I
Chovia quando Sirius Black bateu na porta dos Potter pela primeira vez naquele verão, e havia algo de simbólico nisso que ninguém comentou na hora. Ele estava encharcado até os ossos, o casaco grudado no corpo alto, e um corte no lábio que já tinha parado de sangrar havia horas e secado em uma linha escura e feia. abriu a porta antes que ele batesse pela segunda vez. Ela havia ouvido os passos no jardim, o barulho de alguém tropeçando nas roseiras da mãe.
Por um segundo, os dois só se olharam. A luz amarela do corredor caindo sobre ele, os cabelos negros escorrendo água pelo rosto, os olhos cinzentos brilhando com uma mistura de vergonha e cansaço que ela nunca tinha visto antes naquele garoto sempre tão certo de si mesmo.
— Desculpa aparecer assim — ele disse, a voz mais fraca do que provavelmente queria, tentando um sorriso que não chegou a sair direito. — Eu fugi de casa e… Não sabia mais para onde ir.
— Não precisa se desculpar.
Ele não se moveu. Ficou ali, parado no batente, pingando água no tapete, como se de repente não soubesse mais como entrar numa casa sem ser convidado, ou como se, pela primeira vez em muito tempo, não tivesse certeza de que merecia ser.
Foi isso que fez alguma coisa se apertar no peito de . Ela não pensou muito antes de agir. Simplesmente deu um passo à frente e o abraçou, sem se importar com a roupa encharcada, com o frio que passou imediatamente para a sua própria blusa ou com o fato de que aquilo não era algo que costumavam fazer.
Sirius enrijeceu por um segundo. Surpreso, talvez sem saber o que fazer com um gesto tão simples depois de uma noite daquelas, mas então, devagar, os braços dele a envolveram também, o rosto se inclinando contra o topo da cabeça dela, e sentiu o corpo dele relaxar aos poucos, como se estivesse soltando um peso que vinha carregando havia horas, ou talvez anos.
Nenhum dos dois disse nada por um tempo. Só o som da chuva lá fora, e a respiração dele, mais calma agora, contra o cabelo dela.
— Você nem perguntou o que aconteceu — ele murmurou, por fim, a voz abafada.
— Não precisava perguntar.
Ele riu baixinho. Um som pequeno, sem a graça de sempre, mais parecido com alívio do que com humor.
Quando finalmente se afastaram, havia algo diferente nos olhos dele, algo que ele normalmente escondia atrás de charme e piadas fáceis, e que por aquele instante breve ficou completamente exposto para ela.
A mãe de tomou conta da situação assim que os viu parados na porta, praticamente empurrando Sirius escada acima com uma pilha de toalhas nos braços e ordens claras de tomar um banho quente antes que pegasse um resfriado. Enquanto isso, ela e o marido se apressaram em arrumar o antigo quarto de hóspedes.
James ficou remexendo no corredor, sem saber muito bem o que fazer com as próprias mãos, o rosto tenso de um jeito que raramente via nele.
— Ele vai ficar bem — ela disse, baixinho, passando por ele com um travesseiro extra debaixo do braço.
— Eu sei... — James suspirou, encostando a cabeça na parede. — Só queria que ele tivesse me contado antes que as coisas chegassem a esse ponto.
— Você sabia que ia acontecer, não sabia?
Ele não respondeu na hora, o que já era resposta suficiente. James não parecia surpreso. Chateado, sim, preocupado, também, mas não surpreso, como alguém que já esperava aquilo havia muito tempo. não sabia dos detalhes do que se passava dentro da Rua Grimmauld, não conhecia as histórias inteiras que ele e o irmão mais velho, James, trocavam baixinho no dormitório masculino quando achavam que ninguém mais estava ouvindo, mas sabia o suficiente sobre os Black, sobre o nome que pesava como uma sentença, sobre o tipo de coisas que se sussurravam quando o assunto era aquela família, para entender que "chegar a esse ponto" provavelmente era algo que vinha se formando havia anos.
Quando Sirius saiu do banho, já seco e vestindo um pijama emprestado do James que era largo demais nos ombros e curto demais nos tornozelos, encontrou o quarto novo já arrumado, uma vela acesa na cômoda, e sentada na beirada da cama, esperando com o kit de primeiros socorros no colo.
— Vim ver seu machucado — ela disse, batendo de leve no colchão ao lado dela.
Ele sentou-se sem discutir, o cabelo ainda molhado do banho, pingando gotas frias no ombro do pijama, os joelhos quase se encostando aos dela na pequena distância entre os dois na beirada da cama. molhou um pano e se aproximou, encostando-o em seus lábios, gentil, já sem o sangue seco atrapalhando, só cuidando de fechar bem o pequeno corte antes de aplicar a pomada com toques leves.
— Você não precisava fazer isso — ele murmurou, a voz mais calma agora, o corpo relaxado depois do banho quente.
— Eu sei. Quero fazer.
Ele ficou olhando para ela enquanto ela trabalhava, em silêncio, a vela projetando sombras suaves no rosto cansado dele. Quando ela terminou, guardando o pote de pomada de volta na caixinha, Sirius segurou o pulso dela de leve, antes que ela se afastasse de vez.
— Obrigado, . — Ele hesitou, os olhos presos nos dela, como se procurasse as palavras certas em algum lugar que não costumava visitar. — Por hoje. Por essa casa toda ter me recebido sem fazer perguntas, sem me olhar como se eu fosse um problema pra resolver.
— Ninguém aqui te acha um problema, Sirius.
— Ainda não me conhecem direito — Ele deu um meio-sorriso, mas sem a leveza de sempre. — Dá tempo.
— Eu acho que já te conheço um pouco — Ela segurou sua mão por um momento. — E não muda nada do que acabei de dizer.
Ele ficou em silêncio por um instante, algo suavizando na expressão cansada dele, e então, baixinho, quase sem querer que ela ouvisse:
— Ainda assim, obrigado.
se levantou, guardando o kit debaixo do braço, sentindo o olhar dele acompanhá-la até a porta.
— Boa noite, Sirius.
— Boa noite, .
Ela fechou a porta atrás de si e ficou parada no corredor escuro por um instante, ouvindo o silêncio da casa toda dormindo, pensando em como seriam as coisas a partir daquele dia.