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Revisada por: Júpiter

Última Atualização: 07/04/2026

Em uma terra distante, havia uma antiga aldeia próxima à uma floresta densa. Aldeões brincavam e dançavam por todos os lados. Era um povo feliz. Dentre eles, três garotas se destacavam. Seus nomes eram Roween, Éracles e Judren. As trigêmeas eram queridas por muitos na aldeia e, durante 15 anos, suas vidas foram completamente normais, até que, em uma noite comum de passeio, elas tiveram um momento estranho que mudou suas vidas para sempre.
— Vamos logo, vocês são muito lentas! — dizia Éracles enquanto saltitava pela grama.
— Não deveríamos estar aqui, a floresta é proibida para nosso povo — Judren falou.
— Ora, não seja tão chata, até parece que você não está curiosa sobre os segredos que aquela floresta guarda, Jud — Roween disse em um tom cômico.
— Exato! Já parou para pensar nos tipos de animais e plantas que poderíamos encontrar lá? Deve ser demais! — Éracles berrou em alegria.
— Odeio quando vocês duas estão certas…
— A gente sabe, e geralmente somos boas em atiçar sua curiosidade.
Roween deu uma piscadela para a irmã, que revirou os olhos com um sorriso no rosto.
As três seguiram por uma trilha afastada da aldeia, as luzes noturnas brilhavam atrás delas como pequenas estrelas se afastando cada vez mais. À medida que a aldeia se distanciava, Judren pensava consigo mesma se deveria seguir as irmãs ou voltar para casa e ter uma noite de sono tranquila em meio aos livros que tanto amava.
— Você pensa demais nas coisas, tenta se divertir um pouco de vez em quando, sair da linha, quebrar algumas regras ou algo assim — Roween falou, quase como se estivesse lendo os pensamentos de Judren.
— Isso pode funcionar para você, mas, sendo sincera, tenho medo de viver a sua vida de delinquente juvenil — Judren disse com um olhar distraído em Éracles, que caminhava bem em frente às duas.
— Jud, não pode julgar algo que nunca fez. Minha vida é apenas agitada, entende? Não é tão ruim quanto parece — Roween sorriu em meio à escuridão.
— Tenho medo do seu tipo de agitação — comentou Judren, rindo baixo.
Mais à frente, Éracles pensava na floresta, nos animais, pensava em todas as coisas que poderia achar naquele lugar. Não era a primeira vez que decidia sair em segredo para investigar aquele local, gostava não só da adrenalina, mas também da paz que aquelas árvores transmitiam, da tranquilidade que aquele lugar tinha em seu peito. Era seu lugar, sua casa. De alguma forma, Éracles sentia que era lá que ela deveria estar.
— Talvez ele esteja lá desta vez, talvez eu consiga falar com ele. — Pensou em voz alta, sozinha em seu mundinho.
A jovem garota de cabelos ruivos não planejava ir até aquela floresta sem razão, tinha alguém lá, um rapaz que aparentava ter a sua idade. Éracles não tinha certeza de nada, só o viu algumas vezes observando de longe. A única vez em que o viu de perto, ele fugiu antes que ela o pudesse cumprimentar. Ela lembrava de seus cabelos escuros, seus olhos marrons como os troncos das árvores e suas roupas verdes como as folhas, era um belo garoto, pensara, mas estranho. No entanto, nunca mais o tinha visto. Voltava para a divisa entre a aldeia e a floresta de vez em quando, sempre em busca de vê-lo outra vez. Seria ele apenas um fruto de sua imaginação? Um sonho distante de algo que um dia ela almejou? Não dava para saber.
— Éra! Acorda, garota! — Roween berrou, a tirando do transe em que estava.
— Eu? An? — disse, confusa.
— Você parou de repente, não estamos nem na metade do caminho. O que houve? Viu algo?
— Não, é só que… talvez eu tenha perdido o fio da meada, só isso — desconversou.
— Andem logo, antes que eu desista de vocês duas — Judren falou.
— Para quem não queria ir, você parece bem empolgada agora. Não acha, Éra? — debochou.
— Eu acho, Ro, na verdade, tenho quase certeza — Éracles disse, rindo.
— Por que quase? — Judren indagou.
— Porque ainda não ouvi você admitir, óbvio.
Caminharam por cerca de dez minutos. A noite estava estrelada, como quase sempre acontecia naquela aldeia. O céu estava limpo, quase sem nuvens e o vento gelado balançava os cabelos das meninas gentilmente. Roween não pensava em muita coisa, se deixava levar pelo momento, enquanto Éracles se perguntava quem era o tal rapaz que encontrara na floresta e Judren dizia para si mesma que aquilo havia sido uma péssima ideia.
Finalmente, como se houvessem caminhado por horas, chegaram à uma ponte que ficava acima de um riacho, a entrada da floresta.
As árvores depois daquela ponte eram enormes, cheias de galhos enfeitados com folhas robustas e verdes, uma área praticamente intocada pelo povo da aldeia.
— Por que esse lugar é proibido, afinal? Não vejo nada demais aqui — Roween falou em um tom de deboche.
— Também não sei, eu gosto daqui, é bonito e as árvores são maravilhosas — Éracles se pronunciou, em pura empolgação.
Judren, por outro lado, não estava tão surpresa. Seu olhar sério, quase imparcial, mostrava que ela sabia muito bem onde estava. Sabia que não deveria subestimar nem as lendas e nem a história daquele lugar, estava se metendo em uma encrenca enorme, sentia isso, mas não conseguia mais voltar atrás.
— Dizem que nunca conseguiram explorar a floresta e voltar com a sanidade perfeita. Muitas pessoas que entraram lá, diziam ter visto seres estranhos, quase monstros. Histórias contam que foram atacados por coisas de outro mundo. Criaturas descritas como "mágicas" ou mesmo amaldiçoadas — explicou Judren.
— Como se isso fosse real. — Roween revirou os olhos, rindo.
— Eu não subestimaria. Ninguém mais se aventurou lá dentro, não há provas sobre nada, é extremamente arriscado. Desde que um jovem chegou contando sobre esses seres estranhos querendo atrair mais pessoas anos atrás, nunca mais eles permitiram a entrada de ninguém.
— Assustador… — Roween falou com cara de espanto. — Mas não o suficiente para me fazer voltar.
— Não vão voltar atrás agora, vão? — ndagou Éracles, provocando.
— Nem morta! — Roween exclamou, animada. — Você vem, Jud?
— Cheguei até aqui, não cheguei? Vamos logo — ela disse, sem muita empolgação.
As trigêmeas se entreolharam, sorrindo. Pensavam em quem daria o primeiro passo, mas nenhuma se mexia.
— Quem vai primeiro? — Judren quebrou o silêncio.
— Ro, ela é a líder — disparou Éracles.
Roween apenas riu em resposta e logo caminhou, liderando suas irmãs. As três davam passos cautelosos, sentiam que não tinham o que temer, mas estava além do que elas sabiam.
— Espera um pouco, Éra, você realmente já entrou lá? — Judren falou.
— Bom, caminhei na beira do rio e fiquei um tempo do outro lado sem cruzar a ponte. Isso é mesmo importante?
— Então nunca atravessou a ponte diretamente?
— Tecnicamente não.
— Calem a boca, de que isso importa agora? — Roween disse, olhando para trás.
— Ela disse que já tinha entrado lá, mas nunca passou da entrada. Isso é mil vezes mais perigoso. Tem noção que a única que acreditávamos conhecer essa floresta nunca nem passou da beirada dela?
— Eu tô aqui, tá?
— Parem de pensar demais e vamos logo, não podemos ficar aqui até o sol nascer.
Judren respirou fundo, tentando se acalmar.
— Tudo bem. — Ela respirou fundo, de olhos fechados. — Nunca mais confio em vocês — disparou, irritada.
Judren sempre foi a mais responsável das três, embora a líder a maior parte das vezes fosse a Roween.
Caminharam até atravessarem a ponte por completo. Chegaram ao outro lado e nada diferente, Éracles fez algumas piadas para a irmã e elas logo seguiram mais fundo na mata. Era densa, galhos grandes e folhas grossas cobriam quase todo o céu. De repente, era como se vários pedaços de glitter cobrissem o corpo das três garotas, não era uma sensação ruim, era mais como se fizesse cócegas. Éracles foi coberta por glitter, ou seja lá o que aquilo era, em tons de verde. Judren foi cercada por glitter azul, enquanto Roween era cercada por glitter branco e preto. Mas, assim como eles apareceram, simplesmente sumiram. Pareciam ter penetrado a pele das garotas sem nenhum tipo de reação. Pensaram se aquilo não teria sido um aviso, uma ilusão ou algo parecido.
— Vocês viram isso…? — Éracles perguntou, admirando seu corpo.
— Vi… — Judren falou.
— Isso foi… incrível — Roween disse, completamente encantada.
— Eu diria bizarro — Judren respondeu.
— Melhor continuarmos… seja lá o que foi isso, deve estar agora no chão, temos que sair daqui — Roween comentou, séria.
Sem pensar duas vezes, as três decidiram ir mais fundo na mata, era como se a floresta as chamasse de alguma forma e elas não conseguiam ignorar esse chamado. Éracles sentiu um calafrio na espinha, seu coração acelerou quando, repentinamente, algo encostou em sua perna direita.
— AAAAAH! ALGUMA COISA ENCOSTOU EM MIM! — berrou ela.
— Shiiiu! É só um graveto, Éra, não grita ou vão acabar pegando a gente aqui! — Roween exclamou irritada.
— Acho que isso não foi uma ideia muito boa… — falou ela, olhando para Judren.
— Se algo acontecer, eu protejo vocês, só não gritem — Roween disse.
— Se você diz... — respondeu Judren, ignorando completamente o ocorrido anterior.
Continuaram caminhando floresta adentro, nenhum barulho era ouvido além dos sons estranhos de lá. Nenhuma pessoa ou mesmo animal apareceram. Éracles acabou ficando um pouco atrás das irmãs após o susto, graças a isso, se distraía com muita facilidade. Não precisou de muito para que ela se afastasse da dupla sem notar.
— Jud, não seria melhor voltarmos… agora…? — disse pausadamente enquanto se virava buscando sua irmã, mas ela havia sumido.
— Ha, Ha, Ha, não tem graça, vocês não sabem o que tem por aqui para me deixarem assim sozinha… meninas?
Tentou caminhar para fora da floresta, mas acabou se perdendo e se distanciando ainda mais. Éracles estava completamente perdida e sozinha e sequer sabia como havia perdido as irmãs de vista.
— Eu não deveria ter sugerido essa aventura idiota… o que eu faço agora…? — ela disse, sentindo lágrimas quentes escorrerem pelo seu rosto.

********

— Eu disse que era uma péssima ideia! — Judren esbravejou. — Era para termos ficado em casa!
— Eu sei, eu sei! Agora pode parar de dizer isso para mim? Brigamos depois de acharmos a Éra! — Roween falou, levemente irritada.
— Vocês vão se ver comigo assim que sairmos daqui! — Roween ignorou o comentário de Jud.
A dupla agora se concentrava em encontrar Éracles. Árvores, pedras, nada ficava no lugar quando elas passavam. Judren se culpava ao mesmo tempo que se irritava por pensar em perder sua irmã, pensou e repensou no momento exato em que sua intuição a dissera para voltar e se praguejou por não ter escutado enquanto tinha tempo.
Continuaram se aprofundando mais na floresta, nada. Gritavam e chamavam por Éracles, mas ela parecia ter sido engolida pelas árvores e não emitia nenhum barulho sequer.
— Precisamos voltar e trazer ajuda — Judren falou.
— Não podemos, vamos acabar sendo punidas… Vamos procurar mais um pouco, ok? Se não encontrarmos ela, nós buscamos ajuda… — Roween disse, querendo estar certa.
— Ok… — Judren respondeu, insegura.
E assim continuaram se aprofundando mais e mais por todos os lados.



Um barulho de galhos se quebrando retirou Éracles de seu surto de desespero. Ela olhou para os lados, o vento frio da noite batia em seu rosto e, secando suas lágrimas, o desespero foi aos poucos se esvaindo e dando lugar ao medo. Ela precisava sair dali, precisava que seu instinto de sobrevivência fosse maior que seu medo. Passos foram ouvidos, as folhas faziam barulhos enquanto eram pisoteadas por alguma coisa, Éracles correu. Correu o mais rápido que suas pernas conseguiam, mas tropeçou em um galho no chão e sentiu seu rosto arder pela queda, da qual não teve tempo para reagir.
— Droga! — Murmurou.
O barulho a perseguia, agora mais rápido. Seja lá o que fosse, a coisa estava correndo, estava atrás dela, talvez até a caçando. Éracles se levantou o mais rápido que pôde, suas pernas sangraram levemente enquanto uma dor aguda percorria seu corpo e mais lágrimas escorriam silenciosas. Quanto mais ela corria, mais parecia não sair do lugar, todos os caminhos que escolhia pareciam exatamente iguais. Mais passos apressados. De repente, silêncio.
— Despistei…? — disse baixinho.
Ela controlou a respiração lentamente, agora se dando um tempo para pensar. Sem dar nenhum passo até ter certeza de que estava segura, Éracles olhou para os lados, traçando um plano, uma rota de fuga caso precisasse correr novamente, mas não sabia onde estava, não sabia como encontrar suas irmãs e agora temia que aquela coisa tivesse ido atrás delas primeiro.
Sem aviso prévio, Éracles estava no chão. A dor nas costas pelo impacto a consumia, seu corpo inteiro pesava, mas não pela dor, havia algo em cima dela. Tentou concentrar sua visão para ter ao menos uma ideia do que era a coisa, estava escuro, era difícil enxergar, mas, depois de alguns segundos, ela pôde ver, eram dois pontos de luz de uma cor laranja avermelhado. A criatura era enorme, Éracles sentia as garras da coisa perfurando todo o seu corpo, mas sem a matar. Aquilo a estava torturando? Era grande demais para ser um lobo, mas ainda parecia com um. Seus olhos se encontraram, um brilho de luz contornou os olhos da criatura, o mesmo aconteceu com os de Éracles; de repente, a coisa parou de perfurá-la. A respiração quente da criatura pairando sobre o rosto de Éracles a deixou em choque, ela iria morrer se não fizesse nada.
Como um sussurro de coragem, ela moveu sua mão e pegou uma pedra que estava ao lado de seu braço, juntou o máximo de força que conseguia e bateu com a pedra na criatura, que cambaleou de cima dela, o que permitiu que a garota pudesse se levantar rapidamente.
— AI! — gritou a criatura. — MAS QUE PORRA É ESSA?!
Sua voz era quase humana, adulta e masculina. Era grossa, mas ao mesmo tempo gentil, a voz daquela coisa não causava pânico, seja lá o que fosse. Éracles não sentia medo dela, não totalmente, agora se sentia levemente confusa.
— VOCÊ FALA? — Éracles indagou, em choque.
Suas pernas não se moviam, tentou correr, mas a única coisa que funcionava em seu corpo era a boca.
— Você… me entende?
— Como assim? Você…? O que você é?
A criatura agora parecia diminuir, não era tão assustadora, parecia um filhote, mas… como? Ela tinha por volta de dois metros quando atacou Éracles e agora estava um pouco maior que um. A cabeça da garota latejou, seu corpo voltou a doer, a adrenalina que a envolvia estava aos poucos indo embora. A criatura, que agora parecia inofensiva, se direcionou a um fio de luz que passava por entre as folhas das árvores, Éracles se armou, pronta para lutar.
— Calma aí… não precisa disso tudo.
— Como não? Você tentou me matar e quer que eu fique tranquila com isso? — A criatura continuava a se mover até a luz lentamente, ignorando o nervosismo de Éra.
— Peço desculpas por isso, foi instinto.
— O que você é? — Éracles perguntou, completamente confusa.
A criatura se sentou no chão, centralizado pela luz. Agora, após tanto pavor, Éracles conseguia olhar para ele, era uma raposa, parecia um filhote qualquer, uma criatura comum, mas, por algum motivo, aquilo tinha mais de dois metros antes e agora era pequeno e falava. Éracles chegou até a considerar que tinha ficado completamente maluca e que já estaria morta naquele momento.
— Então aconteceu o que eu imaginei… Escute, garota, você consegue entender cada palavra minha, não consegue? — Éracles balançou a cabeça, indicando que sim.
— Droga, não esperava por isso agora. — A pequena raposa olhou para os lados, como se estivesse procurando por algo. — Será que alguém viu…? — disse para si mesmo.
— Dá pra me explicar o que tá acontecendo?!? — suplicou em tom de impaciência.
— Você é humana, não é? — a raposa falou, séria.
— Que tipo de pergunta é essa? É claro que sou.
— Eles vão comer meu fígado, o que eu faço agora, mãe natureza?! — A pequena raposa colocou as duas patas da frente na cabeça como se estivesse desesperado.
— Qual seu problema? Quem vai comer seu fígado?
— Todos? — indagou como se fosse óbvio. — Tem certeza de que é humana, certo?
— Sim, absoluta. Agora pode me explicar o que está acontecendo?
— Escute bem, você consegue me entender, isso quer dizer que criamos uma conexão. — Éracles o olhou com um olhar de confusão. — Quer dizer que agora eu sou seu guardião e isso não deveria acontecer com humanos. Nunca aconteceu antes e não deveria começar agora. Eu estou perdido.
— Conexão? Guardião? Olha, isso não faz o menor sentido, eu só quero sair daqui… — suplicou.
— Eu sei que é confuso… começamos com o pé esquerdo, vamos do começo, sim? Bom, muito prazer, eu me chamo Laikos. Sou uma raposa mágica e… agora sou seu guardião. Posso ao menos saber o nome da minha mestra agora? — perguntou educadamente.
— C-Claro… Sou Éracles e atualmente estou perdida… pode me tirar daqui? — Foi tudo que ela conseguiu pensar.
— Da floresta? Claro. Me siga.
Laikos caminhou por entre algumas árvores, sempre com muita convicção. Éracles o seguia cautelosamente, estranhamente ela confiava na raposa, mas não porque queria, era como se o seu coração dissesse para confiar e ela não tivesse escolha. Chegaram a um caminho um pouco mais largo, o suficiente para que pudessem caminhar lado a lado.
— Me diga, o que uma garota como você veio fazer aqui na floresta?
— Vim com minhas irmãs… — Nesse momento ela se lembrou de algo importante. — Você me atacou e por algum milagre eu ainda estou aqui… Não fez o mesmo com elas, fez?
— Com suas irmãs? Perdão, minha senhora, mas eu não as vi em lugar algum. E, quanto ao ataque, sinto muito, não era minha intenção machucá-la.
— Eu estou bem… só queria achar minhas irmãs e ir para casa logo… — Éra abaixou seu olhar novamente, encarando seus pés enquanto andava, ela secou uma lágrima teimosa que ousava cair.
— Sinto muito que tenha se perdido…
— Obrigada… — Foi tudo que conseguiu responder.

********

— Já procuramos por todos os lados, Roween, melhor voltarmos — Judren falou.
— Tem razão… Ela pode estar na entrada, não pode, Jud? — Roween disse, quase que para se convencer disso.
— Acho difícil, mas vamos torcer pra que ela esteja lá… — Judren respondeu, escondendo sua preocupação.
Elas caminharam na direção da saída. Por sorte, haviam espalhado uma trilha de fitas de cetim que Judren carregava na bolsa, colando uma a uma em cada árvore que passavam, um lance meio João e Maria, mas com um plano melhor. Seguiram as fitas com certa dificuldade, já que era difícil de vê-las no escuro e os caminhos pareciam idênticos, mas finalmente conseguiram chegar ao caminho que levava até a entrada da floresta. Caminhavam com certa incerteza e medo, Roween era a que tinha os passos mais firmes, apesar da culpa.
Ao chegar à entrada da floresta, conseguiram ver a figura de alguma coisa no chão, era algo grande, como um corpo ou algo parecido. Se aproximaram cautelosamente e, ao chegar mais perto, viram sua irmã em cima de algo peludo como um travesseiro, elas diriam que a garota poderia estar morta, isso se não tivessem reparado em sua respiração ao se aproximarem.
— Éra! — Judren correu até a irmã e a abraçou, ajoelhada.
Éracles despertou, assim como Laikos. Demoraram alguns segundos para entender tudo, Éracles teve que explicar a maior parte da história para as irmãs, descobriu que apenas ela era capaz de entender o que Laikos falava. Teria sido útil ter essa informação antes de contar que ela havia passado mais de trinta minutos falando com uma raposa. As irmãs a encararam como se ela fosse maluca, mas levaram em conta que estava tarde e decidiram ir para casa.
— Prometo voltar aqui para te ver assim que eu puder, Laikos. — A raposa se curvou em respeito e se virou, caminhando para as profundezas da escuridão que a floresta abrigava.
— Aquela raposa se curvou pra você? — Roween disse, incrédula.
— Ele é mais legal do que parece.
— Apenas vamos para casa, essa noite está louca o suficiente por hoje.
Concordaram e caminharam de volta para casa, trocaram de roupa após tomar um banho rápido e foram para cama sem fazer muito barulho. Cinco minutos depois, apenas o som dos grupos era ouvido de longe, isso, e os agradecimentos mentais que Éra fazia antes de pegar no sono completamente e sentir o corpo pesado como uma rocha.
— Boa noite… — sussurrou, fechando finalmente seus olhos e dormindo.



Dias se passaram após aquela noite bizarra na floresta, Éracles passou a voltar lá todas as tardes para conversar com Laikos e com os outros seres mágicos e não mágicos que via passando. E com seres, ela queria dizer animais dos mais variados tipos.
— Então, Laikos, como funciona tudo por aqui? — perguntou, curiosa.
— Na verdade, é bem simples, não tenho permissão para falar muito, já que você é humana, mas acho que posso mostrar um pouco de tudo, afinal, sou seu guia aqui. — Algo semelhante a um sorriso gentil surgiu na face do animal.
Laikos levou Éracles pelo máximo de lugares que conseguiu durante os dias em que ela foi visitá-lo. Ele mostrou cada detalhe de como a vida na floresta funcionava e Éracles só parecia se encantar ainda mais, mesmo com os detalhes mais simples. Conheceram animais que gostaram muito dela e animais que, no mínimo, estranharam sua presença e a levaram como ameaça. Éracles, apesar disso, tinha uma estranha conexão com todos eles. Laikos chegou até a considerar algum tipo de origem mágica vinda dela, mas nunca conseguiu comprovar nada por si só, mesmo que sentisse uma energia mínima, do tamanho de uma ervilha, crescendo dentro dela. Até aquele momento, eles tinham construído uma relação boa o suficiente para não haver tanta desconfiança, isso foi suficiente para que Laikos soubesse até onde poderia ir com a garota — e magia ainda não estava nesta lista.
— Laikos… posso te perguntar uma coisa? — disse a garota, insegura.
— Sim — respondeu, simplista.
— Existe algum humano morando nessa floresta?
— Até onde sei, não é permitido.
— Entendo. — Se desapontou. — E existem seres… eh… não humanos aqui? — indagou, tentando disfarçar sua vergonha pela pergunta.
— Existem. — O olhar dela se iluminou em confusão. — Vocês chamam eles de animais, não? — completou como se fosse óbvio.
— Não desse tipo. Algo que não seja nem humano e nem animal. Bobo.
— Ah… por que a pergunta?
— Você riria se eu contasse, não acreditaria. — Revirou os olhos, envergonhada.
— Garota, você tá falando com uma raposa, acho que "não acreditar" não é nosso problema principal aqui. — Seu tom era divertido.
— Você tem um ponto… — A ruiva riu. — Ok, eu conto.
A pequena raposa se deitou no colo da garota de forma desleixada e a encarou com os olhos brilhantes e atentos, esperando que ela começasse sua história.
— Você sabe que eu venho muito nessa floresta, mas nunca entrei aqui de fato, não até te conhecer. — A raposa concordou. — Mas teve um dia em específico… bom… eu encontrei alguém, ou melhor, ele me encontrou.
— E o que a floresta e os seres estranhos têm a ver com isso tudo?
— É que ele era estranho… diferente, eu diria. Não que seja ruim, pelo contrário, ele era bem bonito, tinha cabelos castanhos, olhos escuros, parecia ter a minha idade e essas coisas, parecia um rapaz normal. Mas eu pude jurar ter visto ele com um tipo de varinha ou algo parecido. Ele fez algumas árvores crescerem do nada e… foi lindo. Eu o vi mais algumas vezes, me observando de longe, mas nunca consegui falar com ele. Sei que não foi alucinação, tenho certeza disso. Sabe algo sobre ele? O conhece? — Éracles olhou para Laikos, cheia de esperanças.
Algo estranho pairou no olhar do animal, algo como surpresa e medo ao mesmo tempo. Não dava pra ter certeza, mas de uma coisa Éracles sabia, Laikos estava escondendo alguma coisa.

********

Judren estava lendo um livro de física perto do lago, coisa que era de costume para ela. Desde aquela noite bizarra, ela adquiriu um tipo de obsessão por aquela área da aldeia, algo como se a água a chamasse, loucura, obviamente, mas não podia deixar de admitir que aquele lugar, além de bonito, era tranquilo para desfrutar de um bom momento de leitura. Após algum tempo sentada, suas pernas começaram a formigar. Jud levantou preguiçosamente e começou a andar ao redor do lago com o livro embaixo do braço, a brisa leve batia em seu rosto e agitava seus cabelos escuros durante o percurso, até um barulho alto vindo da aldeia a assustar, algo como uma explosão. Suas pernas bambearam, de repente parecia que o chão havia cedido. Jud caiu no lago em desespero.
— Socorro… — Não sabia se tinha falado ou se apenas havia pensado tais palavras, mas sabia que ninguém a tinha ouvido.
Em algum momento, sua visão começou a escurecer, sem ar e sem forças, Judren tentou subir, tentou colocar menos peso em seu corpo, tentou boiar para cima, droga, nada adiantava. A agonia a consumia, seus pulmões se apertavam a cada segundo, pareciam se contrair enquanto a água fria abraçava o corpo da garota indefesa. Ela sentiu o corpo bater no chão com certa força, seus braços já não a obedeciam e o oxigênio estava para acabar quando abriu os olhos e soltou a última quantidade de ar presa em seus pulmões… Inspirou… Sabendo que engoliria água demais no processo, esperando que, assim, sua morte pudesse ser menos agonizante quanto estava sendo agora.
Então, de repente, sentiu o peito se encher novamente enquanto via a luz do sol iluminando a superfície do lago. Judren olhou para os lados, confusa, parecia estar respirando, mesmo que não estivesse fora da água. Os peixes nadavam ao seu redor como se tentassem tocá-la. Um leve pânico tomou conta da garota, estava dentro da água, conseguia respirar, estava assustada, mas se sentia livre, de alguma maneira a água a libertou. Seu corpo começou a se mexer quase que de forma independente, ela sabia o que fazer para subir, só não sabia como tinha descoberto isso. O importante é que Judren, de um jeito muito estranho, tinha acabado de sobreviver a um afogamento e seu pior pesadelo agora a havia libertado de uma prisão que nem mesmo ela sabia que estava.
O sol iluminou o rosto da garota que agora se encontrava em terra firme. Se passaram apenas alguns minutos desde que ela caiu no fundo do lago, mas então por que para ela esses minutos se pareceram com décadas dentro da água? Suas roupas pesavam e seu corpo ainda estava confuso pelo choque, parecia pesar pelo menos dez quilos a mais.
Judren caminhou lentamente para cada vez mais longe do lago, o coração acelerado enquanto seu corpo tremia pelo frio, estava confusa, mas não conseguia pensar direito naquele estado, somente aproveitava a adrenalina que ainda tinha, para poder voltar para casa antes de desmaiar de cansaço.

********

— O que você quer dizer com isso, Jud? — indagou Roween, confusa.
— Exatamente o que eu falei. Algo estranho aconteceu com vocês duas desde que voltamos da floresta? — disse, séria.
— Nada além dos animais… e isso nem é tão estranho assim — Éracles falou.
— Você fala com animais, Éra. É óbvio que isso não é normal — Roween ironizou, divertida.
— Certo, certo. Isso não importa. Tem algo errado com a gente, tem algo errado com aquela floresta, com tudo isso — Judren falava com nervosismo na voz.
— Mas o que houve para você se preocupar tanto assim de repente? — Roween indagou.
Judren então, mesmo insegura, decidiu contar para as irmãs o que havia acontecido. O quarto delas estava iluminado pelo sol da tarde e as três falavam baixo, evitando que seus pais a escutassem ao máximo.
Algumas horas se passaram depois da tarde de conversa, Roween descobriu ser a única que não havia tido nenhuma experiência bizarra após a noite na floresta e, apesar de suas irmãs dizerem quão abençoada ela tinha sido, Roween não conseguia entender o motivo de elas terem ficado tão aterrorizadas com dons tão bonitos. Roween queria aquilo, queria sentir a sensação de respirar embaixo da água ou mesmo a sensação de entender os animais e se conectar com a floresta, mas tivera sido a única a não receber nada. Mesmo que ela tenha sido a única que realmente queria.
A noite caiu e as trigêmeas decidiram voltar até a floresta. Éracles, conseguiu convencer as irmãs de que seu amigo Laikos poderia ajudá-las a entender aquela situação e talvez até trazê-las de volta ao normal. Então, colocaram três capas para cobrir seus rostos e as proteger do frio e caminharam na direção da floresta. Laikos, de algum modo, já estava lá, sentado no centro da ponte, como se as esperasse.
— Saudações, mestra. — Ele se curvou, ainda com seu corpo de filhote de raposa.
— Precisamos de ajuda…
O olhar de Laikos se tornou confuso. Nem se importaram em perguntar como ele sabia que elas estariam lá naquela noite — ou se ele apenas estava lá por acaso. Começaram a contar cada detalhe do que havia acontecido quase sem pausa, Judren tinha um olhar assustado, enquanto o olhar de Roween apenas disfarçava a tristeza que sentia. Éracles, por outro lado, acompanhava a história em cada passo dela, encarando Laikos vez ou outra.
Como se uma lâmpada se acendesse em sua cabeça, Laikos soltou um sorriso, disfarçando a preocupação, e as levou para a mais profunda parte da floresta. O frio já não as alcançava mais, era como se a floresta tivesse algum tipo de proteção que as mantivesse aquecidas. As árvores se tornaram mais espessas e sombrias que o início e o chão parecia mais movediço também. As estrelas do céu quase não tinham espaço para brilhar quando vistas de dentro daquele breu.
Caminharam por alguns minutos, até que Laikos parou em frente à uma grande árvore velha, pronunciou algumas palavras em uma língua que nunca haviam ouvido antes e alguns barulhos — como se fossem coisas se chocando — começaram a ecoar. Éracles se perguntou, por alguns segundos, como nunca tivera ouvido esse som antes, tinha certeza de que mesmo de fora da floresta seria capaz de ouvi-lo.
A árvore se abriu ao meio, revelando uma parte escondida da floresta, nela, as árvores eram mais abertas. O céu cobria a parte superior do local como um tapete cobre o chão perfeitamente, era o tipo de visão que você só consegue ver em uma pintura. Mesmo estando à noite, aquela parte da floresta era estranhamente bem iluminada, algumas cabanas de madeira se espalhavam por cima das árvores dali. Uma trilha de terra cercada por flores dava as boas-vindas às três garotas. Estranhamente, nenhuma delas se sentiu incomodada com aquilo, era como se conhecessem cada centímetro daquele lugar, mesmo sem nunca ter pisado nele. Sentiam-se tranquilas, como nunca estiveram antes.
De repente, como mágica, um rapaz apareceu na frente delas.
— E aí, Lai, você sumiu faz dias. A princesa estava preocupada — disse ele com uma voz animada e gentil.
O rapaz aparentava ter uns 16 anos, tinha cabelos castanhos escuros e olhos em um tom de mel. Sua voz era jovial, assim como seu corpo. Ele vestia algumas roupas em um estilo e material nunca antes visto pelas meninas, todos em tons de marrom e verde, como uma camuflagem belíssima. Era poucos centímetros mais alto que Éracles, praticamente da altura de Roween, que era a mais alta dentre as três.
As garotas não disseram nada, ele também parecia não tê-las visto ali. Roween e Judren não davam a mínima para a conversa que Laikos e o garoto estavam tendo no momento, estavam encantadas demais com todo o resto. Éracles, no entanto, alguns segundos após ouvir a voz do garoto, direcionou seu olhar aos olhos dele no mesmo instante em que ele a olhou de volta.
Um arrepio percorreu todo o corpo da ruiva naquele minuto, os olhos dele a penetravam ferozmente, eram como estrelas, mas a explodiam por dentro.
— Você…!? — eles disseram em conjunto.
— O que faz aqui?! — Éracles disse, mais séria do que pretendia.
— Eu que pergunto! — O rapaz olhou novamente para Laikos. — Lai, o que elas fazem aqui? Sabe que a princesa não quer humanos nessa parte do reino.
— E acha que eu não sei? Mas elas não são tão humanas quanto parecem. Tem algo estranho nelas.
— Exatamente, elas estão aqui! Isso é estranho!
— Querem parar de falar de nós como se não estivéssemos aqui? — Roween esbravejou.
— Isso é bem indelicado da parte de vocês dois. — Foi a vez de Judren se expressar.
O garoto fechou os olhos e respirou fundo, em seguida encarou as três e, pelo resto da conversa, pareceu ignorar a existência de Éracles ali, como se ela o incomodasse de algum modo.
— Tudo bem, perdão pela indelicadeza de seguir regras, senhoritas — ele disse em tom de deboche. — Me chamo Orfeu, sou o guardião do portal pelo qual vocês ousaram passar. — Ele se curvou de maneira respeitosa.
— Roween — disse ela, direta, e logo após se virou para Judren e sussurrou. — Não gostei nada desse garoto. Parece meio atrevido — Judren ignorou.
— Me chamo Judren, é um prazer conhecê-lo — falou ela educadamente.
— Sou… Éracles... — disse timidamente.
O garoto a olhou por cerca de dois segundos antes de desviar o olhar novamente. Seguiram a trilha até um grande castelo feito de vinhas e algumas folhas que cobriam a parte oca de uma grande árvore na qual o castelo foi construído. Era rústico, mas ao mesmo tempo atual. Nada naquele lugar parecia desrespeitar a floresta, era como se ela mesma o tivesse construído dentro de seus limites.
Poucas pessoas eram vistas. Algumas delas, fadas, possuíam asas e orelhas pontudas. Outras eram mais como gnomos, pequenos e fortes. Alguns eram como elfos, orelhas pontudas e algumas armas que, no mínimo, poderiam matar alguém. Alguns pareciam mais simpáticos do que outros e era fácil ouvir os seus comentários sobre a chegada das meninas. Todos, apesar de tudo, possuíam algo em comum, os animais. Cada habitante daquele lugar possuía um animal que o seguia, era como um amuleto ou algo do tipo, mas, estes, Éra não conseguia identificar ou entender. Alguns eram normais, mas outros variavam desde unicórnios até seres de pelo menos duas ou mais caudas ou olhos, eram estranhos, porém com uma aparência minimamente aconchegante. Éra se perguntou se eles também falavam com seus donos, ou se, de alguma forma, somente ela e Laikos faziam isso. Judren não conseguia aceitar que aquilo tudo era real, se beliscou silenciosamente várias vezes esperando que fosse um sonho, nada a fazia acordar, mas não era como se ela quisesse acordar mesmo que não fosse real.
Roween era a que mais estava tranquila. As árvores, os animais, tudo ali parecia acolher cada parte dela. Nem mesmo o mais estranho dos seres daquele lugar conseguia assustá-la, ela gostava de tudo e aceitava de coração aberto. Mais uma vez, das muitas desde que chegou ali, ela suplicou internamente por uma chance de ficar, e mais uma vez — assim como das outras vezes —, ninguém a respondeu.
Um som de um assovio alto as tirou de seus pensamentos. O rapaz estava com uma mão levantada enquanto usava a outra para conseguir produzir o som com a boca.
— A gente se encrencou? — perguntou Éra ao Laikos.
— Não estava prestando atenção, estava?
— Eu deveria?
— Espere e você verá. — Laikos sorriu.
Aquele sorriso de alguma forma a fazia se sentir segura. Ela direcionou seu olhar para o rapaz mais uma vez, sua postura era firme, era como se ele realmente fosse bem mais velho. Ele transmitia segurança e força, mas, ao mesmo tempo, tranquilidade e gentileza. Éra sorriu com a vaga lembrança que tinha dele em sua mente, dos encontros inesperados e das tentativas de conversa, ele parecia mais maduro agora. Se perguntava a razão de ele não a ter dado abertura para falar ainda. Ela se abaixou e ficou de joelhos ao lado de Laikos, suas irmãs observavam tudo com cautela, de alguma forma elas estavam em um equilíbrio perfeito, uma prestes a surtar e sair correndo, e a outra observando e guardando o máximo de informações que conseguisse.
— Laikos, o que ele é? — indagou da maneira mais delicada que conseguiu pensar.
Laikos a olhou e em seguida se voltou para o garoto novamente.
— Orfeu? Ele é um elfo, é basicamente o guarda daquela entrada que você cruzou na noite que se perdeu, ele deveria ter ido ajudar e ter impedido vocês de entrarem.
— E por que ele não estava lá?
— Você vai entender, mas, de forma resumida, digamos que a floresta tinha outros planos para ele naquele momento.
Éra voltou a olhar o garoto, que ainda permanecia na mesma posição de antes. Virou-se para suas irmãs com um sorriso acolhedor em busca de acalmá-las. Jud, infelizmente, não estava para muitos acordos, enquanto Ro confirmava com o olhar que ficaria de olho nela.
Na mente de Roween, ela somente dizia para si mesma para não ter ciúmes ou inveja de suas irmãs pelos dons que receberam, mas era algo mais forte que ela, era uma coisa crescendo que ela almejava, um desejo profundo de ser recompensada pelos seus anos de pânico por se sentir deslocada. Roween queria uma única chance para se provar merecedora daquilo e finalmente poder ficar em um lugar que ela sentia ser seu lar.



Demorou cerca de cinco minutos até que uma criatura brotasse voando de dentro do grande castelo. Ela possuía uma cor levemente arroxeada e uma aparência que deveria lembrar uma raposa, mas possuía um olhar negro e orelhas visivelmente maiores e mais pontudas. Tinha o tamanho semelhante ao que Laikos possuía quando atacou Éra, mas a diferença era que esse animal possuía uma caixa incrivelmente felpuda, era como se usasse aquilo para voar. Ele pousou em frente ao tal Orfeu e se curvou de maneira delicada. Como mágica, seu tamanho diminuiu e o animal tomou a forma de uma raposa roxa filhote com uma aparência bem mais fofa que no início.
O coração das meninas acelerava à medida que aquela "coisa" se aproximava, tinham medo do que aconteceria e chegaram até a cogitar sair correndo e fingir que aquilo nunca tinha acontecido, mas suas pernas não se mexiam, muito menos suas bocas.
— Olá, pequena, você demorou, estava comendo? — disse Orfeu para o animal, mas ele nada respondeu, mesmo que eles parecessem estar conversando. Diferente de Laikos, Éra não conseguia ouvir a voz da raposa do garoto, rapidamente comprovou sua teoria e sentiu o peito estufar, não de orgulho, mas sim de confusão.
— Fique calma, ela é amiga — Laikos falou delicadamente.
— O quê? Como sabe?
— Posso sentir sua energia quando ela pesa… pode confiar em nós, ninguém vai te ferir enquanto eu estiver por perto.
— É isso que me preocupa… — falou Jud em tom baixo.
O garoto se levantou e começou a caminhar na direção do grupo com a raposa em seu ombro, sua postura era visivelmente mais tranquila quando ela estava por perto e Éra não conseguia deixar de notar a conexão que eles possuíam unidos.
— Bom, Lai… e meninas — disse a última parte lentamente, não como ofensa, era mais como insegurança. — Essa é a Last… meu animal mágico.
A raposa fez o mesmo que Laikos, pareceu sorrir para cumprimentar a todos e balançou sua cauda em forma de saudação. Éra foi a primeira a se aproximar, fazendo vários olhares caírem sobre si, coisa que estranhamente ela não se incomodava.
— Olá, Last, sou a Éra. — Ela sorriu, simpática.
A raposa curvou sua cabeça, alegre.
— Posso? — indagou, erguendo a mão direita para a raposa enquanto olhava para Orfeu.
— Acho que se ela permitir…
— Nesse caso, posso, pequena? — perguntou, agora olhando para a raposa, que baixou a cabeça em sinal de permissão.
Éra fez um carinho rápido no pelo do animal. Sentiu como se estivesse tocando em nuvens ou algo mais fofo que isso. O pelo da criatura era incrivelmente macio e delicado, sentia que poderia se viciar se continuasse tocando. Éra afastou a sua mão com cautela e voltou a atenção para Laikos, que a olhava com orgulho brilhando no olhar.
— É isso que você é pra mim, certo, Laikos? Um animal Mágico.
— Precisamente, mestra.
— Fico feliz de ter sido você. — A ruiva sorriu e Laikos se contraiu, parecendo ter ficado tímido.
— Obrigado, senhora…
Éra se abaixou para perto de seu animal e o surpreendeu com um cafuné. Ainda fazendo carinho na cabeça de Laikos, Éra olhou para suas irmãs que pareciam confusas com o jeito que a ruiva aceitava tudo que estava acontecendo. Um riso soprado surgiu em sua face e mais uma vez seu olhar se direcionou ao garoto que a estava admirando, seus olhares se chocaram e ele foi o primeiro a desviá-lo, um incômodo percorreu a espinha de Éra no mesmo minuto.
— Bom… o que faremos agora? Passamos muito tempo aqui e ainda não descobrimos o que aconteceu conosco…
— Agora vamos até a princesa, ela vai saber lidar com vocês — Laikos disse, simplista.
— "Lidar"? — Jud indagou.
— Relaxem, não é como se ela pudesse matar vocês com um estalar de dedos. Não que não possa — Orfeu falou em tom divertido.
— Péssima hora pra piadas, bobo da corte — Ro disse em um tom sério.
— Quem é o bobo da corte aqui?
— Você mesmo, quer um espelho?
— Escuta aqui-
— Chega! — Éra interviu. — Temos coisas mais importantes pra resolver…
— Éra tem razão, logo irá amanhecer e precisamos voltar para casa antes dos nossos pais acordarem — Jud se pronunciou, entediada.
Todos concordaram com um aceno e Orfeu deu as costas, seguindo uma trilha até o grande castelo, sendo seguido por todos do grupo. As garotas agora pareciam mais tensas, suas mãos estavam suando a cada passo, o desespero pelo que a princesa poderia fazer com elas era enorme o suficiente para deixá-las à beira de um colapso nervoso.
As portas do grande castelo se abriram, dentro dele elas puderam notar um corredor iluminado e um piso que se assemelhava à argila branca com paredes que variavam entre galhos de árvores e vinhas com flores pequenas e delicadas. Tudo estava muito bem iluminado, tanto que, por alguns minutos, as meninas se esqueceram completamente que o sol ainda não havia nascido. Passaram por várias portas de madeira altas, eram pelo menos seis portas por corredor. Alguns corredores mais tarde, chegaram a uma porta diferente das outras, esta possuía um brasão semelhante a uma borboleta dourada, mas que brilhava como o arco íris quando alguma luz batia no ângulo certo. Orfeu parou em frente à porta, respirou fundo e se virou para o grupo.
— É aqui. Irei anunciar a presença de vocês à princesa, por favor, esperem sem fazer barulho. — Ele se virou e abriu a porta sem esperar uma resposta.
Ao entrar, Orfeu se virou novamente para fechar a porta do lugar. Nesse momento, seus olhos se encontraram com os de Éra mais uma vez, um sorriso singelo surgiu em sua face antes de as portas se fecharem completamente. A garota se perguntou se mais alguém tinha notado aquele sorriso além dela, aparentemente não. De repente, sentiu uma mão gentil a puxar para trás, ao olhar, Éra reparou que Jud e Roween se encolhiam juntas em um canto e era Jud quem a puxava. As três se juntaram em um grupinho em um canto próximo à uma porta em frente ao salão da princesa meio apreensivas.
— Éra, posso te fazer uma pergunta? — Jud indagou.
— Claro. Algum problema?
— Qual sua relação com aquele garoto?
“Elas viram!” Éra pensou, disfarçando sua surpresa.
— E-eu e ele? O que quer dizer? — gaguejou, tropeçando em suas próprias palavras.
— Ah, pelo amor de Deus — Ro interveio. — Vocês se conhecem, certo?
— Mais ou menos… um pouco.
— Como se conheceram, de onde e quando? — disparou Jud.
— Vocês pareciam se conhecer bem mais que só um pouco — Ro falou.
Éra se viu contra a parede e desistiu de esconder. Finalmente contou para suas irmãs tudo que aconteceu desde a primeira vez em que ela viu Orfeu na vida. Ambas escutaram atentamente sem sequer interromper. Ro desconfiava de algo a mais, sempre fora a mais atenta entre as três, já Jud se tornava mais e mais apreensiva à medida que a história avançava, parecia temer mais do que deveria. Quando a história chegou ao fim, nenhuma delas conseguia falar nada, parecia errado, mas parecia certo ficar em silêncio. Decidiram apenas com um olhar que era melhor deixar aquele assunto para depois.
Alguns minutos se passaram e um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente, até que as portas se abriram mais uma vez. O coração da garota ruiva deu uma cambalhota ao encarar Orfeu e um sorriso brotou em seu rosto, ele não a encarou, mas sorria em resposta, quase como se soubesse. Ele arrumou sua postura e olhou para a pequena raposa que aguardava sentada em frente à porta completamente adaptada ao ambiente.
— A princesa pede que vocês entrem. Ela quer falar com as garotas pessoalmente.
— Garotas, peço que se comportem o máximo que conseguirem e façam uma reverência assim que entrarem, certo? — Elas concordaram com um aceno e respiraram fundo, finalmente dando o primeiro passo para dentro do grande salão.



O clima dentro do salão era ameno, de alguma forma, o espaço lá dentro conseguia ser frio e quente ao mesmo tempo. O lugar era enorme, Ro jurava que era o dobro do tamanho de sua casa. O piso era branco — parecido com mármore — e aos lados havia cerca de seis janelas com cortinas em tom de verde claro que bloqueavam um pouco da iluminação do sol que passava pelos vidros. No centro do salão havia uma escada de mais ou menos quatro degraus, onde, no topo, existiam dois tronos, um esbanjava cores em verde e dourado, o outro era mais voltado ao azul e ao prata e era um pouco menor que o primeiro.
No trono maior, encontrava-se uma moça, aparentemente bem jovem e de cabelos dourados. Ela usava um grande vestido igualmente dourado com detalhes de flores em branco. Sua pele era clara e seus olhos eram como estrelas brilhantes, a jovem moça transmitia graça e beleza apenas com o olhar.
— Princesa, essas são as três garotas que mencionei. — Orfeu se virou para encarar as meninas. — Por favor, apresentem-se para a princesa. Apenas o primeiro nome e idade.
Éracles foi a primeira a se curvar da forma mais graciosa que conseguia lembrar de ter visto em histórias.
— Me chamo Éracles, tenho quinze anos — falou em um tom relativamente alto e levemente desajeitado.
— Sou a Judren, Vossa Alteza. Irmã gêmea da Éracles. — Curvou-se mais graciosa que sua irmã.
— Roween, Vossa Alteza, também sou irmã gêmea das meninas. — Ro se curvou da forma mais desajeitada entre as três, o que fez com que a princesa soltasse um leve risinho discreto.
A princesa se levantou de seu trono e seu vestido se arrumou perfeitamente em seu corpo relativamente robusto. Barulhos de saltos delicados foram ouvidos dentro do grande salão enquanto a princesa caminhava de maneira firme e leve ao mesmo tempo. Tudo nela parecia resplandecer à medida em que caminhava. Ela se aproximou das meninas e tocou de forma gentil os cabelos caídos e castanho escuros de Roween que imediatamente ergueu seu olhar diretamente para os olhos da princesa.
— O que traz vocês à minha corte? — indagou gentilmente.
— Achamos que a senhora pode explicar alguns acontecimentos estranhos que aconteceram conosco… não é nossa intenção questionar nada relacionado ao seu domínio, Vossa Alteza — Judren disse, temendo ter sido grossa.
A princesa direcionou o olhar para as outras gêmeas que agora a encaravam com certa insegurança.
— Imagino que eu saiba o que lhes aconteceu. Gostariam de conversar durante o chá? Não precisam de tanta formalidade, tudo será explicado durante uma conversa informal. Sigam-me.
Ela se direcionou até a porta de saída do salão e todos a seguiram. Viraram uns dois corredores exatamente iguais até chegarem a um outro salão um pouco menor que o primeiro. Nele, as janelas davam diretamente para a vila das criaturas mágicas. Algumas cadeiras estavam posicionadas em um perfeito círculo ao lado das janelas de vidro gigantes e uma mesinha branca se encontrava no centro delas com algumas bandejas de chá e de alguns tipos de doces. A princesa se sentou na cadeira que ficara de costas para a janela e, com a mão, fez um gesto para que as três meninas, Orfeu e Laikos se acomodassem também.
Assim que se sentaram, puderam notar quão confortáveis eram aquelas cadeiras acolchoadas. Um aroma de frutas tomou conta do lugar, quando uma elfa mais jovem entrou pela porta com uma bandeja cheia de bolinhos cortados em cubos pequenos e enfeitados com morangos. A garota tinha cabelos curtos e esverdeados — assim como seus olhos — e usava um vestido em tons de branco e roxo claro que contrastavam com sua pele morena. Ela se aproximou da mesa central e, após deixar a bandeja em cima da mesa, se posicionou timidamente ao lado da princesa.
— Garotas, essa é minha mais jovem aprendiz, Lily — disse a princesa, indicando a garota, que abaixou o olhar rapidamente. — Ela tem a idade de vocês atualmente. Diga oi para as nossas convidadas, Lily.
— Olá, prazer em conhecê-las. — Sua voz doce e aguda soou tão baixa quanto um sussurro.
— Olá, sou a Éracles, pode me chamar de Éra. Essas são minhas irmãs, Judren e Roween. — Éra se curvou um pouco para mais perto da pequena garota e falou em tom baixo: — A Ro só parece que morde, ela é um amorzinho, você vai ver. — Éra notou a garota rir um pouco, quebrando a tensão.
— Podem comer enquanto me contam o que houve. Lai, gostaria de começar? — falou a princesa, pegando um dos bolinhos da bandeja.
— Claro, Vossa Alteza. — A raposa se acomodou um pouco e se deteve em uma postura mais séria. — Essas três garotas têm visto algumas coisas estranhas em seu cotidiano, começando com a ruiva que se tornou minha guardiã mágica…
O olhar da princesa não se modificou, diferente do olhar de todos os presentes na sala. Orfeu teve um olhar de espanto enquanto a jovem elfa Lily se prendeu em um olhar de surpresa.
— E com as outras duas ocorreram coisas tão estranhas quanto… — Laikos contou cada parte da história que as irmãs haviam contado para ele em detalhes.
Durante esse momento, ninguém ousou interrompê-lo, mesmo que Orfeu demonstrasse sua agitação interna a cada minuto. A princesa, no entanto, parecia saber exatamente o que estava acontecendo, era como se ela já soubesse.
Passaram cerca de meia hora desde que Laikos começou a contar. Finalmente, ao fim de seu relato, a princesa direcionou o olhar para as garotas, que se encontravam cada uma com um pequeno bolo em mãos.
— Quando isso tudo começou? — indagou de maneira simplista.
— Na noite em que viemos para a divisa da floresta… — disse Jud, insegura.
— Não isso, minha jovem. Seu nome é Éra, certo? — falou direcionando o rosto para Éracles, que permanecia calada até aquele momento.
— Sim, Vossa Alteza.
— Era você que vinha para a beira do rio quase todas as tardes, estou errada? — Sua voz era doce, mas objetiva. Não estava perguntando como se não soubesse.
— S-Sim, Vossa Alteza… se me permite perguntar… como soube? Nunca cruzei a divisa antes daquela noite, então…?
— Minha jovem, nada acontece nessa floresta sem que eu saiba. Não acha que eu já a teria notificado, se não a quisesse aqui?
— Eu…
— Vossa Alteza, se me permite, nunca tivemos a intenção de invadir a floresta, só queremos saber o que aconteceu e um jeito de voltarmos ao normal — Rô falou, quase impaciente.
— Sinto muito que eu não as tenha explicado até este momento, mas a vida de vocês jamais voltará a ser o que era antes…
— Nunca mais? — Jud disse.
— Não será como se não soubessem disso, afinal, nenhuma de vocês sentia que faltava algo? Em algum momento da vida de vocês, nunca sentiram um vazio que escolheram preencher com qualquer coisa que viam pela frente mesmo sabendo que isso não faria ele sumir?
— Vossa Alteza, o que isso quer dizer? O que três jovens humanas poderiam ter com a floresta? — Laikos falou.
A princesa riu baixo, não em tom de zoação, mas sim de algo além disso. Algo que ninguém conseguia decifrar.
— Laikos, meu caro, por que não para de se referir às luas gêmeas como meras mortais? — disse ela carinhosamente.
— Luas gêmeas? — indagou, confuso.
— Perdão, Alteza — Rô falou. — Mas o que são as Luas Gêmeas e o que eu e minhas irmãs temos a ver com elas?
A princesa virou o olhar para Roween, que se encolheu com o ato como uma criancinha assustada.
— Bom… posso contar o que são as luas gêmeas, ou melhor… quem são.
As trigêmeas se acomodaram, tentaram pelo menos. Seus rostos esbanjavam tensão. Por algum motivo, todas sabiam onde aquela conversa as levaria, mesmo que não soubessem como sabiam. Laikos e Orfeu, por outro lado, pareciam surpresos de um jeito indescritível.
Éra direcionou seu olhar para o elfo, agora reparando um pouco em seus detalhes. A mandíbula cerrada mostrava um traço másculo e maduro. Éra pensou no olhar doce que havia visto em seu rosto várias vezes quando se esbarraram na floresta anteriormente e se perguntou quão distante daquele olhar ela estava agora. A princesa, por outro lado, parecia quase normal, se não fosse a tristeza escondida atrás de seu sorriso gentil. Se até mesmo ela estava estranha, quão grande seria a surpresa daquela história?
— Essa é uma antiga lenda passada por gerações da família real, e eu particularmente já havia desacreditado dela… parece que eu estava errada no fim das contas — começou a princesa. — Há muito tempo, antes da existência da vila que hoje vocês chamam de lar, existiam três ninfas que cuidavam do equilíbrio de todo o mundo. Seus poderes iam muito além do que o de qualquer criatura mágica que existia. A primeira, ninfa da Água, era conhecida por sua incrível inteligência e astúcia; a segunda, ninfa da natureza, conhecida por seu altruísmo e sua coragem, era uma líder nata; a terceira, ninfa da escuridão, mas não se engane por seu poder, pois, das três ela era a mais fiel aos seus ideais, conhecida por sua ambição e sua convicção, ela era a ninfa guerreira, a primeira existente desde os primórdios do nosso mundo.
— O que aconteceu com elas? — perguntou Éra.
— Diga-me, querida — A princesa olhou para Éra. — Você ama suas irmãs, não ama?
— Claro que sim, mais que tudo no mundo — respondeu sem hesitar, como se fosse óbvio.
— Mas vocês concordam com tudo?
— Não, ninguém pensa igual, nem mesmo nós.
— Assim aconteceu com as ninfas… em uma noite de lua cheia, a ninfa da escuridão decidiu que elas deveriam ter total poder sobre tudo, já que tinham força para isso, a magia deveria ser apenas delas três. As outras duas não concordaram, obviamente, achavam que a magia deveria ser para todos, que seus únicos inimigos deveriam ser os inimigos da natureza. A ninfa da escuridão não gostou nada disso, ela acreditava que o único caminho para a paz verdadeira era o controle total. As três discutiram como nunca haviam discutido na vida e a ninfa da escuridão partiu, abandonando a todos como se não importasse, mas, antes de partir, ela jurou que voltaria, jurou que provaria que estava certa e que faria todos pagarem pela falta de crença e desobediência com sua autoridade… A Floresta nunca mais foi a mesma. Assim ela o fez. Na mesma noite, dez anos depois, ela voltou. Uma luta horrível foi travada, não era mais o bem contra o mal, era o amor de três irmãs, três metades que haviam se partido.
— E o que aconteceu com elas? — Jud indagou.
— Nenhuma delas venceu. Seus níveis de poder eram inatingíveis, menos para elas mesmas. Com poderes igualmente fortes, elas lutaram até definharem sem magia alguma sustentando sua respiração. Por fim, morreram sozinhas. Como punição por seus atos, a natureza amaldiçoou suas almas, fazendo com que nunca conseguissem descansar até que encontrassem um equilíbrio entre si. As ninfas passaram a reencarnar, condenadas a brigarem e passarem pelo mesmo destino de suas ancestrais, até que desvendassem o segredo da paz verdadeira… essa é a lenda das três luas gêmeas e de sua terrível batalha por uma paz inexistente. É essa a história… das ancestrais de vocês. Seu destino escrito milênios atrás.
— Então é isso? Elas nascem, brigam, morrem e tudo se repete para sempre? — Éra falou.
— Sinto muito, minha querida… — Seu olhar transmitia empatia.
— Ou, ou, ou, tá querendo dizer que eu e minha irmãs estamos destinadas a lutar até a morte só porque uma ancestral nossa decidiu que deveria ser assim sabe lá por quê? — Roween disse em tom de ironia. — Você só pode estar brincando. Não vou brigar com elas.
— Isso não faz o menor sentido, por que nós? Por que não qualquer outra pessoa? — Jud disse.
— Não sei por que elas escolheram vocês, mas vocês podem mudar esse destino, podem mudar sua história, a história que foi escrita anos atrás…
— E você espera que a gente se una a essa bagunça toda como se fosse completamente normal? Entende que são nossas vidas que estão em jogo? Não se brinca com isso. Arrume já um jeito de acabar com essa palhaçada! — Rô se irritou.
— Não ouse tratar a princesa assim! — Orfeu se intrometeu.
— Está tudo bem, Orfeu. Deixe que ela fale. Dê um tempo para ela, é muito para assimilar — a princesa falou.
— Tempo? Não preciso de tempo, preciso de soluções! Quer saber, chega! — Rô falou e se retirou do cômodo batendo os pés com força.
— Temperamento difícil o da sua irmã, não acha? — Laikos disse baixinho.
— Ela precisa de modos — Orfeu falou, irritado.
— Não fale assim dela. A Rô tá lidando com muita coisa sozinha. Eu vou falar com ela — Jud disse, fazendo uma reverência antes de se retirar.
— Perdão pelo alvoroço, Alteza… É que a Rô sempre foi muito apegada a nós duas… deve ter sido difícil pra ela imaginar um destino sem nós…
— Não se desculpe, meu bem. Entendo perfeitamente. Confesso que não sei bem como lidar com essa situação como um todo. Se estivesse ao meu alcance, juro que daria um jeito. Não esperava que as luas gêmeas fossem de fato gêmeas e ainda tão unidas. Me parte o coração ter que contar isso tudo assim…
— Não quero acreditar que isso é verdade… sinceramente não quero brigar com elas, seja sincera, existe alguma esperança para nós? — A princesa se calou por uns dois minutos. — Entendo… vou procurar minhas irmãs, precisamos ficar juntas, mais do que nunca. — Éra fez uma reverência e se virou, mas, antes de sair, a voz delicada da princesa a fez parar.
— Escute, Éra… sei que as três tem dons, tem algo mais sobre a maldição que não contei… se não treinarem esse poder, ele irá destruí-las por dentro… temos que canalizar essa magia, talvez, assim, vocês possam ter esperança…
— Pensarei na proposta. Mas não vou fazer isso sem elas.
— Imagino que não… treinarei as três pessoalmente, caso se interessem. Podem me encontrar no jardim do castelo amanhã ao meio dia.
— Não temos escolha, temos?
— Sempre tem. Mas também sempre tem consequências. Escolha com sabedoria.
Sem dizer mais nada, Éra se retirou. O peso de tudo que ouviu caía em seus ombros como o peso de uma árvore antiga. Toda a simpatia que havia visto no rosto da princesa assim que entrou desapareceu quase que por completo. Éra queria odiá-la, queria gritar que aquilo não fazia sentido, mas algo dentro de si havia se conformado. Algo no seu coração a dizia que negar não faria aquilo ser mentira. Mas o que fazer agora? Aceitar a verdade não a tornava menos dolorosa. Brigar com suas irmãs, morrer por uma magia que ela sequer pediu para ter, tudo isso a troco de quê? Claro que havia a possibilidade de elas mudarem seu destino, mas quantas reencarnações seriam necessárias pra isso? Tudo estava tão confuso, Éra não conseguia encaixar as peças, faltava algo e não importava o quanto ela pensasse, sempre voltava para o início.



FIM.


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