Revisada por: Júpiter
Última Atualização: 06/09/2025“Me and the Devil walkin’ side by side”
— Me and the Devil by Soap&Skin
Era mais uma tarde cansativa de ensaios nos anos 80. Datas de shows ocupavam a nossa agenda pelo próximo ano, mas sempre havia espaço para encaixar mais um e foi o que aconteceu no dia. Quando Brian, nosso produtor, chegava com aquela cara, já sabíamos que teríamos que acrescentar mais um show à lista. No entanto, tudo provou ser diferente dessa vez, uma banda famosa havia cancelado praticamente em cima da hora e fomos convidados a participar de um show no estádio John F. Kennedy.
O Live Aid.
Seria um festival que aconteceria em Londres e na Filadélfia no dia 13 de julho de 1985 que contaria com vários nomes da música reunidos para angariar fundos e ajudar a lutar contra a fome na Etiópia. Todos estavam falando sobre o evento que seria a dali a mais ou menos um mês. Com “todos”, eu queria dizer até a minha mãe e os outros habitantes da minha cidadezinha. A pressão foi tanta para aceitar que nunca passou pela minha cabeça outra resposta. Fiquei feliz pelos outros membros da banda terem concordado.
O line-up era composto por artistas famosos da década e aquele era um sinal de que nossa banda ia bem. Não foi fácil chegar até ali, ainda mais para nós, que não tínhamos a mesma oportunidade de que artistas que moravam nos Estados Unidos. Sempre seríamos uma banda que ficaria na sombra do sucesso do ABBA, por sermos suecos e uma banda de pop (mesmo que fôssemos pop rock), mas participar do Live Aid era uma oportunidade de fazermos ainda mais o nosso nome. O mundo conheceria a Love Bites.
— Precisamos comemorar! — afirmou Mikael.
O coro que seguiu a sua fala só provou que nós cinco estávamos bem animados. Foi a segunda coisa que fizemos depois de chegar à Filadélfia, depois de deixar as malas na pequena pousada. Era uma noite de início de verão, a felicidade retornava conforme o clima começava a esquentar. Nós nos deixamos levar e acabamos virando alguns copos a mais. No final, Astrid, Per e Oscar seguiram para seus bangalôs e eu fiquei para trás com Mikael, que vomitava todo o conteúdo do estômago em uma moita ao lado da entrada da pousada. O segurança nos olhava feio e eu sorria meu sorriso falso, querendo enterrar minha cabeça na terra da grama. Porém eu jamais abandonaria um amigo como Mikael, mesmo que ele me matasse de vergonha às vezes. Nós de Hässleholm precisávamos ficar juntos.
Quando ele sumiu dentro da moita, eu me desesperei. É claro que me desesperei, o grito de dor que ele deu cortou a noite e arrepiou todos os meus pelos. Tentei afastar os galhos para alcançá-lo, mas ele se enterrou bem fundo. Foi preciso o mesmo segurança de antes para me ajudar a tirar o traseiro bêbado dele dali, fiquei sem saber se agradecia ou me desculpava e saiu tudo ao mesmo tempo.
Mikael riu, enroscado em mim, o caminho todo até o quarto. Me lembrava de ter ficado sóbria mesmo só no momento que o botei na cama dele e ele reclamar de dor no braço.
O maldito instrumento de trabalho dele.
— Acho que ferrei o braço nessa queda.
Oscar, que estava no beliche de cima, até acordou.
A frase dela definia a cara de nós quatro, reunidos no espaço de convivência da pousada, olhando para o braço inchado e cheio de hematomas de Mikael.
— Eu nem me lembro direito do que aconteceu — murmurou. — Só lembro da dor.
— O Brian vai te matar — concluiu Per, tentando acalmar Astrid em seu abraço.
— Ainda consigo tocar. — Tentou mexer a mão em uma nota e fez uma careta.
Era isso. Estava aí o fim do nosso sonho, bem naquele braço.
— Está quebrado! — Me levantei do sofá. — Só você não percebeu ainda que precisa de um médico!
— Você está exagerando, alguns diazinhos e estarei novinho em folha.
— Cara, esse braço precisa muito mais do que uns “diazinhos” — falou Astrid. Eu acreditava naquilo, Astrid havia largado o curso de enfermagem para se dedicar à carreira de tecladista, então ela sabia muito mais do que todos nós ali.
Mikael poderia ser otimista, mas o machucado era feio, ele provavelmente caiu em cima do braço. Me amaldiçoei trinta vezes por ter deixado com que vomitasse naquela moita, antes tivesse vomitado nos meus pés. Era só jogar o sapato fora e me limpar, sem causar dor a ninguém. Talvez eu sentisse um pouquinho de dor por estar com minhas sandálias de salto gatinho novas, mas era só comprar novas, eu não poderia comprar um braço novo para Mikael.
— ‘Tá... Já que ninguém quer falar, eu falo: como vamos fazer com o Live Aid? — disse Oscar.
Todos se entreolharam. Eu apenas olhei para Mikael, que me encarava de volta com culpa no olhar.
— Só vamos falar sobre isso depois que ele ver um médico — falei.
Eles concordaram. Eu ia passar no meu quarto para trocar de roupa para irmos ao hospital, mas o braço não-machucado de Mikael me interrompeu.
— Valeu.
— Você está me devendo uma.
Depois do dia anterior, ele estava mesmo.
Foram quatro horas na emergência do hospital e muitos dólares a menos do orçamento de viagem da banda para sabermos que o braço de Mikael teria que ficar em uma tipoia por alguns dias. Eu estava mais preocupada com o conforto dele do que com a reação negativa que a banda teria assim que soubesse, então, por mim, nem discutiríamos nada naquele dia. Porém Mikael insistiu que eu reunisse todo mundo mais uma vez no mesmo espaço para dar a notícia. Assim que ele terminou de falar, eu esperei gritos e esperneios, mas eles apenas ficaram em silêncio como se soubessem que aquilo aconteceria. A tristeza invadiu a atmosfera sem pedir licença e me sufocou. Todos ali estavam com cara de quem estava vendo o nosso barco afundar.
— Eu tenho uma solução — continuou Mikael depois de um tempo. Se ele propusesse tirar aquele braço do repouso, eu era capaz de jurar de pés juntos que passaria o sermão que vim guardando desde o dia anterior. — Tem um amigo meu que é guitarrista e toparia me substituir, se eu pedisse com jeitinho.
Eu não gostava da ideia de substituir Mikael no evento mais importante das nossas carreiras, mas entendi que ele não queria prejudicar os outros membros da banda por sua causa. Por isso, decidi que o melhor, naquele momento, seria não reclamar e incentivar.
— Não sei se é uma boa...
— O que ele precisa para aceitar? Dinheiro? Nós podemos falar com o Brian para dar quanto ele quiser — interrompi Oscar.
— Não. Na verdade, ele não vai aceitar dinheiro e eu provavelmente vou ter que forçá-lo a ficar com um pouco... — Os olhos de Mikael ficaram perdidos em um ponto. Esse amigo era prestativo e não era mercenário, parecia até de mentira.
— Nossa, que homem perfeito. Ele é solteiro? Porque eu seria capaz de o beijar se estivesse na minha frente! — brinquei. — Se quiser, eu também posso falar com ele e explicar tudo.
Olhei para os lados e os outros pareciam ansiosos. Eles sabiam quem era, só eu que não havia me tocado ainda.
— Ele é solteiro, mas é... Hm... Tímido. — Mikael engoliu em seco. — Vai ser melhor se só eu conversar com ele.
Astrid mexeu a boca para ele em “você está ferrado”.
— Quem é esse amigo? — perguntei entredentes para ele.
Ouvi a risada de Per vinda debaixo de Astrid e já soube que odiaria a resposta.
— Ah, é alguém...
— Alguém que você odeia — completou Oscar.
Meu subconsciente cuspiu apenas um nome: .
Balancei a cabeça em negação.
— Não. Ele não.
Mikael censurou Oscar com o olhar.
— , isso ficou no passado...
— Quem disse isso? Ele? Porque, para mim, não ficou.
Me levantei, cansada demais para o possível desenrolar daquela conversa. Seria como as outras tantas: ele pediria para que eu deixasse minhas desavenças com para trás e eu replicaria que não queria ouvir falar naquele nome novamente. Só que ele sempre o trazia de volta das profundezas do inferno, talvez porque meu melhor amigo tivesse um melhor amigo além de mim. Podia até parecer ciúmes de Mikael, mas eu tinha um motivo para odiar e vice-versa. Eu nem gostava de relembrar, então saí da área de convivência antes que fosse trazido à tona. Quando passei pela porta, ouvi Mikael falar longe:
— Dê um tempo a ela.
Se ele achava que tempo mudaria minha opinião, estava muito enganada. Eu não poderia trabalhar de jeito nenhum com aquele cara.
Mikael tentou abordar o assunto pelos próximos dois dias, mas fingi que não estava ouvindo todas as vezes. No terceiro dia, Brian chegou e soube que não estávamos ensaiando. Ele simplesmente pirou. Falou por trinta minutos em como éramos malucos por querer desistir do Live Aid. Pela noite, ele bateu na minha porta e comunicou que chegaria dali a dois dias. Sim, comunicou. Não adiantaria discutir com Brian, ele faria de tudo pela banda, por isso, marchei até o bangalô de Oscar e Mikael. Despejei toda a minha frustração no segundo por ter me traído.
— ...Você me devia uma, Mikael. Era só ter ficado calado! — finalizei.
— Esse é meu jeito de retribuir. Eu sei o quanto foi difícil chegar até aqui, principalmente para você que deu a cara a tapa como vocalista para conquistar o público, não posso te deixar perder essa oportunidade de jeito nenhum.
— Não quero entrar naquele palco com ele, quero entrar com você — choraminguei.
— Vai dar tudo certo, eu estarei lá para assistir vocês.
Ele esticou os braços para me receber em um abraço e me aconcheguei. Lágrimas brotaram nos meus olhos ao pensar que Mikael não poderia participar de um dos maiores eventos da nossa vida, ele também havia batalhado tanto desde que deixou Hässleholm. Ele nem gostava do gênero musical que tocávamos, só estava ali para perseguir o sonho de ter uma carreira na indústria musical, era o que fomos criados para buscar. Eu sabia que ele se divertia mais tocando com a sua outra banda, a de , porque metal era a sua paixão. Mikael merecia o reconhecimento que aparecer nos palcos proporcionavam para que um dia parasse de tocar pop rock da moda e focasse cem por cento no doom metal.
Saí de lá com o coração na mão.
Na manhã do fatídico dia, me encarei no espelho. Eu era comparada a Michelle Phillips, tanto pela voz quanto pela aparência. Cada vez mais enxergava semelhanças, o cabelo loiro que estava sem laquê, o nariz pontudo e os olhos relativamente grandes. Geralmente, não me irritava ser parecida com outra cantora, mas naquela hora até isso me irritou. Quem havia sido o precursor daquela comparação estava para chegar. Dei as costas para o espelho, aborrecida.
Eu achava que sabia o que me esperava quando saí do meu bangalô e continuei pensando isso enquanto me sentava com os outros membros da minha banda, até que Brian entrou pela porta junto com ele.
, ou como o conheciam, Devil. Era um apelido ridículo, mas foi inventado por adolescentes apaixonados pelo que ele fazia com a guitarra e acabou virando o stage name dele. Vendo-o passar pela porta, eu só concluía que ele era como cantava Elvis: o demônio disfarçado. Parecia um anjo com seu longo cabelo claro, mas estava mais para anjo da morte que trazia más notícias.
Ele estava diferente da última vez que eu o vi, mais homem e menos o garoto do segundo grau.
Não pude conter minha cara de insatisfação.
— Essa é a galera da banda. Eles já te conhecem pelo tanto que Mikael fala em você.
Ele riu. Um som tão harmônico sendo desperdiçado em um sujeito como aquele.
— Oi, pessoal — disse, acenando para ninguém em específico.
Eles foram se levantando um por um para cumprimentar a nova atração, eu me levantei também para não fazer desfeita e parecer imatura. Mikael, que estava antes de mim, era o que parecia mais animado, abraçou o amigo com um braço só como se não o visse havia o mesmo tempo que eu. Os dois serem amigos só tornava tudo aquilo mais incômodo, mas eles eram amigos antes mesmo de Mikael e eu sermos. Quando chegou na minha vez, seus olhos deslizaram dos meus pés até meu rosto e sua expressão endureceu. Estiquei a mão a contragosto, só porque todos estavam observando, e ele a pegou. Seu toque era frio, contrastando com a brisa de verão.
— .
— .
Até o nome dele saindo da minha boca parecia errado.
— Então vocês também já se conhecem — disse Brian ao lado dele. — Que mundo pequeno.
Seus olhos nos meus me desafiavam silenciosamente a falar para todos o que aconteceu há tantos anos, o que ele fez e o que eu fiz.
— É, que mundo pequeno — saiu um rosnado. — Pena que nós não somos próximos.
— Ouvi dizer que, se eu estivesse na sua frente, você era capaz até de me beijar em agradecimento — sorriu de lado. — Pode ir em frente.
Larguei a mão dele como se queimasse e dei um passo para trás. Eu mataria Mikael, uma morte lenta e dolorosa. Era a segunda vez que ele me traía. Todos riram, menos nós dois. Ele ainda me encarava e eu encarava de volta, sem me deixar abalar outra vez.
— Eu prefiro beijar um formigueiro — murmurei. Mandei para os ares a pessoa que queria fingir que aquilo não existia. Ele queria guerra? Pois conseguiu.
— Não duvido. De acordo com as notícias, você tem uma preferência duvidosa para escolher o que vai beijar.
— E quem é você para me julgar?
Mikael entrou na minha frente antes que ele pudesse responder.
— Tenho certeza de que o está cansado depois de tantas horas de voo. — Tocou o ombro do amigo. — Vem, vou te mostrar o lugar dos garotos.
Ele me deu uma última olhada antes de sair pela porta, uma promessa de que aquilo não acabava ali. Tive vontade de responder que, se dependesse de mim, só estava começando. Talvez ele tenha entendido só pelo meu olhar. Eram anos de ressentimento que alguns minutos de briga não seriam o suficiente.
— Isso foi intenso — disse Per.
— Eu não quero nem saber o que rolou, vocês vão trabalhar juntos mesmo que não suportem olhar para a cara um do outro. Estamos entendidos? — falou Brian para mim.
Eu queria discutir, queria gritar e bater o pé como uma menina mimada, mas me contive.
— Não acho uma boa ideia entrarmos no palco do Live Aid sem um dos nossos — respondi.
— Você está deixando sua vida pessoal respingar na banda — censurou.
— Não é. — Era. — Só acho que um mês é muito pouco para substituir um músico em um evento tão importante. Além do mais, nós somos uma banda, se um de nós não pode comparecer, nenhum vai, certo?
Procurei com o olhar a aprovação dos outros, mas eles continuaram calados. Por que ultimamente eles andavam tão quietos?
— Vamos votar, então — disse Brian. — Quem quiser que o substitua o Mikael no Live Aid, levanta a mão.
Todos eles levantaram. Fechei os olhos, percebendo o quanto estava sendo egoísta de não pensar mais neles. Mikael já mostrou que não se importava, mas eu estava me incomodando por ele. Realmente me deixei levar pela minha vida pessoal.
— Pois bem, o fica.
— Vem sentar com a gente, — chamou Oscar.
Não queria ficar perto de , mas continuar a me isolar por causa dele parecia ridículo. Ele não me venceria. Por isso, me sentei no degrau que restou e que, por coincidência, era perto demais dele. Ele não parecia nada desconfortável, tentei imitar sua postura.
— Sentimos sua falta no almoço e no jantar — foi Mikael quem disse. Muita audácia dele dizer que sentiu minha falta depois de ter me apunhalado pelas costas.
— Eu pedi serviço de quarto — expliquei.
Assentiu.
— Dá um para ela, .
Ele esticou a mão e me ofereceu um cigarro do maço. Aceitei tanto o cigarro quanto o fogo sem o olhar.
— Alguns dias sem tocar no meu baixo e já sinto saudades, mal vejo a hora de começar a ensaiar — comentou Oscar. — Falando nisso, estão preparados para trabalhar um com o outro?
— Não — respondi.
— Sim — respondeu ele no mesmo segundo.
Oscar riu e Mikael franziu os lábios, descontente com a minha resposta.
Ele esperava mesmo que eu mudasse? Ainda mais depois da provocação do amigo dele.
Minha sincronia com seria péssima, já podia até ver, nossa raiva um pelo outro atrapalharia tudo. Como eu poderia estar preparada para trabalhar com alguém que me fez aprimorar meu talento até a exaustão?
— Tenho certeza de que vão servir muito entretenimento nesse menos de um mês — disse Oscar.
Eu dei um sorriso falso para ele. Se ele queria entretenimento, que ligasse a TV.
— Eles vão se comportar, né? — Mikael olhou para nós dois, eu o olhei com cara feia. Provável que também, porque ele fechou a boca e se encolheu. Uma coisa era ser forçada a trabalhar com ele, outra coisa era me forçarem a ficar quieta.
— Eu disse: puro entretenimento — sorriu Oscar.
— Espero que você esteja preparado para parar de cair na farra e começar a trabalhar — falei para ele.
— Baby, eu posso fazer as duas coisas. — Piscou um olho para mim.
— Toma cuidado para não acabar com o braço assim — Mikael levantou a tipoia.
— Eu sei beber.
— Sabe tanto que mês passado dormiu com a cabeça enfiada na casinha do cachorro do Per — disse eu.
— Não tenho culpa se a casinha dele é o lugar mais confortável da casa.
Percebi que fumava olhando para o céu, totalmente alheio à nossa discussão. Seus olhos tinham um brilho. Mikael e Oscar continuaram a conversar, mas eu estava mais concentrada em fingir não o observar. Os traços de garoto foram quase totalmente embora, mas ainda era o rosto que eu passei anos vendo quando fechava as pálpebras para descansar. O cabelo estava mais longo, passava do meio das costas, e ele cresceu uns bons centímetros até cerca de um metro e noventa.
Ele me olhou e arqueou uma sobrancelha.
— Deseja algo? — perguntou.
Eu me aprofundei tanto na minha análise que não percebi que Oscar e Mikael não estavam mais atrás dele.
— Não, por quê?
— Quem sabe você não quer cumprir com sua palavra agora e me beijar.
Senti meu rosto esquentar. Se eu fosse um desenho animado, era essa a hora que sairia fumaça dos meus ouvidos.
— Cuidado, . Eu posso até acreditar que você está ansiando por isso — sorri de lado.
— Acredite no que te fizer se sentir melhor, . No fundo, nós dois sabemos que você sempre quis saber como é me beijar.
Bufei.
— Só se for nos seus sonhos.
— Ou nos meus pesadelos. — Ele apagou o cigarro na parede ao nosso lado e se levantou. — Eu poderia continuar com isso daqui a noite inteira, mas tenho trabalho a fazer.
Imitei-o.
— Seria um desperdício passar uma noite tão agradável discutindo com você — resmunguei.
— E você tem algo melhor para fazer? — Arqueou uma sobrancelha. — Voltar para a sua TV e fazer maratona de Cheers?
Como ele sabia?!
— Não é da sua conta.
Ele riu.
— Você não mudou nada — disse, subindo os degraus restantes.
— Nem você.
O que era mentira, ele havia ficado ainda mais bonito, mas eu nunca diria isso.
No dia seguinte, eu acordei atrasada para o ensaio. Me arrumei na velocidade da luz e peguei o primeiro táxi para o endereço que Brian entregou para cada um de nós. Todos me esperavam, mas foi que teve a audácia de me olhar atravessado quando cheguei. Ele era meu chefe? Acabou de chegar e já queria se sentar na janela. Olhei da mesma forma para ele antes de me posicionar atrás do microfone.
Astrid foi a primeira a começar, logo sendo seguida pelo resto dos instrumentos. Comecei a cantar em um tom mais baixo, pela música exigir, mas a guitarra foi ficando mais alta. Não me incomodei no começo, achei que era algo inocente, mas quando acrescentou mais do instrumento onde não havia lá pela segunda música, eu soube que ele estava tentando provocar. Olhei para ele e aumentei minha voz, esticando algumas sílabas. Ele me olhou de volta e esticou a nota, me imitando. A banda se atrapalhou para nos seguir. Nós continuamos competindo, eu cantando e ele solando com a guitarra, um tentando atrapalhar o outro enquanto nos encarávamos com raiva. Na terceira música, os outros pararam. Eu dava o meu máximo, os dedos de deslizavam pelas cordas de maneira tão rápida e precisa que era quase impossível de acompanhar, mas, de alguma forma, ele também estava em sincronia comigo. Quando a música terminou, eu estava ofegante.
Todos que estavam presentes nos aplaudiram.
Eles não deveriam ter percebido que aquilo era uma competição, um show de horrores.
— Uau — disse Mikael, sentado na cadeira no fundo. — Vocês fizeram mágica agora.
Os olhos de Brian brilhavam, era possível ver os cifrões rodando em suas pupilas.
— Quem diria que a raiva seria o combustível perfeito? — falou Per.
— É isso por hoje. — Brian parecia ansioso para encerrar. — e , me encontrem lá fora.
Brian saiu e eu o segui, passando pelo amplificador e notando que o volume estava bem alto. Neguei com a cabeça.
O produtor tirou um cigarro do bolso e acendeu. Vi se aproximar atrás de mim pelo reflexo em seu óculos-tartaruga.
— A sintonia de vocês dois é perfeita, eu nunca vi isso antes — Brian disse as palavras mais dolorosas que já ouvi na vida. — Temos duas músicas no Live Aid, uma delas vai ser a que a toca piano e vou incluir nela.
Quê?!
— Você não pode estar falando sério. — Soltei uma risada sarcástica.
— Isso é necessário? — perguntou . Eu concordava cem por cento com ele.
— Se o mundo vir isso que rolou naquela sala, vocês vão ficar mais famosos que a porra do ABBA.
Não achava que tinha sido nada demais, só fizemos o outro explorar o talento até o máximo. Não era a primeira e nem a segunda vez.
— Vocês vão ter que resolver as diferenças, se quiserem que isso dê certo — continuou Brian ao ver nossa hesitação. — Vamos, apertem as mãos de novo.
Eu poderia até cooperar, mas não resolveria nossas diferenças porcaria nenhuma. esticou a mão, aceitei-a com certa relutância. Senti seus dedos longos e calejados na minha palma. Mão de guitarrista. Sacudi, fechando o acordo com o diabo em pessoa.
— Muito bem, vou deixar vocês responsáveis por encaixar a guitarra e ensaiarem. Não me decepcionem. — Nos dispensou com a mão.
Fui até a sala para pegar minha bolsa e veio atrás. Me virei para ele, que guardava a guitarra no case. Só havia nós dois ali.
— Custava ter só feito o que veio para fazer? — perguntei, irritada.
— O quê? — Ele teve a pachorra de parecer ultrajado.
— Você precisava se exibir daquele jeito? Olha o que causou.
— Você estava se exibindo, eu apenas te acompanhei.
— Você começou. Acha que não vi o volume do amplificador?
— É o volume que eu sempre uso.
— Pode até ser, mas você não está tocando metal, eu não posso ficar me esgoelando para competir com a sua guitarra.
— Reclamação anotada. — Ele fez uma expressão de puro tédio enquanto pegava o case pela alça. — Agora, se não vai ficar me alugando mais, eu quero ir para bem longe de você.
Franzi o nariz e fechei os punhos. Meu rosto esquentou de raiva.
— Eu te odeio.
— O sentimento é mútuo.
Ele me deixou para trás com todos os sentimentos borbulhando no meu interior, lutando para sair.
Eu, e Mikael nos conhecíamos desde sempre. Estudamos na mesma escola, frequentamos os mesmos lugares, tínhamos os mesmos amigos. Não por opção, mas porque era difícil de fazer o contrário quando se vivia em uma cidade com menos de vinte mil habitantes. Me mudei para Estocolmo logo depois da formatura, visando iniciar minha carreira como cantora, já eles demoraram mais um pouco e só soube notícias quando Mikael me ligou atrás da vaga de guitarrista depois que o antigo da Love Bites se demitiu. Ele nunca abandonou a banda que tinha com desde o segundo grau, mesmo depois da nossa fama, então eu sabia da vida do melhor amigo dele em primeira mão.
Mikael era barulhento, já era mais quieto. Os dois combinavam por tocarem guitarra e gostarem de farrear. Por mais que eu só tenha ficado amiga de Mikael depois que ele entrou para a minha banda, eu os observava de longe na escola. Sempre cercados de pessoas, matando aulas para ficar de bobeira e destruindo corações. Quando começou a namorar a garota mais popular da escola, as outras a invejavam, só sabiam falar daquilo no banheiro, nas salas de aula e no ginásio. Todas falavam que queriam ser a musa de um garoto que só escrevia músicas sobre temas de fantasia.
Já eu, era bem focada nos estudos e em desenvolver a minha habilidade de canto. Acabei me tornando popular por estar na banda da escola, porque todos que entravam eram respeitados. Eu fazia a voz principal do coral da banda e encontrava tocando sua guitarra vermelha por lá quatro vezes por semana. Nós fomos criados como adolescentes prodígios, eu comecei a cantar com doze anos e me lembrava de pegando em uma guitarra com quatorze. O mau disso sempre foi a competitividade, nossos professores incentivavam, dizendo o quanto éramos bons, mas só um poderia ser o destaque da semana. Chegou a um ponto que nos dedicávamos tanto que nossas fotos se revezavam semanalmente no mural de destaque, não dando lugar para mais ninguém.
Eu já nutria um certo tipo de raiva por ele ali, o garoto ficava de bobeira praticamente o dia inteiro, com exceção das aulas de prática, e tocava como se fosse o próximo Jimmy Page. Já eu, escolhia viver a música o dia inteiro e, ainda assim, perdia semanas do destaque para ele. Não nos falávamos muito nessa época, só trocávamos algumas farpas. Ele me colocou o apelido de Michelle Phillips e se espalhou feito uma praga, outra vez ele disse que eu era “certinha demais para a música” e eu disse que a guitarra era a única coisa bonita nele. Foi uma mentira, já o achava bonito naquela época, mas nunca lhe daria o gosto.
Só fomos virar inimigos declarados alguns meses antes do final do último ano, quando nós tínhamos dezoito anos. O show de talentos foi uma ideia da coordenadora da época, mas eu soube que, depois dessa primeira edição, foi cancelado. Não era para menos, foi um fiasco e parte da culpa era minha e de . Eu me preparei para o evento desde que foi anunciado que alguns representantes de gravadora estariam lá, prontos para assinar com o vencedor. se preparou na mesma medida, todos os dias só sobrava eu e ele na sala da banda. Foram tantas horas gastas a ponto de ouvir a melodia da guitarra dele me embalar antes de dormir e ver o seu rosto no escuro concentrado em cada nota. O talento dele me fazia sentir coisas que na época eu não sabia o que eram, mas, analisando agora, eu sabia que incluía muita raiva e um pouco de desejo.
Nossa rotina seguiu igual por alguns meses, até o dia do show de talentos. Eu fui a primeira candidata, no meio da apresentação meu microfone ficou mudo e foi religado mais de um minuto depois. Provavelmente quando alguém viu que estava desligado. Continuei a apresentação, mas sabia que ela fora arruinada por aquilo. Ao chegar no camarim improvisado, havia um bilhete com o meu nome em cima da bancada que dizia que a pessoa viu desligar meu microfone durante a performance. Eu chorei de ódio. Só que não poderia ficar parada, fui até a guitarra dele e mexi nos fios, ligando todos nos lugares errados. Na vez da banda dele, quando dedilhou a guitarra, não saiu som nenhum, ele precisou parar para arrumar e as pessoas ficaram impacientes, uma apresentação que era para ter durado cinco minutos, durou uns dois. Ele mal saiu do palco e eu já estava apontando o dedo na sua cara para acusá-lo, ele passou a me acusar também. Foi Mikael que me afastou dali e outro membro da banda deles afastou , porque nós estávamos aos gritos um com o outro, formando uma aglomeração de curiosos.
Nenhum de nós dois ganhou a oportunidade de gravar um disco, se quiséssemos viver da música, teria que ser da maneira difícil. E foi o que aconteceu, eu tive que começar de baixo por causa dele e vice-versa. Nós passamos a nos odiar com razão. Toda vez que ele aparecia, eu o provocava e o contrário também acontecia. Isso perdurou até os meus últimos dias na cidade, quando o vi pela última vez.
Quer dizer, última vez até os dias que antecederam o Live Aid chegarem.
Naquele momento, eu o via demais. Saí para tomar café da manhã, ele estava lá; fui dar uma volta, encontrei com ele; almocei na mesma mesa que o resto da banda e ele. Pela tarde, eu decidi colocar meu biquíni e ir tomar um sol perto da piscina. Lá estava ele tomando alguma bebida azul dentro da água. Ao me ver chegar, ele parou de falar com Mikael, mas sua boca continuou aberta como se tivesse parado no meio de uma palavra. Seus olhos estavam escondidos pelos óculos escuros, me impedindo de ver sua real expressão. Mikael passou a mão na frente do rosto dele, chamando sua atenção, enquanto eu andava até uma espreguiçadeira de bambu.
Parece que alguém se distraiu.
Interessante.
Abri o livro que estava lendo, mas não durou muito, logo Mikael veio ao meu encontro. Ele e se sentaram na espreguiçadeira ao lado.
— O que está lendo, ? — perguntou.
Mostrei o exemplar de O Cemitério que comprei no aeroporto. se esticou na espreguiçadeira, se apoiando nos braços e expondo o abdômen, que brilhou por estar molhado e iluminado pelo sol. Eu o comi com os olhos. Graças aos céus, eu também estava de óculos. Sempre me perguntei o que todas aquelas camisetas pretas escondiam, a verdade era que escondiam tesouro. Queria deslizar minhas mãos e minha língua ali, provar o gosto de sol da sua pele, mas aí lembrei que era de que eu estava falando e que o odiava com toda a minha força.
— O aqui também é fã de Stephen King. — Ele bateu no joelho do amigo.
— É mesmo? — Meu tom era de “foda-se o ”, só me dê uma foto do abdômen dele e fará minhas noites mais felizes.
— É, o livro favorito dele é Cassie.
— Carrie — corrigiu em seu tom de quem se achava superior a todos os humanos na face da Terra.
Ou talvez eu estivesse exagerando um pouquinho.
— Isso. Quem sabe vocês não conversam um pouco enquanto eu pego mais bebidas. — Mikael se levantou, me deixando sozinha de novo com aquele cara.
Nós dois sabíamos que as intenções dele não eram inocentes, ele queria que nós nos resolvêssemos. Se bem conheço meu amigo, ele tentaria sem parar.
Eu e evitamos olhar um para o outro.
— Não estou ouvindo conversa! — Mikael gritou, longe.
Rolei os olhos. Ele não voltaria enquanto nós não conversássemos.
— São bem interessantes — comentou, apontando com a cabeça. Olhei para baixo, para onde sua cabeça indicou e franzi o cenho. Ele estava falando que meus peitos eram interessantes? — Os livros do King — acrescentou.
Ah. Era só o livro que estava descansando na altura do meu estômago. Até porque não havia motivo para elogiar qualquer coisa em mim.
— São.
Meu Deus, dava para aquela conversa ficar mais sem graça?
— Você já está quase terminando.
— É, eu não só ocupo meu tempo fazendo maratona de Cheers, também leio. — Não pude resistir em trazer o que ele falou no outro dia para mim. Talvez eu tenha começado dessa vez.
— Eu sei que você gosta de ler, te via com o nariz enfiado em livros pela escola quase todos os dias.
— E eu te via com a língua enfiada na boca de garotas todos os dias.
Ele voltou a se sentar com a postura normal.
— Você me observava, ?
— E você me observava?
— Sim. — Eu arqueei as sobrancelhas, surpresa com ele admitindo. — Como diz aquele ditado: mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda.
— Eu te observava porque era impossível fazer o contrário, você chamava atenção como se carregasse uma melancia na cabeça.
Ele sorriu.
— E você estava bem interessada nessa melancia, a ponto de olhar tão fixamente e ver minha língua na boca de outra pessoa.
— Todos viam — resmunguei.
— Inclusive a certinha da .
A minha vontade era de atirar o livro nele, mas eu dava muito valor em um livro para o acertar em . Ele sabia o quanto eu odiava ser chamada daquilo.
— Você gostava de observar porque o errado era atraente. Era o máximo que você teve coragem de chegar perto de algo proibido durante muito tempo.
Franzi os lábios. Me doía reconhecer que ele estava certo. Eu não tive coragem de beijar ninguém até o último ano da escola, por isso ficava olhando se enroscar com garotas pelos corredores.
— Quem é você, por acaso? Meu terapeuta?
Guardei o livro na bolsa atrás da espreguiçadeira para não atrapalhar meu sol.
— Só alguém que te observava de perto.
Ele se levantou, largou os óculos na espreguiçadeira e foi em direção à piscina, mergulhando na água em uma bala de canhão e me molhando inteira.
— Filho da puta! — gritei, tentando me secar.
Ouvi sua risada alta antes que ele voltasse a imergir.
— O que houve? — Mikael chegou, equilibrando três copos na mão e no braço.
— Seu amigo é um ser desprezível, isso que aconteceu — rosnei.
— ...
— Olha, nem começa. É impossível manter uma conversa com alguém tão insolente, irritante, petulante e metido!
— Acabou com os adjetivos? — perguntou da borda da piscina.
Mikael passou um copo para ele com bebida azul.
— Tem muito mais de onde esses vieram — falei entredentes.
— Eu também tenho alguns para você. Santa, virtuosa, pura, casta, certinha.
— Ora, seu...
Só vi Mikael jogando a mão que não estava imobilizada para o alto ao meu lado.
— Vocês são impossíveis. Im-pos-sí-veis — ralhou. — Não vão deixar nunca de implicar um com o outro por causa de algo que aconteceu há mais de seis anos?
— Não — respondemos em uníssono.
— Duas crianças — resmungou e foi embora, deixando nós dois com cara de tacho.
Me sentei, preparando para ir atrás dele.
— Deixa que eu vou — disse enquanto se apoiava na borda e saía da piscina.
O jeito que a água fazia o tecido do short marcar seu contorno me deixou sem palavras, só continuei observando a parte de trás do seu corpo de maneira faminta.
Eu precisava dormir com alguém urgentemente.
— Que coincidência — comentou Per.
— Eu te chamei no seu bangalô, mas você não atendeu — disse Astrid.
— Acho que ouvi mesmo algo quando estava tomando banho.
Olhei para Oscar e ele já estava se atracando com o garoto que estava em seu abraço.
Nós jogamos conversa fora por alguns minutos, até que Per e Astrid começaram a se beijar do absoluto nada. Eu e não sabíamos onde enfiar a cara.
— Quer dançar? — convidou ele.
Com ele? Não. Porém eu faria qualquer coisa para parar de ser vela de dois casais.
— Quero.
Assim que pisamos na pista, começou Love Ain’t No Stranger do Whitesnake. Me virei para ficar de frente para ele. Nós dois estávamos tão envergonhados que era quase palpável no ar. Alguém esbarrou nele, fazendo-o dar o passo que nos separava e colar nossos corpos. Eu ofeguei ao senti-lo contra mim. Seus olhos encontraram os meus e suas mãos foram até minha cintura. A hesitação dando lugar a outra coisa. Segurei os ombros dele para balançarmos ao som da música. A última vez que me lembrava de ter ficado tão perto dele foi quando apontei o dedo na sua cara no show de talentos, mas não tive a oportunidade de parar para sentir que o seu corpo era rijo nos lugares certos a ponto de fazer o meu acender. Ele me encarava quase sem piscar.
— Onde está Mikael? — perguntei, tentando driblar o turbilhão de sensações no meu interior.
— Está na pousada, provavelmente bolando algum plano maléfico para que deixemos de nos odiar.
Não resisti e soltei uma risada. também riu. Rir juntos foi o mais perto de amigável um com o outro que chegamos naqueles dias, até os apertos de mãos foram munidos de ódio.
— É bem a cara dele mesmo. Ele vai ter enlouquecido até o Live Aid.
— Eu também. — Tive a impressão de que aquela frase escapou.
Sorri de lado. Ele tinha razão, eu o iria enlouquecer de todas as formas possíveis, assim como ele estava fazendo comigo. Me livrei das mãos dele e virei, ficando com a parte de trás colada nele. A música foi trocada para Eyes Without A Face do Billy Idol. Comecei a mexer os quadris e deslizar as mãos pelo meu corpo. Senti seu toque firme na minha cintura me arrastar para mais perto, colando minha bunda nele. Movi a cabeça e percebi o quanto ele estava perto, sua respiração ofegante batia na minha bochecha enquanto me fitava.
— Eu sei o que está fazendo — disse.
E eu não poderia me importar menos.
— Such a human waste… — cantei, continuando a mexer meus quadris.
Ele rosnou e senti algo despontar na sua calça. Aquilo foi tão fácil... Me esfreguei com vontade contra a sua braguilha, sentindo-o corresponder quase que instantaneamente.
— Merda, merda, merda. — O ouvi murmurar. Seus olhos estavam fechados, mas ele começou a pressionar a pelve.
Puxei o ar de uma vez só. Eu estava excitada para caralho, só que precisava reagir. Me forcei a virar.
— Está tão desesperado a ponto de ficar assim por mim? — zombei.
Ele pareceu se recuperar na velocidade da luz pelo sorriso ladino que me lançou.
— Assim como, ? — Arqueou uma sobrancelha, me desafiando a dizer em voz alta.
Eu não era mais aquela garota inocente de dezoito anos, conseguia dizer obscenidades para . Era o que eu repetia mentalmente ao me aproximar ainda mais dele, ficando nariz com nariz e o sentindo rígido na minha barriga.
— Com o pau tão duro que poderia levantar meu vestido e me comer aqui mesmo — falei de maneira bem lenta e fiquei surpresa com o que saiu.
Ele deu um passo para a frente e fui obrigada a dar um para trás até estar imprensada contra uma pilastra.
— É isso que você quer? — sussurrou. — Que eu te leve para o banheiro e te foda de um jeito que ninguém nunca fodeu?
Sorri. Ele era tão cheio de si...
— Eu não transaria com você nem se fosse o último homem do mundo. — Foi como se tivesse dado um tapa na cara dele e o acordado para a realidade. — Agora, me dê licença que quero sair daqui com alguém esta noite.
Ele saiu da minha frente. Seus olhos estavam injetados de luxúria.
— Te vejo amanhã no ensaio — falei.
E dei as costas.
Acabei voltando sozinha para o meu bangalô, sem, ao menos, ter olhado para outra pessoa. Pensei em sem parar, a ponto de ficar com insônia. Achava que tinha ido longe demais em provocá-lo daquela forma. Nós mal havíamos nos tocado antes e eu me esfreguei nele daquela forma... Céus, o pior era não conseguir tirar da minha cabeça a sensação. Senti alívio em saber que ele me correspondia, que eu não estava sozinha, e mais excitada do que estive em um bom tempo. Tive que apertar as coxas várias vezes uma contra a outra enquanto olhava para o teto e repassava a cena na minha cabeça. Quando o sol apareceu, eu estava tomando um banho frio para me acalmar.
Encontrei com Astrid e Per no restaurante, tomamos café juntos e decidimos dividir um táxi até o local do ensaio. Tivemos que ficar esperando os três por mais de uma hora.
— Bom dia! — gritou Per quando eles apareceram. Mikael passou por ele e levou um pescotapa. — ‘Tá achando que é urso para hibernar, porra?
— O Oscar expulsou a gente do quarto para transar, tivemos que dormir nas espreguiçadeiras — respondeu e, em seguida, bocejou.
Eu e Astrid seguramos o riso. tirou a guitarra do case e Oscar, o baixo.
— Eu deixei vocês ficarem lá, vocês que não quiseram.
— Dispenso — disse , mais mal-humorado do que o normal.
Tinha minhas desconfianças de que o motivo dele era o mesmo que o meu.
Per, Astrid e eu nos levantamos, deixando o lugar vago para Mikael. Ajustei o suporte do microfone enquanto o resto da banda terminava de se arrumar. se posicionou à minha direita e só o cheiro dele mexia com meus hormônios. O frescor de limpeza que seu cabelo emanava a cada vez que ele se movia e o couro da sua calça justa pareciam o maior afrodisíaco já produzidos. Me lembrei das suas mãos na minha cintura, por cima do tecido fino do vestido...
— ? — Ouvi Astrid me chamar.
— Sim?
— Podemos começar?
— Claro! — Me forcei a sorrir e apagar aqueles pensamentos da cabeça para trabalhar.
O ensaio começou sem incidentes, o volume do amplificador de estava aceitável, mas percebi que ele tocava como se estivesse dentro de uma cúpula, só ele e a guitarra vermelha. No final da quarta música, eu me irritei.
— Será que dá para tocar junto com a banda? — ralhei.
Ele me encarou.
— Como assim?
— Você está tocando em um ritmo próprio.
— Não estou, não.
— Lá vamos nós — resmungou Mikael.
— Deixa, cara. É nossa dose de diversão gratuita, isso daqui é melhor do que novela — disse Per, sorrindo.
Ignorei-os.
— Parece que só tem você e a sua guitarra nessa sala, nós não existimos.
— E daí?
Grunhi. Discutir com ele era tão frustrante.
— Por que você não pode ser como o Mikael? Você veio aqui para o substituir.
Ele ficou ainda mais carrancudo.
— Eu sou um guitarrista solo, amor. Você sabe a diferença entre a guitarra base e a guitarra solo? — Olhei-o com raiva, sem entender aonde ele queria chegar. — É minha função dar graça para a música.
— Já te falei que você não está tocando metal. Isso daqui é pop rock das rádios, não tem guitarra solo ou... sei lá, gutural.
Bufou.
— Você não sabe nem o que é gutural?
Peguei o microfone e fiz um “Blegh” usando o gutural. Todos ficaram espantados com o som que saiu da minha garganta, era sujo e agressivo. Essa era uma técnica pouco usada ainda, mas eu sabia de umas bandas estadunidenses que estavam começando a utilizar e aprendi por curiosidade.
O importante era que consegui calar a boca de . Ele me observava impressionado.
Me virei para encará-lo.
— Não que eu precise provar nada para você, amor. — Caminhei até a saída e esbarrei em Brian, que olhava nossa interação com admiração. — Isso não vai dar certo — avisei.
— Eu já penso o contrário — sorriu.
Astrid e eu estávamos conversando na área de convivência com dois fãs quando Oscar apareceu. Eles tiveram um momento com ele antes de sermos conduzidas para o quarto dos garotos.
— O que estamos fazendo aqui?
— Reunião — explicou. — Brian nos mandou decidir qual música a banda vai tocar no Live Aid, ele precisa informar à produção do show.
saiu do banheiro vestido em uma calça jeans azul, o cabelo pingava pelo peitoral nu. Se era possível salivar por alguém, poderia dizer que nas duas vezes que o vi sem camisa eu o fiz.
Ele é tão lindo quanto é irritante.
— O que está acontecendo? — perguntou.
Oscar deu a mesma informação para ele. Mikael e Per haviam saído para comprar bebida, mas entraram pela porta poucos minutos depois de nós. A reunião em si durou pouco tempo, só precisávamos decidir entre uma das músicas que mais faziam sucesso e parecia que todos já tinham a mesma em mente. Só tinha um problema: a música possuía oito minutos de duração e nós tínhamos três por causa do tamanho da próxima. sugeriu tentarmos ensaiar cortando uma parte diferente cada vez, para ver qual ficaria mais harmoniosa. Então, ficou temporariamente decidido daquela forma.
— Tem um pessoal esperando na área da piscina para jogarmos verdade ou consequência, topam? — perguntou Mikael.
Por que não?
— Eu topo — falei.
Senti os olhos de em mim.
— Eu também — disse ele.
Pressionei o maxilar. A impressão que eu tive foi que a resposta dele dependeu totalmente da minha.
Oscar riu.
— Pode me incluir nessa.
Fizemos um círculo perto da piscina. Per e Astrid decidiram não participar, apenas ficaram enroscados em uma das espreguiçadeiras. A garrafa vazia de cerveja girou, parando em dois desconhecidos, um desafiou o outro a se jogar na piscina de roupa íntima. Em seguida, a garrafa caiu em uma garota e Mikael, que o desafiou a passar dez minutos sozinho com ela. Ele foi feliz da vida. No decorrer do jogo, Oscar estava bêbado depois de virar uma garrafa de cerveja em troca da verdade, Mikael nunca mais voltou dos dez minutos e os outros estavam mais animados que o normal. Eu ria muito das verdades que as pessoas soltavam, até que a garrafa caiu em Oscar e em mim. Sabia que ele ia me sacanear, mas achei que seria algo como correr ao redor da pousada ou beijar algum dos desconhecidos.
— Vocês dois na sauna. — Seu dedo apontou para mim e . — Você só pode sair quando trocar algo íntimo com ele, um beijo ou algo a mais...
Eu odiava Oscar com todas as minhas forças. Ele não sabia nem mais do que estava falando. Algo íntimo? De onde ele tirou isso?
— Não — falei.
— Ah, qual é! É o jogo, você escolheu consequência!
— Eu mudo. Falo a verdade que você quiser agora.
— Não pode mudar ou perde a graça. — Ele começou a bater palmas. — ! ! !
Os outros começaram a gritar meu nome e bater palmas bem alto. Meu rosto esquentou. se levantou e deu a volta no círculo, parando ao meu lado. Ele ofereceu a mão para me ajudar a levantar e eu aceitei. No momento, ele parecia a única pessoa que me entendia enquanto um bando de bêbados gritava meu nome para me incentivar, afinal, ele também estava fodido.
Fomos até a sauna, seguidos por Oscar e outro garoto, eles fecharam a porta atrás de nós. Me perguntei se ficariam de olho com o jogo continuando a rolar, nós poderíamos fugir se fôssemos cuidadosos...
Abri mais um pouco a porta e dei de cara com o garoto sentado no banco ao lado, de vigia. Oscar era muito esperto.
— Tem uma pessoa ali ouvindo tudo — falei para , apontando com a cabeça.
Ele rolou os olhos. Não dava nem para fingir que estávamos nos beijando, eu não sabia como era imitar o barulho de um beijo.
— Vamos esperar eles se cansarem e nos esquecerem aqui — sugeriu.
É, eu podia fazer isso.
Ele se sentou nas elevações da sauna e eu me encostei na parede perto da porta.
— Te vi voltando sozinha ontem à noite.
Claro que ele ia começar torrando minha paciência.
— E no que isso lhe diz respeito? — perguntei, já sentindo a irritação tomar conta do meu corpo.
— Ah, nada. Só achei que você quisesse sair da casa de dança com alguém.
— Eu saí.
Você me acompanhou o caminho inteiro, inclusive até a minha cama.
— Você chegou logo depois de mim. O cara tinha superpoderes? Porque ele não deveria nem ser precoce, ele deveria ser ultraveloz.
— Qual é o propósito dessa conversa? Ressentimento por ter deixado você daquele... jeito?
— Que jeito? — Ele se levantou e se aproximou. — Com tanto tesão a ponto de me trancar no banheiro sozinho?
Senti minhas bochechas corarem. Ele usava aquele linguajar para me envergonhar, mas eu não bambearia.
— É por isso que você está parecendo que pisaram no seu dedinho? Por que você teve que bater uma pensando em mim?
Ele sorriu.
— Eu posso até ter ido pelo que fez comigo, mas não pensei em você.
Sério que ele queria mandar essa?
— Claro, vou fingir que acredito.
— Nem tudo é sobre você, . Alguém já te disse isso?
Comecei a andar, rodeando-o.
— Nem tudo, mas isso é.
— E qual o propósito dessa conversa? Alimentar seu ego? — Ele se virou para me olhar.
— Você admite que me deseja e eu tiro a gente daqui.
Eu tinha um plano, mas não poderia fazer nada sem o escutar dizendo aquilo porque se fosse mesmo só reação à provocação do dia anterior, seria invadir o espaço dele de novo.
— Prefiro apodrecer aqui.
— Tudo bem, mas tenha em mente que você vai apodrecer comigo.
Ele deu de ombros. O calor estava nos fazendo transpirar e a umidade, nos molhando. Só vi suas mãos agarrarem a barra da camiseta preta e tirarem antes que pudesse me preparar. Lá estava ele, com o tronco exposto novamente. O jeito que a calça pendia na sua cintura... Porra... Olhar para aquilo deveria ser proibido.
Eu estava hipnotizada, o via colocar a camiseta no ombro e, em seguida, prender o cabelo.
— O quê? — perguntou.
— Nada.
— Você está me encarando.
— Não tem muito o que olhar aqui, é uma sauna.
E eu precisava sair dela para pegar um ar, antes de fazer algo que me deixasse com peso na consciência de novo.
Bati na porta e o garoto abriu. Falei que precisava ir ao banheiro e passei uns três minutos lá pensando que ver sem camisa já era golpe baixo, mas molhado preso dentro de uma sauna? Isso era um nível diferente.
Retornei à sauna com o plano dentro do bolso, só para o caso de ele mudar de ideia. Ele estava largado de olhos fechados nas elevações. Decidi que era melhor permanecer encostada na parede ao lado da porta para o meu próprio bem.
— Como você pretende nos tirar daqui? — perguntou.
— Não posso dizer, se você não admitir.
Ele abriu os olhos e cruzou os braços, irritado.
— Sério que você quer estender isso por mais tempo?
— Tenho meus motivos.
— Que são...?
Suspirei e o ar úmido invadiu meus pulmões, começando a incomodar. Talvez eu devesse ser sincera, porque, se dependesse só da boa vontade dele, nós iríamos mesmo apodrecer ali. Me sentei ao seu lado.
— Eu vacilei ontem em te provocar daquela forma. — Ele ajeitou a postura e me olhou, intrigado. — Não sabia se você também me queria, então optei por não fazer mais nenhum avanço daquele tipo, se você não me der o aval.
Sua mão cobriu a minha, me surpreendendo.
— Está tudo bem — disse. — Eu gostei.
— Então quer dizer que você me deseja? — Olhei-o nos olhos. Nós estávamos tão perto que eu podia contar as pintinhas da sua íris.
— Quer dizer que você pode adicionar isso à sua lista gigante de provocações que me tiram do sério — sorriu.
Aquilo servia. Quis respirar com alívio, mas aquele ar carregado de umidade não deixaria. Nós estávamos parecendo que passamos pela chuva, mas, ao invés de estarmos com cheiro de cachorro molhado, cheirávamos a pinho.
— Certo. Então, eu acho que sei como driblar o que Oscar pediu. — Me virei para ele. — Você precisa trocar algum objeto íntimo comigo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Pode ser qualquer coisa, me dê uma meia.
— Não vou te dar uma meia — seu tom era de ultraje, como se a ideia fosse absurda.
Ele afastou o rabo de cavalo, revelando uma corrente dourada que eu não havia notado. O pingente era uma pequena guitarra. Ele a tirou e indicou com a cabeça para que eu me virasse para colocar em mim.
— Tem certeza? — perguntei, girando o tronco. O objeto parecia ter um significado especial.
— Tenho, isso é a primeira coisa que eu penso quando me pede algo íntimo.
Senti seus dedos afastarem meu cabelo, meus músculos ficaram rígidos na mesma hora. Quando eles rasparam minha pele, eu senti uma onda de fogo começar no local e se espalhar pelo resto do corpo.
— Eu te devolvo quando sairmos daqui. — Minha voz saiu falhada, nem sabia se ele tinha me escutado.
Ele voltou o cabelo para o lugar. Toquei o pingente, sentindo-o nos dedos. Meu objeto parecia ridículo perto daquilo, pensei se eu deveria mesmo entregar.
— E onde está o seu?
Levantei de supetão. Por que fiz aquilo? Nem eu mesma sabia explicar.
— Eu não estou usando meias.
Nem uma calcinha.
— Como você espera que troquemos se você não tem nada para me dar?
— Eu tenho algo para dar, mas parece de mau gosto te dar em troca do colar — retruquei.
— Você carrega um dente ou uma mecha de cabelo de um ex-namorado?
— É claro que não!
Que absurdo era aquele?
— Uma aliança?
— Não... — Pensei em todas as minhas alianças de compromisso que foram devolvidas aos respectivos namorados. — Céus, não.
— Estou sem ideias.
Fechei os olhos, tentando pensar em qualquer outra coisa para dar. Ele tocou a minha mão e eu voltei a abrir as pálpebras para fitá-lo.
— Vamos lá, não tem nada que possa me dar que seja pior do que esses itens.
— Você não sabe — resmunguei.
— Nem você, porque prefere ficar discutindo a tentar.
— É, prefiro. O que é que tem?
— Será que você pode parar de ser cabeça-dura por um momento?
— E você não pode parar de ser irritante?
— Eu estou sendo irritante? Você está nos segurando aqui e você começou a discutir comigo, mas o irritante sou eu.
Arranquei o pedaço de tecido do bolso e joguei no peito dele.
Ele segurou a calcinha, em choque.
— Faça bom proveito.
Saí pela porta. O garoto e todos haviam sumido.
— Achei que já tinha ido dormir, linda — disse Mikael, me abraçando de lado e depositando um beijo no topo da minha cabeça.
Por que ele estava tão carinhoso? O que ele queria?
— Estava indo agora. — Olhei afofar o travesseiro. — Foram expulsos de novo?
— foi, mas eu só passei para pegar uma coisa e estou voltando para o quarto da garota de antes.
— Entendi — falei. — Bom, estou indo, então.
— Espera. — Ele pegou minha mão. — Você não tem dó desse coitado? O sol está nascendo cedo e tem hóspedes às sete na piscina.
Honestamente? Não.
— Onde você quer chegar, Mikael? — perguntei, sem paciência.
— Oscar me contou que vocês passaram um tempo conversando na sauna. — Ele abriu o maior sorrisão. — Já que vocês se conhecem mais um pouco, você poderia o chamar para dormir no seu bangalô.
Eu comecei a rir.
— Deu para contar piadas agora?
— É sério, . É uma merda dormir nessas espreguiçadeiras, ainda mais sozinho. — Ele fez um bico que eu não resistia. — Por favorzinho?
O que ele não me pedia sorrindo que eu não fazia chorando?
— ‘Tá, mas só essa noite.
Ele me deu um beijo na bochecha.
— Obrigado.
se levantou, levando o lençol e o travesseiro. Agora que eu havia percebido que ele estava de pijama, uma calça de flanela xadrez e outra camiseta preta. Até em pijamas, ele conseguia ficar irresistível.
Mikael nos deixou na minha porta. Fui a primeira a entrar, mas ouvi a voz de dizer:
— Você me paga.
— De nada, maninho — Mikael respondeu.
Ele passou e fechou a porta. Antes que pudéssemos nos encarar, entrei no banheiro. Eu não podia transparecer que estava morrendo de vergonha, não mesmo. Tomei um banho rápido e escovei os dentes. Respirei fundo, tomando coragem antes de girar a maçaneta.
estava acomodado no sofá, faltava espaço para suas longas pernas e elas pendiam no ar. Ele se virou e me viu sair quase de fininho para não chamar sua atenção. Pega no flagra. Ótimo começo, . Fingi que nada aconteceu e continuei meu caminho para o interruptor. Conseguia sentir seus olhos em mim, acompanhando cada movimento.
— Perdeu alguma coisa aqui? — perguntei, me virando antes de apagar as luzes.
— Você que perdeu aqui. — Apontou para o seu peito. — A sua calcinha.
Droga.
— Eu não queria dar, você que insistiu. — Fiquei impressionada por estar conseguindo argumentar, meu rosto estava pegando fogo.
— Acha mesmo que eu não gostei? — Soltou uma risada baixa e sensual que me fez arrepiar até o último fio de cabelo. Ele enfiou a mão do bolso e exibiu o pedaço de pano. — Não quis nem deixar no quarto, para o caso de Mikael ou Oscar encontrarem.
Sorri de lado. Eu pensei que não tinha gostado depois de me emprestar o colar e, principalmente, porque joguei nele quando discutimos.
— Você é um safado. — Apaguei as luzes.
— E tem certeza de que quer ficar no escuro comigo?
— O que você poderia fazer? — desafiei-o.
— Ah, ... — disse naquele tom baixo, provocante. — Coisas que acho que a sua mente não imaginaria.
— Eu não sou mais aquela garota, — murmurei. — Experimenta.
— Começaria arrancando esse seu maldito pijama para te carregar para a cama e provar você até saber se o seu gosto é tão delicioso quanto o cheiro. Na verdade, eu só pararia mesmo quando implorasse para tirar minha cabeça do meio das suas pernas.
Pressionei minhas coxas, imaginando a cena.
— E o que mais?
— Te viraria e empinaria essa sua bunda gostosa... — Ele se interrompeu. — Quer mesmo ouvir o resto?
Ofeguei.
— Fala.
— Meteria tão fundo em você que se lembraria toda vez que pensasse em ser malcriada comigo.
Puta merda.
— Tem mais?
— Tem muito mais, mas é melhor guardar o resto só para mim, já que você me despreza tanto a ponto de dizer que não transaria comigo nem se eu fosse o último homem do planeta.
Eu não queria que ele guardasse, queria que falasse tudo e muito mais.
— Tem razão — me vi dizendo.
Andei até a cama e me deitei. Passou alguns minutos de silêncio em que fiquei olhando para o teto.
— ? — arrisquei para ver se ele estava acordado.
— Sim?
— Por que você não dorme com alguém, assim como os outros meninos?
— A pessoa que eu quero não me dá bola. — Ouvi ele se mexer. — E você?
— Acho que estou nessa também — falei. — Era só isso. Boa noite.
— Boa noite, .
No outro dia, acordei sozinha. Ele deveria ter saído bem cedo, o relógio de cabeceira ainda indicava sete horas da manhã. Me arrumei devagar, ainda sonolenta. Eu não havia descansado o suficiente para compensar a noite insone. Tomei café no restaurante e parti para o ensaio. Fiquei me perguntando se os outros acordariam, já que a farra da noite anterior havia sido boa.
Quando cheguei, Brian esperava para me levar até a outra sala. A primeira coisa que me chamou atenção foi o piano e, depois, . Ele afinava a guitarra.
— Onde estão os outros? — perguntei para Brian, passando os dedos pelo tampo do piano.
— Dei folga para eles. Hoje é dia de começar a alinhar a música que vocês vão tocar juntos.
Eu e trabalhando juntos... Sozinhos.... Aquilo não ia mesmo dar certo.
Me sentei no banco, perto dele, que estava sentado em uma cadeira com a guitarra no colo. Levantei a tampa para iniciar.
— Você ouviu a música? — Ele negou. — Vou tocar para você.
Dedilhei as teclas. Eu compus aquela música depois de ler Orgulho e Preconceito da Jane Austen pela quarta vez. Ela falava sobre duas pessoas que se amavam e desejavam intensamente, mas não davam o braço a torcer. Brian deveria ter achado que seria puro entretenimento colocar dois inimigos para performar essa em específico.
Já eu, não estava achando a menor graça.
Gostava de colocar todo o meu esforço para tocar e cantar aquela música porque era uma das únicas da banda em que a composição pertencia exclusivamente a mim. Não via e agradecia por isso, ou eu me perderia nos detalhes dele e erraria as notas.
Ao terminar, ele me olhava mais impressionado do que quando fiz o gutural.
— O que acha?
— É uma música legal. Você que compôs?
Assenti.
— Você acha que vai ser fácil de acompanhar?
— Talvez. Vai precisar de pequenas alterações para funcionar.
— Tudo bem.
Focamos em trabalhar por horas, até almoçamos ali mesmo. Se continuasse assim, tudo seria perfeito. Não houve briga, nem discussão. Nós alinhávamos bem. Até que a assistente de Brian entrou na sala e tirou toda a atenção de .
Ela me cumprimentou e virou para ele depois.
— Como está o homem mais bonito do mundo? — perguntou, sorrindo.
— Que isso, Debbie. — Ele estava corado! — Eu não seria o cara mais bonito nem se só tivesse eu na sala.
— Deixa de ser modesto, lindo. — Ela passou os braços pelo pescoço dele, abraçando-o. Ele meio que foi engolido pelo senhor decote da blusa dela. Minha nossa, eu queria ter peitos como aqueles.
— Estou melhor agora. — O cafajeste ainda teve a cara de pau de sorrir de lado. — Como você está?
— Ah, na mesma. Muito trabalho, pouca diversão. Acho que vou ter que começar a misturar os dois.
Ele acariciou o pulso dela, eu senti um calafrio percorrer minha espinha e imediatamente fiquei mal-humorada.
— Me parece uma boa solução.
Tentei focar na partitura na minha mão, mas o máximo que consegui foi fingir.
— Vejo você esta noite? — Ele largou o pulso dela e concordou com a cabeça. — Ótimo.
Ela recolheu os braços e se abaixou para estalar um beijo na bochecha dele.
De todos os pensamentos que iam e vinham no momento, o que prevalecia era que ele poderia ter falado ontem que tinha um encontro marcado com alguém. Então, havia duas pessoas, ela e uma outra pessoa que não dava moral para ele. Por que eu estava surpresa? Ele era realmente bonito, chamava atenção.
Ela foi rebolando até a porta.
— Tchau, .
Eu existia agora.
Acenei para ela. A culpa do meu mau humor não era dela, era de . Ele que perdeu toda a atenção para ficar flertando. Fora que ele não havia sido sincero na noite anterior. Mas o que eu poderia esperar de alguém que jurava não estar por trás do fiasco da minha apresentação no show de talentos?
Ela saiu pelo corredor e ele acompanhou seus passos com os olhos.
— Será que dá para você focar aqui? — perguntei de maneira irritada.
— Achei que íamos dar uma pausa.
Íamos.
— Não tem tempo para isso, o show está quase aí e nós não temos praticamente nada.
— Por que a pressa de repente?
— Você não escutou? Eu disse que nós estamos ficando para trás.
— Ainda falta uns bons dias... — Ele semicerrou os olhos. — E você não estava tão preocupada minutos atrás.
— Porque você estava atento. Agora, teremos que começar a nos concentrar de novo e vai atrasar tudo. — Minha voz saiu fina demais de frustração e algo a mais.
— Ok, ok. Como quiser.
Nós voltamos ao trabalho, mas não conseguimos alinhar mais. Ele não me entendia, não me acompanhava. Fora que eu estava muito irritada e ele acabou ficando também.
— Tenta assim. — Fiz no piano. Ele tentou imitar, mas estava no tom errado. — Meu Deus, . Onde está sua cabeça?
— No mesmo lugar que seu bom humor — resmungou. — Cacete, . Você não acha que está sendo muito exigente? Nós começamos hoje.
— Você está com pressa para se livrar de mim e ir para o seu encontro com a Debbie? — zombei.
Seus olhos mudaram. Não soube dizer o que ele sabia, mas de algo ele sabia.
— No que te diz respeito o que eu vou fazer hoje à noite? — Arqueou uma sobrancelha.
— Tudo! Está atrapalhando seu rendimento. Você está viajando desde que ela apareceu aqui e pôs essa sua cabeça oca no decote dela! — me exaltei.
Ele soltou uma risada sarcástica.
— Parece até que você está com ciúmes.
Ciúmes?!
Foi a minha vez de soltar a risada.
— De você? — ironizei. — Caso você tenha se esquecido, eu te odeio.
— O seu problema é que você me quer para si, para odiar, para provocar... Para fazer o que quiser. Ou não estaria tão mal-humorada depois que a Debbie apareceu — falou como se tivesse descoberto uma fórmula mágica.
— Eu não quero você para porcaria nenhuma além de fins profissionais. — Cruzei os braços. — Na verdade, eu poderia muito bem tocar essa música sozinha.
— A princesa acha que tudo e todos giram em torno do umbigo dela. — Ele bufou. — E, aliás, é a única que tem um bangalô só para ela, os outros dormem juntos. Essa banda deveria se chamar e os Love Bites.
Senti meu corpo arder de raiva.
— Já parou para pensar que Oscar e Mikael são dois homens e Astrid e Per são um casal?! Eu sobrei nessa divisão. — Me levantei. — É claro que você teria concluído isso, se estivesse pensando com a cabeça certa desde que ela apareceu.
Me desvencilhei do banco.
— Aonde você vai?
— Embora. Isso daqui não vai resultar em nada mesmo — resmunguei.
— ...
— Você poderia ter sido sincero comigo ontem, pelo menos. Dizer que iria se encontrar com alguém hoje — cortei-o. Ele não disse nada e o silêncio incomodou. — Esteja aqui nove da manhã amanhã.
Assisti ao episódio novo de Cheers comendo no quarto naquela noite. Tentei dormir, mas a briga com me deixou muito desperta para sequer fechar os olhos. Fui até o jardim e encontrei Mikael fumando. Ele parecia ter acabado de chegar de algum lugar pelas suas roupas. Abracei-o e senti o cheiro de perfume.
— Bonito e cheiroso — elogiei. — Estava onde?
— Em um encontro.
Meu abraço até murchou. Mais um em um encontro, enquanto eu só conseguia pensar no meu inimigo.
Patética.
— Sério? — Ele assentiu. — E como foi?
— Foi um encontro duplo, eu, , Debbie e uma amiga dela.
Já me arrependia de ter perguntado, mas não podia mais voltar atrás.
— Ah, que ótimo. O estava junto. — Larguei-o enquanto rolava os olhos.
— Na verdade, ele que convenceu Debbie a sair comigo. — Ele tragou o cigarro.
— Por que ele estava a fim da amiga dela? — tentei adivinhar.
— Não, ela disse que só iria se saísse com a amiga dela. — Arqueei as sobrancelhas, surpresa com a atitude de . — Sabe, vocês têm uma visão muito deturpada um do outro. Só imaginam o pior, isso é horrível.
— Tenho culpa se ele faz jus ao apelido dele? — reclamei como uma criança.
Mikael não resistiu e riu. Eu acabei transformando a cara feia em um sorriso com a risada dele. O vento soprou meu cabelo para trás dos ombros, chamando a atenção dele para o meu colo.
— Esse é o colar dele?
Toquei o pingente de guitarra.
— É. O Oscar disse que precisávamos trocar algo íntimo e ele me deu isso.
Ele assobiou.
— Isso significa muito para ele. É uma miniatura da guitarra. Ele não tira isso por nada desde os quinze anos depois de juntar meses de mesada para mandar fazer.
Minha nossa, era um objeto especial para ele e esqueci totalmente de devolver. Ele deveria estar sem graça de falar que queria de volta.
— Eu... Eu me esqueci de devolver — justifiquei.
O garoto à minha frente parecia exultante.
— Para ele ter tirado do pescoço e ter te emprestado, você deve significar mais do que imagina.
Semicerrei os olhos.
— Não exagera, Mikael.
— A vida seria mais fácil se vocês me dessem ouvidos. — Apagou a bituca na lixeira e beijou o topo da minha cabeça. — Boa noite.
— Boa noite.
Depois que ele saiu, passei alguns minutos só admirando o céu estrelado e as flores. Até que ouvi risadinhas conhecidas. A curiosidade me consumiu e eu me embrenhei nos galhos para ver a quem pertenciam. estava sentado em um banco e conversava com uma garota. Havia duas possibilidades: ela era a amiga da Debbie ou a garota que não dava bola para ele. Sempre havia a possibilidade de ser apenas uma garota conversando com um garoto, mas eu não apostava nessa; não era interessante o bastante para observar escondida.
Quando ele estava comigo, franzia o cenho com frequência. Já ali, ele sorria de maneira relaxada. Eu poderia compor músicas inteiras sobre aquele sorriso e, ainda assim, não estaria satisfeita. Talvez eu só me satisfizesse mesmo se ele me desse um daqueles para guardar na memória como algo meu. Imaginei que ela contava alguma história envolvente, pois colocou a mão no joelho dele e deu uma leve apertada. Ele assentia, incentivando-a a continuar a falar.
Um vagalume passou pelo meu rosto, tentei espantá-lo, mas ele pousou no meu cabelo. Comecei me descabelando para tentar tirar o inseto e terminei perdendo o equilíbrio e caindo para a frente.
Ótimo. Era o preço a se pagar por ser curiosa.
Senti mãos grandes me pegarem pelos braços e me ajudarem a levantar.
— Você está bem? — perguntou , me analisando.
— Tinha um vagalume no meu cabelo — fui logo me justificando.
Ele olhou para um ponto na minha cabeça e esticou a mão para tocar. Quis fechar os olhos ao sentir seu toque, mas durou pouco. No outro segundo, ele já estava com o inseto brilhando na ponta dos dedos. Aproximei minhas mãos em formato de concha para que ele colocasse o vagalume e o libertei pelo jardim. Quando virei, me olhava. Não só olhava, era como se me visse por inteira.
— O que você estava fazendo no meio do arbusto?
O que eu poderia estar fazendo àquela hora ali, se não estivesse bisbilhotando?
— Estava dando uma volta.
Ele bufou e soltou uma risadinha.
— No meio do arbusto? — repetiu, sem acreditar.
Pensa rápido, pensa rápido.
— Me perdi.
— Se você está dizendo...
Sustentei a pose para parecer convincente, mas eu me sentia nua com aqueles olhos em mim. Ele mexeu no cabelo, me permitindo ver que não havia mais ninguém atrás.
— Você estava conversando com alguém? — perguntei, me fingindo de desentendida.
— Estava.
— Eu interrompi?
Negou.
— Ela já precisava ir embora de qualquer maneira. — Ele coçou a nuca. O clima ficou estranho porque nós brigamos mais uma vez antes de nos encontrar. Os dias seriam assim? Uma briga e um encontro. Aquilo era cansativo, preferia só brigar com ele. — Não conseguiu dormir?
Concordei com a cabeça, notando que dali a uma hora o sol deveria começar a dar as caras.
— Sei que está brava comigo, mas tem um lugar legal aqui no jardim que dá para ver melhor o sol nascer. Quer ir?
Eu estava mesmo brava com ele, porém, se fosse com contar todas as vezes que estava para falar com ele, viveria em silêncio.
— Pode ser.
Ele liderou o caminho até pararmos de frente a um muro de pedras.
— É logo ali em cima — falou enquanto dava impulso para subir na escada enferrujada.
Subi atrás dele, desconfiando se aquele metal, que estava bem longe dos seus dias de glória, nos aguentaria. Ouvi o ranger de dobradiças e vi seu corpo se perdendo no escuro. Torcia para que ele tivesse encontrado o lugar e não caído do outro lado, não sabia se conseguiríamos arranjar outro guitarrista a tempo e Mikael iria me acusar de o ter jogado de propósito.
Ele apareceu, iluminado por uma luz amarela.
— Vem. — Esticou a mão para me ajudar a subir. Aceitei-a.
Conforme ia subindo, o interior da casinha de madeira ia se revelando. Muitas almofadas grandes espalhadas e o chão coberto por um tapete persa. Bem aconchegante. Descansei perto da porta enquanto largava o corpo mais para o fundo, mas suas pernas ficavam espalhadas por toda a extensão.
— Como você descobriu esse lugar?
— Mikael me disse para trazer Kate aqui para... Erm... Termos privacidade.
Ele medindo palavras? Essa era nova.
— E por que você não trouxe? — Deu de ombros. — Por que eu atrapalhei?
— Não, eu só não a vejo dessa maneira. Pode ser por enquanto, não sei.
— Não é ela a pessoa que não te dá bola?
Sorriu como se a pergunta fosse engraçada.
— Não, princesa.
Ele me chamou assim para provocar, por causa da nossa briga de mais cedo, dava para ver na sua cara. Eu poderia perguntar quem era a garota, mas preferia não saber.
O silêncio se instaurou. Eu puxei o cordão de ouro do meu pescoço e me lembrei que deveria devolver para o respectivo dono.
— Eu tenho que te devolver seu colar. — Procurei pelo fecho.
— Fica com ele.
Olhei-o, incrédula.
— Não posso, Mikael me disse o quanto significa para você.
— Está tudo bem. Fica melhor em você de qualquer forma.
A miniatura de guitarra na minha mão brilhou com a luz refletida. Algo me disse que talvez Mikael pudesse estar certo, mas logo lembrei o quanto nos odiávamos e a ideia se esvaiu.
— Obrigada por me deixar ficar com ele.
— De nada.
— Queria ter te dado algo melhor em troca, mas era a única coisa íntima que eu tinha.
Ele sorriu.
— Foi o melhor presente que já recebi.
— Uma calcinha? — perguntei em tom de descrença. Ele deveria receber presentes, inclusive roupas íntimas, o tempo todo, estávamos falando de um guitarrista.
— Sim, porque foi jogada em mim com muita raiva.
Deixei uma risada escapar. Seu sorriso aumentou, havia uma sombra daquele que vi minutos antes. Meu coração mostrou sinal de vida, batendo mais rápido. Eu me contentaria com as migalhas que eram me dadas, sim.
— Lembra de quando éramos crianças e sonhávamos em ter uma casa na árvore? O típico sonho de toda criança que não é estadunidense.
Me lembrei de uma versão minha e de pequenas. Não discutíamos ainda, só brincávamos juntos com mais um monte de crianças junto. Então veio a pré-adolescência e as meninas se afastaram dos meninos, nós nos envergonhávamos ao mesmo tempo que tentávamos chamar atenção quando eles se aproximavam. Aí, a tão temida adolescência chegou, nos fazendo competir um contra o outro.
— Lembro. — Sorri. — Você era uma gracinha com sua capa de chuva amarela.
— Minha fiel escudeira... Eu sofri quando cresci demais e minha mãe teve que colocar para doação — ele disse, pesaroso. — E você já cantava bem no primário. Lembro que cantava Imse vimse spindel (A Dona Aranha) como ninguém.
— Eu ainda adoro essa música! — exclamei. — Imse vimse spindel klättra' upp för trå'n...
Ele riu.
— Você sente saudades de Hässleholm?
— Eu sinto saudades da minha família e da nossa infância, mas gosto de viver numa cidade grande, as fofocas de Hässleholm não são para mim.
— Penso o mesmo. A minha mãe era convencida de que íamos nos casar por causa de fofoca.
Gargalhei.
— A minha também, acredita? Ela te achava lindo e talentoso, o marido perfeito para mim. Quando ela souber que você está aqui, ela vai pirar. — Encaixei o salto da bota em uma ranhura, cruzando nossas pernas, enquanto ele ria. — A senhora Göransson deve ter começado essa fofoca, além de ser nossa professora e vizinha de porta, ela também jurava que ficaríamos juntos. O nosso fã clube de Hässleholm é grande.
— Tem o Mikael também, que está se esforçando para nos deixar sozinhos desde que cheguei.
Assenti. Mikael sabia ser bem ardiloso, ele parecia ter previsto que aquele momento chegaria porque vinha trabalhando na nossa mente há anos.
A brisa passou por mim outra vez, me fazendo tremer.
— Vem para cá, o vento quase não chega aqui.
Me levantei, equilibrando sobre os saltos no chão desnivelado, e mirei para jogar meu corpo próximo a ele. Porém o salto prendeu e caí sentada em suas coxas em um baque, ele me agarrou pelos braços antes que eu virasse para trás com as pernas para cima. Ainda bem, porque eu estava usando uma saia.
— Calma, princesa.
— Meu Deus! Meu sapato ficou preso!
— Você se machucou?
Neguei. Ele estava perto, mas tão perto, que, se eu chegasse alguns centímetros para frente, eu o beijaria. O que mais me assustava era o impulso me chamar, me tentar. Os lábios dele eram beijáveis e eu me sentia hipnotizada demais por eles para pensar em sair dali.
— Você não deveria olhar seu inimigo assim. — Vi os lábios se mexerem.
— Por quê?
— Porque dá esperança de que você possa o desejar algum dia.
Eu testei me aproximar mais um pouquinho para ver se desviaria, ele não se moveu.
— E se eu já desejar?
Um sorriso de lado se formou.
— Se você desejasse, teríamos que fazer algo em relação a isso.
— E o que seria?
Queria sentir o mesmo frio na barriga de quando ele disse o que faria comigo no escuro do meu quarto. Queria mais.
— Eu te mostro, se você admitir — murmurou.
Seria mentira se eu dissesse que não fiquei instigada. Fiquei até demais para que minha consciência saísse impune.
— Já disse que nem se você fosse...
— ...o último homem do mundo, você transaria comigo. Eu me lembro bem. — Ele parecia magoado ao completar. — Porém não estou falando nisso agora.
Eu tinha que me lembrar que ele era a fim de alguém, era óbvio que ele não iria querer dormir comigo. Lá no fundo, fiquei magoada. Quis me bater por aquilo, eu poderia dar um fora nele e ele não poderia dar em mim?
— E do que você está falando?
Ele sorriu, misterioso. O recado estava dado: não faria nada enquanto não me ouvisse admitir.
Então, eu mesma fiz.
Parti o beijo, ele grunhiu e procurou a minha boca com a sua; também não estava pronto para que aquele momento acabasse. Passei minha perna pelas suas, ficando de frente para ele e sentindo minha saia subir pelas coxas. Eu não poderia me importar menos. Uni nossos lábios novamente, sentindo que aquilo parecia o erro mais correto que já cometi. As mãos dele se fecharam outra vez na minha cintura e me puxaram em sua direção. Senti contra o zíper da calça o quanto ele me desejava. A pessoa que eu mais odiava me queria, o pior de tudo era não sentir vontade de sair correndo ao saber daquilo e, sim, de beijá-lo mais. Segurei os seus ombros e me esfreguei contra ele. A fricção era deliciosa, nos levando a gemer um contra a boca do outro. Eu precisava de muito mais daquilo. Ele deslizou as mãos pelas partes descobertas das minhas coxas e me puxou para provocar a mesma fricção. Eu tive que parar com o beijo para gemer de forma arrastada.
Ele beijou meu maxilar, sugou a pele do meu pescoço e deslizou a língua no meu colo em volta do colar até a linha dos seios. Me joguei para trás, dando todo o acesso que ele precisava. Seus lábios se fecharam no meu mamilo por cima da blusa fina e, em seguida, rodeou-o com a língua. Ele me olhar durante todo o processo mexia comigo, me fazia lembrar que era meu inimigo desde a escola que estava ali, mas também o garoto mais bonito que já pus meus olhos. Senti-o sugar. Agarrei o cabelo dele, fechei os olhos e mexi os quadris em desespero.
— ... — sussurrei.
— Isso, princesa. Chama o nome daquele que te enlouquece de ódio e de desejo. — Ele assoprou o tecido úmido da blusa por cima do meu mamilo sensível, eu fui ao céu e voltei.
Aumentei a intensidade dos movimentos dos meus quadris, procurando algum alívio. Só me fez arder mais. Seus dedos entraram na barra da saia e brincaram com o elástico da calcinha, uma mensagem clara que ele poderia acabar com o meu sofrimento se eu quisesse.
Só que eu nunca admitiria que precisava logo dele.
Voltei à postura ereta e fui encarada com curiosidade. Se eu sentiria tudo aquilo, ele também iria. Abri o botão e o zíper da sua calça e, com seus olhos nos meus, acariciei sua extensão. Ele soltou um gemido demorado e necessitado. Testei acariciá-lo novamente e o senti pulsar entre os dedos.
— Fale exatamente o que você quer e vou pensar se te darei.
— Me toque — suplicou.
Quem era eu para negar um pedido daqueles?
Toquei-o outra vez. Ele segurou a minha mão e colocou por dentro da roupa íntima. Quente e duro feito pedra. Mordeu o lábio ao me sentir fechar os dedos em volta de sua circunferência. Voltei a acariciá-lo e movimentei a palma para cima e para baixo, explorando suas reações. Ele ainda segurava minha mão, me incentivando.
— O que você quer, ? — sussurrei em seu ouvido.
— Você. — Ele estava ofegante.
— Mas eu estou bem aqui. — Me fingi de desentendida.
Ele rosnou e, quando pisquei, fui parar nas almofadas. Aproximou-se para dizer na minha cara:
— Quero te foder, . Te foder até você esquecer de tudo e só lembrar do meu nome.
Sorri de lado. Era isso que eu queria ouvir.
— Já isso, você não pode ter.
Suas mãos seguraram atrás dos meus joelhos e seus quadris se encaixaram no meio das minhas pernas.
— Por que você me provoca tanto? É prazerosa a sensação?
— É, mas não te quero aos meus pés, . Quero você nessa como igual, assim como costumava ser.
Vi o desafio passar pelos seus belos olhos.
— Se é assim que quer, você terá.
Ele saiu de cima de mim. Senti um vazio ali e uma vontadezinha de mais. Porém ele já abotoava a calça e se preparava para ir embora. O sol já havia começado a nascer e nós precisávamos acordar cedo.
Ajeitei a saia, a blusa e o cabelo. Fui a primeira nas escadas e esperei ele descer. Nem dirigimos o olhar um ao outro durante o caminho de volta. Se eu olhasse, era perigoso pular nele e o beijar por mais uns bons minutos. O garoto sabia como usar aquela boca para o bem e para o mal, eu estava viciada nos dois.
Menos de quatro horas depois, estava pronta para outro dia de ensaio. Cheguei cedo no prédio, já estava lá, dedilhando a guitarra vermelha. Ele nem levantou a cabeça para me olhar, estava concentrado demais. Me sentei no banco do piano e o observei tocar. Ele era tão rápido, só de olhar não dava para dizer que apertava as cordas da guitarra. Uma ruga apareceu no meio das suas sobrancelhas e percebi que ele estava de olhos fechados. Abriu a boca e fez uma careta, aumentando ainda mais a velocidade. A guitarra dele parecia se lamentar, era lindo de se ver. A cena toda fazia o nó de excitação no meu baixo ventre se retorcer.
Ele abriu os olhos ao finalizar e me fitou.
— Uau — me manifestei.
— Gosta?
— É incrível.
Sentou-se na cadeira perto do meu banco.
— É da minha banda.
Eu tinha tanta curiosidade para ver a banda dele tocar, porém, mesmo com todos os convites de Mikael, nunca me atrevi a ir a um deles. Por mais que eu não fosse uma fã do gênero musical deles, eu achava que gostaria de vê-los tocarem o que gostavam.
— Vamos? — chamou.
Nós trabalhamos por algumas horas até sermos interrompidos por Debbie novamente. No entanto, dessa vez, ela trouxe a garota que estava com no dia anterior.
— Trouxe o almoço de vocês — anunciou Debbie.
Se eu não estava enganada, o nome da amiga era Kate ou Cathy. Ela foi direto até , abraçou seu pescoço e beijou sua bochecha esquerda. Ele sorriu daquele modo para ela, sem malícia, apenas um sorriso.
Debbie começou a montar a mesa para almoçarmos enquanto os dois conversavam. Eu fingia desinteresse, passando os olhos pelas minhas partituras outra vez, mas minha atenção estava no que acontecia ao meu redor. Pelo visto, Debbie apareceria todos os dias que estivéssemos ensaiando por causa da proximidade com e por ela estar trabalhando com Brian no mesmo andar. Não que eu me incomodasse com a presença dela, eu adorava Debbie, ela era linda e simpática. Não era sua obrigação levar almoço para nós, mas ali estava ela, preparando tudo. O meu problema mesmo era como reagia às visitas, ele ficava todo bobo com seus sorrisos e perdia o foco.
Quando Debbie chamou a amiga para ir embora, eu levantei a cabeça a tempo de a ver se abaixar novamente e beijar o canto da boca dele. Meu sangue deveria ter subido todo para o meu rosto ao ver uma cena tão pessoal quanto aquela, talvez eu entrasse em ebulição. se despediu delas, como se nada tivesse acontecido, e descansou a guitarra no suporte.
Fui almoçar com a maior cara fechada. Nós estendemos a pausa mais um pouco para nos organizarmos, ir ao banheiro e outras coisas. Ao retornarmos, deixei minhas emoções fluírem e percebi que apertava as teclas com mais força do que o necessário. Ele tocou meu antebraço, me parando.
— O que houve? — perguntou.
— Nada, por quê? — respondi rápido demais.
— Você está martelando as teclas e não está com uma cara muito boa.
— É impressão sua. — Saiu um resmungo, me entregando.
— É por causa da Debbie, não é?
— Não, Mikael me contou tudo.
— É a Kate, então. — Dessa vez, não foi uma pergunta.
— Só acho que você não deve trazer suas intimidades para o trabalho.
Ele franziu o cenho.
— Intimidades? Kate é uma amiga.
— Ela quase te beijou.
Sua expressão se transformou em um sorriso esperto.
— Ciúmes de novo, princesa? — perguntou. — Assim vou até achar que você gosta de mim.
Não sabia se explodia em risadas ou se ficava irritada. Escolhi a segunda opção e cruzei os braços.
— Eu? Gostar de você? Nem se me pagassem. Você é o ser humano mais arrogante que já conheci.
— E o mais gostoso também.
Bufei. Ele se achava tanto...
— Até parece.
— Vou te dar uma prova.
Ele voltou a tocar a guitarra daquela maneira complexa, mas, daquela vez, era algo mais lento, mais romântico.
— Riffs de guitarra não vão me conquistar, .
Mentira. Eles iriam, sim.
— Nem se for um solo que compus pensando em você?
Meu coração começou a bater rápido. Ele não poderia estar falando sério.
— Em mim? — perguntei, soando esperançosa e boba demais.
— Sim, não está terminado ainda porque comecei essa manhã antes da sua chegada, mas é seu para usar como quiser.
Era perfeito, combinava com a minha música.
— Quero usar na apresentação — falei. — Você pode fazer o solo depois do terceiro refrão, então eu acrescento alguma coisa para te acompanhar.
Ele assentiu.
Voltamos a trabalhar, mas, agora, em cima do solo. Não foi difícil encontrar uma maneira de acompanhá-lo. Ele disse que precisava de um tempo para finalizar e que, provavelmente, teria algo mais definitivo no dia seguinte. Deixei-o concentrado, assim como encontrei pela manhã, para me apressar para fazer uma prova da roupa que usaria no Live Aid.
Lá pelas oito, voltei à pousada. Estava exausta, mas Astrid chamou para jantarmos todos juntos. Fui a última a chegar ao restaurante e só havia um lugar sobrando entre ele e . Eu não duvidava que Mikael tenha o deixado de propósito, ainda mais pela forma animada que ele deu batidinhas no assento. Me sentei enquanto o fuzilava com os olhos.
— Como vão os ensaios? — perguntou Oscar, depois que cumprimentei todos.
— Sem contar as interrupções, estamos bem.
Ele se virou para mim e semicerrou os olhos.
— Sem contar com o mau humor, tudo ótimo.
— Acho que estamos perdendo capítulos dessa novela — comentou Per.
Todos riram, menos nós dois, que ainda nos encarávamos.
— Essas são as melhores férias pagas que já tive na vida — disse Astrid, mudando de assunto.
Uma conversa desencadeou e olhei para frente. Em determinado momento, encostou o joelho no meu. Não sabia se havia sido proposital por ter sido bem de leve, mas dei estia ao encostar toda minha perna a dele. Senti a mão dele cobrir meu joelho descoberto, me fazendo arregalar os olhos de leve pela ousadia. Conforme eles iam falando, se mexia, ora acariciando minha pele, ora subindo pela minha coxa. Eu estava toda arrepiada. Se eu tivesse qualquer reação, poderia entregar o que estava acontecendo debaixo da mesa. Ele subiu pelo interior da minha perna e eu só quis fechar os olhos para aproveitar o toque. Conseguia sentir o calor da mão dele e os calos causados pelas cordas da guitarra. Quando chegou à barra do short, um calafrio passeou pelo meu corpo de antecipação.
A comida chegou bem na hora.
Eu quis gritar ao sentir a mão dele deixar minha perna.
Conversamos trivialidades enquanto comíamos. Ele passou os minutos seguintes bem-comportado. No entanto, o estrago já estava feito, minha pele pinicava onde havia sido tocada, me distraindo constantemente. Em uma dessas vezes que minha mente se perdeu, ele se aproximou e eu sobressaltei.
— Me encontra lá fora — sussurrou no meu ouvido.
Levantou-se e saiu.
Os outros me olhavam como se eu tivesse acabado de ser beijada.
— O que é? — perguntei, olhando para eles.
— Vocês estão de segredinho agora? — perguntou Oscar.
— É claro que não!
— E o que foi isso?
— Ele estava apenas me dizendo... — Coloquei os dedos na ponte do nariz. — Quer saber? Não interessa, é uma coisa nossa.
— Uma coisa nossa? — repetiu Mikael, sem conter o sorriso.
— Não vá se animando — censurei-o. — Não é nada que você está pensando.
Porque ele nem imaginaria que nós havíamos nos beijado.
Me levantei e deixei o restaurante. Braços me abraçaram pelo tronco assim que pisei no jardim e me puxaram. Bati neles com força.
— Ei, sou só eu! — exclamou , me virando para que pudéssemos nos olharmos.
Meu coração enfrentou um novo tipo de adrenalina ao vê-lo.
— Era para eu ficar mais tranquila depois de saber essa informação? — brinquei.
Ele riu uma risada tão gostosa que eu tive vontade de contar um monte de piadas só para ouvir aquele som sem parar.
— Ok, você venceu essa.
Sorri de lado. Não era todo dia que ele admitia minha vitória.
— O que você quer, ?
— O que você vai fazer agora?
— Dormir.
— Posso ir com você?
O quê?!
— Ir para onde?
— Para o seu bangalô.
Soltei uma risada desacreditada, ele fechou a cara.
— ‘Tá falando sério?
— Estou — falou, mal-humorado. — O Mikael está enchendo o saco para eu ligar para a Kate e chamá-la para sair, o único jeito de escapar é estando com você.
— Se esconde em algum lugar e eu falo que você está comigo.
— Você sabe como o Mikael é insistente, ele vai querer ver com os próprios olhos.
Mikael realmente era insistente...
E compôs um solo para mim, eu podia dar uma ajuda em troca.
— Tudo bem. Contanto que não atrapalhe meu sono, você pode ficar lá. — Ele sorriu. — Mas não vá se acostumando.
— Certo.
Andamos lado a lado em silêncio. Destranquei a porta e acendi as luzes.
Ele já foi arrancando o tênis e se largando na cama.
— E então... Vamos assistir Cheers? — perguntou.
— Eu disse para você não me atrapalhar a dormir — falei entredentes.
Ele se afastou um pouco para o lado.
— Tem espaço para você.
— Sai daí.
— Como você quer que ele acredite que estamos passando um tempo juntos, se eu tiver no sofá olhando para o teto?
Ele tinha um argumento convincente para tudo?
Rolei os olhos.
— Se você encostar em mim, eu te coloco para fora. — Fui até o banheiro.
— Poxa, só porque eu estava pensando em dormir de conchinha com você — ironizou.
Coloquei meu pijama e escovei os dentes. Eu não queria deixar o banheiro, toda vez que eu pensava em na minha cama não acabava bem. Quer dizer, acabava bem, mas eu me arrependeria em seguida. Quando abri a porta, ele assistia à TV com os braços atrás da cabeça. Olhei para a tela e passava um episódio que já vi mil vezes.
— Não sabia que gostava de Cheers.
— Eu adoro Cheers. — Ele me olhou. — Também gasto meu tempo fazendo maratonas.
Deixei meu queixo cair. Eu não esperava por essa. Para mim, ele ter falado aquilo havia sido uma provocação.
— Achei que estivesse com sono — disse ele, interrompendo meu momento.
— E estou. — Fui até a cama e apertei o botão no painel que desligava as luzes. — Você não está? Nós passamos a noite acordados.
— Estou morrendo de sono, mas vou dormir na casa da árvore assim que Mikael passar aqui para me procurar.
Até diria que ele poderia ficar, porém ele provavelmente não deveria querer passar a noite na mesma cama que eu.
Bocejei. Estava torcendo para que Mikael não demorasse muito, eu cairia no sono a qualquer segundo.
— ? — chamei-o.
Ele se virou para mim. Ficamos tão perto que eu sentia sua respiração bater no meu rosto.
— O que foi?
— Você me convidaria para ver sua banda ao vivo um dia?
Rugas se formaram em seu cenho conforme franzia.
— Mikael nunca te chamou?
— Eu não achei que pegaria bem aparecer.
— Nós podemos habitar o mesmo espaço, princesa.
— Agora, eu sei que sim — murmurei. — Só quero brigar com você uma parte do tempo, olha que avanço.
— Sério? — Ele parecia surpreso pelas sobrancelhas arqueadas. — E a outra parte do tempo?
— Eu quero te beijar.
Ele alternou o olhar dos meus lábios para os meus olhos, as pupilas dilatadas só o tornavam mais atraente.
— E você? Depois de ontem, pensa em discutir menos e me beijar mais? — perguntei.
— Eu só penso em te beijar o tempo todo.
Antes que eu pudesse dar qualquer resposta, ele me pegou pela nuca e colou nossos lábios.
Me afastei após alguns segundos, impressionada demais pela rapidez com que tudo aconteceu.
— , eu sei que quer chutar minha bunda para fora daqui por ter tocado em você, mas deixa eu expli...
Puxei-o pela camiseta e calei sua boca com um beijo. Minha língua encontrou com a sua, sem cerimônias dessa vez. Ele não tinha gosto de vinho, mas de um sabor próprio misturado a hortelã.
Deslizei minha mão pelo peito dele, segurei o cabelo com firmeza e enrosquei minha perna em sua cintura. Eu queria tocar todas as partes do corpo dele. O desejo cresceu a ponto de ficar sufocante. Ele virou de barriga para cima e eu fui junto. Nós gememos quando nossos quadris se encaixaram. O ar acabou ficando escasso, então eu desci os beijos para o queixo e o maxilar dele, parando na linha da orelha.
— Eu deveria mesmo chutar essa sua bunda bonita para fora, mas tenho planos melhores para você — sussurrei em seu ouvido.
Ele sorriu.
— Também tenho muitos planos para você. — Ele segurou a barra da minha blusa e subiu até eu levantar os braços para que tirasse. — Muitos.
Os olhos dele brilharam ao me ver nua da cintura para cima. Ninguém nunca reagiu assim ao me ver sem uma peça de roupa. Ameacei ficar com vergonha, mas ele me distraiu esticando o braço. Sua mão me tocou. Fechei os olhos quando ele circulou meu mamilo com o polegar. No outro segundo, senti o colchão afundar embaixo de mim. Seus lábios estavam nos meus novamente, me marcando, me devorando. Os dedos provocaram meu mamilo em formato de pinça, o prazer me veio em forma de onda quente e pressionei minha virilha contra sua braguilha para aplacar a vontade.
Parei de beijá-lo e me concentrei nos movimentos que minha pelve fazia. Eu o queria e não queria ao mesmo tempo, meu corpo pedia pelo dele e meu cérebro lutava com todas suas forças para não ceder; eu só estava no meio daquela briga. Sua mão desceu e se perdeu dentro cós do pijama, só a senti acariciar de leve perto de onde eu mais precisava, provocando todos os meus sentidos para se concentrarem ali.
— ...
— Eu sei, princesa. Eu sei. — A outra mão acariciou meu maxilar.
Estiquei os quadris, tentando alcançá-lo.
— Você é bem apressadinha, hein?
Agarrei o cabelo dele e o beijei. Os seus dedos apenas rasparam ali e eu não vi apenas estrelas, mas o céu a noite todinho. Gemi contra sua boca. Ele parecia ter gostado da minha reação, pois me tocou com mais firmeza com o indicador. Eu precisava senti-lo, nem que fosse só tocando. Enfiei meu braço entre nós dois, ao lado do seu, e abri o botão e o zíper da sua calça. Quando o peguei, ele parou de me beijar para soltar um gemido. Olhei dentro dos seus olhos, procurando tudo que estava sentindo. Ele não desviou, apenas deslizou dois dedos para o meu interior.
Fechei os olhos, em êxtase.
Apertei-o, sentindo pulsar na minha mão em resposta. Ele aumentou a velocidade dos dedos dentro de mim e eu gemi cada vez mais alto. Céus, era ali, havia encontrado o ponto perfeito. Minha consciência se perdeu ao alcançar o ápice, só me lembro de gritar.
Voltei a abrir os olhos no que pareceram horas, ele continuava a me fitar.
Eu ainda o segurava, nem sabia que era possível ficar tão duro assim, aquilo deveria doer. Mexi minha mão em volta dele. Ele segurou meu pulso.
— Não precisa.
— Eu quero.
Soltou meu pulso. Movi minha mão novamente, ele deixou a cabeça cair no vão do meu pescoço em rendição.
— ? — alguém me chamou. levantou a cabeça, alerta. — Você está com alguém aí?
Era Mikael.
— Eu vou — disse .
Levantou-se e fechou a calça. Que desperdício esconder algo tão incrível com calças. Mikael me pagaria.
Encontrei a blusa do pijama no chão e vesti.
Ele abriu a porta.
— ?! O que você está fazendo aqui?
— Estou assistindo TV com a .
— Você e a ? Fazendo algo amigável?
Nem tão amigável assim.
— Não é você que defende tanto que precisamos passar um tempo juntos?
— Sim, mas achei que estivesse com a Kate.
— Como você pode ver, estou aqui. Agora, com licença.
ia fechando a porta, só que ela foi segurada.
— Espera. Você está com a sua cara de quem estava dando uma.
— E desde quando eu tenho cara para isso?
— Eu te conheço a vida inteira, sei que você tem a cara de sexo. Você está com alguém no bangalô da ? Ela sabe disso?
— Você está se ouvindo, cara?
— Tenho que ver com os meus próprios olhos. Se tiver alguém aqui, ela vai te matar e eu não vou te salvar...
Mikael entrou e me viu deitada na cama. Acenei para ele.
— ? — Franziu o cenho.
— Oi.
Ele analisou o quarto inteiro, à procura de alguma prova do que estávamos fazendo. Só foi parar na TV, onde passava outro episódio.
— Feliz? — perguntou .
Na verdade, com todo o meu conhecimento de Mikael, eu sabia que ele estava ainda mais confuso e desconfiado.
— Vocês dois estão aprontando. Primeiro, é “uma coisa nossa”, depois, sozinhos nesse bangalô como se fosse supernormal. — Semicerrou os olhos. — Sem contar essa cara dele.
— Ele estava cochilando — justifiquei.
— Sei.
— Você pode ir embora ou quer falar mais alguma maluquice?
— Vou embora, mas estou de olho em vocês.
Ele saiu e fechou a porta.
— Essa foi por pouco — disse.
— Cara de sexo?
Soltou uma risadinha.
— Ele passou a adolescência me dando cobertura e vice-versa. Se alguém sabe quando estive fazendo algo, é ele.
Lembrei de ver saindo de banheiros, do vestiário, de trás da arquibancada... Ele era bem criativo. Eu desejei tanto que me desse uma mínima moral e me levasse para um desses lugares para fazer tudo que as garotas falavam pelos corredores dele, que acabei ficando mal-humorada no presente.
— Pois essa cara quase nos entregou — resmunguei.
— Essa é a hora que você quer brigar comigo, suponho.
O silêncio respondeu por mim.
— Vou nessa. — Ele se afastou da porta para abri-la.
— Não! — exclamei.
Por que eu falei aquilo?
— Não o quê?
Eu sabia bem o porquê.
— Não vai. Fica aqui hoje — falei com sinceridade. Ele franziu o cenho. — Lá é muito desconfortável e... tem espaço para nós dois aqui, não é?
Seus olhos me analisaram.
— Acho que sim. — Pareceu incerto.
Me afastei no colchão para dar espaço. Ele tirou os sapatos, que nem percebi que tinha calçado de novo, e veio se deitar ao meu lado. Nós ficamos olhando para o teto enquanto o som da TV preenchia o silêncio.
— Eu te chamaria para um show da minha banda, mas você esqueceria do passado para nos ver tocar de novo?
Ele tinha razão, a última vez que eu havia visto a banda dele tocar estava tão cega de ódio e nós brigamos feio.
— Não.
Se eu fosse, seria lembrando de tudo.
Eu acabei pegando no sono com o silêncio dele.
— Não me chame de Michelle Phillips! — exclamei, com o indicador em riste.
— California dreamin’ on such a winter’s daaaay — cantou uma música do antigo grupo da cantora para me provocar.
Joguei um tecido em sua cabeça ao mesmo tempo que senti uma picada na barriga.
— Ai!
— Se vocês continuarem discutindo, não vamos conseguir fazer as marcações direito — disse a nova costureira. A assistente dela que tirava as medidas de concordou com a cabeça.
O encarei de cara feia. Ele sorriu, vitorioso.
Mikael e Debbie conversavam em um canto, alheios a nós dois. Eles pareciam ter entendido que só queria ser amigo de Kate, pois nunca mais a vi. Já eles, ficavam cada vez mais próximos. Eu estava feliz por ele estar conseguindo gostar de alguém, o último relacionamento dele deixou um rombo em seu coração.
— Como estão os pombinhos? — perguntou Oscar, entrando na sala.
Nós o fuzilamos com o olhar ao mesmo tempo. Ele ergueu as mãos na altura dos ombros.
— Ok, ok. Se acalmem — disse. — Venho trazendo notícias.
— Diga.
— Vocês preferem a boa ou a má primeiro?
— A boa.
— A má — falou junto comigo.
— Até nisso vocês têm que discordar? — riu. — As mulheres primeiro, meu caro — falou para . — A boa notícia é que nos colocaram entre o Kenny Loggins e o The Cars. Nós vamos tocar de dia.
Comemorei com a mão e fui presenteada com mais uma picada. Dessa vez, a costureira nem se deu o trabalho de falar nada. Nós duas sabíamos que eu não duraria muito quieta.
— A má é que como vamos tocar de dia e o mundo estará todo assistindo, Brian quer que vocês ensaiem mais. Ele disse que a química de vocês precisa melhorar, porque ultimamente vocês vêm parecendo cão e gato e isso está interferindo no trabalho.
Eu nem podia cruzar os braços em descontentamento. parecia igualmente insatisfeito.
— Por que ele te mandou e não veio falar pessoalmente?
— Ele teve que ir para o aeroporto, vai ter que comparecer a um jantar em Los Angeles.
Ótimo, às vésperas do show e Brian ia para Los Angeles.
— Tem mais uma notícia, mas não sei se é boa ou ruim — disse, depois de um tempo de hesitação. — Ele deixou uma reserva em um restaurante caro para vocês esta noite.
— Só nós dois? — confirmou .
— Só.
— Isso é uma notícia horrível! — falei, indignada.
— Pelo menos, vocês vão poder comer comida cinco estrelas de graça.
Se aquilo era para servir de consolo, não deu certo. Ficar perto de me tirava todo o apetite.
A costureira me ajudou a tirar o tecido por cima da roupa.
— Preciso ir, também tenho um encontro essa noite.
Não sabia o motivo de ele ter falado “também”, não seria um encontro. Eu nunca teria um encontro com , seria mais uma obrigação.
As últimas notícias nos murcharam. Não conseguimos nem discutir mais, ficamos em silêncio até quando Mikael veio puxar assunto. A prova de roupa durou mais um tempo e, depois, nós três dividimos um táxi para a pousada.
Quando cheguei ao meu quarto, encontrei um vestido vermelho me esperando em cima da cama. Mais uma cortesia de Brian. Peguei-o para analisar. Seria uma pena desperdiçar um vestido tão lindo com uma companhia tão abominável, mas acho que eu não tinha mesmo escolha. Fui tomar um banho e me arrumar.
Escutei batidas na porta no momento que estava pegando as sandálias para calçar. Abri a porta e, ao revelar a pessoa, desejei fechar de novo. usava um smoking preto.
E o fazia muito bem, devo dizer.
O cabelo solto dava um ar despojado, lembrando que ele ainda era um guitarrista.
Por que alguém tão insuportável era gostoso assim?
— Está pronta? — perguntou daquele jeito dele.
— Só falta calçar minhas sandálias.
— Certo, vou esperar aqui.
Eu não o convidaria para entrar mesmo, nem mesmo por educação.
Calcei o salto, ficando vários centímetros maior. Eu já era uma mulher alta, mas ao chegar perto de novamente, quase não havia feito diferença.
— Nós vamos de táxi? — perguntei, fechando a porta.
— O Brian mandou uma maldita limusine vir nos buscar.
Dessa vez, eu teria que concordar com o mau-humor dele. Brian caprichou no castigo.
abriu a porta, eu entrei primeiro e ele entrou atrás. O carro começou a andar.
— Espumante? — ofereceu. Só aí notei o balde com gelo ao lado dele.
Eu ia abraçar o diabo, já que estava presa com ele. Dei de ombros. Ele serviu as duas taças e me deu uma. A música dava um ar romântico constrangedor. Evitamos nos olhar para que aquilo não ficasse mais estranho, mas já havia extrapolado todos os limites. Nós sabíamos como era beijar o outro e nada havia mudado, só piorado. Eu sabia que aquelas mãos não eram habilidosas só tocando guitarra e ele sabia de algumas coisas íntimas sobre mim também.
Durante a viagem, eu virei duas taças. Só não bebi mais porque era relativamente perto. Se íamos fazer aquilo, eu não podia estar sóbria. O motorista me ajudou a descer, o vestido subiu um pouquinho no processo e peguei os olhos de nas minhas coxas.
Interessante.
Ele tocou a base das minhas costas, me conduzindo para o interior do prédio. Não me incomodei com o seu toque, ele só estava espelhando o que todos estavam fazendo ali. A fila para entrar no restaurante era quilométrica, mas nós demos nossos nomes e, logo, estávamos sentados em uma mesa com vista para a cidade.
Analisei o menu, incerta do que pedir. Não gostava muito de jantar em restaurantes assim, eu não tinha certeza do que estava pedindo. Pelo visto, nem , pois copiou o meu pedido. Quando a garrafa de vinho chegou, nem me preocupei em me fingir de entendida mexendo e cheirando o líquido na taça, já fui bebendo. O garçom arregalou suavemente os olhos ao ver que sorvi até a última gota e me serviu mais. sorria por trás da borda do copo.
Stevie se retirou, nos deixando sozinhos outra vez.
— Por que está sorrindo? — perguntei, ranzinza.
— Eu sei o que está fazendo. — Ele pousou a taça na mesa.
— E o que você acha que estou fazendo?
— Está bebendo para que ficar comigo se torne tolerável.
Aquele sabichão de merda...
Bebi mais um pouco, eu já estava ficando alta demais.
— Engano seu.
— Se você diz...
Odiava quando ele dizia aquilo, fingindo acreditar em mim quando nós dois sabíamos que eu estava contando mentiras.
Eu olhei para a janela, mas conseguia sentir os olhos dele em mim.
— O que você quer, ?
— Só estou apreciando a vista.
Ele estava olhando para mim, eu tinha certeza.
— A cidade está para lá. — Apontei.
Ele apontou para trás de mim e me virei para olhar. Uma pintura gigante que ocupava a parede toda.
Ah.
— Não sabia que se interessava por arte.
— E o que você sabe sobre mim? Que eu toco guitarra, fiquei com muitas garotas no segundo grau e meu melhor amigo é o mesmo que o seu?
— Na verdade, eu sei muita coisa. Mikael fala muito sobre você, contra a minha vontade.
— Eu também sei muito sobre você, mas não as coisas que Mikael fala, o que aprendi nesses dias.
Semicerrei os olhos.
— E o que é?
— Você mordisca o canto do lábio quando está concentrada e, quando está distraída, brinca com as pontas do cabelo; não fuma, mas não nega se oferecem um cigarro; fecha os olhos ao sorrir; sabe fazer um gutural melhor do que muitos amigos meus... Bem, a lista é extensa.
Arqueei as sobrancelhas, surpresa. Eu esperava todas as provocações, menos isso.
— Eu ainda te observo.
A comida chegou, mas eu só sabia o olhar e me perguntar o porquê.
Por que ele me observava?
Nós bebemos a garrafa inteira e partimos para a segunda. A comida desceu que nem senti. Àquele ponto, eu já estava completamente alta. Na minha cabeça, tudo estava sob controle. Porém me vi comentando:
— Céus — segurei a cabeça —, faz tanto tempo que não durmo com ninguém, que ver você nesse smoking está me excitando.
Quando percebi a porcaria que falei, tampei a boca. Ele soltou a risada pelo nariz.
— Faz mesmo tanto tempo assim?
Bufei.
— Está quase fazendo aniversário — disse, meio rindo. — E você?
— Faz um tempinho. — Dava para perceber na sua voz que ele também estava bêbado. — Tempo o suficiente para me tornar carente e me fazer ter uma imaginação bastante criativa que envolve eu, você e esse seu vestido.
Em outro momento, eu teria arregalado meus olhos. No momento, só me aproximei por cima da mesa como se fosse pedir um segredo.
— Me conta.
— É impróprio para o ambiente que estamos.
— Foda-se.
Ele riu.
— Eu não vou dizer dessa vez, princesa.
— Acho que vou ter que descobrir. — Ofereci um olhar sugestivo.
Era para ter soado como um flerte, mas ele soltou outra risada.
— É, acho que vai.
Uma ideia se passou pela minha cabeça com a frase dele.
— Se você der uma trégua esta noite, pode ser divertido.
pareceu pensar um pouco, até concluir:
— Certo.
Estiquei a mão e ele a apertou.
— Vamos sair daqui — chamei-o.
Nós nos levantamos. Ele passou o braço pelos meus ombros e eu pela sua cintura. No caminho até o elevador, olhei para a sua cara e comecei a rir e vice-versa. Descemos no elevador aos tropeços por não querer nos soltar e pelo equilíbrio prejudicado. Quando o carro chegou, nós caímos juntos no interior, ele por cima de mim; eu ri ainda mais.
Achei que estávamos um pouco melhor, mas a situação saiu um pouco do controle.
Ele se arrastou até estar sentado no banco para que a porta pudesse ser fechada. A limusine começou a se movimentar. Comecei a tocar em todos os botões ao meu alcance, tentando descobrir o que cada um fazia.
— Então é assim que vivem vocês, estrelas? — perguntou .
— Esse deve ser o jeito que vive uma estrela estadunidense, nós somos diferentes.
Um botão abriu o teto solar, eu bati palminhas animadas. Era daquilo que eu precisava.
— Você tem coragem de subir aí?
— Claro! — falei. — Você não tem?
— Não mesmo. Isso é perigoso, princesa.
— Você pode me segurar, para ter certeza.
Me levantei e fui até a abertura no teto. Senti o ar puro invadir o meu pulmão, levantei os braços, animada. se enroscou na parte de baixo do meu corpo. Olhei para baixo e o peguei me encarando.
— O sonho americano! — exclamei.
Mas eu ainda preferia um Fika ou as comemorações de verão do Midsommar, minhas tradições nacionais favoritas.
— , eu estou me tremendo só de ver você aí.
Comecei a rir, mas desci. Por mais que o carro estivesse bem devagar, era realmente perigoso por causa do meu estado. Ele me puxou para si, como se eu pudesse sair voando caso me soltasse. Nós caímos em cima do estofado novamente, eu por cima dele dessa vez.
Nos encaramos e, em certo ponto, o meu olhar desceu para a sua boca.
— Neste exato segundo, eu quero te beijar — falei, incapaz de estabelecer um filtro entre meu cérebro e minha boca.
Ele sorriu e eu fiquei mais hipnotizada ainda.
— E o que te impede?
— Eu sei que você não quer ficar beijando a pessoa que odeia...
Ele pescou os meus lábios com os seus, me interrompendo. O beijo começou suave, mas sua mão segurou minha nuca e foi aprofundando até não saber onde começava ele ou eu.
O carro parou, mas eu não queria fazer o mesmo. O gosto, o cheiro e a rigidez dele me enlouqueciam. Foram as vozes de Per e Astrid que me fizeram sair de cima.
Eu mal me sentei no assento e a porta foi aberta.
— Estão vivos? — perguntou ele, colocando a cabeça para dentro.
terminou de se levantar.
— Vivíssimos — respondi.
— Se importam de darmos uma volta agora? — pediu Astrid.
— Fiquem à vontade — disse , saindo da limusine.
Segui seus passos. Ouvi a porta do veículo sendo fechada novamente e ele arrancando. não perdeu tempo, me prensou contra a parede e me beijou com vontade.
Empurrei seu peito de maneira suave.
— Mikael ou Oscar podem aparecer aqui.
— Deixe que apareçam. — Plantou um beijo no meu pescoço.
Ofeguei.
— Vai gerar muitas perguntas. — Peguei a mão dele e o puxei. — Vem, vamos para o meu bangalô.
Ele segurou minha cintura e fomos aos tropeços até o meu quarto. Mal fechei a porta e sua boca já estava na minha mais uma vez, me reivindicando. Passei o blazer pelos seus ombros, ele terminou de jogar no chão; parti para a gravata e me atrapalhei por não estar vendo, ele parou com o beijo e arrancou a gravata com certa brutalidade; e, por fim, desabotoei sua camisa de maneira ansiosa, a ponto de tremer.
— Vou me lembrar de você nesse vestido toda vez que fechar os olhos, mas ele precisa ir embora agora — disse.
Sua mão alcançou o zíper do vestido e desceu. O tecido caiu em uma poça ao redor dos meus pés, me deixando apenas de roupa íntima diante dos seus olhos. Senti meus mamilos despontarem de desejo com a análise minuciosa que fez.
Ele se aproximou, me pegou pela linha do maxilar e da cintura e me atacou com seus lábios novamente. Mais tropeços por não conseguirmos nos separarmos, nós caímos na cama juntos. Seu rosto desceu pelo meu pescoço até o colo, deixando uma trilha de pele sensível para trás. Eu me sentia formigar pela bebida e pelo desejo. Minhas pernas se fecharam em sua cintura, procurando senti-lo.
— ! — Ouvi a voz de Oscar me gritar do lado de fora. — !
— Não é possível — sussurrei para . Ele riu. — Já vai! — gritei.
Nos levantamos juntos. Peguei as roupas dele do chão e o entreguei.
— O quê? — sussurrou.
— Vai para o guarda-roupa.
Ele me olhou, desacreditado.
— Eu não vou entrar no guarda-roupa.
Oscar começou a bater na porta, me apressando.
— Anda logo — falei entredentes.
Ele revirou os olhos e entrou no guarda-roupa. Corri até o banheiro para pegar o roupão.
— Sim? — falei enquanto abria a porta.
— Está com alguém? — Franziu o cenho.
— Não, sou só eu.
Ele passou os olhos pelo quarto, inclusive dentro da porta aberta do banheiro.
— Entendi. — Ele não demonstrava duvidar. — Você viu o ? A mãe dele ligou para desejar boa sorte no Live Aid.
— Não, não vi — falei rápido demais. — Nós chegamos do jantar e ele foi em outra direção. Já tentou procurar na casa da árvore?
— Boa ideia. Vou procurar lá.
Oscar deu as costas e se perdeu no escuro. Voltei para o interior do quarto e abri a porta do guarda-roupa, encontrando um furioso.
— Da próxima vez que você quiser esconder alguém no seu guarda-roupa, procure outro trouxa.
Vestiu a camisa, sem abotoar.
— Você vai embora? — perguntei, incomodada.
— O que acha? Você me escondeu como se eu fosse seu amante e Oscar seu marido!
Me sentia frustrada em vê-lo calçar os sapatos, minhas esperanças de passarmos a noite juntos estavam indo para o ralo. Na última vez, quando pedi que dormisse no meu quarto, ele foi embora de manhã cedinho. Eu nem pude acordar com ele.
Só pela sua expressão, já pude concluir que a trégua havia acabado.
— Você queria que ele nos pegasse juntos?
— É um problema tão grande assim seus amigos saberem?
— Sim? — falei, como se fosse óbvio. — Nós nos odiamos, . O que você fez comigo foi imperdoável.
Vi a mágoa passar pelos seus olhos. Ele não disse nada, apenas pegou a gravata e se levantou. Senti seu perfume quando passou por mim e fechei os olhos, desejando que a noite terminasse de outra maneira.
Porém eu acabei sozinha assim que a porta bateu.
Passamos a noite acordados, mexendo na música e alinhando. O amplificador da guitarra estava baixo, mas, ainda assim, incomodaria alguns vizinhos; a sorte era que estávamos afastados de todo mundo, na parte de trás do jardim.
Quando estava amanhecendo, eu acabei dormindo. Acordei, assustada, algum tempo depois, o relógio marcava nove horas e dormia com a guitarra no colo no sofá.
— Ai, meu Deus! — exclamei, fazendo-o sobressaltar de susto. — O Live Aid! Éramos para ter saído daqui uma hora atrás!
Ele balançou a cabeça e arregalou levemente os olhos, tentando acordar.
Pulei da cama e fui para o banheiro me arrumar. Ao abrir a porta, encontrei o quarto vazio. Será que havia me abandonado?
Dois minutos depois, ele abriu a porta, vestido com outra roupa e de cabelo molhado, e entrou. Deixei um suspiro de alívio escapar.
— Não tem mais ninguém aqui — disse.
Eu disse alívio? O desespero subiu pelo meu corpo feito um calafrio.
— Precisamos ir agora — falei.
Peguei meus pertences e saí correndo para pegar um táxi. Não havia sinal de ninguém na pousada, estava deserta a não ser pelos funcionários. Fui informada, na recepção, de que os táxis estavam todos concentrados no centro da cidade e no estádio John F. Kennedy e que o último ônibus para o Live Aid saíra há trinta minutos.
Voltei para o bangalô, procurando alternativas para contornar a situação. Não encontrei nenhuma. estava sentado no sofá em uma posição relaxada e o rádio estava ligado na transmissão do festival.
— Não está passando nenhum táxi por aqui — anunciei.
— É claro, a cidade está parada por causa do Live Aid.
Ele disse naquele tom sabichão que eu tanto odiava. A falta de atitude dele também me irritou.
— Você nem está fazendo esforço para encontrar alternativas! — acusei-o. — Você queria mesmo estar aqui ou só veio por não saber dizer “não” para Mikael?
Vi seus lábios sendo pressionados um contra o outro.
— Eu estou aqui porque quero ajudar o meu melhor amigo. — Seu tom era cortante. — Ficar preso aqui com você é a última coisa que eu pretendia, mas já aceitei que a menos que andemos até o estádio, não tem o que fazer.
O telefone tocou, atrapalhando nossa discussão.
— Alô?
— , o que diabos você está fazendo aí?! — Mikael falou do outro lado. O barulho era alto.
— Vocês nos abandonaram aqui.
— Como assim? — Ele suspirou. — Achei que vocês iam ensaiar no prédio por causa do piano, estou ligando para lá tem dez minutos e a porra das minhas moedas acabaram.
— Não, nós ensaiamos aqui. — Olhei para , que guardava a guitarra. — Estamos presos, não tem táxi ou ônibus passando. Está todo mundo aí.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu vou sair e buscar vocês.
— Mikael, vamos os três perder o show.
— Vai dar tempo. Está um trânsito desgraçado aqui e vou levar horas para conseguir sair, mas vou chegar aí. Me esperem.
— Tudo bem.
A linha foi cortada, provavelmente pela falta de moedas.
— Ele disse que vai demorar horas para conseguir sair, mas que vem nos buscar — avisei. — Se é que você se importa, é claro.
— Você quer que eu não me importe para jogar na minha cara, não é? Mas eu me importo, esse show é importante para vocês.
Semicerrei os olhos.
— Você não se importa com nada além de si mesmo desde a escola.
Ele passou a mão pelo cabelo e olhou para o teto.
— Estou cansado disso.
Arqueei uma sobrancelha. Seus olhos estavam nos meus outra vez.
— De quê?
— Você me odiar por algo que eu não fiz. — Eu não estava entendendo nada. Ele pareceu perceber, pois explicou: — Não fui eu quem desligou seu microfone na apresentação.
Sério que ele queria discutir algo que aconteceu há tantos anos?
— Isso nem cabe discussão, . Todo mundo sabe que foi você.
— Me escuta — pediu. — Eu estava lá quando Jonas tropeçou no fio e saiu correndo, alguém deve ter me visto religando o seu microfone e ter achado que fui eu e espalhado esse boato de merda.
— Por que você religaria meu microfone? Seria melhor para você se a minha apresentação fosse um fiasco completo.
— Porque eu nunca quis te prejudicar, . Sempre foi de igual para igual entre nós.
Ouvir a nossa história por uma perspectiva diferente era estranho, eu passei parte da minha vida acreditando no que aquele bilhete dizia.
— Por que eu acreditaria em você?
— Não tem motivo para mentir depois de todos esses anos. Isso é o que realmente aconteceu aquele dia.
Fazia sentido? Sim, mas eu não sabia se conseguiria confiar.
— E você vem me dizer isso quase sete anos depois?
— Achei que conseguiria manter essa relação de ódio até ir embora. — Seus olhos ficaram límpidos. — Só que eu não consigo mais.
Sabia que estava abusando das perguntas, mas só elas me vinham à mente.
— Por quê?
— Porque eu estou me apaixonando.
Meu queixo deveria ter batido no chão. Não poderia ser verdade. O que conhecia nunca se apaixonaria por mim, a garota que o observava secretamente e que desafiou todos seus limites.
— Você está tirando sarro com a minha cara — concluí.
Ele se aproximou e pegou minha mão, colocando-a no lado esquerdo do seu peito.
— Toda vez que eu chego perto de você, ele fica assim.
Seu coração batia rápido.
Peguei sua outra mão e a trouxe para o meu peito, meus batimentos também estavam no mesmo ritmo apressado. Me perguntei o que eu sentia para estar daquela forma.
Ele sorriu ao olhar para seus dedos.
Eu não poderia deixar com que continuasse com aquilo. Recolhi a minha mão e, quando viu minha expressão se transformar, ele recolheu a dele também.
— Isso não muda o fato que mexi nos cabos da sua guitarra e prejudiquei sua carreira musical.
— Não tem mais importância, não era para ser.
— Claro que importa! — Joguei os braços para o alto em exaspero. — Você não teve a mesma oportunidade, não viu sua banda atingir o sucesso que merecia.
— Nós vamos chegar lá. Teve que ser do jeito difícil, mas aprendemos e crescemos bastante assim.
— Desculpa, . Céus, devo desculpas para todos vocês. — Senti lágrimas brotarem nos meus olhos.
Ele me puxou pela cintura para me abraçar.
— Não precisa se desculpar, você só agiu de acordo com a situação.
— Eu poderia ter te perguntado antes, qualquer coisa seria melhor do que o que fiz.
Sua mão se enterrou entre mechas do meu cabelo e os dedos acariciaram o couro cabeludo.
— Já passou, princesa.
— Você não me odeia? — Ergui o rosto para fitá-lo.
— Não. Eu achava que odiava quando cheguei aqui, mas nós não somos mais aqueles adolescentes.
— Depende. — Podia ver em sua expressão que ele achava que eu ia falar que ainda o odiava, mas eu nem tinha motivo para isso. — Tem uma característica da adolescência sobrando aqui dentro.
— E qual é?
— Eu ainda te acho lindo.
Ele sorriu o seu sorriso de quem não valia nada.
— Se eu soubesse que você tinha interesse em mim desde aquela época, teria feito algo a respeito.
Arqueei uma sobrancelha.
— Bem, estou aqui agora — falei em tom sugestivo.
— E eu não vou te deixar escapar de novo.
Ele me puxou de encontro aos seus lábios. Beijei-o não como se fosse meu inimigo dessa vez, mas alguém que fazia o meu coração acelerar. Os dedos dele que estavam entre meu cabelo deslizaram um pouco e o puxaram para aprofundar o contato. Beijar sempre desencadeava uma série de sensações; como a descida rápida de uma montanha-russa, ele fazia um frio absurdo no meu estômago dar as caras. Eu sempre ansiava pelo seu próximo movimento. Continuei enlaçando suas costas no abraço, mas deslizei as mãos em uma carícia leve. Ao contrário das outras vezes, esse beijo não possuía um resquício de pressa, funcionava como uma dança para o novo início, onde nós dois não nos odiávamos. Estávamos livres do que veio nos atormentando por anos.
O senti contornar a lateral do meu corpo até segurar minha coxa, pedindo para que subisse nele. Eu não negaria nada a ele naquele momento, por isso, obedeci. Nós nos encaixamos e ele me imprensou contra a parede.
— Somos só eu e você pelas próximas horas? — confirmou. Eu assenti. Ele olhou para o teto e disse: — Obrigado, caralho.
Antes que eu pudesse ter qualquer reação, ele me beijou e com muita urgência dessa vez. Suas mãos apertaram minhas coxas, me fazendo reagir e prender sua cintura com mais força. Tudo que era calmo, se tornou rápido e necessitado naquele momento. Nossas línguas começaram a se explorar em uma carícia que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem de tão obscena. Ele pressionou a pelve contra mim, exibindo a dimensão do seu desejo — que já era bem grande, aliás. Eu precisava tanto dele, todo aquele tempo de tesão acumulado fazia meus hormônios enlouquecerem. Gemi ao mesmo tempo que baguncei o cabelo dele, contribuindo para a tal “cara de sexo”.
Ele me carregou até a cama. Senti o colchão ceder com o meu peso, mas não quis parar de beijá-lo, por isso, trouxe-o comigo. Ele se curvou, deslizou as mãos pelas minhas coxas, abrindo-as de uma vez, e se encaixou no meio delas. Me esfreguei nele em uma provocação e fui respondida com uma investida quase imperceptível.
O meu corpo gritava:
Mais, . Me dê mais de você.
Ele interrompeu o beijo para tirar minha blusa. Seus olhos se fixaram nos meus peitos, meus mamilos endureceram com a intensidade do olhar.
— Você não usar sutiã deixa tudo melhor.
Sorri de lado. Eu sabia o quanto havia sido divertido para ele essas três vezes que não encontrou nenhum empecilho debaixo da minha blusa. Peguei sua mão e pousei em cima do meu seio, como incentivo, arquejando ao senti-lo apertar de leve para testar minha reação. Se dependesse de mim, ele poderia massagear aquela parte do meu corpo para sempre.
Ele se abaixou até estar com o rosto enterrado no meu pescoço e distribuiu beijos e chupões leves. O dedão se ocupou em brincar com meu mamilo, enviando descargas de desejo por todo o meu corpo. Me pressionei contra ele para aplacar o fogo que crescia dentro de mim, a rigidez na sua braguilha atingindo o local certo. Não sendo provocação o suficiente, ele desceu o rosto até o meu colo e refez a linha dos seios com a língua enquanto me olhava. A nossa conexão visual era tão intensa que eu não ousei quebrar. Nem quando ele abocanhou meu mamilo e eu pude jurar que aquela era a melhor sensação de alívio já experimentada. Ele o sugou e circulou com a língua, repetindo várias vezes até eu estar zonza de prazer.
— Por favor, — saiu feito um miado.
— O que você quer, princesa? — Minhas bochechas coraram ao pensar em dizer em voz alta o que eu realmente queria. — Se quiser mesmo, vai ter que me dizer.
Eu conseguia dizer aquilo.
Vamos lá, . Você pode superar esse bloqueio.
— Você disse aquele dia que não pensou em mim quando teve que ir para o banheiro da casa de dança sozinho... V-Você mentiu?
— Menti. — Ele nem piscou ao dizer aquilo.
— Eu quero ver. — Ele arqueou uma sobrancelha, questionando o que eu queria dizer. — Bate uma para mim.
Seu sorriso foi o que eu classificaria como perverso. Ele não ter questionado ou pestanejado me fez pensar que não só eu apreciaria aquilo. apenas se levantou, tirou a camiseta e abriu a calça. Meu coração acelerou ao ver ele o segurar, minha boca salivou de vontade de prová-lo. Seus olhos se fixaram nos meus e sua mão se movimentou, indo da glande até a base. Ele mordeu o lábio inferior e aumentou um pouco o ritmo. O privilégio em poder ver uma cena tão íntima se desenrolar na minha frente me excitou em um nível absurdo. Passei o short e a calcinha pelas pernas, jogando-os pelo quarto porque a mera ideia de vestir algo enquanto ele se tocava para mim parecia errada. Senti seu olhar me queimar conforme descia do meu rosto ao resto do corpo. A mão dele fez movimentos ainda mais rápidos, arrancando um gemido do fundo da sua garganta. Ele lançou a cabeça para trás e todo o seu rosto se franziu, como se ele estivesse muito perto do ápice.
E, então, ele parou.
Um sorriso se formou nos meus lábios ao perceber que ele não queria acabar com a graça.
Ele se curvou e plantou um beijo na minha boca. Suas mãos escancaram minhas coxas e mais beijos foram distribuídos do vão dos meus seios até o umbigo. Me ergui sobre meus cotovelos para perguntar o que ele estava fazendo, mas o encontrei ajoelhado no chão e perdido entre minhas pernas. A visão foi quase tão boa quanto a sensação da primeira investida da sua língua. Minhas costas arquearam em surpresa com o prazer súbito. Ele lambeu de cima para baixo e, depois, fez o inverso, me experimentando. Eu me sentia formigar com tanto desejo que só sua respiração ali poderia ser minha perdição. Quando ele se concentrou no meu clitóris, eu agarrei seu cabelo e passei a me esfregar em sua cara. Seus dedos alcançaram um dos meus mamilos e passaram a provocá-lo, me arrancando gemidos tão altos que deveriam ser ouvidos perto da piscina. Foi ao sentir sua língua investir na minha entrada que não tive a menor chance.
Minha mente se perdeu no abismo e eu só consegui me lembrar do nome dele para gritar.
Só o vi se levantar depois do meu último espasmo.
— Você conseguiu — falei após me recuperar —, eu lembrei apenas do seu nome.
Ele sorriu.
— E você dizendo que não transaria comigo nem se eu fosse o último homem do planeta, olha só o que estaria perdendo — brincou.
— Você vai se lembrar disso para sempre, não é?
— Eu vou lembrar de nós dois para sempre.
Aquela frase se fixou na minha mente e fez meu coração ir até a boca. Nós dois também era algo que nem se eu fizesse muito esforço, esqueceria. Ainda não havia decidido se era bom ou ruim.
Ele desceu a calça e a roupa íntima, ficando em toda a sua glória. Meus olhos cresceram, engolindo a minha imagem à minha frente. De todas as vezes que o imaginei sem roupa, poderia dizer com toda a certeza de que nenhuma chegava perto do que realmente era. Um absurdo de tão delicioso. Eu queria lamber cada pedaço dele.
Estava preparada para aquele momento desde o dia que Mikael nos interrompeu, por isso tirei um pacote da mesinha de cabeceira e o ofereci. Ele rasgou com o dente e tirou a camisinha, deslizando por sua extensão. Ao se encaixar entre minhas pernas outra vez, senti um calafrio de antecipação.
Era quem eu passei anos entre desejar e odiar ali naquele quarto comigo. Tudo parecia tão diferente sem o barulho ensurdecedor do ódio, eu podia ouvir todo o resto do meu corpo, e ele falava tão alto perto de , principalmente o meu coração.
Abracei seu tronco, querendo senti-lo mais próximo de mim. Talvez me fundir a ele, virar um só.
Nossas intimidades acabaram se encostando e foi como se eu tivesse experimentado uma pontinha da felicidade.
Eu só pensava no quanto necessitava de mais.
— Me fode, — pedi. — Me fode de verdade.
— Como quiser, minha linda — sorriu.
Ele me penetrou devagar. Rolei os olhos de prazer. Era o nascer do sol depois de uma longa madrugada, o cair da noite depois de um dia de show, o primeiro dia de primavera depois de um inverno rigoroso... Parecia aguardado, cheio de alívio e certo. Quando entrou por inteiro, nós nos retesamos. Difícil acreditar que desperdicei meu tempo discutindo com ele quando éramos capazes de experimentar aquilo juntos. Porém toda aquela tensão sexual culminou para o que sentíamos no momento, como se fosse um balão que inflou até estourar. Ele retirou de uma vez e estocou com mais força. Sua mão alcançou e envolveu a minha enquanto ele começava investir com os quadris.
Eu tive medo até de fechar os meus olhos e concluir que não se passava de um sonho.
Ele se levantou, me dando uma vista privilegiada dos seus músculos trabalhando e cada gotícula de suor deslizando por sua pele. Pensei que poderia ir até o extremo só o admirando e com aquele vai-e-vem entre minhas coxas, já que a cada estocada ele atingia um ponto delicioso dentro de mim e eu estava cada vez mais perto. Porém ele começou a provocar meu clitóris. Meu gemido foi alto e arrastado, indicando que eu estava muito perto.
— Eu poderia fazer isso para sempre e, ainda assim, não teria o suficiente de você.
Se ele ia escolher falar aquelas coisas, eu estava arruinada.
— Todas as vezes que fantasiei com você nem chegaram perto do que está sendo te ter.
— Céus, ... — Minhas costas arquearam, se preparando para a surra de sensações dentro de mim. — Eu vou...
Ele aumentou o ritmo de tudo. Estrelas explodiram na frente dos meus olhos, parecia que minha alma saiu do corpo e voltou. Foram os segundos mais prazerosos que já tive. Quando os efeitos do orgasmo acabaram, saiu de dentro de mim.
— Vira, princesa — pediu. Obedeci, sentindo meus músculos parecerem gelatina, mas meu corpo pronto para mais. Ele passou um braço pela minha barriga e me ajudou a ficar de quatro. — Eu disse que empinaria essa bunda gostosa e meteria fundo em você, não disse?
Assenti veemente, ansiosa para aquilo. Ele cumpriu com a palavra dele, estocou tudo de uma vez. Eu arfei e enterrei a cabeça no travesseiro. No quarto passou a se ouvir apenas o som das nossas respirações descompassadas e dos corpos colidindo. Ele deu um tapa servido na minha nádega, me pegando tão desprevenida que quase gozei outra vez. Seus gemidos se transformaram em rosnados entredentes e os quadris ficaram ainda mais rápidos, girando e estocando sem parar. Eu ansiava pelo prazer dele e sabia que não demoraria. Passei a chocar meu corpo contra o dele até ouvir um gemido que parecia vir da alma. Era cru e primitivo. Ele chamou o meu nome e eu chamei o dele, caindo do abismo pela terceira vez. O seu corpo despencou em cima do meu.
Senti seus dedos afastarem meu cabelo para um dos meus ombros e os lábios plantarem um beijo na minha nuca, que fez minha pele se arrepiar.
Ele saiu de dentro de mim e da cama, deixando um vazio. Quis implorar para que voltasse, mas o ouvi no banheiro se livrando do preservativo. Quando retornou, eu esperava por ele de bruços, incapaz de me mover. Deitou-se ao meu lado, bem próximo. Ele sorria daquela forma genuína e descontraída que eu disse que nunca fez para mim, meu pobre coração errou algumas batidas de tanta alegria.
— O que foi? — perguntei, fitando seus olhos.
— Eu estou apaixonado por você.
Estiquei o braço e toquei o seu cabelo.
— Talvez eu seja apaixonada por você também. — Ele se limitou a acariciar minhas costas com as pontas dos dedos, mas eu vi seus olhos brilharem. — Não vai questionar a minha fala?
— Não, não vou questionar ou cobrar sentimentos. Pode ficar tranquila. Eu só não sei se serei capaz de fingir que isso daqui não aconteceu, caso me peça.
— Eu jamais te pediria isso. Até porque eu mesma não conseguiria fingir nem se tentasse. — Deslizei minha mão pelas mechas. — Eu disse que talvez seja apaixonada por você porque desde a escola sinto algo de diferente.
Pronto, era isso. Eu havia admitido.
— Eu também nutria uma paixão secreta por você na escola. — Ele envolveu minha mão com a sua. — Você tinha aquela pose de inatingível, de ninguém-entra-na-minha-bolha. Tudo que eu queria era sentar e te admirar lendo por horas, sem se afetar por nada. Quantas vezes me imaginei nos trancando na sala da banda quando estava apenas nós dois e te beijando...
Arregalei os olhos.
— Mas, agora, estou apaixonado por quem você se tornou. A princesa, a vocalista do Love Bites e, ainda assim, aquela de Hässleholm.
Eu fiquei sem palavras. Qualquer coisa que eu falasse não chegaria aos pés daquilo.
Me virei de lado e pedi:
— Me beija.
E ele o fez.
Depois do que ele disse, o questionamento silencioso pairava no ar: eu queria ter algo quando voltasse para Estocolmo?
Para ser sincera, eu não sabia.
Com todos os shows marcados e a vida corrida da banda, não tinha certeza se sobraria um pedaço que pudesse compartilhar com . E ele merecia mais do que incertezas.
Faltava menos de uma hora e meia quando chegamos no camarim. Estava tudo um caos, eram pessoas transitando e gritando sem parar. Me separaram de Mikael e para fazer a maquiagem e vestir o figurino.
Brian apareceu para brigar comigo por ter ficado presa na pousada, eu não me arrependia nem um pouquinho, por isso, não retruquei.
Só encontrei o resto da banda na hora de entrar no palco. Todos vestiam pelo menos uma peça de roupa na cor branca por causa do festival. Eu vestia um macacão preto e um casaco longo branco com muito brilho. foi o último a chegar, meus olhos não descolaram dele, o tênis, a jaqueta e a camiseta branca lhe caíam muito bem, mas era a calça de couro sintético preta que apertava suas coxas e me levava de volta para o que aconteceu horas atrás.
— Senhoras e senhores, por favor, deem as boas-vindas a banda sueca Love Bites.
Senti um frio no fundo do estômago que não sentia há muito tempo antes de entrar no palco. As cortinas coloridas se abriram e eu vi o que deveria ser quase cem mil pessoas nos esperando.
Astrid deu início à música enquanto eu acenava para a plateia. O tempo era curto, então fomos instruídos a só entrar e tocar. Per se juntou a ela e, logo, a banda estava tocando o nosso sucesso das rádios. Mexi o corpo em uma dança de acordo com o ritmo lento, levando as pessoas a reagirem com gritos.
Quando peguei o microfone, tudo fluiu com tanta naturalidade que nem parecia que me preparei quase um mês para aquele show.
Oscar, Per e Astrid deixaram o palco poucos minutos depois sob aplausos. Eu me sentei no banco do piano enquanto afinava a guitarra.
Ao terminar, ele subiu na elevação do meu lado e escalou o piano, se sentando em cima da tampa fechada. Coloquei a mão na boca e arregalei os olhos, em choque. Ele piscou um olho para mim, tentando passar tranquilidade.
— Você vai cair!
— Só se for de amor por você.
Gargalhei e ele dedilhou a guitarra nas primeiras notas.
Olhei diretamente em seus olhos ao cantar a introdução e fui retribuída. A conexão só deixou tudo mais intenso.
A guitarra vermelha brilhava com o sol de verão, assim como o dono dela. Ele tocou o solo com o coração, seus dedos trabalhavam enquanto ele parecia sentir cada nota no íntimo. Ter essa amostra da dimensão do talento dele fez lágrimas escaparem.
No último refrão, eu já havia tomado uma decisão.
— Quero voltar para Estocolmo com você — disse.
— É sério?
— Sim, vamos fazer isso funcionar.
Aquele sorriso lindo se formou ao mesmo tempo que a música acabava.
Ele pulou do piano e eu me levantei. Nós corremos até o outro, chocando os corpos. O beijo que trocamos foi de tirar o fôlego. O público reagiu assobiando e gritando diante de nós.
Ao soltá-lo, vi Mikael de boca aberta no recuo do palco. Dei um tchauzinho para ele. Teríamos uma longa conversa nos esperando depois.
Abracei de lado e falei no microfone:
— Obrigada, Live Aid!

