O silêncio que tomou conta do Box 5 após a partida de parecia insuportável.
Por incontáveis segundos, permaneceu imóvel em seu assento, os olhos fixos na porta por onde a mulher havia desaparecido. Sua voz suave ainda parecia ecoar pelo camarote, assim como o rangido suave da maçaneta sendo fechada.
Era como se o próprio teatro se recusasse a deixá-la partir tão facilmente e, dessa forma, expressasse seu lamento.
O espetáculo, no entanto, continuava no palco, e o segundo ato não tardou a começar.
Christine Daaé, mais uma vez, cantava com a perfeição dos anjos, a orquestra a acompanhava com perfeição, e o público assistia tudo hipnotizado.
, no entanto, já não ouvia mais a música, ao menos não com toda a sua atenção voltada para ela, como de costume. Tudo o que conseguia perceber era o perfume de ainda suspenso no ar.
Era doce. Inebriante.
Perigoso.
O olhar do Fantasma deslizou lentamente para o assento ao lado do seu, agora vazio. O tecido de veludo vermelho ainda carregava leves marcas do vestido dela, e aquilo o incomodou muito mais do que deveria.
Na verdade, muito mais do que ele seria capaz de admitir.
Uma mulher.
era apenas uma mulher, audaciosa demais por enfrentá-lo daquela maneira, era verdade, mas, ainda assim, ela não passava daquilo.
Então por que sentia como se uma tempestade tivesse atravessado aquele camarote?
A mandíbula de se contraiu, e suas mãos se fecharam em punhos e agarraram o tecido da calça social sem que sequer se desse conta disso.
Ele tentou voltar sua atenção para o palco, se concentrar em sua aprendiz e protegida, porém a lembrança do sorriso enviesado de surgiu outra vez em sua mente.
A maneira como ela havia sustentado seu olhar sem hesitar, sem medo, ou repulsa haviam mexido com o Fantasma e o intrigado como nenhuma outra jamais havia feito.
A mulher o olhava como se ele fosse apenas… um homem.
Seu peito apertou violentamente. Uma sensação estranha e desagradável tomou conta de si.
Era quase sufocante.
Porque conhecia o medo das pessoas. Conhecia os olhares desviados, os sussurros cruéis e a repugnância estampada nas expressões daqueles que ousavam encará-lo por tempo demais, e estava habituado a todas elas. Mais do que isso, eram o combustível que ele utilizava para aumentar o poder que possuía sobre elas.
Mas …
Ela o provocou.
Sorriu para ele.
Sentou-se ao seu lado como se o grande Fantasma da Ópera não lhe representasse ameaça alguma.
E após desafiá-lo com uma audácia que ninguém jamais havia demonstrado antes, partiu e o deixou ali, sozinho, com a sensação incômoda do vazio e uma faísca tola de esperança de que ela retornasse.
Aquilo o desestabilizava de uma maneira perigosa. Trazia uma versão dele que desconhecia, e sempre achou que conhecia completamente a si mesmo.
No palco, Christine sustentou uma nota aguda longa e impecável, exatamente como ele havia ensinado. Os aplausos da plateia foram imediatos.
sequer piscou.
Contra sua vontade, sua mente retornou a momentos antes e ficou presa à sensação da mão de sobre a sua.
Mesmo através da luva, mesmo por um fugaz instante, as faíscas daquele toque continuavam queimando sua pele.
Como alguém poderia ser tão intoxicante?
E por que havia partido daquela maneira? Por que não havia ficado até o fim do espetáculo?
Aquilo não devia incomodá-lo, afinal, agora tinha o Box 5 inteiro para si, como havia deixado expresso que desejava.
Bufou e, irritado consigo mesmo e com a confusão em sua mente, se levantou abruptamente do assento. A capa negra ondulou atrás de si enquanto caminhava até a borda do camarote. Seus dedos pressionaram a madeira com força excessiva, e os nós brancos destes teriam se tornado visíveis se suas mãos não estivessem cobertas pelas luvas. Seu olhar percorreu o teatro lotado abaixo, e uma expressão arrogante tomou conta das feições por trás da máscara.
Tolos.
Nenhum deles compreendia a arte de verdade.
Nenhum deles compreendia música, muito menos a escuridão.
Será que compreendia?
Antes que pudesse impedir, a pergunta ecoou em sua mente. fechou os olhos e amaldiçoou a si mesmo por tamanha fraqueza.
Não.
Aquilo precisava acabar imediatamente.
era apenas mais uma mulher tola, fascinada pelo mistério do Fantasma da Ópera. Alguém que, no mínimo, queria descobrir sua identidade e nada além disso.
Era uma aventureira imprudente. Uma cantora de cabaré em busca de emoção.
No entanto, ainda assim…
“Talvez esta seja a parte que mais me excita”.
A voz dela atravessou seus pensamentos como veludo e veneno. A forma como sorria e não se importava em parecer louca diante dele aumentou seu fascínio.
Seus dedos se apertaram com mais força contra a madeira.
Maldição.
Havia algo profundamente errado com aquela mulher. Algo que sentia que devia evitar porque podia ser tão perigoso para ele quanto certamente era para ela.
E talvez fosse exatamente isso que a tornava tão impossível de ignorar.
🌹
Os subterrâneos da Ópera de Paris o receberam como velhos companheiros.
O silêncio úmido das galerias ocultas envolveu assim que ele deixou os camarotes superiores, e um meio sorriso se formou em seu rosto.
Não era novidade como a solitude o agradava.
Apenas o som de seus passos atravessava a escuridão, enquanto caminhava pelas passagens estreitas, iluminadas apenas pela dança trêmula das velas espalhadas ao longo das paredes.
Ali embaixo, o mundo parecia distante.
Não havia aplausos, não havia sussurros, olhares, ou expressões de repulsa.
Tudo aquilo desaparecia.
Era o seu território. O lugar onde podia existir de verdade, onde não haviam máscaras além daquela que já carregava no próprio rosto.
Ali, ele não precisava fingir.
Quando alcançou o lago subterrâneo, a velha gôndola o aguardava imóvel sobre a água escura. As velas refletiam na superfície como fantasmas dourados e distorcidos, o que transformava o lugar em algo quase sobrenatural.
O Fantasma entrou no pequeno barco sem pressa alguma e conduziu a embarcação até sua morada, onde o velho piano o aguardava em meio à penumbra.
Era ali seu verdadeiro refúgio. Sua única companhia durante todos aqueles anos, onde derramava sua alma.
A capa negra deslizou por seus ombros quando finalmente se sentou diante das teclas. Seus dedos pairavam sobre elas por alguns segundos e deslizaram hesitantes antes da primeira nota ecoar pelo ambiente.
Era grave, melancólica e familiar.
A música não tardou a preencher cada canto daquele lugar. Era como uma extensão de sua própria respiração, mas, de repente, algo estava errado.
As notas falhavam, escapavam de seus dedos e se desfaziam antes de alcançarem a perfeição.
franziu o cenho imediatamente, pigarrou e tentou outra vez.
E outra.
E mais outra.
No entanto, toda a melodia acabava o levando ao mesmo lugar.
.
Aos sorrisos que surgiam dela entre uma nota e outra.
Aos seus olhos brilhando sob a iluminação do camarote quando confessava seu fascínio pela Ópera e seus mistérios.
À sua voz provocadora e ao modo como pronunciou seu nome.
.
E como ela partiu e o deixou vazio como a melodia que se quebrava.
Seus dedos pressionaram as teclas com uma força excessiva. Um acorde brusco e desagradável reverberou pelas paredes de seu refúgio subterrâneo.
— Maldição! — A voz rouca do Fantasma explodiu no vazio. — Esqueça essa mulher!
O som ecoou pelo lago, e as velas tremularam violentamente.
Com a respiração pesada, se afastou do piano abruptamente. Suas pernas o guiaram até um grande espelho com uma elegante moldura dourada. O vapor que escapava pelos lábios do Fantasma embaçou seu reflexo e suas mãos deslizaram até as luvas negras, que ele despiu com irritação antes de jogá-las em direção ao seu amado instrumento.
Seu olhar caiu inevitavelmente para a máscara que cobria seu rosto e ele a retirou. Encarou o motivo de tanta repulsa a quem visse refletido no espelho.
A cicatriz e a carne deformada.
A monstruosidade que o mundo jamais o deixaria esquecer.
E, ainda assim, o havia tocado.
Sem horror ou hesitação.
Como se por baixo daquela máscara não houvesse nada de grotesco. Como se ela não se importasse com todos os boatos sobre o terrível Fantasma da Ópera.
não conseguia parar de pensar naquilo, simplesmente porque era impossível.
Não fazia sentido algum.
Ninguém olhava para o Fantasma da Ópera daquela maneira.
Ninguém.
Nem mesmo Christine Daaé.
Seu peito subia e descia rapidamente, enquanto ele permanecia encarando o próprio reflexo no espelho. Seus dedos tocaram sua deformidade, e sua cabeça se moveu em negação.
Não fazia sentido. deveria ter fugido. Deveria ter tremido quando ele anunciou sua presença no Box 5, evitado sequer encará-lo, não sorrir para ele, o provocar e se sentar ao seu lado como se brincasse com a própria morte.
E o pior de tudo era que não sabia se queria mesmo afastá-la, porque havia uma parte dele que desejava puxá-la ainda mais para perto de sua própria escuridão.
A realização atravessou seu peito como uma lâmina perigosa, irreversível.
E, pela primeira vez em muitos anos, o Fantasma da Ópera sentiu medo.
Não da multidão, muito menos da rejeição da sociedade.
Mas do poder que uma única mulher parecia exercer sobre ele com apenas poucos minutos de sua presença.
🌹
Madame Giry sempre percebia quando algo estava errado.
Ou talvez aquela fosse a vantagem de se conhecer alguém há tempo demais, como era o caso de .
E tendo praticamente o criado nas passagens ocultas da Ópera de Paris, ela podia dizer com propriedade o que cada uma das expressões do Fantasma significava.
Naquela noite em especial, no entanto, Giry não precisou de muito para se dar conta de que alguma coisa havia o desestabilizado. O som agressivo do piano havia atravessado uma boa parte dos subterrâneos minutos antes e rompeu a quietude habitual do lago, o que não era comum vindo de .
Ele não costumava perder o controle daquela forma. Não com a música.
Principalmente com a música.
Foi por esse motivo que a mulher não hesitou em atravessar a passagem de pedra até a morada do Fantasma.
Quando seus passos ecoaram, no entanto, sequer demonstrou surpresa e permaneceu imóvel diante do espelho. O olhar permanecia focado em seu reflexo deformado, enquanto a luz das velas desenhava sombras irregulares no lago escuro.
— Está perturbado. — A voz calma de Madame Giry ecoou pelo ambiente sem dificuldade.
deixou uma risada amarga escapar.
— Veio fiscalizar minhas emoções?
— Isso não é necessário. O teatro inteiro consegue ouvi-las esta noite. — Ela não alterou o tom de voz ao retrucá-lo, enquanto arqueava levemente uma sobrancelha.
Aquele comentário, no entanto, o fez cerrar a mandíbula de leve.
Giry se aproximou devagar e observou rapidamente as partituras espalhadas de maneira incomum em cima do piano. Algumas estavam amassadas, outras rasgadas.
Outro detalhe estranho quando se tratava de . Ele era meticuloso demais para tal atitude.
— O que aconteceu no Box 5? — Foi direta e recebeu o silêncio como resposta.
Por um instante, tudo o que se ouvia era o som distante da água preenchendo o subterrâneo.
Então desviou seu olhar, e aquilo foi um erro. Pequeno, era verdade, mas Madame Giry percebeu imediatamente.
— Havia alguém lá, não é? — ela concluiu.
— Uma inconveniência temporária. — Seu tom ríspido veio rápido demais.
— Inconveniências temporárias normalmente o fazem destruir partituras? — A ironia discreta na voz de Giry o deixou ainda mais irritado.
O Fantasma se afastou do espelho e caminhou alguns passos pelo aposento, sua capa escura se arrastou pelo chão de pedra.
— Os novos diretores ignoraram minhas instruções outra vez. Parecem considerar mais interessante lucrar às minhas custas.
— E quem era a mulher? — Outra vez, Madame Giry foi direta e precisa, o que certamente o deixou ainda mais incomodado.
permaneceu em silêncio por segundos longos demais, e a mulher tornou a arquear a sobrancelha levemente. Havia compreendido muito bem.
Não era apenas sobre raiva.
O Fantasma da Ópera estava afetado.
— — respondeu, por fim, quase contrariado.
O nome, de repente, parecia soar diferente de seus lábios, muito mais íntimo do que deveria.
Giry o reconheceu de imediato.
— A cantora de cabaré?
O olhar dele rapidamente se voltou para ela.
— Você a conhece?
— Paris inteira a conhece, querido. — A mulher calmamente cruzou as mãos à frente do corpo. — Principalmente os homens.
Aquele comentário desagradou de maneira instantânea, e, novamente, ela percebeu.
Claro que percebeu.
— Ela canta no Montmartre — continuou. — Jazz. Cabaré. Lugares cheios de fumaça, poucas roupas, bebida e homens ricos dispostos a gastar fortunas apenas para ouvi-la cantar.
Cada palavra dela parecia inflamar algo dentro dele. Uma irritação irracional, possessiva e ridícula para alguém que havia interagido com ela por apenas poucos minutos.
A loucura de havia passado para ele de alguma forma. Aquela era a única explicação.
— Aparentemente, agora ela também invade camarotes proibidos — murmurou secamente.
Madame Giry conteve um sorriso.
— não costuma se intimidar facilmente.
Aquelas palavras ecoaram na mente de como uma provocação cruel, talvez porque era verdade.
o encarou diretamente. Conversou com ele. Tocou nele. Sem o menor horror, sem piedade ou submissão.
Como se enxergasse algo interessante além da máscara.
Seu peito se apertou daquela forma estranha outra vez.
— Deve ser apenas inconsequente… Ou tola. — Tentou soar indiferente.
— Talvez. — Madame Giry inclinou levemente a cabeça e sua expressão não parecia concordar com aquela resposta. — Ou talvez ela realmente tenha sido a primeira pessoa em muito tempo a encará-lo sem medo.
O silêncio que se seguiu após aquelas palavras foi brutal.
Mais uma vez, ergueu os olhos lentamente para ela, e havia algo perigosamente vulnerável escondido em sua expressão naquele momento.
Algo quase humano demais.
Madame Giry percebeu de imediato que havia tocado numa ferida funda, e aquilo a assustou mais do que deveria.
Porque o Fantasma da Ópera jamais fora um homem fácil de destruir. Haviam barreiras demais cercando sua humanidade.
E talvez pudesse fazê-lo sem sequer perceber.