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Revisada por: Calisto

Última Atualização: 24/07/2025
O som retumbante de passos ecoava pelos corredores vazios e escuros do teatro, em uma marcha que muito se assemelhava ao tic-tac de um relógio. O rugido reverberava nas paredes adornadas e estremecia sua estrutura. A fúria o espreitava como uma fera prestes a o estraçalhar.
A multidão, munida com tochas e armas improvisadas, avançava como uma sombra viva, movida pela vingança e pelo medo. As chamas tremulantes registravam as sombras enquanto se aproximavam, numa dança macabra que não parecia ter fim, enquanto os rostos daqueles que o perseguiam se deformavam.
O Fantasma da Ópera estava sendo caçado.
Não era nada diferente do que já havia vivenciado. Desde a mocidade, a perseguição e o ódio o mantinham como refém, envenenavam qualquer resquício de esperança que surgisse.
— Ele está aqui! Acabei de ver a capa! — alguém gritou, e a voz atravessou o teatro como um golpe de faca, uma sentença que, até então, ele se recusava a aceitar.
Aquele seria mesmo o seu fim?
O cheiro acre de fumaça o sufocava. O grupo de caçadores se espalhava pelas passagens secretas, seu labirinto, o domínio que até então era apenas dele, e isso lhe dava um pouco de vantagem. No entanto, tudo estava arruinado, e não teria muito mais tempo.
Escondido nas sombras do palco, o Fantasma observava seus perseguidores. O capuz negro de sua capa cobria parcialmente seu rosto, despido da máscara que carregara por tantos anos. Sua deformidade exposta como jamais imaginaria que aconteceria novamente.
Desde o primeiro dia em que a Ópera de Paris se tornou o seu refúgio, jamais imaginou que voltaria a se sentir como um animal de circo. No entanto, ali estava ele. Acuado, quase rendido e prestes a ceder à derrota.
Um misto de desprezo e tristeza brilhava em seus olhos. Eles nunca entenderiam. Nunca poderiam ver o que ele verdadeiramente era, ou quem havia se tornado. Apenas uma pessoa era capaz daquilo. Apenas uma pessoa o havia visto e o aceitado de corpo e alma.
Não.
Não podia desistir! Não podia sucumbir. Não sem antes encontrá-la.
Será que ela estaria entre a multidão? Estaria também apontando armas para feri-lo?
Uma pontada em seu peito implorou para que estivesse enganado.
O Fantasma se moveu silenciosamente e atravessou o palco principal arruinado, então subiu pela passagem que o levaria aos camarotes. Suas vestes escuras cumpriam o papel de escondê-lo nas sombras.
Ninguém conhecia o teatro como ele. Todas as portas e passagens secretas. Porém aquilo estava prestes a mudar, o que só aumentava o amargor em seu peito.
Seus dedos arranharam as paredes, enquanto se dirigia ao seu último refúgio, o Box 5.
Foi lá que tudo começou. Foi lá onde ele a viu pela primeira vez.
.
O nome dela ressoava em sua mente como uma melodia que nunca parava. Se fechasse os olhos, ainda poderia senti-la e daria qualquer coisa para tê-la para si uma última vez antes de sucumbir.
As lembranças voltaram com uma força avassaladora. Ele podia quase ouvir a voz dela, desafiadora, inabalável, a primeira a ousar enfrentá-lo. Seu sangue fervia ao recordar aquela noite. Ela o tinha enfeitiçado, o arrastado para fora da escuridão.
havia provado do paraíso e do inferno. Navegado por suas curvas. Embalado pela melodia única que apenas sabia entoar.
Nem todas as óperas poderiam descrever o quanto aquela mulher havia o atingido. O quanto revolucionou o âmago de seu ser.
Precisava dela. E de repente sabia que, se estivesse no meio da multidão furiosa, ele não hesitaria em se entregar.
Se aquele fosse o desejo dela, o Fantasma da Ópera o aceitaria de bom grado.
Afinal, não havia nada que não faria por ela, e foi assim desde o princípio.
A porta do camarote se abriu com um rangido suave, em um som muito semelhante a um lamento.
No palco abaixo, o frenesi da multidão se intensificava. A justiça era exigida. Os gritos explodiam como uma bomba relógio e o tic-tac nauseante continuava a soar. Seus batimentos o acompanhavam, suas mãos tremiam e sua boca estava tão seca que o deixava tonto.
Mas não olhava para as pessoas. Não naquele momento.
Seus olhos se fixaram no lugar onde costumava ficar, como se pudesse vê-la uma última vez. Um último suspiro escapou de seus lábios, e ele se permitiu recordar o brilho dela, a forma como a luz dançava em seus cabelos e o modo como desafiava o mundo. A sensação de ser visto e compreendido, mesmo que por um breve momento, era um bálsamo para sua alma atormentada.
Um último suspiro. E então, a porta foi arrombada. A realidade gritou ensurdecedora e , o Fantasma da Ópera, abraçou seu destino.




O grande espetáculo estava prestes a começar. Naquela noite, Christine Daaé, uma jovem soprano que vinha arrebatando corações, iria se apresentar mais uma vez na Ópera de Paris, em substituição à veterana Carlotta.
A princípio, as pessoas duvidaram que Christine daria conta de representar o papel principal à altura, afinal, ela fazia parte do coro e nunca foi solista. As comparações eram inevitáveis, além disso, Carlotta era a estrela, ninguém chegava aos seus pés. No entanto, a diva se recusava a pisar o palco, e Daaé surpreendeu a todos com uma voz arrebatadora que mais parecia com a de um anjo quando, por fim, aceitou o desafio e se dedicou de corpo e alma às canções entoadas.
Todos os olhares de repente estavam nela. Na jovem bela e encantadora, que cantava com o coração e parecia extremamente segura a cada nota entoada.
Quem era o seu tutor?
Boatos corriam a respeito da informação, e todos eles praticamente foram confirmados com a instrução enfática para aquele espetáculo em especial. O box 5 do teatro não podia ser reservado para ninguém, porque ele o ocuparia.
O Fantasma da Ópera.
A figura que assombrava a todos e deixava cartas com ordens expressas a quem gerenciava o lugar.
Alguns diziam que era apenas um espertinho tirando vantagens, outros acreditavam se tratar realmente de uma figura sobrenatural a aterrorizar cada canto do teatro, e havia aqueles que achavam que tudo não passava de uma jogada para atrair o público, afinal, as pessoas queriam comprovar com os próprios olhos.
Apenas uma pessoa sabia a verdade, Madame Giry. E por saber da verdade, a mulher de meia idade sempre enfatizava a importância de não ignorar as cartas recebidas.
Não cumprir as ordens do Fantasma trazia consequências graves, era ele que comandava a Ópera de Paris afinal.
Ainda assim, havia aqueles que se atreviam, e a direção atual e recente decidiu que seria mais vantajoso desprezar as instruções do Fantasma para lucrar com o box 5. A casa estava cheia, não fazia sentido deixar um lugar vazio, sem mencionar que sua ocupante tinha influência o suficiente para atrair ainda mais pessoas ao local.
Com um belo sorriso estampado em seus lábios, a jovem assistiu Christine adentrar o palco e dar início ao espetáculo. Tudo o que havia ouvido falar não fazia jus ao quanto Daaé era talentosa e, por longos minutos, a mulher se viu completamente hipnotizada. Seu encanto pela voz da cantora era tamanho, que mal notou de repente não estar mais sozinha.
— Ninguém deveria estar no box 5. — Uma voz imponente a pegou de surpresa. Era rouca, carregava uma nota de irritação e foi capaz de arrepiá-la dos pés à cabeça em poucos segundos. No entanto, a jovem não era de dar o braço a torcer, então apenas se virou levemente e ergueu uma sobrancelha.
— Como é?
A figura parada um pouco atrás dela era uns bons centímetros mais alta. Usava um smoking impecável, o tecido negro absorvendo a iluminação difusa do ambiente, enquanto a camisa branca reluzia com elegância sob o colete ajustado. A gravata borboleta perfeitamente alinhada no pescoço denunciava um requinte que destoava de sua presença quase sobrenatural. Mesmo assim, cada detalhe parecia fazer parte de um plano calculado, cada peça cuidadosamente escolhida para disfarçar a escuridão que carregava em seu âmago. Uma longa capa de veludo negro cobria seus ombros e se arrastava até seus pés, como se fosse a própria sombra dele. Com os cabelos negros cuidadosamente penteados para trás, uma máscara branca cobria metade de seu rosto, em um contraste hipnotizante com suas vestes, enquanto parecia esconder seus segredos mais sombrios.
Era ele, ela sabia. A descrição batia com todos os boatos.
O Fantasma da Ópera.
— Eu disse que ninguém deveria estar no box 5. Minhas instruções foram claras, este lugar me pertence. — O tom hostil possuía o intuito de assustá-la. No entanto, a mulher ergueu uma sobrancelha audaciosa e se empertigou na direção do Fantasma.
— É mesmo? Não estou vendo seu nome escrito nele.
Mesmo coberta pela máscara, a expressão da figura foi muito clara. Seu olhar escureceu ainda mais, e os lábios se curvaram como se ele estivesse prestes a rosnar.
— E por que meu nome estaria escrito aqui? Este lugar sempre me pertenceu. — O veneno gotejava por seus lábios e revelava o ciúme e a possessividade do Fantasma por aquele ambiente.
— Bom, então acho que cometeram um erro, porque eu reservei este box para hoje. — A jovem deu de ombros, ao ignorar o que seus olhos captavam. Sabia do que aquilo se tratava. Barreiras.
— Você reservou? Com quem? — Ele se indignou. — Porque eu posso te garantir que ninguém tem permissão para isso.
— Nem mesmo os donos? — Ela ergueu a sobrancelha mais uma vez e seus lábios se curvaram levemente quando conteve um sorriso.
A boca dele se abriu, prestes a dizer algo, no entanto, o Fantasma da Ópera, que sempre tinha as palavras prontas, de repente, se viu atordoado, tamanha era a audácia daquela mulher.
Não gostava daquilo. Nunca havia experienciado algo semelhante.
— Ah, por favor, não precisa ficar tão chateado. Por que não dividimos o box esta noite? Há espaço o suficiente para nós dois. — Como se ela já não tivesse o surpreendido o suficiente, sua mão enluvada tocou o assento ao lado e deu dois tapinhas para reforçar a proposta.
A reação comum das pessoas à presença dele era medo, receio e tomar a maior distância possível. No entanto, por algum motivo, a jovem não o temia e, mesmo ainda irritado por sua petulância, o Fantasma estava intrigado.
— Ótimo. — As palavras ecoaram de sua boca e o homem ajeitou a capa para se sentar no assento ao lado dela.
— Viu só? Ninguém precisa se ferir. — O tom dela deixava claro que em nenhum momento temeu aquilo.
Quem era ela?
A mulher passou a prestar atenção no espetáculo, sem se incomodar com a forma fixa que ele a observava. Talvez estivesse acostumada a chamar aquele tipo de atenção, ou talvez apenas fosse louca mesmo.
— Ela é magnífica. — Seus olhos brilhavam de maneira encantada ao assistir Christine no palco.
O Fantasma continuou a encará-la por alguns segundos antes de desviar seu olhar brevemente para o espetáculo.
— Sim. Ela é — concordou calmamente, e seu peito pareceu inflar sutilmente de orgulho e admiração. — E a senhorita parece bastante interessada nela — insinuou, intrigado.
— Oh, não fique com ciúmes. Não me interesso por mulheres dessa forma. — A risada ecoou mais melodiosa do que deveria para o gosto dele.
— Com ciúmes? — Um sorriso se formou no canto dos lábios do homem. — Apenas acho intrigante o quão facilmente a senhorita se deixa cativar.
Ele não se referia somente a Christine, mas à própria presença dele naquele box.
— Uma pequena correção, se me permite, senhor. Sou facilmente cativada por puro talento, e é isso que vejo naquele palco. Quem quer que seja o tutor de Christine Daaé, está fazendo um excelente trabalho.
E, mais uma vez, o ego do Fantasma de inflou com aqueles elogios. Ela sabia dos boatos, não era tão tola assim. Na verdade, a expressão de seu rosto e o sorriso de canto que nunca abandonava seus lábios denunciavam exatamente isso.
— Presumo então que foi isso que a trouxe até o teatro esta noite? — O homem se acomodou melhor no assento, interessado na conversa.
— Não, não foi apenas Christine Daaé. Eu amo ópera. As histórias, os mistérios, a paixão entoada. E música é tudo para mim.
— Os mistérios, uh? — Uma sobrancelha foi sutilmente erguida.
— Talvez esta seja a parte que mais me excita. — Alargou um pouco o sorriso.
— É mesmo? Algum motivo em especial?
— Digamos que eu seja uma pequena amante da adrenalina. — Piscou para ele, antes de, mais uma vez, voltar seu olhar para o palco.
O Fantasma estava certo então, era apenas louca.
Ainda assim, permaneceu ali. Algo nela de repente o fascinava.
— Sou , aliás. . — Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo.
Ele hesitou por um momento, dividido entre a surpresa pelo gesto e o encantamento, porque não se recordava de ter visto um nome combinar tanto com alguém.
. — Aceitou o cumprimento e deixou mais um sorriso de canto se formar ao notar a firmeza dela, no entanto, estremeceu porque, ao tocá-la, mesmo por cima da luva negra, faíscas o eletrizaram.
Um suspiro foi contido quando se soltaram.
— Posso fazer uma pergunta indiscreta, senhor ? — Erik ergueu uma sobrancelha, enquanto um resquício de cautela tomava conta de suas feições.
— Diga, senhorita. — Por mais que uma parte dele exigisse cuidado, havia a curiosidade e uma vontade de ceder a qualquer coisa que pedisse.
— É namorado dela, ou algo semelhante? — Indicou Christine com um aceno de cabeça.
era mais astuta do que o Fantasma imaginava e havia percebido uma conexão entre a cantora e Erik .
— Namorado? — Uma risada rouca escapou de seus lábios. — Não. Apenas compartilhamos uma admiração mútua. Ela possui um dom raro e divino, o qual tenho sido fundamental em nutrir.
— Então você é o professor dela. — Sorriu abertamente.
— Correto. — Assentiu devagar, e seu olhar mais uma vez cruzou o palco brevemente, incapaz de permanecer ali porque era agora o foco de seu fascínio.
— Tem feito um trabalho excepcional, sem dúvidas, senhor . — A mulher se acomodou melhor no assento e cruzou as pernas, o que atraiu o olhar dele, ainda que de forma sutil.
— Agradeço, senhorita .
Alguns longos minutos de silêncio se seguiram entre eles, onde apenas assistiram ao espetáculo sem o desconforto do início.
— Sabe, eu também sou cantora, porém não de ópera.
Mais uma vez, o olhar dele foi atraído para ela como um ímã. A cada instante, o surpreendia mais.
— É mesmo? E qual gênero é a sua especialidade então, senhorita?
— Jazz.
— Tenho a impressão de que seu nome fora das paredes deste teatro é muito maior do que imagino, .
— E o que o faz pensar isso, senhor ? — Ela sorriu de canto e piscou lentamente. Erik estava cada vez mais encantado.
— Estou enganado, senhorita? — Ele devolveu a pergunta e o sorriso. lambeu os lábios discretamente.
— Talvez eu seja. — Então, tão repentino quanto surgiu, ela se levantou de seu assento e permitiu que seu olhar queimasse sobre o Fantasma. — Foi um prazer conhecê-lo, Erik . Quem sabe nos encontramos novamente.
E se direcionou para a saída.
Erik piscou os olhos, atordoado. Sequer havia se dado conta do fim do primeiro ato.
Desejou segui-la, porém algo o manteve preso ali. Quem sabe o temor do desconhecido, ou do balançar suave das curvas dela, que certamente o levariam à perdição.


Continua...


Nota da autora: Olha só quem está de volta! Confesso que toda a interação me fez suspirar porque eu sou absurdamente apaixonada por esse personagem.
Espero que gostem e comentem!
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno. ♥

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