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Codificada por: Sol ☀️

Última Atualização: 20/07/2025.

O cheiro do ginásio sempre me marcou mais do que eu gostava de admitir. Mistura de suor, poeira e um toque de resina velha que grudava na roupa, no cabelo, na pele. Eu costumava ficar do lado de fora, sentada na arquibancada, enquanto o treinava e gritava instruções que eu não entendia. Mas eu olhava para o ringue como se fosse um palco, e para ele como se fosse um herói.

. .

Quando eu era mais nova, não tinha coragem nem de chegar perto dele. Ele sempre parecia tão sério, tão distante, tão… grande. O melhor amigo do meu irmão, o orgulho da academia, o cara que todo mundo queria ser. E eu, a irmãzinha que trazia toalha, assistia calada, tentava sorrir quando ele passava por mim.

Agora eu estava ali, na mesma porta que fiquei anos espiando, com uma mochila pendurada no ombro e o coração batendo rápido demais. Talvez eu devesse ter avisado o . Talvez eu devesse ter desistido antes de abrir essa porta. Mas eu não consegui.

estava de costas, mexendo em alguma coisa na bancada. Quando ele virou, parou como se não tivesse certeza se era mesmo eu. O olhar dele passou por mim dos pés à cabeça — rápido, quase impessoal — e voltou para o meu rosto, meio confuso.

? Achei que você estivesse na faculdade.

— Eu terminei — respondi, antes que minha coragem fosse embora. — Agora… eu quero lutar.

Ele não respondeu de imediato. Ficou me olhando, os olhos um pouco apertados, como se buscasse algo que eu mesma não sabia explicar. Ele parecia cansado, de um jeito que não combinava com o que eu lembrava. Mas ainda era ele. Ainda tinha aquele jeito firme, o ombro largo que um dia carregou troféus, as mãos marcadas por cicatrizes antigas.

— Não sei se isso é pra você. — Ele apoiou a mão no quadril, desviou o olhar para o ringue vazio. — Não é fácil, .

— Eu sei que não é — interrompi, rápido demais. — E não é por ser fácil que eu quero. Eu vou treinar de qualquer jeito. Mas preferia treinar com você.

Ele soltou um suspiro curto. Por um segundo, tive certeza de que ele ia dizer não. E não saberia se ficaria mais aliviada ou decepcionada.

— Amanhã. Oito da manhã. — Ele disse isso sem emoção nenhuma. — Não atrasa.

Foi só isso. Um aceno de cabeça, um virar de costas. E eu fiquei ali, parada, tentando entender por que aquilo fazia minha barriga se apertar de um jeito estranho.

Naquela noite, deitei na cama sem conseguir dormir. Fiquei lembrando do jeito que ele me olhou, tentando decidir se era só preocupação ou alguma outra coisa que eu não devia nem cogitar. Eu disse pra mim mesma que era bobagem. Que ele só estava sendo cuidadoso, como sempre foi.

O primeiro treino não foi muito diferente. Eu chegava cedo, aquecia enquanto ele resolvia coisas com outros lutadores. Quando chegava minha vez, ele ficava sério, dava instruções curtas, corrigia minha postura com toques rápidos e secos.

O ginásio era barulhento de manhã, cheio de vozes, luvas batendo, cordas chiando. Mesmo assim, às vezes eu sentia que tinha silêncio demais quando era só eu e ele ali dentro. Uma pausa entre uma sequência e outra. Um olhar rápido quando eu errava o golpe. Um meio sorriso que ele deixava escapar quando eu acertava.

Voltei pra casa todo dia exausta, cheia de dores e pequenas vitórias. Mas, mais do que tudo, voltava com a certeza de que, se existia uma linha entre quem eu fui e quem eu queria ser, eu já tinha cruzado. Sozinha.

O ginásio parecia maior visto de dentro do ringue. O chão gasto contava histórias de quedas, passos arrastados e vitórias antigas. As cordas, meio frouxas, balançavam quando eu as tocava, como se lembrassem de cada soco que já haviam testemunhado.

Eu estava nervosa demais pra disfarçar. O cheiro forte de suor e pó grudava na pele, e o som abafado de luvas batendo em sacos espalhados pelo salão me fazia sentir pequena, quase intrusa.

Ele chegou alguns minutos depois de mim, carregando um par de luvas vermelhas, um rolo de bandagem no ombro e aquele silêncio que parecia sempre acompanhá-lo. . . Quando os olhos dele encontraram os meus, tive a impressão de que ele notou a ansiedade estampada na minha cara, mas fingiu não ver.

— Coloca isso — disse, estendendo as bandagens. — Sabe enrolar?

— Mais ou menos — admiti, sentindo o rosto esquentar.

Ele deu um suspiro curto, se aproximou e pegou minha mão com cuidado. O toque foi rápido, quase técnico, mas ainda assim fez alguma coisa dentro de mim encolher e se expandir ao mesmo tempo.

As mãos dele eram quentes, firmes, e se moviam com uma segurança que eu nunca teria. Ele começou a enrolar a bandagem no meu punho, apertando na medida certa, testando a firmeza. O cheiro dele se misturou ao do ginásio — sabonete, suor e algo quase amadeirado, discreto. Eu me obriguei a olhar para a parede, para o chão, para qualquer lugar que não fosse o rosto dele.

— Não prende demais, senão corta a circulação — ele explicou, a voz baixa, quase rouca. — Mas também não deixa frouxo. Senão machuca na hora do impacto.

Assenti, sem saber se ele percebeu que eu mal prestava atenção nas palavras. Quando terminou, se afastou um pouco e me entregou as luvas.

— Vamos começar com o básico. Sobe no ringue.

Meu coração disparou. Eu subi com cuidado, o assoalho rangendo sob meus pés. Ele ficou fora, encostado nas cordas, me observando com aquele olhar que parecia sempre pesar mais do que dizia.

— Primeiro, posição. Abre os pés na largura dos ombros. Isso. Agora gira o tronco de leve, pé esquerdo na frente.

Tentei obedecer, mas senti o corpo rígido, como se eu tivesse esquecido como andar. Ele entrou no ringue, andando devagar, os pés quase sem fazer barulho. O chão parecia ceder sob o peso dele, mas ao mesmo tempo era como se ele pertencesse ali mais do que em qualquer outro lugar.

Ele se aproximou, ficando atrás de mim, e colocou uma das mãos no meu cotovelo, ajustando a altura. Eu senti o calor da pele dele atravessando o tecido da camiseta, um arrepio subindo pela minha nuca.

— Não levanta tanto o queixo — murmurou, perto o bastante para que eu sentisse o ar da respiração dele roçar minha pele. — Aqui, olha. Queixo baixo, ombros soltos.

Tentei fazer, mas acho que ainda parecia dura demais, porque ele suspirou de novo. Então veio pra frente, ficando cara a cara comigo. Os olhos dele eram escuros, mas à luz fria do ginásio tinham uns tons que pareciam quase castanhos claros nas pontas. Ele ergueu as mãos, fechou em guarda.

— Copia.

Copiei. Ele inclinou levemente a cabeça, analisando cada detalhe, como quem procurava um erro escondido.

— Melhor. Agora, jab. — Ele mostrou devagar, o braço esquerdo indo reto à frente, girando o punho no último instante. — Sem balançar o ombro. Movimento vem do quadril.

Assenti e tentei. A primeira vez saiu meio fraco, o braço travado, o peso mal distribuído. Ele não reclamou, só fez sinal pra tentar de novo.

— Gira mais o quadril — explicou. — Imagina que o soco nasce aqui, não na mão.

Toquei o quadril, tentando entender. Ele chegou perto, encostou a mão na lateral do meu corpo, quase na altura da cintura, e empurrou de leve.

— É daqui que vem a força. Vai.

Dei outro soco. Melhor. Ele acenou, quase sorrindo, mas não chegou a sorrir.

— Agora direto. Direita. Não esquece de girar o pé.

O suor começou a escorrer na minha testa, os braços pesando mais do que eu esperava. Cada vez que eu acertava a postura, ele só dizia “boa”. Cada vez que eu errava, ele corrigia em silêncio, com um toque rápido, um olhar firme. Não havia brincadeira na voz dele, nem na expressão. Era sério. Profissional.

Mas de vez em quando, entre um golpe e outro, eu percebia algo diferente no jeito que ele me olhava. Um segundo em que ele parecia ver mais do que deveria, como se estivesse procurando algo que não tinha nome. Era rápido, quase imperceptível, e talvez fosse só coisa da minha cabeça. Mesmo assim, bastava para me fazer perder o ritmo.

— Concentra, — ele disse numa dessas vezes, a voz ainda baixa, quase dura. — Se distrai aqui, toma um soco de verdade.

Senti meu rosto esquentar, não só pelo esforço. Concordei com um aceno e fechei mais forte as luvas.

— Vamos fazer uma sequência. Jab, direto, jab. Respira, conta na cabeça.

Fiz. Duas vezes, três. Os nós dos meus dedos latejavam mesmo sob a bandagem, o peito ardendo com a respiração curta. Mas, pela primeira vez, senti o corpo responder quase sozinho. Era estranho e, ao mesmo tempo, viciante.

— De novo. Mais rápido. — Ele ergueu as luvas, me oferecendo como alvo. — Vai.

Os sons dos meus socos batendo nas luvas dele eram secos, quase satisfatórios. Eu perdia a noção de tempo, só ouvia a respiração dele, o bater dos meus pés no chão, o eco abafado no galpão.

Aos poucos, a voz dele ficou mais distante, como se tudo ao redor tivesse sumido. Só sobrava o calor do meu corpo, o cheiro de poeira e o som do sangue correndo alto nos ouvidos. Quando parei, percebi que ele ainda segurava minhas mãos nas dele, firmes, e eu ainda estava ofegante, com o coração martelando na garganta.

Ele soltou devagar, desviando o olhar. Eu também desviei, fingindo ajeitar a bandagem.

— Tá bom por hoje — ele disse. — Vai sentir dor amanhã, normal. Passa gelo.

Assenti, puxando o ar, tentando disfarçar o jeito que meu peito parecia pequeno demais pra caber tudo que eu sentia.

Philadelphia amanhecia devagar na nossa rua. O sol surgia meio pálido atrás de prédios velhos de tijolos vermelhos, iluminando calçadas rachadas, fios pendurados como teias, e carros antigos que pareciam ter desistido de funcionar de vez. O asfalto tinha mais buracos do que pista, e a fachada da casa onde a gente morava estava descascando, com a pintura antiga mostrando camadas de cores diferentes por baixo.

Era feio. E, de algum jeito, era casa.

Eu sempre gostei de olhar pela janela da cozinha logo cedo. Ver os vizinhos indo trabalhar, crianças correndo pra pegar o ônibus escolar, a fumaça saindo de pequenas lojas de café que sobreviviam ali, na teimosia. Philadelphia tinha esse jeito áspero, cansado, mas vivo. Especialmente Kensington, o bairro onde a gente cresceu: ruas estreitas, placas de metal enferrujadas, grafites apagados contando histórias de quem passou por ali antes.

O cheiro de pão queimado me trouxe de volta.

, o que você tá fazendo? — A voz grave do veio da porta, junto de um bocejo.

Ele apareceu na cozinha usando uma camiseta cinza rasgada e calça de moletom, o cabelo loiro bagunçado. Parecia ainda maior do que realmente era: ombros largos, braços pesados de quem passou metade da vida levantando peso e a outra metade brigando para defender quem amava. O rosto tinha aquela mistura estranha de traços duros e algo quase gentil nos olhos claros.

Alexander Ludwig poderia interpretar meu irmão numa série — pensei, meio rindo por dentro. Só que o era mais real. Mais gasto, também.

— Tentando fazer torrada — respondi, erguendo o pão meio queimado. — Tentando.

Ele se encostou no batente, cruzou os braços e me olhou com uma expressão que ficava entre carinho e censura.

— Você nunca vai aprender, né?

— Provavelmente não — falei, rindo, mesmo sabendo que ele não estava exatamente brincando.

Nosso café da manhã era sempre simples: pão, manteiga, café passado na hora. Algumas vezes, ovos mexidos quando sobrava dinheiro no fim do mês. O trabalhava como segurança num depósito a vinte minutos dali. O turno começava cedo, terminava tarde, e deixava pouco espaço pra quase tudo — menos pra me encher de conselhos.

— Você tá treinando mesmo? — ele perguntou, a voz soando mais leve do que eu esperava.

Senti meu estômago se apertar, mesmo não tendo nada pra esconder… ainda.

— Tô — respondi, tentando parecer casual. — Só comecei.

Ele assentiu, bebendo o café ainda quente. A fumaça subia, desenhando linhas tortas no ar.

— Não quero que você se machuque, . Esse mundo não é mole.

Eu conhecia aquele tom. Era quase o mesmo que ele usava quando falava do . Um misto de preocupação sincera e aquela mania de irmão mais velho de achar que precisava me proteger de tudo.

— Eu sei, . Mas eu preciso tentar.

Ele olhou pra mim de um jeito estranho. Como se estivesse vendo outra pessoa por um segundo. Depois balançou a cabeça, soltou o ar devagar e trocou de assunto.

— Vai passar no mercado? Tô sem tempo hoje.

— Passo, sim — falei, pegando as chaves. — Quer que eu compre o de sempre?

— É. Se der, pega leite também.

As ruas de Kensington pareciam diferentes quando eu andava sozinha. Eu via detalhes que antes passavam despercebidos: as fachadas de lojas fechadas com tábuas, a calçada rachada onde nasciam ervas daninhas, as janelas quebradas refletindo o céu cinzento. Passava por casas geminadas, quase todas parecidas: dois andares, varandas estreitas, portas pintadas de cores vivas que tentavam disfarçar a tristeza da parede ao redor.

No caminho, parei na frente de uma academia que ficava a duas quadras da nossa. O letreiro estava meio apagado, e por dentro só dava pra ver sacos de pancadas remendados, o som grave do rádio antigo tocando uma música que ninguém lembrava mais quem cantava.

Por um instante, pensei em como era estranho eu nunca ter tido coragem de entrar antes. Eu sempre olhava de longe, como se o ringue fosse um lugar que não me pertencesse. Agora, mesmo sem saber direito o que eu estava fazendo, sentia que estava tentando construir meu lugar ali.

No mercado, contei as moedas pra ter certeza que daria pra tudo. Comprei leite, pão e o arroz mais barato da prateleira. Vi o rosto cansado da moça do caixa, olheiras fundas que lembravam as minhas. Saí segurando as sacolas, o vento frio de Philly batendo no rosto, levando um pouco da poeira que parecia se agarrar à pele.

Cheguei em casa quase na mesma hora que o saía. Ele me deu um beijo na testa, rápido, e perguntou de novo:

— Vai treinar?

— Vou.

Ele não perguntou onde, nem com quem. Eu sabia que uma hora ele ia querer saber. Por enquanto, deixei que o silêncio falasse por mim.

No quarto pequeno que eu dividia comigo mesma, coloquei as luvas sobre a cama. Eram simples, pretas, com a costura meio gasta. Passei a mão sobre o couro riscado, lembrando do toque rápido do quando ele me ajudou a ajustar a bandagem. Foi só um instante, mas ficou gravado.

Fiquei olhando as luvas por um tempo, sentada na beira da cama, ouvindo o som da rua entrando pela janela aberta: freios de ônibus, passos apressados, alguém rindo longe. Na parede, as rachaduras faziam desenhos que eu conhecia de cor, quase como um mapa secreto do quarto.

A realidade era essa: uma casa simples demais, contas acumulando na geladeira presas com imãs, rachaduras na parede, e um irmão que trabalhava até cansar o corpo todo só pra gente ter o básico.

E mesmo assim, por mais estranho que parecesse, eu me sentia viva como não me sentia havia anos.

Talvez fosse só o medo. Talvez fosse o ringue, as dores novas, a rotina que me tirava do automático. Ou talvez fosse o fato de ter o ali, tão perto, mesmo que a gente quase não dissesse nada que importasse.

Antes de sair, passei a mão pelo vidro da janela, tirando um pouco da poeira. Kensington não era bonita. Mas era real. E, de algum jeito, eu precisava disso. Algo que doesse de verdade, algo que fosse meu.

Fechei a porta devagar, respirando fundo. As luvas na mochila, as chaves na mão.

E lá fora, o caminho até o ginásio parecia curto demais.

Continua...

Nota da autora: Sem nota.

☀️

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