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O Melhor Amigo do Meu Irmão

por

“O problema? Ele é o melhor amigo do irmão dela.”

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I
I

Chovia quando Sirius Black bateu na porta dos Potter pela primeira vez naquele verão, e havia algo de simbólico nisso que ninguém comentou na hora. Ele estava encharcado até os ossos, o casaco grudado no corpo alto, e um corte no lábio que já tinha parado de sangrar havia horas e secado em uma linha escura e feia. abriu a porta antes que ele batesse pela segunda vez. Ela havia ouvido os passos no jardim, o barulho de alguém tropeçando nas roseiras da mãe.
Por um segundo, os dois só se olharam. A luz amarela do corredor caindo sobre ele, os cabelos negros escorrendo água pelo rosto, os olhos cinzentos brilhando com uma mistura de vergonha e cansaço que ela nunca tinha visto antes naquele garoto sempre tão certo de si mesmo.
— Desculpa aparecer assim — ele disse, a voz mais fraca do que provavelmente queria, tentando um sorriso que não chegou a sair direito. — Eu fugi de casa e… Não sabia mais para onde ir.
— Não precisa se desculpar.
Ele não se moveu. Ficou ali, parado no batente, pingando água no tapete, como se de repente não soubesse mais como entrar numa casa sem ser convidado, ou como se, pela primeira vez em muito tempo, não tivesse certeza de que merecia ser.
Foi isso que fez alguma coisa se apertar no peito de . Ela não pensou muito antes de agir. Simplesmente deu um passo à frente e o abraçou, sem se importar com a roupa encharcada, com o frio que passou imediatamente para a sua própria blusa ou com o fato de que aquilo não era algo que costumavam fazer.
Sirius enrijeceu por um segundo. Surpreso, talvez sem saber o que fazer com um gesto tão simples depois de uma noite daquelas, mas então, devagar, os braços dele a envolveram também, o rosto se inclinando contra o topo da cabeça dela, e sentiu o corpo dele relaxar aos poucos, como se estivesse soltando um peso que vinha carregando havia horas, ou talvez anos.
Nenhum dos dois disse nada por um tempo. Só o som da chuva lá fora, e a respiração dele, mais calma agora, contra o cabelo dela.
— Você nem perguntou o que aconteceu — ele murmurou, por fim, a voz abafada.
— Não precisava perguntar.
Ele riu baixinho. Um som pequeno, sem a graça de sempre, mais parecido com alívio do que com humor.
Quando finalmente se afastaram, havia algo diferente nos olhos dele, algo que ele normalmente escondia atrás de charme e piadas fáceis, e que por aquele instante breve ficou completamente exposto para ela.
A mãe de tomou conta da situação assim que os viu parados na porta, praticamente empurrando Sirius escada acima com uma pilha de toalhas nos braços e ordens claras de tomar um banho quente antes que pegasse um resfriado. Enquanto isso, ela e o marido se apressaram em arrumar o antigo quarto de hóspedes.
James ficou remexendo no corredor, sem saber muito bem o que fazer com as próprias mãos, o rosto tenso de um jeito que raramente via nele.
— Ele vai ficar bem — ela disse, baixinho, passando por ele com um travesseiro extra debaixo do braço.
— Eu sei... — James suspirou, encostando a cabeça na parede. — Só queria que ele tivesse me contado antes que as coisas chegassem a esse ponto.
— Você sabia que ia acontecer, não sabia?
Ele não respondeu na hora, o que já era resposta suficiente. James não parecia surpreso. Chateado, sim, preocupado, também, mas não surpreso, como alguém que já esperava aquilo havia muito tempo. não sabia dos detalhes do que se passava dentro da Rua Grimmauld, não conhecia as histórias inteiras que ele e o irmão mais velho, James, trocavam baixinho no dormitório masculino quando achavam que ninguém mais estava ouvindo, mas sabia o suficiente sobre os Black, sobre o nome que pesava como uma sentença, sobre o tipo de coisas que se sussurravam quando o assunto era aquela família, para entender que "chegar a esse ponto" provavelmente era algo que vinha se formando havia anos.
Quando Sirius saiu do banho, já seco e vestindo um pijama emprestado do James que era largo demais nos ombros e curto demais nos tornozelos, encontrou o quarto novo já arrumado, uma vela acesa na cômoda, e sentada na beirada da cama, esperando com o kit de primeiros socorros no colo.
— Vim ver seu machucado — ela disse, batendo de leve no colchão ao lado dela.
Ele sentou-se sem discutir, o cabelo ainda molhado do banho, pingando gotas frias no ombro do pijama, os joelhos quase se encostando aos dela na pequena distância entre os dois na beirada da cama. molhou um pano e se aproximou, encostando-o em seus lábios, gentil, já sem o sangue seco atrapalhando, só cuidando de fechar bem o pequeno corte antes de aplicar a pomada com toques leves.
— Você não precisava fazer isso — ele murmurou, a voz mais calma agora, o corpo relaxado depois do banho quente.
— Eu sei. Quero fazer.
Ele ficou olhando para ela enquanto ela trabalhava, em silêncio, a vela projetando sombras suaves no rosto cansado dele. Quando ela terminou, guardando o pote de pomada de volta na caixinha, Sirius segurou o pulso dela de leve, antes que ela se afastasse de vez.
— Obrigado, . — Ele hesitou, os olhos presos nos dela, como se procurasse as palavras certas em algum lugar que não costumava visitar. — Por hoje. Por essa casa toda ter me recebido sem fazer perguntas, sem me olhar como se eu fosse um problema pra resolver.
— Ninguém aqui te acha um problema, Sirius.
— Ainda não me conhecem direito — Ele deu um meio-sorriso, mas sem a leveza de sempre. — Dá tempo.
— Eu acho que já te conheço um pouco — Ela segurou sua mão por um momento. — E não muda nada do que acabei de dizer.
Ele ficou em silêncio por um instante, algo suavizando na expressão cansada dele, e então, baixinho, quase sem querer que ela ouvisse:
— Ainda assim, obrigado.
se levantou, guardando o kit debaixo do braço, sentindo o olhar dele acompanhá-la até a porta.
— Boa noite, Sirius.
— Boa noite, .
Ela fechou a porta atrás de si e ficou parada no corredor escuro por um instante, ouvindo o silêncio da casa toda dormindo, pensando em como seriam as coisas a partir daquele dia.
II
Em uma semana, já parecia que Sirius sempre tinha morado ali, seu jeito de ocupar espaço se espalhando pela casa toda: a jaqueta de couro pendurada torta no cabide de casacos, discos empilhados perto do gira-discos da sala e o cheiro de sabonete e perfume caro impregnando a casa.
aprendeu rápido que conviver com Sirius Black diariamente era uma experiência inteiramente diferente de vê-lo de longe, nos corredores de Hogwarts, cercado da fama e das risadas de sempre. De longe, ele era só um nome, o melhor amigo do irmão, o garoto bonito e irresponsável que trocava de namorada como quem troca de meias, sempre com uma piada pronta e uma legião de garotas suspirando atrás dele pelos corredores.
De perto, ele era desconcertantemente humano.
Ele roncava baixinho quando cochilava no sofá da sala, um braço sempre caído para fora da almofada, a boca entreaberta de um jeito nada charmoso que nunca contaria a ninguém ter achado adorável. Detestava geleia de framboesa com uma irritação quase pessoal e amava geleia de morango com uma paixão tão desproporcional que chegava a roubar o pote inteiro no café da manhã, sem um pingo de vergonha. Cantarolava sem perceber quando estava concentrado demais em alguma coisa, desafinado, sempre a mesma música de um grupo trouxa que ele jurava ter ouvido escondido uma vez e nunca mais esquecido.
E tinha pesadelos. descobriu isso na segunda semana, quando ouviu passos descendo a escada tarde da noite e encontrou Sirius na cozinha, sentado no escuro, os ombros curvados, o copo d'água esquecido na sua frente enquanto ele fitava a mesa com os olhos vidrados de quem ainda não tinha voltado de verdade de onde quer que a mente o tivesse levado durante o sono.
Ele tentou disfarçar quando a viu. Endireitou as costas, forçou um meio-sorriso e comentou alguma bobagem sobre fome de madrugada, mas aprendeu a reconhecer aquele olhar específico, o jeito que as mãos dele tremiam de leve em volta do copo, o silêncio pesado demais para ser só sono interrompido.
Na primeira vez, ela não disse nada. Só colocou a chaleira no fogo, preparou duas xícaras de chá sem perguntar se ele queria, e sentou-se do lado dele em silêncio até que a respiração dele voltasse ao normal. Na segunda vez, ele já a esperava com duas xícaras tiradas do armário, como se de alguma forma já soubesse que ela também desceria. Na terceira, virou rotina. Era um acordo silencioso que nenhum dos dois precisou verbalizar em voz alta.
Eram nesses momentos, envoltos pelo silêncio da casa dormindo e pelo vapor subindo das xícaras, que sentia estar vendo a versão mais verdadeira de Sirius Black.
Naquela semana, ela encontrou-o sentado à mesa da cozinha, tomando café com toda a calma do mundo, o jornal do dia anterior aberto na sua frente mesmo que ele claramente não estivesse lendo nenhuma palavra.
— Bom dia — ele disse, sem erguer os olhos, um sorriso já brotando no canto da boca.
— Bom dia — ela respondeu, indo até o armário buscar um copo, sentindo os olhos dele acompanhando cada movimento seu pela cozinha.
Ele se levantou pouco depois, indo até a geladeira exatamente no momento em que ela estava parada bem na frente, servindo-se de suco de abóbora gelado. Em vez de esperar, ou pedir licença, Sirius simplesmente se aproximou por trás, o corpo quase colando no dela por um instante enquanto esticava o braço para pegar o pote de geleia na prateleira de cima, mais perto do que precisava e o suficiente para que ela sentisse o calor que irradiava dele antes mesmo de perceber que ele tinha se movido.
— Com licença — murmurou, a voz baixa, quase junto ao ouvido dela.
sentiu o rosto inteiro esquentar, o calor subindo rápido demais pelo pescoço e pelas bochechas antes que ela conseguisse fazer qualquer coisa a respeito. Ficou ali, paralisada, o copo de suco esquecido na mão, enquanto ele recuava um passo com a geleia e a observava.
— Você fica bonita ficando vermelha assim — ele comentou, um sorriso lento se abrindo no rosto.
— Eu não estou vermelha — ela conseguiu dizer, a voz saindo mais fraca do que pretendia, o que só piorava a mentira.
— Claro que não, Potter.
Foi nesse instante que James entrou na cozinha, bocejando, o cabelo tão bagunçado quanto o do melhor amigo, e Sirius voltou a ser só Sirius: alto, barulhento, comentando alguma coisa sobre o jogo de Quadribol da noite anterior, como se não tivesse passado o minuto inteiro flertando descaradamente com a irmã mais nova dele bem debaixo do próprio nariz.
James nem desconfiou. Por que desconfiaria? Ele mesmo tinha deixado a regra clara anos antes, numa tarde qualquer no dormitório masculino, meio brincando e meio não: "Sirius, se você olhar pra minha irmã desse jeito de novo, eu te mato". Todo mundo riu na hora, inclusive Sirius, que fingiu achar graça enquanto por dentro guardava a certeza incômoda de que aquela não tinha sido bem uma piada. James confiava cegamente que o amigo respeitaria aquela única linha, e Sirius, até onde James sabia, sempre tinha respeitado.
Brincalhão e sem noção de limite com qualquer garota que cruzasse o caminho dele, menos com ela. Essa era a regra, e James dormia tranquilo acreditando nela havia anos.
Não significava nada. Nunca tinha significado.
gostaria de conseguir acreditar nisso também, então bebeu o suco em silêncio, sentindo o gosto doce e ácido na língua, e tentou não pensar em quanto tempo ainda faltava até o verão acabar.

III
Na segunda quinzena de agosto, James arrastou os dois para o jardim atrás de casa para praticar Quadribol, carregando três vassouras, um pomo emprestado do time da escola enquanto o calor abafado fazia o ar tremer sobre a grama seca.
não era boa voadora. Nunca tinha sido, e sabia disso, mas gostava do vento na cara e da desculpa de ficar horas fora de casa vendo o irmão e Sirius se provocarem no ar como dois cães brigando por osso. Sirius, por outro lado, voava do jeito que fazia tudo: com um abandono displicente que escondia, mal, o quanto ele era genuinamente talentoso.
— Você voa feito uma coruja bêbada — gritou ele, cruzando por ela em alta velocidade, o vento da passagem bagunçando ainda mais o cabelo dela.
— E você fala demais para quem devia estar pegando o pomo — ela gritou de volta, rindo, ziguezagueando a vassoura para se afastar dele.
No fim da tarde, exaustos, os três se jogaram na grama para descansar, o suor grudando as camisas na pele e a respiração ainda ofegante. James foi buscar água na cozinha, deixando os dois sozinhos sob o céu que começava a ganhar tons de laranja.
Sirius estava deitado ao lado dela, um braço dobrado atrás da cabeça, os olhos fechados, o peito subindo e descendo rápido pelo esforço do voo. se permitiu olhar só um pouco, só o suficiente para notar as gotas de suor descendo pelo pescoço dele, a camisa colada no corpo, a linha do maxilar tenso mesmo relaxado. Mas então ele abriu os olhos de repente e a pegou olhando.
Ela devia ter desviado, mas já era tarde.
— Gostou da vista? — ele perguntou, a voz rouca de cansaço, um sorriso lento se formando.
— Estava vendo se você ia sobreviver ao esforço. Parecia que ia desmaiar. — Ela deu de ombros.
— Mentirosa. — Ele se virou de lado, apoiado no cotovelo, aproximando o rosto do dela o suficiente para que ela sentisse o calor que ainda emanava da pele dele, misturado ao cheiro de grama, suor e verão. — Você estava olhando pra outra coisa.
— Você é convencido demais para o seu próprio bem, Black.
— E você cora demais para alguém que não estava me secando.
levou a mão ao próprio rosto, sentindo o calor ali, que até podia ser do sol da tarde, mas os dois sabiam que não era só isso. Antes que ela conseguisse formular uma resposta à altura, a porta dos fundos bateu e James voltou gritando alguma coisa sobre sorvetes, e Sirius se afastou, rindo, como se nada tivesse acontecido.
Mais tarde, a tempestade do fim de agosto caiu sem aviso, transformando o quintal em um lamaçal em minutos e obrigando todo mundo a correr para dentro de casa. James e o pai dele se refugiaram na oficina do jardim para terminar de consertar um velho rádio bruxo, deixando Sirius e sozinhos na varanda coberta, vendo a chuva cair em cortinas grossas e barulhentas.
O ar tinha ficado mais frio de repente, cheiro de terra molhada subindo forte, e se abraçou, sentindo a pele arrepiada pelo vento que entrava pela abertura da varanda.
— Está com frio — Sirius constatou, já tirando a própria jaqueta de couro sem que ela pedisse.
— Não precisa.
— Eu sei que não preciso. — Ele colocou a jaqueta sobre os ombros dela mesmo assim, as mãos demorando um segundo a mais do que o necessário ali, e o cheiro dele que já estava gravado na memória dela envolveu-a por completo. — Mas gosto da ideia de ver você usando minhas coisas.
Ela não respondeu. Não confiava na própria voz para dizer nada que não soasse revelador demais, então só suspirou baixinho ao lado dele, deixando-se sentar no batente da varanda, com as pernas balançando para fora, os pingos de chuva às vezes salpicando os pés descalços dela. Era mais fácil assim, fingir que o silêncio era só isso, silêncio, e não a única forma que ela tinha encontrado de não dizer em voz alta o quanto gostava de estar usando as coisas dele, o quanto aquele gesto simples pesava mais do que devia.
Um trovão estourou perto o suficiente para fazer o chão tremer, e , sem pensar, se encolheu para o lado dele. Sirius passou o braço em volta dos ombros dela num gesto automático, protetor, e ela sentiu o coração dele bater forte contra o próprio ombro.
— Não sabia que você tinha medo de trovão — ele murmurou, a voz baixa perto do ouvido dela.
— Só desse tipo de trovão. — Ela manteve o rosto virado para a chuva, incapaz de olhar para ele àquela distância. — Os grandes, que parecem que vão rachar a casa ao meio.
— Esse não foi tão grande assim.
— Foi o suficiente.
Ele riu baixinho, o peito vibrando contra o ombro dela, mas não se afastou, pelo contrário, o braço em volta dela se ajeitou um pouco melhor, os dedos roçando de leve no ombro dela por cima da jaqueta emprestada. Ficaram assim por um longo minuto, o mundo lá fora desabando em chuva e vento, e o espaço entre os dois corpos parecendo cada vez menor, cada vez mais impossível de ignorar.
A mão dele desceu do ombro dela até o braço, os dedos traçando um caminho lento e distraído, deixando um rastro de arrepios que não tinha nada a ver com o frio. virou o rosto para olhá-lo, e encontrou os olhos dele já fixos nela, só que não somente nos olhos dela, mas em sua boca também.
— Sirius...
— Eu sei — ele disse, antes que ela terminasse, a testa quase encostando na dela. — Eu sei que não posso.
— Então por que continua fazendo isso?
Ele não teve resposta para aquilo. Só ficou ali, tão perto que ela podia contar os cílios dele, os olhos cinzentos escuros de alguma coisa que não era só desejo, era também medo, e culpa, e um pouco daquela mesma covardia que o fazia fugir de qualquer coisa que ameaçasse virar importante demais.
A porta dos fundos se abriu com o barulho de James sacudindo a chuva do cabelo.
— Sirius! Vem ver isso aqui, o rádio do meu pai tá fazendo uma fumaça estranha e ele jura que é normal!
Os dois se afastaram rápido, o momento se despedaçando. Sirius levou uma mão ao próprio rosto, soltando o ar que parecia estar segurando havia um minuto inteiro, e se levantou num movimento brusco demais para ser natural.
— Já vou! — gritou de volta, a voz um pouco mais rouca do que o normal.
Antes de entrar, olhou para mais uma vez, um olhar rápido, quase de desculpas, como se estivesse tentando decidir se devia dizer alguma coisa ou fingir que nada tinha quase acontecido ali. No fim, optou pelo silêncio, só um meio-sorriso torto antes de desaparecer porta adentro, deixando-a sozinha na varanda com o coração ainda descompassado e a jaqueta dele pesando morna sobre os ombros.

IV
Havia uma pequena biblioteca no segundo andar da casa dos Potter. Era mais uma sala de estudos do que uma biblioteca de verdade, prateleiras baixas cheias de livros de Herbologia antigos e revistas de Quadribol emboloradas, onde costumava se refugiar à noite para adiantar a leitura obrigatória do próximo ano letivo.
Foi lá que Sirius a encontrou, tarde da noite, quando o resto da casa já estava dormindo, uma vela solitária iluminando a mesa onde ela debruçava sobre um livro grosso sobre poções avançadas.
— Estudando nas férias. Que triste — ele comentou, se apoiando no batente da porta, os braços cruzados, um sorriso preguiçoso no rosto.
— Alguns de nós querem ser Curandeiros, Black. Preciso de notas melhores que "Aceitável" para isso.
— Eu tenho notas ótimas.
— Você tem sorte e charme. Isso não é a mesma coisa que estudar.
Ele riu e entrou na sala mesmo assim, puxando a cadeira ao lado da dela, perto, e ficou ali, folheando distraidamente um livro qualquer que pegou da estante, os olhos vagando entre as páginas e o perfil de , com a luz da vela desenhando sombras douradas no rosto concentrado dela.
— Você fica bonita fazendo essa cara — ele disse, de repente, quebrando o silêncio.
— Que cara?
— Essa quando está concentrada. A testa franzida, mordendo o lábio… — Ele sorriu, virando mais uma página do livro que segurava sem realmente prestar atenção nele. — É engraçado de ver.
— Engraçado ou bonito? Decide.
— As duas coisas, aparentemente. Não sabia que dava pra ser as duas ao mesmo tempo até te conhecer.
revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o meio-sorriso que escapou antes de voltar a atenção para o livro.
— Qual é o seu livro preferido? — ele perguntou, depois de um tempo.
Ela hesitou por um segundo, sem esperar aquele tipo de curiosidade genuína vinda dele, mas respondeu mesmo assim:
— Eu amo Fantástico Ianque no Castelo do Rei Arthur. É um livro trouxa, meu pai que me apresentou. — Ela indicou um exemplar surrado na prateleira ao lado.
Ele balançou a cabeça, fechando o livro que segurava e alcançando o exemplar surrado que ela tinha acabado de mostrar. Abriu na primeira página, os olhos correndo rápido pelas primeiras linhas.
— Posso? — perguntou, já sem esperar resposta, se acomodando melhor na cadeira ao lado dela.
— Você nem gosta de ler.
— Eu posso começar a gostar. — Ele disse aquilo com uma naturalidade quase distraída, os olhos já fixos na página, ignorando completamente o jeito que ela tinha ficado paralisada ao lado dele. — Agora estuda. Vou ficar quieto.
E, para surpresa dela, ele ficou. Os minutos foram passando naquele silêncio estranhamente confortável, só o som das páginas virando e o riscar da pena dela nas anotações, a vela derretendo devagar entre os dois. De vez em quando, erguia os olhos e o pegava genuinamente absorto na leitura e sentia alguma coisa apertar no peito diferente de tudo que já tinha sentido por ele até ali. Ele estava ali, quieto, tentando gostar de uma coisa só porque era dela.

V
Quanto mais o verão avançava, mais os caminhos deles pareciam se cruzar sem aviso: na escada, na cozinha, na porta do jardim, sempre naquele instante exato em que nenhum dos dois esperava encontrar o outro.
já tinha perdido a conta de quantas vezes aquele corredor estreito parecia se armar contra os dois de propósito.
Daquela vez, foi no fim da tarde. saiu do próprio quarto ainda ajeitando a manga da blusa, distraída, no mesmo segundo em que a porta do antigo quarto de hóspedes — e que havia se tornado simplesmente "o quarto do Sirius" — se abriu do outro lado, e ele saiu com o cabelo ainda bagunçado de uma soneca da tarde.
Os dois foram para o mesmo lado. Depois para o outro. Sirius riu primeiro, aquele riso genuíno que fazia os olhos dele se franzirem nos cantos, e pousou as mãos nos ombros dela gentilmente só para guiá-la para o lado certo.
Só que nenhum dos dois se moveu depois disso.
Ficaram ali, mais perto do que qualquer desculpa justificaria, o corredor estreito demais para qualquer distância segura. As mãos dele continuaram nos ombros dela, os polegares parados contra a curva do pescoço, e sentiu cada ponto de contato como se fosse a única coisa que existia no mundo naquele instante. Ela tinha o rosto virado para cima, porque ele era mais alto e a respiração dele descia quente contra a testa dela, contra o topo do nariz.
Os olhos dele desceram devagar, sem pressa nenhuma de esconder, da boca dela para o pescoço, e voltaram, como se ele estivesse tentando decorar cada centímetro antes de se obrigar a recuar. sentiu o próprio corpo inteiro reagir àquele olhar, um calor descendo do peito até o estômago, a pele formigando debaixo da blusa fina, o ar ficando pesado demais para respirar direito.
— Sirius.
— .
Nenhum dos dois completou a frase que devia vir depois do nome do outro. As mãos dele desceram um pouco dos ombros para os braços dela, os polegares traçando círculos lentos e quase inconscientes na pele exposta, e sentiu cada terminação nervosa do próprio corpo se acender com aquele gesto mínimo. Lá embaixo, a voz de James ecoou chamando por Sirius para ajudar a carregar as vassouras para o jardim, e o momento se partiu tão rápido quanto tinha se formado, como sempre.
Sirius deu um passo para trás primeiro e sorriu do jeito de sempre.
— Com licença, madame — disse, se curvando de forma exagerada, teatral, como se quisesse deixar bem claro que aquilo tinha sido só uma brincadeira.
riu, porque era isso que deveria fazer. Só que a risada saiu mais fraca do que deveria, e ela levou a mão ao próprio peito assim que ele desceu a escada, tentando entender por que o corpo inteiro ainda formigava por causa de um corredor apertado e trinta segundos de silêncio com aquele garoto.

VI
O incidente do banheiro foi, nas palavras da própria , "a pior coisa que já aconteceu com ela em dezoito anos de vida". O que era um exagero, mas não muito.
Ela tinha certeza de que tinha trancado a porta, mas não tinha. E Sirius entrou sem bater, sem camisa, com a escova de dente já na mão, absolutamente alheio ao fato de que o banheiro estava ocupado, e , que àquela altura já tinha saído do box e alcançado a toalha na bancada rápido demais para pensar em qualquer outra coisa, se viu, por uma fração de segundos, completamente nua diante de Sirius Black antes de conseguir se cobrir.
Os dois congelaram.
Ela se enrolou na toalha num movimento rápido, quase desajeitado, o rosto e o pescoço em chamas, o coração disparado de um jeito que não tinha nada a ver só com o susto.
— Sirius! Sai daqui!
— Eu... — Ele piscou, a escova ainda suspensa no ar, e por um instante pareceu genuinamente sem reação, o que era raro o suficiente para qualquer um que o conhecesse. — Desculpa, eu juro que não sabia que tinha alguém aqui.
— A porta não estava trancada, eu sei, eu esqueci, só... sai!
Ele não saiu na mesma hora. Ficou parado ali, os olhos presos nos dela, sem descer, como se estivesse fazendo um esforço deliberado para não fazer exatamente aquilo que qualquer outro garoto teria feito sem pensar duas vezes. E havia algo nesse esforço, nessa contenção visível, que deixava tudo ainda pior do que se ele tivesse simplesmente olhado.
— Eu vou sair — ele disse, finalmente, a voz mais rouca do que o normal. — Só... me dá um segundo. Eu meio que esqueci como andar.
— Sirius!
— Tá, tá, estou indo. — Ele recuou até a porta, ainda sem desviar o olhar do rosto dela, e parou ali, a mão na maçaneta, como se não conseguisse se obrigar a sair de verdade. — Só pra constar: eu vou lembrar desse último minuto pelo resto da vida.
— Isso não ajuda em nada.
— Eu sei. — Ele sorriu, um sorriso torto, nervoso, tão diferente do sorriso de sempre que ela quase esqueceu de estar com raiva. — Mas é verdade.
— Sai. Daqui. Agora.
Ele finalmente saiu, fechando a porta atrás de si com um cuidado exagerado, como se qualquer barulho pudesse piorar a situação. Do outro lado, ela ainda ouviu a voz dele, baixa, quase pra si mesmo:
— Definitivamente vou precisar de um banho frio agora.
se apoiou na pia, o coração ainda martelando, encarando o próprio reflexo no espelho embaçado. Não sabia dizer o que era mais alto ali dentro dela: a vergonha, ou a lembrança do jeito que ele tinha ficado parado, os olhos presos só no rosto dela como se aquilo já fosse mais do que suficiente para desarmá-lo por completo.

VII
No início da última semana de agosto, alguns amigos do colégio vieram passar a tarde na casa dos Potter, entre eles, Marlene McKinnon, que tinha uma queda antiga e nada discreta por Sirius, e não perdia a chance de demonstrar isso.
observou, da cadeira do jardim onde fingia ler, Marlene rindo alto demais de todas as piadas de Sirius, tocando o braço dele a cada duas frases, os cabelos loiros brilhando ao sol enquanto ela se inclinava perto demais para sussurrar alguma coisa no ouvido dele. Sirius, por sua vez, respondia com o mesmo charme de sempre. O sorriso de lado, os comentários espirituosos, o jeito displicente de quem estava plenamente acostumado a ser desejado.
Era exatamente o Sirius que conhecia de Hogwarts. O galanteador. O que nunca dizia não a uma atenção fácil.
Sentiu um aperto estranho no peito, uma pontada quente e desconfortável que ela reconheceu, incomodada, como ciúme. O que não fazia sentido nenhum, porque ela não tinha direito algum sobre ele, porque os dois nunca tinham sido nada.
Ainda assim, ela se levantou e entrou em casa, incapaz de assistir por mais tempo.
Foi para a cozinha, tentando se distrair fatiando frutas para a limonada que ninguém tinha pedido, quando ouviu passos atrás dela. Não precisou virar para saber quem era.
— Fugindo da festa? — Era a voz de Sirius, mais perto do que ela esperava.
— Só vim buscar mais gelo.
— Mentira. — Ele se encostou na bancada ao lado dela, os braços cruzados, observando-a fatiar o limão com uma concentração exagerada demais para ser real. — Você foi embora bem na hora que Marlene se sentou do meu lado.
— Não tem nada a ver.
— Tem tudo a ver, e nós dois sabemos disso.
largou a faca com mais força do que pretendia, o barulho ecoando na cozinha vazia, e finalmente virou para encará-lo, a irritação subindo quente pelo peito, misturada com alguma coisa mais vulnerável que ela preferia não nomear.
— O que você quer que eu diga, Sirius? Que não gosto de ver você flertando com qualquer garota que aparece na sua frente? Isso não muda nada. Você é assim. Sempre foi.
— Eu não estava flertando de verdade com ela.
— Parecia bastante convincente lá fora.
— Porque é assim que eu sou com todo mundo. — A voz dele saiu mais baixa, mais tensa, o charme de sempre escorregando por um segundo. — É fácil. Não significa nada. Nunca significou nada, com ninguém.
— E o que isso muda pra mim?
Ele deu um passo mais perto, o espaço entre os dois encolhendo rápido demais, os olhos cinzentos presos nela com uma intensidade que fez o ar da cozinha ficar pesado.
— Muda tudo. — A voz dele baixou ainda mais, quase um sussurro rouco. — Porque, com você, eu não sei fingir. Eu tento, . Tento sorrir do mesmo jeito, falar do mesmo jeito, ser o Sirius de sempre e não consigo, porque toda vez que eu olho pra você eu esqueço completamente como fazer isso.
sentiu a respiração travar na garganta, o corpo inteiro ciente da distância mínima que ainda os separava, do calor que emanava dele, do jeito que os olhos dele desciam por um segundo até a boca dela antes de voltarem a encará-la de frente.
— Isso não é justo — ela sussurrou.
— Eu sei. — Ele ergueu a mão, quase tocando o rosto dela, os dedos parando a centímetros da pele, hesitando. — Nada disso é justo. Pra mim, pra você, pro seu irmão que confia cegamente em mim. Mas eu não consigo simplesmente parar e não sentir mais nada por você, e isso me apavora mais do que qualquer coisa que já aconteceu.
Antes que ela pudesse responder, ou que a mão dele finalmente completasse o gesto, risadas altas se aproximaram da porta da cozinha dos amigos entrando para buscar bebidas, e Sirius recuou rápido, o rosto se recompondo na fração de segundos que só anos escondendo sentimentos podiam ensinar.
Mas guardou aquela frase como quem guarda um tesouro perigoso demais para mostrar a alguém.

VIII
Na última semana de agosto, em uma noite qualquer, incapaz de dormir, desceu até o jardim e encontrou Sirius já lá, sentado na grama ainda quente do dia, olhando as estrelas com aquela expressão distante.
— Não devia estar dormindo? — perguntou ela, sentando ao lado dele, guardando uma distância que já não fazia mais sentido nenhum guardar.
— Tenho dormido mal ultimamente. — Ele não olhou para ela, os olhos fixos no céu. — Pesadelos. Coisas de casa.
Havia algo na voz dele, uma vulnerabilidade rara, que fez se aproximar sem pensar, o ombro dela roçando no dele.
Ficaram em silêncio um longo tempo, o tipo de silêncio que os dois já tinham aprendido, ao longo daquele verão, a não precisar preencher com piadas. O vento noturno trazia o cheiro de grama cortada e terra ainda quente, grilos cantando em algum lugar da escuridão, e sentia o calor do corpo dele ao lado do dela como uma âncora estranha e reconfortante.
— Você sabe que pode falar comigo, né? — ela disse, por fim, quebrando o silêncio. — Não precisa ser sobre os pesadelos. Pode ser sobre qualquer coisa.
Ele ficou quieto por um momento, os dedos arrancando distraidamente pequenos tufos de grama ao lado do corpo.
— Minha mãe queimou minhas coisas antes de eu ir embora, sabia? — falou, por fim, a voz estranhamente neutra, como se contasse aquilo pela primeira vez em voz alta e ainda estivesse testando o tamanho da dor. — Os pôsteres, os discos, tudo que eu tinha guardado escondido debaixo da cama. Ela achou meu quarto, assim como eu por um todo, "uma vergonha para a família", então decidiu resolver isso com fogo.
— Sirius...
— Não, tudo bem. — Ele deu de ombros, mas o gesto saiu rígido demais para ser genuíno. — Era só um monte de coisa trouxa que eu gostava escondido. Nada que importasse de verdade.
— Importava pra você.
Ele finalmente virou o rosto para olhá-la, alguma coisa vacilando na expressão dele. Surpresa, talvez, por ela não ter tentado minimizar, nem fingido que aquilo era bobagem, do jeito que ele mesmo estava tentando fazer.
— É engraçado — disse, devagar. — Eu conto piada sobre isso pro James, e ele ri comigo, porque é assim que a gente lida com as coisas. Rindo. Fingindo que não dói. — Ele fez uma pausa, os olhos presos nela. — Com você, eu nem preciso fingir que não doeu. Você só... deixa doer. E de alguma forma isso ajuda.
sentiu o peito apertar, uma ternura estranha se misturando a tudo que já sentia por ele.
— Talvez porque eu não preciso que você seja engraçado o tempo todo — disse ela, baixinho. — Só precisa ser você.
— E se eu não souber quem sou? Longe das piadas e de tudo que todo mundo espera de mim?
— Então a gente descobre juntos.
— Eu gosto do jeito que você faz isso — ele disse, baixinho. — De cuidar de mim sem fazer parecer que eu preciso ser cuidado. Sem aquela cara de pena que todo mundo faz quando descobre que sou um Black diferente dos Black.
— Eu não sinto pena de você, Sirius.
— Eu sei. É por isso mesmo. — Ele voltou os olhos para o céu, mas o ombro dele se encostou mais no dela, como se buscasse aquele contato sem querer admitir em voz alta. — Você só... presta atenção. Não tenta consertar nada, não finge que não é tão ruim quanto é. Só fica.
— Isso é tão difícil assim de encontrar?
— Você não faz ideia. — Ele riu, um som baixo, cansado, mas real. — A maioria das pessoas quer ou me consertar ou fingir que não tem nada pra consertar. Você é a primeira que só... senta do meu lado e deixa ser o que é.
Ele olhou para ela por um longo momento, algo se acalmando na expressão dele, os ombros perdendo um pouco da tensão que carregavam desde que tinha começado a falar. Então, devagar, deitou-se de costas na grama, puxando-a gentilmente pelo pulso para que ela fizesse o mesmo, os dois lado a lado, olhando para o céu estrelado.
— Minha preferida é aquela ali que parece uma concha torta. — Ele apontou, o dedo traçando uma constelação qualquer contra o céu escuro.
— A Ursa Maior?
— É. — Ele sorriu, sem tirar os olhos do céu. — Mas o nome que eu dei tem mais graça do que Ursa Maior.
— Isso porque você nunca prestou atenção nas aulas de Astronomia.
— Eu prestava atenção. Só decidi que os nomes eram chatos demais pra guardar. — Ele virou o rosto para olhá-la, o canto dos lábios ainda curvado. — Prefiro inventar os meus. Aquela pequena ali, do lado, eu chamo de "a que parece rir de mim".
— Ela não parece rir de você.
— Parece sim. Olha bem. — Ele apontou de novo, mais perto do rosto dela do que da estrela em si, o braço quase roçando no dela.
riu, um som leve que pareceu preencher todo o silêncio da noite, e vendo aquele sorriso de verdade, Sirius sentiu que aquilo importava mais do que devia.
— E essa daqui? — Ela apontou para outra, só para prolongar o momento. — Também deu um nome pra ela?
— Essa não tem nome ainda. — Ele olhou para ela em vez de para o céu. — Mas é a que eu vou lembrar pro resto da vida, quando pensar nesse verão.
Ela não soube o que responder a isso. Só ficou ali, deitada ao lado dele, sentindo o peso confortável do silêncio que se seguiu.

IX
A última noite de agosto chegou carregada daquele peso estranho de quando as coisas estão prestes a acabar. No dia seguinte, o trem os levaria de volta para Hogwarts, onde tudo voltaria a ser mais fácil de esconder, com corredores cheios, aulas, Salão Principal lotado e distância suficiente para que os dois pudessem fingir, de novo, que tudo que viveram nas últimas semanas não tinha significado nada.
não conseguia dormir. Virava de um lado para o outro, as cobertas emaranhadas nas pernas, encarando o teto escuro do quarto enquanto os pensamentos rodavam sem parar: o verão tinha passado inteiro, cheio de quase, de quase-toques e quase-beijos e quase-confissões, e amanhã ela ia embarcar naquele trem sem ter feito nada a respeito.
A ideia de deixar tudo aquilo simplesmente morrer ali, sem resolução, era pior do que qualquer medo que ela tivesse de James, ou das consequências, ou de qualquer regra não escrita que os dois tivessem respeitado o verão inteiro.
Ela se sentou na cama, o coração já acelerado só de pensar. Não tinha um plano, só a certeza teimosa de que precisava vê-lo, precisava dizer alguma coisa antes que fosse tarde demais, antes que o trem levasse os dois de volta para o castelo onde voltariam a ser apenas o melhor amigo de James e a irmã mais nova dele. Levantou-se antes que a razão a fizesse desistir, os pés descalços tocando o chão frio, e atravessou o quarto na escuridão até a porta.
Girou a maçaneta devagar, o coração martelando tão alto que ela quase não ouviu o som do próprio movimento, e abriu a porta, encontrando Sirius do outro lado, a mão ainda suspensa no ar, parado no gesto exato de bater.
Os dois congelaram.
Por um segundo, nenhum dos dois disse nada, só ficaram ali, se encarando no escuro do corredor, a surpresa estampada igual nos dois rostos, como se o universo tivesse decidido, finalmente, parar de brincar com a paciência dos dois.
Sirius foi o primeiro a se mover. Entrou no quarto sem pedir licença, fechando a porta atrás de si com um clique baixo, e ficou parado ali, tão perto dela que podia sentir o calor do corpo dele mesmo sem tocá-lo, a respiração dos dois mais acelerada que o normal.
— Aonde você ia? — ele perguntou, a voz baixa, rouca de sono ou de outra coisa, os olhos cinzentos presos nela mesmo na escuridão.
Ela não respondeu, não conseguia, a proximidade repentina dele tinha apagado qualquer frase que ela tivesse planejado dizer, deixando só o silêncio pesado entre os dois.
— .— A voz dele saiu mais firme dessa vez, mas não menos suave. — Aonde você ia?
— Eu... — Ela engoliu em seco, a garganta seca, o corpo inteiro ciente da distância mínima que os separava, do jeito que ele parecia preencher o quarto todo só de estar ali. — Eu ia te ver.
Foi tudo que precisou dizer.
Sirius avançou o último passo que faltava e a beijou. Não devagar, não hesitante como ela imaginava que seria, mas com uma urgência contida havia semanas, talvez meses, finalmente extravasando de uma vez. As mãos dele encontraram o rosto dela, os dedos se enroscando nos cabelos soltos, puxando-a mais para perto como se a distância entre os dois corpos ainda fosse grande demais para o gosto dele. se agarrou à camisa dele com as duas mãos, na ponta dos pés para alcançá-lo melhor, o coração disparado, a cabeça girando com a intensidade repentina de tudo aquilo que os dois vinham reprimindo desde a primeira semana de agosto.
Ele a guiou para trás, sem quebrar o beijo, até que as costas dela encontraram a parede ao lado da porta, o corpo dele colado ao dela, uma mão descendo do rosto para a cintura, segurando-a firme ali como se tivesse medo de que ela desaparecesse se ele soltasse. soltou um som baixo contra a boca dele, entre surpresa e satisfação, e sentiu Sirius sorrir no meio do beijo, sem parar, o gesto se transformando em algo ainda mais intenso, as mãos dele explorando devagar a curva da cintura dela por cima do tecido fino do pijama.
Quando finalmente se separaram, ofegantes, com as testas coladas, nenhum dos dois conseguiu falar por um instante. Só ficaram ali, respirando o mesmo ar, os corações batendo tão descompassados que pareciam um só.
— Achei que você nunca iria criar coragem.
— Eu tinha coragem de sobra. — Ele riu baixinho, a testa ainda colada na dela. — Só não tinha certeza se você me queria de volta.
— Achei que tinha deixado bem claro.
— Você deixou. Eu só sou teimoso o suficiente para precisar ouvir de novo. — Ele beijou a testa dela, demorado, os braços a envolvendo por completo. — Diz de novo.
— Eu ia te ver porque gosto de você, Sirius — ela falou, o sorriso finalmente se abrindo no rosto dela. — Só que você chegou primeiro.
Ele a puxou de volta para outro beijo, mais lento dessa vez, mais deliberado, como se os dois tivessem, finalmente, todo o tempo do mundo.
As mãos dela deixaram a camisa dele para subir até o pescoço, os dedos se perdendo nos cabelos negros na nuca dele, puxando-o mais para perto num impulso que não tinha nada de tímido.
Sirius gemeu baixinho contra a boca dela, o som abafado, e a mão que segurava a cintura dela apertou de leve, os dedos se firmando na curva do quadril como se ele precisasse de alguma coisa para se ancorar. A outra mão subiu, devagar, pela lateral do corpo dela, até parar na base do pescoço, o polegar traçando a linha da mandíbula dela com um cuidado que contrastava com a urgência do resto.
sentiu as pernas fraquejarem, o corpo inteiro respondendo a cada toque como se tivesse esperado o verão inteiro só por aquilo. Ele desceu a boca do lábio dela para o canto da mandíbula, depois para o pescoço, um beijo lento e deliberado logo abaixo da orelha, e ela teve que segurar com mais força nos ombros dele para não perder completamente o equilíbrio.
Ele riu baixinho contra o pescoço dela, o som vibrando contra a pele, e voltou a boca para a dela, o beijo ganhando um ritmo mais profundo, como se ele estivesse tentando memorizar cada segundo daquilo. As mãos dele se moveram outra vez, uma subindo para segurar o rosto dela com uma delicadeza quase contraditória com a intensidade do momento, a outra ainda firme na cintura, mantendo os dois corpos colados sem espaço nenhum entre eles.
Foi ela quem, num impulso, o puxou pela mão em direção à cama, um gesto pequeno, mas que carregava tudo que os dois já sabiam sem precisar dizer em voz alta. Sirius parou por um segundo, os olhos buscando os dela no escuro, uma pergunta silenciosa pairando no ar entre eles.
— Tem certeza? — ele perguntou, a voz rouca, mas cuidadosa, nenhum traço de pressa nela.
— Tenho — respondeu , sem hesitar, a certeza mais firme do que qualquer coisa que ela tivesse sentido o verão inteiro.
Ele sorriu e a beijou de novo, enquanto os dois se moviam juntos na escuridão do quarto, a porta trancada guardando, finalmente, o segredo que os dois não precisavam mais fingir esconder um do outro.
A última noite de agosto se estendeu por horas que pareceram durar o verão inteiro, e quando o sol começou a clarear o céu do lado de fora da janela, nenhum dos dois tinha dormido, mas a verdade era que eles não se importavam.

X
O sol nasceu cedo demais sobre a casa dos Potter, e com ele veio a correria de sempre dos dias de embarque para Hogwarts: malas sendo arrastadas escada abaixo, corujas agitadas nas gaiolas, a mãe de gritando lembretes de última hora pela casa inteira.
Sirius tinha saído do quarto dela horas antes com passos silenciosos pelo corredor, cuidadoso o suficiente para não acordar ninguém, chegando ao próprio quarto só a tempo de tomar um banho rápido e vestir uma roupa limpa antes que a casa toda despertasse. Quando desceu para a cozinha, o cabelo ainda úmido, havia um cansaço bom estampado nos olhos dele, do tipo que nenhuma quantidade de sono teria tirado.
desceu pouco depois, com um sorriso que não conseguia disfarçar direito, encontrando Sirius já sentado à mesa. Ele ergueu os olhos assim que ela entrou, e por um segundo os dois só se olharam, o peso de tudo que tinha acontecido horas antes pairando no ar entre eles.
— Dormiu bem? — ele perguntou, o tom inocente demais, um sorriso brincando no canto da boca.
— Muito pouco, na verdade — respondeu ela, se servindo de suco, incapaz de conter o próprio sorriso.
— Que pena. — Ele mordeu a torrada, os olhos brilhando de um jeito que fazia o estômago dela se revirar. — Espero que valha a pena mesmo assim.
— Valeu.
Por baixo da mesa, o pé dele encontrou o dela, um toque leve e proposital que subiu de leve pela panturrilha, e teve que morder o interior da bochecha para não sorrir demais na frente do irmão, que entrou na cozinha logo em seguida, o cabelo tão bagunçado quanto o do melhor amigo, alheio a tudo, contando animadamente sobre o time de Quadribol daquele ano.
— Vocês dois estão estranhos — comentou James, se servindo de café, olhando de um para o outro com uma suspeita distraída que não durou nem dois segundos.
— Só cansado — disse Sirius, displicente, sem tirar os olhos do próprio prato. — Noite mal dormida.
— Típico do primeiro dia de aula — resmungou James, já voltando a falar sobre o time, sem perceber o olhar rápido e cúmplice que os dois trocaram por cima da mesa.
Na estação, entre o vapor da locomotiva e a confusão de famílias se despedindo, Sirius conseguiu um segundo a sós com ela, escondidos atrás de uma coluna, longe dos olhos de James.
— Isso não vai ser fácil — ele disse, a testa encostada na dela, as mãos seguras na cintura dela.
— Eu sei.
— Vamos ter que ser discretos.
— Você? Discreto? — Ela riu, apesar do nervosismo. — Isso vai ser interessante de ver.
— Por você, Potter, eu aprendo. — Ele beijou a testa dela, demorado, antes de se afastar, o apito do trem soando ao longe. — Ainda não contamos pro seu irmão, mas prometo que a gente conta. Quando for a hora certa.
— E se ele descobrir antes?
— Então eu corro mais rápido que ele. — Ele sorriu, aquele sorriso de sempre, mas agora reservado só para ela.
Ficou sério por um instante, os dedos apertando de leve a cintura dela, como se estivesse reunindo coragem para dizer alguma coisa que vinha guardando havia mais tempo do que o verão inteiro.
— Eu gosto de você mais do que deveria, . Mais do que é razoável, e bem mais do que eu pensei que pudesse gostar de alguém. — A voz dele saiu mais séria do que o normal, sem nenhum traço de brincadeira escondendo o que ele realmente sentia. — E isso me apavora um pouco, sendo sincero…
— Eu também gosto de você mais do que deveria — ela respondeu, sem hesitar, o coração batendo forte no peito. — E acho que gosto desde antes de admitir isso pra mim mesma. Vamos fazer dar certo.
Ele sorriu, e se inclinou para lhe dar um selinho rápido, quase inocente, mas carregado de tudo que as palavras não tinham conseguido dizer inteiro.
— Vem — disse, puxando-a pela mão, o apito do trem soando mais insistente. — Antes que seu irmão venha atrás de nós dois.
E, de mãos dadas até o último instante possível antes de precisarem se separar, os dois embarcaram de volta para Hogwarts carregando um segredo pequeno e enorme ao mesmo tempo.


Fim
Nota da autora
Gente, eu nem acredito que finalmente fiz minha primeira shortfic!
Eu estava tão obcecada por tudo relacionado aos Marotos que, se eu não escrevesse alguma coisa, provavelmente ia surtar. Então… cá estamos!
Confesso que foi um pouco difícil escrever sobre a época dos Marotos, principalmente porque eu não era uma grande consumidora de fanfics sobre eles - pelo menos não até hoje. E, como boa parte do que conhecemos sobre essa época acabou sendo construído e desenvolvido pelos próprios fãs, eu tentei dar o meu toque à história e, ao mesmo tempo, manter a essência.
Me esforcei bastante para fazer essa história do jeitinho que eu imaginava e espero MUITO que vocês gostem, se apaixonem pela e pelo Sirius e, principalmente, se divirtam lendo tanto quanto eu me diverti escrevendo. 🖤
E, se essa shortfic der certo… quem sabe eu não crio coragem e invento uma longfic dos Marotos? Enfim, obrigada por estarem aqui e espero que vocês gostem! ♡
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