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“A protagonista está prestes a tomar uma decisão terrível. O ator está prestes a aceitar um trabalho ainda pior. E você está prestes a testemunhar um desastre romântico em tempo real. Divirta-se!”

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Capítulo 1

Seja confiante

O problema dos filmes era que eles faziam parecer rápido.
apoiou a coronha da arma contra o ombro e fechou um dos olhos. A distância até o caminhão não era absurda. Cento e poucos metros. Talvez menos. Mas a escuridão transformava tudo em outra coisa. As luzes do porto criavam sombras estranhas sobre os contêineres e faziam os homens parecerem maiores do que realmente eram.
Ela inspirou lentamente. O dedo repousava sobre o gatilho. Esperando. Observando. Calculando. Ao seu lado, Maya estava agachada atrás de uma pilha de caixas de transporte.
— Você sabe o que eu odeio nessa situação?
não desviou os olhos da mira.
— Muitas coisas.
— Segunda-feira.
— Segunda-feira?
— Sim. Se eu levar um tiro, gostaria que fosse numa quinta. Psicologicamente é mais aceitável.
ouviu Ethan soltar uma risada abafada no comunicador.
— Isso não faz o menor sentido.
— Faz total sentido — respondeu Maya. — Segunda-feira é um dia vulnerável.
permitiu que o canto da boca se movesse alguns milímetros.
Era o máximo que seus amigos receberiam como demonstração de humor. Através da luneta ela observou o suspeito principal atravessar o espaço entre dois contêineres. Boné preto. Jaqueta cinza. A mesma descrição da denúncia anônima. A mesma descrição que havia mantido a equipe acordada pelas últimas quarenta e oito horas.
Seu coração acelerou. Não de medo.
Nunca de medo.
Era algo diferente. Algo mais próximo da expectativa. A sensação de estar exatamente onde deveria estar. Algumas pessoas encontravam propósito em igrejas. Outras em relacionamentos. encontrava o dela no breve segundo que antecede uma decisão importante.
O mundo diminuía. Os ruídos desapareciam. As dúvidas desapareciam. Tudo ficava simples.
Respire.
Observe.
Acerte.
— Montgomery — a voz do comandante surgiu pelo ponto eletrônico. — Confirma visual?
— Confirmado.
— Pode efetuar.
Ela expirou lentamente. O disparo ecoou pela noite. O vidro do caminhão explodiu. O motorista freou bruscamente. E então o caos começou.
Gritos.
Luzes.
Sirenes.
Homens correndo em todas as direções. Maya saltou da cobertura antes mesmo da ordem oficial.
— Polícia! Mãos para cima!
Ethan correu logo atrás. também. Sem hesitar. Sem pensar.
O asfalto passou sob seus pés enquanto atravessava o porto. Um dos suspeitos ergueu uma arma. Outro policial se jogou atrás de um veículo. continuou avançando. Coragem não era ausência de medo. Era simplesmente decidir que alguma coisa importava mais. Naquele momento importava impedir que eles escapassem.
Quinze minutos depois, tudo havia terminado. Cinco prisões. Duas toneladas de mercadoria ilegal apreendida. Nenhum policial ferido. O sol começava a nascer quando a equipe finalmente recebeu autorização para encerrar a operação.
Ethan afrouxou o colete.
— Eu odeio todos vocês.
— Bom dia para você também — respondeu Maya.
— São seis da manhã de uma segunda-feira.
— Tecnicamente ainda estamos vivos.
— Exatamente. Eu queria estar dormindo.
Maya apontou para .
— Olha para ela.
Ethan virou o rosto.
— Meu Deus.
ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Você está feliz.
— Estou normal.
— Não está não — disse Maya. — Essa é sua cara de felicidade.
observou os agentes recolhendo provas. Os caminhões apreendidos. Os contêineres sendo lacrados. As luzes vermelhas e azuis refletindo sobre o asfalto molhado. Talvez eles estivessem certos. Talvez ela estivesse feliz. Porque enquanto a maioria das pessoas passava as segundas-feiras reclamando da vida, Montgomery passava as dela mudando o rumo de algumas histórias.
E, sinceramente, não conseguia imaginar nada melhor.
— Você está sangrando.
continuou andando.
— Estou?
— Meu Deus — Maya colocou a mão na própria testa. — É exatamente por isso que eu não consigo trabalhar com pessoas emocionalmente saudáveis.
— Ela não é emocionalmente saudável — disse Ethan.
— Verdade.
olhou para o antebraço. Havia um corte longo próximo ao cotovelo. Nada profundo. Provavelmente algum pedaço de metal quando atravessou a área dos contêineres.
— Ah.
— "Ah"? — repetiu Maya.
— Parece superficial.
— Você levou um pedaço de porto industrial no braço e sua análise é "parece superficial".
— Tecnicamente está cicatrizando.
— Faz vinte minutos.
— O corpo trabalha rápido.
Ethan soltou uma risada.
— Eu adoro quando você tenta parecer uma pessoa normal.
Maya pegou o kit de primeiros socorros da viatura.
— Vem aqui.
— Não precisa.
!
— Maya!
!
Ela suspirou.
Era impossível vencer aquela discussão.
Maya limpou o ferimento enquanto resmungava algo sobre colegas de trabalho irresponsáveis. observou em silêncio. Ao lado delas, Ethan bocejou. Um bocejo tão exagerado que parecia uma manifestação política.
— Eu vou morrer.
— Você diz isso toda semana — respondeu Maya.
— Meu corpo foi feito para dormir.
— Seu corpo foi feito para reclamar.
— Reclamar é uma arte.
— E você é um gênio incompreendido.
— Obrigado.
Maya revirou os olhos. desviou o olhar antes que os dois percebessem o sorriso que ameaçava surgir. Porque eles faziam aquilo o tempo inteiro. A implicância constante. Os olhares demorados. A forma como Maya sempre parecia notar primeiro quando Ethan estava cansado.
Ou como Ethan automaticamente entregava a ela o último donut da caixa sem sequer pensar. nunca comentava. Primeiro porque não era da sua conta. Segundo porque tinha quase certeza de que os dois morreriam de constrangimento.
— Café? — perguntou Ethan.
— Café — respondeu Maya.
— Café — concordou .
Era quase uma tradição. Depois de cada operação importante. Depois de cada turno particularmente ruim. Depois de cada segunda-feira, que parecia longa demais. O mesmo café. A mesma mesa. As mesmas reclamações.
Quarenta minutos depois, empurrou a porta de vidro do estabelecimento. O cheiro de café torrado a atingiu imediatamente. Ethan praticamente caiu sobre uma cadeira.
— Vou registrar oficialmente que este café vai destruir meu horário de sono.
— Você não tem horário de sono.
— Tenho sim.
— Qual?
— Adormecer aleatoriamente em locais diferentes.
— Isso não conta.
— Conta para mim.
Maya roubou um sachê de açúcar da bandeja dele.
— Você é dramático.
— Eu sou realista.
— Você é dramático.
— Você me ama.
Maya congelou por um segundo. Apenas um segundo. Mas percebeu. Porque percebia tudo. Então Maya respondeu:
— Continue sonhando.
Ethan sorriu por cima do cardápio. decidiu que era uma ótima hora para fingir interesse no próprio celular. Ela pressionou o botão lateral. A tela acendeu. E imediatamente sentiu uma pontada de preocupação. Vinte e três chamadas perdidas.
Todas da mesma pessoa.
“Mãe”
piscou. Depois olhou novamente. Vinte e três. Ela verificou o horário. Cinco da manhã.
Seis.
Sete.
Oito.
Nove.
Aparentemente Catherine Montgomery havia passado as últimas quatro horas tentando estabelecer algum tipo de recorde mundial. apoiou a cabeça na mão. A única pergunta era: O que exatamente poderia ser tão urgente às nove da manhã de uma segunda-feira?
Porque, conhecendo sua mãe, existiam duas possibilidades. Alguém havia morrido. Ou havia acontecido alguma coisa relacionada ao casamento de Isabella.
E, sinceramente, não tinha certeza de qual das duas opções era mais provável. Ela não sabia se estava impressionada ou preocupada. Talvez os dois. Respirou fundo e pressionou o botão de ligar. A chamada nem chegou a completar o segundo toque.
— Finalmente.
Nem um "bom dia". Nem um "você está bem?". Nem um "onde você estava?". Apenas finalmente. sentiu os ombros endurecerem. Era automático. Acontecia sempre.
— Bom dia para você também, mãe.
— Estou tentando falar com você desde cedo.
— Eu estava trabalhando.
— Sim, claro.
Aquele "claro" carregava o mesmo entusiasmo de uma multa de trânsito. observou Maya e Ethan discutindo sobre a quantidade aceitável de açúcar num café. Por um instante considerou dizer. Considerou falar sobre a operação. Sobre as prisões. Sobre a apreensão.
Sobre o fato de que a equipe inteira provavelmente apareceria no noticiário local naquela noite. Mas desistiu. Porque conhecia Catherine Montgomery. Sua mãe não era uma pessoa cruel.
Crueldade exigia intenção.
Catherine simplesmente possuía uma habilidade extraordinária para ignorar tudo aquilo que considerava importante. Então poupou as duas do esforço.
— O que aconteceu?
— Um desastre.
fechou os olhos. Nunca era uma boa palavra quando saía da boca de Catherine.
— Que tipo de desastre?
— Camila.
abriu os olhos novamente.
— Camila?
— Sim, Camila.
Sua mãe pronunciou o nome da futura nora como se estivesse falando sobre uma ameaça à segurança nacional.
— O que ela fez?
— Ela escolheu um vestido de outro ateliê.
Silêncio. esperou. Talvez existisse uma segunda parte. Uma parte importante. Uma parte que justificasse vinte e três ligações. Ela esperou. Não veio.
— ...Só isso?
.
Aquele tom. O tom que significava: você está me decepcionando.
— O que quer dizer com "só isso"?
— Mãe, ela escolheu um vestido.
— Um vestido do Atelier Duval.
massageou a testa.
— Eu não sei o que isso significa.
— Claro que não sabe.
— Não sei.
— O Atelier Duval é concorrente direto do Maison Laurent.
— Certo.
— E Laurent é amigo da família há quase vinte anos.
— Certo.
— Isabella vai usar um vestido desenhado por ele.
— Certo.
— Então você entende o problema.
— Não.
Do outro lado da mesa, Maya percebeu imediatamente a expressão dela. Apontou discretamente para o celular. apenas balançou a cabeça. Maya fez uma careta solidária. Já conhecia Catherine.
Todo mundo conhecia Catherine.
, imagine o constrangimento.
— Estou tentando.
— Os fotógrafos vão perceber.
apoiou o cotovelo na mesa. Ela havia passado a madrugada correndo atrás de traficantes armados. Havia desarmado uma operação milionária. Quase levara um tiro. Tinha um corte recém-limpo no braço.
E agora estava participando de uma discussão sobre rivalidade entre estilistas.
A vida era uma experiência fascinante.
— O que você quer que eu faça?
— Converse com sua irmã.
— Isabella tem trinta anos.
— E?
— E vai se casar.
— Exatamente.
— Então imagino que ela seja capaz de escolher o próprio vestido.
— Não é o vestido dela.
— É literalmente o vestido dela.
Catherine soltou um suspiro longo. O mesmo suspiro que costumava dar quando tinha quinze anos e se recusava a participar de eventos beneficentes.
— Às vezes eu me pergunto de onde você tirou essa personalidade.
observou a espuma do café. Branca. Perfeitamente desenhada. O barista havia feito uma folha. Ou uma tulipa. Ela nunca conseguia distinguir.
— Eu também me pergunto — respondeu.
A frase escapou antes que pudesse impedi-la. Um silêncio surgiu do outro lado da linha.
Pequeno.
Mas pesado.
imediatamente se arrependeu. Porque aquele era o problema. Não importava quantos anos tivesse. Não importava quantas operações liderasse. Quantos criminosos prendesse. Quantas medalhas recebesse. Ainda existia uma parte dela que queria desesperadamente agradar Catherine Montgomery.
Uma parte pequena.
Ridícula.
Mas persistente.
— Enfim — disse a mãe, recuperando a compostura. — Você vem para a fazenda na sexta-feira, certo?
fechou os olhos. A fazenda. O casamento. O fim de semana inteiro. A família inteira. E, inevitavelmente...
As perguntas. Por que ainda está solteira? E o Alexander? Você não vai levar ninguém? Ela já conseguia ouvir todas elas. Uma após a outra. Como uma tortura cuidadosamente organizada.
— Sim — respondeu.
— Ótimo.
— E ?
— Sim?
— Já decidiu o vestido que vai usar?
encarou a parede à sua frente.
Depois o café.
Depois o teto.
Qualquer coisa para não rir. Ou chorar. Não tinha certeza.
— Ainda não.
— Eu sabia.
fechou os olhos. Claro que sabia. Catherine nunca fazia perguntas para descobrir respostas. Fazia perguntas para confirmar aquilo que já havia decidido.
— Como você pode ser tão displicente?
— Eu tive uma semana cheia.
— Você teve uma vida inteira para pensar nisso.
soltou uma risada sem humor.
— É só um vestido.
— É o casamento da sua irmã.
— Eu sei disso.
— Então deveria agir como se soubesse.
A garçonete passou pela mesa e deixou o café de Maya. Maya agradeceu. Ethan roubou um sachê de açúcar. Maya bateu na mão dele. A normalidade daquela cena parecia acontecer em outro universo.
— Não se preocupe — continuou Catherine. — Eu já resolvi.
Isso nunca era uma frase tranquilizadora.
— O que você fez?
— Pedi para Laurent fazer o seu vestido.
piscou.
— Você o quê?
— Enviei suas medidas.
— Minhas medidas?
— Sim.
— Que medidas?
— As do seu aniversário de dezoito anos.
encarou o vazio. Depois encarou o teto. Depois voltou para o vazio.
— Mãe.
— O quê?
— Eu tinha dezoito anos.
— Sim.
— Tenho trinta e cinco agora.
— E?
— Talvez eu não tenha exatamente as mesmas medidas.
— Então faça uma dieta.
ficou em silêncio. Porque algumas respostas simplesmente não possuíam continuação lógica. Sua mãe prosseguiu como se tivesse acabado de sugerir que ela levasse um guarda-chuva.
— Ainda temos alguns dias.
— Alguns dias?
— É perfeitamente possível.
— Para perder dezessete anos?
— Não seja dramática.
apoiou a testa na mão. Maya observava a cena à distância. A expressão em seu rosto indicava que estava montando teorias sobre o conteúdo daquela conversa.
Provavelmente todas corretas.
— Enfim — continuou Catherine. — Existe uma questão mais importante.
Claro.
Sempre existia.
— O que foi agora?
— Como se chama?
— Quem?
— Seu acompanhante.
quase engasgou com o próprio café.
— Eu não tenho acompanhante.
Do outro lado da linha houve um silêncio. Um silêncio genuinamente horrorizado.
.
— Mãe.
— Você vai sozinha?
— Sim.
— Para o casamento da sua irmã?
— Sim.
— Essa não é uma decisão sua.
— Claro que é.
— Não é.
começou a rir. Não porque fosse engraçado. Porque era a única alternativa disponível.
— Eu sou a dama de honra.
— E daí?
— E vou estar ocupada.
— Isabella foi muito educada ao dizer que você não precisava levar ninguém.
— Mãe.
, escute.
O tom mudou. Ficou mais suave. Mais perigoso. Era o tom que Catherine usava quando acreditava estar sendo razoável.
— Você tem trinta e cinco anos.
permaneceu em silêncio.
— Você é linda, inteligente, bem-sucedida. E continua aparecendo sozinha em todos os eventos familiares.
Ali estava. A ferida. A mesma de sempre.
— Eu apareço.
— Sozinha.
— Eu apareço.
— Não é a mesma coisa.
— Para mim é.
— Porque você não entende.
observou os carros passando do lado de fora do café. Um homem caminhava pela calçada com um cachorro enorme. O cachorro parecia mais feliz do que qualquer pessoa que ela conhecia.
— O que exatamente eu não entendo?
— As pessoas falam.
Ela deveria ter imaginado. Sempre voltava para isso. As pessoas. Os comentários. As opiniões. As aparências.
— Quais pessoas?
— Pessoas.
— Nomes, mãe.
— Isso não importa.
— Então não existem.
— Existem.
— Quem?
— Amigos.
— Seus amigos?
— Amigos da família.
Claro. Os amigos da família. Os mesmos que mal sabiam seu aniversário. Mas aparentemente possuíam opiniões fortes sobre sua vida amorosa.
— Eles perguntam o tempo todo.
— Sobre mim?
— Sobre você.
— Que estranho.
— Não é estranho.
— Eu acho bastante estranho.
— Eles se preocupam.
quase sorriu. Não. Eles não se preocupavam. Pessoas preocupadas perguntavam se você estava feliz. Pessoas preocupadas perguntavam se você estava segura. Pessoas preocupadas perguntavam como tinha sido sua semana.
Ninguém parecia interessado nessas perguntas.
Queriam saber apenas uma. Você está com alguém?. Como se o resto fosse detalhe.
— Estou bem, mãe.
— Não é disso que estamos falando.
— Exatamente.
Porque nunca era.
— Então você realmente não vai levar ninguém?
soltou um suspiro longo. Aquela já era a terceira vez que a pergunta aparecia. Talvez a quarta. Ela havia perdido a contagem.
— Não, mãe.
Do outro lado da linha, Catherine fez aquele som impaciente que costumava fazer quando era adolescente e respondia tudo com sarcasmo.
— Eu não entendo por que você insiste nisso.
— Insisto em quê?
— Em ficar sozinha.
— Eu não estou insistindo em nada.
— Está sim. Eu só queria que você permitisse que alguém cuidasse de você.
A frase a pegou desprevenida. Porque não veio carregada de críticas. Veio carregada de sinceridade. E isso era pior.
— Eu sei cuidar de mim.
— Eu sei que sabe.
— Então qual é o problema?
A voz da mãe suavizou.
, você trabalha demais.
— Gosto do meu trabalho.
— Você se coloca em perigo.
— Faz parte da profissão.
— Você não descansa.
— Eu descanso.
— Quando?
observou a fumaça saindo da xícara. Não respondeu.
— Está vendo?
— Mãe...
— Eu só não quero que um dia você olhe para trás e perceba que passou a vida inteira carregando tudo sozinha.
Por um instante. Apenas um instante. sentiu vontade de contar. Contar sobre a operação. Sobre o corte no braço. Sobre o medo que sentiu quando viu um dos suspeitos sacar uma arma. Não porque precisasse de ajuda. Mas porque queria que alguém soubesse. Queria que alguém perguntasse.
Queria que alguém se importasse.
Mas já conhecia o roteiro daquela conversa. Então apenas respondeu:
— Eu vou ficar bem.
— Claro que vai.
Catherine suspirou.
— Enfim. Pense no que eu disse.
— Vou pensar.
— E faça alguma coisa com esse cabelo.
— Certo.
— E tente não aparecer sozinha.
sorriu sem humor.
— Tchau, mãe.
— Tchau, querida.
A ligação terminou. A tela ficou escura. Por alguns segundos, permaneceu olhando para o próprio reflexo nela. Depois guardou o celular. Quando levantou os olhos, abriu um sorriso.
Pequeno.
— Então — disse ela. — O que eu perdi?
— Nada — respondeu Ethan.
— Mentira — disse Maya.
— Nada importante.
— Mentira de novo.
— Você é insuportável.
— E você gosta de mim.
— Infelizmente.
Maya roubou uma batata do prato dele. Ethan reclamou. Maya roubou outra.
Ethan reclamou mais.
observou os dois. A implicância. Os olhares. A intimidade. Aquilo sempre a fazia sorrir. E por alguns minutos conseguiu esquecer a ligação.
Conseguiu rir. Conseguiu participar da conversa. Conseguiu fingir.
Até que Maya a observou por cima da própria xícara. Longamente. Daquele jeito irritante que significava que estava pensando.
— O quê?
— Nada.
— Maya.
— Só estou achando engraçado.
— O quê?
— Você.
— Obrigada.
— Não, escuta. Há duas horas você estava correndo atrás de traficantes armados.
— Tecnicamente eles estavam correndo de mim.
— Isso não melhora a história.
Ethan riu.
Maya continuou.
— Você passou a madrugada inteira numa operação gigantesca.
— Sim.
— Um cara apontou uma arma para você.
— Sim.
— Você voltou com um corte no braço.
— Sim.
— E ainda assim...
Maya inclinou a cabeça.
— Nada disso te assustou.
arqueou uma sobrancelha.
— Certo.
— Mas cinco minutos de conversa com sua mãe...
Ethan soltou uma gargalhada.
Maya apontou para ela.
— Isso sim te aterrorizou.
A mesa inteira ficou em silêncio. Porque era uma piada. Mas não era. E pela primeira vez naquela manhã, alguém tinha enxergado. Não a policial. Não a profissional. Não a filha perfeita.
Ela.
desviou o olhar. Rapidamente. Mas tarde demais. Sentiu uma lágrima escapar. Apenas uma. Pequena. Maya não comentou. Ethan também não.
A voz da repórter surgiu atrás do balcão.
...a operação realizada durante a madrugada resultou na prisão de cinco suspeitos e na apreensão de uma das maiores cargas ilegais registradas este ano...
Maya foi a primeira a virar.
— Ei.
Ethan acompanhou o movimento.
— Ei!
levantou os olhos. A televisão exibia imagens do porto. Viaturas. Luzes vermelhas e azuis. Contêineres. Fita de isolamento. Era estranho. Sempre era. Porque a televisão tinha uma capacidade impressionante de transformar horas de tensão em trinta segundos de vídeo.
A reportagem continuou.
A ação foi conduzida pela Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado...
Então uma fotografia surgiu na tela. Seu nome apareceu logo abaixo. Tenente Montgomery. Maya abriu um sorriso enorme.
— Eu conheço ela.
— Mentira — disse Ethan. — Eu conheço ela primeiro.
— Eu literalmente trabalho ao lado dela.
— Eu também.
— Eu gosto mais dela.
— Isso é discutível.
balançou a cabeça.
— Vocês têm problemas.
— Você está na televisão.
— Por aproximadamente oito segundos.
— Oito segundos de fama ainda são fama.
— Não são.
— São sim.
Ethan apontou para a tela.
— Olha essa foto.
— O que tem ela?
— Você parece que acabou de descobrir três esquemas criminosos e um segredo de estado.
— É uma foto normal.
— Não, não é.
— É sim.
— Você tem uma expressão que diz "eu sei de coisas que você não sabe".
Maya concordou imediatamente.
— Verdade.
— Vocês estão inventando.
— Não estamos.
desviou o olhar da televisão. Porque, sinceramente, nunca soube lidar com reconhecimento. Não por modéstia. Era apenas estranho. As pessoas olhavam para uma fotografia.
Uma manchete.
Uma entrevista.
E acreditavam estar vendo o trabalho. Mas o trabalho nunca aparecia. O trabalho era o frio da madrugada. O trabalho eram as semanas analisando relatórios. As noites perdidas. Os erros. As tentativas. As decisões tomadas em segundos.
Ninguém filmava aquilo. Filmavam apenas o resultado. Talvez por isso ela gostasse tanto daquela profissão. Porque ali dentro, entre pessoas que realmente faziam o trabalho, o mérito era impossível de falsificar. Você não podia comprar coragem. Não podia comprar competência. Não podia comprar respeito. Precisava conquistar.
Precisava merecer.
A reportagem terminou. O apresentador passou para a previsão do tempo. Maya tomou um gole do café. Ethan roubou uma batata do prato dela. Maya lhe deu um tapa na mão. A normalidade voltou. Mas Ethan continuava olhando para .
— O quê?
— Nada.
— Ethan.
— Estou pensando.
— Isso nunca termina bem.
— Eu só acho curioso.
— O quê?
— Sua mãe ligou vinte e três vezes.
já sabia para onde aquilo estava indo.
— Ethan...
— Não, escuta.
— Não quero escutar.
— Você acabou de aparecer na televisão por causa de uma operação enorme.
— Sim.
— E eu apostaria dinheiro que isso não foi mencionado uma única vez naquela ligação.
O silêncio respondeu antes dela.
Maya observou os dois.
— Espera.
afundou na cadeira.
— Não.
— O quê?
— Nada.
— Não, agora eu quero saber.
— Maya...
— O que sua mãe queria?
encarou a xícara. A espuma já tinha desaparecido. Restava apenas o café.
Escuro.
Amargo.
Adequado.
— Um vestido.
Houve um segundo de silêncio. Depois dois. Depois três.
— Desculpa — disse Ethan. — Eu devo ter ouvido errado.
— Não ouviu.
— Um vestido?
— Sim.
— Como assim um vestido?
— Isabella vai usar um vestido feito por um designer amigo da família.
— Certo.
— E Camila escolheu outro ateliê.
— Certo...
— Um ateliê concorrente.
Maya piscou.
— Isso é o problema?
— Esse é o problema.
Ethan apoiou a cabeça na mesa.
— Eu vou embora.
— Ethan.
— Não. Eu me recuso.
— Você está exagerando.
— Eu passei a noite correndo atrás de criminosos. Eu mereço uma conversa melhor do que essa.
Maya estava quase rindo.
— Espera, então as vinte e três ligações...
— Foram por causa de um vestido.
— Meu Deus!
— E não para por aí.
— Claro que não para.
— Minha mãe também mandou fazer o meu vestido.
— Sem te perguntar?
— Sem me perguntar.
— Isso já é estranho.
— Usando as medidas do meu aniversário de dezoito anos.
Agora Maya realmente se engasgou com o café.
— O quê?
— Foi exatamente essa a minha reação.
— Você tem trinta e cinco anos.
— Eu mencionei isso.
— E?
— Ela disse para eu fazer dieta.
Ethan levantou a cabeça lentamente. A expressão dele era de absoluto horror.
— Sua mãe é uma babaca.
— Ethan!
— Não, hoje eu sustento isso.
— Ela não é uma babaca.
— Ela usou suas medidas de dezessete anos atrás.
— Dezoito.
— Isso não melhora a situação.
— Ethan...
— E mandou você fazer dieta. E ligou vinte e três vezes por causa de vestidos.
— Ethan.
— Estou apenas organizando os fatos.
Maya esfregou a testa.
— Meu Deus, eu odeio quando ele organiza os fatos.
— Os fatos são importantes.
— Não quando você usa essa voz.
— Que voz?
— A voz que você usa quando quer convencer um júri.
— Eu não tenho uma voz de júri.
— Tem sim.
— Não tenho.
— Tem.
observou os dois por um instante. Normalmente aquilo a faria sorrir. Mas a conversa com Catherine ainda estava presa em algum lugar do seu peito. Como uma pedra.
Pesada.
Imóvel.
— Ela também perguntou quem seria meu acompanhante.
Os dois ficaram em silêncio. Maya piscou. Ethan endireitou a postura.
— Seu acompanhante?
— Sim.
— Para o casamento?
— Porque você é a dama de honra.
— Sim.
— E vai passar o dia inteiro ajudando sua irmã.
— Sim.
— Então por que você precisaria de um acompanhante?
soltou uma risada sem humor.
— Porque aparentemente existir desacompanhada em um evento familiar é um crime pior do que tráfico internacional.
— Ah.
— É.
Ethan afundou na cadeira.
— Certo.
— Agora eu entendi. Isso nunca foi sobre o vestido.
não respondeu. Porque ele estava certo. Nunca era sobre o vestido. Nem sobre o cabelo. Nem sobre o designer. Nem sobre o acompanhante. Era sobre ela. Sempre era.
Maya a observava em silêncio agora. Sem brincadeiras. Sem piadas. Apenas observando.
— Eles ainda falam disso?
sorriu. Um sorriso pequeno. Cansado.
— O tempo todo.
— Sério?
— Sério.
Ela apoiou os braços na mesa. Pela primeira vez naquela manhã, sentiu vontade de falar. Talvez porque estava cansada. Talvez porque Maya e Ethan fossem as únicas pessoas que realmente escutavam.
— Toda vez que existe algum evento da família, alguém pergunta.
— Pergunta o quê?
— Quando eu vou casar.
Maya fez uma careta.
— Credo.
— Depois perguntam quando eu vou ter filhos. Depois perguntam por que eu trabalho tanto. Depois perguntam se eu já conversei com Alexander.
Ethan fechou os olhos.
— Ah, não.
— Ah, sim.
— Eles ainda fazem isso?
— Todo evento.
— Isso faz quantos anos?
— Três.
— Eu odeio todo mundo.
— Ethan.
— Estou falando sério.
passou o dedo pela borda da xícara.
— A pior parte é que eles não fazem por mal.
— Discordo.
— Ethan.
— Estou tentando ser consistente.
Ela ignorou.
— Eles simplesmente... não entendem.
— O quê?
demorou alguns segundos para responder.
— Que eu estava lá quando acabou.
A mesa ficou silenciosa.
— Eles gostavam do Alexander. Porque ele era perfeito. Porque ele parecia perfeito. Eles não viram as discussões. Não viram as coisas que ele dizia.
— Claro que não.
— Não viram a forma como eu me sentia. Eles só viram um homem bonito, rico e educado.
— Que é o que sua mãe considera uma personalidade completa.
soltou uma risada.
— Basicamente.
Maya apoiou o queixo na mão.
— E você não quer lidar com isso no casamento.
— Não.
— Porque é o casamento da Isabella.
— Exatamente.
Sua voz saiu mais baixa dessa vez. Mais sincera.
— Eu não quero que o dia dela vire uma discussão sobre mim.
Maya permaneceu em silêncio. Então continuou.
— Ela está feliz.
— Está.
— Ela ama a Camila. Ela passou meses planejando isso. E eu não quero passar o fim de semana inteiro respondendo por que estou solteira.
Aquela palavra pareceu ridícula quando saiu em voz alta. Solteira. Como se fosse uma condição médica. Como se fosse uma tragédia. Como se anulasse todo o resto.
— Eu só queria entrar.
Ela deu de ombros.
— Ver minha irmã casar. Dançar um pouco. Beber um pouco. Voltar para casa.
— Exatamente.
Ethan apontou para ela.
— Isso parece completamente razoável.
— Obrigada.
— O que significa que sua família não vai permitir.
— Ethan!
— Estou apenas observando padrões.
Maya ficou pensativa. Muito pensativa. Perigosamente pensativa. reconheceu aquela expressão imediatamente.
— Não.
— Eu não falei nada.
— Ainda.
— Mas vou falar.
— Maya.
— Escuta.
— Não.
— Escuta primeiro. Porque minhas melhores ideias começam assim.
— Suas piores também.
— Detalhes.
Maya se inclinou sobre a mesa. Os olhos brilhando.
— E se você simplesmente aparecesse com alguém?
piscou.
— O quê?
— Com alguém.
— Eu entendi essa parte.
— Um acompanhante.
— Eu não tenho um acompanhante.
— Ainda não.
— Maya...
— Não, espera.
Ela já estava animada agora. O que nunca era um bom sinal.
— Tem um aplicativo.
Ethan imediatamente começou a rir.
— Ah, meu Deus.
— Existe um aplicativo.
— Claro que existe.
— Existe aplicativo para tudo hoje em dia.
— Maya.
— Pessoas contratam acompanhantes para eventos sociais.
encarou a amiga.
— Você perdeu completamente a cabeça.
— Não perdi.
— Perdeu sim.
— Pense nisso.
— Não quero pensar nisso.
— Pense.
— Não.
— É literalmente a solução perfeita.
— Não é.
— É sim.
— Maya.
— Você aparece acompanhada.
— Por um estranho.
— Um estranho profissional.
— Isso não ajudou.
Ethan já ria tanto que mal conseguia respirar. Maya ignorou.
— Sua família para de perguntar.
— Isso é absurdo.
— Você sobrevive ao casamento.
— Maya.
— E na segunda-feira sua vida volta ao normal.
abriu a boca para responder. Mas não respondeu. Porque odiava admitir. Mas, pela primeira vez naquela manhã...a ideia não pareceu completamente impossível.
Capítulo 2

Só pra entender

O celular no painel marcava 7h24 quando estacionou na vaga de sempre. Desligou o motor, permaneceu alguns segundos com as mãos apoiadas no volante e observou o movimento no estacionamento da Divisão Especial.
Dois investigadores descarregavam caixas de documentos da traseira de uma viatura enquanto discutiam sobre quem havia esquecido de abastecê-la no turno anterior. Um perito atravessava o pátio equilibrando uma maleta de equipamentos em uma mão e um copo de café na outra, claramente apostando que não derramaria nenhum dos dois.
pegou a mochila no banco do passageiro e saiu do carro. O ar da manhã ainda estava frio o suficiente para fazê-la fechar um pouco mais a jaqueta. Gostava daquele horário. A delegacia ainda não tinha acordado completamente. As mesas estavam organizadas. Os corredores relativamente silenciosos. Os problemas ainda não tinham decidido quem atormentariam primeiro.
Ela passou o crachá pela catraca. O bip metálico anunciou sua entrada. Deu três passos pelo corredor principal antes de avistar Maya.
Ela vinha na direção contrária segurando um copo de café e olhando para os lados como quem procurava alguém. Quando os olhos das duas se encontraram, Maya sorriu. suspirou discretamente. Péssimo sinal.
— Bom dia! — Maya disse, acelerando o passo até alcançá-la. — Dormiu bem?
continuou andando.
— Dormi.
— Mentira.
— Você perguntou só para poder me chamar de mentirosa?
— Um pouco.
Maya deu de ombros como se aquilo fosse perfeitamente aceitável.
— Mas também porque eu queria saber se você passou a madrugada inteira pensando na minha ideia.
não respondeu imediatamente. Empurrou a porta de vidro que dava acesso ao setor administrativo, esperou Maya entrar primeiro e só então falou, com a mesma tranquilidade de quem comentava a previsão do tempo.
— Eu não entrei.
Maya franziu a testa.
— Entrou onde?
lançou um olhar de lado.
— No aplicativo.
Os olhos de Maya se arregalaram.
— Você acabou de responder uma pergunta que eu ainda nem tinha feito.
— Economizei seu tempo.
— Isso significa que você pensou.
— Significa que eu conheço você.
Maya soltou uma risada baixa.
— Eu adoro quando você tenta encerrar uma conversa antes mesmo de ela começar.
— Funciona raramente.
— Nunca funcionou comigo.
— Eu sei.
Passaram por uma escrivã que carregava uma pilha de processos. Ela cumprimentou as duas com um aceno rápido. retribuiu. Maya respondeu com um sorriso tão animado que a mulher pareceu um pouco confusa.
— Então... — Maya retomou, diminuindo um pouco o passo para caminhar ao lado dela. — Você realmente nem olhou?
— Não.
— Nem por curiosidade?
— Não.
— Nem para confirmar que era uma péssima ideia?
parou diante da própria mesa, apoiou a mochila sobre a cadeira e começou a retirar alguns documentos de dentro dela.
— Maya...
— O quê?
— Eu consigo concluir que uma ideia é ruim sem precisar fazer um teste de campo.
Maya apoiou o cotovelo na divisória da mesa.
— Isso é um preconceito enorme com a minha criatividade.
— Isso é experiência.
— Você é muito resistente à felicidade.
abriu uma pasta, folheou rapidamente os relatórios que havia levado para casa e separou dois deles.
— Não.
— Não?
— Eu sou resistente às suas soluções.
— Minhas soluções costumam funcionar.
— Suas soluções costumam gerar outras soluções.
Maya abriu um sorriso.
— Tecnicamente, isso continua sendo funcionar.
pegou uma caneta.
— Lembra da festa de confraternização do ano passado?
Maya ficou em silêncio.
— Lembro.
— Quem sugeriu karaokê?
— Foi um momento de integração da equipe.
— Quem escolheu "My way" para ser cantada por seis pessoas ao mesmo tempo?
— Isso já parece perseguição.
— Quem derrubou refrigerante no projetor?
Maya cruzou os braços.
— Eu sinto que você está ignorando todo o contexto.
— Qual contexto?
— O contexto de que foi divertido.
— O delegado precisou terminar o discurso no escuro.
— Mas terminou.
balançou a cabeça, incapaz de conter um pequeno sorriso. Maya percebeu imediatamente.
— Eu vi isso.
— Viu o quê?
— Você sorriu.
— Não sorri.
— Sorriu, sim.
— Foi um espasmo.
— Espasmos normalmente não têm esse formato.
Antes que encontrasse uma resposta, uma voz conhecida surgiu atrás delas.
— Posso saber por que vocês duas estão discutindo antes das oito da manhã?
As duas se viraram. Ethan caminhava pelo corredor segurando uma bandeja de papelão com três cafés. Um saco de pão de queijo estava equilibrado de maneira precária entre o braço e o peito. Ele parou diante da mesa de e observou as duas por alguns segundos.
— Pela expressão da Maya, ela está tentando convencer você de alguma coisa.
— Ela está.
— Pela sua expressão, você já perdeu a paciência.
— Ainda não.
— Então ainda estamos no começo da conversa.
Ele colocou um café diante de . Outro diante de Maya. Só então pegou o terceiro para si.
— Obrigada — disse .
— Eu trouxe café porque achei mais seguro do que trazer opiniões.
— Chegou tarde — respondeu Maya. — Eu já dei as minhas.
Ethan assentiu lentamente.
— Imaginei.
Ele puxou a cadeira da mesa ao lado e se sentou ao contrário, apoiando os braços no encosto.
— Então... qual é o tema da sessão de terapia de hoje?
Maya apontou discretamente para .
— Ela não entrou no aplicativo.
Ethan olhou para . Depois olhou para Maya. Depois voltou para .
— Você perguntou isso antes mesmo de dar bom dia?
— Eu perguntei se ela dormiu.
— E imediatamente depois perguntou do aplicativo.
— A ordem dos fatores importa.
— Importa para quem?
— Para mim.
Ethan tomou um gole do café.
— Coitada da .
Maya fingiu indignação.
— Você está do lado dela?
— Não.
— Não?
— Estou do meu lado. Quanto menos eu participar dessa história, maiores as chances de sair vivo.
abriu o computador. A tela ainda carregava quando ela voltou a organizar os relatórios sobre a mesa.
— Eu já disse que não vou contratar um desconhecido para fingir ser meu namorado.
— Acompanhante — corrigiu Maya automaticamente.
— Continua sendo um desconhecido.
— Um desconhecido profissional.
— Isso não torna a frase melhor.
Ethan observava a conversa como quem assistia a uma partida de tênis.
— Posso fazer uma pergunta?
— Depende — respondeu Maya.
— Eu não perguntei para você.
— Mesmo assim, depende.
Ele ignorou.
, você chegou a pensar na ideia?
Ela demorou alguns segundos para responder. Pegou uma folha. Alinhou cuidadosamente as bordas da pilha. Só então levantou os olhos.
— Pensei.
Maya deu um pequeno pulo de comemoração.
— Eu sabia!
— Não comemore antes de ouvir o resto.
encostou as costas na cadeira.
— Pensei em como ela continua sendo uma das piores ideias que você já teve.
Maya fez uma careta.
— Você sempre estraga os momentos bonitos.
— Quais momentos?
— Os que eu invento na minha cabeça.
Ethan riu.
— Eu gosto dela.
— De quem?
— Da realidade.
Maya pegou um dos pães de queijo do saco que Ethan havia colocado sobre a mesa sem pedir licença.
— Vocês dois são muito parecidos.
— Não somos — responderam os dois ao mesmo tempo.
Os três ficaram em silêncio por um segundo. Maya começou a rir primeiro.
— Está vendo?
Ethan olhou para .
— Isso foi um pouco assustador.
— Vocês responderam exatamente juntos.
deu de ombros.
— Coincidência.
— Não foi.
Maya apontou de um para o outro.
— Vocês compartilham o mesmo cérebro quando o assunto é acabar com a minha felicidade.
— Não estamos acabando com sua felicidade — disse , abrindo novamente um dos relatórios. — Estamos apenas impedindo que ela destrua a minha.
Maya apoiou as duas mãos sobre a mesa e se inclinou um pouco para a frente.
Havia um brilho conhecido nos olhos dela.
O mesmo brilho que aparecia segundos antes de uma ideia ganhar voz.
reconheceu imediatamente.
— Nem pense.
— Eu ainda não falei nada.
— Mas vai.
— Vou.
Ela sorriu.
Devagar.
Como quem acabara de encontrar uma nova estratégia.
— Só acho que você ainda não ouviu os melhores argumentos.
fechou a pasta com calma.
— Então guarde para depois da reunião.
Maya arqueou uma sobrancelha.
— Isso foi um "não agora"?
— Foi.
— O que significa que existe um "talvez depois".
levou o café até os lábios.
— Significa que o comandante vai nos matar se você continuar parada na minha mesa.
Como se tivesse sido convocado pelo próprio destino, a voz do comandante ecoou do fim do corredor.
Montgomery. Torres. Carter.
Os três levantaram a cabeça ao mesmo tempo.
— Sala de conferências. Cinco minutos.
Maya sorriu discretamente para antes de se afastar.
— Ele fala nosso sobrenome como se estivesse convocando soldados — murmurou Maya, diminuindo o passo só o suficiente para caminhar ao lado de .
— Tecnicamente...
Ethan segurou a porta de vidro para as duas passarem primeiro.
— ...é exatamente isso que ele faz.
— Não estraga a analogia.
— Eu nunca estrago. Só acrescento contexto.
Maya revirou os olhos enquanto entrava na sala.
— Está vendo? É por isso que ninguém suporta você antes do café.
— Já tomei dois.
— Então estou preocupada.
não conseguiu evitar um sorriso discreto. Entrou logo atrás deles e ocupou uma das cadeiras próximas ao centro da mesa. Não porque fosse um lugar melhor. Apenas enxergava a tela do projetor sem precisar virar a cabeça.
Enquanto Maya largava uma pasta sobre a mesa com mais força do que o necessário e Ethan tentava equilibrar o copo de café entre um notebook e uma pilha de relatórios, o restante da equipe terminava de se acomodar.
O projetor já exibia uma fotografia aérea do porto. Círculos vermelhos marcavam pontos estratégicos da operação. O comandante esperou a porta se fechar.
— Certo. Antes de qualquer coisa... bom trabalho.
Ninguém respondeu.
Não por falta de educação.
Era só que elogios costumavam durar pouco naquela sala.
— Apreendemos pouco mais de duas toneladas de carga ilegal. Cinco prisões. Nenhum agente ficou gravemente ferido. — Ele passou os olhos pela mesa. — Mas vocês sabem como isso funciona. A operação terminou. A investigação, não.
O controle remoto mudou a imagem. Agora havia uma linha do tempo ocupando toda a tela. Horários. Veículos. Entradas. Saídas.
apoiou os cotovelos na mesa e aproximou o relatório. Nem percebeu quando Maya empurrou uma caneta na direção dela. Só agradeceu com um leve aceno de cabeça.
— Já identificamos três empresas de fachada.
O comandante continuava falando.
— A perícia está trabalhando nos celulares apreendidos e...
— Duas delas já existiam antes dessa operação.
A observação veio de um investigador sentado perto da janela.
— Exatamente.
— As duas aparecem numa investigação de três anos atrás.
— Também já vimos isso.
Outro agente ergueu a mão.
— Os motoristas provavelmente nem sabiam o que estavam transportando.
— Concordo.
A discussão seguiu. Uma hipótese puxava outra. Uma teoria era descartada antes mesmo de terminar de ser formulada. permanecia em silêncio. Não porque estivesse distraída. Ao contrário. Era justamente quando todos falavam ao mesmo tempo que ela prestava mais atenção.
As pessoas tinham o hábito curioso de revelar detalhes importantes enquanto tentavam convencer alguém de que estavam certas. Ela passou a página do relatório. Depois voltou uma. Franziu a testa.
Na tela, a linha do tempo avançou.
Duas e onze. Duas e dezessete.
Duas e vinte e três.
Os horários pareciam corretos. Ainda assim… Alguma coisa incomodava. Ao seu lado, Maya inclinou o corpo discretamente. Nem olhou para o relatório. Olhou para . Conhecia aquela expressão.
— O que foi? — perguntou quase num sussurro.
continuou encarando os papéis.
— Não sei.
A resposta saiu baixa. Quase distraída.
— Mas tem uma coisa...
Ela não terminou. Passou a ponta da caneta sobre uma das linhas do relatório. Voltou para a fotografia projetada. Depois tornou ao papel. Maya esperou alguns segundos.
— Você fez essa cara na semana passada.
arqueou uma sobrancelha, ainda sem desviar os olhos dos horários.
— Fiz?
— Fez. Cinco minutos depois descobriram um depósito inteiro escondido atrás de uma oficina mecânica.
Ethan ouviu a conversa do outro lado. Sem levantar a cabeça do próprio relatório, comentou:
— Eu gosto quando ela faz essa cara.
— Você nem está olhando.
— Não preciso.
Ele virou uma página.
— Sempre sobra trabalho para outra pessoa.
Maya soltou uma risada pelo nariz. ignorou os dois. Ou tentou. A ponta da caneta batucou duas vezes sobre o papel. Um hábito antigo. Só acontecia quando alguma peça ainda não se encaixava. O comandante mudou novamente a projeção.
— Como vocês podem ver, o caminhão dezenove...
levantou os olhos.
Foi só um instante.
O suficiente.
— Comandante.
Ele interrompeu a explicação.
— Sim?
Ela não respondeu de imediato. Virou o relatório na direção dele, mantendo um dedo sobre um dos horários.
— Posso estar olhando para o lugar errado.
Fez uma pequena pausa. Como se testasse a própria hipótese antes de dizê-la em voz alta.
— Mas esse caminhão entrou às duas e dezessete.
— Certo.
— Então... — Ela ergueu os olhos para a tela outra vez. — ...ele não pode aparecer na câmera do acesso norte às duas e onze.
O silêncio foi imediato. Um dos analistas aproximou o notebook. Outro procurou o horário no próprio relatório.
O comandante deu dois passos até a projeção.
— Tem certeza?
apoiou a caneta sobre a mesa.
— Não.
A resposta veio tranquila. Sem pressa.
— Mas, se eu estiver certa... alguém usou a mesma identificação em dois caminhões diferentes.
Ninguém falou nada por alguns segundos. Foi Ethan quem quebrou o silêncio.
— Lá vem.
Maya cruzou os braços.
— O quê?
Ele apontou discretamente para .
— Essa parte.
— Que parte?
— A parte em que ela diz que "pode estar errada"... e meia hora depois alguém é preso.
Maya sorriu de lado.
— Também reparei nesse padrão.
finalmente olhou para os dois.
— Vocês terminaram?
— Ainda não — respondeu Ethan, completamente sério. — Eu só queria registrar em ata que, se ela estiver certa, eu gostaria de receber os créditos por acreditar primeiro.
— Você acreditou agora.
— Continuo na frente de quem vai acreditar daqui a cinco minutos.
Algumas pessoas riram. Até o comandante balançou a cabeça antes de voltar a atenção para a tela.
— Amplia essa imagem.
O técnico aumentou a fotografia. Os pixels quase escondiam os detalhes. Mesmo assim, inclinou um pouco o corpo para a frente.
— Mais um pouco.
Nova ampliação. Ela estreitou os olhos.
— Para aí.
A sala inteira acompanhava a tela agora. levantou a mão, indicando um pequeno ponto claro perto da cabine.
— Aquilo.
Um investigador franziu a testa.
— Parece um reflexo.
Ela demorou um instante para responder. O olhar permanecia preso à imagem.
— Também achei.
Respirou fundo. Então balançou a cabeça, quase para si mesma.
— Mas não é.
O comandante cruzou os braços.
— O que você está vendo?
— A numeração da transportadora.
Ela apontou outra vez.
— Nesse caminhão ela está dois palmos acima do para-lama.
Na foto da apreensão… Pegou outra folha e a deslizou pela mesa.
— ...está aqui.
Mais abaixo. O técnico colocou as duas imagens lado a lado. A diferença era pequena. Quase imperceptível. Mas estava lá. O comandante sorriu pela primeira vez naquela manhã.
— Bom trabalho, Montgomery.
apenas assentiu. Voltou a alinhar os relatórios à sua frente como se aquilo encerrasse o assunto. Ao lado dela, Maya aproximou o rosto só o suficiente para que apenas as duas ouvissem.
— Você sabe que isso é irritante, não sabe?
ajeitou a caneta paralela à borda da pasta.
— O quê?
— Você enxergar essas coisas.
Ela finalmente virou a cabeça. Um sorriso discreto apareceu antes de desaparecer quase no mesmo instante.
— Eu só presto atenção.
Maya soltou uma risada baixa.
— Exatamente.
Apontou para ela com a tampa da caneta.
— É essa resposta que me irrita.
— Você enxergar essas coisas.
Ela finalmente virou a cabeça. Um sorriso discreto apareceu antes de desaparecer quase no mesmo instante.
— Eu só presto atenção.
Maya soltou uma risada baixa.
— Exatamente.
Apontou para ela com a tampa da caneta.
— É essa resposta que me irrita.
— Torres, se já terminou de se incomodar com a competência da sua colega, talvez possamos voltar à investigação.
A voz do comandante atravessou a sala antes que encontrasse uma resposta. Maya se endireitou na cadeira, mas não pareceu nem um pouco constrangida.
— Terminei, senhor.
Ela esperou que ele voltasse para a projeção antes de se inclinar novamente na direção de .
— Por enquanto.
escondeu o sorriso abaixando os olhos para o relatório.
A reunião continuou por quase uma hora. Quando terminou, a diferença entre as identificações dos caminhões já havia deixado de ser uma suspeita isolada e se transformado em uma nova frente de investigação. O comandante distribuiu tarefas, estabeleceu prazos e lembrou três vezes que nenhuma informação deveria sair daquele setor antes da confirmação da perícia.
As cadeiras começaram a se afastar da mesa antes mesmo de ele encerrar oficialmente. Pastas foram fechadas, celulares reapareceram e conversas paralelas se espalharam pela sala.
ainda organizava os documentos quando Maya parou ao lado de sua cadeira.
— Antes que você diga que tem trabalho, eu gostaria de lembrar que todos nós temos trabalho. Essa é, inclusive, a razão de estarmos neste prédio. Mesmo assim, algumas pessoas desenvolveram a capacidade extraordinária de se alimentar no meio do dia.
encaixou a caneta no interior da pasta.
— Você ensaiou isso durante a reunião?
— Apenas a parte final. O começo surgiu naturalmente porque eu me preocupo com você.
Ethan, que aguardava junto à porta, soltou um suspiro.
— Ela está tentando dizer que quer almoçar, mas precisa transformar qualquer convite numa intervenção emocional.
Maya virou-se para ele.
— Eu não preciso transformar nada. A intervenção já existe. Olha para ela.
levantou os olhos devagar.
— Estou olhando.
— Não para mim. Para você.
Maya apoiou uma das mãos no encosto da cadeira e a observou como se procurasse provas para sustentar o próprio argumento.
— Você chegou antes das oito, passou a manhã inteira analisando relatórios e provavelmente pretende sobreviver com o pão de queijo que o Ethan trouxe. Então pode levantar dessa cadeira e vir conosco ou pode ficar aqui fingindo que café conta como refeição. Só não espere que eu respeite a segunda opção.
Ethan ergueu o copo vazio.
— Para ser justo, o café também acabou.
— Obrigada pela contribuição — disse .
— Eu trouxe fatos. O que vocês fazem com eles já não é minha responsabilidade.
Maya estendeu a mão para a pasta que segurava.
— Vamos. Quarenta minutos. Você come alguma coisa, eu reclamo da minha vida, o Ethan reclama da existência e ninguém menciona o aplicativo.
manteve a pasta fora do alcance dela.
— Você não consegue passar quarenta minutos sem mencionar o aplicativo.
— Consigo perfeitamente.
A resposta veio rápida demais. arqueou uma sobrancelha. Maya sustentou seu olhar por alguns segundos antes de erguer as duas mãos.
— Certo. Talvez eu não consiga perfeitamente. Mas consigo tentar, e acho que essa disposição deveria ser valorizada.
— Ontem você me apresentou a ideia como se estivesse oferecendo uma solução para uma crise internacional. Hoje me encontrou no corredor antes das oito da manhã e perguntou se eu já havia entrado. Sua ideia de tentar parece bastante específica.
Maya abriu a boca, mas Ethan se antecipou.
— Ela falou do aplicativo no carro, na entrada do prédio e enquanto esperávamos o elevador. Em algum momento também criou uma lista de possíveis critérios de seleção.
virou o rosto para a amiga. Maya lançou um olhar ofendido para Ethan.
— Algumas conversas são confidenciais.
— Você falou sozinha durante quinze minutos. Eu apenas estava no mesmo veículo.
— Mesmo assim, existe uma confiança implícita entre motorista e passageiro.
— Eu estava dirigindo.
— Então deveria ter prestado menos atenção.
balançou a cabeça e se levantou. Por um instante, Maya sorriu, convencida de que havia vencido. O sorriso desapareceu quando colocou a pasta debaixo do braço em vez de deixá-la sobre a mesa.
— Tenho que conferir os registros das transportadoras e enviar uma solicitação para a perícia. Encontro vocês depois.
— Você não vai nos encontrar depois.
A brincadeira havia desaparecido da voz de Maya. Ela segurou o braço de antes que a amiga se afastasse, tomando cuidado para não tocar no corte da operação.
— Você vai começar outra coisa, alguém vai trazer mais um relatório e, quando perceber, já estará escuro. Eu sei porque assisto a essa cena pelo menos três vezes por semana.
olhou para os dedos de Maya ao redor de seu braço. Não havia força no gesto. Apenas familiaridade. Preocupação. Por isso sua resposta saiu mais suave.
— Eu não estou tentando evitar vocês. Só quero terminar isso enquanto as informações ainda estão frescas.
Maya a estudou por mais um instante. Depois soltou seu braço.
— Está bem. Mas coma alguma coisa. E não estou dizendo isso como sua parceira, porque aparentemente você interpreta qualquer conselho profissional como uma sugestão opcional. Estou dizendo como sua amiga, o que significa que vou ficar insuportável se você ignorar.
— Você já é insuportável.
— Então imagine meu potencial.
Ethan abriu a porta e esperou Maya passar. Antes de segui-la, olhou para por cima do ombro.
— Vou trazer alguma coisa para você. Não porque concordo com a Maya, mas porque não quero ouvir o discurso quando ela descobrir que você não almoçou.
— Eu consigo ouvir você — protestou Maya do corredor.
— Essa era a intenção.
Os dois se afastaram ainda discutindo, e a voz de Maya permaneceu audível por vários segundos, indignada com a falta de lealdade dentro da própria equipe. observou até que eles desaparecessem na curva do corredor. Então voltou para sua mesa.
A delegacia não ficou silenciosa. Nunca ficava. Telefones tocavam, impressoras trabalhavam e alguém discutia com um fornecedor perto da recepção. Ainda assim, sem Maya e Ethan por perto, o espaço pareceu maior.
Ela se sentou, abriu o relatório e encontrou a anotação que havia feito durante a reunião. Dois caminhões. Uma identificação.
Se a hipótese estivesse correta, alguém não havia apenas duplicado uma numeração. Havia criado um caminho para transportar cargas sem deixar registros confiáveis. Aquele tipo de operação exigia planejamento, acesso e pessoas suficientes para garantir que ninguém fizesse perguntas. Era um problema concreto. Organizado.
Solucionável.
aproximou a cadeira da mesa e começou a trabalhar. Conferiu os horários de entrada. Comparou as imagens. Separou os nomes das transportadoras e marcou aqueles que apareciam em investigações anteriores. Quando chegou ao quarto relatório, percebeu que estava lendo a mesma linha pela terceira vez. Passou o dedo sobre o papel. Tentou novamente.
A informação estava ali. As palavras faziam sentido separadamente. Juntas, porém, não permaneciam em sua cabeça. Ela se recostou na cadeira e apertou a ponta do nariz. Talvez fosse cansaço. Havia dormido pouco. O corpo ainda reclamava da operação, e o corte no braço começava a arder sob o curativo.
tomou o último gole do café. Frio. Fez uma careta e deixou o copo de lado. Voltou ao relatório. Duas linhas depois, a voz da mãe surgiu em sua memória com uma nitidez irritante.
Como se chama?
fechou os olhos.
Não.
Tornou a olhar para o papel.
Você vai sozinha?
A ponta da caneta pressionou a margem com força suficiente para deixar uma marca.
— Concentre-se — murmurou.
Por alguns minutos, funcionou. Então veio a fazenda. O salão cheio. As mesas cuidadosamente organizadas por Catherine. Os amigos da família se aproximando com sorrisos curiosos e perguntas que não consideravam invasivas.
E o Alexander?
Você não conheceu mais ninguém?
Uma mulher tão bonita...
largou a caneta.
O casamento ainda nem havia começado, mas ela já conseguia sentir o cansaço que teria ao final dele. Não queria discutir. Não queria explicar. Não queria passar o fim de semana defendendo uma vida da qual, na maior parte do tempo, gostava.
Acima de tudo, não queria que Isabella percebesse.
Sua irmã merecia entrar naquela cerimônia sem precisar se preocupar com Catherine fazendo comentários, parentes oferecendo conselhos ou Alexander sendo transformado novamente no homem perfeito que havia cometido o erro de perder.
Ela queria estar lá por Isabella.
Só por ela.
O celular repousava ao lado do computador. olhou para ele. Depois voltou para o relatório. Leu mais uma linha. Olhou novamente para o aparelho. Não pretendia contratar ninguém. A ideia continuava absurda. Arriscada. Potencialmente constrangedora em níveis que Maya parecia incapaz de compreender. Mas olhar não era contratar.
Era apenas reunir informações.
puxou o celular para perto e desbloqueou a tela. Abriu a loja de aplicativos e digitou o nome que Maya havia mencionado no dia anterior.
O resultado surgiu imediatamente. Ela leu a descrição. Depois as avaliações. Depois voltou à descrição, como se alguma frase pudesse revelar que tudo se tratava de uma fraude elaborada para humilhar pessoas desesperadas. Não encontrou nada. Seu dedo pairou sobre o botão de download. Ela permaneceu imóvel por tanto tempo que a tela diminuiu o brilho.
Então tocou.
O círculo começou a avançar lentamente. virou o celular para baixo e tornou a abrir o relatório, decidida a ignorá-lo. Conseguiu ler metade de um parágrafo antes de o aparelho vibrar contra a mesa. A instalação havia terminado.
Ela não o tocou.
Quinze segundos.
Talvez vinte.
Por fim, virou o celular novamente. O novo ícone ocupava um espaço entre o aplicativo do banco e o calendário. Parecia pequeno demais para representar uma decisão tão ruim.
o abriu.
Uma mensagem de boas-vindas apareceu na tela, seguida por algumas perguntas sobre o evento, a data e o tipo de acompanhamento que procurava. Ela respondeu apenas o necessário.
Casamento.
Fim de semana.
Fazenda da família.
Quando chegou ao campo que perguntava o tipo de relação que o acompanhante precisaria representar, hesitou. As opções apareceram abaixo:
Amigo.
Colega.
Namorado.
Noivo.
Ela quase fechou o aplicativo. Em vez disso, selecionou namorado e avançou para a tela seguinte. Os perfis começaram a carregar. viu a primeira fotografia, bloqueou o celular e o empurrou para longe. Aquilo era ridículo. Completamente ridículo.
Ela pegou a caneta, abriu novamente o relatório e encontrou a linha onde havia parado. Não leu uma única palavra. Cinco segundos depois, tornou a pegar o celular. Dessa vez, quando abriu o aplicativo, não fechou.

Continua…
Nota da autora
-.
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