Revisada por: Calisto
Última Atualização: 19/05/2026A multidão, munida com tochas e armas improvisadas, avançava como uma sombra viva, movida pela vingança e pelo medo. As chamas tremulantes registravam as sombras enquanto se aproximavam, numa dança macabra que não parecia ter fim, enquanto os rostos daqueles que o perseguiam se deformavam.
O Fantasma da Ópera estava sendo caçado.
Não era nada diferente do que já havia vivenciado. Desde a mocidade, a perseguição e o ódio o mantinham como refém, envenenavam qualquer resquício de esperança que surgisse.
— Ele está aqui! Acabei de ver a capa! — alguém gritou, e a voz atravessou o teatro como um golpe de faca, uma sentença que, até então, ele se recusava a aceitar.
Aquele seria mesmo o seu fim?
O cheiro acre de fumaça o sufocava. O grupo de caçadores se espalhava pelas passagens secretas, seu labirinto, o domínio que até então era apenas dele, e isso lhe dava um pouco de vantagem. No entanto, tudo estava arruinado, e não teria muito mais tempo.
Escondido nas sombras do palco, o Fantasma observava seus perseguidores. O capuz negro de sua capa cobria parcialmente seu rosto, despido da máscara que carregara por tantos anos. Sua deformidade exposta como jamais imaginaria que aconteceria novamente.
Desde o primeiro dia em que a Ópera de Paris se tornou o seu refúgio, jamais imaginou que voltaria a se sentir como um animal de circo. No entanto, ali estava ele. Acuado, quase rendido e prestes a ceder à derrota.
Um misto de desprezo e tristeza brilhava em seus olhos. Eles nunca entenderiam. Nunca poderiam ver o que ele verdadeiramente era, ou quem havia se tornado. Apenas uma pessoa era capaz daquilo. Apenas uma pessoa o havia visto e o aceitado de corpo e alma.
Não.
Não podia desistir! Não podia sucumbir. Não sem antes encontrá-la.
Será que ela estaria entre a multidão? Estaria também apontando armas para feri-lo?
Uma pontada em seu peito implorou para que estivesse enganado.
O Fantasma se moveu silenciosamente e atravessou o palco principal arruinado, então subiu pela passagem que o levaria aos camarotes. Suas vestes escuras cumpriam o papel de escondê-lo nas sombras.
Ninguém conhecia o teatro como ele. Todas as portas e passagens secretas. Porém aquilo estava prestes a mudar, o que só aumentava o amargor em seu peito.
Seus dedos arranharam as paredes, enquanto se dirigia ao seu último refúgio, o Box 5.
Foi lá que tudo começou. Foi lá onde ele a viu pela primeira vez.
.
O nome dela ressoava em sua mente como uma melodia que nunca parava. Se fechasse os olhos, ainda poderia senti-la e daria qualquer coisa para tê-la para si uma última vez antes de sucumbir.
As lembranças voltaram com uma força avassaladora. Ele podia quase ouvir a voz dela, desafiadora, inabalável, a primeira a ousar enfrentá-lo. Seu sangue fervia ao recordar aquela noite. Ela o tinha enfeitiçado, o arrastado para fora da escuridão.
havia provado do paraíso e do inferno. Navegado por suas curvas. Embalado pela melodia única que apenas sabia entoar.
Nem todas as óperas poderiam descrever o quanto aquela mulher havia o atingido. O quanto revolucionou o âmago de seu ser.
Precisava dela. E de repente sabia que, se estivesse no meio da multidão furiosa, ele não hesitaria em se entregar.
Se aquele fosse o desejo dela, o Fantasma da Ópera o aceitaria de bom grado.
Afinal, não havia nada que não faria por ela, e foi assim desde o princípio.
A porta do camarote se abriu com um rangido suave, em um som muito semelhante a um lamento.
No palco abaixo, o frenesi da multidão se intensificava. A justiça era exigida. Os gritos explodiam como uma bomba relógio e o tic-tac nauseante continuava a soar. Seus batimentos o acompanhavam, suas mãos tremiam e sua boca estava tão seca que o deixava tonto.
Mas não olhava para as pessoas. Não naquele momento.
Seus olhos se fixaram no lugar onde costumava ficar, como se pudesse vê-la uma última vez. Um último suspiro escapou de seus lábios, e ele se permitiu recordar o brilho dela, a forma como a luz dançava em seus cabelos e o modo como desafiava o mundo. A sensação de ser visto e compreendido, mesmo que por um breve momento, era um bálsamo para sua alma atormentada.
Um último suspiro. E então, a porta foi arrombada. A realidade gritou ensurdecedora e , o Fantasma da Ópera, abraçou seu destino.
A princípio, as pessoas duvidaram que Christine daria conta de representar o papel principal à altura, afinal, ela fazia parte do coro e nunca foi solista. As comparações eram inevitáveis, além disso, Carlotta era a estrela, ninguém chegava aos seus pés. No entanto, a diva se recusava a pisar o palco, e Daaé surpreendeu a todos com uma voz arrebatadora que mais parecia com a de um anjo quando, por fim, aceitou o desafio e se dedicou de corpo e alma às canções entoadas.
Todos os olhares de repente estavam nela. Na jovem bela e encantadora, que cantava com o coração e parecia extremamente segura a cada nota entoada.
Quem era o seu tutor?
Boatos corriam a respeito da informação, e todos eles praticamente foram confirmados com a instrução enfática para aquele espetáculo em especial. O box 5 do teatro não podia ser reservado para ninguém, porque ele o ocuparia.
O Fantasma da Ópera.
A figura que assombrava a todos e deixava cartas com ordens expressas a quem gerenciava o lugar.
Alguns diziam que era apenas um espertinho tirando vantagens, outros acreditavam se tratar realmente de uma figura sobrenatural a aterrorizar cada canto do teatro, e havia aqueles que achavam que tudo não passava de uma jogada para atrair o público, afinal, as pessoas queriam comprovar com os próprios olhos.
Apenas uma pessoa sabia a verdade, Madame Giry. E por saber da verdade, a mulher de meia idade sempre enfatizava a importância de não ignorar as cartas recebidas.
Não cumprir as ordens do Fantasma trazia consequências graves, era ele que comandava a Ópera de Paris afinal.
Ainda assim, havia aqueles que se atreviam, e a direção atual e recente decidiu que seria mais vantajoso desprezar as instruções do Fantasma para lucrar com o box 5. A casa estava cheia, não fazia sentido deixar um lugar vazio, sem mencionar que sua ocupante tinha influência o suficiente para atrair ainda mais pessoas ao local.
Com um belo sorriso estampado em seus lábios, a jovem assistiu Christine adentrar o palco e dar início ao espetáculo. Tudo o que havia ouvido falar não fazia jus ao quanto Daaé era talentosa e, por longos minutos, a mulher se viu completamente hipnotizada. Seu encanto pela voz da cantora era tamanho, que mal notou de repente não estar mais sozinha.
— Ninguém deveria estar no box 5. — Uma voz imponente a pegou de surpresa. Era rouca, carregava uma nota de irritação e foi capaz de arrepiá-la dos pés à cabeça em poucos segundos. No entanto, a jovem não era de dar o braço a torcer, então apenas se virou levemente e ergueu uma sobrancelha.
— Como é?
A figura parada um pouco atrás dela era uns bons centímetros mais alta. Usava um smoking impecável, o tecido negro absorvendo a iluminação difusa do ambiente, enquanto a camisa branca reluzia com elegância sob o colete ajustado. A gravata borboleta perfeitamente alinhada no pescoço denunciava um requinte que destoava de sua presença quase sobrenatural. Mesmo assim, cada detalhe parecia fazer parte de um plano calculado, cada peça cuidadosamente escolhida para disfarçar a escuridão que carregava em seu âmago. Uma longa capa de veludo negro cobria seus ombros e se arrastava até seus pés, como se fosse a própria sombra dele. Com os cabelos negros cuidadosamente penteados para trás, uma máscara branca cobria metade de seu rosto, em um contraste hipnotizante com suas vestes, enquanto parecia esconder seus segredos mais sombrios.
Era ele, ela sabia. A descrição batia com todos os boatos.
O Fantasma da Ópera.
— Eu disse que ninguém deveria estar no box 5. Minhas instruções foram claras, este lugar me pertence. — O tom hostil possuía o intuito de assustá-la. No entanto, a mulher ergueu uma sobrancelha audaciosa e se empertigou na direção do Fantasma.
— É mesmo? Não estou vendo seu nome escrito nele.
Mesmo coberta pela máscara, a expressão da figura foi muito clara. Seu olhar escureceu ainda mais, e os lábios se curvaram como se ele estivesse prestes a rosnar.
— E por que meu nome estaria escrito aqui? Este lugar sempre me pertenceu. — O veneno gotejava por seus lábios e revelava o ciúme e a possessividade do Fantasma por aquele ambiente.
— Bom, então acho que cometeram um erro, porque eu reservei este box para hoje. — A jovem deu de ombros, ao ignorar o que seus olhos captavam. Sabia do que aquilo se tratava. Barreiras.
— Você reservou? Com quem? — Ele se indignou. — Porque eu posso te garantir que ninguém tem permissão para isso.
— Nem mesmo os donos? — Ela ergueu a sobrancelha mais uma vez e seus lábios se curvaram levemente quando conteve um sorriso.
A boca dele se abriu, prestes a dizer algo, no entanto, o Fantasma da Ópera, que sempre tinha as palavras prontas, de repente, se viu atordoado, tamanha era a audácia daquela mulher.
Não gostava daquilo. Nunca havia experienciado algo semelhante.
— Ah, por favor, não precisa ficar tão chateado. Por que não dividimos o box esta noite? Há espaço o suficiente para nós dois. — Como se ela já não tivesse o surpreendido o suficiente, sua mão enluvada tocou o assento ao lado e deu dois tapinhas para reforçar a proposta.
A reação comum das pessoas à presença dele era medo, receio e tomar a maior distância possível. No entanto, por algum motivo, a jovem não o temia e, mesmo ainda irritado por sua petulância, o Fantasma estava intrigado.
— Ótimo. — As palavras ecoaram de sua boca e o homem ajeitou a capa para se sentar no assento ao lado dela.
— Viu só? Ninguém precisa se ferir. — O tom dela deixava claro que em nenhum momento temeu aquilo.
Quem era ela?
A mulher passou a prestar atenção no espetáculo, sem se incomodar com a forma fixa que ele a observava. Talvez estivesse acostumada a chamar aquele tipo de atenção, ou talvez apenas fosse louca mesmo.
— Ela é magnífica. — Seus olhos brilhavam de maneira encantada ao assistir Christine no palco.
O Fantasma continuou a encará-la por alguns segundos antes de desviar seu olhar brevemente para o espetáculo.
— Sim. Ela é — concordou calmamente, e seu peito pareceu inflar sutilmente de orgulho e admiração. — E a senhorita parece bastante interessada nela — insinuou, intrigado.
— Oh, não fique com ciúmes. Não me interesso por mulheres dessa forma. — A risada ecoou mais melodiosa do que deveria para o gosto dele.
— Com ciúmes? — Um sorriso se formou no canto dos lábios do homem. — Apenas acho intrigante o quão facilmente a senhorita se deixa cativar.
Ele não se referia somente a Christine, mas à própria presença dele naquele box.
— Uma pequena correção, se me permite, senhor. Sou facilmente cativada por puro talento, e é isso que vejo naquele palco. Quem quer que seja o tutor de Christine Daaé, está fazendo um excelente trabalho.
E, mais uma vez, o ego do Fantasma de inflou com aqueles elogios. Ela sabia dos boatos, não era tão tola assim. Na verdade, a expressão de seu rosto e o sorriso de canto que nunca abandonava seus lábios denunciavam exatamente isso.
— Presumo então que foi isso que a trouxe até o teatro esta noite? — O homem se acomodou melhor no assento, interessado na conversa.
— Não, não foi apenas Christine Daaé. Eu amo ópera. As histórias, os mistérios, a paixão entoada. E música é tudo para mim.
— Os mistérios, uh? — Uma sobrancelha foi sutilmente erguida.
— Talvez esta seja a parte que mais me excita. — Alargou um pouco o sorriso.
— É mesmo? Algum motivo em especial?
— Digamos que eu seja uma pequena amante da adrenalina. — Piscou para ele, antes de, mais uma vez, voltar seu olhar para o palco.
O Fantasma estava certo então, era apenas louca.
Ainda assim, permaneceu ali. Algo nela de repente o fascinava.
— Sou , aliás. . — Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo.
Ele hesitou por um momento, dividido entre a surpresa pelo gesto e o encantamento, porque não se recordava de ter visto um nome combinar tanto com alguém.
— . — Aceitou o cumprimento e deixou mais um sorriso de canto se formar ao notar a firmeza dela, no entanto, estremeceu porque, ao tocá-la, mesmo por cima da luva negra, faíscas o eletrizaram.
Um suspiro foi contido quando se soltaram.
— Posso fazer uma pergunta indiscreta, senhor ? — ergueu uma sobrancelha, enquanto um resquício de cautela tomava conta de suas feições.
— Diga, senhorita. — Por mais que uma parte dele exigisse cuidado, havia a curiosidade e uma vontade de ceder a qualquer coisa que pedisse.
— É namorado dela, ou algo semelhante? — Indicou Christine com um aceno de cabeça.
era mais astuta do que o Fantasma imaginava e havia percebido uma conexão entre a cantora e .
— Namorado? — Uma risada rouca escapou de seus lábios. — Não. Apenas compartilhamos uma admiração mútua. Ela possui um dom raro e divino, o qual tenho sido fundamental em nutrir.
— Então você é o professor dela. — Sorriu abertamente.
— Correto. — Assentiu devagar, e seu olhar mais uma vez cruzou o palco brevemente, incapaz de permanecer ali porque era agora o foco de seu fascínio.
— Tem feito um trabalho excepcional, sem dúvidas, senhor . — A mulher se acomodou melhor no assento e cruzou as pernas, o que atraiu o olhar dele, ainda que de forma sutil.
— Agradeço, senhorita .
Alguns longos minutos de silêncio se seguiram entre eles, onde apenas assistiram ao espetáculo sem o desconforto do início.
— Sabe, eu também sou cantora, porém não de ópera.
Mais uma vez, o olhar dele foi atraído para ela como um ímã. A cada instante, o surpreendia mais.
— É mesmo? E qual gênero é a sua especialidade então, senhorita?
— Jazz.
— Tenho a impressão de que seu nome fora das paredes deste teatro é muito maior do que imagino, .
— E o que o faz pensar isso, senhor ? — Ela sorriu de canto e piscou lentamente. estava cada vez mais encantado.
— Estou enganado, senhorita? — Ele devolveu a pergunta e o sorriso. lambeu os lábios discretamente.
— Talvez eu seja. — Então, tão repentino quanto surgiu, ela se levantou de seu assento e permitiu que seu olhar queimasse sobre o Fantasma. — Foi um prazer conhecê-lo, . Quem sabe nos encontramos novamente.
E se direcionou para a saída.
piscou os olhos, atordoado. Sequer havia se dado conta do fim do primeiro ato.
Desejou segui-la, porém algo o manteve preso ali. Quem sabe o temor do desconhecido, ou do balançar suave das curvas dela, que certamente o levariam à perdição.
Por incontáveis segundos, permaneceu imóvel em seu assento, os olhos fixos na porta por onde a mulher havia desaparecido. Sua voz suave ainda parecia ecoar pelo camarote, assim como o rangido suave da maçaneta sendo fechada.
Era como se o próprio teatro se recusasse a deixá-la partir tão facilmente e, dessa forma, expressasse seu lamento.
O espetáculo, no entanto, continuava no palco, e o segundo ato não tardou a começar.
Christine Daaé, mais uma vez, cantava com a perfeição dos anjos, a orquestra a acompanhava com perfeição, e o público assistia tudo hipnotizado.
, no entanto, já não ouvia mais a música, ao menos não com toda a sua atenção voltada para ela, como de costume. Tudo o que conseguia perceber era o perfume de ainda suspenso no ar.
Era doce. Inebriante.
Perigoso.
O olhar do Fantasma deslizou lentamente para o assento ao lado do seu, agora vazio. O tecido de veludo vermelho ainda carregava leves marcas do vestido dela, e aquilo o incomodou muito mais do que deveria.
Na verdade, muito mais do que ele seria capaz de admitir.
Uma mulher.
era apenas uma mulher, audaciosa demais por enfrentá-lo daquela maneira, era verdade, mas, ainda assim, ela não passava daquilo.
Então por que sentia como se uma tempestade tivesse atravessado aquele camarote?
A mandíbula de se contraiu, e suas mãos se fecharam em punhos e agarraram o tecido da calça social sem que sequer se desse conta disso.
Ele tentou voltar sua atenção para o palco, se concentrar em sua aprendiz e protegida, porém a lembrança do sorriso enviesado de surgiu outra vez em sua mente.
A maneira como ela havia sustentado seu olhar sem hesitar, sem medo, ou repulsa haviam mexido com o Fantasma e o intrigado como nenhuma outra jamais havia feito.
A mulher o olhava como se ele fosse apenas… um homem.
Seu peito apertou violentamente. Uma sensação estranha e desagradável tomou conta de si.
Era quase sufocante.
Porque conhecia o medo das pessoas. Conhecia os olhares desviados, os sussurros cruéis e a repugnância estampada nas expressões daqueles que ousavam encará-lo por tempo demais, e estava habituado a todas elas. Mais do que isso, eram o combustível que ele utilizava para aumentar o poder que possuía sobre elas.
Mas …
Ela o provocou.
Sorriu para ele.
Sentou-se ao seu lado como se o grande Fantasma da Ópera não lhe representasse ameaça alguma.
E após desafiá-lo com uma audácia que ninguém jamais havia demonstrado antes, partiu e o deixou ali, sozinho, com a sensação incômoda do vazio e uma faísca tola de esperança de que ela retornasse.
Aquilo o desestabilizava de uma maneira perigosa. Trazia uma versão dele que desconhecia, e sempre achou que conhecia completamente a si mesmo.
No palco, Christine sustentou uma nota aguda longa e impecável, exatamente como ele havia ensinado. Os aplausos da plateia foram imediatos.
sequer piscou.
Contra sua vontade, sua mente retornou a momentos antes e ficou presa à sensação da mão de sobre a sua.
Mesmo através da luva, mesmo por um fugaz instante, as faíscas daquele toque continuavam queimando sua pele.
Como alguém poderia ser tão intoxicante?
E por que havia partido daquela maneira? Por que não havia ficado até o fim do espetáculo?
Aquilo não devia incomodá-lo, afinal, agora tinha o Box 5 inteiro para si, como havia deixado expresso que desejava.
Bufou e, irritado consigo mesmo e com a confusão em sua mente, se levantou abruptamente do assento. A capa negra ondulou atrás de si enquanto caminhava até a borda do camarote. Seus dedos pressionaram a madeira com força excessiva, e os nós brancos destes teriam se tornado visíveis se suas mãos não estivessem cobertas pelas luvas. Seu olhar percorreu o teatro lotado abaixo, e uma expressão arrogante tomou conta das feições por trás da máscara.
Tolos.
Nenhum deles compreendia a arte de verdade.
Nenhum deles compreendia música, muito menos a escuridão.
Será que compreendia?
Antes que pudesse impedir, a pergunta ecoou em sua mente. fechou os olhos e amaldiçoou a si mesmo por tamanha fraqueza.
Não.
Aquilo precisava acabar imediatamente.
era apenas mais uma mulher tola, fascinada pelo mistério do Fantasma da Ópera. Alguém que, no mínimo, queria descobrir sua identidade e nada além disso.
Era uma aventureira imprudente. Uma cantora de cabaré em busca de emoção.
No entanto, ainda assim…
“Talvez esta seja a parte que mais me excita”.
A voz dela atravessou seus pensamentos como veludo e veneno. A forma como sorria e não se importava em parecer louca diante dele aumentou seu fascínio.
Seus dedos se apertaram com mais força contra a madeira.
Maldição.
Havia algo profundamente errado com aquela mulher. Algo que sentia que devia evitar porque podia ser tão perigoso para ele quanto certamente era para ela.
E talvez fosse exatamente isso que a tornava tão impossível de ignorar.
O silêncio úmido das galerias ocultas envolveu assim que ele deixou os camarotes superiores, e um meio sorriso se formou em seu rosto.
Não era novidade como a solitude o agradava.
Apenas o som de seus passos atravessava a escuridão, enquanto caminhava pelas passagens estreitas, iluminadas apenas pela dança trêmula das velas espalhadas ao longo das paredes.
Ali embaixo, o mundo parecia distante.
Não havia aplausos, não havia sussurros, olhares, ou expressões de repulsa.
Tudo aquilo desaparecia.
Era o seu território. O lugar onde podia existir de verdade, onde não haviam máscaras além daquela que já carregava no próprio rosto.
Ali, ele não precisava fingir.
Quando alcançou o lago subterrâneo, a velha gôndola o aguardava imóvel sobre a água escura. As velas refletiam na superfície como fantasmas dourados e distorcidos, o que transformava o lugar em algo quase sobrenatural.
O Fantasma entrou no pequeno barco sem pressa alguma e conduziu a embarcação até sua morada, onde o velho piano o aguardava em meio à penumbra.
Era ali seu verdadeiro refúgio. Sua única companhia durante todos aqueles anos, onde derramava sua alma.
A capa negra deslizou por seus ombros quando finalmente se sentou diante das teclas. Seus dedos pairavam sobre elas por alguns segundos e deslizaram hesitantes antes da primeira nota ecoar pelo ambiente.
Era grave, melancólica e familiar.
A música não tardou a preencher cada canto daquele lugar. Era como uma extensão de sua própria respiração, mas, de repente, algo estava errado.
As notas falhavam, escapavam de seus dedos e se desfaziam antes de alcançarem a perfeição.
franziu o cenho imediatamente, pigarrou e tentou outra vez.
E outra.
E mais outra.
No entanto, toda a melodia acabava o levando ao mesmo lugar.
.
Aos sorrisos que surgiam dela entre uma nota e outra.
Aos seus olhos brilhando sob a iluminação do camarote quando confessava seu fascínio pela Ópera e seus mistérios.
À sua voz provocadora e ao modo como pronunciou seu nome.
.
E como ela partiu e o deixou vazio como a melodia que se quebrava.
Seus dedos pressionaram as teclas com uma força excessiva. Um acorde brusco e desagradável reverberou pelas paredes de seu refúgio subterrâneo.
— Maldição! — A voz rouca do Fantasma explodiu no vazio. — Esqueça essa mulher!
O som ecoou pelo lago, e as velas tremularam violentamente.
Com a respiração pesada, se afastou do piano abruptamente. Suas pernas o guiaram até um grande espelho com uma elegante moldura dourada. O vapor que escapava pelos lábios do Fantasma embaçou seu reflexo e suas mãos deslizaram até as luvas negras, que ele despiu com irritação antes de jogá-las em direção ao seu amado instrumento.
Seu olhar caiu inevitavelmente para a máscara que cobria seu rosto e ele a retirou. Encarou o motivo de tanta repulsa a quem visse refletido no espelho.
A cicatriz e a carne deformada.
A monstruosidade que o mundo jamais o deixaria esquecer.
E, ainda assim, o havia tocado.
Sem horror ou hesitação.
Como se por baixo daquela máscara não houvesse nada de grotesco. Como se ela não se importasse com todos os boatos sobre o terrível Fantasma da Ópera.
não conseguia parar de pensar naquilo, simplesmente porque era impossível.
Não fazia sentido algum.
Ninguém olhava para o Fantasma da Ópera daquela maneira.
Ninguém.
Nem mesmo Christine Daaé.
Seu peito subia e descia rapidamente, enquanto ele permanecia encarando o próprio reflexo no espelho. Seus dedos tocaram sua deformidade, e sua cabeça se moveu em negação.
Não fazia sentido. deveria ter fugido. Deveria ter tremido quando ele anunciou sua presença no Box 5, evitado sequer encará-lo, não sorrir para ele, o provocar e se sentar ao seu lado como se brincasse com a própria morte.
E o pior de tudo era que não sabia se queria mesmo afastá-la, porque havia uma parte dele que desejava puxá-la ainda mais para perto de sua própria escuridão.
A realização atravessou seu peito como uma lâmina perigosa, irreversível.
E, pela primeira vez em muitos anos, o Fantasma da Ópera sentiu medo.
Não da multidão, muito menos da rejeição da sociedade.
Mas do poder que uma única mulher parecia exercer sobre ele com apenas poucos minutos de sua presença.
Madame Giry sempre percebia quando algo estava errado.
Ou talvez aquela fosse a vantagem de se conhecer alguém há tempo demais, como era o caso de .
E tendo praticamente o criado nas passagens ocultas da Ópera de Paris, ela podia dizer com propriedade o que cada uma das expressões do Fantasma significava.
Naquela noite em especial, no entanto, Giry não precisou de muito para se dar conta de que alguma coisa havia o desestabilizado. O som agressivo do piano havia atravessado uma boa parte dos subterrâneos minutos antes e rompeu a quietude habitual do lago, o que não era comum vindo de .
Ele não costumava perder o controle daquela forma. Não com a música.
Principalmente com a música.
Foi por esse motivo que a mulher não hesitou em atravessar a passagem de pedra até a morada do Fantasma.
Quando seus passos ecoaram, no entanto, sequer demonstrou surpresa e permaneceu imóvel diante do espelho. O olhar permanecia focado em seu reflexo deformado, enquanto a luz das velas desenhava sombras irregulares no lago escuro.
— Está perturbado. — A voz calma de Madame Giry ecoou pelo ambiente sem dificuldade.
deixou uma risada amarga escapar.
— Veio fiscalizar minhas emoções?
— Isso não é necessário. O teatro inteiro consegue ouvi-las esta noite. — Ela não alterou o tom de voz ao retrucá-lo, enquanto arqueava levemente uma sobrancelha.
Aquele comentário, no entanto, o fez cerrar a mandíbula de leve.
Giry se aproximou devagar e observou rapidamente as partituras espalhadas de maneira incomum em cima do piano. Algumas estavam amassadas, outras rasgadas.
Outro detalhe estranho quando se tratava de . Ele era meticuloso demais para tal atitude.
— O que aconteceu no Box 5? — Foi direta e recebeu o silêncio como resposta.
Por um instante, tudo o que se ouvia era o som distante da água preenchendo o subterrâneo.
Então desviou seu olhar, e aquilo foi um erro. Pequeno, era verdade, mas Madame Giry percebeu imediatamente.
— Havia alguém lá, não é? — ela concluiu.
— Uma inconveniência temporária. — Seu tom ríspido veio rápido demais.
— Inconveniências temporárias normalmente o fazem destruir partituras? — A ironia discreta na voz de Giry o deixou ainda mais irritado.
O Fantasma se afastou do espelho e caminhou alguns passos pelo aposento, sua capa escura se arrastou pelo chão de pedra.
— Os novos diretores ignoraram minhas instruções outra vez. Parecem considerar mais interessante lucrar às minhas custas.
— E quem era a mulher? — Outra vez, Madame Giry foi direta e precisa, o que certamente o deixou ainda mais incomodado.
permaneceu em silêncio por segundos longos demais, e a mulher tornou a arquear a sobrancelha levemente. Havia compreendido muito bem.
Não era apenas sobre raiva.
O Fantasma da Ópera estava afetado.
— — respondeu, por fim, quase contrariado.
O nome, de repente, parecia soar diferente de seus lábios, muito mais íntimo do que deveria.
Giry o reconheceu de imediato.
— A cantora de cabaré?
O olhar dele rapidamente se voltou para ela.
— Você a conhece?
— Paris inteira a conhece, querido. — A mulher calmamente cruzou as mãos à frente do corpo. — Principalmente os homens.
Aquele comentário desagradou de maneira instantânea, e, novamente, ela percebeu.
Claro que percebeu.
— Ela canta no Montmartre — continuou. — Jazz. Cabaré. Lugares cheios de fumaça, poucas roupas, bebida e homens ricos dispostos a gastar fortunas apenas para ouvi-la cantar.
Cada palavra dela parecia inflamar algo dentro dele. Uma irritação irracional, possessiva e ridícula para alguém que havia interagido com ela por apenas poucos minutos.
A loucura de havia passado para ele de alguma forma. Aquela era a única explicação.
— Aparentemente, agora ela também invade camarotes proibidos — murmurou secamente.
Madame Giry conteve um sorriso.
— não costuma se intimidar facilmente.
Aquelas palavras ecoaram na mente de como uma provocação cruel, talvez porque era verdade.
o encarou diretamente. Conversou com ele. Tocou nele. Sem o menor horror, sem piedade ou submissão.
Como se enxergasse algo interessante além da máscara.
Seu peito se apertou daquela forma estranha outra vez.
— Deve ser apenas inconsequente… Ou tola. — Tentou soar indiferente.
— Talvez. — Madame Giry inclinou levemente a cabeça e sua expressão não parecia concordar com aquela resposta. — Ou talvez ela realmente tenha sido a primeira pessoa em muito tempo a encará-lo sem medo.
O silêncio que se seguiu após aquelas palavras foi brutal.
Mais uma vez, ergueu os olhos lentamente para ela, e havia algo perigosamente vulnerável escondido em sua expressão naquele momento.
Algo quase humano demais.
Madame Giry percebeu de imediato que havia tocado numa ferida funda, e aquilo a assustou mais do que deveria.
Porque o Fantasma da Ópera jamais fora um homem fácil de destruir. Haviam barreiras demais cercando sua humanidade.
E talvez pudesse fazê-lo sem sequer perceber.


