em que nem eu nem ninguém que conhecia tinha aula ou algum projeto de extensão para participar. Assim, o dia havia acabado — ou pelo menos a parte acadêmica dele.

O lado bom das sextas-feiras como um todo era que elas me faziam lembrar de Harry e de toda a nossa felicidade quando as luzes dos refletores iluminavam o campo de futebol da escola em que estudávamos. A iluminação que nos trazia esperança de dias melhores. Os dias de jogo sempre foram os nossos favoritos. Eram neles que surgiam as conversas sobre os nossos sonhos e tudo o que iríamos fazer quando chegássemos na vida adulta.

Mas tudo tinha um lado ruim — ou talvez vários. Harry não estava mais aqui, e meus sonhos haviam morrido com ele. Sem contar que, diferente do ensino médio, a maioria dos jogos de futebol americano universitário ocorriam aos sábados. Amanhã, entretanto, não haveria jogo algum, pois o time estava na semana de folga.

O pior de tudo era que, assim como todas as pessoas que costumavam ser minhas amigas, meu namorado também não tinha aula alguma nas próximas horas. Desejava, do fundo do meu coração, que o treinador do time de basquete convocasse um treino relâmpago para afastar Shady Collins de mim. Mas parecia que, assim como em todas as outras noites, eu seria toda dele, sem ninguém para impedir.

As coisas estavam tão complicadas em nosso relacionamento que eu havia perdido até peso. Minhas roupas estavam grandes demais e eu mal conseguia manter minha alimentação em um nível próximo ao que deveria. Estresse e preocupação eram coisas que nos destruíam aos poucos. Sem que percebêssemos, iam nos corroendo por dentro até que não restasse um pingo de sanidade para contar história.

— E aí, ! — Alguém interrompeu meu lento trajeto pelos corredores.

Fiquei surpresa ao ver que era ninguém menos que , o nosso melhor wide receiver. O número um em meu coração. Ele escorou-se na parede, como se não tivesse planos para deixar aquele corredor tão cedo, e eu parei de andar. Não tinha a mínima vontade de sair da universidade, e aquela conversa poderia ser uma boa desculpa para adiar o inevitável encontro com Shady.

!

Coloquei as mãos nas alças da mochila e o encarei, sem esconder a empolgação que me tomara por tê-lo falando comigo. Seus lindos olhos me observavam de um modo que não me deixava nem um pouco desconfortável. era alto, mas não tanto quanto Shady. Seus lábios esboçavam um sorriso afável que me fazia desejar que sorrisse para mim pelo resto da minha vidinha decadente.

Mordi o lábio, mas o ato não escondeu o sorriso que dançava graciosamente em meus lábios. Não sabia se meu coração havia acelerado ou, então, perdido uma batida. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. De qualquer modo, era impossível fingir que aquele cara não surtia tamanho efeito sobre mim. Não dava mais para esconder.

Eu só queria me jogar nos braços dele e deixar Shady Collins para trás.

— Sabe que pode me chamar de , não é? Acho que a gente já se falou o suficiente por e-mail para pularmos direto para o uso dos nossos primeiros nomes. — Ele riu e eu tive que concordar. — Então você me chama de e eu vou te chamar de , beleza?

Ele estendeu a mão para mim e eu hesitei por um breve instante. Talvez estivesse colocando expectativas demais em cima de uma única pessoa. Eu tinha me metido nessa merda toda sozinha, sim, mas não era tão boba quanto o meu namorado me fazia parecer. Eu sabia que um cara não poderia me resgatar das mãos fortes e violentas de Shady Collins, que só isso não bastava. Entendia, porém, que toda a ajuda disponível seria bem-vinda.

No entanto, tinha medo de entregar todas as minhas esperanças nas mãos de alguém que talvez não pudesse lidar com isso. Sem contar que seria injusto com ele.

— Acordo fechado. — Apertei sua mão de forma rápida. — E então, , como estão as coisas?

— Estou levando tudo como dá, na base do possível — admitiu. — E você?

— Levando tudo como dá, na base do possível, também — ecoei. — Vivendo um dia após o outro e tentando não surtar.

— A faculdade tem esse efeito na gente, né? — comentou.

— Ainda mais quando somos bolsistas — suspirei.

Enquanto eu tinha uma bolsa acadêmica, tinha uma esportiva. A pressão era sempre maior para os bolsistas, pois não tínhamos opção além de manter um rendimento alto. Caso contrário, perderíamos nossa chance de concluir um curso de graduação. No caso dele era ainda pior, pois além de ter seus compromissos com o rendimento acadêmico como eu, também tinha que se dar bem no esporte.

Educação não deveria ser mercadoria, mas o mundo não era justo; os Estados Unidos, muito menos.

— Você está linda hoje, sabia? — elogiou-me e encarou o chão, um pouco acanhado. Aquilo me fez sorrir e sentir um calorzinho gostoso que eu não sentia há um longo tempo.

— Obrigada. Você é muito gentil em dizer isso, mesmo que não seja verdade — notei. — Tenho certeza que meu rosto está te contando outra história.

— É, tem razão — observou. — Parece uma história bem ruim, a propósito.

— Só estou cansada demais. — Respirei fundo.

O cansaço já me tomava por inteira só de pensar que teria que voltar para os braços sufocantes de Shady. Eu estava mesmo exausta de tudo. Nem meu sono passava ileso ao sofrimento de viver ao lado daquele cara.

— Entendo — falou, ainda que dificilmente fosse verdade. — Mas e aí, você vai aparecer no luau do Kalani hoje à noite?

— Jake vai fazer um luau? Isso é tão a cara dele! — Tive que sorrir, mas logo meu sorriso se extinguiu como as estrelas pela manhã. — Sinto muito, , eu tenho que ir. — Olhei para o chão e deixei um longo suspiro escapar. — Shady vem me buscar às seis e meia. Não quero desapontá-lo.

— Ainda faltam vinte minutos — protestou.

Treze — corrigi.

— E você não parece nem um pouco animada com isso — indicou.

— Estou contando os minutos — ironizei.

Não era mentira. No entanto, o relógio que eu tinha em mente fazia uma contagem regressiva para os momentos ruins que eu teria de aguentar em mais uma noite ao lado de Shady Collins.

— Tudo bem, vou te deixar sozinha. — Cutucou meu ombro. — Mas você não me respondeu se vai aparecer na festa do Jake hoje.

— Isso depende do Shady, como todo o resto que eu faço ou deixo de fazer. — Franzi o nariz. — Sinto muito, não deveria ter dito isso em voz alta. — Bufei, mas ele não ousou questionar. — Talvez eu dê um jeito de ir no jogo de vocês no sábado que vem.

— Ah, eu adoraria te ver por lá. — Sorriu de maneira genuína.

— Para cima deles, Huskies! — entoei nosso grito de guerra e deleitei-me com o som fascinante da risada de .

— Vou fazer um touchdown para você, — prometeu. — Só para você.

— Sério? — questionei e ele assentiu. — Shady não vai gostar nada disso.

— Quem tem que gostar ou desgostar é você, não ele — apontou.

E ele estava certo. Aquilo me fazia sentir um pouco melhor. Era como uma pequena faísca no meio de toda aquela escuridão desoladora, a única luz que eu conseguia enxergar. Eu só precisava andar até lá e me agarrar a ela com todas as forças que me restavam.

— Para falar a verdade, pensei que diria que agora ia fazer o touchdown justamente porque ele não gostaria. — Deixei uma risadinha escapar. Aquilo me divertia mais do que poderia esconder.

— Incomodá-lo pode até ser legal, tenho certeza disso. — Riu também. — Mas o verdadeiro motivo para eu marcar esse touchdown para você está estampado no seu rosto agora. Você fica linda quando sorri, .

E então virou-se e foi embora. O sorriso bobo bailou em meus lábios como uma garotinha sonhadora na noite de sua formatura, até ser afugentado pela visão de Shady Collins no instante em que pisei fora do prédio. Ele estava escorado no carro caro que ganhara do papai. Babaca presunçoso. Eu me perguntava como não enxergara essas coisas antes. Estava bem ali, debaixo do meu nariz, na cara de todo mundo.

Shady abriu um sorriso enorme destinado a mim e um oceano profundo e sem fim se formou em meu coração. Nietzsche estava mesmo certo: quando se olhava muito tempo para um abismo, ele te encarava de volta. Meu abismo era Shady Collins. Houve um tempo em que eu amava aquele sorriso e queria mergulhar nele para nunca mais sair. Agora, eu só queria distância, porém estava presa a ele, caindo, me afogando.

Se eu o desapontasse, sabia bem onde essa merda terminaria. E era aí que morava o meu maior medo.

Quando vamos acreditar nisso?
Quando iremos ver a luz?
Pare de fugir disso
Por que nós continuamos negando?

The Kooks


Tinha comparecido àquele jogo como prometera a , porém não fora sozinha. Shady proporcionara-me o desprazer de sua companhia. Sabia que aquele caminho só levaria à desgraças, afinal, meu namorado nem sequer gostava de futebol americano. Por outro lado, assistir aos caras jogarem me trouxera um resquício de felicidade de volta. Era tão bom sentir-me livre por estar naquelas arquibancadas barulhentas outra vez. Até mesmo tentara não demonstrar minha empolgação com o tal touchdown que, em segredo, havia dedicado a mim.

Mas então tudo aquilo fora substituído por um sentimento desolador. Shady me agredira assim que havíamos retornado para casa. Ele estava bêbado, como sempre, e repleto de ciúmes.

Não, ciúmes era uma palavra muito fraca para definir aquilo.

Homens como Shady Collins sentiam-se ameaçados por outros caras. Simples assim. Eu era sua propriedade, e ele enxergava indícios de que esse status quo poderia ser abalado. Ninguém que estava em uma posição de poder gostava de ver suas posses escorrendo por entre seus dedos como água corrente.

Shady olhava para e via tudo o que ele mesmo jamais seria capaz de se tornar. Aquele fora o momento em que ele concluiu — corretamente, a propósito — que aquele era o cara que tinha o meu coração. Fora a pior noite de toda a minha vida. As coisas chegaram a um ponto em que tudo o que eu conseguia pensar era no repertório de desculpas que teria de inventar quando me questionassem sobre os hematomas na segunda-feira.

***
CERCA DE TRÊS SEMANAS ATRÁS…

Às vezes eu me esquecia do quanto costumava gostar do campus. Não havia nada demais sobre Riverfork College e seu entorno. Não era um lugar especial ou algo assim. Com o tempo, porém, acabara tornando-se o meu principal refúgio.

O único período em que eu poderia ficar longe do Shady, com cem por cento de certeza, era durante a tarde, justamente por causa da faculdade. Saí de casa, então, entretanto decidi não comparecer à classe. Meu estado emocional não estava bom o suficiente para assistir a uma longa aula de Eletricidade e Magnetismo. Para falar a verdade, era um tipo de assunto que eu gostava; de outro modo, não teria escolhido cursar Física. Sem contar que o professor dessa disciplina era um dos melhores. Essa seria a minha primeira falta na matéria.

Sinais e mais sinais de que o dia de fato estava uma merda.

Caminhei um pouco pelo local, sem destino certo, e optei por sentar-me em um banco à sombra de uma grande árvore que tinha uma história local muito interessante. Uma pena que eu não me recordasse agora. Era um lugar bom.

Matar aula parecia uma solução aceitável para adiar os meus problemas. Prejudicaria-me nos estudos, com toda a certeza, mas eu conseguiria recuperar mais tarde. Só não queria ter de dar falsas explicações sobre o que havia acontecido comigo. Um grande número de questionamentos surgiriam, afinal, muita gente me vira no jogo de sábado perfeitamente bem. Até mesmo o professor tinha me visto lá. E hoje, no entanto, eu estava acabada.

Não era difícil arranjar uma desculpa mais ou menos admissível nos dias em que surgia um único hematoma. Dessa vez, no entanto, eu estava coberta deles. Assim, as coisas ficavam ainda mais complicadas.

Alguém sentou do meu lado e eu bufei. Mantive-me encarando o chão como se aquela grama fosse a coisa mais bonita que via em muito tempo. E talvez até fosse. A pessoa deixou o silêncio reinar entre nós, sem nenhuma pressão, e eu não pude aguentar por muito tempo. Alguém tinha que ceder, não é?

Deixei meus ombros caírem e olhei para o lado, pronta para xingar ou pelo menos revirar os olhos para quem invadira o meu espaço. O foco de minha raiva e insatisfação se perdeu no ar quando vi aquele rosto familiar. Olhos preocupados me fitavam de maneira intensa. Suspirei de alívio ou, talvez, de exaustão por toda a merda na qual estava metida.

As mil e uma desculpas esfarrapadas que poderia inventar para pelo meu estado atual fervilharam na minha mente como uma nuvem de gafanhotos destruidora.

— Vi você no jogo de sábado à noite — comentou apenas.

Arregalei os olhos, surpresa pela ausência de questionamentos. Pensei que fosse cair no choro ali mesmo, mas consegui segurar o impulso da emoção.

— Também vi você, é claro. — Mordi o lábio. — Fez o touchdown que me prometeu. Obrigada.

— Pode tentar esconder o sorriso o quanto quiser, mas seus olhos te denunciam. — Abriu um sorriso doce e meus lábios se derreteram em resposta. — Eu cumpro minhas promessas.

— Ótimo — falei. — Gosto muito de pessoas assim.

— Te procurei no final do jogo — revelou —, mas você tinha sumido.

— Shady decidiu que iríamos embora na metade, logo depois do seu touchdown. — Revirei os olhos. — Não me deixou assistir o resto nem mesmo pela televisão, mas vi o resultado depois. Fiquei feliz com a vitória. Muito. Corrija-me se eu estiver errada, mas o único jogo que perdemos nessa temporada, até agora, foi contra MarbleU, certo?

— Nem me fale. — Retorceu os lábios. — Não aguento mais perder para eles. Estou no meu último ano aqui e nós perdemos para MarbleU em todas as três temporadas que joguei com os Huskies.

— Talvez você nos dê azar, sabe como é — debochei. — No meu ano de caloura, chutamos a bunda deles.

— Sei que está brincando, mas doeu, sabia? — Ele fez cara de triste e eu tive que rir.

— Relaxa, é sempre um jogo complicado. Mesmo quando eles estão indo mal na temporada, a gente acaba sofrendo para derrotá-los. — Coloquei uma mecha de cabelo para trás da orelha. — A primeira vez que notei você foi em um jogo contra eles.

— Eu me lembro bem. — Ele riu. Sua risada era gostosa de ouvir. — Foi quando você pegou meu e-mail no site da universidade e entrou em contato.

— Culpada! — Ergui as mãos em sinal de rendição. — Aquela jogada foi realmente incrível. Nunca me esqueço.

Ele sorriu e, em seguida, o silêncio pairou entre nós. O melhor de tudo era que ficar ali, sem falar nada, não estava sendo nada constrangedor. A única coisa que de fato me incomodava na situação era o olhar perspicaz de sobre mim. Isso não seria um problema, exceto que eu sabia que ele estava analisando cada hematoma visível em minha pele com toda a atenção do mundo.

Não era como se ele não tivesse percebido antes, de qualquer modo. Respirei fundo. Já tinha desistido de esconder. O que mais eu poderia fazer? Ficar trancada em casa com Shady não era uma opção.

, no fim das contas, era um cara ainda mais legal do que eu havia pensado. Ele viera até mim e conversara sobre jogos de futebol americano em vez de questionar o fato no primeiro momento que colocou seus lindos olhos sobre mim.

— Você deve estar evitando falar com todo mundo, não é? — Coçou a cabeça. — Imagino que não queira ter de ficar inventando desculpas falsas para cada idiota que te questiona.

— Você imagina ou você lê mentes? — brinquei.

— Talvez nossa conexão seja tão, mas tão grande que até consigo concluir o que você pensa. — Apontou para mim e para ele. — Nós vibramos na mesma frequência.

— Esse é o melhor flerte que ouvi nos últimos tempos. — Deixei uma risadinha escapar.

— Só nos últimos tempos? — Arqueou a sobrancelha. — Demorei tanto tempo para pensar nisso.

— Você é ótimo! — Caí na risada. — Fala a verdade, demorou mesmo?

— Não muito. — Deu de ombros. — Mas queria usar pelo menos um termo de Física no meio, já que é a sua área de conhecimento.

— Isso é fofo, sabia? — reconheci. — Quer dizer que vou ter que usar termos de cunho jornalístico se quiser flertar de volta?

— Não vai ser preciso — garantiu. — Você sempre me ganha na primeira palavra sobre futebol.

— Está bem, talvez esse seja o melhor flerte de todos. Ou os dois, tanto o da frequência quanto o do futebol americano. — Sorri para ele, então fiz careta. — Mas isso não é uma coisa tão incrível assim, já que, aparentemente, eu só saí com babacas a vida inteira.

— Parece bom para mim — concluiu. — Mas falando em babacas, quantas vezes isso aconteceu, ?

— Isso o quê? — Fiz-me de desentendida.

Shady — respondeu sem delongas. — Seus hematomas.

— Mais vezes do que posso contar nos dedos. — Decidi ser sincera. Mentiras não levariam a lugar nenhum. Não hoje. Não com ele. — Não sei se quero falar sobre isso com você.

Na verdade, eu queria. Mais do que tudo. Mas era tão difícil.

— Deixar de falar sobre o que há de errado não vai fazer a dor desaparecer — disse ele. — Não precisa esconder todo o seu sofrimento. Pode compartilhar.

… — suspirei.

— Pode falar comigo, se quiser — ofereceu. — Eu estou aqui para você.

— É isso que o Shady fala, sabia? — Ri por causa do nervosismo enquanto mexia minhas mãos de modo impaciente. — “Eu estou aqui, , estou aqui para você”. E, no dia seguinte, isso acontece.

Apontei para mim mesma.

— Eu não sou ele — defendeu-se. — Só quero te ajudar.

— Sei que não é. — Quis rir.

Ninguém nunca havia se importado o suficiente comigo. Ninguém além do meu irmão gêmeo, claro. O modo como pronunciava aquelas palavras me fazia acreditar que era verdade, mas como poderia saber com certeza? Quais garantias eu tinha?

— Eu gosto de você, — confessou.

Ele gostava de mim. Eu desejava que ele gostasse de mim. Gostava dele também. No fundo, tudo o que queria era apostar todas as minhas fichas naquilo. Mas eu não podia. Eu era um poço de decepções familiares e relacionamentos ruins. Como alguém poderia ter interesse nisso?

— Sabe por que não gosto de falar sobre a minha situação? — Levantei-me. — Porque me sinto culpada por ter me colocado nessa situação.

— Não diga isso — pediu. — A culpa não é sua.

— E o que você, a estrelinha do futebol, sabe sobre isso? — retruquei. Aquele tinha sido um comentário malvado, eu sabia, mas era a minha única defesa para não encarar a verdade que estava sendo jogada na minha cara. Era mais do que óbvio que ele estava certo.

— O agressor é sempre o culpado, . Não existe outra possibilidade — foi direto. — Precisa entender isso e tirar de cima dos seus ombros o peso dessa culpa infundada. A culpa é daquele filho da puta do Collins.

— Você não entende. — Lágrimas surgiram em meus olhos e afagaram minhas bochechas como amantes cruéis. — Eu me coloquei nessa situação.

— Besteira! Isso é o que ele faz você pensar, garota — acusou sem rodeios. — Ninguém olha para um cara e pensa “ei, vou ali me jogar de cabeça em um relacionamento abusivo só um pouquinho, depois eu volto”. Não é assim que funciona.

— E como pode saber como funciona? Eu fui assistir a porra daquele jogo por causa de você, porque queria te ver jogar — confidenciei. — E quando chegamos em casa, isso aconteceu.

— Eu posso carregar essa culpa, se quiser.Não vou discutir. — Ele suspirou. — Mas nenhum de nós dois é culpado aqui.

— Cale a boca — pedi.

— Tudo bem. Se você não me quer por perto, vou te deixar sozinha. — Assentiu, mesmo que hesitante. — Ninguém merece passar pelo que está passando, . Nem você, nem ninguém. Não importa o que aquele cara tente fazer você pensar.

, pare. — Abaixei a cabeça. — Por favor.

— Se isso for fazer você se sentir melhor, me odeie o quanto quiser por insistir. — Ele colocou a mão sobre o meu ombro dolorido. De algum jeito estranho, aquilo me reconfortou. — De um jeito ou de outro, vai precisar sair dessa situação, está bem? Terá que enfrentar isso, . Você precisa ficar segura.

— Vai embora — choraminguei.

— Eu vou, mas estarei aqui quando precisar. É só procurar por mim. — Ele se afastou alguns passos, mas continuou a me olhar, como se cogitasse dizer algo a mais. Respirou fundo, então, e confessou: — Perdi minha mãe quando meu padrasto a fez passar por uma situação parecida com a sua. Não quero perder você também.


E eu sei que você vai estar lá
Para me pegar
Se eu tropeçar nessa estrada

All Time Low (ft. Joel Madden)


Três longas semanas sem nem sequer um “oi” ou sorrisos trocados nos corredores. Não havia mais falado com depois daquela tarde. Fugia cada vez que o vislumbrava. O que tinha feito com ele fora injusto. O garoto só queria me ajudar, e eu descontara todas as minhas insatisfações em cima dele.

Como se ele tivesse alguma culpa…

Enfim, havia aceitado tudo o que ele me dissera. não era culpado, eu não era culpada. A única pessoa que carregava culpa em toda aquela situação chamava-se Shady Collins, e eu o detestava. Já estava mais do que pronta para trilhar outro caminho. Poderia deixar o meu namorado abusivo para trás e entregar-me ao meu amor por . Tudo o que eu queria era que as coisas fossem simples desse jeito, mas havia complicações maiores e bem concretas.

Vesti uma camiseta preta de mangas compridas com o logo da Riverfork College e liguei para pela milésima vez naquela noite. Joguei o celular em cima da cama quando, assim como em todas as outras vezes, a chamada foi para a caixa postal.

O celular já contabilizava vinte ligações que não foram atendidas por ele. Talvez não quisesse falar comigo depois de eu ter jogado toda a culpa da minha situação sobre ele. Se fosse isso, nem poderia culpá-lo. Só deixaria recado caso não restasse mais nenhuma opção. Além do mais, ele talvez nem ouviria. Quase ninguém ouvia recados hoje em dia.

Praguejei ao colocar o casaco vermelho que eu mais amava. Não o vestia há muito tempo porque Shady não gostava de como eu ficava com ele. Agora entendia por que ele não curtia. Eu ficava incrível pra caralho de vermelho.

Saí de dentro daquela casa que se tornara minha prisão. Precisava me libertar e, para isso, desejava encontrar . Como já era madrugada, imaginei que estivesse no próprio dormitório. Isso se eu tivesse sorte, claro. Talvez ele apenas tenha saído para curtir com alguém ou estava no quarto de outra garota nesse exato momento. De qualquer modo, não havia nada que pudesse fazer a respeito, então era melhor deixar para lá e focar apenas no que pudesse estar ao meu alcance.

Deixei a brisa noturna me tomar e me lavar a cada passo que eu dava pelas ruas de Riverfork, sempre torcendo para não acabar esbarrando em Shady. O medo me acompanhava como um velho amigo, mesmo que as chances daquilo acontecer fossem próximas a zero. Aquele babaca provavelmente jazia bêbado e drogado em algum canto de uma fraternidade qualquer. Quem sabe estivesse saindo com alguma caloura bobinha nesse exato momento. Ela o acharia incrível, um dos melhores caras que já conheceu, e então se tornaria sua próxima vítima.

Murmurei preces para seja lá qual fossem as divindades existentes, caso de fato existisse alguma. Eu realmente esperava que minha hipótese não se tornasse real. E não era nem por mim que eu suplicava nos murmúrios. Shady com certeza me traíra várias vezes. Não era tão boba a ponto de não enxergar isso. No entanto, não queria que mais alguém caísse em suas redes cortantes como eu caíra uma vez. Não desejaria nem que meu pior inimigo passasse pela mesma situação.

Parei na frente do prédio verde dos dormitórios masculinos. Jacob Kalani uma vez me dissera que morava no mesmo corredor que ele, então eu sabia que esse era o local. Fiz sinal para um dos garotos no hall de entrada do alojamento e ele veio até a porta. Pedi que me deixasse entrar e ele permitiu sem nem sequer questionar.

Sorri, agradecida. Tinha me esquecido da facilidade que eu tinha para me infiltrar naquele alojamento. Passei pelo cara que abrira a porta e caminhei até o garoto havaiano que estava jogado no sofá. Ele segurava uma garrafinha de cerveja na mão direita quase tão bem quanto costumava segurar a bola de futebol americano nos jogos.

— Se o coordenador responsável te visse assim, não acabaria te expulsando? — Coloquei as mãos na cintura e o encarei.

— E perder nosso quarterback titular no final da temporada? — Kalani caiu na risada. — Nem fodendo, meu bem.

— É, tem razão. — Ri um pouco. — Meros mortais como eu são expulsos, mas não o quarterback que vai virar profissional no ano que vem.

, garota… — Levantou-se e veio em minha direção, de braços abertos. — Eu senti tanto a sua falta!

Jacob me abraçou de um modo caloroso e acolhedor como nunca antes fizera. Quer dizer, ele me abraçava bastante quando estava bêbado, mas nunca havia sido tão aconchegante quanto agora. Parecia saber que era daquilo que eu precisava.

— Ah, Jake, eu também senti a sua. — Suspirei quando ele me soltou e retornou ao sofá. — Nunca se cansa de beber?

— Olha quem fala! — Ele deu um gole na cerveja. — São poucas as memórias que tenho de você sem uma cerveja na mão.

— Está exagerando demais, sabia? — Revirei os olhos.

— Será que estou mesmo? Acho que nem tanto. — Apontou para mim com a garrafa. — Lembro-me de te ver sem copos ou garrafas de cerveja na mão nas poucas vezes que saímos juntos quando éramos calouros. — Ele riu. — E muitas destas foram aquelas manhãs, no meu quarto, quando você estava tomando café.

— Trocando um vício pelo outro. — Entrei na brincadeira.

— Foi o que eu pensei — comentou. — Quer um gole?

— Não, valeu — agradeci. — Estou bem assim.

— Você está doente? — zombou. — , você não pode dizer não para a cerveja.

— Estou dizendo agora mesmo, não estou? Às vezes, é bom me manter sóbria. — Dei de ombros. — Mas e aí, você pode chamar o para mim? — Ele pendeu a cabeça para o lado e me analisou por alguns segundos, quase como um cachorro fofinho tentando entender o que eu estava requerendo. — Por favorzinho?

— Cara, se o estivesse aqui, mandaria você subir direto para o quarto dele. — Ele abriu um sorriso acusador. — Nunca gostei daquele seu namorado, então seria muito bom ajudar com belos chifres.

não está aqui? — Ignorei seus comentários bobos, e ele negou com a cabeça. — Porra, que merda! E a Jenny? Sabe se ela está no quarto dela? Estou tão por fora de todas essas festas malucas que eu e ela costumávamos ir. Sei lá, ela pode ter saído.

— Pensei que vocês duas não se falassem mais por causa daquele filho da puta do Collins — foi áspero, de um jeitinho que não combinava com ele.

— Jake… — Respirei fundo, mas as lágrimas escaparam mesmo assim. — Por favor.

— Caralho, . Não sabia que a coisa era tão séria assim. Sinto muito, meu bem. — Jacob segurou minha mão. — Se a nossa garota tivesse saído, acho que teria escapado para cá. Se lembra de como vocês duas costumavam fazer isso? — Ele sorriu. — J. deve estar no quarto dela. Vai lá. Garanto que ela está morrendo de saudades suas.

Aquilo me arrancou um sorrisinho genuíno. Agradeci a Jacob Kalani e até a seus futuros filhos e netos, e então corri até o prédio onde ficava o quarto de Jenny. Tive a sorte de chegar ao mesmo tempo que uma garota bêbada que tentava voltar para seu dormitório às escondidas. Eu tinha feito o mesmo tantas vezes que já havia até perdido as contas. Ajudei-a e segui-a prédio adentro sem precisar pedir para alguém aleatório usar seu cartão de acesso para liberar minha entrada.

Subi até o quarto de Jenny sem rodeios ou hesitações. Sabia exatamente aonde ir, afinal, havia morado no andar de cima.

— Jacob Kalani e você estão saindo juntos? — perguntei assim que ela abriu a porta. — Ou eu entendi tudo errado?

Olá para você também, . Eu estou bem, e como vai você? — ironizou. — Espera aí, volta a fita! — Ela arregalou os olhos e me puxou para dentro do quarto. — Como diabos descobriu que estou saindo com o Jake? Pensei que estivesse por fora de tudo por causa do… você sabe, o seu namorado cuzão. Não vou fingir que gosto dele.

— É, Shady me isolou do mundo, é isso aí. Já caí na real — admiti a contragosto. — Para falar a verdade, não sabia de vocês dois, só estava checando uma hipótese.

— Meu deus, que burra! Você jogou verde e eu confirmei sem pensar duas vezes, não foi? — Ela caiu na risada. — Mas suponho que essa hipótese não tenha surgido do nada.

— Elas nunca surgem. Jake te chamou de J., e você sabe que eu saí com ele no primeiro ano, né? — Dei de ombros. — Essa coisa de intimidade nunca fez muito o tipo dele.

— É, tem razão. Estamos saindo há alguns meses, para falar a verdade — contou-me. — Conforme fomos nos aproximando, ele ficou cada vez mais queridinho.

— Ah, queridinho ele sempre foi, mas entendo. — Ri um pouquinho. — Isso é tão bom de ouvir, sério. Fico feliz por vocês.

— É, eu sei, mas não se empolgue muito. Jake vai ser recrutado por algum time profissional em abril, e eu, depois da nossa formatura, vou morar no Canadá com a minha mãe. É só coisa de faculdade, nós dois sabemos bem disso. — Fez um gesto displicente. Fiquei surpresa com o quão bem ela parecia lidar com aquilo. — Mas vamos falar de você, Srta. . Quando apareceu na minha porta, pensei que ainda estivesse sonhando. É uma surpresa enorme te ver por aqui.

— Eu sei, me desculpa por ter me afastado. — Abracei-a com força, e seu abraço foi ainda mais reconfortante que o de Jacob Kalani. — Precisava de um lugar para passar o resto da noite. Posso dividir a cama com você mais uma vezinha?

— Meu deus, eu já estava com saudades das nossas festas do pijama! — Ela esfregou os olhos, rindo. — É claro que pode, . Você ainda é minha melhor amiga.

— Eu sou? — perguntei, incerta.

— E como não seria? Eu te conheço desde que tínhamos treze anos e você veio falar comigo porque o seu irmão queria me dar um beijo. — Aquilo me fez rir. — Sei que a culpa por ter sumido é do Shady. Quando o tempo se passou, ficou mais do que na cara que você estava mergulhada em um relacionamento abusivo e não conseguia enxergar isso.

— Obrigada por ter sido o meu suporte desde que perdemos o Harry. — Enxuguei uma lágrima. — E também por ter tentado fazer eu enxergar que o Shady não era boa coisa lá no início do relacionamento.

— Não tem que me agradecer por isso, garota. Acho que, no seu lugar, eu também cairia nos encantos dele. Não sou boba de achar que teria sido diferente. — Segurou ambas as minhas mãos. — Nem sempre conseguimos enxergar as coisas como elas realmente são. Apenas seguimos por um caminho complicado, desejando chegar ao final da estrada o mais rápido possível, porém estamos andando em círculos o tempo todo, sem perceber, seguindo nossas próprias caudas — suspirou. — Às vezes tudo o que precisamos é parar, respirar fundo e olhar ao redor.

— Isso foi muito… poético — notei e ela estufou o peito, orgulhosa. — Vou precisar de mais uma ajudinha.

— Eu nunca deixaria de te ajudar, seja lá no que for. — Jenny sorriu. — Somos como irmãs, sabe?

— É claro que somos. Ainda acho que você teria sido minha cunhada para o resto da vida, caso Harry ainda estivesse aqui. — Sorri de volta. — Preciso fazer uma ligação, e como não estou sendo atendida, prefiro ligar de outro celular.

— Ah, é só isso? Pensei que seria algo mais complexo. — Ela andou até o balcão e pegou o aparelho telefônico. — Posso saber para quem você vai ligar?

— respondi.

— Tá bom, esquece tudo o que falei sobre surpresas nesta madrugada, porque essa é muito maior do que qualquer outra. — Ela cobriu a boca com a mão. — Meu deus, ! Quando isso aconteceu? Eu quero saber da fofoca!

Demorei para entender por que aquilo a surpreendeu tanto, mas então as peças se encaixaram. Jenny não sabia que havíamos começado a nos falar pessoalmente. Fiz um resumão, então, sobre como tudo aconteceu, e ela enfim cedeu e entregou o aparelho telefônico em minhas mãos.

Disquei aquele número que já havia decorado. Chamou e chamou até cair na caixa postal, como em todas as outras vezes. Desliguei e soltei um suspiro de alívio. Pelo menos agora sabia que o problema não era comigo, ou então ele teria atendido a chamada feita desse telefone. Liguei de novo, decidida a deixar um recado. Assim, quando possível, ele escutaria o que eu tinha a dizer. Ou ao menos eu esperava que ele fosse uma pessoa que ainda ouvisse seus recados.

— Oi, , aqui é a . Estarei no dormitório da Jenny até o amanhecer, se você quiser me encontrar. Tenho certeza que Jake sabe bem onde fica. — Olhei de canto para Jenny e ri. — É, eu fodi com tudo e sei que não é minha culpa e nem sua, bem do jeitinho que você tentou me fazer enxergar. , o negócio é que eu só continuei com o Shady por todo esse tempo porque eu não tinha outro lugar para ir.

— É verdade, viu? — gritou Jenny. — Se você não acreditar nela, vou lançar uma bola oval na sua cabeça. Nem ligo se vamos perder nosso wide receiver número um. Jake que se vire com os outros. — Ela riu. — Mas é sério mesmo, . O único lugar para onde ela poderia voltar seria para a casa dos pais, mas fica em San Francisco, então seria um adeus à faculdade.

— Você ouviu minha defensora número um. — Tive que rir. — É engraçado, sabe? Tragicômico, eu diria. Sempre falam que a mulher agredida tem que deixar o seu parceiro, mas jamais consideram que ela pode não ter outro lugar para morar ou sequer condições de se sustentar sozinha. — Soltei um longo suspiro. — Sei que é um péssimo momento para dizer isso, mas… eu estive apaixonada por você nesses últimos meses. Ainda estou, a propósito, exceto que esse não é o ponto.

— Você está? — Jenny estava de queixo caído. — Meus deus, garota, eu estou tão por fora!

— Sim, estou. E cale a boca, Jennifer — reclamei, entre risos. — Sei que você só queria ajudar, , e eu acabei descontando todos os meus problemas em você. Peço desculpas, de verdade. Esse é o motivo pelo qual não paro de ligar. Disse que estaria aqui para mim se eu precisasse, e que podia procurar por você. Não estou cobrando nada, por favor, entenda isso — pedi. — Caso a oferta ainda esteja em aberto, estou com um problemão maior do que poderia imaginar. Já estava grávida do Shady naquele dia, mas só descobri hoje. — Mordi o lábio com força e virei de costas para Jenny, com medo do olhar que receberia. — Não é mais apenas sobre mim, entende? Não posso mais aguentar isso. Preciso sair dessa. E não conseguirei fazer isso sozinha.

Finalizei a ligação e, por fim, voltei-me à Jenny. Sua expressão não carregava pena ou julgamento, apenas a mais acolhedora empatia de uma boa e velha amiga.

— Acho que você vai precisar disso. — Entregou-me um copo d’água. — Jamais estará sozinha, . Farei o possível para te ajudar no que precisar.

— Obrigada, Jenny, você é a melhor.

— Não, essa sempre foi você. — Ela sorriu. — Shady só te fez esquecer disso.

— É tão bom estar ao seu lado outra vez — choraminguei quando minha amiga me envolveu em seus braços aconchegantes.

— Sempre estarei aqui para você, — garantiu-me. — Somos irmãs.

E éramos. O sangue não era o mesmo, mas desde quando isso importara?

Passei o resto da madrugada ali, colocando o papo em dia com a garota que era minha melhor amiga há nove anos. Desabafei sobre Shady e toda aquela merda que acontecera desde que nós duas nos afastamos. Contei a ela todos os detalhes sobre e como ele havia tentado me ajudar.

Jenny caiu no sono quando o dia amanheceu. não havia aparecido e eu infelizmente não podia ficar ali para sempre. Por isso, desci os três andares e saí do prédio antes que a coordenadora responsável pelo dormitório acordasse. Talvez fosse ficar feliz em expulsar a “garota festeira” pela segunda vez.

O dia já estava claro, mas o sol ainda não havia aparecido. Circulei pelas ruas do campus, sem rumo algum. E como se a situação não pudesse piorar, Shady Collins fora o primeiro a me encontrar.

— É tão bom te ver, princesa, mas o que faz por aqui? — Ele sorriu e colocou os meus cabelos para trás das orelhas. Fiz um tremendo esforço para não me esquivar de seu toque. — Eu gosto de ver o seu rosto, não deixe essas mechas te esconderem. — Podia sentir o cheiro de bebida no hálito dele. — Vamos para casa, , estou aqui para você.

Congelei no mesmo instante. Meus pés não se moveram sequer um centímetro. Eu sabia o que vinha depois de ele me chamar daquele jeitinho e dizer que estava ali para mim. Nunca era coisa boa.

— Não vou. — Forcei-me a falar. — Eu mereço mais do que isso.

— Ah, mas você vem, sim! — Agarrou meu braço com força e me puxou com ele. Tentei me desvencilhar, mas ele era muito forte. Todo o esforço foi em vão.

— Mas que droga, Shady, me solta! — gritei. — Já disse que não vou para casa com você.

— Você ouviu ela, otário! — socou a cara de Shady, que me soltou e levou a mão ao rosto. — Ela disse que não vai para casa com você.

— Seu filho da puta! — esbravejou Shady.

Ele foi para cima de e eles trocaram alguns socos. Três caras do time apareceram e apartaram a briga. pediu que eles levassem Shady para longe. Eles me lançaram um olhar de preocupação, mas fizeram o que o amigo pediu. Eu os conhecia apenas porque acompanhava a equipe da faculdade. Contudo, nunca havia trocado sequer uma palavra com eles.

— Aqueles jogadores estavam com você? — perguntei e assentiu enquanto massageava a bochecha que meu namorado havia golpeado. Ex-namorado, talvez. — Tomara que fique pelo menos um hematoma.

— Em quem? — brincou. — Espero que não seja em mim.

— Nele, com certeza — respondi, sem rodeios. — Obrigada por isso.

— Não tem que me agradecer, , eu só quero te ver bem. Como está se sentindo, a propósito? — envolveu meu rosto em suas mãos e inspecionou cada canto. Estava mesmo preocupado. Selei nossos lábios sem pensar muito a respeito. Não podia evitar. — Uau, espera aí. O que foi isso?

— Um beijo, oras! — Ri um pouco. — E sua resposta.

— Certo. — Ainda me olhava com atenção. — Estava em uma festa com os caras, na casa do pivô do time de basquete. Shady também estava lá, mas isso não importa. Eu tinha esquecido o celular na cozinha, por isso só vi as ligações agora de manhã. Me desculpa, , poderia ter evitado essa cena se tivesse visto mais cedo e vindo te encontrar no quarto da Jennifer.

— Não há razão para se desculpar, — suspirei. — Você ouviu a mensagem, então?

— Ouvi. Você está apaixonada por mim, tipo, de verdade? — Lançou-me um olhar de dúvida. — Não estou sonhando nem nada assim?

— Se estivermos tendo o mesmo sonho, talvez — ponderei. — Quer que eu te belisque?

— Acha mesmo que esse tipo de coisa funciona? — Arqueou a sobrancelha.

— É isso que eu sempre pensei! — exclamei, empolgada por alguém questionar as mesmas aleatoriedades que eu. — Tipo, você se belisca no sonho, não na vida real. Como que isso poderia te acordar?

— Sem beliscões, então. E isso é definitivamente um sim. — Ele me beijou com carinho e paixão. — Eu também estou apaixonado por você, .

— Pois é. Acho que eu deveria ter tentado um relacionamento com você antes de tudo, né? — Deixei uma risadinha escapar. — Mas acabei escolhendo o caminho mais fácil.

— Está me dizendo que já pensava nisso antes de namorar aquele babaca? — questionou. — Que pensava em mim?

— Penso em você desse jeito desde o momento em que pulou por cima do jogador de MarbleU dois anos atrás — confidenciei. — Nunca mais saiu dos meus pensamentos.

— Aquilo foi apenas um touchdown, . — Ele riu. — Você nem me conhecia.

— Como ousa dizer que foi apenas um touchdown? Você só pode estar maluco. Aquela jogada foi incrível! — Dei um soquinho em seu ombro. — E quer saber? Minha preferências seguem essa lógica: futebol antes de garotos.

— Nunca pensei que ouviria uma coisa dessas. — Sacudiu a cabeça. — Tudo bem, vou ter que confessar, então: eu meio que gostei de você desde que me mandou aquele e-mail inesperado.

— Se interessou em mim daquela vez, fácil assim? — Meu queixo caiu. — Por que não tentou falar comigo pessoalmente, então?

— Eu estava assustado. — Deu de ombros. — Não sou muito bom em puxar assunto com as mulheres que nem o Jake, sabe? E eu mal conhecia você. Imaginei milhares de possibilidades de como o nosso diálogo poderia ocorrer, mas nunca criei coragem.

— Acredite em mim, eu entendo. Geralmente tomo iniciativa em situações sociais — contei. — Queria muito ter puxado assunto, mas não sabia se você estava a fim e tive medo de estragar tudo falando demais.

— Felizmente, parece que todas as estradas nos trouxeram a esse mesmo ponto — notou.

— E eu escolhi o caminho que parecia mais simples. — Abaixei a cabeça. — No fim das contas, era o pior e mais longo de todos.

— Mas você está livre daquele idiota agora. — Ele me fez erguer a cabeça para olhá-lo. — Eu vou ficar com você, , e te ajudar em tudo o que você precisar.

— Fico feliz em ouvir isso, mas essa estrada está longe de acabar. — Respirei fundo. — Estou carregando um filho, e desejo continuar com a gravidez. Então não há nada que possa fazer a respeito da minha situação.

— Para o inferno com isso! — Fez um gesto displicente. — Estive pensando no assunto desde que ouvi a mensagem de voz. Já tomei minha decisão.

— Realmente quer ficar comigo? — Eu mal podia acreditar. — Eu não tenho nem um lugar para morar.

— A gente dá um jeito — garantiu.

— Estamos no último ano, . — Mordi o lábio. Era duro enfrentar a realidade do fim da faculdade e de como me distanciaria daquelas pessoas com quem convivi nos últimos quatro anos. — Eu vou ser mãe e, se tudo der certo, seguirei minha carreira como pesquisadora em algum lugar do país. Você, por outro lado, vai estrear como jogador profissional na próxima temporada.

— Como pode saber se vou ser mesmo recrutado por algum time? — questionou. — Talvez nenhum deles me queira.

— Está sendo modesto. Você é um prospecto de quarta ou quinta rodada. Eu acompanho as notícias. — Pisquei para ele. — É o destino, . Nossos caminhos se dividem no próximo verão.

— Só se você quiser que se dividam. Acha mesmo que eu te largaria por causa de um contrato com uma equipe esportiva? — Ele acariciou meu rosto. — Você vai comigo e consegue o seu emprego lá. A gente se vira.

— Você faz parecer fácil — notei.

— Nunca é fácil, mas pelo menos é seguro — insistiu. — O importante é manter você e essa criança em segurança. E para isso acontecer, precisa estar bem longe daquele cara.

— Mas o filho é dele — enfatizei.

— O filho é seu, não se esqueça disso. Além do mais, imagino que o idiota nem saiba da gravidez — supôs. — Se eu assumir essa criança, ele nunca vai questionar.

— Acho que só está considerando essas coisas porque está bêbado — acusei-o.

— Pior que não. Só bebi dois copos de cerveja no início da noite — defendeu-se. — Tenho treino hoje à tarde.

— Você faria mesmo uma coisa dessas? — perguntei mais uma vez. — Daria o seu nome para um bebê que não é seu?

— E por que não? Se criarmos essa criança juntos, seremos os pais dela. Parece bom para mim. Além do mais, sempre sonhei em ter filhos. — Deu de ombros. — Agora vem comigo. — Ele me abraçou pela cintura e começamos a andar.

— Para onde estamos indo? — indaguei.

— Você precisa denunciar aquele cara — falou como se fosse óbvio.

— O quê? — Arregalei os olhos. — Não.

— Não há motivos para se envergonhar — falou.

— Não tenho vergonha — expliquei. — É só que… Não sei, para falar a verdade.

— Agressores não devem sair impune — lembrou-me. — Não está mais sob as garras daquele homem, , não tem mais nada a temer. Você está segura agora.

Assenti e o acompanhei. estava mais do que certo. E eu finalmente sentia que percorreria o melhor e mais seguro dos caminhos.

Fim.

Nota da autora: Então, vamos lá! A primeira versão desse conto data de 2016, quando eu ainda participava e era uma das adms do Coletâneas da Depressão (CDD). OCMS foi um dos muitos contos que escrevi para a antologia Get Your Future Hearts On! — de All Time Low e Simple Plan —, e ele foi inspirado na música Bail Me Out. Porém eu não havia trazido essa história ao mundo porque nunca publicamos a antologia. Foi então que eu tive a ideia de ressuscitar esse conto e publicá-lo pela Amazon, aí reescrevi tudo e ele passou do dobro do tamanho que costumava ser. Mas eu não deixei ele por lá por muito mais do que um ano. Então, caso me acompanhe de antes, talvez até já tenha lido ele, mas caso não, seja bem-vindo.
Agora eu aproveitei o especial de esportes pra trazer esse continho à vida de novo. Espero que tenham gostado dessa pequena aventura de Sally Hinsen reencontrando seu caminho.
Encontre minhas outras fics AQUI.
Tia Fran ama vcs <3


☀️


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