Revisada por: Lightyear 💫
Última Atualização: 08/06/2026Então, quando uma das criadas lhe trouxe uma pequena carta cheirando a sândalo com a escrita inclinada do tio, que pedia com a delicadeza de uma flor que viesse imediatamente — não com o comando de um príncipe, mas com a gentileza de um confidente —, levantou-se de imediato e pediu licença às senhoras com quem conversava para ir ao seu encontro.
As mulheres se entreolharam com a malícia de alguém que iria deleitar-se com os comentários sobre o ocorrido no momento em que se afastasse o suficiente. A princesa não era tola; sabia dos boatos maldosos que percorriam a corte sobre seus encontros constantes com o Príncipe Baelor, um homem há muito enviuvado, e ela própria uma mulher de dezenove anos que fugia de propostas de casamento como soldados covardes fugiam do combate.
Não havia tido as melhores opções recentemente, porém. Entre os irmãos Daeron, um bêbado e libertino condecorado, e Aerion, um lunático violento, preferia que o pai a vendesse para algum podre aldeão de Essos por cinco mil ovelhas, ou seja lá quanto valesse uma princesa do reino. Havia também o Príncipe Matarys, filho do Príncipe Baelor, mas o garoto era mais novo que ela e isso lhe desagradava. não desejava um garoto verde, e sim o ideal que havia sido fomentado em sua mente a vida inteira; um homem protetor, capaz e justo, honrado, que lhe trouxesse orgulho como esposa e princesa do reino.
Caminhou em meio aos estandartes Targaryen e às tapeçarias de Norvos e Kohor, os cabelos loiro-dourados como uma cascata de ouro em suas costas esguias e os sapatos a ressoar nas pedras que acompanharam a dinastia de sua família há muito tempo. Quando finalmente chegou à Torre da Mão, os guardas a anunciaram com familiaridade, já acostumados à sua presença.
O príncipe se encontrava perto da janela e acompanhava o movimento nos jardins, perdido em seus pensamentos. Os olhos de cores divergentes pareciam brilhar como tochas sob a suave luz do sol de fim de tarde que invadia os vitrais e, por um momento, recordou-se das tardes descansadas em Solarestival, nas Marchas Dornesas, seu lar. Agora, mal o frequentava; Maekar, seu pai, fora aconselhado a permitir que a princesa frequentasse mais a corte em ordem de conseguir um casamento vantajoso. Ela admitia que tirara vantagem para passar mais tempo com o tio.
caminhou devagar até a mesa do Príncipe, pronta para sentar-se em uma das cadeiras de carvalho, mas ele a parou com um gesto displicente da mão.
A princesa estranhou, mas nada disse. Normalmente, o tio já iria tê-la recebido com um de seus sorrisos discretos, porém calorosos. O mais velho, porém, limitou-se a caminhar até a mesa de madeira escura perto de sua escrivaninha. Suas mãos eram firmes enquanto se servia de uma taça de vinho e colocava uma para .
— Sobrinha — não “minha princesa” ou “passarinho”, como costumava chamá-la. O termo de parentesco parecia frio em seus lábios, como a névoa em que se transformavam os suspiros nos grandes invernos. — Acredito que tenhamos construído uma ligação que nos permite falar sem arrodeios e meias-palavras. Não irei suavizar a seriedade do assunto.
Parou para observar suas reações, mas apenas esperava. Tensão enrijecia seus ombros.
— Dorne mandou um corvo que foi recebido agora pela manhã. Eles desejam segurança, mas não por palavras vazias e cartas com promessas sem previsão de se concretizarem. Príncipe Maron Martell deseja uma princesa Targaryen para casar-se com seu filho mais velho e manter a amizade entre a Coroa e os Dorneses.
Silêncio instaurou-se entre tio e sobrinha, tão sufocante que a princesa sentiu que podia afogar-se nele. Príncipe Baelor não se apressou para preenchê-lo, apenas quando notou que parecia estar em choque, os olhos de ametista úmidos e os lábios de botão de rosa entreabertos.
— …Irá me mandar para Dorne? — pareceu finalmente reencontrar sua voz. — Eu fiz algo que o desagradou?
O príncipe a encarou como se ela houvesse, de repente, feito crescer outra cabeça em seu tronco.
— Me desagradado? — Riu levemente pela primeira vez desde que aquela conversa começara, finalmente assemelhando-se ao homem que conhecia e que fazia com que se sentisse segura. — Nunca me desagradou em seus dezenove anos de vida, princesa. Por favor… olhe para mim.
sentia o chão começar a sumir abaixo de seus pés. Seria mandada embora. Entraria em um navio para uma terra longínqua e não conviveria mais com o príncipe. Ele queria afastá-la. Seria por conta dos rumores? Sua cabeça tentava encontrar motivos, qualquer coisa que justificasse aquele ato.
— Passarinho — O príncipe tentou o apelido, e aquilo pareceu chamar sua atenção. — Isso não é uma punição. É necessidade. Eu queimaria todas as cartas vindas de Dorne se houvesse outra opção, mas alianças não são forjadas em sentimento, são esculpidas do sacrifício.
— Por que eu? — atreveu-se. — Por que não uma de minhas irmãs? Desejo permanecer em Porto Real com v… com nossa família.
Os olhos queimaram como quando dançava ao redor das fogueiras em Solarestival. Negava-se a chorar em sua frente como uma garotinha geniosa. Era uma mulher feita, mas, naquele momento, desejou poder esconder-se nas saias da mãe para escapar de um destino que a aterrorizava, das sombras desconhecidas que as fogueiras lançavam nas árvores.
Só de pensar em ficar longe de seu príncipe, seu coração doía e faltava-lhe o ar. Sua vida inteira fora construída em torno da princesa educada, dócil e polida na qual sempre pudera confiar, mas acabara de notar que ela seria a causa de sua ruína.
Não sabia exatamente quando havia se apaixonado por Baelor Targaryen. Viera sem aviso e nem um exército de um milhão de soldados seria capaz de deter tal sentimento. Começara como uma admiração inocente, afinal de contas, o príncipe havia defendido o reino da revolta dos bastardos Blackfyre antes dela nascer, era Mão do Rei, amado pelo povo e apoiado pelos nobres. Era sábio, gentil, interessante, culto e tantas outras qualidades que poderia passar horas enumerando.
A admiração tornou-se atração, como um campo pegava fogo após ser atingido por raios em tempestades de verão. Logo, começou a notar as mãos do príncipe, os anéis que adornavam seus dedos longos e elegantes. As mãos eram agradáveis e calejadas após anos de treino e combate, muito maiores que as dela. Lhe causavam curiosas e novas sensações ao roçar-lhe as suas inocentemente ao virar uma página de um livro que liam para mostrar-lhe um tópico interessante, ou ao mover uma mecha de cabelo rebelde da princesa que teimava em escapar da trança.
Amava a forma que suas sobrancelhas contraíam-se ao pensar, como se sua mente percorresse todos os lugares possíveis no curso de poucos momentos, especialmente quando jogavam cyvasse juntos. Amava e admirava sua paciência para lidar com quem quer que fosse, seja um plebeu em desespero por ter o pouco que tinha saqueado ou um senhor abastado irado por um de seus rivais terem movido as rochas que delimitavam seu território.
A atração virara amor, como uma flor desabrochando em uma manhã quente de verão, tímida no início e um espetáculo à parte depois. E, pelos Deuses e a Donzela, podia jurar que, em algum lugar, Baelor sentia o mesmo. Talvez não na mesma intensidade, mas havia uma candura em suas palavras e toques que não lhe passara despercebido. E agora, estava prestes a perder tudo por ser uma tonta quieta demais. O sentimento de aniquilamento lhe era novo, logo ela que nunca precisara preocupar-se com nada que não pudesse ser resolvido — e geralmente não por suas delicadas mãos.
Quando Baelor tentou erguer-lhe o queixo para que o encarasse, tomou aquilo como um sinal, um surto de coragem atravessando-lhe com a força de uma espada maciça. Com os olhos nos dele, virou os lábios na direção de sua palma calejada e beijou-lhe ali com o toque de uma pluma. O príncipe encarou-a com a respiração entrecortada de surpresa, e ele removeu a mão com a rapidez de alguém que encontrara o gume afiado de uma lâmina.
— Eu sei que faria qualquer coisa para ficar — ele sussurrou, as palavras preenchidas com um peso de dor resignada. — Mas isso não é apenas sobre você ou sobre mim, . Querem uma princesa já há muito florescida, e você é a única de suas irmãs e primas.
— Baelor, por favor. — Ela o encarou com doçura e docilidade. Não “tio”, “meu príncipe”, apenas Baelor pela primeira vez, suave como o beijo de um amante. — Não me mande embora. Não aguentarei ficar longe de você. Dorne é demasiado distante.
O príncipe parecia afundado até os joelhos numa batalha interna, as mãos abrindo e fechando como se pudesse agarrar fisicamente a solução para aquele problema.
— Nunca temeu nada em sua vida inteira, passarinho. — Suas palavras eram carinhosas, mas acusatórias em natureza. — Por que isso agora? É Dorne? O Príncipe?
— Não temo Dorne. — Agitou a mão como se espantasse um inseto. — Temo nunca mais vê-lo novamente, Baelor.
A garganta do príncipe travou ao registrar o som de seu nome deixar-lhe os lábios mais uma vez, os olhos sombrios e tomados de conflito. Ele poderia dar-lhe uma dúzia de razões, cada uma mais lógica que a anterior; dever, lealdade, honra, compromisso. A verdade, porém, não poderia estar mais distante de tais noções.
— Acha que é meu desejo vê-la longe? — Baelor questionou; agora era ele quem evitava encará-la. — Acha que a quero em tal lugar, cercada por homens que a teriam apenas pela sua linhagem?
— Então deixe-me ficar! Entendo que boatos vêm percorrendo as conversas dos senhores e senhoras da corte, entendo que não deseja manchar sua reputação…
— , não é sobre isso — Baelor a interrompeu pacientemente. — Sabe disso. É nosso papel como representantes da coroa. Está me pedindo para ser egoísta.
— Não estou pedindo. Estou implorando. — agarrou-lhe a mão de súbito. Sabia que, se não fosse enfática o suficiente naquele momento, perderia tudo. — Quero que abrace-me não como um tio, mas como um homem faria a uma mulher.
— Não. — A palavra era crua, demasiada afiada para conter apenas uma recusa solene. — Não irei.
Deu um passo para distanciar-se de , como se fosse fisicamente repelido pelo pensamento. Porém, havia algo selvagem em seus olhos que lembrava um animal acuado.
— Não sabe o que está pedindo — continuou. — E sou mais forte que isso.
— Então nega-se a reconhecer a chama que vem crescendo entre nós? — deu um passo à frente, os sapatos ecoando nas pedras.
O rosto de Baelor contorceu-se como se ela o houvesse estapeado. Ela via suas mãos tremerem pela primeira vez. O príncipe era sempre controlado, mas, agora, era como se ela houvesse tirado-o dos eixos e jogado-o num mundo desconhecido.
— Não diga isso. — Sua voz era baixa, porém não menos perigosa, o tipo de quietude que precede uma tempestade. — Você é do meu sangue. Observei-a crescer de uma criança nos corredores de Solarestival até a mulher que está diante de mim agora. Não serei sua ruína. — Virou-se abruptamente para a janela, os ombros rígidos. — Pense no que eu lhe disse. Volte aos seus aposentos.
sentiu-se rechaçada e ignorada, e aquela sensação de aniquilamento apenas aumentou, um arrepio percorrendo seu corpo, uma força que não reconhecia como sua lhe dando a determinação necessária para tentar reverter aquilo.
— Não. — Não era acostumada a desafiar, mas lhe viera com tamanha facilidade que parecia ter nascido para fazê-lo.
Baelor virou-se, surpreso. Aquela à sua frente não era a que conhecia, a menina a quem chamava de passarinho carinhosamente por ter pouco apetite e ser uma coisinha franzina correndo pelos jardins de Solarestival na juventude. Ali, de punhos cerrados e lábios fixos em uma expressão frustrada, era , uma mulher que estava pela primeira vez indo atrás do que queria.
— Irá obedecer-me — Baelor tentou entredentes. — Sou seu príncipe e seu tio. E se isso falhar em trazer-lhe senso? Que seja porque não tenho escolha senão ordená-la a fazê-lo.
— Baelor, eu o am…
— Não termine essa frase — ele a interrompeu de súbito, metade num pedido de clemência e a outra em um comando, desespero sangrando por entre sua vontade de aço. — Por favor.
— Diga que não sente nada por mim. Convença-me, mostre-me certeza, e eu farei o que pede e casarei com o príncipe de Dorne — prometeu, os olhos esquadrinhando-o, procurando qualquer sinal de fraqueza como um tubarão sentia o cheiro de sangue no oceano.
A palma de Baelor chocou-se com a mesa, o impacto ecoando pelo solar e fazendo encolher-se e abraçar o próprio corpo. Deu um passo para trás instintivamente.
— Não sinto nada — A mentira era suave, fria como aço valiriano. — Nada senão o peso do meu dever para com você e esse reino. E se isso não a agrada? Eu sou seu superior. Irá para Dorne porque é meu desejo.
sentiu a garra silenciosa do desespero torcer-lhe as entranhas e deixar um gosto amargo em sua boca.
— Quero ser sua aos olhos dos Deuses e dos homens.
— Não posso fazê-la minha. — Os olhos do príncipe nunca deixaram os seus, e ele a encarava como um homem condenado à morte olhava o mundo pela última vez, absorvendo os detalhes até enquanto a lâmina descia-lhe ao pescoço. — Não posso amá-la. Não como um homem ama uma mulher.
— Por quê? — pressionou, teimosa. — É minha idade? Me acha sem graça ou estúpida, burra? Por ser viúvo? Por esta ser uma situação fora do casamento? Deve me dizer, tenho direito de saber! Nem sequer mereço uma justificativa plausível?
— Eu a vi dar os primeiros passos na sala do trono. Eu a acalentei quando uma febre tirou-lhe as forças. Não serei outro fantasma assombrando a vergonha dessa família, . Não pode me pedir isso. — Baelor esfregou o rosto para voltar à realidade. — Dorne é longe o suficiente para privar-nos disso. Agora vá.
— Não posso viver longe da minha vida, Baelor. Por favor! Não me afaste. Nunca mais sequer olharei em sua direção, se assim desejar, mas não me force a viver em um mundo onde não posso sentir sua presença todos os dias!
— Acha que a quero longe? — Baelor segurou-lhe os pulsos; estava quase perdendo o resto de sanidade que lhe sobrava. — Esteve ao meu lado sua vida inteira. Minha sombra, minha luz. Esse é o perigo maior, eu diria.
— Então mantenha-me com você. — invadiu seu espaço e pôs as mãos em seu peito. Baelor era quase um palmo e meio mais alto que ela, mas poderia alcançar-lhe os lábios se colocando nas pontas dos pés, se assim quisesse.
Baelor recuou como se fugisse das brasas de uma fogueira, afastando-a. Havia premeditado suas intenções… talvez pelas suas não serem muito diferentes.
— Chega. — A palavra era uma lâmina, afiada e final. — Não irá me tocar novamente. Não dessa forma.
hesitou, mas, por fim, resignou-se, a luta deixando-lhe o corpo.
— Então, para salvar sua honra, irá me condenar. Acho que é egoísta, apesar de tudo.
— Quer egoísmo? Quer que eu coloque meus desejos acima do dever, da honra e da segurança do reino? Pede pela minha ruína, .
— Eu peço pelo seu coração. Conhece a sensação, Baelor? De dá-lo para alguém além do dever e sacrifício? Porque eu lhe dei o meu antes mesmo de ter noção do significado de tudo isso.
— Você é uma menina — Baelor interceptou, sua voz falhando suavemente. — O que sabe de corações? De amor?
Aquela havia sido a flechada final na armadura da princesa. Deliberado, sem dúvidas. Baelor a conhecia como ninguém. Um vazio tomou-lhe o peito, mas não iria chorar agora.
— Mande a carta para seu precioso príncipe. Navegarei a Dorne na primeira luz da manhã. — A voz sequer parecia-lhe sua. Não esperou que Baelor respondesse, apenas dirigiu-se em direção à porta sem despedir-se educadamente como sempre fazia.
