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Revisada por: Júpiter

Última Atualização: 12/12/2025

1991

(N/A: Atenção! Esse capítulo aborda: sequestro, cárcere privado e menção a aborto forçado. Vou avisar o ponto que começa e haverá um breve resumo no próximo capítulo caso opte por não ler).

A minha cabeça latejava com aquela dor que deveria ser parente próxima de levar uma pedrada. Eu sabia que tinha viajado no tempo de novo e meus olhos encheram de lágrimas por isso. O teto era do meu quarto em Estocolmo, não o dele.
Ele ficou para trás.
Não previ que doeria tanto deixá-lo depois de conquistar o seu amor pela segunda vez. Respirei fundo. Eu cumpri minha missão, agora precisava focar em ajeitar tudo onde pertencia e abandonar essa aventura para trás. Me levantei e senti a mochila pesar nas minhas costas. Estava vestida com a mesma roupa que deixei essa realidade, mas agora a minha barriga marcava. Agradeci mentalmente por não ter chegado nua, já que saí de lá depois de um momento bastante íntimo. Olhei para trás e todas as fitas da filmadora que separei estavam em cima da cama.
Eu consegui! Voltei para 1991!
— Lilly? — arrisquei chamar pela última pessoa que eu vi naquele ano.
— Precisa de mais alguma coisa? — ela perguntou enquanto entrava no quarto.
Ao me ver, estancou na porta e fez uma análise da cabeça aos pés. Era finalmente a versão que eu estava familiarizada. Parecia que se passaram anos desde que a vi assim. As lágrimas escorreram pelas minhas bochechas e corri para abraçá-la.
— Ah, Lilly... Como eu senti sua falta! — falei em seu cabelo.
— Não estou entendendo nada — ela disse com um toque de incredulidade.
Soltei-a, não por querer, mas porque ela merecia explicações.
— A sua barriga... — ela murmurou, olhando para o volume no meu suéter.
Assenti e mais lágrimas desceram dos meus olhos. Toquei meu ventre.
— Dezesseis semanas, Lilly. Ela está aqui. — Minha voz estava embargada.
— Ela?! É uma menina? — Seu rosto ndeu e ela tocou minha barriga.
— Sim — disse, observando os olhos marejados dela. — O nome dela é Emma.
... Que nome lindo — ela sorriu.
— Emma Claire . Você escolheu o nome do meio, em 1988. — Coloquei minhas mãos em cima das suas. — Te deixei escolher porque, em 1997, brigou comigo por não ser a primeira a saber.
Ela me examinou de novo.
— 1988? 1997? — Arqueou a sobrancelha.
— Eu acabei de sair de 1988. A sua versão disco foi incrível comigo, Lilly. Você me acolheu como sua amiga, mesmo não se lembrando de mim.
Sua risada alta ecoou pelo quarto.
— Você me viu na época que só tinha roupas neon no meu armário? — Ela parou de rir de repente. — Por Deus, o quanto você viajou?
Sentei-me na cama e a trouxe junto comigo porque era uma longa história. Pigarreei, me preparando para contar tudo.
— Te vi primeiro em 2019, depois em 2004, 1997 e, por fim, 1988. O meu guardião da viagem no tempo só me permitiu salvar seu irmão com punições — resumi. — Para começar, em 2019, você me entregou uma caixa com as coisas dele e nós duas choramos que nem condenadas. Ele morou aqui, na minha casa, até morrer.
Ela fungou e suas lágrimas começaram a descer pelas bochechas coradas.
— Mas nem tudo foi triste, vi seus filhos por foto, dois meninos que são a sua cara — falei, conseguindo arrancar um sorriso mínimo dela. — Em 2004, na minha primeira chance de salvá-lo, fui primeiro até a sua casa. Pedi pra você e Andreas o chamarem, para não corrermos risco de mexer com o coração dele. Vocês três começaram a discutir, Andreas perdeu a paciência e me pediu pra sair do esconderijo. Ele estava tão diferente, Lilly. — Solucei com o choro que começava. — Parecia tão mais velho, mas ainda era o meu . Ficou incrédulo quando me viu, não queria nem me beijar porque, segundo ele, parecia ser o meu pai. Mostrei os papeis dos exames que fiz para ver o bebê em 2019, ele ficou tão feliz, falou com minha barriga e a chamou de “minha estrelinha”. — Suspirei para não soluçar de novo. — Eu acabei estragando tudo falando que ia embora.
Abaixei a cabeça, me lembrando exatamente do momento.
— Ele começou a ficar sem ar e dizer que o peito doía, então uma ambulância chegou para levá-lo. Eu fui junto. Foi terrível. Levaram-no para dentro do hospital e fiquei histérica. Quando você chegou, viu que minha calça estava manchada de sangue. Me levaram para um quarto pra examinar a bebê, o médico disse que só foi um sangramento de estresse, mas que precisava tomar cuidado com a possibilidade de perder o bebê no início da gestação. Enquanto eles me examinavam, você estava lá, eu…
Ela pegou minha mão para me dar força, como sempre fazia. Ergui o queixo para fitá-la.
— Eu disse para você mostrar o relatório que trouxe de 2019. Para salvá-lo com o aparelho que o cardiologista me indicou. Você… Você disse…
Solucei e olhei para o teto para tentar driblar o choro.
— Você disse que era tarde demais, o coração dele não aguentaria uma cirurgia. Eu fui pra 2004 só pra vê-lo morrer.
O soluço dela me chamou atenção. Ela estava tão imersa na história que sentia cada emoção minha. Todo o seu rosto estava vermelho por conta do choro.
— Ele estava apagado quando fui embora. Fiquei com medo de vê-lo e constatar que estava morto, mas ele estava quente e tinha tubos conectados... Foi bem dolorido — sorri minimamente no meio das lágrimas e abaixei a cabeça. — Já o de 1997 é meu favorito. Ele estava lindo, Lilly. Não que não estivesse nos outros anos, mas ele era tão doce e badass. Usava boné para trás, o cabelo ia até a cintura e aquele cavanhaque... — revirei os olhos enquanto ria. — Definitivamente ele fica bem de cavanhaque. — Puxei o ar com a memória.Você me disse, em 2004, para salvá-lo em todos os anos que eu passasse, porque ele merecia ouvir o coração da própria filha. Então eu tive a brilhante ideia de carregá-lo para o hospital, mas foi ele que acabou por me surpreender, me levando numa motocicleta linda e brilhante.
Ela sorriu e cobriu a boca com a mão. Assenti, rindo.
— Fez alguns exames para o coração e depois o levei para a sala de ultrassom. A médica perguntou se ele era o pai do bebê e me senti tão feliz dizendo que era. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida quando ele escutou o coração da Emma pelo monitor. Foi lindo. — Senti calafrios subirem e se espalharem ao me lembrar. — Mais tarde, fomos até uma festa de um amigo dele e a Natalia estava lá. — Lilly fez uma careta de indecisão, sem saber o que pensar. Ela claramente havia tomado meu partido para ficar assim com a menção à Natalia e eu me sentia um pouco mal, sabia da amizade que a família tinha com a ex-namorada do irmão mais velho dela. Não queria que ela comprasse uma inimizade que eu e Natalia alimentamos, mas não iria esconder o que aconteceu também.
— Eles namoraram em ‘93, mas ela terminou com ele porque não podia entrar na minha casa e mexer nas minhas coisas. — Soltei uma risadinha e ela também. — Ela veio falar que sentiu minha falta porque foi muito fácil de conquistá-lo. Ainda disse que eu parecia magra demais e eu devolvi na mesma moeda, depois avisei que ela merecia mais do que ser a segunda opção do . Óbvio que ela não deixou barato. Ela apareceu querendo falar “em particular” — fiz aspas com os dedos — com ele, na minha frente. Seu irmão disse que não tinha nada para falar em privado, então ela disse algo sobre se arrepender de terem terminado. Ele riu e perguntou se ela queria marcar território porque eu estava lá.
Lilly arregalou os olhos.
— Minha nossa — ela disse. — Uma pena que ele tenha demorado tanto a tomar essa atitude.
— Ela disse que nós nos merecemos — sorri de lado. — Ele voltou à vida ativa depois de um tempo que fui embora. Não achei que fosse ficar esperando por mim, até disse que não esperava isso na gravação que deixei aqui. Só que... — Funguei e olhei para ela. — Eu estava num banheiro de um bar durante uma reunião do motoclube dele, acabei por ouvir duas mulheres falando sobre nós dois. Criticaram minha aparência e eu me senti inadequada. Disseram que ele sempre foi criterioso com proteção com elas, que eu me aproveitei dele para engravidar e queriam ter tido essa ideia antes. — As lágrimas escorreram dos meus olhos furiosamente de novo. — Ainda falaram que ele era bonito, tinha dinheiro e fodia bem. O meu . Senti ciúme e culpa. Acabei indo embora sem avisar, ele ficou desesperado atrás de mim e me encontrou chorando pelada debaixo de um cobertor no nosso quarto do hotel.
, espero que você saiba que isso não é verdade. Você não é inadequada e muito menos se aproveitou do meu irmão — ela disse de cenho franzido. Eu concordei com a cabeça. — Mas, me diga, por que você estava pelada debaixo de um cobertor?
Acabei sorrindo.
— Foi a mesma pergunta que ele me fez e eu não soube responder. Só lembro de sentir que todo o peso de ouvir aquilo ficou nas roupas. — Lembrei da risada dele ao constatar minha situação. — Quando eu fui embora de 1997, ele tinha feito a cirurgia para implantar o aparelho e tinha sido bem-sucedida. Era a minha garantia de que ele sobreviveria até 2019, caso eu quisesse voltar para casa. Ele só precisa implantar o aparelho de novo aqui em ‘91, Lilly. Não é minha presença que está mexendo com a ordem das coisas porque ela foi premeditada nessa realidade, agora sei disso.
— Então ele vai sobreviver? — ela perguntou, esperançosa.
Concordei. Ela comemorou com soquinhos no ar, me fazendo sorrir.
— Espera, por que você foi para 1988 mesmo?
— Tive que fazer aquele garoto rebelde que vestia couro e fazia piadinhas com peixe e vinho se apaixonar por mim para merecer voltar à ‘91. Vocês não se lembravam de mim, então tive que falar que estava grávida dele e foi o maior bafafá. Ele, no começo, não sabia o que fazer. Então acabei indo para um hotel na rua da sua casa. Alguns dias depois, ele me encontrou fazendo compras e disse que queria fazer as coisas do jeito certo. — Cruzei a perna direita em cima da cama e me ajeitei. — Nós saímos num encontro, ele disse que éramos opostos por causa da minha preferência por algumas coisas da cultura pop.
Ela rolou os olhos.
— Típico.
— Sim. Típico — ri. — Ele me beijou, mas acabei deixando minha insegurança tomar conta e me comparei com outros possíveis encontros dele. Nós fomos embora e me despedi com um abraço, mas nossa... — suspirei. — Sentia tanta falta do cheiro dele, já tinha se passado uma semana sem o de ‘97 e eu estava no auge da carência. Entrei no quarto antes que começasse a chorar na frente dele. Foi o suficiente para ele achar que não tinha sido agradável para mim. Um dia, estávamos nós duas na sua casa assistindo TV e ele apareceu aos beijos com uma loira das pernas do meu tamanho. — Levantei o dedo e sorri. — E não era a Natalia.
Ela sorriu de volta.
— Ele falou que ligaria e botou a garota para fora porque você disse que ia dar um sermão nele. Nós duas ficamos bravas, eu acabei dando um sermão também e disse que gostava dele, apesar de não merecer. Eram umas seis da manhã quando ele apareceu no meu quarto, de pijama, dizendo que não conseguia dormir por causa do que eu disse. Depois, nesse mesmo dia, nós saímos de novo — apoiei a mão no joelho dela pelo entusiasmo — e ele me levou a uma pista de patinação para comermos.
— Hmmm... A pista que tem comida italiana, sei muito bem qual é.
Assenti com veemência.
— Essa mesma. Me vinguei dele por conta da Sonya. Mandei-o colocar os patins e ficar na pista.
Ela arregalou os olhos e soltou uma gargalhada.
— Você é má, . Ele nunca andou antes.
— Eu sei! — ri. — Ele estava parado e acabou caindo de bunda no chão. Quando foi se levantar, fez um espacate, como uma bailarina.
— Eu não acredito! — Ela soltou outra gargalhada. — Deve ter sido cômico.
— Com certeza. — Passei a mão pelo meu cabelo e prossegui com a história: — Também o carreguei pro baile romântico do Disco Fever.
Ela deixou o queixo cair.
— Você me arrumou com roupas tipo da Olivia Newton-John no final de Grease. Só percebi no carro que as roupas dele tinham sido escolhidas pela senhorita Lilly também, porque estávamos combinando, de vermelho e preto — sorri e ela riu, parecendo se identificar totalmente com o seu eu de 1988. — Ele me beijou como aquela fotografia do beijo do fim da guerra... — Lembrei da comparação dela na praia. — ...no meio da discoteca, nós fomos até aplaudidos. No final da noite, ele me levou até em casa e cantou uma parte da música do KISS que tocava no som do carro, fazendo ligação com o que tinha acontecido na noite.
— Não acredito que aquele bobão pudesse ser romântico desse jeito. Ele se achava tanto nos anos 80.
— Ah, eu sei bem... Fiquei brava porque ele ia me apresentar ao seu pai no outro dia e nós nem sabíamos o que éramos. Botei-o contra a parede, acabou que ele se ajoelhou e me pediu em namoro. — Ela abriu um sorriso gigante, o clima pesado se esvaiu. — Até a Emma se animou e se mexeu pela primeira vez. Parecia um peixinho dentro de mim.
Lilly pegou minhas mãos.
— Não acredito que ela já esteja grande assim. — Olhou para a minha barriga. — Esse negócio de viagem do tempo é surreal. Não passaram nem minutos para mim e você já está super grávida. Nós descobrimos hoje!
— É estranho, não é? Só pensando assim que percebo quanto tempo demorei.
— É bem estranho — ela assentiu. — E, então, ele se apaixonou por você, no fim?
— Sim. Ele me deixou entrar no coração dele. Eu também não queria me apaixonar por pensar que estava traindo o que se lembrava de mim, mas foi impossível, eu o amo tanto que não conseguiria. — Ela suspirou, seus olhos brilhavam e sorria apaixonadamente. Sempre a nossa maior fã. — Acabei me entregando junto. — Puxei o ar por ter lembrado da última memória que tinha de 1988. — Os olhos dele ficaram mais claros, assim como costumam ficar aqui desde a nossa viagem, e só quando disse que me amava foi que pude voltar.
Ela parecia confusa e sobrecarregada com todas as informações.
— Ele era tão diferente, Lilly. Lembro que, enquanto nós nos olhávamos, eu reconhecia os traços, mas não a pessoa lá dentro. Foi tudo tão estranho. No fim, eu tenho que admitir que estou com o coração muito apertado por o ter deixado para trás, realmente me apeguei a ele nesse curto tempo. Nós fizemos tudo certo, estávamos namorando como não tivemos a oportunidade de fazer aqui. — Me controlei para não chorar mais pelo meu garoto inconsequente. — Porém estava feliz de voltar. Queria que a versão certa do acompanhasse a nossa filha crescer, já perdemos tempo demais.
— Foi uma aventura e tanto — ela comentou.
— Vou sentir falta, mas é um alívio voltar para casa. Estou exausta!
Ela sorriu e eu deixei o tronco cair até se chocar com o colchão. As fitas incomodaram minhas costas, mas não liguei muito. Era o meu colchão, da minha casa. Aliás, minha casa sem a bagunça dele de ‘97.
— Você precisa alertá-los desse aparelho — ela lembrou. — Imagino que quanto antes, melhor.
Concordei de olhos fechados, me sentindo cansada. Porém precisava realmente ir. Andreas estava desesperado no hospital, achando que o irmão não ia sobreviver, imaginava que Börje também já sabia. Não tinha mais o relatório, mas decorei parte dele porque ouvi o médico falando, antes de escrever.
— Ok. Estou indo — disse, me levantando. Ela ameaçou me acompanhar, mas lembrei que Marko ainda estava por aqui. Eles não se conheciam e precisariam se conhecer para se casar no futuro. — Você se incomoda de ficar aqui e esperar pelo Marko? Dê o seu telefone, porque talvez ele me encontre na sua casa quando sair do hospital.
Ela assentiu, parecia querer adiar para ver o irmão o máximo que podia. Peguei minha mochila da viagem no tempo, adicionei minha carteira com o dinheiro para o transporte público e meu pager. As coisas que eu adicionei em 2019 não estavam ali, só as que preparei antes de ir. Senti um pouco de nostalgia ao andar pela minha casa, mas não aproveitei muito aquela sensação, pois estava ansiosa para rever o amor da minha vida. Desci as escadas e quase saltitei até a parada de ônibus. Estocolmo em 1991 tinha um cheiro característico. Talvez fosse o inverno que estava pintando a rua de branco.
O ônibus demoraria um século. Depois de alguns minutos, em pé na parada, um homem se aproximou. Era o mesmo que Solveig queria atacar aquele dia. O nome dele ecoou pela minha cabeça, porque fui lembrada da sua existência em 1988. Sebastian. Por isso, eu sabia que o conhecia.
— Sebastian? O que você está fazendo aqui? — perguntei, de cenho franzido e na defensiva por estar sozinha.
Esse homem ainda me provocava calafrios. Ele estava todo de branco, da cor do seu cabelo e da neve. Seus olhos escuros brilharam na minha direção e seu sorriso de lado surgiu.
— Olá, bela — disse com sua voz rouca. — Quanto tempo.
— O que você quer? — perguntei, séria, me lembrando do que avisara sobre seu problema com mulheres.
— Logan — chamou em direção às minhas costas.
Franzi o cenho, sem entender. Antes que eu concluísse que ele estava caducando, um homem gigante fez sombra em cima do meu corpo. Mau sinal. Esse deveria ser o tal Logan. Nos filmes, essa era a hora de gritar por ajuda. O grito acabou por ficar preso na minha garganta, levei um golpe no pescoço e apaguei na mesma hora.

* * *


(N/A: INICIA AQUI.)

Resmunguei com a dor que se espalhava para os outros membros do meu corpo.
Espera. Se resmunguei, era porque estava acordada.
Toquei meu pescoço que latejava. Cara, não fazia muito tempo que era minha cabeça que latejava da viagem no tempo e naquele momento outra parte doía igualmente. O século 20 me mataria. O chão congelante embaixo de mim me assustou. Sentei-me e pude ver Sebastian me olhando da porta de um chalé. O teto e o chão eram feitos de madeira e parecia ter apenas dois cômodos.
— Que bom que acordou, bela. Estávamos à sua espera — ele disse.
Senti meu corpo tremer sob seu olhar maligno e malicioso.
— Onde estou? — perguntei, tentando identificar algo familiar.
— Longe da cidade. No meio do nada, para ser específico — respondeu, sorrindo. — Te trouxe aqui para termos privacidade. Porém estou um pouco decepcionado ao ver que aquele moleque não perdeu tempo em te fazer outro filho.
Escondi minha barriga com os braços. Em algum momento devem ter tirado o meu casaco de cima, me deixando somente com o suéter justo e dando um vislumbre perfeito. Apertei meus braços para proteger Emma do olhar daquele homem pavoroso. Franzi meu nariz em desgosto ao ouvi-lo se referir ao pai dela como “aquele moleque”. Só eu podia chamá-lo assim. Ele parecia gostar de quando visitamos sua casa, em Portugal. Até respeitá-lo.
— Nunca tive uma gestante aqui antes, é a primeira vez. Peço perdão, mas terei que me acostumar com a ideia de que está esperando o filho de outro homem. Talvez um tempo para digerir ou... para descobrir um meio de matar esse feto. O que vier primeiro.
Trinquei o maxilar. Não sabia o que ele pretendia fazer comigo, mas Emma não estava inclusa na sua equação. Me senti arfar de ódio, fiquei até mesmo sem palavras com toda a situação, então continuei ouvindo.
— Volto daqui a alguns dias, querida. — Ele ameaçou sair pela porta. — Ah, e estou levando isso comigo. — Ergueu meu pager na altura do rosto. — Então não venha tentar nenhuma gracinha.
Fechou a porta.
Aí caiu minha ficha.
Sebastian me sequestrou.
Estava no meio do nada, ninguém sabia o meu paradeiro ou onde me procuraria. Ele tinha até levado o meu maldito pager. Fiquei de pé e saí, desesperada, procurando um telefone pela casa. Não era possível que eu estivesse presa ali. Não depois de tudo que passei. Entrei no outro cômodo que era um banheiro, ele me deixou roupas dentro do armário e objetos de higiene. Voltei para o quarto, só havia a lareira ligada e um guarda-roupa. Abri o objeto de madeira, tinha um saco para dormir, cobertor, lenha, meu casaco, minha mochila, comida tipo a ração do exército e algumas garrafas de água.
Ele queria que eu sobrevivesse, afinal.
Tirei meu casaco e bati a porta do guarda-roupa.
Não poderia ter sido sequestrada. Talvez fosse alguma brincadeira de mau gosto.
A porta da frente estava trancada, por isso saí pela janela, tomando cuidado para não me machucar com as farpas. Era só neve e mais neve pelos próximos quilômetros. A neve estava tão forte que até a trilha do pneu do carro já estava quase coberta, mesmo assim a segui. Parecia até uma pegadinha do destino. Eu lutei para estar ali, aí acabava no meio do nada, sem nem poder ver antes.
Lilly sentiria minha falta, mas ela nunca saberia que tinha sido Sebastian. No fim, eu só entraria para a lista de desaparecidos, se entrasse, porque ela poderia deduzir que viajei no tempo de novo. Adentrei uma floresta de pinheiros, mas perdi a trilha. Senti as lágrimas brotarem nos meus olhos e o vento frio as fazerem arder. Não estava vestida adequadamente para o clima montanhoso, então precisava voltar para o chalé. Morrer ali só lhe daria o gostinho da vitória.
Ele disse que voltaria quando se acostumasse com a ideia ou o bebê morresse, o que indicava, provavelmente, que a próxima vez em que aparecesse arrumaria algum jeito de tirar Emma de mim. E eu jamais permitiria isso. Precisava utilizar aquele tempo para raciocinar como sair dali. Me espremi pela janela de novo e, o cômodo que antes estava frio, agora parecia tão quente quanto uma cama. Não poderia deixar a lareira apagar, então enfiei mais lenha. Sentei-me no chão, de frente para o fogo e tentei pensar em alternativas. Porém só conseguia pensar que não itava ter sido sequestrada logo no momento que retornei para 1991. Estava furiosa. Tanto esforço para nada. A sensação de um peixinho nadando na minha barriga me despertou da onda de fúria. Acariciei o tecido do casaco, deixando a calmaria entrar feito uma onda.
Depois de tudo aquilo para salvar o seu pai, teremos que nos salvar.
Esperava que algum dia eu pudesse deslerar de novo e reclamar apenas dos meus tornozelos inchados ou das varizes que estavam começando a aparecer. Tinha medo de que estar com o instinto de sobrevivência sempre preparado pudesse fazer mal para ela.
Quase voltamos à normalidade. Quase. Foi tão perto... Esse nojento tinha que estragar tudo.
Rosnei e me deitei no chão.
Era agora que meu príncipe encantado irrompia pela porta, adivinhando onde estava. Estava disposta a esperá-lo por algum tempo, no entanto. Era minha única esperança. Só não permitiria com que Sebastian retornasse, abusasse de mim e fizesse algo à minha filha. Ele jamais me permitiria retornar e correr o risco de perder Börje como amigo. Também não queria mais viver em um mundo que ela não existisse, ainda não era mãe, mas já era meu dever protegê-la com minha vida.
Os dias foram se passando, emendados um no outro. Eu não tinha luz, só a que vinha do fogo da lareira. A água do chuveiro, no entanto, era quente devido a um sistema no porão. Não usei nenhuma roupa que ele me deixou, só vesti a minha todas as vezes. Tentei procurar algum lugar para me refugiar lá fora, mas só havia árvores e neve, então era obrigada a correr de volta para o chalé em menos de cinco minutos. A comida tinha sempre gosto de bolacha maisena gordurosa. Era realmente uma ração de sobrevivência, que se assemelhava à paçoca. Ainda não terminara nem o primeiro tablete, ela era altamente calórica, então vinha comendo em doses homeopáticas. Achava que minha imunidade estava caindo, porque me sentia doente. Não parava de tossir e não possuía energia nem para pensar direito. Só vinha emendando um pensamento no outro, assim como fazia com os dias. Não tinha ideia de como iria embora dali, nenhum carro ou pessoa passava por aquele trajeto. Estava perdida. Quando pegava no sono, só sonhava com o calor dele ao redor de mim e sua voz me chamando de “baby”. Acabava acordando, assustada, todas as vezes. Nunca me senti tão solitária. Não queria morrer assim, sem que ninguém soubesse do meu paradeiro.
Em algum ponto, a tosse foi embora e me deixou a dificuldade para respirar. Achava que o frio era o culpado, mesmo com o fogo so, ainda saía fumaça do meu nariz e boca ali dentro. Imaginar que em certo ponto tive pressa para sair de 1988 me fazia rir.
Estava de dezessete semanas. Agora me olhava no espelho lascado do banheiro e não via mais minha cintura. Realmente não restavam dúvidas para qualquer um que visse que havia um bebê crescendo rápido ali. Queria que ele me visse. Sentia tanto sua falta. O que será que Lilly fez ao perceber que não voltei? Estava quase cem por cento certa de que ela imaginou que viajei no tempo de novo. Então, provavelmente, mostrou minha mensagem gravada para ele e contou que, quando voltou ao quarto, eu estava diferente. Tinha toda essa cena na minha cabeça e ficava repassando para me dar esperanças que talvez, só talvez, ele desconfiasse e viesse atrás de mim ali. Ele devia estar feito um doido porque sumi, mas nunca desconfiaria que foi Sebastian depois de saber que eu era de outro século.
Me faltava coragem de usar o saco de dormir e o cobertor, por isso vinha dormindo no chão mesmo. Não estava fazendo nada bem para minhas costas, mas imaginava que outras mulheres possivelmente mortas tivessem usado eles. O que será que ele fazia depois que elas morriam? Me arrepiava sempre que pensava nisso. Lembrei-me do dia que meu pai achou carne apodrecida atrás da geladeira, eu tinha cinco anos e nunca entendi como ela foi parar lá, mas me lembrava claramente do fedor de morte que exalava. Desde que essa memória retornou, vinha sentindo o mesmo fedor em mim. Não importava o tanto que eu passasse a bucha na minha pele, era sempre aquele fedor. Comecei a desconfiar que poderia ser um sinal de que estava morrendo. Ficava apavorada quando constatava isso.
O que minha mãe falaria se descobrisse que viajei no tempo? Ela me chamaria de irresponsável, se soubesse que fiz tudo isso enquanto estava grávida. Até que me sentia assim também. Eu poderia ter ficado aqui, em 1991, e nunca ter saído. ainda morreria em 2004 e eu teria que criar uma adolescente sozinha. São coisas da vida. Porém apostava que qualquer pessoa que amasse alguém e tivesse uma chance de salvá-la de uma morte precoce também cometeria o mesmo erro. Foi tudo por amor. Só que minha mãe me chamando de irresponsável ainda ecoava na minha cabeça. Estava até começando a achar que era minha culpa ter parado ali. Era esse o preço de ter tirado alguma diversão da minha punição.
Na pré-adolescência, brinquei de sete minutos no céu no aniversário da minha amiga, Carla. Ela também era filha de atores, por isso só tinha gente da nossa estirpe na festa. Eu odiava os filhos de atores, todos eles se achavam demais e me deixavam enojada. Nunca tive paciência para nenhum deles. Nesse dia, me trancaram no closet com um garoto chamado Hugo. Já imaginei que seria entediante porque o pai dele tinha o papel principal na novela das oito. Fora que esses joguinhos costumavam ser um saco. Foram os sete minutos mais longos da minha vida. Senti que se passaram sete dias. Só me deixaram sair de lá depois que a gente se beijou. Foi meu primeiro beijo. Desperdicei sete minutos da minha vida e meu primeiro beijo assim. Era mais um pensamento que me vinha ultimamente, desperdicei sete dias de 1991 tentando sobreviver. Sete minutos que pareceram sete dias, mas sete dias que pareceram sete anos...
O frio parecia ficar pior. Eu nunca odiei o inverno, mas nem senti nada perto dessa temperatura na minha vida. Lembrava de ter brincado com Andreas sobre no Brasil nem o coração poder ser de gelo que o calor derretia. A Escandinávia estava congelando até meu coração. Improvisei um copo com o metal da lata das rações, então agora conseguia esquentar água na lareira e bebia para me aquecer. Não funcionava muito bem, mas mantinha meu peito quente e conseguia respirar melhor.
Estive vasculhando minha mochila e reli todo o meu “diário” que Karin me deu, por falta do que fazer. Porém, quando mexi nele, a folha branca que era minha chave para sair do século 20 caiu. Uma oportunidade que caiu literalmente no meu colo. Se aquele fosse o único meio para sair dali, pelo menos teria o em 2019. Deixei o papel e a caneta no chão, para que eu pudesse refletir por algumas horas.
Acabei pegando no sono. Não foi meu sonho que me acordou dessa vez, foram faróis. Corri para a janela, esperando encontrar algum ser humano ali, mas vi o cabelo branco de Sebastian pelo retrovisor enquanto dava ré.
Ele veio matar minha filha.
Era agora. Precisava fugir dali. Não tinha tempo para pensar.
Escorreguei no chão, peguei a caneta rosa e escrevi de forma apressada meu nome e 2019 ao lado.
Aquele velho tarado que se ferrasse.




2019

Eu definitivamente não aguentava mais aquela dor de cabeça. Algo felpudo entrou na minha boca. Cuspi de forma exagerada e abri os olhos. Era apenas o rabo de Lemmy. Ele miou quando me sentei, passei a mão em seu pelo.
Estava em casa mais uma vez. A temperatura estava habitável, me fazendo respirar melhor e aliviada.
Procurei Anya com o olhar, mas ela não aparentava estar. A porta do seu quarto aberta indicava isso. Ok, primeiro precisava do meu celular. Procurei-o, mas ele não estava em nenhum lugar do meu quarto ou da casa. Então resolvi entrar pelo computador mesmo.
A data marcava dia 13 de abril de 2019.
Uma semana se passou desde o dia que apareci pela última vez. Então estava tudo diferente. Abri o aplicativo de mensagem para ver se a minha última mensagem para Shandi antes de viajar no tempo estava lá, mas a última que mandei foi dia 5. Ela me mandou mensagens ao longo dessa semana que passou, preocupada porque faltei todos os dias da faculdade e do estágio. Minha mãe me mandou uma mensagem avisando que ela e meu pai ficariam ausentes em um retiro espiritual, sem celular, por duas semanas. Eu não me importaria em responder aquilo naquele momento, só precisava localizar o paradeiro de de novo. Não poderia perder tempo. Encontrei meu celular debaixo da cama, não fazia ideia de como ele foi parar lá, mas nada estava fazendo muito sentido daquela vez.
Tomei banho, vesti uma roupa nova e fiz uma mala para viajar de novo para Estocolmo. Ao tentar tirar o dinheiro da poupança, acabei bloqueando a conta por esquecer da senha. Rosnei. Só faltava essa. Vai no cartão da conta corrente mesmo, não havia muito dinheiro, mas era o suficiente para comprar minha passagem de ida.
Roí todas as minhas unhas pela ansiedade de saber se ele realmente estava vivo. Não queria pesquisar e correr o risco de me decepcionar, por isso precisava encontrar com Lilly primeiro. Ainda me lembrava do endereço dela, era fácil de decorar, então não era necessário fazer uma visita à casa primeiro. Quando abriram as portas da aeronave, praticamente arranquei minha mala de mão do bagageiro e saí correndo. Não havia fila dessa vez. E o Uber chegou rápido, parecendo prever minha pressa.
O aeroporto era um pouco longe da casa dela, mas minha mente estava tão agitada que mal percebi quando o carro parou em frente ao prédio. Minha memória não tinha me pregado uma peça, era mesmo o prédio que estive da outra vez. Subi as escadas abraçando a mala. Quando bati à porta, meu peito subia e descia rapidamente.
Esteja em casa.
Bati mais uma vez. A porta abriu e lá estava a mesma Lilly que encontrei em 2019. De cabelo escuro e bem mais velha. Sorri, mas ela parecia ter visto um fantasma de novo.
— Lilly — sussurrei. Eu pensei que ia morrer naquele chalé sem vê-la de novo.
? — ela perguntou, assustada. Sua mão no peito descia e subia, mostrando que ela também estava ofegante.
Assenti. Uma mão masculina surgiu em cima dela. Imaginei que fosse de Marko, já que eles eram casados. Porém, quando a porta foi escancarada e vi aqueles olhos , meu chão cedeu.
? — perguntei com o fio de voz que me restava, para comprovar que ele era real. O homem de cabelo longo e grisalho, cavanhaque cinza e algumas rugas que estava ali parado não podia ser o meu. Só quando ele assentiu que algo estalou dentro de mim e as lágrimas começaram a descer.
Eu o salvei.
— É melhor você entrar — Lilly disse, se recuperando minimamente do susto. Ele deu alguns passos para trás. Ela me deu espaço para passar e depois trancou a porta. Vi os mesmos porta-retratos passarem por mim, com as mesmas crianças.
Não parei para analisar. Somente encostei minha mala na parede do corredor e corri até ele para abraçá-lo. Joguei todo o meu peso em cima dele, que me amparou. O calor que sonhei todos aqueles dias na neve me inebriou juntamente com um cheiro diferente. Não era o meu favorito, agora era amadeirado. Desatei a chorar em seu abraço.
— Eu-senti-tanto-a-sua-falta — murmurei contra a camiseta preta molhada pelas minhas lágrimas. — Achei que fosse morrer naquele chalé horrível. Aquele babaca! Ele-pretendia-matar-nossa-filha. Foi o único jeito que encontrei de escapar. Eu ia ficar em ‘91, escolhi ficar para o bem da Emma… — me embolei toda com o choro e as palavras.
Ele me abraçou mais forte.
— Faça um chá para acalmá-la, Lilly. — Ouvi sua voz através do peito.
Passos ecoaram pelo corredor. Ele andou comigo até o sofá, sentou-se e eu acabei por desabar em seu colo. Enterrei o nariz em seu pescoço enquanto ele me sacudia de leve, feito um bebê. Era 2019, eu deveria encontrar apenas uma caixa com as coisas que sobraram. Me enrosquei em seu pescoço para ele não sumir, caso eu estivesse delirando no frio e sozinha.
— Você lembra de mim, certo? Em 1997, quando você voltou do procedimento e eu provavelmente não estava lá... — perguntei, a voz abafada pelo seu cabelo.
— Sim, — ele disse, com paciência.
— Senti saudades de te ouvir me chamando — sorri em meio às lágrimas.
Ele não respondeu, também não tentei puxar assunto. O choro ainda não havia cessado, então fiquei em silêncio vendo seu cabelo grisalho sendo molhado pelas minhas lágrimas. Meu estava grisalho. Ele tinha 53 anos. Parecia, de fato, um delírio.
Ele pegou uma xícara das mãos de Lilly e, em seguida, me ofereceu. Desenterrei minha cabeça do pescoço dele e bebi o conteúdo enquanto analisava seu rosto. Algumas manchinhas pintavam sua pele, o cavanhaque estava curto e agora havia apenas uma argola na orelha. Seus olhos pareciam me evitar — o que era bem estranho, já que tinha mais de vinte anos que não nos víamos. Entreguei a xícara para Lilly, que parecia ansiosa demais por estar me vendo na sala da sua casa. A atmosfera toda estava esquisita, não foi assim nem em 1988 quando eu era uma desconhecida. Virei o rosto dele para mim, fazendo-o me fitar. A cor na sua íris parecia triste e suas linhas de expressão indicavam preocupação. Me desesperei em ver aquilo, era para ele estar, antes de tudo, feliz por eu estar ali. Peguei sua mão para fazê-lo me sentir, como em 1997 e 2004, e tirar alguma reação positiva.
Me arrependi no mesmo segundo ao sentir o material frio da aliança tocar meu rosto.
Olhei para a sua mão completamente horrorizada. Não podia ser possível. Tinha uma aliança de ouro ali.
— Não... — murmurei, pulando do seu colo e caindo de costas no tapete.
Ele ajoelhou no tapete com os olhos arregalados.
, espera.
Me encolhi como se o toque dele fosse machucar. era um homem casado. Eu sentei no colo de um homem casado. Fiz uma careta de nojo enquanto ele vinha em minha direção. Lilly chegou e nos viu assim.
— Merda — ela praguejou, parecendo já ter premeditado tudo aquilo. Em seguida, também veio até mim.
Ela tentou me fazer levantar, mas meus olhos estavam vidrados na mão dele. Ele era de outra mulher agora. Solucei, sentindo o peso da traição. Não fui traída, mas me senti assim. Meu coração se partiu. Lembrei daquele ano, ele perguntando se eu queria me casar no chão da sala. Ele, o de ‘97, que me olhava assustado agora. O mesmo que disse não pensar nisso, mas, se eu quisesse, ele o faria.
Minha mente gritava: traída.
— Você não pode ficar no chão, . Levanta e eu vou te levar para o quarto de hóspedes — Lilly pediu atrás de mim. Não queria ser um incômodo, então obedeci.
Ela me levou pela mão até a segunda porta que dava para a sala, contando a partir da parede que mostrava a vista lá de fora. Só assim que notei o quanto era um apartamento grande. Deitei-me na cama gigante bem-arrumada. Ele veio atrás, eu me encolhi de novo agora perto dos travesseiros e Lilly percebeu.
— Vamos ficar na sala — ela pediu a ele, o empurrando pelo peito. — É melhor, por enquanto.
Encostou a porta, deixando-a semiaberta. O dia da discoteca, o que vi Natalia em seu apartamento, as garotas no bar, ele aos beijos com aquela mulher na sala e depois no cinema... Tudo veio à tona, só que vinte vezes pior. Enterrei meu rosto na colcha da cama e chorei copiosamente. Não havia final feliz para mim. Ou eu morria congelada no meio do nada ou o amor da minha vida se casava com outra. Não sabia o que era pior. Apostei tudo no de ‘97, fazendo-o meu favorito depois do original, quando deveria ter ficado com o de ‘88. Fazendo tudo certinho, eu que teria o outro par daquela aliança em pouco tempo.
Nem o cheiro do shampoo de frutas ele tinha mais. A mulher dele deveria ter passado a comprar outro depois que se casaram.
A cama fofa e quente me fez adormecer. Não era a primeira vez que acordava sozinha naqueles dias e não sonhei nada. Me senti cansada e perdida quando abri os olhos. Como se soubesse que acordei, Lilly de 2019 entrou no quarto e abriu a persiana. A luz matinal invadiu o quarto, me lembrando que eu tinha dormido na casa da minha ex-cunhada. Sentei-me na cama, sentindo que chorei um rio pelos meus olhos inchados.
— Bom dia — sorriu para mim, como se realmente fosse um bom dia.
— Droga, acabei dormindo... Desculpa, eu deveria ter ido embora — falei, pressionando meus olhos para não chorar mais.
— Tudo bem, você pode ficar o quanto quiser. — Senti a cama afundar perto de mim, tirei as mãos dos olhos. — Está se sentindo melhor?
Fiz uma expressão de desgosto ao lembrar o que aconteceu e tampei meus olhos de novo. De alguma forma, eu esperava que fosse mais um delírio do frio.
— Não — resmunguei —, mas sei que eu não tenho mais nenhuma relação com vocês, então vou embora.
Removi as mãos quando já tinha passado um tempo sem resposta e ela me encarava de braços cruzados. Parecia irritada.
— Não acredito que falou isso — brigou. — Você é minha melhor amiga antes de ser namorada dele, não se lembra?
Ela falando isso em ‘97 para ele enquanto me carregava para o seu quarto me veio à mente. Foi o dia que me contou, arrependida, que tinha escondido que perdeu a virgindade. Nós contávamos tudo uma para a outra, agora ela estava me mostrando que não era diferente.
— Lembro. — Forcei um sorriso. — Eu jamais esqueceria.
— Ótimo, porque preparei café da manhã para a gente. — Ela deu tapinhas na minha coxa. — Levante-se.
Lilly só deixou o ambiente depois de me ver de pé. Minha mala estava ali, então peguei uma roupa nova, escova de dente e a de cabelo. O quarto era suíte, o que me deixou mais tranquila para fazer as coisas no meu tempo. Era bom voltar aos autocuidados que os dias da cabana me privaram, mas algo em mim dizia que não queria fazer nem o básico, só deitar na cama e apodrecer. Eu não me esforçaria para não ficar de fossa na casa da irmã do dito cujo, no entanto. Enquanto escovava meu cabelo em frente ao espelho, sussurrei para mim mesma:
“Você viveu uma vida antes dele, . Pode muito bem viver outra depois dele”.
Minhas roupas de 2019 estavam ficando apertadas na barriga, logo precisaria de novas. Estava pensando nisso e em tudo, menos no que descobri no dia anterior. Assim, não corria o risco de desabar de novo. Pelo menos não agora, quando Lilly estava me esperando para tomar café da manhã. Só precisava segurar um pouco a barra.
Depois de refletir até em quantos dentes um cavalo tem enquanto escovava os meus, saí do quarto. Passei pelo sofá e senti um calafrio na espinha, era como se eu pudesse me ver no colo daquele homem casado. Praticamente corri até a cozinha para espantar o pensamento e Lilly estava terminando de colocar os itens na mesa.
— Ah, aí está você. — Sentou-se. — Coloquei tudo que tenho em casa aqui em cima — riu. — Mas, se você quiser, posso tentar arranjar algo que não tenha.
Ela se sentou. Sentei-me na cadeira com o estofado de desenhos infantis e lembrei da sua família.
— Onde estão seus filhos e o Marko? — perguntei, franzindo o cenho, porque tudo ali parecia muito arrumado e pacífico para uma casa de três garotos.
Ela sorriu e começou a passar geleia na torrada.
— Esqueci que você já esteve aqui, em um 2019 diferente, por isso sabe sobre o Marko. — Ela pareceu se recordar do que contei em 1997. — Ele e o Andreas levaram as crianças para acampar.
Prendi a respiração. Será que… ele tinha filhos? Acho que isso não conseguiria suportar.
— Não, ele nunca quis ter filhos e ela respeitou isso. — Pareceu ler minha mente. Soltei o ar para deixar o alívio entrar. — Não vamos falar sobre isso. Vamos comer!
Analisei a comida ali em cima. De fato, parecia tudo que ela poderia ter. Porém, três coisas faltavam e exatamente essas me pareciam essenciais para encarar aquele dia. Fiquei um pouco receosa de verbalizar, mas meu estômago roncou em expectativa para experimentar aqueles três sabores juntos.
— Hm... Lilly? — chamei-a enquanto mordia as peles ao redor do meu dedão.
— Oi?
— Por um acaso você não teria um vidro de azeitonas, uma lata de leite condensado e mostarda? — perguntei praticamente salivando.
Ela soltou uma risada alta.
— É o seu primeiro desejo estranho de grávida? — ela perguntou após me analisar.
— Acho que sim — falei, meio incerta se era mesmo. Na minha cabeça, essas três coisas pareciam normais o suficiente para juntá-las.
— Não tenho, mas posso providenciar até a hora do almoço. Agora, coma qualquer outra coisa só para aguentar até lá. — Ela mordeu a torrada.
Nada parecia que supriria minimamente minha vontade. Então peguei uma maçã, por me parecer a alternativa mais saudável, já que passei dias sobrevivendo de ração. Comi a contragosto sob o olhar julgador dela. Sabia que ela queria começar a falar e me encher de perguntas, então a encarei.
— Não estou pronta para falar sobre ele. Então pode me perguntar qualquer coisa, menos isso — avisei, me preparando para o turbilhão.
— Quantas semanas? — Ajeitou-se na cadeira, provavelmente também se preparando, mas para atacar.
— Dezessete.
Seu rosto se contorceu em uma expressão doce.
— Vocês já estão no segundo trimestre — ela disse com uma vozinha fina, me fazendo rir. O barulho da minha risada soou bizarro aos meus ouvidos, como se fosse errado. — Já começou a sentir ela se mexendo?
— Sim, quando estava em 1988 — me limitei a dizer apenas isso. Flashes do deste ano invadiram minha mente e detonaram meu astral. Estava tudo tão encaminhado e, de repente, precisava juntar os cacos do meu coração sozinha.
— O que aconteceu com você? Parece que não dorme e come direito há dias. — Franziu o cenho, seus olhos preocupados.
Suspirei. Minha tentativa de explicar o dia anterior me fez chorar, mas estava determinada a só chorar depois que terminasse de contar.
— Eu voltei para 1991. Contei tudo para você: 2019, 2004, 1997 e 1988. Depois que acabei, te deixei esperando Marko, porque foi assim que vocês se conheceram, e fui sozinha até a parada de ônibus. Ia para o hospital encontrá-lo e me sentia feliz de estar de volta em casa. Até que aquele amigo do seu pai apareceu e tinha um capanga enorme que me golpeou no pescoço.
Ela tampou a boca com as duas mãos.
— Que amigo? O Sebastian? — perguntou em puro choque.
— Sim, o Sebastian me sequestrou e me manteve num chalé perto da montanha durante o inverno. Acho que se passaram sete dias. Fiquei sozinha lá porque ele disse que só voltaria quando se acostumasse com a ideia de que estou grávida de outro homem ou quando desse um jeito de fazer algo com meu bebê. — Senti as lágrimas ameaçarem a cair. Se controla, se controla...
— Isso é gravíssimo, ! Tenho que contar para os meus irmãos e para a Karin imediatamente! — Sua voz estava abafada pelas mãos.
O desespero começou a surgir em saber que eu seria um estorvo entre os de novo.
— Não, não conte — pedi, sentindo minha voz embargada. Pigarreei. — Estou bem agora. Foi o único jeito que encontrei de escapar, ele levou meu pager e não tinha nada lá perto. Quando voltou, fiquei apavorada que fizesse mal à Emma de algum jeito e acabei aqui de novo. — Dei um sorriso triste, sentindo o gosto amargo dessa realidade na língua. — Ainda não sei o que foi pior. Acho que, se eu estivesse funcionando normalmente naqueles dias, teria uma ideia melhor. Tipo me esconder no porta-malas dele.
Ela se levantou da cadeira e veio envolver minha cabeça em um abraço.
— Ei. Você fez o que estava ao seu alcance para sobreviver. Não se culpe.
Sentir seus braços em volta de mim assim foi o suficiente para as lágrimas virem com força total.
— Como posso não me culpar? Ele é o amor da minha vida, Lilly. O amor da minha vida se casou com outra. Eu cheguei tarde demais de novo!
Ela tentou me consolar, mas o choro não parecia nem perto de cessar. Uma vez acordado, ele teimava em ir embora. Deixei-a me segurar assim por um tempo, mas temi estar incomodando e perguntei se podia voltar para o quarto até o almoço. Assentiu veementemente e me encorajou a dormir um pouco. Ela estava me tratando como aquele dia que apareci em sua casa depois de pegar Natalia no apartamento dele. Não gostava muito de ser o alvo da pena dela, mas estava gostando da sensação de ser cuidada, para variar.
Consegui dormir mais um pouco, mas acabei acordando depois de sonhar com azeitonas cobertas com leite condensado e mostarda em cima. Meu estômago roncou e resolvi me levantar para perguntar se Lilly precisava de ajuda com o almoço. Cheguei à cozinha e ela conversava com ele.
Saí correndo de volta para o quarto, mas os dois me seguiram. Para o meu verdadeiro infortúnio. Eu não ia me trancar na casa alheia, por isso não podia reclamar. Me joguei na cama com cuidado, por causa da barriga, e enfiei o travesseiro no rosto para não ver dois pares de olhos idênticos me encarando com preocupação.
… — ele me chamou.
— Não quero falar com você agora — resmunguei. — Lilly, por que você fez isso?
— Me apavorei em te ver chorando daquele jeito. Também porque o pai do bebê precisa atender ao primeiro desejo da gestação — falou naquele tom doce.
Não podia acreditar que estava perpetuando o sobrenome daquela família. Minha filha vai ser igual a eles e me enlouquecerá do mesmo jeito. Vou falar para não fazer algo e ela vai fazer só para me contrariar, que nem aqueles dois que estavam no quarto. Precisava ir embora dali, voltar para a Inglaterra, para o Brasil. Que seja. Tirei o travesseiro da cara para tomar uma atitude. Peguei meu celular na mesa de cabeceira branca, coloquei como destino São Paulo e evitei olhar para eles. Traidores, principalmente a Lilly. Ela saiu do quarto e aquele homem casado veio até a cama. Me encolhi para não que não corrêssemos o mínimo risco de nos tocar.
— Você está me tratando como se eu tivesse com algo altamente contagioso — reclamou, colocando o cabelo longo para trás das costas como fazia antigamente. Como eu achava atraente. Fiz uma careta de desgosto.
— Isso ou casado... Você precisa ficar longe de mim — retruquei, ainda deslizando a tela com passagens caríssimas, com escalas absurdas e com voos que só sairiam no meio da semana.
— Isso dói em você como dói em mim — confessou com a voz melancólica.
— Duvido. Eu passei sete dias pensando que morreria sem sentir seu calor de novo, agora você está aqui na minha frente e é a mesma coisa se não estivesse. — Soltei o celular e tomei coragem de encará-lo. — Seu cheiro nem é mais o mesmo, aquele shampoo tinha meu cheiro favorito no mundo — falei com raiva.
Seus olhos me fitaram como se eu estivesse o flechando no peito.
— E você acha que me sinto bem em saber que você foi feita de refém pelo amigo do meu pai? Estou me sentindo um merda. Você o conhece por minha causa, eu disse que ia te proteger. — Ele esticou a mão para me tocar, mas deixou-a cair no meio do caminho em cima da colcha. — Aquele shampoo velho de frutas saiu de linha em 2007. Eu ainda o procurei por todos os lugares, sabia o quanto você amava e continuei usando por sua causa. Mesmo depois que você foi embora, eu o usei todos os dias até não encontrar mais um frasco na prateleira do mercado.
Fiz outra careta ao imaginá-lo casado com outra mulher e pensando em mim.
— Você é casado — cuspi as palavras como se fosse um insulto. — Aquele dia, no chão, você disse que nunca tinha pensado em se casar, mas que eu te deixei pensando se valeria a pena usar um terno e acordar ao lado de alguém todos os dias. — As lágrimas já estavam se enfileirando nos meus olhos. — Valeu a pena por ela?
Uma lágrima deslizou pela sua bochecha marcada pelas linhas de expressão. Ele olhou para a própria mão que estava no meio do caminho. Só percebi naquele momento que ele driblou a maldição e não sofreu por mim até o fim dos seus dias.
— Eu me senti solitário, em certo ponto. Comecei a namorar Anna porque ela quis, ficamos juntos por mera conveniência. Ela era diferente da Natalia e respeitava o seu fantasma naquele apartamento. Mesmo sem saber tudo sobre você, ela respeitou o meu luto. Conforme o tempo foi passando, ela passou a querer mais, então fomos num cartório e assinamos os papéis. Nada de roupas formais ou festa, não faz o estilo dela — ele sorriu, triste. — Eu a amo, mas ela sabe que não é o mesmo amor que senti com você. Com você é devastador. Toda vez que te vejo, meu coração lera e eu sinto tudo ao mesmo tempo, com ela sempre foi só calmo. É horrível sentir isso, eu queria sentir todos os tipos de amor pela minha mulher e já tentei reverter essa situação de todos os jeitos — suspirou. — Só eu sei o quanto tentei e ainda tento.
Funguei. Ele tinha achado alguém que o entendia, precisava ficar feliz por aquilo. Só que acabei escolhendo o outro jeito e continuei me sentindo traída.
— Realmente, não estou pronta para falar sobre isso agora — admiti e enxuguei minhas lágrimas. — Mas você pode me trazer o leite condensado, as azeitonas e a mostarda? Acho que vou morrer de vontade se não comer isso.
Ele enxugou a lágrima e sorriu com compreensão. Levantou-se e, em seguida, saiu. Ficar perto dele era tão dolorido que a dor pela sua ausência até se tornava fácil. Não queria transformar meu amor por ele nisso, algo tão singelo que estava evoluindo para dor a cada segundo que me lembrava do seu casamento. Então realmente precisava me afastar.
Peguei meu celular de novo e desisti de olhar passagens para a casa dos meus pais, porque eram inssíveis, então comecei a olhar passagens para Birmingham. Eu sobreviveria, mais uma vez. Poderia voltar a frequentar a faculdade para não perder a bolsa, trabalhar como voluntária no zoológico, reestabelecer minha rotina. Shandi e Raj me ajudariam, no final, eles sempre acabavam me ajudando mesmo. Apostava que eles não mediriam esforços se soubessem que seria mãe solo. Senti as lágrimas rolarem de novo enquanto apertava na opção de comprar o voo para a manhã seguinte. Eu estava pronta para abandonar minha aventura bem-sucedida no século 20 e assumir meu papel de mãe. Cuidaria com amor e carinho do pedaço dele que ficou comigo. Preenchi os dados do cartão e os do passageiro, apertei enviar.
Ele entrou pela porta, trazendo um vidro de azeitonas portuguesas, mostarda e uma lata aberta de leite condensado. Lilly veio atrás, trazendo prato e talheres. Pousei o celular ao meu lado, na cama. Finalmente poderia matar aquele desejo. Abri a lata de azeitonas e pesquei algumas enquanto minha boca salivava descontroladamente. Coloquei-as no prato e derramei um pouco de leite condensado em cima, depois completei com a mostarda. Parecia vômito, mas enxerguei como um prato de restaurante chique que era incompreendido. Uma obra de arte. Coloquei a colher na boca e fechei os olhos com a explosão nas minhas papilas gustativas. Era divino.
— É bom? — ela perguntou, me analisando.
— A melhor coisa que comi na vida — murmurei. — É amargo, doce e ácido. Tudo ao mesmo tempo.
Ele me observava de braços cruzados e com um sorriso triste. Estava farta de vê-lo me olhar com tanta tristeza, sempre me lembrando que não me encaixava mais na sua vida. Estava farta também de me sentir sempre uma intrusa. Coloquei outra azeitona na boca e a magia sumiu, se tornando apenas azeitona, leite condensado e mostarda; uma mistura absurda. Fiz uma careta para a comida e já queria começar a chorar de novo feito uma menina mimada.
— Não parece mais tão agradável — falei, afastando o prato para não sentir o cheiro ou vomitaria.
Ela pegou o prato, os ingredientes e levou embora. continuava me olhando com uma maldita expressão triste. Escondi meu rosto com as mãos, me sentindo cansada e de coração partido. Acabei baixando a guarda e o choro assumiu o controle, fazendo meu corpo convulsionar com os soluços. Me senti mal por fazer aquilo na frente dele, parecia até que estava querendo chamar atenção com meu drama, mas não estava tendo mais controle das minhas emoções. Os hormônios, o cansaço e a solidão dos dias do chalé, a decepção amorosa e o sentimento de ser uma intrusa se uniram para me baquear. Mesmo que meus pais fossem ausentes, eu enquanto criança chorava e pedia por eles. Estava sentindo isso de novo. Só queria abraçar meu pai e chorar enquanto ele dizia que tudo ficaria bem. Deveria ser meu interior gritando para pararmos e voltar para onde é seguro.
Baby, não chora. Por favor. — Ele tocou meu braço e o local pareceu queimar.
— Não me toca! — rosnei em aviso.
, não faça isso — ele pediu com a voz grossa. Descobri o rosto para tacar um travesseiro nele. Aquele ridículo não estava em posição de me pedir nada. Era ele quem estava invadindo a porra do meu espaço. Pegou o travesseiro que eu joguei no seu peito e pousou de volta na cama. Seu rosto estava vermelho. — Já se passaram mais de vinte anos desde que você se foi.
Soltei uma risada sarcástica. Agora a minha demora era o problema.
— Ah, me desculpe se eu me atrasei, querido, estava fazendo um maldito tour por diversos anos como punição por salvar a tua vida! — gritei, me esquecendo que estava na casa de Lilly. Depois suspirei para tentar baixar minha bola de novo.
— E você salvou. Eu estou aqui, então para de fugir de mim. — Agachou-se perto de mim.
— Sai daqui — implorei, sentindo dor em tê-lo tão perto sem poder tocar. — Você não vai trair sua esposa comigo.
— Eu não estou traindo só de pegar sua mão ou te abraçar, . Ela sabe sobre você.
O problema era que eu queria e precisava de mais. Por respeito a ela, não podia permitir que me tocasse enquanto eu pensava que o queria para mim.
— Vai embora, . Por favor. Amanhã você volta ou outro dia, mas não consigo mais lidar com isso hoje. Está doendo só de olhar para você — falei com a voz fina por conta do choro. Lilly apareceu de novo na porta com um olhar preocupado. Ele não se moveu, só me fitava em choque. — Por favor — pedi mais uma vez.
Lilly tocou seu ombro, tirando-o do transe. Ele deixou o quarto praticamente carregado enquanto me olhava igualmente com dor. Estava doendo nele também, tinha plena certeza daquilo. Só que quem acabou sozinha, no fim, fui eu, mesmo passando por todos aqueles anos, arriscando minha vida e a do meu bebê. Ele tinha uma esposa e eu não tinha ninguém. Estava sozinha de novo.
Por tanto tempo, a maldição foi o meu medo. Visualizá-lo sofrendo por minha causa era um pesadelo. Lembrei de que quando Lilly me contou que ele morou e morreu sozinho na minha casa foi um baque. Eu desejei a felicidade dele, mas nunca pensei em como seria doloroso ouvir que ele tinha alguém. Ainda mais quando me apeguei tanto a ele nessas viagens do tempo, a ponto de não tolerar mais a ideia de que ele seria de outra pessoa. Fui muito ingênua em voltar para 2019 sem considerar essa possibilidade. A verdade era que ele estar morto parecia mais real, na minha cabeça, do que casado. Era uma egoísta de merda por pensar aquilo, por isso precisava dormir e colocar as ideias no lugar.
Agarrei o travesseiro como fazia com ele. Deixei todas as lágrimas que queriam sair serem libertadas. Nunca experimentei a sensação de coração partido, mas não a queria nunca mais. O que me consolava era saber que só tínhamos uma alma gêmea e a minha era ele, então não sofreria de novo. De todas as versões dele, aquela foi a que mais me magoou. Até mesmo vê-lo me olhar como uma desconhecida, em 1988, não me machucou tanto quanto saber que ele era casado. O meu de ‘97 que sonhou comigo de pijama natalino, leu um livro sobre formação de bebês para minha barriga enquanto eu tinha pensamentos impuros, tentou arrumar a bagunça da sua casa para que ficasse habitável para mim, me levava para sair na sua motocicleta, fez amor comigo na festa do seu amigo, falou sobre casamento no chão da sala, me procurou feito um louco quando fugi escondida para chorar, disse que amava nós duas antes de entrar para a sala de cirurgia... A minha versão favorita depois da original. Tudo aquilo que vivemos naquele ano foi jogado na minha cara. Ele se lembrava, eu sei que lembrava, por isso me olhava com tanta tristeza. Só me lembrava de ser olhada assim quando dei o fora nele em ‘90, ao me ver no topo da escada em ‘91, quando soube que eu ia embora em 2004 e agora.
Pensei no de ’88, que nunca me direcionou esse olhar. Até aquelas roupas de couro e as piadinhas sujas me faziam falta agora.
Depois que peguei no sono, Lilly me acordou uma vez para comer. Engoli tudo rápido para ficar sozinha de novo. Sabia que estava sendo uma visita extremamente mal-educada, mas não possuía forças para tentar fingir como no café da manhã. Ele exauriu tudo. Ela pareceu entender e respeitar.
De noite, uma notificação no meu celular me acordou. Era o aplicativo do e-mail. Eu ia ignorar, mas vi que era da companhia aérea e acabei abrindo para ver do que se tratava. Meu cartão foi recusado e pediram para contactar o banco. Abri o aplicativo financeiro para buscar o motivo, mas, quando vi a quantidade de dinheiro na conta, entendi tudo. Eu não tinha dinheiro nem para passar a noite em um hotel barato, como aquele que fiquei na década de 80. Já que minha poupança estava bloqueada, resolvi mandar mensagem para minha mãe que era quem resolvia tudo isso com o banco brasileiro e me deparei com a última mensagem dela. Eles ficariam duas semanas em retiro espiritual sem celular. Havia realmente alguém que me odiava por trás de toda aquela história. Joguei o celular longe depois de insistir e mandar mensagem para os dois, mas nenhum recebeu. Como perguntaria para Lilly se poderia enfrentar uma fossa na casa dela pelos próximos dias? Como lidaria com Marko e as crianças naquele estado? Parecia inviável.
Não queria pedir ajuda para Shandi de novo, estava cansada de contar tudo e tinha vergonha de pedir socorro. Nossa amizade não era tão desenrolada assim, como a minha e a de Lilly. Porém ainda tinha minha avó paterna e poderia tentar no dia seguinte.
Dormi de novo, mesmo com a preocupação me assolando. Acordei às quatro da manhã, não sonhei nada de novo, só simplesmente abri os olhos e não consegui mais dormir. Antes que minha mente me lembrasse de toda a porcaria que estava passando, resolvi pegar meu celular e procurar no Instagram. Ele podia ser velho demais para ser viciado em rede social, mas não para ter uma. Esperava que ele não fosse mais um daqueles ermitões, mas seria bem a cara dele, para contrariar. Achei a rede social da banda, lá ele postava processos criativos, tipo letras todas rabiscadas, processo de mixagem, gravação da voz e dos instrumentos, tudo, era um verdadeiro prato cheio para os fãs. Então ele continuou com a banda, afinal. Deveria ser incrível ser fã dele nessa realidade. Pesquisei o nome dele: . Não foi difícil de achar, mas era um perfil trancado. ‘Tá. Eu só iria até ali, por enquanto.
Levantei da cama e fui tomar banho, já que não tinha tomado antes de dormir. Minha glândula lacrimal estava vazia do tanto que andava gastando chorando. Tentei chorar por não poder voltar para casa e escapar de tudo aquilo, mas não consegui.
É, estava tudo realmente uma verdadeira bosta.
Fui na ponta do pé até a cozinha para beber água por estar realmente preocupada com minha falta de lágrimas, mas levei um susto com Lilly sentada na mesa.
— Puta que pariu! — xinguei em português, com a mão no peito.
Ela sorriu.
— Bom dia para você também. Dormiu bem? Está com fome? Como está se sentindo? — me lotou de perguntas.
— Eu... só vim beber água — expliquei, tirando a mão do peito. — O que está fazendo acordada?
— Daqui a pouco tenho que ir trabalhar. — Ela fez uma careta. — Sou supervisora do jornal da tarde, mas a gente acaba começando cedo para ter tempo de deixar tudo certo.
Concordei com a cabeça. Parecia uma profissão promissora. Ela se levantou, pegou um copo do armário branco e alto, depois me entregou. Abri a torneira, enchi-o de água e bebi.
— Sinta-se à vontade para pegar e fazer qualquer coisa. Devo voltar só umas seis da tarde — ela comentou enquanto eu virava o copo e enchia de novo.
— Sinto muito por te incomodar tanto, mas é que depois de tanto tempo sem usar minha conta do banco, acabei errando a senha e bloqueando-a. Quem resolve essas coisas geralmente é a minha mãe, mas ela e meu pai saíram para um resort de retiro espiritual, seja lá o que isso for, e estão sem celular. — Fechei a torneira rápido quando a água transbordou na minha mão. Ela secou minha pele com um pano enquanto eu levava o copo para minha boca.
— Pode ficar o quanto você quiser. Nós só voltaremos a ter companhia daqui a alguns dias, que é o fim do recesso deles. Duvido que Marko e Dre aguentem tanto tempo trancados com aquelas crianças, mas ele me prometeu que não voltaria antes, para o bem da minha sanidade — riu.
Soltei uma risadinha também ao pensar em Andreas e Marko cuidando de crianças. Mesmo que eles fossem pais agora, me parecia uma sinfonia ao desastre. Pelo menos era um alívio saber que eles não chegariam e encontrariam uma estranha sozinha em casa.
— Eu ainda vou tentar ligar para a minha avó, quando for um horário itável no Brasil — expliquei para ela não achar que eu pretendia realmente me apossar da sua casa.
Ela apenas assentiu e me lembrou que poderia ficar o quanto quisesse. Também me forçou a comer, então acabei empanturrada de ovos mexidos, panqueca com mel, iogurte e suco de laranja. Fazia muito tempo que eu não comia tanto assim, depois me senti pesada e grogue. Lilly salvou o contato dela no meu celular antes de sair, também me fez salvar o meu em seu celular.
Aproveitei para cochilar até a hora de ligar para a minha vó. Meus olhos abriram sozinhos às sete. Cedo demais de novo. Dessa vez, sabia muito bem o que me fez acordar. Peguei o celular e entrei no perfil dele de novo, a foto do seu rosto envelhecido me provocou um frio na barriga. Parecia um lembrete de que ele nasceu em 1966 e era mais velho que meu pai. Senti Emma se movimentando de novo e toquei minha barriga para ela saber que, a partir de agora, eu tentaria assumir as rédeas da situação e me portar como adulta. Por isso, seguiria o pai dela. A bio dele era “um bastardo velho que faz músicas ruins”. Apertei para segui-lo com o coração na boca, esperava não me arrepender daquela decisão adulta. Ele itou minha solicitação um minuto depois e começou a me seguir. Meu Deus, eu nem pensei em ver o que tinha no meu perfil antes. Abri o meu e tinha uma foto tosca minha usando uma camiseta cuja estampa era ele no começo dos anos 80. Salvei-a só para mim. Ele me mandou uma mensagem.

: Eu vi.
: Não viu não.
: Printei a tela porque sabia que você faria isso.
mandou uma foto.

Grunhi ao ver aquela foto vergonha alheia de novo. Eu tinha postado aquela foto na mesma semana que viajei no tempo, no dia que aquela camiseta que comprei no eBay chegou. Tirei a foto de frente para o espelho, meu cabelo ainda estava acima do ombro que era como eu costumava usar e o short marrom minúsculo mal aparecia por causa do tamanho da camiseta preta. O foco não era eu, era Lemmy bebendo água da torneira da pia ao meu lado. Foi por isso que a postei.

: Idosos não deveriam saber printar tela ou ter um celular que faça isso.
: Imagino que com idosos você queira dizer todo mundo que nasceu antes de 1980.
: Exatamente.

Sorri e me amaldiçoei por isso. Eu não deveria estar sorrindo para ele.
Aguardei uma resposta, mesmo sabendo que não tinha mais o que dizer depois daquilo. Meu dedo vacilou em apertar para ver o perfil dele. Não precisava me cobrar para fazer aquilo naquele momento, só o chamaria para conversar como adultos. Vi uma mensagem brotar na conversa.

: Esse gato é o Lemmy que você falou aquele dia?

Que memória boa. Vinte anos e ele ainda lembrava de algo bobo que falei.

: Sim.
: Estava pensando... Será que você pode passar aqui mais tarde para a gente conversar?
: Estou indo.

Revirei os olhos. Eu disse mais tarde, mas deveria imaginar que ele apareceria ali no mesmo segundo depois da forma que foi embora no dia anterior. Não demorou muito para o barulho alto da motocicleta ecoar pela rua e depois cessar. Então ele ainda era motociclista, para o meu infortúnio. Flashes dele na frente da Harley Davidson no beco escuro invadiram minha mente.
O som da campainha me arrancou a lembrança da pior forma possível. Bem a tempo de me impedir de chorar por dois lugares bem distintos. Abri a porta e ele usava uma jaqueta do motoclube mais atual, coturnos, calça jeans preta e uma camiseta azul velha do show de reunião do KISS em ‘96. Conseguia imaginar a opinião dele sobre a saída do Frehley de novo em 2002, deveria ser algo como: aquele Tommy é um impostor. O conhecia o bastante para ter quase certeza de que até usaria essas palavras.
— Entra — pedi, depois de analisá-lo. Ele passou por mim e me esperou na entrada da sala. A área da sala ainda me provocava arrepios, então perguntei: — Se incomoda de conversar no quarto?
Ele negou e nós seguimos para a única porta aberta. Sentei na cama e me encostei nos travesseiros enfileirados. Ele ficou de pé para respeitar meu espaço. Agir como adulta, mentalizei enquanto batia na colcha para chamá-lo. Sentou-se onde indiquei. Perto demais, fazendo todos os meus alarmes de homem casado apitarem. Não tem problema ficar ao lado do pai da sua filha. A voz dele falando no dia anterior que segurar minha mão ou abraçar não eram traição ecoaram na minha cabeça em conjunto.
— Certo. — Pigarreei para corrigir a fraqueza da minha voz. — Te chamei aqui para a gente decidir como fazer com a nossa filha.
— Como assim? — ele perguntou, se virando para me encarar. Continuei fitando minhas mãos na frente da barriga.
— Eu moro na Inglaterra, você mora na Suécia. A gente tem que decidir o que fazer. — Meu tom saiu mais irritado do que eu gostaria. Eu estava assustada, não irritada.
— Você não pode morar aqui em Estocolmo de novo?
Segurei uma risada sarcástica bem na hora que ela ia sair. Ele queria que eu criasse minha filha com esse clima?
— Não. Chega de mudar minha vida por sua causa. Vou continuar a faculdade até ela nascer, depois trancarei a matrícula até ela ter idade o suficiente para ficar em uma creche.
Eu nem tinha pensado naquilo antes, mas foi saindo e me pareceu um bom plano. Ele ficou calado por alguns minutos, me fazendo levantar a cabeça e olhá-lo. Seus olhos também fitavam suas mãos e ele mordia o lábio inferior.
— Então me mudarei para a Inglaterra — finalmente respondeu.
Bufei. Ele só podia ter enlouquecido se achava que aquela era mesmo uma opção. A família e os amigos dele estavam todos ali. A esposa dele estava ali.
— E a Anna? — perguntei, me surpreendendo ao falar o nome dela. Até aquelas simples quatro letras que formavam um nome bonito me pareciam traição. De alguma forma, me sentia indigna de falar seu nome.
— Eu e ela conversamos e concluímos que vamos nos divorciar — falou como se fosse algo normal. Como se estivesse falando do seu apreço por pizza.
Meu queixo caiu. Estava convencida de que ele enlouqueceu. Se ele achava que ia largar a mulher por minha causa, eu jamais toleraria aquilo.
— Você não vai largar sua mulher por minha causa, . — Meu tom era de ultraje.
— Não me chame assim — ele pediu enquanto me olhava com seriedade. Suspirei por deixar escapar seu stage name e de uma forma não-proposital. — Meu casamento acabou no minuto que você apareceu, achei que soubesse — explicou.
Abri a boca para falar que nunca quis aquilo, então não tinha como ser culpa minha, mas ele ergueu a mão entre a gente e levantou o indicador para que o deixasse falar.
— Eu disse, ontem, que nunca consegui sentir todos os tipos de amor por ela, assim como sinto por você. E é verdade. Não é justo ficar com ela desejando estar com você, isso, sim, é traição. Era diferente quando você não estava aqui, mas agora sei que posso simplesmente pegar um avião e te encontrar.
— Não posso ficar com você, sabendo que se separou por minha culpa — admiti, querendo que percebesse que aquilo era um absurdo.
— Bom, então não fique. Não precisamos ficar juntos, assim como fizemos em 1990. — Passou a mão pelo cabelo em um gesto nervoso.
— Não — quase gritei de desespero ao imaginar o sofrimento de uma mulher desconhecida porque outra roubou seu marido, ou do meu, sabendo que quem eu amava morava perto de mim, mas não poderia o ter de novo. — Você não pode se separar dela. Não pode. Essa opção é inválida.
— E, por acaso, como você espera que ela fique comigo sabendo que engravidei uma garota sem que todos vejam como traição? — Ele pareceu sem paciência e logo se arrependeu por estar usando aquele tom comigo. — Porque você está grávida de um filho meu, — falou de modo mais suave.
Realmente, ele tinha um ponto. Minha boca se curvou com a tristeza. Explicar para todos sobre a viagem no tempo agora soaria como desculpa esfarrapada para traição. Ainda mais por conta da minha idade, deduziriam que ele a trocou por uma mulher mais nova — o que, infelizmente, era uma história comum.
— Eu posso sumir de novo. Volto pra Inglaterra e nunca mais você vai ouvir falar de mim. Acho justo. Você não precisa mudar toda a sua vida agora por um deslize de 1990, — falei, olhando novamente para as minhas mãos.
— Não! — ele se sobressaltou, como se eu tivesse pisado em seu calo. — Você não pode me impedir de ser pai dela, . Eu venho esperando por isso a minha vida toda. É a única coisa que não consigo aguentar.
Apoiei minha testa na palma da mão. Seria mesmo injusto da minha parte impedir que ele conhecesse a própria filha, mas também com ela de conhecer o pai. Não era isso que eu queria. Não era uma opção.
— Não sei o que fazer, então — falei com os olhos mirando o nada.
Senti sua mão pegando a minha. Levantei o queixo para fitá-lo e pedir para não me tocar, mas parei quando vi seu olhar tão ansioso, de quem tinha algo muito importante para falar. Então esperei, mas, pela sua hesitação, vi que era algo que sabia que não me agradaria muito.
— Tem somente uma alternativa que resolveria — sussurrou, mirando meus lábios.
— Para de olhar para a minha boca — pedi, quase perdendo minhas estribeiras por ele parecer estar prestes a me beijar.
Ele balançou a cabeça para despertar do transe e fitou meus olhos.
— Desculpe, é força do hábito quando você está tão perto assim — suspirou, tentando voltar ao assunto. — Quero que você analise, se for possível. — Apertou minha mão e eu assenti. — Pensei muito durante esses dois dias e… — ele puxou o ar e depois falou tudo depressa — você também pode voltar para 1991.
Minha cabeça pendeu para o lado, mostrando que não ouvi direito, como um cachorro. Não podia ter escutado o que achava que escutei. Seus olhos esperavam uma reação, provando que realmente meus ouvidos estavam funcionando. Mil pensamentos passaram pela minha mente, não soube distinguir entre eles. Então corri para o mais óbvio: o desespero.
— Não. — Olhei para o teto. — Eu não suporto outra punição. Te vi praticamente morrer por minha culpa, em 2004. Não posso passar por tudo de novo. Não posso. E se eu não voltar a tempo de ter a Emma? Ela vai ter que passar por aquele caos comigo ou pior… Ela pode ficar no ano em questão. Não. — As lágrimas embargaram minha voz conforme eu ia falando. Ele me puxou para um abraço. Não protestei, só chorei ao me imaginar passando por toda aquela aventura de novo.
— Está tudo bem, . Ninguém vai te forçar a passar por aquilo de novo — falou contra meu cabelo.
Solucei, sentindo o peso daquelas semanas sair pelos meus olhos.
— E-eu... — Tentei me acalmar para falar finalmente o que aconteceu em 1988, o único ano que ele ainda não sabia. — Eu separei todas as suas versões que visitei esses anos. Só que, em 1988, passei a separar sua versão que se lembrava da gente e a que não lembrava. E enquanto te fazia se apaixonar por mim, jurei não me apaixonar por aquela versão porque te trairia — sorri e senti o gosto das minhas lágrimas. — Em certo ponto, vi que era impossível não me apaixonar por você mais uma vez. Eu te amo tanto, é claro que me apaixonaria.
Tive a impressão de que ele começou a chorar porque senti meu cabelo molhado.
— Você me propôs que a gente se relacionasse do jeito certo e nós conseguimos. Saímos, demos uns beijos e aí você me pediu em namoro porque te confrontei. Nunca fui pedida em namoro antes. — Solucei outra vez. — No dia seguinte, você me apresentou para o seu pai e para Karin como sua namorada. Depois disso, nós tivemos altos e baixos, mas foi divertido. O nosso último momento foi quando me entreguei, aí você finalmente disse que me amava.
Ele me apertou em seu abraço, tive certeza de que ele chorava por causa da sua respiração.
— Não posso viver tudo isso de novo. Uma vez foi o suficiente para se tornar especial. Quero voltar para 1991, mas só quero isso porque estou insatisfeita com essa realidade. Saber que também posso voltar para lá correndo o risco daquele filho da puta me sequestrar de novo é aterrorizante.
— Eu sei. — Ele afagou meu cabelo. — A gente ainda pode dar um jeito, vou me mudar pra Inglaterra e ficarei com a Emma para que possa ir para a faculdade. Vamos criar nossa filha juntos.
Resmunguei ao ouvi-lo repetindo aquela maluquice. Até voltar para 1991 parecia melhor do que aquela possibilidade. Não roubaria o marido de ninguém, não era uma destruidora de lares.
— É o que você prefere? — perguntei, soltando-o para olhar nos seus olhos e ter certeza. — Que eu volte para 1991 — expliquei.
— Eu não tenho que preferir nada — falou, franzindo o cenho.
— Você tem que preferir algo sim, isso te envolve. Me conta — pedi, me rendendo e tocando seu peito. A sinceridade dele que me convenceria a tomar o próximo passo.
Ele fechou os olhos e puxou o ar, em seguida os abriu.
— Se pudesse te poupar de toda essa punição, com certeza preferiria que você voltasse para 1991. Te ver sofrendo por mim acaba comigo e ficar aqui seria assim, nós dois chorando um pelo outro. Criar uma criança nesse ambiente vai ser horrível e eu não suporto pensar que minha filha pode vir a ser traumatizada como eu. — Ele pegou minha mão esquerda entre as suas grandes. — Nós ainda podemos nos casar e posso te fazer feliz, . — Fitou o teto. — Mas, em 2019, tudo já está fodido demais para nós dois.
Recolhi minha mão e refleti. Não fui eu quem quis voltar para 2019, voltei porque era o único jeito de salvar minha vida e a da minha filha. Se o guardião sabia mesmo o que era melhor para mim, ele sabia desse fato. Peguei meu celular com uma ínfima esperança de que Solveig era uma alma bondosa e tinha deixado o portal aberto para mais uma tentativa. É claro que as chances de estar fechado, como da outra vez, eram bem maiores, mas não custava tentar. Procurei o site na lista do histórico.
— O que você está fazendo? — ele perguntou, olhando para a tela.
— Quero ver se o guardião deixou o portal aberto, porque, dessa vez, não foi minha escolha voltar para 2019, e, sim, o único meio de sobrevivência. Deveria ser o meu prêmio voltar para você em 1991 depois de te conquistar em ‘88, eu não tive chance nem de te ver. Não tive o que mereci. — Tremi ao ver o site. Ele me encarou. — É este. Preciso apertar para ver se o link vai dar como quebrado.
— Você tem certeza de que quer correr o risco de ficar perdida entre os anos de novo? — perguntou, com cautela. — E o Sebastian?
Puxei o ar e olhei para o teto. Se eu não fosse agora, tinha a impressão de que poderia desistir por causa daqueles dois fatores. Naquele momento, só queria minha vida e meu homem de volta, custasse o que custasse. Porém coloquei minha fé no que eu disse e, se eu estivesse mesmo certa, não precisaria passar por nenhum ano como punição, não teria que salvá-lo de novo.
Só mais uma chance. Só mais uma. Me deixa voltar para 1991 e escapar daquele homem horrendo. Eu mereço.
Eu tenho um plano. Assim que chegar de novo em 1991, vou fazer Lilly levar Andreas para minha casa. Conto a verdade, que Sebastian está atrás de mim e vai me sequestrar, que sei disso porque fugi para 2019 e voltei — falei e movimentei meu dedo para a tela do celular não apagar.
— É, até que falando assim, parece mais simples do que pensei. — Ele tocou minha mão. — Você não precisa fazer isso, se está fazendo por minha causa. Nós ainda podemos dar um jeito aqui.
— Dessa vez, estou fazendo por minha causa. Eu vou te salvar de novo, donzela em perigo. E serei eu a enfiar uma aliança no seu dedo.
Ele sorriu e me abraçou por alguns segundos, me fazendo sorrir também. Enxuguei as lágrimas e peguei meu celular, para matar logo aquela dúvida. Se o site não estivesse lá, eu imploraria ao elefante de joelhos assim que voltasse para Birmigham.
Pensei que, daquela vez, não me daria o trabalho de avisar meus pais. Não sabia o que aconteceria com essa realidade quando eu ficasse em 1991, provavelmente sumiria de suas vidas e seria como se nunca tivesse existido. Bem, eu achava e esperava muito. Não queria que eles sofressem a vida toda por uma pessoa que não voltaria. Se a maldição estivesse mesmo certa, só quem teve contato comigo nas viagens do tempo se lembraria de mim, mas pedi mentalmente para que esse também se esquecesse e pudesse ser feliz com a Anna.
Cobri minha boca com a palma da mão quando o site mostrou o ícone de carregando. Não tinha mostrado como quebrado direto, que nem da outra vez, mas carregando. Quando o site apareceu, soltei um grito.
— O portal! — gritei para ele, que não entendeu nada. Mostrei o celular. — É esse o portal que me fez chegar até você, . Está aqui!
Ele pareceu se animar comigo. Dessa vez, não tinha nada escrito, só o campo para preencher o nome dele e o ano. Comecei a escrever seu nome completo e 1991. Porém, antes de apertar o botão, o olhei.
— É agora? — perguntou, com receio. Assenti. — Não acredito que vou te deixar ir pela terceira vez. — Encostou a testa na minha.
— Vai ser a última — sussurrei de olhos fechados e clareei todas as minhas ideias que pareciam confusas antes. — Não precisarei voltar para 2019, sei o nome do seu aparelho do coração e que Sebastian está me rondando. Não tem mais erro.
Eu espero, completei mentalmente.
— Eu amei você e nossa filha por todos esses anos, — admitiu.
— Eu também venho te amando desde que pus meus olhos em você, meu viking gostoso — chamei-o daquele jeito humilhante para fazê-lo rir e consegui. Beijei sua bochecha. — Já vou, tenho pressa para te reencontrar.
Ele acariciou minha barriga e se abaixou um pouco para falar com ela:
— Oi, bebê. Aqui é o seu pai, por mais que eu pareça ser seu avô — riu, me fazendo rir junto. — Sei que de todas as versões de mim que você conheceu aí de dentro nessas viagens, provavelmente sou a sua menos favorita porque fiz a mamãe chorar muito. Porém, só quero dizer que estou orgulhoso de você por tudo que vem aguentando. — Ele se aproximou mais. — Você será a garotinha do papai. Não conte para a sua mãe — sussurrou.
— Ei. Eu ouvi — resmunguei, mas depois ri. Eu não tinha dúvidas que ele a mimaria tanto a ponto de chamá-la assim.
— Adeus, baby. Quando chegar lá, me faça massagear seus pés todos os dias como recompensa. — Também deixou um beijo na minha bochecha.
Até que não era má ideia.
— Você precisa sair do quarto — avisei.
— Tem alguma regra específica que diga isso? — ele perguntou enquanto franzia o cenho.
Nunca tinha parado para pensar naquilo. Só era força do hábito.
— Não, só foi assim em todos os anos, com exceção de 1988 que você dormiu.
— Então fecharei meus olhos. — Colou nossas testas mais uma vez.
Dei de ombros e apertei o botão.
— Adeus, .




1991

Não reclamaria da dor de cabeça dessa vez. Estava decidida a não soltar um resmungo que fosse. Sentei-me, esperando encontrar meu quarto, mas eu estava no meio de um parquinho. Uma criança me observava, com curiosidade, mascando chiclete. A julgar pelas roupas daquele menino e pela falta de neve, deveria ser alguma meia-estação.
— Oi — falei em sueco para o garoto enquanto segurava minha testa que latejava. E isso não contou como uma reclamação. — Que dia é hoje?
— 6 de abril de 1991.
Mil novecentos e noventa e um!
Fiz as contas de quando saí até aquele momento. Nove semanas haviam se passado.
Obrigada por não me dar outra punição cruel, pensei como se aquele fosse meu meio de comunicação com o guardião da viagem no tempo.
Sebastian deveria estar atrás de mim, se eu estava ali depois de todo o ocorrido.
— Onde estamos? — perguntei para ele.
— Hässelby... Suécia. — Ele ainda me analisava. Levantei-me, pensando que não deveria estar longe de casa. — Você é uma viajante do tempo, né?
Me sobressaltei ao ouvir aquela pergunta saindo da boca dele. Aquele menino desvendou, em minutos, o que os adultos não descobriram em meses.
— Por que acha isso? — perguntei.
— Você apareceu do nada, num lugar aleatório, usando roupas estranhas e perguntando que dia é hoje e onde estamos. Típico de viajantes do tempo, como nos quadrinhos — falou como se fosse óbvio.
— Você é um garotinho muito esperto. — Me abaixei para que ele escutasse. — Sou uma viajante do tempo, mas é um segredo nosso, está bem?
Ele concordou com a cabeça. Baguncei seu cabelo e fui embora.
Segurei minha barriga, sentindo Emma mexer enquanto eu andava para me situar. Acho que ela podia sentir que estávamos de volta a 1991 e prestes a encarar a realidade. Que fosse verdade mesmo e um raio não caísse na minha cabeça logo ali, porque parecia que ia chover.
Vi uma placa que me mostrou que eu estava perto de onde surgi em 1997. Apressei o passo, pensando se ele estaria na minha casa ou em qual ponto mudaria para lá. Será que...? Não, eu duvidava. Preferia duvidar para o bem da minha sanidade. Não queria voltar para 2019 e ter que conviver com um divorciado por minha culpa, vivendo perto da minha casa e dividindo a guarda da nossa filha. Nós não aguentaríamos só olhar um para o outro, cederíamos e eu me sentiria uma merda. Só de imaginar voltar para aquele maldito ano me dava vontade de chorar.
‘Tá, sem choro ou qualquer coisa que me impedisse de ficar de olho em Sebastian. Comecei a correr, mas parei com medo de botar minhas tripas para fora de tão ofegante que fiquei. Estava tão ansiosa e decidida a não estragar tudo dessa vez que quase passei da porta do meu prédio. Por sorte, ela estava aberta, subi as escadas com cuidado para não cair e ao mesmo tempo com toda a pressa do mundo. Toquei a campainha, mas ninguém apareceu nos minutos seguintes. Olhei o vaso de cerâmica no canto da parede, a planta estava quase morta, mas, se ninguém passou por ali, minha chave reserva estava ali debaixo.
O afastei e bingo!
Abri a porta e fechei com as costas apoiadas na madeira, girando uma das trancas para garantir que estava em segurança.
Ninguém passava ali há um bom tempo. Testei o interruptor e a sala se iluminou. Alguém vinha pelo menos pagando as contas. Resolvi testar o telefone, liguei a secretária e deixei as mensagens passarem para esvaziar a caixa.
, onde você se meteu quando me deixou na sua casa para ir até o hospital? Estamos loucos atrás de você, já acionei a polícia, mas ainda faltam 48 horas para começarem as buscas. — Era a voz de Lilly no primeiro.
Já se passaram dias e o teve alta do hospital, como você disse. Ele insistiu em saber onde você está, mesmo com as mentiras que eu e Dre inventamos para segurá-lo lá. Mostrei o vídeo que você deixou e, , se estiver ouvindo isso, por favor, volte. Nunca o vi chorar daquela forma. Contei tudo que me contou antes de sumir, então ele está desconfiado que, dessa vez, você possa não ter viajado no tempo e algo ruim tenha acontecido. Ele brigou com a polícia porque não estão fazendo nada para te encontrar, meu pai teve que intervir para que não o prendessem. Está tudo um caos.
Sentei-me no sofá e as lágrimas rolaram dos meus olhos. Todos os pensamentos e as sensações do chalé me inundaram, me fazendo reviver aquilo.
— Oi, . Tentei te contactar no escritório, mas falaram que você não foi trabalhar. É o Garrett sobre o ensaio fotográfico do , gostaria de marcar para o final de fevereiro. Me retorne para a gente conversar sobre uma possível data.
— Estou arrependida de não ter te contado sobre minha primeira vez. Tive medo de que brigasse comigo e agora você sumiu. Uma parte de mim jura que sou a culpada por ter te deixado sair sozinha no meio de toda aquela neve. Não deveria ter uma alma na rua para te ouvir gritar caso alguém tenha lhe feito mal. entrou numa maré de tristeza, ele está pagando as contas do seu apartamento e não tem coragem de pisar aí. Ouvi dizer que meu pai o obrigou a fazer um ensaio fotográfico, mas o resto de compromisso de trabalho ele desmarcou. Até mesmo a gravação do primeiro videoclipe da banda foi por água abaixo. Minha vida está uma merda também sem minha melhor amiga. Por favor, volte para nós.
— O seu nome se tornou proibido aqui em casa. Se falarmos ele, o simplesmente larga o que estiver fazendo e se isola, e eu sei que ele chora pela sua ausência. Depois da adolescência, nunca mais o vi chorar, então é meio assustador. Lembrei do que você disse na praia sobre esse ser o destino dele e sofro tanto pensando que meu irmão nunca será feliz de novo como foi. Ele te ama tanto, . Nós te amamos.
Olá, bela. Não sei como você escapou daquele lugar, mas eu vou te achar. Você não vai tolerar ficar muito tempo longe do seu namoradinho e estou de olho em cada passo dele. Börje me disse que ele está preocupado por você ter sumido, me controlei para não rir e dizer que, assim que eu te achar, ele não vai mais precisar se preocupar. Vou te punir por ter fugido de mim. Se você não tivesse feito isso, eu apenas mataria esse bebê, mas é claro que escolheria o lado mais difícil. Eu vou te achar, , você não pode se esconder por muito tempo.

Fiquei incrédula ao ouvir Sebastian me ameaçando pelo alto-falante da secretária. Ele deveria ter ficado muito irritado para deixar esse tipo de ameaça como prova concreta do que pretendia fazer. O aparelho apitou, indicando que era o último recado. Então, realmente aconteceu tudo. Eu não voltei para o mesmo ponto da outra vez, assim como na segunda vez que caí ali. Ele ainda deveria estar me procurando porque sou uma bomba-relógio com seu segredo, assim que falar para algum dos , já era.
Tirei o telefone do gancho e liguei para Lilly. Pedi que não surtasse (é claro que ela surtou) e chamasse seus dois irmãos sem dizer nada até meu apartamento. Ela me prometeu que se controlaria.
Dez minutos depois, vi a silhueta dos três subindo as escadas através do olho mágico e destranquei a porta com tanta rapidez, como se minha vida dependesse dos próximos minutos. Girei a maçaneta e quando a porta finalmente abriu, já fui me atirando nos braços dele. Tive medo de que ele pudesse desaparecer no ar ou algo assim, então o apertei nos meus braços e as lágrimas de alívio saíram.
— Não é... — disse ele, com os braços rijos ao lado do corpo. — Não é possível.
? — Andreas perguntou e Lilly me examinou.
— Eu senti tanta falta de ver vocês assim — murmurei, encostada no peito do irmão mais velho, olhando para os dois mais novos e conferindo se ninguém ia aparecer atrás deles nas escadas. Me obriguei a soltá-lo para eles entrarem, os dois entraram, mas me fitava como se acreditasse que eu desapareceria a qualquer minuto também.
— Achei que nunca mais te veria — sussurrou, incrédulo.
— Quase, . Foi quase. Mas voltei para você e trouxe companhia. Olha. — Levantei um pouco minha camiseta larga para que visse minha barriga aparente. Ele, com certeza, não havia notado antes porque seus olhos se arregalaram e a boca foi tampada com os dedos que tremiam.
— É e-ela? — perguntou com a voz trêmula.
Concordei com a cabeça, sentindo as lágrimas aumentarem de tamanho nos meus olhos. Ele tocou minha barriga e mexeu os dedos de leve em uma carícia.
Parecia que ia me beijar pela proximidade, mas o parei com a mão no seu peito e vi a confusão em seus olhos brilhantes.
, sobre o que aconteceu com a Natalia... — disse, depois de alguns segundos, me lembrando do problema que deixei nesse ano. Parecia algo tão distante e irrelevante, que neguei com a cabeça como se fosse bobo demais perto de tudo que passei.
— Você já me explicou tudo em outra realidade, não se preocupe.
O tanto que me controlei para não o beijar, em 2019, estava me sufocando e pensei em contar o que aconteceu com sua versão mais velha. Porém sua mão esquerda tocou meu rosto no mesmo momento e não senti o material frio de nenhuma aliança, só os velhos calos, então soube que finalmente eu estava em casa. Puxei seu cabelo para ele abaixar e finalmente nos beijarmos. O modo cuidadoso com que mexia seus lábios e o cheirinho de shampoo de frutas me fez chorar por tê-lo de volta. Sem cavanhaque, com o cabelo repicado no meio das costas, sem roupas de couro ou boné... Apenas o meu . Ele ainda acariciava minha barriga quando parou de me beijar para me olhar.
— Você está machucada? — perguntou ao me ver chorando.
— Não. Não fisicamente. — Lembrei do recado de Sebastian e de tudo que estava acontecendo, então me toquei que ficar ali poderia ser perigoso se realmente estavam de olho. — Chamei vocês três por um motivo sério. Então, entra — pedi.
Ele recolheu a mão da minha barriga e entrou, mas não me perdeu de vista por um segundo enquanto eu trancava a porta. Foram semanas longas para mim, mas para ele também. Principalmente pelas bolsas embaixo dos seus olhos.
— O que aconteceu? — os três perguntaram ao mesmo tempo quando me virei para fitá-los. Três pares de olhos iguais me lançavam olhares preocupados. Sorri. Eu amava os com todo o meu ser.
estava parado ao meu lado, mas pedi que se sentasse no sofá entre Andreas e Lilly — que estava sentada no braço do sofá, como de costume. Fiquei de frente para eles, pensando em como dar a notícia que o amigo de Börje queria me matar.
Suspirei. Não havia um jeito fácil de falar aquilo.
— Foi o Sebastian. Ele me sequestrou quando saí para ir ao hospital aquele dia. Enquanto eu esperava o ônibus sozinha, ele surgiu com um cara que me apagou.
Os três ouviram, com atenção, tudo que passei antes de ir para 2019. Contei cada detalhe do chalé, o que comi, o frio que enfrentei, tudo. Parei de contar a história quando passei pelo portal para escapar, o que aconteceu em 2019 não era interessante no momento. Sebastian precisava pagar pelo que vinha fazendo imediatamente, antes que outra mulher pudesse ser feita de vítima e acabasse morrendo. Apertei o play da secretária eletrônica, pulando os recados de Lilly e Garrett para que ouvissem o último. se levantou no momento que ele disse que me puniria e fechou ambas as mãos em socos. Esperou até a secretária apitar, indicando que tinha acabado, para soltar um rosnado.
— Filho da puta — falou, baixo, olhando para o chão.
— Não acredito que ele fez isso — Lilly sussurrou enquanto lágrimas silenciosas molhavam seu rosto.
— A gente sabia o tempo todo que ele era maluco por mulheres, mas nunca imaginei que ele fosse capaz de fazer algo além de deixá-las desconfortáveis — Andreas comentou, olhando para mim. — Se ele deu a entender que já houve outras... Não teria como ele deixar elas irem sabendo a identidade dele.
Concordei com a cabeça. Era exatamente o que pensei.
estava estagnado na frente da mesinha de telefone, como se ela fosse a culpada pelas ameaças e pudesse nos atacar a qualquer segundo. Toquei suas costas para tirá-lo do transe, mas ele endureceu mais ainda.
— chamei-o, passando meu braço pela sua cintura. — Eu estou bem agora. Precisamos avisar seu pai e a polícia, antes que ele me ache ou ache outra vítima.
— Eu sabia que tinha algo de errado, mas estava bem debaixo do meu nariz o tempo todo — sussurrou e fechou os olhos. — Fui incapaz de fazer a ligação entre o seu sumiço e ele estar em Estocolmo.
— Não. — Virei-o para mim, ele parecia prestes a desabar agora. — Com tudo que se passou entre sua mãe, nós dois e a sua doença, você nem teria cabeça para pensar nisso.
— É minha culpa. Você sofreu tudo isso por minha culpa. Eu poderia ter sido mais corajoso e vindo aqui ouvir seus recados. Ele se entregou num maldito recado de secretária eletrônica...
Envolvi seu tronco em um abraço e pude ver Lilly chorando no ombro de Andreas, provavelmente se culpando também.
— Não foi sua culpa — sussurrei isso algumas vezes para tentar convencê-lo. Como ele imaginaria que eu estava naquele lugar? Eu cheguei a desejar que ele aparecesse, mas sempre soube que era impossível. Esse tal de Sebastian, provavelmente, vem projetando esse plano desde que me viu pela primeira vez. E, mesmo que viesse e ouvisse o recado, não me traria de volta porque fugi para 2019.
Andreas apareceu do nosso lado e pegou o fone, discando o número da própria casa conforme vi os botões sendo apertados. Agradeci mentalmente por ele estar ali para assumir o controle. Pediu para o pai nos encontrar na delegacia do bairro o mais rápido possível. Nós quatro descemos e entramos no carro, Andreas assumiu a direção porque ainda parecia aéreo. Ele olhou para todos os lados durante todo o trajeto. Lilly, que estava atrás comigo, me abraçou de lado.
— Você é a pessoa mais forte que eu conheço — murmurou em meio às lágrimas, me fazendo abrir um sorriso triste. Nem eu sabia que tinha tanta força dentro de mim. Analisando tudo que passei para estar de volta, não foi só o amor que me moveu, foi uma força interior inexplicável. Eu lutei para estar ali, onde pertencia. Fiz isso por mim, porque pertencia àquela realidade, em Estocolmo de 1991.
Registrei a denúncia contra Sebastian pelos crimes cometidos contra mim, mas fiquei triste por não poder fazer muito mais pelas outras mulheres. Não entendi muito bem quais medidas seriam tomadas por falarem sueco muito rápido para minha compreensão, mas estava lá para entender tudo e me disse que passariam na minha casa para coletar a prova da minha secretária eletrônica. Antes que eu pudesse perguntar o que fariam com ele, nós encontramos Börje uma pilha de nervos do lado de fora acompanhado de Lilly e Andreas. Depois de me perguntar se eu estava bem e me pedir desculpa por tudo, entrou para dar os endereços das casas ao redor do mundo de Sebastian.
me levou para minha casa porque provavelmente a casa dele não era confiável — já que Sebastian disse que estava de olho nele. Lilly e Andreas iriam com Börje alimentar Solveig e trazer algumas roupas para ele. Me sentia tão cansada e louca para voltar à normalidade que só queria um buraco para sugar toda aquela história e esquecer. Ele girou a chave duas vezes, fechou todas as janelas e persianas do apartamento.
Já eu, fui tampar o ralo e ligar a torneira para encher a banheira. Quando saí para pegar minhas roupas, ele parecia uma pilha de nervos parado perto da janela do quarto. Toquei seu braço e o senti prender a respiração. Nós nos preocupamos tanto com Sebastian que nem tivemos tempo para aproveitar a presença um do outro de novo.
Deixei minhas roupas para lá, só o puxei pelo braço para dentro do banheiro e fechei a porta. Eu cuidaria de nós dois. Tirei sua camiseta e a minha, depois desabotoei meu sutiã para colarmos nossos troncos. Quando o abracei e senti seu calor, meus olhos marejaram. Desejei tanto esse momento no frio e em 2019 que parecia até um sonho. Seus dedos acariciaram meu cabelo e ele plantou um beijo no topo da minha cabeça. Fechei meus olhos para aproveitar a sensação de finalmente me sentir segura de novo, minha audição se concentrou no barulho da água que saía da torneira. Soltei-o porque a água estava em mais da metade da banheira, tirei minha calça de moletom e minha roupa íntima, depois tirei as dele enquanto me fitava.
— Um beijo pelos seus pensamentos. — Lembrei da brincadeira que ele fazia comigo e a utilizei para distraí-lo.
— Queria só saber em qual momento que a ficha vai cair que você está realmente aqui, sã e salva — murmurou, parecendo estar mais calmo.
Senti um sorriso triste ameaçar brotar em meus lábios, mas não o deixei se formar. Sabia bem o que ele estava sentindo porque sentia o mesmo. Empurrei-o em direção à banheira, ele entrou e se sentou. A água batia em sua barriga, ele era grande o bastante para precisar flexionar um pouco os joelhos para caber nela. Ele me ajudou a entrar e sentar em seu colo. Envolvi seu pescoço e o beijei como eu quis fazer quando sua versão mais velha olhou para minha boca. Beijei-o com toda minha devoção pela versão original dele, mas também por toda a minha história com as outras. Quando sua língua encostou na minha, senti que a minha ficha caiu.
Eu estava em 1991 com o amor da minha vida.
Alguns momentos depois, beijar não era mais o suficiente. Precisávamos sentir a presença um do outro por inteiro, então viramos um só.
Ao final, descansei minha cabeça em seu ombro. Senti as lágrimas de saudades daquela sensação caírem em sua pele e me lembrei aleatoriamente do de ‘88. Ele teria apreciado uma pequena aventura na banheira.
— Sabia que em 1988 e 1997 nós nos divertimos bastante? — Pensei que seria divertido fazê-lo se conhecer nos outros anos e sentir o que senti com as outras versões dele. — Você me apresentou a um amigo seu, em 1997, numa festa na casa dele. Nós fomos para um dos quartos e... — Aproximei minha boca do seu ouvido e contei tudo que aconteceu com detalhes.
Olhei-o no mesmo segundo que deixou o queixo cair. Soltei uma gargalhada pela sua reação.
— Não acredito — falou, rindo. — Quanta safadeza.
Lembrei dele em 2004 e resolvi acrescentar antes que a lembrança se esvaísse.
— Em 2004, você era tão sexy. Tinha um cavanhaque e argolas na orelha. Seu cabelo ia até depois da cintura e, segundo a Lilly, você se tornou rabugento. É uma pena que não tive a chance de te conhecer tão bem.
Apoiei de novo a cabeça em seu ombro e espantei a tristeza que ameaçava me assolar pela lembrança dele deitado naquele quarto de hospital.
— Gosto de me visualizar assim — ele comentou.
— Já em 1997, você era foda e um docinho ao mesmo tempo. Lilly te fez comprar um livro sobre bebês e gestantes por causa da Emma, então você o leu para ela. Ela ainda não te escuta, imagina quando tinha oito semanas e era do tamanho de uma framboesa. Porém, você estava lá, lendo sobre o cordão umbilical e eu... — ri de vergonha ao me lembrar da cena — enfiei a mão dentro da sua calça e te mandei continuar a ler enquanto... uhm... você sabe.
Ele soltou uma gargalhada e eu só consegui pensar em quanto eu queria ouvir aquele som pelo resto da minha vida.
Espantei o pensamento para continuar descrevendo a minha turnê.
Me aproximei mais dele e olhei para cima, procurando seus olhos. Ele retribuiu o olhar.
— Você usava óculos porque dizia que estava ficando velho, só ficava ainda mais sexy. Mas o melhor mesmo era sua Harley Davidson linda que fazia muito barulho. Te ver perto daquela motocicleta... mexia muito com meus hormônios. Saímos da cidade, uma vez, para uma reunião do seu motoclube, mas eu estava borbulhando e acabei te carregando para o beco que ela estava estacionada com a desculpa de que esqueci algo.
Desencostei minha testa para descrever o que fiz e o vi boquiaberto de novo.
— Acho que estou com ciúmes de mim mesmo — disse em tom de brincadeira. Nada do que pensei que seria.
— Foi nesse ano que você ouviu o coração da Emma pela primeira vez — acrescentei, antes de acabar de contar sobre o ano. — E foi nele que percebi que te quero só para mim, para sempre. Isso veio depois de ouvir duas mulheres falando que eu devia ter te dado um golpe da barriga porque é bonito, tem dinheiro e fode muito bem.
Ele me afastou e pegou meu rosto ao perceber a fraqueza da minha voz ao relembrar daquele momento.
— Eu sou seu, unicamente seu. Sempre fui. Daqui a alguns meses, também serei de outra garota. — Nós dois rimos. — Você não me deu golpe nenhum, não sei como não fugiu depois de me ouvir falar que queria que fosse a mãe dos meus filhos no dia que estava alto demais.
— Eu me lembro, achei fofo na hora, mas não imaginava que meses depois você me engravidaria. Talvez devesse mesmo ter fugido — brinquei, fazendo-o rir. Daí me surgiu uma curiosidade. — O que pensou quando soube que eu estava grávida?
— Lilly não me contou antes de mostrar o vídeo. Então foi você quem me contou. No começo, eu fiquei em choque demais com o seu sumiço, ainda mais depois do que Lilly falou sobre ter voltado para o quarto e ter te encontrado bem grávida contando histórias de viagens no tempo. Após a revolta sobre a polícia não estar fazendo nada para te encontrar ter passado, é que me toquei que você estava carregando um filho meu. Eu sabia que Lilly tinha me falado o sexo e o nome do bebê, mas não processei na hora, então liguei para ela só para perguntar. Aquela pentelha disse que me contaria pessoalmente, então me levou até o shopping para gastar meu dinheiro e foi aí que surgiu esse livro que mencionou.
— Espera, então você já comprou o livro? — interrompi-o. Ele assentiu. O livro que ele falou em 1997 e 2004 foi comprado quando se deu conta que seria pai, mas nas outras realidades provavelmente foi em um contexto diferente que nunca saberia.
— Quando ela disse que seria uma menina, eu meio que já sabia. Foi aí que me lembrei do que falei bêbado na casa do meu pai e liguei com as vezes que ficava te observando com Solveig quando estávamos brigados. Eu sonhei algumas vezes em ter filhos com você. Então, com a memória, perdi toda a vontade de viver. Mesmo que minha mãe tenha morrido nesse meio tempo, estava de luto era por você.
Suspirei e deitei minha cabeça em seu peito, sentindo o seu sofrimento.
— Sinto muito pela sua mãe.
— Ela não merece — respondeu, me fazendo olhá-lo. — Só sabia xingar meu pai todas as vezes que fomos visitá-la no hospital. Disse que ele nos afastou dela, sendo que eu tinha treze anos e me lembro exatamente de ser chutado para fora com meu pai e Andreas. Depois ela chutou a Lilly, que era quase uma criança. — Olhou para o teto. — Briguei com ela no dia do seu aniversário e nunca mais nos falamos.
— É por isso que você estava daquele jeito... — Lembrei que brigamos aquele dia após Lilly me dizer que o coração dele não ia bem. Só que eu não sabia do que aconteceu no dia do meu aniversário, apenas no dia que peguei Natalia em sua casa. Então estava me sentindo mal por ter incitado a briga, achando que estava com outra pelo cheiro de bebida e por estar sentindo que estava sendo deixada de lado. — Desculpa por ter brigado com você. Eu realmente achei que estava se encontrando com outra.
— Nunca faria isso com você, . Só que você parecia sempre tão decidida a me empurrar para outra mulher que ver aquele finlandês na sua casa pareceu se encaixar perfeitamente.
Sorri.
— Eu sou mesmo uma trapalhona. Só não queria que você sofresse a maldição se eu precisasse ir embora, mas acabei fazendo isso do jeito errado e deu no que deu.
— É... Mas eu também errei em não te contar sobre visitar minha mãe e meu coração estar numa fase ruim. Além de que a Natalia estava em Estocolmo e ficaria na minha casa.
— Tudo bem. Está tudo certo agora. Lilly te falou sobre o que contei da Natalia? — perguntei, torcendo para que não e eu pudesse utilizar essa deixa para sair do assunto delicado. Ele negou. Contei tudo, sobre eles terem namorado em 1993, ela ter me chamado na festa e falado que sentiu minha falta entre eles. — Ela disse que você tem um péssimo gosto para mulheres desde uma tal de Blenda.
— Você conseguiu enfurecê-la nesse nível? — ele perguntou, surpreso.
— Eu não enfureci ninguém, só dei um toque nela. — Olhei-o com o semblante sério. — Me prometa que esse vai-e-vem de vocês acabou, que não vou ficar no meio disso.
Ele sorriu e pegou minha cintura. Plantou um beijo na ponta do meu nariz.
— Você escutou o que Pierre disse aquele dia, não é? — perguntou. Assenti. — Eu sabia.
— Prometa — pedi de novo, sustentando meu olhar inquisitivo.
— Eu prometo. Ficou no passado.
Essa frase me lembrou daquela carta que ele escreveu em 1996. Contei a ele todo o conteúdo que me lembrava.
— Eu sou mesmo um babaca, puta que pariu. — Franziu o cenho — Levei um tapa na cara por chamar o seu nome enquanto estava com outra mulher e ainda te contei isso.
— Tornou a carta divertida junto com a cerca branca da minha casa.
Ele deslizou a mão até a base das minhas costas que estava submersa com segundas intenções, me fazendo sorrir de lado e querer corresponder, mas eu queria terminar a história antes que passasse o momento.
— Continuando... Em 1988, você era um chato que usava couro demais — reclamei e ele riu. — Como vim de 2019, então já está subentendido que tenho uma imagem guardada sua de cada ano antes mesmo de te ver — expliquei, fazendo-o assentir. — Só que ao te ver com aquele cabelo para cima e vestido em couro, eu agora me questiono o motivo de ser sua fã. Você era um babaca que falou que não sabia o que fazer quando contei que estava grávida, ainda me deixou sair pela porta sem ter para onde ir. Totalmente o contrário de 1990, que você sabia que eu estava mentindo, mas me abrigou.
Ele concordou com a cabeça com pontinhos brilhando em seus olhos.
— Na verdade, o que motivou mesmo é que te achei linda e eu fiquei meio apaixonado. Estava curioso para ver no que ia dar. — Coçou a nuca e eu dei um tapa em seu cotovelo. — Ai! A gente está falando a verdade aqui.
— Você não teve dó de mim? — perguntei com ultraje.
— Tive, é claro que tive. Só que imaginei toda uma história em que você fugiu de casa porque queria viver com um músico. Então resolvi ceder para ver até onde ia e olhe onde estamos hoje.
Botei a palma da mão na testa e fechei os olhos. Eu tinha mesmo entendido tudo errado, aquilo parecia mais a cara dele.
— Você achou mesmo que eu era uma groupie — concluí, abrindo os olhos.
— E não é? — brincou.
— Então você só queria me comer.
— Claro que não — ele disse, franzindo o cenho e tocando meu rosto. — Eu te achava a criatura mais interessante desse planeta, você tem esses olhos grandes que sempre pareceram enxergar tudo que eu estou pensando, me deixam doido até hoje.
— Eu também sinto que você vê tudo quando faz aquilo de prender minha atenção com seus olhos — admiti. — Sabe, isso me lembra o final da nossa história em 1988...
Contei sobre o dia que me encontrou no centro comercial, o encontro, o balanço, o abraço, o penteado do Eric Carmen, a garota, ele aparecendo de pijama na minha porta, o beijo, os patins, nossa primeira experiência sexual, como o enlouqueci me esfregando e com as sujeiras que eu falava.
— Como você sabe que eu gosto disso mesmo? — me interrompeu para perguntar, assim como em ‘88.
— Além do fato de toda pessoa provavelmente gostar — falei como se fosse óbvio. — Eu fiz essa descoberta, em 1997, no dia do livro. Quando você avisou que estava quase lá, eu falei para gozar chamando meu nome como fez para merecer o tapa daquela mulher.
As bochechas dele coraram.
— Minha nossa, ... — ele sorriu, envergonhado. — Quando você ficou assim?
Comecei a rir.
— Você me deixa assim, amor. — Pisquei um olho e ele corou mais ainda.
Continuei contando sobre as amigas de Lilly, o telefonema do gemido, o dia do baile romântico no Disco Fever e o estacionamento do McDonald’s.
— Ah, por favor, você vai ter que me chamar assim de novo — pediu.
— Posso pensar no seu caso — sorri de lado.
Contei sobre o pedido de namoro, Emma mexendo pela primeira vez, como foi conhecer Börje e Karin em um contexto diferente e dei os detalhes de quando me mostrou sua especialidade.
— Três vezes? — ele confirmou. — Esse cara é um metido.
— Estamos falando de você — lembrei-o.
— Não, eu sou o que lembra de nós. Você nos separou assim. E, como a versão original, faço questão de te mostrar como evoluí nessa arte nos últimos três anos. Estamos falando de repetidas vezes seguidas.
Ri.
— Isso nem deve ser possível.
— Não foi o que a Sonya disse — brincou, levando um tapa em seguida. — Ai! Ei, por que você pode falar obscenidades e eu apanho só por dizer isso?
— Porque você é irritante — expliquei. Ele começou a fazer aquela cara de falsa descrença e eu fiz cócegas na sua barriga. — Fica quieto que eu já estou acabando.
Contei sobre o cinema, meu medo de traí-lo, a primeira vez que dissemos que nos amávamos e meu sumiço.
— Meus olhos ficam assim? — perguntou com o cenho franzido.
— Sim. Desde aquele dia, na cachoeira.
— Me lembro bem desse dia porque além de tudo que aconteceu, depois da gente ter transado na praia, eu entrei em pânico, acordei Andreas e fui aconselhado pelo meu irmão mais novo.
Sorri, me lembrando do dia.
— Quando cheguei ao quarto, dei uma topada com meu dedinho e acordei sua irmã. Ela me pediu para contar tudo, mas antes mandei que apagasse a luz para eu esquecer que ela era sua irmã. Aquela ridícula ainda me perguntou se poderia me chamar de cunhada.
Ele riu, olhei para a água ao redor do seu braço me preparando para continuar com 2019, mas ouvi sua voz me despertando:
— Obrigado — falou. Franzi meu cenho, sem entender. — Por compartilhar comigo e me deixar viver isso tudo de alguma forma com você.
— Eu prometi para você que não deixaria o que a gente viveu, naqueles anos, cair em esquecimento e não vou. Sempre vou me lembrar de todas as suas versões como histórias alternativas à nossa. Nós vamos reproduzir o que eu vivi, de algum jeito.
Beijou minha testa.
— Você não precisava ter se aventurado para me salvar, fui salvo no momento que pisou em 1990.
— Você é brega — zombei, fazendo-o rir. — E aqueles pôsteres horríveis que você tinha no seu quarto, o que fez deles?
Ele pareceu pensar na minha pergunta por alguns segundos, depois vi um brilho de esclarecimento nos seus olhos.
— Ah, aqueles pôsteres estão guardados na minha casa, num lugar seguro para itens de colecionadores.
Grunhi ao me imaginar dormindo no mesmo lugar que aqueles pôsteres de novo.
— Você vai se livrar disso antes da Emma nascer — avisei-o.
— Claro que não, e se um dos nossos filhos se interessar por isso um dia? — disse, tocando meu cabelo. Olhei-o de lado, para mostrar que estava falando sério. — Ok, eu vou deixá-los com o Dre.
— E vai jogar fora a coleção de revistas pavorosas que agora eu sei que você tem — lembrei.
Rolou os olhos.
— Você vai tirar toda a diversão da minha casa?
— É o que acontece quando se vira pai, os livros sobre bebês entram e essas revistas saem.
Eu estava chegando na minha parte menos favorita.
— Voltei para 2019 determinada a fazer dar certo, já que tinha te salvado em 1997 e, de acordo com meus cálculos, você estava com 53 anos. Não era o ideal, mas eu não me importei em nada com esse detalhe. Quando te vi, na casa da Lilly, só consegui pensar que eu tinha conseguido mesmo te salvar. Você estava com o cabelo longo todo grisalho, tinha rugas e cavanhaque cinza. Eu me joguei em cima de você, tentei contar, chorando, o que aconteceu, mas estava tão desesperada que saiu um amontoado de palavras de uma vez só. — Senti uma lágrima deslizar pela minha bochecha, mas ele limpou logo com o polegar e me encarou, preocupado. — Você me levou para o sofá e eu me sentei no seu colo. — Sorri, triste. — Seus olhos estavam distantes, tristes e preocupados. Resolvi fazer como em 2004 e 1997, pegar sua mão e te fazer me sentir para se tocar que eu estava ali.
Puxei o ar, tentando controlar minhas lágrimas. Ele acariciou a base da minha coluna, mas, dessa vez, para mostrar que estava tudo bem.
— No momento que pus sua mão no meu rosto, eu senti o frio da aliança. Você era casado, . — Me permiti explodir com as lágrimas que queriam tanto sair. Ele me trouxe para o seu peito e me abraçou. Chorei como fiz naquele ano, mas dessa vez amparada pelo meu lugar favorito no mundo. — Parecia um pesadelo. Eu tive pavor do seu toque, você queria me tocar com as mesmas mãos que tocava sua esposa todos os dias.
Contei o que aconteceu naqueles dois dias. Tentei explicar sobre o Instagram, mas era impossível fazer alguém do século 20 entender as nossas redes sociais. Então, me limitei a falar sobre minha foto, a nossa conversa e meu receio de abrir o perfil dele e ver o rosto da sua esposa. Tudo se tornava um pouco mais tolerável se ela não tivesse um rosto, não me arrependia de ter decidido respeitar meu tempo quanto a isso e não a conhecer. Tinha a impressão de que, aos longos dos anos, eu a procuraria com os olhos sem perceber e seria doentio — já que aconteceu em outra realidade, que ficou para trás.
Ele escutou atentamente esses meus pensamentos, o quanto me senti traída, o meu medo de ser realmente o pivô do divórcio deles, o momento que aceitei seu toque de novo, a solução de voltar para 1991, meu espanto ao ouvir isso naquele minuto e depois a aceitação de que eu merecia voltar para este ano.
— Eu já chorei tanto, mas ainda dói — comentei. — Sei que você não faria voto de castidade, então não me incomodei ao te ver falando naquela carta sobre sair com outras mulheres. Como eu disse, em ‘97, nunca esperei que você virasse um seminarista. Só que casar tem um significado totalmente diferente...
Contei sobre o dia, em 1997, que ele voltou para casa após a consulta e me deu a data da cirurgia. Como paramos no chão e começamos a falar sobre casamento, o que ele me perguntou.
— Fiquei preocupada que essa lembrança também me traísse. Que eu só pensasse em você com outra quando lembrasse da nossa conversa. Porém, você me disse que não fazia o estilo da Anna, então apenas se casaram no cartório. — Funguei, sentindo mais lágrimas pingando na água da banheira que já estava fria. — Disse também que nunca a amou como me ama, por mais que tentasse. Agora, percebo que isso é culpa da maldição, mas, na hora, acho que, no fundo, só pensei em como pôde se casar assim, amando outra mulher. — Sacudi a cabeça. — Eu não deveria pensar isso, todo mundo merece ter uma companhia e você era fiel ao amor que ela sentia por ti. Não me beijou ou me tocou demais, então sei que você a respeitava. Ela deveria ser uma pessoa incrível.
Ele me abraçou de novo.
— Chega. Lembrar disso está te machucando demais — murmurou enquanto eu chorava em seu peito. Fiquei um tempo tentando botar tudo para fora para me acalmar e poder continuar. Antes que eu começasse a falar de novo, ele me puxou e me analisou. Eu deveria estar horrível por ter chorado demais. Fora as consequências da má alimentação e da privação de sono nos dias do chalé, eu deveria estar toda vermelha, com o nariz escorrendo e olhos inchados. Tentei dar um jeito com as mãos ao constatar. Porém seus olhos brilhavam como se enxergassem perfeição.
— Casa comigo — pediu, sério. Pensei que ele estivesse brincando depois de me ouvir contando sobre nossa conversa do chão, mas ele se ajeitou embaixo de mim e voltou a falar: — Por favor, casa comigo.
Franzi o cenho e analisei toda a sua postura, para entender o que pretendia com aquilo.
— Você está falando sério? — perguntei, para confirmar de novo. Assim como fiz em ‘97.
— Estou. Acabou a aventura, você está em casa e a gente pode viver o seu “felizes para sempre”. — Ele pegou minha mão. — Luz , você quer se casar comigo?
— Mas e seu trauma com o casamento dos seus pais?
— Só me responde.
Sorri, pensando que não poderia ser real. Provavelmente estava sonhando no chalé ou no quarto de hóspedes da Lilly. Ele procurou meus olhos com os seus, esperando uma resposta.
— Sim, . Eu me caso com você.
Ele pegou minha nuca e colou nossas bocas. Meu coração batia acelerado contra meu peito. Nunca me senti tão exultante assim, com alegria genuína. Eu não precisava me preocupar com ir embora mais, então podia viver o momento com a ignorância de um futuro incerto. Senti-o beijar meu pescoço.
— Você não está me propondo isso porque me viu chorar por te ver casado com outra mulher, né? — perguntei enquanto ele aparava minhas costas e descia seus beijos.
Ele parou e me fitou. Arrumei a postura.
— Não. Eu realmente fiquei pensando depois que você falou aquilo no meu colo como indireta para mim. Esse tempo que você sumiu, eu percebi o quanto sinto falta de acordar ao seu lado, sentir o cheiro de panquecas com geleia que você fazia para mim e do seu café da manhã de todos os dias. Senti falta do seu perfume; daquela música que você vive cantando; do seu gosto duvidoso para filmes; de te ouvir falando com uma voz fininha com Solveig; das suas pantufas de rena combinadas com aquele pijama de Natal; das suas trapalhadas como daquela vez que deixou o cachorro roubar algo e sair sujando toda a casa... — Sorri ao me lembrar desse dia, ele ainda estava no regime de silêncio, o que tornou tudo mais engraçado. — Eu te amo, . Por você, eu realmente aprendo a dançar e coloco um terno, porque quero te amar todos os dias da minha vida.
As lágrimas que saíram enquanto ele falava foram de felicidade.
— ‘Tá, então pode continuar de onde parou. Não vou mais interromper — brinquei.
— Vamos sair daqui. A água já está fria do tanto que falamos — comentou, me ajeitando para que eu pudesse levantar com segurança. Me levantei, tomando todo o cuidado para não escorregar enquanto segurava sua mão. Me sequei com a toalha, ouvindo-o sair da água atrás de mim.
— Sua ficha caiu? — perguntei, me virando e entregando a toalha. — De que estou aqui — expliquei.
— Caiu — respondeu, sorrindo com malícia. — Era exatamente sentir você de novo que eu precisava depois de meses de abstinência. — Secou o corpo.
— Você não saiu com nenhuma depois que sumi? — perguntei, em choque.
— Claro que não, e não me venha com essa história de mulherengo de novo — já foi se adiantando antes que eu pudesse falar.
Prendi a risada. Agora, queria só para mim. Para sempre.
Fui para o quarto e me deitei na cama, sentindo minhas costas se familiarizarem de novo com o colchão. Ele me seguiu.
— Depois de viver tudo isso, só quero minha massagem no pé — resmunguei. Ele riu e se sentou na ponta da cama, pegando um dos meus pés para começar a apertar. A satisfação foi tanta que até gemi. — Onde você aprendeu a massagear bem assim? — Joguei minha mão para trás da cabeça. — Pensando bem, não quero nem saber.
Ele apertou meus pés durante alguns minutos, depois subiu as mãos pelas minhas pernas me fazendo ronronar.
— Quer descansar um pouco? Ou comer? — sugeriu, enquanto acariciava minha barriga.
Pensei no que meu corpo pedia e concluí que ele já estava me dando o que eu queria, que era segurança e chamego. Me senti grata e apenas pensei em algo que me aguardava dentro do meu guarda-roupa há alguns meses.
— Você pode pegar o presente que está dentro do meu guarda-roupa? — pedi. Ele passou pela cama e por cima de mim para alcançar o armário. Pegou o embrulho que tinha me dado no dia do meu aniversário e me entregou. Achando meu pedido no mínimo estranho, voltou a se sentar. Olhei para o objeto, me sentindo no dever de abri-lo na frente dele. — Fiquei com tanta raiva de você naquele dia que acabei nunca abrindo esse presente. Lilly me entregou ele na primeira vez que estive de volta em 2019. Você o guardou exatamente assim. Sei o que tem aqui dentro, mas quero abrir agora na sua frente. — Desenrolei o laço e rasguei o papel novamente. Tirei o porta-retratos com nossa foto de lá e o analisei. — Eu estava brava nesse dia por ter escutado o que Pierre disse do seu relacionamento com a Natalia. Seu cabelo batendo na minha cara acabou desmanchando a carranca e me fazendo rir assim.
— Eu me lembro, acabei rindo ao escutar sua risada. — Olhou para a foto. — Pierre mandou essa foto diretamente para minha casa, então pensei em te surpreender com ela.
Passei os dedos pela foto.
— Nós ficamos bonitinhos juntos — comentei. Senti que plantou um beijo no meu ombro. — Obrigada pelo presente. — Coloquei o porta-retrato na mesa de cabeceira para olhar todos os dias.
— Por nada, baby.
Escorreguei as costas na cabeceira e voltei a me deitar. Ele fez o mesmo, mas descansou a cabeça no meu peito para mexer com minha barriga.
— Posso falar com ela? — perguntou.
— Claro — respondi, acariciando seu cabelo.
— Oi, pequena. Você andou viajando muito aí na barriga da sua mamãe, hein? Tudo isso para salvar a pele de um cara que não mereceu sua mãe, só fez um monte de burradas, teve várias outras mulheres, a viu ir embora sem rumo, se casou e deixou que fosse sequestrada pelo amigo da família. — Fiz menção de interrompê-lo para falar que não foi sua culpa, mas ele continuou: — Mas pode deixar comigo, vou mimá-la muito para todo o sempre com sua ajuda. Nós seremos cúmplices nisso. Vou ser a minha melhor versão por vocês duas, deixarei aquele paspalho que ela encontrou em 1997 e que foi o favorito no chinelo. Já sou mais bonito e jovem que ele, ainda serei pai. As pessoas não resistem a um cara com um bebê. — Resmunguei, censurando-o. Ele riu. — E eu serei um pai muito legal, te apresentarei ao KISS assim que você puder escutar aí dentro, vou tocar guitarra e ler para você. Nós seremos muito felizes, então continue com o bom trabalho que está fazendo.
Ele beijou a pele da minha barriga, me assustando. Não havia dúvidas de que ele era minha versão favorita, foi por ele que me apaixonei e fiquei perdida nos anos como punição. O de 1997 se tornou meu favorito de suas versões alternativas, mas o original sempre foi o melhor. Imaginá-lo fazendo tudo isso que mencionou me causava ansiedade, ainda mais porque tinha certeza de que o de ‘97 e 2019 estava certo, ela seria uma garotinha do papai.
O telefone tocou na sala, ele foi atender. Fui esvaziar a banheira para poder tomar um banho de verdade. Quando eu estava debaixo do chuveiro, o vi entrar no banheiro.
— Era Lilly avisando que levou Solveig para casa e amanhã Börje vai passar aqui para deixar minhas coisas — comentou, se juntando a mim.
Envolvi seu tronco em um abraço para poder desfrutar.
— Como vai o trabalho? Terminou o álbum? As fotos ficaram boas? Quando pretende voltar a gravar o videoclipe?
Ele riu.
— Você já quer falar de trabalho?
— Já conversamos sobre o que passei, o que você passou, agora preciso voltar para a realidade — comentei. Ele desligou o chuveiro e passou a toalha molhada pelos meus ombros.
— Terminei o álbum, só estamos fazendo alguns últimos ajustes para lançá-lo em junho. Não sei como as fotos ficaram, ainda não enviaram as prévias para a produtora, provavelmente você será a primeira pessoa a vê-las. Preciso me organizar para voltar a me preocupar com essas gravações, mas ando bem desleixado com minha agenda desde que você se foi. As cartas que levou, naquele fatídico dia, continuam sem resposta na minha sala.
— Mal posso esperar para voltar a trabalhar e organizar tudo. Sinto falta da produtora.
— Com certeza, você fez falta por lá também. Börje não parou de encher meu saco um segundo com coisas que você resolvia facilmente.
Ele checou a janela por trás da cortina enquanto eu me deitava.
— Vem cá, quero te mostrar algo — chamei-o. Ele ainda parecia achar que Sebastian iria tentar invadir a janela do apartamento.
Me sentei na beirada da cama e o puxei para ficar de pé entre minhas pernas.
Eu o fiz esquecer até do próprio nome.
Ele caiu ao meu lado na cama.
— Isso foi... uau — comentou, tirando um cigarro de sei lá onde. — A gente nunca fez assim antes.
Tirei o cigarro dos seus dedos e joguei-o para trás.
— Está na hora de parar de fumar, por causa do seu coração e da Emma — adverti.
— Mas o momento pede — retrucou com cara de cachorro que caiu da mudança.
— Não. Chega. E nós vamos ao médico discutir sua cirurgia o quanto antes.
Bufou, escondendo o rosto com um travesseiro.
— É bom te ter de volta. — Acabou por rir com a voz abafada.




Sebastian foi preso menos de uma semana depois. Acharam cinco corpos enterrados na floresta perto do chalé. Fiquei horrorizada quando soube, mas não só eu, Börje até resolveu fechar a produtora por alguns dias para se recuperar. Nós fomos almoçar na casa dos e Karin chorou ao me ver, garanti a ela que estava bem agora. Na verdade, estava mais do que bem, voltei a trabalhar na produtora. e Solveig estavam morando comigo e me dando tanta atenção que já estava ficando mal-acostumada.
Estava a caminho do meu ultrassom do trimestre. Vinha me adaptando bem à 1991 de novo, às vezes enxergava um detalhe ou outro que me lembravam as outras épocas e acabava sendo dominada pela nostalgia.
parou de fumar e o procedimento para implantar o aparelho estava marcado para dali mais de um mês. Lilly vinha me ajudando a montar, aos poucos, um quarto para Emma onde ficava o quarto de hóspedes. Não sabia qual de nós duas estava mais empolgada.
A médica nos cumprimentou ao entrar na sala do ultrassom. , que tremia ao meu lado, mal respondeu. Era a primeira vez que ele veria a filha e estava quase subindo pela parede. Desde que perdeu a primeira consulta por conta do trabalho, ele vinha contando os dias para esta. Sua mão fria segurou a minha enquanto a médica espalhava o gel.
As batidas rápidas do coração dela ecoaram pelo quarto, depois a silhueta perfeita de um bebezinho que se mexia. Olhei para ele para ver sua reação, senti seus dedos me apertando enquanto sorria, maravilhado.
— Aí está a garotinha de vocês. Ela anda bem ocupada se mexendo.
Concordei com a cabeça, meu cérebro já estava tomando como algo cotidiano. A médica analisou alguns detalhes importantes enquanto eu me virava para ver a reação do papai do ano.
— Minha nossa, ela acabou de dar uma cambalhota? — ele perguntou.
A médica riu.
— Você anda tomando o que te passei? — ela perguntou para mim.
Fiz que sim.
— Por aqui, está tudo bem. Tamanho e crescimento estão ótimos, dentro do previsto. Vou deixar um pedido de exame de sangue na recepção, assim como a data da próxima consulta. Alguma pergunta?
— Não — respondi, querendo limpar logo aquele líquido gosmento da minha barriga.
— Quando ela vai poder me ouvir? — ele perguntou.
— Daqui a uma semana, ela pode começar a reagir a estímulos externos.
Depois de garantir que não tínhamos mais perguntas, ela deixou a sala. Nós passamos na recepção para recolher os papeis. Quando nos sentamos no carro, fitei-o se atrapalhar para enfiar a chave na ignição algumas vezes. Fiquei curiosa com o que acontecia por trás daquele véu de cabelo e virei seu queixo na minha direção. Eu imaginei que pudesse ser o que meus olhos agora viam.
— Você está chorando? — perguntei, franzindo o cenho. Algumas lágrimas deslizavam pelas suas bochechas, mas ele sorria feito um pateta.
— Não. — Tentou disfarçar com o cabelo de novo.
— Está sim. — Ri, largando seu queixo e imaginando como seria quando ela nascesse. — Para quem não queria ser pai, você anda muito nas nuvens ultimamente. Um verdadeiro pai babão.
— Foi a primeira vez que a vi, aposto que você também chorou na sua — defendeu-se. Ele estava certo, chorei no primeiro ultrassom e no primeiro que ele a viu. Só que meus pés doíam depois de um dia de trabalho e eu queria apenas me deitar com as pernas para cima. Acho que, aos poucos, vinha ficando ranzinza, provavelmente pela falta de sono por causa da barriga que não me permitia virar no colchão. Caso contrário, estaria chorando com ele. — E ela deu uma cambalhota para mim!
Ela dava algumas cambalhotas durante o dia, mas preferi não estragar seu barato. Ele conseguiu enfiar a chave na ignição e dirigiu até o centro comercial que indiquei. Escondi meu sorriso com a mão ao vê-lo enxugando o rosto antes de sair do carro.
Era nesses momentos que podia concluir que ele já havia se entregado à paternidade completamente. Um mês se passou desde que voltei para 1991 e ele não parava de falar sobre ela, peguei-o falando dela até com Solveig. Desconfiava que voltar com uma barriga que só aumentava tenha causado um choque de realidade e ansiedade nele, por isso, pulou direto para a animação. Naqueles dias ele até me perguntou se deveria cortar o cabelo para ficar com mais “cara de pai”. Fiquei surpresa ao constatar que em outros tempos não queria nem se livrar daqueles pôsteres, e agora estava disposto a fazer esse tipo de sacrifício. Ele amava aquele cabelo, eu amava aquele cabelo. Então falei que Emma provavelmente amaria o cabelo dele também, isso o tornaria diferente dos outros pais e mais legal.
Fomos pegar o berço que encomendei com Lilly outro dia, ele carregou a caixa pelo caminho enquanto resmungava que era pesado demais.
Me surpreendi quando fizemos outra parada na frente da casa da sua família. Nós quase superamos a história com Sebastian por completo, ênfase no quase. Não andei mais de transporte público desde que voltei, ainda conferia três vezes as janelas e a porta toda noite, Börje ainda me pedia desculpas em alguns momentos que passava por mim e o resto da família nem tocava no nome do indivíduo em questão. Nós estávamos tentando seguir em frente, mas às vezes ainda me pegava revivendo aqueles dias em sonho e só depois de acordar, chorar e sentir o calor de era que minha mente processava que estava em segurança. Ele vinha sendo tão gentil e paciente comigo, mas sabia que por dentro sofria silenciosamente ao me ver daquela forma.
Ouvi sua explicação rápida sobre precisar ajudar Andreas com algo que não entendi bem e que demoraria. Vi pelas janelas as luzes todas ligadas e estranhei, elas só ficavam assim nos dias de jantares. Provavelmente estavam recebendo visitas e estava sem humor para socializar com desconhecidos. Minha bolsa ficou presa no freio de mão e praticamente saiu correndo para entrar em casa, ao invés de me ajudar.
Esse homem estava agindo estranho. Primeiro, me carregava até ali sem falar nada, agora aquilo. Deixei o carro depois de desenrolar a maldita alça e avistei Lilly vindo energeticamente na minha direção.
— Oi, . Como foi a consulta? Pegou o berço? — ela falou tudo rápido demais. Franzi o cenho.
— Engoliu um saco inteiro de café, por um acaso? — Andei até a porta. Um pico de energia resolveu invadir aqueles dois? Nunca os vi assim, como se fossem fazer polichinelos a qualquer minuto para gastar uma mínima porcentagem daquela energia toda.
— Você viu o que Karin fez no jardim? — Apontou, me fazendo virar. Não tinha absolutamente nada de diferente, só o mesmo jardim bem-cuidado desde que Karin mudara para lá. Arqueei uma sobrancelha. — Ela mandou trazer uma planta do Brasil, aquela ali. — Apontou para uma planta qualquer que tinha certeza sempre ter passado e notado. Aquela pirralha estava pensando que podia me distrair, então já imaginava o pior.
— Lilly, se você está me distraindo, seu irmão saiu correndo do carro e as luzes estão todas acesas, então provavelmente a visita é alguém que não gosto, não é? É a Natalia? — chutei o que me veio à mente, já que Natalia era amiga dos outros também.
Seu rosto se iluminou em satisfação com o que falei, como se tivesse lhe dado uma ideia.
— Sim, é isso. Você não vai querer entrar lá.
— Ah, mas é claro que quero. Não tive a chance de conversar com ela depois daquelas mentiras que me contou. — Tentei girar a maçaneta, mas Lilly entrou na frente e se prensou contra a porta. — Lilly, uma hora ou outra, vou ter que encontrá-la.
— Não agora. O estresse faz mal para a Emma — ela respondeu, olhando para a janela atrás de mim.
— Estou ficando estressada é com você. O que diabos está pensando? Você sabe muito bem que estou devendo essa conversa para ela! — resmunguei, tentando me esgueirar para abrir. — Sai já da frente dessa porta, Lilly!
Um brilho passou pelos seus olhos e ela sorriu, uma reação totalmente alheia ao que eu disse, provando que não tinha escutado nada.
— Tá bom, entre por sua conta e risco. — Cedeu fácil demais e girou a maçaneta para mim. O que estava acontecendo com aqueles irmãos? Só o que faltava para completar era Andreas escolher esse momento para começar a falar sobre alienígenas de novo.
Empurrei a porta, mas nem dei atenção para o interior da casa. Eu estava mal-humorada por conta deles dois, então a encarei.
— Lilly, o que está acontecendo aqui hoje? — perguntei, séria. Ela apenas me virou pelos ombros para vislumbrar uma trilha de velas acesas que iluminava o ambiente. As luzes, naquele momento apagadas, davam um ar romântico propício para momentos inesquecíveis.
A sala estava cheia de flores no chão, pisei devagar para machucá-las o mínimo possível e parei no meio cômodo. Ouvi minha música favorita do Erasure tocando ao fundo e sorri. Não podia ser o que parecia...
apareceu descendo as escadas, rodeado de velas, com um dos figurinos que reconheci do videoclipe que estava gravando. Sorri ao vê-lo tendo um cuidado minucioso para se equilibrar com a capa vermelha e a roupa de guerreiro embaixo. Coloquei a ponta dos dedos trêmulos nos meus lábios em completa descrença.
— Ora, ora, se não é o viking mais gostoso de toda a Suécia... — comentei com a voz meio esganiçada, levando-o a sorrir.
Vi Andreas, Börje e Karin saindo do corredor que dava para a cozinha e onde antigamente eram os quartos. Os cúmplices. Ele parou na minha frente e arrancou o capacete da cabeça, revelando uma trança bem-feita. Lilly apareceu para pegar o capacete. Os dedos calejados tiraram uma caixa de veludo do bolso, fazendo meu coração disparar antes que meu cérebro processasse o que, de fato, era aquele momento. Nós nunca mais tínhamos falado de casamento desde que ele me pediu na banheira, mas agora entendia que ele estava quieto por estar planejando a surpresa. Bem, ele conseguiu com sucesso. Ajoelhou-se na minha frente e abriu a caixa, revelando uma aliança delicada.
— Quero viver todos os meus dias ao seu lado. Casa comigo, senhoria viajante do tempo?
Abri o maior sorrisão. Como eu poderia negar depois de tudo?
— Viajei quase trinta anos para te encontrar, então é claro que sim! — respondi, sentindo as lágrimas começarem a descer.
Ele sorriu e sua família comemorou com palmas e assobios. Tirou o anel solitário de dentro da caixinha e o posicionou no meu dedo anelar da mão esquerda, observei a pedra maior e as menores reluzirem na luz amarela das velas. Era lindo.
Ele ficou de pé, guardou a caixinha e toquei sua trança. Nunca vi seu cabelo preso daquele jeito, mas já queria que fizesse sempre porque estava gostando do que via — de um jeito extremamente inapropriado. Mandando meu devaneio para o inferno, ele me puxou com vontade pela cintura e colou nossos lábios. Fiquei até sem ar. De alguma forma, tinha certeza de que ele prometia silenciosamente: nunca mais te deixarei ir.
E eu não iria a lugar algum.
Um flash estourou pela sala e me fez nos separar. Börje estava com a câmera, Andreas com a filmadora e Karin mandou ficar atrás de mim e pousar a mão na minha barriga. O retrato perfeito do começo do felizes para sempre. Inclinei minha cabeça para olhá-lo e sussurrei:
— Eu amo você.
Ele sorriu genuinamente com os lábios e os olhos, depois beijou a ponta do meu nariz. O flash estourou novamente.
— Eu também amo você.

* * *


— Vem logo. Está demorando demais, rockstar — reclamei, acariciando minha barriga que abrigava um peixinho amante de cambalhotas. Comecei a acariciar com mais frequência minha barriga desde que lemos no famoso livro que o bebê sentia o carinho desde a 20ª semana.
O tal rockstar estava se arrumando para tocar para ela pela primeira vez. Depois de muita impaciência, ele resolveu se preparar para pegar o violão e tocar sua música como fez para mim no ano anterior. Ele tocava bem, cantava bem, a música era linda, mas estava trancado no escritório — que agora era dele, inclusive — por insegurança.
, eu sei que você nunca gostou muito da ideia de tocar ao vivo, mas é a sua filha e ela nem nasceu ainda. É só uma tentativa, você ainda vai ter muita chance de aprimorar nessas semanas — tentei convencê-lo mais uma vez.
Esperei por uns dois minutos até que a porta se abriu, Solveig saiu antes e depois o papai do ano. O cachorro subiu no sofá e descansou a cabeça na minha coxa.
A pilha de nervos que era meu noivo se sentou no chão com o violão no colo.
Ainda não acredito que estou me referindo a ele como “meu noivo” e não “meu ídolo”.
Ele suspirou pesadamente. Estava com um pouco de dó porque sabia que se cobrava demais com tudo que envolvia o seu dom, algo que não identifiquei no dia que ele tocou para mim, mas agora o conhecia bem demais para ignorar.
— Será mesmo uma boa ideia tocar uma música minha logo de cara? — perguntou, mordendo o lábio inferior.
— Ela é minha filha, só isso automaticamente faz dela uma fã sua — brinquei para ele relaxar um pouco. Sorriu e fechou os olhos, liberando um pouco da tensão. Meu coração se encheu de ternura. Ele estava com receio de que ela não gostasse das suas músicas, um bebê de um pouco mais de 20 semanas.
— Espero que você goste um pouco da história dos nossos antepassados — direcionou a fala para ela. Mexeu nas cordas do violão enquanto passava a palheta para testar a afinação, depois ouvi as primeiras notas e senti meu olho lacrimejar no mesmo instante. Tanto mudou desde que o ouvi tocando aquela música para mim. Já havia mais de um ano que havia chegado ao século 20 e sentia que era onde estive designada a viver desde que nasci.
Quando ele terminou, me senti na obrigação de aplaudir animadamente. Pensei que esperava minha aprovação verbal, mas concluí que ele queria saber o que a Emma estava fazendo. Toquei minha barriga e prendi os lábios para segurar um sorriso ao constatar que ela estava quieta.
— Ela deve estar dormindo — falei com pesar, mas ele abriu o maior sorriso de até exibir os dentes, que não era comum.
— Eu a fiz dormir, — ele disse, parecendo totalmente convencido daquilo enquanto esticava a mão para acariciar minha barriga. Fazia uma semana que ganhei esse apelido, . Ninguém nunca tinha arrumado uma variação para o meu nome, então foi um certo baque ouvi-lo me chamando assim, como aconteceu com o “baby” e “meu amor”. Não perguntei o motivo por medo de achar que ele poderia finalmente perceber e parar de usar o apelido, mas a curiosidade vinha me matando.
— Sim, quando você canta assim, a sua voz é tão serena e pacífica. — Bocejei, sentindo o sono me anestesiar. — Nós amamos, não é, Solveig?
O cachorro branco e cinza levantou a cabeça ao me ouvir falando seu nome, mas voltou a deitar quando percebeu que não era nada que envolvia passear ou comida. Um interesseiro.
— Parece que fiz os três dormir — comentou, encostando o violão na parede. Sorri, sentindo meus olhos pesarem. Não queria que o sono viesse tão de repente, mas o som do violão e a voz dele são mesmo serenos e pacíficos. — Isso significa que fui bem, certo?
Assenti.
— Muito, muito, muito bem.
Encostei a cabeça no encosto do sofá para tirar meu cochilo sem me preocupar com uma posição para acomodar a barriga. Ele não tentou me tirar dali porque sabia que era meu lugar favorito para dormir ultimamente.
Me perdi na inconsciência alguns segundos depois.
, o que é isso? — minha mãe perguntou embasbacada ao ver o volume na minha camiseta.
— Estou grávida, mamãe — anunciei, nervosa demais para a ocasião. Ela ia brigar comigo por ser nova e descuidada demais, tinha certeza.
— Grávida? De quem? — Ela analisou cuidadosamente minha barriga, como se assim pudesse dizer quem era o pai.
— Do .
— Aquele cara? — Tomou coragem para tocar na minha barriga.
— Sim. Nós vamos nos casar. — Mostrei minha mão esquerda que carregava o anel solitário que ele pôs ali.
Ela deu um sorriso orgulhoso, me fazendo estranhar sua reação. Onde estava minha mãe que não queria me ver grávida antes dos 30 para não correr o risco de estragar minha vida? Por mais que ela tivesse apenas 23 anos quando quis me ter, dizia que perdeu muitas oportunidades na carreira.
— Estou feliz por você — admitiu. — Estou feliz porque encontrou seu lugar ao lado de quem ama. — Acariciou a extensão da minha barriga. — Eu sabia que isso ia acontecer de alguma forma.
Um misto de felicidade e tristeza me fez chorar. Pelo seu tom, ela sabia bem que a gente não se veria mais, afinal eu escolhi aquela vida para mim. Sentiria saudades da rigidez da minha mãe. Por mais que eu tenha passado a vida toda criticando, no fim, era o jeito dela. Sentiria falta das férias da faculdade em São Paulo, ela criticando minha avó paterna bem baixinho enquanto tentava reunir paciência, meu pai a irritando com suas imitações ridículas do Roberto Carlos. Eu era grata por eles terem me criado em uma casa com tudo que pudesse querer disponível, me mantido longe dos holofotes, feito o que puderam para me proteger da fama e sustentado meu custo de vida fora do país. Por mais que tivéssemos nossas diferenças e pouco tempo juntos, eu sempre amaria meus pais.
— Deixe de ser chorona. Você fica horrível quando chora — ela ralhou enquanto limpava minhas lágrimas.
Percebi que estávamos na nossa casa, no Brasil, quando meu pai surgiu pela área gourmet com o ao lado. Pisquei algumas vezes para tentar ver com clareza se era mesmo ele. Sim, e os dois conversavam animadamente em inglês. Minha mãe se virou para vê-los se aproximarem.
— Encontrei esse cara lá fora e ele disse que é noivo da minha filha. Tive que convidá-lo para entrar e me contar que história é essa — meu pai explicou, rindo. o acompanhou, mesmo sem saber português. Ele estava tentando conquistar Roberto , o pai de sua noiva. Sorri. A sorte dele é que meu pai sempre quis ter um genro, então facilitaria seu trabalho.
Minha mãe tocou o cabelo dele.
— Meu Deus, ele é bem bonitão — ela comentou ao passar o olho por ele, que exalava timidez disfarçada em falsa confiança na frente dela. — Até que você escolheu bem, .
Só depois desse comentário é que meu pai pareceu notar minha barriga de grávida.
— Minha filha vai ser… mãe? — meu pai perguntou, incrédulo. Ele não corria tanto o risco de me julgar, já que sempre defendeu que eu tivesse estabilidade antes de ter uma criança. Porém sorri com um toque de nervosismo ao tocar na minha barriga.
— É, papai. Te apresento à Emma , sua neta que ainda está crescendo aqui dentro — murmurei. Minha mãe e meu noivo observavam, sorrindo, meu pai tocando minha barriga pela primeira vez.
— Não acredito. Meu bebê vai ter um bebê — ele disse com a voz embargada. Já sabemos de quem puxei o traço de chorona. Eu, que já estava chorando, chorei mais. Depois de muito insistirem para conhecer um namorado meu, eu trouxe um prato cheio para eles.
— Pai, eu já tenho 26 anos — expliquei, mesmo sabendo que ele ia rebater com a sua frase usual ao me chamar daquele jeito.
— Você é minha única filha, portanto sempre será meu bebê — falou, recolhendo a mão e me abraçando. — Parabéns, .
Agradeci, me encolhendo em seu abraço e sentindo a sensação de saudades que me provocava. Já havia um tempo que não abraçava meu pai. Esse abraço era diferente, precisava guardá-lo na memória para toda vez que eu sentisse falta dele. Aquele galã de meia-idade que adorava livros de terror. É dele que herdei a paixão por sonhar alto. Foi assim, querendo ou não, que parei em 1990. Ele me soltou e apertou a mão de .
— Parabéns, cara. Cuide bem delas — falou em inglês.
— Cuidarei, eu prometo — respondeu enquanto sacudia a mão do meu pai.
Limpei as lágrimas que insistiam em cair ao assistir aquela cena. Não precisava de ninguém para cuidar de mim, era uma mulher adulta, mesmo assim não questionei meu pai por saber que suas intenções eram nobres. Afinal, ele basicamente estava me entregando nas mãos do meu futuro marido, longe do cuidado dele que estava em outra realidade. Minha mãe me abraçou de lado.
— Agora que notei que você já sabia que estava grávida quando falou comigo, por isso perguntou o que eu diria ao meu neto — ela sussurrou no meu ouvido. — Fale o que te falei, que a avó disse que ela tem a melhor mãe do mundo.
Solucei. Eu não queria que esse momento fosse uma despedida, queria que meus pais ficassem e conhecessem o resto da família ou que minha mãe me ajudasse com o pós-parto. Só agora que estava me sentindo jogada à minha própria sorte, sem saber nada sobre ser mãe. Eu não seria a melhor mãe do mundo, erraria da minha maneira, assim como ela errou da dela.
— Mamãe, você foi boa para mim. Não guardo mágoas — falei, descansando minha cabeça em seu ombro. — Obrigada por tudo.
Ela me apertou.
— Vocês precisam ir — meu pai avisou. pegou minha mão e soltei minha mãe com um pouco de receio.
— Foi bom conhecer você, — ela disse para ele, que sorriu em resposta.
— Farei o que puder para manter a feliz. Eu a amo — ele disse para os meus pais, ao meu lado, segurando minha cintura.
Os dois assentiram, emocionados, ao ouvi-lo falar aquilo.
Dei um tchauzinho para eles sabendo que era a hora de ir, assim como eu sabia nas minhas viagens no tempo. Meus pais ficariam na minha realidade, a que escolhi deixar para viver com o amor da minha vida. O nó na minha garganta mostrava que eu sentiria falta deles para sempre.
Acordei puxando o ar desesperadamente para o meu pulmão vazio. Meu rosto estava molhado, provando que era um sonho, mas o impacto foi verdadeiro. Assim que meus pulmões estavam cheios de ar novamente, o choro veio como uma resposta natural à ausência dos meus pais. veio do escritório correndo, pediu para Solveig descer com pressa e me abraçou ao se sentar no sofá. Eu nunca mais veria meus pais. Eles me deram adeus da única forma possível e pareciam orgulhosos de mim e da minha escolha.
— É ele de novo? — perguntou contra meu cabelo enquanto eu chorava no peito dele.
— Não. F-foram meus pais. Eles viram minha barriga e te conheceram. — Funguei. — Pa-pareciam orgulhosos.
Sua mão acariciou a extensão do meu cabelo que ia até o meio das minhas costas. Pigarrei para tentar estabilizar minha voz. Infelizmente, toda escolha vem acompanhada de uma consequência e abdicar dos meus pais era tão triste, mas, de certa forma, eles quiseram me mostrar que estavam felizes por me verem ao lado de quem amava. De quem moveria montanhas por mim também.
— Era uma despedida, . Eles vieram se despedir de mim — expliquei. Ele me apertou mais forte. Só naquele momento senti a dor da perda em sua essência, meus pais provavelmente nunca teriam uma filha, mas sempre lembraria deles. Isso doía tanto. — Meu pai te pediu para cuidar bem de mim e da Emma, você prometeu que faria. Foi tão fofo ver vocês dois, mesmo que eu não precise de ninguém para cuidar de mim.
Ele beijou meu cabelo.
— E eu cuidarei, é uma promessa — sussurrou. — Você deixou toda a sua vida para trás por mim, agora dedicarei a minha a você.
Ouvi-lo dizer isso fez meu coração se acalmar e ter a certeza de que escolhi certo.

* * *


— Ela está chutando! Rápido! — avisei que estava lavando a louça. Ele correu desajeitadamente enquanto secava as mãos com o pano de prato, me fazendo rir.
Suas mãos frias pousaram na minha barriga nua e os olhos piscina brilharam em expectativa. Ele vinha tentando sentir os movimentos da bebê, agora que só de tocar na barriga era possível, mas a pestinha sempre parava quando ele chegava.
— Emma, dê só mais um chute para o seu papai — falou em sueco. Ele vinha alternando entre inglês e sueco nas suas conversas com ela. Enquanto eu falava português. Não sei se vai confundi-la quando crescer, mas queria que ela se interessasse pelo meu idioma também.
Quando ele tocava e cantava, geralmente ela se aquietava. Por incrível que pareça. Ela deveria reagir aos ruídos, mas apenas ia dormir e o deixava frustrado por não conseguir senti-la. Já se tornara uma brincadeira entre eles dois.
— Só mais um, filha — pediu, acariciando minha barriga de quase trinta semanas. Estava cada dia me sentindo mais inchada e com os movimentos mais limitados. Meu rosto se assemelhava a uma bola de basquete. Minha autoestima não estava lá essas coisas.
Emma chutou exatamente onde estava uma de suas mãos, fazendo-o arregalar os olhos e me olhar boquiaberto.
— Isso foi ela? — quis confirmar. Assenti, quase sem acreditar que chegou o tão esperado momento também. — Oi, bebê. Obrigado pelo chute.
Ela se movimentou de novo, mas senti em um lugar diferente, o olhar perplexo dele provava que também havia sentido. Estava tão contente por aquilo estar acontecendo, ele andava preocupado com o procedimento do dia seguinte. O médico nos explicou que implantar o aparelho não era exatamente uma cirurgia, como eu acreditava, porque não abria o peito e a anestesia era local. Porém, ele dormiria no hospital e sairia apenas no outro dia, então esse detalhe estava me deixando um pouco nervosa. Quem o acompanharia, dessa vez, seria Andreas. Börje viajou para os Estados Unidos, tivemos um pequeno problema com a distribuição do novo disco por lá. Eu não fui autorizada a acompanhá-lo, as justificativas foram: a cadeira era desconfortável para passar a noite; e eu provavelmente ficaria nervosa demais em vê-lo em uma cama de hospital, devido ao que aconteceu na viagem no tempo.
Eram argumentos bem convincentes, fui obrigada a concordar com ele, mas não queria dizer que concordei sem lutar.
Ele beijou delicadamente minha barriga, após concluir que ela não iria mais se movimentar. O que também me deixava nervosa era que o médico disse que ainda não podia concluir se ele precisaria de um marca-passo também. Não conseguia me lembrar se o aparelho que ele implantou em 1997 tinha o marca-passo também. Provavelmente estava escrito no relatório que o cardiologista me deu e não tinha comigo, mas me recordava que o aparelho com marca-passo só seria inventado em ‘93 depois de pesquisar no Google, em 2019. Infelizmente, se ele precisasse de um marca-passo, teria de passar por uma cirurgia. Preferia despistar o pensamento.
— Acho que ela te desejou boa sorte — comentei. Ele me deu um selinho enquanto sorria.
— É, eu também acho. — Sentou-se ao meu lado no sofá. — Não vou mentir, estou nervoso. Queria muito fumar um cigarro. — Fiz cara feia para ele, mas ele apenas continuou: — Eu não ligava muito antes se esse problema no coração me mataria, mas agora estou apavorado com a ideia de te deixar sozinha com um bebê.
Franzi o cenho. Aquilo jamais aconteceria, não agora que sabíamos que essa solução o manteve vivo por mais quinze anos, me permitindo encontrá-lo na última viagem.
Não podia transparecer que uma parte minha também temia, então me virei no sofá para ficar de frente para ele.
— Ei, vai ficar tudo bem. — Toquei sua bochecha e a acariciei com o dedão. Ele fechou os olhos, tentando acreditar no que eu disse. — Eu te vi aos 53 anos graças a esse aparelho. Você vai viver.
Puxou meu braço para que me sentasse em seu colo. Me encaixei em suas coxas, de frente para ele. Essa sempre seria minha posição favorita para contemplar sua beleza. Ele piscou demoradamente e depois voltou a abrir as pálpebras, revelando as pupilas dilatas. Não acreditei que esse safado tinha espaço para se sentir excitado no meio de tanto nervosismo. A rigidez entre minhas pernas provava que sim, havia espaço de sobra. Parecendo ler minha mente, explicou:
— Tenho que aproveitar os prazeres que a vida proporciona enquanto é tempo.
Belisquei sua barriga, fazendo-o se contorcer e rir.
— Você é um pervertido — murmurei, também rindo, mas sentindo meu corpo corresponder.
— E quem é você para falar algo? — Ele deslizou uma mão para dentro da minha blusa e desabotoou o meu sutiã com uma facilidade que sempre me deixava embasbacada. — Essa carinha te entrega, baby.
Bom, ultimamente, percebi que tinha que atender os meus hormônios e, se ele me fazia chorar por coisas bestas, ele também me proporcionava um fogo interior bem conveniente. As mãos masculinas deslizaram as alças do sutiã pelos meus braços e, no segundo seguinte, a peça estava no chão.
— Impressionante — falei como se tivesse acabado de presenciar um truque de mágica. Ele sorriu e apalpou meus seios livres por cima da blusa. Fechei os olhos, sentindo a pulsação no meio das minhas pernas e lembrando de um detalhe. — O médico não disse nada sobre fazer esforço?
— Não. — Levantou minha blusa e dois dedos apertaram meu mamilo eriçado. Eu estava sentindo tanta sensibilidade ali que o gesto me fez gemer. — Mas fazer amor com minha mulher não é nenhum esforço — brincou, me fazendo sorrir com sua frase piegas. Inclinou-se e passou a língua por cima da blusa. — No entanto, é provável que fiquemos alguns dias sem nos divertir depois de amanhã, então quero gravar seu gosto para me lembrar bem.
Sabia muito bem o que queria dizer. Nas últimas noites, ele e aquela boca hábil estiveram bastante ocupados, me provando que os orgasmos múltiplos são um campo bem amplo e que tinha evoluído mesmo em três anos.
Lembrei-me que estávamos no domingo, de tarde, no meio da sala.
— Você quer fazer isso aqui, na sala? — perguntei com dificuldade enquanto ele brincava com a língua.
Quando parou, tive vontade de resmungar.
— Por que não? Solveig está deitado na cama e ninguém vai ver do lado de fora porque ainda está de dia — explicou, olhando para cima para me fitar. Não conseguia resistir quando ele olhava para cima com as pupilas dilatadas. Era minha perdição.
— Porque seus irmãos estarão aqui já, já — expliquei. Eles viriam porque tinham que estar no hospital cedo. Lilly viria de tabela para ficar comigo na noite que eles dois iriam passar fora, por insistência dela. Disse que nada me distrairia mais do que uma noite de garotas. Como o quarto de visitas não existia mais, comprei um sofá cama novinho que chegou no dia anterior e ainda exalava cheiro de novo.
— Então não vamos perder tempo. — Beijou meu colo, fazendo meus pensamentos ficarem embaralhados.
O som do interfone ecoou pelo apartamento.
Me joguei no sofá, frustrada. Ele ficou de pé e amarrou o cabelo para se recompor. Caminhei até o banheiro do quarto para me enfiar debaixo do chuveiro e sossegar.
Esfreguei a bucha enquanto sentia meu nariz pinicar com a vontade de chorar. Nesse tempo, não dormi uma noite sem ele e a mera ideia me apavorava.
Em 1997, sabia que teria a chance de vê-lo de novo em 1988 sob qualquer hipótese e talvez em 1991. Agora, não tinha mais chances, a vida voltou a funcionar normalmente e o risco de perdê-lo era real. O futuro era incerto e fora do meu controle, era uma mera espectadora de novo. A ideia de criar nossa filha sozinha me assombrou.
Não.
No pior cenário, ele viveria até 2004 de novo e nós tínhamos tempo. Me amaldiçoei pela viagem no tempo ser um assunto tão pouco discutido. Precisava me contentar em estar ali e poder viver com ele, não poderia salvá-lo para sempre. Duvidava seriamente que o guardião me permitisse passar por toda a aventura de novo por esse motivo, nem emocional tinha para aguentar um segundo round.
Depois de aquietar momentaneamente minha ansiedade, troquei de roupa no quarto que ele tinha fechado a porta. Solveig, que ainda estava ali, passou pela porta comigo para cumprimentar os convidados que estavam sentados no balcão da cozinha.
Andreas foi o primeiro a se levantar para me cumprimentar.
— Oi, e Emma — ele falou comigo e para minha barriga. — Ela está crescendo tão depressa, daqui a pouco estará aqui correndo pela casa, atentando Solveig — comentou, voltando a se sentar.
Lilly veio me abraçar, depois beijou cada lado do meu rosto.
— Hoje senti ela chutar — disse, todo orgulhoso, parecendo recuperado do que fizemos alguns minutos atrás. Ele voltou a lavar o resto da louça que tinha sobrado, antes que eu o chamasse. — Não sei se foi bem um chute, mas ela fez depois que pedi.
Lilly tocou minha barriga e comentou:
— Acho que alguém está começando a reconhecer a voz do papai.
Ultimamente o nosso assunto girava em torno do bebê. Todos estavam animados demais com a chegada de mais uma . Às vezes, pensava que não conseguiria esperar as semanas restantes, já que tinha acabado de entrar no terceiro trimestre. Explodiria de ansiedade antes. A previsão era para o começo de setembro, nós ainda estávamos em julho. Ao mesmo tempo que parecia que estava grávida há muito tempo, também sentia que fazia pouco tempo que aqueles risquinhos apareceram no teste. Era bizarro como o tempo estava voando.
— Ouvi Karin brincando com meu pai porque está perto de se tornar avô — Andreas riu.
Eles três viviam chamando o próprio pai de velho por ser avô, Börje ria e soltava vários xingamentos. Ele não era nada velho, ainda estava na casa dos quarenta, por isso levava na brincadeira. Minha mãe odiaria ser avó antes dos 50, apesar do meu sonho do outro dia. Ela levaria a sério e se sentiria velha. Já meu pai tinha o temperamento meio parecido com o de , ele não queria, mas, se acontecesse, ficaria um bobalhão.
— Perguntei o que ela seria de Emma, já que é nova demais para ser a avó. Ela disse que não se incomodaria, caso viesse a ser chamada assim — Lilly quem disse dessa vez. Meu coração amoleceu.
— Ela disse isso? — perguntei. Devido à ausência de vínculo, achei que ela iria preferir apenas o próprio nome mesmo.
Lilly assentiu.
— Não imagino a Karin como avó — falou enquanto tirava a espuma da panela. — Ela só é alguns anos mais velha que eu.
— Bom, é isso que dá ter um pai papa anjo — Lilly disse.
— Tecnicamente, o também é — Andreas lembrou, me fazendo gargalhar e sorrir.
— É mesmo! A diferença de vocês seria de quantos anos? — Lilly perguntou.
Eu nem precisava pensar, sabia aquele número decorado.
— Vinte e sete, quase vinte e oito anos — respondi.
— Uau. Definitivamente você é filho do Börje — Andreas comentou, olhando para o irmão.
— Ei, agora ela é uma pessoa do século 20 e mais velha que eu, aliás. Acabei de fazer 25 e no final do ano ela fará 27 — respondeu, secando a panela com o pano de prato que estava em seu ombro.
Grunhi ao me dar conta daquilo. Eu estava envelhecendo. Quando deixei minha casa na Inglaterra, tinha apenas 25 anos e o sentimento de ser adolescente. Agora tinha uma casa, um cachorro, um bebê perto de nascer e um noivo.
— E ela te botou na linha mesmo. Você está lavando a louça num final de semana, alguns meses atrás estaria vadiando — Lilly disse. Eu e ela trocamos um sorriso cúmplice. Ele corou por um momento.
— A é muito mandona — ele brincou enquanto guardou as panelas no armário. — Se eu não a obedecesse, ela me botaria para fora sem pensar duas vezes.
O observei começar a lavar a pia.
— E eu ficaria com Solveig, dessa vez — brinquei, me sentando na cadeira vazia.
— Você me expulsaria e ficaria com meu cachorro? — ele me olhou ultrajado.
— Ele me prefere.
Sorriu.
— Se você diz.
— Andreas é outro que precisa de jeito na vida — Lilly resmungou para o irmão do meio. — O quarto dele é o único cômodo da casa que ainda é nojento depois que a Karin se mudou para lá. Tem cueca no chão que você não deve usar desde 1985.
Andreas revirou os olhos e riu.
— O seu quarto não é tão arrumado para você ficar criticando o dos outros, Lilly — rebateu.
Os dois começaram a discutir sobre arrumação de quarto enquanto eu e o irmão mais velho deles assistíamos. Em certo ponto, terminou de lavar a pia e foi pedir pizza para nós três. Ele comeria apenas a sopa que fiz mais cedo. Sentei-me ao lado dele enquanto o ouvia falando sueco com o atendente, descansei minha cabeça em seu braço. O dia seguinte seria o primeiro obstáculo no nosso final feliz. Ele deitou a cabeça por cima da minha, uma mecha do seu cabelo caiu no meu rosto e decidi a deixar ali. Eu sentia que não tinha aproveitado a companhia dele o suficiente — devido aos nossos empregos — para compensar o tempo que passei em outros anos. Tinha minhas dúvidas se qualquer tempo com ele seria o suficiente para compensar o perdido. Então rezei silenciosamente para qualquer divindade que estivesse me ouvindo não o tirasse de mim tão cedo. Não queria sentir que meu esforço foi em vão. Nós merecíamos uma vida toda juntos.
Ele desligou o telefone e colocou o aparelho de volta na mesinha.
— Você também está preocupada, não é? — Ouvi sua voz perguntar baixinho. Assenti. Eu estava até conseguindo disfarçar mais cedo, mas não lembrar o detalhe do marca-passo naquele relatório estava sendo o precursor de toda a minha preocupação. — Nós vamos superar isso, . É um procedimento simples e não vou precisar daquele marca-passo que tanto te preocupa.
Segurei sua mão e o senti rodar o anel no meu dedo.
— Por que você começou a me chamar assim? — tomei coragem para perguntar com medo de perder a chance.
— Você não gosta? — parecia surpreso. Neguei no mesmo segundo. Eu gostava até demais. — Parece mais carinhoso do que te chamar de . Não me entenda mal, eu amo seu nome, só achei que você gostaria.
— Eu gosto — fiz questão de frisar. Ficamos em silêncio por um momento, enquanto os outros dois ainda discutiam sobre seus quartos. Meu nariz começou a pinicar de novo ao lembrar, de repente, dele deitado naquela maca, entre a vida e a morte. — Você não ouse me abandonar nesse século, está entendendo? — sussurrei para ele não notar minha voz trêmula. Foi inútil, já que ele pegou meu queixo e me analisou com olhos cuidadosos.
Plantou um beijo casto nos meus lábios.
— Eu não ousaria te contrariar, minha linda — brincou.
— Acho bom mesmo. Você me prometeu que pintaria o quarto da Emma antes dela nascer, montar o berço e... — Suspirei, tocando seu rabo de cavalo. — Nós temos muito o que viver ainda, .
— Não se preocupe — reiterou. Foi a minha vez de beijá-lo, para espantar minhas preocupações e aproveitar que ele estava ali. Ele correspondeu apaixonadamente.
— Ah, o amor é mesmo lindo. — Ouvi Lilly zombando e Andreas rindo. Parti o beijo para rir também. Sempre podíamos contar com os comentários certeiros dela para estragar o clima. — Estou com fome — reclamou.
— Acabou a discussão mais ridícula que vocês dois já tiveram? — perguntou, se virando. Andreas mostrou o dedo do meio e ele revirou os olhos. — Já pedi a pizza, falaram que vai demorar uns quarenta minutos.
Ela assentiu. Andreas veio mexer com Solveig que estava ao meu lado no sofá.
— Como eu serei mais velho? — ele me perguntou, de repente, enquanto acariciava o cachorro. Fiquei até um pouco zonza, assimilando o que estava falando.
Tentei me lembrar das fotos que vi no aparador da casa de Lilly.
— Você vai raspar o cabelo, usará óculos de armação preta legal e manterá uma barba bem aparada. Em 2019, ela já estava começando a ficar grisalha, inclusive — dei a descrição exata da foto que vi deles com Börje, que era a que mostrava Andreas de mais perto.
— Vou ficar careca? — Ele me olhou, chocado. O cabelo dele parecia bem cheio agora, mas acreditava que ele puxaria ao seu pai. Assenti e os outros dois riram. — Eu era um careca charmoso, pelo menos?
— Eu não te vi, você estava viajando com o marido da Lilly e as crianças, mas na foto parecia bem elegante. Ficou bem em você — comentei. Nem pensei, na hora, se ele estava bonito careca. Andreas é como meu irmão, não vou achá-lo feio.
— E eu? — perguntou Lilly. Eu já descrevi a Lilly de quarenta e poucos anos umas vinte vezes, mas o olhar que me lançou foi o de quem esperava por algo inédito.
— Em 1997, seu cabelo ainda era e bem longo. Já em 2004, você o pintou de preto e ele batia um pouco depois dos ombros. Em 2019, era avermelhado. De resto, era a mesma Lilly, só que mais velha e que vestia mais roupas escuras.
Ela fez uma cara de desgosto.
— Me pergunto quando mudei radicalmente minha paleta de cores — comentou. Realmente, a Lilly de 1991 e 1988 raramente usava roupas escuras. Porém desconfiava que fosse a mudança da moda ao longo dos anos 90 com o grunge em alta.
— E o ? — Andreas perguntou com inocência.
Percebi e Lilly segurarem a respiração e ficarem tensos. Andreas não sabia que ele era casado. Os outros dois evitavam de falar sobre a última vez que estive em 2019 por saberem que eu não superei. Não via problema em responder à pergunta, no entanto.
— Hmm... Ele era um coroa bem gato — brinquei, tentando os fazer relaxar. — O cabelo dele estava totalmente grisalho e mais saudável do que pensei que seria. Honestamente, também pensei que ele ficaria careca — fui sincera. Ele soltou o ar para rir, era a primeira vez que eu falava sobre ele desde o dia que cheguei sem acabar chorando que nem um bebê. — O cabelo dele batia na metade da bunda, mas acho que ele foi aparando só as pontas desde ‘92 e depois manteve o comprimento. Ele era um motociclista bem típico de filme. Parou de usar roupas apertadas, tinha argolas nas orelhas e um cavanhaque muito, muito, muito sexy.
Andreas riu e vi Lilly sorrir com tristeza pela visão periférica. Nunca quis que eles vissem aquela versão do como a errada. Todos deveriam ter uma companhia para a vida. Nunca me esqueceria de como me senti, era verdade. Sempre iria doer. Os sonhos com a aliança em seu dedo ainda aconteciam, mas ele não era culpado. Às vezes, eu é que me sentia culpada por ter rejeitado o seu toque tão grosseiramente e me sentido traída, porém acreditava que não poderia exigir muito de mim também.
— Aposto que ele continuava sendo um conquistador — Andreas disse, tocando finalmente na ferida. — Desde sempre é assim. Mesmo quando ele era um adolescente estranho, as meninas o adoravam.
O silêncio constrangedor invadiu o ambiente, provando que os seus irmãos estavam em pânico.
Ele não sabia.
— Andreas, você não pode falar isso na frente da noiva dele — Lilly advertiu entredentes.
— A sabe disso — ele falou como se fosse óbvio, sem ter a mínima noção do real motivo pelo qual ela queria que se calasse. — Pensando aqui, deve ter sido bem estranho para Lilly ver o irmão de meia-idade com uma garota de 26 anos grávida dele.
— Vamos mudar de assunto — falou, se mexendo desconfortavelmente ao meu lado.
O olhar que ela lançava para Andreas não era nada menos que mortal. Ele franziu o cenho, estranhando a atitude dos irmãos, e me olhou, procurando algum sinal. Me senti mal em ver que ele era o único a não saber e resolvi puxar o band-aid de uma vez.
— Deve ter sido mesmo, ainda mais porque esqueceram de mencionar que ele era casado antes que eu voasse para cima dele — respondi, cruzando os tornozelos e tentando parecer casual. Me admirava que os outros dois não tivessem falado nada para ele, geralmente não havia muitos segredos entre eles e o pai.
Andreas arqueou as duas sobrancelhas e seus olhos brilharam com compreensão, entendendo as reações dos seus irmãos. Pronto, foi rápido e indolor. Um sinal de superação para mim. Sinceramente, aquela memória não me assombrava mais, mas a dele quase morto sim.
— Agora você entendeu ou quer que ela descreva como era a aliança no dedo dele? — Lilly se irritou.
— Está tudo bem, Lilly. Ele não sabia — tentei acalmá-la.
— Não está tudo bem! Essa história acaba comigo toda vez que lembro dela, imagina com você. — Ela parecia prestes a se debulhar em lágrimas e me assustei um pouco.
— Realmente acho que devemos mudar de assunto agora — Andreas disse, parecendo envergonhado por se meter demais na minha vida. Não me incomodava.
Todo mundo ali parecia afetado demais por algo que eu passei. A minha viagem no tempo os afetou também. Eles me amavam e não queriam me ver sofrer. Me sentia tão grata por ter pessoas que se importavam tanto comigo, eles me abraçaram tanto como parte da família que nem seria um sacrifício quando meu sobrenome passasse a ser .
— Sei que vocês se preocupam em me ver sofrendo, mas estou bem agora. É comigo que ele vai se casar — tranquilizei-os, sorrindo, para enfatizar o que estava falando. O irmão deles faria uma cirurgia no dia seguinte, nós não tínhamos que estar nos preocupando com futilidades que ficaram em outra realidade.
Ele deslizou a mão pela minha coxa, confirmando que só existia uma pessoa que despertava esse desejo nele. Demorou um pouco para que eles voltassem a agir como antes, mas liguei a TV para tentar quebrar um pouco o clima. Lilly ficou olhando para o balcão da cozinha por uns bons minutos, antes de se virar para ver o videoclipe de Cherry Pie do Warrant. Ela gostava da banda, então virou o banco para assistir pela milionésima vez. Quando a pizza chegou, o assunto estava totalmente superado. Os dois se sentaram no chão para assistir à televisão, eu estava no sofá com Solveig e comia no balcão da cozinha. Tudo na perfeita normalidade de novo. Esperava que não precisássemos falar sobre isso em um futuro tão próximo.
Mais tarde, arrumei o sofá novo para eles dormirem. Deixei a sala enquanto os dois brigavam pelo canal na televisão. Tudo era motivo de briga. Me admirava o mais velho não estar no meio brigando só por brigar. Resolvi o procurar e o encontrei lendo, deitado na cama.
— Você está perdendo uma briga épica lá na sala — comentei, fechando a porta atrás de mim. Solveig ficou no sofá com as visitas, então não tinha que me preocupar com ele querendo sair do quarto no meio da madrugada por conta da porta.
— Não estou com cabeça para brigar com meus irmãos hoje — respondeu, ainda olhando para o livro.
Troquei minha roupa pelo pijama. Eu queria mesmo era sentir o aconchego do meu pijama de Natal, mas estava calor demais e eu derreteria dentro dele. Apesar de aparentar que estava tranquilo enquanto lia o livro, ele nem me chamou para deitar — o que era um sinal que não estava lá muito bem. Escovei os dentes, também preocupada com o passar das horas e o que ele trazia. Liguei o ventilador, depois apaguei a luz. A única iluminação vinha do abajur dele.
— Caso se sinta sozinha amanhã, de noite, peça para Lilly vir dormir com você — disse enquanto me ajeitava embaixo do lençol.
— Posso dormir uma noite sozinha, baby. Já sou grande demais para o bicho-papão vir me pegar — brinquei.
— Você precisa de alguém para te trazer de volta quando tem pesadelos.
— Por mais que sua irmã seja minha melhor amiga, eu não vou abraçá-la como faço contigo. — Deitei virada para ele.
— Então me ligue. Só não sofra sozinha de novo, tenho pavor só de imaginar que estarei no hospital e você chorando por causa dos pesadelos.
Sorri. Ele era fofo. Ao invés de estar surtando por enfrentar um procedimento no coração em breve, só conseguia pensar em mim.
— Não se preocupe — repeti o que me disse mais cedo. Encarou meus olhos com a expressão séria, mostrando que se preocuparia sim. Dei o braço a torcer. — Tudo bem, eu vou te ligar. — Revirei os olhos.
Guardou o livro na mesinha e apagou a luz da luminária.
— Você quer...? — deixou a pergunta no ar. Nunca tinha me perguntado isso antes, então foi estranho.
Fiz uma careta, nem um pouco no clima.
— Não. Você quer? — perguntei. Toda noite a gente só ia dormir depois de cairmos exaustos.
Ele fez que não, mostrando que estava com o mesmo humor que eu. Aproximou-se até nossos narizes se tocarem, entrelaçou nossas pernas e apoiou uma das mãos na minha barriga. Toda noite, fazia um carinho na minha barriga.
— Desculpa — pediu, me surpreendendo. Franzi o cenho, sem entender nada. — Por te fazer sofrer.
Sabia que estava dizendo aquilo pelo que aconteceu mais cedo.
— Não precisa se desculpar. — Acariciei seu cabelo. — Lilly te culpa porque tem medo de que isso ainda venha acontecer e nos separe. Já falei que não é assim que funciona, mas você tem que entender que sua irmã gosta muito de nos ver juntos — expliquei.
— Não é só por causa dela. Eu sei que você sofreu nesses anos por mim e que não tenho controle do que nem fiz. Porém, ano passado, eu tinha sentimentos por você e me sentia um animal ferido te ouvindo chorar. — Fiz menção de contrariá-lo, dizendo que não era por ele, mas antes que pudesse, ele negou com a cabeça para me impedir. — Sei que era por mim, sempre enxerguei amor nos seus olhos, baby. Eu não entendia o motivo de você me negar, sendo que me amava.
— Você sempre soube que eu te amava? — perguntei com curiosidade.
— Demorei um pouquinho para interpretar os sinais, admito. Porém estava na minha cara o tempo todo. Antes de dormimos juntos, eu já sabia que poderia existir. Não entendia como, sendo que a gente nem se conhecia direito... Céus, fui um imbecil naquele período. Uma sequência de atitudes erradas. — Fechou os olhos, arrependido.
— Está tudo bem, já passou. Não vamos falar sobre isso um dia antes do seu procedimento. — Peguei sua mão. — Vamos falar sobre você ter sentido nossa filha pela primeira vez.
Seu sorriso era bobo.
— Finalmente, já estava achando que minha voz era o sonífero mais poderoso do mundo. — Voltou a abrir os olhos.
— Bom, talvez seja verdade ainda — brinquei. Ultimamente tinha cochilado sentada no meio de nossas conversas, mas a culpa era mais do cansaço. Ele semicerrou as pálpebras, ainda sorrindo. — Acho que é porque sua voz é bem baixinha para ela, comparada à minha que vem de dentro. Ou ela estava brincando contigo, mas viu que amanhã seria um grande dia e resolveu dar o braço a torcer.
— Sendo sua filha, ela, com certeza, estava tirando onda com minha cara — riu, me fazendo o acompanhar. — Está cada dia mais perto de conhecê-la e eu nem sei como segurar um bebê.
— Nem eu — admiti. — Mas como estamos no terceiro semestre agora, acho que podemos começar a frequentar aulas coletivas de preparação. O que acha?
Anuiu. Uma parte de mim se animou em fazer planos com ele, significava que eu não estava tão presa às possibilidades ruins.
— Parece bom, menos chance de estragar tudo.
Ele era tão inseguro com a possibilidade de errar e traumatizar uma criança que sabia que ele se sentiria melhor com essas aulas. Apesar de que nós éramos humanos e erraríamos de qualquer forma. Ele só perceberia isso depois que Emma crescesse. Mesmo que eu sempre batesse naquela tecla, naquela noite não iria.
— Vou nos inscrever quando passar pelo centro de saúde — comentei. Bocejou, mostrando que não seria um dia de insônia, apesar de todo o nervosismo. — Está mesmo com sono?
— Um pouco. — Ajeitou-se no travesseiro.
— Então vá dormir. — Beijei seus lábios delicadamente. — Boa noite.
— Boa noite, — sussurrou, se enroscando mais em mim.
Não preguei os olhos ao decorrer da noite, mas segurei as lágrimas como se minha vida dependesse disso. Era um milagre que ele tivesse dormido sob aquelas circunstâncias, eu que não iria correr o risco de fazê-lo ficar acordado comigo porque não conseguia controlar minhas emoções. Não. Já chorei, demonstrei fraqueza, mas agora precisava ser forte e passar confiança para ele. Não poderia tornar isso sobre mim, ele já estava preocupado demais comigo.
Meus pensamentos ruins correram feito um borrão. Quando o sol começou a aparecer pelos buracos das persianas, me agarrei a ele na intenção muda de não o deixar sair daquela cama. Ele precisava ir, esse dia teria que chegar em algum ponto, então eu iria aproveitar meus últimos minutos sentindo sua respiração pesada no meu pescoço, ouvindo seu coração bater calmamente enquanto seu peito subia e descia. Sinais de que estava vivo e bem, esperava que me devolvessem ele assim. Não suportava mais pensar na última cena que presenciei em 2004, minha mente embriagada pelo cansaço já estava fazendo ligações horríveis entre os anos.
Não demorou muito para que o relógio de cabeceira despertasse. Ele se virou para desligar, se espreguiçando em seguida. Não o prendi mais, estava realmente decidida a não demonstrar fraqueza. Ele murmurou um “bom dia” e beijou a ponta do meu nariz, depois entrou no banheiro. Definitivamente não seria um bom dia, mas me forcei a sorrir como se tivesse acabado de acordar. Estava claro que não dormi. Sentir a areia nos meus olhos era suficiente para concluir que deveria estar com uma cara péssima, mas continuei sendo aquele bloco de concreto enquanto me levantava para a despedida. Ele já arrumara alguns objetos que precisaria, então quando deixou o banheiro com o cabelo preso em um rabo de cavalo, apenas vestiu sua roupa e estava pronto. Andreas bateu na porta, indicando que estava na hora de irem e senti a tristeza dominar centímetro por centímetro do meu ser. Chegou o momento de nos separarmos pela primeira vez desde a viagem no tempo. Em 1997, eu estava tão segura e agora estava um caco. Depois de um tempo levando uma vida a dois tranquila, sentia minha segurança ameaçada de novo.
— Quero saber de tudo que está acontecendo, estão me ouvindo? — perguntei para eles, perto da porta. — Me bipem quando eu puder ligar para o número do quarto.
Concordaram com a cabeça. Andreas pegou as chaves do Volvo. me girou pela cintura e beijou meus lábios com firmeza, senti a promessa silenciosa naquele beijo de que voltaria para mim.
— Eu te amo, — ele sussurrou ao separar nossas bocas. — Mantenha a calma, ok?
— Também te amo, — falei, por um fio de desabar em lágrimas acumuladas durante toda a noite. Não sabia se ele percebeu que estava me controlando ao máximo para chegar a me pedir para manter a calma, mas talvez também precisasse ser sedada para este fim.
Ele se abaixou para beijar minha barriga que aparecia pelo pijama ter ficado pequeno para acomodá-la.
— Te amo, garotinha — disse. Sua mão me acariciou por algum tempo. Parecia receoso de parar e finalmente ir embora, mas Andreas abriu a porta. Com um último selinho, ele se virou.
Solveig se sentou ao meu lado no batente da porta enquanto os dois foram em direção às escadas. Senti uma movimentação na minha barriga e lá estava ela, acordada, depois que ele saiu.
Dessa vez, eu não deixaria passar.
Corri alguns passos até a metade do corredor e o chamei. Ele subiu os degraus que tinha percorrido para saber o que tinha acontecido, mas não falei nada, apenas botei sua mão na minha barriga e, por um milagre, ela se mexeu novamente.
— Nós te esperaremos — falei. Ele olhava todo bobo para sua mão.
Ele me fitou, sua mão livre apoiou a parte de trás da minha cabeça e colou nossas testas. Meu coração estava despedaçado por perceber que não queria ir, mas precisava, se quisesse mais anos ao nosso lado. Então, parecendo sentir uma dor excruciante, me deu as costas e desceu as escadas de novo.
Voltei para o interior da casa e decidi segurar minhas lágrimas por mais tempo, mesmo que ele não estivesse ali para me ver chorar. Lilly ainda dormia no sofá, então tentei ser silenciosa ao fazer minhas atividades de todos os dias. Coloquei comida para Solveig e troquei sua água. Arrumei meu almoço e fui me arrumar para ir trabalhar. Estava por um triz, mas não pensei muito enquanto fazia tudo no automático. Após vestir um vestido rosa confortável e calçar sapatos que não incomodassem meus pés inchados, fui tomar café da manhã. Lilly saiu do banheiro e me encarou como se a melancia que eu comia estivesse no topo da minha cabeça.
— Aonde você vai? — ela perguntou, olhando para a minha roupa.
— Para a produtora — respondi, como se fosse óbvio. Era segunda, dia útil, então as pessoas costumavam ir trabalhar.
— Você vai trabalhar hoje? Enquanto seu noivo está passando por uma cirurgia? — ela perguntou com descrença.
Börje tinha me dito que eu poderia tirar folga por alguns dias, porém preferia usar esses dias para ficar com quando retornasse. A mobilidade dele estaria um pouco reduzida por conta da inserção do aparelho e eu seria mais útil o ajudando. Também precisava ocupar minha cabeça para não surtar ali dentro do apartamento, na frente de Lilly, e ela ficar preocupada a ponto de ligar para ele.
— Sim. Preciso resolver algumas coisas. — Era parcialmente verdade. Börje não estava ali, então eu estava resolvendo algumas das pendências dele e precisava passar tudo para Charlotte antes de tirar esses dias. Lilly me olhou de novo com aquela típica cara de descrença. — Não posso ficar aqui, sem fazer nada. — Dessa vez, fui completamente sincera e sabia que ela se convenceria. Ela pareceu refletir um pouco e me deu a razão.
Sentou-se no banco ao meu lado.
— E como você vai até lá? — perguntou.
Droga, não tinha pensado que ele não estava lá para me levar de carro, como todos os dias. As lágrimas quiseram usar isso como pretexto para sair, mas mesmo que o cansaço estivesse latente, ainda tinha um pouco de autocontrole para segurar. Tinha tanto pavor de andar sozinha na rua desde o ataque de Sebastian que vinha evitado até mesmo pegar um táxi.
Como eu disse: aquele não seria um bom dia. Ainda mais se eu tivesse que lutar contra todos os traumas que vinham me escondendo feito uma garotinha assustada atrás do .
— Eu vou com você — disse ao ver minha hesitação.
— Não, Lilly. Não precisa.
Não queria dar trabalho para ninguém e fazê-la enfrentar o trânsito daquela hora para nada seria um martírio.
Ela abanou a mão no ar para que eu deixasse disso.
— Vou aproveitar para fazer compras no centro — explicou. Não tinha como negar porque era um alívio ter alguém como companhia, então concordei. Ela foi se arrumar enquanto terminava meu café da manhã.
Estava com tanta fome nos últimos tempos que parecia estar querendo compensar as refeições que pulei nos outros trimestres da gravidez. O verão ainda reservava as melhores frutas e legumes que me faziam lembrar de casa no Brasil. Quase devorei a melancia inteira aquela manhã.
Lilly apareceu na sala devidamente vestida para irmos. Preferimos pegar um táxi a esperar pelo ônibus para o metrô na parada que tudo aconteceu. Fui salva de lidar com pelo menos isso. Chequei meu pager várias vezes durante o trajeto, com medo de perder o bip por mais alto que fosse. Mal via a hora do telefone celular se tornar acessível e comum, não suportava mais ter que esperar me aproximar de um telefone. Até o dia anterior, nem era mais um problema, mas agora era uma rocha de três toneladas nas minhas costas.
Se a medicina avançava muito todos os anos, quer dizer que comparada à 1997, a de 1991 não era lá essas coisas, certo? Então existia um motivo para que eu quisesse sair correndo do táxi e percorrer a distância com minhas próprias pernas. Eu odiaria perder alguma atualização do estado de saúde dele e eles poderiam me ligar no escritório.
Estava usando qualquer desculpa para justificar minha falta de paciência, eu sabia bem. Porém me permiti esse luxo. Amaldiçoei o trânsito lento de Estocolmo àquela hora da manhã umas quatrocentas vezes, já estava até se tornando automático quando paramos na frente do prédio comercial que ficava a produtora. Lilly me deixou no elevador e disse que passaria ali para me buscar mais tarde. Na verdade, ela disse mais alguma coisa, mas nem ouvi porque meu pager tocou e fiquei completamente alucinada. Charlotte ainda não tinha chegado por ser bem cedo, então destranquei a porta e irrompi feito uma bala. O número do quarto estava no bolso do meu vestido, apertei os botões do telefone com certa violência e grunhi de alívio ao ouvir o meu som favorito no mundo.
A voz dele.
O procedimento nem havia acontecido ainda, ele me contou que atrasaria pela quantidade de cirurgias marcadas para o mesmo dia. Ao ouvir isso, meu coração deu um salto até minha garganta. Fui obrigada por mim mesma a desligar para me acalmar um pouco.
Recolhi alguns papéis da mesa do chefe e trabalhei para esquecer. Charlotte chegou em algum ponto, mas me limitei a cumprimentá-la rapidamente para voltar à concentração.
O telefone da minha mesa tocou. Gelei ao ouvir o tom formal de uma mulher do outro lado. Imaginei mil tragédias, mas era apenas meu exame de sangue que havia saído. Ela me pediu para buscar naquele mesmo dia e concordei, sem lembrar que eu estava sozinha. Dessa vez, eu me amaldiçoei.
No dia do exame, ele tinha ido comigo, é claro. Nós não nos desgrudamos fora do trabalho porque ele sabia do meu trauma e fazia de tudo para que eu me sentisse confortável. Fui mimada demais e não me preparei para a ocasião. Minha cabeça andava na lua, eu só pensava nele e na nossa filha, eventualmente em algumas memórias da viagem no tempo.
Peguei minha bolsa e falei para Charlotte aonde ia, caso um deles ligasse. Não bipei a Lilly para não atrapalhar suas compras. Andei sozinha pela rua, sentindo meus batimentos tão altos que podia ouvi-los com clareza. Emma começou a se mexer. Meus sentidos estavam em alerta e ela sentia isso, então tentei me tranquilizar com a quantidade de pessoas na rua, ao contrário daquele dia de inverno. Um homem esbarrou em mim e vi perfeitamente o rosto de Sebastian quando se virou para me pedir desculpa, precisei balançar a cabeça para espantar a alucinação.
Sebastian está preso. Sebastian está preso. Sebastian está preso.
Acariciei minha barriga enquanto apertava os passos. Conseguia sentir que ela estava agitada e a culpa era inteiramente minha, não passava confiança por mais que eu tentasse. Seria uma péssima mãe. Eu e só éramos duas crianças traumatizadas que nem deveriam ter filhos.
Estremeci com o pensamento e pedi desculpas baixinho à Emma. Eu não me arrependia da existência dela. Só estava nervosa demais em estar em modo sobrevivência de novo, depois de tanta calmaria.
Entrei no laboratório e amaldiçoei de novo, no mesmo dia, aquela década por ser tão atrasada. Se os exames aparecessem no site, como era acostumada, não teria que passar por tudo aquilo. Bebi um pouco de água para tentar acalmar nós duas enquanto não me chamavam. Mas vi o líquido dentro do copo tremer junto com minha mão. Estava totalmente apavorada, só fiquei assim quando acordei naquela cabana e Sebastian ameaçou minha filha. Os calafrios que estavam percorrendo meu corpo eram os mesmos de quando eu era criança e tinha medo de monstros aparecerem dentro do meu guarda-roupa.
Apesar do local estar lotado, fui chamada rápido demais para o meu desespero. A recepcionista me entregou uma pasta e forcei meus pés a irem para a rua de novo. Se ele não voltar para casa, como disse no dia anterior, todos os dias seriam assim. Não suportaria.
Um lado meu gritava para ser forte e não depender de ninguém, mas era mais fácil pensar isso quando meu dia não estava uma merda. Voltar para a produtora tinha sido tão traumático quanto ir, quando cheguei à sala em questão, me senti como se aqueles sete dias tivessem se repetido. Charlotte se espantou ao me ver, perguntou se eu estava bem. Apenas assenti, incapaz de emitir qualquer som. Pelo menos, ninguém havia ligado na minha ausência. Não conseguia falar ao telefone no momento, precisava de um tempo para situar onde estava e quando, antes de qualquer coisa.
Passei um tempo com o olhar vazio em direção à foto dele em cima da minha mesa. Era a revista do ensaio fotográfico que chegou na semana anterior. As fotos ficaram tão bonitas, mas dava para ver o brilho triste nos seus olhos. Abri a revista só para me maltratar. Lá estava ele, logo de cara, sem camisa e usando os óculos escuros que coloquei no dia do hotel. A revista era de música e bem famosa, então as fotos eram profissionais, por mais que não tenham intervindo muito na aparência dele, tornando tudo melhor de apreciar. Vê-lo acabou me acalmando e trazendo minha mente de volta para este dia. Então pude seguir com o trabalho.
Almocei colada ao telefone, ansiosa demais para o bem da minha digestão. Já era tarde e nada de notícias. Quando terminei de comer, disquei o número do quarto e ele atendeu no primeiro toque. Me contou que haviam passado há pouco tempo para prepará-lo, que estava com aquela camisola constrangedora e Andreas não parava de zombar dele. Não contei sobre minha pequena aventura até o laboratório para não o preocupar. Ele teve que desligar porque uma enfermeira apareceu. Se ela tinha aparecido, poderia ter chegado o momento.
Passei o resto da tarde explicando todas as minhas pendências e algumas de Börje para Charlotte. Lilly apareceu, às seis, para me levar de volta para casa com várias sacolas nos braços. Ela também estava nervosa, a julgar pelo número de compras. Ao sair com ela pela porta, após me despedir da minha colega de trabalho, meu pager tocou. Era Andreas. Fiquei sem ar e meu sangue gelou. Em um piscar de olhos, meus pés me levaram de volta à mesa e a impressão que tive era de pisar em ovos. Disquei o número novamente, Andreas atendeu e disse que tinha corrido tudo bem, e ele dormia. Fiquei tão contente e aliviada que Lilly teve de me conter para que eu não pegasse um táxi até o hospital. As próximas 24 horas eram de observação, mas ele tinha conseguido. Aquele dia ruim poderia acabar ali, só que ainda tinham algumas horas pela frente de preocupação com seu estado.
Liguei para Karin avisar Börje nos Estados Unidos, assim que voltamos para casa. Lilly saiu para buscar comida e levou Solveig para passear. Eu estava sozinha em casa e apavorada mais uma vez. Não sabia o que estava fazendo meu coração disparar daquela forma, mas Emma reagiu e decidi tomar um banho para acalmar.
Seja forte.
Sussurrei diversas vezes para mim enquanto a água fria provocava choques elétricos contra minha pele febril. Demorei mais do que previa para acalmar meus ânimos, deveria ser por não saber o que estava me causando tanto assombro.
Lilly já havia chegado quando saí do quarto, Solveig veio me receber como se não me visse há anos e lancei um sorriso sincero para ele. Esse cachorro conhecia bem os sinais de que tinha algo errado comigo e não desgrudara de mim por um segundo.
Comemos comida chinesa enquanto ela me mostrava o arsenal de roupinhas de recém-nascido que comprou para Emma. Eu, ela e Karin estávamos gastando tanto com o enxoval que a bebê já tinha tudo. Por mais que o quarto não estivesse montado e pintado ainda, o guarda-roupa estava munido de tudo e mais um pouco. Ao terminar de comer, comecei a dobrar as roupas que ela havia comprado.
— Então, agora que está tudo bem com meu irmão, podemos começar a decidir alguns detalhes do casamento? — ela perguntou, ainda comendo no chão do quarto que seria de Emma.
Não pensamos no casamento depois do pedido dele. Dei uma desculpa esfarrapada para Lilly, falando que era por causa da cirurgia, mas me parecia um assunto irrelevante, já que teria que ser só a partir do ano seguinte por causa do estágio final da gravidez.
— O que você quer decidir? — perguntei para ver se conseguia despistá-la de novo.
— Uma data? — sugeriu. Fiz cara feia e ela de cachorro que caiu da mudança. — Por favorzinho, só para nos organizarmos.
— Lilly, a gente não sabe como vai ser quando a Emma nascer — respondi em tom de repreensão. Não fazia ideia de quando estaria pronta para me preocupar com um casamento tendo um bebê em casa. Não sabia nem como lidar com um bebê ainda.
— Só uma suposição, vamos marcar para novembro de 1993 que está bem distante.
Ainda assim, me parecia cedo demais. Porém concordei por se tratar de uma suposição e poder mudar no futuro. Ela se iluminou e bateu palminhas.
— O que você faz questão que tenha?
Prendi meus lábios em uma linha fina e refleti. Nunca imaginei que realmente casaria, então não decidi nada, além da dança final de Dirty Dancing.
— Só faço questão que seu irmão use aquela trança — brinquei, mas ela pareceu fazer uma anotação mental. De qualquer forma, ele ficaria pomposo de trança e terno.
— Que tal um paletó branco para ele? Está na moda — sugeriu, para começar.
Eu estava tão avoada que, se ela sugerisse um cavalo branco, eu concordaria. Por sorte, era só o paletó mesmo. Ele me mataria se o fizesse subir em um cavalo para o casamento. Não era má ideia, em cima do cavalo nas gravações do videoclipe foi um colírio para os meus olhos.
— Você quer usar qual tipo de vestido?
Não sabia de absolutamente nada de vestido de noiva ou... bolo... ou qualquer coisa. Só estive em dois casamentos na minha vida e era uma criança ainda.
— Por que você não reúne algumas revistas e a gente decide depois?
Pelo brilho dos seus olhos, ela pareceu gostar da ideia. Guardei as roupas novas no guarda-roupa e me senti cansada demais para continuar falando sobre casamento. Por mais que eu odiasse ter que deixar Lilly na nossa “noite de garotas”, precisava muito compensar a minha privação de sono da noite anterior. Ela entendeu e disse que ficaria de olho no telefone. Eu tinha uma linha no quarto, então sabia que, se o telefone tocasse, atenderia na velocidade da luz. Mas foi fofo da parte dela e resolvi apenas agradecer.
Solveig acabou ficando com ela para mais um passeio mais tarde. Troquei de roupa e escovei os dentes, me sentindo grogue pelo dia horroroso. Ao me deitar, meu nariz aspirou o cheiro dele no travesseiro ao lado e quase chorei. Quase. Era minha primeira noite sem o corpo dele enroscado no meu, então me sentia terrivelmente solitária de novo. Se meu sistema não clamasse tanto por energia, eu teria ficado ali cheirando seu travesseiro até a manhã, mas acabei adormecendo.
Minhas pálpebras voltaram a se abrir às três da manhã por instinto, para me tirar do pesadelo grotesco que meu subconsciente imergiu. Sonhei com o dia mesclado ao dia do meu sequestro; no fim, morreu no hospital e quem me contava era Sebastian naquela cabana horrenda. Aterrorizada, senti as lágrimas que segurei com afinco nas últimas horas descerem ferozmente. Era claro que eu teria o pesadelo, assim como ele temia. Me dei conta, finalmente, que não estava nada bem. Não poderia querer encarar tudo de repente sem desmoronar. Não estava sendo saudável comigo e com ela, me reprimindo assim. Deixei todo o choro sair enquanto me arrastava para o telefone na mesinha de cabeceira do lado dele. Só tinha uma voz capaz de me acalmar depois de um pesadelo.
? — ele atendeu depois de alguns toques, com a voz embolada pelo sono. Me senti egoísta por acordá-lo depois de passar por um procedimento no hospital e estar sob efeitos de remédios, mas já era tarde.
— Oi. — Não me esforcei para parecer bem, não tinha nem força para isso.
Foi o pesadelo de novo?
— Não. — Mordi o lábio inferior, refletindo tudo que aconteceu. — Quer dizer, também. Porém meu dia foi uma merda e... Eu tentei ser forte e manter a calma, mas fiquei apavorada e acho que a Emma sentiu.
Resumi tudo que aconteceu desde a noite em claro. Não sei se me fiz entender por conta do choro, mas ele estava ficando expert em interpretar minha voz embargada pela quantidade de pesadelos que andava tendo.
O ouvi suspirar após eu ter acabado.
— Queria muito estar aí para te abraçar, meu amor — ele disse, com tristeza, me fazendo chorar mais por querer desesperadamente que estivesse ali também. — É o nosso primeiro dia longe um do outro e você foi forte. Nós sobrevivemos. Tudo será mais fácil daqui para a frente, agora que deu o primeiro passo para superar o trauma. A dor vai passar e vou estar ao seu lado para ser seu apoio.
Solucei ao sentir o peso daquele dia comparado ao anterior, o quanto cresci em 24 horas com toda a dor que passei. Ele estava certo. Às vezes você precisava se despedaçar para finalmente florescer. Eu me despedacei saindo da minha zona de conforto, tendo que enfrentar o que me amedrontava, então estava pronta para superar e florescer. Não era só do sequestro que estava me curando, era de toda aquela viagem no tempo. Céus, eu tinha uma bagagem enorme pela frente para lidar, mas com ele ao meu lado, sentia que poderia tudo.
— Obrigada — falei, por fim. — Sei que sou complicada, transformei sua vida feito um furacão e você ainda continua tão paciente comigo.
Eu gosto do que seu furacão fez com o que costumava ser minha vida — riu baixinho. — Você não precisa me agradecer, linda. Nós somos parceiros para tudo agora.
Abri um sorriso pequeno.
Como está se sentindo? — perguntei, ao me lembrar que sequer sabia como estava depois que acordou.
Triste por não estar aí para enxugar suas lágrimas — respondeu, me fazendo grunhir de sofrimento. — Estou um pouco dolorido e não posso levantar o braço esquerdo, mas esperava ficar pior.
— Você vai melhorar depois dos beijinhos que estou guardando para quando voltar.
Hmm… estou mesmo precisando de uns beijinhos — ronronou do outro lado da linha, feito um gato mimado.
— Você vai até me pedir para parar.
Duvido, estou tão carente e necessitado — fez sua voz dramática.
— Pois volte logo e ganhará todos, está bem?
— Ok.
Pelo barulho que ouvi no fone, deveria ter bocejado.
Vou te deixar dormir. Boa noite, .
— Boa noite, . Obrigado por ter ligado.
— Obrigada por ter atendido.
Coloquei o telefone de volta no gancho, me sentindo renovada, assim como costumava acontecer depois de chorar no peito dele. Emma estava quieta de novo, mas a acariciei para indicar que estávamos bem depois de tudo. Como ele disse: nós sobrevivemos.




— Nenhuma grávida mentiu ao dizer que se sentia prestes a explodir, é exatamente essa a sensação — reclamei, ao terminar de me arrumar na frente do espelho.
Estávamos nos arrumando para a festa de aniversário grandiosa de 18 anos da Lilly. Apesar de ser um evento e tanto em um salão de festas, não passei maquiagem por estar em um estágio que sentia que tudo de diferente em mim me atrapalhava. Colar, brincos, anéis, pulseiras, maquiagem etc. Todos viraram meus inimigos. Porém comprei um vestido preto só para a ocasião para tentar me sentir bem.
Estava com quase quarenta semanas e o tamanho gigantesco da minha barriga era o maior empecilho para que, de fato, eu me sentisse bem. Não tinha fôlego para nada mais, nem bexiga para aguentar uma gota de xixi. Meus órgãos deveriam estar todos amassados pelo tamanho do meu útero. Me sentia como uma bomba-relógio.
estava no batente da porta me admirando, como sempre fazia.
— Você é linda — comentou, com o olhar apaixonado.
— É bom você me achar linda mesmo. Por culpa sua e do seu charme, estou nessa situação — resmunguei, mas sorrindo, enquanto guardava o perfume.
Ele rolou os olhos, mas sorrindo.
— Está pronta? — perguntou.
Concordei com a cabeça. Era a primeira vez que saíamos juntos sem ser para casa do seu pai desde a alta médica. Ele ficou um mês sem permissão para dirigir e com cuidado extra com coisas básicas como: lavar e pentear o cabelo e pegar peso. Porém estava indo muito bem, o médico o elogiou e disse que naquele ritmo não precisaria de um marca-passo. Eu estava tão aliviada. Poderia entrar em trabalho de parto a qualquer minuto e, por isso, não teria condições de cuidar dele se precisasse de uma cirurgia mais complexa.
Peguei minha bolsa e passei pelo quarto recém-pintado de Emma. Não havia mais cheiro de tinta, mas o verde menta ainda chamava atenção comparado ao branco que era antes. Börje, Andreas e se uniram para pintar as paredes, colocar o papel de parede em uma delas e montar o berço. Estava tudo pronto e nós, a cada segundo, mais ansiosos. A bolsa de maternidade no banco de trás do Volvo só provava isso.
Ele me ajudou a entrar no carro e depois foi para o banco do motorista. Como eu disse anteriormente, ele não pôde dirigir por um mês. Então, depois daquele dia que dei o primeiro passo, passei a voltar a pegar o transporte público para não gastar com táxi. Evoluí bastante e já conseguia andar na rua sem ficar procurando o rosto de Sebastian em outras pessoas. passou a me levar de carro de novo depois de ser liberado porque fiquei sem condições de me equilibrar no ônibus e no metrô, mas estava satisfeita com meu progresso. Os pesadelos diminuíram também e se tornaram quase raros. Não estava totalmente livre dos meus traumas, mas estava perto.
O caminho até o salão estava tranquilo, mas o trânsito de Estocolmo tendia a ser pacífico nos finais de semana mesmo. Me assustei ao perceber o quão grande a festa era quando o manobrista veio pegar o carro. Ela não tinha me contado detalhes, então pensei em um grande modesto, não um grande como eram as festas que meus pais eram convidados. veio me ajudar a sair e a andar pelo caminho desnivelado do jardim. Todo mundo que a Lilly conheceu na vida deveria estar ali, então dava para ter uma ideia das milhares de pessoas que ocupavam o salão.
Ela veio nos cumprimentar assim que passamos pela porta, os saltos que usavam a deixavam pouco centímetros mais baixa que seu irmão. Abaixou-se mais que o normal para beijar minhas bochechas.
— Vocês vieram! — falou com entusiasmo para nós dois. Eu não queria deixar meu ninho, mas não perderia o aniversário da minha melhor amiga e cunhada. Ainda mais depois de ela ter feito bico e falado o quanto queria que viéssemos.
— Feliz aniversário! — gritei para que me escutasse por cima da música.
Ela agradeceu segundos antes de alguém passar e arrancá-la dos meus braços. Bom, não dava para monopolizar a atenção da aniversariante. Encontramos o resto da família em uma mesa mais afastada. Os três se levantaram para nos cumprimentar e falar com minha barriga. Quando eles se sentaram de novo, resolvi ir ao banheiro porque minha pobre bexiga amassada pedia socorro. Talvez, se tivesse dado continuidade às aulas de hidroginástica para o assoalho pélvico dos anos 80, eu tivesse evitado isso. Porém preferi as aulas para pais de primeira viagem do centro de saúde.
O banheiro estava lotado, mas tiveram a decência de me dar preferência porque devem ter pensado que eu faria no chão se demorasse um minuto a mais. Não lidava bem com multidões, então estava um pouco estressada demais. Meu humor decaiu ao olhar em direção à mesa e ver Natalia pendurada no pescoço do meu noivo. parecia desconfortável com o abraço enquanto ela tagarelava com Börje e Karin, sem dar a mínima. Ele não tinha coragem de afastá-la. O puxei pela manga da blusa para acabar com a cena e atraí o olhar de todos, inclusive dela.
, o que diabos você está fazendo? — perguntei, entredentes.
Antes que ele pudesse responder, ela se manifestou:
? — Parecia surpresa ao me ver, mas ficou mais ainda quando viu minha barriga escandalosa. — Você… está grávida?
Assenti.
— Esse que você está segurando é o pai da criança, inclusive. — Ouvi os outros da família rirem. Ela soltou o braço que envolvia os ombros dele como se, de repente, queimasse.
— Você vai ser pai? — ela perguntou em um tom afetado. Parecia não acreditar que ele tivesse a audácia de engravidar alguém, principalmente eu.
Uma parte minha estava ofendida por ele não ter contado para ela. A outra estava alegre porque significava que ele cumpriu com o que disse e não queria mais saber dela de jeito nenhum.
Concordou com a cabeça e veio para o meu lado, finalmente tomando uma atitude.
— Eles também vão se casar — Andreas comentou.
— Se casar? — perguntou de olhos arregalados.
Ela ia mesmo repetir tudo com uma interrogação no final?
— Sim — abriu a boca. — Eu pedi a em casamento. Ainda não sabemos quando, mas, assim que soubermos, te enviarei um convite.
Ah, eu iria preparar o convite dela com todo o cuidado do mundo e mandar para a famosa casa do caralho. Do jeito que ela era, eu não duvidava nada que iria aparecer bem na hora que falassem “alguém tem algo contra essa união?”. O olhar que ela lançava na direção dele mostrava que ela tinha, e muito, algo contra.
— Quantas notícias maravilhosas — ela se forçou a dizer, depois de engolir em seco. O sorriso que ela abriu foi medonho, parecido com o da Úrsula de A Pequena Sereia. Eu quase estremeci, mas empinei mais o nariz e ajeitei a postura para não deixar me intimidar. — Desde quando vocês estão juntos de novo?
— De novo? — intervim. — Não nos separamos.
Os olhos claros faiscaram não na minha direção, mas na dele. Dava para perceber que ela o olhava como se ele tivesse traído a história dos dois. E me senti mal por aquilo, parecia que o coração dela estava se partindo e eu estava tirando proveito.
Desde que Lilly me contou sobre o relacionamento deles, que quem quis terminar foi justamente ela por não se darem bem como casal, então ela aparecia e eles dormiam juntos, mas continuavam amigos, meu olhar sobre os dois mudou. Só quando apareci é que ela detectou uma possível ameaça ao seu estilo de relacionamento. É compreensível, eu morava na casa dele e, se ele realmente se apaixonou por mim desde o começo, quando ela nos encontrou no meio da rua percebeu isso. Afinal, eles se conheciam há muito tempo para saber detectar o que o outro estava sentindo.
— Parabéns para vocês dois, então. Tenho que ir andando, foi um prazer encontrar todos vocês — ela disse rápido demais e deu tchau para o resto dos que assistiam à cena como se fosse um drama de uma novela mexicana. — , será que a gente poderia conversar um pouco antes?
Ele me olhou, pedindo permissão. Eu não era dona dele. Se ele achava que tinham que conversar, então que conversassem. Apenas concordei com a cabeça e fiz um gesto para ir com a mão.
Ao contrário de ’97, Natalia parecia realmente despedaçada. Me senti mal de novo em vê-la assim por uma rivalidade feminina que permitimos com que crescesse. Lilly disse que ela o amava, eu tive minhas dúvidas. Agora, eu até que acreditava.
De qualquer forma, aquela brincadeira teria que acabar uma hora.
Fiquei um pouco afetada pelo conflito e por ter sido meio escrota na frente da família. Meu rosto queimando indicava que precisava tomar um ar urgentemente. Avisei para eles que ia até o jardim, caso voltasse e perguntasse por mim.
Porém acabei o encontrando discutindo com a Natalia em um recuo sem iluminação. Eles discutiam baixo, mas parecia ser sério. Parei onde estava, me escondendo para observar.
Bisbilhotar é errado, . Você não deveria estar aqui escondida para ouvir a conversa alheia.
Balancei a cabeça, dispersando os pensamentos para me concentrar no que eles diziam. Se não prestasse atenção, acabaria perdendo alguma palavra por estarem falando rápido demais.
— Para quem enchia a boca para dizer que não queria casar e ter filhos, você está me surpreendendo — ela disse entredentes.
— Encontrei alguém que mudou toda a minha vida. Achei que tivesse sido claro quanto a isso na última vez que nos falamos — respondeu.
— Você vai mesmo me trocar por essa garota? — O tom dela era carregado de mágoa. — Eu que fiquei ao seu lado por todos esses anos, estive lá quando você queria um ombro amigo...
— Te trocar? Natalia, a gente não é mais um casal — declarou, severo. — Você terminou comigo a última vez já tem anos! Nós somos só amigos que se usavam para transar. Nada além disso.
— A gente não só transa, . Nós temos uma parceria e você está colocando tudo a perder. — Ela parecia ultrajada.
— Parceria. — Soltou uma risada debochada. — Já se esqueceu que só pisou em mim todos os anos que passei me humilhando atrás de você? Não vem me falar de parceria porque nem de cama nós tínhamos, não éramos exclusivos. Nem quando nós namoramos fomos, você me traiu, eu te traí. Fizemos muita merda um com o outro. Agora só estou escolhendo outro caminho para a minha vida.
— Um caminho que você jurava que não queria para a sua vida, mas bastou umazinha qualquer aparecer grávida falando que o filho é seu que, de repente, despertou uma vontade de ter uma família — falou com escárnio.
— Natalia, você não sabe do que está falando.
— Eu conheço esse tipo. Ela vai acabar com a sua vida e você vai rastejar de volta até mim.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos e ela sorriu de lado, vitoriosa.
— Ao invés de querer a felicidade de uma pessoa que foi seu amigo desde a adolescência, prefere vê-lo sozinho e disponível para quando quiser usar... Saiba que eu nunca voltaria a correr atrás de você, não importa as circunstâncias. Eu não reconheço essa pessoa egoísta que está na minha frente — falou baixo, mas senti o peso das suas palavras de onde estava.
— Você é meu, . Ela nunca vai te conhecer como eu conheço. — Tocou o peito dele por cima da camiseta, se aproximando demais.
Ele deu um passo para trás.
— Ela me conhece melhor.
— Eu dediquei minha vida a você, era eu que deveria estar com aquele diamante no dedo e não ela — aumentou a voz.
Ao ver que ela estava exaltada, já fiquei preparada para qualquer coisa que pudesse acontecer.
— Foi ela que me prometeu uma vida inteira, não você.
— Porque você quis! Se não quero assumir compromisso mais, a culpa é sua.
— O que fiz não foi certo, mas éramos adolescentes, não vou ficar aqui levando a culpa por algo que fiz quando não tinha nem pelos na cara.
Ela grunhiu.
— Você deveria ter me escolhido, . Não aquela santinha do pau oco.
— Eu me apaixonei no segundo que a vi. Nunca teve escolha nenhuma, sempre foi ela.
— Então eu fui só uma distração. — Ele ficou em silêncio e ela soltou uma risada triste. — Você é um desgraçado.
Ela deu as costas para ele, passando por mim sem me notar ali no escuro.
Aquilo foi intenso.
Eu sabia que deveria ir até o , mas foi o coração dela que vi se partindo. Por isso, meus pés me levaram até Natalia. Não precisei ir longe para encontrá-la sentada no meio fio com lágrimas deslizando pelo rosto. Ela me encarou e, ao me reconhecer, seu olhar foi de desprezo.
— Era só o que faltava para a minha noite se tornar espetacular.
— Eu vim em paz. — Ergui as mãos até a altura dos ombros.
Não me sentaria ao lado dela, sabia que não conseguiria me levantar por causa do tamanho da minha barriga.
— Deixa eu adivinhar: você ouviu tudo.
— Eu ouvi uma parte, mas foi o suficiente.
Ela rolou os olhos.
— Que ótimo.
— Olha, Natalia, eu sei que você não gosta de mim e sei que você sabe que eu também não sou muito sua fã. — Me encostei na árvore. — Só que essa rivalidade por causa de um homem é tão boba, nós somos mulheres e temos que nos apoiar. É por isso que estou aqui.
— Tem razão. — Me animei enquanto ela enxugava as lágrimas. — Eu não gosto de você. Antes da sua chegada tudo estava perfeito e, de repente, tudo que construí desmoronou. Você o transformou na versão que ele mais odiava, então, é, eu não gosto mesmo de você.
Suspirei, reunindo paciência.
— Eu também não me imaginava tendo um bebê e me casando, mas a vida joga tudo na sua cara às vezes. — Cruzei os braços. — Se você quer despejar todo o seu ódio, vá em frente. Não vou discutir contigo.
Ela deu uma risada debochada.
— Você está com pena de mim.
— Não estou com pena de você, isso se chama empatia. Seu coração está partido e você está procurando alguém para culpar, que seja eu.
Ela olhou para a frente e ficou em silêncio por algum tempo. Quase achei que ela não queria mais falar, até que ela abriu a boca de novo:
— É difícil ver quem você amou a vida inteira apaixonado por outra pessoa. Eu perdi um pouco a mão ao fazer aquela cena na casa dele quando te vi, mas fiquei desesperada, foi a primeira vez que ele me negou e disse te amar. — Fungou. — Na minha cabeça, se fosse você que desistisse dele, ele viria correndo para mim de novo. — Balançou a cabeça em negação. — Ele só tinha olhos para você e aquilo doía. Ainda dói.
— Eu entendo.
— Eu devo ser uma megera mesmo, porque não me arrependo.
— Você agiu conforme o medo de perdê-lo mandou. Não precisa se arrepender. Ninguém é perfeito, eu também não te perdoaria caso me pedisse perdão. Tá tudo bem.
Ela pareceu satisfeita ao ouvir aquilo pelo seu sorrisinho. Ficou de pé e limpou a calça com batidinhas.
— A culpa não é sua, . Nunca foi. O coração dele te escolheu. Eu espero que vocês e esse bebê sejam muito felizes, mas não posso ficar aqui vendo tudo isso de camarote. Por enquanto, não. — Esticou a mão em minha direção. — Não vou dizer “amigas?” porque seria um exagero, podemos ser conhecidas.
Peguei a mão dela.
— Conhecidas — sorri.
— Desculpa pela forma que falei de você para ele.
— Tudo bem, eu sabia o quanto estava com raiva.
Ela soltou minha mão e deu as costas.
Um líquido quente escorreu pelas minhas pernas e molhou a grama. Soltei um grito assim que entendi o que era. Natalia voltou correndo.
— O que é, garota?
— A minha bolsa estourou!
Arregalou os olhos.
— Eu vou... chamar alguém.
Segurei o braço dela.
— O — pedi.
Parecia relutante em ter que falar com ele após tudo, mas deveria ter visto o desespero no meu semblante.
— Certo.
Me perguntei várias vezes se aquilo não poderia ser xixi, mas eu não sentia minha bexiga pedindo socorro. Segurei na árvore e fechei os olhos. Não tinha momento mais propício para essa criança nascer.
Ele chegou sozinho pouco tempo depois, já me examinando.
— A bolsa estourou — falei, assustada.
Arregalou os olhos.
— Porra, é agora? — se desesperou.
— Se rompeu, indica que vou entrar em trabalho de parto nas próximas horas. — Eu tremia com a possibilidade. Vinha me preparando tanto para esse momento nas últimas semanas e finalmente estava perto. Ele era o retrato do pavor na minha frente. — Preciso que você fique calmo, não é hora de surtar.
Examinou minha barriga.
— Você quer que eu te carregue até alguma cadeira? — ofereceu.
— Não. Pelo amor de Deus, não. — Balancei a cabeça, assustada com a cena que projetei na minha mente. — Estamos no meio de uma festa e não quero que todo mundo pare para nos olhar. Me leva para o carro. Preciso me secar.
Concordou. Não posso voltar lá para dentro. Quando perceberem que estou molhada porque minha bolsa estourou, todos surtariam e isso estragaria com a festa da Lilly. Além de que ia entrar em trabalho de parto, não queria estar em um ambiente com muito barulho.
Precisava me manter calma também.
Ele me ajudou a percorrer o caminho de pedras e pediu para o manobrista só indicar onde estava o carro. Sentamo-nos no banco de trás, após eu me secar, e deitei minha cabeça no colo dele. Encarei a bolsa de maternidade agora no chão.
— Acha que chegou a hora? — perguntou em meio ao silêncio.
— Provável — respondi. — Imaginei um momento totalmente diferente para entrar em trabalho de parto, principalmente minha bolsa estourando em um momento mais memorável como nos filmes, não na presença da Natalia.
Ele acariciou meu cabelo.
— Você vê filmes demais, baby — ele comentou, rindo com certo nervosismo e eu sabia que era por eu ter trazido à tona a questão com a Natalia.
— Eu lia demais, mas nessa década tem muitos thrillers e eles não são tão minha praia assim. Já os filmes, são incríveis — critiquei, olhando para os olhos que brilhavam com a luz do poste. O frio na minha barriga agora indicava que estava nervosa, respondendo sua primeira pergunta. — Sinceramente? Espero que seja a hora, sim. Estou ansiosa para conhecê-la.
— Também estou, mas estou ansioso desde que soube que estava grávida.
É. De todos nós, ele era realmente o mais apreensivo para o nascimento dela. Não sei se tinha relação com o seu trauma de infância com a mãe, mas ele se preocupava muito ao mesmo tempo que ansiava segurá-la. Eu continuava achando que ele seria o melhor pai do mundo.
— Não é melhor irmos para o hospital? — sugeriu ao me ver calada.
— Só quando começar as contrações — fui firme, não queria entrar em um pronto-socorro durante o aniversário de Lilly à toa.
Assentiu. O silêncio tomou conta do carro novamente.
? — chamei-o.
— Sim? — Me olhou.
— A Natalia queria casar e ter filhos quando vocês namoravam? — Tomei coragem para perguntar.
Ele enrijeceu embaixo de mim.
— Não, ela não queria — respondeu, parecendo farto desse assunto. Só que eu achava que precisávamos conversar sobre o que aconteceu, foi bem sério.
— Por que ela disse que era sua culpa, então?
— A Natalia era uma adolescente que tinha o sonho de achar a pessoa certa, se casar e ter filhos. Então, ela me conheceu. Eu era revoltado com a vida, meus pais tinham acabado de se separar e acabei destroçando esses sonhos. Ela fazia planos comigo no início, mas eu respondia fazendo pouco caso. Fui um completo babaca. — Suspirou. — Ela acabou se adequando a mim e, como nós crescemos juntos, se tornou parte dela também. Quer dizer, eu achava isso até hoje quando ouvi que ela queria estar no seu lugar.
— Ela está de coração partido, esse é o meio que encontrou para descontar a frustração que sentia — falei, lembrando do que vi em sua íris. Eu definitivamente não estava me reconhecendo. — Foi pesado demais ter me visto com a barriga desse tamanho e saber que o homem que ela amava vai se casar.
Olhou para a janela com a expressão fechada. Estava considerando o que eu disse. Resolvi dar um tempo para ele.
— Reconheço que fiz muita merda quando era adolescente, mas não concordo que ainda sou o errado. Ela não me quis e esperava que eu ficasse disponível para sempre.
Suspirei. Não adiantava discutir com ele de cabeça quente.
Porém, antes de finalizar o assunto, apertei a ferida mais um pouco e perguntei algo que nunca pensei que quisesse saber:
— Vocês dormiram juntos depois que me conheceu?
Fez uma careta.
— Está mesmo me perguntando isso? — perguntou, desacreditado. Pensei em mim, sozinha na casa do garoto que amava enquanto ele estava dormindo com a ex-namorada e estremeci levemente.
— Estou. Acho que mereço saber depois desse tempo.
Soltou o ar dos pulmões.
— Sim.
Pensei que seria como levar uma apunhalada no peito ao ouvir aquilo saindo da boca dele, mas não senti nada. Na verdade, senti que um capítulo da minha vida se encerrava. Natalia não era mais um assunto pendente na minha cabeça. Entendia o lado dela. Ela nunca foi a vilã da história.
— Me desculpa — falou ao ver que não respondi. Estava até que curiosa para saber em que ponto do nosso relacionamento isso tinha acontecido, mas tinham informações que era melhor deixar para lá para o nosso próprio bem.
— Eu já desconfiava. Não precisa se desculpar, não tínhamos nada. Vamos só deixar isso no passado. — Sorri, encorajando-o a melhorar o humor.
Ele finalmente sorriu, mesmo que tenha sido um sorriso pequeno. Consultou as horas no relógio do seu pulso.
— Nossa, já tem mais de uma hora que estamos aqui.
Ia respondê-lo, mas a dor que senti nas costas e no abdome não me deixou emitir qualquer som além de um gemido lânguido. Aprendi a contar os segundos para saber se estava mesmo na hora, já que poderiam ser as contrações de treinamento. Então, apesar da dor latente, contei os segundos mentalmente. Ele se desesperou ao ver minha expressão retorcida pela dor.
— O que está doendo? — perguntou, analisando minha mão na barriga.
— Mantenha a calma — murmurei depois que a dor cortante passou. Era claro que ele não ficaria calmo. — Acho que tive uma contração.
— Uma contração?! — ele se desesperou na mesma hora. — Se sua bolsa estourou e você teve uma contração, então ou ela está para nascer ou tem algo de errado.
Ele tinha frequentado todas as consultas comigo, então sabia tanto quanto eu.
— Calma, tenho que... — suspirei, passando a mão pelo cabelo. Eu também estava sendo dominada pelo pânico e isso só ia me atrapalhar. — Que horas são?
— Falta cinco minutos para as dez. — Seu tom era de pura preocupação.
Sabia que o ideal era esperar mais contrações em um intervalo de tempo.
— Vamos esperar mais um pouco — falei.
Ficamos um tempo calados, com medo de que qualquer pio fosse suficiente para a dor voltar. Acariciou minha barriga por alguns minutos e foi parando aos poucos. A festa acontecia com tudo lá dentro. Pensei que eu poderia aproveitar para dormir um pouco porque ia precisar de horas de sono, se estivesse mesmo em trabalho de parto, mas estava muito ansiosa. Ela sinalizou, mais uma vez, que queria sair. Mordi meu lábio inferior para apartar a dor terrível nas minhas costas e no meu abdome que cheguei a feri-lo. Fiquei com medo de parir ali mesmo enquanto contava os segundos.
— Que... Que horas são? — perguntei sentindo a dor retroceder.
— Vinte e duas e doze.
Estava dentro do tempo estipulado das aulas, contrações até 20 segundos em intervalo de 10 a 15 minutos queria dizer que estava na fase inicial do trabalho de parto.
— Você está bem? — Me analisou.
Essa era a hora de entrar em pânico.
— Estou em trabalho de parto — admiti, segurando minha barriga sem acreditar.
Ele arregalou os olhos de novo e me fitou por alguns segundos, desacreditado também.
? — chamei-o para acordar, ele balançou a cabeça. — Hospital, agora.
Parecendo voltar ao momento, procurou as chaves em seu bolso.
— Tenho que avisar alguém onde estamos indo.
Mais uma vez que o celular provou ser uma tecnologia necessária no momento.
— Você não vai me deixar aqui para ter outra contração dessa — praticamente rosnei. — Vá dirigindo e lá você bipa alguém.
Ele pulou para o banco da frente e deu partida. Inspirei e soprei o ar algumas vezes. Eu estava parindo no sentido literal e figurativo da palavra. Meu corpo estava dilatando para expulsar um bebê. Um bebê grande.
Dizer que ele dirigia seria carinhoso demais, ele furou o trânsito levando várias buzinadas no caminho. Como o hospital era longe, a terceira contração aconteceu ainda no banco de trás. Enquanto me contorcia de dor, ele ficava ainda mais nervoso sem saber para onde olhar. Não era possível que minha filha estivesse bem com toda aquela pressão dentro de mim. Não era possível que aquela fosse a dor do nascimento. Vinte segundos depois da terceira contração, o hospital entrou no meu campo de visão.
Ele abriu a porta do carro para me ajudar a sair e gritou em sueco que tinha uma mulher em trabalho de parto dentro do carro para um segurança que estava parado ali. Não demorou a aparecer uma cadeira de rodas na minha frente e várias pessoas para me levarem antes mesmo que chegasse a atravessar as portas do pronto-socorro sozinha. segurava minha mão, ao meu lado, enquanto eu tentava responder todas as perguntas complexas que me faziam. Eram perguntas demais, nome e telefone do meu médico, semanas de gestação, blá, blá, blá. Eu estava parindo, não perceberam? Não posso me concentrar em responder perguntas sendo que estou dolorosamente ciente que estava expulsando um bebê a cada segundo.
Me levaram para um quarto, trocaram minhas roupas e vieram medir minha dilatação. Foi tudo muito rápido. Estava com dois centímetros ainda. Uma enfermeira trouxe um aparelho para acompanhar os batimentos fetais e outro para acompanhar os meus. bipou Andreas com o número do quarto, torcendo para ele retornar. Nós dois estávamos uma pilha de nervos, mas seguramos a mão um do outro o tempo todo.
Com a falta de uma tecnologia eficaz, Andreas e os outros não iam saber tão cedo onde estávamos. Então, seríamos apenas nós. O pensamento me causava calafrios, eu queria muito minha mãe ali para me dizer como foi com ela ou que eu conseguiria.
O pessoal do hospital foi muito gentil conosco nas horas que sucederam o estágio inicial. Me deram força e motivaram. Quinze horas depois, as contrações começaram a ser mais dolorosas, duravam mais e se repetiam em menor intervalo de tempo. A enfermeira neonatal informou que atingi com sucesso os sete centímetros e estávamos mais perto do que nunca.
A médica irrompeu pelo quarto trazendo consigo umas quatro enfermeiras, uma delas paramentou o pai da criança e as outras preparavam tudo. As perguntas delas passaram quase que batido pela dor alucinante que eu sentia. Com uma rapidez notável, a médica já estava no meio das minhas pernas avisando que estava com centímetros de dilatação necessários. Meu corpo já sentia a necessidade de empurrar.
Jurei por tudo o que era mais sagrado que eu desmaiaria com aquela sensação. Nem o frio cortante da cabana que me adoeceu se comparava àquilo. Amaldiçoei ele que segurava minha mão umas vintes vezes. No fim, eu estava delirando tanto de dor que estava dizendo entre um empurrão e outro que odiava o século 20. Obviamente, ninguém ligou porque eu estava parindo. O que me manteve empurrando não foram os incentivos das enfermeiras e da médica, mas a mão que era massacrada pela minha. Descontei toda a minha raiva no coitado que aguentou cada segundo, me olhando com expectativa e orgulho.
— Só mais um — ele repetiu em inglês o que a médica gritou. — Você consegue, .
A força que me subiu veio do âmago do meu ser e empurrei com vontade. Meu corpo se chocou contra a maca com violência ao cair. Alguns momentos depois, o chorinho fino ecoou pelo quarto e senti o mais puro alívio. Não havia outra palavra para descrever. Não consegui virar minha cabeça para olhar para a médica ou para as enfermeiras que se movimentaram com a bebê, apenas para ele que beijou a ponta do nariz e sussurrou que fui incrível. Sorri e pisquei, sentindo minhas pálpebras pesarem uma tonelada. Entregaram-na primeiro para ele que segurou o embrulho rosa com receio e amor.
— Oi, garotinha — murmurou em sueco para ela e veio até mim. Eu estava em uma batalha interna para não me deixar abater pelo cansaço e poder participar da cena. Ao se aproximar, vi as lágrimas descerem pelos seus olhos vermelhos e ergueu o embrulho para me mostrar. Eu não tinha forças para segurá-la, mas minhas mãos se ergueram no ar para afastar o cobertor dela.
A bebê que estava ali parecia deslocada por ter sido arrancada de sua vida pacata. Eu comecei a chorar ao pensar que aquela era minha filha. Passei a mão pelo meu cabelo molhado pelo suor e nós dois olhamos para a dona do nosso coração. Não durou muito tempo, logo tomaram ela de nós e passamos pelo processo do pós-parto. Só a trouxeram de volta depois de um tempo para que eu tentasse amamentar. Foi assustador mesmo com as aulas, me senti incapaz e esqueci tudo. No entanto, a enfermeira ensinou a segurá-la do jeito certo.
Ela era linda e nós dois babávamos ao vê-la mamando, agora sem chorar. Estava tão cansada, mas valeu a pena cada segundo para conhecê-la.
— Dá para acreditar que fizemos algo tão perfeito? — ele perguntou, sorrindo.
Fiquei com medo de falar algo e atrapalhá-la, então apenas neguei e sorri. Alguns segundos depois, Lilly, Andreas, Börje e Karin entraram pela porta com olhos arregalados ao me verem segurando um bebê contra meu peito. A enfermeira ergueu o indicador na frente dos lábios antecipando o grito que Lilly se preparava para dar. Eles concordaram e me cercaram. Não sei em qual ponto ele conseguiu falar com a família, mas tinha demorado, já que só estavam ali agora. Ela largou meu peito e pareceu dormir, a enfermeira me ajudou a colocá-la no berço ao meu lado. Eles deram espaço para que eu pudesse me ajeitar. A enfermeira levou todos os homens para fora do quarto com ela e me deixou com Lilly e Karin, depois de prometerem não fazer barulho.
As duas analisaram a bebê que dormia tranquilamente.
— Uau. Não sei se isso é muito educado de se dizer para uma mãe que acabou de dar à luz, mas... — Lilly me olhou, sorrindo — ela é a cara do pai. Definitivamente, uma .
Eu e Karin rimos. Lilly estava certa, ela era a cópia exata do pai. Não era como imaginei, com o meu formato do rosto e boca. Nem de perto. Tudo nela gritava ele: nariz, boca, rosto, sobrancelhas, testa e cabelo. Não estava surpresa, sempre disse que ela seria uma por causa dos genes fortes do pai. Nem insultada, ela era absurdamente linda.
— Como você está? — Karin sussurrou para mim.
— Cansada como se um bebê de mais de três quilos e meio tivesse saído de dentro de mim, mas bem. — Vi Lilly falando quase silenciosamente com a bebê que dormia. — Olhar para ela me faz esquecer aos poucos da dor.
— Você fez um bom trabalho, . Deve ser difícil.
— Muito, mas nada vem sendo fácil desde que saí da minha casa na Inglaterra — brinquei, Karin riu.
— Nós soubemos só agora há pouco, Andreas acabou esquecendo o pager dele em cima da mesa da sala. disse que você tinha acabado de ter a bebê e tinham a levado. Börje nos acordou praticamente aos berros.
Sorri, imaginando a situação. Deveriam ter ficado até tarde na festa, porque eram quase duas horas da tarde e elas pareciam ter caído da cama. Lilly estava até com um moletom que usava para dormir.
— Você nasceu um dia depois do aniversário da titia. — A ouvi dizendo para o berço. — De longe, foi meu melhor presente.
Ela seria um nojo por causa disso, tinha certeza.
— Quer alguma coisa de casa? — Karin ofereceu.
— Não precisa, eu tinha deixado tudo pronto no carro — expliquei.
A porta abriu e Andreas enfiou a cabeça para dentro.
— A enfermeira disse que logo vamos ter que ir embora para a descansar. Então, é nossa vez — anunciou.
Lilly bufou. Karin me abraçou e beijou meu cabelo antes de sair.
— Parabéns, mamãe — Lilly disse enquanto beijava minha bochecha. — Ela é linda, apesar de você ter feito uma cópia daquele chato.
Ri.
— Bom, ela é um pouco a sua cara também. Vocês todos se parecem — comentei.
— Tem razão. Amanhã, estarei aqui de novo. Se cuidem — disse, dando as costas.
— Ah, desculpa por ter saído de repente da sua festa — lembrei.
Ela se virou e sorriu de lado.
— Depois você vai me contar exatamente o que aconteceu. — Saiu pela porta.
Os três trapalhões entraram pela porta quase que imediatamente. Emma se remexeu um pouco e a peguei no colo, mas tudo indicava que ainda dormia. Ser mãe de primeira viagem era mergulhar em um campo novinho, onde não sabia nem se minha filha estava com dor, prestes a acordar ou continuava dormindo. Os três me cercaram de novo. A entreguei para o pai, que a exibiu orgulhosamente para o tio e o avô. Era uma cena fofa e emocionante de assistir. Minhas lágrimas eram provas disso.
— Ela é tão pequena — Andreas comentou.
— Que nada, você era quase a metade do tamanho dela quando nasceu — Börje rebateu, sem tirar os olhos do embrulho nos braços de seu filho. — Ela é perfeita, . A sua cara. Sem ofensa, .
— Tudo bem, eu posso viver com isso — brinquei.
Sorri ao ver o sorrindo para ela. Agora poderia concluir que ele ficava lindo mesmo era segurando um neném. Meu pobre coração até errava as batidas.
Estava tão exausta que cochilei olhando para os quatro no pé da maca. Em algum ponto, eles foram embora. também sumiu, me deixando sozinha com Emma. Comi enquanto ela ainda dormia.
Eu sou mãe e esse bebê dormindo é meu. Ela viajou vários anos dentro de mim, muitas vezes sendo a minha única companhia.
A etiqueta no berço mostrava o nome completo dela, o peso, o tamanho, a data de nascimento e o nome da mãe.
Não senti meu instinto maternal tão aflorado quanto naquele momento. Era como se a missão da minha vida fosse apenas mantê-la segura e feliz.
Quando ele voltou, vestia outras roupas e o cabelo estava úmido. Eu amamentava com ajuda da enfermeira de novo. Beijou minha testa com cuidado e sorriu para a filha.
— Já volto para te ajudar a tomar banho — a mulher me avisou.
Assenti.
— Passei em casa para tomar o meu banho e passear com Solveig — explicou. Solveig deve ter chorado feito um louco ao perceber que não voltamos para casa. — Você comeu algo?
— Sim, trouxeram comida quando você estava fora — falei, segurando meu seio imóvel na posição que a enfermeira me botou para que ela pudesse continuar sugando sem interrupções. — Como está Solveig?
— Bem, fez xixi na sala, mas não o culpo — riu baixinho. — Está na casa do meu pai agora.
Decidimos que seria melhor para ele ficar com o resto da família no tempo que estivesse no hospital, porque reagia mal à várias horas sozinho.
— Oi, Emmy — sussurrou para ela. — Está na hora da sua janta?
Sorri com o apelido carinhoso que ele já tinha colocado nela.
— Todo mundo só sabe falar que ela se parece contigo — comentei. — As enfermeiras vivem comentando.
— Não acho que ela pareça tanto assim — respondeu.
— Tá brincando, né? Não tem nada meu nessa menina, parece que o DNA foi só seu.
Riu.
— Os olhos dela podem ficar da cor dos seus nos próximos meses.
Bufei. Eu duvidava muito. Ela largou o meu peito e pareceu dormir de novo. Um recém-nascido não fazia muita coisa. Ajeitei o sutiã e a coloquei no berço.
— Meus peitos estão prestes a explodir — reclamei, sentindo o peso de um deles na palma da minha mão.
— Vinte e quatro horas atrás, te ouvi reclamando da mesma coisa, mas quem estava prestes a explodir era você — lembrou, beijando rapidamente minha boca.
— Bem lembrado. Ainda tenho barriga de grávida. — Passei a mão no meu ventre, agora vazio. — Só que um pouco menor.
— Você foi incrível, — ele repetiu o que me disse depois que ouvimos o choro dela. — Mas minha mão está dolorida.
Sorri. Eu imaginava que estivesse mesmo, não apertei pouco.
— É para você pensar muito bem nessa dor antes de me pedir outro filho — brinquei.
— Por enquanto, seremos só nós três e Solveig. Quem sabe se viajarmos para praia de novo...
O olhei de cara feia, mas depois caí na risada.




1997

Só começamos a falar sobre bebês de novo lá para 1996 quando suspendi o método contraceptivo por efeitos adversos. Emma foi suficiente para nos manter ocupados e mudar toda a nossa rotina nos anos que se seguiram, mas uma noite o surpreendi, perguntando se poderíamos conversar sobre esse assunto novamente. Depois de passarmos quase a noite toda acordados, concluímos que era hora.
A cada ano que se passava, ser mãe se provou mais difícil. Nós dois nos cobramos muito para dar o mundo para a Emma e nos frustramos bastante. Até nosso relacionamento ficou pesado em alguns períodos. No fim, sempre ajudamos ou consolamos um ao outro. Notei que ele só se deu conta de que não a traumatizaria por um deslize pequeno depois que ela completou 2 anos, desde então, vinha levando a paternidade com mais leveza e apreciando melhor cada segundo.
Depois que ela aprendeu o básico que era falar e andar sem cair com frequência, começou a balbuciar uma música que ele cantava para fazê-la dormir e era do KISS. Não dava para acreditar, né? Foi uma lavagem cerebral. Aos cinco anos, ela aprendeu a cantar a primeira música inteira, fazendo seu pai ter uma crise de risos. Eles viraram parceiros no crime para tudo. Ela ainda só dormia depois que eles cantavam juntos, me deixando com um problemão quando ele viajava. Por sorte, acabava dormindo durante minhas histórias sobre viagem no tempo para salvar aquele viking — que ela descobriu recentemente ser bem parecido com o seu pai.
A lista de prioridades dela consistia atualmente em: Solveig, escola, bolo de chocolate, guitarras, a Violeta que era sua boneca favorita e o Frehley do KISS. De tanto ver o pôster dele no escritório, ela se tornou fã de carteirinha do membro do KISS mais maluco das ideias, assim como o pai. Porém, apesar de ter se tornado a tal da “garotinha do papai”, ela também tinha uma ligação bem forte comigo por termos o temperamento parecido e estava aprendendo cada vez mais a falar frases em português. Depois que ela entrou na escola, paramos de nos comunicar em inglês totalmente e usamos só sueco, para que ela não se sentisse excluída.
Em 1997, Emma tinha 5 anos e faria 6 em setembro. Eu descobri que estava grávida de novo depois de atrasar pela primeira vez em anos. Fiquei surpresa, óbvio, mas também muito feliz. Seria mãe de novo, mas com calma para desfrutar dessa gestação, nada de viagens no tempo. Era dia 17 de fevereiro, então estava guardando os testes dentro de uma caixinha de presente com um laço em cima. Emma passou correndo pelo banheiro com a Violeta no braço e Solveig atrás feito uma sombra.
— Ei, Emmy. Venha aqui — chamei-a. Ela correu até mim. Abaixei para olhar seus olhos . — Sabe que dia é hoje, certo?
— Dia do aniversário do papai? — ela pareceu em dúvida.
— Isso mesmo. Que tal levar um presente para ele? — perguntei e esperei ela assentir para entregar o embrulho que estava em cima da pia. Ela pegou a caixa com curiosidade. Acariciei seu cabelo. — Leve sem abrir para ele, ‘tá bom?
— Sim. — Ela saiu segurando o objeto com cuidado, fui logo atrás com Solveig.
O aniversariante estava no escritório analisando alguns papéis, mas girou a cadeira quando a ouviu o chamando e arrancou os óculos de grau do rosto. Ele a ergueu e a pôs sentada em sua coxa esquerda, ela ofereceu o presente.
— Um presente para mim? — ele perguntou, olhando para ela e depois para mim. Ela concordou. Senti borboletas no meu estômago enquanto ele desfazia o laço da caixa sob os olhos atentos dela. Pescou os três testes de farmácia do interior e seu queixo caiu. — Isso é sério, ?
Balancei a cabeça em concordância, já começando a chorar. Emma estava com o cenho franzido e sem entender nada.
— O que é isso, papai? — ela perguntou pegando os testes da mão dele.
— Isso são provas de que você será irmã mais velha, Em — ele explicou pacientemente para ela, mas com a voz embargada.
— Mamãe vai ter um bebê? — perguntou com descrença para mim.
— Sim, filha — respondi.
— Como, se sua barriga nem está grande?
Nós dois rimos.
— Ele ainda é pequenininho demais, mas quando crescer vai fazer a barriga da sua mãe crescer assim como você fez — explicou. Ela parecia presa demais tentando entender os testes, então ele a deixou sentada na cadeira e veio em minha direção.
Enlaçou minha cintura com o braço enquanto sorria e me beijou com vigor. Alguns segundos depois, Emma abraçou nossas pernas e nos fez parar.
— Céus, nós seremos pais de novo! — ele exclamou, parecendo maravilhado. Selei nossos lábios.
— Dessa vez será diferente, será mais calmo, sem viagens no tempo — comentei, fitando seus olhos marejados. — Porém teremos que ajudar a Emma a se acostumar em dividir a atenção e definitivamente precisaremos de uma casa maior.
— Uma com cerca branca? — ele brincou, me fazendo rir.
— É claro.
— Mamãe, posso beijar meu irmão na sua barriga? — Emma gritou e pulou em nós dois. — Por favor, por favor, por favor!

* * *


2004

Hannah nasceu no final do ano de 1997. Nos mudamos para uma casa grande antes de seu nascimento. Emma se adaptou muito bem, apesar de estar triste pela morte repentina de Solveig, mas logo se distraiu com a irmã. As duas viraram amigas, apesar de todas as brigas e ciúmes no meio do caminho. A diferença de idade atrapalhou bastante conforme foram crescendo, principalmente quando Emma começou a chegar na pré-adolescência.
Ao me observar no espelho, podia ver os rastros deixados pela maternidade e não foram poucos. Podia contemplar os de também toda noite, principalmente emoldurando seus belos olhos, evoluindo para as versões que conheci no século 21. No entanto, não havia arrependimentos, todo dia era um aprendizado ao lado deles. Me sentia uma nova pessoa, mais madura e responsável, a ponto de sentir que a velha eu, com minhas antigas preferências, ficou em outra realidade com meus pais; às vezes, sentia até que a outra sequer existiu.
Minha vida virou de cabeça para baixo e eu era genuinamente feliz por isso. A que deixou a Inglaterra de 2019 vestindo pijamas nunca se sentiu assim, nunca almejou uma família ou um casamento, estava satisfeita em apenas ter uma fanfic para ler com o seu ídolo depois de finalizar o dia. Eu tinha poucas aspirações, além de me formar na faculdade, então não era tão surpreendente que a memória se fosse aos poucos.
Ao começar 2004, a ansiedade que senti em 1991 me dominou de novo. Se a lei da vida continuasse seguindo o seu curso, nosso tempo estava acabando. Eu tinha me esquecido até chegar o aniversário dele naquele ano, quando me dei conta que ele estava fazendo 38 anos. Tentei esconder minha tristeza e meu desespero, mas ele soube que havia algo de errado, afinal eram 14 anos juntos.
No dia seis de junho, a campainha tocou no andar de baixo, fazendo Hannah reagir rápido e correr pelas escadas para descobrir quem era. resmungou ao meu lado, não tínhamos dormido nada naquela madrugada, mas colocou o roupão para ir atender a porta antes que nossa filha pudesse abri-la para algum desconhecido.
Olhei o relógio de cabeceira que mostrava a data apenas para me martirizar, sabia muito bem que dia era aquele, vinha contando os segundos para evitá-lo desde fevereiro. Ele não sabia que seria naquele dia, mas desconfiava depois que anunciou ter um encontro do motoclube no final de semana e eu pedir com lágrimas nos olhos para que não saísse do meu lado. Pensei que, se ele perguntasse o motivo, eu apenas diria que precisava de ajuda com as crianças, mas a pergunta nunca veio.
As vozes de Börje e Karin no andar inferior me levaram a sair da cama. Estava tão cansada e com um sentimento ruim me ameaçando, mas meus seios doíam.
A causa da nossa madrugada mal dormida dormia agora tranquilamente pelo que ouvi no baby monitor que estava na cabeceira. Nosso terceiro filho, Jon, não demoraria a acordar e eu não poderia demorar a levantar.
Deveria ter alguma lei da viagem no tempo que nos poupasse de lembrar daquela data. Não era saudável saber o dia que o amor da sua vida morreria. Ainda mais depois de o ter feito refazer todos os exames do coração, a calibragem do aparelho e, insatisfeita com o resultado, um check-up para ver se alguma doença o tiraria de mim tão repentinamente. Nada, ele não tinha nada. Era para ele sobreviver. Eu o salvei e sabia que tinha dado certo na minha primeira tentativa. Então por que não daria agora?
Para ser sincera, vim também esquecendo que era uma viajante do tempo e toda a minha aventura para chegar ali ao longo dos últimos 12 anos. Não pensei mais no guardião, nas realidades, no meu “diário” com todas as coordenadas e a chave para voltar para 2019 que estava no sótão. Ser mãe de três filhos e esposa me sugou; ao mesmo tempo que senti felicidade, senti exaustão. Agora, não conseguia mais imaginar um mundo que Emma, Hannah e Jon não existissem ou que morasse sozinho no meu antigo apartamento em Hässelby e não deixasse ninguém tirar nem minhas pantufas do lugar.
Era aquele o problema do meu casamento: eu fiquei mal-acostumada. As chances de um dos dois morrer primeiro e o outro sofrer existiam, eu sabia que existiam, mas evitava pensar nelas. Sempre jogava para depois. Achei que esse dia nunca chegaria, que viveria meu conto de fadas sem precisar me preocupar. Eu passei meses intensos que, só de lembrar, me sentia cansada como nunca mais fiquei. Então, é... deixar aquele mero detalhe cair no esquecimento foi um processo natural.
O barulho do aparelho junto ao meu seio aliado ao baby monitor me fez cochilar. Esses dois sons calmos mostravam que estava tudo em paz. Hannah e Emma sairiam com Börje e Karin para o shopping, Jon dormia tranquilo e meu marido estava vivo. Naquele momento, eu não tinha preocupações além daquelas.
Parei de trabalhar na produtora quando Hannah nasceu e teve que assumir meu lugar. Eu já nem era mais a assistente dele, a minha única tarefa quando ele lançava discos era a mesma de outros artistas da produtora, preparar um press kit e colocar na caixa de correio para ser distribuída pelo mundo. Separei suas cartas, assim como separava antigamente, assim como também separava a de outros artistas. Meu trabalho não era mais exclusivo, então foi fácil para ele tomar as rédeas e ao lado de Börje dar uma levantada na produtora com mais artistas.
A ideia de parar de trabalhar foi minha, já que Emma vinha dando trabalho na escola por causa de ciúmes da atenção da irmã mais nova e Hannah requeria atenção demais por ser recém-nascida. Senti que eu devia minha dedicação integral às duas e como o dinheiro do meu salário não fazia mais falta por estar recebendo bem com os discos, abdiquei do meu trabalho. Eu amava trabalhar e me sentir útil, mas amava meus filhos e sabia que minha atenção pertencia a eles. Isso mudaria conforme os três crescessem e começassem a não precisar mais de mim. Um dia, eu ficaria sozinha naquela casa com e precisaria de algo, além do meu amor, para dar sentido à minha vida.
Não quer dizer que só cuidei dos meus filhos o tempo inteiro. No meu tempo livre, tinha hobbies como qualquer outra mãe. Jardinagem, pintura, ouvir música e ler romances de banca eram meus favoritos.
Tudo se tornou diferente nos últimos anos, de uma forma que poderia passar horas tentando explicar e não conseguiria. Era uma vida diferente, éramos pessoas que cresceram juntas, tiveram filhos juntas, riram, choraram, se divertiram... viveram.
Será que eu era egoísta por pedir de novo para qualquer divindade que estivesse me ouvindo mais tempo com ele? Nós tivemos bastante, mas nunca seria o suficiente.
? — Ouvi sua voz me chamar como se estivesse na superfície e soube que estava dormindo de novo. Abri os olhos, assustada. A bomba ainda estava no meu peito, mas como não bombeei mais devido ao meu cochilo, o leite estava vazando.
— Merda — praguejei, correndo até o banheiro. — A minha cabeça anda na lua — resmunguei enquanto me limpava.
Ele se encostou no batente do banheiro. O retrato perfeito da sua versão de 2004 que encontrei na viagem do tempo. Costumava pensar que era como uísque, quanto mais velho, mais delicioso.
— O quê? — perguntei ao vê-lo no espelho de braços cruzados e com certa reprovação enquanto eu finalizava a limpeza da bagunça que o leite materno causou.
— É a quinta vez que te pego dormindo enquanto tira o leite essa semana, . Eu sei que Jon vem dando trabalho durante a madrugada, mas te conheço o suficiente para saber que tem algo a mais — falou com cansaço iminente, como se o assunto também o tivesse desgastando.
— Já te disse que não tem nada de errado, só ando cansada demais. Minha vida se consiste em alimentar o bebê nos primeiros meses de vida, é natural acabar dormindo.
Ele suspirou.
— Ao contrário do que você pensa, eu não sou tapado. Eu te vejo chorando toda noite.
, eu não acho que você seja tapado. É só que... — Foi a minha vez de suspirar e depois olhei para o teto, tomando coragem para não entregar todos os pontos. — É a primeira vez que penso na viagem do tempo desde que Emma nasceu e isso está me tomando muita energia — confessei uma meia-verdade. Elas costumavam estar presentes no começo da nossa história e agora pareciam um crime.
Antes que ele pudesse responder, o choro de bebê que ecoou pelo baby monitor me fez passar correndo por ele e entrar no quarto de Jon. Não era urgente a ponto de correr, mas corri porque queria evitá-lo. O bebê dentro do berço se esgoelava para mostrar que estava acordado e com fome e eu era grata por isso, assim podia arrancar aquele disco de algodão incômodo.
Depois de dar à luz e amamentar três filhos, meu corpo não era mais aquelas coisas. No final do ano, eu faria quarenta anos. Então, estava me preocupando em envelhecer também. Minhas inseguranças ainda existiam e estavam cada vez mais vivas.
Olhei de volta para o bebê que me fitava com adoração enquanto mamava e sorri para ele. Jon tinha todas as características que correspondiam aos genes dos . Todos os meus três filhos não tinham muitas características minhas, além da personalidade forte e da teimosia. Ah, mas teimosia Emma e Hannah tinham de sobra e isso enlouquecia . Ele tinha que lidar com duas versões minhas.
Coloquei Jon, que dormia, de volta no berço e saí pelo corredor para arrumar o quarto de Hannah. Emma tinha 12 anos e estava entrando na adolescência, então aprontava um escândalo se sequer entrássemos no quarto dela quando não estava em casa.
A julgar pelo barulho do chuveiro, estava tomando banho e a barra estava limpa. Eu realmente sabia que ele não era bobo e que tinha noção que poderia estar chegando o dia de sua suposta morte. Ele só não poderia saber que era naquele dia. Então estava o evitando na medida do possível.
Ao sair do quarto de Hannah, acabei me lembrando que esqueci o leite e precisava correr para armazená-lo antes que estragasse. No segundo em que passei pela porta, ele passou pela do banheiro junto com a fumaça do banho.
— Já coloquei na geladeira — avisou, parecendo ter lido minha mente.
— Ah, obrigada. — Tentei sorrir, mas deveria ter saído uma careta. Ele parecia sério e bravo, no entanto. Não riu da minha careta como costumava fazer. — O que foi? — perguntei feito uma tola, já sabendo que era uma brecha para ele me questionar de novo.
Ele não respondeu, apenas desviou o olhar para o carpete. Odiava quando ele ficava em silêncio depois de uma pergunta minha. Me segurei para não ralhar. Ele estava tentando descobrir o motivo da minha tristeza e eu só o despistei. Em breve, eu não conseguiria fugir mais. Aproximei-me dele e beijei a pele do seu peito e envolvi sua cintura.
— Está bravo comigo? — perguntei. Ele assentiu, olhando para um ponto atrás de mim e nunca para mim. — Você vai mesmo gastar tempo ficando bravo? Sabe... Jon está dormindo, Emma e Hannah saíram com seu pai. Estamos praticamente sozinhos e você só está usando essa toalha — sorri com o queixo apoiado em seu peito. Quando sua expressão amarrada se transformou em um sorriso malicioso a contragosto, eu me senti orgulhosa. Minha mão agarrou a barra da toalha perto do seu glúteo e puxei para baixo. — Ops. Eu quis dizer estava usando.
Foi o suficiente para ele desviar o olhar para mim e me encarar com suas pupilas se expandindo. Abaixou-se e seus lábios encontraram os meus ao mesmo tempo que sua mão estava na minha nuca. Já fazia um tempo que não ficávamos sozinhos, mas pedi para Karin buscar as meninas para que eu pudesse dedicar todo o meu dia a ele. Lilly falhou ao observá-lo naquela realidade que visitei porque ele se irritou com a presença constante dela, mas não poderia se irritar com sua própria esposa. Não quando ela estava deslizando a mão pela sua barriga.
Ele gemeu contra minha boca quando comecei a masturbá-lo. Separei minha boca da dele para morder seu lábio inferior e fui premiada com mais um gemido, mas um pouco mais longo dessa vez. Um som tão erótico que fez meu corpo se arrepiar. Distribuí uma trilha de beijos pelo seu abdômen úmido pela água do banho e fiquei sobre meus joelhos enquanto ainda o segurava. Ao me ver em sua frente, ele sorriu timidamente por estar feito pedra na minha mão.
— Já faz um tempo, não é? — comentei e ele assentiu. — Espero não ter perdido a habilidade de agradar meu homem.
Agora foi sua vez de morder o próprio lábio inferior.
— Achei que estivesse cansada — respondeu com a voz rouca de excitação.
— Estou. Por isso, preciso de você para esquecer disso. — Sorri meu sorriso mais safado.
Eu o conhecia e sabia que ele só se distrairia se o desse motivos. Fora que fazia mesmo um tempo e estava praticamente babando por ele.
Ele sorriu de lado.
— Você dizendo que precisa de mim para relaxar enquanto me segura assim... — Deu sua típica risadinha sacana. — Me deixa ainda mais duro.
Ele continuava um pervertido, mas depois dos 30 ele ficou diferente. Agora ele estava mais ácido.
— Deixa, é? E isso daqui?
Deslizei minha língua pela sua extensão. Ele gemeu e fechou os olhos.
— Você e essa sua maldita boca esperta — resmungou.
— E se eu fizer isso? — Abocanhei-o até meu limite e depois retirei para me afastar.
— Continua — praticamente implorou. — Por favor, não para.
Com meus olhos nos seus, eu sorri de lado e repeti. Ele mordeu o lábio inferior e seus olhos faiscaram de desejo em minha direção. Senti um leve puxão no meu cabelo depois de um tempo, sinalizando seu limite.
— Vou te fazer relaxar de verdade.
Inebriada pela proposta, me levantei. Dei alguns passos para trás até bater as coxas na nossa cama, onde me deitei para esperá-lo. Seus passos em minha direção foram apressados, os lábios que me beijaram estavam urgentes. Ele carregava a mesma fome e explorava minha boca como se fosse me perder caso vacilasse. Minha língua explorava a sua para que eu entendesse que ele ainda estava ali, que não havia partido.
Minha mente não parava, ela estava trabalhando demais com a possibilidade de perdê-lo. Estremeci com o pensamento, ele percebeu, pois parou de me beijar. Seus olhos preocupados me fitaram e lhe ofereci meu sorriso fraco. Era a única coisa que poderia oferecer.
— Quer parar? — perguntou.
Eu neguei, praticamente implorando para ele ir em frente e apagar aquele pensamento da minha cabeça. Ele tirou peça por peça que eu vestia devagar, me observando para desvendar o que eu estava sentindo.
Beijos foram distribuídos pelo meu maxilar e dedos acariciaram minha barriga. Minha pele se arrepiou e os quadris imediatamente se ergueram para pedir sua atenção. Quando sua mão fria desceu encontrando o calor entre minhas pernas, eu perdi tudo.
Alguns instantes depois, ele me ajeitou de uma forma confortável em cima dele e passou os braços para me abraçar. Só aprendi a definição de “querer morar no seu abraço” até ter braços que me trouxessem a sensação de lar e essa era mais uma das lições que aprendi convivendo com ele.
Ele quebrou meu transe com sua risada mal contida.
— O que foi? — perguntei, ainda do mesmo jeito, sem olhá-lo.
— Nada... É que a última vez que tenho memória sua falando um palavrão foi em 1991 — justificou e seus dedões acariciaram a pele das minhas costas enquanto continuava a rir, mas menos do que antes. — Você tinha acabado de voltar da viagem no tempo e me contou suas peripécias, lembra?
Como se as memórias não pudessem ficar mais insuportáveis para mim, ele também estava sendo afetado.
Assenti, mas preferi não falar nada. Apenas apreciei a sensação de tê-lo ofegante embaixo de mim e quentinho pelo esforço.
O meu era uma versão melhorada do de 1997, o que costumava ser minha versão alternativa dele favorita. Ele era gentil, atencioso e me mimava além da conta, assim como aquele. Eu só entendi há pouco o motivo para ele ser assim. Essas duas versões tiveram tempo de me amar livre e calmamente, sem cobranças.
— Está acordada? — perguntou depois de alguns minutos de silêncio. Murmurei uma afirmação. — Por que você anda pensando em viagem no tempo depois de todos esses anos?
Ele não me confrontou em nenhum dia atrás de uma resposta, mas reservou aquele momento para isso. Não podia esconder por mais tempo. Se nem o que acabara de acontecer o distraiu, não seriam minhas palavras que cumpririam este papel.
— Você sabe, não é? O motivo que venho chorando esses dias, que estou tão aérea e sem conseguir dormir — falei sem rodeios, já me arrependendo em seguida.
Ele suspirou audivelmente.
— Sei — respondeu, por fim, e suspirou. — Espera... Você não está pensando em viajar no tempo só para me salvar de novo, não é?
Bom, eu pensei. Porém desisti da ideia porque dessa vez tínhamos as crianças. Não conseguia me imaginar sem meus filhos. Fora que, provavelmente, não ficaríamos juntos porque daria tudo errado. Eu não suportaria outra viagem no tempo e outro castigo. Considerava que este tópico estivesse superado depois da última vez que me frustrei em 2019.
— Não — fui sincera, mas ele me afastou só para nos olharmos e sustentei seu contato visual. — Eu não estou considerando mais uma oportunidade. Isso significaria que provavelmente nossos filhos deixariam de existir e não posso viver sem eles. Não posso correr o risco de perder vocês quatro. Desculpa, mas não é mais como 1991. Eu fui inconsequente arriscando a vida da Em e bastou olhar para o rostinho dela pela primeira vez que percebi que preciso proteger meus filhos a qualquer custo. E... — Me encolhi. — ...Eles também são uma parte sua que ficará comigo para sempre — sussurrei.
Ele soltou o ar que prendia com alívio e fechou os olhos, para abrir em seguida.
— Não sabe o quanto fico feliz em ouvir isso. Por um momento, eu achei que você queria mesmo viajar no tempo e recomeçar — admitiu. — Eu te assombraria só para te impedir de escrever naquela folha de novo.
Fechei a cara.
— Nem brinque com isso — adverti.
— Ok, sem brincadeiras. — Ele ficou sério. — Se eu morrer mesmo, meu amor, você é forte e consegue seguir em frente sem mim. Não será fácil, eu sei, mas pense que precisa seguir por eles. Jamais pense em viajar no tempo de novo, nem nos dias mais complicados. Lembre exatamente do que me falou agora quando sentir vontade de largar tudo. — Acariciou uma mecha solta do meu cabelo que pendia ao lado do meu seio esquerdo. — Estarei com você para sempre, , seja em cada detalhe meu nos nossos filhos ou vivendo através do amor que sente por mim no seu coração.
Eu não queria chorar, mas ouvi-lo falando sobre a própria morte foi tão triste que as lágrimas brotaram nos meus olhos e pinicaram meu nariz. Sentei-me em seu abdômen e tentei segurar as lágrimas. Bastou só o toque de sua mão na minha que descansava para me fazer olhar em sua direção. Quando o vi deitado ali, eu explodi em lágrimas. Comecei a soluçar, a fungar, a me afogar. Ele já estava acostumado ao meu jeito estranho de chorar, então me puxou mais uma vez em direção a seu peito e me abaixei para chorar ali.
— Eu n-não e-estou pronta para falar sobre isso a-ainda — gaguejei em meio ao choro. Eu tive vontade de gritar mais uma vez, mas era de tristeza. — M-mais tarde, a gente tenta.
— Shhh, está tudo bem, meu amor. Leve o seu tempo — disse enquanto afagava meu cabelo.
Chorei como se não tivesse amanhã enquanto ele me consolava. Foram longos minutos assim, até que ele resolveu quebrar o silêncio:
— Eu te amo, — sussurrou em inglês perto do meu ouvido. Era estranho ouvi-lo falando em inglês depois de tanto tempo, por isso parei com minha onda furiosa de lágrimas só para sorrir com tristeza. Ele pareceu perceber, por isso me afastou de novo para nos olharmos. Olhos faiscavam em minha direção. — Eu te amo — repetiu em português. — Jag älskar dig.
Meu sorriso triste evoluiu para um com uma pitada de orgulho por ser a pessoa que ele amava. Céus, foi uma luta para alcançar esse posto. Uma luta de muitos desencontros e trapalhadas.
— Nunca. — Ele beijou uma pálpebra minha — Se. — Beijou a outra — Esqueça. — Beijou a ponta do meu nariz.
Meu sorriso era completamente terno.
— Eu também te amo, — falei em português mesmo, porque ele entendia e sabia falar algumas frases. — Nunca vou me esquecer. Você é o amor da minha vida.
Eu beijei seu sorriso. Conseguia enxergar todo seu amor através da nossa conexão visual e as borboletas no meu estômago começaram a dançar de novo, como fizeram nos últimos quatorze anos perto dele.
Então, percebi que estávamos pelados e que passei os últimos minutos chorando mais que meu filho mais novo.
— Droga, era para aproveitarmos nosso dia sozinhos e eu estraguei tudo — resmunguei, encostando minha testa em seu peito. — Desculpa. Não era isso que pretendia quando arranquei sua toalha.
— Bom, estou satisfeito com o que se sucedeu depois do momento em que arrancou minha toalha, mas se você quiser me mostrar seus planos novamente...
Encarei-o em puro choque. Ele mordeu o lábio inferior. Minha mão deslizou pelo contorno do seu corpo até comprovar que deveria ter chorado por muitos minutos mesmo, porque ali estava ele me esperando outra vez.
— Você é insaciável, seu safado — resmunguei e depois caí na risada.
— Safado? Foi você que me trouxe até aqui e eu sou o safado? — perguntou em falso ultraje.
— Você gostou — fingi repreendê-lo e ele soltou uma risada sacana.
— Claro que gostei — ficou cheio de si. — E adoro te ouvir falando palavrões. Você diz para as crianças que é errado e não vai tolerar nessa casa, mas xinga tão bem. É como se colocasse ênfase nos palavrões, sabia?
Ele tinha razão, eu não tolerava palavrões em casa, mas bastava bater o dedinho para soltar um palavrão horrendo em inglês ou português.
As crianças entendiam e sabiam algumas frases em português. Principalmente Emma que vinha fazendo aulas com um professor particular, mas não sabia palavrões. E que permanecesse assim.
— Eu não xingo — menti, com desdém.
Ele sorriu de lado.
— Ah, é? — Pegou meu antebraço, me jogou no outro lado da cama e ficou por cima de mim. Senti seus beijos no meu pescoço e seu calor na parte que passou a necessitar dele mais uma vez. — Pois vou te provar que você xinga.
Dito isso, sugou a pele do meu pescoço. Minhas unhas cravaram em seus ombros com a sensação eletrizante que tomou conta de mim. Sua mão tocou meu seio direito e os dedos brincaram com meu mamilo, enquanto ele se esfregava em mim. Eram muitos estímulos e aos poucos a consciência me abandonava...
Até que um choro irrompeu pelo baby monitor.
resmungou e se levantou. Meu corpo protestou pela sua ausência repentina.
— Deixa que eu vou — disse.
Começou a tirar algumas roupas do guarda-roupa e as vestir. Jon continuava chorando e dessa vez mais alto, ecoando pelo corredor além do aparelho. Já eu, continuava entorpecida, largada na cama.
— Esse garoto tem umas cordas vocais bem potentes, hein? — reclamou enquanto fechava o zíper da bermuda.
— Bem, ele puxou isso de você — comentei. — Quem sabe no futuro ele não faça uma participação especial na sua banda.
Ele riu enquanto vestia a camiseta preta e observei-o deixar o quarto. Eu quis ir atrás. Quis me amarrar a ele, grudar em suas pernas o dia todo e tê-lo sob minha vigilância. Porém julguei exagero me levantar dali para acompanhá-lo cuidando do próprio filho, quando ele mesmo se prontificou a ir. Por isso, me contentei em me levantar da cama. Pesquei algumas roupas da minha parte do guarda-roupa e fui tomar meu banho.
Uma hora ou outra, naquele dia, teria que contar para ele toda a verdade. Depois de ouvi-lo falar sobre morrer e explodir em lágrimas, concluí que não precisava e não queria passar por aquilo sozinha. Eu não merecia carregar o fardo que me impus ao resolver segurar esse segredo por esses dias. Não contaria agora, talvez somente pela noite. Não queria que ele se preocupasse o dia inteiro. Ele andava ocupado demais e colocando muito esforço no trabalho da produtora, agora que estava produzindo novos artistas. Merecia o final de semana de folga, por mais que estivesse imensamente preocupado com minha situação.
Fechei o registro e apoiei a cabeça no azulejo.
Acabei por criar um retrato de família perfeita ao longo desses anos. Agora que tudo estava ameaçando ruir, estava em desespero. O que seria de mim? Já não foi fácil quando nós não tínhamos nada na época da viagem no tempo, imagina agora que poderia ficar viúva e meus filhos perderiam o pai? Seria mesmo tão errado viajar no tempo? Se ele tivesse algo, voltaria para 2019 e depois retornaria para o mesmo dia. Implorar por uma nova chance e se compadecer da minha situação para não receber um novo castigo.
Sim, seria. estava certo. E eu sabia muito bem.
O desespero estava nublando minha visão, me tornando cega para tudo o que conquistei desde que voltei da minha pequena aventura entre dois séculos. Precisava voltar à realidade imediatamente, não era mais uma jovem inconsequente no meio dos meus 20 anos. Agora tinha tudo a perder.
Passei a toalha no corpo para me secar, depois vesti roupas limpas. Estava me sentindo a pessoa mais egoísta por considerar uma opção dessas quando tinha três filhos que dependiam de mim. Se nunca mais voltasse, eu os perderia, perderia e meus pais nunca me reconheceriam. Ou seja, eu ficaria muito mais miserável do que me encontrava. No melhor cenário, Emma estaria com 27 anos, Hannah com 21 e Jon com 15, provavelmente teriam superado minha partida e me culpariam por os ter abandonado para tentar algo que todo mundo sabia ser impossível de ser reproduzido.
Ninguém entenderia o que é estar desesperada e em profunda agonia.
Só ele era capaz de me distrair de novo, então saí à sua procura. Primeiro procurei em nosso quarto, ele não estava. Procurei no quarto de Jon, os dois não estavam lá. Meu coração martelou contra minha caixa torácica, imaginando a probabilidade de ele estar caído em algum canto com Jon em seus braços. Desci as escadas correndo.
? — chamei-o com a voz relativamente baixa para não assustar o bebê. Ninguém respondeu. — ? — Seu nome saiu feito um grunhido.
O barulho do cortador de grama do vizinho era a única coisa audível. Olhei a cozinha, a sala de jantar, a sala de estar, voltei para o andar de cima para olhar nos quartos das meninas e nada. Simplesmente nada dos dois. Peguei o telefone para ligar para Börje, Lilly ou Andreas, de quem fosse o número que meus dedos discassem primeiro. Antes de fazê-lo, lembrei do escritório. Como ele estava ocupado com a produtora, fazia um bom tempo que não o via ali. Abri a porta devagar e logo o vi deitado no sofá marrom. Suspirei com alívio por ele não ter resolvido dar uma volta de repente ou... sei lá. Nem sabia descrever o que se passou na minha cabeça para achar que ele sumiu do nada com o filho de cinco meses.
Andei a passos lentos até os dois e eles estavam de olhos fechados. Levei um susto com o que entrou no meu campo de visão. estava igual ao dia que o deixei em 2004. Sem tirar e nem colocar. O jeito que seu cabelo longo caía pelo sofá era como na maca. Macabro, bizarro e aterrorizante. Se já tive vontade de chorar antes, quando ele estava acordado, agora o que estava me impedindo mesmo era a adrenalina.
? — Sacudi seu ombro de leve, com medo de encontrar um corpo sem vida ao invés do calor que ele emanava no hospital. Seria mil vezes pior. — , você está me assustando — falei, tocando sua barriga por cima da camiseta e o sacudindo. Nada. — Droga, droga, droga. , por favor, acorda. — As lágrimas já borravam minha visão. Vi Jon abrir os olhos e fazer bico para começar a chorar. — ! — gritei e chacoalhei seu corpo. Jon começou a chorar alto e finalmente seus olhos se revelaram.
O alívio que me percorreu foi maior do que de antes que eu não sabia o que esperar. Meus joelhos cederam e eu caí sentada no tapete, incapaz de pegar meu filho que chorava por minha culpa e o acalmar.
? O que foi isso? — perguntou enquanto se sentava e sacodia Jon em seu abraço. — Você está bem?
Também não fui capaz de responder. Estava muda, assim como Lilly me encontrou no hospital naquela realidade. A mais pura catatonia. Seus olhos miraram os meus com preocupação e depois entendimento. Jon estava mais calmo, então ele tirou o telefone sem fio da minha mão direita que segurava o objeto de maneira firme e apertou os botões.
— Oi, Lilly... Estou bem, e você?... É a , ela que não está nada bem... Não, não é caso de hospital. Acho que ela está apenas precisando de um tempo longe das crianças... Börje e Karin vieram pegar as meninas mais cedo, então estava pensando se poderia cuidar de Jon só para eu poder levá-la para dar um passeio... Está bem. Tchau.
Jon olhou para mim com olhar de súplica. Ele queria vir para o meu colo. Ordenei meus membros a se moverem e pegá-lo, mas recebi nada em troca.
— Eu realmente estou preocupado agora — comentou enquanto segurava Jon que ainda me chamava de seu modo. — O que aconteceu para o Jon ter se assustado?
Fala, .
Por favor, move sua boca, emita algum som.
Fala para o seu marido que você achou que ele tivesse desaparecido e depois morrido enquanto segurava o filho de vocês.
— Eu... — comecei a falar, as palavras sumindo entre o vão do meu cérebro e das minhas cordas vocais. — Lilly está vindo? — Corri para a alternativa mais fácil.
— Está. Ela vai cuidar de Jon e nós dois vamos tomar um ar — explicou. — E nem adianta dispensar, isso não está aberto a discussões. Você não está bem e não estou disposto a te ver sofrendo a ponto de se autodestruir na minha frente.
Eu não dispensaria. Não tinha forças para emitir as palavras que causariam uma discussão. Acabei de assustar meu filho por algo que criei na minha mente, algo que poderia ser evitado se tivesse ao menos olhado para o peito de e visto que ele estava respirando. Só que ele também respirava aquele dia no hospital e Lilly disse que era tarde demais...
De repente, estava ofegante. Dois pares de olhos idênticos me encararam, um com preocupação e outro com admiração.
Eu evitava até de falar alto para não assustar as crianças, o que aconteceu mostrou que estava além do meu limite.
— O que aconteceu, ? — ele repetiu a pergunta.
— Eu tentei te acordar — expliquei, sentindo meu peito subir e descer como se estivesse correndo uma maratona. — Jon acordou primeiro. Você não reagia... Eu... — soltei as palavras sem saber se teriam sentido.
Ele pareceu entender tudo e abriu a boca duas vezes, antes de finalmente dizer com certa perplexidade:
— Você achou que eu tinha morrido?
Ouvi-lo verbalizar aquilo doeu assim como o escutar falando sobre a própria morte minutos atrás. A sensação foi de que cravaram um ferro flamejante diretamente no meu coração.
Ainda assim, eu assenti enquanto engolia em seco. Ele olhou para o chão e o bebê começou a bater as pernas, totalmente alheio à situação. Não sabia dizer o que ele estava pensando, mas resolvi fugir. Fazer minhas pernas me obedecerem foi a atividade mais difícil do mundo, mas com certo esforço consegui me levantar do tapete. Eu precisava ficar longe dele, não conseguia olhá-lo depois disso. Nem com minha movimentação ele desviou o olhar do chão. Decidi deixar nosso filho com ele. A segunda atividade mais difícil foi fazer minhas pernas se moverem para fora do escritório. estava com aquele olhar vazio que me assustava, como se eu não o conhecesse mais.
A campainha soou quando eu já armazenava mais leite materno dentro da geladeira. Corri para abrir, Lilly e Marko estavam ali.
— Olá! — saudei-os sob o olhar minucioso de Lilly. — Entrem. está por aí com Jon.
— Oi, — Marko disse enquanto me abraçava e passava por mim.
Lilly parou no meio do caminho. Ele analisou a namorada e pareceu entender algo porque subiu as escadas provavelmente para procurar o cunhado.
— O que houve contigo? — Ela foi direto ao ponto, como costumava a fazer, assim que ele se afastou.
— Oi para você também, Lilly — falei, puxando-a para conseguir fechar a porta.
— Por que ele está preocupado com você? — Ignorou o que eu disse.
Suspirei. Ela era irredutível quando estava preocupada. Lilly não sabia que eu vinha pensando na viagem no tempo. No dia anterior, quando desligou o telefone, eu estava normal. Naquele momento, estava um caco. Ela pareceu perceber que havia algo de errado no segundo que abri a porta. Ela e o irmão sempre me conheceram tão bem que chegava a ser patético considerar esconder algo, mas, ainda assim, disposta a contornar a situação, peguei-a pelo pulso e a levei até a cozinha para etiquetar as embalagens.
— Não vai me responder? Vou ter que perguntar mesmo para o meu irmão?
— Não é nada, Lilly — falei, recebendo um olhar furioso dela. — É só que vim pensando sobre viagem no tempo ultimamente — expliquei antes que ela me fuzilasse só com os olhos.
Lilly não tinha mais cabelo , agora era pintado e ela havia resumido sua paleta a tons neutros, conforme constatei quando estive em 2004 pela primeira vez. Ela também cantava e estava produzindo suas primeiras músicas juntamente com Börje.
Ela pareceu surpresa com o que eu disse.
— Faz uns bons anos que não te escuto falando sobre isso — comentou com as sobrancelhas arqueadas.
— É, realmente fazia anos que não pensava nisso — falei, grudando a etiqueta no saquinho e voltando com ele para a geladeira. — Eu não estou dormindo à noite e seu irmão acha que não estou bem porque venho cochilando pelos cantos.
— Não entendi bem a ligação entre a viagem no tempo e sua falta de sono.
É claro que ela não entendeu, eu não contei toda a história e esperei que colasse. Guardei a caneta, as etiquetas e espalmei as mãos no balcão. Ou ela saberia por mim ou por ele, então preferia que fosse comigo.
— Lembra quando eu voltei da viagem no tempo e te contei tudo? Te contei que ele tinha morrido em 2019 e você me entregou uma caixa com os pertences dele que tinha guardado para mim, depois que voltei no tempo de novo para enfrentar minha punição e ele quase morreu na minha frente...
Um brilho de lembrança passou pelos seus olhos.
— Sim, que você quase perdeu a Emma — ela lembrou e se ajeitou no banco do balcão da cozinha americana.
— Foi para 2004 que eu voltei primeiro — falei, impassível. Por dentro, estava explodindo e apagando ao dizer aquilo para ela. Ainda me lembrava do seu rosto em 1991 ao saber que ele morreria, como me senti tão cruel por dar a ela essa notícia.
Ela franziu o cenho.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou. Apenas concordei com a cabeça porque sabia o que ela estava pensando. Lilly sempre foi sagaz. — , você não pode estar falando sério. — Sua voz aumentou algumas oitavas.
— Fala baixo! — censurei-a. — Quer que ele escute? Ele também não está muito bem — acrescentei. Ela concordou e eu continuei a falar: — Eu venho chorando durante a noite e é claro que ele percebeu que tem algo de errado. Ele sabe que pode morrer. Tentei distraí-lo hoje mais cedo, mas nós acabamos conversando depois, eu perguntei e ele revelou isso. Perguntou se pretendo viajar no tempo de novo para salvá-lo e, no fim, me debulhei em lágrimas em cima dele.
— E você pretende? — perguntou. — Viajar no tempo, caso ele... — Ela suspirou. — Eu nem consigo dizer isso.
Foi a minha vez de suspirar. Era difícil para todos nós.
— Não. Meus filhos poderiam não existir, caso eu fizesse isso. Não posso fazer isso com eles e nem comigo — falei, já sentindo as lágrimas ameaçarem brotar de novo.
— Não que eu esteja considerando que você vá fazer isso, não te imagino sumindo de novo. Porém o que te leva a pensar isso? — ela perguntou calmamente, mas seus olhos estavam ficando vermelhos e indicavam que também estava perto de chorar.
— Minha presença pode não ter afetado a ordem dos acontecimentos como achava em 1991, mas eu posso intervir. Já provei que posso. Salvei em 1997 para ter uma garantia que ele sobrevivesse até 2019, depois de passar pelo mesmo ano duas vezes e constatar que ele estava morto. — Umedeci os lábios. — E pode ser que, tentando de novo, as crianças tenham sumido ou que eu nunca volte para cá para cuidar delas. Não posso ficar sem toda a minha família de uma vez, Lilly. Eu sempre fui cuidadosa quanto a esse “pequeno” — fiz aspas com os dedos como fazia muito antigamente, eu até teria rido do gesto, mas estava baqueada demais com o dia — detalhe da minha vida, a ponto de me esquecer até hoje. Nunca revelei detalhes que descobri sobre você e o Marko apesar da sua insistência. Deixei tudo fluir naturalmente para não intervir e correr o risco de causar mais algum estrago.
Ela me observava em silêncio. Fitei minhas próprias mãos espalmadas no granito e lembrei de algo que julguei ter esquecido por todos esses anos.
— Marko se casou no começo dos anos 90, deve ter acontecido um pouco depois de 1991 — revelei e ergui o olhar. Ela franziu o cenho. — Porém, graças a mim, vocês dois se conheceram e isso, de alguma forma, alterou o que aconteceria. Está vendo? Eu intervi sem saber ao te deixar lá para avisá-lo aquele dia. Quando voltei para o meu quarto, já sabia que vocês ficariam juntos e por isso que não te pedi para ir comigo até o hospital, então encontrei Sebastian na parada de ônibus. Dessa vez, foi de propósito.
Ela estava impressionada, os vincos em sua testa provavam isso.
— Então está tudo interligado? — perguntou. — Se você não tivesse viajado no tempo, eu não teria conhecido Marko e... tudo seria diferente?
Balancei a cabeça afirmativamente. Tudo seria diferente para eles e para mim, nossos caminhos nunca se cruzariam e meus filhos nunca existiriam. Nós duas passamos alguns minutos refletindo enquanto o barulho de brinquedo de bebê ecoava alto do andar de cima.
— Então não tem motivo para temer. — Ela quebrou o silêncio em um tom de quem tem uma revelação — Ele não vai morrer. Você interveio e o salvou. Fim.
Por incrível que pareça, ela tinha razão. Porém...
— Eu só terei certeza quando o dia passar — falei, endireitando a coluna e recolhendo minhas mãos.
— Você ainda se lembra de qual dia era?
— Nunca me esqueci.
Ela me analisou.
— É hoje, não é? — sussurrou e arregalou os olhos. — É por isso que você não está bem e ele está preocupado.
Eu deveria ter imaginado que ela entenderia tudo ao me ouvir mencionar o dia, fui tola e baixei a guarda. Deve ser porque estava tão cansada fisicamente e mentalmente de colocar todas minhas energias para esconder aquilo que acabei nem reagindo da maneira correta.
— Ele não sabe — sussurrei de volta.
Ela soltou um som de reprovação.
— Você sabe que ele vai descobrir, não é? Se ele já não souber e estiver escondendo.
— Não, ele não sabe. Quer dizer, eu acho — falei e depois contei o que tinha acontecido uma hora antes que ela chegasse.
— É... Se ele não sabe, está perto de saber — concluiu. Limpei a lágrima teimosa que rolava pela minha bochecha direita.
— Ele não pode saber — confidenciei. — É todo o papo da intervenção de novo, eu não quero que ele se preocupe e acabe tendo algo ao saber disso.
— Não seja boba, o é forte. Ele jamais teria um piripaque só por saber o dia que morrerá. Estou é te estranhando por achar isso depois de conviver com ele por quase quinze anos — respondeu. Mais uma vez, ela tinha razão, não fazia o tipo dele se importar tanto assim com qualquer coisa que o envolvesse. Se fosse eu ou as crianças no mínimo perigo, ele poderia até se preocupar. Depois de sua fala, acho que ele nem ao menos se importava com isso. Porém ainda tinha seu olhar depois de ter me perguntado se eu achava que ele estava morto no escritório...
Antes que eu pudesse concluir meus pensamentos ou responder Lilly, ele desceu as escadas. Marko e Jon não estavam com ele.
— Oi.
Ele cumprimentou Lilly com um abraço e um beijo na testa.
— Oi, irmão — ela disse no meio do abraço. Peguei minha bolsa que descansava no canto do balcão. — Cadê o bebê?
— Dormiu. Deixei o finlandês de olho nele — disse com um sorriso maroto. — Só para ele treinar.
Nós duas rimos, mas o som pareceu chamar sua atenção em minha direção. Seu olhar mudou quando me olhou, olhos nublados por preocupação e algo que não pude identificar o que era. Ele se desvencilhou dos braços de Lilly e pegou a chave da motocicleta no porta-chaves.
— Nós vamos de moto? — perguntei, checando minhas roupas para ver se eu não corria o risco de ficar pelada com o vento.
— Sim. — Saiu em direção à garagem. — Até já, Lilly.
— Tchau, — ela respondeu.
Expliquei a ela como esquentar o leite da maneira correta. Falei da fórmula porque não sabia quanto tempo demoraria e se tinha leite o suficiente para me esperar voltar. Também contei que as meninas chegariam às 19 horas e que, se não tivessem comido, ela poderia pedir pizza. É claro que acrescentei algumas coisas a mais que toda mãe faz, mas Lilly me colocou para fora quando ligou a moto já na rua. Ele não podia ligar a moto dentro da garagem ou Jon se assustaria.
— Tchau, . Divirta-se um pouco — disse com um sorriso triste. — Vai ficar tudo bem por aqui. — Vi em seus olhos que ela queria acrescentar “e com ele”. Andei pelo caminho de pedra, determinada a tatuar sua fala em meu cérebro.
Fazia um tempo que não andava com ele naquela motocicleta, então estava receosa em subir. Passei a perna pelo banco e quase fui direto, se não fosse por sua mão forte no meu joelho direito que me segurou no lugar. Meu corpo tremeu e já tive a impressão de que eu não deveria estar saindo de casa. Olhei Lilly dando tchau de trás da cerca branca e fiquei com o coração na mão.

* * *


— Onde nós estamos? — perguntei, estranhando o lugar que ele tinha desacelerado para entrar.
— Em um lugar sossegado — se limitou a dizer.
Era um condomínio com um monte de casas pequeninas, redondas e iguais. Na frente de todas jazia um gramado verde que parecia muito bem-cuidado e padronizado. Elas não pareciam habitadas, mas também não eram abandonadas, só pareciam casas de temporada. Eu não fazia ideia de que Estocolmo tinha casas assim até aquele momento. Ele parou a moto, desceu e depois me ajudou a descer. Pegou uma mochila do bolsão da motocicleta e andamos pela grama até a porta de entrada.
— Onde conseguiu esse lugar? — perguntei, estranhando a rapidez que ele arranjou um lugar. Não fazia tantas horas assim que ele ligou pra Lilly.
— Pertence ao Börje — explicou enquanto destrancava a fechadura. — Ele tem esse lugar desde 1987, vem para cá esporadicamente para descansar e às vezes aluga para outras pessoas também.
Balancei a cabeça, indicando que entendi. tinha todas as chaves das propriedades de Börje para segurança mesmo e eram muitas as propriedades, então não me admirava desconhecer essa. Quando ele abriu, o interior se revelou e imediatamente senti uma sensação de nostalgia me invadir. Lembrava muito ao hotel que nós fomos em 1997 no encontro do motoclube. Me encolhi com a memória, elas estavam a todo o vapor. Ele tocou minha mão e me puxou ao interior da casa. Ela tinha um teto alto e sem muitos móveis, como se não coubessem mais do que havia ali. Apenas uma estante com alguns livros, duas poltronas de tecido azul, um tapete felpudo, uma lareira grande demais para o ambiente e, ao lado, havia a minicozinha; alguns passos depois, já se encontrava o quarto com uma cama de lençóis brancos e uma TV novinha. Era simples e meticulosamente limpa.
Ouvi a tranca da porta. Ele se moveu em direção à cozinha. Andei até a estante e toquei os livros, alguns eram os exemplares que recebia e o levou a escrever o álbum de 1990, entre outros livros que ele lia quando cheguei, como Nietzsche. Peguei o livro de capa preta que lembro de pensar que parecia uma edição de sebo de 2019 quando fui bisbilhotar o que ele lia na primeira noite que dormimos no mesmo quarto de hotel. Parecia ter acontecido há décadas. Nós éramos tão jovens. Pensar naquilo me deu um pouco de saudades daquele tempo.
— Por que você está guardando esses seus livros aqui? — perguntei, já que tínhamos uma estante enorme no escritório onde guardávamos todos os nossos livros.
— Achei que seria legal compartilhar esses livros com quem aluga a casa — respondeu com a voz abafada. Olhei onde ele estava e parecia mexer em algo na geladeira.
O livro continuava na minha mão, fitei as páginas amareladas que foram brancas quando o peguei pela primeira vez. Eu envelheci junto com esse mundo que um dia foi velho para mim. Essa era uma das provas. Não tinha memória de quando exatamente aconteceu o sentimento de pertencer a esse mundo, não lembrava quando ele começou a ser minha casa. Não me recordava quando parei de querer voltar para 2019 por causa dos meus pais, de Shandi, Raj, meu gato e até mesmo por causa da minha colega de apartamento rabugenta, Anya. Mal tinha lembranças de ser a , estudante e filha de atores famosos. Só a , mãe de três crianças. No começo do dia, eu não me importava em ter largado meu emprego e assumido esse papel de mãe o tempo todo. Porém, olhando aquele livro envelhecido, percebia que me apeguei tanto ao desde que cheguei que esqueci de mim. Me perguntei o que seria de mim sem o meu marido e fiquei sem resposta. Queria ser alguém pelos meus filhos, caso não estivesse mais por ali no dia seguinte.
Uma lágrima rolou pelo meu rosto e pingou na capa preta. Esse parecia ser um pensamento a ser digerido e evoluído depois do dia. Foi a primeira vez que me ocorreu ir além caso ele falecesse. Estava com tanto medo... Imaginar uma vida depois da suposta morte de machucava tanto, era como assumir que era real e teria mesmo que seguir em frente, como ele disse.
Guardei o livro de volta na estante e o ouvi fazendo barulho através de uma porta invisível, que só permitia ser vista por que estava aberta. Limpei o rastro da lágrima e segui para lá. Meu queixo caiu quando vi uma banheira quase cheia com a água que saía de suas extremidades. O ambiente era fechado com uma cerca de madeira, havia também uma churrasqueira com duas cadeiras e mesa, também pude ver o banheiro em uma cabine ali fora. A casa era toda feita para um casal, tudo funcionava para abrigar duas pessoas, inclusive a banheira.
— Uma banheira? — perguntei com surpresa. Aquelas coisas eram caríssimas.
Concordou com a cabeça.
— Mas você não me avisou e eu não trouxe roupa de banho — comentei.
— Não vamos precisar de roupa de banho — começou a se despir e depois entrou. Sorri ao vê-lo prendendo o cabelo no topo da cabeça para não molhar.
— Acho que dá para te ver do lado de fora dessa cerca. — Apontei para a cerca que tinha alguns espacinhos entre uma tábua e outra. Ele olhou para trás para checar e depois se virou para mim.
— Deixe que vejam. — Ele se ajeitou. — Não vai entrar? Sei o quanto você gosta de banheira e essa daqui Börje mandou instalar semana passada. Somos os primeiros a usar.
Pensei se queria realmente correr o risco de ser vista nua por algum desconhecido passando por ali, também pensei na aparente tensão que estava pairando entre nós dois. Minhas mãos estavam suadas desde que saí de casa pela ansiedade de deixar Jon e a segurança do meu lar, mas ainda assim peguei a barra da camiseta que estava usando e a tirei. Ele me assistiu tirar peça por peça de dentro da banheira com desejo. Entrei rápido para espantar as inseguranças com o meu corpo.
— Quanto tempo vamos ficar aqui? — perguntei assim que me ajeitei. Já era fim de tarde e levamos cerca de mais de uma hora para chegar ali.
— O tanto que você precisar para espairecer — falou. Mordi o lábio inferior com nervosismo por estar ali e não em casa devido à gravidade do dia, ele pareceu perceber. — Baby, eu te trouxe aqui porque você não está bem. O que aconteceu mais cedo te assustou, me assustou e assustou Jon. Você não é assim, te vejo controlando até o volume das nossas vozes para não o assustar...
— É melhor não falarmos sobre isso ainda — alertei, olhando para as minhas mãos debaixo da água.
Ou vou começar a chorar de novo.
— Eu não consigo, . — Seu tom de voz triste me fez erguer o olhar. — Não consigo falar sobre outra coisa enquanto você está me olhando como se eu pudesse morrer na sua frente a qualquer segundo — admitiu. Fiquei em choque e sem resposta. Ele chegou perto de mim, pegou minha mão e a botou espalmada em sua bochecha. — Estou aqui e agora. Eu não vou a lugar nenhum. — Ele fechou os olhos quando meu dedão acariciou sua bochecha, absolvendo seu calor.
Comecei a chorar de novo. Nem sei explicar o motivo, só saiu junto com uma onda de desespero.
— Por que ficou tão impressionado depois que achei que tinha morrido? — perguntei, seguindo com o assunto e tentando controlar minhas palavras para saírem sem efeito do choro. — Você já sabe da possibilidade, nós conversamos hoje de manhã.
Ele suspirou e soltou minha mão.
— Porque tive o vislumbre da sua reação caso isso aconteça. Senti como se eu tivesse morrido e acompanhado de perto você ficando sem palavras, sem movimentos, com apenas dor nos olhos. Foi como sentir o seu luto e isso me aterrorizou. — Suspirou de novo e olhou para a frente. — Eu não tenho medo de morrer, creio que saiba disso. Porém tenho medo por você, tenho medo do que vai fazer, se vai seguir em frente. Às vezes penso que, no fundo, você tem medo porque acha que, se a morte vier, vou abraçá-la. E não vou. Vou lutar com toda a minha força por você e as crianças. Não quero morrer, , mas se eu for, nós fizemos tudo o que podíamos. Se for meu destino morrer hoje, você fez tudo que podia. Caralho, você viajou no tempo grávida e enfrentou uma punição só para me salvar. Entende o quão longe foi por mim? — Seus olhos voltaram para os meus e para a nossa conexão familiar. Apenas assenti. — Esse deve ser o mais longe que se pode ir para salvar quem ama e você foi.
— Como sabe que é hoje? — perguntei com a voz por um fio.
— Você está desabando diante dos meus olhos. Eu já tinha uma leve desconfiança quando me pediu para não ir ao encontro do motoclube, depois do escritório tive a certeza de que precisava. — Sua mão tocou a lateral do meu rosto e seu dedão acariciou meu lábio inferior. — Me magoou um pouco ter escondido isso de mim. No entanto, acho que entendo. Nós nos apoiamos em você como se fosse um porto-seguro nos últimos anos e sei que por isso, você não queria ameaçar minha segurança. Só que somos um casal, quando te perguntei hoje de manhã o que tinha de errado, você não precisava ter tentado me distrair. Bastava falar e eu te mostraria que ficaria tudo bem. Não estou sentindo nada de diferente, não há razão para se preocupar.
Encarei seus olhos e peguei sua mão que estava no meu rosto, beijei a palma e fechei os olhos. Tudo o que ele falava parecia um sopro de ar fresco no meio do caos que criei. Suas palavras eram o alívio que precisava. Elas serviram para dissociar o atual do primeiro que conheci de 2004, então a imagem vívida dele na maca no hospital aos poucos foi se tornando menos nítida. Se soubesse que só precisava que ele soubesse o que eu vinha guardando para poder respirar normalmente de novo, eu... Teria tudo feito igual. Bem, no fundo, ainda era , teimosa por natureza.
— Tem certeza de que não está sentindo nada? — perguntei para me certificar, ele assentiu. — Porque eu estou morrendo de fome — brinquei, arrancando um sorriso dele. Fui obrigada a beijar seu sorriso. Passei meus braços pelos seus ombros. — Eu realmente quis te proteger dessa data, . Tentei com todas as minhas forças desde o dia do seu aniversário, mas foi ficando pior e mais sufocante. Te ver deitado sem me responder foi o estopim. Lilly me disse que você provavelmente sabia, eu duvidei porque passei tanto tempo em agonia para te esconder, não era possível que um pequeno deslize tenha feito você descobrir tudo. Agora vejo que não foi tão pequeno quanto pareceu. — Minha voz vacilou por um segundo, ele pegou minha cintura para me dar força. — No começo do dia, eu achava que você não se importava com a morte como a sua outra versão, mas te ouvir dizendo que vai lutar contra me dá esperanças. — Sorri com convicção. — Tudo pode mesmo mudar um dia, você não morreu e nem parece que vai. — Inclinei a cabeça para analisá-lo e ele se limitou a sorrir de novo, depois negou com a cabeça.
— Eu não vou a lugar algum.
— Ainda tem um tempo até o fim do dia — lembrei-o. — Só depois que der meia-noite vamos saber totalmente. Porém estou me sentindo melhor só de compartilhar contigo. — Plantei um beijo em sua boca.
— Está falando isso só para que eu te leve de volta para casa? — brincou com um sorriso sapeca.
— Não — ri. — Você estava mesmo certo, preciso de um tempo para espairecer. Tive uma revelação há pouco que acho que quero outra coisa para mim. — Senti minhas bochechas corarem com a emoção por estar contando isso para ele. — Quero estudar de novo, procurar respostas para o que aconteceu comigo — confessei, me surpreendendo com as palavras saindo da minha boca. Ele me lançou um sorriso confuso. — Eu gosto da minha vida atual, mas sinto falta da antiga eu, sabe? Pensar na viagem no tempo hoje me trouxe essa memória e concluí que esqueci que pertenci ao futuro em algum ponto. Quero ser aquela e a atual. Tenho quase certeza de que posso conciliá-las.
Ele beijou a ponta do meu nariz.
— Faz tanto tempo que não te vejo tão entusiasmada assim com algo — disse e, em seguida, me deu um beijo. — Sabe que estarei ao seu lado em qualquer decisão sua, não é?
— Menos viagem no tempo — brinquei.
— É, menos viagem no tempo — ele sorriu. — Apesar de que sou grato pela viagem no tempo por ter trazido você até mim. Já chega de viajar, quero você comigo para envelhecermos juntos e ver nossos filhos crescerem.
— Também sou grata à viagem no tempo — comentei. — Foi graças a ela que temos três filhos, mas é por causa dela que posso aproveitar bem todas as suas versões no curso natural da vida. — Puxei-o pelo cabelo, beijei-o e me entreguei a ele como se nossas vidas dependessem daquilo.
não se foi naquele dia. E nem no dia seguinte. E nem no que se sucedeu...

* * *


2019

— Mamãe, o papai está te chamando lá fora — Hannah anunciou ao entrar no chalé. Desviei a atenção da tela do computador para fitá-la e ela se movimentava pelo pequeno ambiente, se preparando para se deitar na parte de cima do beliche. Emma lia pacientemente em seu leitor digital enrolada no cobertor na parte de baixo e Jon dormia em um saco de dormir no chão.
— Ele disse o que queria? — perguntei, sem querer largar meu artigo na melhor parte.
— Não. Ele só está lá sentado, te esperando — respondeu, arrancando o casaco e deixando cair de propósito em cima do rosto do irmão.
— Hannah! — ele gritou quando viu o que o tinha atingido. — Quando consigo dormir para me livrar desse lugar frio e idiota!
— Você passou o dia inteiro enchendo o nosso saco e agora vou encher o seu também — ela respondeu.
— Ela tem razão nisso. Você é um porre, Jon. Não pode aproveitar a viagem e largar essa pose de adolescente revoltado só para variar? — Emma disse, impassível.
— Está me chamando de adolescente revoltado, Emma?! — ele perguntou em um tom afetado. Se bem o conhecia, ele estava prestes a explodir.
Rolei os olhos e fechei a tela do computador. Preferia enfrentar o frio a mais uma discussão de crianças de 27, 21 e 15 anos. Vesti meu casaco, calcei minhas botas, coloquei a touca e as luvas enquanto a briga rolava. Eles, quando discutiam, me remetiam tanto ao pai e aos tios, era até ridícula a semelhança.
Eu estava terminando de escrever mais um artigo, apesar de estarmos no meio de uma viagem para o vilarejo de Abisko. Desde que apresentei o meu livro em um programa famoso, ganhei certa fama por escrever sobre viagem no tempo. Depois de procurar Solveig-elefante em todos os lugares possíveis e registros, concluí que só pode ter aparecido para mim com o propósito de me fazer viajar, então me concentrei desde a metade de 2004 a estudar e procurar teorias sobre a viagem no tempo.
Fechei a porta enquanto os três aumentavam as vozes algumas oitavas, sem perceber que saí. estava sentado em uma cadeira de praia diante do céu esverdeado pela aurora boreal e sorri com a visão de seu cabelo grisalho a um palmo de alcançar a neve no chão. Nós estávamos ali, quase no fim do inverno, por causa da aurora boreal. era um romântico incurável, ele nunca esqueceu do meu interesse pelo fenômeno, apesar de já terem se passado quase 29 anos que revelei. Beijei o topo de sua cabeça e me sentei na cadeira vazia ao seu lado.
— Seus filhos são a reprodução perfeita de você e seus irmãos — falei, ajeitando meus pés na neve fofa. Ele me encarou. — O motivo da briga agora é pelas reclamações de Jon. Emma e Hannah se uniram contra ele.
— Elas estão certas, esse garoto é um saco. Só reclama o tempo todo. Deveríamos ter deixado ele com o Dre — resmungou.
Jon realmente estava ultrapassando o limite do aceitável com suas reclamações diárias desde que chegamos ali.
— Por que você me chamou aqui? — perguntei, analisando-o. As rugas, algumas manchas da idade e os cabelos grisalhos não estragaram sua beleza.
— Ah, sim. — Ele pareceu se lembrar. — Tenho algo para te mostrar.
Sacou o celular do bolso e se esticou até encostar a cabeça no meu ombro. Deu play em um dos vídeos da galeria. Reconheci como sendo uma das fitas da câmera que eu usava para gravar durante a promoção do disco, mas não era eu quem estava sob posse da câmera e sim o pai dele. Era meu primeiro dia de trabalho, eu conversava com , que estava sentado no sofá em um set de filmagem para uma entrevista para a TV portuguesa. Algo que ele disse me fez rir, mas depois retribuí e ele deu um sorriso cafajeste que fez seus olhos brilharem. Apertei a tela para pausar na hora.
— Onde você conseguiu isso? Achei que tivéssemos perdido tudo quando o porão inundou em 2011 — perguntei, me virando para encará-lo.
— Karin me deu algumas cópias há um mês. Börje guardou e eu mandei transformar de cassete para arquivo mp4 — explicou.
Concordei com a cabeça e voltei os olhos para a tela.
— Olha esse seu sorriso de conquistador barato! — ri. — Eu fui mesmo muito guerreira para resistir a você a maior parte do tempo.
— Eu já estava apaixonado por você aí — comentou. Mesmo que ainda tivesse encostado no meu ombro, soube que estava sorrindo.
— Duvido. Aqui você só queria dormir comigo — retruquei. — Você meio que já admitiu no dia que voltei da viagem.
— É claro que eu queria, você sempre foi linda e eu estava apaixonado. Que tipo de pessoa apaixonada não pensa assim?
— Você tem um ponto — admiti. — Eu também já fantasiava até demais com isso.
Ele riu e apertou play no vídeo, que já cortou para outro dia e um lugar diferente. Estávamos na Österlånggatan, um dos pontos turísticos de Estocolmo, eu o filmava ao lado de uma estátua enquanto fumava e falava que era mais uma estátua qualquer. me chamou com o indicador e me aproximei com a câmera, ele perguntou bem de pertinho “como está meu cabelo?” e eu gargalhei. Foi o tempo para ele pegar a câmera e me mostrar rindo, perguntando se sabia que fico linda quando sorria assim e dava para ver que me derreti toda. Ele que pausou dessa vez.
— Você fica linda sorrindo — comentou.
— Eu? Aos 25 podia até ser, mas agora já estou na meia-idade e essas rugas...
— Nunca vou me cansar de dizer o quanto você é linda. — Senti-o se virando e beijando meu cabelo meticulosamente pintado para esconder os fios brancos, exatamente como minha mãe fazia com o dela.
Meu rosto esquentou pelo elogio, mesmo no frio cortante, e percebi que ainda era o suficiente para me fazer derreter. Apertei o play para disfarçar e continuamos assistindo até uma voz conhecida sair pelo alto-falantes e a gravação acabar.
— É a Natalia? — perguntei.
— Sim. Foi a primeira vez que vocês se encontraram, lembra?
— Lembro. Eu me senti tão deslocada no meio de vocês dois, foi até ridículo. E aquelas provocações dela me tiravam do sério. — Desviei os olhos do celular pensando em Natalia, em como ela sumiu de tudo, da empresa que trabalhava com a produtora, da casa dos ... — O que aconteceu com ela?
— Se mudou para a Bélgica e cortou contato com a gente logo depois do aniversário da Lilly em 1991 — respondeu. Sua mão esquerda coberta pela luva acariciava minha perna.
— Nossa, desde esse dia ela sumiu? Nem com seu pai ou seus irmãos ela conversou durante todos esses anos?
— Não. Ela realmente não engoliu bem essa história de marido e pai. — Soltou uma risadinha. — Não foi isso que planejamos para a nossa vida, eu e ela, então até entendo a indignação.
Suspirei.
— Você nunca pensou em procurá-la? — perguntei.
Ele que se afastou para me olhar, tirando a mão da minha perna.
— Logo você me perguntando isso? — ele estranhou.
— Já faz tanto tempo e vocês, querendo ou não, eram amigos — justifiquei e só naquele momento percebi que tremia um pouco, não sei se pelo frio ou pela ansiedade que o assunto trazia. — Ainda acho que não fomos muito justos com ela aquele dia.
— Ela que foi embora e cortou relações comigo, . Eu até a convidei para o nosso casamento. — Ele franziu o cenho. — Nunca pensei em correr atrás por achar que ela não tem mais interesse na minha amizade, afinal eu gosto muito da vida que escolhi.
— Pode ser que ela também seja mãe ou esposa agora — sugeri. Eu deveria parar de insistir, mas tantos anos já se passaram. Ela também deve pensar da mesma forma. Lembrei de pensar que ela parecia até legal longe dele, então pode ser que agora seja mais suportável um reencontro.
— É, pode ser. Só que ela que deveria me procurar e não o contrário. Ainda moro na mesma cidade, tenho o mesmo sobrenome e a mesma banda. Se a Natalia quisesse retomar qualquer tipo de contato, teria pelo menos aparecido no enterro do Börje, os pais dela souberam da notícia.
Prendi os lábios em uma linha fina. Se ele não queria, quem era eu para julgá-lo? Ouvi seu amigo, o Rex, dizendo que Natalia aparecia às vezes para um almoço na casa dele, os dois se conheceram através dos amigos em comum ao longo da década de 90. Além de Rex, os outros amigos em comum também eram amigos de , então fortes chances que ela soubesse que Börje tinha falecido e continuava evitando ou os outros .
— Bem, você que sabe. Vamos continuar o vídeo — pedi, querendo encerrar o assunto porque ele parecia, de repente, sério demais.
Ele voltou a se encostar em mim, mas dessa vez minha cabeça descansou em seu braço e a dele na minha. Nós assistimos a mais momentos do passado e percebi o quão ruim eu era tentando filmar, não tinha estabilidade nenhuma. A ameaça de um clima ruim do assunto da Natalia passou e nós nos pegamos gargalhando várias vezes das nossas trapalhadas. Quando a filmagem dos “dias felizes” na praia chegou, eu estremeci. Não sabia se ele tinha mantido minha gravação no final da fita. Quando tinha passado os dias no Brasil, vi meu rosto abatido enquadrado e obtive minha resposta.
Vimos, atentos, meu discurso e senti uma nostalgia me dominar como só havia feito em 2004, quando achei que ele morreria e relembrei da viagem no tempo. Os hormônios mal me deixavam ouvir a razão, ainda mais na primeira gestação que ainda não sabia lidar muito bem com eles. Eu era tão... nova. Tão jovem. Ao contrário da minha outra vida de 2019, ouvir essa de 1990 parecia o começo do meu eu do presente. Foi mais ou menos nessa época que renasci.
A tela ficou escura. Pensei que tinha acabado, já que eu parei de filmar exatamente depois disso, mas continuou atento ao vídeo, então decidi ficar calada e olhá-la também. Logo surgiu ele, em seus 53 anos, enquadrado e na mesma qualidade precária que minha versão mais nova estava falando há pouco.
Oi, viajante do tempo. Se está vendo esse vídeo, é porque você sobreviveu. — Ele riu. — É... Eu sou seu marido e vim te atualizar do que aconteceu desde que você voltou para mim. Demorou um tempo para ficar a par do que aconteceu contigo nos meses que você sumiu, mas você foi paciente, me contou e deu um jeito de me incluir em tudo. Nós tivemos nossa primeira filha, Emma, em 1991 e agora ela já tem 27 anos. Dá para acreditar? A minha garotinha já está perto dos trinta! Ela é a professora de história mais apaixonada pelo que faz de todo o mundo e tem um namorado que particularmente eu não gosto muito, porque pequenos detalhes daquele garoto me remetem a mim e tenho a impressão de que ele é um sem-vergonha que nem eu era. O nome dele é Adam e é claro que você adora o patife, te vejo ficando toda boba quando ele puxa seu saco, dizendo que você parece irmã da Emma.
“Nós nos casamos em 1994, numa cerimônia grandiosa, que, com certeza, teve o mais importante para você: a dança final. Foram semanas de aulas intensivas com Karin, foi aí que descobrimos que ela era dançarina no começo dos seus 20 anos e que desse modo conheceu meu pai, então tudo fez sentido. No dia do casamento, até usei um terno idiota que pinicava que Lilly escolheu, e enquanto eu me coçava, você entrou no local ao lado de Börje toda linda vestida de branco. Lilly entrou com Emma e as duas usavam o mesmo vestido de tamanho diferentes, foi engraçado e fofo. Andreas e Rex foram meus padrinhos e se encarregaram de me ajudar a escolher as alianças. Eles têm bom gosto, afinal; toda vez que falo em trocá-las, você me censura.
“Passamos um bom tempo só nós quatro: eu, você, Emma e Solveig. E então você descobriu que estava grávida da Hannah em 1997, Solveig também morreu nesse ano e ao mesmo tempo que ficamos felizes, sofremos bastante. Ao contrário do nascimento de Emma que éramos apenas nós dois, você gritou comigo por estar nervoso e preferiu que Lilly te acompanhasse até a sala de parto. Porém Lilly desmaiou ao ver sangue e tiveram que me chamar para acudir vocês duas.
“Hannah, nossa filha do meio, decidiu seguir meus passos e se tornar musicista. Ela entrou na faculdade de música, ao contrário de mim que só segui meu instinto até aqui. Não consigo expressar em palavras o quanto fico orgulhoso quando a vejo tocando violino, violoncelo ou o piano. No seu aniversário de 50 anos, ela tocou no piano e Lilly cantou aquela sua música cafona favorita, ‘My Heart... So Blue’
do Erasure e conseguiram te fazer chorar por mais de uma hora. Até eu tive vontade de chorar, foi tão lindo... Nossa filha é realmente talentosa.
“Foi uma surpresa quando você me disse que queria ter um terceiro filho. Por um momento, eu achei que ficaria louco de vez com mais uma criança circulando pela casa, mas quem sou eu para te negar qualquer coisa? Quem dirá um bebê. E você sofreu, . Tomou tantos hormônios por muito tempo e eles te faziam tão mal que, em um belo dia, eu decidi que te pediria para desistir, mas aí quando fui falar contigo, você estava petrificada segurando um teste de gravidez. Pensei que era mais um negativo pela sua reação e, quando olhei, era positivo. Só quando te levantei para comemorar é que caiu sua ficha que seria mãe de novo e você reluziu.
“É do brilho no seu olhar quando pegou eles pela primeira vez que nunca me esquecerei. Foi exatamente o mesmo quando os três nasceram, eu guardo essa memória no meu coração ao lado de milhares ao seu lado e as vezes que me pego relembrando, sorrio sempre.
“Jon é um típico adolescente e isso às vezes me dá nos nervos. Ao contrário da mãe e das irmãs, ele diz que não quer fazer faculdade, assim como eu. Aquele moleque... Ele só tem 15 anos, não sabe nada sobre a vida, mas acha que sabe mais do que eu, a pessoa que limpou a bunda dele nos primeiros anos de vida! Você, com ele, é um poço de paciência. Já comigo, me manda parar de ser criança. Como se eu tivesse culpa do meu filho andar por aí falando que quer ser subcelebridade de rede social
. E ele ainda ganhou seguidores falando que era meu filho, ou seja, me usando para corroborar essa meta absurda. No dia em que descobri isso, fiquei tão puto que falei que o mandaria para uma escola interna no Japão, bem longe daqui. Você ficou brava comigo, me trancou no nosso quarto e disse que me mandaria para o Japão sem passagem de volta se continuasse a falar com ele assim. Hannah diz que Jon é o seu favorito pelo modo que você o defende, mas já expliquei para ela que é algo em que os irmãos caçulas são privilegiados. Afinal, sempre foi assim que meu pai tratou Lilly.
“Lilly canta em uma banda produzida por mim e pelo marido dela, o ‘garoto finlandês’, que não é mais tão garoto assim porque está calvo. Ela também tem um emprego em uma emissora de TV e dois filhos pestinhas, Bjorn e Sven. Vocês ainda são melhores amigas inseparáveis. Já Andreas, é divorciado, tem sua própria loja de venda de carros usados e mora com o único filho, Frederik, ou como a gente carinhosamente chama: Freddie. Karin me ajuda a gerenciar a produtora depois da morte de Börje e Rex continua me ajudando no estúdio, com a minha banda e as outras bandas que produzo. Acho que você de 1991 não conhece Rex ainda, mas ele é um grande amigo meu e seu admirador. Ele toda vez te faz rir ao dizer que você tem garra para me aguentar. Ele não está errado, nós três sabemos muito bem disso.
“Ao longo desses anos, vi várias versões suas florescerem. Porém, depois do dia da minha suposta morte em 2004, você mudou radicalmente. Decidiu fazer faculdade e escrever um livro. Ao te ver no palco falando sobre a sua experiência em escrever
, eu me senti o cara mais sortudo do planeta Terra. Você é foda, . Você é uma mãe foda, uma esposa foda e uma mulher extremamente foda. Você fez o mundo se apaixonar pela nossa história, mesmo que elas jurem que é ficção.
“Eu te admiro tanto, sempre te admirei. Desde que você caiu de paraquedas na minha vida, eu sou um homem genuinamente feliz. Tenho motivos para sorrir todos os dias porque acordo ao lado da mulher mais linda e incrível que já pus os olhos. Quero que você saiba que nós somos o que somos do lado de cá por sua causa, por você ter viajado no tempo e me salvado nessa época aí, mas também porque você foi o pilar que sustentou nossa família durante todos esses anos. É por sua causa que viver é tão leve, que nossos filhos são esplêndidos. Eu me apaixono por você a cada manhã. Mas... Quem não se apaixonaria loucamente por quando ela viajou quase 30 anos só para te encontrar e depois passou quase 30 anos ao seu lado?”.
Eu estava atônita, assimilando o que acabou de acontecer diante dos meus olhos. Ele recolheu o celular, se afastou e o colocou de volta no bolso.
— Você acha que sua versão de 1991 gostaria desse final? — me perguntou com expectativa.
— Oh, ... — Encarei-o com os olhos marejados. — Ela amaria! — Passei os braços pelo pescoço dele e chorei em seu ombro. As lágrimas deixando meu rosto mais quente e logo em seguida mais frio.
Ele tinha gravado uma mensagem resumindo toda a nossa trajetória até ali para responder a de 1991 que estava deixando o século 20 esperançosa de voltar para viver o seu final feliz. Não havia presente mais singelo do que aquele. Eu realmente vivi meu final feliz.
— Você realmente me surpreendeu. — Sorri com sinceridade. — Eu te amo.
— Depois de passar a vida sendo surpreendido por você, eu precisava te surpreender ao menos uma vez. — Ele sorriu e então me beijou. — Te amo, baby.
E enquanto nós vivêssemos, para sempre seria: e .



FIM.


Nota da autora: Nem acredito que essa é minha última nota nessa fanfic, foi tanto tempo compartilhando meu processo de escrita aqui que não estou pronta para dizer adeus a nenhum detalhe. Primeiro, quero dizer que essa história não teria acontecido se minha beth não fosse tão legal e estivesse comigo desde o capítulo 1, quando eu nem sabia se colocaria o nome original da banda do pp e ela me ajudou dando a opinião dela (eu nunca me esqueci); Luasi, muuuuuuito obrigada por ter cuidado da minha primeira fic com tanto carinho e por ter aturado essas atts gigantes ❤️
Segundo, essa era para ser uma história que nunca sairia dos meus arquivos, uma coisa só minha para revisitar quando estivesse entediada, mas fico feliz que eu tenha decidido enviar para o Ficsverse e ela tenha chegado até você. Quando eu terminei One Road lá no começo de 2023, eu tinha certeza de que eu era autora de uma fic só e no meio dela consegui dar início a várias histórias; sempre vai ter o primeiro trabalho e você vai querer mudar várias coisas nele, mas ele é que vai te impulsionar a escrever outros, por isso, se você quer escrever, não desista. Obrigada por acompanhar a trajetória da Sonne para salvar o ídolo dela. Ah, e tem mais: eu tirei o capítulo de casamento do arquivo dessa fic e transformei em shortfic, então, vamos ter mais da Emma, da Sonne e do Ace. Até mais!

Nota da beth: Eu que não acredito que chegamos ao fim depois de quase 50 capítulos, passou tão rápido!!!! Foi incrível fazer parte dessa caminhada desde o início, eu tenho um carinho enorme por ORT20C e por todo esse tempo que estabelecemos essa parceria, muito obrigada por ter confiado em mim ❤️
Mal posso esperar para ler esse spin-off, já sinto falta de acompanhar essa família hahaha você fez um ótimo trabalho dando vida a eles e ainda por cima dentro de um contexto de viagem de tempo com inúmeras indas e vindas. Parabéns pela sua dedicação e competência, que venham muito mais histórias ❤️
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