Epígrafe
Capítulo 1
Sem necessidade de floreios
Ormund Hightower não escolhera se casar de novo por seu coração ansiar pela companhia de uma segunda esposa. A viuvez jamais lhe pesara tanto a ponto de fazê-lo desejar outro casamento. Às vezes, porém, a necessidade simplesmente não deixava nenhuma outra alternativa honrosa.
Ele era o Senhor da Casa Hightower. Seu dever transcendia a sua própria pessoa, e sacrifícios como aquele eram exigidos dele com a mesma naturalidade que ele próprio exigia lealdade de outrem. Uma Casa tão antiga e poderosa jamais poderia depender de poucos herdeiros — ainda mais sabendo que uma guerra viria a acontecer a qualquer momento. Legado exigia certeza, e esta, uma vasta prole.
Por isso mesmo, aquela união matrimonial não nascera de desejos mundanos, mas sim da responsabilidade, do peso implacável de um nome que se erguia sobre Torre Alta e Vilavelha há séculos. Quaisquer que fossem os quereres do próprio Ormund, haviam há muito sido substituídos pelo que sua posição exigia dele.
Controle, disciplina, coisas metódicas. Ele gostava assim
No altar, esperando por sua futura esposa, Ormund mantinha a postura impecável como a espada de um grande cavaleiro — costas retas e mãos unidas à sua frente em piedosa solenidade. O incensário que carregava consigo exalava um tênue rastro de sândalo e mirra, mascarando o cheiro de pedra polida e suor nervoso dos nobres ali reunidos.
Redwyne caminhava em sua direção pelo longo corredor do septo, mas o olhar dele se mantinha fixo em algum ponto distante que só ele podia ver. Um homem acostumado à posição não deveria vacilar agora. Não por um rostinho bonito de alguém que fora escolhida por um acordo político e a capacidade de lhe dar filhos saudáveis.
Cobrindo seus ombros e costas, caía o manto de donzela de Lady : o cacho de uvas da Casa Redwyne trabalhado em granadas e pequenas lascas de esmeralda sobre um magnífico veludo azul coberto por delicados arabescos que ela mesma bordara especialmente para aquele dia. Em sua cabeça sempre erguida, raminhos de videira trançados sustentavam mini rosas brancas e flores de madressilva entre pequenas folhas da mesma parreira de onde vieram os ramos — verdes como o verão e quase tão jovens quanto ela.
A coroa fora ideia sua, é claro. Era orgulhosa demais para deixar sua origem estampada apenas no manto. Embora fosse se tornar a Senhora Hightower — e estivesse pronta para vestir esse dever como se tivesse nascido para isso —, jamais deixaria de ser uma Redwyne da Árvore.
Lorde Redwyne, o pai de , desprendeu seu manto de donzela com um sorrisinho orgulhoso por ter conseguido um casamento tão bom para sua filha mais velha. Quando se afastou, abaixando a cabeça respeitosamente para o Senhor Hightower, era a vez de Ormund fazer sua parte na cerimônia.
Sem delongas, ele jogou o manto do marido sobre os ombros da garota, trazendo-a sob sua proteção. Arabescos em fio de prata percorriam o pesado veludo cinza-fumaça, conferindo-lhe a sobriedade digna da mais antiga das Grandes Casas da Campina. A torre de vigia de pedra branca da Casa Hightower — trabalhada em pedras-da-lua e fios de seda marfim, e coroada por uma chama que reluzia em ouro e pequenas peças de âmbar — se assentou ao longo das costas de como se sempre tivesse pertencido a ela.
O septão entoou bênçãos sobre a união deles. Osmund reagiu com uma única piscadela lenta, calculada, controlada. Era seu jeito de reconhecer a permissão divina para aquilo que já fora decidido pela lógica da linhagem há muito, muito tempo. Eles não trocaram nem sequer um olhar, afinal, não era necessário — nem para ele, nem para ela. O momento foi protocolar ao extremo, exatamente como esperara. Bem do jeitinho que deveria ser um casamento de alianças.
Na hora de invocar os deuses para testemunhar sua união, Lady e Lorde Ormund clamaram em uníssono pelo nome de cada uma das sete faces de Deus. Pai, Ferreiro, Guerreiro, Mãe, Donzela, Velha, Estranho — todos eram importantes para aquele momento. Perante eles, declararam que pertenciam um ao outro. proferiu os votos finais e, então, chegou a vez dele.
— Com este beijo, eu empenho o meu amor e a tomo como minha senhora e esposa — pronunciou claramente, sem necessidade de floreios.
As palavras cerimoniais da Fé eram indubitavelmente importantes, mas a parte do amor era, na maioria dos casos, vazia. Como alguém poderia jurar amor a outra pessoa se o casamento nem era feito para isso? Pelos Sete, eles ainda nem se conheciam… Contudo não era quem questionaria a graça dos deuses que a haviam abençoado com um marido e uma posição tão grandiosos. Por isso, não hesitou em empenhar o seu amor e sua vida ao beijar o homem à sua frente, tomando-o como seu senhor e marido.
O beijo também fora precisamente como imaginara que seria. Breve, decente, formal. Nada demais. Apenas uma promessa proferida porque a tradição exigia, selada com toda a contenção condizente ao Senhor da Casa Hightower. Nenhuma canção emocionante de verão jamais seria composta sobre tal toque de lábios, e Redwyne nunca fora tola o suficiente para esperar ou desejar o contrário.
— Aqui, à vista dos deuses e dos homens — declarou o septão —, proclamo solenemente que Lorde Ormund da Casa Hightower e Lady da Casa Redwyne são marido e mulher. Uma só carne, um só coração, uma só alma. Agora e para sempre. E maldito seja quem se interpuser entre eles.
gostou de ouvir aquelas palavras, era o selo oficial de sua nova posição. No entanto, o que de fato fazia seus olhos brilharem naquele momento tinha pouquíssimo a ver com o homem diante dela. O Septo Estrelado ainda se erguia ao redor deles em todo o seu antigo esplendor, cada coluna de mármore e belos vitrais testemunhando uma cerimônia com a qual muitos só poderiam sonhar. O orgulho preencheu-lhe o peito com o mesmo ardor do seu vinho favorito produzido pela sua família. Poucas mulheres poderiam afirmar ter se casado sob aquele teto sagrado e belo, e ter saído por aquelas portas com o título de Senhora Hightower de Torre Alta.
pode até ter vivido duas décadas, com pelo menos dez dias do nome separando-a de seu agora marido — ou talvez uns quinze? —, mas a juventude nunca a tornara ingênua. Ela compreendia como o mundo funcionava; ao menos a parte do mundo em que vivera desde o nascimento. Nem mesmo três filhos e uma filha eram o suficiente para uma Grande Casa, especialmente em tempos de incerteza, com guerras futuras à espreita além do horizonte. Os senhores não construíam dinastias apenas com base na esperança; era preciso legado e poder.
E Ormund Hightower era, em todos os aspectos, o grande senhor que as pessoas diziam. Alto. Bonito. Imponente sem nem sequer abrir a boca para falar algo. Um homem cuja mera presença transmitia a silenciosa certeza de uma autoridade conquistada muito antes de achá-la relevante o suficiente para escolhê-la como esposa.
A caminho do banquete de casamento ao lado de seu novo marido, enquanto os servos corriam à frente para anunciar sua chegada ao salão, podia sentir o peso do nome que acabara de assumir. Jamais deixaria de ser Redwyne; agora, porém, ganhara um título de Senhora da Casa mais antiga da Campina. Era uma troca justa. Talvez até mesmo poderosa. Tinha certeza que, mesmo se tivesse tido a oportunidade, não teria escolhido um caminho diferente.
Ormund a acompanhava com o passo comedido de um homem que passara tempo demais liderando procissões — assim como não se apressava, também nunca se demorava. Não havia trocado uma palavra com durante a caminhada, afinal, demonstrações públicas estavam abaixo de sua dignidade. Conversas triviais eram para mercadores e cortesãos que disputavam favores.
Seus olhos, no entanto, voltaram-se à garota uma única vez, ao passarem por baixo de um arco onde vitrais projetavam ondulações azuis sobre o piso de mármore. Redwyne parecia… majestosa. Principalmente pela maneira como se portava agora que ostentava abertamente o nome da Casa dele diante dos olhares de estranhos, como alguém ciente do poder que vinha com o fato de ter se tornado a Senhora Hightower. Até as flores em seus cabelos pareciam ter aprendido a adorná-la com excelência maior.
Havia sido somente dever o que ditara esse casamento, sim. Entretanto Ormund não podia negar: tudo aquilo caía tão bem em Lady que até mesmo os críticos àquela união poderiam hesitar antes de sussurrar, diante de taças erguidas bem alto, qualquer bobagem desagradável sobre sua escolha.
O festim se prolongou, como toda celebração de casamento nobre exigia, repleto de música, risadas, taças transbordantes e bênçãos intermináveis oferecidas por senhores, senhoras, septões e primos distantes cujos nomes nem fazia questão de se lembrar. Alguns, de fato, os queriam bem; outros só diziam as palavras porque lhes era exigido. Ela não se importava, porém. Era assim que as coisas funcionavam.
Tradições também tinham de ser mantidas. Então Ormund e ela tinham dado início às celebrações com a primeira dança. Suas mãos só se tocaram porque a cerimônia assim exigia. Por alguns passos decorados, seus olhares se encontraram sob o brilho de inúmeras velas sem que nenhum deles buscasse mais do que o ritmo esperado. E quando a canção se findou, o momento também se esvaiu.
As horas passaram devagar, e nenhuma palavra fora trocada entre marido e mulher. nunca fez questão de mudar isso. Ela gostava de conversar muito mais do que a maioria, sim, porém possuía a sabedoria de reconhecer quando o silêncio era mais adequado do que a sagacidade. Então apenas fazia o seu papel de agradecer sempre que um novo convidado lhes desejava bênçãos ou vestir um sorriso caloroso, o que, por vezes, era muito mais eficaz do que respostas desnecessárias.
Apenas duas vezes ela se permitiu lançar um olhar na direção de seu marido, ambas por cima da borda de uma taça cheia de dourado da Árvore — o melhor presente que a Casa Redwyne poderia colocar em todas as mesas naquela noite. Ormund permanecia do mesmo jeito que estava no altar: composto, digno, inteiramente dedicado aos intermináveis deveres esperados do Senhor de Torre Alta e de Vilavelha, O Farol do Sul.
A maior troca que compartilharam naquela noite acontecera sem que nenhum dos dois a buscasse. Um senhor de menor importância — encorajado por vinho em excesso e uma enorme falta de bom senso — se dirigiu à Lady de modo indevido. A ofensa não fora alta o suficiente para silenciar o salão, mas chegara aos ouvidos do único homem cuja atenção de fato importava. Em um piscar de olhos, Ormund estava ao lado dela, forçando a interrupção abrupta de uma conversa — que jamais deveria ter existido — antes que se tornasse maior do que a magnificência do casamento deles. O infeliz endireitou a coluna sob o olhar fatal do Senhor Hightower do jeito jamais fizera diante de um septão e, no instante seguinte, estava proferindo desculpas.
— A Senhora Hightower nunca mais será tratada dessa maneira — declarou Ormund.
E nenhuma outra palavra foi necessária.
O resto do festim transcorreu sem incidentes, embora sussurros tenham se espalhado com frequência por certos cantos do salão — onde homens saboreavam o vinho de suas taças com expressões mais cautelosas. Ainda assim, ninguém ousou desafiar uma segunda vez a proteção de Lorde Ormund sobre sua nova esposa… e o nome da Casa Hightower.
Quando, enfim, chegou a hora de se retirarem — já que um Senhor e uma Senhora não precisavam permanecer até o fim com convidados de menor posição —, tudo o que precisou foi uma troca de olhares antes de se levantarem juntos. Os servos se apressaram com archotes para iluminar o caminho do Grande Salão pelos corredores até os aposentos do senhor. Ormund, então, anunciou a cerimônia nupcial e houve comemorações para todos os lados.
A procissão avançou por salões e corredores de Torre Alta, o som dos passos ecoando na pedra. Senhores e senhoras acompanhavam com gritos alegres e mãos-bobas. Alguns riam, e outros cantarolavam baladas picantes sobre noites de núpcias; mas todos cumpriam seus papéis na tradição. Homens carregavam , tentando lhe despir, enquanto as mulheres faziam o mesmo com Lorde Ormund. No entanto, não chegaram nem perto de tirar tudo — nem dele, nem dela. Não com o olhar que ele lhes lançara.
Os aposentos privados, enfim, os aguardava. Um cômodo espaçoso, adornado com cortinas de seda, tapetes luxuosos e também um pouco de praticidade: um incensário já preparado perto de uma janela para que Ormund pudesse eliminar quaisquer odores desagradáveis, se necessário; suportes para armadura alinhados contra uma parede; pilhas e mais pilhas de documentos aguardando revisão na mesa perto da cabeceira. Um espaço que refletia a personalidade dele, mas que agora pertenceria a ela também.
Ormund Hightower dispensou todos os convidados com um único olhar autoritário. Já tiveram o suficiente daquela pantomima embrulhada em tradição. A pesada porta se fechando atrás deles foi o som mais doce da noite, pois abafou as risadas e canções embaladas em embriaguez que ainda ecoavam pelos corredores.
Redwyne soltou outra risada suave, apesar do estado em que ambos haviam sido deixados. O gibão de Ormund havia desaparecido há muito tempo nas mãos de senhoras e donzelas risonhas. O vestido dela, por outro lado, ainda se agarrava teimosamente à cintura depois de mãos famintas terem aberto algumas amarras e puxado o tecido ombro abaixo, revelando muito mais do que qualquer senhora bem-educada teria exibido de bom grado diante de metade da nobreza local. Era mais fácil rir do que se render ao constrangimento que se esperava que toda moça suportasse em sua noite de núpcias.
Seu riso se findou por completo ao perceber o modo como Lorde Ormund a olhava. Sua expressão nada suave tornara-se ainda mais indecifrável.
— O que foi? — perguntou-lhe, a diversão ainda dançando em sua voz. — Não gosta de me ver assim, meu senhor? — Inclinou sutilmente a cabeça. — Certamente não pode ser por causa das mãos que tentaram me ajudar a tirar o vestido, já que é uma antiga tradição. Não consigo imaginar o Senhor Hightower pondo fim a um costume de gerações só porque a noiva por acaso era bonita.
Seu sorriso se desvaneceu com discreta elegância, substituído pela mesma inteligência perspicaz que lhe rendera muito mais atenção do que à maioria das moças da sua idade.
— Não precisa fingir que este casamento teve algo a ver comigo. — Seu olhar manteve-se firme. — Você pode até ter me escolhido, mas o que sempre importou foi a Casa Hightower. E eu compreendi isso muito antes de entrar no Septo Estrelado.
Ormund permaneceu ali, os braços pendurados frouxamente ao lado do corpo, a luz das velas cintilando nos traços marcantes de seu rosto. Nenhuma palavra saiu de sua boca. Não havia necessidade disso.
Então ele ergueu os braços devagar, desamarrou os laços da camisa de linho que ainda o cobria e despiu-se dela. O movimento revelou mais pele do que havia visto nele antes: ombros largos, peito definido — intacto de cicatrizes de batalha, porém marcado por anos de disciplina. O corpo de um lorde mantido em excelente condição.
Ele jogou a peça de roupa sobre uma cadeira próxima e voltou-se a Lady . Seu olhar percorreu o corpo da garota — agora sua esposa. Tinha a observado assim durante a dança, mas era coisa de momento, breve demais para importar. Dessa vez o fez com atenção. Estudou cada curva exposta onde o tecido se agarrava com demasiada obstinação. Observou o jeito como a luz brincava ao longo das clavículas nuas, onde a manga deslizava ainda mais para baixo. E, por fim, encontrou os olhos dela outra vez, respondendo ao seu olhar por uma eternidade sem que nenhum som além de suas respirações os interrompesse.
teria que ter perdido a visão para não admitir o óbvio. Ormund era um homem muito bonito, bem constituído; em todos os aspectos, o grande senhor que ela sabia que ele era. E seu corpo parecia transparecer a mesma disciplina do homem que governava Torre Alta e Vilavelha com palavras ponderadas e certeza inabalável.
No entanto, ela não era boba de se enganar com o que estava acontecendo ali. Aquilo não se tratava de admiração nem desejo. Ele tirara a camisa, empertigara-se ainda mais e a olhara como se o peso de sua presença, por si só, bastasse para virar a conversa a seu favor. Era tão claro quanto a lua no céu que ele queria intimidá-la, fazê-la lembrar-se exatamente de quem estava diante dela. O Lorde Ormund Hightower, Senhor de Torre Alta. O homem que não havia escolhido aquele casamento por causa de Redwyne, mas pela necessidade de uma segunda esposa e os herdeiros que ela poderia lhe dar.
Algo em vê-la naquele estado o havia perturbado, isso era certo. Caso contrário, não teria agido assim. Só que o silêncio não era mais o suficiente para ela. Não ali, atrás de portas fechadas, onde nenhum dos dois precisava performar para septões, lordes ou olhares curiosos e ansiosos por confundir gentileza com fraqueza.
poderia ter entrado no jogo dele. Ter baixado o olhar e fingido que seu escrutínio silencioso alcançara o que ele pretendia. Poderia ter agarrado o que restava de seu vestido e o deixado ir ao chão, respondendo intimidação com intimidação. No entanto, nenhuma dessas opções lhe daria o que queria. Então permaneceu onde estava.
— Não vai dizer nada? — Colocou as mãos na cintura.
A tensão na mandíbula de Ormund foi mínima, porém era um sinal revelador para quem soubesse onde procurar. Ele não estava acostumado a ser desafiado por ninguém, que dirá por sua esposa. E especialmente não dessa maneira, com palavras que cortavam o silêncio, tão afiadas quanto sua espada Vigilância, e exigiam ação em vez de submissão.
Refletiu por mais um instante antes de se mover direto para ela. Rápido o suficiente para evitar que recuasse. Em três passos, havia eliminado a distância entre eles — e nem piscou. Ormund agarrou o queixo dela com firmeza e autoridade, e inclinou seu rosto para cima, fazendo com que o olhasse bem. Então uniu seus lábios em um beijo profundo e inconfundível, do tipo que gritava dominância, e não afeto. Era uma ação com uma certeza tão grande que combinava com tudo o mais em Ormund Hightower.
A boca de se moveu contra a dele e suas mãos pousaram instintivamente sobre o peito nu. Ela sentiu força ali — no toque, no beijo — e também a confiança inabalável que havia o conduzido por cada momento daquele dia. E para seu próprio aborrecimento silencioso, seu corpo respondeu a ele antes mesmo que seu orgulho pudesse lhe tirar da situação.
Quando ele enfim interrompeu o beijo, ela mordeu o lábio de leve.
— Nunca imaginei que o poderoso Senhor Hightower recorresse a tais práticas simplesmente para silenciar sua própria senhora, em vez de respondê-la. — Seus olhos vagaram para a boca dele antes de encontrarem o seu olhar outra vez. — Mas me diga uma coisa… é neste momento que eu deveria fingir que este casamento foi de fato por minha causa? — Um sorrisinho tênue brincou em seus lábios. — Eu sei que não foi, meu senhor. Não precisa se preocupar.
Então, sem a menor pressa, desviou dele e atravessou o cômodo até a mesa onde o vinho estava. Um jarro recém-cheio de dourado da Árvore os aguardava, seu familiar tom refletindo a luz das velas. Era o seu lar, servido em uma taça, independentemente de onde ela fosse. encheu uma taça e depois outra.
— Meu senhor? — Virou-se de volta para ele e ofereceu uma das taças em um movimento carregado de calma e compostura. — Acredito que seria muito mais interessante se começássemos nosso casamento, ao menos desse momento em diante, sem que nenhum de nós fingisse ser algo que não é.
Ormund se aproximou e seus dedos roçaram nos dela ao pegar a bebida oferecida, mas ele não se demorou. Era cedo demais para toques desnecessários. Levou a taça aos lábios e bebeu um longo gole de dourado da Árvore, rico em doçura, marca registrada das terras da Casa Redwyne — uma riqueza da família de com a qual ele fora muito bem presenteado. Pousou a taça sobre a mesa, sem nunca quebrar o contato visual, então exalou devagar.
— Você está certa — concedeu. Eram apenas três palavrinhas, mas pesavam absurdamente, pois Ormund Hightower não era do tipo que fazia elogios vazios ou demonstrava falso sentimentalismo. — Este casamento não é sobre você. Sempre se tratou de dar à Casa Hightower mais filhos dignos de nosso nome. — Observou o modo como a luz das velas cintilava nos olhos de sua agora esposa. — Mas… Isso não significa que pretendo ser cruel com você.
Um pequeno sorriso brotou nos lábios de . Isso tinha sido bom. A verdade podia, sim, ferir mais profundamente do que uma mentira reconfortante, porém ela sempre preferira honestidade crua a ilusões agradáveis. E quando dizia respeito ao homem que iria se deitar ao seu lado todas as noites a partir dessa, sempre estaria disposta a escolher uma verdade fria em vez de fingimentos.
— Excelente! Porque eu também nunca tive a intenção de me casar com você. — Tomou um gole demorado. — E, no entanto, aqui estamos nós… — Ergueu a própria taça em sinal de brinde. — Compartilhando o melhor dourado da Árvore em nossa noite de núpcias.
Os olhos dele pareceram faiscar sob o olhar dela, mas sabia que poderia muito bem ter sido o reflexo das velas que acabara causando esse efeito. De qualquer modo, não se moveu nem se afastou, apenas o contemplou por cima da borda da taça.
— Sabe… havia algo diferente na maneira como me olhou depois que todos nos deixaram a sós. — Olhou para o próprio vinho, antes de tornar a fitá-lo. — Eu estava rindo, parada ali na entrada, exatamente assim. — Fez um gesto casual em direção a si mesma, indicando o vestido que ainda pendia de um ombro com seus laços frouxos, frutos de mãos cobiçosas. — Você não gostou de alguma coisa, isso posso afirmar; só ainda não descobri o quê.
Uma sombra cruzou a expressão de Ormund ao recordar. Ele girou o vinho no cálice uma vez enquanto escolhia as palavras certas.
— Sua risada — respondeu a pergunta não feita como se fosse um daqueles tratados em que cada cláusula era ponderada e avaliada antes que a tinta tocasse o pergaminho. — Você riu… — Franziu o cenho. — Eles quase tiraram metade da sua roupa por causa da tradição, e você riu. — Tomou outro gole para acalmar o incômodo que jazia por baixo da disciplina aprendida, e pousou o cálice na mesa com mais força que o necessário. — Não foi apropriado. Uma senhora não deveria achar graça em ser despida pelas mãos de estranhos durante sua própria noite de núpcias.
baixou o olhar para o vinho claro. Agora ela conseguia entender o que vira naquele olhar. E o tom de voz com que falara aquelas palavras? Firme, quase decepcionado. Era como se ela tivesse falhado em algum teste tácito. Ela respirou devagar antes de tomar um pequeno e calculado gole. Quando voltou a olhar para ele, não restava mais nenhum traço de zombaria em seu semblante.
— Você acha que gostei disso? Que tudo o que eu desejava em minha noite de núpcias era ser tocada e despida por uma multidão de homens que não eram o meu marido? — esperou por um instante, para garantir que ambos pudessem assimilar a informação. — Eu não gostei. Jamais gostaria de uma coisa dessas. Isso me envergonhou, essa é a verdade. Mas é como mencionou: era uma questão de tradição. — Suspirou devagar. — Não havia nada que eu pudesse ter feito para impedir sem transformar a nossa noite de núpcias em um espetáculo ainda maior. Então eu ri.
já tinha feito sua escolha muito antes do acordo de casamento. Um dia se casaria e teria que passar por aquilo, então encontrara o jeito menos pior de enfrentar a situação. Não era como se estivesse incentivando todos os toques — a tradição agia por si só, e os homens nunca perdiam uma oportunidade de colocar as mãos no corpo de uma mulher.
— Prefiro me deleitar com o menor indício de diversão em uma situação embaraçosa do que permitir que todos confundam meu desconforto com fraqueza. — Ela o observou por um silencioso momento. Seu polegar traçava círculos na haste prateada da taça. — Suspeito que ambos valorizamos a dignidade, meu senhor. Apenas a defendemos de maneiras diferentes.
Ormund manteve o olhar sobre ela quando enfim completou o raciocínio. Mais uma coisa rara que Redwyne arrancava dele essa noite. A maior parte das pessoas só recebia sua total atenção se estivesse relatando assuntos urgentes de governo. De algum modo, porém, despertava isso. Não era uma qualquer buscando favores com bajulação, nem uma noiva nervosa fingindo submissão. Ela falava com franqueza, o que exigia respeito de um homem que valorizava honestidade — mesmo agora, que isso conflitava com a tradição.
— Você está certa — admitiu pela segunda vez naquela noite.
Não iria oferecer justificativa para a existência daquela e de outras tradições, nem uma defesa para que permanecessem inalteradas. Apenas precisou reconhecer que, de fato, a escolha dela fora pragmática. E o fato de evitar que enxerguem fraqueza nela era um bom sinal. Mesmo sendo sua esposa em um casamento político, não a verem como fraca sempre poderia ser bom para ele.
Ormund estendeu a mão, bem devagarinho, e passou dois dedos pela linha exposta onde o magnífico vestido escorregara pelo ombro dela — a pele ainda morna devido aos festejos constrangedores de antes. Colocou o tecido de volta no lugar em um gesto gentil, cobrindo-a adequadamente e sem pressa; um reflexo de tudo o que lhe contara.
não pôde deixar de acompanhar cada respiração daquele gesto discreto e deliberado como tudo em Ormund Hightower. O calor dos dedos dele permaneceu em seu ombro muito tempo depois que o tecido já se assentara no devido lugar. Ergueu os olhos para ele e se pegou sorrindo… um sorriso sincero, quase surpreso.
— Obrigada. — Roçou a ponta dos dedos na manga que ele acabara de ajustar. — Não precisamos nos preocupar com isso agora, sabe? Você é meu marido. — A palavra soou mais natural do que jamais pensou que soaria. — A propósito… ouvi algumas coisas sobre você, Lorde Ormund. Imagino que isso… — Fez um gesto elegante entre os dois. — …seja simplesmente mais um assunto necessário para você administrar.
Com a borda da taça repousando de leve contra o lábio inferior, observou-o sob o silêncio que pairou. Então ela sorriu, quase provocadora, embora jamais de forma indelicada.
— Não me importo de ser uma de suas responsabilidades. — Permitiu que o sorriso se suavizasse apenas o suficiente para amenizar o tom do comentário. — Só preferiria me tornar alguém que você escolha conhecer, em vez de ser apenas a mulher que se espera que administre.
era observadora demais para simplesmente não notar a sutil mudança na expressão de Ormund Hightower. Os cantos de sua boca relaxaram só um pouquinho, em algo parecido com contemplação. Era quase como se ela tivesse enfim lhe apresentado um problema que ele não havia previsto que precisaria resolver — o que despertou algo nele.
Ormund aproximou-se de novo, ergueu sua mão e deslizou as costas de dois dedos ao longo da maçã do rosto dela. Um contato tão delicado quanto o roçar de uma pena de cisne, experimental. Era um homem acostumado a lidar com dever e disciplina, não com esposas que o desafiavam sutilmente e eram tão francas quanto ele.
Pela primeira vez naquela noite, o peito de apertou. O toque em seu rosto fora tão leve e gentil que poderia ter sido imaginário. No entanto, perdurara mais tempo do que o calor das pontas dos dedos dele jamais poderia.
— Eu não conheço você — disse ele, calmo. Gostava de expor os fatos de forma direta antes que qualquer coisa pudesse obscurecê-los.
Levou a mão aos cabelos de , onde algumas flores de madressilva haviam se soltado do arranjo com a confusão da cerimônia nupcial. Desprendeu a pequena coroa de suas madeixas com cuidado, pois havia notado que aquilo significava muito mais do que um simples adorno para ela. Pousou o objeto sobre a mesa ao lado de seu cálice — a última lembrança da donzela que fora naquela manhã. O perfume suave das madressilvas o agradou, lembrava-lhe um jardim ao entardecer… e aquele era o cheiro dela agora.
sustentou o olhar dele quando voltou a fitá-la.
— Eu também não conheço você — devolveu, na mesma honestidade que ele tinha lhe oferecido. — No entanto, aqui estamos… compartilhando os mesmo aposentos, o melhor vinho que minha família já produziu, a verdade nua e crua, e a companhia um do outro.
Seu olhar desceu, por um breve instante, para o seu peito nu. Depois do que pareceu uma eternidade admirando-o, olhou para si mesma. As mangas do vestido estavam no lugar graças a gentileza dele, porém os laços — frouxos demais para serem apropriados — se recusavam a esconder as delicadas camadas por baixo. Um risinho lhe escapou.
— Suponho que também não estejamos propriamente vestidos para conversas sérias como essa. — Fitou seus belos olhos. — Ah, e você já sabe uma coisa sobre mim, não? — Algo brincalhão se acendeu em seu olhar. — Sabe que possuo, no mínimo, uma inteligência razoável, afinal, compreendi do que esse casamento se tratava desde o início. Nunca entrei no Septo Estrelado carregando a fantasia de uma donzela, ainda que eu seja uma.
Ormund soltou um suspiro que era algo perto de diversão. A maneira como o provocara sem verdadeiramente zombar… Aquilo soava diferente de todas as tentativas de humor ao redor dele. Era suportável.
Ele abarcou o rosto dela com a mão, e então selou seus lábios em um beijo mais lento do que antes, comedido, quase exploratório. Queria descobrir como ela reagia ao ser tocada com gentileza em vez de posse e domínio como fizera antes. Seu outro braço envolveu-lhe a cintura, sem a puxar, apenas dando espaço para que ela reagisse da maneira que quisesse. Sem contar que essa contenção era também um jeito de mostrar que levava a sério o que acabara de declarar sobre querer que ele escolhesse conhecê-la para além das exigências do dever.
— Como é possível que seja inteligente e bonita? — deixou escapar, um pouco frustrado e um tanto fascinado.
soltou uma risada baixa. Lá estava… A primeira frase que Lorde Ormund Hightower havia proferido em toda a noite que de fato parecia ter ultrapassado seus pensamentos cautelosos. E ela se encantou com o acontecido mais do que deveria.
— Talvez os deuses tenham seus favoritos — brincou ela. — E ainda abençoaram o casamento de duas dessas pessoas, o que pode ser um perigo para muita gente.
Sacudiu a cabeça, ainda rindo. Seus dedos, enrolados na haste da taça, permaneceram firmes enquanto a mão livre repousava sobre o braço que envolvia sua cintura.
— Mas me diga você, meu senhor: como consegue ser tão inteligente e tão bonito ao mesmo tempo? Ou acredita que essa combinação seja rara somente para mulheres? — Ergueu a sobrancelha. — Não, tenho certeza que já quis matar os homens burros que vêm lhe pedir favores e mal sabem barganhar… e muitos deles são bonitos.
As provocações de não traziam crueldade. Apenas eram a linguagem mais fácil que conhecia para se usar sempre que a sinceridade ameaçava se tornar avassaladora demais. A sorte dela era que Ormund se mantinha quieto na maior parte do tempo.
— Então… realmente pretende me conhecer, meu querido marido? — Inclinou a cabeça apenas um pouquinho. — Porque acho que também gostaria de conhecê-lo.
A boca de Ormund se curvou de forma suave no que mais assemelhava a um sorriso que já tinha visto nele desde… sempre? Era muito pequeno, mas valia tanto quanto qualquer outro naquele momento. Ele pegou o cálice da mão dela e o depositou sobre a mesa ao lado deles.
— Sim — respondeu, voltando-se para ela.
E então, inclinou-se e a beijou — dessa vez com um pouco menos de contenção. E se deixou levar pelo novo ritmo dos lábios dele. Ormund deslizou as mãos para cima, uma envolveu-lhe os cabelos, inclinando a cabeça na medida certa para aproveitar mais o beijo, enquanto a outra pressionava suas costas, puxando-a para mais perto.
Quando enfim se afastou para respirar propriamente, sua respiração estava muito menos controlada do que o habitual.
— Pretendo saber com quem compartilho o meu nome — acrescentou, antes de reivindicar os lábios dela mais uma vez por ter percebido que falara como um homem sedento por conversa.
sorriu em meio ao beijo. Então subiu a mão devagarinho até que as pontas dos dedos repousassem na nuca dele. Agora estava muito mais à vontade do que cautelosa. A outra mão, agora sem a taça, posicionou-se no peito dele. Seu olhar demorou-se naquele rosto que não parecia mais o de um estranho para ela. A satisfação a preencheu por inteira ao perceber o calor que começara a substituir a distância entre eles.
— Compartilha o seu nome e a sua cama, não vamos nos esquecer. — Um riso suave escapou-lhe. — Não se preocupe, meu senhor. Tenho certeza que é inteligente o suficiente para não ser esfaqueado pela própria esposa enquanto dorme. — Piscou para ele. — Acho que isso é uma sorte para nós dois, mas… posso estar errada, é claro.
Ormund soltou um som tão indigno e inesperadamente humano que quase chocou . Apenas quase, afinal, já gostava mais da versão dele que conhecera nesses aposentos do que aquela que estivera diante de si no Septo Estrelado; apesar de que, para sua própria surpresa, gostava da versão severa também.
— Esfaqueado enquanto durmo? — repetiu, sem conseguir esconder o divertimento.
Suas mãos continuavam a exploração lenta. Uma ainda emaranhada em seus cabelos com gentileza, enquanto a outra fazia um carinho nas costas dela sem pressa nenhuma, apenas mapeando o que agora lhe pertencia — pessoal e legalmente.
— E assim, você vai me conhecendo mais. — Subiu a mão do peito dele até o queixo, observando cada detalhe, como se também estivesse descobrindo o contorno de alguém completamente novo. — E por que parece que gostou tanto da ideia de eu te esfaquear enquanto dorme?
Ormund segurou o pulso dela com uma delicadeza que quase não combinava com ele, mesmo naquele momento; mas não afastou a mão.
— Se fosse me esfaquear, já teria feito isso — reconheceu, com a voz mais baixa do que antes. Era uma conclusão lógica, fria, pragmática. Bem do jeitinho que ele analisaria qualquer ameaça potencial. Seu polegar deslizou para a parte interna do pulso dela, quase como se a testasse. Então acrescentou com um humor seco incomum: — Você não é esse tipo de mulher.
ergueu a sobrancelha. Não havia acusação nas palavras de Lorde Ormund, apenas uma boa observação de alguém que estudava incansavelmente as pessoas em busca de vantagens políticas.
— Tem razão. Eu não tiraria proveito de uma presa indefesa. Faria isso quando estivesse acordado, mesmo que custasse a minha vida. — Sustentou o olhar dele, sem nunca vacilar. Não havia nenhum resquício de zombaria nem provocação em seu tom de voz. Era mais fácil manter a compostura desse jeito. — E agora, marido, essa é mais uma coisa que sabe sobre mim.
Ormund a estudou por um longo momento, tentando decifrar se ela estava brincando. Decidiu que não, pois viu somente verdade naqueles belos olhos. Algo em seu peito se apertou com a constatação. Uma certa curiosidade misturada a um tipo estranho de… respeito.
A maioria das pessoas mentia para agradá-lo o tempo todo — era o que ele vivia ensinando Daeron a reconhecer. Outras, o bajulavam cegamente na esperança de uma recompensa. Mas Lady … Pelos Sete, Lady falava tranquilamente, e com total seriedade, sobre um suposto assassinato. E esperava que ele aceitasse isso? Ela de fato não se importava se ele reprovaria isso — o que era estranhamente revigorante.
Ormund soltou o pulso dela devagar e segurou gentilmente ambos os lados de seu rosto. Então a beijou de novo. Um beijo ainda mais profundo e lento do que todos os que vieram antes. Havia um peso muito maior por trás do ato…. Uma intenção. Ele queria conhecê-la. De verdade. Até mesmo essas partes perigosas. No fim das contas, eram essas as que ele mais gostava — desde que estivessem sob controle.
— Conte-me algo sobre você, Redwyne — exigiu.
fitou-o em silêncio. Gostara do fato de ele ter perguntado, sem pedir por honestidade ou qualquer coisa assim. Simplesmente demonstrara interesse.
— Deixe-me pensar… — Um sorriso contemplativo preencheu-lhe os lábios. — Eu gostei muito quando me escolheu para ser sua segunda esposa. Compreendi desde o início que sua escolha não tinha a ver nem comigo nem com minha beleza. Nunca teve. E, no entanto… — Um riso fraco escapou-lhe. — Não pude deixar de admirar a ideia de me tornar a Senhora Hightower. Há poder neste nome. — Seus dedos encontraram as mãos dele, que ainda se mantinham em seu rosto. — Fui seduzida por esse poder.
jamais quebrou o contato visual. Não iria se esconder atrás do constrangimento. Não com seu marido. Devagar, guiou as mãos dele para baixo até que repousassem nos laços afrouxados da frente do vestido — os mesmos que foram violados na cerimônia nupcial.
— E não me importaria se o meu marido me despisse. Caso deseje isso, é claro. — Um calor se instalou no movimento gentil e desarmado de seus lábios. — Se não quiser, não me importo de eu mesma fazer. A diferença é que desta vez, a escolha é minha.
Ormund permaneceu imóvel por um bom tempo. O poder silencioso na voz de Lady , o jeito como seu olhar não vacilara mesmo quando deixara as mãos dele pairando sobre aquelas amarras bagunçadas por homens que nem deveriam ter o direito de tocá-la. Uma escolha feita de livre e espontânea vontade, nada de submissão unicamente porque deveriam cumprir o dever de consumar o casamento.
Seus dedos envolveram com cuidado o tecido solto do vestido. Ele desatou cada laço com uma precisão surpreendente para alguém que não fazia isso com frequência. Devagar, sem puxões impacientes como os homens costumavam fazer quando estavam ansiosos pelo que viria depois. Apenas um desatar metódico, controlado — um nó de cada vez —, dando ao momento toda a atenção que merecia. Tudo isso sem desviar o olhar do rosto dela.
— Conte-me mais alguma coisa, minha senhora — pediu enquanto continuava seu trabalho calmo.
sentia cada movimento deliberado à medida que mais um laço frouxo cedia sob os dedos cuidadosos de seu marido. A respiração dela se acalmou. Aquilo era bem diferente do modo que as criadas a despiam, e era extremamente diferente do que os senhores tinham feito com ela na cerimônia nupcial.
De algum modo estranho, o que a atraía para Lorde Ormund já não tinha tanto a ver com os ombros largos sob as pontas de seus dedos, ou o rosto bonito que ela admirara de longe, e nem o fato de ele ser o Senhor Hightower de Torre Alta, Farol do Sul, Voz de Vilavelha, Defensor da Cidadela. Isso tudo ainda a atraía, é claro. Contudo, no momento, o que a puxava para ele sem nenhum esforço era isso. A paciência, a conversa. O homem que havia escolhido ouvi-la antes de tocá-la.
— O beijo… o primeiro. — Pousou a mão no antebraço dele, e um pequeno sorriso tocou seus lábios por um efêmero e encantador instante. — Sei que pretendia me intimidar, me calar. E, sinceramente, não me importo que tenha tentado, tanto que retribuí, não foi? — Deu de ombros. — Mas gostaria que soubesse de uma coisa sobre mim. — Seu polegar roçou a pele dele, devagar e distraído. — Não sou um castelo a ser tomado, meu senhor. Você não precisa me conquistar. Já sou sua esposa. — O sorriso tênue reapareceu como o sol após dias chuvosos. — Só precisa continuar escolhendo me conhecer. E acredito que continuarei escolhendo permitir que me conheça.
Os dedos de Ormund congelaram no último laço, ainda meio amarrado. Respirou devagar, assimilando tudo o que ela havia dito, e algo dentro dele mudou. Redwyne estava certa sobre tudo. Ele havia a beijado daquele jeito mais cedo — um marido reivindicando sua esposa, sim, mas não apenas isso. Fora como um senhor afirmando domínio sobre alguém inferior a ele. Um reflexo nascido do poder e da expectativa… e fizera isso para calá-la enquanto ela insistia para que ele falasse. Sua esposa havia o lido perfeitamente bem desde o primeiro momento em que ficaram sozinhos.
Ainda assim, ali estava ela, contando-lhe de modo gentil, sem nenhuma acusação em seu tom, que aquele tipo de investida não seria necessário com ela. Que ele não precisava forçar nada quando se tratava de da Casa Redwyne, a sua nova Senhora Hightower.
— Sei bem que não é nenhum castelo. — Algo se apertou sob suas costelas e ele baixou o olhar para desamarrar o último laço de uma vez por todas, o único que aqueles malditos bastardos não haviam tocado na cerimônia. — Um castelo é muito mais simples.
não conseguiu esconder um sorrisinho discreto. Ali estava aquilo de novo. Aquela honestidade cautelosa que tinha começado a reconhecer em seu novo marido. E gostava disso. Muito.
Ele era o Senhor da Casa Hightower. Seu dever transcendia a sua própria pessoa, e sacrifícios como aquele eram exigidos dele com a mesma naturalidade que ele próprio exigia lealdade de outrem. Uma Casa tão antiga e poderosa jamais poderia depender de poucos herdeiros — ainda mais sabendo que uma guerra viria a acontecer a qualquer momento. Legado exigia certeza, e esta, uma vasta prole.
Por isso mesmo, aquela união matrimonial não nascera de desejos mundanos, mas sim da responsabilidade, do peso implacável de um nome que se erguia sobre Torre Alta e Vilavelha há séculos. Quaisquer que fossem os quereres do próprio Ormund, haviam há muito sido substituídos pelo que sua posição exigia dele.
Controle, disciplina, coisas metódicas. Ele gostava assim
No altar, esperando por sua futura esposa, Ormund mantinha a postura impecável como a espada de um grande cavaleiro — costas retas e mãos unidas à sua frente em piedosa solenidade. O incensário que carregava consigo exalava um tênue rastro de sândalo e mirra, mascarando o cheiro de pedra polida e suor nervoso dos nobres ali reunidos.
Redwyne caminhava em sua direção pelo longo corredor do septo, mas o olhar dele se mantinha fixo em algum ponto distante que só ele podia ver. Um homem acostumado à posição não deveria vacilar agora. Não por um rostinho bonito de alguém que fora escolhida por um acordo político e a capacidade de lhe dar filhos saudáveis.
Cobrindo seus ombros e costas, caía o manto de donzela de Lady : o cacho de uvas da Casa Redwyne trabalhado em granadas e pequenas lascas de esmeralda sobre um magnífico veludo azul coberto por delicados arabescos que ela mesma bordara especialmente para aquele dia. Em sua cabeça sempre erguida, raminhos de videira trançados sustentavam mini rosas brancas e flores de madressilva entre pequenas folhas da mesma parreira de onde vieram os ramos — verdes como o verão e quase tão jovens quanto ela.
A coroa fora ideia sua, é claro. Era orgulhosa demais para deixar sua origem estampada apenas no manto. Embora fosse se tornar a Senhora Hightower — e estivesse pronta para vestir esse dever como se tivesse nascido para isso —, jamais deixaria de ser uma Redwyne da Árvore.
Lorde Redwyne, o pai de , desprendeu seu manto de donzela com um sorrisinho orgulhoso por ter conseguido um casamento tão bom para sua filha mais velha. Quando se afastou, abaixando a cabeça respeitosamente para o Senhor Hightower, era a vez de Ormund fazer sua parte na cerimônia.
Sem delongas, ele jogou o manto do marido sobre os ombros da garota, trazendo-a sob sua proteção. Arabescos em fio de prata percorriam o pesado veludo cinza-fumaça, conferindo-lhe a sobriedade digna da mais antiga das Grandes Casas da Campina. A torre de vigia de pedra branca da Casa Hightower — trabalhada em pedras-da-lua e fios de seda marfim, e coroada por uma chama que reluzia em ouro e pequenas peças de âmbar — se assentou ao longo das costas de como se sempre tivesse pertencido a ela.
O septão entoou bênçãos sobre a união deles. Osmund reagiu com uma única piscadela lenta, calculada, controlada. Era seu jeito de reconhecer a permissão divina para aquilo que já fora decidido pela lógica da linhagem há muito, muito tempo. Eles não trocaram nem sequer um olhar, afinal, não era necessário — nem para ele, nem para ela. O momento foi protocolar ao extremo, exatamente como esperara. Bem do jeitinho que deveria ser um casamento de alianças.
Na hora de invocar os deuses para testemunhar sua união, Lady e Lorde Ormund clamaram em uníssono pelo nome de cada uma das sete faces de Deus. Pai, Ferreiro, Guerreiro, Mãe, Donzela, Velha, Estranho — todos eram importantes para aquele momento. Perante eles, declararam que pertenciam um ao outro. proferiu os votos finais e, então, chegou a vez dele.
— Com este beijo, eu empenho o meu amor e a tomo como minha senhora e esposa — pronunciou claramente, sem necessidade de floreios.
As palavras cerimoniais da Fé eram indubitavelmente importantes, mas a parte do amor era, na maioria dos casos, vazia. Como alguém poderia jurar amor a outra pessoa se o casamento nem era feito para isso? Pelos Sete, eles ainda nem se conheciam… Contudo não era quem questionaria a graça dos deuses que a haviam abençoado com um marido e uma posição tão grandiosos. Por isso, não hesitou em empenhar o seu amor e sua vida ao beijar o homem à sua frente, tomando-o como seu senhor e marido.
O beijo também fora precisamente como imaginara que seria. Breve, decente, formal. Nada demais. Apenas uma promessa proferida porque a tradição exigia, selada com toda a contenção condizente ao Senhor da Casa Hightower. Nenhuma canção emocionante de verão jamais seria composta sobre tal toque de lábios, e Redwyne nunca fora tola o suficiente para esperar ou desejar o contrário.
— Aqui, à vista dos deuses e dos homens — declarou o septão —, proclamo solenemente que Lorde Ormund da Casa Hightower e Lady da Casa Redwyne são marido e mulher. Uma só carne, um só coração, uma só alma. Agora e para sempre. E maldito seja quem se interpuser entre eles.
gostou de ouvir aquelas palavras, era o selo oficial de sua nova posição. No entanto, o que de fato fazia seus olhos brilharem naquele momento tinha pouquíssimo a ver com o homem diante dela. O Septo Estrelado ainda se erguia ao redor deles em todo o seu antigo esplendor, cada coluna de mármore e belos vitrais testemunhando uma cerimônia com a qual muitos só poderiam sonhar. O orgulho preencheu-lhe o peito com o mesmo ardor do seu vinho favorito produzido pela sua família. Poucas mulheres poderiam afirmar ter se casado sob aquele teto sagrado e belo, e ter saído por aquelas portas com o título de Senhora Hightower de Torre Alta.
pode até ter vivido duas décadas, com pelo menos dez dias do nome separando-a de seu agora marido — ou talvez uns quinze? —, mas a juventude nunca a tornara ingênua. Ela compreendia como o mundo funcionava; ao menos a parte do mundo em que vivera desde o nascimento. Nem mesmo três filhos e uma filha eram o suficiente para uma Grande Casa, especialmente em tempos de incerteza, com guerras futuras à espreita além do horizonte. Os senhores não construíam dinastias apenas com base na esperança; era preciso legado e poder.
E Ormund Hightower era, em todos os aspectos, o grande senhor que as pessoas diziam. Alto. Bonito. Imponente sem nem sequer abrir a boca para falar algo. Um homem cuja mera presença transmitia a silenciosa certeza de uma autoridade conquistada muito antes de achá-la relevante o suficiente para escolhê-la como esposa.
A caminho do banquete de casamento ao lado de seu novo marido, enquanto os servos corriam à frente para anunciar sua chegada ao salão, podia sentir o peso do nome que acabara de assumir. Jamais deixaria de ser Redwyne; agora, porém, ganhara um título de Senhora da Casa mais antiga da Campina. Era uma troca justa. Talvez até mesmo poderosa. Tinha certeza que, mesmo se tivesse tido a oportunidade, não teria escolhido um caminho diferente.
Ormund a acompanhava com o passo comedido de um homem que passara tempo demais liderando procissões — assim como não se apressava, também nunca se demorava. Não havia trocado uma palavra com durante a caminhada, afinal, demonstrações públicas estavam abaixo de sua dignidade. Conversas triviais eram para mercadores e cortesãos que disputavam favores.
Seus olhos, no entanto, voltaram-se à garota uma única vez, ao passarem por baixo de um arco onde vitrais projetavam ondulações azuis sobre o piso de mármore. Redwyne parecia… majestosa. Principalmente pela maneira como se portava agora que ostentava abertamente o nome da Casa dele diante dos olhares de estranhos, como alguém ciente do poder que vinha com o fato de ter se tornado a Senhora Hightower. Até as flores em seus cabelos pareciam ter aprendido a adorná-la com excelência maior.
Havia sido somente dever o que ditara esse casamento, sim. Entretanto Ormund não podia negar: tudo aquilo caía tão bem em Lady que até mesmo os críticos àquela união poderiam hesitar antes de sussurrar, diante de taças erguidas bem alto, qualquer bobagem desagradável sobre sua escolha.
O festim se prolongou, como toda celebração de casamento nobre exigia, repleto de música, risadas, taças transbordantes e bênçãos intermináveis oferecidas por senhores, senhoras, septões e primos distantes cujos nomes nem fazia questão de se lembrar. Alguns, de fato, os queriam bem; outros só diziam as palavras porque lhes era exigido. Ela não se importava, porém. Era assim que as coisas funcionavam.
Tradições também tinham de ser mantidas. Então Ormund e ela tinham dado início às celebrações com a primeira dança. Suas mãos só se tocaram porque a cerimônia assim exigia. Por alguns passos decorados, seus olhares se encontraram sob o brilho de inúmeras velas sem que nenhum deles buscasse mais do que o ritmo esperado. E quando a canção se findou, o momento também se esvaiu.
As horas passaram devagar, e nenhuma palavra fora trocada entre marido e mulher. nunca fez questão de mudar isso. Ela gostava de conversar muito mais do que a maioria, sim, porém possuía a sabedoria de reconhecer quando o silêncio era mais adequado do que a sagacidade. Então apenas fazia o seu papel de agradecer sempre que um novo convidado lhes desejava bênçãos ou vestir um sorriso caloroso, o que, por vezes, era muito mais eficaz do que respostas desnecessárias.
Apenas duas vezes ela se permitiu lançar um olhar na direção de seu marido, ambas por cima da borda de uma taça cheia de dourado da Árvore — o melhor presente que a Casa Redwyne poderia colocar em todas as mesas naquela noite. Ormund permanecia do mesmo jeito que estava no altar: composto, digno, inteiramente dedicado aos intermináveis deveres esperados do Senhor de Torre Alta e de Vilavelha, O Farol do Sul.
A maior troca que compartilharam naquela noite acontecera sem que nenhum dos dois a buscasse. Um senhor de menor importância — encorajado por vinho em excesso e uma enorme falta de bom senso — se dirigiu à Lady de modo indevido. A ofensa não fora alta o suficiente para silenciar o salão, mas chegara aos ouvidos do único homem cuja atenção de fato importava. Em um piscar de olhos, Ormund estava ao lado dela, forçando a interrupção abrupta de uma conversa — que jamais deveria ter existido — antes que se tornasse maior do que a magnificência do casamento deles. O infeliz endireitou a coluna sob o olhar fatal do Senhor Hightower do jeito jamais fizera diante de um septão e, no instante seguinte, estava proferindo desculpas.
— A Senhora Hightower nunca mais será tratada dessa maneira — declarou Ormund.
E nenhuma outra palavra foi necessária.
O resto do festim transcorreu sem incidentes, embora sussurros tenham se espalhado com frequência por certos cantos do salão — onde homens saboreavam o vinho de suas taças com expressões mais cautelosas. Ainda assim, ninguém ousou desafiar uma segunda vez a proteção de Lorde Ormund sobre sua nova esposa… e o nome da Casa Hightower.
Quando, enfim, chegou a hora de se retirarem — já que um Senhor e uma Senhora não precisavam permanecer até o fim com convidados de menor posição —, tudo o que precisou foi uma troca de olhares antes de se levantarem juntos. Os servos se apressaram com archotes para iluminar o caminho do Grande Salão pelos corredores até os aposentos do senhor. Ormund, então, anunciou a cerimônia nupcial e houve comemorações para todos os lados.
A procissão avançou por salões e corredores de Torre Alta, o som dos passos ecoando na pedra. Senhores e senhoras acompanhavam com gritos alegres e mãos-bobas. Alguns riam, e outros cantarolavam baladas picantes sobre noites de núpcias; mas todos cumpriam seus papéis na tradição. Homens carregavam , tentando lhe despir, enquanto as mulheres faziam o mesmo com Lorde Ormund. No entanto, não chegaram nem perto de tirar tudo — nem dele, nem dela. Não com o olhar que ele lhes lançara.
Os aposentos privados, enfim, os aguardava. Um cômodo espaçoso, adornado com cortinas de seda, tapetes luxuosos e também um pouco de praticidade: um incensário já preparado perto de uma janela para que Ormund pudesse eliminar quaisquer odores desagradáveis, se necessário; suportes para armadura alinhados contra uma parede; pilhas e mais pilhas de documentos aguardando revisão na mesa perto da cabeceira. Um espaço que refletia a personalidade dele, mas que agora pertenceria a ela também.
Ormund Hightower dispensou todos os convidados com um único olhar autoritário. Já tiveram o suficiente daquela pantomima embrulhada em tradição. A pesada porta se fechando atrás deles foi o som mais doce da noite, pois abafou as risadas e canções embaladas em embriaguez que ainda ecoavam pelos corredores.
Redwyne soltou outra risada suave, apesar do estado em que ambos haviam sido deixados. O gibão de Ormund havia desaparecido há muito tempo nas mãos de senhoras e donzelas risonhas. O vestido dela, por outro lado, ainda se agarrava teimosamente à cintura depois de mãos famintas terem aberto algumas amarras e puxado o tecido ombro abaixo, revelando muito mais do que qualquer senhora bem-educada teria exibido de bom grado diante de metade da nobreza local. Era mais fácil rir do que se render ao constrangimento que se esperava que toda moça suportasse em sua noite de núpcias.
Seu riso se findou por completo ao perceber o modo como Lorde Ormund a olhava. Sua expressão nada suave tornara-se ainda mais indecifrável.
— O que foi? — perguntou-lhe, a diversão ainda dançando em sua voz. — Não gosta de me ver assim, meu senhor? — Inclinou sutilmente a cabeça. — Certamente não pode ser por causa das mãos que tentaram me ajudar a tirar o vestido, já que é uma antiga tradição. Não consigo imaginar o Senhor Hightower pondo fim a um costume de gerações só porque a noiva por acaso era bonita.
Seu sorriso se desvaneceu com discreta elegância, substituído pela mesma inteligência perspicaz que lhe rendera muito mais atenção do que à maioria das moças da sua idade.
— Não precisa fingir que este casamento teve algo a ver comigo. — Seu olhar manteve-se firme. — Você pode até ter me escolhido, mas o que sempre importou foi a Casa Hightower. E eu compreendi isso muito antes de entrar no Septo Estrelado.
Ormund permaneceu ali, os braços pendurados frouxamente ao lado do corpo, a luz das velas cintilando nos traços marcantes de seu rosto. Nenhuma palavra saiu de sua boca. Não havia necessidade disso.
Então ele ergueu os braços devagar, desamarrou os laços da camisa de linho que ainda o cobria e despiu-se dela. O movimento revelou mais pele do que havia visto nele antes: ombros largos, peito definido — intacto de cicatrizes de batalha, porém marcado por anos de disciplina. O corpo de um lorde mantido em excelente condição.
Ele jogou a peça de roupa sobre uma cadeira próxima e voltou-se a Lady . Seu olhar percorreu o corpo da garota — agora sua esposa. Tinha a observado assim durante a dança, mas era coisa de momento, breve demais para importar. Dessa vez o fez com atenção. Estudou cada curva exposta onde o tecido se agarrava com demasiada obstinação. Observou o jeito como a luz brincava ao longo das clavículas nuas, onde a manga deslizava ainda mais para baixo. E, por fim, encontrou os olhos dela outra vez, respondendo ao seu olhar por uma eternidade sem que nenhum som além de suas respirações os interrompesse.
teria que ter perdido a visão para não admitir o óbvio. Ormund era um homem muito bonito, bem constituído; em todos os aspectos, o grande senhor que ela sabia que ele era. E seu corpo parecia transparecer a mesma disciplina do homem que governava Torre Alta e Vilavelha com palavras ponderadas e certeza inabalável.
No entanto, ela não era boba de se enganar com o que estava acontecendo ali. Aquilo não se tratava de admiração nem desejo. Ele tirara a camisa, empertigara-se ainda mais e a olhara como se o peso de sua presença, por si só, bastasse para virar a conversa a seu favor. Era tão claro quanto a lua no céu que ele queria intimidá-la, fazê-la lembrar-se exatamente de quem estava diante dela. O Lorde Ormund Hightower, Senhor de Torre Alta. O homem que não havia escolhido aquele casamento por causa de Redwyne, mas pela necessidade de uma segunda esposa e os herdeiros que ela poderia lhe dar.
Algo em vê-la naquele estado o havia perturbado, isso era certo. Caso contrário, não teria agido assim. Só que o silêncio não era mais o suficiente para ela. Não ali, atrás de portas fechadas, onde nenhum dos dois precisava performar para septões, lordes ou olhares curiosos e ansiosos por confundir gentileza com fraqueza.
poderia ter entrado no jogo dele. Ter baixado o olhar e fingido que seu escrutínio silencioso alcançara o que ele pretendia. Poderia ter agarrado o que restava de seu vestido e o deixado ir ao chão, respondendo intimidação com intimidação. No entanto, nenhuma dessas opções lhe daria o que queria. Então permaneceu onde estava.
— Não vai dizer nada? — Colocou as mãos na cintura.
A tensão na mandíbula de Ormund foi mínima, porém era um sinal revelador para quem soubesse onde procurar. Ele não estava acostumado a ser desafiado por ninguém, que dirá por sua esposa. E especialmente não dessa maneira, com palavras que cortavam o silêncio, tão afiadas quanto sua espada Vigilância, e exigiam ação em vez de submissão.
Refletiu por mais um instante antes de se mover direto para ela. Rápido o suficiente para evitar que recuasse. Em três passos, havia eliminado a distância entre eles — e nem piscou. Ormund agarrou o queixo dela com firmeza e autoridade, e inclinou seu rosto para cima, fazendo com que o olhasse bem. Então uniu seus lábios em um beijo profundo e inconfundível, do tipo que gritava dominância, e não afeto. Era uma ação com uma certeza tão grande que combinava com tudo o mais em Ormund Hightower.
A boca de se moveu contra a dele e suas mãos pousaram instintivamente sobre o peito nu. Ela sentiu força ali — no toque, no beijo — e também a confiança inabalável que havia o conduzido por cada momento daquele dia. E para seu próprio aborrecimento silencioso, seu corpo respondeu a ele antes mesmo que seu orgulho pudesse lhe tirar da situação.
Quando ele enfim interrompeu o beijo, ela mordeu o lábio de leve.
— Nunca imaginei que o poderoso Senhor Hightower recorresse a tais práticas simplesmente para silenciar sua própria senhora, em vez de respondê-la. — Seus olhos vagaram para a boca dele antes de encontrarem o seu olhar outra vez. — Mas me diga uma coisa… é neste momento que eu deveria fingir que este casamento foi de fato por minha causa? — Um sorrisinho tênue brincou em seus lábios. — Eu sei que não foi, meu senhor. Não precisa se preocupar.
Então, sem a menor pressa, desviou dele e atravessou o cômodo até a mesa onde o vinho estava. Um jarro recém-cheio de dourado da Árvore os aguardava, seu familiar tom refletindo a luz das velas. Era o seu lar, servido em uma taça, independentemente de onde ela fosse. encheu uma taça e depois outra.
— Meu senhor? — Virou-se de volta para ele e ofereceu uma das taças em um movimento carregado de calma e compostura. — Acredito que seria muito mais interessante se começássemos nosso casamento, ao menos desse momento em diante, sem que nenhum de nós fingisse ser algo que não é.
Ormund se aproximou e seus dedos roçaram nos dela ao pegar a bebida oferecida, mas ele não se demorou. Era cedo demais para toques desnecessários. Levou a taça aos lábios e bebeu um longo gole de dourado da Árvore, rico em doçura, marca registrada das terras da Casa Redwyne — uma riqueza da família de com a qual ele fora muito bem presenteado. Pousou a taça sobre a mesa, sem nunca quebrar o contato visual, então exalou devagar.
— Você está certa — concedeu. Eram apenas três palavrinhas, mas pesavam absurdamente, pois Ormund Hightower não era do tipo que fazia elogios vazios ou demonstrava falso sentimentalismo. — Este casamento não é sobre você. Sempre se tratou de dar à Casa Hightower mais filhos dignos de nosso nome. — Observou o modo como a luz das velas cintilava nos olhos de sua agora esposa. — Mas… Isso não significa que pretendo ser cruel com você.
Um pequeno sorriso brotou nos lábios de . Isso tinha sido bom. A verdade podia, sim, ferir mais profundamente do que uma mentira reconfortante, porém ela sempre preferira honestidade crua a ilusões agradáveis. E quando dizia respeito ao homem que iria se deitar ao seu lado todas as noites a partir dessa, sempre estaria disposta a escolher uma verdade fria em vez de fingimentos.
— Excelente! Porque eu também nunca tive a intenção de me casar com você. — Tomou um gole demorado. — E, no entanto, aqui estamos nós… — Ergueu a própria taça em sinal de brinde. — Compartilhando o melhor dourado da Árvore em nossa noite de núpcias.
Os olhos dele pareceram faiscar sob o olhar dela, mas sabia que poderia muito bem ter sido o reflexo das velas que acabara causando esse efeito. De qualquer modo, não se moveu nem se afastou, apenas o contemplou por cima da borda da taça.
— Sabe… havia algo diferente na maneira como me olhou depois que todos nos deixaram a sós. — Olhou para o próprio vinho, antes de tornar a fitá-lo. — Eu estava rindo, parada ali na entrada, exatamente assim. — Fez um gesto casual em direção a si mesma, indicando o vestido que ainda pendia de um ombro com seus laços frouxos, frutos de mãos cobiçosas. — Você não gostou de alguma coisa, isso posso afirmar; só ainda não descobri o quê.
Uma sombra cruzou a expressão de Ormund ao recordar. Ele girou o vinho no cálice uma vez enquanto escolhia as palavras certas.
— Sua risada — respondeu a pergunta não feita como se fosse um daqueles tratados em que cada cláusula era ponderada e avaliada antes que a tinta tocasse o pergaminho. — Você riu… — Franziu o cenho. — Eles quase tiraram metade da sua roupa por causa da tradição, e você riu. — Tomou outro gole para acalmar o incômodo que jazia por baixo da disciplina aprendida, e pousou o cálice na mesa com mais força que o necessário. — Não foi apropriado. Uma senhora não deveria achar graça em ser despida pelas mãos de estranhos durante sua própria noite de núpcias.
baixou o olhar para o vinho claro. Agora ela conseguia entender o que vira naquele olhar. E o tom de voz com que falara aquelas palavras? Firme, quase decepcionado. Era como se ela tivesse falhado em algum teste tácito. Ela respirou devagar antes de tomar um pequeno e calculado gole. Quando voltou a olhar para ele, não restava mais nenhum traço de zombaria em seu semblante.
— Você acha que gostei disso? Que tudo o que eu desejava em minha noite de núpcias era ser tocada e despida por uma multidão de homens que não eram o meu marido? — esperou por um instante, para garantir que ambos pudessem assimilar a informação. — Eu não gostei. Jamais gostaria de uma coisa dessas. Isso me envergonhou, essa é a verdade. Mas é como mencionou: era uma questão de tradição. — Suspirou devagar. — Não havia nada que eu pudesse ter feito para impedir sem transformar a nossa noite de núpcias em um espetáculo ainda maior. Então eu ri.
já tinha feito sua escolha muito antes do acordo de casamento. Um dia se casaria e teria que passar por aquilo, então encontrara o jeito menos pior de enfrentar a situação. Não era como se estivesse incentivando todos os toques — a tradição agia por si só, e os homens nunca perdiam uma oportunidade de colocar as mãos no corpo de uma mulher.
— Prefiro me deleitar com o menor indício de diversão em uma situação embaraçosa do que permitir que todos confundam meu desconforto com fraqueza. — Ela o observou por um silencioso momento. Seu polegar traçava círculos na haste prateada da taça. — Suspeito que ambos valorizamos a dignidade, meu senhor. Apenas a defendemos de maneiras diferentes.
Ormund manteve o olhar sobre ela quando enfim completou o raciocínio. Mais uma coisa rara que Redwyne arrancava dele essa noite. A maior parte das pessoas só recebia sua total atenção se estivesse relatando assuntos urgentes de governo. De algum modo, porém, despertava isso. Não era uma qualquer buscando favores com bajulação, nem uma noiva nervosa fingindo submissão. Ela falava com franqueza, o que exigia respeito de um homem que valorizava honestidade — mesmo agora, que isso conflitava com a tradição.
— Você está certa — admitiu pela segunda vez naquela noite.
Não iria oferecer justificativa para a existência daquela e de outras tradições, nem uma defesa para que permanecessem inalteradas. Apenas precisou reconhecer que, de fato, a escolha dela fora pragmática. E o fato de evitar que enxerguem fraqueza nela era um bom sinal. Mesmo sendo sua esposa em um casamento político, não a verem como fraca sempre poderia ser bom para ele.
Ormund estendeu a mão, bem devagarinho, e passou dois dedos pela linha exposta onde o magnífico vestido escorregara pelo ombro dela — a pele ainda morna devido aos festejos constrangedores de antes. Colocou o tecido de volta no lugar em um gesto gentil, cobrindo-a adequadamente e sem pressa; um reflexo de tudo o que lhe contara.
não pôde deixar de acompanhar cada respiração daquele gesto discreto e deliberado como tudo em Ormund Hightower. O calor dos dedos dele permaneceu em seu ombro muito tempo depois que o tecido já se assentara no devido lugar. Ergueu os olhos para ele e se pegou sorrindo… um sorriso sincero, quase surpreso.
— Obrigada. — Roçou a ponta dos dedos na manga que ele acabara de ajustar. — Não precisamos nos preocupar com isso agora, sabe? Você é meu marido. — A palavra soou mais natural do que jamais pensou que soaria. — A propósito… ouvi algumas coisas sobre você, Lorde Ormund. Imagino que isso… — Fez um gesto elegante entre os dois. — …seja simplesmente mais um assunto necessário para você administrar.
Com a borda da taça repousando de leve contra o lábio inferior, observou-o sob o silêncio que pairou. Então ela sorriu, quase provocadora, embora jamais de forma indelicada.
— Não me importo de ser uma de suas responsabilidades. — Permitiu que o sorriso se suavizasse apenas o suficiente para amenizar o tom do comentário. — Só preferiria me tornar alguém que você escolha conhecer, em vez de ser apenas a mulher que se espera que administre.
era observadora demais para simplesmente não notar a sutil mudança na expressão de Ormund Hightower. Os cantos de sua boca relaxaram só um pouquinho, em algo parecido com contemplação. Era quase como se ela tivesse enfim lhe apresentado um problema que ele não havia previsto que precisaria resolver — o que despertou algo nele.
Ormund aproximou-se de novo, ergueu sua mão e deslizou as costas de dois dedos ao longo da maçã do rosto dela. Um contato tão delicado quanto o roçar de uma pena de cisne, experimental. Era um homem acostumado a lidar com dever e disciplina, não com esposas que o desafiavam sutilmente e eram tão francas quanto ele.
Pela primeira vez naquela noite, o peito de apertou. O toque em seu rosto fora tão leve e gentil que poderia ter sido imaginário. No entanto, perdurara mais tempo do que o calor das pontas dos dedos dele jamais poderia.
— Eu não conheço você — disse ele, calmo. Gostava de expor os fatos de forma direta antes que qualquer coisa pudesse obscurecê-los.
Levou a mão aos cabelos de , onde algumas flores de madressilva haviam se soltado do arranjo com a confusão da cerimônia nupcial. Desprendeu a pequena coroa de suas madeixas com cuidado, pois havia notado que aquilo significava muito mais do que um simples adorno para ela. Pousou o objeto sobre a mesa ao lado de seu cálice — a última lembrança da donzela que fora naquela manhã. O perfume suave das madressilvas o agradou, lembrava-lhe um jardim ao entardecer… e aquele era o cheiro dela agora.
sustentou o olhar dele quando voltou a fitá-la.
— Eu também não conheço você — devolveu, na mesma honestidade que ele tinha lhe oferecido. — No entanto, aqui estamos… compartilhando os mesmo aposentos, o melhor vinho que minha família já produziu, a verdade nua e crua, e a companhia um do outro.
Seu olhar desceu, por um breve instante, para o seu peito nu. Depois do que pareceu uma eternidade admirando-o, olhou para si mesma. As mangas do vestido estavam no lugar graças a gentileza dele, porém os laços — frouxos demais para serem apropriados — se recusavam a esconder as delicadas camadas por baixo. Um risinho lhe escapou.
— Suponho que também não estejamos propriamente vestidos para conversas sérias como essa. — Fitou seus belos olhos. — Ah, e você já sabe uma coisa sobre mim, não? — Algo brincalhão se acendeu em seu olhar. — Sabe que possuo, no mínimo, uma inteligência razoável, afinal, compreendi do que esse casamento se tratava desde o início. Nunca entrei no Septo Estrelado carregando a fantasia de uma donzela, ainda que eu seja uma.
Ormund soltou um suspiro que era algo perto de diversão. A maneira como o provocara sem verdadeiramente zombar… Aquilo soava diferente de todas as tentativas de humor ao redor dele. Era suportável.
Ele abarcou o rosto dela com a mão, e então selou seus lábios em um beijo mais lento do que antes, comedido, quase exploratório. Queria descobrir como ela reagia ao ser tocada com gentileza em vez de posse e domínio como fizera antes. Seu outro braço envolveu-lhe a cintura, sem a puxar, apenas dando espaço para que ela reagisse da maneira que quisesse. Sem contar que essa contenção era também um jeito de mostrar que levava a sério o que acabara de declarar sobre querer que ele escolhesse conhecê-la para além das exigências do dever.
— Como é possível que seja inteligente e bonita? — deixou escapar, um pouco frustrado e um tanto fascinado.
soltou uma risada baixa. Lá estava… A primeira frase que Lorde Ormund Hightower havia proferido em toda a noite que de fato parecia ter ultrapassado seus pensamentos cautelosos. E ela se encantou com o acontecido mais do que deveria.
— Talvez os deuses tenham seus favoritos — brincou ela. — E ainda abençoaram o casamento de duas dessas pessoas, o que pode ser um perigo para muita gente.
Sacudiu a cabeça, ainda rindo. Seus dedos, enrolados na haste da taça, permaneceram firmes enquanto a mão livre repousava sobre o braço que envolvia sua cintura.
— Mas me diga você, meu senhor: como consegue ser tão inteligente e tão bonito ao mesmo tempo? Ou acredita que essa combinação seja rara somente para mulheres? — Ergueu a sobrancelha. — Não, tenho certeza que já quis matar os homens burros que vêm lhe pedir favores e mal sabem barganhar… e muitos deles são bonitos.
As provocações de não traziam crueldade. Apenas eram a linguagem mais fácil que conhecia para se usar sempre que a sinceridade ameaçava se tornar avassaladora demais. A sorte dela era que Ormund se mantinha quieto na maior parte do tempo.
— Então… realmente pretende me conhecer, meu querido marido? — Inclinou a cabeça apenas um pouquinho. — Porque acho que também gostaria de conhecê-lo.
A boca de Ormund se curvou de forma suave no que mais assemelhava a um sorriso que já tinha visto nele desde… sempre? Era muito pequeno, mas valia tanto quanto qualquer outro naquele momento. Ele pegou o cálice da mão dela e o depositou sobre a mesa ao lado deles.
— Sim — respondeu, voltando-se para ela.
E então, inclinou-se e a beijou — dessa vez com um pouco menos de contenção. E se deixou levar pelo novo ritmo dos lábios dele. Ormund deslizou as mãos para cima, uma envolveu-lhe os cabelos, inclinando a cabeça na medida certa para aproveitar mais o beijo, enquanto a outra pressionava suas costas, puxando-a para mais perto.
Quando enfim se afastou para respirar propriamente, sua respiração estava muito menos controlada do que o habitual.
— Pretendo saber com quem compartilho o meu nome — acrescentou, antes de reivindicar os lábios dela mais uma vez por ter percebido que falara como um homem sedento por conversa.
sorriu em meio ao beijo. Então subiu a mão devagarinho até que as pontas dos dedos repousassem na nuca dele. Agora estava muito mais à vontade do que cautelosa. A outra mão, agora sem a taça, posicionou-se no peito dele. Seu olhar demorou-se naquele rosto que não parecia mais o de um estranho para ela. A satisfação a preencheu por inteira ao perceber o calor que começara a substituir a distância entre eles.
— Compartilha o seu nome e a sua cama, não vamos nos esquecer. — Um riso suave escapou-lhe. — Não se preocupe, meu senhor. Tenho certeza que é inteligente o suficiente para não ser esfaqueado pela própria esposa enquanto dorme. — Piscou para ele. — Acho que isso é uma sorte para nós dois, mas… posso estar errada, é claro.
Ormund soltou um som tão indigno e inesperadamente humano que quase chocou . Apenas quase, afinal, já gostava mais da versão dele que conhecera nesses aposentos do que aquela que estivera diante de si no Septo Estrelado; apesar de que, para sua própria surpresa, gostava da versão severa também.
— Esfaqueado enquanto durmo? — repetiu, sem conseguir esconder o divertimento.
Suas mãos continuavam a exploração lenta. Uma ainda emaranhada em seus cabelos com gentileza, enquanto a outra fazia um carinho nas costas dela sem pressa nenhuma, apenas mapeando o que agora lhe pertencia — pessoal e legalmente.
— E assim, você vai me conhecendo mais. — Subiu a mão do peito dele até o queixo, observando cada detalhe, como se também estivesse descobrindo o contorno de alguém completamente novo. — E por que parece que gostou tanto da ideia de eu te esfaquear enquanto dorme?
Ormund segurou o pulso dela com uma delicadeza que quase não combinava com ele, mesmo naquele momento; mas não afastou a mão.
— Se fosse me esfaquear, já teria feito isso — reconheceu, com a voz mais baixa do que antes. Era uma conclusão lógica, fria, pragmática. Bem do jeitinho que ele analisaria qualquer ameaça potencial. Seu polegar deslizou para a parte interna do pulso dela, quase como se a testasse. Então acrescentou com um humor seco incomum: — Você não é esse tipo de mulher.
ergueu a sobrancelha. Não havia acusação nas palavras de Lorde Ormund, apenas uma boa observação de alguém que estudava incansavelmente as pessoas em busca de vantagens políticas.
— Tem razão. Eu não tiraria proveito de uma presa indefesa. Faria isso quando estivesse acordado, mesmo que custasse a minha vida. — Sustentou o olhar dele, sem nunca vacilar. Não havia nenhum resquício de zombaria nem provocação em seu tom de voz. Era mais fácil manter a compostura desse jeito. — E agora, marido, essa é mais uma coisa que sabe sobre mim.
Ormund a estudou por um longo momento, tentando decifrar se ela estava brincando. Decidiu que não, pois viu somente verdade naqueles belos olhos. Algo em seu peito se apertou com a constatação. Uma certa curiosidade misturada a um tipo estranho de… respeito.
A maioria das pessoas mentia para agradá-lo o tempo todo — era o que ele vivia ensinando Daeron a reconhecer. Outras, o bajulavam cegamente na esperança de uma recompensa. Mas Lady … Pelos Sete, Lady falava tranquilamente, e com total seriedade, sobre um suposto assassinato. E esperava que ele aceitasse isso? Ela de fato não se importava se ele reprovaria isso — o que era estranhamente revigorante.
Ormund soltou o pulso dela devagar e segurou gentilmente ambos os lados de seu rosto. Então a beijou de novo. Um beijo ainda mais profundo e lento do que todos os que vieram antes. Havia um peso muito maior por trás do ato…. Uma intenção. Ele queria conhecê-la. De verdade. Até mesmo essas partes perigosas. No fim das contas, eram essas as que ele mais gostava — desde que estivessem sob controle.
— Conte-me algo sobre você, Redwyne — exigiu.
fitou-o em silêncio. Gostara do fato de ele ter perguntado, sem pedir por honestidade ou qualquer coisa assim. Simplesmente demonstrara interesse.
— Deixe-me pensar… — Um sorriso contemplativo preencheu-lhe os lábios. — Eu gostei muito quando me escolheu para ser sua segunda esposa. Compreendi desde o início que sua escolha não tinha a ver nem comigo nem com minha beleza. Nunca teve. E, no entanto… — Um riso fraco escapou-lhe. — Não pude deixar de admirar a ideia de me tornar a Senhora Hightower. Há poder neste nome. — Seus dedos encontraram as mãos dele, que ainda se mantinham em seu rosto. — Fui seduzida por esse poder.
jamais quebrou o contato visual. Não iria se esconder atrás do constrangimento. Não com seu marido. Devagar, guiou as mãos dele para baixo até que repousassem nos laços afrouxados da frente do vestido — os mesmos que foram violados na cerimônia nupcial.
— E não me importaria se o meu marido me despisse. Caso deseje isso, é claro. — Um calor se instalou no movimento gentil e desarmado de seus lábios. — Se não quiser, não me importo de eu mesma fazer. A diferença é que desta vez, a escolha é minha.
Ormund permaneceu imóvel por um bom tempo. O poder silencioso na voz de Lady , o jeito como seu olhar não vacilara mesmo quando deixara as mãos dele pairando sobre aquelas amarras bagunçadas por homens que nem deveriam ter o direito de tocá-la. Uma escolha feita de livre e espontânea vontade, nada de submissão unicamente porque deveriam cumprir o dever de consumar o casamento.
Seus dedos envolveram com cuidado o tecido solto do vestido. Ele desatou cada laço com uma precisão surpreendente para alguém que não fazia isso com frequência. Devagar, sem puxões impacientes como os homens costumavam fazer quando estavam ansiosos pelo que viria depois. Apenas um desatar metódico, controlado — um nó de cada vez —, dando ao momento toda a atenção que merecia. Tudo isso sem desviar o olhar do rosto dela.
— Conte-me mais alguma coisa, minha senhora — pediu enquanto continuava seu trabalho calmo.
sentia cada movimento deliberado à medida que mais um laço frouxo cedia sob os dedos cuidadosos de seu marido. A respiração dela se acalmou. Aquilo era bem diferente do modo que as criadas a despiam, e era extremamente diferente do que os senhores tinham feito com ela na cerimônia nupcial.
De algum modo estranho, o que a atraía para Lorde Ormund já não tinha tanto a ver com os ombros largos sob as pontas de seus dedos, ou o rosto bonito que ela admirara de longe, e nem o fato de ele ser o Senhor Hightower de Torre Alta, Farol do Sul, Voz de Vilavelha, Defensor da Cidadela. Isso tudo ainda a atraía, é claro. Contudo, no momento, o que a puxava para ele sem nenhum esforço era isso. A paciência, a conversa. O homem que havia escolhido ouvi-la antes de tocá-la.
— O beijo… o primeiro. — Pousou a mão no antebraço dele, e um pequeno sorriso tocou seus lábios por um efêmero e encantador instante. — Sei que pretendia me intimidar, me calar. E, sinceramente, não me importo que tenha tentado, tanto que retribuí, não foi? — Deu de ombros. — Mas gostaria que soubesse de uma coisa sobre mim. — Seu polegar roçou a pele dele, devagar e distraído. — Não sou um castelo a ser tomado, meu senhor. Você não precisa me conquistar. Já sou sua esposa. — O sorriso tênue reapareceu como o sol após dias chuvosos. — Só precisa continuar escolhendo me conhecer. E acredito que continuarei escolhendo permitir que me conheça.
Os dedos de Ormund congelaram no último laço, ainda meio amarrado. Respirou devagar, assimilando tudo o que ela havia dito, e algo dentro dele mudou. Redwyne estava certa sobre tudo. Ele havia a beijado daquele jeito mais cedo — um marido reivindicando sua esposa, sim, mas não apenas isso. Fora como um senhor afirmando domínio sobre alguém inferior a ele. Um reflexo nascido do poder e da expectativa… e fizera isso para calá-la enquanto ela insistia para que ele falasse. Sua esposa havia o lido perfeitamente bem desde o primeiro momento em que ficaram sozinhos.
Ainda assim, ali estava ela, contando-lhe de modo gentil, sem nenhuma acusação em seu tom, que aquele tipo de investida não seria necessário com ela. Que ele não precisava forçar nada quando se tratava de da Casa Redwyne, a sua nova Senhora Hightower.
— Sei bem que não é nenhum castelo. — Algo se apertou sob suas costelas e ele baixou o olhar para desamarrar o último laço de uma vez por todas, o único que aqueles malditos bastardos não haviam tocado na cerimônia. — Um castelo é muito mais simples.
não conseguiu esconder um sorrisinho discreto. Ali estava aquilo de novo. Aquela honestidade cautelosa que tinha começado a reconhecer em seu novo marido. E gostava disso. Muito.
Capítulo 2
Algo inesperadamente doce
À medida que o último laço enfim se soltava sob seus dedos pacientes, o peso do vestido se deslocou. O rico tecido deslizou devagarinho dos ombros dela e desceu pelos braços até se acumular ao redor dos pés. Agora a única coisa que ainda vestia era uma fina peça de linho que a cerimônia nupcial já tinha revelado em parte.
sequer pensou em se cobrir. Não precisava. Não mais. Não com Ormund Hightower, seu marido.
— Foi respeito que ouvi na sua voz…? — Arqueou a sobrancelha. — Ou apenas decepção?
Seus olhos jamais se desviaram dos dele, brilhando com uma malícia inconfundível. Ela já sabia a resposta; por isso ousava brincar com a situação. A ponta de seus dedos vagaram pelo peito nu de Lorde Ormund como se traçassem um caminho muito bem definido em um precioso mapa. Mas na verdade estava apenas deixando o toque fluir, conhecendo-o assim como ele vinha a conhecendo ao longo da noite.
— Suspeito que seja muito mais difícil de me entender do que você esperava, não?
Ormund exalou o ar em algo parecido com um suspiro que nem ele sabia se era de diversão ou frustração. Provavelmente as duas coisas. Redwyne era, com certeza, mais difícil de entender do que esperava. A maioria das mulheres que conhecera eram transparentes, fossem as ambiciosas com desejos óbvios de poder ou afeto, ou as noivas nervosas, desesperadas para agradar seus senhores. Mas ? Ela tinha muito mais camadas do que seus vestidos. Uma mente que funcionava em enigmas, envolta em charme e sagacidade afiada que, assim como uma lâmina de aço valiriano, jamais perdia o fio.
E agora estava ali, seminua diante dele, mas não em simples submissão. Não, isso nunca. Permanecia ali de cabeça erguida, esperando por ele como um desafio disfarçado de convite… ou seria um convite disfarçado de desafio? Ele não saberia dizer. E de algum modo, isso o fazia gostar ainda mais de sua nova esposa.
As mãos de Ormund pairaram sobre o linho fino da roupa de baixo — a última barreira que ainda a escondia —, como se quisesse tirar o máximo daquele precioso instante. Finalmente agarrou o tecido e o ergueu sem pressa nenhuma até que o tirasse pelos ombros dela. Seus olhos desceram até a pele recém revelada, observando a luz quente das velas dançando sobre ela.
Por um instante, prendeu a respiração. Não estava envergonhada e nem queria se esconder dele. Isso, jamais. Ela queria que ele a visse por inteiro. Desejava isso. Ainda assim, era a primeira vez que permitia que um homem a visse daquela maneira. De alguma forma, porém, estava confortável. A imagem que permanecia em sua mente era a maneira como ele a olhara quando não havia ausência de roupas, antes de fazê-las desaparecer. Com paciência e curiosidade. Como se ela ainda fosse a coisa mais interessante nos aposentos. Como se fosse preciosa. Ninguém nunca a olhara assim, nem mesmo os pais dela com seus afetos distorcidos.
E, como se não estivesse satisfeito em surpreendê-la, o olhar de Ormund não havia mudado quando se livrara da última peça de tecido que a cobria. Ela tinha sorte.
Então, como Ormund Hightower não fazia as coisas pela metade — a não ser que o dever assim ordenasse —, ele a beijou outra vez. retribuiu o beijo, sem hesitação e sem pressa. Sua mão deslizou pela lateral do pescoço dele enquanto a outra repousava sobre o ombro, sentindo o calor na ponta dos dedos.
Era estranho como Ormund começara a parecer tão familiar em apenas uma única noite… um casamento no Septo Estrelado sem jamais terem trocado uma palavra; um banquete magnífico não fazendo nada mais do que seus deveres — e tendo sua honra como Lady Hightower defendida por ele quando aquele homem a insultara; uma cerimônia nupcial em que ela só não fora despida por completo por causa de seus olhares para aqueles homens… E eles, ali, em seus aposentos. Ainda assim, tão incrivelmente familiar quanto a doçura discreta da madressilva trazida pela brisa — inesperada, mas, uma vez descoberta, impossível de confundir. Ela amava.
— Acredito que as coisas não estejam mais inteiramente justas. — Abriu um sorriso discreto e deixou seu olhar percorrer o corpo dele com deliberada estima. Quando voltou a fitá-lo, viu que ele arqueara as sobrancelhas. — Você me privou de todas as vantagens… — Roçou as pontas dos dedos no tecido das calças dele, os olhos brilhando de diversão. — E, no entanto, meu senhor, ainda está consideravelmente mais vestido do que eu.
Ormund passou um braço firme pela cintura dela e, com um movimento delicado, ergueu-a do chão. Mas como o estilo nupcial era impessoal demais para a ocasião — ainda que fosse de fato sua noite de núpcias —, a carregou com o corpo colado ao dele por alguns passos e a deitou na beirada da cama com um cuidado e uma gentileza que não sabia que ele possuía. A enorme cama de dossel parecia ter saído dos sonhos de donzela que nunca teve: carvalho entalhado ricamente, pesadas cortinas de veludo no cinza-fumaça dos Hightower amarradas para trás, lençóis do melhor linho fiado com algodão.
Ela o observou enquanto ele se livrava de suas próprias roupas. Primeiro as botas, chutando-as para perto de uma cadeira sem muita cerimônia. Em seguida, afrouxou o cinto apertado e retirou camada por camada das calças e roupas de baixo. Nenhuma pressa e nenhum drama. Tudo nele era a perfeita imagem do senhor que sempre acreditou que ele era. Ali, deitada de lado, com os olhos sobre ele, descobriu que gostava de observá-lo.
Ormund percebeu o olhar. Claro que percebeu. Constante, atencioso, admirando cada contração de músculos sob a luz baixa. Algo quente se contorceu no fundo de seu estômago. Apesar de haver luxúria — o que era inegável —, predominava-se uma sensação mais parecida com orgulho. Estava sendo admirado não apenas por seus títulos e nome, mas também pelo corpo e por tudo o que era. E nem sequer desviou o olhar quando ele a pegou encarando.
Ormund se aproximou e — diferente da maioria dos homens, que teria subido na cama de imediato — parou bem na beirada e simplesmente contemplou sua esposa deitada ali, com sua pele macia e curvas banhadas pela luz das velas como se fosse algo sagrado. O silêncio se prolongou, pesado e carregado com muitas coisas ainda não nomeadas. umedeceu os lábios, sem desviar o olhar de cada partezinha dele. Cada parte do que agora a pertencia — tanto legal quanto pessoalmente. E vê-lo ali, apenas parado, sem nem tentar intimidá-la… Aquilo a tocou como qualquer intimidação jamais poderia ter feito.
Então ela estendeu a mão para ele.
— Vem cá — convidou-o.
Ormund aceitou a mão dela com um aperto firme e permitiu que o puxasse para a cama.
Em vez de passar por cima de como um conquistador reivindicando território, deitou-se ao lado dela apoiando-se em um cotovelo. Sua mão livre deslizou lentamente da clavícula ao esterno, traçando curvas como se estivesse estudando um mapa muito importante de uma guerra por vir. Entretanto a exploração aqui era uma descoberta, não uma batalha; apenas o toque percorrendo a pele em uma intimidade silenciosa, agora que todas as barreiras haviam desaparecido.
E quando, por fim, inclinou-se para beijá-la de novo, não foi um beijo exigente nem afoito — como era de se esperar em noites como essa. Seus lábios se encontraram de maneira suave, testando o calor antes de se aprofundarem aos poucos. Apenas algumas horas atrás, cada toque, palavra e olhar entre eles era uma pergunta incerta. Atualmente, com a certeza tranquila que se instalara entre eles ao longo da noite, cada suspiro parecia uma nova resposta.
deslizou os dedos pelos cabelos dele até repousá-los em sua nuca. Então, quando o beijo terminou, ela permaneceu perto, suas testas quase encostadas, a respiração dele soprando na sua — quente, constante. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Acho que passamos grande parte da nossa noite de núpcias fazendo algo que a maioria das pessoas consideraria terrivelmente impraticável… conversando. — Um suspiro silencioso parecido com uma risadinha escapou dela. — Porém, de alguma forma, acredito que gosto muito mais do meu marido agora do que quando entrei no Septo Estrelado e você estava olhando para algum ponto distante além do meu ombro. — Havia um carinho inconfundível nos olhos de . — Gosto de como está me olhando agora.
Ele a observou, os olhos percorrendo cada centímetro de seu rosto. Em vez de corrigi-la, repreendê-la ou desviar o assunto com dever, deixou que as palavras o alcançassem, assim como o apreço singular nelas contido… porque não estava sendo apenas educada nem tentando agradar o seu novo marido, ela falava com genuína sinceridade.
E Ormund respondeu do melhor jeito que sabia, pressionando a boca na dela com a maior calma de todo o mundo conhecido em um beijo terno, talvez até reverente. Sua mão escorregou pelas costas dela, puxando-a gentilmente para que não restasse mais espaço entre eles na cama. Apenas pele contra pele à luz de velas, o cheiro do incenso e o perfume remanescente das flores que estiveram nos cabelos dela. Sem títulos, tecidos ou rituais — ainda que estivessem fazendo parte de um com a noite de núpcias.
O suspiro trêmulo de em meio ao beijo fora uma surpresa até mesmo para ela. Pelos Sete… não esperava que a simples proximidade de Lorde Ormund fosse capaz de fazê-la se sentir assim. Um arrepio leve e gostoso percorreu seu corpo apenas por causa da realidade — até então desconhecida — da presença dele. De calor encontrando calor. Do peito largo — admirado sob camadas de um rico veludo desde o primeiro instante que o vira conversando com seu pai sobre o possível casamento —, que agora subia e descia junto do seu.
Deslizou o braço ao redor dele, como que por instinto, e acomodou a mão entre as omoplatas, segurando-o para que não se afastasse. Seus olhos se encontraram quando o beijo se desvanecia como um belo sonho de donzela. Um sorriso gentil dançou em seus lábios, mais discreto que qualquer outro que esboçara naquela noite, feito unicamente para ele e aquele momento. E percebeu, enfim, que já sabia onde preferia tê-lo: o mais perto possível.
Ormund percebeu a leve pressão em suas costas, e a deixou segurá-lo bem ali. Poderia ter se afastado, se quisesse — além de ser seu marido, a cama costumava ser apenas sua até aquela noite, o espaço dele. Poderia mudar de posição, assumir o controle… ainda assim, não se afastou de Redwyne. Os narizes e lábios pairavam a um fio de distância e, pelo que talvez fosse a primeira vez na vida, Ormund se deixou levar pelo impulso, e não por um movimento calculado… Ele a beijou. De novo. Uma, duas, três vezes. Toques suaves dos lábios, como um homem disciplinado aprendendo as nuances da ternura quando não era apenas uma formalidade cerimonial ou encenação para a corte.
A mão deslizava de maneira delicada pela extensão de sua coluna. gostou disso. Deuses, e como gostou! Ela nunca imaginara que iria. Sabia como funcionavam os casamentos e a consumação… sabia sobre a intimidade, e principalmente sobre a falta dela. Ali, porém, depois daquela longa noite com o senhor seu marido? só queria mais.
— Ormund… — sussurrou o nome dele sem nenhum título.
Ela não sabia o que mais dizer. A única coisa certa parecia aquilo. Ele. O nome dele. E era, pois a respiração de Ormund falhou por um breve instante. Depois de uma noite inteira de “Senhor Hightower”, “Lorde Ormund”, “meu senhor”, ela enfim tinha lhe presenteado com aquilo. Era íntimo de uma forma que os títulos jamais foram, decerto até afetuoso.
Colou os lábios aos dela e a beijou mais profundamente. Era menos experimental dessa vez e muito mais seguro, afinal, estava claro que ela de fato também queria aquilo. Tanto que retribuiu o beijo como se o ato tivesse se tornado a coisa mais natural do mundo. Ela já não se perguntava se deveria ou não, como faria ou se seria bom; simplesmente respondia.
Sua grande mão subiu para segurar a nuca dela enquanto a outra descia devagar… por cima do ombro, ao longo do braço, e para baixo até que as pontas dos dedos roçassem na curva da cintura. Carícias sem pressa, sem agarrar ou reivindicar com impaciência como quase todos os homens de Westeros já teriam feito a essa altura. Apenas uma exploração pelo toque como se estivesse estudando cada parte de Redwyne, a mulher que escolhera como sua esposa por motivos políticos, mas que tivera a sorte de ser muito mais que isso.
, que antes se apoiava nele com uma curiosidade cautelosa, agora segurava-o com firmeza, os dedos apertados contra a pele como se tivesse se esquecido de como soltá-lo. Ou talvez apenas já não quisesse deixá-lo ir. O calor de sua pele sob a palma das mãos dela, o ritmo constante de sua respiração… tudo isso se parecia com um lar para , e ela se viu pressionando seu corpo no dele.
Um suspiro baixo escapou por entre seus lábios e um arrepio percorreu-lhe o corpo. Pelos malditos sete infernos… Ela imaginara essa noite inúmeras vezes ao longo dos anos — não com Ormund, nunca com nenhum homem em específico. Porém havia imaginado dever, constrangimento, silêncio perturbador. Nunca tinha cogitado a hipótese de receber ternura, que dirá que iria desfrutar tanto de sua proximidade e, mais ainda, que desejaria, de fato, isso.
Seus olhos encontraram os dele por um instante fugaz, e ela abriu um sorriso terno. Então o abraçou como se ele pertencesse em seus braços; como se ela tivesse se esquecido de como era não tê-lo ali com ela.
E Ormund compreendeu. Notou como o tratava como se fosse algo muito além de seu senhor e marido por dever… como se fosse algo muito mais real do que qualquer palavra daquelas poderia descrever. E pelos Sete, aquilo mexia com ele de um jeito que ainda não conseguia expressar em palavras. Afinal de contas, Ormund Hightower não demonstrava ternura com facilidade; ele governava com disciplina, falava através de ordens, liderava por meio da autoridade.
Mas aqui e agora? Com Redwyne em seus braços, acariciando suas costas e sorrindo para ele daquele jeitinho genuíno e afável? Definitivamente algo real. Beijou-a de novo e de novo e de novo. Cada beijo mais lento que o anterior, custando a se afastar e, quando finalmente conseguia fazê-lo, mergulhava de volta para outro.
Suas mãos voltaram a vagar pelo corpo dela, tocando cada curva como se precisasse as conhecer novamente. Dos ombros à clavícula, do pescoço inclinado até à coluna, enquanto tudo o que podia fazer era suspirar e desejar se afundar em uma abundância daquilo que jamais pensou que um dia poderia ter.
E Ormund sabia que aquele não era o som de uma simples noiva obediente cumprindo os ritos matrimoniais. Eram suspiros felizes, de prazer e alegria. E para um homem que passou a vida medindo seu valor em poder e legado, aquela reação dela tinha um significado maior do que qualquer aliança política poderia. Então beijou-a da boca ao queixo, e ao longo da garganta. Uma mão afagava-lhe os cabelos enquanto a outra acariciava-lhe o corpo, apenas venerando o calor sob as pontas dos dedos como se fosse algo sagrado. Porque era.
inclinou a cabeça, dando melhor acesso a ele. Ninguém nunca a beijara ali. Não daquela maneira. Não com um cuidado tão deliberado, como se cada pequeno toque importasse mais do que qualquer outra coisa no mundo. Ela segurou os cabelos dele entre os dedos, como que para se firmar.
— Deuses sejam bons… — Ela quase riu, deliciada. — O que você está fazendo comigo?
Ormund fez uma pausa para admirá-la em silêncio. Nem ele entendia por completo o que estava fazendo; somente que era o certo. E então continuou beijando-a, dessa vez pescoço acima, até retomar à boca dela com um beijo que tinha um gosto novo… Gosto de algo que nenhum dos dois planejara para essa noite e encontraram mesmo assim: essa terna intimidade entre marido e mulher que já não tinha nada a ver com dever, nem política.
Quando seus lábios se separaram, eles compartilharam um olhar intenso, suas respirações se mesclando como se ambos ocupassem agora o mesmo lugar no mundo. Ormund moveu-se ligeiramente, sem interromper o contato, e posicionou-se sobre ela na cama pela primeira vez naquela noite. Ele apoiou uma das mãos ao lado da cabeça dela e a olhou no fundo dos olhos.
Não precisava de nenhuma palavra para aquilo, compreendia a pergunta implícita. Um pedido de permissão que não vinha do Senhor da Casa Hightower, mas sim de Ormund, o homem que a ouvira, que tentara a intimidar, que a desafiara, que rira com ela e a conhecera, que tirara as flores do cabelo dela com tamanha gentileza que a conquistara.
umedeceu os lábios, sem desviar o olhar. Em algum momento desde que entrara no Septo Estrelado hoje, a expectativa tinha substituído a obrigação. Ela soubera, a vida toda, que a noite de núpcias terminaria assim. E esperava o dever, seco e frio, e a cerimônia. Em vez disso, porém, encontrara desejo e escolha. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios, e ela ergueu a mão para acariciar o rosto dele.
— Eu sou sua — declarou em um sussurro carinhoso. — E você é meu.
Aqueles haviam sido seus votos perante os deuses algumas horas antes; promessas feitas porque a tradição as exigia. Ali, no entanto, sob a luz das velas e os toques compartilhados, as palavras carregavam um significado que nenhuma cerimônia ou dever poderia lhes conferir. Eram a resposta que Ormund precisava, e mais do que isso, uma confissão sussurrada apenas para ele que o atingia com mais força do que um ferimento de batalha.
Então, em vez de reivindicá-la com uma urgência rude, ele a beijou outra vez, derramando sobre ela tudo o que não havia sido dito. O respeito que tinha por sua mente, a admiração geral retumbando em seu peito, até mesmo aquela ternura desconhecida florescendo onde normalmente residia o dever. Sua mão escorregou pela lateral do corpo dela antes de se acomodar no quadril, contemplando-a por inteiro, como se memorizasse a forma daquilo que agora pertencia a ambos igualmente.
remexeu-se embaixo dele; um movimento automático que nem ela sabia explicar. Era impossível parar de olhar para ele, parar de esperar… de desejar. E ver tudo aquilo no olhar dela desestabilizou Ormund. Ainda assim, ele não quebrou o contato visual — o que era raro para ele, já que dificilmente ligava para essas coisas quando estava concentrado na mecânica da coisa e em fazer herdeiros.
Ele abaixou o corpo até que pairasse logo acima do dela. Então pressionou os lábios ao longo da mandíbula, pescoço, clavícula. Cada toque leve como uma pena, só para provocá-la, fazê-la sentir.
— Ormund… — Apertou os dedos contra a pele dele. — Você gosta desse poder que tem sobre mim, não é?
As palavras certeiras fizeram-o parar. Ele não havia pensado naquilo daquele jeito ainda. Mas sim, é claro que gostava. No entanto, não era domínio por si só, com controle como um fim. Ela confiava nele o bastante para se entregar como estava fazendo agora, e desejava o seu toque mesmo sabendo muito bem quanta autoridade existia em suas mãos. Ormund gostava de ter o poder de fazê-la reagir daquela forma, com seus suspiros alegres e prazerosos, os sussurros com o nome dele, o modo como apertava as mãos ao redor dele, pedindo por mais.
Ele beijou o ombro dela com ternura e voltou a encará-la.
— Está tudo bem — murmurou ela. — Eu também gosto.
— Do meu poder sobre você? — deixou escapar.
Algo se revirou dentro dele. Desejo e um pouco de orgulho, junto de algo mais profundo. não estava se submetendo por dever ou medo. Ela queria isso. Gostava disso. Estava o escolhendo de todas as maneiras possíveis.
— Sim. Do poder que exerce sobre mim com tanta facilidade.
E, pela primeira vez, foram os lábios de que procuraram pelos dele. Ela o queria. Por inteiro.
Ele retribuiu o beijo com uma ferocidade repentina, afinal, estava iniciando, e não apenas seguindo. Era perfeito. Ormund emaranhou a mão nos cabelos dela e deslizou a outra para agarrar seu quadril como se enfim reivindicasse o que lhe pertencia depois de todas aquelas horas de espera. O beijo se aprofundou, desordenado e cada vez menos controlado. A precisão habitual de Ormund cedera lugar a algo mais bruto e voraz. E correspondeu a tudo sem timidez ou hesitação.
Ela afagou-lhe os cabelos e puxou-o mais para perto com a outra mão. Então mordeu o lábio inferior dele em meio ao beijo, arrancando-lhe um gemido que ele jamais teria deixado escapar em qualquer outra ocasião. beijou-o novamente, suas pernas se afastando por instinto, buscando contato em um convite tão claro quanto qualquer palavra. A mão dele agarrou sua coxa, e a outra puxou-lhe o cabelo de leve.
mordeu o seu lábio, devagar dessa vez, mas tão forte quanto antes. Agora que sabia o efeito que causava nele, tinha de aproveitar. Seus olhos fixaram-se nos dele. Ela não ousaria desviar o olhar… não agora. E ele retribuiu-lhe aquele poderoso olhar, enxergando-a verdadeiramente.
Já não estava mais concentrado somente no toque ou no sabor, e nem distraído por calor e desejo. No momento, só existia ela. . Sua esposa. A mulher que mordia seu lábio como se fosse sua dona, e sustentava seu olhar sem vacilar — mesmo agora, quando as coisas se tornavam intensas. Um brilho feroz faiscou em seus olhos, como em um homem que via algo precioso logo antes de tomá-lo para si por completo.
Ormund mudou o peso do corpo e ajustou-os na posição. Então encurtou a última distância entre seus corpos e tomou o que era seu por direito e por escolha de Redwyne. Devagar, mas sem hesitação. Apenas marido reivindicando esposa como deveria ser — entretanto não era mais apenas dever. soltou um suspiro sufocado quando ele se ajustou dentro dela. Deuses sejam bons! Ela apenas fechou os olhos e se permitiu sentir, enquanto a mão dele vagava por seu corpo e suas respirações se misturavam e tudo o mais desaparecia.
Quando pareceu capaz de fazer qualquer coisa além de sentir o momento, abriu os olhos para ver seu marido. Um sorriso tomou seus lábios, quase como se estivesse bêbada — exceto que não havia bebido dourado da Árvore o suficiente para isso. E Ormund enxergava a pura e genuína alegria no rosto dela. E era por causa dele… disso. Então, em vez de se precipitar e acabar logo com aquilo, ele permaneceu ali, imóvel, e a beijou outra vez de modo lento, profundo e insuportavelmente terno.
Ele afastou os fios de cabelos da testa dela e, pela primeira vez desde que se tornou o Senhor Hightower, Ormund não pensou em dever, legado nem herdeiros… apenas saboreou o quão bem Redwyne se encaixava nele.
sorriu contra os seus lábios. O jeito como ele parara simplesmente para existir com ela por mais uma batida do coração encheu o seu peito com um calorzinho tranquilo que não esperava encontrar em sua noite de núpcias. Ela abarcou o rosto dele com ambas as mãos e permaneceu assim, apenas o admirando. O homem que havia permanecido no altar como uma bela e sagrada estátua… O mesmo homem que agora a fitava como se ela fosse a única coisa que valia a pena contemplar.
— Eu gostaria de ouvir sua voz. — Os polegares acariciaram as bochechas dele. — Você tem se comunicado apenas com suas mãos e beijos a noite toda… não que eu esteja reclamando. — moveu os quadris de leve, somente para testar, para saber como era a sensação. — Vai falar com a sua esposa?
Ormund soltou um suspiro profundo, surpreso pelo pedido. Raramente conversava, exceto se tivesse que ensinar algo, debater em reuniões de estratégia, lidar com tramas políticas e manipulações e, é claro, gentilezas vazias necessárias com outros nobres. Nunca para intimidade.
Mas não estava pedindo como uma senhora ou aliada política. Pedia como sua senhora e esposa, alguém que queria estar onde estava… alguém que ele queria que estivesse ali. E era isso que a diferenciava de sua primeira esposa, não? Ambos foram casamentos políticos; esse, no entanto, já não começava vazio como aquele.
Ormund engoliu em seco.
— Você é linda — disse ele, com pura honestidade. Sem palavras floridas e vazias, nada de poesias inventadas que nem sequer combinavam com ele. Apenas a verdade nua e crua exposta entre ambos. — E eu fico feliz que você seja minha.
— Sei que fica. — Seus lábios tremeram em um sorriso. nunca precisou de enfeites; honestidade e um pouquinho de esforço lhe bastavam. — Fico feliz que também seja meu… e que esteja falando comigo porque eu pedi. — Moveu os quadris novamente, bem devagarinho. — Significa muito para mim.
Um suspiro escapou por entre os lábios dele com o movimento lento e intencional. Era como se saboreasse cada pequena mudança entre eles. Então Ormund não se apressou em acompanhar o ritmo nem em assumir o controle. Apenas permitiu que ela testasse o quanto quisesse, ao menos por enquanto, já que ela parecia gostar. Assim ele podia dar toda atenção ao rosto dela, a cada pequena mudança de expressão enquanto ela mesma explorava essa nova proximidade.
E, deuses, era uma bela cena. A maneira como o prazer transparecia nas feições dela sem pudor algum… como ela nem sequer tentava esconder nada dele.
— Você precisa que eu fale mais? — ofereceu antes de se inclinar e beijar-lhe a mandíbula devagar, saboreando sem exigências. Sua mão deslizava sobre ela em um carinho silencioso.
não pôde evitar outro sorriso. Ela continuou com as carícias em seu rosto enquanto contemplava o homem acima dela. O Senhor Hightower, que passara a noite inteira se comunicando através do silêncio, enfim lhe revelava partes de si em palavras. E ainda se preocupava em oferecer mais.
— Tudo o que preciso agora é sentir você… cada vez mais — sussurrou de modo tão caloroso que pareceu um segredo. Então um suspiro escapou de sua boca entreaberta e ela parou de se mover em um pedido velado para que ele guiasse. — Mas quero te ouvir, sim. — Seu sorriso transbordava uma inconfundível ternura. — Acho que sua voz me dá tanto prazer quanto os seus beijos.
Ele a fitou com intensidade, quase desconsertado pelo aperto. Jamais imaginaria que algum dia falariam isso de sua voz, a mesma que usava para dar ordens e discutir política. E a apreciava — podia ver em seus olhos que era verdade. Gostava tanto de ouvi-lo quanto de beijá-lo?
Ormund deslizou o polegar pelos lábios dela antes de descer a mão até a perna, ajustando-a levemente no lugar. Então assumiu o controle com delicadeza. Primeiro levou a boca até a garganta em um beijo quente e, por fim, se moveu. Estocadas lentas e profundas, sem qualquer urgência; um ritmo constante destinado a extrair cada sensação possível.
— Tão perfeita… — Mordiscou-lhe o pescoço. — Bem desse jeitinho… Minha.
— Sua. — trouxe o rosto dele até o seu e pressionou suas bocas. — E você é todo meu.
Então mordeu-lhe o lábio inferior e puxou de leve. Ormund grunhiu baixo. Sim, ele era dela, o senhor seu marido, e mais do que isso. Assim como ela era dele, sua esposa… não apenas a Senhora de Torre Alta por título, mas dele de uma forma que transcendia votos ou política.
Beijou-a mais uma vez, sem ser capaz de manter a boca longe da dela. Prendeu seu lábio inferior entre os dentes, respondendo a mordidinha aguda e reivindicadora que ela gostava de dar. Acelerou o ritmo, então, tornando-o insistente — afinal, era tudo o que podia fazer —, mas nunca com brutalidade. Jamais seria bruto com ela. Sua mão agarrou o quadril com mais força enquanto se movia contra ela. Os lábios se roçavam a cada movimento vigoroso em uma mistura intensa de suspiros ofegantes.
precisou de toda a sua concentração para impedir suas pálpebras de se fecharem. Não queria perder os lindos olhos dele de vista enquanto a olhava assim.
— Ormund… — arquejou. Às vezes era mais do que impossível não se render e fechar completamente os olhos.
Ele a beijou de imediato em resposta ao seu clamor. Percebia todo o esforço que ela fazia para olhá-lo, o modo como lhe dedicava uma atenção crua quando o mais fácil seria apenas se deixar levar.
— Deuses, eu… — Ela jogou a cabeça para trás, apenas por um instante, perdida nas sensações. — Eu preciso te ouvir.
Forçou-se a olhá-lo novamente, para mostrar que falava sério, que havia necessidade ali. E se ela precisava, Ormund não podia negar; não quando estavam assim.
— … — atendeu o pedido, o nome em seus lábios como uma prece sagrada.
O sorriso dela desabrochou como uma rosa branca sob o sol da manhã. E ela sorriu muito. Não pôde evitar. Ele só tinha sussurrado o nome dela. Somente isso. Sem títulos, sem formalidades. Apenas . Era tudo o que precisava. Além do mais, era a primeira vez que a chamava unicamente pelo nome. Pelos Sete, era tão bom.
— Ormund — respondeu, como se isso dissesse tudo.
Cravou os dedos nas costas dele, acompanhando os movimentos, enquanto ele a saboreava com seus beijos quentes. Os aposentos se preencheram com os sons de suas respirações entrecortadas, do atrito de pele contra pele e o rangido suave da cama sob eles.
— Linda — murmurou no ouvido dela, beijando a área logo abaixo. — Minha .
— Meu… Meu Ormund… — Um gemido intenso escapou de seus lábios enquanto uma onda de prazer se quebrava sobre ela, da cabeça aos pés. Benditos sejam os deuses! Ela jamais havia sentido algo do tipo antes. — Deuses, eu…
Ormund sentiu a mudança nela quase instantaneamente. A forma como seu corpo se tensionou sob o dele, o som que ela soltou… E para um homem que passara a vida inteira controlando tudo — de política e batalhas a até mesmo suas próprias emoções — ver se desfazendo assim por causa dele? Era avassalador.
No entanto, em vez de apressar, ele diminuiu um pouco o ritmo para, assim, prolongar cada instante.
— Não — a palavra saiu choramingada, e suas mãos escorregaram para os quadris dele. — Continua. — E colou seus lábios, finalizando o beijo desesperado com uma mordida. — Por favor.
Ormund estremeceu com o apelo e o modo como se segurara a ele. Então todo o controle que tinha o orgulho de manter se dissipou. Tudo por ela. E ele obedeceu sem hesitar. Beijou-a com fervor e acelerou o ritmo, os quadris se chocando com renovado propósito enquanto as mãos agarravam tudo o que conseguiam alcançar — cabelos, pele, lençóis.
se entregou a ele e ao prazer crescente que fazia parecer que ela não caberia mais em si.
— Ormund! — arfou, mais um aviso do que qualquer coisa, e agarrou-se a ele com mais força.
E Ormund se permitiu sentir o momento de com ela. As unhas dela cravadas em suas costas, as pernas apertando seus quadris… Aquilo o deixava louco. Nunca havia sido desse jeito. Jamais. Como era possível existir essa possessividade terna? E se sentir dominante e ao mesmo tempo profundamente receptivo ao prazer dela?
Continuou os movimentos, não permitindo que ela se afastasse por nem sequer um fio de cabelo. A urgência e o calor dançavam entre eles, crescendo mais e mais. Ela ofegou em meio ao beijo e seu corpo se contraiu subitamente ao redor do dele, apertando-o. Ormund congelou, arrebatado pela sensação de ver e sentir o que havia causado. E então o instinto assumiu o controle. Uma mão apertou os lençóis ao lado dela e ele a beijou com avidez, esforçando-se para extrair tudo o que conseguia de Redwyne até a última gota de prazer.
Quando o corpo dela relaxou, um sorriso leve bailava em seus lábios inchados. Sorriso esse que ela mal conseguia sustentar, pois ainda estava um tanto atordoada. Ainda assim, não conseguia parar de fitar Ormund, seu marido. Puxou os cabelos dele em uma provocação carinhosa e apertou as pernas ao redor dele. Embora o auge de seu prazer tivesse passado, queria que ele sentisse o mesmo.
Ele fechou os olhos quando um calor intenso percorreu-lhe o corpo. Ele estava quase lá, sim, e queria compartilhar tudo com ela… com — não apenas uma esposa qualquer na escuridão. E ela o olhava com tanto afeto e prontidão…
Ormund beijou-a de novo. Um beijo menos frenético, apesar do momento, e muito mais íntimo. Toda a admiração que passara a sentir por ela fora posta naquele ato, assim como o respeito que de alguma forma haviam encontrado entre eles naquela noite.
Os toques dela em sua pele fizeram com que ele se deixasse levar rapidamente pelo prazer. E quando enfim perdeu o último resquício de controle, não ousou se afastar dos lábios dela. Fez o máximo que pôde para continuar o beijo enquanto se deleitava com a sensação que ela o ajudara a alcançar. E o beijava através de seus ofegos. Uma partilha quase silenciosa daquele momento íntimo de pura entrega entre eles.
Suas mãos ainda tremiam de leve quando Ormund se deitou ao lado de na cama, bem perto — jamais longe. Ele não disse nada. Não era necessário e, caso sentisse necessidade de suas palavras, ele sabia que ela o pediria para falar.
Respirou fundo várias vezes seguidas, encarando o dossel acima deles enquanto se acalmava. Ergueu um dos braços para repousar de forma descontraída sobre a cintura dela; uma reivindicação silenciosa, mesmo em meio à exaustão. As velas já haviam queimado quase completamente — restava apenas um brilho tênue —, mas nenhum dos dois fez sequer menção de se mover. Eles apenas existiam juntos e tranquilos depois de tudo o que experienciaram.
Apesar do relaxamento em seu corpo, a mente de Redwyne estava acelerada. Ela não conseguia parar de pensar em seu casamento e no que havia acabado de acontecer. O calor dele ao seu lado, o peso do braço em volta de sua cintura, o som constante de sua respiração… tudo parecia íntimo de uma forma que ela jamais teria esperado.
imaginara muitas coisas sobre a noite de núpcias. Dever, obrigação, um momento a ser suportado porque era exigido dela como esposa. Mas isso? Esse silêncio confortável depois, deitada ao lado de seu marido sem que nada fosse imposto a nenhum dos dois? Isso era algo que nunca estivera nem em seu sonho mais inocente.
Ela sorriu sozinha ao se aconchegar mais perto de Ormund e acariciou o braço que permanecia sobre sua cintura. E pela primeira vez desde o casamento, Redwyne não tinha nada de espertinho ou debochado a dizer. Ela simplesmente se permitiu ficar ali. Em seu novo lar.
E Ormund, que não era de ficar pensando nessas coisas que geralmente não serviam para nada, notou a diferença naquele silêncio. Nem mesmo com sua primeira esposa — com quem se deitara por anos, resultando em quatro filhos — não havia sido assim. Com não existia um vazio entre eles. Mesmo o silêncio parecia… certo.
Ele virou a cabeça para observar o perfil do rosto dela. A curva do sorriso que iluminava mais do que a baixa luz dos aposentos poderia, o modo como umedecia os lábios… Ormund deu um beijo suave na altura de sua têmpora — um tipo de afeição simples que jamais pensou que existiria entre eles, ou entre ele e qualquer outra pessoa.
Então ajeitou-se melhor na cama para que pudessem ficar mais confortáveis juntos: virou-se de lado e puxou para perto de si. O braço continuou na cintura dela, mas agora com um contato maior e ainda mais natural.
se permitiu mergulhar naquela pequena demonstração de afeto. Havia algo reconfortante no simples fato de Ormund a querer por perto mesmo quando não precisava provar nem tomar nada… Assim como no fato de que ela também queria isso. O mesmo homem que se erguia como uma torre inabalável horas atrás, agora a abraçava com tanta ternura…
— Nunca pensei que fosse gostar da minha noite de núpcias — decidiu falar, sua voz carregada daquela mesma honestidade que compartilharam a noite toda. — Eu sabia o que deveria ser: um dever, uma necessidade, algo que toda mulher nobre eventualmente teria que aceitar, quisesse ou não. — Olhou para ele com uma expressão calorosa. — Porém jamais imaginei que gostaria, de fato, de me lembrar dela.
A genuína atenção que Ormund dava às palavras de Redwyne não eram comuns a ele em momentos como aquele. Mas ali estava ele, absorvendo cada palavra como se tudo o que ela dissesse importasse mais do que qualquer decisão política jamais importara.
Ele também não esperava gostar da noite de núpcias. Não de verdade. Não desse jeito. Deveria ser como sempre foi: consumação, fazer herdeiros, nada pessoal. Mas ele até que ficara contente por ter sido surpreendido. E, apesar de não saber explicar como chegaram a isso, agora jaziam abraçados, compartilhando confissões silenciosas após a intimidade.
Ele beijou a testa dela antes de murmurar contra a pele.
— Nem eu.
foi pega de surpresa. Não esperava resposta alguma dele, que dirá uma daquelas. Seus olhos examinaram o rosto do marido em busca do significado por trás da simples admissão de um homem que passara o dia e a noite inteiros se comportando como se nada pudesse surpreendê-lo. Ela sorriu, satisfeita por o Senhor Hightower, que permanecera impassível no Septo Estrelado, ter admitido que também não esperava por aquilo — pois isso significava que ele também gostaria de se lembrar do que compartilharam.
— Suponho que ambos estávamos enganados sobre esta noite, então — sussurrou ela. — E talvez isso nem seja tão terrível assim.
Ormund exalou, algo próximo a uma risada, porém mais carinhosa do que divertida. Sim, os dois estavam completamente errados. Nada de união fria, selada com cerimônia e consumada por razões políticas. Apenas essa ternura e Redwyne enroscada nele como se pertencesse àquele lugar.
Errados da melhor maneira possível.
— Não — reconheceu ele —, não é nada terrível.
E então a beijou mais uma vez. Um toque lento e demorado de lábios que agora não continham mais fome alguma… somente uma afeição sossegada entre marido e mulher que haviam descoberto algo inesperadamente doce em seu casamento.
Era estranho pensar que naquele mesmo dia estivera diante dos deuses e dos homens para tomar como seu senhor e marido um homem que conhecia apenas de nome e um breve vislumbre, imaginando que tipo de vida complicada a aguardava a portas fechadas como a nova Senhora Hightower. E agora percebia que o título não era a única coisa que a fazia querê-lo por perto.
O Ormund, por si só, era alguém que ela queria conhecer todos os dias quando acordasse ao lado dele.
— Encontramos algo que nenhum de nós dois esperava. Algo pequeno e frágil como a primeira flor em uma trepadeira e, ainda assim, vivo. — Deslizou os dedos pelo braço dele, com um sorrisinho no rosto. — E descobrimos que gostamos um do outro, que podemos ser honestos, e que talvez este casamento possa ser mais do que aquilo que foi feito para ser.
Caiu em silêncio por um momento, refletindo enquanto o olhava nos olhos. Ela ponderou as palavras algumas vezes, mas enfim falou:
— Levando tudo isso em conta, você acha que, com o tempo, podemos acabar nos amando…? — Acariciou o rosto dele, deslizando o polegar sobre os lábios. — Ou será que isso é apenas uma coisa para tolos que acreditam em canções?
Ormund parou para pensar. O questionamento dela não havia o chocado como deveria, mas era algo que importava. E muito. Ele nunca ousara imaginar isso; nem sequer se interessara no assunto. Não existira amor em seu primeiro casamento, e ele também não amara mulher alguma, nem antes — quando era jovem —, nem depois. E como o casamento de hoje era arranjado por motivos de legado e política, com alguém que mal conhecia… não tinha por que sequer pensar em algo tão… supérfluo.
Mas agora… depois daquela noite inesperada de pura honestidade entre os dois? Depois da intimidade afetuosa que compartilharam? A ideia já não parecia nem um pouco absurda.
— Não sei. — Estudou o rosto dela, com um foco especial para seus graciosos olhos. — Mas… não me surpreenderia se acabássemos nos amando.
mordeu o lábio, simplesmente o encarando. Aquela incerteza misturada com possibilidade era uma concessão rara para ele. De algum modo, ela sabia que aquelas palavras a tinham custado muito. Lorde Ormund Hightower — o homem inabalável que avaliava cada decisão pelo dever e pelas consequências — havia admitido incerteza sobre algo que não era controlável. Isso significava mais do que qualquer certeza teria significado para Redwyne.
— Acho que essa é a resposta mais honesta que poderia ter me dado. — Acenou devagar com a cabeça. — Quando entrei naquele septo hoje, sabia exatamente qual era o papel que eu abraçaria: Senhora Hightower, sua esposa, mãe dos seus filhos. Mas não esperava me tornar alguém que você quisesse conhecer… E também não imaginava querer conhecê-lo.
Um sorriso pequeno porém genuíno tomou seus lábios. Ela olhou o cômodo ao redor — o lugar que antes pertencia somente a ele, mas agora era dos dois. Seus dedos repousaram sobre a mão dele em uma carícia suave, e seu olhar voltou para o dele.
— Parece que nos enganamos sobre algumas coisas esta noite, de fato. — Aconchegou-se mais nos braços dele. — Então talvez eu também não ficaria surpresa se acabássemos nos amando.
Ormund virou a mão por baixo da dela, deixando a palma para cima — e entrelaçou seus dedos sem dizer uma palavra. Um gesto pequeno que, naquela manhã, teria sido impensável, já que ele nunca fora o tipo de homem que dava as mãos por mera formalidade. Mas essa noite com tinha reescrito tudo o que ele pensava que um casamento poderia ser.
As velas enfim se apagaram por completo, mergulhando os aposentos em uma escuridão suave. Nenhum dos dois se importou, no entanto. O tênue luar que se infiltrava pela janela e a proximidade entre eles eram luz suficiente.
Ormund levou a mão dela aos lábios e beijou-lhe os nós dos dedos. Outro gesto inimaginável horas atrás. Então se ajeitou na cama para trazê-la por completo contra si, acomodando a cabeça dela sobre seu peito.
Nada de grandes declarações nem promessas de amor ainda. Apenas permaneceram ali, abraçados em silêncio enquanto o sono se aproximava aos poucos. O mundo talvez os conheceria somente como o Senhor e a Senhora Hightower. Mas ali, sob a escuridão quente e silenciosa de seus aposentos, só existiam Ormund e …
Marido e mulher. De verdade.
sequer pensou em se cobrir. Não precisava. Não mais. Não com Ormund Hightower, seu marido.
— Foi respeito que ouvi na sua voz…? — Arqueou a sobrancelha. — Ou apenas decepção?
Seus olhos jamais se desviaram dos dele, brilhando com uma malícia inconfundível. Ela já sabia a resposta; por isso ousava brincar com a situação. A ponta de seus dedos vagaram pelo peito nu de Lorde Ormund como se traçassem um caminho muito bem definido em um precioso mapa. Mas na verdade estava apenas deixando o toque fluir, conhecendo-o assim como ele vinha a conhecendo ao longo da noite.
— Suspeito que seja muito mais difícil de me entender do que você esperava, não?
Ormund exalou o ar em algo parecido com um suspiro que nem ele sabia se era de diversão ou frustração. Provavelmente as duas coisas. Redwyne era, com certeza, mais difícil de entender do que esperava. A maioria das mulheres que conhecera eram transparentes, fossem as ambiciosas com desejos óbvios de poder ou afeto, ou as noivas nervosas, desesperadas para agradar seus senhores. Mas ? Ela tinha muito mais camadas do que seus vestidos. Uma mente que funcionava em enigmas, envolta em charme e sagacidade afiada que, assim como uma lâmina de aço valiriano, jamais perdia o fio.
E agora estava ali, seminua diante dele, mas não em simples submissão. Não, isso nunca. Permanecia ali de cabeça erguida, esperando por ele como um desafio disfarçado de convite… ou seria um convite disfarçado de desafio? Ele não saberia dizer. E de algum modo, isso o fazia gostar ainda mais de sua nova esposa.
As mãos de Ormund pairaram sobre o linho fino da roupa de baixo — a última barreira que ainda a escondia —, como se quisesse tirar o máximo daquele precioso instante. Finalmente agarrou o tecido e o ergueu sem pressa nenhuma até que o tirasse pelos ombros dela. Seus olhos desceram até a pele recém revelada, observando a luz quente das velas dançando sobre ela.
Por um instante, prendeu a respiração. Não estava envergonhada e nem queria se esconder dele. Isso, jamais. Ela queria que ele a visse por inteiro. Desejava isso. Ainda assim, era a primeira vez que permitia que um homem a visse daquela maneira. De alguma forma, porém, estava confortável. A imagem que permanecia em sua mente era a maneira como ele a olhara quando não havia ausência de roupas, antes de fazê-las desaparecer. Com paciência e curiosidade. Como se ela ainda fosse a coisa mais interessante nos aposentos. Como se fosse preciosa. Ninguém nunca a olhara assim, nem mesmo os pais dela com seus afetos distorcidos.
E, como se não estivesse satisfeito em surpreendê-la, o olhar de Ormund não havia mudado quando se livrara da última peça de tecido que a cobria. Ela tinha sorte.
Então, como Ormund Hightower não fazia as coisas pela metade — a não ser que o dever assim ordenasse —, ele a beijou outra vez. retribuiu o beijo, sem hesitação e sem pressa. Sua mão deslizou pela lateral do pescoço dele enquanto a outra repousava sobre o ombro, sentindo o calor na ponta dos dedos.
Era estranho como Ormund começara a parecer tão familiar em apenas uma única noite… um casamento no Septo Estrelado sem jamais terem trocado uma palavra; um banquete magnífico não fazendo nada mais do que seus deveres — e tendo sua honra como Lady Hightower defendida por ele quando aquele homem a insultara; uma cerimônia nupcial em que ela só não fora despida por completo por causa de seus olhares para aqueles homens… E eles, ali, em seus aposentos. Ainda assim, tão incrivelmente familiar quanto a doçura discreta da madressilva trazida pela brisa — inesperada, mas, uma vez descoberta, impossível de confundir. Ela amava.
— Acredito que as coisas não estejam mais inteiramente justas. — Abriu um sorriso discreto e deixou seu olhar percorrer o corpo dele com deliberada estima. Quando voltou a fitá-lo, viu que ele arqueara as sobrancelhas. — Você me privou de todas as vantagens… — Roçou as pontas dos dedos no tecido das calças dele, os olhos brilhando de diversão. — E, no entanto, meu senhor, ainda está consideravelmente mais vestido do que eu.
Ormund passou um braço firme pela cintura dela e, com um movimento delicado, ergueu-a do chão. Mas como o estilo nupcial era impessoal demais para a ocasião — ainda que fosse de fato sua noite de núpcias —, a carregou com o corpo colado ao dele por alguns passos e a deitou na beirada da cama com um cuidado e uma gentileza que não sabia que ele possuía. A enorme cama de dossel parecia ter saído dos sonhos de donzela que nunca teve: carvalho entalhado ricamente, pesadas cortinas de veludo no cinza-fumaça dos Hightower amarradas para trás, lençóis do melhor linho fiado com algodão.
Ela o observou enquanto ele se livrava de suas próprias roupas. Primeiro as botas, chutando-as para perto de uma cadeira sem muita cerimônia. Em seguida, afrouxou o cinto apertado e retirou camada por camada das calças e roupas de baixo. Nenhuma pressa e nenhum drama. Tudo nele era a perfeita imagem do senhor que sempre acreditou que ele era. Ali, deitada de lado, com os olhos sobre ele, descobriu que gostava de observá-lo.
Ormund percebeu o olhar. Claro que percebeu. Constante, atencioso, admirando cada contração de músculos sob a luz baixa. Algo quente se contorceu no fundo de seu estômago. Apesar de haver luxúria — o que era inegável —, predominava-se uma sensação mais parecida com orgulho. Estava sendo admirado não apenas por seus títulos e nome, mas também pelo corpo e por tudo o que era. E nem sequer desviou o olhar quando ele a pegou encarando.
Ormund se aproximou e — diferente da maioria dos homens, que teria subido na cama de imediato — parou bem na beirada e simplesmente contemplou sua esposa deitada ali, com sua pele macia e curvas banhadas pela luz das velas como se fosse algo sagrado. O silêncio se prolongou, pesado e carregado com muitas coisas ainda não nomeadas. umedeceu os lábios, sem desviar o olhar de cada partezinha dele. Cada parte do que agora a pertencia — tanto legal quanto pessoalmente. E vê-lo ali, apenas parado, sem nem tentar intimidá-la… Aquilo a tocou como qualquer intimidação jamais poderia ter feito.
Então ela estendeu a mão para ele.
— Vem cá — convidou-o.
Ormund aceitou a mão dela com um aperto firme e permitiu que o puxasse para a cama.
Em vez de passar por cima de como um conquistador reivindicando território, deitou-se ao lado dela apoiando-se em um cotovelo. Sua mão livre deslizou lentamente da clavícula ao esterno, traçando curvas como se estivesse estudando um mapa muito importante de uma guerra por vir. Entretanto a exploração aqui era uma descoberta, não uma batalha; apenas o toque percorrendo a pele em uma intimidade silenciosa, agora que todas as barreiras haviam desaparecido.
E quando, por fim, inclinou-se para beijá-la de novo, não foi um beijo exigente nem afoito — como era de se esperar em noites como essa. Seus lábios se encontraram de maneira suave, testando o calor antes de se aprofundarem aos poucos. Apenas algumas horas atrás, cada toque, palavra e olhar entre eles era uma pergunta incerta. Atualmente, com a certeza tranquila que se instalara entre eles ao longo da noite, cada suspiro parecia uma nova resposta.
deslizou os dedos pelos cabelos dele até repousá-los em sua nuca. Então, quando o beijo terminou, ela permaneceu perto, suas testas quase encostadas, a respiração dele soprando na sua — quente, constante. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Acho que passamos grande parte da nossa noite de núpcias fazendo algo que a maioria das pessoas consideraria terrivelmente impraticável… conversando. — Um suspiro silencioso parecido com uma risadinha escapou dela. — Porém, de alguma forma, acredito que gosto muito mais do meu marido agora do que quando entrei no Septo Estrelado e você estava olhando para algum ponto distante além do meu ombro. — Havia um carinho inconfundível nos olhos de . — Gosto de como está me olhando agora.
Ele a observou, os olhos percorrendo cada centímetro de seu rosto. Em vez de corrigi-la, repreendê-la ou desviar o assunto com dever, deixou que as palavras o alcançassem, assim como o apreço singular nelas contido… porque não estava sendo apenas educada nem tentando agradar o seu novo marido, ela falava com genuína sinceridade.
E Ormund respondeu do melhor jeito que sabia, pressionando a boca na dela com a maior calma de todo o mundo conhecido em um beijo terno, talvez até reverente. Sua mão escorregou pelas costas dela, puxando-a gentilmente para que não restasse mais espaço entre eles na cama. Apenas pele contra pele à luz de velas, o cheiro do incenso e o perfume remanescente das flores que estiveram nos cabelos dela. Sem títulos, tecidos ou rituais — ainda que estivessem fazendo parte de um com a noite de núpcias.
O suspiro trêmulo de em meio ao beijo fora uma surpresa até mesmo para ela. Pelos Sete… não esperava que a simples proximidade de Lorde Ormund fosse capaz de fazê-la se sentir assim. Um arrepio leve e gostoso percorreu seu corpo apenas por causa da realidade — até então desconhecida — da presença dele. De calor encontrando calor. Do peito largo — admirado sob camadas de um rico veludo desde o primeiro instante que o vira conversando com seu pai sobre o possível casamento —, que agora subia e descia junto do seu.
Deslizou o braço ao redor dele, como que por instinto, e acomodou a mão entre as omoplatas, segurando-o para que não se afastasse. Seus olhos se encontraram quando o beijo se desvanecia como um belo sonho de donzela. Um sorriso gentil dançou em seus lábios, mais discreto que qualquer outro que esboçara naquela noite, feito unicamente para ele e aquele momento. E percebeu, enfim, que já sabia onde preferia tê-lo: o mais perto possível.
Ormund percebeu a leve pressão em suas costas, e a deixou segurá-lo bem ali. Poderia ter se afastado, se quisesse — além de ser seu marido, a cama costumava ser apenas sua até aquela noite, o espaço dele. Poderia mudar de posição, assumir o controle… ainda assim, não se afastou de Redwyne. Os narizes e lábios pairavam a um fio de distância e, pelo que talvez fosse a primeira vez na vida, Ormund se deixou levar pelo impulso, e não por um movimento calculado… Ele a beijou. De novo. Uma, duas, três vezes. Toques suaves dos lábios, como um homem disciplinado aprendendo as nuances da ternura quando não era apenas uma formalidade cerimonial ou encenação para a corte.
A mão deslizava de maneira delicada pela extensão de sua coluna. gostou disso. Deuses, e como gostou! Ela nunca imaginara que iria. Sabia como funcionavam os casamentos e a consumação… sabia sobre a intimidade, e principalmente sobre a falta dela. Ali, porém, depois daquela longa noite com o senhor seu marido? só queria mais.
— Ormund… — sussurrou o nome dele sem nenhum título.
Ela não sabia o que mais dizer. A única coisa certa parecia aquilo. Ele. O nome dele. E era, pois a respiração de Ormund falhou por um breve instante. Depois de uma noite inteira de “Senhor Hightower”, “Lorde Ormund”, “meu senhor”, ela enfim tinha lhe presenteado com aquilo. Era íntimo de uma forma que os títulos jamais foram, decerto até afetuoso.
Colou os lábios aos dela e a beijou mais profundamente. Era menos experimental dessa vez e muito mais seguro, afinal, estava claro que ela de fato também queria aquilo. Tanto que retribuiu o beijo como se o ato tivesse se tornado a coisa mais natural do mundo. Ela já não se perguntava se deveria ou não, como faria ou se seria bom; simplesmente respondia.
Sua grande mão subiu para segurar a nuca dela enquanto a outra descia devagar… por cima do ombro, ao longo do braço, e para baixo até que as pontas dos dedos roçassem na curva da cintura. Carícias sem pressa, sem agarrar ou reivindicar com impaciência como quase todos os homens de Westeros já teriam feito a essa altura. Apenas uma exploração pelo toque como se estivesse estudando cada parte de Redwyne, a mulher que escolhera como sua esposa por motivos políticos, mas que tivera a sorte de ser muito mais que isso.
, que antes se apoiava nele com uma curiosidade cautelosa, agora segurava-o com firmeza, os dedos apertados contra a pele como se tivesse se esquecido de como soltá-lo. Ou talvez apenas já não quisesse deixá-lo ir. O calor de sua pele sob a palma das mãos dela, o ritmo constante de sua respiração… tudo isso se parecia com um lar para , e ela se viu pressionando seu corpo no dele.
Um suspiro baixo escapou por entre seus lábios e um arrepio percorreu-lhe o corpo. Pelos malditos sete infernos… Ela imaginara essa noite inúmeras vezes ao longo dos anos — não com Ormund, nunca com nenhum homem em específico. Porém havia imaginado dever, constrangimento, silêncio perturbador. Nunca tinha cogitado a hipótese de receber ternura, que dirá que iria desfrutar tanto de sua proximidade e, mais ainda, que desejaria, de fato, isso.
Seus olhos encontraram os dele por um instante fugaz, e ela abriu um sorriso terno. Então o abraçou como se ele pertencesse em seus braços; como se ela tivesse se esquecido de como era não tê-lo ali com ela.
E Ormund compreendeu. Notou como o tratava como se fosse algo muito além de seu senhor e marido por dever… como se fosse algo muito mais real do que qualquer palavra daquelas poderia descrever. E pelos Sete, aquilo mexia com ele de um jeito que ainda não conseguia expressar em palavras. Afinal de contas, Ormund Hightower não demonstrava ternura com facilidade; ele governava com disciplina, falava através de ordens, liderava por meio da autoridade.
Mas aqui e agora? Com Redwyne em seus braços, acariciando suas costas e sorrindo para ele daquele jeitinho genuíno e afável? Definitivamente algo real. Beijou-a de novo e de novo e de novo. Cada beijo mais lento que o anterior, custando a se afastar e, quando finalmente conseguia fazê-lo, mergulhava de volta para outro.
Suas mãos voltaram a vagar pelo corpo dela, tocando cada curva como se precisasse as conhecer novamente. Dos ombros à clavícula, do pescoço inclinado até à coluna, enquanto tudo o que podia fazer era suspirar e desejar se afundar em uma abundância daquilo que jamais pensou que um dia poderia ter.
E Ormund sabia que aquele não era o som de uma simples noiva obediente cumprindo os ritos matrimoniais. Eram suspiros felizes, de prazer e alegria. E para um homem que passou a vida medindo seu valor em poder e legado, aquela reação dela tinha um significado maior do que qualquer aliança política poderia. Então beijou-a da boca ao queixo, e ao longo da garganta. Uma mão afagava-lhe os cabelos enquanto a outra acariciava-lhe o corpo, apenas venerando o calor sob as pontas dos dedos como se fosse algo sagrado. Porque era.
inclinou a cabeça, dando melhor acesso a ele. Ninguém nunca a beijara ali. Não daquela maneira. Não com um cuidado tão deliberado, como se cada pequeno toque importasse mais do que qualquer outra coisa no mundo. Ela segurou os cabelos dele entre os dedos, como que para se firmar.
— Deuses sejam bons… — Ela quase riu, deliciada. — O que você está fazendo comigo?
Ormund fez uma pausa para admirá-la em silêncio. Nem ele entendia por completo o que estava fazendo; somente que era o certo. E então continuou beijando-a, dessa vez pescoço acima, até retomar à boca dela com um beijo que tinha um gosto novo… Gosto de algo que nenhum dos dois planejara para essa noite e encontraram mesmo assim: essa terna intimidade entre marido e mulher que já não tinha nada a ver com dever, nem política.
Quando seus lábios se separaram, eles compartilharam um olhar intenso, suas respirações se mesclando como se ambos ocupassem agora o mesmo lugar no mundo. Ormund moveu-se ligeiramente, sem interromper o contato, e posicionou-se sobre ela na cama pela primeira vez naquela noite. Ele apoiou uma das mãos ao lado da cabeça dela e a olhou no fundo dos olhos.
Não precisava de nenhuma palavra para aquilo, compreendia a pergunta implícita. Um pedido de permissão que não vinha do Senhor da Casa Hightower, mas sim de Ormund, o homem que a ouvira, que tentara a intimidar, que a desafiara, que rira com ela e a conhecera, que tirara as flores do cabelo dela com tamanha gentileza que a conquistara.
umedeceu os lábios, sem desviar o olhar. Em algum momento desde que entrara no Septo Estrelado hoje, a expectativa tinha substituído a obrigação. Ela soubera, a vida toda, que a noite de núpcias terminaria assim. E esperava o dever, seco e frio, e a cerimônia. Em vez disso, porém, encontrara desejo e escolha. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios, e ela ergueu a mão para acariciar o rosto dele.
— Eu sou sua — declarou em um sussurro carinhoso. — E você é meu.
Aqueles haviam sido seus votos perante os deuses algumas horas antes; promessas feitas porque a tradição as exigia. Ali, no entanto, sob a luz das velas e os toques compartilhados, as palavras carregavam um significado que nenhuma cerimônia ou dever poderia lhes conferir. Eram a resposta que Ormund precisava, e mais do que isso, uma confissão sussurrada apenas para ele que o atingia com mais força do que um ferimento de batalha.
Então, em vez de reivindicá-la com uma urgência rude, ele a beijou outra vez, derramando sobre ela tudo o que não havia sido dito. O respeito que tinha por sua mente, a admiração geral retumbando em seu peito, até mesmo aquela ternura desconhecida florescendo onde normalmente residia o dever. Sua mão escorregou pela lateral do corpo dela antes de se acomodar no quadril, contemplando-a por inteiro, como se memorizasse a forma daquilo que agora pertencia a ambos igualmente.
remexeu-se embaixo dele; um movimento automático que nem ela sabia explicar. Era impossível parar de olhar para ele, parar de esperar… de desejar. E ver tudo aquilo no olhar dela desestabilizou Ormund. Ainda assim, ele não quebrou o contato visual — o que era raro para ele, já que dificilmente ligava para essas coisas quando estava concentrado na mecânica da coisa e em fazer herdeiros.
Ele abaixou o corpo até que pairasse logo acima do dela. Então pressionou os lábios ao longo da mandíbula, pescoço, clavícula. Cada toque leve como uma pena, só para provocá-la, fazê-la sentir.
— Ormund… — Apertou os dedos contra a pele dele. — Você gosta desse poder que tem sobre mim, não é?
As palavras certeiras fizeram-o parar. Ele não havia pensado naquilo daquele jeito ainda. Mas sim, é claro que gostava. No entanto, não era domínio por si só, com controle como um fim. Ela confiava nele o bastante para se entregar como estava fazendo agora, e desejava o seu toque mesmo sabendo muito bem quanta autoridade existia em suas mãos. Ormund gostava de ter o poder de fazê-la reagir daquela forma, com seus suspiros alegres e prazerosos, os sussurros com o nome dele, o modo como apertava as mãos ao redor dele, pedindo por mais.
Ele beijou o ombro dela com ternura e voltou a encará-la.
— Está tudo bem — murmurou ela. — Eu também gosto.
— Do meu poder sobre você? — deixou escapar.
Algo se revirou dentro dele. Desejo e um pouco de orgulho, junto de algo mais profundo. não estava se submetendo por dever ou medo. Ela queria isso. Gostava disso. Estava o escolhendo de todas as maneiras possíveis.
— Sim. Do poder que exerce sobre mim com tanta facilidade.
E, pela primeira vez, foram os lábios de que procuraram pelos dele. Ela o queria. Por inteiro.
Ele retribuiu o beijo com uma ferocidade repentina, afinal, estava iniciando, e não apenas seguindo. Era perfeito. Ormund emaranhou a mão nos cabelos dela e deslizou a outra para agarrar seu quadril como se enfim reivindicasse o que lhe pertencia depois de todas aquelas horas de espera. O beijo se aprofundou, desordenado e cada vez menos controlado. A precisão habitual de Ormund cedera lugar a algo mais bruto e voraz. E correspondeu a tudo sem timidez ou hesitação.
Ela afagou-lhe os cabelos e puxou-o mais para perto com a outra mão. Então mordeu o lábio inferior dele em meio ao beijo, arrancando-lhe um gemido que ele jamais teria deixado escapar em qualquer outra ocasião. beijou-o novamente, suas pernas se afastando por instinto, buscando contato em um convite tão claro quanto qualquer palavra. A mão dele agarrou sua coxa, e a outra puxou-lhe o cabelo de leve.
mordeu o seu lábio, devagar dessa vez, mas tão forte quanto antes. Agora que sabia o efeito que causava nele, tinha de aproveitar. Seus olhos fixaram-se nos dele. Ela não ousaria desviar o olhar… não agora. E ele retribuiu-lhe aquele poderoso olhar, enxergando-a verdadeiramente.
Já não estava mais concentrado somente no toque ou no sabor, e nem distraído por calor e desejo. No momento, só existia ela. . Sua esposa. A mulher que mordia seu lábio como se fosse sua dona, e sustentava seu olhar sem vacilar — mesmo agora, quando as coisas se tornavam intensas. Um brilho feroz faiscou em seus olhos, como em um homem que via algo precioso logo antes de tomá-lo para si por completo.
Ormund mudou o peso do corpo e ajustou-os na posição. Então encurtou a última distância entre seus corpos e tomou o que era seu por direito e por escolha de Redwyne. Devagar, mas sem hesitação. Apenas marido reivindicando esposa como deveria ser — entretanto não era mais apenas dever. soltou um suspiro sufocado quando ele se ajustou dentro dela. Deuses sejam bons! Ela apenas fechou os olhos e se permitiu sentir, enquanto a mão dele vagava por seu corpo e suas respirações se misturavam e tudo o mais desaparecia.
Quando pareceu capaz de fazer qualquer coisa além de sentir o momento, abriu os olhos para ver seu marido. Um sorriso tomou seus lábios, quase como se estivesse bêbada — exceto que não havia bebido dourado da Árvore o suficiente para isso. E Ormund enxergava a pura e genuína alegria no rosto dela. E era por causa dele… disso. Então, em vez de se precipitar e acabar logo com aquilo, ele permaneceu ali, imóvel, e a beijou outra vez de modo lento, profundo e insuportavelmente terno.
Ele afastou os fios de cabelos da testa dela e, pela primeira vez desde que se tornou o Senhor Hightower, Ormund não pensou em dever, legado nem herdeiros… apenas saboreou o quão bem Redwyne se encaixava nele.
sorriu contra os seus lábios. O jeito como ele parara simplesmente para existir com ela por mais uma batida do coração encheu o seu peito com um calorzinho tranquilo que não esperava encontrar em sua noite de núpcias. Ela abarcou o rosto dele com ambas as mãos e permaneceu assim, apenas o admirando. O homem que havia permanecido no altar como uma bela e sagrada estátua… O mesmo homem que agora a fitava como se ela fosse a única coisa que valia a pena contemplar.
— Eu gostaria de ouvir sua voz. — Os polegares acariciaram as bochechas dele. — Você tem se comunicado apenas com suas mãos e beijos a noite toda… não que eu esteja reclamando. — moveu os quadris de leve, somente para testar, para saber como era a sensação. — Vai falar com a sua esposa?
Ormund soltou um suspiro profundo, surpreso pelo pedido. Raramente conversava, exceto se tivesse que ensinar algo, debater em reuniões de estratégia, lidar com tramas políticas e manipulações e, é claro, gentilezas vazias necessárias com outros nobres. Nunca para intimidade.
Mas não estava pedindo como uma senhora ou aliada política. Pedia como sua senhora e esposa, alguém que queria estar onde estava… alguém que ele queria que estivesse ali. E era isso que a diferenciava de sua primeira esposa, não? Ambos foram casamentos políticos; esse, no entanto, já não começava vazio como aquele.
Ormund engoliu em seco.
— Você é linda — disse ele, com pura honestidade. Sem palavras floridas e vazias, nada de poesias inventadas que nem sequer combinavam com ele. Apenas a verdade nua e crua exposta entre ambos. — E eu fico feliz que você seja minha.
— Sei que fica. — Seus lábios tremeram em um sorriso. nunca precisou de enfeites; honestidade e um pouquinho de esforço lhe bastavam. — Fico feliz que também seja meu… e que esteja falando comigo porque eu pedi. — Moveu os quadris novamente, bem devagarinho. — Significa muito para mim.
Um suspiro escapou por entre os lábios dele com o movimento lento e intencional. Era como se saboreasse cada pequena mudança entre eles. Então Ormund não se apressou em acompanhar o ritmo nem em assumir o controle. Apenas permitiu que ela testasse o quanto quisesse, ao menos por enquanto, já que ela parecia gostar. Assim ele podia dar toda atenção ao rosto dela, a cada pequena mudança de expressão enquanto ela mesma explorava essa nova proximidade.
E, deuses, era uma bela cena. A maneira como o prazer transparecia nas feições dela sem pudor algum… como ela nem sequer tentava esconder nada dele.
— Você precisa que eu fale mais? — ofereceu antes de se inclinar e beijar-lhe a mandíbula devagar, saboreando sem exigências. Sua mão deslizava sobre ela em um carinho silencioso.
não pôde evitar outro sorriso. Ela continuou com as carícias em seu rosto enquanto contemplava o homem acima dela. O Senhor Hightower, que passara a noite inteira se comunicando através do silêncio, enfim lhe revelava partes de si em palavras. E ainda se preocupava em oferecer mais.
— Tudo o que preciso agora é sentir você… cada vez mais — sussurrou de modo tão caloroso que pareceu um segredo. Então um suspiro escapou de sua boca entreaberta e ela parou de se mover em um pedido velado para que ele guiasse. — Mas quero te ouvir, sim. — Seu sorriso transbordava uma inconfundível ternura. — Acho que sua voz me dá tanto prazer quanto os seus beijos.
Ele a fitou com intensidade, quase desconsertado pelo aperto. Jamais imaginaria que algum dia falariam isso de sua voz, a mesma que usava para dar ordens e discutir política. E a apreciava — podia ver em seus olhos que era verdade. Gostava tanto de ouvi-lo quanto de beijá-lo?
Ormund deslizou o polegar pelos lábios dela antes de descer a mão até a perna, ajustando-a levemente no lugar. Então assumiu o controle com delicadeza. Primeiro levou a boca até a garganta em um beijo quente e, por fim, se moveu. Estocadas lentas e profundas, sem qualquer urgência; um ritmo constante destinado a extrair cada sensação possível.
— Tão perfeita… — Mordiscou-lhe o pescoço. — Bem desse jeitinho… Minha.
— Sua. — trouxe o rosto dele até o seu e pressionou suas bocas. — E você é todo meu.
Então mordeu-lhe o lábio inferior e puxou de leve. Ormund grunhiu baixo. Sim, ele era dela, o senhor seu marido, e mais do que isso. Assim como ela era dele, sua esposa… não apenas a Senhora de Torre Alta por título, mas dele de uma forma que transcendia votos ou política.
Beijou-a mais uma vez, sem ser capaz de manter a boca longe da dela. Prendeu seu lábio inferior entre os dentes, respondendo a mordidinha aguda e reivindicadora que ela gostava de dar. Acelerou o ritmo, então, tornando-o insistente — afinal, era tudo o que podia fazer —, mas nunca com brutalidade. Jamais seria bruto com ela. Sua mão agarrou o quadril com mais força enquanto se movia contra ela. Os lábios se roçavam a cada movimento vigoroso em uma mistura intensa de suspiros ofegantes.
precisou de toda a sua concentração para impedir suas pálpebras de se fecharem. Não queria perder os lindos olhos dele de vista enquanto a olhava assim.
— Ormund… — arquejou. Às vezes era mais do que impossível não se render e fechar completamente os olhos.
Ele a beijou de imediato em resposta ao seu clamor. Percebia todo o esforço que ela fazia para olhá-lo, o modo como lhe dedicava uma atenção crua quando o mais fácil seria apenas se deixar levar.
— Deuses, eu… — Ela jogou a cabeça para trás, apenas por um instante, perdida nas sensações. — Eu preciso te ouvir.
Forçou-se a olhá-lo novamente, para mostrar que falava sério, que havia necessidade ali. E se ela precisava, Ormund não podia negar; não quando estavam assim.
— … — atendeu o pedido, o nome em seus lábios como uma prece sagrada.
O sorriso dela desabrochou como uma rosa branca sob o sol da manhã. E ela sorriu muito. Não pôde evitar. Ele só tinha sussurrado o nome dela. Somente isso. Sem títulos, sem formalidades. Apenas . Era tudo o que precisava. Além do mais, era a primeira vez que a chamava unicamente pelo nome. Pelos Sete, era tão bom.
— Ormund — respondeu, como se isso dissesse tudo.
Cravou os dedos nas costas dele, acompanhando os movimentos, enquanto ele a saboreava com seus beijos quentes. Os aposentos se preencheram com os sons de suas respirações entrecortadas, do atrito de pele contra pele e o rangido suave da cama sob eles.
— Linda — murmurou no ouvido dela, beijando a área logo abaixo. — Minha .
— Meu… Meu Ormund… — Um gemido intenso escapou de seus lábios enquanto uma onda de prazer se quebrava sobre ela, da cabeça aos pés. Benditos sejam os deuses! Ela jamais havia sentido algo do tipo antes. — Deuses, eu…
Ormund sentiu a mudança nela quase instantaneamente. A forma como seu corpo se tensionou sob o dele, o som que ela soltou… E para um homem que passara a vida inteira controlando tudo — de política e batalhas a até mesmo suas próprias emoções — ver se desfazendo assim por causa dele? Era avassalador.
No entanto, em vez de apressar, ele diminuiu um pouco o ritmo para, assim, prolongar cada instante.
— Não — a palavra saiu choramingada, e suas mãos escorregaram para os quadris dele. — Continua. — E colou seus lábios, finalizando o beijo desesperado com uma mordida. — Por favor.
Ormund estremeceu com o apelo e o modo como se segurara a ele. Então todo o controle que tinha o orgulho de manter se dissipou. Tudo por ela. E ele obedeceu sem hesitar. Beijou-a com fervor e acelerou o ritmo, os quadris se chocando com renovado propósito enquanto as mãos agarravam tudo o que conseguiam alcançar — cabelos, pele, lençóis.
se entregou a ele e ao prazer crescente que fazia parecer que ela não caberia mais em si.
— Ormund! — arfou, mais um aviso do que qualquer coisa, e agarrou-se a ele com mais força.
E Ormund se permitiu sentir o momento de com ela. As unhas dela cravadas em suas costas, as pernas apertando seus quadris… Aquilo o deixava louco. Nunca havia sido desse jeito. Jamais. Como era possível existir essa possessividade terna? E se sentir dominante e ao mesmo tempo profundamente receptivo ao prazer dela?
Continuou os movimentos, não permitindo que ela se afastasse por nem sequer um fio de cabelo. A urgência e o calor dançavam entre eles, crescendo mais e mais. Ela ofegou em meio ao beijo e seu corpo se contraiu subitamente ao redor do dele, apertando-o. Ormund congelou, arrebatado pela sensação de ver e sentir o que havia causado. E então o instinto assumiu o controle. Uma mão apertou os lençóis ao lado dela e ele a beijou com avidez, esforçando-se para extrair tudo o que conseguia de Redwyne até a última gota de prazer.
Quando o corpo dela relaxou, um sorriso leve bailava em seus lábios inchados. Sorriso esse que ela mal conseguia sustentar, pois ainda estava um tanto atordoada. Ainda assim, não conseguia parar de fitar Ormund, seu marido. Puxou os cabelos dele em uma provocação carinhosa e apertou as pernas ao redor dele. Embora o auge de seu prazer tivesse passado, queria que ele sentisse o mesmo.
Ele fechou os olhos quando um calor intenso percorreu-lhe o corpo. Ele estava quase lá, sim, e queria compartilhar tudo com ela… com — não apenas uma esposa qualquer na escuridão. E ela o olhava com tanto afeto e prontidão…
Ormund beijou-a de novo. Um beijo menos frenético, apesar do momento, e muito mais íntimo. Toda a admiração que passara a sentir por ela fora posta naquele ato, assim como o respeito que de alguma forma haviam encontrado entre eles naquela noite.
Os toques dela em sua pele fizeram com que ele se deixasse levar rapidamente pelo prazer. E quando enfim perdeu o último resquício de controle, não ousou se afastar dos lábios dela. Fez o máximo que pôde para continuar o beijo enquanto se deleitava com a sensação que ela o ajudara a alcançar. E o beijava através de seus ofegos. Uma partilha quase silenciosa daquele momento íntimo de pura entrega entre eles.
Suas mãos ainda tremiam de leve quando Ormund se deitou ao lado de na cama, bem perto — jamais longe. Ele não disse nada. Não era necessário e, caso sentisse necessidade de suas palavras, ele sabia que ela o pediria para falar.
Respirou fundo várias vezes seguidas, encarando o dossel acima deles enquanto se acalmava. Ergueu um dos braços para repousar de forma descontraída sobre a cintura dela; uma reivindicação silenciosa, mesmo em meio à exaustão. As velas já haviam queimado quase completamente — restava apenas um brilho tênue —, mas nenhum dos dois fez sequer menção de se mover. Eles apenas existiam juntos e tranquilos depois de tudo o que experienciaram.
Apesar do relaxamento em seu corpo, a mente de Redwyne estava acelerada. Ela não conseguia parar de pensar em seu casamento e no que havia acabado de acontecer. O calor dele ao seu lado, o peso do braço em volta de sua cintura, o som constante de sua respiração… tudo parecia íntimo de uma forma que ela jamais teria esperado.
imaginara muitas coisas sobre a noite de núpcias. Dever, obrigação, um momento a ser suportado porque era exigido dela como esposa. Mas isso? Esse silêncio confortável depois, deitada ao lado de seu marido sem que nada fosse imposto a nenhum dos dois? Isso era algo que nunca estivera nem em seu sonho mais inocente.
Ela sorriu sozinha ao se aconchegar mais perto de Ormund e acariciou o braço que permanecia sobre sua cintura. E pela primeira vez desde o casamento, Redwyne não tinha nada de espertinho ou debochado a dizer. Ela simplesmente se permitiu ficar ali. Em seu novo lar.
E Ormund, que não era de ficar pensando nessas coisas que geralmente não serviam para nada, notou a diferença naquele silêncio. Nem mesmo com sua primeira esposa — com quem se deitara por anos, resultando em quatro filhos — não havia sido assim. Com não existia um vazio entre eles. Mesmo o silêncio parecia… certo.
Ele virou a cabeça para observar o perfil do rosto dela. A curva do sorriso que iluminava mais do que a baixa luz dos aposentos poderia, o modo como umedecia os lábios… Ormund deu um beijo suave na altura de sua têmpora — um tipo de afeição simples que jamais pensou que existiria entre eles, ou entre ele e qualquer outra pessoa.
Então ajeitou-se melhor na cama para que pudessem ficar mais confortáveis juntos: virou-se de lado e puxou para perto de si. O braço continuou na cintura dela, mas agora com um contato maior e ainda mais natural.
se permitiu mergulhar naquela pequena demonstração de afeto. Havia algo reconfortante no simples fato de Ormund a querer por perto mesmo quando não precisava provar nem tomar nada… Assim como no fato de que ela também queria isso. O mesmo homem que se erguia como uma torre inabalável horas atrás, agora a abraçava com tanta ternura…
— Nunca pensei que fosse gostar da minha noite de núpcias — decidiu falar, sua voz carregada daquela mesma honestidade que compartilharam a noite toda. — Eu sabia o que deveria ser: um dever, uma necessidade, algo que toda mulher nobre eventualmente teria que aceitar, quisesse ou não. — Olhou para ele com uma expressão calorosa. — Porém jamais imaginei que gostaria, de fato, de me lembrar dela.
A genuína atenção que Ormund dava às palavras de Redwyne não eram comuns a ele em momentos como aquele. Mas ali estava ele, absorvendo cada palavra como se tudo o que ela dissesse importasse mais do que qualquer decisão política jamais importara.
Ele também não esperava gostar da noite de núpcias. Não de verdade. Não desse jeito. Deveria ser como sempre foi: consumação, fazer herdeiros, nada pessoal. Mas ele até que ficara contente por ter sido surpreendido. E, apesar de não saber explicar como chegaram a isso, agora jaziam abraçados, compartilhando confissões silenciosas após a intimidade.
Ele beijou a testa dela antes de murmurar contra a pele.
— Nem eu.
foi pega de surpresa. Não esperava resposta alguma dele, que dirá uma daquelas. Seus olhos examinaram o rosto do marido em busca do significado por trás da simples admissão de um homem que passara o dia e a noite inteiros se comportando como se nada pudesse surpreendê-lo. Ela sorriu, satisfeita por o Senhor Hightower, que permanecera impassível no Septo Estrelado, ter admitido que também não esperava por aquilo — pois isso significava que ele também gostaria de se lembrar do que compartilharam.
— Suponho que ambos estávamos enganados sobre esta noite, então — sussurrou ela. — E talvez isso nem seja tão terrível assim.
Ormund exalou, algo próximo a uma risada, porém mais carinhosa do que divertida. Sim, os dois estavam completamente errados. Nada de união fria, selada com cerimônia e consumada por razões políticas. Apenas essa ternura e Redwyne enroscada nele como se pertencesse àquele lugar.
Errados da melhor maneira possível.
— Não — reconheceu ele —, não é nada terrível.
E então a beijou mais uma vez. Um toque lento e demorado de lábios que agora não continham mais fome alguma… somente uma afeição sossegada entre marido e mulher que haviam descoberto algo inesperadamente doce em seu casamento.
Era estranho pensar que naquele mesmo dia estivera diante dos deuses e dos homens para tomar como seu senhor e marido um homem que conhecia apenas de nome e um breve vislumbre, imaginando que tipo de vida complicada a aguardava a portas fechadas como a nova Senhora Hightower. E agora percebia que o título não era a única coisa que a fazia querê-lo por perto.
O Ormund, por si só, era alguém que ela queria conhecer todos os dias quando acordasse ao lado dele.
— Encontramos algo que nenhum de nós dois esperava. Algo pequeno e frágil como a primeira flor em uma trepadeira e, ainda assim, vivo. — Deslizou os dedos pelo braço dele, com um sorrisinho no rosto. — E descobrimos que gostamos um do outro, que podemos ser honestos, e que talvez este casamento possa ser mais do que aquilo que foi feito para ser.
Caiu em silêncio por um momento, refletindo enquanto o olhava nos olhos. Ela ponderou as palavras algumas vezes, mas enfim falou:
— Levando tudo isso em conta, você acha que, com o tempo, podemos acabar nos amando…? — Acariciou o rosto dele, deslizando o polegar sobre os lábios. — Ou será que isso é apenas uma coisa para tolos que acreditam em canções?
Ormund parou para pensar. O questionamento dela não havia o chocado como deveria, mas era algo que importava. E muito. Ele nunca ousara imaginar isso; nem sequer se interessara no assunto. Não existira amor em seu primeiro casamento, e ele também não amara mulher alguma, nem antes — quando era jovem —, nem depois. E como o casamento de hoje era arranjado por motivos de legado e política, com alguém que mal conhecia… não tinha por que sequer pensar em algo tão… supérfluo.
Mas agora… depois daquela noite inesperada de pura honestidade entre os dois? Depois da intimidade afetuosa que compartilharam? A ideia já não parecia nem um pouco absurda.
— Não sei. — Estudou o rosto dela, com um foco especial para seus graciosos olhos. — Mas… não me surpreenderia se acabássemos nos amando.
mordeu o lábio, simplesmente o encarando. Aquela incerteza misturada com possibilidade era uma concessão rara para ele. De algum modo, ela sabia que aquelas palavras a tinham custado muito. Lorde Ormund Hightower — o homem inabalável que avaliava cada decisão pelo dever e pelas consequências — havia admitido incerteza sobre algo que não era controlável. Isso significava mais do que qualquer certeza teria significado para Redwyne.
— Acho que essa é a resposta mais honesta que poderia ter me dado. — Acenou devagar com a cabeça. — Quando entrei naquele septo hoje, sabia exatamente qual era o papel que eu abraçaria: Senhora Hightower, sua esposa, mãe dos seus filhos. Mas não esperava me tornar alguém que você quisesse conhecer… E também não imaginava querer conhecê-lo.
Um sorriso pequeno porém genuíno tomou seus lábios. Ela olhou o cômodo ao redor — o lugar que antes pertencia somente a ele, mas agora era dos dois. Seus dedos repousaram sobre a mão dele em uma carícia suave, e seu olhar voltou para o dele.
— Parece que nos enganamos sobre algumas coisas esta noite, de fato. — Aconchegou-se mais nos braços dele. — Então talvez eu também não ficaria surpresa se acabássemos nos amando.
Ormund virou a mão por baixo da dela, deixando a palma para cima — e entrelaçou seus dedos sem dizer uma palavra. Um gesto pequeno que, naquela manhã, teria sido impensável, já que ele nunca fora o tipo de homem que dava as mãos por mera formalidade. Mas essa noite com tinha reescrito tudo o que ele pensava que um casamento poderia ser.
As velas enfim se apagaram por completo, mergulhando os aposentos em uma escuridão suave. Nenhum dos dois se importou, no entanto. O tênue luar que se infiltrava pela janela e a proximidade entre eles eram luz suficiente.
Ormund levou a mão dela aos lábios e beijou-lhe os nós dos dedos. Outro gesto inimaginável horas atrás. Então se ajeitou na cama para trazê-la por completo contra si, acomodando a cabeça dela sobre seu peito.
Nada de grandes declarações nem promessas de amor ainda. Apenas permaneceram ali, abraçados em silêncio enquanto o sono se aproximava aos poucos. O mundo talvez os conheceria somente como o Senhor e a Senhora Hightower. Mas ali, sob a escuridão quente e silenciosa de seus aposentos, só existiam Ormund e …
Marido e mulher. De verdade.