Capítulo 1: O Som da Cerâmica, o Amor e a Queda
Se existia um lugar no mundo onde o tempo parecia obedecer às regras próprias, esse lugar era o ginásio da Escola Fundamental Kitagawa Daiichi no final da tarde.
O ar ali dentro tinha uma densidade quase palpável: a poeira suspensa nos feixes de luz dourada que cortavam as janelas altas, o cheiro metálico e inconfundível do suor impregnado nas paredes, a mistura de cera de piso com a borracha quente dos tênis e o som seco, contínuo e compassado das bolas de vôlei atingindo o chão amadeirado. Para a maioria dos alunos que passavam pelo corredor externo, era apenas o barulho ensurdecedor de uma atividade extracurricular. Para , era o som da sua própria respiração.
estava ajoelhada na linha de fundo da quadra feminina, amarrando o cadarço do seu tênis esportivo com uma precisão quase cirúrgica. Ela vestia o uniforme azul e branco do time, com o número 2 estampado nas costas. Como levantadora titular e capitã estratégica do time feminino da Kitagawa, sua rotina não começava no apito inicial do treino, mas sim nos minutos de silêncio que antecediam a tempestade.
Enquanto a maioria dos levantadores focava apenas na trajetória da bola e na altura do passe, o cérebro de funcionava de forma diferente. Ela enxergava a quadra em linhas vetoriais. Sabia exatamente quantos passos sua atacante de ponta precisava dar para atingir a impulsão máxima; conseguia calcular, pela inclinação do quadril da bloqueadora adversária, se o bloqueio duplo deixaria uma brecha de dez centímetros no corredor; e sabia, acima de tudo, como ditar o ritmo de um jogo inteiro sem jamais erguer a voz.
— ! Se você continuar encarando esse cadarço com essa cara de freira brava, ele vai se amarrar sozinho por puro pavor! — uma voz incrivelmente dramática ressoou da porta de entrada do ginásio.
não precisou olhar para cima para saber quem era. O tom melodioso, ligeiramente debochado e acompanhado pelo som característico de passos desleixados só podia pertencer a uma pessoa.
Oikawa Tooru estava encostado no batente de madeira da porta do ginásio, com a jaqueta do time masculino jogada displicentemente sobre os ombros. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados pelo treino pesado que acabara de encerrar no ginásio ao lado, e ele ostentava no rosto aquele sorriso irritantemente seguro de si que fazia metade das garotas do primeiro e segundo ano suspirarem nos corredores.
Logo atrás dele, surgindo como uma sombra carrancuda e carregando um galão de água de cinco litros em uma das mãos, vinha Iwaizumi Hajime.
— Não enche o saco dela, Trashkawa — resmungou Iwaizumi, passando direto pelo amigo e desferindo uma cotovelada leal nas costelas de Oikawa, que soltou um ganido exagerado. — A tá concentrada. Coisa que você devia estar fazendo em vez de vir aqui gastar a pouca energia mental que te resta.
— Ayo! Iwa-chan, isso foi agressão física sem qualquer provocação prévia! — Oikawa massageou a costela, fazendo um biquinho indignado antes de voltar a atenção para , com os olhos brilhando de uma provocação infantil. — Mas sério, -chan... eu vi os últimos dez minutos do seu treino de conjunto antes do nosso treinador chamar a gente pra palestra. O seu levantamento para a bola rápida de centro... esteve exatamente três centímetros mais baixo do que a altura ideal. Eu medi visualmente do banco.
terminou de dar o nó duplo no cadarço, levantou-se devagar e limpou as palmas das mãos na lateral do calção escuro. Ela caminhou em direção aos dois, parando a um passo de distância de Oikawa. Ela ergueu o queixo, encarando aqueles olhos castanhos expressivos com uma serenidade que ela sabia que o irritava profundamente.
— Três centímetros, Tooru? — ela perguntou, a voz suave, mas carregada de uma ironia afiada. — A nossa central, a Yumi, tem um metro e sessenta e dois. Se eu levantasse a bola na altura que o seu ego considera "ideal", ela teria que subir de escada pra conseguir tocar na bola. Eu ajusto a bola para a anatomia e o tempo do meu atacante. Eu jogo pra equipe pontuar, não pra fazer pose pra plateia como certo levantador do camisa 2 masculino que adora mandar bolas impossíveis só pra parecer um gênio nas fotos do jornal escolar.
Iwaizumi soltou uma gargalhada curta e alta, um som seco que ecoou pelo ginásio quase vazio.
— TOMOU! — Iwaizumi apontou para o rosto de Oikawa, que estava visivelmente congelado em choque teatral. — Ajoelha e pede perdão, Oikawa. Ela acabou com a sua existência em duas frases.
— Que calúnia absurda! — Oikawa dramatizou, levando as duas mãos ao peito como se estivesse sangrando no chão. — Eu sou um modelo de altruísmo esportivo! Eu me dedico de corpo e alma para levar os meus atacantes ao ápice! Iwa-chan, por que você sempre fica do lado da sua prima?! Isso é favoritismo nepotista explícito! Onde está a solidariedade entre parceiros de time?!
— É porque a tem um cérebro funcional e você só tem serragem e vaidade nessa cabeça oca — Iwaizumi respondeu sem piscar, caminhando em direção ao banco para deixar o galão de água. — E, além disso, se eu não defender minha prima, minha mãe me mata no jantar. Agora cala a boca e pega a sua mochila.
soltou uma risada genuína, o som claro e leve que instantaneamente desarmou a pose dramática de Oikawa. Ele olhou para ela e, em uma fração de segundo, a expressão de garoto mimado deu lugar a um olhar infinitamente mais quente e suave.
Para a Kitagawa Daiichi inteira, eles eram o "Trio Terrível". Hajime era a força bruta, a tempestade implacável que derrubava bloqueios com saques mortais e cortadas na linha paralela. Oikawa era o estrategista narcisista, o gênio em ascensão cujos saques viagem faziam os adversários tremerem na recepção. E era o ponto de equilíbrio, a mente analítica que conseguia prever os erros dos dois antes mesmo que eles acontecessem.
Mas para além das quadras, a dinâmica entre os três era a espinha dorsal de suas vidas. e Iwaizumi eram primos em primeiro grau — as mães deles eram irmãs gêmeas —, o que significava que eles haviam crescido na mesma rua, compartilhando os mesmos almoços de domingo, as mesmas broncas familiares e a mesma teimosia inabalável. Oikawa tinha entrado nessa equação ainda na infância, quando apareceu no parque do bairro com uma bola de vôlei desbotada debaixo do braço e uma determinação absurda de ser o melhor.
E no meio dessa teia de amizade, um sentimento mais profundo havia nascido entre e Oikawa.
Não tinha acontecido de repente, como nas histórias em quadrinhos ou nos dramas de televisão. Tinha sido um processo lento, construído no cascalho dos caminhos de volta para casa. Tinha sido moldado pelas centenas de horas que passaram sentados no chão da garagem de Iwaizumi, dividindo cadernos de anotações táticas, assistindo a fitas VHS antigas de partidas internacionais e discutindo o posicionamento dos pulsos no momento do toque.
Para o resto da escola — e especialmente para o grupo de garotas do segundo ano que costumava cercar a porta do ginásio com cartas de amor e caixas de doces —, Oikawa Tooru era um garoto inalcançável, lindo, meio mimado e dotado de um talento nato.
Mas só conhecia o Oikawa real. Ela conhecia o garoto que entrava em pânico velado se não conseguisse dominar uma técnica nova em menos de três dias; o garoto que passava madrugadas em claro assistindo a vídeos do levantador argentino José Blanco até os olhos queimarem de cansaço; o garoto que tinha uma necessidade quase dolorosa de provar que não era apenas uma sombra do gênio Kageyama Tobio, que havia chegado ao clube no ano anterior.
E, Oikawa, por sua vez, enxergava em algo que ninguém mais via. Ele via a garota que não se assustava com sua obsessão, porque queimava pela mesma chama.
Eles tinham começado a namorar no início do segundo ano do ensino fundamental. A memória era tão nítida na mente de que ela conseguia sentir o cheiro do ar daquela tarde. Eles tinham feito uma aposta idiota após um treino de domingo: quem conseguisse acertar cinco saques consecutivos na quina da linha de fundo pagaria um sorvete para o outro. Oikawa tinha errado o último saque por questão de milímetros — a bola tocou na fita branca da rede antes de cair fora.
No caminho de volta para casa, enquanto comiam picolés de baunilha sentados em um banco de madeira no parque perto da escola, o garoto tagarela que nunca calava a boca para falar sobre rotação de bola ficou subitamente em silêncio. Ele encarava os próprios tênis de cano alto, com as orelhas completamente vermelhas.
— -chan... — ele tinha gaguejado, um tom de voz que ela nunca tinha ouvido vindo dele.
— O que foi, Tooru? Ficou triste porque perdeu pro meu saque de curva?
— Não é isso! — ele protestou, olhando para ela de relance antes de desviar o olhar para as copas das árvores. Ele engoliu em seco, apertando o palito de madeira do picolé com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. — É que... se a gente for jogar junto na Seleção Japonesa quando crescer... eu tava pensando... se eu posso segurar a sua mão. A partir de hoje. Como... você sabe. Minha namorada.
lembrara-se de ter achado a frase a coisa mais brega e ridícula que já tinha ouvido na vida. Mas ao ver o suor frio na testa dele e o tremor sutil na sua mão estendida, o coração dela tinha feito uma cambalhota no peito. Ela não tinha respondido com palavras. Apenas enfiou a mão livre na dele, entrelaçando seus dedos firmemente.
Desde aquele dia, eles haviam se tornado uma força indivisível. Eram noites de sexta-feira na cozinha da casa de Iwaizumi, onde a mãe dele preparava montanhas de curry enquanto obrigava Oikawa a estudar gramática em inglês ameaçando bater nele com uma régua de plástico. Eram as manhãs frias de inverno em que Oikawa passava na casa dela e deixava um pão de leite quentinho dentro da mochila dela antes que ela percebesse. Eram os olhares cúmplices e silenciosos trocados através da quadra durante um tempo técnico pedido pelo adversário — um olhar que dizia: "A gente vai engolir esses caras no próximo ponto".
— Ei, -chan... — a voz de Oikawa a puxou de volta para o presente.
Iwaizumi tinha andado alguns metros à frente, distraído mexendo no celular para responder a uma mensagem da mãe sobre o jantar. Oikawa aproveitou a pequena distância para desacelerar o passo, diminuindo a distância entre ele e no corredor externo da escola. Ele esticou a mão e puxou suavemente a barra da manga do casaco de treino dela.
— Hum? — ela olhou para ele.
— Você vai ficar pra ver o meu treino individual de saques hoje à noite, não vai? — ele perguntou, o tom de voz caindo para um murmúrio quase tímido, despido de qualquer arrogância. — Eu mudei um pouco a passada do terceiro passo antes do salto. Quero que você veja se a trajetória tá ficando muito previsível.
olhou para ele. Viu o cansaço visível ao redor dos olhos dele, o empenho obstinado que beirava a loucura e o desejo genuíno de ter o olhar dela validando o seu esforço. Ela soltou um suspiro dramaticamente pesado, embora os lábios traíssem um sorriso.
— Tooru, a gente tem uma prova de história japonesa na quinta-feira. Se você reprovar, o treinador vai te colocar no banco no jogo de abertura do torneio de outono.
— Eu estudo depois! Eu juro! — ele juntou as palmas das mãos em um gesto de súplica, fazendo um biquinho irresistível. — Duas horas seguidas. Eu faço os resumos da Era Meiji pra você, letra impecável, com marca-texto colorido e tudo! Por favorzinho, -chan?
Ela não conseguia dizer "não" para ele quando ele usava aquele olhar.
— Tá bom — ela cedeu, balançando a cabeça. — Mas com duas condições: primeiro, você vai parar o treino às sete horas em ponto. Segundo, você vai pagar dois pães de leite na conveniência. Um pra mim e outro pro Hajime, pra ele não surtar porque a gente vai se atrasar pro jantar.
— FECHADO! — Oikawa abriu um sorriso tão radiante que parecia capaz de iluminar todo o pátio da Kitagawa Daiichi.
Garantindo que Iwaizumi ainda estava de costas a alguns metros de distância, ele aproveitou a sombra de uma das grandes árvores do pátio, segurou a mão de e puxou-a rapidamente para perto, selando um beijo rápido e estalado na bochecha dela.
— Você é a melhor levantadora do mundo, -chan! — ele sussurrou, piscando um olho antes de sair correndo para alcançar Iwaizumi, rindo da cara de indignação que ela fez ao limpar a bochecha com as costas do casaco.
Aqueles eram os anos dourados. A época em que o mundo parecia incrivelmente simples, traçado em linhas de quadra perfeitamente delimitadas. Na cabeça daqueles três adolescentes, o destino já estava escrito com caneta permanente: conquistariam o Campeonato Nacional de Ensino Fundamental pela Kitagawa Daiichi, iriam juntos para o mesmo colégio no ensino médio — provavelmente a Aoba Johsai, que já sondava os três — e, eventualmente, vestiriam a camisa da Seleção Nacional.
O vôlei não era apenas um esporte para eles; era a linguagem na qual se amavam, se comunicavam e construíam o futuro.
Eles só não sabiam que o destino é um adversário cruel, que não pede tempo técnico antes de mudar completamente o rumo do jogo.
Era o início de novembro do último ano do ensino fundamental. O ar de Miyagi já trazia o prenúncio de um inverno rigoroso, mas dentro do Ginásio Prefectural o calor humano era sufocante.
Era a semifinal do Torneio Regional de Outono Feminino. A quadra principal estava cercada por faixas coloridas, bumbos de torcida e centenas de estudantes que gritavam até a rouquidão. O time masculino da Kitagawa Daiichi já havia massacrado seu adversário na outra quadra mais cedo, garantindo a vaga na grande final do dia seguinte.
Agora, ainda vestindo os agasalhos esportivos azuis e brancos, Oikawa e Iwaizumi estavam de pé na primeira fileira da arquibancada superior, inclinados sobre o corrimão de metal cinza.
— A linha de bloqueio delas tá caindo na pegadinha da toda vez — comentou Iwaizumi, cruzando os braços musculosos sobre o peito. Ele acompanhava a partida com um olhar técnico e atento. — Olha lá. A finge que vai virar o quadril pra ponta e a central do time oposto já dá dois passos pro lado antes da bola sair da mão dela. A leitura da tá perfeita hoje.
Oikawa não respondeu imediatamente. Ele estava encostado na barra de ferro, com o queixo apoiado nas mãos cruzadas. No seu rosto, não havia a pose de garoto propaganda nem a arrogância do capitão. Havia apenas um orgulho puro, absoluto e incrivelmente calmo.
Seus olhos castanhos seguiam cada movimento de na quadra lá embaixo. O cabelo dela, preso em um rabo de cavalo alto, balançava conforme ela se movia com uma graciosidade e uma rapidez impressionantes. Ela parecia flutuar na quadra. A forma como ela recebia a bola ruim, ajustava os pés em uma fração de segundo e entregava um passe macio para a atacante parecia uma obra de arte em movimento.
— Ela é incrível, não é, Iwa-chan? — Oikawa murmurou baixinho, com um sorriso suave no canto dos lábios. — Ela enxerga o jogo melhor do que eu.
Iwaizumi olhou de relance para o amigo, soltando um bufado curto que escondia um profundo respeito.
— Não deixa ela ouvir você dizendo isso, senão o ego dela vai ficar maior que o seu. Mas é... ela tá voando hoje.
O placar eletrônico no topo do ginásio brilhava em números vermelhos: 24 a 23 no terceiro set. Ponto do jogo para a Kitagawa Daiichi.
A torcida da Kitagawa nas arquibancadas explodiu em um coro ritmado, batendo os bastões de plástico barulhentos. Lá embaixo, ergueu a mão direita, fazendo um sinal rápido com três dedos para suas companheiras de equipe. Era a jogada ensaiada. O momento decisivo.
A ponta adversária sacou forte. A bola viajou com velocidade em direção ao fundo da quadra da Kitagawa. A líbero fez uma recepção alta, mas a bola subiu um pouco afastada da rede, caindo perigosamente perto da linha de três metros.
Para qualquer levantador comum, aquilo seria um passe de emergência. Mas se moveu como um raio.
Ela cruzou a quadra, posicionou-se exatamente debaixo da trajetória da bola e saltou. No ar, com o corpo suspenso e os braços erguidos, ela fez a postura perfeita para um levantamento alto de costas. A bloqueadora central do time adversário caiu na armadilha: saltou desesperadamente para tentar cobrir a ponta direita.
Mas no último milissegundo, enquanto estava no ápice do seu salto, flexionou suavemente os pulsos para a frente. Em vez de lançar a bola para trás, ela deu um toque sutil, de ponta de dedo — uma largadinha perfeita e cirúrgica sobre a rede, direcionada exatamente no ponto cego da defesa adversária.
A bola flutuou no ar, descendo suavemente. As defensoras adversárias mergulharam no chão em desespero, mas a bola tocou a madeira da quadra com um baque definitivo.
O ponto era da Kitagawa. A vitória era delas. A vaga na final do Nacional estava garantida.
Mas o som do apito do juiz confirmando o ponto foi instantaneamente abafado por outro som.
Um som grotesco. Um estalo seco, alto e horrendo, parecido com o galho de uma árvore centenária se partindo ao meio.
No momento de arrematar a jogada e retornar ao chão, a bloqueadora adversária havia invadido levemente a linha central por baixo da rede com o pé esquerdo. Ao aterrissar do salto, o pé direito de pisou diretamente sobre o calcanhar da jogadora adversária.
O pé de torceu para fora. O joelho direito, sem qualquer sustentação, girou violentamente para dentro sob todo o peso do seu corpo em queda.
desabou na quadra como uma boneca de pano cuja estrutura tivesse sido destruída.
O ginásio inteiro, que começava a comemorar a vitória, silenciou em uma fração de segundo. O choque foi tão abrupto que parecia que todo o ar da sala tinha sido sugado para fora.
Então, veio o som.
Um grito curto, agudo e desesperado rasgou o silêncio da quadra. Não era apenas um choro de dor física; era o som do terror mais profundo que um ser humano podia sentir. rolou para o lado esquerdo, encolhendo-se em posição fetal, cobrindo o joelho direito com as duas mãos enquanto seu corpo inteiro tremia convulsivamente.
Na arquibancada superior, o sorriso de Oikawa congelou. O sangue fugiu completamente do seu rosto, deixando-o pálido como um cadáver. O mundo ao seu redor perdeu a cor e a tridimensionalidade. O som da torcida, as vozes dos técnicos, os apitos dos juízes — tudo se transformou em um zumbido grave e distante dentro da sua cabeça.
— REN! — o urro de Iwaizumi ressoou ao seu lado, mas Oikawa já não estava mais lá.
Movido por um instinto cego e animal, Oikawa não procurou as escadas de acesso. Ele simplesmente saltou por cima do corrimão de metal da arquibancada, despencando de uma altura de quase três metros direto na área de circulação inferior. Seus joelhos amorteceram o impacto com um baque forte, mas ele nem sentiu.
Ele disparou em direção à quadra como um louco.
— Ei! Garoto, você não pode entrar na quadra! — um dos fiscais da organização do evento, usando um colete amarelo, tentou agarrar o braço de Oikawa enquanto ele cruzava a barreira de proteção.
— ME SOLTA, CARALHO! — Oikawa urrou com uma ferocidade demoníaca que ninguém ali jamais vira naquele garoto sorridente.
Ele se desvencilhou do fiscal com um empurrão violento que mandou o homem ao chão e invadiu o piso amadeirado. Ignorou as jogadoras estáticas da Kitagawa, ignorou a juíza que tentava manter a ordem e caiu de joelhos na quadra, derrapando no chão até parar exatamente ao lado de .
— ! -chan! Olha pra mim! Por favor, olha pra mim! — a voz dele não parecia a dele. Era estrangulada, trêmula, carregada de um pavor absoluto.
estava deitada de lado. As lágrimas lavavam seu rosto pálido, e seus dentes estavam cravados no próprio lábio inferior com tanta força que um fio de sangue começava a escorrer. Ela hiperventilava, com o peito subindo e descendo descontroladamente.
— T-Tooru... — ela conseguiu soltar em um sopro de voz quebrado, um sussurro de dor pura. — Dói... Tooru, dói muito... meu joelho... eu não sinto a minha perna...
— Eu tô aqui! Eu tô aqui, meu amor, calma! — as mãos de Oikawa tremiam tanto que ele mal conseguia coordenar os movimentos. Ele envolveu as mãos frias e suadas de com as suas, apertando-as contra a própria bochecha. — Não se mexe! Não tenta olhar! A ajuda tá vindo! Vai ficar tudo bem, tá? Vai ficar tudo bem! Eu tô aqui com você!
Iwaizumi chegou logo atrás, tendo corrido pelas escadas. Ele parou a um passo de distância, o rosto duro transformado em uma máscara de pavor silencioso ao ver a forma não natural como o joelho da prima estava posicionado por baixo do calção. Ele caiu de joelhos do outro lado de , segurando o ombro dela.
— Calma, . A maqueira tá chegando — Iwaizumi disse, a voz grossa falhando no meio da frase.
Os paramédicos do evento finalmente invadiram a quadra com uma maca dobrável e bolsas de primeiros socorros. Quando um dos socorristas ergueu levemente a perna dela para aplicar a imobilização provisória, soltou outro grito — um som tão cortante que Oikawa fechou os olhos com força, sentindo lágrimas quentes escorrerem pelo seu próprio rosto.
Ele não soltou a mão dela por um único segundo. Seguiu a maca pelos corredores do ginásio, sob os olhares chocados da torcida, segurando os dedos dela até que as portas da ambulância fossem fechadas na sua cara, deixando-o parado no asfalto frio do estacionamento, com o uniforme sujo de poeira e o coração completamente despedaçado no peito.
O diagnóstico do hospital universitário de Sendai foi pronunciado três dias depois, em uma sala fria que cheirava a antisséptico e lâmpadas fluorescentes.
Ruptura completa do ligamento cruzado anterior (LCA), estiramento grave do ligamento colateral medial e lesão complexa do menisco esquerdo.
A cirurgia de reconstrução foi um sucesso do ponto de vista médico estrutural. Os cirurgiões conseguiram religar os tecidos e estabilizar a articulação. No entanto, a sentença final do especialista em medicina esportiva para uma jovem de quatorze anos foi implacável como um machado caindo sobre uma rocha.
O impacto contínuo dos saltos, as aterrisagens de alta intensidade e as trocas bruscas de direção que o vôlei de alto rendimento exigia destruiriam a articulação do joelho de permanentemente em questão de anos. Se ela continuasse jogando de forma competitiva, corria o risco real de perder a mobilidade normal antes dos vinte anos.
A recomendação médica era definitiva: precisava abandonar o esporte de competição.
O que se seguiu foram os três meses mais sombrios e sufocantes da vida de .
O quarto dela na casa dos tornou-se seu santuário e sua prisão. As cortinas pesadas de tecido escuro permaneceram fechadas semanas a fio, bloqueando a luz do sol de inverno e deixando o ambiente em uma penumbra perpétua. A garota vibrante, dona de um humor afiado, que comandava as quadras com uma inteligência cintilante, simplesmente evaporou. Em seu lugar, sobrou uma silhueta magra e silenciosa, passando horas e horas deitada de costas na cama, encarando as rachaduras do teto, com uma pesada joelheira ortopédica articulada prendendo sua perna direita do tornozelo até a coxa.
No canto do quarto, encostada na parede ao lado do guarda-roupa, estava a sua mochila esportiva da Kitagawa Daiichi. Do lado dela, seus tênis de cano alto com solado de borracha amarela — os mesmos que ela usara no dia do jogo — e suas joelheiras de tecido cinza continuavam exatamente no mesmo lugar onde Iwaizumi os havia deixado ao trazê-los do ginásio.
Eles pareciam fofocas e fantasmas. Toda vez que os olhos de pousavam naqueles objetos, era como se alguém cravasse uma lâmina em seu peito. O luto de perder o vôlei não era uma dor abstrata; era uma dor física, um vazio constante no estômago, como se uma parte essencial do seu próprio corpo tivesse sido amputada sem anestesia.
Ela chorava até desmaiar de cansaço. Chorava pela dor lancinante e diária das sessões de fisioterapia, onde cada milímetro de dobra no joelho parecia um suplício; mas chorava, principalmente, pela perda da sua identidade. Quem era se ela não pudesse mais pisar numa quadra? Quem era ela sem a bola de vôlei na ponta dos dedos?
E Oikawa aparecia todos os dias.
Mesmo com a rotina massacrante de treinos do time masculino — que agora se preparava para o Torneio Nacional sem na arquibancada —, Oikawa não falhou uma única tarde.
Ele saía da escola, corria até a estação e ia direto para a casa dela. Ele entrava no quarto em silêncio, tirava os tênis na porta e se sentava no chão, com as costas apoiadas na lateral da cama dela. Trazia os cadernos de anotações das aulas que ela estava perdendo, trazia saquinhos de pão de leite quentinho da padaria perto da estação, trazia potes de sorvete de baunilha.
Ele tentava ser o pilar de força que achava que ela precisava. Falava sobre as idiotices que Iwaizumi fazia no treino, contava piadas bobas, narrava as fofocas dos professores e tentava manter um tom leve e esperançoso.
Mas a dor de era um oceano fundo demais para ser resgatado com pequenas distrações.
Em uma tarde de quinta-feira, no final de janeiro, a chuva fria batia contra o vidro da janela do quarto. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pelo brilho fraco do abajur de mesa. Oikawa estava sentado na beirada da cama, segurando suavemente a mão esquerda de . Com o polegar, ele acariciava as costas da mão dela, em um gesto ritmado e paciente.
— O treinador do time feminino veio falar comigo hoje no corredor — Oikawa disse baixinho, mantendo a voz suave enquanto olhava para o perfil do rosto de , que encarava o vidro molhado da janela. — Ele disse que as garotas querem vir aqui no fim de semana pra te fazer uma visita. Ele falou que a Yumi tá tentando assumir a liderança das jogadas, mas que o levantamento dela tá meio torto... Ela tentou fazer aquela sua jogada de costas ontem e mandou a bola direto no teto do ginásio. Foi ridículo, -chan... você devia ter visto...
não riu. Ela nem sequer piscou.
Uma única lágrima pesada e silenciosa escorreu pelo seu olho esquerdo, traçando um caminho lento pela sua bochecha pálida até afundar no tecido do travesseiro.
— Tooru... para — ela murmurou. A voz era fraca, oca, completamente desprovida de qualquer emoção.
Oikawa travou. Seu polegar parou de mover-se sobre a pele dela.
— O quê? -chan, eu só tava contando como o treino foi—
— Para de falar de vôlei — ela finalmente virou a cabeça para ele. Os olhos dela, antes tão vivos e analíticos, estavam vermelhos, fundos e cobertos por uma camada de dor insuportável. — Para de fingir que tá tudo bem. Para de trazer notícias do ginásio. Eu não vou voltar pra aquela quadra, Tooru. Eu nunca mais vou levantar uma bola na minha vida. O médico disse. O meu joelho acabou.
— Não fala assim! — Oikawa se ajoelhou no chão ao lado da cama, segurando a mão dela com as duas mãos agora, o peito subindo e descendo com força enquanto os seus próprios olhos se enchiam de lágrimas. — A fisioterapia tá progredindo! O doutor disse que você vai voltar a andar perfeitamente, que vai conseguir correr! A gente pode dar um jeito, -chan! Você pode ser auxiliar técnica, pode ser analista, a gente pode—
— EU NÃO QUERO DAR UM JEITO, TOORU! — o grito de rompeu o silêncio do quarto como uma explosão.
Ela puxou a mão da dele com força, sentando-se na cama com extrema dificuldade e cobrindo o rosto com as duas mãos. Um choro convulsivo, alto e doloroso tomou conta do seu peito, fazendo seus ombros sacudirem.
— Você não entende?! — ela soltou entre os soluços, a voz embargada pelo desespero. — Dói olhar pra você! Dói ver você chegando aqui todas as tardes cheirando a suor de ginásio! Dói ver as suas mãos marcadas pelas fitas de proteção do treino! Dói saber que você vai continuar realizando tudo o que a gente planejou junto, enquanto eu vou ficar presa nesse quarto, assistindo da arquibancada como se eu fosse um fantasma!
Aquelas palavras atingiram Oikawa Tooru com a força de um soco no estômago. Ele congelou no chão, o ar congelando em seus pulmões, o coração partido em mil pedaços dentro do peito.
A dor de não era culpa dele. Mas a sua mera presença tinha se tornado um lembrete cruel e diário de tudo aquilo que havia sido roubado dela. Ele era a personificação viva do vôlei — o esporte que ela tanto amava e que agora a expulsara do seu reino. Cada conquista dele, cada passo que ele dava em direção ao topo, seria uma ferida aberta no peito dela.
Oikawa não respondeu. Ele simplesmente se ergueu, subiu na cama e envolveu com os braços.
Ele a puxou para o seu peito, segurando-a com toda a força que tinha no corpo, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto ela chorava e esmurrava o peito dele sem força real, descarregando toda a raiva, a frustração e a injustiça do universo até perder as forças. E Oikawa chorou junto com ela, em silêncio, sentindo uma impotência devastadora.
Ele podia treinar doze horas por dia, podia aprender qualquer saque viagem, podia desvendar o bloqueio de qualquer gênio... mas não podia consertar o joelho da garota que amava.
O término definitivo não aconteceu no meio de um grito ou de uma discussão feia. Aconteceu com uma calma dolorosa e madura no final de março, no último dia do ano letivo do ensino fundamental.
O inverno finalmente começava a dar trégua para a primavera, e as primeiras flores de cerejeira surgiam nos galhos secos das árvores da cidade. Eles estavam sentados no mesmo banco de madeira no parque perto da escola — o mesmo banco onde, dois anos antes, haviam começado a namorar com sorvetes derretidos nas mãos.
já não usava mais as muletas. Ela conseguia caminhar por conta própria, embora mantivesse uma leve hesitação no passo e usasse uma joelheira de compressão preta por baixo da meia do uniforme escolar.
Ao lado dela, Oikawa vestia o uniforme social da Kitagawa Daiichi pela última vez. Em sua mochila, dobrado com cuidado, estava o folheto de confirmação de matrícula do Colégio Aoba Johsai, onde ele e Iwaizumi começariam o ensino médio no mês seguinte.
— Minha mãe terminou de organizar a transferência ontem — disse suavemente, quebrando o longo silêncio que pairava entre eles. Ela olhava para as próprias mãos cruzadas no colo. — Eu vou para o Colégio Karasuno.
Oikawa olhou para ela de relance.
— Karasuno? — ele repetiu o nome, surpreso. — Mas... fica do outro lado da cidade. E o time de vôlei deles... bom, eles costumavam ser fortes anos atrás, mas hoje em dia nem sequer passam das primeiras fases do Torneio Prefectural.
— É exatamente por isso que eu escolhi a Karasuno — deu um sorriso pequeno e amargo. — O time feminino de lá é quase inexistente. Ninguém sabe quem eu sou por lá. Ninguém vai olhar pro meu joelho e perguntar se eu sou aquela levantadora da Kitagawa que se machucou na semifinal. Quero tentar algo novo, Tooru. Talvez me juntar ao clube de arte, ou focar totalmente nos estudos pra entrar em uma boa universidade. Preciso de um ar novo. Longe de todas as memórias daqui.
Oikawa manteve os olhos fixos nas flores caindo no chão de cascalho. Ele afundou as mãos nos bolsos do casaco, apertando os punhos fechados com tanta força que as unhas cravavam nas palmas.
— Eu entendo — ele disse. Sua voz estava incrivelmente calma, mas guardava uma vibração de dor contida que ele lutava desesperadamente para não demonstrar.
— A gente precisa fazer isso, Tooru — continuou, virando o rosto para encará-lo de frente. — Se a gente tentar continuar juntos agora... por pena, ou por apego ao passado... eu vou acabar me ressentindo do seu sucesso no Seijoh. Vou ver você brilhando na quadra e vou sentir inveja. E você... você vai passar o tempo todo pisando em ovos perto de mim, com medo de comemorar uma vitória ou de falar sobre o esporte que ama. A gente vai se destruir aos poucos. E eu amo você demais para deixar a gente se transformar nisso.
Oikawa engoliu o nó seco que queimava em sua garganta. Cada palavra dela era como um prego sendo cravado no seu peito, mas ele sabia — com uma clareza aterrorizante — que ela estava coberta de razão.
Ele se virou para ela. Olhou para o rosto da garota que tinha sido sua parceira de vida, sua rival, sua confidente e seu primeiro e único amor. Ele aproximou o rosto devagar e selou os lábios dela em um beijo lento, profundo e incrivelmente carinhoso. Era um beijo que guardava o sabor de todos os sorvetes divididos, de cada treino sob o sol de verão, de cada promessa feita e de todas as lágrimas derramadas naquele quarto escuro.
Quando se afastaram, Oikawa segurou o rosto dela entre as duas mãos, usando os polegares para limpar duas lágrimas solitárias que escorriam pelas bochechas dela.
— Se cuida, -chan — ele sussurrou contra a testa dela, a voz falhando perigosamente. — Promete para mim... que você vai voltar a sorrir? De verdade? Sem essa sombra nos olhos?
olhou para ele, sentindo o peito aquecer levemente pela primeira vez em meses. Ela deu um sorriso fraco, mas genuíno — a primeira faísca da antiga surgindo através da névoa.
— Só se você prometer... que vai massacrar o Shiratorizawa e o Ushijima por mim.
Oikawa soltou uma risada curta, o brilho teimoso e feroz retornando instantaneamente aos seus olhos castanhos.
— É uma promessa — ele declarou, inclinando a cabeça com a arrogância renovada. — Eu vou pisar no Ushiwaka e vou levar o Seijoh pro Nacional.
E assim, a história do "Trio Terrível" encerrou seu primeiro grande capítulo.
Oikawa Tooru e Iwaizumi Hajime vestiram o uniforme azul e branco da Aoba Johsai, determinados a dominar o ensino médio e conquistar o topo de Miyagi. vestiu o uniforme preto e discreto da Karasuno, disposta a enterrar seu passado esportivo nas profundezas da memória e reconstruir uma vida longe do barulho da bola batendo na quadra.
Eles só não contavam que o destino tem um senso de humor peculiar. E que, no segundo ano do ensino médio, a vida colocaria exatamente no lugar onde ela jurou que nunca mais colocaria os pés: na beira da quadra do ginásio da Karasuno, segurando uma prancheta de análise tática durante um jogo amistoso contra a Aoba Johsai.
O ar ali dentro tinha uma densidade quase palpável: a poeira suspensa nos feixes de luz dourada que cortavam as janelas altas, o cheiro metálico e inconfundível do suor impregnado nas paredes, a mistura de cera de piso com a borracha quente dos tênis e o som seco, contínuo e compassado das bolas de vôlei atingindo o chão amadeirado. Para a maioria dos alunos que passavam pelo corredor externo, era apenas o barulho ensurdecedor de uma atividade extracurricular. Para , era o som da sua própria respiração.
estava ajoelhada na linha de fundo da quadra feminina, amarrando o cadarço do seu tênis esportivo com uma precisão quase cirúrgica. Ela vestia o uniforme azul e branco do time, com o número 2 estampado nas costas. Como levantadora titular e capitã estratégica do time feminino da Kitagawa, sua rotina não começava no apito inicial do treino, mas sim nos minutos de silêncio que antecediam a tempestade.
Enquanto a maioria dos levantadores focava apenas na trajetória da bola e na altura do passe, o cérebro de funcionava de forma diferente. Ela enxergava a quadra em linhas vetoriais. Sabia exatamente quantos passos sua atacante de ponta precisava dar para atingir a impulsão máxima; conseguia calcular, pela inclinação do quadril da bloqueadora adversária, se o bloqueio duplo deixaria uma brecha de dez centímetros no corredor; e sabia, acima de tudo, como ditar o ritmo de um jogo inteiro sem jamais erguer a voz.
— ! Se você continuar encarando esse cadarço com essa cara de freira brava, ele vai se amarrar sozinho por puro pavor! — uma voz incrivelmente dramática ressoou da porta de entrada do ginásio.
não precisou olhar para cima para saber quem era. O tom melodioso, ligeiramente debochado e acompanhado pelo som característico de passos desleixados só podia pertencer a uma pessoa.
Oikawa Tooru estava encostado no batente de madeira da porta do ginásio, com a jaqueta do time masculino jogada displicentemente sobre os ombros. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados pelo treino pesado que acabara de encerrar no ginásio ao lado, e ele ostentava no rosto aquele sorriso irritantemente seguro de si que fazia metade das garotas do primeiro e segundo ano suspirarem nos corredores.
Logo atrás dele, surgindo como uma sombra carrancuda e carregando um galão de água de cinco litros em uma das mãos, vinha Iwaizumi Hajime.
— Não enche o saco dela, Trashkawa — resmungou Iwaizumi, passando direto pelo amigo e desferindo uma cotovelada leal nas costelas de Oikawa, que soltou um ganido exagerado. — A tá concentrada. Coisa que você devia estar fazendo em vez de vir aqui gastar a pouca energia mental que te resta.
— Ayo! Iwa-chan, isso foi agressão física sem qualquer provocação prévia! — Oikawa massageou a costela, fazendo um biquinho indignado antes de voltar a atenção para , com os olhos brilhando de uma provocação infantil. — Mas sério, -chan... eu vi os últimos dez minutos do seu treino de conjunto antes do nosso treinador chamar a gente pra palestra. O seu levantamento para a bola rápida de centro... esteve exatamente três centímetros mais baixo do que a altura ideal. Eu medi visualmente do banco.
terminou de dar o nó duplo no cadarço, levantou-se devagar e limpou as palmas das mãos na lateral do calção escuro. Ela caminhou em direção aos dois, parando a um passo de distância de Oikawa. Ela ergueu o queixo, encarando aqueles olhos castanhos expressivos com uma serenidade que ela sabia que o irritava profundamente.
— Três centímetros, Tooru? — ela perguntou, a voz suave, mas carregada de uma ironia afiada. — A nossa central, a Yumi, tem um metro e sessenta e dois. Se eu levantasse a bola na altura que o seu ego considera "ideal", ela teria que subir de escada pra conseguir tocar na bola. Eu ajusto a bola para a anatomia e o tempo do meu atacante. Eu jogo pra equipe pontuar, não pra fazer pose pra plateia como certo levantador do camisa 2 masculino que adora mandar bolas impossíveis só pra parecer um gênio nas fotos do jornal escolar.
Iwaizumi soltou uma gargalhada curta e alta, um som seco que ecoou pelo ginásio quase vazio.
— TOMOU! — Iwaizumi apontou para o rosto de Oikawa, que estava visivelmente congelado em choque teatral. — Ajoelha e pede perdão, Oikawa. Ela acabou com a sua existência em duas frases.
— Que calúnia absurda! — Oikawa dramatizou, levando as duas mãos ao peito como se estivesse sangrando no chão. — Eu sou um modelo de altruísmo esportivo! Eu me dedico de corpo e alma para levar os meus atacantes ao ápice! Iwa-chan, por que você sempre fica do lado da sua prima?! Isso é favoritismo nepotista explícito! Onde está a solidariedade entre parceiros de time?!
— É porque a tem um cérebro funcional e você só tem serragem e vaidade nessa cabeça oca — Iwaizumi respondeu sem piscar, caminhando em direção ao banco para deixar o galão de água. — E, além disso, se eu não defender minha prima, minha mãe me mata no jantar. Agora cala a boca e pega a sua mochila.
soltou uma risada genuína, o som claro e leve que instantaneamente desarmou a pose dramática de Oikawa. Ele olhou para ela e, em uma fração de segundo, a expressão de garoto mimado deu lugar a um olhar infinitamente mais quente e suave.
Para a Kitagawa Daiichi inteira, eles eram o "Trio Terrível". Hajime era a força bruta, a tempestade implacável que derrubava bloqueios com saques mortais e cortadas na linha paralela. Oikawa era o estrategista narcisista, o gênio em ascensão cujos saques viagem faziam os adversários tremerem na recepção. E era o ponto de equilíbrio, a mente analítica que conseguia prever os erros dos dois antes mesmo que eles acontecessem.
Mas para além das quadras, a dinâmica entre os três era a espinha dorsal de suas vidas. e Iwaizumi eram primos em primeiro grau — as mães deles eram irmãs gêmeas —, o que significava que eles haviam crescido na mesma rua, compartilhando os mesmos almoços de domingo, as mesmas broncas familiares e a mesma teimosia inabalável. Oikawa tinha entrado nessa equação ainda na infância, quando apareceu no parque do bairro com uma bola de vôlei desbotada debaixo do braço e uma determinação absurda de ser o melhor.
E no meio dessa teia de amizade, um sentimento mais profundo havia nascido entre e Oikawa.
Não tinha acontecido de repente, como nas histórias em quadrinhos ou nos dramas de televisão. Tinha sido um processo lento, construído no cascalho dos caminhos de volta para casa. Tinha sido moldado pelas centenas de horas que passaram sentados no chão da garagem de Iwaizumi, dividindo cadernos de anotações táticas, assistindo a fitas VHS antigas de partidas internacionais e discutindo o posicionamento dos pulsos no momento do toque.
Para o resto da escola — e especialmente para o grupo de garotas do segundo ano que costumava cercar a porta do ginásio com cartas de amor e caixas de doces —, Oikawa Tooru era um garoto inalcançável, lindo, meio mimado e dotado de um talento nato.
Mas só conhecia o Oikawa real. Ela conhecia o garoto que entrava em pânico velado se não conseguisse dominar uma técnica nova em menos de três dias; o garoto que passava madrugadas em claro assistindo a vídeos do levantador argentino José Blanco até os olhos queimarem de cansaço; o garoto que tinha uma necessidade quase dolorosa de provar que não era apenas uma sombra do gênio Kageyama Tobio, que havia chegado ao clube no ano anterior.
E, Oikawa, por sua vez, enxergava em algo que ninguém mais via. Ele via a garota que não se assustava com sua obsessão, porque queimava pela mesma chama.
Eles tinham começado a namorar no início do segundo ano do ensino fundamental. A memória era tão nítida na mente de que ela conseguia sentir o cheiro do ar daquela tarde. Eles tinham feito uma aposta idiota após um treino de domingo: quem conseguisse acertar cinco saques consecutivos na quina da linha de fundo pagaria um sorvete para o outro. Oikawa tinha errado o último saque por questão de milímetros — a bola tocou na fita branca da rede antes de cair fora.
No caminho de volta para casa, enquanto comiam picolés de baunilha sentados em um banco de madeira no parque perto da escola, o garoto tagarela que nunca calava a boca para falar sobre rotação de bola ficou subitamente em silêncio. Ele encarava os próprios tênis de cano alto, com as orelhas completamente vermelhas.
— -chan... — ele tinha gaguejado, um tom de voz que ela nunca tinha ouvido vindo dele.
— O que foi, Tooru? Ficou triste porque perdeu pro meu saque de curva?
— Não é isso! — ele protestou, olhando para ela de relance antes de desviar o olhar para as copas das árvores. Ele engoliu em seco, apertando o palito de madeira do picolé com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. — É que... se a gente for jogar junto na Seleção Japonesa quando crescer... eu tava pensando... se eu posso segurar a sua mão. A partir de hoje. Como... você sabe. Minha namorada.
lembrara-se de ter achado a frase a coisa mais brega e ridícula que já tinha ouvido na vida. Mas ao ver o suor frio na testa dele e o tremor sutil na sua mão estendida, o coração dela tinha feito uma cambalhota no peito. Ela não tinha respondido com palavras. Apenas enfiou a mão livre na dele, entrelaçando seus dedos firmemente.
Desde aquele dia, eles haviam se tornado uma força indivisível. Eram noites de sexta-feira na cozinha da casa de Iwaizumi, onde a mãe dele preparava montanhas de curry enquanto obrigava Oikawa a estudar gramática em inglês ameaçando bater nele com uma régua de plástico. Eram as manhãs frias de inverno em que Oikawa passava na casa dela e deixava um pão de leite quentinho dentro da mochila dela antes que ela percebesse. Eram os olhares cúmplices e silenciosos trocados através da quadra durante um tempo técnico pedido pelo adversário — um olhar que dizia: "A gente vai engolir esses caras no próximo ponto".
— Ei, -chan... — a voz de Oikawa a puxou de volta para o presente.
Iwaizumi tinha andado alguns metros à frente, distraído mexendo no celular para responder a uma mensagem da mãe sobre o jantar. Oikawa aproveitou a pequena distância para desacelerar o passo, diminuindo a distância entre ele e no corredor externo da escola. Ele esticou a mão e puxou suavemente a barra da manga do casaco de treino dela.
— Hum? — ela olhou para ele.
— Você vai ficar pra ver o meu treino individual de saques hoje à noite, não vai? — ele perguntou, o tom de voz caindo para um murmúrio quase tímido, despido de qualquer arrogância. — Eu mudei um pouco a passada do terceiro passo antes do salto. Quero que você veja se a trajetória tá ficando muito previsível.
olhou para ele. Viu o cansaço visível ao redor dos olhos dele, o empenho obstinado que beirava a loucura e o desejo genuíno de ter o olhar dela validando o seu esforço. Ela soltou um suspiro dramaticamente pesado, embora os lábios traíssem um sorriso.
— Tooru, a gente tem uma prova de história japonesa na quinta-feira. Se você reprovar, o treinador vai te colocar no banco no jogo de abertura do torneio de outono.
— Eu estudo depois! Eu juro! — ele juntou as palmas das mãos em um gesto de súplica, fazendo um biquinho irresistível. — Duas horas seguidas. Eu faço os resumos da Era Meiji pra você, letra impecável, com marca-texto colorido e tudo! Por favorzinho, -chan?
Ela não conseguia dizer "não" para ele quando ele usava aquele olhar.
— Tá bom — ela cedeu, balançando a cabeça. — Mas com duas condições: primeiro, você vai parar o treino às sete horas em ponto. Segundo, você vai pagar dois pães de leite na conveniência. Um pra mim e outro pro Hajime, pra ele não surtar porque a gente vai se atrasar pro jantar.
— FECHADO! — Oikawa abriu um sorriso tão radiante que parecia capaz de iluminar todo o pátio da Kitagawa Daiichi.
Garantindo que Iwaizumi ainda estava de costas a alguns metros de distância, ele aproveitou a sombra de uma das grandes árvores do pátio, segurou a mão de e puxou-a rapidamente para perto, selando um beijo rápido e estalado na bochecha dela.
— Você é a melhor levantadora do mundo, -chan! — ele sussurrou, piscando um olho antes de sair correndo para alcançar Iwaizumi, rindo da cara de indignação que ela fez ao limpar a bochecha com as costas do casaco.
Aqueles eram os anos dourados. A época em que o mundo parecia incrivelmente simples, traçado em linhas de quadra perfeitamente delimitadas. Na cabeça daqueles três adolescentes, o destino já estava escrito com caneta permanente: conquistariam o Campeonato Nacional de Ensino Fundamental pela Kitagawa Daiichi, iriam juntos para o mesmo colégio no ensino médio — provavelmente a Aoba Johsai, que já sondava os três — e, eventualmente, vestiriam a camisa da Seleção Nacional.
O vôlei não era apenas um esporte para eles; era a linguagem na qual se amavam, se comunicavam e construíam o futuro.
Eles só não sabiam que o destino é um adversário cruel, que não pede tempo técnico antes de mudar completamente o rumo do jogo.
Era o início de novembro do último ano do ensino fundamental. O ar de Miyagi já trazia o prenúncio de um inverno rigoroso, mas dentro do Ginásio Prefectural o calor humano era sufocante.
Era a semifinal do Torneio Regional de Outono Feminino. A quadra principal estava cercada por faixas coloridas, bumbos de torcida e centenas de estudantes que gritavam até a rouquidão. O time masculino da Kitagawa Daiichi já havia massacrado seu adversário na outra quadra mais cedo, garantindo a vaga na grande final do dia seguinte.
Agora, ainda vestindo os agasalhos esportivos azuis e brancos, Oikawa e Iwaizumi estavam de pé na primeira fileira da arquibancada superior, inclinados sobre o corrimão de metal cinza.
— A linha de bloqueio delas tá caindo na pegadinha da toda vez — comentou Iwaizumi, cruzando os braços musculosos sobre o peito. Ele acompanhava a partida com um olhar técnico e atento. — Olha lá. A finge que vai virar o quadril pra ponta e a central do time oposto já dá dois passos pro lado antes da bola sair da mão dela. A leitura da tá perfeita hoje.
Oikawa não respondeu imediatamente. Ele estava encostado na barra de ferro, com o queixo apoiado nas mãos cruzadas. No seu rosto, não havia a pose de garoto propaganda nem a arrogância do capitão. Havia apenas um orgulho puro, absoluto e incrivelmente calmo.
Seus olhos castanhos seguiam cada movimento de na quadra lá embaixo. O cabelo dela, preso em um rabo de cavalo alto, balançava conforme ela se movia com uma graciosidade e uma rapidez impressionantes. Ela parecia flutuar na quadra. A forma como ela recebia a bola ruim, ajustava os pés em uma fração de segundo e entregava um passe macio para a atacante parecia uma obra de arte em movimento.
— Ela é incrível, não é, Iwa-chan? — Oikawa murmurou baixinho, com um sorriso suave no canto dos lábios. — Ela enxerga o jogo melhor do que eu.
Iwaizumi olhou de relance para o amigo, soltando um bufado curto que escondia um profundo respeito.
— Não deixa ela ouvir você dizendo isso, senão o ego dela vai ficar maior que o seu. Mas é... ela tá voando hoje.
O placar eletrônico no topo do ginásio brilhava em números vermelhos: 24 a 23 no terceiro set. Ponto do jogo para a Kitagawa Daiichi.
A torcida da Kitagawa nas arquibancadas explodiu em um coro ritmado, batendo os bastões de plástico barulhentos. Lá embaixo, ergueu a mão direita, fazendo um sinal rápido com três dedos para suas companheiras de equipe. Era a jogada ensaiada. O momento decisivo.
A ponta adversária sacou forte. A bola viajou com velocidade em direção ao fundo da quadra da Kitagawa. A líbero fez uma recepção alta, mas a bola subiu um pouco afastada da rede, caindo perigosamente perto da linha de três metros.
Para qualquer levantador comum, aquilo seria um passe de emergência. Mas se moveu como um raio.
Ela cruzou a quadra, posicionou-se exatamente debaixo da trajetória da bola e saltou. No ar, com o corpo suspenso e os braços erguidos, ela fez a postura perfeita para um levantamento alto de costas. A bloqueadora central do time adversário caiu na armadilha: saltou desesperadamente para tentar cobrir a ponta direita.
Mas no último milissegundo, enquanto estava no ápice do seu salto, flexionou suavemente os pulsos para a frente. Em vez de lançar a bola para trás, ela deu um toque sutil, de ponta de dedo — uma largadinha perfeita e cirúrgica sobre a rede, direcionada exatamente no ponto cego da defesa adversária.
A bola flutuou no ar, descendo suavemente. As defensoras adversárias mergulharam no chão em desespero, mas a bola tocou a madeira da quadra com um baque definitivo.
O ponto era da Kitagawa. A vitória era delas. A vaga na final do Nacional estava garantida.
Mas o som do apito do juiz confirmando o ponto foi instantaneamente abafado por outro som.
Um som grotesco. Um estalo seco, alto e horrendo, parecido com o galho de uma árvore centenária se partindo ao meio.
No momento de arrematar a jogada e retornar ao chão, a bloqueadora adversária havia invadido levemente a linha central por baixo da rede com o pé esquerdo. Ao aterrissar do salto, o pé direito de pisou diretamente sobre o calcanhar da jogadora adversária.
O pé de torceu para fora. O joelho direito, sem qualquer sustentação, girou violentamente para dentro sob todo o peso do seu corpo em queda.
desabou na quadra como uma boneca de pano cuja estrutura tivesse sido destruída.
O ginásio inteiro, que começava a comemorar a vitória, silenciou em uma fração de segundo. O choque foi tão abrupto que parecia que todo o ar da sala tinha sido sugado para fora.
Então, veio o som.
Um grito curto, agudo e desesperado rasgou o silêncio da quadra. Não era apenas um choro de dor física; era o som do terror mais profundo que um ser humano podia sentir. rolou para o lado esquerdo, encolhendo-se em posição fetal, cobrindo o joelho direito com as duas mãos enquanto seu corpo inteiro tremia convulsivamente.
Na arquibancada superior, o sorriso de Oikawa congelou. O sangue fugiu completamente do seu rosto, deixando-o pálido como um cadáver. O mundo ao seu redor perdeu a cor e a tridimensionalidade. O som da torcida, as vozes dos técnicos, os apitos dos juízes — tudo se transformou em um zumbido grave e distante dentro da sua cabeça.
— REN! — o urro de Iwaizumi ressoou ao seu lado, mas Oikawa já não estava mais lá.
Movido por um instinto cego e animal, Oikawa não procurou as escadas de acesso. Ele simplesmente saltou por cima do corrimão de metal da arquibancada, despencando de uma altura de quase três metros direto na área de circulação inferior. Seus joelhos amorteceram o impacto com um baque forte, mas ele nem sentiu.
Ele disparou em direção à quadra como um louco.
— Ei! Garoto, você não pode entrar na quadra! — um dos fiscais da organização do evento, usando um colete amarelo, tentou agarrar o braço de Oikawa enquanto ele cruzava a barreira de proteção.
— ME SOLTA, CARALHO! — Oikawa urrou com uma ferocidade demoníaca que ninguém ali jamais vira naquele garoto sorridente.
Ele se desvencilhou do fiscal com um empurrão violento que mandou o homem ao chão e invadiu o piso amadeirado. Ignorou as jogadoras estáticas da Kitagawa, ignorou a juíza que tentava manter a ordem e caiu de joelhos na quadra, derrapando no chão até parar exatamente ao lado de .
— ! -chan! Olha pra mim! Por favor, olha pra mim! — a voz dele não parecia a dele. Era estrangulada, trêmula, carregada de um pavor absoluto.
estava deitada de lado. As lágrimas lavavam seu rosto pálido, e seus dentes estavam cravados no próprio lábio inferior com tanta força que um fio de sangue começava a escorrer. Ela hiperventilava, com o peito subindo e descendo descontroladamente.
— T-Tooru... — ela conseguiu soltar em um sopro de voz quebrado, um sussurro de dor pura. — Dói... Tooru, dói muito... meu joelho... eu não sinto a minha perna...
— Eu tô aqui! Eu tô aqui, meu amor, calma! — as mãos de Oikawa tremiam tanto que ele mal conseguia coordenar os movimentos. Ele envolveu as mãos frias e suadas de com as suas, apertando-as contra a própria bochecha. — Não se mexe! Não tenta olhar! A ajuda tá vindo! Vai ficar tudo bem, tá? Vai ficar tudo bem! Eu tô aqui com você!
Iwaizumi chegou logo atrás, tendo corrido pelas escadas. Ele parou a um passo de distância, o rosto duro transformado em uma máscara de pavor silencioso ao ver a forma não natural como o joelho da prima estava posicionado por baixo do calção. Ele caiu de joelhos do outro lado de , segurando o ombro dela.
— Calma, . A maqueira tá chegando — Iwaizumi disse, a voz grossa falhando no meio da frase.
Os paramédicos do evento finalmente invadiram a quadra com uma maca dobrável e bolsas de primeiros socorros. Quando um dos socorristas ergueu levemente a perna dela para aplicar a imobilização provisória, soltou outro grito — um som tão cortante que Oikawa fechou os olhos com força, sentindo lágrimas quentes escorrerem pelo seu próprio rosto.
Ele não soltou a mão dela por um único segundo. Seguiu a maca pelos corredores do ginásio, sob os olhares chocados da torcida, segurando os dedos dela até que as portas da ambulância fossem fechadas na sua cara, deixando-o parado no asfalto frio do estacionamento, com o uniforme sujo de poeira e o coração completamente despedaçado no peito.
O diagnóstico do hospital universitário de Sendai foi pronunciado três dias depois, em uma sala fria que cheirava a antisséptico e lâmpadas fluorescentes.
Ruptura completa do ligamento cruzado anterior (LCA), estiramento grave do ligamento colateral medial e lesão complexa do menisco esquerdo.
A cirurgia de reconstrução foi um sucesso do ponto de vista médico estrutural. Os cirurgiões conseguiram religar os tecidos e estabilizar a articulação. No entanto, a sentença final do especialista em medicina esportiva para uma jovem de quatorze anos foi implacável como um machado caindo sobre uma rocha.
O impacto contínuo dos saltos, as aterrisagens de alta intensidade e as trocas bruscas de direção que o vôlei de alto rendimento exigia destruiriam a articulação do joelho de permanentemente em questão de anos. Se ela continuasse jogando de forma competitiva, corria o risco real de perder a mobilidade normal antes dos vinte anos.
A recomendação médica era definitiva: precisava abandonar o esporte de competição.
O que se seguiu foram os três meses mais sombrios e sufocantes da vida de .
O quarto dela na casa dos tornou-se seu santuário e sua prisão. As cortinas pesadas de tecido escuro permaneceram fechadas semanas a fio, bloqueando a luz do sol de inverno e deixando o ambiente em uma penumbra perpétua. A garota vibrante, dona de um humor afiado, que comandava as quadras com uma inteligência cintilante, simplesmente evaporou. Em seu lugar, sobrou uma silhueta magra e silenciosa, passando horas e horas deitada de costas na cama, encarando as rachaduras do teto, com uma pesada joelheira ortopédica articulada prendendo sua perna direita do tornozelo até a coxa.
No canto do quarto, encostada na parede ao lado do guarda-roupa, estava a sua mochila esportiva da Kitagawa Daiichi. Do lado dela, seus tênis de cano alto com solado de borracha amarela — os mesmos que ela usara no dia do jogo — e suas joelheiras de tecido cinza continuavam exatamente no mesmo lugar onde Iwaizumi os havia deixado ao trazê-los do ginásio.
Eles pareciam fofocas e fantasmas. Toda vez que os olhos de pousavam naqueles objetos, era como se alguém cravasse uma lâmina em seu peito. O luto de perder o vôlei não era uma dor abstrata; era uma dor física, um vazio constante no estômago, como se uma parte essencial do seu próprio corpo tivesse sido amputada sem anestesia.
Ela chorava até desmaiar de cansaço. Chorava pela dor lancinante e diária das sessões de fisioterapia, onde cada milímetro de dobra no joelho parecia um suplício; mas chorava, principalmente, pela perda da sua identidade. Quem era se ela não pudesse mais pisar numa quadra? Quem era ela sem a bola de vôlei na ponta dos dedos?
E Oikawa aparecia todos os dias.
Mesmo com a rotina massacrante de treinos do time masculino — que agora se preparava para o Torneio Nacional sem na arquibancada —, Oikawa não falhou uma única tarde.
Ele saía da escola, corria até a estação e ia direto para a casa dela. Ele entrava no quarto em silêncio, tirava os tênis na porta e se sentava no chão, com as costas apoiadas na lateral da cama dela. Trazia os cadernos de anotações das aulas que ela estava perdendo, trazia saquinhos de pão de leite quentinho da padaria perto da estação, trazia potes de sorvete de baunilha.
Ele tentava ser o pilar de força que achava que ela precisava. Falava sobre as idiotices que Iwaizumi fazia no treino, contava piadas bobas, narrava as fofocas dos professores e tentava manter um tom leve e esperançoso.
Mas a dor de era um oceano fundo demais para ser resgatado com pequenas distrações.
Em uma tarde de quinta-feira, no final de janeiro, a chuva fria batia contra o vidro da janela do quarto. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pelo brilho fraco do abajur de mesa. Oikawa estava sentado na beirada da cama, segurando suavemente a mão esquerda de . Com o polegar, ele acariciava as costas da mão dela, em um gesto ritmado e paciente.
— O treinador do time feminino veio falar comigo hoje no corredor — Oikawa disse baixinho, mantendo a voz suave enquanto olhava para o perfil do rosto de , que encarava o vidro molhado da janela. — Ele disse que as garotas querem vir aqui no fim de semana pra te fazer uma visita. Ele falou que a Yumi tá tentando assumir a liderança das jogadas, mas que o levantamento dela tá meio torto... Ela tentou fazer aquela sua jogada de costas ontem e mandou a bola direto no teto do ginásio. Foi ridículo, -chan... você devia ter visto...
não riu. Ela nem sequer piscou.
Uma única lágrima pesada e silenciosa escorreu pelo seu olho esquerdo, traçando um caminho lento pela sua bochecha pálida até afundar no tecido do travesseiro.
— Tooru... para — ela murmurou. A voz era fraca, oca, completamente desprovida de qualquer emoção.
Oikawa travou. Seu polegar parou de mover-se sobre a pele dela.
— O quê? -chan, eu só tava contando como o treino foi—
— Para de falar de vôlei — ela finalmente virou a cabeça para ele. Os olhos dela, antes tão vivos e analíticos, estavam vermelhos, fundos e cobertos por uma camada de dor insuportável. — Para de fingir que tá tudo bem. Para de trazer notícias do ginásio. Eu não vou voltar pra aquela quadra, Tooru. Eu nunca mais vou levantar uma bola na minha vida. O médico disse. O meu joelho acabou.
— Não fala assim! — Oikawa se ajoelhou no chão ao lado da cama, segurando a mão dela com as duas mãos agora, o peito subindo e descendo com força enquanto os seus próprios olhos se enchiam de lágrimas. — A fisioterapia tá progredindo! O doutor disse que você vai voltar a andar perfeitamente, que vai conseguir correr! A gente pode dar um jeito, -chan! Você pode ser auxiliar técnica, pode ser analista, a gente pode—
— EU NÃO QUERO DAR UM JEITO, TOORU! — o grito de rompeu o silêncio do quarto como uma explosão.
Ela puxou a mão da dele com força, sentando-se na cama com extrema dificuldade e cobrindo o rosto com as duas mãos. Um choro convulsivo, alto e doloroso tomou conta do seu peito, fazendo seus ombros sacudirem.
— Você não entende?! — ela soltou entre os soluços, a voz embargada pelo desespero. — Dói olhar pra você! Dói ver você chegando aqui todas as tardes cheirando a suor de ginásio! Dói ver as suas mãos marcadas pelas fitas de proteção do treino! Dói saber que você vai continuar realizando tudo o que a gente planejou junto, enquanto eu vou ficar presa nesse quarto, assistindo da arquibancada como se eu fosse um fantasma!
Aquelas palavras atingiram Oikawa Tooru com a força de um soco no estômago. Ele congelou no chão, o ar congelando em seus pulmões, o coração partido em mil pedaços dentro do peito.
A dor de não era culpa dele. Mas a sua mera presença tinha se tornado um lembrete cruel e diário de tudo aquilo que havia sido roubado dela. Ele era a personificação viva do vôlei — o esporte que ela tanto amava e que agora a expulsara do seu reino. Cada conquista dele, cada passo que ele dava em direção ao topo, seria uma ferida aberta no peito dela.
Oikawa não respondeu. Ele simplesmente se ergueu, subiu na cama e envolveu com os braços.
Ele a puxou para o seu peito, segurando-a com toda a força que tinha no corpo, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto ela chorava e esmurrava o peito dele sem força real, descarregando toda a raiva, a frustração e a injustiça do universo até perder as forças. E Oikawa chorou junto com ela, em silêncio, sentindo uma impotência devastadora.
Ele podia treinar doze horas por dia, podia aprender qualquer saque viagem, podia desvendar o bloqueio de qualquer gênio... mas não podia consertar o joelho da garota que amava.
O término definitivo não aconteceu no meio de um grito ou de uma discussão feia. Aconteceu com uma calma dolorosa e madura no final de março, no último dia do ano letivo do ensino fundamental.
O inverno finalmente começava a dar trégua para a primavera, e as primeiras flores de cerejeira surgiam nos galhos secos das árvores da cidade. Eles estavam sentados no mesmo banco de madeira no parque perto da escola — o mesmo banco onde, dois anos antes, haviam começado a namorar com sorvetes derretidos nas mãos.
já não usava mais as muletas. Ela conseguia caminhar por conta própria, embora mantivesse uma leve hesitação no passo e usasse uma joelheira de compressão preta por baixo da meia do uniforme escolar.
Ao lado dela, Oikawa vestia o uniforme social da Kitagawa Daiichi pela última vez. Em sua mochila, dobrado com cuidado, estava o folheto de confirmação de matrícula do Colégio Aoba Johsai, onde ele e Iwaizumi começariam o ensino médio no mês seguinte.
— Minha mãe terminou de organizar a transferência ontem — disse suavemente, quebrando o longo silêncio que pairava entre eles. Ela olhava para as próprias mãos cruzadas no colo. — Eu vou para o Colégio Karasuno.
Oikawa olhou para ela de relance.
— Karasuno? — ele repetiu o nome, surpreso. — Mas... fica do outro lado da cidade. E o time de vôlei deles... bom, eles costumavam ser fortes anos atrás, mas hoje em dia nem sequer passam das primeiras fases do Torneio Prefectural.
— É exatamente por isso que eu escolhi a Karasuno — deu um sorriso pequeno e amargo. — O time feminino de lá é quase inexistente. Ninguém sabe quem eu sou por lá. Ninguém vai olhar pro meu joelho e perguntar se eu sou aquela levantadora da Kitagawa que se machucou na semifinal. Quero tentar algo novo, Tooru. Talvez me juntar ao clube de arte, ou focar totalmente nos estudos pra entrar em uma boa universidade. Preciso de um ar novo. Longe de todas as memórias daqui.
Oikawa manteve os olhos fixos nas flores caindo no chão de cascalho. Ele afundou as mãos nos bolsos do casaco, apertando os punhos fechados com tanta força que as unhas cravavam nas palmas.
— Eu entendo — ele disse. Sua voz estava incrivelmente calma, mas guardava uma vibração de dor contida que ele lutava desesperadamente para não demonstrar.
— A gente precisa fazer isso, Tooru — continuou, virando o rosto para encará-lo de frente. — Se a gente tentar continuar juntos agora... por pena, ou por apego ao passado... eu vou acabar me ressentindo do seu sucesso no Seijoh. Vou ver você brilhando na quadra e vou sentir inveja. E você... você vai passar o tempo todo pisando em ovos perto de mim, com medo de comemorar uma vitória ou de falar sobre o esporte que ama. A gente vai se destruir aos poucos. E eu amo você demais para deixar a gente se transformar nisso.
Oikawa engoliu o nó seco que queimava em sua garganta. Cada palavra dela era como um prego sendo cravado no seu peito, mas ele sabia — com uma clareza aterrorizante — que ela estava coberta de razão.
Ele se virou para ela. Olhou para o rosto da garota que tinha sido sua parceira de vida, sua rival, sua confidente e seu primeiro e único amor. Ele aproximou o rosto devagar e selou os lábios dela em um beijo lento, profundo e incrivelmente carinhoso. Era um beijo que guardava o sabor de todos os sorvetes divididos, de cada treino sob o sol de verão, de cada promessa feita e de todas as lágrimas derramadas naquele quarto escuro.
Quando se afastaram, Oikawa segurou o rosto dela entre as duas mãos, usando os polegares para limpar duas lágrimas solitárias que escorriam pelas bochechas dela.
— Se cuida, -chan — ele sussurrou contra a testa dela, a voz falhando perigosamente. — Promete para mim... que você vai voltar a sorrir? De verdade? Sem essa sombra nos olhos?
olhou para ele, sentindo o peito aquecer levemente pela primeira vez em meses. Ela deu um sorriso fraco, mas genuíno — a primeira faísca da antiga surgindo através da névoa.
— Só se você prometer... que vai massacrar o Shiratorizawa e o Ushijima por mim.
Oikawa soltou uma risada curta, o brilho teimoso e feroz retornando instantaneamente aos seus olhos castanhos.
— É uma promessa — ele declarou, inclinando a cabeça com a arrogância renovada. — Eu vou pisar no Ushiwaka e vou levar o Seijoh pro Nacional.
E assim, a história do "Trio Terrível" encerrou seu primeiro grande capítulo.
Oikawa Tooru e Iwaizumi Hajime vestiram o uniforme azul e branco da Aoba Johsai, determinados a dominar o ensino médio e conquistar o topo de Miyagi. vestiu o uniforme preto e discreto da Karasuno, disposta a enterrar seu passado esportivo nas profundezas da memória e reconstruir uma vida longe do barulho da bola batendo na quadra.
Eles só não contavam que o destino tem um senso de humor peculiar. E que, no segundo ano do ensino médio, a vida colocaria exatamente no lugar onde ela jurou que nunca mais colocaria os pés: na beira da quadra do ginásio da Karasuno, segurando uma prancheta de análise tática durante um jogo amistoso contra a Aoba Johsai.