CAPÍTULO 1
A caminhada até o solar do Príncipe Baelor era um dos pontos altos — e seu momento favorito — do dia da Princesa , que ia constantemente ter com o tio para conversarem sobre o que quer que lhe fosse relevante no momento, seja sobre a antiga Valíria, compromissos semanais ou o estado atual do reino. A princesa já havia notado que, entre conversas com outras senhoras da corte e bordados incompletos, era a carta do tio que esperava ou um de seus criados vir avisá-la que ele desejava sua presença. Largava o que quer que fosse para ir vê-lo.
Então, quando uma das criadas lhe trouxe uma pequena carta cheirando a sândalo com a escrita inclinada do tio, que pedia com a delicadeza de uma flor que viesse imediatamente — não com o comando de um príncipe, mas com a gentileza de um confidente —, levantou-se de imediato e pediu licença às senhoras com quem conversava para ir ao seu encontro.
As mulheres se entreolharam com a malícia de alguém que iria deleitar-se com os comentários sobre o ocorrido no momento em que se afastasse o suficiente. A princesa não era tola; sabia dos boatos maldosos que percorriam a corte sobre seus encontros constantes com o Príncipe Baelor, um homem há muito enviuvado, e ela própria uma mulher de dezenove anos que fugia de propostas de casamento como soldados covardes fugiam do combate.
Não havia tido as melhores opções recentemente, porém. Entre os irmãos Daeron, um bêbado e libertino condecorado, e Aerion, um lunático violento, preferia que o pai a vendesse para algum podre aldeão de Essos por cinco mil ovelhas, ou seja lá quanto valesse uma princesa do reino. Havia também o Príncipe Matarys, filho do Príncipe Baelor, mas o garoto era mais novo que ela e isso lhe desagradava. não desejava um garoto verde, e sim o ideal que havia sido fomentado em sua mente a vida inteira; um homem protetor, capaz e justo, honrado, que lhe trouxesse orgulho como esposa e princesa do reino.
Caminhou em meio aos estandartes Targaryen e às tapeçarias de Norvos e Kohor, os cabelos loiro-dourados como uma cascata de ouro em suas costas esguias e os sapatos a ressoar nas pedras que acompanharam a dinastia de sua família há muito tempo. Quando finalmente chegou à Torre da Mão, os guardas a anunciaram com familiaridade, já acostumados à sua presença.
O príncipe se encontrava perto da janela e acompanhava o movimento nos jardins, perdido em seus pensamentos. Os olhos de cores divergentes pareciam brilhar como tochas sob a suave luz do sol de fim de tarde que invadia os vitrais e, por um momento, recordou-se das tardes descansadas em Solarestival, nas Marchas Dornesas, seu lar. Agora, mal o frequentava; Maekar, seu pai, fora aconselhado a permitir que a princesa frequentasse mais a corte em ordem de conseguir um casamento vantajoso. Ela admitia que tirara vantagem para passar mais tempo com o tio.
caminhou devagar até a mesa do Príncipe, pronta para sentar-se em uma das cadeiras de carvalho, mas ele a parou com um gesto displicente da mão.
A princesa estranhou, mas nada disse. Normalmente, o tio já iria tê-la recebido com um de seus sorrisos discretos, porém calorosos. O mais velho, porém, limitou-se a caminhar até a mesa de madeira escura perto de sua escrivaninha. Suas mãos eram firmes enquanto se servia de uma taça de vinho e colocava uma para .
— Sobrinha — não “minha princesa” ou “passarinho”, como costumava chamá-la. O termo de parentesco parecia frio em seus lábios, como a névoa em que se transformavam os suspiros nos grandes invernos. — Acredito que tenhamos construído uma ligação que nos permite falar sem arrodeios e meias-palavras. Não irei suavizar a seriedade do assunto.
Parou para observar suas reações, mas apenas esperava. Tensão enrijecia seus ombros.
— Dorne mandou um corvo que foi recebido agora pela manhã. Eles desejam segurança, mas não por palavras vazias e cartas com promessas sem previsão de se concretizarem. Príncipe Maron Martell deseja uma princesa Targaryen para casar-se com seu filho mais velho e manter a amizade entre a Coroa e os Dorneses.
Silêncio instaurou-se entre tio e sobrinha, tão sufocante que a princesa sentiu que podia afogar-se nele. Príncipe Baelor não se apressou para preenchê-lo, apenas quando notou que parecia estar em choque, os olhos de ametista úmidos e os lábios de botão de rosa entreabertos.
— …Irá me mandar para Dorne? — pareceu finalmente reencontrar sua voz. — Eu fiz algo que o desagradou?
O príncipe a encarou como se ela houvesse, de repente, feito crescer outra cabeça em seu tronco.
— Me desagradado? — Riu levemente pela primeira vez desde que aquela conversa começara, finalmente assemelhando-se ao homem que conhecia e que fazia com que se sentisse segura. — Nunca me desagradou em seus dezenove anos de vida, princesa. Por favor… olhe para mim.
sentia o chão começar a sumir abaixo de seus pés. Seria mandada embora. Entraria em um navio para uma terra longínqua e não conviveria mais com o príncipe. Ele queria afastá-la. Seria por conta dos rumores? Sua cabeça tentava encontrar motivos, qualquer coisa que justificasse aquele ato.
— Passarinho — O príncipe tentou o apelido, e aquilo pareceu chamar sua atenção. — Isso não é uma punição. É necessidade. Eu queimaria todas as cartas vindas de Dorne se houvesse outra opção, mas alianças não são forjadas em sentimento, são esculpidas do sacrifício.
— Por que eu? — atreveu-se. — Por que não uma de minhas irmãs? Desejo permanecer em Porto Real com v… com nossa família.
Os olhos queimaram como quando dançava ao redor das fogueiras em Solarestival. Negava-se a chorar em sua frente como uma garotinha geniosa. Era uma mulher feita, mas, naquele momento, desejou poder esconder-se nas saias da mãe para escapar de um destino que a aterrorizava, das sombras desconhecidas que as fogueiras lançavam nas árvores.
Só de pensar em ficar longe de seu príncipe, seu coração doía e faltava-lhe o ar. Sua vida inteira fora construída em torno da princesa educada, dócil e polida na qual sempre pudera confiar, mas acabara de notar que ela seria a causa de sua ruína.
Não sabia exatamente quando havia se apaixonado por Baelor Targaryen. Viera sem aviso e nem um exército de um milhão de soldados seria capaz de deter tal sentimento. Começara como uma admiração inocente, afinal de contas, o príncipe havia defendido o reino da revolta dos bastardos Blackfyre antes dela nascer, era Mão do Rei, amado pelo povo e apoiado pelos nobres. Era sábio, gentil, interessante, culto e tantas outras qualidades que poderia passar horas enumerando.
A admiração tornou-se atração, como um campo pegava fogo após ser atingido por raios em tempestades de verão. Logo, começou a notar as mãos do príncipe, os anéis que adornavam seus dedos longos e elegantes. As mãos eram agradáveis e calejadas após anos de treino e combate, muito maiores que as dela. Lhe causavam curiosas e novas sensações ao roçar-lhe as suas inocentemente ao virar uma página de um livro que liam para mostrar-lhe um tópico interessante, ou ao mover uma mecha de cabelo rebelde da princesa que teimava em escapar da trança.
Amava a forma que suas sobrancelhas contraíam-se ao pensar, como se sua mente percorresse todos os lugares possíveis no curso de poucos momentos, especialmente quando jogavam cyvasse juntos. Amava e admirava sua paciência para lidar com quem quer que fosse, seja um plebeu em desespero por ter o pouco que tinha saqueado ou um senhor abastado irado por um de seus rivais terem movido as rochas que delimitavam seu território.
A atração virara amor, como uma flor desabrochando em uma manhã quente de verão, tímida no início e um espetáculo à parte depois. E, pelos Deuses e a Donzela, podia jurar que, em algum lugar, Baelor sentia o mesmo. Talvez não na mesma intensidade, mas havia uma candura em suas palavras e toques que não lhe passara despercebido. E agora, estava prestes a perder tudo por ser uma tonta quieta demais. O sentimento de aniquilamento lhe era novo, logo ela que nunca precisara preocupar-se com nada que não pudesse ser resolvido — e geralmente não por suas delicadas mãos.
Quando Baelor tentou erguer-lhe o queixo para que o encarasse, tomou aquilo como um sinal, um surto de coragem atravessando-lhe com a força de uma espada maciça. Com os olhos nos dele, virou os lábios na direção de sua palma calejada e beijou-lhe ali com o toque de uma pluma. O príncipe encarou-a com a respiração entrecortada de surpresa, e ele removeu a mão com a rapidez de alguém que encontrara o gume afiado de uma lâmina.
— Eu sei que faria qualquer coisa para ficar — ele sussurrou, as palavras preenchidas com um peso de dor resignada. — Mas isso não é apenas sobre você ou sobre mim, . Querem uma princesa já há muito florescida, e você é a única de suas irmãs e primas.
— Baelor, por favor. — Ela o encarou com doçura e docilidade. Não “tio”, “meu príncipe”, apenas Baelor pela primeira vez, suave como o beijo de um amante. — Não me mande embora. Não aguentarei ficar longe de você. Dorne é demasiado distante.
O príncipe parecia afundado até os joelhos numa batalha interna, as mãos abrindo e fechando como se pudesse agarrar fisicamente a solução para aquele problema.
— Nunca temeu nada em sua vida inteira, passarinho. — Suas palavras eram carinhosas, mas acusatórias em natureza. — Por que isso agora? É Dorne? O Príncipe?
— Não temo Dorne. — Agitou a mão como se espantasse um inseto. — Temo nunca mais vê-lo novamente, Baelor.
A garganta do príncipe travou ao registrar o som de seu nome deixar-lhe os lábios mais uma vez, os olhos sombrios e tomados de conflito. Ele poderia dar-lhe uma dúzia de razões, cada uma mais lógica que a anterior; dever, lealdade, honra, compromisso. A verdade, porém, não poderia estar mais distante de tais noções.
— Acha que é meu desejo vê-la longe? — Baelor questionou; agora era ele quem evitava encará-la. — Acha que a quero em tal lugar, cercada por homens que a teriam apenas pela sua linhagem?
— Então deixe-me ficar! Entendo que boatos vêm percorrendo as conversas dos senhores e senhoras da corte, entendo que não deseja manchar sua reputação…
— , não é sobre isso — Baelor a interrompeu pacientemente. — Sabe disso. É nosso papel como representantes da coroa. Está me pedindo para ser egoísta.
— Não estou pedindo. Estou implorando. — agarrou-lhe a mão de súbito. Sabia que, se não fosse enfática o suficiente naquele momento, perderia tudo. — Quero que abrace-me não como um tio, mas como um homem faria a uma mulher.