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Passaporte Rússia, 2018

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Prólogo


Apertei F5 novamente e nada. Ouvi um apito e suspirei, jogando as cobertas para o lado e me levantei, deslizando os pés pelo apartamento, provavelmente deixando as meias bem sujas pela falta de limpeza. Abri o micro-ondas, vendo meu almoço borbulhar lá dentro e tirei o prato com pressa, queimando levemente a ponta dos dedos, e o apoiei na pia, sorrindo com aquela alegria em forma de lasanha congelada.
Peguei os talheres e comecei a cortar a massa em pedaços pequenos, para evitar que caísse molho nos lençóis recém trocados da minha cama. Ouvi um barulho forte vindo da porta e olhei para a mesma, vendo-a ser aberta com rapidez, me assustando, e Bernardo aparecer.
— Já saiu?! – Ele fechou a porta correndo e eu o encarei assustada, ele estava vermelho e suava bastante.
— Você veio correndo só para isso?
— Como assim, “só para isso”? É o emprego dos sonhos, . – Ele me sacudiu pelos ombros e eu ri fraco, negando com a cabeça.
— Ainda não e duvido que eu vá conseguir. – Ele me olhou indignado, me soltando em seguida.
— Você passou por todas as fases do processo seletivo, . Você foi entrevistada pessoalmente pelo presidente da CBF, essa vaga é sua – ele falou animado e eu balancei a cabeça, pegando meu prato e voltando para meu quarto.
— Você está mais animado do que eu, Nardo, e você nem gosta de futebol. – Me sentei novamente na cama, colocando uma almofada em meu colo e o prato em cima.
— Você só diz que não está animada, mas aposto que vai adorar receber aquele salário de dez mil reais e ainda trabalhar perto dos jogadores mais bonitos da atualidade. – Suspirei.
— Exato! Aí que está o erro, que pessoa de 24 anos ganha um salário de dez mil reais? – Virei para ele. – Isso é loucura! – Ele riu.
— Sim, isso é verdade, mas é a CBF, provavelmente não vai ser o salário mais limpo do mundo, mas... – Ri fraco, balançando a cabeça.
— Eu não sei, seria demais, mas tinham outros candidatos na entrevista. – Suspirei. – Vai ser difícil.
— Bom, você é a jornalista com o melhor currículo que eu conheço e só tem 24 anos, além de amar futebol, eles só ganhariam contigo. – Sorri.
— Obrigada, Nardo. – Ele sorriu, se sentando na minha poltrona em frente à escrivaninha.
Coloquei o primeiro pedaço de lasanha na boca, sentindo—a queimar minha língua e a devolvi no prato quase na mesma hora, ouvindo um toque vindo do meu computador. Eu e Nardo nos entreolhamos e eu afastei a almofada com o prato com rapidez e puxei meu computador, vendo na tela que tinha um novo e—mail na caixa de entrada.
— Confia, ! – ele falou e eu engoli em seco, alterando as abas do navegador e respirei três vezes antes de abaixar o olhar para o e—mail recebido.
“Bem-vinda à CBF”, dizia o título e eu arregalei os olhos, abrindo o e—mail correndo.
“Senhorita Lima, é com enorme prazer que te recebemos em nossa equipe!” – Nardo gritou quando eu li a primeira frase. – “Seu nome foi escolhido entre tantos candidatos para compor a nossa equipe de comunicação. Seu currículo e entrevistas nos mostraram que suas habilidades e conhecimentos só trariam adições à nossa equipe”. – Engoli em seco. – “Para informações sobre horários e locais de trabalho, leia o arquivo em anexo, esperamos notícias suas muito em breve. Coordenadora de Comunicação da CBF, Michelle Martins”. – Li lentamente, arregalando os lábios quando finalizei o mesmo.
— Você conseguiu! – Bernardo gritou ao meu lado, se jogando em cima de mim na cama. – Tu vai trabalhar com Neymar, Marcelo, Jesus, Alisson... Meu Deus! – ele falou me apertando e eu gargalhei. – Minha amiga tá rica, gente! – Ele se levantou, me sacudindo e eu ri, não sabendo se as lágrimas eram de alegria ou de desespero. – Tu vai para Rússia, .
— Eu não vou para Rússia, Bernardo.
— Ok, provavelmente não, mas você vai trabalhar coladinho daqueles homens de coxas grossas e...
— Agora entendo seu interesse pelo futebol! – Ele gargalhou, me abraçando fortemente.
— Isso é demais, . A gente precisa sair para comemorar. Em um lugar bem caro porque agora você pode! – Revirei os olhos, sentindo—o me apertar.
— Eu preciso que a ficha caia antes, Bê. – Soltei o ar devagar. – Terminar de ler o e—mail, contar para minha mãe, abrir uma conta no Itaú, parar de chorar... – Falei embolado.
— Ah, amiga! – Ele me apertou novamente, me fazendo rir. – Podemos comemorar com vinho barato, então. – Gargalhei, apoiando minha cabeça no ombro dele.
— Você vai atrás do vinho que eu vou ler tudo aqui.
— Eu já volto! – Ele me soltou rapidamente, saindo do meu quarto, voltando logo em seguida. – Segunda—feira é a convocação, não é?! Será que você vai acompanhar?
— Ah, acho que não! Eu sou peixe pequeno. – Falei rindo, dando de ombros, mas ao mesmo tempo sentia meu coração bater muito rápido, como num jogo de futebol.

Capítulo 1 – Bem-Vinda à CBF

— Obrigada! – Falei para o moço do Uber e saí do carro com a bolsa colada no corpo.
Olhei para cima e encarei o prédio espelhado da CBF no meio da Barra da Tijuca e senti um frio na barriga, me fazendo apertá—la por alguns segundos. Respirei fundo algumas vezes e segui para a portaria, me apoiando sobre a guarita quando uma pessoa abriu a mesma.
— Bom dia, no que posso ajudar? – ele perguntou.
— Eu vou começar a trabalhar aqui hoje, área de comunicação – falei e ele assentiu com a cabeça.
— Pode seguir pela entrada principal que te darão as informações necessárias lá dentro.
— Obrigada! – falei, atravessei a rua do lado de dentro das grades e olhei rapidamente para as bandeiras hasteadas ali e o brasão da CBF ao fundo, não pude evitar um pequeno sorriso.
Passei pela porta giratória no lugar e me encontrei no saguão, onde um balcão estava apinhado de atendentes e seguranças e, ao fundo, as bandeiras de todos os estados no Brasil. Me aproximei do mesmo, aguardando minha vez chegar e uma moça me atendeu sorridente.
— Olá, no que posso ajudar? – ela perguntou.
— Eu sou , vou começar meu emprego hoje na área de comunicação, a responsável é Michelle Martins. – Ela assentiu com a cabeça.
— Claro! – ela falou. – Vou só fazer seu crachá, me empreste seu RG, por favor. – Abri minha carteira, entregando o documento a ela e aguardei enquanto ela passava todas as informações para o computador. – Olhe para a câmera, por favor. – Ela falou e eu tentei dar um sorriso menos empolgado para a mesma, mas eu estava bem animada. – Pronto, senhorita Lima. – Ela me entregou o crachá e o documento. – Só seguir pela entrada lateral da direita e ir para o quarto andar. – Assenti com a cabeça.
— Obrigada! – falei, seguindo para onde ela havia dito e passei o crachá na catraca, pendurando—o no pescoço enquanto passava pela mesma.
Entrei em um dos elevadores e vi que o número quatro já tinha sido apertado. Logo a caixa de metal se encheu e começou a subir, parando em todos os andares possíveis. Quando ele parou no meu, eu saí com mais três pessoas. Andei devagar pelo local, vendo que tinha uma recepção com uma pessoa mais nova do que eu ao telefone. Aguardei com que ela desligasse o mesmo e ela olhou para mim.
— Oi, eu sou ... – Ela abriu um sorriso.
— Ah, você vai começar hoje, certo? – Ela riu fraco. – Eu sou Giovanna, a estagiária, é um prazer te ter conosco. – Ela estendeu a mão e eu a apertei.
— O prazer é meu – falei e ela sorriu.
— Eu vou te levar para Michelle, vem comigo. – Ela tirou o fone da orelha e o apoiou o em sua mesa.
Seguimos para dentro das portas de vidro e soltei um suspiro involuntário. O local era grande, branco com móveis brancos e os detalhes em verde, amarelo e azul, com diversas fotos dos jogadores espalhadas pelas paredes e todo tipo de publicidade à vista. Havia notado que o pessoal principal ficava nas mesas comuns no centro do local e nas laterais tinham salas especiais, como da Michelle, da fotografia, RH e afins. Ela deu dois toques na porta de Michelle e não esperou alguma resposta, abrindo a mesma.
— Michelle, a está aqui. – Eu não vi a reação de Michelle para Giovanna, mas ela saiu e abriu espaço. – Pode entrar! – Sorri para a mesma e entrei devagar na sala.
— Peça para Lucas vir aqui daqui a pouco, Gi? – Olhei para a moça alta e de cabelos escuros lisos se levantar da cadeira e sorrir para mim. – Olá, , tudo bem? Que bom que veio! – Ela me estendeu a mão e eu apertei a mesma.
— Obrigada! Estou feliz em estar aqui. – Michelle encostou a porta e me acompanhou até sua mesa. – Sente—se, por favor. – Ela começou a organizar as papeladas que bagunçavam sua mesa e eu vi vários arquivos sendo juntados. – Ignore a bagunça, hoje o dia está meio conturbado. – Ela falou rindo. – Temos a coletiva da convocação às 14 horas e tudo está uma bagunça.
— Sem problemas!
— Bom, , hoje é seu primeiro dia aqui e eu sempre gosto de passar algumas informações para os colaboradores novos, principalmente nesse clima Copa, que acaba mudando um pouco a rotina de todos aqui na CBF. – Assenti com a cabeça. – Quando estivermos fora de campeonatos e disputas internacionais, seu horário de trabalho será das oito às 18 horas, de segunda a sexta—feira, com uma hora e meia de almoço e mais dois intervalos de 15 minutos que você fará na hora que quiser. – Assenti com a cabeça. – Já em épocas como as que estamos se aproximando, as coisas acabam mudando um pouco, você colocou no seu formulário que tem disponibilidade para viagens, certo?
— Sim, sim! – Falei prontamente.
— Então, quando os jogadores estiverem treinando na Granja Comary, nós pedimos para que alguns funcionários se aloquem lá, para repasse de informações mais agilizado, contato com os jogadores, além de que gostamos desse contato equipe e jogadores, porque acaba trazendo algumas ideias incríveis. – Assenti com a cabeça. – Como social mídia, seu trabalho vai ser, praticamente, fazer artes e publicar nas nossas redes sociais, Facebook e Instagram, temos outras redes sociais, mas com outros responsáveis. Além de interatividade com o público, fazer todo o monitoramento e acompanhamento e, também, fazer artes para as divulgações dos jogadores, normalmente acaba sendo um trabalho em parceria com a assessoria deles, mas isso é papo para outra hora.
— Certo! – falei rindo.
— Por isso, essa primeira semana você vai ficar aqui nesse prédio, pegando o andamento da CBF, conhecendo o pessoal, mas, na semana seguinte, eu vou precisar de você lá na Granja Comary em Teresópolis.
— Sem problemas! – Tentei conter o sorriso.
— Lá as coisas mudam de figura, você ficará hospedada lá, terá um quarto e banheiro só teu, cumprirá o horário de trabalho, mas terá um diferencial: ele não vai ser tão quadrado como aqui, lá você vai ter que caçar pauta, como dizemos, acompanhar os jogadores de perto, o treinador, a equipe técnica, vai realmente encontrar o que fazer. Você vai poder usar todos os meios da CBF, andar pelo local, usar os espaços em comum, academia, refeitório, são três refeições por dia, café da manhã, almoço e jantar, além de um lanche na parte da tarde e outro depois das 10 da noite. – Assenti com a cabeça. – Academia e afins você pode usar antes ou depois do seu horário de expediente e só nos fins de semana que você terá que ficar lá também, até que eles vão para Londres.
— Tudo bem. – Suspirei.
— Mas seu horário será diferente de fim de semana, você estará no seu horário livre, mas se necessitar de algum trabalho, enfim... – Ela respirou fundo. – Depois eu te passo o briefing certinho, são muitas informações, estou tentando me lembrar de tudo.
— Não se preocupe, qualquer dúvida eu pergunto. – Ela riu fraco, respirando fundo.
— O que mais? – Ela perguntou. – Ah sim. Você precisará se apresentar em Teresópolis na segunda—feira que vem, dia 21 de maio, que é quando os jogadores chegam. Nós teremos um ônibus saindo daqui as seis e meia da manhã, mas se preferir ir com seus meios, a gente se encontra lá as nove da manhã e reporemos seus gastos. – Assenti com a cabeça novamente.
— Eu vou ficar lá durante a Copa? – perguntei.
— Não, você vai ficar só uma semana lá na Granja, dia 27 eles vão para Londres se preparar para o amistoso e então você volta para a cidade e segunda—feira voltamos normalmente.
— Você não vai com eles? – Ela riu fraco.
— Ah não, já tive drama suficiente na minha vida. – Ela riu nervoso. – Hoje eu cuido da parte no Brasil mesmo, temos uma equipe de três pessoas mais fotógrafos que estão se preparando para ir.
— Legal! – falei, rindo em seguida.
— Quando eles forem para Londres, você receberá todas as informações dos assessores de lá por meio de um fórum que temos e vai elaborando as postagens, elaborando relatórios semanais, etc... – Ela balançou a cabeça e ouvimos a porta bater. – Ah sim! – ela falou rapidamente. – Pode entrar.
— Pediu para me chamar? – Um moço, mais ou menos da minha idade, entrou na sala e sorriu para mim.
— Por favor, Lucas, entre – ela falou e ele se sentou ao meu lado. – Essa é , nova social mídia, queria que vocês se conhecessem, pois vocês vão trabalhar lado a lado lá em Teresópolis.
— Olá, tudo bem? – Ele estendeu a mão para mim e eu a apertei.
— Lucas é o fotógrafo oficial da Seleção, ele vai para Teresópolis, depois para Londres e acompanhará os meninos na Rússia, ele que vai te passar as fotos e algumas informações para elaborar as postagens.
— Beleza! – Sorri, assentindo com a cabeça.
— Você vai gostar daqui, é tudo sério, mas é bem despojado.
— Despojado! – Michelle falou se levantando e seguindo para um dos armários. — Quanto você usa de blusa, ? – Ela me perguntou.
— M ou G, dependendo da forma. – Ela pegou algumas coisas e voltou para a mesa.
— Aqui nós não exigimos uniforme, mas temos algumas blusas oficiais, caso interesse. Mas em Teresópolis sim, para diferenciarmos quem é equipe, imprensa, funcionários, entre outras coisas. – Ela me entregou cinco camisetas. – Depois prove e veja se está certinho.
— Obrigada! – Falei, colocando as camisetas em meu colo, rindo em seguida.
— Estou me esquecendo de alguma coisa, Lucas? – Ela perguntou.
— Não sei o que falou para ela, mas qualquer coisa você pode perguntar para gente, somos bem de boa.
— Obrigada! – falei rindo.
— Ah, só uma curiosidade, tem passaporte?
— Tenho – falei, franzindo a testa.
— Já viajou para fora?
— A última vez faz dois anos, fui para Londres estudar por um mês. – Ela assentiu com a cabeça.
— E as vacinas estão em dia?
— Sim, tomei as atrasadas junto com a campanha da gripe. – Ela sorriu.
— Bom saber! – Ela riu fraco. – Nossa equipe para Rússia está completa, mas vai que todos os nossos 12 assessores adoeçam e...
— Dramática! – Lucas brincou, se levantando da cadeira e eu ri.
— Ah sim, falando em assessores. – Michelle lembrou. – Às vezes fazemos um rodízio nas ocupações, para dar uma mudada nos ares, então indicamos ficar próximo aos assessores, ver como eles se portam. – Assenti com a cabeça. – É tudo junto, os releases, notícias, até postagens são divulgados para todos, então as coisas acabam se misturando um pouco.
— Eu gosto bastante de assessoria também, então, estou nas nuvens.
— Ótimo! – Ela sorriu. – Vamos conhecer seu local de trabalho? Algumas pessoas?
— Claro! – falei, me levantando prontamente.

— Bem, aqui é o seu espaço de trabalho. – Michelle me apontou para uma mesa de canto. – Computador com todos os programas necessários instalados, você vai configurar ele da forma que quiser com uma senha pessoal sua. Usamos bastante o WhatsApp Web para nos comunicarmos, depois vou pedir para a Giovanna ou o Lucas te colocarem no nosso grupo. – Assenti com a cabeça. – Nas gavetas temos blocos de notas, papéis timbrados, um arquivo com as suas obrigações semanais, como o relatório de trabalho e, todo dia, em cima da sua mesa, vai ter um papel com seus deveres diários, às vezes são mais coisas, às vezes menos, e às vezes você vai ter que procurar o que fazer. – Assenti com a cabeça, tirando minha bolsa e colocando—a na poltrona. – Nas gavetas também tem um iPad e um celular, que serão seus para uso fora daqui, para levar para a Granja, eventos nos fins de semana, etc...
— Certo! – falei.
— Tem também o notebook, mas ele fica em outro local, então, no fim da semana, você dá um toque na Gi que ela te entrega um para levar para Granja.
— Perfeito. – Assenti com a cabeça.
— Bem, vamos conhecer as pessoas – ela falou e eu a segui para o começo do andar. – Inicialmente temos nossos assessores de imprensa. – Ela entrou no quadrante da assessoria onde eu vi nove pessoas. – Aqui temos Andrea, Joana, Luana, Gabriela, Roberto, Diana, Carlos, Cléber e Débora. – Acenei para eles. – Essa é a , gente, ela é nossa nova social mídia!
— E aí, ? – eles falaram juntos sorridentes e eu retribuí.
— Está faltando o Theo, a Angelica e a Bianca, mas eles vão para a Rússia, então, estão se preparando para a coletiva. – Assenti com a cabeça.
— Prazer, gente! – Acenei sorrindo.
— Vamos seguir aqui para trás – ela falou, me chamando com a mão. – Aqui temos o pessoal da fotografia, o Lucas que você já conhece. – Acenei para ele. – O David, a Anna e a Bruna. – Acenei para todos. – Lucas e David vão para Rússia.
— Olá, tudo bem? – falei e eles sorriram.
— Depois temos o pessoal do marketing, mas eles trabalham mais na parte de materiais de divulgação, uniformes, comerciais, propagandas, etc... – Assenti com a cabeça, vendo o outro grupo de pessoas. – Aqui ficam o João, Anita, nossa estrangeira Telma e Lopes. – Acenei para todos.
— Como você está? – Sorri, acenando para eles.
— E aqui no fim temos as equipes menores, a Júlia e a Dulce do RH, Iago, Murilo, Inês e Nina são nossa turma de relações públicas, o que você provavelmente vai passar bastante tempo com eles e o Vinícius que é... – Ela parou um pouco quando ele sorriu. – Bom, você vai descobrir com o tempo o que o Vinícius faz. – Franzi a testa e a turma em volta deu risada. – Acho que é isso.
— Não ligue para ela, meu trabalho é o mais legal! – Vinícius falou e eu ri. – Prazer te conhecer.
— O prazer é meu. – Sorri.
— Espero que goste daqui – uma das meninas do RH falou.
— Certeza que vou gostar. – Sorri.
— Bem, , é muita informação ao mesmo tempo, mas com o tempo você vai se ligando, eu indicaria você ficar perto do pessoal que vai para a Teresópolis para você pegando o ritmo da coisa. – Michelle falou e eu assenti com a cabeça.
— Beleza, perfeito! – Sorri.
— Bem, temos algumas horas até a convocação ainda, porque você não vai configurando seu computador, vai conversando com o Lucas sobre a forma que vocês vão trabalhar, protocolos que vão criar e tudo mais e duas horas você desce com o pessoal da assessoria para acompanhar a convocação, que tal?
— Eu? Acompanhar a convocação? Mesmo?
— Por que, não? Você trabalha com a gente agora. – Abri um largo sorriso.
— Vai ser ótimo! – falei rindo.
— Perfeito! Qualquer coisa eu estou na minha sala e você pode falar com a Giovanna, ela vai tirar suas dúvidas.
— Obrigada! – Sorri, suspirando.
— Vamos conversar? – Virei e vi Lucas ao meu lado.
— Claro! – Sorri.
— Vamos lá na sua mesa, assim você já vai organizando tudo.
— Beleza! – Falei rindo, seguindo com ele em direção à minha mesa.

Voltei do almoço 15 minutos mais cedo no meu primeiro dia, não para demonstrar interesse e comprometimento, mas sim porque a convocação começava bem na hora do meu retorno e eu não queria pegar a chegada da imprensa em peso. Subi rapidamente para o quarto andar, guardei minha bolsa e peguei o iPad e o celular, precisaria descobrir quem seriam os convocados para começar a seguir todos e entrar em contato com todas as assessorias.
, você aqui! – Olhei para trás, vendo Michelle saindo de sua sala.
— Oi! Vim mais cedo para pegar a coletiva do começo.
— Gosta de futebol?
— Muito! – Suspirei. – Joguei por muito tempo na escola e pela faculdade.
— Sério? Acho que deveríamos ter perguntado isso em um dos processos seletivos. – Sorri.
— Acho que não será tão útil para o emprego.
— Quem sabe na confraternização de fim de ano da empresa? – Ri fraco, balançando a cabeça.
— Talvez eu seja útil.
— Que posição você jogava?
— Goleira! – falei orgulhosa. – Minha família é composta por goleiros, meu pai, meu tio, minha prima. – Sorri. – Difícil completar time nos encontros em família.
— Posso imaginar! – ela falou rindo. – Bem, me acompanha?
— Claro! – Peguei as coisas e a segui pelo corredor, quando as portas se fecharam dentro do mesmo, ela me estendeu uma das várias folhas de sua prancheta.
— Vai começando os trabalhos – ela falou e eu franzi a testa, virando a capa e encontrando uma lista com o nome de 23 homens.
— É a lista da convocação? – cochichei para ela.
— Exclusivamente para ti. – Abri a boca surpresa e ela riu. – Divirta—se! – Ela disse e eu fechei a mesma correndo quando as portas do elevador se abriram no primeiro andar.
Saí correndo atrás dela e entramos na sala de imprensa. Parei por alguns segundos ao vê—la apinhada de pessoas e me assustei um pouco vendo jornalistas de diversos meios de comunicação do Brasil (e mundo) nas cadeiras dispostas e câmeras organizadas na parte de trás.
Psiu! – Virei para o lado, vendo Vinícius escorado na parede junto de outros funcionários da área de comunicação e me aproximei deles, me apertando entre ele e outra moça que eu não conhecia. — Bianca, essa é , a nova social mídia. – Ele falou para a mulher e eu sorri.
— Ah, você é a menina nova – ela cochichou e eu sorri. – Muito prazer te conhecer. – Ela apertou minha mão e eu sorri.
— O prazer é meu – falei sorrindo.
Olhei rapidamente para os lados, vendo se não tinha ninguém da imprensa de papagaio de pirata, apesar de o local estar fervendo e abri a capa da lista rapidamente, descendo os olhos rapidamente para os goleiros: Alisson da Roma, Ederson do Manchester City e Cássio do Corinthians, abri um pequeno sorriso e fechei a lista novamente.
Eu não conhecia muito o trabalho do Alisson, eu até torcia por um time italiano, mas não era o dele, mas eles avançaram bem durante a Liga dos Campeões da Europa. O Ederson eu realmente não acompanhava, campeonato inglês não era comigo, agora o Cássio eu conhecia muito dos jogos do Corinthians aqui no país. Não torcia pelo time dele, mas tinha que admitir que ele era muito bom.
Ouvi um alvoroço e olhei para frente, vendo Tite e outros três homens entrarem na coletiva e se sentarem à mesa, acabei descobrindo que eram Cléber Xavier, braço direito de Tite, Edu Gaspar, coordenador técnico da Seleção e Rodrigo Lasmar, médico da Seleção. Ergui meu celular rapidamente e tirei uma foto, enviando correndo para Bernardo com a frase: “Olha o que está acontecendo aqui!”. Queria esperar pela resposta surtada do meu amigo, mas um dos homens começou a falar e eu liguei o iPad, seguindo para o Instagram para começar a seguir todos os jogadores convocados.
— Gostaria de iniciar com um agradecimento a todos os atletas que fizeram parte dessa caminhada conosco até aqui. Vale lembrar que chegamos em 2016 com o jogo contra o Equador. E todos os atletas que estiveram conosco em todas as convocações, nosso profundo agradecimento, pois sabemos a importância que eles tiveram na nossa preparação e nos resultados que tivemos aqui. Então, em nome da comissão técnica e de todos nós, a todos os atletas, nosso muito obrigado pelo trabalho que eles vêm fazendo conosco até agora.
Ele continuou falando sobre o preparo dos atletas na Granja Comary, sobre as estruturas do local, sobre a preparação que aconteceria em Londres, depois sobre o terceiro período de preparação quando a equipe chegar a Sochi. Em seguida, ele falou da presença dos familiares na preparação dos jogadores, que eles terão tempo também para descansar e aproveitar esses momentos.
— Bem, falando tudo isso, eu passo a palavra para o professor. – Ele falou e eu engoli em seco, olhando para Tite.
— Boa tarde. Respaldado, seguro e com a expectativa muito grande sobre a recepção de vocês, mas vamos direto. – Me assustei com a rapidez. – Goleiros: Alisson, Roma; Cássio, Corinthians; e Ederson, Manchester City. – Comecei a mexer no Instagram rapidamente, tentando acompanhar o nome de todos, mas ele era rápido. – Defensores: Danilo, Manchester City; Geromel, Grêmio; Filipe Luís, Atlético de Madrid; Marcelo, Real Madrid; Marquinhos, PSG; Miranda, Inter de Milão; Fagner, Corinthians; Thiago Silva, PSG. – Sorri ao ouvir o nome do Thiago Silva na lista novamente. – Meio campistas: Casemiro, Real Madrid; Fernandinho, Manchester City; Fred, Shakhtar Donetsk; Paulinho, Barcelona; Phillipe Coutinho, Barcelona; Renato Augusto, Beijing. – Ele virou para o lado. – Tá boa a velocidade assim? – Ri fraco, vendo—o sorrir. – Willian, Chelsea. – Ele finalizou. – Atacantes: Douglas Costa, Juventus. – Me contive em comemorar a presença de um bianconeri na seleção brasileira. – Firmino, Liverpool; Gabriel Jesus, City; Neymar Júnior, PSG; Taison, Shakhtar. – Abri um sorriso, feliz por estar ali.
— Por favor, apresentem nome e veículo antes da pergunta – o primeiro homem falou e eu me afastei, saindo da sala de imprensa e voltando para o quarto andar e começando a procurar todas as informações sobre esses 23 jogadores convocados, abrindo diversas abas no navegador.
Vi que tinha um e—mail não lido na minha caixa de entrada e notei que era uma arte que deixaram preparada para divulgar, com o nome de todos os 23 jogadores. Abri as redes sociais rapidamente e disparei loucamente! Depois de fazer isso, eu respirei um pouco mais aliviada, comecei pelo primeiro da lista e fui seguindo, acompanhando o briefing montado pela CBF e os Instagram deles, vendo que a maioria já tinha divulgado que fora convocado, o que eu achei engraçado, todos já tinham suas artes prontas, esperando por esse momento.
Confesso que me vi tentada em parar nas redes sociais do Alisson, que homem bonito! Como eu nunca tinha reparado antes? Acho que agora com o Buffon saindo da Juventus, poderia começar a crushar outro goleiro de time italiano, principalmente pela incerteza de aonde Buffon jogaria, mas eu nunca trairia minha Juventus e torceria pela Roma.

Enquanto eu me indignava com algumas opiniões na internet sobre as escolhas da convocação, mesmo não tendo muita opinião formada sobre, recebi uma mensagem em meu celular de Michelle, pedindo para que eu voltasse à sala da coletiva de imprensa. Franzi meu rosto, mas não indaguei nada, juntei minhas coisas novamente e voltei a descer. Só agora havia notado que a sala voltara a encher novamente. Devo ter ficado vidrada com as informações sobre a convocação.
Notei que a sala da coletiva estava vazia agora, somente com algumas emissoras que retiravam suas câmeras, mas, no geral, tudo já tinha finalizado. Encontrei Michelle, Bianca e mais uma pessoa conversando com os quatro homens que falaram na coletiva. Me aproximei deles, mas, envergonhada em interromper, aguardei.
— Michelle, ela está aqui. – Bianca deu um toque em Michelle e eu dei um rápido aceno para ela.
— Ah, , vem cá! – Ela falou e eu me aproximei acanhada, engolindo em seco. – Tite, Edu, Cléber, Rodrigo, essa é . – Eles estenderam a mão e eu apertei a de cada um deles. – Ela está começando conosco hoje, ocupando o cargo de social mídia e eu queria apresentá—la a vocês, já que ela vai acompanhar vocês em Teresópolis na semana que vem e vai ficar bem próxima de toda a ação.
— Como está, ? Prazer te conhecer – Tite falou e eu sorri.
— O prazer é meu – falei sorrindo.
se destacou bem em nosso processo seletivo por ter um currículo incrível e se comunicar bem em qualquer uma das ambientações que fizemos. Além de ser nova. – Michelle falou e eu assenti com a cabeça, então, foram esses os motivos que me trouxeram aqui? – Além de que ela jogou futebol na escola, na faculdade, ela entende do meio e fez parte. – Ponderei com a cabeça.
— Mesmo? – eles comentaram.
— Bom, não foi nenhum jogo profissional, mas nos demos bem em alguns campeonatos e jogos universitários. – Eles riram.
— E o que achou das minhas escolhas? – Tite perguntou e eu franzi o cenho, analisando se essa pergunta realmente havia sido feita para mim.
— Eu não tenho muita opinião formada sobre, meu interesse maior são os goleiros – falei sorrindo.
— Jogava como goleira?
— Sim – falei, sorrindo. – Com isso, acabo tendo certa inclinação maior para isso.
— E como estão essas escolhas? – Ponderei com a cabeça.
— Provavelmente vou poder te dar uma opinião melhor quando vê—los em prática. – Tite se surpreendeu com a resposta e eu abri um sorriso, rindo em seguida.
— Estarei aguardando sua opinião, então. – Rimos juntos.
— Bem, vocês terão muito mais tempo para socializar, queria só apresentá—los para não chegar aquele clima estranho na semana que vem.
— Por mim está ótimo – Tite falou, olhando para os outros homens. – Vai ser bom ter uma mulher com a gente para mandar na coisa toda. – Não segurei a gargalhada, mas depois notei que era sério.
— Bem, espero poder ajudar. É para isso que eu estou aqui.
— Muito bom! – Ele sorriu, estendendo a mão novamente. — É um prazer te conhecer, vai ser bom trabalhar contigo. – Sorri.
— Com vocês também, obrigada! – Assenti com a cabeça.
— Temos algumas entrevistas, não? – Tite falou e eu me afastei.
— Claro, Bianca vai acompanhá—los. – Acenei para eles e observei Bianca sair com os quatro.
— E aí, o que achou?
— Olha, se todos meus dias forem um por cento do que foi esse primeiro, eu vou amar esse emprego! – Ela riu.
— Vamos dizer que fora das competições internacionais acaba ficando meio chato, em compensação durante elas, é uma empolgação e um calor no coração que fica todo mundo apaixonado. – Sorri.
— Eu amo Copa do Mundo, então, estou adorando tudo isso. Meu Deus, conseguir a lista de convocados antes de todo mundo. – Ela riu.
— Privilégios de trabalhar com a gente, se você estivesse começado antes, já saberia desde quinta—feira. – Sorri.
— Isso é demais! – Suspirei. – Estou empolgada para ir para Teresópolis, confesso.
— Todos ficam na sua primeira vez. Eu já estou velha, acompanhei três Copas do Mundo, Olimpíadas e afins, mas vocês jovens adoram, além de que é uma farra. Vocês trabalham, mas com os jogadores tudo acaba virando festa. – Ri com ela. – E não julgamos vocês por isso, idades parecidas, os jogadores acabam enturmando vocês, trocam telefones e Instagram e as amizades são feitas. – Assenti.
— Vou adorar! – Ela riu.
— Então, , eu vi que você fez algumas postagens da convocação, o trabalho é o que você imaginou? Você entrou em um dia bem conturbado, então não pude te dar tanta atenção, mas queria saber o que você achou, se você está confortável com os termos, a viagem para Teresópolis, ter que ficar lá...
— Calma, Michelle! – interrompi rindo. – É o primeiro dia, então eu não vou poder te dar um relatório completo de tudo que achei, mas começar em dia de convocação e poder acompanhar? Nossa! Estou muito feliz. – Falei rindo. – Eu adoro jogar futebol, amo Copa, esse clima gostoso de nervosismo que a gente fica, isso acompanhando de casa, imagina acompanhar com a Seleção? Mesmo que seja só por uma semana e depois acompanhar eles daqui, mas assim, dentro da CBF... – Ri fraco. – Eu vou ser honesta que estou adorando, além do mais, é um emprego que nunca na vida eu imaginaria conseguir com três anos de formada e 24 anos nas costas. – Ela abriu um largo sorriso. – Pessoas da minha idade não conseguem isso.
— Eu fico feliz por isso, , mesmo. A área de comunicação é uma área mais dinâmica, então, tentamos valorizar o pessoal mais jovem. – Assenti com a cabeça. — Bom, as coisas vão melhorando, amanhã vou fazer uma reunião com o pessoal que vai para Teresópolis e começaremos a nos organizar melhor. – Assenti com a cabeça.
— Estarei aguardando ansiosamente todos os passos. – Ela sorriu.
— Bom, , você já fez uma postagem, nem esperávamos por isso, mas você pode ir para casa por hoje, o dia foi corrido, vai descansar, amanhã começamos do zero.
— Mesmo? – perguntei. – Talvez possa ajudar com outras coisas e...
— Confia, a semana vai ser bem louca, precisamos da equipe descansada. A maioria do pessoal já vai embora também. – Assenti com a cabeça.
— Beleza. – Sorri. – Obrigada! – Falei.
— Eu que agradeço. – Ela sorriu. – Gostei de ti, sinto que teremos grandes feitos vindos de você.
— Espero que sim. – Sorri, me virando novamente e seguindo de volta para o quarto andar para finalizar minhas coisas e ir para casa.

Abri a porta do apartamento e entrei no mesmo, fechando a porta, soltei as camisetas na mesma e coloquei a mochila que eu havia ganho, com todos os apetrechos eletrônicos da CBF, em cima da pequena mesa de jantar que eu e Bernardo tínhamos na sala. Caminhei até meu quarto e tirei meu sapato de salto preto, movimentando os dedos, relaxando.
— E aí? – Me assustei com Bernardo saindo do banheiro e ri fraco.
— Você não tem que trabalhar, não?
— Mudei meu turno, vou entrar às seis hoje. Adorei ver que você chegou mais cedo. – Sorri, me sentando na minha cadeira do computador do meu pequeno espacinho.
— Ah, Nardo! – Suspirei. – Foi tão bom! – Falei rindo. – Eu estou nas nuvens, sério! Foi demais.
— Eu vi a foto que você mandou, você foi a convocação, menina! – Ele se sentou em minha cama, levantando os pés.
— E eu recebi a lista dos convocados 10 minutos antes de começar.
— Mentira! – Dei de ombros. — Mas, me conta, como vai ser? – Ele falou.
— Ah, nossa! Nem sei por onde começar – falei rindo. – Eu vou trabalhar diretamente com eles no prédio da CBF lá na Barra da Tijuca e enquanto eles estiverem em meio a treinamentos e preparação para competições na Granja Comary, eu vou acompanhar de perto.
— Você vai trabalhar em Teresópolis? – ele falou surpreso.
— Eu não só vou trabalhar lá, eu vou ficar lá! Com os jogadores! – falei animada e ele deu um grito.
— Isso é sensacional! – Ele falou rindo e eu sorri. – E você vai agora?
— Eu vou semana que vem, tu vais ficar uma semaninha sem mim.
— Ah, nem ligo, poderosa! – Ri com suas palavras. – Nossa, , que demais! – Suspirei.
— Eu estou muito feliz. – Relaxei os ombros. — Aí ela falou que eu posso usar tudo da Granja nos horários livres, academia, piscinas, terei três refeições e dois lanches, um quarto só meu, vou acompanhar de perto os jogadores, ajudar um pouco na assessoria se for necessário, eu estou amando, Nardo.
— Eu estou amando. – Ele falou rindo. – Isso é incrível! – Ele falou e eu ri. — E depois?
— Bom, dia 27 eles vão para Londres, aí eu volto a trabalhar aqui na cidade. – Suspirei.
— E não falaram nada de Rússia? – ele perguntou.
— Ah, só mencionaram que a equipe está pronta, mas perguntaram se eu tenho passaporte e se minhas vacinas estão em dia.
— Imagina só se...
— Não, Nardo, eu não vou para a Rússia – falei rindo e ele fechou a cara. – Eles têm 12 assessores, posso te garantir que se alguém não puder ir, eu sou a última na lista. – Ele franziu os lábios.
— Tá, não importa, você vai ficar uma semana com os jogadores no maior centro de treinamento do Brasil. – Ele ergueu as mãos, maravilhado. – É um sonho! – Balancei a cabeça.
— Tonto! – Ele riu.
— O que mais? – ele perguntou. – Vai! Me conta!
— Ah, eu conheci o Tite e um pessoal da equipe técnica.
— Sério? Tipo, pessoalmente?
— Você conhece outro jeito de conhecer alguém? – Fui irônica e ele me mostrou a língua. – É, conheci! – Suspirei. – Minha chefe quis nos apresentar por causa da ida para a Granja. Eu não perguntei, mas tive a leve impressão que não vai muita gente para Teresópolis, vai um grupo mais jovem.
— Mais proximidade com os jogadores! – Revirei os olhos.
— Você sabe que eu vou lá para trabalhar e não paquerar, certo?
— Ninguém falou nada em paquerar, mas uma amizade longa e duradoura a qual você vai apresentar seu amigo quando tiver a primeira oportunidade.
— Claro. Uhum, senta lá, Cláudia! – Ele riu e suspirou.
— Ah, mas eu estou muito feliz por você, . Sério! Agora só falta eu arranjar um emprego fantástico e sair de lá.
— Ei! Eu não vou reclamar de continuar ganhando uns cupões de desconto do Outback e, vamos ser honestos, você ganha bem demais para um garçom. – Ele ergueu o dedo e ficou sem fala.
— Você tem razão, mas ainda não é o emprego dos sonhos ou com um salário como o seu. – Ri fraco.
— Eu só vou acreditar quando esse dinheiro cair na conta e vou começar a me programar para dar entrada em um apartamento ou trocar minha lata velha. – Ele riu.
— Talvez seja uma boa você comprar um presente fantástico para seu amigo!
— Pode ter certeza que sim, e de quebra, vou te levar para um rodízio lá na Churrascaria Palace.
— Ah, amei! – Ele falou rindo.
— Bem, você foi quem mais me instigou a participar disso, não me custa nada. – Ele sorriu, puxando minha cadeira de rodinhas e me abraçando de lado.
— Você é fantástica e vai se sair muito bem. Fé no pai! – Ri fraco, suspirando.
— Vamos ver!

A semana que se seguiu acabou passando muito rápido. Como eu havia imaginado, acabei trabalhando com o seleto grupo que iria para a Granja, Lucas da fotografia, Theo da assessoria e Vinícius, que eu ainda não havia descoberto o que fazia e parecia que todos estavam escondendo sua ocupação de mim.
Eu passei a semana fazendo ligações para a confirmação da presença da imprensa nos treinos abertos da Seleção em Teresópolis e mexendo no arquivo de fotografias dos 23 jogadores para elaborar imagens de divulgações, mas eu estava meio travada, não conseguia ter grandes ideias para publicações sensacionais. Os alcances estavam bem baixos e não é como se uma página como a da CBF precisasse de impulsionamento com 12 milhões de curtidas.
Também passei muito tempo em reuniões sobre a Copa do Mundo, todos os detalhes de chegava, saída, treinamentos, coletivas de imprensa, encontros com familiares, eram programados por segundo, tornando a agenda do dia totalmente doida. Na teoria, em Teresópolis era para ser assim também, mas parecia que Theo, o assessor que nos acompanharia, estava mais preocupado com a Rússia, então eu, Lucas e Vinícius, acabamos deixando as coisas para lá, a gente que mandaria naquilo, os jogadores que obedecessem aos horários deles e a equipe técnica. Nossa responsabilidade era outra.
Coloquei ponto final no relatório da minha primeira semana e demorei mais 15 minutos para revisar ao texto. Mandei imprimir e me levantei da cadeira para pegar as três cópias que saíram dali. Voltei para minha mesa, grampeando as cópias individualmente e assinei cada uma.
Voltei para o computador rapidamente, programando uma publicação para segunda—feira nove da manhã, o momento em que os jogadores chegariam a Teresópolis, lá eu pegaria algumas fotos e vídeos e começaria o trabalho pesado.
Levantei novamente e segui para a sala de Michelle, batendo duas vezes na porta, antes de abrir a mesma. Ela estava ao telefone, então, entrei devagar em sua sala, me sentando em uma das cadeiras à sua frente.
— Ok, obrigada! – Michelle falou, desligando o telefone. – E aí, menina? – Ela falou e eu estendi o relatório semanal para ela.
— Meu primeiro relatório.
— E aí, conseguiu fazer?
— O pessoal me passou um modelo, acabei seguindo. – Ela olhou rapidamente as páginas, assinando as cópias e me devolvendo uma.
— Uma fica contigo, outra comigo e outra vai para os superiores. – Assenti com a cabeça.
— Perfeito! Acho que é isso – falei. – Eu já programei uma postagem para segunda—feira quando o pessoal chegar a Teresópolis e lá eu e o Lucas combinamos de ficar meio próximos para conseguir repassar as coisas com mais facilidade.
— Está ótimo! – Ela falou. – Lá na Granja você vai ver que as coisas serão mais fáceis, mais descontraídas. Vocês terão várias inspirações, então, vai ser bem mais divertido. – Ri fraco.
— Se eu já estou achando essa correria divertida, mal posso esperar quando chegar lá. – Ela sorriu.
— Falando nisso, eu preciso saber como você vai segunda—feira.
— Eu vou com meu carro, mesmo – falei. – Os jogadores vão quatro da tarde para o aeroporto para pegar o voo para Londres às seis, eu vou aproveitar e voltar para o Rio, se não vou ter que ir para o aeroporto e só depois ir para casa.
— Sem problemas! – Ela sorriu. – Peça então para Giovanna, um dos nossos cartões corporativos para você abastecer. – Arregalei os olhos surpresa. – Combinado?
— Perfeito! – falei rindo. – Te vejo em Teresópolis, então?
— Eu não vou! – Ela riu. – Meu lugar é aqui, eu te vejo dia 28 agora e em algumas ligações esporádicas pelo Skype. – Assenti com a cabeça.
— Beleza! Você me manda mensagem que combinamos as ligações.
— Pode deixar! – Ela sorriu. – Bom, , acho que você já tem toda as informações, o uniforme, horário de chegada, horário de trabalho, compromissos dos jogadores, já pegou os eletrônicos para trabalho... – Ela colocou a mão no queixo. – Acho que é isso, lá você vai receber os horários da Granja para poder usar os ambientes comuns, descanso, refeições, serviço de lavanderia... – Franzi a testa. – Enfim, tudo certinho. – Confirmei com a cabeça.
— Acho que é isso. – Dei de ombros.
— Ah, lembrei! Segunda—feira à noite vai ter um jantar de recepção, algumas pessoas seletivas da imprensa, então, aconselho colocar uma roupa mais fina no armário, nada de gala, só melhor... E, se não tiver, use o cartão corporativo para comprar...
— Pode deixar! – Ri. – Eu tenho. – Ela sorriu.
— Então, é isso! – Ela se levantou de sua mesa, me dando um rápido abraço. – Boa viagem, bom trabalho, nos falamos. E te vejo daqui duas segundas—feiras.
— Pode deixar! – Sorri. – Boa noite. – Falei, acenando para ela.
— Boa noite – ela respondeu e eu saí de sua sala com minha cópia do relatório.
Voltei para a sala, colocando o relatório sozinho no meu arquivo e desliguei tudo. Peguei o cartão corporativo com Giovanna, pendurei a mochila com os eletrônicos nas costas e minha bolsa no ombro e saí da sala, seguindo com alguns funcionários pelo elevador.
Minha preguiça não permitiu que eu pegasse um ônibus lotado naquele dia, acabei chamando um Uber, mesmo que isso causasse uma grande conta no meu cartão no final do mês, mas ok, valeria à pena quando meu salário caísse, mesmo que parcial, no começo do mês que vem.
Entrei em casa e fui direto para o banho, tomando aquele banho completo que fazia até com que o cheiro do sabonete subisse no ar. Coloquei uma camisola e amarrei a toalha na minha cabeça para que secasse um pouco o cabelo e puxei minha mala para a parte alta do armário, eu precisava arrumar minha mala para levar para Teresópolis, mas eu estava bem perdida do que levar.
Olhei para as cinco blusas azuis polo da Seleção e sabia que calça jeans skinny era o que mais combinava com elas. Peguei várias calças jeans, outras roupas mais confortáveis para usar no meu tempo de folga, um vestido mais bonito para o tal jantar, algumas roupas de ginástica (não que eu pretendesse malhar, mas vai que...), um moletom e um casaco melhor, o básico de higiene pessoal e maquiagens.
Segui para meu armário de sapatos e coloquei três opções de salto alto, um tênis mais despojado, um tênis de ginástica e duas sapatilhas. Fiquei em dúvidas sobre roupa de cama e banho e acabei mandando mensagem para Lucas para tirar essa dúvida, ele logo disse que era igual um hotel, não precisaria me preocupar com isso, fiquei feliz, pois minha mala já estava lotada.
Depois dos sapatos, eu fui conferir se tudo na bolsa de eletrônicos estavam ok, notebook, iPad, os dois celulares, fontes, câmera fotográfica, baterias e cartões de memória reserva. Guardei tudo de volta, fechando a mochila com um cadeado e deixei ao lado da mala. Ouvi um barulho na porta e me distraí.
— Cheguei! – Ele gritou.
— No quarto! – Respondi, analisando a mala aberta em cima da cama e abri uma das blusas da Seleção, esticando—a na minha cadeira, separando junto de uma calça jeans e meu sapato preto.
— Ei! – Ele falou, dando um rápido beijo em minha testa. – Arrumando as coisas? Nossa! Quanta coisa! – Ri fraco.
— Eu não sei o que esperar, então, estou cobrindo pelo básico, ou seja, tudo. – Ele riu fraco.
— Você vai assim segunda—feira? – Ele perguntou, apontando para a roupa em cima da cadeira e eu afirmei com a cabeça.
— Sim, o que acha?
— Acho que vai ficar um arraso, mas pode melhorar! – Ele falou, tirando um embrulho de trás das costas e eu franzi a testa.
— O que é? – Perguntei, apoiando em cima da mala quando ele se sentou na lateral da cama.
— Um presentinho para você usar em Teresópolis. – Ele falou e eu ri.
Rasguei o pacote, dando de cara com uma caixa de sapatos. Olhei rapidamente para Bernardo e ele tinha um largo sorriso no rosto. Abri a mesma, ficando maravilhada pelo scarpin amarelo ovo que tinha lá dentro. Peguei o mesmo, de boca aberta e soltei um suspiro, olhando para Nardo.
— Um scarpin amarelo? – Ele deu de ombros.
— Achei que combinaria com essa blusa maravilhosa e nessa mulher maravilhosa.
— Meu Deus, Bê! Ele é lindo demais. – Falei rindo e o abracei de lado. – Mas porque amarelo?
— Amarelo é uma cor que significa luz, calor e desperta criatividade. Achei que pudesse te dar sorte. – Sorri, suspirando. – Além de que é a cor da Seleção e eu achei a sua cara, você vai arrasar. – Soltei uma risada divertida.
— Ele é lindo demais, mas deve ter custado um pouquinho demais. – Ele abanou com a mão.
— Não se preocupe! – Ele falou. – Depois você paga meu cartão de crédito. – Gargalhei, abraçando—o de lado. – Eu cuido da casa até você voltar, ok?! – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
— Obrigada, amigo. – Suspirei. – Eu te devo muito.
— Bem... – Ele ponderou. – Me mande fotos dos jogadores malhando sem camisa que estaremos quites. – Gargalhei, balançando a cabeça.
— Vou tentar. – Falei rindo.
— Vai, agora vai lá experimentar essa roupa, eu acho que vai ficar um sucesso! – Ele falou, me empurrando e eu ri, pegando os sapatos, a roupa e seguindo para o banheiro.


Capítulo 2 – Localização: Granja Comary, Teresópolis

A viagem para Teresópolis era mais longa do que eu esperava, quando eu coloquei no GPS, havia descoberto que durava quase duas horas de onde eu morava. Eu acabei colocando tudo correndo no carro, me despedi de Bernardo com algumas lágrimas e brincadeiras dramáticas e peguei a estrada pouco depois das sete da manhã na segunda—feira.
No geral, a viagem foi bem entediante. Enchi meu pendrive com as mais variadas músicas e cantava todas a plenos pulmões para que eu pudesse me distrair um pouco. Mas eu tive uma outra distração logo que cheguei em Teresópolis, o escudo da CBF visto ao topo do morro da Granja Comary, me fazendo entender a minha louca paixão por futebol.
Me aproximei do portão, olhando para o horário e vendo que era 10 para as nove, estava com o horário bem apertado. Puxei o freio de mão, abaixei o vidro e aguardei um dos seguranças se aproximar do meu carro.
— Olá, senhorita, no que posso te ajudar?
— Eu sou , trabalho para a comunicação da CBF. – Entreguei meu crachá para ele que assentiu com a cabeça.
Lima, certo? – ele falou e eu confirmei com a cabeça. – Estávamos à sua espera. – Ele falou e eu sorri. – Você pode entrar, a sua equipe estará na dentro. Pendure esse crachá no seu carro, por favor. – Ele me devolveu um crachá para colocar no espelho e o meu.
— É... –chamei novamente. – Para que lado eu vou?
— Só seguir o caminho, terá um estacionamento no fim dele. Depois você pode seguir para o prédio um.
— Obrigada! – falei sorrindo e liguei o carro novamente, vendo os portões se abrirem e eu segui em direção ao escudo que ficava bem na entrada.
Segui pelas curvas que o caminho fazia, subindo até os prédios no topo, acreditando no segurança quando ele disse que eu acabaria caindo em um estacionamento. O local era muito bem arborizado, além de parecer um paraíso. Aquilo era um sonho! Cheguei ao estacionamento que o segurança da entrada havia dito e parei em uma vaga, conferindo se eu não estava parando em nenhum lugar privativo para algum peixe grande.
Saí do carro, sentindo o vento bagunçar meus cabelos e soltei um suspiro ao olhar para baixo e notar três campos de futebol, lado a lado, para treinamento. Dei uma volta rápida ao redor do meu próprio corpo, encontrando o “Prédio Um”. Era um prédio espelhado bem na frente do estacionamento, escondido um pouco na lateral.
Abri o porta—malas do carro e me sentei na quina do mesmo, tirando os tênis que eu havia usado para dirigir até aqui e peguei a caixa de sapatos que Bernardo havia me dado, tirando meu novo sonho de consumo dela, os sapatos amarelos. Calcei, vendo que meu look havia melhorado completamente e abri rapidamente minha mala para espremer os tênis lá dentro.
Coloquei o crachá em meu pescoço e comecei a me arrumar. Pendurei a mochila com os eletrônicos nas costas, tirei minha mala de rodinhas do porta—malas e pendurei a bolsa em meu braço. Acho que era tudo. Fechei o carro, ativando o alarme e guardei a chave na bolsa.
Puxei a mala pelo caminho vazio e observei o prédio espelhado do outro lado da rua. A porta abria e fechava conforme as pessoas entravam e saíam da mesma e eu respirei fundo três vezes antes de atravessar a mesma. Passava das nove e eu já estava atrasada. Assim que a porta automática se abriu para mim, eu passei pela mesma, prendendo o ar rapidamente.
Eu não estava sozinha.
O local estava lotado. Lotado de jogadores da Seleção Brasileira se cumprimentando. Reconheci todas as figurinhas carimbadas da convocação, dos briefings, das fotos e dos treinamentos para esse dia em especial. Mordi meu lábio inferior quando notei que todos os olhares se viraram para mim, afinal, olhando rápido, eu era a única mulher ali.
Quis dar uma olhada mais longa em todas os homens, principalmente as carinhas que eu já conhecia, mas eu achei que seria melhor não encarar. Senti um alívio passar pelo meu corpo quando Vinícius apareceu, passando por entre algumas pessoas e eu até soltei a respiração aliviada.
— Aí está você! – ele falou, me segurando pela mão.
— Eu estou em desespero! – cochichei para ele que riu.
— A primeira vez é assim mesmo – ele falou rindo. – Vem comigo! – Ele me puxou por entre as pessoas e eu passei colada de Neymar, Gabriel Jesus e companhia, tentando parecer calma, mas eu estava realmente surtando internamente.
— Oi, , como está? – Acenei para Theo que falava com Lucas que estava distraído tirando fotos.
— Tudo bem. – Olhei em volta rapidamente. – Eu acho. – Ele riu.
— Isso é completamente normal. – Ele abanou a mão. – Estamos reunidos aqui para a distribuição de quartos, daqui a pouco o pessoal já vai seguindo para seus lugares. – Assenti com a cabeça.
— Perfeito! – falei rindo.
— Pedi um quarto só para você, tá? – ele falou e eu confirmei. – Você é a única mulher aqui, achamos que não se sentiria confortável dividindo com alguém.
— Ah, obrigada! – Sorri. – Mas eu sou realmente a única mulher aqui? – Engoli em seco.
— Tirando as pessoas que trabalham aqui no CT, sim... – Arregalei os lábios.
— Ok.
— Se sentindo privilegiada?
— Me senti privilegiada quando consegui esse emprego, agora eu estou nas nuvens. – Os três riram.
— Olá, tudo bem? – Um homem apareceu ao nosso lado. — É a equipe de comunicação, não é?
— Sim! – Theo tomou as rédeas da situação.
— Vou levá—los ao quarto de vocês, vamos?
— Claro! – Lucas falou animado, pegando sua mala do chão.
— Me sigam, por favor! — O homem falou e o seguimos, enquanto passava pelos jogadores, aproveitei para dar uma rápida olhada para eles, abrindo um sorriso discreto.

A primeira coisa que eu havia percebido era o quão enorme era aquele lugar! Sério! A gente andava, andava e parecia não chegar aos lugares. Mas, com isso, eu consegui conhecer um pouco das acomodações, restaurante, sala de jogos, caminho para as piscinas, academia, centro de treinamento, lavanderia e muito mais! Se eu não estivesse lá a trabalho, poderia dizer que estava em um resort, até cabeleireiro e manicure tinha ali, mas tenho certeza que não era para mim!
Um longo corredor denunciou os quartos da Granja e, quando eu digo quartos, quero dizer quartos de todas as pessoas hospedadas naquele lugar. No começo do corredor, tinha os quartos da comissão técnica, cada um sozinho e o nome indicado na porta. Em seguida, 10 quartos para os jogadores. Cada quarto tinha dois nomes na porta, totalizando 20 pessoas, foi aí que eu me lembrei de que Marcelo, Casemiro e Firmino só se juntariam à turma em Londres, depois de competir pela final da Champions League.
Observei a porta do quarto de Alisson e Cássio e olhei para a do lado, vendo meu nome solitário na mesma, com a minha ocupação embaixo. Achei engraçado como eu acabava atraindo os goleiros mesmo sem querer. À minha frente tinha o quarto de Lucas e Vinícius, e ao lado o de Theo e acabava o corredor.
— Bom, gente, se acomodem, desfaçam as malas, temos uma reunião com a equipe as 10 horas. Tem um briefing em cima da cama de vocês com as informações do dia. – Theo falou. – Todo dia terá um briefing para vocês na porta, olhem, analisem, vejam os horários dos jogadores e liguem os seus nos dele para que vocês possam cumprir suas ocupações, beleza?
— Beleza! – falamos quase juntos.
— Nos encontramos daqui a pouco, então – ele falou e eu fiquei em dúvidas por dois segundos sobre como abriria a porta, mas o cartão chave estava conectado na mesma. O puxei de volta e a porta se abriu em um clique.
Assim que eu a abri, tive certeza que estava em um hotel cinco estrelas. O quarto era sensacional! No meio da mesma, uma cama de casal com almofadas e travesseiros fofos tomavam a mesma e uma manta no pé da cama. Em cada lado da cama, uma pequena mesa de apoio, uma com um telefone e outra com algumas folhas, o briefing do dia e informações sobre os horários de funcionamentos dos locais.
Atrás da cama, uma janela com uma vista incrível da Granja, melhor que de muito quarto de hotel que eu fiquei na vida, incluindo quando visitei Londres. Uma televisão estava colocada na parede em frente à cama e uma pequena escrivaninha com o espaço perfeito para eu deixar meus eletrônicos quando precisasse trabalhar em um lugar mais calmo. E, acima disso, um espaço aberto para eu acomodar minhas roupas com alguns cabides.
Do lado, uma porta que dava para um banheiro incrível também! Banheira, chuveiro, toalhas almofadadas e aquele cheiro delicioso de limpeza. Tudo isso em branco com detalhes nas cores do Brasil. Eu estava realmente nas nuvens!
Voltei para o quarto e peguei as regras da Granja para ler, lá tinha o horário de todas as refeições diárias. Café da manhã das sete as nove, almoço das 11 a uma da tarde, jantar das sete às nove. Das três as cinco tinha um pequeno lanche da tarde e depois das 11 a uma da madrugada tinha outro. Academia e piscinas ficavam abertas das seis da manhã até às 10 da noite, uso livre sempre, com exceção nos horários de treinamento. Lavanderia funcionava toda manhã. Camareira limpava o quarto e trocava as toalhas todos os dias depois das nove da manhã e trocava roupas de cama a cada dois dias.
Além disso, tinha algumas informações sobre lugares restritos, acesso somente com crachá, proibição de caminhar nas áreas externas após as 11 da noite, e sobre o contato com a imprensa, mas eu era a imprensa, sabia muito bem que não deveria falar com eles sem a minha permissão. E, no fim de tudo, um mapa, que me deixou muito feliz.
Passei a folha e achei o briefing que Theo falou, era a programação diária e nesse dia estava bem vazia. Tínhamos uma reunião programada para as 10 da manhã com toda equipe técnica, jogadores e assessores e tinha uma longa duração. À tarde teriam as avaliações físicas de cada jogador e, no fim do dia, o jantar de recepção. Olhei o relógio rapidamente e vi que ainda tinha alguns minutos antes de ter que procurar a sala de reunião externa.
Coloquei a mochila em cima da cama e tirei o iPad e o celular da mesma, imaginando que Lucas me acompanharia hoje e durante a avaliação, e depois me passaria as fotos. Peguei minha mala e ergui na cama também, abri a mesma e comecei a tirar os itens que eu usaria mais, higiene pessoal, maquiagem, pijama e trocas de roupas mais leves para usar quando eu estivesse fora do meu horário de trabalho.

Terminei de organizar todas as minhas coisas e me sentei na cama um pouco, tentando fazer com que a ficha caísse. Aquilo era fantástico, oportunidade única da vida e eu estava aqui! Ouvi uma batida na porta e abri a mesma, encontrando Lucas e Vinícius parados na mesma.
— Ei! – falei e eles sorriam.
— O que tá achando? – Lucas perguntou e eu suspirei.
— É um paraíso – falei rindo.
— Dá até tristeza quando voltamos para casa – Vinícius comentou e eu ri.
— Ah, nem quero pensar quando chegar à hora, vocês ainda vão à Rússia, eu vou ficar abandonada lá no Rio. – Eles riram.
— A gente te manda notícias – Lucas brincou e eu ri. – Vamos?
— Vamos sim. – Peguei o iPad e o celular, colocando o meu e da CBF no bolso e puxei a porta.
Não era a primeira vez de Vinícius e Lucas ali, então eles sabiam para onde ir. Fomos em silêncio, o único barulho que ecoava eram meus saltos batendo contra o piso de granito branco.
Não era tão longe quanto a entrada do prédio principal, mas precisamos subir alguns andares e seguir por outros caminhos que eu ainda não conhecia. Lá era praticamente uma linha reta, acabava não tendo muito como errar. Percebi que chegamos quando vi algumas caras conhecidas entrando no mesmo lugar que nós.
Puxei e soltei o ar três vezes antes de entrar atrás de Lucas e Vinícius. Me vi em uma sala de coletiva de imprensa. Um pequeno palco no alto com algumas cadeiras e embaixo cerca de 20 fileiras com um corredor no meio. Engoli em seco quando notei os jogadores lá na frente e segui Lucas e Vinícius, nos sentando em uma das fileiras ao fundo.
As pessoas continuaram entrando e se acomodando nas cadeiras e eu aguardei. Aquilo parecia uma sala de escola, as conversas e risadas eram altas, fazendo com que eu percebesse que aquilo não passava de uma excursão escolar e eu era a aluna nova. Tite e a turma que eu conheci na coletiva, além de Theo, subiram no palco e o barulho cessou um pouco.
— Bom dia, bom dia! – Tite falou, oficializando o silêncio. – Bem—vindos a Teresópolis, hoje começamos nossos treinamentos para a Copa do Mundo. – Os jogadores começaram a aplaudir e eu e os meninos acompanhamos. – Aqui serão feitos todos os tipos de treinos e avaliações para que vocês nos ajudem a trazer o nosso hexacampeonato! – Os gritos continuaram, igualzinho na escola. – Bem, antes de eu passar para as informações técnicas, vamos esclarecer algumas coisas. – Ele coçou a cabeça. – Todos receberam as informações da Granja, horários de funcionamento, horários de trabalhos e tempo livre. Além disso, vocês receberão todo dia uma programação diária que deve ser cumprida, caso você não esteja na programação diária, você está livre para fazer o que quiser, menos sair daqui. – Ele falou, me fazendo rir fraco. – Sabe que sempre permitimos familiares, mas aqui é o trabalho de vocês, então, vamos manter a calma, beleza?
— Beleza! – eles concordaram quase em uníssono.
— Como vocês aqui, vai começar a divulgação da Seleção em si, fotos, vídeos, entrevistas, então o pessoal da comunicação, fotografia, todos ficarão bem perto de vocês, acompanhando tudo, então, dê atenção a eles, eles estão trabalhando aqui igual vocês. Alguns são figurinhas que vocês já estão acostumados, mas outros são... – Theo cochichou algo para Tite que interrompeu sua fala. – Ah sim! – Ele disse. – Bem, como eu ia dizendo, alguns já estão com a gente faz tempo, mas temos uma pessoa nova no nosso time que é alguém bem diferente do que vocês estão acostumados. – Senti meu rosto esquentar. – , pode vir aqui, rapidinho? – Arregalei os olhos e olhei para Lucas ao meu lado e ele fez sinal para que eu levantasse.
Me levantei e engoli em seco, mas podia ser aquela vontade de vomitar chegando à boca. Agarrei firme o iPad em minha mão e caminhei pelo pequeno corredor até o palco, somente ouvindo os barulhos do salto batendo contra o piso. Eu sentia que estava sendo observada, principalmente pelos jogadores que se sentaram no corredor, e isso fazia com que meu corpo esquentasse. Subi o pequeno degrau que separava os dois níveis e me coloquei ao lado de Tite.
— Essa é a ! – ele falou e eu dei um pequeno sorriso. – Ela entrou para substituir o Marcos, vocês se lembram dele, certo? – Alguns assentiram, mas a maioria ficou quieta. – Ela é a nova social mídia da CBF, ou seja, o trabalho dela é ficar bem perto de vocês, pegando todos os acontecimentos, todas as referências e divulgando o andamento de vocês para a Copa, além de ajudar vocês em eventuais crises. – Abri um sorriso e alguns riram. – Ah, e a melhor parte, ela gosta de futebol, então, valorizem—na, ok?! E respeito sempre.
— Pode deixar! – Alguns falaram e eu abaixei o olhar, encontrando com o de Alisson que estava na primeira fileira e me senti uma tonta, desviando o olhar de uma pessoa bonita como se eu tivesse 15 anos novamente.
— Quer falar alguma coisa? – Tite perguntou e eu ponderei com a cabeça.
— Vamos só esclarecer que esse “ficar bem perto de vocês” que o Tite falou, é de um jeito respeitoso, tá? Dos dois lados! – brinquei e eles gargalharam. – Falando sério, meu trabalho é um tanto criativo demais, então, se vocês tiverem ideias, sugestões, quiserem mostrar algo de diferente, estarei por aqui acompanhando vocês. – Sorri para eles e para Tite que retribuiu.
— É isso aí! — Tite falou. – Obrigado, , bem—vinda à CBF de novo. – Ele falou e o pessoal começou a gritar enquanto eu voltava para o meu lugar e eu não consegui segurar a risada, meu rosto deveria estar muito vermelho de vergonha. – Vamos agora falar sobre treino... – Tite começou e Lucas ria da minha cara quando eu sentei ao meu lado.
— Você fez piada com a Seleção? – Ele cochichou rindo e eu dei de ombros.
— Acho que é o que eu faço de melhor. – Brinquei e ele riu.
— Muito bom!

A reunião acabou durando umas boas três horas, fazendo com que minha barriga começasse a roncar no final. Foi meio desnecessário que a equipe de comunicação ficasse na reunião, eles somente falaram sobre os treinos que seriam feitos em Teresópolis, toda a agenda programada para aquela semana e depois começaram as análises sobre a Croácia e a Áustria que seriam os dois países que enfrentaríamos nos amistosos que antecediam a Copa.
Eu tinha meus conhecimentos da época de jogos universitários e o básico da época da escola, mas fazia muito tempo que eu não tocava em uma bola para valer, com aquela garra e força de vontade, então, as palavras da equipe técnica não passavam de zunidos para mim. Além da distância da tela que parecia que tudo estava um pouco desfocado.
Apesar de sentarmos longe, a compensação veio no final da apresentação, fomos os primeiros a seguir para o refeitório e em ter o prazer de começar a fila do self-service. De cara eu havia notado que o cardápio era claramente feito pensando nos jogadores. Tinha toda a sessão light com saladas, grãos e comidas integrais, mas depois seguia para pratos que todo brasileiro estava acostumado. O desse primeiro dia era feijoada. Tentei não ser a esfomeada no almoço de domingo em família e me conter na quantidade que eu tirava, mas aquilo está simplesmente sensacional, precisei repetir mais uma vez, mas os jogadores estavam se matando de comer com pratos dignos de pedreiro, então, ninguém estava me notando.
Depois do futebol, eu, ou melhor, os jogadores tiveram uma hora de descanso antes das avaliações físicas, então, eu aproveitei para também tirar uma hora de descanso. Ao invés de ficar trancafiada em meu quarto, eu acabei seguindo para a parte de fora, para aproveitar um pouco melhor da vista e ligar para minha mãe e para Bernardo para dar sinal de vida.
Fiquei o resto do meu almoço falando com ambos, minha mãe estava toda preocupada sobre minha ida sozinha para Teresópolis, pegar estrada e afins, além da curiosidade em querer saber se eu tinha conhecido alguém importante. Importante para ela eram os jogadores. O papo com Bernardo acabou seguindo o mesmo nível, mas não pude evitar de falar que alguns jogadores, não dando especificidade para ninguém, eram muito gatos pessoalmente.
Nessas duas conversas, o meu tempo de descanso até passou um pouco do planejado. Eu estava sozinha agora e teria que achar a academia. Não foi tão difícil, depois de me perder três vezes e ter que perguntar para um dos auxiliares de limpeza que estavam trabalhando por ali.
Quando cheguei à porta da academia, percebi que fazia parte do novo Centro de Excelência que eu estava lendo na semana passada. Uma academia superequipada, preparada para avaliar e treinar os jogadores. Um pequeno gasto de 17 milhões de reais. Nada demais! Entrei na mesma com medo do que encontraria, olhei rapidamente meu celular e notei que Lucas já havia me informado que estava lá.
Soltei um suspiro de alívio quando notei que todos os jogadores estavam devidamente vestidos enquanto puxavam ferros e torneavam mais aqueles músculos. Era quase uma visão pornográfica: 20 jogadores com as coxas mais saradas do mundo puxando ferro na minha frente de shortinho. Notei que estava com os sapatos errados ao entrar por ali, pois na parte acolchoada, meus pés afundavam e na parte de concreto, o barulho ecoava como o som de estalinhos.
— Ei, aí está você! – Senti Lucas me cutucar e virei para ele.
— Desculpa, me perdi – falei rindo e ele balançou com a cabeça.
— É uma boa você andar com aquele mapa que deixaram no quarto.
— Eu estava com você, achei que não teria problemas. – Ele riu.
— Vem! – ele me chamou. – Estou fotografando e Vinícius está filmando as avaliações físicas dos jogadores.
— Ah, então é isso que Vinícius faz? – perguntei. – Para que tanto mistério?
— Bem, quando ele não está na sua ocupação principal, ele filma as coisas para gente.
— E qual é a ocupação principal dele? – Lucas me ignorou e eu franzi os lábios.
O segui para um local mais reservado, passando pelos jogadores que treinavam e alguns acenaram para mim, me fazendo sorrir. Espero que a recepção de mais cedo tenha servido para me enturmar um pouco. Passei pela divisão e levei à mão a boca imediatamente, quase desmaiando de tanto que eu prendi a respiração.
Alisson estava sem camiseta, com eletrodos colados em seu peito cabeludo enquanto corria na esteira com Rodrigo e Fábio analisando seus movimentos e batimentos cardíacos. Ele estava bem de frente para mim, então tentei suavizar minha reação, mas não tinha como. Além de ele ser bonito, seu corpo era perfeito, e a calça estava baixa o suficiente para que eu visse os ossos de sua bacia bem demarcados.
Acho que esse trabalho seria mais difícil do que eu pensava.
— Então... – falei baixo para Lucas que tirava algumas fotos. – Qual está sendo a ordem de chamada? Número da camisa ou ordem alfabética? – Perguntei, tentando arranjar outra coisa para me distrair, o cronômetro estava em regressiva e faltavam oito minutos para aquela tortura acabar, isso se não tivessem outros testes.
— Posição, na verdade – Lucas me respondeu. – Goleiros, laterais, zagueiros, meias e atacantes. – Coloquei a mão no queixo, fazendo um bico e assenti com a cabeça.
— Beleza! Acho que podemos juntar tudo isso e mandar para o pessoal fazer postagens na CBF TV, vou falar com o pessoal da propaganda e pedir uma vinheta especial para a preparação da Copa, notei que o YouTube é atualizado bem esporadicamente, é a época perfeita para renovar isso. Muita gente não sabe do site da CBF TV.
— A ideia é boa! – Lucas comentou, com os olhos em sua câmera.
— Além de um meme que surgiu na minha cabeça agora.
— Qual? – Ele perguntou e eu virei de costas para a cena para respondê—lo.
— “Como matar a social mídia de ataque cardíaco no primeiro dia”. – Dei um sorriso irônico e ele ergueu os olhos para Alisson novamente e logo ficou vermelho e começou a rir.
— Ainda bem que você não é um cara ou sua excitação já estaria à mostra.
— Ainda bem que meu sutiã tem bojo. – Falei, colocando a mão levemente em cima dos seios e ele começou a gargalhar alto, se virando de costas e passando o braço pelos meus ombros.
— Você se acostuma! Eu não babava pelos corpos sarados deles, apesar de invejar um pouco, mas eu sempre gostei muito de futebol, então eu parecia um fã louco, você está se comportando nessa parte.
— Já na outra... – Deixei a dúvida no ar ele riu, negando com a cabeça e nos viramos para apreciar a cena.
— Está tudo certo? – Alisson nos perguntou enquanto corria, provavelmente ao notar a gargalhada que demos e eu e Lucas nos entreolhamos segurando a risada novamente.
— Tá tudo ótimo! – falei, franzindo os lábios. – Só me pergunto se é uma boa ideia fazer essa avaliação depois de bater uma pratada de feijoada! – Dei um sorriso e Lucas voltou a gargalhar ao meu lado e Alisson abriu um sorriso, reduzindo sua velocidade de corrida.
— Te conto depois que isso acabar! – Sorri, balançando a cabeça, fazendo positivo com os dedos.
O resto do dia passou daquele jeito. Avaliações nos outros 19 jogadores. Cada posição tinha um tipo de avaliação diferente, mas todos tinham que especificamente fazer o teste na esteira, permitindo uma visão interessante por 10 minutos, tirar sangue e urinar em um copinho para o exame toxicológico.
Depois de finalizar com Taison, o último da lista, eu e os meninos ainda demos uma sondada rápida na academia. A maioria estava nos aparelhos de pernas e braços, me fazendo entender um pouco como as pernas deles ficavam daquele jeito.
— Você acha que foi uma boa ideia vir de salto para uma academia? – Thiago Silva me perguntou quando passei por ele.
— Posso te garantir que seria muito pior se eu fosse malhar, mas como estou a passeio, acho que está tudo bem. – Dei de ombros e ele riu. – Mas é, acho que meu All Star funcionaria melhor aqui. – Ele sorriu e eu voltei a andar pelo local.
— Bom, acho que já temos imagens o suficiente. – Vinícius voltou, fechando seu tripé.
— Ok, eu preciso dos cartões de memória, vou fazer algumas postagens e entrar em contato com a Michelle para saber para quem eu mando para fazerem a edição do vídeo. – Eles retiraram os cartões das máquinas e me entregaram.
— É o pessoal da propaganda, só não sei quem vai assessorar a gente do Rio. – Assenti com a cabeça.
— Bem, eu descubro. – Suspirei, parando para pensar. – Bem, vou falar com o Theo antes, não é?!
— Melhor – Lucas confirmou com a cabeça.
— Ok, eu vou para o quarto para fazer meu trabalho, nos vemos no jantar à noite?
— Que roupa vocês vão? – Vinícius perguntou e eu franzi a testa.
— Homens também perguntam isso? – retribuí e ele riu.
— Eles falaram que é algo melhor, mas não sei se chega a ser black tie. – Ponderei com a cabeça.
— Espero que não, eu não trouxe um longo na minha mala. – Eles riram.
— Não, acho que é algo mais despojado, eu vou de jeans, blazer e sapatênis. – Lucas comentou e eu ponderei com a cabeça.
— Se vocês descobrirem alguma coisa, me avisem para eu caçar uma roupa melhor. Eu vou para o quarto.
— Pode deixar! – Lucas falou.
— Até mais! – Vinícius disse e eu dei meia volta, desviando dos jogadores e seguindo para fora da academia.
Voltei para o quarto com mais facilidade, eu havia reparado que tinham placas indicativas para os locais, então, tinha sido só falta de atenção minha mesmo. Quando entrei no corredor dos quartos, vi uma sombra ao fundo, pensei com quem eu teria que me enturmar, mas relaxei quando vi que era meu grupo favorito daquela Copa.
— Ei, é a social mídia! – Cássio falou e eu dei um pequeno sorriso, rindo em seguida.
— Oi, gente! – falei, me aproximando dos três goleiros.
— Até a social mídia é alta, gente. – Ederson brincou e nós rimos.
— Vamos dizer que com um pai com dois metros de altura, seria difícil eu sair baixinha.
— A feijoada bateu bem, viu?! – Alisson falou e eu levei a mão aos olhos, tentando minimizar minha risada.
— Não sei de quem foi a ideia de servir feijoada depois fazer avaliação física, mas acho que não foi uma das melhores. – Dei de ombros e ele riu.
— Eu ainda me dei mal por ser o primeiro...
— Desvantagens de ser o número um! – Ele sorriu.
— Vai ficar aqui na área com a gente? – Cássio perguntou e eu me afastei um pouco, apontando para a porta do meu quarto.
— Bem perto de vocês. – Eles sorriram.
— Eita que não vai desgrudar da gente – Ederson brincou.
— Vão se acostumando. – Peguei meu cartão chave do bolso, colocando no local. – Eu preciso trabalhar um pouco, nos vemos no jantar?
— Claro! – eles responderam e eu empurrei a porta do quarto, deixando que ela batesse sozinha.

Entrei no quarto e segui rapidamente para o computador, repassando rapidamente por algumas fotos da seleção e fazendo algumas postagens nas redes sociais. Selecionei as melhores fotos de cada jogador e também enviei para o e—mail da assessoria da CBF, a assessoria de cada jogador e, também, pelo WhatsApp deles, antes de escrever um texto falando quem eu era. Me senti tão importante por um momento em ter o telefone pessoal dos jogadores e, mais importante ainda, quando eles responderam agradecendo ou fazendo a mesma piada do Cássio lá fora: “Olha! É a social mídia!”, acho que esse seria meu novo nome!
Eu acabei ligando para Michelle lá no Rio de Janeiro para pegar as informações sobre os vídeos, o que ela achava da minha ideia e dos meninos em ativar o canal da CBF novamente com esses vídeos. A ideia foi muito bem—vinda e ela pediu para Telma, a estrangeira, falar comigo, para que eu explicasse a ideia dos vídeos. Dois vídeos, descobri pelos cartões de memória que eles também tinham filmado a chegada dos jogadores antes de eu aparecer por ali.
Acabei terminando tudo quase sete horas da noite, Michelle havia falado que seis horas eu podia parar de me preocupar com isso, mesmo com trabalho pendente, mas eu tinha perdido bastante tempo por causa da reunião e, com o acompanhamento da avaliação, eu nem parei para olhar as redes sociais, além das minhas, que eu fazia questão de postar algumas coisas, afinal, era o meu trabalho e eu estava adorando tudo aquilo!
Saí correndo para tomar um banho e me arrumar, no cronograma falava que o jantar começaria às oito horas e eu não sabia o quão pontual eles eram, mas imaginei que muito. Não precisei lavar meu cabelo novamente, já que não tinha suado hoje, mas perdi alguns minutos no banheiro para fazer uma maquiagem decente. Normalmente era Bernardo que fazia minha maquiagem, mas eu precisei me virar sozinha.
Deixei os cabelos soltos, somente jogando a franja para trás e fui atrás do vestido que eu usaria no dia. Era um vestido azul marinho simples , estilo mullet, com a parte de trás mais comprida e os ombros caídos lateralmente. Na minha escolha, eu tentei me atentar ao básico, acho que os sapatos amarelos já chamariam atenção suficiente.
Quando vi que faltavam cinco minutos para as oito, eu saí do quarto, encontrando Lucas e Vinícius também saindo de seus quartos. Ambos sorriram quando me viram, tínhamos idades semelhantes, mas Lucas era casado e creio que Vinícius não me olhava de forma diferente da que eu olhava para eles. Éramos amigos, quase como se Bernardo estivesse aqui.
— Você está ótima! – Vinícius falou e eu sorri.
— Vocês também!
— Vamos? – Lucas me estendeu o braço e Vinícius também. Ri sozinha e dei o braço para ambos, andando em direção ao restaurante.
Estranhei ao não ver ninguém mais saindo dos quartos, suspeitei que eles já estivessem lá ou tivessem outro compromisso que não tinha sido informado no meu cronograma, mas assim que entramos no restaurante, notei que eles já estavam lá e comecei a me perguntar em quantos dias eu levaria para falar alguma besteira sobre esses jogadores.
Black tie talvez não era necessário para os ralés da comunicação, mas para os jogadores sim. Todos usavam aqueles ternos azuis escuros maravilhosos com o brasão da CBF no paletó, camisa e gravata longa da mesma cor e sapatênis nos pés. Olhei para eles arrumados e soltei um suspiro, percebendo que Vinícius olhava para mim.
— Gostando do que vê? – Dei um sorriso envergonhado.
— Façam suas apostas: em quanto tempo eu me demito ou sou demitida por indiscrição? – perguntei e ambos riram.
— Deixa disso! – Lucas brincou. – Não vejo problema nenhum em você achar eles bonitos, só não todos.
— Ah não, eu tenho minhas preferências. – Pisquei e eles riram.
— Altos e goleiros?
— Xí! – Coloquei o dedo sobre a boca e eles riram.
— Oi, gente! – Theo apareceu ao nosso lado e eu sorri.
— Oi, Theo! – falamos quase em uníssono.
— Se divertindo?
— Sempre! – respondi rindo.
— Você está ótima! – ele me falou e eu sorri, assentindo com a cabeça. — Vamos entrar! – Ele acenou com a cabeça e eu segui junto dos meninos para dentro do restaurante. – Fiquem à vontade.
— Obrigada! – falamos juntos.
— Vocês estão bem acompanhados, hein, garotos? – Virei o rosto, vendo Neymar passando com alguns jogadores.
— Não precisa ter inveja, tem para todo mundo. – Ele saiu rindo e eu me acomodei em uma das mesas com Lucas, Vinícius, Theo e alguns dos meias: Renato Augusto, Phillipe Coutinho, Paulinho e Willian.
O jantar foi composto de entrada, prato principal e sobremesa, como todo jantar chique deveria ser. Uma música calma tocava ao fundo e só era ouvido algumas conversas contidas pelo local. Na nossa mesa, eu acabei sendo o assunto.
— Eu tenho que dizer, é realmente interessante ter uma mulher aqui. Sempre só tem homens. – Paulinho falou e eu ri. – Onde você estava antes?
— Ironicamente, eu comecei a trabalhar na CBF na segunda passada. — Eles riram. – Eu nem esperava vir para cá, confesso.
— Vai para Rússia com a gente? – Willian perguntou.
— Não, não. – Neguei com a cabeça. – Isso não, mas vocês terão a companhia desses dois. – Bati nos ombros de Lucas e Vinícius. – Quem sabe em 2022 no Catar?
— Ah, mancada! – Renato falou e eu dei de ombros. – Voltaremos à testosterona.
— Não é por nada não, mas uma mulher para tudo isso de homens, não faz nem cócegas. – brinquei e eles riram.
— Mas eu entendo o que o Renato disse, é outra coisa ter uma mulher na equipe, não sei explicar, mas parece que tem mais controle... – Phillipe falou e eu assenti com a cabeça.
— Valeu. – Sorri.
— Você gosta de futebol, não é? – Willian emendou o papo.
— Adoro! Joguei na época da escola e depois representando a faculdade durante os quatro anos.
— Então, temos alguém que entende do assunto. – Renato riu.
— Um pouco, mas tirando algumas peladas esporádicas, faz muito tempo que não jogo profissionalmente. – Sorri.
— Qual sua posição? – perguntaram.
— Goleira. – Eles sorriram.
— Ei, ei! Quem falou em goleira aqui? – Ederson apareceu e eu ri. – Você? – Sorri, erguendo os ombros.
— Senta aí! – Lucas falou, puxando a cadeira.
— Conta mais! – Ele puxou uma cadeira e se sentou entre mim e Lucas. – Onde você jogava?
— Eu estudei em uma faculdade particular, então, tinha uma valorização maior no esporte e eu acabei conseguindo um desconto por jogar. – Ponderei com a cabeça. – Tipo filmes americanos? – Eles assentiram. – Era algo assim...

Acordei no dia seguinte com o despertador. O jantar no dia anterior até que tinha sido legal. Depois daquele papo com o pessoal da nossa mesa, outros jogadores acabaram se juntando à nossa mesa: Neymar, Gabriel Jesus, Douglas, Fred e Geromel. Os assuntos se tornaram mais diversos, mas as risadas ficavam cada vez mais altas e estridentes, chamando a atenção até dos dirigentes, fazendo com que eles parassem uns segundos perto de nós para saber o que estava acontecendo.
Eu realmente estava me divertindo, por um momento eu até esqueci que aquelas pessoas eram muito famosas, ganhavam milhões por ano e representariam nosso país atrás do hexa! Ali todos pareciam adolescentes em uma viagem escolar, e eu estava no meio como a aluna que foi transferida para a escola errada.
A diversão podia rolar a noite toda, mas meia—noite em ponto os jogadores foram expulsos para dormir, já que o treino começava cedo no próximo dia. Eu, Lucas e Vinícius nos entreolhamos e acabamos seguindo pelo mesmo caminho, afinal, eles eram a graça, nós só estávamos participando. Todos se despediram no corredor e as portas foram batidas.
Eu achei que demoraria para dormir, queria ficar olhando as fotos que eu havia tirado com alguns jogadores, ver o que eles haviam postado nas redes sociais, mas o dia havia sido cansativo e meus pés estavam em frangalhos.
Segui direto para o banheiro na manhã seguinte, tomei um banho rápido, aproveitando a deixa para lavar o cabelo e, enquanto me secava, segui para a porta do quarto, onde uma folha de papel havia sido deixada debaixo da porta com a programação do dia. Os treinos começariam, mas, pelo que estava escrito na programação, seria mais uma apresentação para a imprensa. Não sabia o que isso significava, mas pensei em sair com meu notebook para adiantar algumas coisas da lista de afazeres que havia chego em meu e—mail, enquanto Lucas tirava as fotos.
Vesti minha calça jeans e blusa da Seleção e olhei para meu sapato amarelo. Pensei por um momento e tirei meu All Star da mala. Meus pés ainda estavam um pouco doloridos do dia anterior e eu desceria para o campo com eles, não era o melhor terreno para bater meus sapatos novos.
Passei um bom protetor solar naquele dia, estávamos no outono, mas o sol que entrou pela minha janela já queimou meu corpo, imaginei que não estivesse tão frio quanto o esperado. Fiz uma maquiagem leve no rosto, coloquei um boné na cabeça, juntei meu notebook e o celular da empresa e saí do quarto.
— Bom dia. – Sorri com Danilo saindo do quarto com Miranda.
— Bom dia – respondi.
— Vai tomar café? – Miranda perguntou.
— Por favor. – Falei rindo e eles acenaram com a cabeça para seguirmos juntos.
Thiago Silva e Marquinhos se juntaram a nós no meio do caminho, fazendo que os cinco entrassem juntos no restaurante. Outros jogadores já estavam lá, a maioria com cara de sono, tomando café da manhã. Nos dissipamos e eu peguei uma mesa vazia em um dos cantos no local e deixei meus eletrônicos no mesmo.
Segui para a mesa de comida e fui seguindo o movimento das pessoas na minha frente, pegava a bandeja, colocava a toalha de papel, prato, xícara, copo e talheres e seguia para as comidas. Tinha todo tipo de opção que uma pessoa poderia querer, mas eu acabei caindo no básico, pão com presunto e queijo e um pouco de ovo mexido para acompanhar. Peguei um copo com café com leite e outro com iogurte.
— Bom dia! – Olhei para o lado, vendo Alisson se servindo também.
— Bom dia! – Abri um pequeno sorriso, pegando minha bandeja e me retirando da fila.
Apoiei minha bandeja na mesa e abri o notebook, dando algumas garfadas no ovo enquanto ele ligava. Digitei rapidamente minha senha, vendo o computador abrir com o logo da CBF no mesmo. Dei um gole em meu café e estranhei quando vi Gabriel Jesus e Coutinho se sentando ao meu lado.
— Ei... – falei meio confusa.
— Esses lugares estão vagos? – Gabriel perguntou.
— Sim! – Falei rindo.
Bem, eu tinha que me enturmar e acho que eles estavam levando o recado de Tite ao pé da letra, o que me deixou bem feliz, era difícil depender só de Lucas e de Vinícius, afinal, não tinha nenhum sinal deles até agora.
Terminei de tomar café enquanto olhava a lista de afazeres que Michelle havia me mandado, nada fora do que eu estava acostumada, mas encontrei em meu drive os dois vídeos que eu havia pedido para o pessoal da propaganda editar para mim e as senhas de acesso ao CBF TV e ao YouTube. Era hoje que eu ia fazer a internet pegar fogo! Só esperaria estar em um local com acesso constante à internet e programar os uploads.
Depois do café, acabei seguindo com Neymar para o campo de treinamento. Ele acabou me perguntando um pouco sobre o que eu fazia e como eu havia chegado até ali. Contei rapidamente sobre o processo seletivo de três meses e minhas atuais ocupações que acabavam se misturando um pouco com publicidade e relações públicas, mas que eu gostava.
Ele se afastou junto com os jogadores e a equipe técnica e eu me coloquei do lado de fora da linha e abri um pequeno sorriso ao me lembrar dessa sensação de campo, quadra e futebol, sentindo uma nostalgia da época da faculdade. Puxei o celular do bolso e tirei uma foto rapidamente da equipe reunida e enviei para o grupo das antigas Focas de Laço Azul da minha universidade. “Um dia no campo, outro para fora da linha”, algumas ex—jogadoras responderam surtadas rapidamente, me dando uma vontade imensa de juntar essas meninas e voltar a jogar.
O alongamento começou e eu olhei para o lado, encontrando Lucas com sua câmera na mão, franzi os lábios, me sentindo uma tonta por não tê—lo procurado nos lugares mais óbvios antes e andei até ele, cutucando—o rapidamente.
— Ei! – ele falou sorrindo. – Você está aí.
— É! E você está aqui. – Cruzei os braços. – Caiu da cama, foi?
— O contrário, para falar a verdade. – Ele coçou a cabeça. – Perdi a hora, vim direto para cá.
— Tá explicado! – Apoiei meu notebook no degrau mais baixo da arquibancada.
— E onde está Vinícius e Theo?
— Vinícius perdeu hora também, ele estava saindo do banho quando eu saí e Theo está lidando com os jornalistas. – Ele apontou a cabeça para o lado contrário de onde estávamos e notei meia dúzia de jornalistas e diversas câmeras apontadas para os jogadores. Separados por alguns metros, alguns torcedores.
— Bem, eu vou ficar por aqui resolvendo alguns pepinos, quando tiver algumas fotos interessantes, me avise.
— Entra no meu drive, tudo que eu tiro fica lá! – ele falou. – Vou compartilhar a pasta contigo.
— Fechou!

Peguei meu notebook e subi dois degraus, tentando pegar um cantinho de sombra da arquibancada e conferi se a internet pegava bem lá embaixo e fui fazer as postagens do dia, upar o vídeo de ontem, responder a assessoria de alguns jogadores, fazer clippagem de tudo que os 23 jogadores tinham postado nas últimas 24 horas em todas as redes sociais. Isso, 23, inclusive Marcelo, Firmino e Casemiro que nem ali estavam, mas eles faziam parte da lista de convocados, então incluía no meu trabalho.
De vez em quando eu me distraía e olhava para o campo, mas eles só estavam fazendo treinamentos leves, passes, alongamentos, chutes a gol, aquela bobagem toda para encher linguiça para a imprensa e começar a coisa boa quando eles forem embora.
Me assustei quando olhei para frente novamente e vi uma coisa amarela grande no canto do campo, sacudindo as mãos para os lados. Era o mascote da Copa. O canarinho. O que ele estava fazendo ali? Graça para as crianças? Franzi a testa, cogitando me levantar, mas tive minha resposta quando ele se virou.
Meu Deus! O que fizeram com o mascote da Seleção? Ele estava com cara de bravo, de mau... Isso era muito estranho! Ele acenou para mim e eu retribuí, fazendo a mesma cara sisuda para ele que colocou as mãos na cintura, provavelmente se fingindo de bravo para valer.
— Por que você está bravo? – Perguntei um pouco mais alto para o canarinho.
Ele não respondeu, só ergueu as mãos como quem diz “eu sou assim” e eu ponderei com a cabeça. Pensando que poderia usar isso para alguma coisa. O encarei por mais alguns minutos, permitindo que ele me encarasse por mais uns minutos, mas logo ele se distraiu, indo brincar com os jogadores.
Voltei para o notebook e procurei possíveis significados para “bravo”: enfezado, irritadiço, aborrecido, revolto, tempestuoso, severo... Não, nenhum dava aquele tcham especial. Ele parecia puto! Bom, depois de levar sete na última Copa dentro de casa, até eu fiquei puta.
Acho que minha avó tinha uma expressão engraçada para quando alguém ficava muito bravo em casa. “Nossa! Essa menina está muito...”, o que era mesmo? Peguei meu celular e mandei uma mensagem para minha irmã mais velha, perguntando se ela se lembrava ou se poderia perguntar lá em casa. Ela respondeu quase imediatamente dizendo que não se lembrava, mas que iria perguntar e logo me respondia.
O canarinho sumiu algum tempo depois e a seleção começou a se preparar para almoçar. Olhei em meu relógio e vi que já era hora mesmo. Chamei Lucas e seguimos junto com os jogadores e equipe técnica, enquanto eles falavam sobre o treino do dia e como a imprensa presente deixava tudo mais lento.
Entramos no restaurante e os jogadores atacaram legal o buffet, me fazendo olhar surpresa, até que eu lembrei que estava lidando com homens gastando energia e voltei a lembrar da época da faculdade, eu era igual. Abri a boca, notando o canarinho sentado em uma das mesas, sem a sua cabeça, enquanto comia. Era minha oportunidade de falar da ideia que eu tive!
— Ei, você! – Me aproximei, vendo—o se virar e se levantar e, quando ele fez isso, eu comecei a gargalhar loucamente no meio do restaurante, chamando muita atenção. — Você?! – Falei, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. – Meu Deus! Isso não podia ser melhor! – Me apoiei nos meus joelhos, não conseguindo parar de gargalhar. – Ah, espera um minuto! – Coloquei a mão no peito, olhando para cima para ver se as lágrimas cessavam e respirei fundo, seguindo a rir.
— Oi, ! – Vinícius falou e eu apoiei minha mão em seu ombro, vendo algumas pessoas em volta gargalharem da minha risada.
— Isso é melhor que a encomenda! – Coloquei a mão na boca, tentando respirar fundo. – Meu Deus!
— Ok, ok! Chega! – Ele falou, abanando as mãos e eu ergui um dedo.
— Espera um minuto! – Coloquei a mão na barriga, puxando e soltando o ar diversas vezes, tentando normalizar a respiração. – Ah, eu não consigo! – Apertei as mãos nos olhos, sentindo—os molhados e tentei me concentrar, puxando a respiração e soltando em seguida, mordendo os lábios para que a risada não saísse.
— Alguém dá água para essa menina! – Ouvi Tite falar, enquanto ria também.
— Ah, eu estou bem! – Abanei as mãos e olhei para Vinícius. – Eu só não consigo parar de rir. – Continuei puxando e soltando o ar, até que a risada foi se normalizando aos poucos.
— Tudo bem? – Tite perguntou e eu mordi os lábios novamente.
— Tá tudo ótimo! – Sorri para Vinícius.
— Ah, meu Deus! Não me olha assim! – ele falou, se sentando novamente e eu soltei a respiração.
— Eu nunca mais vou te ver de outra forma, mas falando sério, precisamos conversar. – Falei, dando a volta na mesa. – Alisson, pode pular uma cadeira para o lado, por favor, para eu falar com... – Cocei a nuca, segurando a risada, e notei que Alisson e Ederson voltaram a rir, abaixando a cabeça e escondendo a boca com as mãos. – Isso!
— Claro! – Alisson falou, mais vermelho que o normal, e pulou uma cadeira para o lado, puxando sua bandeja junto.
— Eu pensei que você sofreria bullying aqui, não eu.
— Quem mandou não me contarem que você é o mascote? – Falei, olhando a divisão da roupa da fantasia em seu pescoço. – Eu teria me acostumado antes e não teria feito esse show. – Ele revirou os olhos e falou.
— Vamos dizer que não tem nada errado em ser o mascote, ok?! Eu ganho muito mais do que sendo garçom ou qualquer coisa, além de que eu faço as gravações...
— Ei, ei, eu não estou minimizando seu trabalho. – Me afastei dele, erguendo as mãos. – Eu só achei engraçado e é! Você é perfeito para o mascote, você é divertido, interage com qualquer um, então, pode parar! – Falei, respirando fundo. – Mas eu tive uma ideia para usar o mascote como item de divulgação.
— Já adiantando, os mascotes estão proibidos pela FIFA de participarem dos jogos.
— Ok! – Ponderei por dois segundos. – Mas os torcedores não estão só nos jogos, certo? – Cruzei os braços em cima da mesa, me inclinando para frente.
— Qual sua ideia? – ele perguntou.
— Para começar, a pessoa que fez o canarinho parecer bravo depois do sete a um foi um gênio! – Falei sorrindo. – Parece que estamos indo em busca de vingança. – Movimentei a cabeça para os lados. – E posso dizer que, entre meu grupo de amigos, estamos. – Dei um pequeno sorriso. – A gente pode usar essa raiva, esse rancor, como produto de divulgação. É perfeito!
— Será que o povo libera? – Ele perguntou.
— Preciso falar com Theo e Michelle ainda, mas eu preciso saber antes se você topa, porque vai ter que vir de você também, você é o canarinho, você que vai dar a cara a tapa.
— Acho que vai ser legal! – Ele sorriu e eu senti meu celular vibrar, o puxei do bolso de trás da calça, me levantando e abri a mensagem de minha irmã.
Mamãe disse que a vó usava a expressão ‘pistola’ para bravo. Tem relação com um tal de Ariri Pistola, vai saber”. – Arregalei os olhos, olhando para Vinícius e saí da mesa, tropeçando rapidamente na cadeira e peguei a cabeça do canarinho no chão, encarando—a.
— Mano! Isso é perfeito! – Falei rindo e devolvi a cabeça no chão.
— O quê? – Vinícius levantou atrás de mim e notei que já tinha chamado a atenção do restaurante inteiro de novo.
— O que acha de rebatizar o mascote como “Canarinho Pistola”? – Mordi meu lábio inferior com animação
— “Pistola”? – Vinícius repetiu.
— É! – Abri um largo sorriso e ele retribuiu.
— Gostei! – Ele falou e eu segurei seu rosto e estalei um beijo em sua testa.
— Eu vou falar agora com a Michelle, provavelmente vamos ter que criar um Twitter só para isso, mas vai ficar sob minha responsabilidade. Também ter ideias para vários memes ‘rancorosos’, pegar algumas fotos de divulgação com o Lucas... – falei rápido, pegando meus itens na mesa novamente. – A gente se fala mais tarde. – O empurrei levemente, começando a me afastar.
— Mas, , o almoço! – ele falou alto e eu roubei uma batata frita de seu prato, colocando na boca.
— Isso é mais importante! – falei, saindo correndo do restaurante.

A quarta—feira começou mais turbulenta no dia seguinte. Eu havia jogado a ideia do Canarinho Pistola nos ombros de Michelle e ela tinha simplesmente amado a ideia, mas falou que conversaria com a equipe da publicidade para fazer uma pesquisa da reação que isso daria para os torcedores brasileiros. Com isso, ela tinha pedido para eu elaborar algumas artes ou textos que eu imaginaria para essas postagens.
Eu acabei nem saindo do meu quarto naquela manhã, tinha trazido alguns lanches para meu quarto depois de não almoçar e ter que atacar o lanche na parte da tarde. Sucos e achocolatados de caixinha, além de alguns pães de queijo murchos e bolachinhas caseiras. Aquilo foi meu café da manhã naquele dia.
Além de pegar as fotos de divulgação do Canarinho com o Lucas, eu acabei entrando em vários Tumblr de futebol para ver o que as pessoas estavam falando da Seleção Brasileira ou de outros times, descobrindo o que estava na boca do povo, além de fazer uma bela pesquisa em busca de vídeos, gifs, imagens e comentários no Twitter sobre futebol. Depois dei uma zapeada em canais de TV para pesquisar sobre as vinhetas que estavam saindo sobre a Copa, estávamos a pouco mais de 15 dias da Copa, as propagandas já estavam saindo, poderia usar para pensar em alguma sátira também. Acabei replicando algumas coisas já existentes, mas fiz questão de dar os devidos créditos. Caso o projeto fosse para frente, precisaria elaborar um protocolo para pedir liberação de uso para as pessoas.
Poucos minutos depois de eu mandar as amostras para Michelle, ela perguntou se eu podia me conectar ao Skype. Saí desesperada da cama e me sentei na escrivaninha, me ajeitando para atender sua ligação.
— Oi, ! – Michelle falou e eu acenei para a tela.
— Oi, Michelle, tudo bem?
— Tudo certo! E aí na Granja? Aproveitando bastante?
— É realmente sensacional. – Sorri. – É tudo o que você disse e mais um pouco.
— E os jogadores? Interagindo contigo ou se fecharam no grupinho masculino deles?
— Eles estão sendo ótimos, para falar a verdade. – Sorri. – Triste que já é quarta—feira. – Ela sorriu.
— O tempo passa muito rápido quando a gente faz o que gosta. – Assenti com a cabeça. – Mas que bom que o pessoal está sendo legal contigo. – Ela sorriu. – Então, eu falei aqui com o pessoal da propaganda, a gente viu suas amostras e a ideia é simplesmente sensacional. O mascote sempre foi um pouco apagado e a imprensa já tinha dado algumas declarações sobre ele parecer bravo, mas nunca pensamos em como tornar isso bom, mas você sim.
— Acho que a ideia de um mascote bravo representa a situação do torcedor brasileiro depois da Copa de 2014. Eles estão bravos, eles estão putos, eles estão indo em busca de vingança. Brasil pode encontrar a Alemanha logo nas oitavas e os brasileiros estão com sangue nos olhos. – Suspirei. – Estamos indo atrás de vingança.
— Você acha? – ela perguntou e eu dei de ombros.
— Não compartilhei da minha opinião com os jogadores ainda, mas eu sei que eu estou. E acho que precisamos disso depois da última Copa. – Ela assentiu com a cabeça.
— Mesmo depois das Olimpíadas que, inclusive, a final foi contra a Alemanha?
— Acho que algumas pessoas não consideram aquilo uma revanche. Não era o mesmo elenco, a decisão foi nos pênaltis, acho que vingança mesmo seria exatamente na mesma situação, mas não temos, então que seja em outra Copa do Mundo. – Ela assentiu com a cabeça. – Além de que é diferente uma Olimpíada, onde o futebol é só um entre várias modalidades, e uma Copa do Mundo onde só importa o futebol.
— Muito bom! – Ela falou rindo. – Bem, você tem o sinal verde, só temos que conversar depois para decidir sobre as postagens quando eles estiverem na Rússia.
— Cogitei deixar o Vinícius mesmo lidar um pouco com isso. Acho que me passar as informações do que aconteceu diariamente ou dos acontecimentos mais relevantes, não vai tomar o tempo dele. – Ela assentiu com a cabeça.
— Beleza! Eu vou falar com ele, antes de batermos o martelo. – Ela suspirou. – Eu vou te passar agora para falar com o Lopes, ele vai te ajudar nesse projeto, pode ser?
— Claro!
— A gente se fala depois, bom trabalho. – Ela disse e eu assenti com a cabeça, vendo—a sair da cadeira e dar espaço para Lopes na tela.
— Oi, , como está aí?
— Tudo certo! – Sorri. – Já estão sentindo minha falta?
— Seu trabalho está certinho, finalizando, você pode até morar aí na Granja. – Rimos juntos.
— Confesso que não ia me importar.
— Bons tempos, não? Deve ter mudado muito desde a última vez que eu fui. – Sorri. – Bom, vamos ao que interessa. Sua ideia de usar o Canarinho como divulgação é fantástica, é a cara do brasileiro, cheio de memes e tiradas, além da ideia de realmente assumir que ele é um mascote bravo, pronto para a briga...
A reunião demorou mais que o planejado, quando finalizei a ligação, precisei sair correndo para o banheiro, estava muito apertada. Quando olhei para o relógio, vi que já passava das três da tarde e eu ainda não tinha colocado a cara no sol. Acho que eu merecia um descanso! Coloquei meus tênis do dia anterior, pendurei o crachá em meu pescoço e saí em direção ao restaurante, os pães de queijo e bolachinhas tinham sido o suficiente para meu café da manhã, mas não para me manter em pé o dia inteiro.
Olhei rapidamente as opções e peguei um lanche de mortadela bem quentinho que tinha ali, devorando—o com rapidez e, antes de sair do restaurante, peguei um saquinho de pipoca que tinha sido recém—colocado na mesa.
Fui para a área externa, enquanto devorava a pipoca, pensando em formas de passar um pouco o tempo. Ir para a academia não era uma opção e eu realmente não estava a fim de ir à piscina com vários homens naquele local. Olhei para os campos e vi que os três estavam vazios, me fazendo ter uma ideia. Segui o caminho até os mesmos e beirei o mesmo enquanto terminava de comer a pipoca.
Amassei o saco vazio e coloquei em meu bolso, andando até o carrinho de bolas e olhei em volta, para ver se a área estava limpa mesmo e joguei duas bolas no chão, segurando a terceira em minhas mãos, apertando—a levemente e levando—a até o nariz, sentindo o cheiro de grama na mesma.
Joguei—a no chão, chutando a mesma, fazendo com que ela erguesse e eu fizesse algumas embaixadinhas com a mesma, revezando as pernas enquanto a bola subia em velocidade constante. Ergui a bola mais uma vez, girando o corpo e batendo o pé fortemente na mesma, vendo—a seguir alta até mexer a rede do gol. Sorri sozinha, observando a bola sair do mesmo sem a mesma velocidade e suspirei.
Estralei os braços e o pescoço e coloquei os pés na lateral de outra bola e respirei fundo três vezes antes de pular e jogar os pés para trás, fazendo a bola subir e cabeceá—la algumas vezes para cima, antes de jogá—la para frente e chutá—la forte novamente até o gol. Ah, como eu sentia falta daquilo.
— Muito bom! Demais! – Virei assustada para o lado, ouvindo algumas palmas abafadas em seguida. – Mas o que você faz com uma defesa? – Alisson perguntou, com aquele sotaque cantado, se aproximando de mim e eu senti meu rosto queimar.
— Você viu isso? – Perguntei, colocando as mãos no bolso da calça.
— Nós vimos. – Ele apontou para trás e vi Cássio, Ederson e Taffarel, que era da equipe de treino, um pouco mais afastados.
— Ah! Que ótimo! – Senti meu rosto queimar, rindo sozinha.
— E aí, quer tentar? – Ele abriu um largo sorriso, que fazia seus olhos verdes se fecharem um pouco e eu suspirei.
— Vamos dizer que ser atacante não é a minha posição – brinquei, dando de ombros.
— E qual é? – Ele parou em minha frente, cruzando os braços.
— A mesma que a sua. – Sorri.
— Você é goleira? – Ele falou visivelmente surpreso.
— Eu fui goleira! – corrigi. – Faz muito tempo que eu não jogo. – Suspirei.
— Isso é demais! – Ele deu um sorriso sincero.
— Pensei que as informações já tivessem sido vazadas, comentei isso com Ederson no jantar segunda—feira. – Alisson olhou rapidamente para trás.
— Acho que ele se esqueceu de passar a informação. – Assenti com a cabeça. – Aonde você jogava? Algum time profissional?
— Só na faculdade mesmo. – Sorri. – Campeonatos universitários, jogos de comunicação e por aí vai. Mas eu era boa. – Suspirei.
— Isso é muito legal, sério!
— Nós éramos as Focas de Laço Azul.
— “Laço Azul?” – Ele me perguntou, franzindo a testa.
— É uma longa história. – Falei rindo. – As cores da comunicação eram azuis, aí tinha uma piada besteirenta com focas, como toda universidade tem. Depois a gente começou a usar uma faixa azul amarrada no braço em apoio a uma causa e por aí vai... – Balancei a cabeça. – Acabou pegando. – Ri sozinha.
— Parece que você sente falta de jogar... – Ele falou, deixando no ar.
– Confesso que estou tendo muitas lembranças dessa época e sentindo falta dos treinos. – Suspirei, cruzando os braços em cima do peito. – Às vezes parecia que eu estava lá mais para jogar do que me formar jornalista. – Ele tirou as luvas, me estendendo—as.
— Por que você não relembra os velhos tempos e eu faço uns chutes em você? – Segurei suas luvas pretas, vendo suas iniciais e número cravadas na mesma, “AB1”, e suspirei.
— Sabe há quanto tempo que eu não uso uma dessas? – Soltei uma risada fraca, sentindo meus olhos marejados e mordi meu lábio inferior.
— Provavelmente o mesmo tempo em que eu não vejo uma mulher bonita como goleira. – Ergui os olhos para ele, tentando analisar se ele realmente tinha dito isso na minha cara, mas ele só me encarava de volta, com um pequeno sorriso escondido em sua barba.
— A Seleção Brasileira também tem um cara muito gato como goleiro e eu não vejo ninguém reclamando. – Dei de ombros, mordendo meu lábio inferior e ele riu fraco, abaixando a cabeça envergonhado. – Bom, acho melhor eu não pagar mico na frente de quatro grandes goleiros. – Estendi as luvas de volta. – Ou deslocar algum osso por falta de treino ou alongamento. – Ele pegou as luvas, tocando levemente na ponta dos meus dedos.
— Elas estarão disponíveis para quando você precisar – ele falou e eu assenti com a cabeça, sorrindo.
— Obrigada! – Suspirei. – Mas acho que eu vou precisar arranjar algumas do meu tamanho quando a hora chegar. – Me aproximei dele, dando uma leve batidinha em seu ombro. – Vou deixar vocês treinarem. – Falei, seguindo para fora do campo, passando pelos outros três goleiros que nos esperavam.
Olhei para trás rapidamente, vendo Alisson ainda me acompanhando com o olhar e eu mordi meu lábio inferior novamente, voltando a subir o morro para voltar para os prédios da Granja, ainda sem entender o que exatamente tinha acontecido ali, mas adorando cada momento.

Na quinta—feira tivemos uma mudança de ares lá na Granja, a imprensa estava presente novamente nos treinos, então Theo acabou pedindo minha ajuda para auxiliá—lo. Eram muitos jogadores, muitos jornalistas e pelo menos todos os titulares dariam alguma declaração. Tudo isso acabou acontecendo no campo mesmo. Enquanto os jogadores treinavam, Theo e eu chamávamos quatro jogadores por vez para levá—los até os jornalistas.
Eu tentei me manter calma, depois do pequeno clima que aconteceu no dia anterior, mas eu sentia que estava sendo observada a todo o momento pelos goleiros. Podia ser minha impressão, mas eles estavam treinando próximo da imprensa e eu sabia que ficava muito bem de calça skinny e aqueles sapatos amarelos para ser encarada.
Quando chegou a hora de levar o Alisson para a entrevista, eu agarrei em Jesus como se minha vida dependesse disso, literalmente. Ok! Podia ter sido um elogio inofensivo, mas ele era muito gato para eu ver como um elogio inofensivo. Afinal, eu nem tinha com o que me preocupar, minha felicidade acabaria em três dias e eu provavelmente só o veria novamente nas preparações da Copa América no ano que vem, que seria aqui no Brasil, ou em algum em algum amistoso aleatório pós Copa do Mundo. Isso se eu fosse convidada também, tinham muitos profissionais que poderiam me repor.
Depois que a imprensa se dissipou, eu saí rapidamente dali, estava usando salto no gramado, então, estava me equilibrando com a ponta dos pés por três horas, estava doendo demais! Fui almoçar acompanhada de Vinícius e Lucas, ainda estávamos falando sobre a ideia do Canarinho Pistola, então precisava alinhar tudo com Vinícius para quando eles fossem para a Rússia.
Na parte da tarde eu me isolei no quarto novamente, tinha novas postagens para fazer, vídeos para upar e ainda queria adiantar o relatório que eu teria que mandar na sexta—feira à tarde. Amanhã tinha treino aberto para os torcedores e eu sabia que seria uma loucura. Lá pelas cinco da tarde e eu consegui finalizar as coisas pendentes. Vendo rapidamente alguns vídeos na CBF TV, eu acabei capotando na cama.
Acordei em um pulo algum tempo depois e olhei em meu relógio, vendo que passava das oito da noite. Saí correndo para o banheiro, largando a roupa na pia do banheiro e tomei um banho correndo! O jantar acabava as nove e eu não estava a fim de esperar pelo lanche da noite para comer alguma coisa. Larguei as formalidades e coloquei shorts, regata e chinelos e segui em direção ao restaurante.
Estranhei quando entrei no mesmo, eram quase nove horas, mas o restaurante não costumava ficar tão vazio, os jogadores acabavam conversando e saindo tarde dali. Mas dessa vez não, o local estava vazio. Tite conversava com alguns membros da equipe técnica enquanto comiam, Filipe Luís, Danilo, Fagner, Geromel, Marquinhos, Fred e Taison ocupavam outra mesma e era só. Nem sinal da turma do barulho e muito menos de Lucas e Vinícius.
Me aproximei do buffet e me animei com alguns caldos que tinha ali e peguei duas cumbucas com sabores diferentes e algumas torradinhas. Me sentei junto aos jogadores e acabamos conversando um pouco sobre a movimentação da imprensa e toda a confusão de mais cedo para todos os jornalistas falarem com todos os jogadores principais.
Eles acabaram me deixando sozinha no fim da refeição, dava para ver o cansaço na cara deles. Eu teria que arranjar alguma cosia no Netflix para ver, tinha descansado bastante nessa soneca mais cedo, então demoraria a dormir.
— Deixa eu te fazer companhia um pouco – Tite falou, se sentando em minha frente e eu sorri.
— Obrigada! – falei, colocando mais uma torrada na boa.
— Parece que os meninos estão gostando de te ter por perto. – Assenti com a cabeça.
— Pois é, está sendo melhor do que eu imaginava. – Ele riu.
— É uma pena que não vá para a Rússia com a gente, aposto que poderia me ajudar a puxar algumas orelhas, se for necessário. – Soltei uma risada gostosa, balançando a cabeça.
— Eu sou nova na equipe, Tite, não dá para eles mandarem alguém tão novo assim para uma Copa do Mundo. – Ele ponderou com a cabeça.
— Talvez não, mas eu estou vendo você com os jogadores e eles parecem bem à vontade perto de ti. – Sorri.
— Bem, eu sou a única mulher aqui, eles me veem como um deles, creio eu. – Ele ponderou e eu limpei a boca, apoiando o guardanapo na lateral da mesa. – Falando nisso, o que aconteceu com eles? – Perguntei, franzindo a testa. – Todos perderam o jantar ou todos vieram cedo demais?
— Eles estão farreando, para falar a verdade. – Ele riu e eu movimentei a cabeça em concordância. – Por que você não vai lá?
— “Lá”, onde? – Franzi o cenho.
— Na piscina, tentando relaxar depois da imprensa hoje. – Ri irônica.
— Até parece que não estão acostumados. – Ele riu comigo. – Quero ver amanhã!
— Nossa! – Ele fez uma careta. – Até eu acho que vou dormir mais cedo para aguentar o tranco de amanhã.
— Acho que vocês realmente estão precisando de uma mulher para dar a cara à tapa nesses momentos! – Ele sorriu.
— Seria bom! – Ele sorriu. – Quem sabe na Copa América? – Ele brincou.
— Espero que nós dois ainda estejamos aqui. – Ele assentiu.
— Tomara! – Ele falou e eu sorri. – Boa noite.
— Boa noite! – Sorri.
Vi Tite sair do restaurante e me levantei em seguida, deixando os materiais usados para os funcionários e saí do mesmo. Ponderei por alguns segundos se deveria ir atrás dos jogadores na piscina, mas minha decisão foi favorável no momento em que eu recebi uma mensagem de áudio do Vinícius.
“Onde você está? Vem aqui na piscina coberta agora, você tá perdendo uma festa!” – No fundo tinha um barulho de pagode e me perguntei se eles realmente estariam fazendo uma festa na área das piscinas.
Segui em direção à piscina coberta e me perguntei quem tinha liberado isso! A piscina coberta era para reabilitação, fisioterapia e alguns treinos de força e exaustão. Bem, eu não apitava nada, então não seria eu a chata para acabar com a diversão. Tite sabia, era o que importava. Ouvi alguns batuques antes mesmo de eu entrar no centro aquático. O som ecoava, fazendo com que parecesse que uma escola de samba tocava lá dentro.
Coloquei a cabeça para dentro, um tanto quanto envergonhada e com medo da visão que eu encontraria ali, mas estava seguro. Os 13 jogadores restantes, além de Lucas e Vinícius, estavam espalhados pelo local, com pandeiros, reco—reco, surdo e alguns instrumentos que eu não sabia o nome, tocando músicas que eu até conhecia. Obviamente, todos estavam sem camisa.
Os jogadores que tocavam como Thiago Silva, Miranda, Paulinho, Willian e Neymar, estavam sentados na beirada da piscina, com as pernas para dentro e os outros estavam dentro da mesma rindo e batendo as mãos no ritmo da música. Olhei rapidamente em volta, encontrando Lucas e Vinícius encontrados espalhados por ali, Lucas com sua câmera e Vinícius com sua filmadora, mas claramente rindo e movimentando os lábios no ritmo da música. Olhei em volta rapidamente à procura de Alisson e o encontrei apoiado na beirada da piscina, dando alguns goles em um chimarrão (ou era tereré?), que me fez franzir a testa.
— Ei! Olha quem apareceu! – Thiago Silva chamou atenção ao me ver, batendo a mão fortemente em seu tambor e os outros o imitaram, fazendo com que o som lá dentro ficasse ensurdecedor.
— A festa chegou! – Neymar brincou e eu andei para perto deles, parando ao lado de Willian.
— Até parece! Vim acabar com a festa! – falei séria e todos me olharam com a cara fechada até que eu comecei a rir sozinha. – Não, mentira! Isso não é problema meu! – Ergui as mãos e eles voltaram a gritar e a bater nos instrumentos e eu sorri.
— Aproveita, – Fernandinho falou, apontando para a piscina e eu ri, passando o olhar rapidamente para Alisson que me encarava.
— Ah não! Estou bem! – Ergui os braços e olhei para a água cristalina. – Talvez só os pezinhos! – Falei para Fernandinho que riu.
Segui até o armário de toalhas e peguei uma, estendendo—a dobrada algumas vezes na beirada da piscina e me sentei em cima dela, mergulhando as pernas na piscina quase até os joelhos. As músicas do Thiaguinho começaram a ser tocadas uma atrás da outra, incluindo outras que eu realmente não conhecia. Eu não era a maior fã de pagode, mas o clima estava gostoso. Estaria melhor se não fosse uma piscina climatizada e o suor não começasse a escorrer pelo rosto de todo mundo e pelos meus seios.
Olhei para o lado por um momento e notei Alisson se encostando ao meu lado. Ele encostou as costas na parede da piscina e apoiou o braço livre na mesma. Mordi a ponta do dedão como quando eu ficava nervosa e fiquei quieta. Ele me estendeu sua cuia e eu neguei com a cabeça.
— Não gosta? – Fiz uma careta, negando com a cabeça.
— Não! – falei rindo.
— Imagino que não seja do sul, então...
— Eu não tenho esse sotaque cantado – falei sorrindo.
— Uh, você também não tem sotaque de carioca. – Neguei com a cabeça.
— Também não, apesar de morar aqui no Rio de Janeiro há sete anos. – Ele assentiu com a cabeça.
— Você é paulista! – ele falou e eu assenti com a cabeça.
— O que me denunciou?
— Esse “morar” caipira aí. – Sorri, assentindo com a cabeça.
— Eu sou de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.
— Conheço. O que veio fazer no Rio?
— Estudar, na verdade, mas eu não fiz nenhuma federal, então poderia ter estudado em qualquer faculdade particular no estado de São Paulo.
— Então, por que no Rio de Janeiro? – Ele se virou de frente para mim, apoiando os braços no chão. Suspirei, ponderando com a cabeça.
— Meu pai é carioca e eu tinha uma avó no Rio, ela sempre foi doentinha, mas tinha meu tio para cuidar dela. Só que ele conseguiu um emprego no Nordeste e foi com a família inteira. – Ponderei com a cabeça. – Minha avó não podia ficar sozinha, aí calhou de ser na época do meu vestibular, eu conversei em casa e vim fazer faculdade no Rio para ela não ficar sozinha e cuidar dela. – Dei de ombros.
— Ela está bem? – ele perguntou.
— Ela faleceu no meu terceiro ano de faculdade. – Suspirei. – Não deu tempo de ela ver eu me formar. – Ele assentiu com a cabeça.
— Sinto muito. – Assenti com a cabeça, dando um pequeno sorriso.
— Está tudo bem. – Sorri.
— Por que seu pai não foi para o Rio para cuidar dela? — Ele perguntou.
— Meu pai é aviador, instrutor de cadetes em Pirassununga, interior de São Paulo. É lá que minha família mora agora.
— Bacana! – Ele sorriu. – Eu pensei em ser militar durante um tempo...
— Mas o futebol entrou na sua vida? – Perguntei.
— O futebol já existia na minha vida, para falar a verdade, mas eu não tinha certeza se daria certo até os 17, 18 anos. – Assenti com a cabeça.
— Ainda bem que deu. – Sorri. – Mas você ficaria muito bem de farda. – Vi seu rosto avermelhar mais que o normal e balancei a cabeça.
! – Me assustei com Lucas atrás de mim e ergui o indicador rapidamente para Alisson e me levantei, me aproximando do mesmo.
— Fala aí! – Sorri e notei que parecia que ele estava cansado. – O que aconteceu? – Perguntei.
— O Theo foi embora. – Franzi o cenho.
— O quê? Por quê? – Perguntei.
— Ele não está muito bem. – Ele negou com a cabeça. – Ele desmaiou mais cedo e Rodrigo achou melhor ele voltar para o Rio para descansar e ficar pronto para a viagem domingo.
— Eita! O que será que aconteceu? – Cruzei os braços e Lucas fez uma careta, dando de ombros. – Ué... – Abanei as mãos. – Espero que ele fique bem.
— Bem, estamos sozinhos até domingo agora. – Ele falou.
— Amanhã eu falo com a Michelle se eles vão precisar de algum apoio na parte de assessoria, afinal, só tem eu aqui agora. – Ele assentiu com a cabeça e eu senti meu celular vibrar no bolso, puxei o mesmo, encontrando o nome de Michelle no mesmo. – Não morre mais. – Virei o celular para ele e atendi a ligação. – Oi, Michelle, tudo bem? – Virei para Alisson, apontando para o celular e ele assentiu com a cabeça. – Espera um pouco, está muito alto aqui. – Dei uma corrida rápida para fora da área da piscina e o som ficou menos abafado.
, está me ouvindo?
— Oi, Michelle, tudo bem? Os jogadores estão fazendo barulho aqui hoje. – Ela riu.
— Acho que você está sabendo de Theo, não é?
— Sim, Lucas acabou de me falar.
— Você se importa de auxiliar mais a parte de assessoria só enquanto estiver aí na Granja? Não vale a pena enviar outro assessor para dois dias e meio.
— Não, tudo bem, sem problemas. Só falar o que eu preciso fazer que eu faço.
— Ah, muito obrigada! – Ela falou aliviada. – Bom, vamos lá...

Sexta—feira começou da forma mais comum possível. Saí para tomar café da manhã, vendo os jogadores com cara de sono. Eu acabei ficando uma hora ao telefone com Michelle, então, quando desligamos a ligação, eu fui direto para cama, mas pelo jeito a festa foi até tarde. Cumprimentei rapidamente os jogadores e equipe técnica, comi rapidamente um lanche de presunto e queijo e bebi um café. Depois eu fui para uma reunião com a equipe de segurança da CBF para falar sobre o treino aberto que aconteceria hoje.
Theo estava por dentro de tudo o que aconteceria, agora com a sua ausência eu precisaria tomar as rédeas da situação. Agora, pela parte da manhã, os jogadores treinariam normalmente. Depois do almoço, a Granja seria aberta para cerca de oito mil torcedores para um jogo entre os 20 jogadores. Algo de uma hora e meia, rápido e fácil. Depois disso os jogadores passariam para falar com eles nas grades, tirando fotos e dando autógrafos. Espero que dê tudo certo.
A principal informação que eu peguei na reunião com os seguranças foi sobre as saídas de emergência. Pontos estratégicos que eu deveria encaminhar os jogadores em caso de brecha na segurança, ou seja, fãs surtados invadindo o campo.
Antes do almoço, eu passei no quarto e dei uma ajeitada em mim. Fiz uma escova rápida nos cabelos, dei uma retocada na maquiagem e calcei meus sapatos amarelos. Me olhei no espelho e respirei fundo algumas vezes, tentando me manter calma.
Peguei o iPad e o celular e olhei rapidamente a lista de imprensa que estaria presente, nada de novo. Entrei no refeitório e todos estavam lá. Acenei rapidamente para alguns jogadores e segui para o buffet, pegando o tradicional da comida brasileira dessa vez. Depois do almoço alguns jogadores deram uma rápida passada nos quartos, mas iríamos nos encontrar no restaurante, para passar as últimas informações. Acabei tendo a companhia de Cássio, Fernandinho, Taison e Danilo.
, todos voltaram, caso tenha algo para passar. – Edu cochichou em meu ouvido e eu me levantei, confirmando com a cabeça.
— Ah, gente, podem se aproximar, por favor? – falei, me colocando no centro do restaurante, sentindo meu rosto esquentar de vergonha.
Observei os jogadores saírem de seus lugares e se aproximarem de mim, fazendo uma meia lua à minha volta. Passei os olhos lentamente em cada um deles e puxei o ar, soltando a respiração pela boca.
— É o seguinte, como a informação já deve ter chegado a vocês, Theo, o responsável pela assessoria, precisou se ausentar por um mal súbito que o afetou na noite de ontem. – Soltei a respiração pela boca novamente. – Ele é o assessor número um, é ele que vai com vocês para Rússia, então, ele voltou para o Rio para descansar e estar nos trinques até domingo. – Eles assentiram com a cabeça. – Como eu sou a única pessoa da área de comunicação e sou jornalista, pediram para eu segurar as pontas até domingo.
— É! – Neymar gritou, aplaudindo, puxando o coro e eu revirei os olhos.
— Obrigada, obrigada! – Movimentei as mãos para baixo para reduzirem os ânimos. – Agora nós vamos descer para o campo, onde terá o treino aberto, que já é tradição aqui na Granja. – Eles assentiram com a cabeça. – Vocês farão um jogo, convencional, 90 minutos. Dividiremos vocês em dois times. Ederson, como você é o terceiro goleiro, você vai intercalar com o Cássio, primeiro tempo ele, segundo você. – Ele assentiu com a cabeça. – Como o Alisson é nosso primeiro goleiro, ele precisa mostrar trabalho. – Ele riu sozinho lá atrás. – Depois do jogo, vocês terão 30 minutos para falar com os fãs que estarão em volta, podem tirar fotos, dar autógrafos, mas já avisando! – Frisei. – Eles ficarão para fora da grade, vocês para dentro, começou empurra—empurra, eu coloco vocês para dentro na hora! – Eles assentiram com a cabeça. – Bem, não eu, os seguranças. – Eles riram em seguida. Matutei rapidamente. – Sem falar com a imprensa dessa vez, beleza? Ouviu, Neymar? – Ele assentiu com a cabeça, erguendo o polegar. — Ah, e um aviso do pessoal da segurança: em caso de brecha na segurança, empurra—empurra ou qualquer tipo de problemas, nosso ponto de referência é o vestiário lá de baixo. Fechamos com grades, então, viu alguma merda acontecendo, corre para lá. – Eles afirmaram com cabeça, me olhando atentamente. – Entendidos?
— Sim! – eles responderam forte.
— Perfeito! – Sorri, virando para Tite. – Acho que é isso.
— Me lembre de te chamar quando precisar brigar com eles – ele falou e eu ri, dando de ombros.
— Estamos aqui para isso. – Sorri, olhando rapidamente para meu relógio. – Bom, vamos? – Falei e eles assentiram. – Lucas! – Chamei, que já estava com seus apetrechos na mão. – Cadê o Vinícius?
— Você quer o Vinícius ou...
— Você sabe de quem eu estou falando – falei e ele riu.
— Tá lá com a galera já. – Bati a mão na testa e vi Paulinho rir ao meu lado.
Peguei meus eletrônicos, coloquei em meu braço e bolso e segui para fora do restaurante, indo para o lado de fora. Alguns carrinhos de golfe nos esperavam para descer para a área de treino. Entrei em um com Lucas ao meu lado e chegamos até o campo com tudo sob controle. O Canarinho já estava fazendo a festa com a galera, literalmente sendo um animador de torcida. Tentei segurar a risada, mas era inevitável.
O jogo correu sem grandes surpresas, era visível que os jogadores não estavam dando duro de si, parecia uma pelada no fim de semana. O jogo acabou um a zero, o time que Ederson e Cássio revezaram deixou um gol do Gabriel Jesus entrar. Eu fiquei na lateral do campo com Lucas, acompanhando—o nas tiragens de fotos.
Depois disso, eu me senti no meu primeiro grande pesadelo profissional. A chuva começou a cair fina no meio do segundo tempo, nada preocupante, mas também não tinham somente oito mil pessoas lá dentro, tinha muito mais. Eles estavam agitados e nem os seguranças ou as grades dariam conta.
— Junte suas coisas e leve o Vinícius para dentro agora – cochichei para Lucas e ele me olhou com a testa franzida.
— Por quê? – ele perguntou.
— Só entre! Agora! – falei firme. Ele não perguntou mais nada, junto seus materiais e se levantou do mesmo, puxando Vinícius com ele.
Olhei ao longe, próximo ao gol que era ocupado por Alisson e vi alguns seguranças se juntarem para conter o local. Pressionei o olhar para tentar ver se algum jogador estava perto, mas a chuva apertou, dificultando a minha visão e me fazendo gelar com a água molhada.
— Ei, social mídia, está tudo bem? – Cássio se aproximou e eu apoiei a mão em seu ombro.
— Me ajuda a tirar os jogadores daqui agora! – falei firme.
— O que está acontecendo? – Um grito alto me distraiu e vi a grade tombar para frente, fazendo com que alguns torcedores caíssem para dentro do campo.
— Agora! – Falei novamente e ele saiu correndo para uma direção e eu segui para outra, tentando evitar que os saltos afundassem na grama molhada. – Para dentro, agora! – Passei os braços pelas costas de alguns jogadores, vendo—os correrem na mesma direção.
Observei o ponto de confusão e vi que os seguranças pareciam estar contendo, mas com aquela chuva caindo e os holofotes em meu rosto, eu não confiava muito no que eu via. Droga! Eu seria demitida na minha segunda semana!
Os jogadores seguiram correndo para o ponto combinado e eu olhei em volta rapidamente, vendo que o campo não tinha mais nenhum ponto amarelo e azul e corri em direção ao vestiário lá de baixo. A chuva parou de bater em meu corpo quando eu entrei embaixo da cobertura e com pressa no local, sentindo o pé da frente deslizar por causa da lama e eu cair, me apoiando na maçaneta da porta.
— Opa! – Ouvi alguém falar, mas eu ignorei, deslizando o corpo para frente e batendo a porta, respirando aliviada.
— Tá todo mundo aqui? – gritei, com a respiração acelerada.
— Três, cinco, oito, 11, 14, 18, 20... – Alguém contou. – Tite, Lucas e Vinícius também. – Suspirei, encostando meu corpo na porta, tentando normalizar a respiração.
— Você está bem? – Olhei para cima, vendo Alisson me encarando de cima, a poucos passos de mim. Era um vestiário, o local era pequeno.
— Eu acho que torci o pé! – reclamei, sentindo meu pé doer.
— Vem cá! – Douglas me esticou as mãos e eu ergui a mão para ele esperar.
Puxei os saltos para fora dos pés, sentindo um alívio passar pelo meu corpo. Olhei o mesmo e suspirei, esperando que eu conseguisse limpar a terra. Eu teria que parar de ir de salto para o campo, talvez não seja minha melhor ideia. Estiquei as mãos para Douglas e Alisson que me ajudaram a ficar de pé, sem que eu apoiasse o pé esquerdo e eu andei até a mesa de apoio no centro do local e me sentei na mesma, apoiando a mão no ombro de Alisson, dando um pequeno sorriso quando o fiz.
— Vamos chamar o Rodrigo para dar uma olhada. – Tite falou, desviando das pessoas e aparecendo ao meu lado, fazendo Alisson se afastar um pouco.
— Eu estou bem – falei, suspirando. – Eu preciso pensar o que eu vou falar para a imprensa agora. – Apoiei a mão na boca.
— O que aconteceu, afinal? Só vi todo mundo correndo. – Marquinhos perguntou.
— Liberaram entrada de muito mais gente do que o combinado, depois derrubaram uma das grades do canto norte do campo, torcedores começaram a entrar, aí começou a chover e eu não consegui ver mais nada. – Suspirei, com a respiração ainda acelerada. – Entre o sim e o não, preferi trazer todo mundo para dentro.
— Valeu! – Thiago Silva sorriu, esticando o punho para mim e eu bati no mesmo, sorrindo.
— Acho que agora você tá pronta para proteger a gente assim na Rússia. – Miranda brincou e eu ri fraco, dando um sorriso de canto.
— Ela não vai para Rússia. – Willian anunciou e me assustei com as diferentes reações.
— O quê?
— Como assim?
— Tá de brincadeira, não é? – Olhei para Alisson e seu olhar me parecia bem decepcionado, até se afastando para o fundo.
— Ei, gente! Para com isso! – falei alto, chamei a atenção de todos. – Eu não deveria nem estar aqui na Granja, estou na CBF desde o dia 14 só. – Balancei a cabeça. – Eu vou ficar com vocês até domingo, depois vocês terão que enfrentar o mundial sem mim. – Sorri de lado. – Adoraria ir para Rússia, mas eu acabei de começar, têm muitas pessoas mais preparadas para cuidar de vocês lá. – Dei de ombros. – Mas não se preocupem, teremos Catar em 2022, Copa América ano que vem... – Sorri. – Ainda nos encontraremos em outras oportunidades.
— Tudo bem – Coutinho falou. – Mas cortou o coração. – Ri fraco, balançando com a cabeça.
— Bom, deixa eu limpar a bagunça lá fora. – Fiz menção de descer da bancada, mas Tite segurou meu pulso.
— Você fica e espera o Rodrigo para ver seu pé.
— Mas eu... – tentei falar para ele só me encarou e eu fiquei quieta, como uma criança.

Depois do fracasso do treino no dia anterior, eu me permiti mais 15 minutos de cama no dia seguinte. Acabamos ficando presos no vestiário por cerca de uma hora até que os seguranças nos encontraram e disseram que a barra estava limpa, que eles já tinham conseguido evacuar todo mundo.
Rodrigo, médico da seleção, apareceu junto de Cléber e Edu, preocupados conosco. Rodrigo já deu uma olhada em meu tornozelo, mas disse que estava tudo certo, era só uma leve torção, com descanso melhoraria. Fiquei aliviada!
No que eu saí do vestiário, olhei a bagunça que tinha sido feita no local, mas todos nós relevamos, que a gente pensasse naquilo no dia seguinte. Com a ajuda de um carrinho de golfe, nos levaram de volta para os prédios. Segui para o quarto apoiada em Vinícius e dava para notar que o clima havia ficado depressivo, todos seguiram em silêncio para seus quartos e só ouvia as portas batendo uma a uma.
Antes de entrar em meu quarto, olhei rapidamente para Alisson, mas ele não me deu sinal nenhum, somente entrou no quarto. Suspirei e agradeci a Vinícius pela ajuda e entrei no quarto. Apesar de o tempo ter escurecido mais cedo por causa da chuva, acabava de passar das seis da tarde.
A primeira coisa que fiz foi tomar banho e me livrar daquelas roupas geladas, poderia ter tido uma torção no pé, mas também não queria pegar uma gripe. Depois do banho, peguei meus sapatos e os coloquei na banheira, aliviada por ver que ele só estava sujo com barro, imagina se eu já destruísse o sapato que Bernardo nem tinha acabado de pagar?
Depois eu falei com Michelle, expliquei a situação para ela e ela só pediu para eu elaborar um press release para divulgar para a imprensa. Ela até me aliviou falando que aquilo acontecia, mas eu havia ficado preocupada. Fiz na hora o que ela me pediu e já enviei para que fosse liberado pelo pessoal do Rio.
Lucas me enviou algumas fotos do treino, antes das coisas bagunçarem, e eu postei algumas fotos nas redes sociais da CBF, fiz uma postagem do Canarinho, vendo os seguidores aumentarem no Twitter cada dia mais e, para finalizar meu trabalho, eu enviei algumas fotos para os jogadores, tendo resposta de quase todos, menos de quem eu queria. Ele parecia chateado.
Tentei não me abalar com isso, mas eu optei por pular o jantar naquele dia. Comi um pacote de salgadinhos que eu tinha trazido para dentro, tomei um analgésico para meu pé que Rodrigo me deu e capotei antes que o Netflix pudesse carregar.

Não notei nada de diferente quando entrei no restaurante naquele sábado de manhã, animação era alta e as risadas ecoavam pelo local. Observei os jogadores amontoados em uma das mesas e me aproximei deles, vendo vários álbuns da Copa e figurinhas espalhadas pelo local.
— Ei, ! Quer um álbum? A Panini mandou! – Renato perguntou e todos viraram para mim.
— Vocês estão atrasados, meu álbum está completo faz tempo! – falei, notando todos me encarando.
— Como assim? – Eles me olharam surpresos.
— Eu trabalho na CBF, gente! – brinquei, rindo em seguida. – Mentira, eu estou montando desde que começou a vender. – Sorri. – Mas faltam algumas brilhantes, se sobrar, estou aceitando. – Falei e eles riram.
— Como está o pé? – Douglas perguntou e eu apontei para meus pés de chinelos.
— Parou de doer, é o que importa. – Sorri e ele assentiu com a cabeça. Procurei Alisson com o olhar, mas fui distraída por alguém me chamando.
! – Virei para o lado, vendo Michelle a alguns passos de mim.
— Michelle? – falei, me aproximando dela. – Meu Deus, o que está fazendo aqui? – Falei, abraçando—a rapidamente e ela sorriu.
— Podemos conversar? – Ela perguntou e eu senti meu estômago revirar. Droga! Eu realmente estava demitida e ela veio para Teresópolis só para me dizer isso.
— Claro! – Nos afastamos dos jogadores, nos sentando em uma mesa ao fundo do restaurante e eu engoli em seco algumas vezes, tentando me preparar para o que vinha em seguida.
— Bom, , eu tenho uma notícia boa e uma péssima para te dar. – Ela respirou fundo. – Eu não viria aqui se não fosse importante. – Assenti com a cabeça.
— Se for sobre ontem, me desculpa. Eu preciso me encontrar com os seguranças para saber exatamente o que aconteceu e... – Ela negou com a cabeça.
— Não, não tem nada a ver com ontem. Essas coisas acontecem, entram mais pessoas que o permitido, torcedores brasileiros são muito calorosos... Um mais um são dois, não se preocupe. Não é sobre isso. – Assenti com a cabeça, mas senti um alívio passar pelo meu corpo.
— Então, é sobre o quê? – Perguntei.
— O que aconteceu com Theo não foi só um mal súbito, , ele realmente está mal. – Arregalei os olhos e os lábios.
— Como assim? – Perguntou.
— Ele fez alguns testes e encontraram um tumor no cérebro...
— Meu Deus! – Levei às mãos à boca. – Ele está bem?
— Ele está fazendo todos os exames, os médicos estão analisando as chances dele, mas, por mais feio que pareça, isso não é problema nosso... – Ela suspirou, coçando a cabeça. — Bem, eu acho que não preciso mais enrolar. – Ela suspirou. – Ele não vai mais para Rússia. – Assenti com a cabeça.
— Imaginei, e quem vai no lugar dele? – perguntei.
— Se você puder, você mesma! – Arregalei os olhos.
— O quê? – Falei um tanto surpresa.
— Parece que não, mas eu acompanhei todos os seus trabalhos aqui na Granja, não só o que você me mandou, como o que o Lucas, Vinícius e até o Theo mandou. Você está realmente nos surpreendendo... – Ri envergonhada. – Além disso, os jogadores realmente gostaram de você. – Ela falou. – Achei que mandar uma mulher sozinha para cá seria um tiro no pé, mas você lidou muito bem com a situação, os jogadores estavam se perguntando de ti quando eu cheguei... – Assenti com a cabeça.
— Eu confesso que me afeiçoei a eles também, é um trabalho muito gostoso de fazer e eles foram muito gentis. – Sorri. – Até falamos sobre isso ontem, e eles não ficaram muito felizes com eu não ir. – Ela sorriu.
— Bom, eu conversei com o pessoal acima de mim, conversei com os dirigentes, com Tite, com Angélica e com Bianca, você é a nossa primeira opção. – Ela sorriu. – É questão de popularidade, você está sendo bem vista pelos jogadores e pela equipe e acho que aguentaria o tranco na Rússia. Passar esses dois meses com eles. Além de que você acabou de fazer exame médico para começar seu trabalho conosco e é a única que está com ele atualizado. – Assenti com a cabeça, suspirando.
— Uau! – falei rindo.
— E por mais que eu adoraria te dar alguns dias para decidir, aceitando isso, você tem que ir amanhã com eles para Londres. Então, eu preciso da sua decisão agora para preparar a documentação e outros itens importantes para a viagem. – Respirei fundo três vezes, mas balancei a cabeça rapidamente.
— Eu não tenho o que pensar, Michelle. Eu aceito! – falei com um largo sorriso no rosto. – É uma oportunidade única na vida, eu não vou perder e prometo que vocês não vão se arrepender. – Falei, sentindo o choro na garganta.
— Essa é a minha garota! – Sorri. – Bem, lá na Rússia você não vai atuar como social mídia... – Ela balançou a cabeça. – Me deixa reformular. Você não vai trabalhar só como social mídia, você vai acabar auxiliando a parte de social mídia, o Vinícius, o Canarinho e o Lopes no Brasil, mas lá na Rússia, eu preciso de três assessores. – Assenti com a cabeça. – Tivemos só a experiência de ontem contigo, mas com a sua presença aqui com os jogadores, decidimos te colocar em um trabalho direto com eles: imagem. – Assenti com a cabeça. – Seu trabalho é acompanhar e analisar a imagem dos jogadores.
— Ok... – Franzi a testa.
— Em poucas palavras? Cuidar e brigar com os jogadores, se for necessário.
— Brigar?
— Em um jogo de futebol, os ânimos dos jogadores ficam exaltados demais, então, dependendo da situação, algumas palavras feias acabam saindo, os jogadores e a Seleção são mal vistos, etc... – Assenti com a cabeça. – Bom, seu trabalho, no geral, vai ser acompanhar os jogos, treinamentos e afins, analisar e controlar a imagem dos jogadores, nos enviar relatórios sobre isso a cada jogo. – Confirmei.
— E as redes sociais?
— Esqueça—as por enquanto, temos outras pessoas que poderão fazer seu trabalho enquanto você estiver fora. – Assenti com a cabeça. – Foque nos jogadores, na imagem dos jogadores, nos jogos, nos acontecimentos e divirta—se, você vai acompanhar uma Copa do Mundo de dentro, esse é o sonho de muitas pessoas. – Sorri.
— O meu também. – Assenti com a cabeça.
— Bom, eu vou te passar outras informações depois, mas eu preciso de algumas informações para enviar para a FIFA para a elaboração de crachás, reserva de quartos, te colocar na lista da CBF, nas listas de voos, além de tamanho de roupa para uniformes, ternos da CBF e tudo mais...
— Eu vou ganhar um terno daqueles? – falei abobalhada.
— Você vai ganhar uma viagem com tudo pago para Inglaterra, Áustria e Rússia e está pensando no terno? – ela falou e eu ri.
— Oh meu Deus. – Parei rapidamente. – Temos um problema. – Me lembrei.
— Qual? – Ela perguntou.
— Minha família mora no interior de São Paulo, meu passaporte está lá, minhas malas maiores estão lá... – Respirei fundo.
— Onde sua família mora?
— Pirassununga, é perto de Ribeirão Preto.
— Se eu te liberar agora e ficar no seu lugar entre hoje e amanhã, você consegue ir direto para o aeroporto Santos Dumont pegar um voo para Ribeirão Preto e voltar para o aeroporto do Galeão até amanhã às 17h45? – Ela me perguntou. – O voo para Londres sai às seis.
— Consigo! – falei firme. – Eu vou ligar para o meu pai ver se tem algum avião da Força Aérea Brasileira indo para Pirassununga saindo do Galeão, se eu conseguir, ele para na minha cidade. – Ela me olhou confusa. – Ele é instrutor na FAB.
— Ok. – Ela balançou a cabeça, se levantando. – Vá, agora! Use o cartão corporativo para o que for necessário, mas eu preciso de você às seis horas naquele avião para Londres.
— Pode deixar! – Abracei—a fortemente, com um largo sorriso no rosto. – Obrigada! – Sorri. – Muito obrigada!
Me afastei da mesma dando pequenos pulos no lugar e me virei, saindo desesperada para fora do restaurante, somente ouvindo os barulhos do meu chinelo estalarem fortemente contra o piso.


Capítulo 4 – A Copa do Mundo Começou

Para variar, eu fui a última a sair do segundo ônibus que levava até a pista onde pegaríamos o voo de Viena com destino a Sochi, nossa casa na Rússia por pouco mais de três semanas, contando que tudo desse certo.
Fiquei feliz por poder dispensar o terninho hoje. Estava ventando bastante em Viena, então, pude usar minha roupa de guerra: jeans, polo azul e o tradicional sapato amarelo. Entrei no avião, cumprimentando os comissários e a primeira coisa que notei foi que o avião era bem mais simples que o da ida para Londres. Era um avião convencional, mas ainda tinha a divisão entre a equipe e os jogadores.
Olhei rapidamente em volta, notando o pessoal da equipe técnica bem ajeitada em todos os locais dessa primeira parte e franzi a testa, à procura da minha equipe. Acenei rapidamente para um pessoal e segui novamente, passando para a segunda área e parei, ao ver que Lucas tirava uma foto do pessoal todo reunido.
— Aí sim! – Sorri, parando ao lado dele e apoiei a mão em meu peito. Olhando todos sorridentes, espremidos e amontoados uns nos outros até o teto, percebi que a gente até poderia não trazer a taça para casa, não que eu achasse isso possível, mas ganharíamos muita coisa com isso.
— Pronto, galera! – Lucas se virou, se assustando comigo e começamos a rir.
— Fomos enxotados para trás? – perguntei e ele riu.
— Avião menor. – Assenti com a cabeça e ele apontou para as quatro primeiras fileiras daquela parte, onde minha equipe estava se ajeitando. – Senta aí! – Ele falou e eu olhei para duas poltronas aparentemente livres e joguei minha mochila para uma mais perto da poltrona e coloquei minha bolsa no bagageiro, depois a sacola menor com o terninho e, depois de tirar meu iPad da mesma, enxotei a mochila ali.
— Oi – Alisson falou e eu olhei para ele que se sentava na poltrona atrás da minha e eu soltei um pequeno riso.
— Você está me seguindo – falei baixo, vendo—o rir.
— Você que sempre chega atrasada nos lugares. – Abanei a mão, me sentando na poltrona e me preparando para a decolagem.
O bom de estarmos em Viena é que o voo também foi mais curto, quase quatro horas. Eu até tentei dormir, mas eu estava muito empolgada de estar indo para a Rússia. Ou melhor, indo para a Rússia para acompanhar a Seleção Brasileira de Futebol na competição mais importante do esporte.
Claro que eu sonhei anos com isso quando era mais jovem, ter a chance de representar meu país. Claro que antes de eu descobrir que essa Copa do Mundo era só para homens, mas era uma oportunidade única na vida, mesmo eu não achando que merecesse estar lá tão cedo, apesar de estar amando tudo isso.
Mas além da empolgação, alguém interrompeu minha tentativa de sono.
. – Virei para o lado, vendo Paulinho se sentar ao meu lado.
— Ei! – falei, tirando os fones da orelha.
— Pode confirmar uma coisa para mim? – ele perguntou e eu franzi a testa, vendo—o olhar para trás rapidamente e abaixando o tom de voz.
— Claro!
— Já passou da meia—noite, então, é aniversário do Fagner? – Ele apontou para trás e eu franzi a testa, tirando rapidamente dos meus filmes baixados no Netflix e abri os arquivos dos jogadores, procurando pelo de Fagner.
— O que vocês estão fazendo? – Abaixei o iPad, vendo Alisson se debruçar sobre minha poltrona e eu relaxei.
— Ah, é você! – Ergui o iPad novamente, passando os arquivos e encontrando do dito cujo. – Sim, Paulinho, 11 de junho, 29 aninhos. – Ele abriu um sorriso animado.
— É aniversário do...? – Alisson começou a perguntar baixo.
— Xí! – Paulinho colocou a mão na boca. – Será que eles têm bolo no avião?
— Acho que só o muffin. – Ergui o lanchinho que eles tinham dado no começo do voo e que ainda estava embalado.
— Vem comigo! – ele falou para Alisson e eu abanei com a mão, voltando ao meu filme.
Não deu tempo de eu ver mais 10 minutos do filme. Tomei um susto quando Paulinho, Alisson e outros jogadores envolvidos nisso, apareceram do fundo do avião cantando parabéns para Fagner, fazendo—o ficar vermelho de vergonha na hora. Paulinho encontrou um bolo para ele — bem, quase, era o muffin da companhia aérea, com um palito de dente fincado no mesmo como se fosse vela. Todos cantamos parabéns e Vinícius e Lucas se posicionaram para filmar alguma coisa, logo fazendo aquele sinal para mim de “já te mando”.
O resto do voo foi calmo, até consegui dormir por alguns segundos, mas logo eu precisei me levantar e me arrumar como todos os passageiros daquele avião, então as coisas ficaram meio turbulentas com somente seis banheiros. Eu e as meninas da comunicação acabamos pedindo licença para as comissárias de bordo e usei a área de descanso delas. Confesso que foi mais confortável que o banheiro minúsculo sacudindo a 11 mil metros do chão. Principalmente a liberdade em passar rímel sem manchar a cara inteira.
Pousamos em solo russo com gritaria da parte dos jogadores, me permitindo fazer novamente aquela reza silenciosa sobre os desafios e pressões que seriam colocadas em cima desses moços de 21 a 33 anos. Além das surpresas que poderiam vir do meu trabalho que me testariam. Seja o que Deus quiser.
Depois de todos vestidos, os membros da polícia federal russa, ou sei lá como eram chamados aqui, entraram no avião para conferir e carimbar o passaporte de todos, me fazendo feliz ao ver mais um carimbo no meu livrinho vazio. A oficial que carimbou o meu falou algo em russo, espero que tenha sido “seja bem—vinda”. Eu sabia falar cinco línguas, mas não tinha aprendido a falar russo, afinal, nunca estava em meus planos vir para cá.
Descemos do avião na ordem das poltronas, menos Lucas e Vinícius, como sempre. Mesmo sem necessidade, Lucas fazia questão de tirar fotos minhas e eu vou assumir que adorava, aquele cara tinha um olhar incrível, então, eu sempre estava linda nas fotos dele e acabava sendo sucesso no Instagram, principalmente depois de novos seguidores por causa da minha posição.
Aguardei ao lado de Lucas enquanto todos os jogadores desciam do avião e foi difícil organizar todas as 23 crianças em frente ao avião para a primeira foto oficial na Rússia. Caramba! Eu estou na Rússia! Dei uma olhada rápida no aeroporto de Sochi e franzi os lábios, era um aeroporto comum, tirando os escritos em uma língua que eu realmente não entendia como aquilo formava palavras.
— Tendo devaneios aí? – Lucas me cutucou, e eu notei que a foto já havia sido tirada e os jogadores seguiam em direção ao ônibus que nos aguardava.
— Estamos na Rússia, Lucas. – Ele riu. – Não sei você, mas nem em sonhos eu pensei em vir para cá. – Suspirei.
— Eu também não. – Ele sorriu.
— Prontos para desbravar juntos? – Ele esticou a mão para cima e eu suspirei, batendo na mesma.
— Vamos lá! – falei e ele riu, passando o braço pelos meus ombros e me levando até o ônibus.
— Vamos, Brasil! – Jesus gritou da porta do ônibus e gritamos com ele, batendo palmas e assoviando.
— É a nossa hora – falei mais para mim do que para os outros e entrei no ônibus, me sentando no primeiro banco vago que eu encontrei, afinal, tinha ficado por último de novo.

Demoramos cerca de uma hora para seguirmos do aeroporto para o hotel. Bem, hotel não, o lugar dos meus sonhos. Aquele lugar era fantástico, eu estava abismada! A frente do hotel era composta por várias cascatas iluminadas que subiam até o prédio principal do incrível Swissôtel Resort Sochi Kamelia, um hotel cinco estrelas onde a diária de um quarto não saía por menos de 1400 reais.
Parecia que eu estava num palácio! Era tudo lindo, maravilhoso e nem em sonhos eu imaginaria ficar em um lugar desses, mas essa era uma das vantagens de acompanhar a Seleção, ficar em lugares desses, de tirar o fôlego. Aquilo era um resort, então, eu podia usar todo aquele espaço ao meu favor, como inspiração talvez? Imagina minha felicidade ao descobrir que também tinha uma praia privativa? Eu estava nas nuvens, mas parecia que os jogadores não compartilhavam da mesma emoção de meros mortais, afinal, ganhando milhões de euros por mês, eles já deveriam ter ficado em lugares melhores.
Chegamos ao hotel em clima de festa! Passava das quatro da madrugada e todos estavam pilhados como se fosse meio dia, além de que uma comitiva surpreendente nos esperava. Bom, surpreendente para mim que não sou relações públicas e não me interessei em saber o que aconteceria quando chegássemos.
Fui uma das primeiras a sair do ônibus e dei uma volta ao redor do meu corpo para pegar alguns detalhes daquele hotel. Aquilo era um palácio e eu tentava não aparentar muito surpresa com tudo, mas aquilo era fascinante. Segui o pessoal da comunicação e saí da frente das lentes dos meus companheiros.
Não sabia se era da FIFA ou do hotel, mas uma fileira de pessoas, colocadas dos dois lados, formando um corredor para passarmos, nos recebeu. Todos usavam crachás e tentavam tirar aproveito de ver os jogadores brasileiros mesmo que fosse por alguns segundos.
Balões azuis, amarelos e verdes, um quinteto de cantoras russas e pessoas vestidas a caráter, nos esperavam para a recepção. Uma das mulheres em trajes típicos segurava um tipo de doce, pelo menos eu acho, que parecia um bolo de caramelo e estendia em nossa direção, mas eu não sabia o que era, então, passei reto, seguindo alguns dos dirigentes.
Ao fim do corredor de pessoas, viramos à direita e encontrei a recepção do hotel. Ou a recepção preparada para nossa chegada. O local tinha alguns sofás e poltronas e fomos nos ajeitando na mesma, enquanto aguardávamos a chegada de todo mundo.
. – Um dos peixes grandes da CBF se aproximou de mim e se sentou ao meu lado.
— Olá, senhor Silvestre – falei e ele sorriu.
— Você que é a assessora ligada aos jogadores, certo?
— Sim, sou. – Ele me estendeu algumas folhas.
— Aqui algumas informações para serem passadas a eles. – Ele se levantou. – Obrigado. – Ele saiu e eu franzi a testa, olhando para as folhas enquanto a sala enchia, rindo com a ironia do destino.
É claro que eles se livrariam de falar as partes mais tensas. Em minha mão estava a programação e informações sobre meu trabalho e principalmente sobre o contato com a família e elas não eram muito boas. Respirei fundo e esperei todos os jogadores e comissão entrarem e logo a porta foi fechada, trazendo alguns funcionários do hotel e da FIFA, já que Angelica não desgrudava dele.
— Boa madrugada, brasileiros – ele falou em português com um sotaque bem forte. – Hoje vocês começam sua jornada para a Copa do Mundo. – Ele sorriu e algumas pessoas aplaudiram bem fracamente. – Aqui em Sochi e nesse hotel, vocês ficarão hospedados durante quase toda jornada e se mudarão para outros pontos, conforme forem passando de fases. – Ele sorriu. – Mais informações serão passadas pelas suas próprias equipes e depois vocês conhecerão suas acomodações. – Assenti com a cabeça. – Após isso, teremos uma recepção para vocês na parte externa do hotel. Obrigado pela presença de todos e boa sorte na sua jornada. – Ele sorriu e aplaudimos. – Agora vocês receberão informações do gerente do hotel e depois da assessoria de vocês. – Ele assentiu e outro homem engravatado apareceu e começou a falar em inglês.
— Bom dia, Brasil. Como estão? – Seu sotaque era bem puxado para o russo, mas perfeitamente entendível. – Eu sou Ivan Mikhail, gerente do Swissôtel Resort Sochi Kamelia, o novo lar de vocês durante essa batalha. – Sorri. – Para facilitar o deslocamento de vocês ao Yug—Sport Stadium, local de treinamento de vocês, a menos de um quilômetro daqui, nós reservamos toda a parte norte do hotel para a hospedagem. Lá será exclusivo para vocês e transformamos a cobertura em restaurante para dar mais privacidade a vocês. Fizemos a separação dos quartos como determinação da FIFA e da CBF, e vocês poderão pegar as chaves no balcão, após a reunião. – Ele sorriu e eu assenti com a cabeça. – Desejo a vocês uma boa estadia e muito boa sorte no trabalho de vocês.
O pessoal aplaudiu e eu bufei sozinha, me levantando da mesma e carregando comigo os papéis. Andei até Angelica novamente, vendo—a abrir um largo sorriso e eu neguei com a cabeça, vendo—a rir e sussurrar um “desculpa”, mas me coloquei em frente aos jogadores, equipe técnica e dirigentes e olhei para o papel.
— Vamos lá – falei, passando a mão no rosto. – Eles deixaram as informações mais chatas para mim. – O pessoal mais próximo começou a rir. – Pior que é sério! – Eles fecharam o rosto. – Primeiro de tudo, sobre os treinos, aqui vai ser mais pesado. Agora na primavera, começo do verão, temos muita incidência de sol e pouca noite, então a equipe técnica quer trabalhar com vocês o maior tempo possível. Os treinos começarão as oito da manhã e seguirão até as sete da noite. – Falei. – Café da manhã a partir das cinco e meia da manhã, almoço a partir das 11h30 e janta a partir das oito horas. – Olhei novamente no papel. – O local de treinamento de vocês é aqui perto, cerca de 600 metros. Terão carrinhos de golfe para levar vocês lá ou vocês podem ir a pé. – Respirei fundo. – Sobre a minha parte, todo dia vocês terão coletivas de imprensa, como estava tendo lá em Londres, então, sim, eu vou continuar buscando um de vocês todo dia para falar na coletiva. – Eles fizeram caretas e eu ri. – Além disso, acabei de ser informada que eu terei um local de auxílio para vocês, qualquer problema com a imprensa, com a imagem de vocês e com as famílias, eu estarei disponível, não sei aonde ainda, para auxiliar vocês. Abaixei o papel. – Agora a parte chata, o elefante branco na sala: famílias – falei, chamando atenção dos jogadores. – A CBF liberou a presença dos familiares com vocês, mas terão algumas restrições. – Respirei fundo, bufando fortemente. – A primeira é o local em que as famílias de vocês ficarão. A CBF fechou o Pullman Hotel para as famílias e amigos de vocês ficarem hospedados. Esse hotel fica a cinco quilômetros daqui, ao norte. Também, a CBF fretou um avião para trazê—los à Rússia, interessados tanto no hotel, quanto no avião, precisam me falar amanhã, para eu repassar para eles. O voo será na sexta—feira. – Suspirei. – Sobre folgas, elas serão dadas pelo Tite quando ele quiser, nesses períodos vocês terão total liberdade para sair do hotel, encontrar suas famílias e fazer o que bem entendem nesse tempo, voltando para cá no horário estipulado. – Cocei a cabeça, bagunçando meus cabelos. – Sobre a presença dos familiares nos treinamentos: serão permitidos a entrada deles somente às quatro da tarde ou em treinos abertos. E no hotel, eles poderão ficar aqui até meia noite. Já avisando, não está permitido que nenhuma esposa, namoradas ou filhos durmam aqui. – Eles começaram a murmurar. – Fui clara? – Falei firme.
— Foi... – eles falaram meio de mau gosto.
— Não foi eu quem fiz as regras, gente. Eu só estou passando informação, eu sou a isca. – Ergui as mãos e eles riram. – A presença de familiares aqui no hotel, em qualquer lugar, incluindo quartos, é só nos horários permitidos a noite ou nas folgas que serão estipuladas ainda. – Passei os olhos pelos papéis. – Bom, acho que é isso. – Dei de ombros. – Amanhã... Bem, hoje, contando que já passam das quatro da madrugada, teremos o dia livre para descanso, vamos descobrir melhor os protocolos e amanhã começamos o trabalho. – Bati as mãos e eles me copiaram.
— Por favor, podem vir pegar as chaves. – O gerente do hotel voltou a falar e eu vi os jogadores se amontoarem na recepção e me sentei em um dos sofás, esperaria pela minha vez.
Fui a última e vi que a chave era nominal, com o número do quarto e o andar em qual ele ficava. Eu havia ficado no quarto andar. Achei estranho só ter meu nome na chave, mas peguei o elevador com alguns dirigentes, parando em todos os andares e segui para o quarto, vendo as portas se abrirem.
Na minha frente tinha um corredor vertical e eles se abriram em dois longos horizontais. Segui para um dos corredores e é claro que eu errei, vendo os nomes dos jogadores nas portas e os números aos poucos. A CBF podia ter economizado um pouco nos aposentos na pré—Copa, mas a FIFA não tinha essa intenção não, era um quarto para cada. E eu havia notado, por um momento, que tinha ficado no andar dos jogadores, o que me deixou bem confusa.
— Deu sorte, hein?! – Firmino brincou e eu franzi a testa.
— Como assim? – perguntei.
— Não viu ainda? Seu quarto é o maior. – Ele cruzou os braços e eu vi alguns jogadores se aproximarem de nós.
— Nem cheguei nele ainda. – Ri fraco e ele apontou para o fim do corredor, onde alguns jogadores estavam e eu segui para o mesmo, vendo uma porta centralizada na parede que ocupava a extensão inteira do andar e vi meu nome na mesma.
Coloquei o cartão na porta e ouvi a mesma destravar. Empurrei a porta e fiquei mais abismada ainda. Sim, pelo que eu havia visto das portas abertas, meu quarto era maior que o dos outros jogadores, mas tinha motivo. Para começo de conversa, eu estava em um hotel cinco estrelas, então, qualquer quarto já seria magnífico. E para término de conversa, meu quarto não era só um quarto, ele também era um escritório. Do lado direito da porta, uma cama de casal com mesas de cabeceira, armários, poltronas, porta para o banheiro e outros detalhes feitos pensando especialmente no cliente. Do lado esquerdo da porta, uma mesa em “L” que circundava a parte da lateral e a do fundo, onde também ficava uma janela em toda extensão da mesa. Apoiada nela, no canto, uma grande TV de provavelmente 50 polegadas, espaço suficiente para eu arrumar todos meus eletrônicos, duas poltronas laterais, uma mesa para café e um papel.
— Eita! – falei, abismada.
— É do caralho, não é? – Marcelo falou ao meu lado e eu suspirei.
Entrei no quarto, deixando minha mala e mochilas no meio do caminho e fui até a janela, abrindo o blackout da mesma lateralmente, ficando de boca aberta. De um lado, eu tinha a vista para a praia privativa do hotel e do outro um canto do Yug—Sport Stadium, que estava sendo iluminado com as cores do Brasil. Eu não conseguia ver tudo do novo CT, pois tinham alguns prédios na frente, mas conseguia ver a trave sul do gol, parte do campo e parte da concentração que ficava na lateral.
Peguei o papel em cima da mesa de trabalho e sorri ao ver uma carta de Michelle para mim. Era sobre minhas ocupações na Rússia. Meu trabalho seria aliviado um pouco, pouco mesmo. Meu trabalho como social mídia tinha sido totalmente esquecido. Agora eu era assessora em período integral e tinha que cuidar da imagem dos jogadores e auxiliar Bianca com a imprensa.
Eu continuaria acompanhando os jogadores nos jogos e faria todo caminho jogadores—imprensa, juntamente de Bianca, mas, além disso, eu assistiria aos jogos, por isso a TV enorme, e repassaria as informações para a CBF, equipe técnica e jogadores. E, nos jogos do Brasil, eu continuaria acompanhando igual os amistosos, mas dessa vez eu teria que fazer um relatório sobre possíveis crises para repassar para a equipe de comunicação, ou seja, estresse dos jogadores, erros de arbitragem ou até possíveis derrotas.
Resumindo: qualquer coisa que pudesse dar merda!
E, por último, sobre a questão de auxílio aos jogadores, era que meu quarto seria realmente escritório e os jogadores poderiam me encontrar ali, caso precisassem de qualquer tipo de auxílio, ajuda ou até mesmo informações. As portas deveriam ficar, literalmente, abertas para eles das oito às oito. Ok, dava para o gasto, mas só teria que lembrar de manter meu quarto apresentável.
— Acho que agora entendi o que eles falaram sobre eu ficar disponível para vocês – falei para o pessoal que tinha se acumulado em minha porta e respirei fundo.
— Como assim? – Marcelo perguntou e eu entreguei a folha para eles, respirando fundo.
— Festa no seu quarto? – Firmino perguntou e eu ri.
— Só que não! – brinquei, suspirando. – Falando em festa, precisamos descer.
— Ah! – Eles fizeram caretas e eu saí na porta, me encostando na mesma, vendo todos os jogadores ali.
— Eu também estou com sono e com preguiça, gente, mas só uma horinha. Depois vocês podem dormir o dia inteiro.
— Se eu te ver amanhã... – Neymar começou, levantando uma das mãos.
— Você vai me dar bom dia, um abraço e um beijo no rosto. Olha que beleza! – Ele riu, abaixando a mão. – Mas não, amanhã essa porta ficará bem fechada. – Falei, saindo da mesma e puxando—a. – Vamos!Mal vejo a hora de colocar meu pijama, esquecer que vocês existem e...
— Blé! – Eles começaram a me zoar e bagunçaram meus cabelos.
— Ah, nem vem! – Ergui as mãos, entrando no elevador. – Eu vou ficar por sei lá quantos dias mais com vocês, mereço meu descanso. – Eles riram. – Só um toque, não cabem 24 pessoas no elevador. – Falei e eles começaram a se dividir.
A leva que entrou comigo apertou o botão do térreo e o elevador se fechou, me fazendo querer ficar apoiada na parede e dormir. Aquilo não era hora de eu estar acordada. Na teoria, era para eu estar comemorando que o Brasil venceu, mas também não estava permitindo álcool, então não fazia diferença.

A festa foi fraca. Um jantar, as músicas russas e todo mundo com cara de sono. Eu acabei fugindo de lá logo depois da sobremesa, quando peguei Vinícius seguindo de mansinho. Eles pararam no terceiro andar e eu segui para o quarto andar, entrei no quarto, me livrando do terninho e já colocando—o no cesto para a lavanderia, tomei meu banho e morri na cama.
Literalmente.
Eu dormi por 12 horas direto, sem interrupções. Levantei até meio assustada, com uma poça de baba no travesseiro, meu rosto marcado e o braço doendo por ter dormido em cima. Eu precisava resolver a questão dos voos dos familiares dos jogadores, mas não precisou.
Quando olhei na soleira da porta, alguns papéis estavam jogados no mesmo. Ou melhor, 23 papéis. Alguns diziam que queriam e já passaram nomes completos e documentos, outros só disseram que não queriam. Liguei o computador rapidamente para repassar essa lista e mandei para o pessoal do Brasil.
Cogitei sair para jantar, mas isso implicaria em ter que socializar um pouco e eu não estava no clima. Acabei pedindo um serviço de quarto, nem sabia se isso estava permitido ou não, mas o fiz mesmo assim e coloquei na minha lista de afazeres do dia seguinte que eu conferiria isso. Mas o cardápio que estava no quarto tinha uma impressão especial em cores do Brasil e estava com tradução em português, então, imaginei que tínhamos esse direito.
Jantei, tomei outro banho e deitei novamente. Dormir muito me deixava com preguiça, então foi só colocar um episódio bobo de série que eu dormi antes dos créditos iniciais.
No dia seguinte a situação começou para valer. Trabalhos e reuniões a todo o tempo, e não digo para auxiliar ninguém, eles estavam treinando, mas para organizarmos os protocolos, ocupações e afins.
A única coisa chata era o deslocamento do hotel até o CT. Eu ia e voltava em horários diferentes dos jogadores, andando mesmo. Claro que eu não seria tonta de ir de salto, fiz questão de aprender isso logo no primeiro dia, além de que meus pés ainda estavam doendo do dia anterior.
Entrei no complexo de treinamento com o nome que eu chamaria na coletiva na ponta da língua. Talvez um dos nomes que eu mais tinha gostado de chamar, sendo bem honesta. Observei—o treinando junto dos outros goleiros e me aproximei do mesmo por trás da linha do gol, dando um assovio fino, chamando a atenção de Taffarel e fiz um sinal de tempo, fazendo—o segurar a bola que Alisson devolveu para ele.
— Para! Para! – ele falou para Alisson e Ederson que treinavam defesas e eu atravessei a linha, entrando no campo e me aproximando de Taffarel.
— Eu preciso roubar um dos seus hoje. – Ele fez uma careta. — Reclama com aquele ali. – Apontei para Tite e ele riu, coçando a careca.
— Escolha sua arma. – Virei de costas para ele, estendendo o braço e apontando para Alisson.
— Hoje é seu dia, ô do sul! – Ele fez uma careta.
— Ah, fala sério! – ele falou entre risada e reclamação e eu cruzei os braços.
— Não sei nem porque vocês reclamam, eu só faço o trabalho sujo, gente – falei e ele riu, tirando o colete que usava e o entregou a Taffarel.
— Ok, vamos lá – ele falou e eu dei outro assovio, fazendo—o colocar a mão no ouvido.
— Ai! – Ele reclamou e vi metade do time me olhar, menos quem eu queria.
— Tite! – gritei para o técnico e ele me olhou. – Vamos! – Falei, chamando—o com a mão e ele falou rapidamente com Cléber e veio em minha direção.
Segui um pouco mais à frente dos dois, feliz pela coletiva ser no próprio centro de treinamento, eu acabaria deixando minhas pernas torneadas com esse sobe e desce. Entramos por uma sala lateral e eu fechei a porta quando ambos me seguiram. Apoiei a mochila em uma das cadeiras dispostas ali e tirei uma troca de roupa oficial para Alisson.
— Aqui! – Estiquei para ele que a segurou. – Pode se trocar ali na porta da direita. – Indiquei e ele foi.
— Temos alguma mudança hoje, ? – Tite me perguntou e eu entreguei o iPad com as informações para ele.
— Nada demais, tá muito frio ainda, eles estão trabalhando só com as informações de treino e mudanças no regulamento, eles não têm nada.
— Especulação, então? – Tite perguntou e eu ponderei com a cabeça.
— Tipo isso. – Ouvi um barulho de porta e vi Bianca entrar pela sala da coletiva.
— Tudo pronto? – ela perguntou.
— Alisson só está se trocando – falei e ela assentiu com a cabeça.
Participar de coletivas para a CBF na Rússia era uma merda! Eu cuidava da imagem dos jogadores, mas Bianca era responsável pelo contato com a imprensa. Então, eu tinha que ir atrás do jogador que faria parte da coletiva e o entregava para Bianca. Bianca fazia o contato com a imprensa, mas eu não poderia sair, pois precisava saber as respostas que os jogadores fariam para eu saber o que repercutiria na imprensa horas depois. Só Angelica se livrava dessa, em compensação, tinha reuniões cansativas com os peixes grandes e velhos da FIFA e da CBF. Dividíamos a caixa de analgésicos.
— Pronto! – Virei para trás, vendo Alisson sair do banheiro com o moletom padrão da CBF e a mesma camiseta polo que eu usava, cheia de patrocínios.
— Está ótimo! – Sorri para ele. – Eu estava falando para Tite que não precisa se preocupar, eles estão trabalhando sem informações, então serão aquelas perguntas bobas e que vão de nada a lugar nenhum.
— Tá tudo bem, eu acho. – Ele riu fraco e eu assenti com a cabeça.
— Bianca vai acompanhá—los. – Apontei para a outra assessora e eles seguiram para a outra sala e subiram no pequeno palco montado na mesma.
Eu os segui, mas fui para trás, encontrando Vinícius com sua câmera na mesma. Cumprimentei—o rapidamente e a coletiva começou. Primeiro Alisson responderia algumas perguntas, depois ele voltaria para o treino e Tite continuaria.
— Vamos lá? – Bianca falou e vi um dos jornalistas se levantar.
— É, Alisson, eu estou aqui na sua ponta direita. Quero te fazer uma pergunta sobre a novidade da Copa, que é o árbitro de vídeo que você experimentou no campeonato italiano. Qual sua opinião? Ele veio para ajudar? Ele veio para ficar? Veio para complicar? Você gosta do árbitro de vídeo? Vai ser uma boa para a Copa?
— Primeiramente, boa tarde a todos. Acredito que o VAR venha a somar, vem para ajudar na Copa do Mundo. Eu tive experiência do VAR na Itália e deu muito certo, uma margem de erro do árbitro de vídeo muito baixo, menos de um por cento, então acredito sim que venha ajudar, em alguns momentos, em alguns lances, em que coloca o árbitro em dificuldade, principalmente lances muito rápidos de impedimento, acredito que o VAR venha como uma ajuda muito boa sim. Lógico que às vezes tem aquela parada para o árbitro ver o vídeo, isso incomoda um pouco, mas aumentando ali a chance de acerto, né?! Fica um jogo mais justo, sem erros, então acredito que venha ajudar sim.
Abri um sorriso com a resposta do Alisson, me dando até um suspiro e querendo conhecer a assessora desse homem. Ele falava bem com a imprensa e tinha uma calmaria que não era comum para alguém que vivia nessa vida corrida de jogador de futebol.
Ele foi bem em todas as perguntas, o que fez até que eu suspirasse um pouco. Ele era ótimo mesmo. Eu achava que tudo estava indo bem, até com as perguntas da Globo que normalmente eram um pouco mais pressionadas, mas não foram eles que fizeram a pergunta de fora do cronograma, deixando a mim e Bianca perdidas.
— Alisson, bom dia, desejo muito sucesso para você, e duas perguntas para você. Há uma preocupação da mídia, não de toda mídia, parte dela, do problema da sua alergia no rosto... – Alisson riu no palco, mas eu me aproximei de Bianca na lateral da sala.
— O que ele está fazendo? – ela cochichou para mim.
— Eu não sei – falei.
— ...Se ela te preocupa, deixa você mais tenso quando você passa por isso? E a perguntinha já tradicional: friozinho na barriga chegando?
— A gente impede isso? – ela me perguntou e eu virei para Vinícius que nos olhava confuso.
— Já respondo direto... – Alisson falou antes de decidirmos.
— Nem vai precisar, eu acho – falei, olhando para ele.
— Não me incomodo não, isso faz parte, porque eu estou na puberdade. – Coloquei a mão com vontade de rir da resposta dele e eu e Bianca respiramos aliviadas.
— Ufa! – ela falou e eu senti meu coração até bater mais forte, mas relaxei quando o ouvi rir.
— Friozinho na barriga, com certeza, agora que está chegando o momento. Cada vez que vai se aproximando, vai batendo um pouquinho de ansiedade, mas aquela ansiedade na quantidade justa, para ajudar a ficar ligado, acionar a adrenalina e ficar bem concentrado para ter um excelente desempenho, né?! E conseguir ótimos resultados.
— Ele é ótimo! – Bianca falou aliviada e eu ri, vendo—a se aproximar do palco. – É isso gente, obrigado. Agora, Alisson, pode seguir para seu treinamento que falaremos com Tite. — Chamei Alisson com a mão e esperei que ele entrasse na sala para que eu entrasse logo atrás dele, encostando a porta.
— Me desculpa! – falei, apoiando os materiais em uma cadeira. – Se soubesse que eles fariam uma pergunta indelicada teríamos cortado o jornalista na pré—seleção.
— Se preocupa não, estou acostumado já das pessoas perguntarem disso. – Ele deu de ombros e eu assenti com a cabeça. – É acne, faz parte da vida. – Franzi a testa.
— Eu não sou nenhuma especialista, Alisson, mas isso não é acne nem aqui, nem na China. – Falei, me aproximando dele.
— Como não?
— Isso é rosácea. – Toquei sua testa que agora estava vermelha como suas bochechas. – Já notou que elas ficam piores quando você toma sol ou fica nervoso? Tipo agora. – Comentei e notei o que estava fazendo, abaixando as mãos. – Desculpe. – Falei, rindo nervosamente. – Com uma estranha passando a mão na minha cara, eu também não ficaria confortável. – Ele riu nervoso, mais vermelho do que antes.
— Como você sabe o que é? – Suspirei.
— Vamos dizer que eu sei mais de vocês do que vocês mesmos. – Dei de ombros. – Mas você se saiu muito bem, você fala bem. – Sorri e ele retribuiu. – Bom, acho que você pode se trocar de volta e retornar ao treino. – Ergui as duas mãos até as têmporas, massageando as mesmas. – Em breve abriremos os portões para os torcedores e isso vai ficar um caos. – Suspirei. – Deus, me ajude! – Falei e ele riu.
— Não vai ser tão ruim. – Ele seguiu para o banheiro.
— Você se lembra do treino da Granja?
— Oh! – ele falou, o local fechado mantinha sua voz abafada.
— Exatamente! – Respirei fundo. – Pelo menos aqui tem arquibancadas, fecharemos de todos os lados e não foram vendidos mais ingressos que o permitido. – Respirei fundo, movimentando as mãos, tentando relaxar.
— Vai dar tudo certo! – ele falou.
— Vai dar tudo certo! – repeti, soltando o ar devagar e abri os olhos, encontrando—o na minha frente novamente. – Ah, você saiu. – Ri fraco. – Vamos, eu vou te acompanhar. Depois preciso ir atrás do Vinícius. – Respirei fundo. – Preciso falar com o garoto russo que vai nos auxiliar nas filmagens também. – Parei um minuto. – Esquece! Nem sei por que estou dividindo isso contigo. – Abanei a mão, saindo da antessala, com ele ao meu lado.
— Tudo bem. Eu gosto de te ouvir falar. – Deu uma piscadela e seguiu andando em minha frente, me fazendo parar por alguns segundos. – Você não vem? – Ele parou um pouco mais a frente, olhando para mim e eu revirei os olhos. – O quê? – Ele perguntou.
— Nada – comentei, seguindo em sua direção. – Eu só achava que você era quietão, porque gostava dos seus olhos castanhos. – Repeti a piscadela para ele, dando uma risada e seguindo em sua frente para a área de treinamento novamente.
Droga! Esse jogo estava ficando perigoso demais! E eu começava a pensar em quem seria o primeiro a desistir ou a se machucar, e eu tinha uma leve impressão que seria eu.

— Tá tudo certo, não precisa surtar – falei para mim mesma, vendo as arquibancadas cheias e os torcedores acumulados nas grades.
— Parece que está tudo bem – Bianca comentou e eu ponderei com a cabeça.
— E espero que continue assim. – Conferi meu relógio rapidamente e suspirei. – Eu vou dar uma volta. – Apontei para trás de mim e ela confirmou com a cabeça.
— Beleza, eu vou para o outro lado! – ela falou e seguimos para lados contrários.
Passei por entre alguns torcedores brasileiros, mas principalmente por russos, e dei a volta atrás do gol, dando aquela observada básica em Alisson fazendo saltos de defesa e segui para o meio do campo, do lado contrário aos torcedores, encontrando Vinícius, Lucas e o russo Bóris que estava auxiliando Vinícius nas gravações, já que ele tinha que ser o mascote também.
— E aí, ? Tudo certo? – Lucas comentou e eu me apoiei na grade.
— Tudo certo. – Suspirei. – Pelo menos parece que está.
— Relaxa! Aqui a segurança é bem mais controlada, tá todo mundo registrado. – Vinícius falou e eu suspirei.
— Tudo bem, mas fiquei traumatizada depois daquele dia. – Rimos juntos e virei para Vinícius. — Vini, em meia hora vamos fazer uma aparição do Canarinho, dar algumas bolas de presente, aquilo que foi conversado na reunião...
— Beleza! – ele falou. – Só estou esperando Neymar e Marcelo voltarem para ver o que eles vão aprontar. – Olhei rapidamente em volta.
— Como assim? Cadê eles? – Pisei na grade, ficando um pouco mais alta e tentando olhar em volta. – Eu perdi o Neymar e o Marcelo?
— Ei, se acalma! – Lucas se levantou do seu lugar, me empurrando do outro lado da grade. – Relaxa! – Ele falou. – Eles foram pegar farinha lá no hotel...
— Farinha? –interrompi.
— É aniversário do Coutinho – ele falou. – Não me diga que se esqueceu, você que falou para gente no café...
— Eu sei! Eu sei! Mas a gente já cantou parabéns, teve bolo no almoço. O que mais eles querem? – Perguntei e Vinícius fez um movimento com a cabeça.
— Humilhação pública. – Ele sorriu e vi Neymar e Marcelo surgirem no meio do campo novamente.
Eles aproveitaram a distração de Coutinho que amarrava suas chuteiras e abriram o pacote de farinha em cima dele. Coloquei a mão na boca, vendo—o tentar fugir, mas os outros jogadores o encurralaram em uma rodinha, jogando ovos e seu uniforme ficou inteiro branco de farinha. Fiz uma careta, mas comecei a rir logo em seguida.
— Vamos lá, Vinícius, eu vou te levar para se trocar.
— Eu vou me trocar, você continua gravando. Lucas vai te ajudar, se precisar – Vinícius falou para Bóris em inglês e seguimos para o lado dos vestiários. – Hoje vai ser um dia gostoso, você vai ver.
— Parece que sim! – Dei de ombros. – Na programação do pessoal de relações públicas temos sua aparição como canarinho, depois os jogadores vão falar com eles e tchau, sumam daqui!
— Ah, , relaxa... – Rimos juntos.
— Só questão de precaução, Vini. Prometo. – Suspirei. – Mas acho que hoje não tem muito que preocupar. – Dei de ombros. – Quero só ver na hora deles falarem com os torcedores. – Fiz uma careta. – Aí meu coração não aguenta.
— Aguenta sim! – Rimos juntos e entrei no vestiário com ele, esperando que ele se arrumasse como Canarinho.
— Mas sério, para quem foi contratada como social mídia, acho que eu tive um upgrade incrível. – Ele gargalhou de dentro do vestiário.
— Você veio para Rússia! – ele falou alto. – Eu trabalho na CBF há três anos e, tirando amistosos, esse é o primeiro campeonato internacional. – Ele riu. – Quero saber com quem você dormiu lá para vir tão rápido.
— Rá! Rá! Rá! – falei irônica, revirando olhos. – Primeiro que isso foi ofensivo. Segundo que eu não dormi com ninguém não, só que os jogadores deram um ótimo feedback para a equipe técnica e acharam bom me manter, mas para entrar aqui eu só fiz aquele processo seletivo chato. – Ele saiu do vestiário, só sem a cabeça do boneco.
— Eu sei, me desculpe. Falei besteira. – Ele suspirou. – Mas eu bem estou vendo os olhares que você tá dando para o Alisson.
— Ah, nem vem. Ele é bonito para caramba. – Ergui as mãos. – Não custa nada olhar. – Ele riu e eu não acrescentei mais nada do que estava acontecendo.
— Não custa. – Ele riu. – Mas ele também está olhando para você. – Ele piscou para mim e eu suspirei.
— Eu sei! – falei, mordendo meu lábio inferior. – Quero saber até aonde vai essa brincadeirinha.
— Também quero! – Ele riu. – Mas sem pressa, temos um mês aqui ainda, além de que estamos a trabalho e o dele é só um dos mais importantes na equipe, não vamos deixar o moço distraído, ok?!
— É o que eu menos quero, por isso que eu só dou corda quando ele joga, fora isso, eu fico no meu canto. – Dei de ombros e ele me estendeu a cabeça do mascote e eu o ajudei a colocar.
— Mas só digo uma coisa, você e Alisson Becker? A visão é muito bonita.
— E você falando para não ter pressa. – Ele riu abafado por causa da cabeça.
— Desculpa, me empolguei. – Balancei a cabeça e seguimos para fora, vendo Murilo parado na porta.
— Ah, , você está aqui. Pensei que ele estava sozinho.
— Não, não. Vim aqui dar uma ajuda! – Falei rindo e acenei para ambos.
— Bom trabalho! – falei e vi as atenções passarem dos jogadores que aliviavam nos passes de bola, para dar licença para o Canarinho passar.

— Bom dia – cumprimentei para alguns dos jogadores que aguardavam o elevador.
— Bom dia – eles me responderam com a mesma voz de sono e eu entrei no mesmo, vendo Filipe Luís apertando o botão para o quinto andar.
Chegamos rapidamente na cobertura do hotel, onde tinha se tornado nosso restaurante, para manter afastado das outras partes do hotel e segui direto para a mesa, pegando um dos copos mais altos e enchi de café, seguindo para uma mesa qualquer e dando um longo gole na mesma.
Olhei novamente o cronograma daquele dia e respirei fundo. Hoje o dia seria cheio e chato, e eu sabia que eu teria dor de cabeça com 23 jogadores e um técnico. Além de Lucas e Vinícius, é claro.
— Gente! – Chamei a atenção deles rapidamente, me colocando na entrada do restaurante. – Sei que a maioria nem abriu os olhos ainda, mas vocês podem me dar uma atenção?
O pessoal que estava no buffet se virou para me olhar, o pessoal que estava de costas também se virou, e a equipe técnica se encontrava em pé. Olhei rapidamente para programação do dia e respirei fundo.
— Hoje vai ser um dia diferente do normal – falei, coçando a cabeça. – Já adiantando que vai ser chato, estressante e eu vou agradecer muito se vocês não me matarem ao fim do dia. – Falei e alguns riram. – É o seguinte, hoje temos quatro compromissos, então, tentaremos fazer tudo agora na parte da manhã para livrar vocês para o treino na parte da tarde. – Olhei o cronograma. – Primeiro de tudo, a FIFA está vindo e vocês vão gravar os protocolos dos inícios dos jogos. Aquele vídeo de dois segundos que é mostrado apresentando a escalação. – Falei. – Quando vocês cruzam os braços na frente ou para trás, erguem o dedo para o céu ou fazem positivos... – Falei e eles riram. – É, sabem do que eu estou falando! – Sorri. – Depois disso, vamos aproveitar que vocês já estarão uniformizados e faremos as fotos da CBF, elas são mais descontraídas, é algo mais de boa e bem menos engessado. – Falei. – Em seguida, vocês irão para uma palestra sobre o árbitro de vídeo, ministrada pelo Wilson Seneme, Membro do Comitê de Arbitragem da FIFA, para vocês aprenderam um pouco mais dessa nova ferramenta. Por último, o Lucas quer uma sessão de fotos especial com os ternos da CBF, beleza? Aí depois vocês estarão livres para treinar. – Falei, respirando fundo. – Terminem de tomar o café e vão direto para o vestiário lá do campo e se arrumem. Os uniformes já estão preparados. – Falei e voltei para minha mesa.
Eu tomei meu café na maior calma do mundo, acabei seguindo para o Yug—Sport Stadium com a última leva de jogadores. Pelo menos, dessa vez, eu consegui carona nos carrinhos de golfe e não precisei ir a pé.
Fui ao encontro dos membros da FIFA que fariam as gravações e tudo já estava preparado. Um pano verde cobria um canto da sala, a câmera do outro e os holofotes me cegaram um pouco.
— Olá, como está? – cumprimentei os dois técnicos, falando em inglês. — Como quer fazer isso?
— Você pode trazer dois ou três de cada vez, é bem rápido. – Assenti com a cabeça. – Depois vou te pedir para levá—los na outra sala, onde faremos umas sessões de fotos.
— Ok, podemos começar?
— Claro! – Eles falaram e eu saí da sala, andando mais um pouco pelo corredor e chegando ao vestiário, respirando fundo antes de entrar.
— Mulher entrando! – gritei, feliz por ver todos vestidos. – É o seguinte, galera, eu vou levar três de cada vez, vocês farão a gravação e depois já seguirão para a sala do lado para fazer algumas fotos, beleza? Depois vocês aguardam que vamos para a palestra.
— Beleza! – Alguns falaram enquanto se olhavam no espelho, amarravam chuteiras e afins.
— Quem já está pronto? – Olhei em volta rapidamente. – Alisson! – Gritei para o mesmo, assustando—o. – Neymar e Willian! – Fiz um movimento com a cabeça e saí da sala, esperando que eles me seguissem.
Entrei na sala novamente e me coloquei na lateral, enquanto o auxiliar da FIFA explicava como aquilo funcionaria. Seriam três gravações, com os três movimentos que eu zoei mais cedo, cruzando os braços na frente, depois para trás e erguendo o polegar para cima.
Neymar foi o primeiro, eles eram posicionados no centro, estendiam uma placa com seu nome e gravavam as três cenas rapidamente. Senti um leve empurrão em meu ombro e virei para o lado, vendo Alisson mexendo no celular e fingindo que não era com ele. Repeti o movimento em seu ombro e rimos juntos.
— Sua vez! – falei, atravessando a tela verde. – Você pode ir por aqui, Neymar! – Apontei para a próxima sala e saí rapidamente para olhar a sala e vi que Angelica estava lá, aliviando um pouco. Lá eles tirariam fotos no fundo verde e no fundo branco. Seria fácil.
Coloquei a cabeça rapidamente para dentro da sala novamente vendo Alisson fazer suas gravações e saí da sala, seguindo para o vestiário, mas parei logo na porta, vendo uma fila formada, me fazendo sorrir.
— É por isso que eu adoro vocês. – Sorri, abraçando Jesus, que era o primeiro da fila, pelos ombros. – Pode entrar. – Falei, vendo Alisson seguindo para a outra sala e toquei levemente em seus ombros, para que ele andasse um pouco mais rápido para eu mudar de sala.
— Um olho no peixe e outro no gato, é?! – ele comentou e eu ri.
— São 23 crianças, dois ambientes, é muita coisa para lidar – brinquei e ele riu.
— Tá tudo certo, ! – Angelica falou. – Eu cuido daqui. – Assenti com a cabeça, fazendo positivo com as mãos, mas ficando parada no batente da porta, entre as duas salas.

A palestra sobre o VAR, o árbitro de vídeo, foi bem chata. Na real, eu ainda não tinha criado maturidade para achar palestras interessantes, não importava o assunto. Então, me coloquei no fundo da sala, ao lado de alguns membros da comissão técnica e fiquei ouvindo a mesma, enquanto eu conferia alguns e—mails.
A palestra não se estendeu por mais que uma hora, o que eu fiquei feliz, estava começando a bocejar e logo ficaria feio para mim. O palestrante Wilson logo nos liberou e eu fiquei feliz só de sair da mesma com uma sacolinha de lembrancinhas da Louis Vuitton.
Eu juntei a galera novamente e eles ficaram bem putos por terem que voltar para o hotel. Eu já fiquei feliz, poderia aproveitar o carrinho na volta e ficar por lá. Enquanto os jogadores se arrumavam, eu segui para a cobertura, reparando no incrível set que Lucas tinha montado e escondido o restaurante. Era basicamente uma sala de jogos, como daquelas mansões que vemos na TV, ou desses jogadores. Tinha estantes, sofás de couro, quadros, jogos de xadrez, abajures, telescópio, coisas até comuns, mas que eu sabia que ficariam sensacionais aos olhos de Lucas.
As noivas subiram aos poucos e, a cada vez que aquele elevador se abria, eu tinha uma palpitação no coração. Ficava só imaginando no que aconteceria quando o elevador se abrisse e Alisson saísse do mesmo. Aqueles ternos azuis da Seleção eram incríveis, e eu sabia muito bem disso. Eu ficava muito bem nele e já estava careca de ver os jogadores usando, mas a arrumação, o cuidado... Ah! Uma garota não aguenta.
Lucas era somente um, mas Bóris o ajudava em algumas coisas e eu sempre estava por perto e não me importava em ajudar, mas o que me interessava era olhar o making of e analisar as imagens que apareciam magicamente no notebook dele a cada clique.
Me apoiei em Thiago Silva quando o elevador se abriu e Alisson apareceu no mesmo, passando as mãos nos cabelos. Engoli em seco e senti que meu coração explodiria em meu peito. Jesus, me ajuda!
— Tá tudo bem? – Thiago perguntou e eu balancei a cabeça, olhando para baixo e fingindo que arrumava meus saltos.
— Tá tudo certo. – Me levantei, soltando dele e encontrei Alisson há alguns passos de mim, arrumando a gola do paletó.
— O que acha? – ele me perguntou e eu fiz questão de respirar bem fundo, pensando no que responderia.
— Eu não posso falar o que eu acho, o horário não permite – falei, erguendo a mão até a boca e ele abriu um sorriso.
— Fiquei curioso agora. – Ele riu e eu dei de ombros.
— Quem sabe depois das 10? – brinquei e não dei chance de ele responder. – Opa! Acho que minha porta já está fechada há essa hora.
— Tudo bem, eu abro! – ele respondeu com um sorriso maroto no rosto e dessa vez ele me deixou quieta, me enervando quando isso acontecia.
Me ajeitei em um banco alto e ainda tive a audácia de esticar os pés para cima. Fiquei acompanhando a sessão de fotos olhando para a cena em que acontecia. Lucas tinha pedido para os jogadores se espalharem em vários cantos do local e seguiu andando por ela, passando por todos. Eu fiquei com o notebook dele, então toda foto que eu tinha a impressão que teria ficado sensacional, eu olhava no notebook que estava em meu colo para ter certeza.
Alisson estava sozinho em um sofá colocado em frente a uma estante de livros. Ele somente fez aquela cara fechava que eu já estava acostumada e colocou a mão no queixo. Quando as fotos começaram a pipocar na tela, eu tive que segurar com muita vontade a água que eu bebia, pois eu teria feito um belo estrago.
— O que acha, ? — Lucas perguntou, como estava fazendo em todas, e eu abaixei minha cabeça para trás do notebook e estendi o polegar para cima. – Ótimo! – Lucas falou. – Obrigado, Alisson. Vamos seguir por aqui. – Aproveitei a deixa para me enviar a foto dele para meu e—mail. Aquilo tinha ficado sensacional e eu guardaria de recordação.
Notei Alisson saindo de esguio e eu joguei a cabeça para trás um pouco, vendo—o se ajeitar junto dos jogadores. Ele abriu um sorriso quando percebeu que eu estava notando e eu tive vontade de erguer o dedo do meio, assim, de graça, mas tinha muitas testemunhas. Então, me contive em morder meu lábio inferior e voltei a prestar nas outras fotos que surgiam na tela, babando pelos outros 22 jogadores restantes.

Respirei fundo ao passar pelas portas do Yug—Sport Stadium e parei um momento para respirar. Caramba! Estávamos no terceiro dia aqui e eu já não aguentava mais ir e vir do local de treinamento. E a Copa nem tinha começado ainda.
Entrei, atravessando os corredores e seguindo para o campo, onde os jogadores estavam espalhados, com as bolas nos pés ou treinando com equipamentos espalhados pelo chão. Atravessei por trás dos gols, esperando que nada atingisse minha cabeça e olhei para a folha, vendo que o escolhido de Tite para fazer parte da coletiva com Rodrigo era Paulinho.
— Mas anda mais que dinheiro, hein?! – Cássio comentou e eu ri.
— Isso que a Copa nem começou – respondi, fazendo os goleiros se distraíssem um pouco. – Mas aposto que estou malhando as pernas mais que vocês. – Eles riram e segui em frente, parando para fora da linha do campo, esperando que Tite olhasse para mim para eu pedir um tempo.
Senti meu celular vibrar em meu bolso e puxei o mesmo, franzindo ao ver uma mensagem de Michelle. A primeira coisa que eu pensei foi: o que eu fiz? Respirei fundo e abri a mensagem dela.
Salário está na conta”. Falava a primeira mensagem.
Demoramos um pouco para depositar, pois estávamos recuperando sua conta com o RH. Quando voltar da Rússia mudaremos sua data de depósito para o quinto dia útil e acrescentaremos os bônus e diárias da viagem. Bom trabalho”. Franzi a testa com a mensagem e segui rapidamente para o aplicativo do banco.
Eu provavelmente cairia para trás, se não fosse a grade que circundava o campo, quando eu olhei aqueles cinco dígitos na minha conta. Coloquei a mão na boca, respirando fundo e rindo sozinha. Meu Deus! Era verdade! Na verdade, era muito mais que verdade.
Claro que tinha os descontos da carteira de trabalho e aqueles impostos do governo, mas havia sido depositado, junto do meu salário, o vale alimentação e o vale transporte, totalizando muito mais que o esperado.
— Porra! – falei sozinha, rindo comigo mesma.
— Cuidado! – Ouvi um barulho, mas não deu tempo de eu olhar o que estava acontecendo quando senti uma bolada bater em cheio em minha cabeça.
Meu corpo foi levado para trás um pouco e apoiei minhas mãos na grade atrás de mim, sentindo um zunido alto em meu ouvido. Meu Deus! Fazia muito tempo que eu não levava uma dessas e, cara! Eu não senti falta nenhuma!
— Meu Deus, ! – Eles começaram a se aproximar, Taffarel foi o primeiro.
— Está tudo bem? – Ergui a mão, abanando a mesma como se não tivesse acontecido nada.
— Eu estou bem! – falei, guardando o celular no bolso de novo e procurei a bola. – Tá tudo bem! – Peguei a bola e a coloquei na linha e me afastei o pouco que a grade permitia.
— Lá vai! – eles falaram animados e eu ri.
— Segura aí! – Corri em direção à bola e chutei—a fortemente, vendo—a fazer uma curva alta e Willian cabecear do outro lado do campo.
— Uau! – Vi Alisson ao meu lado e sorri. – Muito bom! – Ri fraco.
— Foi que nem andar de bicicleta. – Sorri e olhei para o treino que tinha voltado novamente. – Paulinho! – Gritei, vendo todo mundo se distrair de novo. – Preciso de você para coletiva! – Ele apontou para si. – É! Você mesmo! – Ele correu em minha direção.
— Sou o escolhido do dia? – perguntou.
— Sinto muito! – falei e ele riu.
— Está tudo certo, pelo menos eu estou bem acompanhado! – Ele me abraçou pelos ombros e eu ri.
— Quero ver se vocês vão agir assim quando suas esposas e família aparecerem aqui. – Ele riu.
— Pior que elas sabem – ele comentou. – A minha sabe, pelo menos.
— E o que ela acha? – Virei para ele, atravessando o campo.
— Ela acha bom ter alguém para puxar nossas orelhas. – Ri fraco.
— Esse é o Tite! – comentei. – Eu só xingo. – Falei rindo.
— Tá valendo! – ele brincou e rimos.
— Vamos lá, Paulinho. Hoje a coletiva é com o Rodrigo.
— Beleza! – ele falou e seguimos para dentro do centro de esportes.

Depois da coletiva de Paulinho na parte da tarde, eu segui saí com Vinícius e Bóris para andar por Sochi e fazer imagens do Canarinho. Bóris era meio quietão, mas ele acabava se soltando depois de um tempo.
O pessoal da comunicação não nos levou para pontos turísticos em Sochi, por assim dizer, eles nos levaram para os pontos turísticos da Copa. Como se fosse o “centro olímpico”, mas da Copa. Passamos por um longo caminho, onde tinha o arco de boas—vindas, vendo e interagindo com várias pessoas que andavam por ali, mas eu adorava sua interação com as crianças.
Elas eram tão fofas, tão ingênuas, que dava vontade de apertar. E Vinícius era interesseiro, ele cumprimentava todas as meninas, dando beijo na mão, bem, bico na mão, e depois recebia um beijo em troca. Claro, tudo do mascote.
Depois chegamos na frente do letreiro “Rússia 2018”, fazendo algumas passagens em frente do mesmo, e eu aproveitei para tirar fotos, é claro. Estava enchendo meu celular, mas eu estava em um local novo, então era como se fossem férias para mim.
Nas imediações do estádio, Vinícius conseguiu roubar um patinete de uma criança. Sim, você leu certo. Deu algumas voltas com o mesmo, mas logo entregou para os dois irmãos. O bom de Vinícius é que ele tinha aquele jogo de cintura, o que o tornava bem quisto em todo lugar que aparecesse, mas quando entregamos uma bola para ele, as coisas ficaram mais preocupantes, mas ao ver alguns passes, notei que Vinícius era o melhor jogador que eu já tinha visto, fazendo embaixadinha usando uma roupa com aquele peso? Ah, só ele mesmo!
Eu me afastei dos dois e fui tirar algumas fotos, principalmente no centro das bandeiras. Sentindo aquela emoção bater em meu peito e tomar conta de mim. Amanhã começava a Copa do Mundo e eu estava aqui. Não só como mera espectadora, mas eu estava trabalhando na Copa do Mundo. Eu tinha chegado ao ponto máximo da minha carreira e da minha vida e só tinha me dado conta ali em Sochi, com o estádio ao fundo e o sol brilhando sob o mesmo.
— Acho que podemos ir – Bóris me chamou e eu me distraí.
— Já? – perguntei em inglês também e ele apontou para Vinícius.
— “Já”? – Ele seguiu na língua de Bóris. — Não é você que está suando dentro de uma fantasia de pássaro. – Tentei segurar a risada, mas balancei a cabeça. – E está ficando tarde. – Apesar de o sol estar à pino ainda, meu relógio marcava quase oito horas da noite.
— Vamos lá! – falei.
Nos colocamos na van da CBF e voltamos para o hotel. A essa hora os jogadores já tinham acabado seus treinos e, provavelmente, já tinham até jantado. Meu estômago estava roncando e eu estava tentada a experimentar o strogonoff russo que tinha no hotel, apesar de que, depois que eu experimentei o borscht, uma sopa de beterraba e tomate, eu estava mais animada a experimentar as outras coisas. Afinal, estava em um país totalmente diferente do meu, com uma cultura bem diversificada, não podia ignorá—la.
Entramos no hotel e eu ajudei Vinícius a se livrar da roupa e ele disse que tomaria um banho antes. Eu deixaria o banho para depois da janta, aproveitaria, já colocaria pijama e dormiria até amanhã. Assim que as portas do elevador se abriram, eu comecei a ouvir uma música de fundo, um suave toque de violão e entrei no restaurante, seguindo em direção ao barulho.
Alguns dos jogadores estavam espalhados pelos sofás da sessão de fotos do dia anterior, alguns conversando e outros ouvindo a música, mas todos de forma organizada. Alisson estava em uma das poltronas com seu violão, cantando uma música que eu conhecia. Apoiei minhas mãos na poltrona de Taison e abri um pequeno sorriso, acompanhando a música.
...Além de apresentar o caminho que você percorre com a sua boca. Mas ó: é só uma ideia boba, é só uma ideinha boba... – Abri um sorriso, começando a cantar baixinho com ele.
Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Só de tá com você fico bem, posso não ser o amor da sua vida. Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Tanto faz se você não me ama. Posso não ser o amor da sua vida, mas eu sou o amor da sua cama... Mas eu sou o amor da sua cama... – Ele ergueu os olhos para mim, ao notar que alguém o acompanhava e eu dei um sorriso, abaixando o rosto.
Tenho vontade de ir mais fundo, mas não tenho certeza se ainda posso. Certeza eu tenho que posso ir além do que virar seus olhos. – Ele voltou a cantar olhando para mim, e eu queria desviar o olhar, mas não conseguia. — Além de transpirar seus poros, além de arrancar sua roupa, além de apresentar o caminho que você percorre com a sua boca. Mas ó: é só uma ideia boba, é só uma ideinha boba. – Senti meu corpo arrepiar e passei as mãos em meus braços, cruzando os mesmos. — Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Só de tá com você fico bem, posso não ser o amor da sua vida. Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Tanto faz se você não me ama. Posso não ser o amor da sua vida, mas eu sou o amor da sua cama... Mas eu sou o amor da sua cama... Tudo bem... Tudo bem! – Soltei um suspiro quando ele parou e cantar, mas seu olhar continuou sobre o meu.
Foi aí que eu percebi que um silêncio tinha se instalado no local e os olhares começaram a ser percebidos. Engoli em seco e ajustei minha postura, forçando uma tosse. Cocei a nuca e tentei sair daquela situação.
— Ok, Alisson. Vamos conversar. – Fingi ponderar por um momento. – Você é bonito, alto, jovem, goleiro da Seleção Brasileira, toca violão e ainda canta... – O pessoal em volta deu risada. – O que mais você quer da vida? – Esperei que ele não respondesse, mas por precaução eu emendei outra coisa. – Acho que você poderia dividir alguns talentos com o pessoal que tem menos atributos. – Falei, deixando a questão no ar e segui para o buffet, tentando me esconder o mais longe possível deles.
Com o estômago embrulhado, eu acabei pegando um pouco de macarrão alho e óleo mesmo, me manteria no que eu conhecia. Me sentei de costas de onde os meninos estavam e em um dos cantos, tentando passar despercebida, mas não adiantou nada. Enquanto eu comia com a cabeça baixa, uma pessoa se sentou na cadeira à minha frente. E eu não precisei olhar para saber quem era, então continuei fingindo que não era comigo.
— Você gosta de sertanejo, não é? – ele perguntou e eu ergui os olhos para encará—lo.
— Eu nasci no meio da roça, mesmo se a gente não gostar, a vida faz questão de nos fazer gostar. – Dei de ombros. – Além da faculdade, é claro!
— Legal! – Ele sorriu.
— Me deixa perguntar... – Engoli em seco. – Tem algo que você faz mal?
— Vamos descobrir! – Ele deu de ombros e eu sorri. – Boa noite. – Ele falou.
— Boa noite – respondi, vendo—o se levantar e soltei um suspiro, relaxando meus ombros, mas analisando sua resposta de diversas formas possíveis.

Eu acordei pilhada no dia seguinte. Era o começo da Copa do Mundo e eu não podia estar mais empolgada! Copa do Mundo sempre me empolgou bastante, desde que eu me entendia por gente, mas acho que essa era a primeira vez que eu acompanharia tudo, e o melhor, de perto! Ao lado da Seleção do meu país.
Eu só queria gritar! Mas achei melhor não ter alguns jogadores aparecendo na minha porta para saber se estava tudo bem. A cerimônia de abertura seria só as cinco e meia da tarde e eu tinha vários trabalhos para fazer antes disso, incluindo outra coletiva de imprensa, a qual eu levaria Gabriel Jesus para falar.
Tomei um belo banho antes de descer para tomar café e fiz questão de colocar meus saltos amarelos, junto da blusa cheia de patrocínios da CBF. Hoje era um dos dias mais felizes da minha vida e ainda teria jogo, mesmo sendo Rússia e Arábia Saudita, com Copa a gente se empolgava por qualquer coisa.
Depois que eu me vi pronta, dei aquela rápida olhada nas minhas redes sociais e encontrei um longo e—mail de Michelle. Ela me desejava boa sorte e me aconselhava não deixar minhas emoções falarem mais alto. Era a Copa do Mundo! Eu sabia que esse conselho era muito sábio e necessário, mas tinha a leve impressão que não seria fácil. Às vezes eu ainda ficava abismada pelo fato de eu realmente participar de tudo isso.
Subi para o café da manhã sozinha. Acabei demorando ao responder o e—mail de Michelle. Cheguei ao restaurante chamando a atenção de algumas pessoas pelo barulho do salto pelo local.
— É para dar sorte? – Fred perguntou e eu ponderei com a cabeça.
— Talvez. – Sorri, me aproximando dele e apoiando a mão em seu ombro.
— Estou sabendo que Rodrigo te liberou.
— Sim! – Ele assentiu com a cabeça. – Bem a tempo. – Rimos juntos e eu me afastei do mesmo, me colocando no centro do restaurante.
— Bom dia, galera! É o hoje o dia, hein?! – Falei, vendo vários rostos desesperados e suspirei, todos deveriam estar nervosos. – Eu vim trazer a programação para os próximos dias. – Respirei fundo, olhando novamente no celular. – Hoje vocês vão treinar normalmente, eu vou aparecer por lá para pegar Gabriel Jesus e Tite para a última a última coletiva antes da viagem para Rostov. Amanhã vocês farão um treino fechado e vamos à noite para Rostov, onde será o jogo. Não se preocupem que o voo é só de 1h15, chegaremos rapidinho. – Alguns acenaram com a cabeça, mas a maioria me ignorou. – Amanhã vocês terão a parte da manhã livre, depois uma reunião com a equipe técnica sobre o jogo e no fim do dia um treino de uma hora no nosso palco de estreia! – Falei, respirando fundo. – E no domingo, começa nossa participação. Senti o peso daquelas palavras logo que eu falei, pois o ambiente pesou, me fazendo soltar a respiração algumas vezes. – Eu sei que vocês estão nervosos, ansiosos, com medo... A maioria das pessoas aqui nunca participou de um evento desses, eu me incluo nessa, mas eu me direciono aos jogadores e a equipe técnica, pois são vocês que vão dar a cara à tapa. – Suspirei. – Saibam que nós confiamos em vocês. Nós acreditamos em vocês e estaremos com vocês não importa o resultado. – Abri um sorriso. – Vamos chegar lá e mostrar o que a gente sabe fazer de melhor: jogar futebol. Eu estou acompanhando vocês desde as eliminatórias, pessoalmente, desde o dia 21 de maio. Faz quase um mês e eu posso falar com certeza que vocês estão prontos. – Sorri. – Então, ergam essas cabeças, alarguem esses sorrisos, porque aqui é Brasil, e a gente não vem para brincar. Com a gente, a luta é séria! – Falei e Tite foi o primeiro a aplaudir, me fazendo sorrir e o resto do pessoal do restaurante o seguiu, me deixando feliz.
— Meu Deus! Chegou a hora. – Ouvi Jesus falando e começamos a rir.
— Quando Jesus pede ajuda para Deus, vemos que a coisa ficou séria – Firmino comentou e rimos.
— É gente, a coisa ficou séria! – Tite falou e eu engoli em seco, suspirando.
Caramba!

Capítulo 5 – É... Começou Fraco: Brasil x Suíça

O que se seguiu daquele dia foi meu céu e o começo do meu inferno. Eu sabia que a Copa do Mundo me daria dores de cabeça, principalmente me colocando para cuidar das imagens dos jogadores, mas não pensava que um dos motivos seria a família deles.
Fui informada logo depois do café que as famílias dos jogadores estavam chegando ao Pullman Hotel e Murilo, das relações públicas, acompanharia. Eu não saberia quantas pessoas chegariam e quem exatamente chegaria, supus que a maioria das esposas, namoradas e filhos, talvez alguns pais, mas não cheguei a ver a lista completa, só fiz o caminho entre Murilo e os jogadores.
Na parte da manhã eu fiquei acompanhando as notícias e especulações sobre o jogo de estreia da Copa do Mundo, além de separar aquela básica tabelinha da Copa para anotar todos os resultados e ir passando para a equipe técnica, mesmo sabendo que para esses primeiros três jogos, os estudos já estavam todos prontos e repassados um milhão de vezes, até eu já sabia as táticas deles.
Faltava cerca de uma hora para a coletiva quando eu resolvi minhas pendências com a CBF. Aproveitei o tempo livre e peguei meu caminho para o centro de treinamento, na maior calma possível, mas nem toda calma evitou o meu susto quando eu cheguei lá.
Parecia que outro treino aberto estava acontecendo, mas não, eram só os familiares dos jogadores que vieram para cá, assim que entraram no complexo. Os jogadores estavam dispersos, falando com seus familiares e eu estava pronta para fazer um escarcéu, mas Tite estava lá e eu sabia que ele mandava dentro do campo, meu problema era fora.
Aproveitei que o treino estava parado e atravessei pelo meio do gramado para falar com Tite do outro lado. Ele estava reunido com Edu e Cléber, falando bem baixo. Assim que notaram minha presença, eles pararam de falar.
— Oi, – Tite comentou e eu olhei para os jogadores.
— Está tudo certo? – Franzi a testa.
— Eles apareceram aqui e demos alguns minutos para eles cumprimentarem...
— Mas não tínhamos estipulado tempo? – Ele somente assentiu com a cabeça.
— Exatamente, mas como não tinha nenhum controle de entrada e eles estão com crachás, foi tudo liberado.
— Vamos precisar reorganizar isso, não dá para ficar assim. – Ele assentiu com a cabeça novamente.
— Eu vou repassar a informação para os dirigentes. Qualquer novidade, certeza que vai chegar em você. – Assenti com a cabeça, respirando fundo.
— Beleza! Eu preciso de você e do Gabriel na coletiva daqui alguns minutos.
— Beleza! – ele falou. – Em quanto tempo?
— 20 minutos – falei. – Volto para chamar vocês ou...? – Ele olhou o relógio.
— Não precisa, a gente vai lá. – Confirmei com a cabeça.
— Bem, espero que vocês tenham um bom treino, o jogo é depois de amanhã. – Ele bufou alto, colocando a mão no rosto. – Você está nervoso, Tite, quer que eu dê um jeito nisso? Ninguém me conhece, então eu posso ser chata. – Ele riu.
— Você não se importa? – Abri um sorriso sarcástico.
— Até parece! – falei rindo e me afastei do mesmo, seguindo para o aglomerado dentro e fora da cerca.
— Quero só ver. – Ouvi Edu comentar e eu ri, negando com a cabeça.
— Galera! – falei alto o suficiente para poucos virarem em minha direção, respirei fundo e tentei novamente. – Oh! – Gritei, vendo o silêncio que se formou. – Eu não sei o que está acontecendo aqui, mas vocês têm treino agora. E que eu saiba, seus familiares não deveriam estar aqui até às quatro da tarde. – Fui firme. – Se não quiserem que o privilégio seja totalmente cortado, espero que todos cumpram seus papéis. – Alguns familiares começaram a reclamar e eu só sustentei o olhar.
— Mas, ... – Gabriel foi o primeiro a reclamar.
— Não, Gabriel. Não vamos esquecer que isso foi um acordo entre CBF e Tite, porque em outras eras, os familiares não apareciam nem nos jogos. Que tal? – Ele se calou. — E você tem coletiva em 18 minutos – disse firme. – Te espero lá. – Respirei fundo e olhei para a equipe de técnicos que escondiam a boca com a mão, mas eu sabia que todos riam.
Segui para fora do campo e notei Alisson e Cássio treinando com Taffarel como se nada tivesse acontecido. Preferi não perguntar, mas supus que suas famílias não tinham chegado ainda, não viriam ou encontrariam direto no jogo.
Passei para fora das grades, seguindo por trás dos familiares e vi que a situação voltava a se normalizar dentro do campo. Os familiares se afastavam e seguiam para as arquibancadas, eles deveriam sair, mas eu preferi não causar mais, depois conversaria com mais calma com eles. Ou não, na teoria, se não afetasse a imagem deles, não era minha responsabilidade. Apesar de que não tinha outra pessoa para falar isso.
Ouvi alguns passos apressados de dentro do centro de treinamento, saltos como o meu e vi Bianca sair da mesma, soltando a respiração aliviada quando me viu. Pronto! Alguma merda já aconteceu!
— Ah, graças a Deus você já chegou! – Ela me segurou pelo braço, me puxando para a lateral.
— O que aconteceu? Você está pálida.
— Você pode lidar com os jornais italianos de novo? – ela me perguntou. – Eu estou sendo aloprada, mas tem a coletiva agora e não tem como eu lidar com tudo isso ao mesmo tempo.
— Calma! – Segurei em seus ombros. – Me passa seu celular e as informações que você tiver. Cuide da coletiva, depois falamos.
— Mas não tem só jornal italiano falando...
— Eu falo português, inglês, espanhol, francês e italiano, certeza que eu consigo me virar com qualquer pessoa.
— Mesmo? – Ela sorriu.
— Mesmo, Bianca! Relaxa. Vai beber alguma coisa também, você está branca igual um papel. – Ela suspirou, relaxando os ombros. – Vai!
— Obrigada! – Ela sorriu e eu peguei o celular de sua mão e trocamos os iPads, vendo que ele já brilhava novamente.
— Atenda em inglês, eu estou pedindo para todo mundo se identificar, aí você descobre de onde fala. Ah, um detalhe, não estamos mais credenciando para o jogo, agora só quando voltar para Sochi.
— Perfeito! – Sorri. – Agora vai! – Ela riu e saiu correndo de volta para a sala. – Vamos ver o que vai rolar. – Deslizei o botão, atendendo em inglês.
— Olá, com quem estou falando? – falei, seguindo para fora do centro de treinamento, pensando se voltaria para o hotel, mas decidi seguir pela praia, eu só a via da minha janela e não tive nem a oportunidade de colocar os pezinhos na água, e eu tinha a impressão que a Rússia era fria, mas estava se assemelhando ao Brasil.
— Aqui é Enzo, do jornal... – ele respondeu em italiano. Só pode estar de brincadeira comigo.
— Ah Enzo, é você de novo! Aqui é – falei na sua língua, já me identificando para facilitar a situação.
— Ah, senhorita! Há quando tempo não conversamos? – Revirei os olhos, me sentando em uma das espreguiçadeiras do hotel que ficava num deque acima da areia.
— Sim, sim. Como posso te ajudar? – Cortei o papo rapidamente, encostando—me à almofada e ergui os pés, começando uma longa conversa com Enzo.
Eu fiquei algumas boas horas falando com os jornalistas, pois Bianca apareceu um tempo depois, provavelmente no fim da coletiva e havíamos combinado de não passar de uma hora de perguntas, tanto que reservávamos o tempo baseado nisso. Falei para ela deixar comigo e seguir para o que ela tinha para fazer. Algum tempo depois, eu ouvi um alto assovio, vindo de alguns jogadores que iam almoçar. Aparentemente ninguém estava bravo comigo... Aparentemente.
Eles seguiram para o hotel, e eu continuei na praia, esperando que as ligações cessassem, pelo menos para eu ir comer.

O dia acabou se seguindo assim. Quando eu consegui cessar um pouco as ligações, eu fui para o hotel, mas acabei ficando por lá mesmo. Eu e Bianca subimos para meu quarto, limpando a lista de imprensa que não parava de ligar e, claro, assistir ao jogo de abertura da Copa do Mundo.
Ficar no quarto era uma intenção de estar disponível para falar sobre o elefante branco na sala: o rolo do treino de mais cedo. Esperava que algum jogador aparecesse para lidar com isso, mas ninguém apareceu. O treino terminou, eles voltaram para seus quartos, mas tirando acenos rápidos, ninguém parou para conversar.
Bem, ninguém que eu esperasse.
— Acho que eu vou tomar meu banho também – Bianca falou e eu assenti com a cabeça.
— Vai lá! Eu vou esperar o jogo acabar e logo já vou também.
Ela acenou e saiu do quarto. Voltei a apoiar meus cotovelos na escrivaninha e segui olhando para a tela do jogo. Rússia já tinha metido três gols na Arábia Saudita no primeiro tempo e eles queriam mais.
— Substituição, sai Bianca, entra Angelica. – Ri fraco, olhando para Angelica parada na porta e chamei—a para dentro. – Não posso. – Ela falou
— O que aconteceu? Você não me está com uma cara boa. – Ela riu.
— Pessoal da CBF quer falar com a gente. – Franzi a testa.
— Com a gente? – Apontei para nós duas.
— Sim! Agora. – Respirei fundo.
— Lá vem bronca! – Me levantei, seguindo—a para fora do quarto e puxando a porta.
Virei o corredor com ela e quase esbarrei em Coutinho que saía do quarto. Apoiei as mãos em seus ombros e me afastei de costas, pedindo desculpas com o olhar. Ele sorriu, mas eu bati as costas em outra pessoa.
— Opa! – Ouvi a voz de Alisson e ri com a minha sorte.
— Campo minado! – falei ao virar de frente e ele riu. – Desculpe.
— Tudo bem! – Ele sorriu e eu entrei no elevador com Angelica.
— Você e Alisson, hum? – ela comentou quando as portas se fecharam e eu olhei para ela.
— O quê?
— Ah, , todo mundo já notou o climão que fica quando vocês estão perto, só que ninguém fala nada. – Ri fraco. – Mas e aí, já rolou algo?
— Como assim “rolou algo”, Angelica? Estamos aqui a trabalho. Não vai rolar nada. Além de que é só provocação, não sei se rolaria algo. – Ela deu de ombros.
— Ah, não sei, , mas se fosse comigo, eu não perderia uma oportunidade dessas. – Ela piscou para mim. – Além de que é um partidão.
— Claro! Um partidão que mora em Roma. – Ela riu, dando de ombros.
— Pelo menos para brincar um pouco. – Ri fraco, balançando a cabeça.
— Ah, você é um perigo, Angelica. – Ela riu. – Mas não sei. Eu vim aqui a trabalho e ele vai representar o Brasil na Copa do Mundo, além de que temos muitas testemunhas.
— Não é por nada não, mas tirando a equipe técnica e os dirigentes, todo mundo sabe que tá rolando alguma coisa. – Suspirei. – Principalmente depois daquele dia dele tocando violão. O clima pesou legal! – Ela falou me apontando uma direção.
— Você estava lá? – falei um pouco mais alto e ela sorriu.
— E todo mundo que estava lá notou, queridinha. – Suspirei.
— Não sei, Angelica. Sério. Vamos focar numa coisa de cada vez. – Dei de ombros. – Se for para rolar, ótimo. Se não, pelo menos a brincadeira está sendo divertida. – Ela sorriu. – Mas agora falando dessa reunião, o que aconteceu?
— Não sei. – Ela foi honesta. – Só pediram para chamar você. – Respirei fundo e ela bateu duas vezes em uma das portas e logo passamos pela mesma.
Era uma sala de reuniões com uma mesa oval e vários lugares ocupados por todos os membros da comissão técnica e alguns engravatados da CBF, engoli em seco.
— Olá, pediram para me chamar? – Falei, me aproximando da mesma.
— Por favor, . – Tite falou, me chamando com a mão e eu olhei para Angelica, mas ela só assentiu com a cabeça. Dei a volta na mesa e me sentei no lugar vago ao seu lado, em frente aos dirigentes.
— O que está acontecendo? – Perguntei e todos se entreolharam.
— O que você fez mais cedo... – Tite falou e eu franzi a testa.
— Oh meu Deus, me desculpem se eu não deveria ter feito aquilo, mas eu achei...
— Não, não, senhorita. – Um dos dirigentes falou. – Você fez certo e te agradecemos muito, adoraríamos se você continuar fazendo esse controle. – Assenti com a cabeça.
— Ah, claro, mas... – Balancei a cabeça. – O que está acontecendo?
— Nós liberamos a presença dos familiares nos treinos, fretamos o avião, fechamos um hotel perto, mas eu sinto cheiro de problemas – um dos dirigentes falou.
— Diga – falei.
— Temos a confirmação de 120 pessoas entre as que chegaram e as que ainda vão chegar após o jogo em Rostov – Tite falou e eu virei para ele. – Como vamos controlar tudo isso de gente? Nós já liberamos...
— Eu acho simples, para falar a verdade. – Respirei fundo. – Foi um acordo feito entre vocês e os jogadores, certo? Lá em Teresópolis? Que seria permitida a presença de familiares nos treinos, mas nos horários reservados, que os familiares poderiam ficar no hotel até um horário permitido e que os jogadores só poderiam sair daqui nas folgas que seria dada por você? – Virei para Tite.
— Certo!
— Então – falei, dando de ombros. – De onde eu venho, promessa é dívida. – Virei para os dirigentes. – E outra, se começar a dar problema, corta! Eles não vieram aqui para turistar, nós não viemos aqui para turistar. Viemos para trabalhar, certo? – Encostei as costas na cadeira.
— Como vamos controlar isso? – Edu perguntou.
— Bem, eu já fiquei marcada como a chata mais cedo, então, se quiserem que eu fique de plantão nos treinos, para controlar isso, eu posso ficar. – Dei de ombros. – Meu trabalho principal é com eles mesmo. – Eles suspiraram, passando a mão nos rostos.
— Hoje o dia já acabou, vamos para Rostov em algumas horas e amanhã não teremos a presença dos familiares no hotel, nem no treino – Angelica falou, se apoiando do outro lado da mesa. – Porque não esperamos a volta e analisamos novamente? – Assentimos com a cabeça.
— Eu tenho uma reunião mesmo marcada com a equipe depois de cada jogo para falar sobre possíveis pautas que eles deram para a imprensa. – Tite e a equipe técnica confirmaram com a cabeça. – Qualquer coisa eu já falo sobre isso.
— Bom! – Cléber falou. – Você pode adicionar na sua lista que os amigos do Gabriel Jesus denunciaram toda nossa escalação para domingo. – Ele disse e eu arregalei os olhos.
— Como assim? – Perguntei e ele assentiu com a cabeça. — Eu vou bater tanto naquela criança... – Falei involuntariamente e eles riram. – Enfim... – Respirei fundo. – Todos concordam, então, que eu fale com eles sobre isso após o jogo? Acho justo dar responsabilidade para eles, afinal, não estamos aqui para ser babá dos familiares, só deles. – Balancei a cabeça, revisando os olhos. – Nem deles, na verdade, mas vocês têm que concordar comigo que...
— É, você tem razão. – Tite comentou e eu ri. – A gente meio que sente pais deles, principalmente por ter um elenco tão jovem, acabamos fazendo o papel de pai. – Sorri.
— Me contem depois qual papel eu estou fazendo, o da irmã mais nova e mais responsável? – Eles riram.
— Tipo isso. – Sorri.
— Acho que seria interessante já liberar a escalação, para não ficar na especulação – Angelica falou e a equipe técnica se entreolhou.
— Pode ser! – eles falaram. – Vai ser a mesma do amistoso contra a Áustria. – Confirmamos com a cabeça.
— Bom, já está quase na hora da viagem, analisamos essa situação novamente na volta. – O dirigente falou e assentimos com a cabeça, nos levantando. – Boa viagem e bom jogo! – Respirei fundo e engoli em seco.

Chegamos a Rostov on Don por volta de nove horas da noite, o voo foi bem curto, então nem me dei ao trabalho de abrir notebooks e afins, aproveitei aquele tempinho livre e dormi durante aquela uma hora e pouco de voo.
A chegada ao hotel Ramada em Rostov foi mais calma, não tinha festa, música e, os poucos torcedores, eram mantidos do outro lado da rua, por obrigação da polícia russa. Eu agradeci por isso, minha cabeça estava um pouco pesada por causa do sono e eu ainda estava um pouco incerta sobre a responsabilidade que eu tinha me oferecido para ajudar.
Entrei no hotel e logo fui parada pelos jogadores acumulados no lobby do mesmo. Tirei o fone de ouvido e olhei na mesma direção de todos: na televisão que passava Portugal e Espanha. Estava no fim do jogo e Espanha estava ganhando por três a dois. Balancei a cabeça e desviei deles, seguindo para a galera de comunicação que falava com o gerente do hotel sobre as chaves e afins.
— Como vai ser? – perguntei, me apoiando no balcão.
— Quatro jogadores por quarto e três para a comunicação... – Franzi a testa.
— Meu Deus – falei rindo. – Uma hora a FIFA abusa e outra eles restringem. — Eles riram.
— Divide com a gente, ? – Angelica e Bianca perguntaram quase juntas e eu assenti com a cabeça.
— Claro! – Virei para Lucas e Vinícius. – Não sintam minha falta, ok?! – Eles riram.
— Pode deixar! – Respirei fundo.
— Faz as honras? – Bianca me empurrou as chaves e eu respirei fundo.
— Sempre, não é?! – Peguei—as em minhas mãos, organizando—as. – Cinco quartos de quatro e um de três? – Contei as chaves rapidamente.
— É! – Angelica falou e eu respirei fundo.
— Gol! – Eles gritaram e eu olhei para a TV, vendo Cristiano Ronaldo comemorando mais um gol e fiquei abismada, seis gols ao todo em um jogo. Deveria ter sido fantástico.
— Eita que jogaço! – falei, vendo o árbitro dar cinco minutos de acréscimo. – Eu estou com as chaves. – Apontei para as mesmas. – Serão cinco quartos com quatro pessoas e um com três, beleza? Façam sua turminha e venham pegar as chaves.
— Eita! – Geromel falou e eu assenti com a cabeça.
— É para ficar todo mundo bem juntinho – falei e eles riram. – Venham, venham!
Aguardei um pouco eles decidirem e os primeiros quatro a se aproximarem foram Geromel, Coutinho, Filipe Luís e Willian. Depois Miranda, Firmino, Paulinho e Fagner. Depois Alisson apareceu em minha frente com Jesus, Fred e Danilo. Ele fez questão de dar outra piscadela, mas dessa vez fingi que não vi. Mais dois grupos vieram e sobrou Thiago Silva, Neymar e Marcelo.
— Ah, isso vai dar merda! – falei entregando a chave para Neymar que riu.
— A gente não julga – ele falou e eu neguei com a cabeça.
— Rapidinho, gente! – chamei a atenção de todos. – Os horários aqui são o mesmo que em Sochi, a diferença é que não vai ter treino, mas, por favor, não deixem o hotel, ok?! – Respirei fundo. – Amanhã por volta das quatro nós vamos para o estádio onde acontecerá o treino por uma hora e depois uma coletiva com o capitão da Seleção e a equipe técnica. – Fiz positivo com os dedos. – Tem um jantar rolando aqui embaixo, se quiserem. Boa noite. – Acenei para eles e alguns ficaram lá embaixo esperando os minutos finais do jogo, mas eu subi com Bianca e Angelica e alguns jogadores.
Eu tinha fome, mas eu também tinha sono. Aproveitei que as meninas foram jantar, tomei um longo banho e me ajeitei na cama de solteiro que eu havia escolhido. Achei que dormiria logo, mas os episódios do Netflix foram passando e eu sabia que estava começando a ser pega por aquela ansiedade pré—jogo e tinha o dia inteiro de amanhã ainda.

— É só isso? – Marcelo perguntou saindo da coletiva e eu assenti com a cabeça.
— É sim! – Falei. – Você pode seguir para o ônibus que eu só vou esperar o pessoal e já vamos.
— Obrigada, ! – Ele falou, batendo sua mão contra a minha e eu ri, vendo—o sair.
A hora permitida para o treino já tinha acabado faz tempo, entrei com Tite, Edu, Cléber, Rodrigo e Marcelo, que tinha sido escolhido capitão do time, na coletiva de imprensa. Aguardei Bianca finalizar a coletiva e voltamos para o ônibus, vendo já alguns jogadores dormindo por causa da demora.
Bem, melhor aguardarem no ônibus do que fazer duas viagens. E estava proibido esperar dentro do estádio, apesar de que dentro do estádio não era dentro do campo, mas preferi não discutir com as regras da FIFA.
Chegamos de volta ao hotel e cada um seguiu para seu canto como formigas dentro de um formigueiro. Eu pensei por alguns segundos no que eu faria, mas estava cedo. Aguardei Bianca sair do banho e fui tomar o meu. Eu queria conversar com Tite no jantar, para ver se tinha alguma informação específica que eu precisasse saber.
Enquanto eu me trocava, recebi uma mensagem de Lucas, me fazendo franzir a testa.
O que está fazendo agora?”, dizia, e eu me sentei na cama para responder.
Acabei de sair do banho, estou enrolando para a hora do jantar,” respondi.
Ronaldo está aqui! Você não conseguiu conhecer o Zagallo, agora é sua chance!
Arregalei os olhos e saí correndo de volta para o banheiro, tirando a toalha do cabelo e passando rapidamente uma escova no mesmo.
— O que houve? – Angelica perguntou enquanto eu enfiava uma sapatilha nos pés.
— Ronaldo está aqui! – falei correndo e não me dei ao trabalho nem de passar uma maquiagem na cara e saí correndo do quarto, batendo a porta.
Não perguntei para Lucas onde ele estava, então cobri o básico e desci direto para o térreo, tentando não parecer uma louca enquanto corre atrás do ídolo. Assim, não que Ronaldo fosse meu maior ídolo do futebol, mas a lembrança mais incrível que eu tinha do futebol brasileiro era da Copa de 2002, quando eu tinha apenas oito anos, e da Seleção que trouxe o penta: Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho, Rivaldo, Roque Júnior, Kaká, são Marcos e, claro, Ronaldo. Além de Felipão como técnico.
Eles eram fantásticos, mas o que mais me emocionava, emociona até hoje ao rever os jogos, era que o futebol brasileiro era uma arte, os passes, os chutes a gol, as defesas... Ninguém fazia igual. Mas, infelizmente, 16 anos se passaram e os outros países também aprenderam a jogar bola. Talvez não com o mesmo estilo, mas com a mesma vontade de ganhar.
— Oi, ! – Vi Vinícius vestido de canarinho entrando no hotel e tirando a cabeça.
— Onde você estava? – Acenei para Bóris ao seu lado.
— Fomos dar uma volta por Rostov para gravar um vídeo. – Ele deu de ombros.
— Ah, queria ter ido. – Fiz uma careta e ele riu.
— Não dá para ter tudo, né?! – Suspirei.
— Ah, nem fala. Estou tão atolada de coisas, no dia da folga eu vou dormir o dia todo.
— O que você está fazendo aqui? –perguntou.
— Ronaldo, o fenômeno, está aqui. Eu quero uma foto dele. – Ele riu.
— Zagallo, Ronaldo... – Neguei com o dedo.
— Não, não. Eu não conheci Zagallo, lembra? – falei, revirando os olhos. – Eu fui embora antes para me arrumar para cá.
— Ah, verdade! – Ele bateu na cabeça.
— E nem conheci o museu do futebol, mas tá valendo. – Respirei fundo, olhando em volta. – Só preciso achar o Lucas.
— Eu preciso tirar essa fantasia. Manda whats sobre onde ele estiver – ele comentou e eu assenti com a cabeça, fazendo positivo e ambos entraram no elevador. Peguei o telefone e mandei uma mensagem para Lucas.
Onde você está?
Terceiro andar. Corre!”, ele falou e eu entrei no elevador, malhando o dedo no botão.
A porta se abriu e saí no andar dos jogadores. Acho que tinha chego ao local certo, já que todas as portas do andar estavam abertas. Alguns jogadores encostados nas paredes e a maioria de chinelo nos pés.
— Ah, meu Deus! – Firmino falou ao me ver e eu ri.
— Não vim atrás de vocês, relaxa.
— Fã? – ele perguntou e eu dei de ombros.
— Já tenho fotos com todos vocês, já dá para criar um álbum com jogadores. – Dei de ombros e ele riu.
— Ele está lá no fundo. – Ele apontou e eu segui pelo corredor, olhando dentro de todos os quartos.
Ouvi vozes de um dos quartos e segui para dentro do mesmo. Tinha muito mais pessoas do que os jogadores do quarto, mas tinha Ronaldo. Lucas estava em cima de alguma mesa ou banco ao fundo do quarto e Ronaldo agora abraçava meu carma, Alisson.
— Fala aí, ! – Jesus se apoiou em meu ombro e eu franzi a testa.
— Você não está bravo comigo? – perguntei e ele riu.
— Para quê? Não vai adiantar nada, eu sempre vou perder. – Rimos juntos.
— Ainda bem que sabe. – Sorri.
— Vem, deixa eu te apresentar! – ele falou e eu engoli em seco, vendo—o se aproximar de Ronaldo, provavelmente pela segunda vez naquele dia.
— Ronaldo, deixa eu te apresentar a nossa âncora aqui. – Jesus falou e o mesmo olhou em minha direção. – Essa é a ...
— Bem que Tite disse que tinha uma mulher mantendo vocês na linha aqui na Rússia. – Ele sorriu para mim e eu me aproximei. – É um prazer te conhecer.
— O prazer é meu, acredite! – falei sorrindo e ele me abraçou. Fechei os olhos por um momento, tentando evitar que as lágrimas caíssem de meus olhos e nos afastamos.
— Tirando manter eles na linha, qual sua real ocupação?
— Assessoria! Cuidar da imagem deles.
— Agora eu entendo. – Ele riu.
— Faz parte e agradeço todos os dias por isso. – Ele sorriu.
— Mantenha—os na linha, hein?! – Soltei uma risada fraca, mas não contive o sorriso sarcástico que eu dei, olhando fixamente nos olhos de Alisson ao meu lado.
— Pode deixar! – Sorri e me afastei para que ele passasse, saindo do quarto.
— Me diz que você fotografou aquilo! – falei, puxando Lucas para descer do banco em que ele estava.
— Claro que sim! – Ele me esticou a câmera, para eu ver as fotos e eu sorri.
— Obrigada! – falei, abraçando—o fortemente e olhei em volta, percebendo os jogadores do quarto nos encarando, principalmente Alisson por cima dos ombros de Lucas. – Acho que eu vou cair fora. Boa noite, gente! – Acenei para os jogadores e segui Lucas para fora do quarto.
— Boa noite! – eles responderam em coro e eu puxei a porta.
— Você vai dormir? – ele perguntou.
— Não, eu já perdi o jantar ontem, não dá para perder hoje de novo não – falei e ele riu.
— Eu vou seguir aqui mais um pouco, já te encontro lá embaixo.
— Beleza! – Acenei para ele e vi Ronaldo cumprimentando os jogadores pelo corredor e eu empurrei a porta de emergência, descendo pelas escadas mesmo.

Era hoje o dia! Hoje começaria, oficialmente, a Copa do Mundo para o Brasil. Domingo, 17 de junho finalmente havia chegado.
O clima tinha ficado pesado o dia inteiro. Jogadores largados pelos cantos, equipe técnica tentando manter a calma e eu, no meio disso tudo, isso tentando não surtar. Era só o primeiro jogo, mas não era por isso que eu estava surtando, era por toda situação.
Sete horas da noite eu saí do hotel com os jogadores para a Arena Rostov, minha barriga borbulhava em um nível que eu achava que não aguentaria aquela pressão toda. Nem minhas músicas favoritas faziam com que os ânimos me acalmassem e eu já tinha tomado dois copos de água com açúcar.
Esperei ao lado da minha dupla dinâmica que todos os jogadores entrassem no ônibus e reparei Alisson entrar com seu mate de sempre e franzi a testa quando Neymar passou em minha frente com... Bem, eu não consegui identificar aquela coisa amarelo ovo em excesso que estava em cima do seu cabelo, mas preferi não comentar nada durante a filmagem. Entrei atrás dele com os meninos e Tite, e o ônibus logo começou a andar.
Andei até o fundo do ônibus, me segurando nas poltronas, até me colocar ao lado de Neymar e me abaixei ao lado dele, vendo—o tirar o fone da orelha e olhar para mim.
— O que foi? – ele me perguntou e eu respirei fundo.
— O que você fez no seu cabelo? – perguntei, tentando me manter o mais gentil possível.
— Gostou? – ele perguntou e eu franzi os lábios.
— Já avisando, você vai virar meme hoje. – Ele riu fraco, colocando os fones novamente.
Voltei para meu lugar e me sentei, mas não por muito tempo. A viagem até o estádio durava menos de 15 minutos e eu estava pilhada, mudava de música toda hora e me mexia ao lado de Lucas na mesma intensidade.
Assim que o ônibus parou novamente, eu fui uma das primeiras a descer, junto da comissão técnica. Entramos pelos fundos do estádio e seguimos direto para o vestiário. Entrei no mesmo e apoiei minha mochila no balcão central e olhei rapidamente se tudo estava no mesmo lugar de ontem, quando vim conferir sobre televisão, tomadas, etc...
Fiquei na parte de trás do vestiário, onde não atrapalharia os jogadores que começavam a se arrumar e ainda ficaria de frente para uma das televisões. Tirei todos os componentes eletrônicos da mochila, conectando os carregadores na tomada e desbloqueando todos os aparelhos.
Conferi meu relógio rapidamente e entrei no site do Google, entrando na aba de Copa do Mundo 2018, que ficava aberta 24 horas por dia, e procurei pelo jogo que tinha acabado a alguns minutos, da Alemanha. Arregalei os olhos, colocando a mão na boca e soltando uma risada.
— Alemanha perdeu do México! – falei um pouco mais alto, chamando a atenção dos jogadores e começando a rir.
— O quê? – Marcelo, um dos que jogou no fatídico 7x1, apareceu ao meu lado e eu me afastei, permitindo que os jogadores olhassem no computador.
— Meu Deus! – Willian, que também participou, falou, começando a rir sozinho.
— Isso já anima o suficiente para o jogo de hoje – Fernandinho foi o último a falar e eu sorri.
— Gente, não vamos nos animar – Tite falou, pedindo para abaixar os ânimos e os jogadores sem camisa, sem shorts ou só de meias, começaram a voltar para seus lugares. – Muito bom esse resultado, creio que muitos brasileiros estão comemorando hoje. – Abri um sorriso, vendo—o rir. – Mas vamos nos manter firmes ao jogo de hoje. Temos três jogos antes de pensar em enfrentar a Alemanha novamente. – Eles assentiram com a cabeça e o pessoal voltou a se arrumar.
Abri os programas necessários, mas dessa vez, ao invés de abrir as redes sociais, eu abri um novo documento do Word. Eu precisava prestar atenção ao jogo, estudar os movimentos dos jogadores brasileiros, gols, faltas, xingamentos ou possíveis brigas e compartilhar essa informação com Bianca, que cuidava da imprensa, e falar com os jogadores na reunião pós—jogo, preparando—os para um possível enfrentamento da imprensa. Eu estava com tudo pronto, os jogadores também estavam prontos para o aquecimento antes do jogo e eu respirei fundo, esperando a hora passar.
— Tudo certo aí? – Tite apareceu ao meu lado e eu franzi a testa.
— Tudo certo – confirmei.
— Queria te levar para o banco, mas...
— Estamos a trabalho, Tite. Não se preocupe – assegurei. – Vamos fazer o nosso melhor que quem sabe eu vejo o jogo da final de lá, com vocês? – Ele sorriu.
— Vamos torcer! – Ele riu. – Tem como você me fazer um favor?
— Claro!
— Faz uma planilha para mim sobre o grupo do Brasil. Sobre o jogo da Sérvia e da Costa Rica.
— Pode deixar! – falei, batendo rapidamente em seu ombro. – Te entrego depois do jogo. – Ele assentiu com a cabeça e eu aproveitei o tempo de espera e os jogadores saírem para treinar para fazer seu pedido.
Comecei a ouvir alguns toques de celulares e eles ficarem cada vez mais intensos, me fazendo franzir a testa. Não era um celular tocando, eram vários. Meu Deus! O que estava acontecendo? Tentei relevar, mas logo os jogadores voltaram e começaram a se arrumar para o jogo. Eu pensei em falar que tinha celular tocando, mas preferi ficar quieta, eles não podiam se distrair, mas a maioria se arrumou e deu aquela rápida olhada no telefone. Quando eu menos esperava, boa parte deles estavam com os celulares nas orelhas.
— Como assim? Não, não tem o que eu fazer. – Me aproximei de Thiago Silva que estava ao meu lado e o ouvi falar. – Não, não tem. Daqui a pouco vocês chegam. Tá, não! – Ele falou e eu franzi a testa. – Eu tenho que ir. – Ele falou, desligando o celular.
— O que está acontecendo? – perguntei a ele.
— Aparentemente o ônibus dos nossos familiares ficou preso no trânsito...
— Aí também? – Neymar o cortou.
— Aqui também! – Outros jogadores falaram.
— Ah, e eles estão ligando para vocês, faltando cinco minutos para vocês entrarem na estreia da Copa do Mundo, como se vocês pudessem fazer alguma coisa? – falei, cruzando os braços. – Inacreditável. – Balancei a cabeça. – Se eu ver alguém mexendo nesse celular, eu juro que confisco de todo mundo e jogo na piscina do hotel. – Alguns afastaram a mão e eu respirei fundo.
— Está na hora! – Cléber falou e todo mundo se entreolhou, o olhar de Alisson encontrou com o meu e ele deu mais uma bebericada em sua cuia e eu assenti a cabeça, vendo—o imitar o gesto.
— Bom jogo! – falei mais para ele, mas todo mundo acabou dando pequenos sorrisos.
— Esse é o momento, gente! – Tite falou rapidamente. – Vocês estão preparados para isso, vocês estão sincronizados e vocês estão treinados. Foram quase um mês treinando e sei que vocês são capazes! Vamos lá! – Começamos a bater palmas fortemente e eles começaram a sair do vestiário.
Assim que eles saíram da sala, eu fiz alguns Pai Nosso e Ave Maria e fechei a porta do vestiário, me vendo sozinha no local, somente com o barulho que vinha das arquibancadas e subi em uma das caixas, para aumentar o som da TV, ouvindo o comentarista russo falar. Procurei pelo controle em uma das gavetas e apertei a tecla SAP, ouvindo—a mudar para inglês e respirei aliviada. Melhor!
Peguei uma das garrafas de isotônico dentro de uma das caixas e fui para meu lugar, puxando um banco para próximo da mesa e respirei fundo, vendo os jogadores entrar e se posicionar para o hino. Fechei minha mão em punho algumas vezes, sentindo a ponta dos dedos gelados e o coração bater forte.
Era agora!

Ouvi o som do apito, a plateia gritando acima de mim e eu engoli em seco, sentindo meu coração parar por alguns segundos, mas logo a adrenalina tomou conta de mim.
Os primeiros cinco minutos de jogo foram fracos, parecia que eles estavam aquecendo, mas já deu para perceber que os suíços viriam para cima. A primeira tentativa de gol foi quando Alisson recebeu a bola, mandou para o meio de campo e foi recebida por Jesus. Ele passou a bola para Paulinho que correu com a bola, mas acabou indo para fora.
Menos de quatro minutos, tivemos outra tentativa de Paulinho. Neymar e Coutinho passaram a bola um para o outro, na tentativa de uma abertura. Neymar viu Paulinho próximo ao goleiro e mandou para o mesmo que fez a tentativa, a bola passou raspando pelo gol e foi para fora. Merda! Passei a mão nos cabelos, puxando os mesmos. Brasil estava indo com tudo. Poucos minutos depois Marcelo passou para Jesus que tentou o cruzamento para Willian, mas foi muito forte, passou longe do jogador.
— Vamos, Brasil! Vamos! – Bati as mãos uma com as outras, respirando fundo. – Pô! Isso é falta! – Falei quando vi um suíço bater no Neymar e o mesmo cair no chão. Olhei a cara de deboche do jogador suíço e, como dizia minha mãe, queria arrancar com a mão.
Neymar cobrou a falta, mas explodiu na barreira suíça, me fazendo soltar o ar pela boca. O tempo já estava em 15 minutos do primeiro tempo e as mãos já começavam a coçar por um gol. Coutinho chutou para Jesus que fez sua tentativa, mas o goleiro pegou no meio do caminho, fazendo Jesus sair com um sorriso travado no rosto, me fazendo rir.
— É agora! – falei, vendo a aproximação de Neymar. Ele passa a bola para Coutinho que está fora da área e ele chuta direto. – GOL! – Gritei, erguendo as mãos para o alto, igual Alisson apareceu na tela. – É gol! – Falei animada, movimentando meus braços animadamente. – Agora sim, gente! Vamos lá! – Bati as mãos novamente.
Um dos suíços cobrou escanteio e Casemiro e um suíço caíram como um castelo de cartas. No replay, deu para notar que eles deram uma cabeçada forte, me fazendo franzir a testa. Casemiro logo mostrou que estava bem e eu relaxei. Enquanto eles conferiam o jogador suíço, os jogadores deram um tempo para hidratar.
O jogo se seguiu com mais algumas tentativas e jogadas polêmicas. Um dos jogadores famosos da Suíça puxou Neymar pela camisa. Depois Jesus faz uma tentativa a gol, mas Neymar estava em posição irregular e foi dado o impedimento. Um dos suíços tentou o ataque, mas Thiago Silva estava na posição correta e impediu que ela chegasse ao Alisson, mas impediu com a sua orelha, fazendo—o cair no chão, visivelmente com dor.
— Ninguém mexe com Thiago, hein?! – falei, respirando fundo.
A bola voltou a rolar e foi passada por Paulinho para os pés de Jesus, que tentou o ataque novamente, mas ele ficou preso na marcação suíça, me fazendo respirar fundo. Os suíços surgiram pela direita algum tempo depois, mas Thiago Silva estava bem posicionado e tirou de cabeça.
Acréscimo de dois minutos.
Escanteio do time brasileiro, Thiago Silva tentou de cabeça, mas mandou por cima da trave. Ah, meu Deus! O negócio estava difícil. O goleiro chutou a bola para o campo brasileiro novamente e Coutinho acabou tropeçando nele, fazendo falta para a suíça.
— Agora não! Aqui não entra suíço, não – falei sozinha, me sentindo uma tonta segundos depois, mas abanei o ar com a mão.
A bola foi por cima, um dos suíços cabeceou, mas Alisson pegou, me fazendo relaxar. Alisson se preparou para mandar a bola, mas o juiz apitou antes disso. Respirei fundo e corri para o banheiro, aproveitando que ele estava livre, antes dos jogadores invadirem o mesmo.
Antes de sair do mesmo, já ouvi algumas vozes vindas do vestiário, saí do banheiro, dando de cara com alguns jogadores entrando e voltei a me posicionar no meu banco. Alguns jogadores trocaram de blusas e meiões e Tite se colocou em frente a eles.
— Vocês estão indo bem, gente! Estavam meio travados no começo, mas acho que era o nervosismo da estreia. Parabéns pelo gol, Coutinho, foi ótimo. – Fiz positivo para Coutinho que sorriu. – Mas vocês precisam ser mais ofensivos. – Ele falou. – A defesa está boa, mas nesse final vocês tiveram mais dificuldades em passar para o outro lado. Sigam as jogadas, se lembrem das análises táticas e cuidado com os suíços, principalmente com aquele Behrami, ele está debochando a cada falta, não entrem na provocação dele.
— Pelo amor de Deus, sem brigas na estreia – falei um pouco alto demais e eles olharam para mim.
— Na estreia não pode, mas nos outros jogos pode? – Alisson perguntou e eu ri.
— Você não pode nunca, não queremos ver goleiro expulso. – O pessoal riu. — Mas o que eu quero dizer é que é a estreia, é o teaser do que vai acontecer nesse mês, vamos manter a calma, ok?! – Falei.
— Tem algo mais a acrescentar? Vendo daqui? – Tite perguntou.
— Não, não, você disse tudo. Só que o cabelo do Neymar já virou meme – falei sorrindo.
— Você postou no Canarinho Pistola, não foi? – ele falou e eu ergui as mãos.
— Nem vem, eu estou fora dessas responsabilidades, mas, por acaso, eu só mandei a foto para o pessoal do Brasil e eles fizeram a postagem, só isso. – Eles riram.
— Meu Deus! – Ele revirou os olhos e eu ri.
— Mas, ei, não sou só eu que faço meme, não. Brasileiro é um povo fantástico. – Sorri e eles riram.
— Vamos voltar! – Cléber falou e eles se levantaram novamente.
— Continuem jogando bem. – Gritei, enquanto eles saíram e ainda recebi alguns positivos.

E começou o segundo tempo.
Logo nos primeiros segundos o suíço manda a bolo para o gol, mas passa longe de Alisson. Fez nem cócegas. Coutinho faz uma tentativa a gol logo em seguida, mas bate na barreira e logo passa para os pés do suíço, mas Casemiro não deixa, entrando por baixo do suíço e é dado o cartão amarelo.
— Ah, Casemiro! Faz isso não. – Bati a mão na testa, respirando fundo.
A bola chegou aos pés de Jesus por Coutinho e ele tentou um gol, mas o goleiro suíço pegou de fora da área. A bola saiu pela lateral e foi a vez dos suíços fazerem um escanteio. Até tirei os dedos do computador quando isso aconteceu. O suíço mandou para área e um dos jogadores cabeceou.
— Gol! – falei desanimada, mas franzi a testa ao rever o lance. – Êpa! Isso foi falta! – Falei ao ver o jogador empurrar Miranda para frente. – Isso é irregular, caramba! Quero ver agora o que o VAR faz... Nada? – Reclamei inconformada quando a bola voltou para o meio do campo. – Tem o VAR para quê, porra? – O sangue começou a ferver. – Agora vocês vão ver, seus suíços filhos da...
Tive alguns segundos para recuperar minha raiva, mas logo um suíço fez falta no Coutinho e Neymar correu para cobrar, causando irritação dos suíços, o que fez com que ele pegasse a bola com a mão, interrompendo o ataque da Suíça.
A bola foi para lateral da Suíça e outra tentativa do gol dos vermelhos, mas Alisson pegou a mesma com facilidade. Alisson devolveu a bola para nosso time e eles cruzaram o campo fazendo passes, como se estivessem costurando o time suíço.
Paulinho passou por Willian, ricocheteou em um dos suíços e chegou aos pés de Coutinho. Ele fez um chute, batendo nos suíços e depois chutou novamente, tendo o mesmo retorno. Da segunda vez, a bola passou nos pés de Casemiro, Marcelo e depois para Neymar, chutando a bola, atingindo a rede por fora.
— Ah! – gritei, puxando os cabelos novamente.
Substituição. Saiu Casemiro, entrou Fernandinho.
Falta no Marcelo ao entrar com violência no mesmo, batendo na coxa. Depois falta no Neymar ao puxar a camisa deles. Respirei fundo, juntando as mãos.
— Dai—me paciência.
Substituição. Saiu Paulinho, entrou Renato Augusto.
Outra falta no Neymar do idiota do Behrami, mas dessa vez, pelo menos, o juiz idiota deu cartão amarelo. O jogo seguiu e tivemos duas tentativas seguidas de gol, uma de cada lado. Neymar passou para Coutinho que recebeu no peito e mandou por cima, mas foi para fora.
— Relaxa, Coutinho. Relaxa que dá! – Tentei me acalmar também, mas foi tão perto.
Os suíços pegaram a bola e cruzaram para o campo brasileiro, mas a bola foi direto para a mão de Alisson. Jesus foi para o contra—ataque e Marcelo mandou para Renato Augusto, que mandou para Jesus que foi derrubado na área.
— PÊNALTI! – Comemorei erguendo as mãos para cima, vendo a indignação de Jesus. – Cadê o VAR? – Gritei novamente, vendo o jogo retornar. – Ah, para puta que pariu! – Gritei, jogando minha garrafa no chão. – Ah não! – Respirei fundo.
Depois daquele lance do Jesus, eu já nem pensava direito e anotava tudo no automático. Tentativa de gol de Fernandinho, mas foi para fora. Depois tentativa de Neymar, mas direto nas mãos do goleiro. Dava para notar que o Brasil estava jogando na raiva já, essas duas injustiças com a gente deveriam estar entaladas na garganta.
Substituição. Saiu Jesus, entrou Firmino.
Firmino entriu na raça, mas chutou muito alto, indo para fora, no replay até ele notou seu erro, deixando para trás. A bola rolou para o campo brasileiro novamente, mas não deu em nada, fazendo a bola seguir para a fora, dando arremesso lateral para a suíça. Eles tentaram, mas perderam a bola para Miranda que estava bem posicionado.
Franzi a testa quando vi um balão vermelho aparecer no campo brasileiro e Alisson seguiu para o mesmo correndo, metendo o pé no mesmo, estourando—o com as travas da chuteira, comecei a rir.
— Isso aí, Alisson! – Comemorei como se tivesse sido um gol. – Achei pouco. – Falei rindo.
Me distraí com isso um pouco e, quando notei, Neymar recebeu a bola no meio da grande área, mas cabeceou e foi direto para as mãos do goleiro, me fazendo bufar e olhar o tempo do jogo, estava quase.
— Vamos Brasil, mais um para terminar bem. – Respirei fundo.
Cinco minutos de acréscimo.
— Vamos que dá tempo! – Respirei fundo.
Tivemos outras duas tentativas que foram para fora, uma do Miranda que passou raspando pela trave direita, indo para fora. E depois uma cobrança de falta brasileira, por uma falta feita em cima do Neymar e a bola foi tirada pelo suíço, me fazendo apertar os lábios fortemente.
Apito final.
— Droga! – falei, fechando a tela do computador com força, mas me arrependendo logo em seguida.

Bianca me mandou mensagem falando que Coutinho, Miranda e Marcelo iriam para a entrevista pós—jogo e abri o drive de Lucas, procurando pela foto de Alisson estourando o balão e enviei para o pessoal do Rio de Janeiro, pedindo que fizessem algo em cima daquilo. “Alisson pistola” ou “Canarinho decidiu jogar”, dei ideias, mas deixei nas mãos deles.
Os jogadores entraram todos meio tensos no vestiário novamente e foram se ajeitando nos seus lugares. Alguns já começaram a se hidratar, outros tiravam suas blusas e tentavam parar de suar um pouco. Olhei de esguio para Alisson, mas ele ainda estava morto, se entupindo de isotônico. Droga!
Tite entrou com a equipe técnica e logo outros membros da comunicação apareceram. Ele estava quieto, mas não parava de andar de um lado para o outro, até o paletó já tinha sido jogado no chão. Creio que ele estava esperando a volta dos últimos jogadores. E foi o que aconteceu, assim que Coutinho, Miranda, Marcelo e Bianca entraram no vestiário, a porta foi fechada e Tite se colocou no meio da sala novamente.
— Eu nem tenho o que falar depois dessa – ele falou, respirando fundo. – Não foi um dos nossos melhores jogos e, para ajudar, tivemos dois lances ao nosso favor que não foram contabilizados. – Ele respirou fundo. – Vocês estavam prontos, mas senti que vocês estavam um pouco agitados, fazendo chutes a esmo, não pensando direito antes de fazer. Faltou um pouco mais disso, mas os passes, a união... Controlamos mais de dois terços de jogo e senti que a equipe principal está pronta, vocês são meus titulares, gostei das substituições, tudo está muito bem, falta só alinhar algumas coisas. – Ele passou a mão na testa. – No demais, vocês foram bem! – Ele falou e aplaudimos, mas nos mantivemos quietos. – Amanhã eu vou dar a folga para vocês, vamos voltar para Sochi daqui a pouco, se quiserem encontrar seus familiares, vocês já vão poder ir. – Ele coçou a testa. – Só quero vocês de volta dia 19 cedo. – Ele falou e todos assentiram com a cabeça, não sabia se aquilo era para mim, mas descobriria depois.
— Você já quer aproveitar todo mundo aqui e fazer sua reunião, ? – Edu me perguntou, fazendo algumas pessoas me olhar. – Não sei se tem o que falar.
— Eu estava programando para fazer amanhã ou no voo, mas posso adiantar. – Ele assentiu.
— Talvez seja melhor. – Ele movimentou os dedos e sabia do que ele estava falando.
— Posso ficar a sós, então, só com os jogadores e o Tite, por favor? – perguntei e o pessoal avulso saiu da sala.
Parei por um momento para pegar os pontos importantes dos jogos, mas todo mundo já sabia quais eram. Respirei fundo e me levantei, apoiando as mãos na bancada.
— Bom, gente, como vocês sabem, eu sou responsável pela imagem de vocês, então, depois de todo jogo, eu vou juntar vocês e vamos falar os pontos de possíveis conflitos com a imprensa. Tudo bem? – perguntei e eles assentiram com a cabeça. – Perfeito. – Respirei fundo, coçando a testa. – Vamos começar falando do VAR, que não serviu para porra nenhuma. – Falei bufando. – E você disse que viria para ajudar, não é mesmo, Alisson? – Falei para o mesmo que abaixou o rosto. – Pois é, vemos que não. – Respirei fundo. – Com isso, já sabem que toda imprensa brasileira e talvez até internacional vai falar desse lance. Então, Miranda, Willian, Alisson, Neymar, podem esperar perguntas sobre isso, já que vocês que denunciaram o lance e o idiota não se deu ao trabalho de olhar para o telão. – Respirei fundo, vendo alguns sorrisos se formarem. – Jesus, seu lance também foi polêmico, o cara te agarrou, deveria ter sido pênalti na certa, isso também vai causar polêmica e um pouco de dor de cabeça.
Suspirei, dando outra rápida olhada na minha lista.
– Alisson... – chamei, fazendo positivo e andando em sua direção. – Você virou gif, você virou meme. Obrigada por estourar aquela bexiga. – Ele riu e todo mundo gritou por ele, me fazendo aplaudir e estender a mão para ele que bateu na mesma sorrindo. – Você representou a raiva de todos os brasileiros no final daquele jogo e você vai para o Twitter do Canarinho, fica de olho. – Ele riu, negando com a cabeça. – Sério, foi sensacional! Se orgulhe disso! – Falei rindo, andando em direção a outro jogador. – Coutinho, belo gol! Fantástico! – Estiquei a mão para o mesmo também e ele bateu. – Assim que deve ser. Vi várias outras tentativas que foram meio bruscas, mandando para fora ou isolando a bola, mas vamos ajeitando. – Ele sorriu, assentindo com a cabeça e eu voltei ao meu lugar.
— Obrigado! – ele falou baixo e eu sorri.
— Bom, gente, do jogo foi isso. – Respirei fundo. – Agora eu tenho uma coisa para falar para vocês que, na verdade, era para eu ter falado antes do jogo, mas eu quis manter a calma de vocês, mas amanhã vocês estarão de folga e eu preciso que a informação seja repassada. – Respirei fundo. – Suas famílias. – Falei e vários jogadores já franziram a testa. – É, vocês já sabem do que eu estou falando. – Cruzei os braços. – Vocês não fizeram um acordo com o Tite lá na Granja? Dos horários permitidos para seus familiares? As folgas? Eles próximos de vocês aqui na Rússia? – Perguntei e eles baixaram a cabeça. – Não foi combinado isso, galera?
— Foi – alguns falaram tímidos.
— Então, gente! – Abaixei o braço. – Vocês estão aqui a trabalho, eles estão aqui a trabalho, eu estou aqui a trabalho. – Respirei fundo. – Vamos nos manter aos combinados. Se não a gente vai ter que cortar e vocês, nem eles, vão gostar. – Respirei fundo. – Além disso, outra coisa que deu problema. – Virei para Jesus. – Gabriel, seus amigos ficaram naquele treino sexta—feira e postaram uma foto no stories ou no Instagram, não sei, mas divulgou a escalação inteira e o Tite nem tinha liberado ainda. – Respirei fundo. – Nos treinamentos, vamos tentar manter alguns momentos sem fotos, pode ser? – Ele assentiu com a cabeça.
— Eu percebi isso depois, me desculpe. Eu falo com eles. – Assenti com a cabeça, passando a mão nos cabelos.
— Obrigada! – falei. – E teve uma última coisa que todos vocês notaram: as esposas de vocês ligando faltando cinco minutos para a porra do jogo começar! – Fui mais firme. – Isso não pode acontecer, gente! Aqui é para ser um ambiente sem estresse. Com liberdade para vocês extravasarem, tirarem seu momento, fazerem seu ritual. Não dá para ter esposa ligando porque ônibus tá preso em trânsito. – Falei rindo sarcasticamente. – Elas queriam que vocês fizessem o quê? Saíssem para resgatá—las? – Cruzei os braços novamente. – Vamos combinar que vocês não vão usar esse celular depois que voltar do treino, ok?! Eu juro que eu vou começar a confiscar e só devolvo lá em Sochi. – Eles assentiram com a cabeça. – Esse aviso é sério, gente! Espero que vocês repassem a informação ou eu falarei com eles e eu não falarei com a mesma calma. – Respirei fundo. – Além de que podemos cortar esses privilégios a qualquer momento. Entendidos?
— Entendidos – eles responderam e eu assenti com a cabeça.
— É só isso por hoje – falei e Tite assentiu com a cabeça.
— Vamos nos preparar para o voo de volta – ele falou e eu afirmei com a cabeça.

Eu também acabei tendo folga naquela segunda—feira. Chegamos a Sochi de madrugada novamente e cada um foi para seu canto, já que subiram comigo no elevador. Todos estavam meio abatidos por causa do empate. Não era o jogo que esperávamos. Eu entrei no quarto, tomei meu banho, me livrando daquela blusa da CBF e dos sapatos amarelos e, logo depois, deitei na cama, fazendo questão de ficar no meio da mesma, capotando logo em seguida.
Eu notei no café da manhã do dia seguinte que os jogadores tinham saído em debandada. Eu encontrei três ou quatro jogadores e o pessoal da equipe técnica. Também não seria eu quem ficaria no hotel. Chamei Bianca e Angelica e falei que precisava arranjar uma manicure, já que minhas unhas estavam um desastre. Eu tinha conseguido fazer na rápida passada pela minha cidade, mas já fazia 20 dias, as cutículas já estavam grandes, o esmalte já tinha sido tirado na unha e eu precisava me sentir melhor novamente.
Elas adoraram a ideia, então saímos por Sochi procurando um salão de beleza com uma cara confiável e com pessoas que falassem inglês, apesar de que Angelica sabia falar russo. Lá eu descobri a manicure russa, o método de tirar as cutículas a seco. Estranho, mas bem interessante.
Aproveitei e fiz uma hidratação e escova em meu cabelo, fazendo com que as duas gostassem do resultado e também decidiram fazer. Saímos do salão no fim do dia já, ainda estava claro, obviamente, mas já passava das seis horas. Entramos as três no hotel, comentando sobre nossos cabelos e unhas renovadas e seguimos direto para a cobertura. Estávamos famintas, só tínhamos almoçado fast-food, mas já fazia algumas horas. Quem sabe conseguíamos pegar o fim do lanche ou o começo do jantar?
— Uau! Olha elas! – Douglas Costa falou assim que saímos do elevador e rimos juntas, balançando a cabeça. Olhei à sua volta e lá estava Alisson, Miranda e Danilo.
— O que acham? – perguntei, dando uma batidinha nos cabelos e eles sorriam.
— Vocês tão ótimas! – Alisson falou sorrindo em minha direção e eu mordi meu lábio inferior.
— Então, o que já estão fazendo aqui? – perguntei, me aproximando.
, vamos pegar um lanche, quer? – Angelica perguntou e eu assenti com a cabeça.
— Por favor! – falei.
— Do quê?
— Do que tiver! – falei exageradamente. – Se tiver só pão, pode ser só pão mesmo. – Eles riram.
— A gente decidiu voltar mais cedo, só isso. – Me sentei no sofá, ao lado de Alisson, apoiando os cotovelos nas coxas e o rosto nas mãos.
— Nos preparando para o segundo round – Danilo comentou e eu assenti com a cabeça.
— Não tá sendo fácil, não é?! – perguntei, me referindo ao empate.
— Era para ter sido melhor, muito melhor – Alisson falou colocando a mão atrás da cabeça e abaixando o rosto.
— Ei, ei, ei! – Deslizei no sofá, ficando próxima do mesmo, abaixando sua mão. – Não fiquem assim. – Falei, olhando para os outros. – Vocês foram ótimos, deve ter sido só o nervosismo da estreia. Relaxa! Sexta—feira vocês estarão perfeitos. – Sorri e notei que ainda segurava a mão de Alisson, reparei que Angelica voltava e peguei a deixa para soltar a mesma e me levantar em direção à minha superiora.
— Obrigada. – Sorri, me sentando novamente e mordendo o lanche. Parecia do McDonalds, pão, carne e queijo, com o release no meio, que os russos colocavam em tudo. – Está gostoso. – Comentei, ponderando com a cabeça.
— Não é um xis, mas... – Alisson comentou e eu ri.
— Pô, tu moras em Roma faz dois anos, lar de uma das melhores gastronomias do mundo, e está pensando num xis? – falei rindo.
— Conhece? – ele perguntou.
— Eu tenho padrinhos no sul. Eu comi um dia, sensacional, mas enorme! – Falei e ele riu comigo.
— Você disse um dia que foi para a Itália, não é?
— É, depois que eu estudei um mês em Londres, eu fiquei mais um mês passeando por alguns países da Europa. Na Itália eu fiquei quase 10 dias.
— O que conheceu lá? – ele perguntou.
— Ah, o básico. – Dei de ombros. – Roma, Florença, Milão, Veneza, Verona, Pisa, o Vaticano... – Ponderei com a cabeça. – Ah, e claro, Turim. – Sorri, fazendo um coração com a mão. – Não podia deixar de conhecer Turim.
— Aê! – Douglas comemorou e eu ri.
— Exatamente por isso que eu fui a Turim – falei. – Queria conhecer o estádio da Juventus e ver um jogo com o Buffon.
— Ah, mano, não acredito! – Alisson falou e eu bati na mão de Douglas, vendo—o sorrir. — Tu torces para Juventus?
— Todo mundo tem um lado ruim – Miranda brincou, talvez provocando e eu ri.
— Você é do Inter de Milão, né?! – falei para Miranda que deu de ombros. – Ah, gente, sinto muito, mas na Itália meu coração já tem dono. – Sorri.
— E ainda o Buffon, quem compete com Buffon? – Fingi que pensava um pouco.
— Ninguém, para falar a verdade. Mas agora ele saiu da Juve, só Deus sabe para aonde ele vai, agora preciso aguentar aquele Chsenzky, Ksenszy...
— Szczęsny... – Alisson falou.
— Isso! – falei rindo. – Ele é muito ruim! Pelo amor.
— Ei, ele saiu da Roma! – Alisson brincou e eu ri.
— Tá explicado!
— Oh! Essa doeu! – Danilo falou e eu ri.
— Não, brincadeira, Alissinho, me desculpe! – falei tentando conter a risada. – Mas eu não gosto dele, se você estivesse na Juve, eu ia gostar muito mais. – Sorri.
— A Juve não chegou à semifinal da UEFA – ele falou.
— A Juve pelo menos tem uma UEFA! – falei sorrindo e ele franziu os olhos. – Eu tinha dois anos quando ganhamos, mas ainda sim. – Sorri. – Além de que a última vez que a Roma ganhou campeonatos italianos fazem o quê? 10 anos? – Ri fracamente. – E se eu não estou enganada a Juve ganhou esse ano o Campeonato Italiano, a Copa Itália e em 2015 a SuperCopa da Itália. – Sorri para ele, vendo—o negar com a cabeça. – Confirma para mim, Douglas! – Falei e ele segurava a risada, mas confirmou com a cabeça.
— Mano, você sabe tudo! – ele comentou e eu sorri.
— Dá jeito nele, Douglas. Vê se o Allegri o aceita. – Alisson revirou os olhos e eu ri fraco.
— Não, obrigado. Estou muito bem na Roma. – Sorri, dando dois toques na perna de Alisson.
— Não se preocupe, Alissinho. Você pode não jogar na Juventus e não ser nenhum Buffon, ainda – Frisei. – Mas você tem tudo para ser. – Sorri, virando para ele. – Por mais que eu nunca torça para seu time, eu já vi suas defesas na Roma, na época do Inter, aqui nos treinos, você tem tudo para ir muito longe. – Vi suas bochechas se avermelharem. – E você é novo, a vida está te dando várias oportunidades, só não deixar nenhuma passar. – Ele sorriu, assentindo com a cabeça.
— Valeu. – Ele deu um pequeno sorriso e eu assenti com a cabeça.
— Estou aqui para isso, não só para dar broncas. – Sorri, mordendo meu lábio inferior. – Agora deixa eu voltar para o meu lanche, vai – falei e ele riu.
Continua…
Nota da autora
Oi, gente! Copa do Mundo chegando e que tal relembrar esse clássico da Copa de 2018? Para os antigos leitores, sejam bem-vindos novamente! Aos novos, que o espírito da Copa do Mundo te anime e te vicie em mais uma fanfic! <3 Beijos, beijos.
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