A viagem para Teresópolis era mais longa do que eu esperava, quando eu coloquei no GPS, havia descoberto que durava quase duas horas de onde eu morava. Eu acabei colocando tudo correndo no carro, me despedi de Bernardo com algumas lágrimas e brincadeiras dramáticas e peguei a estrada pouco depois das sete da manhã na segunda—feira.
No geral, a viagem foi bem entediante. Enchi meu
pendrive com as mais variadas músicas e cantava todas a plenos pulmões para que eu pudesse me distrair um pouco. Mas eu tive uma outra distração logo que cheguei em Teresópolis, o escudo da CBF visto ao topo do morro da Granja Comary, me fazendo entender a minha louca paixão por futebol.
Me aproximei do portão, olhando para o horário e vendo que era 10 para as nove, estava com o horário bem apertado. Puxei o freio de mão, abaixei o vidro e aguardei um dos seguranças se aproximar do meu carro.
— Olá, senhorita, no que posso te ajudar?
— Eu sou , trabalho para a comunicação da CBF. – Entreguei meu crachá para ele que assentiu com a cabeça.
— Lima, certo? – ele falou e eu confirmei com a cabeça. – Estávamos à sua espera. – Ele falou e eu sorri. – Você pode entrar, a sua equipe estará na dentro. Pendure esse crachá no seu carro, por favor. – Ele me devolveu um crachá para colocar no espelho e o meu.
— É... –chamei novamente. – Para que lado eu vou?
— Só seguir o caminho, terá um estacionamento no fim dele. Depois você pode seguir para o prédio um.
— Obrigada! – falei sorrindo e liguei o carro novamente, vendo os portões se abrirem e eu segui em direção ao escudo que ficava bem na entrada.
Segui pelas curvas que o caminho fazia, subindo até os prédios no topo, acreditando no segurança quando ele disse que eu acabaria caindo em um estacionamento. O local era muito bem arborizado, além de parecer um paraíso. Aquilo era um sonho! Cheguei ao estacionamento que o segurança da entrada havia dito e parei em uma vaga, conferindo se eu não estava parando em nenhum lugar privativo para algum peixe grande.
Saí do carro, sentindo o vento bagunçar meus cabelos e soltei um suspiro ao olhar para baixo e notar três campos de futebol, lado a lado, para treinamento. Dei uma volta rápida ao redor do meu próprio corpo, encontrando o “Prédio Um”. Era um prédio espelhado bem na frente do estacionamento, escondido um pouco na lateral.
Abri o porta—malas do carro e me sentei na quina do mesmo, tirando os tênis que eu havia usado para dirigir até aqui e peguei a caixa de sapatos que Bernardo havia me dado, tirando meu novo sonho de consumo dela, os sapatos amarelos. Calcei, vendo que meu
look havia melhorado completamente e abri rapidamente minha mala para espremer os tênis lá dentro.
Coloquei o crachá em meu pescoço e comecei a me arrumar. Pendurei a mochila com os eletrônicos nas costas, tirei minha mala de rodinhas do porta—malas e pendurei a bolsa em meu braço. Acho que era tudo. Fechei o carro, ativando o alarme e guardei a chave na bolsa.
Puxei a mala pelo caminho vazio e observei o prédio espelhado do outro lado da rua. A porta abria e fechava conforme as pessoas entravam e saíam da mesma e eu respirei fundo três vezes antes de atravessar a mesma. Passava das nove e eu já estava atrasada. Assim que a porta automática se abriu para mim, eu passei pela mesma, prendendo o ar rapidamente.
Eu não estava sozinha.
O local estava lotado. Lotado de jogadores da Seleção Brasileira se cumprimentando. Reconheci todas as figurinhas carimbadas da convocação, dos
briefings, das fotos e dos treinamentos para esse dia em especial. Mordi meu lábio inferior quando notei que todos os olhares se viraram para mim, afinal, olhando rápido, eu era a única mulher ali.
Quis dar uma olhada mais longa em todas os homens, principalmente as carinhas que eu já conhecia, mas eu achei que seria melhor não encarar. Senti um alívio passar pelo meu corpo quando Vinícius apareceu, passando por entre algumas pessoas e eu até soltei a respiração aliviada.
— Aí está você! – ele falou, me segurando pela mão.
— Eu estou em desespero! – cochichei para ele que riu.
— A primeira vez é assim mesmo – ele falou rindo. – Vem comigo! – Ele me puxou por entre as pessoas e eu passei colada de Neymar, Gabriel Jesus e companhia, tentando parecer calma, mas eu estava realmente surtando internamente.
— Oi, , como está? – Acenei para Theo que falava com Lucas que estava distraído tirando fotos.
— Tudo bem. – Olhei em volta rapidamente. – Eu acho. – Ele riu.
— Isso é completamente normal. – Ele abanou a mão. – Estamos reunidos aqui para a distribuição de quartos, daqui a pouco o pessoal já vai seguindo para seus lugares. – Assenti com a cabeça.
— Perfeito! – falei rindo.
— Pedi um quarto só para você, tá? – ele falou e eu confirmei. – Você é a única mulher aqui, achamos que não se sentiria confortável dividindo com alguém.
— Ah, obrigada! – Sorri. – Mas eu sou realmente a única mulher aqui? – Engoli em seco.
— Tirando as pessoas que trabalham aqui no CT, sim... – Arregalei os lábios.
— Ok.
— Se sentindo privilegiada?
— Me senti privilegiada quando consegui esse emprego, agora eu estou nas nuvens. – Os três riram.
— Olá, tudo bem? – Um homem apareceu ao nosso lado. — É a equipe de comunicação, não é?
— Sim! – Theo tomou as rédeas da situação.
— Vou levá—los ao quarto de vocês, vamos?
— Claro! – Lucas falou animado, pegando sua mala do chão.
— Me sigam, por favor! — O homem falou e o seguimos, enquanto passava pelos jogadores, aproveitei para dar uma rápida olhada para eles, abrindo um sorriso discreto.
A primeira coisa que eu havia percebido era o quão enorme era aquele lugar! Sério! A gente andava, andava e parecia não chegar aos lugares. Mas, com isso, eu consegui conhecer um pouco das acomodações, restaurante, sala de jogos, caminho para as piscinas, academia, centro de treinamento, lavanderia e muito mais! Se eu não estivesse lá a trabalho, poderia dizer que estava em um
resort, até cabeleireiro e manicure tinha ali, mas tenho certeza que não era para mim!
Um longo corredor denunciou os quartos da Granja e, quando eu digo quartos, quero dizer quartos de todas as pessoas hospedadas naquele lugar. No começo do corredor, tinha os quartos da comissão técnica, cada um sozinho e o nome indicado na porta. Em seguida, 10 quartos para os jogadores. Cada quarto tinha dois nomes na porta, totalizando 20 pessoas, foi aí que eu me lembrei de que Marcelo, Casemiro e Firmino só se juntariam à turma em Londres, depois de competir pela final da Champions League.
Observei a porta do quarto de Alisson e Cássio e olhei para a do lado, vendo meu nome solitário na mesma, com a minha ocupação embaixo. Achei engraçado como eu acabava atraindo os goleiros mesmo sem querer. À minha frente tinha o quarto de Lucas e Vinícius, e ao lado o de Theo e acabava o corredor.
— Bom, gente, se acomodem, desfaçam as malas, temos uma reunião com a equipe as 10 horas. Tem um
briefing em cima da cama de vocês com as informações do dia. – Theo falou. – Todo dia terá um
briefing para vocês na porta, olhem, analisem, vejam os horários dos jogadores e liguem os seus nos dele para que vocês possam cumprir suas ocupações, beleza?
— Beleza! – falamos quase juntos.
— Nos encontramos daqui a pouco, então – ele falou e eu fiquei em dúvidas por dois segundos sobre como abriria a porta, mas o cartão chave estava conectado na mesma. O puxei de volta e a porta se abriu em um clique.
Assim que eu a abri, tive certeza que estava em um hotel cinco estrelas. O quarto era sensacional! No meio da mesma, uma cama de casal com almofadas e travesseiros fofos tomavam a mesma e uma manta no pé da cama. Em cada lado da cama, uma pequena mesa de apoio, uma com um telefone e outra com algumas folhas, o
briefing do dia e informações sobre os horários de funcionamentos dos locais.
Atrás da cama, uma janela com uma vista incrível da Granja, melhor que de muito quarto de hotel que eu fiquei na vida, incluindo quando visitei Londres. Uma televisão estava colocada na parede em frente à cama e uma pequena escrivaninha com o espaço perfeito para eu deixar meus eletrônicos quando precisasse trabalhar em um lugar mais calmo. E, acima disso, um espaço aberto para eu acomodar minhas roupas com alguns cabides.
Do lado, uma porta que dava para um banheiro incrível também! Banheira, chuveiro, toalhas almofadadas e aquele cheiro delicioso de limpeza. Tudo isso em branco com detalhes nas cores do Brasil. Eu estava realmente nas nuvens!
Voltei para o quarto e peguei as regras da Granja para ler, lá tinha o horário de todas as refeições diárias. Café da manhã das sete as nove, almoço das 11 a uma da tarde, jantar das sete às nove. Das três as cinco tinha um pequeno lanche da tarde e depois das 11 a uma da madrugada tinha outro. Academia e piscinas ficavam abertas das seis da manhã até às 10 da noite, uso livre sempre, com exceção nos horários de treinamento. Lavanderia funcionava toda manhã. Camareira limpava o quarto e trocava as toalhas todos os dias depois das nove da manhã e trocava roupas de cama a cada dois dias.
Além disso, tinha algumas informações sobre lugares restritos, acesso somente com crachá, proibição de caminhar nas áreas externas após as 11 da noite, e sobre o contato com a imprensa, mas eu era a imprensa, sabia muito bem que não deveria falar com eles sem a minha permissão. E, no fim de tudo, um mapa, que me deixou muito feliz.
Passei a folha e achei o
briefing que Theo falou, era a programação diária e nesse dia estava bem vazia. Tínhamos uma reunião programada para as 10 da manhã com toda equipe técnica, jogadores e assessores e tinha uma longa duração. À tarde teriam as avaliações físicas de cada jogador e, no fim do dia, o jantar de recepção. Olhei o relógio rapidamente e vi que ainda tinha alguns minutos antes de ter que procurar a sala de reunião externa.
Coloquei a mochila em cima da cama e tirei o
iPad e o celular da mesma, imaginando que Lucas me acompanharia hoje e durante a avaliação, e depois me passaria as fotos. Peguei minha mala e ergui na cama também, abri a mesma e comecei a tirar os itens que eu usaria mais, higiene pessoal, maquiagem, pijama e trocas de roupas mais leves para usar quando eu estivesse fora do meu horário de trabalho.
Terminei de organizar todas as minhas coisas e me sentei na cama um pouco, tentando fazer com que a ficha caísse. Aquilo era fantástico, oportunidade única da vida e eu estava aqui! Ouvi uma batida na porta e abri a mesma, encontrando Lucas e Vinícius parados na mesma.
— Ei! – falei e eles sorriam.
— O que tá achando? – Lucas perguntou e eu suspirei.
— É um paraíso – falei rindo.
— Dá até tristeza quando voltamos para casa – Vinícius comentou e eu ri.
— Ah, nem quero pensar quando chegar à hora, vocês ainda vão à Rússia, eu vou ficar abandonada lá no Rio. – Eles riram.
— A gente te manda notícias – Lucas brincou e eu ri. – Vamos?
— Vamos sim. – Peguei o
iPad e o celular, colocando o meu e da CBF no bolso e puxei a porta.
Não era a primeira vez de Vinícius e Lucas ali, então eles sabiam para onde ir. Fomos em silêncio, o único barulho que ecoava eram meus saltos batendo contra o piso de granito branco.
Não era tão longe quanto a entrada do prédio principal, mas precisamos subir alguns andares e seguir por outros caminhos que eu ainda não conhecia. Lá era praticamente uma linha reta, acabava não tendo muito como errar. Percebi que chegamos quando vi algumas caras conhecidas entrando no mesmo lugar que nós.
Puxei e soltei o ar três vezes antes de entrar atrás de Lucas e Vinícius. Me vi em uma sala de coletiva de imprensa. Um pequeno palco no alto com algumas cadeiras e embaixo cerca de 20 fileiras com um corredor no meio. Engoli em seco quando notei os jogadores lá na frente e segui Lucas e Vinícius, nos sentando em uma das fileiras ao fundo.
As pessoas continuaram entrando e se acomodando nas cadeiras e eu aguardei. Aquilo parecia uma sala de escola, as conversas e risadas eram altas, fazendo com que eu percebesse que aquilo não passava de uma excursão escolar e eu era a aluna nova. Tite e a turma que eu conheci na coletiva, além de Theo, subiram no palco e o barulho cessou um pouco.
— Bom dia, bom dia! – Tite falou, oficializando o silêncio. – Bem—vindos a Teresópolis, hoje começamos nossos treinamentos para a Copa do Mundo. – Os jogadores começaram a aplaudir e eu e os meninos acompanhamos. – Aqui serão feitos todos os tipos de treinos e avaliações para que vocês nos ajudem a trazer o nosso hexacampeonato! – Os gritos continuaram, igualzinho na escola. – Bem, antes de eu passar para as informações técnicas, vamos esclarecer algumas coisas. – Ele coçou a cabeça. – Todos receberam as informações da Granja, horários de funcionamento, horários de trabalhos e tempo livre. Além disso, vocês receberão todo dia uma programação diária que deve ser cumprida, caso você não esteja na programação diária, você está livre para fazer o que quiser, menos sair daqui. – Ele falou, me fazendo rir fraco. – Sabe que sempre permitimos familiares, mas aqui é o trabalho de vocês, então, vamos manter a calma, beleza?
— Beleza! – eles concordaram quase em uníssono.
— Como vocês aqui, vai começar a divulgação da Seleção em si, fotos, vídeos, entrevistas, então o pessoal da comunicação, fotografia, todos ficarão bem perto de vocês, acompanhando tudo, então, dê atenção a eles, eles estão trabalhando aqui igual vocês. Alguns são figurinhas que vocês já estão acostumados, mas outros são... – Theo cochichou algo para Tite que interrompeu sua fala. – Ah sim! – Ele disse. – Bem, como eu ia dizendo, alguns já estão com a gente faz tempo, mas temos uma pessoa nova no nosso time que é alguém bem diferente do que vocês estão acostumados. – Senti meu rosto esquentar. – , pode vir aqui, rapidinho? – Arregalei os olhos e olhei para Lucas ao meu lado e ele fez sinal para que eu levantasse.
Me levantei e engoli em seco, mas podia ser aquela vontade de vomitar chegando à boca. Agarrei firme o
iPad em minha mão e caminhei pelo pequeno corredor até o palco, somente ouvindo os barulhos do salto batendo contra o piso. Eu sentia que estava sendo observada, principalmente pelos jogadores que se sentaram no corredor, e isso fazia com que meu corpo esquentasse. Subi o pequeno degrau que separava os dois níveis e me coloquei ao lado de Tite.
— Essa é a ! – ele falou e eu dei um pequeno sorriso. – Ela entrou para substituir o Marcos, vocês se lembram dele, certo? – Alguns assentiram, mas a maioria ficou quieta. – Ela é a nova social mídia da CBF, ou seja, o trabalho dela é ficar bem perto de vocês, pegando todos os acontecimentos, todas as referências e divulgando o andamento de vocês para a Copa, além de ajudar vocês em eventuais crises. – Abri um sorriso e alguns riram. – Ah, e a melhor parte, ela gosta de futebol, então, valorizem—na, ok?! E respeito sempre.
— Pode deixar! – Alguns falaram e eu abaixei o olhar, encontrando com o de Alisson que estava na primeira fileira e me senti uma tonta, desviando o olhar de uma pessoa bonita como se eu tivesse 15 anos novamente.
— Quer falar alguma coisa? – Tite perguntou e eu ponderei com a cabeça.
— Vamos só esclarecer que esse “ficar bem perto de vocês” que o Tite falou, é de um jeito respeitoso, tá? Dos dois lados! – brinquei e eles gargalharam. – Falando sério, meu trabalho é um tanto criativo demais, então, se vocês tiverem ideias, sugestões, quiserem mostrar algo de diferente, estarei por aqui acompanhando vocês. – Sorri para eles e para Tite que retribuiu.
— É isso aí! — Tite falou. – Obrigado, , bem—vinda à CBF de novo. – Ele falou e o pessoal começou a gritar enquanto eu voltava para o meu lugar e eu não consegui segurar a risada, meu rosto deveria estar muito vermelho de vergonha. – Vamos agora falar sobre treino... – Tite começou e Lucas ria da minha cara quando eu sentei ao meu lado.
— Você fez piada com a Seleção? – Ele cochichou rindo e eu dei de ombros.
— Acho que é o que eu faço de melhor. – Brinquei e ele riu.
— Muito bom!
A reunião acabou durando umas boas três horas, fazendo com que minha barriga começasse a roncar no final. Foi meio desnecessário que a equipe de comunicação ficasse na reunião, eles somente falaram sobre os treinos que seriam feitos em Teresópolis, toda a agenda programada para aquela semana e depois começaram as análises sobre a Croácia e a Áustria que seriam os dois países que enfrentaríamos nos amistosos que antecediam a Copa.
Eu tinha meus conhecimentos da época de jogos universitários e o básico da época da escola, mas fazia muito tempo que eu não tocava em uma bola para valer, com aquela garra e força de vontade, então, as palavras da equipe técnica não passavam de zunidos para mim. Além da distância da tela que parecia que tudo estava um pouco desfocado.
Apesar de sentarmos longe, a compensação veio no final da apresentação, fomos os primeiros a seguir para o refeitório e em ter o prazer de começar a fila do
self-service. De cara eu havia notado que o cardápio era claramente feito pensando nos jogadores. Tinha toda a sessão light com saladas, grãos e comidas integrais, mas depois seguia para pratos que todo brasileiro estava acostumado. O desse primeiro dia era feijoada. Tentei não ser a esfomeada no almoço de domingo em família e me conter na quantidade que eu tirava, mas aquilo está simplesmente sensacional, precisei repetir mais uma vez, mas os jogadores estavam se matando de comer com pratos dignos de pedreiro, então, ninguém estava me notando.
Depois do futebol, eu, ou melhor, os jogadores tiveram uma hora de descanso antes das avaliações físicas, então, eu aproveitei para também tirar uma hora de descanso. Ao invés de ficar trancafiada em meu quarto, eu acabei seguindo para a parte de fora, para aproveitar um pouco melhor da vista e ligar para minha mãe e para Bernardo para dar sinal de vida.
Fiquei o resto do meu almoço falando com ambos, minha mãe estava toda preocupada sobre minha ida sozinha para Teresópolis, pegar estrada e afins, além da curiosidade em querer saber se eu tinha conhecido alguém importante. Importante para ela eram os jogadores. O papo com Bernardo acabou seguindo o mesmo nível, mas não pude evitar de falar que alguns jogadores, não dando especificidade para ninguém, eram muito gatos pessoalmente.
Nessas duas conversas, o meu tempo de descanso até passou um pouco do planejado. Eu estava sozinha agora e teria que achar a academia. Não foi tão difícil, depois de me perder três vezes e ter que perguntar para um dos auxiliares de limpeza que estavam trabalhando por ali.
Quando cheguei à porta da academia, percebi que fazia parte do novo Centro de Excelência que eu estava lendo na semana passada. Uma academia superequipada, preparada para avaliar e treinar os jogadores. Um pequeno gasto de 17 milhões de reais. Nada demais! Entrei na mesma com medo do que encontraria, olhei rapidamente meu celular e notei que Lucas já havia me informado que estava lá.
Soltei um suspiro de alívio quando notei que todos os jogadores estavam devidamente vestidos enquanto puxavam ferros e torneavam mais aqueles músculos. Era quase uma visão pornográfica: 20 jogadores com as coxas mais saradas do mundo puxando ferro na minha frente de shortinho. Notei que estava com os sapatos errados ao entrar por ali, pois na parte acolchoada, meus pés afundavam e na parte de concreto, o barulho ecoava como o som de estalinhos.
— Ei, aí está você! – Senti Lucas me cutucar e virei para ele.
— Desculpa, me perdi – falei rindo e ele balançou com a cabeça.
— É uma boa você andar com aquele mapa que deixaram no quarto.
— Eu estava com você, achei que não teria problemas. – Ele riu.
— Vem! – ele me chamou. – Estou fotografando e Vinícius está filmando as avaliações físicas dos jogadores.
— Ah, então é isso que Vinícius faz? – perguntei. – Para que tanto mistério?
— Bem, quando ele não está na sua ocupação principal, ele filma as coisas para gente.
— E qual é a ocupação principal dele? – Lucas me ignorou e eu franzi os lábios.
O segui para um local mais reservado, passando pelos jogadores que treinavam e alguns acenaram para mim, me fazendo sorrir. Espero que a recepção de mais cedo tenha servido para me enturmar um pouco. Passei pela divisão e levei à mão a boca imediatamente, quase desmaiando de tanto que eu prendi a respiração.
Alisson estava sem camiseta, com eletrodos colados em seu peito cabeludo enquanto corria na esteira com Rodrigo e Fábio analisando seus movimentos e batimentos cardíacos. Ele estava bem de frente para mim, então tentei suavizar minha reação, mas não tinha como. Além de ele ser bonito, seu corpo era perfeito, e a calça estava baixa o suficiente para que eu visse os ossos de sua bacia bem demarcados.
Acho que esse trabalho seria mais difícil do que eu pensava.
— Então... – falei baixo para Lucas que tirava algumas fotos. – Qual está sendo a ordem de chamada? Número da camisa ou ordem alfabética? – Perguntei, tentando arranjar outra coisa para me distrair, o cronômetro estava em regressiva e faltavam oito minutos para aquela tortura acabar, isso se não tivessem outros testes.
— Posição, na verdade – Lucas me respondeu. – Goleiros, laterais, zagueiros, meias e atacantes. – Coloquei a mão no queixo, fazendo um bico e assenti com a cabeça.
— Beleza! Acho que podemos juntar tudo isso e mandar para o pessoal fazer postagens na CBF TV, vou falar com o pessoal da propaganda e pedir uma vinheta especial para a preparação da Copa, notei que o YouTube é atualizado bem esporadicamente, é a época perfeita para renovar isso. Muita gente não sabe do site da CBF TV.
— A ideia é boa! – Lucas comentou, com os olhos em sua câmera.
— Além de um
meme que surgiu na minha cabeça agora.
— Qual? – Ele perguntou e eu virei de costas para a cena para respondê—lo.
— “Como matar a social mídia de ataque cardíaco no primeiro dia”. – Dei um sorriso irônico e ele ergueu os olhos para Alisson novamente e logo ficou vermelho e começou a rir.
— Ainda bem que você não é um cara ou sua excitação já estaria à mostra.
— Ainda bem que meu sutiã tem bojo. – Falei, colocando a mão levemente em cima dos seios e ele começou a gargalhar alto, se virando de costas e passando o braço pelos meus ombros.
— Você se acostuma! Eu não babava pelos corpos sarados deles, apesar de invejar um pouco, mas eu sempre gostei muito de futebol, então eu parecia um fã louco, você está se comportando nessa parte.
— Já na outra... – Deixei a dúvida no ar ele riu, negando com a cabeça e nos viramos para apreciar a cena.
— Está tudo certo? – Alisson nos perguntou enquanto corria, provavelmente ao notar a gargalhada que demos e eu e Lucas nos entreolhamos segurando a risada novamente.
— Tá tudo ótimo! – falei, franzindo os lábios. – Só me pergunto se é uma boa ideia fazer essa avaliação depois de bater uma pratada de feijoada! – Dei um sorriso e Lucas voltou a gargalhar ao meu lado e Alisson abriu um sorriso, reduzindo sua velocidade de corrida.
— Te conto depois que isso acabar! – Sorri, balançando a cabeça, fazendo positivo com os dedos.
O resto do dia passou daquele jeito. Avaliações nos outros 19 jogadores. Cada posição tinha um tipo de avaliação diferente, mas todos tinham que especificamente fazer o teste na esteira, permitindo uma visão interessante por 10 minutos, tirar sangue e urinar em um copinho para o exame toxicológico.
Depois de finalizar com Taison, o último da lista, eu e os meninos ainda demos uma sondada rápida na academia. A maioria estava nos aparelhos de pernas e braços, me fazendo entender um pouco como as pernas deles ficavam daquele jeito.
— Você acha que foi uma boa ideia vir de salto para uma academia? – Thiago Silva me perguntou quando passei por ele.
— Posso te garantir que seria muito pior se eu fosse malhar, mas como estou a passeio, acho que está tudo bem. – Dei de ombros e ele riu. – Mas é, acho que meu All Star funcionaria melhor aqui. – Ele sorriu e eu voltei a andar pelo local.
— Bom, acho que já temos imagens o suficiente. – Vinícius voltou, fechando seu tripé.
— Ok, eu preciso dos cartões de memória, vou fazer algumas postagens e entrar em contato com a Michelle para saber para quem eu mando para fazerem a edição do vídeo. – Eles retiraram os cartões das máquinas e me entregaram.
— É o pessoal da propaganda, só não sei quem vai assessorar a gente do Rio. – Assenti com a cabeça.
— Bem, eu descubro. – Suspirei, parando para pensar. – Bem, vou falar com o Theo antes, não é?!
— Melhor – Lucas confirmou com a cabeça.
— Ok, eu vou para o quarto para fazer meu trabalho, nos vemos no jantar à noite?
— Que roupa vocês vão? – Vinícius perguntou e eu franzi a testa.
— Homens também perguntam isso? – retribuí e ele riu.
— Eles falaram que é algo melhor, mas não sei se chega a ser
black tie. – Ponderei com a cabeça.
— Espero que não, eu não trouxe um longo na minha mala. – Eles riram.
— Não, acho que é algo mais despojado, eu vou de jeans, blazer e sapatênis. – Lucas comentou e eu ponderei com a cabeça.
— Se vocês descobrirem alguma coisa, me avisem para eu caçar uma roupa melhor. Eu vou para o quarto.
— Pode deixar! – Lucas falou.
— Até mais! – Vinícius disse e eu dei meia volta, desviando dos jogadores e seguindo para fora da academia.
Voltei para o quarto com mais facilidade, eu havia reparado que tinham placas indicativas para os locais, então, tinha sido só falta de atenção minha mesmo. Quando entrei no corredor dos quartos, vi uma sombra ao fundo, pensei com quem eu teria que me enturmar, mas relaxei quando vi que era meu grupo favorito daquela Copa.
— Ei, é a social mídia! – Cássio falou e eu dei um pequeno sorriso, rindo em seguida.
— Oi, gente! – falei, me aproximando dos três goleiros.
— Até a social mídia é alta, gente. – Ederson brincou e nós rimos.
— Vamos dizer que com um pai com dois metros de altura, seria difícil eu sair baixinha.
— A feijoada bateu bem, viu?! – Alisson falou e eu levei a mão aos olhos, tentando minimizar minha risada.
— Não sei de quem foi a ideia de servir feijoada depois fazer avaliação física, mas acho que não foi uma das melhores. – Dei de ombros e ele riu.
— Eu ainda me dei mal por ser o primeiro...
— Desvantagens de ser o número um! – Ele sorriu.
— Vai ficar aqui na área com a gente? – Cássio perguntou e eu me afastei um pouco, apontando para a porta do meu quarto.
— Bem perto de vocês. – Eles sorriram.
— Eita que não vai desgrudar da gente – Ederson brincou.
— Vão se acostumando. – Peguei meu cartão chave do bolso, colocando no local. – Eu preciso trabalhar um pouco, nos vemos no jantar?
— Claro! – eles responderam e eu empurrei a porta do quarto, deixando que ela batesse sozinha.
Entrei no quarto e segui rapidamente para o computador, repassando rapidamente por algumas fotos da seleção e fazendo algumas postagens nas redes sociais. Selecionei as melhores fotos de cada jogador e também enviei para o e—mail da assessoria da CBF, a assessoria de cada jogador e, também, pelo
WhatsApp deles, antes de escrever um texto falando quem eu era. Me senti tão importante por um momento em ter o telefone pessoal dos jogadores e, mais importante ainda, quando eles responderam agradecendo ou fazendo a mesma piada do Cássio lá fora: “Olha! É a social mídia!”, acho que esse seria meu novo nome!
Eu acabei ligando para Michelle lá no Rio de Janeiro para pegar as informações sobre os vídeos, o que ela achava da minha ideia e dos meninos em ativar o canal da CBF novamente com esses vídeos. A ideia foi muito bem—vinda e ela pediu para Telma, a estrangeira, falar comigo, para que eu explicasse a ideia dos vídeos. Dois vídeos, descobri pelos cartões de memória que eles também tinham filmado a chegada dos jogadores antes de eu aparecer por ali.
Acabei terminando tudo quase sete horas da noite, Michelle havia falado que seis horas eu podia parar de me preocupar com isso, mesmo com trabalho pendente, mas eu tinha perdido bastante tempo por causa da reunião e, com o acompanhamento da avaliação, eu nem parei para olhar as redes sociais, além das minhas, que eu fazia questão de postar algumas coisas, afinal, era o meu trabalho e eu estava adorando tudo aquilo!
Saí correndo para tomar um banho e me arrumar, no cronograma falava que o jantar começaria às oito horas e eu não sabia o quão pontual eles eram, mas imaginei que muito. Não precisei lavar meu cabelo novamente, já que não tinha suado hoje, mas perdi alguns minutos no banheiro para fazer uma maquiagem decente. Normalmente era Bernardo que fazia minha maquiagem, mas eu precisei me virar sozinha.
Deixei os cabelos soltos, somente jogando a franja para trás e fui atrás do vestido que eu usaria no dia. Era um
vestido azul marinho simples , estilo
mullet, com a parte de trás mais comprida e os ombros caídos lateralmente. Na minha escolha, eu tentei me atentar ao básico, acho que os sapatos amarelos já chamariam atenção suficiente.
Quando vi que faltavam cinco minutos para as oito, eu saí do quarto, encontrando Lucas e Vinícius também saindo de seus quartos. Ambos sorriram quando me viram, tínhamos idades semelhantes, mas Lucas era casado e creio que Vinícius não me olhava de forma diferente da que eu olhava para eles. Éramos amigos, quase como se Bernardo estivesse aqui.
— Você está ótima! – Vinícius falou e eu sorri.
— Vocês também!
— Vamos? – Lucas me estendeu o braço e Vinícius também. Ri sozinha e dei o braço para ambos, andando em direção ao restaurante.
Estranhei ao não ver ninguém mais saindo dos quartos, suspeitei que eles já estivessem lá ou tivessem outro compromisso que não tinha sido informado no meu cronograma, mas assim que entramos no restaurante, notei que eles já estavam lá e comecei a me perguntar em quantos dias eu levaria para falar alguma besteira sobre esses jogadores.
Black tie talvez não era necessário para os ralés da comunicação, mas para os jogadores sim. Todos usavam aqueles ternos azuis escuros maravilhosos com o brasão da CBF no paletó, camisa e gravata longa da mesma cor e sapatênis nos pés. Olhei para eles arrumados e soltei um suspiro, percebendo que Vinícius olhava para mim.
— Gostando do que vê? – Dei um sorriso envergonhado.
— Façam suas apostas: em quanto tempo eu me demito ou sou demitida por indiscrição? – perguntei e ambos riram.
— Deixa disso! – Lucas brincou. – Não vejo problema nenhum em você achar eles bonitos, só não todos.
— Ah não, eu tenho minhas preferências. – Pisquei e eles riram.
— Altos e goleiros?
— Xí! – Coloquei o dedo sobre a boca e eles riram.
— Oi, gente! – Theo apareceu ao nosso lado e eu sorri.
— Oi, Theo! – falamos quase em uníssono.
— Se divertindo?
— Sempre! – respondi rindo.
— Você está ótima! – ele me falou e eu sorri, assentindo com a cabeça. — Vamos entrar! – Ele acenou com a cabeça e eu segui junto dos meninos para dentro do restaurante. – Fiquem à vontade.
— Obrigada! – falamos juntos.
— Vocês estão bem acompanhados, hein, garotos? – Virei o rosto, vendo Neymar passando com alguns jogadores.
— Não precisa ter inveja, tem para todo mundo. – Ele saiu rindo e eu me acomodei em uma das mesas com Lucas, Vinícius, Theo e alguns dos meias: Renato Augusto, Phillipe Coutinho, Paulinho e Willian.
O jantar foi composto de entrada, prato principal e sobremesa, como todo jantar chique deveria ser. Uma música calma tocava ao fundo e só era ouvido algumas conversas contidas pelo local. Na nossa mesa, eu acabei sendo o assunto.
— Eu tenho que dizer, é realmente interessante ter uma mulher aqui. Sempre só tem homens. – Paulinho falou e eu ri. – Onde você estava antes?
— Ironicamente, eu comecei a trabalhar na CBF na segunda passada. — Eles riram. – Eu nem esperava vir para cá, confesso.
— Vai para Rússia com a gente? – Willian perguntou.
— Não, não. – Neguei com a cabeça. – Isso não, mas vocês terão a companhia desses dois. – Bati nos ombros de Lucas e Vinícius. – Quem sabe em 2022 no Catar?
— Ah, mancada! – Renato falou e eu dei de ombros. – Voltaremos à testosterona.
— Não é por nada não, mas uma mulher para tudo isso de homens, não faz nem cócegas. – brinquei e eles riram.
— Mas eu entendo o que o Renato disse, é outra coisa ter uma mulher na equipe, não sei explicar, mas parece que tem mais controle... – Phillipe falou e eu assenti com a cabeça.
— Valeu. – Sorri.
— Você gosta de futebol, não é? – Willian emendou o papo.
— Adoro! Joguei na época da escola e depois representando a faculdade durante os quatro anos.
— Então, temos alguém que entende do assunto. – Renato riu.
— Um pouco, mas tirando algumas peladas esporádicas, faz muito tempo que não jogo profissionalmente. – Sorri.
— Qual sua posição? – perguntaram.
— Goleira. – Eles sorriram.
— Ei, ei! Quem falou em goleira aqui? – Ederson apareceu e eu ri. – Você? – Sorri, erguendo os ombros.
— Senta aí! – Lucas falou, puxando a cadeira.
— Conta mais! – Ele puxou uma cadeira e se sentou entre mim e Lucas. – Onde você jogava?
— Eu estudei em uma faculdade particular, então, tinha uma valorização maior no esporte e eu acabei conseguindo um desconto por jogar. – Ponderei com a cabeça. – Tipo filmes americanos? – Eles assentiram. – Era algo assim...
Acordei no dia seguinte com o despertador. O jantar no dia anterior até que tinha sido legal. Depois daquele papo com o pessoal da nossa mesa, outros jogadores acabaram se juntando à nossa mesa: Neymar, Gabriel Jesus, Douglas, Fred e Geromel. Os assuntos se tornaram mais diversos, mas as risadas ficavam cada vez mais altas e estridentes, chamando a atenção até dos dirigentes, fazendo com que eles parassem uns segundos perto de nós para saber o que estava acontecendo.
Eu realmente estava me divertindo, por um momento eu até esqueci que aquelas pessoas eram muito famosas, ganhavam milhões por ano e representariam nosso país atrás do hexa! Ali todos pareciam adolescentes em uma viagem escolar, e eu estava no meio como a aluna que foi transferida para a escola errada.
A diversão podia rolar a noite toda, mas meia—noite em ponto os jogadores foram expulsos para dormir, já que o treino começava cedo no próximo dia. Eu, Lucas e Vinícius nos entreolhamos e acabamos seguindo pelo mesmo caminho, afinal, eles eram a graça, nós só estávamos participando. Todos se despediram no corredor e as portas foram batidas.
Eu achei que demoraria para dormir, queria ficar olhando as fotos que eu havia tirado com alguns jogadores, ver o que eles haviam postado nas redes sociais, mas o dia havia sido cansativo e meus pés estavam em frangalhos.
Segui direto para o banheiro na manhã seguinte, tomei um banho rápido, aproveitando a deixa para lavar o cabelo e, enquanto me secava, segui para a porta do quarto, onde uma folha de papel havia sido deixada debaixo da porta com a programação do dia. Os treinos começariam, mas, pelo que estava escrito na programação, seria mais uma apresentação para a imprensa. Não sabia o que isso significava, mas pensei em sair com meu
notebook para adiantar algumas coisas da lista de afazeres que havia chego em meu e—mail, enquanto Lucas tirava as fotos.
Vesti minha calça jeans e blusa da Seleção e olhei para meu sapato amarelo. Pensei por um momento e tirei meu All Star da mala. Meus pés ainda estavam um pouco doloridos do dia anterior e eu desceria para o campo com eles, não era o melhor terreno para bater meus sapatos novos.
Passei um bom protetor solar naquele dia, estávamos no outono, mas o sol que entrou pela minha janela já queimou meu corpo, imaginei que não estivesse tão frio quanto o esperado. Fiz uma maquiagem leve no rosto, coloquei um boné na cabeça, juntei meu
notebook e o celular da empresa e saí do quarto.
— Bom dia. – Sorri com Danilo saindo do quarto com Miranda.
— Bom dia – respondi.
— Vai tomar café? – Miranda perguntou.
— Por favor. – Falei rindo e eles acenaram com a cabeça para seguirmos juntos.
Thiago Silva e Marquinhos se juntaram a nós no meio do caminho, fazendo que os cinco entrassem juntos no restaurante. Outros jogadores já estavam lá, a maioria com cara de sono, tomando café da manhã. Nos dissipamos e eu peguei uma mesa vazia em um dos cantos no local e deixei meus eletrônicos no mesmo.
Segui para a mesa de comida e fui seguindo o movimento das pessoas na minha frente, pegava a bandeja, colocava a toalha de papel, prato, xícara, copo e talheres e seguia para as comidas. Tinha todo tipo de opção que uma pessoa poderia querer, mas eu acabei caindo no básico, pão com presunto e queijo e um pouco de ovo mexido para acompanhar. Peguei um copo com café com leite e outro com iogurte.
— Bom dia! – Olhei para o lado, vendo Alisson se servindo também.
— Bom dia! – Abri um pequeno sorriso, pegando minha bandeja e me retirando da fila.
Apoiei minha bandeja na mesa e abri o
notebook, dando algumas garfadas no ovo enquanto ele ligava. Digitei rapidamente minha senha, vendo o computador abrir com o logo da CBF no mesmo. Dei um gole em meu café e estranhei quando vi Gabriel Jesus e Coutinho se sentando ao meu lado.
— Ei... – falei meio confusa.
— Esses lugares estão vagos? – Gabriel perguntou.
— Sim! – Falei rindo.
Bem, eu tinha que me enturmar e acho que eles estavam levando o recado de Tite ao pé da letra, o que me deixou bem feliz, era difícil depender só de Lucas e de Vinícius, afinal, não tinha nenhum sinal deles até agora.
Terminei de tomar café enquanto olhava a lista de afazeres que Michelle havia me mandado, nada fora do que eu estava acostumada, mas encontrei em meu
drive os dois vídeos que eu havia pedido para o pessoal da propaganda editar para mim e as senhas de acesso ao CBF TV e ao YouTube. Era hoje que eu ia fazer a internet pegar fogo! Só esperaria estar em um local com acesso constante à internet e programar os
uploads.
Depois do café, acabei seguindo com Neymar para o campo de treinamento. Ele acabou me perguntando um pouco sobre o que eu fazia e como eu havia chegado até ali. Contei rapidamente sobre o processo seletivo de três meses e minhas atuais ocupações que acabavam se misturando um pouco com publicidade e relações públicas, mas que eu gostava.
Ele se afastou junto com os jogadores e a equipe técnica e eu me coloquei do lado de fora da linha e abri um pequeno sorriso ao me lembrar dessa sensação de campo, quadra e futebol, sentindo uma nostalgia da época da faculdade. Puxei o celular do bolso e tirei uma foto rapidamente da equipe reunida e enviei para o grupo das antigas Focas de Laço Azul da minha universidade. “Um dia no campo, outro para fora da linha”, algumas ex—jogadoras responderam surtadas rapidamente, me dando uma vontade imensa de juntar essas meninas e voltar a jogar.
O alongamento começou e eu olhei para o lado, encontrando Lucas com sua câmera na mão, franzi os lábios, me sentindo uma tonta por não tê—lo procurado nos lugares mais óbvios antes e andei até ele, cutucando—o rapidamente.
— Ei! – ele falou sorrindo. – Você está aí.
— É! E você está aqui. – Cruzei os braços. – Caiu da cama, foi?
— O contrário, para falar a verdade. – Ele coçou a cabeça. – Perdi a hora, vim direto para cá.
— Tá explicado! – Apoiei meu
notebook no degrau mais baixo da arquibancada.
— E onde está Vinícius e Theo?
— Vinícius perdeu hora também, ele estava saindo do banho quando eu saí e Theo está lidando com os jornalistas. – Ele apontou a cabeça para o lado contrário de onde estávamos e notei meia dúzia de jornalistas e diversas câmeras apontadas para os jogadores. Separados por alguns metros, alguns torcedores.
— Bem, eu vou ficar por aqui resolvendo alguns pepinos, quando tiver algumas fotos interessantes, me avise.
— Entra no meu
drive, tudo que eu tiro fica lá! – ele falou. – Vou compartilhar a pasta contigo.
— Fechou!
Peguei meu
notebook e subi dois degraus, tentando pegar um cantinho de sombra da arquibancada e conferi se a internet pegava bem lá embaixo e fui fazer as postagens do dia, upar o vídeo de ontem, responder a assessoria de alguns jogadores, fazer
clippagem de tudo que os 23 jogadores tinham postado nas últimas 24 horas em todas as redes sociais. Isso, 23, inclusive Marcelo, Firmino e Casemiro que nem ali estavam, mas eles faziam parte da lista de convocados, então incluía no meu trabalho.
De vez em quando eu me distraía e olhava para o campo, mas eles só estavam fazendo treinamentos leves, passes, alongamentos, chutes a gol, aquela bobagem toda para encher linguiça para a imprensa e começar a coisa boa quando eles forem embora.
Me assustei quando olhei para frente novamente e vi uma coisa amarela grande no canto do campo, sacudindo as mãos para os lados. Era o mascote da Copa. O canarinho. O que ele estava fazendo ali? Graça para as crianças? Franzi a testa, cogitando me levantar, mas tive minha resposta quando ele se virou.
Meu Deus! O que fizeram com o mascote da Seleção? Ele estava com cara de bravo, de mau... Isso era muito estranho! Ele acenou para mim e eu retribuí, fazendo a mesma cara sisuda para ele que colocou as mãos na cintura, provavelmente se fingindo de bravo para valer.
— Por que você está bravo? – Perguntei um pouco mais alto para o canarinho.
Ele não respondeu, só ergueu as mãos como quem diz “eu sou assim” e eu ponderei com a cabeça. Pensando que poderia usar isso para alguma coisa. O encarei por mais alguns minutos, permitindo que ele me encarasse por mais uns minutos, mas logo ele se distraiu, indo brincar com os jogadores.
Voltei para o
notebook e procurei possíveis significados para “bravo”: enfezado, irritadiço, aborrecido, revolto, tempestuoso, severo... Não, nenhum dava aquele
tcham especial. Ele parecia puto! Bom, depois de levar sete na última Copa dentro de casa, até eu fiquei puta.
Acho que minha avó tinha uma expressão engraçada para quando alguém ficava muito bravo em casa. “Nossa! Essa menina está muito...”, o que era mesmo? Peguei meu celular e mandei uma mensagem para minha irmã mais velha, perguntando se ela se lembrava ou se poderia perguntar lá em casa. Ela respondeu quase imediatamente dizendo que não se lembrava, mas que iria perguntar e logo me respondia.
O canarinho sumiu algum tempo depois e a seleção começou a se preparar para almoçar. Olhei em meu relógio e vi que já era hora mesmo. Chamei Lucas e seguimos junto com os jogadores e equipe técnica, enquanto eles falavam sobre o treino do dia e como a imprensa presente deixava tudo mais lento.
Entramos no restaurante e os jogadores atacaram legal o
buffet, me fazendo olhar surpresa, até que eu lembrei que estava lidando com homens gastando energia e voltei a lembrar da época da faculdade, eu era igual. Abri a boca, notando o canarinho sentado em uma das mesas, sem a sua cabeça, enquanto comia. Era minha oportunidade de falar da ideia que eu tive!
— Ei, você! – Me aproximei, vendo—o se virar e se levantar e, quando ele fez isso, eu comecei a gargalhar loucamente no meio do restaurante, chamando muita atenção. — Você?! – Falei, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. – Meu Deus! Isso não podia ser melhor! – Me apoiei nos meus joelhos, não conseguindo parar de gargalhar. – Ah, espera um minuto! – Coloquei a mão no peito, olhando para cima para ver se as lágrimas cessavam e respirei fundo, seguindo a rir.
— Oi, ! – Vinícius falou e eu apoiei minha mão em seu ombro, vendo algumas pessoas em volta gargalharem da minha risada.
— Isso é melhor que a encomenda! – Coloquei a mão na boca, tentando respirar fundo. – Meu Deus!
— Ok, ok! Chega! – Ele falou, abanando as mãos e eu ergui um dedo.
— Espera um minuto! – Coloquei a mão na barriga, puxando e soltando o ar diversas vezes, tentando normalizar a respiração. – Ah, eu não consigo! – Apertei as mãos nos olhos, sentindo—os molhados e tentei me concentrar, puxando a respiração e soltando em seguida, mordendo os lábios para que a risada não saísse.
— Alguém dá água para essa menina! – Ouvi Tite falar, enquanto ria também.
— Ah, eu estou bem! – Abanei as mãos e olhei para Vinícius. – Eu só não consigo parar de rir. – Continuei puxando e soltando o ar, até que a risada foi se normalizando aos poucos.
— Tudo bem? – Tite perguntou e eu mordi os lábios novamente.
— Tá tudo ótimo! – Sorri para Vinícius.
— Ah, meu Deus! Não me olha assim! – ele falou, se sentando novamente e eu soltei a respiração.
— Eu nunca mais vou te ver de outra forma, mas falando sério, precisamos conversar. – Falei, dando a volta na mesa. – Alisson, pode pular uma cadeira para o lado, por favor, para eu falar com... – Cocei a nuca, segurando a risada, e notei que Alisson e Ederson voltaram a rir, abaixando a cabeça e escondendo a boca com as mãos. – Isso!
— Claro! – Alisson falou, mais vermelho que o normal, e pulou uma cadeira para o lado, puxando sua bandeja junto.
— Eu pensei que você sofreria
bullying aqui, não eu.
— Quem mandou não me contarem que você é o mascote? – Falei, olhando a divisão da roupa da fantasia em seu pescoço. – Eu teria me acostumado antes e não teria feito esse show. – Ele revirou os olhos e falou.
— Vamos dizer que não tem nada errado em ser o mascote, ok?! Eu ganho muito mais do que sendo garçom ou qualquer coisa, além de que eu faço as gravações...
— Ei, ei, eu não estou minimizando seu trabalho. – Me afastei dele, erguendo as mãos. – Eu só achei engraçado e é! Você é perfeito para o mascote, você é divertido, interage com qualquer um, então, pode parar! – Falei, respirando fundo. – Mas eu tive uma ideia para usar o mascote como item de divulgação.
— Já adiantando, os mascotes estão proibidos pela FIFA de participarem dos jogos.
— Ok! – Ponderei por dois segundos. – Mas os torcedores não estão só nos jogos, certo? – Cruzei os braços em cima da mesa, me inclinando para frente.
— Qual sua ideia? – ele perguntou.
— Para começar, a pessoa que fez o canarinho parecer bravo depois do sete a um foi um gênio! – Falei sorrindo. – Parece que estamos indo em busca de vingança. – Movimentei a cabeça para os lados. – E posso dizer que, entre meu grupo de amigos, estamos. – Dei um pequeno sorriso. – A gente pode usar essa raiva, esse rancor, como produto de divulgação. É perfeito!
— Será que o povo libera? – Ele perguntou.
— Preciso falar com Theo e Michelle ainda, mas eu preciso saber antes se você topa, porque vai ter que vir de você também, você é o canarinho, você que vai dar a cara a tapa.
— Acho que vai ser legal! – Ele sorriu e eu senti meu celular vibrar, o puxei do bolso de trás da calça, me levantando e abri a mensagem de minha irmã.
“
Mamãe disse que a vó usava a expressão ‘pistola’ para bravo. Tem relação com um tal de Ariri Pistola, vai saber”. – Arregalei os olhos, olhando para Vinícius e saí da mesa, tropeçando rapidamente na cadeira e peguei a cabeça do canarinho no chão, encarando—a.
— Mano! Isso é perfeito! – Falei rindo e devolvi a cabeça no chão.
— O quê? – Vinícius levantou atrás de mim e notei que já tinha chamado a atenção do restaurante inteiro de novo.
— O que acha de rebatizar o mascote como “Canarinho Pistola”? – Mordi meu lábio inferior com animação
— “Pistola”? – Vinícius repetiu.
— É! – Abri um largo sorriso e ele retribuiu.
— Gostei! – Ele falou e eu segurei seu rosto e estalei um beijo em sua testa.
— Eu vou falar agora com a Michelle, provavelmente vamos ter que criar um
Twitter só para isso, mas vai ficar sob minha responsabilidade. Também ter ideias para vários
memes ‘rancorosos’, pegar algumas fotos de divulgação com o Lucas... – falei rápido, pegando meus itens na mesa novamente. – A gente se fala mais tarde. – O empurrei levemente, começando a me afastar.
— Mas, , o almoço! – ele falou alto e eu roubei uma batata frita de seu prato, colocando na boca.
— Isso é mais importante! – falei, saindo correndo do restaurante.
A quarta—feira começou mais turbulenta no dia seguinte. Eu havia jogado a ideia do Canarinho Pistola nos ombros de Michelle e ela tinha simplesmente amado a ideia, mas falou que conversaria com a equipe da publicidade para fazer uma pesquisa da reação que isso daria para os torcedores brasileiros. Com isso, ela tinha pedido para eu elaborar algumas artes ou textos que eu imaginaria para essas postagens.
Eu acabei nem saindo do meu quarto naquela manhã, tinha trazido alguns lanches para meu quarto depois de não almoçar e ter que atacar o lanche na parte da tarde. Sucos e achocolatados de caixinha, além de alguns pães de queijo murchos e bolachinhas caseiras. Aquilo foi meu café da manhã naquele dia.
Além de pegar as fotos de divulgação do Canarinho com o Lucas, eu acabei entrando em vários
Tumblr de futebol para ver o que as pessoas estavam falando da Seleção Brasileira ou de outros times, descobrindo o que estava na boca do povo, além de fazer uma bela pesquisa em busca de vídeos,
gifs, imagens e comentários no
Twitter sobre futebol. Depois dei uma zapeada em canais de TV para pesquisar sobre as vinhetas que estavam saindo sobre a Copa, estávamos a pouco mais de 15 dias da Copa, as propagandas já estavam saindo, poderia usar para pensar em alguma sátira também. Acabei replicando algumas coisas já existentes, mas fiz questão de dar os devidos créditos. Caso o projeto fosse para frente, precisaria elaborar um protocolo para pedir liberação de uso para as pessoas.
Poucos minutos depois de eu mandar as amostras para Michelle, ela perguntou se eu podia me conectar ao
Skype. Saí desesperada da cama e me sentei na escrivaninha, me ajeitando para atender sua ligação.
— Oi, ! – Michelle falou e eu acenei para a tela.
— Oi, Michelle, tudo bem?
— Tudo certo! E aí na Granja? Aproveitando bastante?
— É realmente sensacional. – Sorri. – É tudo o que você disse e mais um pouco.
— E os jogadores? Interagindo contigo ou se fecharam no grupinho masculino deles?
— Eles estão sendo ótimos, para falar a verdade. – Sorri. – Triste que já é quarta—feira. – Ela sorriu.
— O tempo passa muito rápido quando a gente faz o que gosta. – Assenti com a cabeça. – Mas que bom que o pessoal está sendo legal contigo. – Ela sorriu. – Então, eu falei aqui com o pessoal da propaganda, a gente viu suas amostras e a ideia é simplesmente sensacional. O mascote sempre foi um pouco apagado e a imprensa já tinha dado algumas declarações sobre ele parecer bravo, mas nunca pensamos em como tornar isso bom, mas você sim.
— Acho que a ideia de um mascote bravo representa a situação do torcedor brasileiro depois da Copa de 2014. Eles estão bravos, eles estão putos, eles estão indo em busca de vingança. Brasil pode encontrar a Alemanha logo nas oitavas e os brasileiros estão com sangue nos olhos. – Suspirei. – Estamos indo atrás de vingança.
— Você acha? – ela perguntou e eu dei de ombros.
— Não compartilhei da minha opinião com os jogadores ainda, mas eu sei que eu estou. E acho que precisamos disso depois da última Copa. – Ela assentiu com a cabeça.
— Mesmo depois das Olimpíadas que, inclusive, a final foi contra a Alemanha?
— Acho que algumas pessoas não consideram aquilo uma revanche. Não era o mesmo elenco, a decisão foi nos pênaltis, acho que vingança mesmo seria exatamente na mesma situação, mas não temos, então que seja em outra Copa do Mundo. – Ela assentiu com a cabeça. – Além de que é diferente uma Olimpíada, onde o futebol é só um entre várias modalidades, e uma Copa do Mundo onde só importa o futebol.
— Muito bom! – Ela falou rindo. – Bem, você tem o sinal verde, só temos que conversar depois para decidir sobre as postagens quando eles estiverem na Rússia.
— Cogitei deixar o Vinícius mesmo lidar um pouco com isso. Acho que me passar as informações do que aconteceu diariamente ou dos acontecimentos mais relevantes, não vai tomar o tempo dele. – Ela assentiu com a cabeça.
— Beleza! Eu vou falar com ele, antes de batermos o martelo. – Ela suspirou. – Eu vou te passar agora para falar com o Lopes, ele vai te ajudar nesse projeto, pode ser?
— Claro!
— A gente se fala depois, bom trabalho. – Ela disse e eu assenti com a cabeça, vendo—a sair da cadeira e dar espaço para Lopes na tela.
— Oi, , como está aí?
— Tudo certo! – Sorri. – Já estão sentindo minha falta?
— Seu trabalho está certinho, finalizando, você pode até morar aí na Granja. – Rimos juntos.
— Confesso que não ia me importar.
— Bons tempos, não? Deve ter mudado muito desde a última vez que eu fui. – Sorri. – Bom, vamos ao que interessa. Sua ideia de usar o Canarinho como divulgação é fantástica, é a cara do brasileiro, cheio de
memes e tiradas, além da ideia de realmente assumir que ele é um mascote bravo, pronto para a briga...
A reunião demorou mais que o planejado, quando finalizei a ligação, precisei sair correndo para o banheiro, estava muito apertada. Quando olhei para o relógio, vi que já passava das três da tarde e eu ainda não tinha colocado a cara no sol. Acho que eu merecia um descanso! Coloquei meus tênis do dia anterior, pendurei o crachá em meu pescoço e saí em direção ao restaurante, os pães de queijo e bolachinhas tinham sido o suficiente para meu café da manhã, mas não para me manter em pé o dia inteiro.
Olhei rapidamente as opções e peguei um lanche de mortadela bem quentinho que tinha ali, devorando—o com rapidez e, antes de sair do restaurante, peguei um saquinho de pipoca que tinha sido recém—colocado na mesa.
Fui para a área externa, enquanto devorava a pipoca, pensando em formas de passar um pouco o tempo. Ir para a academia não era uma opção e eu realmente não estava a fim de ir à piscina com vários homens naquele local. Olhei para os campos e vi que os três estavam vazios, me fazendo ter uma ideia. Segui o caminho até os mesmos e beirei o mesmo enquanto terminava de comer a pipoca.
Amassei o saco vazio e coloquei em meu bolso, andando até o carrinho de bolas e olhei em volta, para ver se a área estava limpa mesmo e joguei duas bolas no chão, segurando a terceira em minhas mãos, apertando—a levemente e levando—a até o nariz, sentindo o cheiro de grama na mesma.
Joguei—a no chão, chutando a mesma, fazendo com que ela erguesse e eu fizesse algumas embaixadinhas com a mesma, revezando as pernas enquanto a bola subia em velocidade constante. Ergui a bola mais uma vez, girando o corpo e batendo o pé fortemente na mesma, vendo—a seguir alta até mexer a rede do gol. Sorri sozinha, observando a bola sair do mesmo sem a mesma velocidade e suspirei.
Estralei os braços e o pescoço e coloquei os pés na lateral de outra bola e respirei fundo três vezes antes de pular e jogar os pés para trás, fazendo a bola subir e cabeceá—la algumas vezes para cima, antes de jogá—la para frente e chutá—la forte novamente até o gol. Ah, como eu sentia falta daquilo.
— Muito bom! Demais! – Virei assustada para o lado, ouvindo algumas palmas abafadas em seguida. – Mas o que você faz com uma defesa? – Alisson perguntou, com aquele sotaque cantado, se aproximando de mim e eu senti meu rosto queimar.
— Você viu isso? – Perguntei, colocando as mãos no bolso da calça.
— Nós vimos. – Ele apontou para trás e vi Cássio, Ederson e Taffarel, que era da equipe de treino, um pouco mais afastados.
— Ah! Que ótimo! – Senti meu rosto queimar, rindo sozinha.
— E aí, quer tentar? – Ele abriu um largo sorriso, que fazia seus olhos verdes se fecharem um pouco e eu suspirei.
— Vamos dizer que ser atacante não é a minha posição – brinquei, dando de ombros.
— E qual é? – Ele parou em minha frente, cruzando os braços.
— A mesma que a sua. – Sorri.
— Você é goleira? – Ele falou visivelmente surpreso.
— Eu fui goleira! – corrigi. – Faz muito tempo que eu não jogo. – Suspirei.
— Isso é demais! – Ele deu um sorriso sincero.
— Pensei que as informações já tivessem sido vazadas, comentei isso com Ederson no jantar segunda—feira. – Alisson olhou rapidamente para trás.
— Acho que ele se esqueceu de passar a informação. – Assenti com a cabeça. – Aonde você jogava? Algum time profissional?
— Só na faculdade mesmo. – Sorri. – Campeonatos universitários, jogos de comunicação e por aí vai. Mas eu era boa. – Suspirei.
— Isso é muito legal, sério!
— Nós éramos as Focas de Laço Azul.
— “Laço Azul?” – Ele me perguntou, franzindo a testa.
— É uma longa história. – Falei rindo. – As cores da comunicação eram azuis, aí tinha uma piada besteirenta com focas, como toda universidade tem. Depois a gente começou a usar uma faixa azul amarrada no braço em apoio a uma causa e por aí vai... – Balancei a cabeça. – Acabou pegando. – Ri sozinha.
— Parece que você sente falta de jogar... – Ele falou, deixando no ar.
– Confesso que estou tendo muitas lembranças dessa época e sentindo falta dos treinos. – Suspirei, cruzando os braços em cima do peito. – Às vezes parecia que eu estava lá mais para jogar do que me formar jornalista. – Ele tirou as luvas, me estendendo—as.
— Por que você não relembra os velhos tempos e eu faço uns chutes em você? – Segurei suas luvas pretas, vendo suas iniciais e número cravadas na mesma, “AB1”, e suspirei.
— Sabe há quanto tempo que eu não uso uma dessas? – Soltei uma risada fraca, sentindo meus olhos marejados e mordi meu lábio inferior.
— Provavelmente o mesmo tempo em que eu não vejo uma mulher bonita como goleira. – Ergui os olhos para ele, tentando analisar se ele realmente tinha dito isso na minha cara, mas ele só me encarava de volta, com um pequeno sorriso escondido em sua barba.
— A Seleção Brasileira também tem um cara muito gato como goleiro e eu não vejo ninguém reclamando. – Dei de ombros, mordendo meu lábio inferior e ele riu fraco, abaixando a cabeça envergonhado. – Bom, acho melhor eu não pagar mico na frente de quatro grandes goleiros. – Estendi as luvas de volta. – Ou deslocar algum osso por falta de treino ou alongamento. – Ele pegou as luvas, tocando levemente na ponta dos meus dedos.
— Elas estarão disponíveis para quando você precisar – ele falou e eu assenti com a cabeça, sorrindo.
— Obrigada! – Suspirei. – Mas acho que eu vou precisar arranjar algumas do meu tamanho quando a hora chegar. – Me aproximei dele, dando uma leve batidinha em seu ombro. – Vou deixar vocês treinarem. – Falei, seguindo para fora do campo, passando pelos outros três goleiros que nos esperavam.
Olhei para trás rapidamente, vendo Alisson ainda me acompanhando com o olhar e eu mordi meu lábio inferior novamente, voltando a subir o morro para voltar para os prédios da Granja, ainda sem entender o que exatamente tinha acontecido ali, mas adorando cada momento.
Na quinta—feira tivemos uma mudança de ares lá na Granja, a imprensa estava presente novamente nos treinos, então Theo acabou pedindo minha ajuda para auxiliá—lo. Eram muitos jogadores, muitos jornalistas e pelo menos todos os titulares dariam alguma declaração. Tudo isso acabou acontecendo no campo mesmo. Enquanto os jogadores treinavam, Theo e eu chamávamos quatro jogadores por vez para levá—los até os jornalistas.
Eu tentei me manter calma, depois do pequeno clima que aconteceu no dia anterior, mas eu sentia que estava sendo observada a todo o momento pelos goleiros. Podia ser minha impressão, mas eles estavam treinando próximo da imprensa e eu sabia que ficava muito bem de calça
skinny e aqueles sapatos amarelos para ser encarada.
Quando chegou a hora de levar o Alisson para a entrevista, eu agarrei em Jesus como se minha vida dependesse disso, literalmente. Ok! Podia ter sido um elogio inofensivo, mas ele era muito gato para eu ver como um elogio inofensivo. Afinal, eu nem tinha com o que me preocupar, minha felicidade acabaria em três dias e eu provavelmente só o veria novamente nas preparações da Copa América no ano que vem, que seria aqui no Brasil, ou em algum em algum amistoso aleatório pós Copa do Mundo. Isso se eu fosse convidada também, tinham muitos profissionais que poderiam me repor.
Depois que a imprensa se dissipou, eu saí rapidamente dali, estava usando salto no gramado, então, estava me equilibrando com a ponta dos pés por três horas, estava doendo demais! Fui almoçar acompanhada de Vinícius e Lucas, ainda estávamos falando sobre a ideia do Canarinho Pistola, então precisava alinhar tudo com Vinícius para quando eles fossem para a Rússia.
Na parte da tarde eu me isolei no quarto novamente, tinha novas postagens para fazer, vídeos para
upar e ainda queria adiantar o relatório que eu teria que mandar na sexta—feira à tarde. Amanhã tinha treino aberto para os torcedores e eu sabia que seria uma loucura. Lá pelas cinco da tarde e eu consegui finalizar as coisas pendentes. Vendo rapidamente alguns vídeos na CBF TV, eu acabei capotando na cama.
Acordei em um pulo algum tempo depois e olhei em meu relógio, vendo que passava das oito da noite. Saí correndo para o banheiro, largando a roupa na pia do banheiro e tomei um banho correndo! O jantar acabava as nove e eu não estava a fim de esperar pelo lanche da noite para comer alguma coisa. Larguei as formalidades e coloquei shorts, regata e chinelos e segui em direção ao restaurante.
Estranhei quando entrei no mesmo, eram quase nove horas, mas o restaurante não costumava ficar tão vazio, os jogadores acabavam conversando e saindo tarde dali. Mas dessa vez não, o local estava vazio. Tite conversava com alguns membros da equipe técnica enquanto comiam, Filipe Luís, Danilo, Fagner, Geromel, Marquinhos, Fred e Taison ocupavam outra mesma e era só. Nem sinal da turma do barulho e muito menos de Lucas e Vinícius.
Me aproximei do
buffet e me animei com alguns caldos que tinha ali e peguei duas cumbucas com sabores diferentes e algumas torradinhas. Me sentei junto aos jogadores e acabamos conversando um pouco sobre a movimentação da imprensa e toda a confusão de mais cedo para todos os jornalistas falarem com todos os jogadores principais.
Eles acabaram me deixando sozinha no fim da refeição, dava para ver o cansaço na cara deles. Eu teria que arranjar alguma cosia no Netflix para ver, tinha descansado bastante nessa soneca mais cedo, então demoraria a dormir.
— Deixa eu te fazer companhia um pouco – Tite falou, se sentando em minha frente e eu sorri.
— Obrigada! – falei, colocando mais uma torrada na boa.
— Parece que os meninos estão gostando de te ter por perto. – Assenti com a cabeça.
— Pois é, está sendo melhor do que eu imaginava. – Ele riu.
— É uma pena que não vá para a Rússia com a gente, aposto que poderia me ajudar a puxar algumas orelhas, se for necessário. – Soltei uma risada gostosa, balançando a cabeça.
— Eu sou nova na equipe, Tite, não dá para eles mandarem alguém tão novo assim para uma Copa do Mundo. – Ele ponderou com a cabeça.
— Talvez não, mas eu estou vendo você com os jogadores e eles parecem bem à vontade perto de ti. – Sorri.
— Bem, eu sou a única mulher aqui, eles me veem como um deles, creio eu. – Ele ponderou e eu limpei a boca, apoiando o guardanapo na lateral da mesa. – Falando nisso, o que aconteceu com eles? – Perguntei, franzindo a testa. – Todos perderam o jantar ou todos vieram cedo demais?
— Eles estão farreando, para falar a verdade. – Ele riu e eu movimentei a cabeça em concordância. – Por que você não vai lá?
— “Lá”, onde? – Franzi o cenho.
— Na piscina, tentando relaxar depois da imprensa hoje. – Ri irônica.
— Até parece que não estão acostumados. – Ele riu comigo. – Quero ver amanhã!
— Nossa! – Ele fez uma careta. – Até eu acho que vou dormir mais cedo para aguentar o tranco de amanhã.
— Acho que vocês realmente estão precisando de uma mulher para dar a cara à tapa nesses momentos! – Ele sorriu.
— Seria bom! – Ele sorriu. – Quem sabe na Copa América? – Ele brincou.
— Espero que nós dois ainda estejamos aqui. – Ele assentiu.
— Tomara! – Ele falou e eu sorri. – Boa noite.
— Boa noite! – Sorri.
Vi Tite sair do restaurante e me levantei em seguida, deixando os materiais usados para os funcionários e saí do mesmo. Ponderei por alguns segundos se deveria ir atrás dos jogadores na piscina, mas minha decisão foi favorável no momento em que eu recebi uma mensagem de áudio do Vinícius.
“Onde você está? Vem aqui na piscina coberta agora, você tá perdendo uma festa!” – No fundo tinha um barulho de pagode e me perguntei se eles realmente estariam fazendo uma festa na área das piscinas.
Segui em direção à piscina coberta e me perguntei quem tinha liberado isso! A piscina coberta era para reabilitação, fisioterapia e alguns treinos de força e exaustão. Bem, eu não apitava nada, então não seria eu a chata para acabar com a diversão. Tite sabia, era o que importava. Ouvi alguns batuques antes mesmo de eu entrar no centro aquático. O som ecoava, fazendo com que parecesse que uma escola de samba tocava lá dentro.
Coloquei a cabeça para dentro, um tanto quanto envergonhada e com medo da visão que eu encontraria ali, mas estava seguro. Os 13 jogadores restantes, além de Lucas e Vinícius, estavam espalhados pelo local, com pandeiros, reco—reco, surdo e alguns instrumentos que eu não sabia o nome, tocando músicas que eu até conhecia. Obviamente, todos estavam sem camisa.
Os jogadores que tocavam como Thiago Silva, Miranda, Paulinho, Willian e Neymar, estavam sentados na beirada da piscina, com as pernas para dentro e os outros estavam dentro da mesma rindo e batendo as mãos no ritmo da música. Olhei rapidamente em volta, encontrando Lucas e Vinícius encontrados espalhados por ali, Lucas com sua câmera e Vinícius com sua filmadora, mas claramente rindo e movimentando os lábios no ritmo da música. Olhei em volta rapidamente à procura de Alisson e o encontrei apoiado na beirada da piscina, dando alguns goles em um chimarrão (ou era tereré?), que me fez franzir a testa.
— Ei! Olha quem apareceu! – Thiago Silva chamou atenção ao me ver, batendo a mão fortemente em seu tambor e os outros o imitaram, fazendo com que o som lá dentro ficasse ensurdecedor.
— A festa chegou! – Neymar brincou e eu andei para perto deles, parando ao lado de Willian.
— Até parece! Vim acabar com a festa! – falei séria e todos me olharam com a cara fechada até que eu comecei a rir sozinha. – Não, mentira! Isso não é problema meu! – Ergui as mãos e eles voltaram a gritar e a bater nos instrumentos e eu sorri.
— Aproveita, – Fernandinho falou, apontando para a piscina e eu ri, passando o olhar rapidamente para Alisson que me encarava.
— Ah não! Estou bem! – Ergui os braços e olhei para a água cristalina. – Talvez só os pezinhos! – Falei para Fernandinho que riu.
Segui até o armário de toalhas e peguei uma, estendendo—a dobrada algumas vezes na beirada da piscina e me sentei em cima dela, mergulhando as pernas na piscina quase até os joelhos. As músicas do Thiaguinho começaram a ser tocadas uma atrás da outra, incluindo outras que eu realmente não conhecia. Eu não era a maior fã de pagode, mas o clima estava gostoso. Estaria melhor se não fosse uma piscina climatizada e o suor não começasse a escorrer pelo rosto de todo mundo e pelos meus seios.
Olhei para o lado por um momento e notei Alisson se encostando ao meu lado. Ele encostou as costas na parede da piscina e apoiou o braço livre na mesma. Mordi a ponta do dedão como quando eu ficava nervosa e fiquei quieta. Ele me estendeu sua cuia e eu neguei com a cabeça.
— Não gosta? – Fiz uma careta, negando com a cabeça.
— Não! – falei rindo.
— Imagino que não seja do sul, então...
— Eu não tenho esse sotaque cantado – falei sorrindo.
— Uh, você também não tem sotaque de carioca. – Neguei com a cabeça.
— Também não, apesar de morar aqui no Rio de Janeiro há sete anos. – Ele assentiu com a cabeça.
— Você é paulista! – ele falou e eu assenti com a cabeça.
— O que me denunciou?
— Esse “morar” caipira aí. – Sorri, assentindo com a cabeça.
— Eu sou de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.
— Conheço. O que veio fazer no Rio?
— Estudar, na verdade, mas eu não fiz nenhuma federal, então poderia ter estudado em qualquer faculdade particular no estado de São Paulo.
— Então, por que no Rio de Janeiro? – Ele se virou de frente para mim, apoiando os braços no chão. Suspirei, ponderando com a cabeça.
— Meu pai é carioca e eu tinha uma avó no Rio, ela sempre foi doentinha, mas tinha meu tio para cuidar dela. Só que ele conseguiu um emprego no Nordeste e foi com a família inteira. – Ponderei com a cabeça. – Minha avó não podia ficar sozinha, aí calhou de ser na época do meu vestibular, eu conversei em casa e vim fazer faculdade no Rio para ela não ficar sozinha e cuidar dela. – Dei de ombros.
— Ela está bem? – ele perguntou.
— Ela faleceu no meu terceiro ano de faculdade. – Suspirei. – Não deu tempo de ela ver eu me formar. – Ele assentiu com a cabeça.
— Sinto muito. – Assenti com a cabeça, dando um pequeno sorriso.
— Está tudo bem. – Sorri.
— Por que seu pai não foi para o Rio para cuidar dela? — Ele perguntou.
— Meu pai é aviador, instrutor de cadetes em Pirassununga, interior de São Paulo. É lá que minha família mora agora.
— Bacana! – Ele sorriu. – Eu pensei em ser militar durante um tempo...
— Mas o futebol entrou na sua vida? – Perguntei.
— O futebol já existia na minha vida, para falar a verdade, mas eu não tinha certeza se daria certo até os 17, 18 anos. – Assenti com a cabeça.
— Ainda bem que deu. – Sorri. – Mas você ficaria muito bem de farda. – Vi seu rosto avermelhar mais que o normal e balancei a cabeça.
— ! – Me assustei com Lucas atrás de mim e ergui o indicador rapidamente para Alisson e me levantei, me aproximando do mesmo.
— Fala aí! – Sorri e notei que parecia que ele estava cansado. – O que aconteceu? – Perguntei.
— O Theo foi embora. – Franzi o cenho.
— O quê? Por quê? – Perguntei.
— Ele não está muito bem. – Ele negou com a cabeça. – Ele desmaiou mais cedo e Rodrigo achou melhor ele voltar para o Rio para descansar e ficar pronto para a viagem domingo.
— Eita! O que será que aconteceu? – Cruzei os braços e Lucas fez uma careta, dando de ombros. – Ué... – Abanei as mãos. – Espero que ele fique bem.
— Bem, estamos sozinhos até domingo agora. – Ele falou.
— Amanhã eu falo com a Michelle se eles vão precisar de algum apoio na parte de assessoria, afinal, só tem eu aqui agora. – Ele assentiu com a cabeça e eu senti meu celular vibrar no bolso, puxei o mesmo, encontrando o nome de Michelle no mesmo. – Não morre mais. – Virei o celular para ele e atendi a ligação. – Oi, Michelle, tudo bem? – Virei para Alisson, apontando para o celular e ele assentiu com a cabeça. – Espera um pouco, está muito alto aqui. – Dei uma corrida rápida para fora da área da piscina e o som ficou menos abafado.
— , está me ouvindo?
— Oi, Michelle, tudo bem? Os jogadores estão fazendo barulho aqui hoje. – Ela riu.
— Acho que você está sabendo de Theo, não é?
— Sim, Lucas acabou de me falar.
— Você se importa de auxiliar mais a parte de assessoria só enquanto estiver aí na Granja? Não vale a pena enviar outro assessor para dois dias e meio.
— Não, tudo bem, sem problemas. Só falar o que eu preciso fazer que eu faço.
— Ah, muito obrigada! – Ela falou aliviada. – Bom, vamos lá...
Sexta—feira começou da forma mais comum possível. Saí para tomar café da manhã, vendo os jogadores com cara de sono. Eu acabei ficando uma hora ao telefone com Michelle, então, quando desligamos a ligação, eu fui direto para cama, mas pelo jeito a festa foi até tarde. Cumprimentei rapidamente os jogadores e equipe técnica, comi rapidamente um lanche de presunto e queijo e bebi um café. Depois eu fui para uma reunião com a equipe de segurança da CBF para falar sobre o treino aberto que aconteceria hoje.
Theo estava por dentro de tudo o que aconteceria, agora com a sua ausência eu precisaria tomar as rédeas da situação. Agora, pela parte da manhã, os jogadores treinariam normalmente. Depois do almoço, a Granja seria aberta para cerca de oito mil torcedores para um jogo entre os 20 jogadores. Algo de uma hora e meia, rápido e fácil. Depois disso os jogadores passariam para falar com eles nas grades, tirando fotos e dando autógrafos. Espero que dê tudo certo.
A principal informação que eu peguei na reunião com os seguranças foi sobre as saídas de emergência. Pontos estratégicos que eu deveria encaminhar os jogadores em caso de brecha na segurança, ou seja, fãs surtados invadindo o campo.
Antes do almoço, eu passei no quarto e dei uma ajeitada em mim. Fiz uma escova rápida nos cabelos, dei uma retocada na maquiagem e calcei meus sapatos amarelos. Me olhei no espelho e respirei fundo algumas vezes, tentando me manter calma.
Peguei o
iPad e o celular e olhei rapidamente a lista de imprensa que estaria presente, nada de novo. Entrei no refeitório e todos estavam lá. Acenei rapidamente para alguns jogadores e segui para o
buffet, pegando o tradicional da comida brasileira dessa vez. Depois do almoço alguns jogadores deram uma rápida passada nos quartos, mas iríamos nos encontrar no restaurante, para passar as últimas informações. Acabei tendo a companhia de Cássio, Fernandinho, Taison e Danilo.
— , todos voltaram, caso tenha algo para passar. – Edu cochichou em meu ouvido e eu me levantei, confirmando com a cabeça.
— Ah, gente, podem se aproximar, por favor? – falei, me colocando no centro do restaurante, sentindo meu rosto esquentar de vergonha.
Observei os jogadores saírem de seus lugares e se aproximarem de mim, fazendo uma meia lua à minha volta. Passei os olhos lentamente em cada um deles e puxei o ar, soltando a respiração pela boca.
— É o seguinte, como a informação já deve ter chegado a vocês, Theo, o responsável pela assessoria, precisou se ausentar por um mal súbito que o afetou na noite de ontem. – Soltei a respiração pela boca novamente. – Ele é o assessor número um, é ele que vai com vocês para Rússia, então, ele voltou para o Rio para descansar e estar nos trinques até domingo. – Eles assentiram com a cabeça. – Como eu sou a única pessoa da área de comunicação e sou jornalista, pediram para eu segurar as pontas até domingo.
— É! – Neymar gritou, aplaudindo, puxando o coro e eu revirei os olhos.
— Obrigada, obrigada! – Movimentei as mãos para baixo para reduzirem os ânimos. – Agora nós vamos descer para o campo, onde terá o treino aberto, que já é tradição aqui na Granja. – Eles assentiram com a cabeça. – Vocês farão um jogo, convencional, 90 minutos. Dividiremos vocês em dois times. Ederson, como você é o terceiro goleiro, você vai intercalar com o Cássio, primeiro tempo ele, segundo você. – Ele assentiu com a cabeça. – Como o Alisson é nosso primeiro goleiro, ele precisa mostrar trabalho. – Ele riu sozinho lá atrás. – Depois do jogo, vocês terão 30 minutos para falar com os fãs que estarão em volta, podem tirar fotos, dar autógrafos, mas já avisando! – Frisei. – Eles ficarão para fora da grade, vocês para dentro, começou empurra—empurra, eu coloco vocês para dentro na hora! – Eles assentiram com a cabeça. – Bem, não eu, os seguranças. – Eles riram em seguida. Matutei rapidamente. – Sem falar com a imprensa dessa vez, beleza? Ouviu, Neymar? – Ele assentiu com a cabeça, erguendo o polegar. — Ah, e um aviso do pessoal da segurança: em caso de brecha na segurança, empurra—empurra ou qualquer tipo de problemas, nosso ponto de referência é o vestiário lá de baixo. Fechamos com grades, então, viu alguma merda acontecendo, corre para lá. – Eles afirmaram com cabeça, me olhando atentamente. – Entendidos?
— Sim! – eles responderam forte.
— Perfeito! – Sorri, virando para Tite. – Acho que é isso.
— Me lembre de te chamar quando precisar brigar com eles – ele falou e eu ri, dando de ombros.
— Estamos aqui para isso. – Sorri, olhando rapidamente para meu relógio. – Bom, vamos? – Falei e eles assentiram. – Lucas! – Chamei, que já estava com seus apetrechos na mão. – Cadê o Vinícius?
— Você quer o Vinícius ou...
— Você sabe de quem eu estou falando – falei e ele riu.
— Tá lá com a galera já. – Bati a mão na testa e vi Paulinho rir ao meu lado.
Peguei meus eletrônicos, coloquei em meu braço e bolso e segui para fora do restaurante, indo para o lado de fora. Alguns carrinhos de golfe nos esperavam para descer para a área de treino. Entrei em um com Lucas ao meu lado e chegamos até o campo com tudo sob controle. O Canarinho já estava fazendo a festa com a galera, literalmente sendo um animador de torcida. Tentei segurar a risada, mas era inevitável.
O jogo correu sem grandes surpresas, era visível que os jogadores não estavam dando duro de si, parecia uma pelada no fim de semana. O jogo acabou um a zero, o time que Ederson e Cássio revezaram deixou um gol do Gabriel Jesus entrar. Eu fiquei na lateral do campo com Lucas, acompanhando—o nas tiragens de fotos.
Depois disso, eu me senti no meu primeiro grande pesadelo profissional. A chuva começou a cair fina no meio do segundo tempo, nada preocupante, mas também não tinham somente oito mil pessoas lá dentro, tinha muito mais. Eles estavam agitados e nem os seguranças ou as grades dariam conta.
— Junte suas coisas e leve o Vinícius para dentro agora – cochichei para Lucas e ele me olhou com a testa franzida.
— Por quê? – ele perguntou.
— Só entre! Agora! – falei firme. Ele não perguntou mais nada, junto seus materiais e se levantou do mesmo, puxando Vinícius com ele.
Olhei ao longe, próximo ao gol que era ocupado por Alisson e vi alguns seguranças se juntarem para conter o local. Pressionei o olhar para tentar ver se algum jogador estava perto, mas a chuva apertou, dificultando a minha visão e me fazendo gelar com a água molhada.
— Ei, social mídia, está tudo bem? – Cássio se aproximou e eu apoiei a mão em seu ombro.
— Me ajuda a tirar os jogadores daqui agora! – falei firme.
— O que está acontecendo? – Um grito alto me distraiu e vi a grade tombar para frente, fazendo com que alguns torcedores caíssem para dentro do campo.
— Agora! – Falei novamente e ele saiu correndo para uma direção e eu segui para outra, tentando evitar que os saltos afundassem na grama molhada. – Para dentro, agora! – Passei os braços pelas costas de alguns jogadores, vendo—os correrem na mesma direção.
Observei o ponto de confusão e vi que os seguranças pareciam estar contendo, mas com aquela chuva caindo e os holofotes em meu rosto, eu não confiava muito no que eu via. Droga! Eu seria demitida na minha segunda semana!
Os jogadores seguiram correndo para o ponto combinado e eu olhei em volta rapidamente, vendo que o campo não tinha mais nenhum ponto amarelo e azul e corri em direção ao vestiário lá de baixo. A chuva parou de bater em meu corpo quando eu entrei embaixo da cobertura e com pressa no local, sentindo o pé da frente deslizar por causa da lama e eu cair, me apoiando na maçaneta da porta.
— Opa! – Ouvi alguém falar, mas eu ignorei, deslizando o corpo para frente e batendo a porta, respirando aliviada.
— Tá todo mundo aqui? – gritei, com a respiração acelerada.
— Três, cinco, oito, 11, 14, 18, 20... – Alguém contou. – Tite, Lucas e Vinícius também. – Suspirei, encostando meu corpo na porta, tentando normalizar a respiração.
— Você está bem? – Olhei para cima, vendo Alisson me encarando de cima, a poucos passos de mim. Era um vestiário, o local era pequeno.
— Eu acho que torci o pé! – reclamei, sentindo meu pé doer.
— Vem cá! – Douglas me esticou as mãos e eu ergui a mão para ele esperar.
Puxei os saltos para fora dos pés, sentindo um alívio passar pelo meu corpo. Olhei o mesmo e suspirei, esperando que eu conseguisse limpar a terra. Eu teria que parar de ir de salto para o campo, talvez não seja minha melhor ideia. Estiquei as mãos para Douglas e Alisson que me ajudaram a ficar de pé, sem que eu apoiasse o pé esquerdo e eu andei até a mesa de apoio no centro do local e me sentei na mesma, apoiando a mão no ombro de Alisson, dando um pequeno sorriso quando o fiz.
— Vamos chamar o Rodrigo para dar uma olhada. – Tite falou, desviando das pessoas e aparecendo ao meu lado, fazendo Alisson se afastar um pouco.
— Eu estou bem – falei, suspirando. – Eu preciso pensar o que eu vou falar para a imprensa agora. – Apoiei a mão na boca.
— O que aconteceu, afinal? Só vi todo mundo correndo. – Marquinhos perguntou.
— Liberaram entrada de muito mais gente do que o combinado, depois derrubaram uma das grades do canto norte do campo, torcedores começaram a entrar, aí começou a chover e eu não consegui ver mais nada. – Suspirei, com a respiração ainda acelerada. – Entre o sim e o não, preferi trazer todo mundo para dentro.
— Valeu! – Thiago Silva sorriu, esticando o punho para mim e eu bati no mesmo, sorrindo.
— Acho que agora você tá pronta para proteger a gente assim na Rússia. – Miranda brincou e eu ri fraco, dando um sorriso de canto.
— Ela não vai para Rússia. – Willian anunciou e me assustei com as diferentes reações.
— O quê?
— Como assim?
— Tá de brincadeira, não é? – Olhei para Alisson e seu olhar me parecia bem decepcionado, até se afastando para o fundo.
— Ei, gente! Para com isso! – falei alto, chamei a atenção de todos. – Eu não deveria nem estar aqui na Granja, estou na CBF desde o dia 14 só. – Balancei a cabeça. – Eu vou ficar com vocês até domingo, depois vocês terão que enfrentar o mundial sem mim. – Sorri de lado. – Adoraria ir para Rússia, mas eu acabei de começar, têm muitas pessoas mais preparadas para cuidar de vocês lá. – Dei de ombros. – Mas não se preocupem, teremos Catar em 2022, Copa América ano que vem... – Sorri. – Ainda nos encontraremos em outras oportunidades.
— Tudo bem – Coutinho falou. – Mas cortou o coração. – Ri fraco, balançando com a cabeça.
— Bom, deixa eu limpar a bagunça lá fora. – Fiz menção de descer da bancada, mas Tite segurou meu pulso.
— Você fica e espera o Rodrigo para ver seu pé.
— Mas eu... – tentei falar para ele só me encarou e eu fiquei quieta, como uma criança.
Depois do fracasso do treino no dia anterior, eu me permiti mais 15 minutos de cama no dia seguinte. Acabamos ficando presos no vestiário por cerca de uma hora até que os seguranças nos encontraram e disseram que a barra estava limpa, que eles já tinham conseguido evacuar todo mundo.
Rodrigo, médico da seleção, apareceu junto de Cléber e Edu, preocupados conosco. Rodrigo já deu uma olhada em meu tornozelo, mas disse que estava tudo certo, era só uma leve torção, com descanso melhoraria. Fiquei aliviada!
No que eu saí do vestiário, olhei a bagunça que tinha sido feita no local, mas todos nós relevamos, que a gente pensasse naquilo no dia seguinte. Com a ajuda de um carrinho de golfe, nos levaram de volta para os prédios. Segui para o quarto apoiada em Vinícius e dava para notar que o clima havia ficado depressivo, todos seguiram em silêncio para seus quartos e só ouvia as portas batendo uma a uma.
Antes de entrar em meu quarto, olhei rapidamente para Alisson, mas ele não me deu sinal nenhum, somente entrou no quarto. Suspirei e agradeci a Vinícius pela ajuda e entrei no quarto. Apesar de o tempo ter escurecido mais cedo por causa da chuva, acabava de passar das seis da tarde.
A primeira coisa que fiz foi tomar banho e me livrar daquelas roupas geladas, poderia ter tido uma torção no pé, mas também não queria pegar uma gripe. Depois do banho, peguei meus sapatos e os coloquei na banheira, aliviada por ver que ele só estava sujo com barro, imagina se eu já destruísse o sapato que Bernardo nem tinha acabado de pagar?
Depois eu falei com Michelle, expliquei a situação para ela e ela só pediu para eu elaborar um
press release para divulgar para a imprensa. Ela até me aliviou falando que aquilo acontecia, mas eu havia ficado preocupada. Fiz na hora o que ela me pediu e já enviei para que fosse liberado pelo pessoal do Rio.
Lucas me enviou algumas fotos do treino, antes das coisas bagunçarem, e eu postei algumas fotos nas redes sociais da CBF, fiz uma postagem do Canarinho, vendo os seguidores aumentarem no
Twitter cada dia mais e, para finalizar meu trabalho, eu enviei algumas fotos para os jogadores, tendo resposta de quase todos, menos de quem eu queria. Ele parecia chateado.
Tentei não me abalar com isso, mas eu optei por pular o jantar naquele dia. Comi um pacote de salgadinhos que eu tinha trazido para dentro, tomei um analgésico para meu pé que Rodrigo me deu e capotei antes que o
Netflix pudesse carregar.
Não notei nada de diferente quando entrei no restaurante naquele sábado de manhã, animação era alta e as risadas ecoavam pelo local. Observei os jogadores amontoados em uma das mesas e me aproximei deles, vendo vários álbuns da Copa e figurinhas espalhadas pelo local.
— Ei, ! Quer um álbum? A Panini mandou! – Renato perguntou e todos viraram para mim.
— Vocês estão atrasados, meu álbum está completo faz tempo! – falei, notando todos me encarando.
— Como assim? – Eles me olharam surpresos.
— Eu trabalho na CBF, gente! – brinquei, rindo em seguida. – Mentira, eu estou montando desde que começou a vender. – Sorri. – Mas faltam algumas brilhantes, se sobrar, estou aceitando. – Falei e eles riram.
— Como está o pé? – Douglas perguntou e eu apontei para meus pés de chinelos.
— Parou de doer, é o que importa. – Sorri e ele assentiu com a cabeça. Procurei Alisson com o olhar, mas fui distraída por alguém me chamando.
— ! – Virei para o lado, vendo Michelle a alguns passos de mim.
— Michelle? – falei, me aproximando dela. – Meu Deus, o que está fazendo aqui? – Falei, abraçando—a rapidamente e ela sorriu.
— Podemos conversar? – Ela perguntou e eu senti meu estômago revirar. Droga! Eu realmente estava demitida e ela veio para Teresópolis só para me dizer isso.
— Claro! – Nos afastamos dos jogadores, nos sentando em uma mesa ao fundo do restaurante e eu engoli em seco algumas vezes, tentando me preparar para o que vinha em seguida.
— Bom, , eu tenho uma notícia boa e uma péssima para te dar. – Ela respirou fundo. – Eu não viria aqui se não fosse importante. – Assenti com a cabeça.
— Se for sobre ontem, me desculpa. Eu preciso me encontrar com os seguranças para saber exatamente o que aconteceu e... – Ela negou com a cabeça.
— Não, não tem nada a ver com ontem. Essas coisas acontecem, entram mais pessoas que o permitido, torcedores brasileiros são muito calorosos... Um mais um são dois, não se preocupe. Não é sobre isso. – Assenti com a cabeça, mas senti um alívio passar pelo meu corpo.
— Então, é sobre o quê? – Perguntei.
— O que aconteceu com Theo não foi só um mal súbito, , ele realmente está mal. – Arregalei os olhos e os lábios.
— Como assim? – Perguntou.
— Ele fez alguns testes e encontraram um tumor no cérebro...
— Meu Deus! – Levei às mãos à boca. – Ele está bem?
— Ele está fazendo todos os exames, os médicos estão analisando as chances dele, mas, por mais feio que pareça, isso não é problema nosso... – Ela suspirou, coçando a cabeça. — Bem, eu acho que não preciso mais enrolar. – Ela suspirou. – Ele não vai mais para Rússia. – Assenti com a cabeça.
— Imaginei, e quem vai no lugar dele? – perguntei.
— Se você puder, você mesma! – Arregalei os olhos.
— O quê? – Falei um tanto surpresa.
— Parece que não, mas eu acompanhei todos os seus trabalhos aqui na Granja, não só o que você me mandou, como o que o Lucas, Vinícius e até o Theo mandou. Você está realmente nos surpreendendo... – Ri envergonhada. – Além disso, os jogadores realmente gostaram de você. – Ela falou. – Achei que mandar uma mulher sozinha para cá seria um tiro no pé, mas você lidou muito bem com a situação, os jogadores estavam se perguntando de ti quando eu cheguei... – Assenti com a cabeça.
— Eu confesso que me afeiçoei a eles também, é um trabalho muito gostoso de fazer e eles foram muito gentis. – Sorri. – Até falamos sobre isso ontem, e eles não ficaram muito felizes com eu não ir. – Ela sorriu.
— Bom, eu conversei com o pessoal acima de mim, conversei com os dirigentes, com Tite, com Angélica e com Bianca, você é a nossa primeira opção. – Ela sorriu. – É questão de popularidade, você está sendo bem vista pelos jogadores e pela equipe e acho que aguentaria o tranco na Rússia. Passar esses dois meses com eles. Além de que você acabou de fazer exame médico para começar seu trabalho conosco e é a única que está com ele atualizado. – Assenti com a cabeça, suspirando.
— Uau! – falei rindo.
— E por mais que eu adoraria te dar alguns dias para decidir, aceitando isso, você tem que ir amanhã com eles para Londres. Então, eu preciso da sua decisão agora para preparar a documentação e outros itens importantes para a viagem. – Respirei fundo três vezes, mas balancei a cabeça rapidamente.
— Eu não tenho o que pensar, Michelle. Eu aceito! – falei com um largo sorriso no rosto. – É uma oportunidade única na vida, eu não vou perder e prometo que vocês não vão se arrepender. – Falei, sentindo o choro na garganta.
— Essa é a minha garota! – Sorri. – Bem, lá na Rússia você não vai atuar como social mídia... – Ela balançou a cabeça. – Me deixa reformular. Você não vai trabalhar só como social mídia, você vai acabar auxiliando a parte de social mídia, o Vinícius, o Canarinho e o Lopes no Brasil, mas lá na Rússia, eu preciso de três assessores. – Assenti com a cabeça. – Tivemos só a experiência de ontem contigo, mas com a sua presença aqui com os jogadores, decidimos te colocar em um trabalho direto com eles: imagem. – Assenti com a cabeça. – Seu trabalho é acompanhar e analisar a imagem dos jogadores.
— Ok... – Franzi a testa.
— Em poucas palavras? Cuidar e brigar com os jogadores, se for necessário.
— Brigar?
— Em um jogo de futebol, os ânimos dos jogadores ficam exaltados demais, então, dependendo da situação, algumas palavras feias acabam saindo, os jogadores e a Seleção são mal vistos, etc... – Assenti com a cabeça. – Bom, seu trabalho, no geral, vai ser acompanhar os jogos, treinamentos e afins, analisar e controlar a imagem dos jogadores, nos enviar relatórios sobre isso a cada jogo. – Confirmei.
— E as redes sociais?
— Esqueça—as por enquanto, temos outras pessoas que poderão fazer seu trabalho enquanto você estiver fora. – Assenti com a cabeça. – Foque nos jogadores, na imagem dos jogadores, nos jogos, nos acontecimentos e divirta—se, você vai acompanhar uma Copa do Mundo de dentro, esse é o sonho de muitas pessoas. – Sorri.
— O meu também. – Assenti com a cabeça.
— Bom, eu vou te passar outras informações depois, mas eu preciso de algumas informações para enviar para a FIFA para a elaboração de crachás, reserva de quartos, te colocar na lista da CBF, nas listas de voos, além de tamanho de roupa para uniformes, ternos da CBF e tudo mais...
— Eu vou ganhar um terno daqueles? – falei abobalhada.
— Você vai ganhar uma viagem com tudo pago para Inglaterra, Áustria e Rússia e está pensando no terno? – ela falou e eu ri.
— Oh meu Deus. – Parei rapidamente. – Temos um problema. – Me lembrei.
— Qual? – Ela perguntou.
— Minha família mora no interior de São Paulo, meu passaporte está lá, minhas malas maiores estão lá... – Respirei fundo.
— Onde sua família mora?
— Pirassununga, é perto de Ribeirão Preto.
— Se eu te liberar agora e ficar no seu lugar entre hoje e amanhã, você consegue ir direto para o aeroporto Santos Dumont pegar um voo para Ribeirão Preto e voltar para o aeroporto do Galeão até amanhã às 17h45? – Ela me perguntou. – O voo para Londres sai às seis.
— Consigo! – falei firme. – Eu vou ligar para o meu pai ver se tem algum avião da Força Aérea Brasileira indo para Pirassununga saindo do Galeão, se eu conseguir, ele para na minha cidade. – Ela me olhou confusa. – Ele é instrutor na FAB.
— Ok. – Ela balançou a cabeça, se levantando. – Vá, agora! Use o cartão corporativo para o que for necessário, mas eu preciso de você às seis horas naquele avião para Londres.
— Pode deixar! – Abracei—a fortemente, com um largo sorriso no rosto. – Obrigada! – Sorri. – Muito obrigada!
Me afastei da mesma dando pequenos pulos no lugar e me virei, saindo desesperada para fora do restaurante, somente ouvindo os barulhos do meu chinelo estalarem fortemente contra o piso.