Capítulo 1
Seja confiante
O problema dos filmes era que eles faziam parecer rápido.
apoiou a coronha da arma contra o ombro e fechou um dos olhos. A distância até o caminhão não era absurda. Cento e poucos metros. Talvez menos. Mas a escuridão transformava tudo em outra coisa. As luzes do porto criavam sombras estranhas sobre os contêineres e faziam os homens parecerem maiores do que realmente eram.
Ela inspirou lentamente. O dedo repousava sobre o gatilho. Esperando. Observando. Calculando. Ao seu lado, Maya estava agachada atrás de uma pilha de caixas de transporte.
— Você sabe o que eu odeio nessa situação?
não desviou os olhos da mira.
— Muitas coisas.
— Segunda-feira.
— Segunda-feira?
— Sim. Se eu levar um tiro, gostaria que fosse numa quinta. Psicologicamente é mais aceitável.
ouviu Ethan soltar uma risada abafada no comunicador.
— Isso não faz o menor sentido.
— Faz total sentido — respondeu Maya. — Segunda-feira é um dia vulnerável.
permitiu que o canto da boca se movesse alguns milímetros.
Era o máximo que seus amigos receberiam como demonstração de humor. Através da luneta ela observou o suspeito principal atravessar o espaço entre dois contêineres. Boné preto. Jaqueta cinza. A mesma descrição da denúncia anônima. A mesma descrição que havia mantido a equipe acordada pelas últimas quarenta e oito horas.
Seu coração acelerou. Não de medo.
Nunca de medo.
Era algo diferente. Algo mais próximo da expectativa. A sensação de estar exatamente onde deveria estar. Algumas pessoas encontravam propósito em igrejas. Outras em relacionamentos. encontrava o dela no breve segundo que antecede uma decisão importante.
O mundo diminuía. Os ruídos desapareciam. As dúvidas desapareciam. Tudo ficava simples.
Respire.
Observe.
Acerte.
— Montgomery — a voz do comandante surgiu pelo ponto eletrônico. — Confirma visual?
— Confirmado.
— Pode efetuar.
Ela expirou lentamente. O disparo ecoou pela noite. O vidro do caminhão explodiu. O motorista freou bruscamente. E então o caos começou.
Gritos.
Luzes.
Sirenes.
Homens correndo em todas as direções. Maya saltou da cobertura antes mesmo da ordem oficial.
— Polícia! Mãos para cima!
Ethan correu logo atrás. também. Sem hesitar. Sem pensar.
O asfalto passou sob seus pés enquanto atravessava o porto. Um dos suspeitos ergueu uma arma. Outro policial se jogou atrás de um veículo. continuou avançando. Coragem não era ausência de medo. Era simplesmente decidir que alguma coisa importava mais. Naquele momento importava impedir que eles escapassem.
Quinze minutos depois, tudo havia terminado. Cinco prisões. Duas toneladas de mercadoria ilegal apreendida. Nenhum policial ferido. O sol começava a nascer quando a equipe finalmente recebeu autorização para encerrar a operação.
Ethan afrouxou o colete.
— Eu odeio todos vocês.
— Bom dia para você também — respondeu Maya.
— São seis da manhã de uma segunda-feira.
— Tecnicamente ainda estamos vivos.
— Exatamente. Eu queria estar dormindo.
Maya apontou para .
— Olha para ela.
Ethan virou o rosto.
— Meu Deus.
ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Você está feliz.
— Estou normal.
— Não está não — disse Maya. — Essa é sua cara de felicidade.
observou os agentes recolhendo provas. Os caminhões apreendidos. Os contêineres sendo lacrados. As luzes vermelhas e azuis refletindo sobre o asfalto molhado. Talvez eles estivessem certos. Talvez ela estivesse feliz. Porque enquanto a maioria das pessoas passava as segundas-feiras reclamando da vida, Montgomery passava as dela mudando o rumo de algumas histórias.
E, sinceramente, não conseguia imaginar nada melhor.
— Você está sangrando.
continuou andando.
— Estou?
— Meu Deus — Maya colocou a mão na própria testa. — É exatamente por isso que eu não consigo trabalhar com pessoas emocionalmente saudáveis.
— Ela não é emocionalmente saudável — disse Ethan.
— Verdade.
olhou para o antebraço. Havia um corte longo próximo ao cotovelo. Nada profundo. Provavelmente algum pedaço de metal quando atravessou a área dos contêineres.
— Ah.
— "Ah"? — repetiu Maya.
— Parece superficial.
— Você levou um pedaço de porto industrial no braço e sua análise é "parece superficial".
— Tecnicamente está cicatrizando.
— Faz vinte minutos.
— O corpo trabalha rápido.
Ethan soltou uma risada.
— Eu adoro quando você tenta parecer uma pessoa normal.
Maya pegou o kit de primeiros socorros da viatura.
— Vem aqui.
— Não precisa.
— !
— Maya!
— !
Ela suspirou.
Era impossível vencer aquela discussão.
Maya limpou o ferimento enquanto resmungava algo sobre colegas de trabalho irresponsáveis. observou em silêncio. Ao lado delas, Ethan bocejou. Um bocejo tão exagerado que parecia uma manifestação política.
— Eu vou morrer.
— Você diz isso toda semana — respondeu Maya.
— Meu corpo foi feito para dormir.
— Seu corpo foi feito para reclamar.
— Reclamar é uma arte.
— E você é um gênio incompreendido.
— Obrigado.
Maya revirou os olhos. desviou o olhar antes que os dois percebessem o sorriso que ameaçava surgir. Porque eles faziam aquilo o tempo inteiro. A implicância constante. Os olhares demorados. A forma como Maya sempre parecia notar primeiro quando Ethan estava cansado.
Ou como Ethan automaticamente entregava a ela o último donut da caixa sem sequer pensar. nunca comentava. Primeiro porque não era da sua conta. Segundo porque tinha quase certeza de que os dois morreriam de constrangimento.
— Café? — perguntou Ethan.
— Café — respondeu Maya.
— Café — concordou .
Era quase uma tradição. Depois de cada operação importante. Depois de cada turno particularmente ruim. Depois de cada segunda-feira, que parecia longa demais. O mesmo café. A mesma mesa. As mesmas reclamações.
Quarenta minutos depois, empurrou a porta de vidro do estabelecimento. O cheiro de café torrado a atingiu imediatamente. Ethan praticamente caiu sobre uma cadeira.
— Vou registrar oficialmente que este café vai destruir meu horário de sono.
— Você não tem horário de sono.
— Tenho sim.
— Qual?
— Adormecer aleatoriamente em locais diferentes.
— Isso não conta.
— Conta para mim.
Maya roubou um sachê de açúcar da bandeja dele.
— Você é dramático.
— Eu sou realista.
— Você é dramático.
— Você me ama.
Maya congelou por um segundo. Apenas um segundo. Mas percebeu. Porque percebia tudo. Então Maya respondeu:
— Continue sonhando.
Ethan sorriu por cima do cardápio. decidiu que era uma ótima hora para fingir interesse no próprio celular. Ela pressionou o botão lateral. A tela acendeu. E imediatamente sentiu uma pontada de preocupação. Vinte e três chamadas perdidas.
Todas da mesma pessoa.
“Mãe”
piscou. Depois olhou novamente. Vinte e três. Ela verificou o horário. Cinco da manhã.
Seis.
Sete.
Oito.
Nove.
Aparentemente Catherine Montgomery havia passado as últimas quatro horas tentando estabelecer algum tipo de recorde mundial. apoiou a cabeça na mão. A única pergunta era: O que exatamente poderia ser tão urgente às nove da manhã de uma segunda-feira?
Porque, conhecendo sua mãe, existiam duas possibilidades. Alguém havia morrido. Ou havia acontecido alguma coisa relacionada ao casamento de Isabella.
E, sinceramente, não tinha certeza de qual das duas opções era mais provável. Ela não sabia se estava impressionada ou preocupada. Talvez os dois. Respirou fundo e pressionou o botão de ligar. A chamada nem chegou a completar o segundo toque.
— Finalmente.
Nem um "bom dia". Nem um "você está bem?". Nem um "onde você estava?". Apenas finalmente. sentiu os ombros endurecerem. Era automático. Acontecia sempre.
— Bom dia para você também, mãe.
— Estou tentando falar com você desde cedo.
— Eu estava trabalhando.
— Sim, claro.
Aquele "claro" carregava o mesmo entusiasmo de uma multa de trânsito. observou Maya e Ethan discutindo sobre a quantidade aceitável de açúcar num café. Por um instante considerou dizer. Considerou falar sobre a operação. Sobre as prisões. Sobre a apreensão.
Sobre o fato de que a equipe inteira provavelmente apareceria no noticiário local naquela noite. Mas desistiu. Porque conhecia Catherine Montgomery. Sua mãe não era uma pessoa cruel.
Crueldade exigia intenção.
Catherine simplesmente possuía uma habilidade extraordinária para ignorar tudo aquilo que considerava importante. Então poupou as duas do esforço.
— O que aconteceu?
— Um desastre.
fechou os olhos. Nunca era uma boa palavra quando saía da boca de Catherine.
— Que tipo de desastre?
— Camila.
abriu os olhos novamente.
— Camila?
— Sim, Camila.
Sua mãe pronunciou o nome da futura nora como se estivesse falando sobre uma ameaça à segurança nacional.
— O que ela fez?
— Ela escolheu um vestido de outro ateliê.
Silêncio. esperou. Talvez existisse uma segunda parte. Uma parte importante. Uma parte que justificasse vinte e três ligações. Ela esperou. Não veio.
— ...Só isso?
— .
Aquele tom. O tom que significava: você está me decepcionando.
— O que quer dizer com "só isso"?
— Mãe, ela escolheu um vestido.
— Um vestido do Atelier Duval.
massageou a testa.
— Eu não sei o que isso significa.
— Claro que não sabe.
— Não sei.
— O Atelier Duval é concorrente direto do Maison Laurent.
— Certo.
— E Laurent é amigo da família há quase vinte anos.
— Certo.
— Isabella vai usar um vestido desenhado por ele.
— Certo.
— Então você entende o problema.
— Não.
Do outro lado da mesa, Maya percebeu imediatamente a expressão dela. Apontou discretamente para o celular. apenas balançou a cabeça. Maya fez uma careta solidária. Já conhecia Catherine.
Todo mundo conhecia Catherine.
— , imagine o constrangimento.
— Estou tentando.
— Os fotógrafos vão perceber.
apoiou o cotovelo na mesa. Ela havia passado a madrugada correndo atrás de traficantes armados. Havia desarmado uma operação milionária. Quase levara um tiro. Tinha um corte recém-limpo no braço.
E agora estava participando de uma discussão sobre rivalidade entre estilistas.
A vida era uma experiência fascinante.
— O que você quer que eu faça?
— Converse com sua irmã.
— Isabella tem trinta anos.
— E?
— E vai se casar.
— Exatamente.
— Então imagino que ela seja capaz de escolher o próprio vestido.
— Não é o vestido dela.
— É literalmente o vestido dela.
Catherine soltou um suspiro longo. O mesmo suspiro que costumava dar quando tinha quinze anos e se recusava a participar de eventos beneficentes.
— Às vezes eu me pergunto de onde você tirou essa personalidade.
observou a espuma do café. Branca. Perfeitamente desenhada. O barista havia feito uma folha. Ou uma tulipa. Ela nunca conseguia distinguir.
— Eu também me pergunto — respondeu.
A frase escapou antes que pudesse impedi-la. Um silêncio surgiu do outro lado da linha.
Pequeno.
Mas pesado.
imediatamente se arrependeu. Porque aquele era o problema. Não importava quantos anos tivesse. Não importava quantas operações liderasse. Quantos criminosos prendesse. Quantas medalhas recebesse. Ainda existia uma parte dela que queria desesperadamente agradar Catherine Montgomery.
Uma parte pequena.
Ridícula.
Mas persistente.
— Enfim — disse a mãe, recuperando a compostura. — Você vem para a fazenda na sexta-feira, certo?
fechou os olhos. A fazenda. O casamento. O fim de semana inteiro. A família inteira. E, inevitavelmente...
As perguntas. Por que ainda está solteira? E o Alexander? Você não vai levar ninguém? Ela já conseguia ouvir todas elas. Uma após a outra. Como uma tortura cuidadosamente organizada.
— Sim — respondeu.
— Ótimo.
— E ?
— Sim?
— Já decidiu o vestido que vai usar?
encarou a parede à sua frente.
Depois o café.
Depois o teto.
Qualquer coisa para não rir. Ou chorar. Não tinha certeza.
— Ainda não.
— Eu sabia.
fechou os olhos. Claro que sabia. Catherine nunca fazia perguntas para descobrir respostas. Fazia perguntas para confirmar aquilo que já havia decidido.
— Como você pode ser tão displicente?
— Eu tive uma semana cheia.
— Você teve uma vida inteira para pensar nisso.
soltou uma risada sem humor.
— É só um vestido.
— É o casamento da sua irmã.
— Eu sei disso.
— Então deveria agir como se soubesse.
A garçonete passou pela mesa e deixou o café de Maya. Maya agradeceu. Ethan roubou um sachê de açúcar. Maya bateu na mão dele. A normalidade daquela cena parecia acontecer em outro universo.
— Não se preocupe — continuou Catherine. — Eu já resolvi.
Isso nunca era uma frase tranquilizadora.
— O que você fez?
— Pedi para Laurent fazer o seu vestido.
piscou.
— Você o quê?
— Enviei suas medidas.
— Minhas medidas?
— Sim.
— Que medidas?
— As do seu aniversário de dezoito anos.
encarou o vazio. Depois encarou o teto. Depois voltou para o vazio.
— Mãe.
— O quê?
— Eu tinha dezoito anos.
— Sim.
— Tenho trinta e cinco agora.
— E?
— Talvez eu não tenha exatamente as mesmas medidas.
— Então faça uma dieta.
ficou em silêncio. Porque algumas respostas simplesmente não possuíam continuação lógica. Sua mãe prosseguiu como se tivesse acabado de sugerir que ela levasse um guarda-chuva.
— Ainda temos alguns dias.
— Alguns dias?
— É perfeitamente possível.
— Para perder dezessete anos?
— Não seja dramática.
apoiou a testa na mão. Maya observava a cena à distância. A expressão em seu rosto indicava que estava montando teorias sobre o conteúdo daquela conversa.
Provavelmente todas corretas.
— Enfim — continuou Catherine. — Existe uma questão mais importante.
Claro.
Sempre existia.
— O que foi agora?
— Como se chama?
— Quem?
— Seu acompanhante.
quase engasgou com o próprio café.
— Eu não tenho acompanhante.
Do outro lado da linha houve um silêncio. Um silêncio genuinamente horrorizado.
— .
— Mãe.
— Você vai sozinha?
— Sim.
— Para o casamento da sua irmã?
— Sim.
— Essa não é uma decisão sua.
— Claro que é.
— Não é.
começou a rir. Não porque fosse engraçado. Porque era a única alternativa disponível.
— Eu sou a dama de honra.
— E daí?
— E vou estar ocupada.
— Isabella foi muito educada ao dizer que você não precisava levar ninguém.
— Mãe.
— , escute.
O tom mudou. Ficou mais suave. Mais perigoso. Era o tom que Catherine usava quando acreditava estar sendo razoável.
— Você tem trinta e cinco anos.
permaneceu em silêncio.
— Você é linda, inteligente, bem-sucedida. E continua aparecendo sozinha em todos os eventos familiares.
Ali estava. A ferida. A mesma de sempre.
— Eu apareço.
— Sozinha.
— Eu apareço.
— Não é a mesma coisa.
— Para mim é.
— Porque você não entende.
observou os carros passando do lado de fora do café. Um homem caminhava pela calçada com um cachorro enorme. O cachorro parecia mais feliz do que qualquer pessoa que ela conhecia.
— O que exatamente eu não entendo?
— As pessoas falam.
Ela deveria ter imaginado. Sempre voltava para isso. As pessoas. Os comentários. As opiniões. As aparências.
— Quais pessoas?
— Pessoas.
— Nomes, mãe.
— Isso não importa.
— Então não existem.
— Existem.
— Quem?
— Amigos.
— Seus amigos?
— Amigos da família.
Claro. Os amigos da família. Os mesmos que mal sabiam seu aniversário. Mas aparentemente possuíam opiniões fortes sobre sua vida amorosa.
— Eles perguntam o tempo todo.
— Sobre mim?
— Sobre você.
— Que estranho.
— Não é estranho.
— Eu acho bastante estranho.
— Eles se preocupam.
quase sorriu. Não. Eles não se preocupavam. Pessoas preocupadas perguntavam se você estava feliz. Pessoas preocupadas perguntavam se você estava segura. Pessoas preocupadas perguntavam como tinha sido sua semana.
Ninguém parecia interessado nessas perguntas.
Queriam saber apenas uma. Você está com alguém?. Como se o resto fosse detalhe.
— Estou bem, mãe.
— Não é disso que estamos falando.
— Exatamente.
Porque nunca era.
— Então você realmente não vai levar ninguém?
soltou um suspiro longo. Aquela já era a terceira vez que a pergunta aparecia. Talvez a quarta. Ela havia perdido a contagem.
— Não, mãe.
Do outro lado da linha, Catherine fez aquele som impaciente que costumava fazer quando era adolescente e respondia tudo com sarcasmo.
— Eu não entendo por que você insiste nisso.
— Insisto em quê?
— Em ficar sozinha.
— Eu não estou insistindo em nada.
— Está sim. Eu só queria que você permitisse que alguém cuidasse de você.
A frase a pegou desprevenida. Porque não veio carregada de críticas. Veio carregada de sinceridade. E isso era pior.
— Eu sei cuidar de mim.
— Eu sei que sabe.
— Então qual é o problema?
A voz da mãe suavizou.
— , você trabalha demais.
— Gosto do meu trabalho.
— Você se coloca em perigo.
— Faz parte da profissão.
— Você não descansa.
— Eu descanso.
— Quando?
observou a fumaça saindo da xícara. Não respondeu.
— Está vendo?
— Mãe...
— Eu só não quero que um dia você olhe para trás e perceba que passou a vida inteira carregando tudo sozinha.
Por um instante. Apenas um instante. sentiu vontade de contar. Contar sobre a operação. Sobre o corte no braço. Sobre o medo que sentiu quando viu um dos suspeitos sacar uma arma. Não porque precisasse de ajuda. Mas porque queria que alguém soubesse. Queria que alguém perguntasse.
Queria que alguém se importasse.
Mas já conhecia o roteiro daquela conversa. Então apenas respondeu:
— Eu vou ficar bem.
— Claro que vai.
Catherine suspirou.
— Enfim. Pense no que eu disse.
— Vou pensar.
— E faça alguma coisa com esse cabelo.
— Certo.
— E tente não aparecer sozinha.
sorriu sem humor.
— Tchau, mãe.
— Tchau, querida.
A ligação terminou. A tela ficou escura. Por alguns segundos, permaneceu olhando para o próprio reflexo nela. Depois guardou o celular. Quando levantou os olhos, abriu um sorriso.
Pequeno.
— Então — disse ela. — O que eu perdi?
— Nada — respondeu Ethan.
— Mentira — disse Maya.
— Nada importante.
— Mentira de novo.
— Você é insuportável.
— E você gosta de mim.
— Infelizmente.
Maya roubou uma batata do prato dele. Ethan reclamou. Maya roubou outra.
Ethan reclamou mais.
observou os dois. A implicância. Os olhares. A intimidade. Aquilo sempre a fazia sorrir. E por alguns minutos conseguiu esquecer a ligação.
Conseguiu rir. Conseguiu participar da conversa. Conseguiu fingir.
Até que Maya a observou por cima da própria xícara. Longamente. Daquele jeito irritante que significava que estava pensando.
— O quê?
— Nada.
— Maya.
— Só estou achando engraçado.
— O quê?
— Você.
— Obrigada.
— Não, escuta. Há duas horas você estava correndo atrás de traficantes armados.
— Tecnicamente eles estavam correndo de mim.
— Isso não melhora a história.
Ethan riu.
Maya continuou.
— Você passou a madrugada inteira numa operação gigantesca.
— Sim.
— Um cara apontou uma arma para você.
— Sim.
— Você voltou com um corte no braço.
— Sim.
— E ainda assim...
Maya inclinou a cabeça.
— Nada disso te assustou.
arqueou uma sobrancelha.
— Certo.
— Mas cinco minutos de conversa com sua mãe...
Ethan soltou uma gargalhada.
Maya apontou para ela.
— Isso sim te aterrorizou.
A mesa inteira ficou em silêncio. Porque era uma piada. Mas não era. E pela primeira vez naquela manhã, alguém tinha enxergado. Não a policial. Não a profissional. Não a filha perfeita.
Ela.
desviou o olhar. Rapidamente. Mas tarde demais. Sentiu uma lágrima escapar. Apenas uma. Pequena. Maya não comentou. Ethan também não.
A voz da repórter surgiu atrás do balcão.
— ...a operação realizada durante a madrugada resultou na prisão de cinco suspeitos e na apreensão de uma das maiores cargas ilegais registradas este ano...
Maya foi a primeira a virar.
— Ei.
Ethan acompanhou o movimento.
— Ei!
levantou os olhos. A televisão exibia imagens do porto. Viaturas. Luzes vermelhas e azuis. Contêineres. Fita de isolamento. Era estranho. Sempre era. Porque a televisão tinha uma capacidade impressionante de transformar horas de tensão em trinta segundos de vídeo.
A reportagem continuou.
— A ação foi conduzida pela Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado...
Então uma fotografia surgiu na tela. Seu nome apareceu logo abaixo. Tenente Montgomery. Maya abriu um sorriso enorme.
— Eu conheço ela.
— Mentira — disse Ethan. — Eu conheço ela primeiro.
— Eu literalmente trabalho ao lado dela.
— Eu também.
— Eu gosto mais dela.
— Isso é discutível.
balançou a cabeça.
— Vocês têm problemas.
— Você está na televisão.
— Por aproximadamente oito segundos.
— Oito segundos de fama ainda são fama.
— Não são.
— São sim.
Ethan apontou para a tela.
— Olha essa foto.
— O que tem ela?
— Você parece que acabou de descobrir três esquemas criminosos e um segredo de estado.
— É uma foto normal.
— Não, não é.
— É sim.
— Você tem uma expressão que diz "eu sei de coisas que você não sabe".
Maya concordou imediatamente.
— Verdade.
— Vocês estão inventando.
— Não estamos.
desviou o olhar da televisão. Porque, sinceramente, nunca soube lidar com reconhecimento. Não por modéstia. Era apenas estranho. As pessoas olhavam para uma fotografia.
Uma manchete.
Uma entrevista.
E acreditavam estar vendo o trabalho. Mas o trabalho nunca aparecia. O trabalho era o frio da madrugada. O trabalho eram as semanas analisando relatórios. As noites perdidas. Os erros. As tentativas. As decisões tomadas em segundos.
Ninguém filmava aquilo. Filmavam apenas o resultado. Talvez por isso ela gostasse tanto daquela profissão. Porque ali dentro, entre pessoas que realmente faziam o trabalho, o mérito era impossível de falsificar. Você não podia comprar coragem. Não podia comprar competência. Não podia comprar respeito. Precisava conquistar.
Precisava merecer.
A reportagem terminou. O apresentador passou para a previsão do tempo. Maya tomou um gole do café. Ethan roubou uma batata do prato dela. Maya lhe deu um tapa na mão. A normalidade voltou. Mas Ethan continuava olhando para .
— O quê?
— Nada.
— Ethan.
— Estou pensando.
— Isso nunca termina bem.
— Eu só acho curioso.
— O quê?
— Sua mãe ligou vinte e três vezes.
já sabia para onde aquilo estava indo.
— Ethan...
— Não, escuta.
— Não quero escutar.
— Você acabou de aparecer na televisão por causa de uma operação enorme.
— Sim.
— E eu apostaria dinheiro que isso não foi mencionado uma única vez naquela ligação.
O silêncio respondeu antes dela.
Maya observou os dois.
— Espera.
afundou na cadeira.
— Não.
— O quê?
— Nada.
— Não, agora eu quero saber.
— Maya...
— O que sua mãe queria?
encarou a xícara. A espuma já tinha desaparecido. Restava apenas o café.
Escuro.
Amargo.
Adequado.
— Um vestido.
Houve um segundo de silêncio. Depois dois. Depois três.
— Desculpa — disse Ethan. — Eu devo ter ouvido errado.
— Não ouviu.
— Um vestido?
— Sim.
— Como assim um vestido?
— Isabella vai usar um vestido feito por um designer amigo da família.
— Certo.
— E Camila escolheu outro ateliê.
— Certo...
— Um ateliê concorrente.
Maya piscou.
— Isso é o problema?
— Esse é o problema.
Ethan apoiou a cabeça na mesa.
— Eu vou embora.
— Ethan.
— Não. Eu me recuso.
— Você está exagerando.
— Eu passei a noite correndo atrás de criminosos. Eu mereço uma conversa melhor do que essa.
Maya estava quase rindo.
— Espera, então as vinte e três ligações...
— Foram por causa de um vestido.
— Meu Deus!
— E não para por aí.
— Claro que não para.
— Minha mãe também mandou fazer o meu vestido.
— Sem te perguntar?
— Sem me perguntar.
— Isso já é estranho.
— Usando as medidas do meu aniversário de dezoito anos.
Agora Maya realmente se engasgou com o café.
— O quê?
— Foi exatamente essa a minha reação.
— Você tem trinta e cinco anos.
— Eu mencionei isso.
— E?
— Ela disse para eu fazer dieta.
Ethan levantou a cabeça lentamente. A expressão dele era de absoluto horror.
— Sua mãe é uma babaca.
— Ethan!
— Não, hoje eu sustento isso.
— Ela não é uma babaca.
— Ela usou suas medidas de dezessete anos atrás.
— Dezoito.
— Isso não melhora a situação.
— Ethan...
— E mandou você fazer dieta. E ligou vinte e três vezes por causa de vestidos.
— Ethan.
— Estou apenas organizando os fatos.
Maya esfregou a testa.
— Meu Deus, eu odeio quando ele organiza os fatos.
— Os fatos são importantes.
— Não quando você usa essa voz.
— Que voz?
— A voz que você usa quando quer convencer um júri.
— Eu não tenho uma voz de júri.
— Tem sim.
— Não tenho.
— Tem.
observou os dois por um instante. Normalmente aquilo a faria sorrir. Mas a conversa com Catherine ainda estava presa em algum lugar do seu peito. Como uma pedra.
Pesada.
Imóvel.
— Ela também perguntou quem seria meu acompanhante.
Os dois ficaram em silêncio. Maya piscou. Ethan endireitou a postura.
— Seu acompanhante?
— Sim.
— Para o casamento?
— Porque você é a dama de honra.
— Sim.
— E vai passar o dia inteiro ajudando sua irmã.
— Sim.
— Então por que você precisaria de um acompanhante?
soltou uma risada sem humor.
— Porque aparentemente existir desacompanhada em um evento familiar é um crime pior do que tráfico internacional.
— Ah.
— É.
Ethan afundou na cadeira.
— Certo.
— Agora eu entendi. Isso nunca foi sobre o vestido.
não respondeu. Porque ele estava certo. Nunca era sobre o vestido. Nem sobre o cabelo. Nem sobre o designer. Nem sobre o acompanhante. Era sobre ela. Sempre era.
Maya a observava em silêncio agora. Sem brincadeiras. Sem piadas. Apenas observando.
— Eles ainda falam disso?
sorriu. Um sorriso pequeno. Cansado.
— O tempo todo.
— Sério?
— Sério.
Ela apoiou os braços na mesa. Pela primeira vez naquela manhã, sentiu vontade de falar. Talvez porque estava cansada. Talvez porque Maya e Ethan fossem as únicas pessoas que realmente escutavam.
— Toda vez que existe algum evento da família, alguém pergunta.
— Pergunta o quê?
— Quando eu vou casar.
Maya fez uma careta.
— Credo.
— Depois perguntam quando eu vou ter filhos. Depois perguntam por que eu trabalho tanto. Depois perguntam se eu já conversei com Alexander.
Ethan fechou os olhos.
— Ah, não.
— Ah, sim.
— Eles ainda fazem isso?
— Todo evento.
— Isso faz quantos anos?
— Três.
— Eu odeio todo mundo.
— Ethan.
— Estou falando sério.
passou o dedo pela borda da xícara.
— A pior parte é que eles não fazem por mal.
— Discordo.
— Ethan.
— Estou tentando ser consistente.
Ela ignorou.
— Eles simplesmente... não entendem.
— O quê?
demorou alguns segundos para responder.
— Que eu estava lá quando acabou.
A mesa ficou silenciosa.
— Eles gostavam do Alexander. Porque ele era perfeito. Porque ele parecia perfeito. Eles não viram as discussões. Não viram as coisas que ele dizia.
— Claro que não.
— Não viram a forma como eu me sentia. Eles só viram um homem bonito, rico e educado.
— Que é o que sua mãe considera uma personalidade completa.
soltou uma risada.
— Basicamente.
Maya apoiou o queixo na mão.
— E você não quer lidar com isso no casamento.
— Não.
— Porque é o casamento da Isabella.
— Exatamente.
Sua voz saiu mais baixa dessa vez. Mais sincera.
— Eu não quero que o dia dela vire uma discussão sobre mim.
Maya permaneceu em silêncio. Então continuou.
— Ela está feliz.
— Está.
— Ela ama a Camila. Ela passou meses planejando isso. E eu não quero passar o fim de semana inteiro respondendo por que estou solteira.
Aquela palavra pareceu ridícula quando saiu em voz alta. Solteira. Como se fosse uma condição médica. Como se fosse uma tragédia. Como se anulasse todo o resto.
— Eu só queria entrar.
Ela deu de ombros.
— Ver minha irmã casar. Dançar um pouco. Beber um pouco. Voltar para casa.
— Exatamente.
Ethan apontou para ela.
— Isso parece completamente razoável.
— Obrigada.
— O que significa que sua família não vai permitir.
— Ethan!
— Estou apenas observando padrões.
Maya ficou pensativa. Muito pensativa. Perigosamente pensativa. reconheceu aquela expressão imediatamente.
— Não.
— Eu não falei nada.
— Ainda.
— Mas vou falar.
— Maya.
— Escuta.
— Não.
— Escuta primeiro. Porque minhas melhores ideias começam assim.
— Suas piores também.
— Detalhes.
Maya se inclinou sobre a mesa. Os olhos brilhando.
— E se você simplesmente aparecesse com alguém?
piscou.
— O quê?
— Com alguém.
— Eu entendi essa parte.
— Um acompanhante.
— Eu não tenho um acompanhante.
— Ainda não.
— Maya...
— Não, espera.
Ela já estava animada agora. O que nunca era um bom sinal.
— Tem um aplicativo.
Ethan imediatamente começou a rir.
— Ah, meu Deus.
— Existe um aplicativo.
— Claro que existe.
— Existe aplicativo para tudo hoje em dia.
— Maya.
— Pessoas contratam acompanhantes para eventos sociais.
encarou a amiga.
— Você perdeu completamente a cabeça.
— Não perdi.
— Perdeu sim.
— Pense nisso.
— Não quero pensar nisso.
— Pense.
— Não.
— É literalmente a solução perfeita.
— Não é.
— É sim.
— Maya.
— Você aparece acompanhada.
— Por um estranho.
— Um estranho profissional.
— Isso não ajudou.
Ethan já ria tanto que mal conseguia respirar. Maya ignorou.
— Sua família para de perguntar.
— Isso é absurdo.
— Você sobrevive ao casamento.
— Maya.
— E na segunda-feira sua vida volta ao normal.
abriu a boca para responder. Mas não respondeu. Porque odiava admitir. Mas, pela primeira vez naquela manhã...a ideia não pareceu completamente impossível.
apoiou a coronha da arma contra o ombro e fechou um dos olhos. A distância até o caminhão não era absurda. Cento e poucos metros. Talvez menos. Mas a escuridão transformava tudo em outra coisa. As luzes do porto criavam sombras estranhas sobre os contêineres e faziam os homens parecerem maiores do que realmente eram.
Ela inspirou lentamente. O dedo repousava sobre o gatilho. Esperando. Observando. Calculando. Ao seu lado, Maya estava agachada atrás de uma pilha de caixas de transporte.
— Você sabe o que eu odeio nessa situação?
não desviou os olhos da mira.
— Muitas coisas.
— Segunda-feira.
— Segunda-feira?
— Sim. Se eu levar um tiro, gostaria que fosse numa quinta. Psicologicamente é mais aceitável.
ouviu Ethan soltar uma risada abafada no comunicador.
— Isso não faz o menor sentido.
— Faz total sentido — respondeu Maya. — Segunda-feira é um dia vulnerável.
permitiu que o canto da boca se movesse alguns milímetros.
Era o máximo que seus amigos receberiam como demonstração de humor. Através da luneta ela observou o suspeito principal atravessar o espaço entre dois contêineres. Boné preto. Jaqueta cinza. A mesma descrição da denúncia anônima. A mesma descrição que havia mantido a equipe acordada pelas últimas quarenta e oito horas.
Seu coração acelerou. Não de medo.
Nunca de medo.
Era algo diferente. Algo mais próximo da expectativa. A sensação de estar exatamente onde deveria estar. Algumas pessoas encontravam propósito em igrejas. Outras em relacionamentos. encontrava o dela no breve segundo que antecede uma decisão importante.
O mundo diminuía. Os ruídos desapareciam. As dúvidas desapareciam. Tudo ficava simples.
Respire.
Observe.
Acerte.
— Montgomery — a voz do comandante surgiu pelo ponto eletrônico. — Confirma visual?
— Confirmado.
— Pode efetuar.
Ela expirou lentamente. O disparo ecoou pela noite. O vidro do caminhão explodiu. O motorista freou bruscamente. E então o caos começou.
Gritos.
Luzes.
Sirenes.
Homens correndo em todas as direções. Maya saltou da cobertura antes mesmo da ordem oficial.
— Polícia! Mãos para cima!
Ethan correu logo atrás. também. Sem hesitar. Sem pensar.
O asfalto passou sob seus pés enquanto atravessava o porto. Um dos suspeitos ergueu uma arma. Outro policial se jogou atrás de um veículo. continuou avançando. Coragem não era ausência de medo. Era simplesmente decidir que alguma coisa importava mais. Naquele momento importava impedir que eles escapassem.
Quinze minutos depois, tudo havia terminado. Cinco prisões. Duas toneladas de mercadoria ilegal apreendida. Nenhum policial ferido. O sol começava a nascer quando a equipe finalmente recebeu autorização para encerrar a operação.
Ethan afrouxou o colete.
— Eu odeio todos vocês.
— Bom dia para você também — respondeu Maya.
— São seis da manhã de uma segunda-feira.
— Tecnicamente ainda estamos vivos.
— Exatamente. Eu queria estar dormindo.
Maya apontou para .
— Olha para ela.
Ethan virou o rosto.
— Meu Deus.
ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Você está feliz.
— Estou normal.
— Não está não — disse Maya. — Essa é sua cara de felicidade.
observou os agentes recolhendo provas. Os caminhões apreendidos. Os contêineres sendo lacrados. As luzes vermelhas e azuis refletindo sobre o asfalto molhado. Talvez eles estivessem certos. Talvez ela estivesse feliz. Porque enquanto a maioria das pessoas passava as segundas-feiras reclamando da vida, Montgomery passava as dela mudando o rumo de algumas histórias.
E, sinceramente, não conseguia imaginar nada melhor.
— Você está sangrando.
continuou andando.
— Estou?
— Meu Deus — Maya colocou a mão na própria testa. — É exatamente por isso que eu não consigo trabalhar com pessoas emocionalmente saudáveis.
— Ela não é emocionalmente saudável — disse Ethan.
— Verdade.
olhou para o antebraço. Havia um corte longo próximo ao cotovelo. Nada profundo. Provavelmente algum pedaço de metal quando atravessou a área dos contêineres.
— Ah.
— "Ah"? — repetiu Maya.
— Parece superficial.
— Você levou um pedaço de porto industrial no braço e sua análise é "parece superficial".
— Tecnicamente está cicatrizando.
— Faz vinte minutos.
— O corpo trabalha rápido.
Ethan soltou uma risada.
— Eu adoro quando você tenta parecer uma pessoa normal.
Maya pegou o kit de primeiros socorros da viatura.
— Vem aqui.
— Não precisa.
— !
— Maya!
— !
Ela suspirou.
Era impossível vencer aquela discussão.
Maya limpou o ferimento enquanto resmungava algo sobre colegas de trabalho irresponsáveis. observou em silêncio. Ao lado delas, Ethan bocejou. Um bocejo tão exagerado que parecia uma manifestação política.
— Eu vou morrer.
— Você diz isso toda semana — respondeu Maya.
— Meu corpo foi feito para dormir.
— Seu corpo foi feito para reclamar.
— Reclamar é uma arte.
— E você é um gênio incompreendido.
— Obrigado.
Maya revirou os olhos. desviou o olhar antes que os dois percebessem o sorriso que ameaçava surgir. Porque eles faziam aquilo o tempo inteiro. A implicância constante. Os olhares demorados. A forma como Maya sempre parecia notar primeiro quando Ethan estava cansado.
Ou como Ethan automaticamente entregava a ela o último donut da caixa sem sequer pensar. nunca comentava. Primeiro porque não era da sua conta. Segundo porque tinha quase certeza de que os dois morreriam de constrangimento.
— Café? — perguntou Ethan.
— Café — respondeu Maya.
— Café — concordou .
Era quase uma tradição. Depois de cada operação importante. Depois de cada turno particularmente ruim. Depois de cada segunda-feira, que parecia longa demais. O mesmo café. A mesma mesa. As mesmas reclamações.
Quarenta minutos depois, empurrou a porta de vidro do estabelecimento. O cheiro de café torrado a atingiu imediatamente. Ethan praticamente caiu sobre uma cadeira.
— Vou registrar oficialmente que este café vai destruir meu horário de sono.
— Você não tem horário de sono.
— Tenho sim.
— Qual?
— Adormecer aleatoriamente em locais diferentes.
— Isso não conta.
— Conta para mim.
Maya roubou um sachê de açúcar da bandeja dele.
— Você é dramático.
— Eu sou realista.
— Você é dramático.
— Você me ama.
Maya congelou por um segundo. Apenas um segundo. Mas percebeu. Porque percebia tudo. Então Maya respondeu:
— Continue sonhando.
Ethan sorriu por cima do cardápio. decidiu que era uma ótima hora para fingir interesse no próprio celular. Ela pressionou o botão lateral. A tela acendeu. E imediatamente sentiu uma pontada de preocupação. Vinte e três chamadas perdidas.
Todas da mesma pessoa.
“Mãe”
piscou. Depois olhou novamente. Vinte e três. Ela verificou o horário. Cinco da manhã.
Seis.
Sete.
Oito.
Nove.
Aparentemente Catherine Montgomery havia passado as últimas quatro horas tentando estabelecer algum tipo de recorde mundial. apoiou a cabeça na mão. A única pergunta era: O que exatamente poderia ser tão urgente às nove da manhã de uma segunda-feira?
Porque, conhecendo sua mãe, existiam duas possibilidades. Alguém havia morrido. Ou havia acontecido alguma coisa relacionada ao casamento de Isabella.
E, sinceramente, não tinha certeza de qual das duas opções era mais provável. Ela não sabia se estava impressionada ou preocupada. Talvez os dois. Respirou fundo e pressionou o botão de ligar. A chamada nem chegou a completar o segundo toque.
— Finalmente.
Nem um "bom dia". Nem um "você está bem?". Nem um "onde você estava?". Apenas finalmente. sentiu os ombros endurecerem. Era automático. Acontecia sempre.
— Bom dia para você também, mãe.
— Estou tentando falar com você desde cedo.
— Eu estava trabalhando.
— Sim, claro.
Aquele "claro" carregava o mesmo entusiasmo de uma multa de trânsito. observou Maya e Ethan discutindo sobre a quantidade aceitável de açúcar num café. Por um instante considerou dizer. Considerou falar sobre a operação. Sobre as prisões. Sobre a apreensão.
Sobre o fato de que a equipe inteira provavelmente apareceria no noticiário local naquela noite. Mas desistiu. Porque conhecia Catherine Montgomery. Sua mãe não era uma pessoa cruel.
Crueldade exigia intenção.
Catherine simplesmente possuía uma habilidade extraordinária para ignorar tudo aquilo que considerava importante. Então poupou as duas do esforço.
— O que aconteceu?
— Um desastre.
fechou os olhos. Nunca era uma boa palavra quando saía da boca de Catherine.
— Que tipo de desastre?
— Camila.
abriu os olhos novamente.
— Camila?
— Sim, Camila.
Sua mãe pronunciou o nome da futura nora como se estivesse falando sobre uma ameaça à segurança nacional.
— O que ela fez?
— Ela escolheu um vestido de outro ateliê.
Silêncio. esperou. Talvez existisse uma segunda parte. Uma parte importante. Uma parte que justificasse vinte e três ligações. Ela esperou. Não veio.
— ...Só isso?
— .
Aquele tom. O tom que significava: você está me decepcionando.
— O que quer dizer com "só isso"?
— Mãe, ela escolheu um vestido.
— Um vestido do Atelier Duval.
massageou a testa.
— Eu não sei o que isso significa.
— Claro que não sabe.
— Não sei.
— O Atelier Duval é concorrente direto do Maison Laurent.
— Certo.
— E Laurent é amigo da família há quase vinte anos.
— Certo.
— Isabella vai usar um vestido desenhado por ele.
— Certo.
— Então você entende o problema.
— Não.
Do outro lado da mesa, Maya percebeu imediatamente a expressão dela. Apontou discretamente para o celular. apenas balançou a cabeça. Maya fez uma careta solidária. Já conhecia Catherine.
Todo mundo conhecia Catherine.
— , imagine o constrangimento.
— Estou tentando.
— Os fotógrafos vão perceber.
apoiou o cotovelo na mesa. Ela havia passado a madrugada correndo atrás de traficantes armados. Havia desarmado uma operação milionária. Quase levara um tiro. Tinha um corte recém-limpo no braço.
E agora estava participando de uma discussão sobre rivalidade entre estilistas.
A vida era uma experiência fascinante.
— O que você quer que eu faça?
— Converse com sua irmã.
— Isabella tem trinta anos.
— E?
— E vai se casar.
— Exatamente.
— Então imagino que ela seja capaz de escolher o próprio vestido.
— Não é o vestido dela.
— É literalmente o vestido dela.
Catherine soltou um suspiro longo. O mesmo suspiro que costumava dar quando tinha quinze anos e se recusava a participar de eventos beneficentes.
— Às vezes eu me pergunto de onde você tirou essa personalidade.
observou a espuma do café. Branca. Perfeitamente desenhada. O barista havia feito uma folha. Ou uma tulipa. Ela nunca conseguia distinguir.
— Eu também me pergunto — respondeu.
A frase escapou antes que pudesse impedi-la. Um silêncio surgiu do outro lado da linha.
Pequeno.
Mas pesado.
imediatamente se arrependeu. Porque aquele era o problema. Não importava quantos anos tivesse. Não importava quantas operações liderasse. Quantos criminosos prendesse. Quantas medalhas recebesse. Ainda existia uma parte dela que queria desesperadamente agradar Catherine Montgomery.
Uma parte pequena.
Ridícula.
Mas persistente.
— Enfim — disse a mãe, recuperando a compostura. — Você vem para a fazenda na sexta-feira, certo?
fechou os olhos. A fazenda. O casamento. O fim de semana inteiro. A família inteira. E, inevitavelmente...
As perguntas. Por que ainda está solteira? E o Alexander? Você não vai levar ninguém? Ela já conseguia ouvir todas elas. Uma após a outra. Como uma tortura cuidadosamente organizada.
— Sim — respondeu.
— Ótimo.
— E ?
— Sim?
— Já decidiu o vestido que vai usar?
encarou a parede à sua frente.
Depois o café.
Depois o teto.
Qualquer coisa para não rir. Ou chorar. Não tinha certeza.
— Ainda não.
— Eu sabia.
fechou os olhos. Claro que sabia. Catherine nunca fazia perguntas para descobrir respostas. Fazia perguntas para confirmar aquilo que já havia decidido.
— Como você pode ser tão displicente?
— Eu tive uma semana cheia.
— Você teve uma vida inteira para pensar nisso.
soltou uma risada sem humor.
— É só um vestido.
— É o casamento da sua irmã.
— Eu sei disso.
— Então deveria agir como se soubesse.
A garçonete passou pela mesa e deixou o café de Maya. Maya agradeceu. Ethan roubou um sachê de açúcar. Maya bateu na mão dele. A normalidade daquela cena parecia acontecer em outro universo.
— Não se preocupe — continuou Catherine. — Eu já resolvi.
Isso nunca era uma frase tranquilizadora.
— O que você fez?
— Pedi para Laurent fazer o seu vestido.
piscou.
— Você o quê?
— Enviei suas medidas.
— Minhas medidas?
— Sim.
— Que medidas?
— As do seu aniversário de dezoito anos.
encarou o vazio. Depois encarou o teto. Depois voltou para o vazio.
— Mãe.
— O quê?
— Eu tinha dezoito anos.
— Sim.
— Tenho trinta e cinco agora.
— E?
— Talvez eu não tenha exatamente as mesmas medidas.
— Então faça uma dieta.
ficou em silêncio. Porque algumas respostas simplesmente não possuíam continuação lógica. Sua mãe prosseguiu como se tivesse acabado de sugerir que ela levasse um guarda-chuva.
— Ainda temos alguns dias.
— Alguns dias?
— É perfeitamente possível.
— Para perder dezessete anos?
— Não seja dramática.
apoiou a testa na mão. Maya observava a cena à distância. A expressão em seu rosto indicava que estava montando teorias sobre o conteúdo daquela conversa.
Provavelmente todas corretas.
— Enfim — continuou Catherine. — Existe uma questão mais importante.
Claro.
Sempre existia.
— O que foi agora?
— Como se chama?
— Quem?
— Seu acompanhante.
quase engasgou com o próprio café.
— Eu não tenho acompanhante.
Do outro lado da linha houve um silêncio. Um silêncio genuinamente horrorizado.
— .
— Mãe.
— Você vai sozinha?
— Sim.
— Para o casamento da sua irmã?
— Sim.
— Essa não é uma decisão sua.
— Claro que é.
— Não é.
começou a rir. Não porque fosse engraçado. Porque era a única alternativa disponível.
— Eu sou a dama de honra.
— E daí?
— E vou estar ocupada.
— Isabella foi muito educada ao dizer que você não precisava levar ninguém.
— Mãe.
— , escute.
O tom mudou. Ficou mais suave. Mais perigoso. Era o tom que Catherine usava quando acreditava estar sendo razoável.
— Você tem trinta e cinco anos.
permaneceu em silêncio.
— Você é linda, inteligente, bem-sucedida. E continua aparecendo sozinha em todos os eventos familiares.
Ali estava. A ferida. A mesma de sempre.
— Eu apareço.
— Sozinha.
— Eu apareço.
— Não é a mesma coisa.
— Para mim é.
— Porque você não entende.
observou os carros passando do lado de fora do café. Um homem caminhava pela calçada com um cachorro enorme. O cachorro parecia mais feliz do que qualquer pessoa que ela conhecia.
— O que exatamente eu não entendo?
— As pessoas falam.
Ela deveria ter imaginado. Sempre voltava para isso. As pessoas. Os comentários. As opiniões. As aparências.
— Quais pessoas?
— Pessoas.
— Nomes, mãe.
— Isso não importa.
— Então não existem.
— Existem.
— Quem?
— Amigos.
— Seus amigos?
— Amigos da família.
Claro. Os amigos da família. Os mesmos que mal sabiam seu aniversário. Mas aparentemente possuíam opiniões fortes sobre sua vida amorosa.
— Eles perguntam o tempo todo.
— Sobre mim?
— Sobre você.
— Que estranho.
— Não é estranho.
— Eu acho bastante estranho.
— Eles se preocupam.
quase sorriu. Não. Eles não se preocupavam. Pessoas preocupadas perguntavam se você estava feliz. Pessoas preocupadas perguntavam se você estava segura. Pessoas preocupadas perguntavam como tinha sido sua semana.
Ninguém parecia interessado nessas perguntas.
Queriam saber apenas uma. Você está com alguém?. Como se o resto fosse detalhe.
— Estou bem, mãe.
— Não é disso que estamos falando.
— Exatamente.
Porque nunca era.
— Então você realmente não vai levar ninguém?
soltou um suspiro longo. Aquela já era a terceira vez que a pergunta aparecia. Talvez a quarta. Ela havia perdido a contagem.
— Não, mãe.
Do outro lado da linha, Catherine fez aquele som impaciente que costumava fazer quando era adolescente e respondia tudo com sarcasmo.
— Eu não entendo por que você insiste nisso.
— Insisto em quê?
— Em ficar sozinha.
— Eu não estou insistindo em nada.
— Está sim. Eu só queria que você permitisse que alguém cuidasse de você.
A frase a pegou desprevenida. Porque não veio carregada de críticas. Veio carregada de sinceridade. E isso era pior.
— Eu sei cuidar de mim.
— Eu sei que sabe.
— Então qual é o problema?
A voz da mãe suavizou.
— , você trabalha demais.
— Gosto do meu trabalho.
— Você se coloca em perigo.
— Faz parte da profissão.
— Você não descansa.
— Eu descanso.
— Quando?
observou a fumaça saindo da xícara. Não respondeu.
— Está vendo?
— Mãe...
— Eu só não quero que um dia você olhe para trás e perceba que passou a vida inteira carregando tudo sozinha.
Por um instante. Apenas um instante. sentiu vontade de contar. Contar sobre a operação. Sobre o corte no braço. Sobre o medo que sentiu quando viu um dos suspeitos sacar uma arma. Não porque precisasse de ajuda. Mas porque queria que alguém soubesse. Queria que alguém perguntasse.
Queria que alguém se importasse.
Mas já conhecia o roteiro daquela conversa. Então apenas respondeu:
— Eu vou ficar bem.
— Claro que vai.
Catherine suspirou.
— Enfim. Pense no que eu disse.
— Vou pensar.
— E faça alguma coisa com esse cabelo.
— Certo.
— E tente não aparecer sozinha.
sorriu sem humor.
— Tchau, mãe.
— Tchau, querida.
A ligação terminou. A tela ficou escura. Por alguns segundos, permaneceu olhando para o próprio reflexo nela. Depois guardou o celular. Quando levantou os olhos, abriu um sorriso.
Pequeno.
— Então — disse ela. — O que eu perdi?
— Nada — respondeu Ethan.
— Mentira — disse Maya.
— Nada importante.
— Mentira de novo.
— Você é insuportável.
— E você gosta de mim.
— Infelizmente.
Maya roubou uma batata do prato dele. Ethan reclamou. Maya roubou outra.
Ethan reclamou mais.
observou os dois. A implicância. Os olhares. A intimidade. Aquilo sempre a fazia sorrir. E por alguns minutos conseguiu esquecer a ligação.
Conseguiu rir. Conseguiu participar da conversa. Conseguiu fingir.
Até que Maya a observou por cima da própria xícara. Longamente. Daquele jeito irritante que significava que estava pensando.
— O quê?
— Nada.
— Maya.
— Só estou achando engraçado.
— O quê?
— Você.
— Obrigada.
— Não, escuta. Há duas horas você estava correndo atrás de traficantes armados.
— Tecnicamente eles estavam correndo de mim.
— Isso não melhora a história.
Ethan riu.
Maya continuou.
— Você passou a madrugada inteira numa operação gigantesca.
— Sim.
— Um cara apontou uma arma para você.
— Sim.
— Você voltou com um corte no braço.
— Sim.
— E ainda assim...
Maya inclinou a cabeça.
— Nada disso te assustou.
arqueou uma sobrancelha.
— Certo.
— Mas cinco minutos de conversa com sua mãe...
Ethan soltou uma gargalhada.
Maya apontou para ela.
— Isso sim te aterrorizou.
A mesa inteira ficou em silêncio. Porque era uma piada. Mas não era. E pela primeira vez naquela manhã, alguém tinha enxergado. Não a policial. Não a profissional. Não a filha perfeita.
Ela.
desviou o olhar. Rapidamente. Mas tarde demais. Sentiu uma lágrima escapar. Apenas uma. Pequena. Maya não comentou. Ethan também não.
A voz da repórter surgiu atrás do balcão.
— ...a operação realizada durante a madrugada resultou na prisão de cinco suspeitos e na apreensão de uma das maiores cargas ilegais registradas este ano...
Maya foi a primeira a virar.
— Ei.
Ethan acompanhou o movimento.
— Ei!
levantou os olhos. A televisão exibia imagens do porto. Viaturas. Luzes vermelhas e azuis. Contêineres. Fita de isolamento. Era estranho. Sempre era. Porque a televisão tinha uma capacidade impressionante de transformar horas de tensão em trinta segundos de vídeo.
A reportagem continuou.
— A ação foi conduzida pela Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado...
Então uma fotografia surgiu na tela. Seu nome apareceu logo abaixo. Tenente Montgomery. Maya abriu um sorriso enorme.
— Eu conheço ela.
— Mentira — disse Ethan. — Eu conheço ela primeiro.
— Eu literalmente trabalho ao lado dela.
— Eu também.
— Eu gosto mais dela.
— Isso é discutível.
balançou a cabeça.
— Vocês têm problemas.
— Você está na televisão.
— Por aproximadamente oito segundos.
— Oito segundos de fama ainda são fama.
— Não são.
— São sim.
Ethan apontou para a tela.
— Olha essa foto.
— O que tem ela?
— Você parece que acabou de descobrir três esquemas criminosos e um segredo de estado.
— É uma foto normal.
— Não, não é.
— É sim.
— Você tem uma expressão que diz "eu sei de coisas que você não sabe".
Maya concordou imediatamente.
— Verdade.
— Vocês estão inventando.
— Não estamos.
desviou o olhar da televisão. Porque, sinceramente, nunca soube lidar com reconhecimento. Não por modéstia. Era apenas estranho. As pessoas olhavam para uma fotografia.
Uma manchete.
Uma entrevista.
E acreditavam estar vendo o trabalho. Mas o trabalho nunca aparecia. O trabalho era o frio da madrugada. O trabalho eram as semanas analisando relatórios. As noites perdidas. Os erros. As tentativas. As decisões tomadas em segundos.
Ninguém filmava aquilo. Filmavam apenas o resultado. Talvez por isso ela gostasse tanto daquela profissão. Porque ali dentro, entre pessoas que realmente faziam o trabalho, o mérito era impossível de falsificar. Você não podia comprar coragem. Não podia comprar competência. Não podia comprar respeito. Precisava conquistar.
Precisava merecer.
A reportagem terminou. O apresentador passou para a previsão do tempo. Maya tomou um gole do café. Ethan roubou uma batata do prato dela. Maya lhe deu um tapa na mão. A normalidade voltou. Mas Ethan continuava olhando para .
— O quê?
— Nada.
— Ethan.
— Estou pensando.
— Isso nunca termina bem.
— Eu só acho curioso.
— O quê?
— Sua mãe ligou vinte e três vezes.
já sabia para onde aquilo estava indo.
— Ethan...
— Não, escuta.
— Não quero escutar.
— Você acabou de aparecer na televisão por causa de uma operação enorme.
— Sim.
— E eu apostaria dinheiro que isso não foi mencionado uma única vez naquela ligação.
O silêncio respondeu antes dela.
Maya observou os dois.
— Espera.
afundou na cadeira.
— Não.
— O quê?
— Nada.
— Não, agora eu quero saber.
— Maya...
— O que sua mãe queria?
encarou a xícara. A espuma já tinha desaparecido. Restava apenas o café.
Escuro.
Amargo.
Adequado.
— Um vestido.
Houve um segundo de silêncio. Depois dois. Depois três.
— Desculpa — disse Ethan. — Eu devo ter ouvido errado.
— Não ouviu.
— Um vestido?
— Sim.
— Como assim um vestido?
— Isabella vai usar um vestido feito por um designer amigo da família.
— Certo.
— E Camila escolheu outro ateliê.
— Certo...
— Um ateliê concorrente.
Maya piscou.
— Isso é o problema?
— Esse é o problema.
Ethan apoiou a cabeça na mesa.
— Eu vou embora.
— Ethan.
— Não. Eu me recuso.
— Você está exagerando.
— Eu passei a noite correndo atrás de criminosos. Eu mereço uma conversa melhor do que essa.
Maya estava quase rindo.
— Espera, então as vinte e três ligações...
— Foram por causa de um vestido.
— Meu Deus!
— E não para por aí.
— Claro que não para.
— Minha mãe também mandou fazer o meu vestido.
— Sem te perguntar?
— Sem me perguntar.
— Isso já é estranho.
— Usando as medidas do meu aniversário de dezoito anos.
Agora Maya realmente se engasgou com o café.
— O quê?
— Foi exatamente essa a minha reação.
— Você tem trinta e cinco anos.
— Eu mencionei isso.
— E?
— Ela disse para eu fazer dieta.
Ethan levantou a cabeça lentamente. A expressão dele era de absoluto horror.
— Sua mãe é uma babaca.
— Ethan!
— Não, hoje eu sustento isso.
— Ela não é uma babaca.
— Ela usou suas medidas de dezessete anos atrás.
— Dezoito.
— Isso não melhora a situação.
— Ethan...
— E mandou você fazer dieta. E ligou vinte e três vezes por causa de vestidos.
— Ethan.
— Estou apenas organizando os fatos.
Maya esfregou a testa.
— Meu Deus, eu odeio quando ele organiza os fatos.
— Os fatos são importantes.
— Não quando você usa essa voz.
— Que voz?
— A voz que você usa quando quer convencer um júri.
— Eu não tenho uma voz de júri.
— Tem sim.
— Não tenho.
— Tem.
observou os dois por um instante. Normalmente aquilo a faria sorrir. Mas a conversa com Catherine ainda estava presa em algum lugar do seu peito. Como uma pedra.
Pesada.
Imóvel.
— Ela também perguntou quem seria meu acompanhante.
Os dois ficaram em silêncio. Maya piscou. Ethan endireitou a postura.
— Seu acompanhante?
— Sim.
— Para o casamento?
— Porque você é a dama de honra.
— Sim.
— E vai passar o dia inteiro ajudando sua irmã.
— Sim.
— Então por que você precisaria de um acompanhante?
soltou uma risada sem humor.
— Porque aparentemente existir desacompanhada em um evento familiar é um crime pior do que tráfico internacional.
— Ah.
— É.
Ethan afundou na cadeira.
— Certo.
— Agora eu entendi. Isso nunca foi sobre o vestido.
não respondeu. Porque ele estava certo. Nunca era sobre o vestido. Nem sobre o cabelo. Nem sobre o designer. Nem sobre o acompanhante. Era sobre ela. Sempre era.
Maya a observava em silêncio agora. Sem brincadeiras. Sem piadas. Apenas observando.
— Eles ainda falam disso?
sorriu. Um sorriso pequeno. Cansado.
— O tempo todo.
— Sério?
— Sério.
Ela apoiou os braços na mesa. Pela primeira vez naquela manhã, sentiu vontade de falar. Talvez porque estava cansada. Talvez porque Maya e Ethan fossem as únicas pessoas que realmente escutavam.
— Toda vez que existe algum evento da família, alguém pergunta.
— Pergunta o quê?
— Quando eu vou casar.
Maya fez uma careta.
— Credo.
— Depois perguntam quando eu vou ter filhos. Depois perguntam por que eu trabalho tanto. Depois perguntam se eu já conversei com Alexander.
Ethan fechou os olhos.
— Ah, não.
— Ah, sim.
— Eles ainda fazem isso?
— Todo evento.
— Isso faz quantos anos?
— Três.
— Eu odeio todo mundo.
— Ethan.
— Estou falando sério.
passou o dedo pela borda da xícara.
— A pior parte é que eles não fazem por mal.
— Discordo.
— Ethan.
— Estou tentando ser consistente.
Ela ignorou.
— Eles simplesmente... não entendem.
— O quê?
demorou alguns segundos para responder.
— Que eu estava lá quando acabou.
A mesa ficou silenciosa.
— Eles gostavam do Alexander. Porque ele era perfeito. Porque ele parecia perfeito. Eles não viram as discussões. Não viram as coisas que ele dizia.
— Claro que não.
— Não viram a forma como eu me sentia. Eles só viram um homem bonito, rico e educado.
— Que é o que sua mãe considera uma personalidade completa.
soltou uma risada.
— Basicamente.
Maya apoiou o queixo na mão.
— E você não quer lidar com isso no casamento.
— Não.
— Porque é o casamento da Isabella.
— Exatamente.
Sua voz saiu mais baixa dessa vez. Mais sincera.
— Eu não quero que o dia dela vire uma discussão sobre mim.
Maya permaneceu em silêncio. Então continuou.
— Ela está feliz.
— Está.
— Ela ama a Camila. Ela passou meses planejando isso. E eu não quero passar o fim de semana inteiro respondendo por que estou solteira.
Aquela palavra pareceu ridícula quando saiu em voz alta. Solteira. Como se fosse uma condição médica. Como se fosse uma tragédia. Como se anulasse todo o resto.
— Eu só queria entrar.
Ela deu de ombros.
— Ver minha irmã casar. Dançar um pouco. Beber um pouco. Voltar para casa.
— Exatamente.
Ethan apontou para ela.
— Isso parece completamente razoável.
— Obrigada.
— O que significa que sua família não vai permitir.
— Ethan!
— Estou apenas observando padrões.
Maya ficou pensativa. Muito pensativa. Perigosamente pensativa. reconheceu aquela expressão imediatamente.
— Não.
— Eu não falei nada.
— Ainda.
— Mas vou falar.
— Maya.
— Escuta.
— Não.
— Escuta primeiro. Porque minhas melhores ideias começam assim.
— Suas piores também.
— Detalhes.
Maya se inclinou sobre a mesa. Os olhos brilhando.
— E se você simplesmente aparecesse com alguém?
piscou.
— O quê?
— Com alguém.
— Eu entendi essa parte.
— Um acompanhante.
— Eu não tenho um acompanhante.
— Ainda não.
— Maya...
— Não, espera.
Ela já estava animada agora. O que nunca era um bom sinal.
— Tem um aplicativo.
Ethan imediatamente começou a rir.
— Ah, meu Deus.
— Existe um aplicativo.
— Claro que existe.
— Existe aplicativo para tudo hoje em dia.
— Maya.
— Pessoas contratam acompanhantes para eventos sociais.
encarou a amiga.
— Você perdeu completamente a cabeça.
— Não perdi.
— Perdeu sim.
— Pense nisso.
— Não quero pensar nisso.
— Pense.
— Não.
— É literalmente a solução perfeita.
— Não é.
— É sim.
— Maya.
— Você aparece acompanhada.
— Por um estranho.
— Um estranho profissional.
— Isso não ajudou.
Ethan já ria tanto que mal conseguia respirar. Maya ignorou.
— Sua família para de perguntar.
— Isso é absurdo.
— Você sobrevive ao casamento.
— Maya.
— E na segunda-feira sua vida volta ao normal.
abriu a boca para responder. Mas não respondeu. Porque odiava admitir. Mas, pela primeira vez naquela manhã...a ideia não pareceu completamente impossível.