Codificada por: Sol ☀️
Última Atualização: 27/06/2025.Tra le bugie e la polvere, un’occasione.
observava as paredes desbotadas do goshiwon com os olhos vagos. Entre os dedos, a alça fina de sua caneca favorita; a cada gole do mocha cremoso e adocicado, sentia-se um pouco mais longe dos pensamentos amargos — ainda que só por alguns instantes.A pequena cozinha compartilhada não se parecia em nada com o espaço amplo e iluminado onde trabalhou por anos em Lisboa. Do fogão portátil de duas bocas à geladeira apertada, onde repousavam apenas potes de kimchi e garrafas de água, tudo ali parecia comprimido e este era um contraste que pesava no peito. Ainda assim, voltar não era uma opção.
De repente, uma colega de moradia cruzou o ambiente com passos firmes, dissipando assim o aperto claustrofóbico que o silêncio regado de dissabores trazia. O som da chaleira elétrica foi como bossa para os ouvidos, tanto que soltou um suspiro de agradecimento enquanto a mirava de canto — reparou ela que carregava uma mochila nas costas e uma expressão cansada no rosto arredondado.
Sentindo o peso do olhar alheio em suas costas, Nayeon se virou.
— Quer um? — perguntou, erguendo uma embalagem de pão doce. Ela sempre falava devagar e com suavidade na pronúncia; uma gentileza silenciosa sempre envolvia em um conforto sem tamanho.
— Não, obrigada — mesmo sem humor, deixou escapar um sorriso leve. — Chegando agora do trabalho? — indagou, relembrando do dia em que a encontrou atrás do caixa da loja de conveniência do bairro às duas da manhã.
— Sim. — respondeu em meio a um bocejo. — Tenho algo para você, aliás.
Com a sobrancelha arqueada em nuances de curiosidade, a assistiu mexer na mochila até retirar de lá um pedaço de papel rasgado.
— Uma amiga me indicou esse lugar ontem — explicou, apontando para a escrita em hangul no papel. — Eles precisam de barista e como não posso ir, guardei para te mostrar.
Embora a dificuldade devido ao seu coreano ainda intermediário, conseguiu compreender mais da metade do que estava rabiscado ali; o restante, tiraria a limpo no celular.
— Nem sei como te agradecer — murmurou. Pela primeira vez depois de tudo, algo se acendeu por trás de seus olhos.
— Não é para tanto.
— Você não faz ideia — disse, se movendo na direção do corredor estreito — Assim que receber o meu primeiro pagamento, te pago um jantar!
Apesar do dar de ombros despretensioso de Nayeon, notou um riso sutil cruzar os lábios finos dela antes de dobrar as escadas para o terceiro andar. Pela primeira vez, o cheiro forte de desinfetante barato não a incomodou. Também pela primeira vez, o sufocante quartinho quatro metros não a enjaulou.
Ela tirou a toalha dos cabelos úmidos pela ida recente à casa de banho e alinhou as ondas longas em um rabo de cavalo bonito. Em seguida, colocou jeans escuros e um par de tênis confortáveis, organizou a bolsa e atravessou às portas do goshiwon com passos firmes.
O ar levemente frio da manhã a envolveu junto do calor ainda tímido do sol. Com o celular na mão, atravessou às ruas estreitas de Jongno-gu com um pouco mais de convicção dessa vez.
Mesmo assim, quando o nome do lugar apareceu no mapa junto de uma fachada bonita, sentiu o estômago embrulhar. Não pôde evitar a pergunta que sempre voltava: será que o restaurante com o qual passou quase dois anos idealizando poderia ter sido assim também?
Já havia se passado quase um mês desde que as mentiras bonitas de Park Taemin tinham ruído, e, às vezes, ainda não se sentia capaz de assimilar.
Sendo experiente em matéria de abandono, devia saber que quatrocentos e cinquenta e cinco dias não seriam o bastante para tornar alguém digno de confiança. Mesmo assim, teve a audácia de entregar a ele um envelope com as suas economias de anos.
Agora, se perguntava se a coisa toda não tinha sido óbvia demais.
Naqueles dias, afogada em uma tempestade interminável de problemas — o pai bêbado e desaparecido, a irmã que não queria se envolver —, não enxergava nada além de uma chance de acerto em meio a toda a cacofonia dilacerante que a rodeava.
Tinha colocado tudo o que possuía naquele sonho, por isso, mesmo com as mãos abanando em um país estrangeiro, não podia, tampouco queria, se permitir desistir.
Ao vivo e a cores, o prédio da cafeteira era mais bonito do que a foto na internet. A fachada envidraçada e os vasos de flores delicadas nas laterais, bem como os detalhes em madeira de tom suave, tornavam o ambiente acolhedor e agradável. As duas funcionárias atrás do balcão, com sorrisos nos olhos e aventais marrons, atendiam com agilidade e presteza.
Parecia um bom lugar para recomeçar.
Com um puxar de ar profundo, aprumou os ombros e empurrou a porta. Foi atendida com educação e gentileza. Estendeu o papel com a mão úmida de suor e foi levada pela moça do balcão para se sentar — lhe ofereceram água gelada ou chá de cevada, mas recusou com um sorriso polido.
Pouco depois, ela voltou acompanhada pela gerente e logo as deixou a sós.
— Desculpe. Já conseguimos alguém para a vaga.
A mulher disse aquilo com delicadeza, tanto que as palavras soaram mais leves do que deveriam ser. Mas, por mais tênues que fossem, não abafavam os ecos da porta que se fechava.
sabia da possibilidade de um não. Ao longo da curta estadia em Seul, a bendita palavra ecoava em seus ouvidos mais vezes do que gostaria. Daquela vez, só estava mais esperançosa, animada demais sem razão.
Por mais abalada que estivesse por dentro, agradeceu e se levantou sem permitir que o brilho fosco do riso mecânico se dissipasse. Na calçada, o sol já batia com um pouco menos de sutileza, mas ainda não aquecia. Sentiu o celular pesar na mão.
Sem vontade de voltar ao goshiwon, seguiu em frente.
As ruas de Jongno-gu a abraçaram com tranquilidade vivaz. Havia um mercadinho já de portas abertas e alguns idosos perambulavam pela rua com sacolas cheias nas mãos. Em suas passadas sem destino, cruzou com uma livraria com um novo romance na vitrine e também por uma casa de chá que cheirava a jasmim.
Apegada a distração momentânea, dobrou uma esquina quieta. Observava a beleza astuta das casas Hanok quando esbarrou de forma abrupta em outro alguém. O barulho alto de coisas caindo ecoou, quebrando a paz quase íntima que envolvia o beco.
— Ah! — murmurou, recuando um passo. O rapaz a frente fez o mesmo.
Ao olhar para o chão, viu ali uma pequena bagunça. Havia uma caixa de papelão e outras coisas mais, mas nada parecia quebrado. Ele resmungou algo em coreano, se abaixou, e então olhou para ela.
Por um segundo, ficaram apenas se encarando.
Ele pareceu hesitar por um instante e logo puxou o boné preto com força, cobrindo o rosto ao ponto de só restar nuances de uma silhueta. piscou.
— Me desculpe — ela disse em um coreano enrolado, a voz baixa e acanhada.
— Tudo bem — ele respondeu num timbre rouco de quem dormiu mal. Estava com uma camiseta manchada, um moletom cinza jogado por cima, e tinha o cabelo escuro preso num coque frouxo.
— Eu... posso ajudar com a caixa? — arriscou, ao vê-lo recolher os itens com esforço visível.
Ele ergueu os olhos. Por um instante, pareceu pensar muito cuidadosamente a respeito. Por fim, respondeu:
— Não precisa, mas... se quiser mesmo, não vou recusar.
assentiu e se abaixou. Recolheu do chão alguns talheres e panos, bem como outros utensílios de cozinha.
— Você mora aqui perto? — perguntou, já o acompanhando sem perceber.
— Logo ali — disse, apontando com o queixo para uma construção antiga com fachada de tijolos aparentes.
Sem deixar para trás convites, ele se virou e caminhou até lá com passos lentos. o seguiu de perto, observando tudo atentamente — os fios de grama escapando pelas rachaduras do cimento, as paredes gastas que pareciam carregar histórias, o som abafado da cidade que parecia ficar mais distante ali. Quando ele empurrou a porta de madeira, ela sentiu o coração pulsar mais forte, sem saber ao certo se era por curiosidade ou por cautela.
Do lado de dentro, o cheiro da tinta de cor suave ainda permanecia nas paredes e o piso de madeira estava recoberto por uma lona grossa cheia de respingos secos. Partículas de poeira vinham das vigas expostas no teto e dançavam na luz abundante que vinha das janelas grandes, como se o lugar tivesse vida própria.
— Está reformando? — tendo a pergunta na ponta da língua, não foi capaz de guardá-la para si.
— Sim. Na parte de limpar, na verdade. — resmungou, colocando a caixa em um canto.
— E pretende alugar quando acabar? — sabia que o turismo era volumoso na região e um lugar como aquele podia facilmente atrair um bom público.
— Não. Será um restaurante.
— Ah! — a surpresa iluminou o olhar de , que percorreu o ambiente com mais atenção. Havia ali uma dualidade bonita: o tradicional ganhava abrigo no toque sutil do moderno. — Está ficando bom.
Ele assentiu, os lábios comprimidos num gesto contido.
— Obrigado pela ajuda.
Com as mãos inquietas, resmungou:
— Se estiver precisando de... hum... alguma força na limpeza...
— Não quero incomodar — ele respondeu, passando a mão pela nuca em um gesto que permeava entre embaraço e resistência.
Com um pequeno sorriso, gesticulou.
— Não vai. E ainda posso negociar a minha ajuda.
— Negociar? — com os braços cruzados na altura do peito, ele batia a sola do sapato no chão repetidas vezes.
— É que esse lugar tem cheiro de kimchi fresco e isso está mexendo comigo — riu de si mesma. — Tenho comido cup noddles e kimbap da loja de conveniência por tempo demais para ser considerada uma pessoa sã, entende? Então, se puder me oferecer um prato de comida caseira, será o bastante para compensar algumas horas de trabalho.
Com um lampejo de estranheza nos olhos, ele a encarou por alguns instantes, tentando descobrir se ela falava sério ou não. Aos poucos, a desconfiança começou a perder espaço para a necessidade gritante de se ter um par de mais extras à disposição.
— Espere aqui.
Apressado, ele foi para os fundos em busca de esfregões e um balde. Quando voltou, ainda parecia hesitante, mas compartilhou os suprimentos de limpeza.
— Tiramos as lonas e então cuidamos do chão primeiro. Tudo bem para você?
— Sem problemas. — colocando a bolsa em cima de uma pilha de caixas, ela arregaçou as mangas do suéter e enrolou os cabelos em um coque alto.
Enquanto começavam a trabalhar em um silêncio confortável, olhava em volta com mais atenção, percebendo pela primeira vez a delicadeza dos detalhes escondidos sob a bagunça: molduras antigas na madeira, luminárias pendentes ainda embaladas, o balcão inacabado coberto por um tecido protetor. Aquele lugar não estava se moldando para ser só um restaurante — transbordava alma e intimidade, mesmo inacabado — e, por algum motivo além do entendimento, ela sentiu vontade de permanecer.
