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Revisada por Calisto
Última Atualização: 29/03/26

’s POV
A sensação era tão familiar que parecia um déjà vu. O vento frio da manhã de setembro atravessava a minha capa de viagem, arrepiando minha pele. Meus pais estavam ao meu lado, carregando algumas de minhas malas e me observando com aquele olhar meio orgulhoso, meio preocupado.
— Vai dar tudo certo, querida. — Minha mãe ajeitou o cachecol ao redor do meu pescoço, um sorriso caloroso no rosto.
— Eu sei, mãe. — Sorri de volta, tentando passar confiança. — Vocês não precisam se preocupar tanto. Não é como se eu fosse me perder pelos corredores ou coisa do tipo.
— Bem, considerando o histórico que você tem, não duvido nada que isso aconteça — meu pai respondeu com uma risada leve, enquanto ajustava a alça de uma das malas que carregava.
— Sou praticamente uma veterana, pai. E, além disso, vocês sabem que a Gina e os outros não vão me largar um segundo — retruquei, cruzando os braços com um sorriso brincalhão.
Minha mãe me olhou com aquela mistura de carinho e leveza que só ela conseguia.
— Ainda assim, se precisar de algo, sabe que é só mandar uma coruja — meu pai completou, sua voz suave, mas carregada de preocupação. Apenas concordei com a cabeça.
Meus dedos apertavam a alça do meu malão enquanto eu atravessava a estação King’s Cross, meu coração acelerado a cada passo que me aproximava da plataforma 9 ¾. Fazia dois anos desde a última vez que eu pisara ali, dois anos desde que ouvi o apito do Expresso de Hogwarts cortando o ar, anunciando o início de um novo ano.
Será que Harry, Rony, Hermione, Gina, Fred e George estariam lá me esperando? Era estranho admitir que eles eram a maior parte da minha expectativa.
Senti um sorriso surgir nos meus lábios enquanto lembrava da última carta que recebi da Hermione. Ela insistia que todos estavam contando os dias para me ver novamente e, na verdade, isso me acalmava. Era bom saber que, depois de tantos recomeços, ainda tinha um lugar para onde pertencer.
Finalmente, cheguei ao bloco de tijolos entre as plataformas nove e dez. Meu coração quase parou por um segundo. Ajeitei a postura, respirei fundo e empurrei meu carrinho contra a barreira mágica, atravessando-a sem hesitação.
A plataforma estava lotada e barulhenta, exatamente como eu me lembrava. A fumaça que saía da locomotiva vermelha me envolveu, e por um momento eu só conseguia observar. Era como se dois anos nunca tivessem passado.
E então, no meio do caos, eu os vi.
Harry ria do constrangimento de Rony, que fazia caretas, com as bochechas vermelhas, enquanto Hermione ajustava sua gravata. Ao lado, Fred, George e Gina estavam conversando animadamente sobre algo.
Quando atravessei o pilar, os três me olharam ao mesmo tempo, e não precisei de mais nada. Corri em sua direção, e logo eles também estavam correndo em meu encontro.
Antes que Gina pudesse me alcançar, um par de braços me puxou para um abraço apertado. Eu soltei um suspiro de alívio, reconhecendo-o.
Fred me abraçou com força, como se estivesse tentando me proteger de tudo ao redor. Seu cheiro me envolveu e, por um momento, eu realmente senti a saudade se desmanchando dentro do meu peito.
— Eu sabia que você estava com saudade de mim — ele disse, baixinho, sorrindo. Ele me olhou com carinho, como se me visse pela primeira vez em muito tempo. — E, cá entre nós, a casa não era a mesma sem você. Sentimos sua falta, . Eu senti.
Fred me segurou por mais um momento, seus braços firmes e reconfortantes, como se o abraço fosse o suficiente para preencher o tempo que ficamos afastados. Quando ele finalmente me soltou, ainda pude sentir o calor do seu toque, um conforto que parecia faltar em tudo o que eu fazia nos últimos meses.
— É bom te ver de novo, — George disse, com um sorriso largo, vindo logo depois de Fred. Ele me envolveu em um abraço apertado, quase tão reconfortante quanto o de Fred. Eu senti aquele toque familiar, uma mistura de carinho e a energia que sempre teve entre nós. — Finalmente as coisas vão voltar ao que eram.
Eu sorri, concordando, meu peito preenchido por aquela sensação de pertencimento, como se a distância não tivesse existido. O abraço de George durou mais um momento, como se ele também quisesse garantir que esse reencontro fosse real.
Logo depois, Gina saltou para me abraçar, com aquele sorriso radiante que só ela sabia ter.
— Eu sabia que você ia voltar para Hogwarts! — Gina disse, sua voz carregada de alegria. — Você fez a escolha certa, . Nós vamos nos divertir tanto esse ano! Por Merlin, eu tenho tantas coisas para te contar!
Eu sorri para ela, meu coração aquecido pela amizade que compartilhávamos. Mesmo com todo o caos que ainda estava por vir, estar com eles novamente fazia tudo parecer mais fácil.
— Eu também senti saudades, Ginny — respondi, me afastando um pouco do abraço apertado. — E não vejo a hora de ouvir tudo o que você tem para contar.
— Eu esperei tanto por isso! — A voz animada de Hermione chamou minha atenção enquanto ela se aproximava com Harry e Rony logo atrás.
Hermione, se atirou em mim e eu passei meus braços ao redor de seu corpo.
— Que saudades! — disse ela, a voz levemente trêmula de emoção. — Não acredito que finalmente está de volta!
Eu ri, abraçando-a com força.
— Eu também senti sua falta, Mione. Não aguentava mais ficar longe de vocês.
! — Harry exclamou, tirando os óculos para limpá-los nervosamente, antes de me puxar para um abraço caloroso. — É tão bom ver você de novo. A gente precisa te atualizar sobre tudo que aconteceu por aqui!
— E as novidades de Beauxbatons também — acrescentou Rony, com um sorriso sincero enquanto passava seus braços ao meu redor com carinho. — Mas, er… sem falar em francês, tá?
Ri com o pedido. Sempre que enviava cartas contando sobre as coisas que rolavam na França, acabava escrevendo algumas palavras em francês pelo costume — mas aparentemente Ron não era muito fã da língua.
— Jura que ainda não aprendeu nenhuma palavra, Rony? — Hermione o cutucou, revirando os olhos.
Antes que pudesse trocar mais palavras com os outros, Molly Weasley falou, enquanto vinha em minha direção com um sorriso acolhedor.
, querida! Olhe só para você, tão crescida! Nem acredito que está de volta — disse ela, sua voz cheia de emoção enquanto afagava meu cabelo.
— Estávamos contando os dias para ter você conosco outra vez — acrescentou Arthur, se aproximando e me cumprimentando com gentileza. — A garotada não parava de falar de você.
— Vocês são sempre tão carinhosos comigo… — murmurei, sorrindo. Eles sempre foram como uma segunda família para mim, e voltar a vê-los daquele jeito me fazia sentir que estava exatamente onde deveria estar.
Meus pais também estavam próximos, trocando cumprimentos amigáveis com Molly e Arthur. Era fácil notar como eles se davam bem, suas conversas fluíam com a naturalidade de velhos amigos.
— É tão bom ver vocês de novo, Lucian, Vivienne… — disse Molly, sorrindo para os dois. — Imagino o quanto será difícil deixá-la partir mais uma vez, mas prometo que cuidaremos bem dela.
— Não temos dúvidas disso, Molly — respondeu minha mãe, apertando sua mão em um gesto caloroso. — A sempre fala de vocês com tanto carinho. Estamos felizes por saber que ela estará rodeada por amigos tão incríveis.
— Mas já avisamos que, se precisarem de algo, podem nos chamar — acrescentou meu pai, olhando para mim com aquele ar protetor que só ele tinha. — E, , lembre-se de nos escrever com frequência, está bem?
— Prometo, pai — disse, abraçando-o apertado. — E prometo não esquecer de avisar sobre os trabalhos atrasados, mãe.
Minha mãe riu, me abraçando logo em seguida.
— Boa garota. Agora, divirta-se e aproveite cada momento.
Depois de mais algumas palavras de despedida e abraços apertados, ouvi o apito do trem, sinalizando que era hora de embarcar. Fred e George pegaram minhas malas com um exagerado “Deixa com a gente, madame!”, e eu me virei para acenar uma última vez para meus pais e para Molly e Arthur.
— Cuide-se, meu amor! — gritou minha mãe.
— Amamos você! — completou meu pai, acenando energicamente. Respondi um último “Amo vocês” antes de, finalmente, subir no trem ao lado dos outros.
Assim que entramos, Fred e George foram na frente, abrindo caminho pela multidão enquanto Gina e eu os seguíamos. Harry, Hermione e Rony vieram logo atrás, discutindo se o trem parecia mais lotado do que nos anos anteriores.
— Achei uma cabine! — Fred anunciou, empurrando a porta com um movimento exagerado e se jogando no banco ao lado da janela.
— O rei do exagero — Gina murmurou, revirando os olhos, mas acabou rindo enquanto entrava.
Eu me sentei perto da janela oposta, colocando minha mochila no colo. Harry e Hermione se acomodaram no banco ao meu lado, e Gina, Fred, George e Rony ficaram no banco de frente. Mal tínhamos nos ajeitado, e Fred já estava me cutucando com aquele sorriso de sempre.
— Então, , vou fingir que não fiquei chateado com o fato de não ter me mandado uma carta decente nos últimos meses... — disse ele, colocando a mão no peito de forma dramática.
Eu revirei os olhos, mas sua provocação fez algo dentro de mim se remexer de leve. Ele dizia isso como se tivesse sentido minha falta, mas, durante todo o tempo que passei longe, nunca fez questão de responder nenhuma das minhas cartas.
No começo, eu esperava. Pensava que ele podia ter se esquecido, que talvez tivesse perdido a carta ou estivesse ocupado demais. Mas, conforme os meses passaram e eu nunca recebi nada em resposta, a frustração se transformou em um leve ressentimento. Fred seguiu a vida dele como se eu nunca tivesse estado aqui, e isso doía mais do que eu queria admitir.
O jeito como ele reagiu ao me ver mais cedo até me surpreendeu — como se só tivesse se lembrado de mim no momento em que apareci na frente dele.
— Eu mandei cartas para todos que estão aqui. Talvez você devesse se perguntar por que eu parei de escrever tantas para você nesses últimos tempos.
Ele arqueou a sobrancelha, um sorriso convencido brincando nos lábios.
— Ora, eu sei por quê. Você estava ocupada demais suspirando de saudade — respondeu ele, piscando para mim.
Eu soltei uma risada seca, balançando a cabeça.
— Ou talvez tenha sido porque eu sabia que você nunca lê cartas mesmo.
— Ei, eu leio sim! — Fred retrucou, cruzando os braços.
— Responder que é difícil — George comentou, rindo ao ver o olhar irritado do irmão. Fred bufou, e George levantou as mãos em rendição.
Eu ri junto, mas aquele incômodo continuava lá, enterrado fundo o suficiente para que ninguém percebesse.
— Sorte minha que tenho Mione e Gina. Ler as cartas era o meu momento favorito da semana. Quer dizer, alguém precisava me atualizar sobre o caos de Hogwarts, não é?
— Você não perdeu nada por aqui, — Harry comentou, rindo. — Mas e a França? Como foi?
— Foi incrível, mas bem diferente. Beauxbatons é… lindo, todo mundo parece ter saído de um conto de fadas, mas é tão sério! — Suspirei, me recostando no banco. — Não tinha toda essa diversão que temos aqui. Sentia falta das festas na sala precisa, das fofocas, das pegadinhas…
— Você está dizendo que quer mais festas este ano? — George perguntou, com um brilho travesso nos olhos.
— Você sabe que eu não vou negar. É meu quinto ano, preciso aproveitar — brinquei, o fazendo rir.
— Mas e os meninos, ? Ouvi falar que os franceses são tão interessantes… — Gina perguntou, travessa, com um sorriso malicioso no rosto.
Rony fez uma careta imediata, revirando os olhos como se estivesse prestes a fugir da conversa.
— Por Merlin, Gina, ninguém quer ouvir isso.
— Fala por você, Ron — Fred interrompeu, inclinando-se para frente com interesse exagerado. — , conta tudo. Algum francês encantador conseguiu roubar seu coração?
Eu revirei os olhos, rindo com a “preocupação” do ruivo.
— Ah, é impossível não falar que eles não têm um certo charme, mas ainda prefiro os daqui… — disse casualmente.
Fred arqueou uma sobrancelha, um sorriso se formando em seus lábios, mas antes que ele pudesse responder, George entrou no meio da conversa.
— Certo, chega de papinho. Vamos falar de coisas importantes, como quem vai me ajudar a testar os novos produtos das Gemialidades este ano.
Hermione suspirou, murmurando algo sobre “prioridades completamente equivocadas”.
Eu desviei o olhar para a janela, deixando a conversa se esvair em segundo plano. O Expresso de Hogwarts serpenteava pela paisagem britânica como um dragão de ferro e vapor, expelindo fumaça para o céu nublado. Meus olhos se prenderam no contraste entre o verde apagado dos campos e o cinza melancólico acima, e, por um momento, me senti hipnotizada. A tranquilidade do cenário parecia querer abafar a excitação que fazia meu coração bater tão rápido.
A viagem seguiu calma depois disso. Entre risadas ocasionais e o conforto da companhia dos meus amigos, acabei fechando os olhos e me entregando ao balanço do trem. Quando percebi, estava cochilando, com a cabeça apoiada no ombro de Harry, que, para minha sorte, não parecia se importar. O restante do percurso passou como um borrão tranquilo, como se minha ansiedade inicial finalmente tivesse dado lugar a uma paz inesperada.
*
A comida de Beauxbatons era boa, claro, mas não tinha como competir com as refeições de Hogwarts.
Eu até ri sozinha, pensando em como, mesmo depois de tudo que passei lá, nada, absolutamente nada, se comparava ao banquete aqui. A comida francesa tinha sua graça, mas cá entre nós… eu realmente sentia falta dessas tortas quentinhas, do frango dourado, dos pães fresquinhos que quase derretem na boca, e, principalmente, das sobremesas que são um espetáculo por si só.
Eu estava praticamente de olhos brilhando, pegando um pedacinho de tudo. Não podia deixar de me perguntar por que eu tinha ficado tanto tempo longe disso. De repente, percebi que estava praticamente suspensa em uma bolha de felicidade enquanto devorava a comida.
— Pelo jeito a comida de Beauxbatons não era tão incrível assim, hein? — George comentou, tentando segurar o riso enquanto me observava pegar mais um pedaço de torta com a empolgação de alguém que não comia há dias. — Tá parecendo que passou os últimos anos à base de sopa rala e ar fresco.
— Você sabia que não é educado julgar uma menina quando ela está comendo igual a um trasgo faminto? — retruquei, apontando o garfo para ele com um olhar desafiador.
— Uau, calma aí, ninguém aqui quer virar o próximo prato do banquete! — George levantou as mãos, fingindo se proteger, mas ainda com aquele sorriso travesso.
— Olha, estou tentando recuperar o tempo perdido. — Dei de ombros, fingindo desdém, enquanto atacava um pedaço de pão quentinho. — E, sinceramente, você tá com inveja da minha habilidade de comer e aproveitar a vida ao mesmo tempo.
— É, claro, porque todo mundo sonha em competir com você em quem devora mais tortas em menos tempo. — Ele revirou os olhos, mas o tom brincalhão continuava.
— Não me provoque, George. Você sabe que eu ganho. — Sorri de canto, achando graça.
— Já tiramos a prova disso uma vez — Fred entrou na conversa, rindo.
Gina riu, cutucando meu braço.
— Bom, agora que você está de volta, vamos te atualizar das fofocas, porque, minha amiga, Hogwarts não parou enquanto você esteve fora. Você quer primeiro as boas ou as bombas? — ela perguntou, apoiando o queixo nas mãos, os olhos brilhando de empolgação.
— Sempre as bombas primeiro — respondi, sem nem pensar.
— Excelente escolha. — Ela trocou um olhar cúmplice com Hermione e lançou um sorriso travesso. — Para começar, Pansy Parkinson e Draco Malfoy não estão mais juntos.
— Espera, o quê? — Me engasguei com um gole de suco. Ele e Pansy estavam juntos desde quando saí de Hogwarts, dois anos atrás, então me surpreendi e fiquei até mesmo um pouco curiosa para saber o motivo do fim do relacionamento.
— Pois é — Hermione confirmou, mexendo distraidamente na própria comida. — Parece que eles brigaram feio no final do ano passado, algo a ver com Pansy ter dado bola para outro cara.
— E pra piorar, acho que foi ela quem terminou — Gina acrescentou, inclinando-se para frente como se estivesse compartilhando um segredo. — Malfoy ficou meio perdido no começo, mas agora… digamos que está aproveitando a vida de solteiro. Até demais, na verdade.
— Chocante — respondi, enquanto Rony bufava do outro lado da mesa.
— Ok, próxima fofoca — Gina continuou. — Lilá Brown e Simas estão naquele vai e volta de sempre, mas juro que a qualquer momento alguém vai jogar um feitiço de silêncio neles porque ninguém aguenta mais.
— Isso não é novidade — Harry resmungou, revirando os olhos.
— Agora uma boa: Blaise Zabini começou a flertar mais com algumas meninas daqui… e posso jurar que te olhou umas três vezes desde que chegamos.
Arqueei uma sobrancelha. Blaise era um cara reservado, principalmente sobre sua vida amorosa. Ele não parecia curtir ficar com as meninas de Hogwarts, pois eram poucas as que poderiam dizer que ficaram, de fato, com ele.
— Isso eu duvido. Ainda mais se me viu comendo desse jeito — brinquei.
— Pois duvide menos. Você tem seu charme, amiga. — Gina riu, tomando um gole da própria bebida. — Aposto que em menos de uma semana ele arranja um jeito de te abordar.
— Eu mesmo aposto que não dura nem isso — Fred entrou na conversa, como um bom enxerido, inclinando-se contra a mesa com um sorriso presunçoso. — tem um talento especial para atrair atenção.
— Para o seu desgosto, Fred? — provoquei, sorrindo para ele.
— Só se for desgosto para os outros. — Ele piscou.
Revirei os olhos, fingindo impaciência, mas sentindo um calor subir pelo meu rosto.
— Agora que você está atualizada, acho que a festa de boas-vindas vai ser muito mais interessante.
— Festa? — perguntei, interessada.
— Sala Precisa. Depois do toque de recolher — Gina disse como se fosse óbvio. — É claro que você vai, né?
— Vocês não me deixariam faltar, mesmo se eu não quisesse ir — respondi, rindo.
— Bom, isso é verdade. — Mione riu.
— Mas agora falando da melhor parte da sua volta: vamos dividir o dormitório! — Gina sorriu, apoiando o rosto nas mãos.
— Sério, eu já tava de saco cheio de acordar com a Lilá Brown contando os sonhos dela com o Rony. — Hermione revirou os olhos, fazendo Gina e eu rimos.
— Ela não estava com Simas? — perguntei, confusa. — Pensei que a quedinha dela por Ron já tinha passado — provoquei, cutucando Rony com o cotovelo.
— Sabe-se lá o que passa pela cabeça dela. Nada faz sentido — Gina resmungou. — Assim que termina com o Simas, ela vai correndo para o Ronyzinho.
Rony ficou vermelho na hora.
— Não é minha culpa!
— Mas é claro que não — Hermione disse, a voz carregada de sarcasmo. — Você quem não dispensa ela de uma vez…
— Deixando o drama do Rony de lado… — continuei, olhando para as meninas. — Eu juro que nem acredito que vou ter vocês por perto o tempo todo. Não que cartas fossem ruins, mas nada supera isso.
— Finalmente vamos poder fofocar sem precisar esperar semanas para uma resposta! — Gina concordou, empolgada.
Depois do banquete, subimos para o dormitório da Grifinória, onde eu pude organizar minhas coisas com a ajuda das meninas. Era estranho, no melhor dos sentidos, ver minhas malas ali no meio das delas, sabendo que dessa vez eu ficaria.
Hermione ajudava a dobrar algumas roupas enquanto Gina revirava o baú em busca de algo para a festa.
— O que você vai usar, ? — ela perguntou, jogando uma blusa para o lado. — Porque hoje é sua reestreia em Hogwarts.
— Relaxa, Ginny, eu trouxe roupas decentes — respondi rindo.
Depois de um tempo, com muita indecisão e trocas de roupas, finalmente estávamos prontas. Gina escolheu um vestido curto de veludo vinho, que realçava seu cabelo vibrante. Hermione, que normalmente não ligava tanto para essas coisas, estava deslumbrante em um conjunto preto justo, simples, mas elegante.
O vestido azul-marinho que escolhi caía perfeitamente no meu corpo, justo no tronco e leve na saia, que tinha um corte assimétrico esvoaçante, com pequenos detalhes brilhantes.
— Bom, acho que está mais do que aprovado — Gina disse, nos analisando com um olhar crítico antes de soltar um sorriso satisfeito.
— Só espero que não acabe em detenção. — Hermione suspirou, mas não parecia de fato preocupada.
— É uma festa clandestina, claro que vai acabar em confusão. — Dei de ombros, pegando a garrafa de bebida que George nos passou antes de subir para o dormitório masculino.
— Você quer mesmo começar agora? — Hermione perguntou, olhando a garrafa.
— Se vamos fazer isso, vamos fazer direito. — Gina pegou alguns copos escondidos no fundo do baú.
Com uma risada cúmplice, fizemos um pequeno brinde e tomamos os primeiros goles. O líquido queimou um pouco na garganta, mas logo tomamos mais um pouco. Então, minutos depois, as batidas na porta vieram baixas.
— Devem ser os meninos — Mione falou.
Outro ponto diferente daqui e de Beauxbatons são as permissões de dormitórios. Lá na França, ninguém do sexo masculino pode entrar no dormitório feminino, e vice versa. Já aqui, as coisas são mais… liberais. Pelo menos até meia-noite, horário do toque de recolher. Não que alguém passasse analisando quarto por quarto, era bem tranquilo.
Até meu segundo ano aqui, os meninos viviam dormindo em nosso dormitório. Pra ser sincera, isso era uma das milhares de coisas que sentia saudades daqui, essa proximidade e liberdade que tínhamos.
— Se não abrirem logo, vamos ter que invadir — George sussurrou.
Gina rolou os olhos, mas abriu a porta sem cerimônia para os meninos entrarem no quarto. Assim que Fred me viu, simplesmente parou por um segundo, os olhos deslizando lentamente por mim antes de abrir um sorriso torto.
— E eu achando que você não conseguiria chamar mais atenção… — Fred comentou, cruzando os braços, o olhar descaradamente fixo em mim.
Franzi a testa, sentindo o calor subir pelo meu rosto, mas me recusei a demonstrar.
— Ah, ótimo. Você já começou.
Fred sempre teve essa mania de jogar elogios como se fossem parte de uma piada interna que só ele entendia. Ele fazia isso com todo mundo, então nunca levei muito a sério. Nos conhecemos há tempo suficiente para que eu soubesse que sua lábia era afiada, e os rumores que já ouvi sobre ele só reforçavam isso.
Além do mais, eu sabia que, para ele, essas palavras nunca vinham de um lugar real. Era só provocação, brincadeira. Se eu levasse a sério, só estaria mentindo para mim mesma.
— Estou apenas fazendo uma observação. — Ele ergueu as mãos em falsa inocência, mas o brilho no olhar mostrava que ele estava se divertindo.
— Bom, então guarde suas observações para você — retruquei, cruzando os braços.
— Difícil — Fred disse simplesmente, um tom despreocupado na voz, como se fosse um fato óbvio.
Bufei, irritada, e peguei meu copo de bebida para me distrair, mas senti Gina cutucar minha costela.
— Suas bochechas estão vermelhas.
— Cala a boca.
Ela apenas riu, voltando sua atenção para Harry.
— E você, Potter? Nada para dizer?
Harry abriu a boca, depois fechou, desviando o olhar rapidamente.
— N-não é isso… Você sabe que está incrível.
— Aham. — Gina sorriu, triunfante.
— Certo, podemos parar de brincar de “quem deixa quem mais sem graça” e ir para a festa? — George interrompeu, pegando a garrafa da mesa e tomando um gole direto do gargalo.
— Concordo — falei, sorrindo para as meninas.
Os corredores estavam surpreendentemente silenciosos enquanto nos aproximávamos da Sala Precisa, como se todos os alunos conspirassem para manter a festa em segredo. Ninguém queria ser pego, então os passos eram cuidadosos e os sussurros abafados. Parecia que o castelo inteiro estava adormecido, mas sabíamos bem o que nos esperava atrás daquela porta.
Assim que entramos, o ambiente me deixou de queixo caído. Luzes arroxeadas dançavam pelo teto, iluminando a sala com um brilho etéreo que só tornava tudo mais mágico. Havia uma música vibrante preenchendo o espaço, e o som de risadas e conversas já se misturava ao ar. O lugar estava lotado, alunos de várias casas se espalhavam por ali, alguns dançando, outros reunidos em pequenos grupos.
— Agora sim, isso é uma recepção decente! — George exclamou, batendo de leve no meu ombro antes de puxar Fred para o bar improvisado no canto da sala. Não demoraram muito e já voltavam com copinhos de shot para todos nós.
— Um brinde à volta de ! — Fred ergueu o copo.
As vozes se ergueram em comemoração e eu não pude evitar um sorriso, sentindo o calor da bebida descer pela garganta logo em seguida.
— Sabe, não sei se foi uma boa ideia você voltar… — Fred comentou, inclinando-se um pouco na minha direção.
Franzi o cenho, já me preparando para retrucar, mas ele continuou antes que eu pudesse abrir a boca:
— Agora ninguém mais vai tirar os olhos de você.
Bufei, revirando os olhos.
— Engraçadinho.
— Quem disse que eu tô brincando? — Ele ergueu a sobrancelha, um sorriso de canto brincando nos lábios.
Fingi ignorá-lo, mas o olhar dele ficou na minha mente por mais tempo do que eu gostaria de admitir. Antes que pudesse responder, Gina já estava puxando minha mão.
— Agora que você foi oficialmente recebida, hora de aproveitar a festa de verdade!
Gina me arrastou e Hermione veio logo atrás, rindo. Pegamos mais um copo, dessa vez com vodka misturada a algo doce — talvez suco ou alguma poção açucarada que arrumaram para a festa. O gosto era forte mas não tão ruim, e brindamos antes de tomar um longo gole.
As luzes piscavam no ritmo da música e eu me deixei levar pela batida. Estava me divertindo, sentindo a leveza da bebida e a presença das minhas amigas ao meu lado. Dançamos juntas, rindo e cantando sem nos importar com nada.
Não sei quanto tempo havia passado quando percebi que meu copo estava vazio. Murmurei algo para as meninas e fui até a mesa onde estavam as bebidas. Assim que peguei mais um copo, ouvi uma voz conhecida atrás de mim.
— Então, como está sendo sua volta a Hogwarts?
Virei-me e dei de cara com Blaise Zabini. Ele segurava um copo, o olhar atento em mim.
— Muito boa — respondi, sorrindo. — Você se lembra de mim? Quer dizer, foram dois anos…
Ele soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
— Impossível esquecer. Você pode ter ficado dois anos fora, mas me chamou atenção antes disso.
Eu pisquei, surpresa com a resposta. Ele parecia tranquilo, mas havia algo no jeito que ele me olhava que me fez sentir um frio na barriga.
— Isso é… um elogio? — perguntei, sem saber bem o que pensar.
Blaise deu um pequeno sorriso, quase imperceptível.
— Sim, é um elogio.
Sorri com a resposta, mas antes que pudesse responder ouvi uma risada familiar e uma mão surgir sobre o meu ombro. Era Hermione, com Gina logo atrás dela, os olhos brilhando de excitação.
! Vai jogar ou não? Já vai começar!
Eu dei um sorriso aliviado e olhei para as duas.
— Acho que sim — respondi, virando para Blaise. — Até mais. Nos vemos depois?
— Com certeza. — Ele acenou com um leve sorriso, ainda observando enquanto eu me afastava.
Hermione me puxou em direção ao círculo que já se formava, onde Fred estava no meio, contando uma de suas piadas para alguns amigos. Gina riu ao meu lado, mais animada com o jogo do que qualquer coisa.
Chegando no centro, percebi que havia muitas pessoas ali, e o jogo estava começando.
A garrafa girou e parou em Theo Nott, que olhou ao redor com aquele sorriso presunçoso.
— Verdade ou desafio? — perguntou Lila, a voz cheia de expectativa.
Theo pensou por um momento, antes de responder com um sorriso malicioso.
— Desafio.
A garota fez um gesto pensativo e então disse:
— Diga algo que você nunca contou a ninguém.
Theo olhou ao redor, e por um momento o sorriso dele desapareceu. Todos estavam ansiosos, esperando a resposta. Theo se recostou na cadeira, olhando para a mesa e, finalmente, murmurou:
— Eu… tenho sentimentos por uma pessoa daqui.
Admito, fiquei curiosa e, ao olhar para Gina, entendi que seria um tópico para as sessões de fofocas, mas pelo olhar rápido que Theo deu a Dafne, poderia chutar que havia algo entre eles.
A garrafa girou de novo, parando agora em Draco Malfoy, que estava com o olhar fixo em alguma coisa à distância, claramente desconcentrado.
— Verdade ou desafio? — perguntou George.
— Desafio — respondeu Draco com um ar indiferente.
George, com um brilho travesso nos olhos, disse:
— Beije alguém que te interesse dessa roda.
Draco olhou ao redor, e seus olhos pararam por um segundo em Hermione. A tensão no ar foi instantânea, e todos perceberam o que estava acontecendo.
Sem dizer uma palavra, Draco atravessou a roda e se aproximou de Hermione. Ele a pegou pela cintura, com uma firmeza que claramente surpreendeu Hermione, e, com um movimento rápido, a puxou para perto. Antes que ela pudesse reagir, seus lábios se encontraram. Não foi um beijo suave ou tímido.
Hermione inicialmente ficou paralisada, mas logo seus olhos se fecharam e ela correspondeu, subindo sua mão para o pescoço de Draco.
A sala estava em silêncio absoluto, como se todos estivessem processando o que acabara de acontecer. Olhei rapidamente para Ron, apenas para ver uma carranca se formar em seu rosto e não consegui evitar rir baixinho com isso.
Agora era a vez de Gina. Ela olhou para todos antes de girar a garrafa, claramente se divertindo com a situação.
— Verdade ou desafio? — perguntou Cedrico.
— Desafio — respondeu Gina, confiante.
— Escolha alguém aqui e sussurre no ouvido dele um segredo que ninguém mais sabe.
Gina arqueou uma sobrancelha, mas não hesitou. Seu olhar percorreu a roda e, depois de um momento de suspense, ela se inclinou para perto de Harry. Ele arregalou os olhos quando ela sussurrou algo em seu ouvido, e seu rosto ficou levemente vermelho, enquanto abria um sorriso disfarçado.
— O que foi isso? — perguntou Rony, desconfiado.
— Segredo, Rony — respondeu Gina, piscando.
A roda explodiu em risadas, enquanto Harry ainda parecia processar o que tinha acabado de ouvir.
A garrafa girou novamente e parou em Hermione.
— Verdade ou desafio? — perguntou Harry, agora parecendo mais relaxado.
— Verdade — respondeu Hermione, hesitante.
Harry olhou para ela com um sorriso, antes de escolher seu desafio.
— Fale o nome de alguém que tenha te surpreendido hoje.
— Draco — ela respondeu, com um sorriso de canto. Mione e Draco trocaram olhares brevemente, e ele parecia bem satisfeito com isso.
A roda girou novamente e a garrafa parou na frente de Angelina.
— Verdade ou desafio? — Era a vez de Fred perguntar.
Angelina hesitou por um momento, mas logo respondeu com um sorriso:
— Verdade.
Fred, com um sorriso travesso, não perdeu tempo e perguntou:
— É verdade que você está a fim de George?
— Sim, é verdade — respondeu ela, sem hesitar.
George, que parecia um pouco sem jeito, riu, mas não conseguiu esconder o sorriso de satisfação.
— Bom saber — disse ele com um sorriso brincalhão, antes de se recostar na cadeira.
Angelina, com um sorriso descontraído, voltou a se concentrar no jogo. Dessa vez, a garrafa girou lentamente e parou em mim.
— Verdade ou desafio? — perguntou Pansy, com um sorriso malicioso.
— Desafio — respondi, com confiança.
Pansy fez uma pausa e então disse:
— Fique cinco minutos com Fred no armário.
Meu olhar cruzou com o dele no mesmo instante. Fred me encarava daquele jeito desafiador, como se esperasse que eu recuasse. Mas eu não hesitei. Apenas me levantei e segui até a parede, onde um armário estreito e apertado se materializou.
Fred entrou primeiro, e eu o segui, fechando a porta atrás de nós. A escuridão nos envolveu, e o espaço minúsculo parecia ainda menor com nós dois ali dentro. Eu podia sentir o calor do corpo dele, tão perto que qualquer movimento faria nossas peles se tocarem.
— Então… cinco minutos, hein? — ele quebrou o silêncio, a voz baixa, quase um sussurro.
— O que você está esperando disso? — retruquei, tentando soar indiferente, mas minha voz saiu mais suave do que eu queria.
Fred sorriu, daquele jeito que sempre fazia parecer que nada o abalava. Ele se inclinou um pouco, fazendo nossas mãos se encostarem levemente.
— Não estou esperando nada — murmurou. O toque foi leve, mas queimou contra minha pele. — Só… não sei o que você espera.
Eu ri, mas foi um riso fraco.
— Era você que se gabava de “me conhecer demais”.
— Eu achava que sim — ele admitiu, os olhos passeando pelo meu rosto. — Mas pra ser sincero… não sei mais.
Algo no jeito que ele disse aquilo me incomodou.
— E de quem é a culpa disso? — soltei antes de conseguir me conter.
Fred piscou, confuso, como se não tivesse entendido.
— Você que me esqueceu, Fred — continuei, cruzando os braços, tentando ignorar o aperto no peito. — Então desculpa se eu não sei como reagir com você ainda.
A expressão dele mudou. Foi um baque visível. Ele umedeceu os lábios, respirando fundo, e antes que eu pudesse desviar o olhar, se inclinou um pouco mais. Sua mão subiu, tocando meu cabelo, afastando uma mecha do meu rosto, devagar.
… — Sua voz saiu mais baixa, quase hesitante, e eu senti minha respiração falhar por um segundo.
A porta do armário se abriu de forma brusca.
— O tempo acabou! — A voz de Pansy ecoou.
Nos afastamos rápido, saindo do armário em meio às risadas e olhares curiosos. Meu coração ainda martelava no peito.
Definitivamente, era a deixa pra beber mais até esquecer.


’s POV
Minha cabeça latejava.
Soltei um gemido baixo, me encolhendo na cama enquanto a luz que entrava pelas janelas parecia zombar da minha existência. Merda. Como eu tinha parado aqui?
Esfreguei os olhos tentando juntar as peças da noite anterior, mas minha memória parecia envolta em um nevoeiro denso. A última coisa que eu lembrava claramente era a garrafa girando… depois o armário… depois a festa… depois meu quinto copo, e então tudo se embaralhava.
— Finalmente acordou. — A voz de Hermione veio do outro lado do quarto carregada de diversão.
Me virei com esforço e a vi sentada na própria cama lendo um livro. Quase não acreditei que ela estava com tanta disposição, mas lembrei que era Mione.
— Como você está se sentindo?
— Como se um trasgo tivesse dançado na minha cabeça a noite toda — resmunguei.
Ela se levantou e pegou algo dentro de sua gaveta, estendendo um pequeno frasco para mim.
— Fiz uma poção simples para dor de cabeça.
Eu nem questionei, só aceitei e virei o conteúdo de uma vez. O alívio foi quase imediato, o peso na minha cabeça diminuindo aos poucos.
— Obrigada. — Suspirei, me sentindo melhor.
Hermione apenas sorriu antes de começar a dobrar uma manta. Foi quando notei que Gina também estava acordando. Ela se espreguiçou, abriu os olhos e, assim que olhou para mim, sorriu de um jeito suspeito.
— Não me diga que você não lembra… — ela falou, e eu juro que senti meu estômago revirar no mesmo segundo.
— Lembrar o quê? — Sinceramente, nem sabia se realmente queria ouvir.
Ela riu.
— Fred te carregando até aqui, é claro.
O quê? — Meu rosto esquentou.

— Você bebeu bastante — Hermione interveio, sentando-se novamente —, e acabou dormindo no sofá enquanto conversava com a gente. Quando Fred te viu ali, simplesmente te pegou no colo e trouxe até o quarto.
Revirei os olhos e afundei no travesseiro, envergonhada.
— Ótimo. Primeira festa e já apaguei no sofá.
— Pelo menos foi meu irmão quem te trouxe. — Gina deu de ombros. — Podia ter sido pior.
— E ele ainda ficou aqui um tempo — acrescentou Hermione. — Quando voltamos, encontramos ele dormindo no chão, ao lado da sua cama.
Ergui as sobrancelhas, surpresa.
— Ele disse que ficou preocupado que você pudesse passar mal e estar sozinha, por isso ficou — Gina explicou. — Mas assim que entramos ele acordou, nos deu boa noite e voltou pro próprio dormitório.
— Foi bem fofo da parte dele — Hermione comentou, e eu suspirei, concordando com a cabeça.
— Dos males, o menor. Pelo menos não passei mal mesmo, aí sim seria vergonhoso. — falei, mais tranquila. Tentando ignorar as lembranças da minha conversa com Fred no armário.
*
O salão principal estava barulhento como sempre. O efeito da poção de Hermione já tinha aliviado a dor, mas meu corpo parecia exausto da noite anterior.
Eu, Hermione e Gina nos sentamos na mesa da Grifinória, servindo-nos de torradas e suco de abóbora. Eu ainda estava assimilando o fato de que Fred tinha me carregado até o quarto quando ouvi a risada inconfundível dele vindo de alguns lugares à frente. Ele e George estavam sentados com Rony e Harry, conversando animadamente. Assim que nos viram, acenaram.
— Ora, ora, se não é a Bela Adormecida — disse Fred assim que nos aproximamos.
Revirei os olhos, já esperando as provocações.
Outra coisa incrível em Fred era a capacidade de fingir que tudo estava muito bem, mesmo quando não estava. Brigamos poucas vezes e, na maioria delas, ele fez isso. Mas se ele me conhecia bem o suficiente, ia perceber que eu não estava feliz com a nossa situação.
— Muito engraçado, Weasley.
— Foi um espetáculo e tanto. Nunca vi alguém dormir tão profundamente no meio de uma conversa. — Ele apoiou o cotovelo na mesa, me observando com divertimento. — Achei que teria que te acordar, mas decidi que carregar você nos braços seria mais heroico.
George riu, lançando um olhar malicioso.
— Ele queria um momento de glória. Ser um cavalheiro e tudo mais.
— E conseguiu? — Cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha para Fred.
— Modéstia à parte, acho que sim. — Ele sorriu, inclinando a cabeça. — Mas admito que esperava um pouco mais de gratidão.
Revirei os olhos pela milésima vez em menos de dez minutos de conversa, pegando uma torrada do prato dele sem cerimônia.
— Agradecer o quê? Você que decidiu me carregar.
— E é assim que você retribui seu nobre salvador? — Ele fingiu indignação, apertando o peito como se eu tivesse partido seu coração.
Hermione e Gina riram, enquanto Harry e Rony continuavam focados na comida, completamente alheios à nossa troca de farpas.
Fred estreitou os olhos para mim, avaliando minha escolha de café da manhã como se planejasse vingança.
— Só pra constar, você me deve uma.
— Ah, claro. Eu te pago depois. — Dei uma mordida na torrada e pisquei para ele.
Fred balançou a cabeça, seu sorriso vacilando um pouco, percebendo que minhas respostas ácidas não mudariam tão cedo.
— Enfim, vocês exageraram ontem — comentou Hermione, olhando significativamente para os gêmeos.
— Exagero é uma palavra muito forte — George rebateu.
— Exato — concordou Fred. — Eu chamaria de… aproveitamento total do evento.
Gina bufou.
— Harry quase caiu da escada na hora de voltar, então acho que ‘exagero’ se aplica, sim.
O próprio Harry, que até então estava apenas ouvindo, resmungou.
— Não caí, tropecei. Existe uma diferença.
— Se Gina e Hermione não tivessem te segurado, você estaria no terceiro andar agora — Rony acrescentou com a boca cheia.
Ri, finalmente relaxando. O clima descontraído do café da manhã foi dissipando a vergonha e o estresse da noite anterior. Depois de um tempo, Hermione começou a mexer inquieta no guardanapo, o que só podia significar uma coisa.
— Certo, já nos alimentamos. Agora podemos ir à biblioteca.
— Mione… — protestei, mas ela já estava de pé.
— Sem desculpas. Ainda não pegamos os livros que precisamos para a primeira redação de Feitiços.
— O que seria de nós sem você, Hermione? — ironizou Fred, lançando um olhar cúmplice para George.
— Provavelmente já teriam sido expulsos — ela respondeu de imediato, fazendo todo mundo rir.
Sem muitas opções, eu e Gina a seguimos até a biblioteca, onde, apesar do meu cérebro ainda estar se recuperando, tentei pelo menos fingir que estava sendo produtiva.
Mesmo que Gina e eu não fôssemos tão fanáticas por leitura quanto ela, era impossível não admitir que o ambiente tinha seu charme. A biblioteca de Hogwarts era enorme, com prateleiras que pareciam se estender até o teto, cheias de livros sobre os mais variados assuntos. O cheiro de pergaminho e tinta pairava no ar, e a luz suave das janelas criava uma atmosfera aconchegante.
Hermione imediatamente mergulhou em uma pilha de livros, folheando páginas com a expressão concentrada que só ela tinha. Gina e eu nos sentamos em uma mesa próxima, trocando olhares antes de rirmos baixinho.
— Eu não sei como ela consegue — murmurei.
— Acho que ela já nasceu assim — Gina respondeu, observando Hermione anotar algo no pergaminho.
Peguei um livro aleatório sobre feitiços defensivos, e o folheei durante uma hora inteira, mas minha mente não estava exatamente focada na leitura. De vez em quando, desviava o olhar para a janela, sentindo uma leve inquietação. Algo parecia estar faltando.
— Cadê os meninos? — perguntei, franzindo a testa. — Eles sumiram, né?
Hermione levantou os olhos do livro e ajeitou a pena entre os dedos.
— Provavelmente treinando para a primeira série de jogos de Quadribol — respondeu. — O campeonato vai começar em breve, e eles não estão dispostos a perder.
Gina sorriu, animada, parecendo revigorada com o assunto.
— Devem estar no campo agora mesmo. Querem ir assistir?
Troquei um olhar com Hermione, que hesitou por um segundo, mas acabou suspirando.
— Está bem. Mas só porque já li o suficiente por hoje.
Rimos e recolhemos nossas coisas. Eu ainda sentia um leve resquício da ressaca, mas a ideia de ver os meninos jogando parecia interessante. Talvez um pouco de ar fresco me fizesse bem.
O campo de Quadribol estava vibrante sob a luz dourada da manhã. O vento frio batia em nossos rostos enquanto subíamos as arquibancadas, e podíamos ver a equipe da Grifinória já em pleno treino. Harry voava rápido como um raio, seus olhos atentos enquanto procurava o Pomo de Ouro. Rony estava concentrado nos aros, defendendo os gols com uma determinação feroz. Fred e George estavam em pura sintonia, rebatendo os balaços com força e precisão.
— Eles continuam muito bons — comentei, observando Fred dar um impulso ágil na vassoura e acertar um balaço com tamanha força que quase derrubou um dos artilheiros da própria equipe.
— Meus irmãos podem ser idiotas na maior parte do tempo, mas, quando se trata de Quadribol, eles levam a sério — Gina disse, orgulhosa.
Ficamos ali por alguns minutos, assistindo os passes e jogadas se desenrolarem no ar. Havíamos chegado no final do treino, mas ainda conseguimos assistir um pouco. Hermione, como esperado, não estava muito interessada, mas ainda assim se esforçava para acompanhar. Já Gina vibrava a cada jogada bem executada, ela sempre gostou bastante do esporte e ia tentar os testes como artilheira no próximo ano.
— Vamos descer um pouco? — sugeri. — Quero ver de perto.
Gina assentiu imediatamente, puxando Hermione consigo. Descemos para a lateral do campo, onde podíamos ver melhor os jogadores em ação. Foi nesse momento que Fred nos notou e deu um largo sorriso.
— O que temos aqui? Um fã-clube? — gritou do alto, fazendo George rir.
— Nada disso, só viemos ver se vocês ainda têm talento — retruquei, brincando.
Fred fingiu indignação antes de fazer uma curva fechada no ar e descer rapidamente em nossa direção. Antes que eu pudesse reagir, ele pousou a poucos metros de mim e apoiou um dos braços no cabo da vassoura.
— Quer testar suas habilidades? — perguntou, arqueando uma sobrancelha. Lá vem…
— O quê? Eu? — ri, desconfiada. — Acho que passo essa.
— Ah, qual é, Moonveil. Você já voou antes, não? — ele provocou. Merlin, ele sabia fazer isso direitinho. Cruzei os braços fingindo desinteresse, mas senti uma pontada de desafio na voz dele.
— Já, mas não sou nenhuma especialista.
— Perfeito, então pode começar o treinamento agora mesmo! — E, antes que eu pudesse protestar, ele jogou uma vassoura em minha direção.
Olhei para Gina e Hermione em busca de apoio, mas a primeira estava rindo e a segunda apenas balançou a cabeça, já acostumada com as loucuras dos Weasley.
— Se eu cair, você vai se arrepender — avisei, apontando em sua direção com uma mão e segurando a vassoura com a outra.
Fred sorriu, divertido.
— Prometo pegar leve…
Respirei fundo antes de montar na vassoura, sentindo a adrenalina subir. Pelo menos o restante do time havia ido embora com o fim do treino, a humilhação seria menor.
Senti o vento frio acariciar meu rosto assim que me posicionei sobre a vassoura. Meus dedos estavam tensos, apertando as cerdas de madeira. O céu acima de Hogwarts estava limpo, e o campo de quadribol se estendia à minha frente, convidativo, mas desafiador. Respirei fundo, tentando acalmar o coração que batia forte dentro do meu peito.
— Vai em frente, , eu não vou deixar você morrer hoje, fica tranquila — ele disse com a voz divertida, mas a provocação era clara.
Bufei, tentando esconder o nervosismo, mas não consegui evitar a tensão que subia pelas minhas pernas.
— Vai ficar tudo bem — respondi, mais para mim mesma do que para ele.
Com um empurrão nos pés, dei o primeiro passo. O efeito foi quase imediato: a vassoura levantou de forma instável, e os primeiros segundos de voo foram um turbilhão de sensações descontroladas. O chão se afastava rapidamente e, por um momento, senti meu estômago se revirar, como se estivesse prestes a cair de um penhasco. Minhas mãos apertaram com mais força o cabo, tentando manter o controle enquanto a vassoura parecia ter vontade própria.
Olhei para frente e forcei um olhar concentrado, controlando a respiração. O vento mais forte soprava contra o meu rosto, mas, à medida que fui ganhando mais altura, o medo foi diminuindo, dando lugar a uma estranha sensação de liberdade. A visão de Hogwarts, com suas torres imponentes parecia ainda mais impressionante de cima, como se o mundo inteiro estivesse ao alcance das minhas mãos.
Mas foi aí que a vassoura começou a se inclinar para a direita, descontrolada. Gritei e tentei puxar para o lado oposto, mas o movimento não era natural para mim, e a vassoura continuou a balançar.
Tentei, com toda a força que tinha, puxar a vassoura de volta para a posição correta, mas, com o vento forte e a vassoura ainda instável, fui forçada a começar a descer rapidamente. O solo estava se aproximando e senti uma onda de pânico invadir meu peito.
Mas antes que pudesse atingir o chão com toda a força, Fred apareceu ao meu lado, segurando minha vassoura com firmeza. Me estabilizei, quase tropeçando, mas consegui me manter em pé, pousando em segurança. Senti o calor da proximidade dele, o alívio de não ter caído e a adrenalina pulsando em minhas veias.
— O que achou? — ele perguntou, seus olhos não saíam de mim.
Respirei profundamente, tentando disfarçar o coração acelerado. Eu não sabia se estava aliviada por estar bem ou frustrada comigo mesma.
— Não foi tão ruim assim. — Pelo menos nos segundos que eu não estava em puro pânico, completei em minha mente, tentando esconder o nervosismo
Fred sorriu, satisfeito.
— Você foi ótima! — Gina disse animada, se aproximando com Mione, me dando um leve empurrão no ombro. — Principalmente para alguém que não voa há tanto tempo!
Hermione sorriu de canto.
— Achei que fosse cair na metade, mas você conseguiu se recuperar bem, amiga — comentou e, vindo dela, aquilo era um elogio.
Antes que eu pudesse responder, ouvi a risada de George ao lado de Fred.
— Não foi nada mal, Moonveil — ele disse, cruzando os braços. — Se quiser uma vaga no time, é só avisar.
— Ah, claro. — Revirei os olhos, rindo. — Já me vejo jogando quadribol ao lado de vocês.
Harry e Rony se aproximaram logo depois, e o primeiro sorriu para mim.
— Foi melhor do que a minha primeira vez voando, com certeza.
— Não que isso seja um grande mérito — Rony brincou, dando um leve tapa nas costas do amigo.
Fiquei um pouco mais relaxada ao ver que ninguém estava zombando de mim. O apoio deles fez com que eu me sentisse um pouco melhor e, pela primeira vez, fiquei orgulhosa por não ter desistido no meio do voo, porque eu realmente queria.
— Acho que posso considerar isso uma vitória — disse, sorrindo.
Os meninos começaram a guardar os equipamentos e depois se aproximaram.
— Vamos tomar banho antes do jantar?
— Por favor, vocês estão precisando mesmo — Gina disse, franzindo o nariz. — O cheiro de suor já tá insuportável.
— Bom saber que estamos marcando presença — Fred respondeu com um sorriso travesso.
— E aonde as senhoritas vão agora? — George perguntou.
— Podemos ficar um pouco na beira do Lago Negro, o que acham? — Mione perguntou, nos olhando em dúvida. Eu e Gina concordamos no mesmo instante, o sol do fim da tarde estava ótimo.
— Só não fiquem com muitas saudades — Fred brincou.
— Vai logo, Weasley — retruquei, empurrando-o de leve.
Os meninos seguiram para o castelo e nós fomos para a beira do Lago Negro, onde algumas poucas pessoas tiveram a mesma ideia que nós. Me sentei na grama, sentindo o calor do sol na pele enquanto Gina e Hermione se acomodavam ao meu lado.
— Se não fosse setembro, eu até diria para nadarmos — Gina comentou, observando a água calma à nossa frente.
— Você não tem medo do que pode ter aí dentro? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
Ela deu de ombros.
— Eu gosto de viver perigosamente.
Hermione revirou os olhos, mas sorriu.
— A essa altura, eu não duvido de nada vindo de você.
Ficamos um tempo em silêncio, apenas aproveitando a brisa e o clima tranquilo, até que Gina, como sempre, foi a primeira a trazer o assunto do dia.
— Como eu pude esquecer? Hermione, você BEIJOU o Malfoy!
Arregalei os olhos me virando para Hermione, que instantaneamente corou.
Verdade! — bom, pelo menos me lembrava de algumas coisas daquela noite.
Hermione suspirou, já percebendo que não ia escapar da conversa tão cedo.
— Não foi nada demais — murmurou, desviando o olhar.
— Hermione, foi um desafio de ‘Verdade ou Desafio’, e ele podia escolher qualquer pessoa, mas escolheu logo você! — Gina insistiu, claramente se divertindo com a situação.
Hermione ficou ainda mais vermelha e suspirou de novo, derrotada.
— Deve ter sido o calor do momento, sei lá... — ela confessou baixinho, e Gina abriu um enorme sorriso.
Eu sabia!
— Sabia o quê? — Hermione perguntou, desconfiada.
— Que você tinha um interesse escondido pelo Malfoy!
— Eu não tenho! — Hermione rebateu rápido demais, e tanto eu quanto Gina trocamos olhares significativos.
— Uhum, claro — respondi, sorrindo de lado. — E como foi?
Ela hesitou por um segundo antes de murmurar:
— Na verdade, bem melhor do que eu esperava.
Gina soltou um gritinho animado e Hermione escondeu o rosto nas mãos, enquanto ríamos da situação.
— Mas falando em quedinha… O que você sussurrou no ouvido do Harry durante o jogo? — perguntei, estreitando os olhos para Gina.
Ela abriu um sorriso travesso, brincando com uma mecha do próprio cabelo.
— Quem disse que eu sussurrei alguma coisa?
— Gina, ele ficou mais vermelho que seu cabelo! — Hermione disse, cruzando os braços.
Eu ri, porque era verdade. Quando se tratava de Gina, Harry virava um completo desastre. Não era novidade para mim e Hermione que os dois vinham se encontrando às escondidas há um tempo. Não era nada sério — pelo menos, era o que Gina insistia em dizer —, mas qualquer um com olhos podia perceber que Harry estava caidinho por ela. E, conhecendo Gina, ela não facilitava as coisas pra ele nem um pouco.
— Eu só… — Gina fez uma pausa dramática, olhando para as próprias unhas antes de erguer os olhos brilhantes para nós. — Disse que eu não via a hora de ficarmos sozinhos.
Hermione soltou um engasgo de surpresa.
— Mas eu disse bem baixinho… — Gina sorriu inocente, mas eu via a satisfação brilhando nos olhos dela.
— Isso explica por que ele ficou parecendo um tomate por meia hora! — soltei, rindo.
— E por que ele derrubou a garrafa quando foi rodar de novo. — Hermione cobriu a boca, rindo também.
— Pobrezinho… — Gina suspirou, apoiando o rosto na mão. — Ele precisa se acostumar comigo.
Eu e Hermione trocamos um olhar cúmplice antes de voltarmos a encarar Gina, que agora fingia estar muito interessada na água do lago.
— Você gosta dele. De verdade — afirmei, um sorriso puxando o canto dos meus lábios.
Gina suspirou, revirando os olhos, mas o sorriso dela não mentia.
— Talvez um pouquinho.
Eu e Hermione rimos e Gina balançou a cabeça, rindo também.
— Certo, já me expus o suficiente — ela disse, ajeitando a postura. — Vamos falar de outra coisa, tipo… Como eu ganhei a aposta sobre Blaise falar com você em menos de uma semana. Deveria ter apostado alguns galeões…
— É, não demorou nem um dia na verdade — Mione completou, rindo.
— Eu tinha duvidado disso — contei. — Mas não foi nada demais, ele perguntou como que estava sendo minha volta, eu falei que ótima e perguntei se ele se lembrava de mim, porque, cá entre nós, dois anos é o suficiente para esquecer alguém.
— Realmente… — Mione respondeu, parando para pensar sobre.
— Ele disse que sim, porque eu havia chamado sua atenção muito antes — falei, observando suas expressões mudarem no mesmo instante.
Hermione arregalou os olhos, surpresa, e Gina soltou um assobio baixo, claramente impressionada.
— Isso foi uma cantada? Porque pareceu muito uma cantada. — Gina estreitou os olhos para mim, segurando um sorriso travesso.
— Talvez um pouquinho — admiti, dando de ombros, mesmo que uma parte de mim estivesse revisitando a cena na cabeça. Blaise não parecia do tipo que falava coisas ao acaso.
— Merlin, minhas amigas vão se atracar com sonserinos! — Gina exclamou, batendo a palma da mão na testa com dramatização exagerada.
— Bom… Theo está solteiro — brinquei, arqueando a sobrancelha para ela.
Gina abriu a boca para responder, mas parou por um instante, franzindo a testa como se uma ideia tivesse acabado de se formar em sua mente.
— Por pouco tempo, com certeza. Vocês viram ele falando que tinha sentimentos por alguém da roda?! — ela disse, a voz carregada de curiosidade.
— Tenho certeza que é pela Dafne — afirmei, me lembrando da troca de olhares rápida e quase imperceptível que aconteceu logo depois que ele disse aquilo.
— Por Merlin! Faz muito sentido… — Hermione murmurou, parecendo remontar o quebra-cabeça em tempo real.
— Eles combinam, acho que fariam um casal bonito! — Gina completou, e eu e Mione concordamos plenamente.
O sol finalmente se pôs e decidimos voltar antes que escurecesse demais. Enquanto caminhávamos de volta para o castelo, ainda rindo de alguma piada de Gina sobre a cara de sono de Rony pela manhã, Blaise Zabini apareceu.
Ele tinha aquele jeito relaxado de sempre, as mãos nos bolsos do uniforme e um sorriso de canto no rosto, como se já esperasse nos encontrar ali.
— Moonveil — ele me chamou, o tom arrastado e divertido. — Você anda aparecendo em lugares bem interessantes ultimamente.
— Não sabia que você era tão atento aos meus passos, Zabini — brinquei, levantando uma sobrancelha.
Gina soltou um risinho ao meu lado, mas Blaise apenas riu baixo, sem pressa.
— Difícil é não te notar.
Não consegui segurar um sorriso de canto e Hermione pigarreou ao meu lado, como se tentasse segurar um comentário.
— E você estava me procurando? — perguntei.
— Só estava me perguntando se você costuma desaparecer tão rápido assim de todas as festas. — Ele inclinou a cabeça ligeiramente, os olhos escuros analisando meu rosto com interesse.
— Digamos que eu aproveitei demais e era impossível continuar lá — contei, o fazendo rir.
— Pena. Eu teria gostado de passar mais tempo com você.
Ele parecia tranquilo, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
— Bom saber, Zabini. Vou tentar não fugir tão cedo na próxima.
— Vou cobrar essa promessa. — Ele piscou para mim antes de se despedir com um aceno e seguir na direção oposta.
Assim que ele sumiu de vista, Gina estalou a língua e passou um braço pelo meu.
— Ele tá completamente na sua, .
— Gina... — Suspirei, mas não consegui evitar um sorriso.
— Bom, agora vamos logo, Dumbledore deve estar prestes a começar os avisos — Hermione avisou.
E com isso, seguimos em direção ao Salão Principal, onde o burburinho das conversas e o brilho das velas flutuantes nos envolveram. Nos sentamos na mesa da Grifinória, e percebi que as travessas ainda estavam vazias.
Dumbledore se levantou de seu lugar na mesa dos professores, e o salão foi silenciando aos poucos. Com um sorriso enigmático, ele abriu os braços de forma teatral.
— Meus caros alunos — começou ele, sua voz suave, mas audível em todo o salão —, estamos nos aproximando de um momento singular, como o inverno se aproxima de nossas portas. Ah, o inverno, com seus ventos gelados e noites longas, mas também com a promessa de algo verdadeiramente encantador... o Baile de Inverno de Hogwarts!
Por um breve momento, um silêncio expectante tomou conta do salão. Então os murmúrios começaram e a excitação se espalhou como um feitiço. Risadas, suspiros e até alguns assobios preencheram o ambiente.
— Agora, não me mal interpretem — continuou Dumbledore com um brilho travesso nos olhos —, o baile não é apenas uma oportunidade para dançar... embora eu pessoalmente seja muito bom, se me permitem dizer... mas é também um momento para celebrar a amizade, a magia que compartilhamos, e, claro, para criar memórias que se tornarão parte da história de Hogwarts. Então, preparem-se, meus caros, pois dezembro trará mais do que apenas o frio.
A excitação explodiu novamente, mais forte do que antes. Com um aceno, ele se sentou novamente, deixando o Salão se encher de vozes e risos.
— Isso vai ser interessante — Hermione comentou, ajeitando a postura.
— Isso vai ser incrível — Gina corrigiu, os olhos brilhando.
No instante seguinte, a comida apareceu magicamente sobre a mesa, e eu enchi meu prato enquanto escutava os cochichos empolgados ao redor.
— Agora que temos alguns meses até o baile… — Gina começou, pegando um pedaço de frango. — Quem vocês acham que vai chamar quem?
— Você já está fazendo apostas? — perguntei, rindo.
— Apenas observando os fatos. — Ela me lançou um olhar divertido. — E, no seu caso, , acho que não vai demorar muito.
— Meu caso? — perguntei, em dúvida.
— Blaise Zabini! Já achava que ele estava interessado, depois dessa conversa no corredor então… — ela disse, como se fosse óbvio.
Fred, que estava ao meu lado, levantou uma sobrancelha e se inclinou para a frente.
— Corredor? — perguntou ele, de repente.
— Ele só foi educado — respondi rapidamente, tentando desviar do olhar provocador de Fred.
— Ah, claro. — Gina sorriu, cheia de segundas intenções. — Ele pode ser muito educado te convidando para o baile também.
Meus amigos riram com a frase.
— Ele foi legal comigo. Nada demais — falei dando de ombros.
— Mas no fim, o que aconteceu no corredor? — perguntou George, curioso. — Eu perdi essa parte da história?
Gina riu baixinho e se virou para os meninos.
— Ele perguntou por que ela havia sumido da festa, e que era uma pena, que ele teria gostado de passar mais tempo com ela. disse que talvez não sumisse nas próximas e ele disse que cobraria aquilo — Gina contou detalhadamente cada frase, sorrindo.
— Ou seja, nada demais — falei, como se fosse indiferente.
Fred franziu a testa, e seu olhar se tornou mais focado. Ele estava claramente ponderando alguma coisa.
— Acho que ele tem mais intenções do que ser apenas educado e legal, — ele respondeu.
Eu ri, tentando esconder a leve tensão que se formava na minha barriga.
O resto do jantar foi completamente dominado pelas conversas sobre o baile. George, com aquele sorriso travesso, comentou sobre seu plano de convidar Angelina. Ele parecia genuinamente torcer para que ela aceitasse.
— Quem sabe ela não me dá uma chance, né? — ele disse, com um suspiro, como se já estivesse decidido.
— E você, Ron? Será que Lilá Brown vai estar solteira daqui quatro meses para ir ao baile com você? — Harry disse, claramente tentando tirar sarro de Ron, que revirou os olhos.
— Ah, cala a boca, Harry — Ron resmungou, uma carranca marcando seu rosto, mas algo na forma como ele mexia no prato indicava que ele realmente estava considerando a ideia de ir com Lilá.
Não pude deixar de rir internamente com o rumo que a conversa tomava. Não era surpresa que todos estavam mais focados no baile do que em qualquer outra coisa.
Quando finalmente terminamos o jantar, todos se levantaram e fomos para a Sala Comunal. Hermione, como sempre, com a cabeça no próximo livro que queria ler, já avisava que passaria o resto da noite isolada em seu quarto.
Ron, visivelmente cansado, se espreguiçou e anunciou que iria dormir mais cedo, subindo para o próprio dormitório. Gina, se aproveitando do momento, me falou baixinho que daria uma volta no castelo com Harry.
Do outro lado, George estava envolvido em uma conversa com Angelina, completamente imerso no papo, enquanto eu observava a sala agora silenciosa, com a lareira crepitando. Quando olhei para Fred, ele estava me observando de volta, como se estivesse esperando por algo e, de forma inesperada, se sentou ao meu lado no tapete
Foi ele quem quebrou o silêncio primeiro.
— Você sabe que eu brinco com você porque gosto de você, né? — disse ele, a voz mais suave do que o usual.
— Como assim? — perguntei, um pouco confusa.
— Eu sei que às vezes te irrito — ele continuou, dando um pequeno sorriso, como se estivesse se desculpando. — Mas é só a minha maneira de te ter perto. Não é sobre gostar de te provocar, é sobre sentir que você faz parte do meu mundo. Você é a minha melhor amiga, , e eu… eu realmente senti falta disso… de você.
Eu fiquei parada por um momento, as palavras dele soando de uma maneira que eu não imaginava.
— Eu... senti muita falta de você também, Fred — comecei, tentando manter a voz firme. — Mas você nunca me respondia... eu pensei que talvez você tivesse me esquecido, que eu não fosse mais tão importante para você enquanto estava longe. Às vezes, parecia que eu estava sozinha nesse sentimento, e isso me doía.
Fechei os olhos por um momento, tentando controlar a emoção que estava me tomando, mas uma leve umidade se formou nos meus olhos, apesar de eu tentar não demonstrar. Eu estava feliz por ele estar falando aquilo, mas também havia uma sensação de alívio por saber que ele sentia a mesma saudade.
Fred ficou em silêncio por um momento e então, antes que eu pudesse reagir, ele me puxou para um abraço. O gesto me pegou de surpresa, mas logo me senti envolvida pela sua presença. Era estranho, porque a última vez que ele havia me abraçado assim tinha sido dois anos atrás, na nossa despedida antes de eu ir embora para Beauxbatons.
Eu quase podia sentir a saudade tomando conta de mim, aquela saudade que eu nem sabia que estava guardando até aquele abraço.
Ficamos ali, em silêncio, por longos minutos. O som suave da lareira e o calor do fogo preenchiam o ambiente, enquanto eu sentia as batidas do coração de Fred perto do meu. Era como se o tempo tivesse parado e ali, naquele momento, eu soubesse que não precisava de mais nada.
Ainda com seus braços ao meu redor, Fred se afastou o suficiente apenas para me olhar.
— Sabe, — ele começou, em um tom baixo, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas —, eu não quis que você pensasse que estava sozinha nisso, não te respondi porque pensei que as coisas ficariam mais fáceis assim… foi péssimo ficar longe por tanto tempo, mas eu nunca te esqueceria. Me desculpa.
Eu sorri de volta, sentindo os olhos um pouco marejados.
— Está tudo bem.
Ele passou o braço ao redor do meu pescoço e inclinei minha cabeça lentamente para o lado, até repousar suavemente sobre o braço dele. Ficamos assim por um bom tempo, em silêncio, com o fogo da lareira iluminando o ambiente e criando sombras suaves nas paredes ao nosso redor.
A familiaridade do toque de Fred, o cheiro sutil de seu perfume, e a sensação de ter ele tão perto me fizeram esquecer de tudo o que estava acontecendo à minha volta. Sem perceber, meus olhos começaram a se fechar, e uma sensação de cansaço tomou conta de mim. Pisquei mais fundo, tentando manter os olhos abertos, mas a vontade de dormir parecia maior do que qualquer outra coisa.
Eu devia ter cochilado por alguns segundos, ou minutos.
Porque a próxima coisa que senti foi o chão desaparecendo sob mim.
Soltei um pequeno suspiro assustado, os olhos se abrindo de repente enquanto meu corpo era erguido com facilidade.
— Ei! — murmurei, ainda meio sonolenta, segurando automaticamente na camisa dele.
Fred tinha passado um braço por baixo das minhas pernas e o outro pelas minhas costas, me levantando do tapete como se eu não pesasse absolutamente nada. O calor do corpo dele contrastava com o ar mais frio da sala comunal, e por um segundo eu só fiquei ali, tentando entender o que estava acontecendo.
Ele olhou para mim e sorriu torto.
— Essa é a segunda vez em menos de uma semana — comentou, começando a subir as escadas devagar. — Acho que estou te acostumando mal.
— Vou contar como primeira — respondi, apoiando o queixo no ombro dele —, porque é a única que estou consciente.
Ele soltou uma risada baixa, vibrando contra mim.
— Que ingrata. Eu fui extremamente heroico da outra vez.
— Não lembro, então não conta — murmurei, já sentindo o sono de novo.
Ele balançou a cabeça, mas eu senti o aperto sutil dos braços dele se ajustando, como se tivesse medo de me deixar escorregar. Era um cuidado quase automático.
Quando chegamos à porta do dormitório, ele hesitou só um segundo antes de empurrá-la com o ombro. O quarto estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave das velas que ainda queimavam. Gina e Mione ainda não haviam chegado.
Fred me colocou na cama com cuidado, ajeitando minhas pernas para dentro. Eu ainda estava acordada o suficiente para ver o jeito como ele me olhava. Não era provocador ou debochado. Só… carinhoso.
— Boa noite, — ele disse, com suavidade, antes de beijar minha testa.
— Boa noite, Fred — respondi, com um sorriso meio sonolento, mas sincero. — E obrigada por isso.
E dessa vez, antes que o mundo escurecesse de vez, eu soube que ainda tinha o Fred que sempre amei e que todas as minhas inseguranças durante o tempo que fiquei fora eram oficialmente coisa do passado.


’s POV
O calor aconchegante da lareira parecia ainda estar impregnado na minha pele quando acordei na manhã seguinte, mas logo foi substituído pelo frio suave do dormitório. A luz do sol filtrava-se pelas cortinas da janela, iluminando o quarto com um brilho dourado e suave.
Demorei alguns segundos para processar onde estava. Hogwarts. Meu quarto. Minha cama. A conversa com Fred ainda ecoava na minha mente, misturada com a sonolência da noite anterior. Foi um daqueles momentos que pareciam flutuar entre o real e o sonho, mas eu sabia que tinha sido de verdade.
Do outro lado do quarto, ouvi um resmungo.
— Só mais cinco minutos... — Gina murmurou, enterrando o rosto no travesseiro quando o despertador tocou.
Hermione, por outro lado, já estava de pé, vestida e organizada, prendendo os cabelos cacheados com precisão enquanto conferia seu horário de aulas.
— Vamos, vocês não querem se atrasar no primeiro dia, querem?
— Não, mas eu também não quero sair da cama... — respondi, puxando o cobertor para cima do rosto.
Ela soltou um suspiro, impaciente.
, você está começando seu quinto ano aqui, precisa causar uma boa impressão.
— Eu já causei — murmurei, minha voz abafada pelo tecido.
Gina riu baixinho, mas jogou um travesseiro na minha direção.
— Vamos, preguiçosas.
Respirei fundo e finalmente me forcei a levantar, sentindo o frio da manhã me envolver.
Pouco depois, descemos juntas para o Salão Comunal, onde encontramos os meninos. Fred e George estavam rindo de algo que Rony tinha acabado de dizer, enquanto Harry terminava de amarrar os sapatos.
Assim que nos viu, Fred sorriu, e algo no jeito que ele me olhou fez com que a conversa da noite passada voltasse à minha mente.
— Como foi o sono de beleza? — ele provocou, cruzando os braços.
— Melhor que o seu, com certeza — brinquei, ajeitando minha bolsa no ombro.
— Difícil de acreditar. Eu sou naturalmente encantador.
George riu.
— Ele ensaiou essa fala no espelho antes de descer, só pra constar.
Fred lançou um olhar indignado para o irmão, enquanto eu, Gina e Hermione riamos.
— Podemos ir tomar café agora? — Rony interrompeu, claramente impaciente.
Seguimos juntos para o Salão Principal, onde o cheiro de comida fresca e o barulho dos estudantes preenchiam o ambiente. As mesas estavam repletas de alunos animados para o primeiro dia de aula. Enquanto nos servíamos, dei uma olhada no meu horário.
— Poções logo de cara — resmunguei, e tenho certeza que a cara que fiz poderia facilmente se igualar a de Ron nessa primeira hora da manhã.
Com Snape… — Hermione completou. — Pelo menos já começo o ano testando meus limites. — Ela riu, e continuamos nossa conversa enquanto comíamos, até que os sinos do castelo anunciaram o início das aulas.
Com minha mochila pendurada no ombro, me juntei a Hermione e seguimos pelo castelo, enquanto os corredores se enchiam de estudantes indo para suas primeiras aulas.
— Estou curiosa para ver como Snape vai te tratar — Hermione comentou, ajustando sua bolsa no ombro.
— Como ele sempre tratou: com desprezo e desconfiança — respondi, rindo de leve.
Ela fez uma careta.
— Não sei, Snape sempre pega pesado com os alunos que ele não gosta, mas talvez ele ainda te veja como uma boa aluna.
— Se ele conseguir ignorar o fato de que sou da Grifinória, talvez.
Chegamos às masmorras e entramos na sala de Poções. O ambiente era frio, iluminado apenas pela luz fraca das velas e pelo brilho esverdeado dos frascos que decoravam as prateleiras. O cheiro forte de ingredientes místicos pairava no ar e a presença de Snape, como sempre, tornava tudo mais intimidador.
— Sentem-se. — A voz dele ecoou, e todos obedeceram imediatamente.
Hermione e eu ocupamos uma das bancadas da frente, enquanto os outros alunos se organizavam em duplas. Snape começou sua aula sem rodeios, falando sobre a importância da precisão no manuseio dos ingredientes.
— Hoje vocês farão uma Poção Restauradora. O mínimo que espero é que alguns de vocês consigam não explodir seus caldeirões. — Ele lançou um olhar particularmente longo para o lado dos alunos da Grifinória antes de distribuir as duplas.
Draco ficou com Blaise, Theo com Adrian Pucey e Dafne com Pansy. Eu estava aliviada por estar com Hermione — não porque não confiava em mim mesma, mas porque, com ela, poderíamos ignorar as implicâncias de Snape juntas.
— Espero que ele esteja bem descansado e recuperado das férias — sussurrei enquanto separávamos os ingredientes.
— Não que faça muita diferença… — Hermione respondeu, enquanto pegava o livro e analisava os passos com precisão.
O som de caldeirões sendo mexidos e ingredientes sendo cortados preenchia a sala. Eu continuava mexendo o líquido dentro do nosso caldeirão no sentido horário, vendo Snape caminhar entre as bancadas, seu olhar atento e crítico pousando em cada aluno.
Quando chegou ao nosso lado, seus olhos negros recaíram sobre mim por um instante a mais.
— Senhorita Moonveil — disse em seu tom arrastado e frio. — Imaginei que seu retorno significaria um declínio no seu desempenho acadêmico. Mas vejo que, pelo menos, ainda é capaz de seguir instruções básicas.
— Hm… obrigada, professor — agradeci, sabendo que aquele era o máximo que poderia receber positivamente do Snape.
No final da aula, nossa poção estava impecável, como já era esperado. Dei um sorriso satisfeito para Mione enquanto despejávamos um pouco do líquido em um frasco para entregar.
— Nada mal para o primeiro dia — comentei, lavando as mãos.
— É bom ter você de volta como dupla, amiga. — Hermione sorriu de volta.
Assim que saímos da masmorra, suspirei fundo, como se estivesse me livrando da atmosfera opressora da aula.
O fluxo de alunos se dispersava aos poucos, e paramos por um momento para conferir nosso horário de aulas.
— Feitiços agora, com Flitwick — Hermione disse, animada.
— Finalmente uma aula onde o professor não me odeia.
— Não sei como você sobreviveu a Beauxbatons sem ele — ela brincou.
— A Madame Maxime era ótima, mas Flitwick tem um jeito especial de ensinar. Estou ansiosa para voltar às aulas dele.
Assim que entramos na sala de Feitiços, os alunos começaram a se acomodar em suas cadeiras murmurando entre si. O Professor Flitwick, pequeno como sempre, estava em pé sobre sua pilha de livros, organizando alguns pergaminhos na mesa. Quando levantou o olhar e me viu, um sorriso animado se formou em seu rosto.
— Senhorita Moonveil! — ele exclamou, a voz aguda carregada de entusiasmo. — Que surpresa encantadora tê-la de volta!
Sorri com a recepção calorosa.
— Obrigada, professor. É bom estar aqui novamente.
— Um talento brilhante como o seu fez falta em minhas aulas — ele continuou, ajeitando seus óculos. — Espero que não tenha deixado suas habilidades enferrujarem durante esse tempo.
— Prometo que fiz o meu melhor para mantê-las afiadas — respondi, divertida.
Flitwick sorriu satisfeito e gesticulou para os alunos.
— Muito bem, turma! Hoje vamos aprimorar seus encantamentos. Dividam-se em duplas e peguem suas varinhas!
Olhei para Hermione, que já estava abrindo seu livro com animação.
— Acho que isso significa que devemos mostrar serviço.
— E eu não aceito nada menos do que a perfeição — ela brincou, lançando um olhar determinado.
Sorri e peguei minha varinha, sentindo que ali, em uma das minhas aulas favoritas, seria um bom primeiro dia.
Professor Flitwick bateu palmas animadamente.
— Hoje vamos trabalhar com o Encantamento Convocatório! Quero ver quem consegue invocar objetos com precisão e rapidez. Senhorita Granger, senhorita Moonveil, queiram demonstrar?
Hermione prontamente ajeitou a postura, enquanto eu segurava minha varinha com um pequeno sorriso.
— Claro, professor.
Ele posicionou um livro sobre sua mesa e nos deu espaço.
— Quando quiserem, senhoritas.
Hermione foi a primeira.
Accio, livro!
O exemplar voou direto para suas mãos, sem hesitação.
— Excelente, excelente! — Flitwick aplaudiu, satisfeito.
Agora era minha vez. Respirei fundo e mirei no mesmo livro, sentindo a magia fluir da ponta dos meus dedos.
Accio, livro!
O livro se ergueu do lugar e voou até mim com suavidade, pousando perfeitamente em minhas mãos.
— Impressionante! — O professor sorriu, claramente satisfeito. — Continua tão talentosa quanto antes.
Senti um calor no peito com o elogio.
— Obrigada, professor.
Voltamos aos nossos lugares e começamos a praticar juntas, enquanto os outros alunos tentavam aperfeiçoar seus feitiços.
— Você fez parecer tão fácil — comentei, enquanto observava Hermione puxar outro objeto para si com precisão.
— E você também — ela respondeu, com um leve sorriso.
Ficamos ali, treinando e trocando comentários, enquanto ao nosso redor, alguns alunos ainda tinham dificuldade com o feitiço. Professor Flitwick circulava pela sala, corrigindo posturas e dando pequenas dicas para quem precisava.
Quando a aula finalmente terminou, recolhemos nossas coisas e saímos da sala junto com o fluxo de alunos.
— Bom, uma matéria fácil para começar. — comentei, enquanto Hermione organizava seus livros.
— Espere até Transfiguração — ela respondeu, com um sorriso de canto. — McGonagall não pega leve, mesmo no primeiro dia.
Seguimos pelo corredor até o Salão Principal, onde encontramos Harry e Rony já sentados, conversando sobre Quadribol. Me juntei a eles enquanto Hermione se servia de suco de abóbora.
— Como foi Poções? — perguntei para Harry, enquanto colocava um pedaço de torrada no prato. Nós caímos em diferentes turmas para algumas matérias, o que era uma pena.
— Péssima como sempre — ele respondeu, fazendo uma careta. — Snape deu uma aula inteira basicamente falando de como não explodir o próprio caldeirão.
— Ou seja, foi um aviso direto pro Neville — Rony acrescentou, rindo.
Terminei meu almoço rapidamente, ciente de que ainda tínhamos mais aulas pela tarde.
O resto do dia passou em um ritmo acelerado. Em Transfiguração, McGonagall nos fez começar com transformações básicas para o nosso ano, mas com um nível de exigência que não deixava margem para erros. Defesa Contra as Artes das Trevas foi mais teórica do que prática, com o novo professor repassando conceitos que a maioria de nós já conhecia.
Quando a última aula finalmente terminou, seguimos para a Sala Comunal da Grifinória, exaustos.
— Não acredito que temos dever já no primeiro dia — Rony reclamou, jogando-se no sofá.
— Não sei por que ainda se surpreende — Hermione rebateu, sentando-se ao lado dele e abrindo um pergaminho.
Deixei minha mochila no chão e me estiquei um pouco.
— Eu acho que vou pegar algo para comer antes de começar qualquer coisa — comentei, sentindo fome de um dia inteiro de aulas.
— Ótima ideia! — Fred apareceu repentinamente atrás do sofá. — Vamos até a cozinha?
George, que surgiu logo atrás, assentiu.
— Os elfos sempre guardam algo bom para os alunos mais… estratégicos.
Sorri, já acostumada com as escapadas dos gêmeos.
— Isso soa como um convite para encrenca.
Fred piscou para mim.
— E quando não é?
Perguntei se Mione, Gina e Ron gostariam de algo de lá, mas todos negaram, então caminhei ao lado de Fred e George pelos corredores.
— Lembram quando tentamos convencer os elfos a fazerem um jantar às três da manhã? — perguntei, me lembrando do meu segundo ano aqui com um sorriso divertido.
— Não sei como isso acabou dando certo... — Fred completou, rindo.
— Mas eles sempre sabem como fazer uma comida boa. Melhor do que qualquer coisa que a gente consiga fazer, com certeza — George completou, nos fazendo concordar.
— Eu só queria uma sobremesa… — falei, sentindo meu estômago roncar.
Os dois me olharam como se estivessem avaliando a situação.
— E se a gente pedir chocolate quente com uma montanha de marshmallows? — George sugeriu.
— Agora você está falando! — respondi, com um sorriso largo.
Passamos por mais alguns corredores vazios até chegarmos à entrada da cozinha. George deu uma olhada para a porta e, com um aceno discreto, a abriu sem fazer barulho. Ao entrarmos na cozinha, os elfos estavam ocupados com algumas tarefas. Ao nos verem, seus rostos se iluminaram, e um deles acenou.
— O que querem, queridos alunos? — perguntou ele, sorrindo.
Fred, com seu habitual charme, se aproximou.
— Uma rodada de chocolate quente, por favor.
Os elfos, sempre prestativos, logo começaram a preparar o que pedimos. Quando nossos doces chegaram, prontos e deliciosos, sentamos em uma das mesas próximas e continuamos nossa conversa. Contei algumas histórias que haviam acontecido comigo em Beauxbatons e eles me contaram algumas das pegadinhas que fizeram enquanto eu estava longe.
Foi impossível não me sentir bem em estar na companhia de Fred e George novamente.
*
Os dias seguintes passaram em um ritmo intenso. As aulas exigiam cada vez mais de nós, e os deveres de casa pareciam não ter fim. Mas apesar do cansaço, eu me sentia feliz. Mesmo não estando no mesmo ano que Fred e George, que eram um ano mais velhos, ou Gina, que era um ano mais nova, sempre encontrávamos um jeito de ficarmos juntos entre uma aula e outra. Além disso, eu e as meninas assistíamos a todos os treinos do time de quadribol da Grifinória, apoiando nossos amigos.
Certa tarde, exausta de tanto estudar no dormitório, resolvi ir até a biblioteca em busca de um pouco de silêncio — não que as meninas atrapalhassem, pelo contrário, mas estava com dificuldade em uma matéria e simplesmente não conseguia me concentrar. Avisei Ginny e Mione que iria sair um pouco e caminhei em direção à biblioteca.
O ambiente estava silencioso, então peguei alguns livros sobre Defesa Contra as Artes das Trevas e me sentei em uma mesa no canto, mergulhando nas páginas. Estava tentando entender uma teoria sobre feitiços defensivos quando ouvi uma cadeira sendo arrastada ao meu lado.
— Nunca pensei que te encontraria aqui sem a Hermione por perto. — A voz divertida de Fred me fez erguer os olhos.
Revirei os olhos, mas sorri.
— Pois é, Weasley, eu também estudo sozinha às vezes. Mas surpresa estou eu em te ver aqui sozinho.
— Na verdade, eu vim te procurar. Queria te mostrar uma coisa.
— Me deixou curiosa, admito, mas preciso terminar de estudar isso, não consegui pegar na aula ainda… — Fiz uma careta.
Ele espiou por cima do meu ombro.
— Defesa Contra as Artes das Trevas? — perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Sim, estou com dificuldade nesse trecho sobre feitiços defensivos avançados. — Apontei para um parágrafo do livro.
— Ora, ora, então a senhorita prodígio precisa de ajuda? — Fred sorriu de lado, pegando o livro e lendo rapidamente o trecho.
— Não sabia que você prestava atenção nas aulas — retruquei, apoiando o queixo na mão e encarando ele com um sorrisinho.
Ele fingiu indignação.
— Eu absorvo o essencial. E, no caso, esse feitiço foi útil para um truque que inventei com G. Aqui, deixa eu te mostrar. — Ele puxou a varinha e fez um gesto sutil, murmurando o feitiço em questão. O movimento foi preciso, e eu pude ver a magia se manifestar como descrito no livro.
Arqueei as sobrancelhas, impressionada.
Não me leve a mal, eu sabia que Fred era inteligente, mas normalmente não escolhia ser com as aulas e matérias.
— Talvez eu devesse te chamar para estudar mais vezes… — brinquei, vendo-o sorrir de lado.
— Sabe que por você eu viria mais vezes pra cá. Agora, vamos lá… — Ele piscou, antes de se inclinar um pouco mais perto, apontando no livro a parte importante, enquanto eu prestava atenção.
Apesar das provocações ocasionais e dos sorrisos travessos, ele estava focado em me explicar o feitiço, destacando detalhes que eu não tinha percebido antes. Ele simplificava as informações do livro de um jeito inesperadamente didático, tornando tudo mais fácil de entender.
Depois de algum tempo, percebi que estava absorvendo o conteúdo com muito mais facilidade do que quando tentava estudar sozinha. E, para ser justa, Fred não zombou tanto da minha dificuldade quanto eu imaginava que faria.
— Ok, tenho que admitir… Você é melhor nisso do que eu esperava — confessei, suspirando.
— Está vendo? Além de irresistível, sou um excelente professor — ele disse, apoiando o queixo na mão, com aquele típico sorriso convencido.
Revirei os olhos, mas ri.
— Tá legal, e o que você queria me mostrar? — perguntei, fechando o livro e esticando os braços.
Fred sorriu, mas em vez de responder de imediato, ele me ajudou a guardar os livros, empilhando-os com uma paciência que não combinava com ele. Assim que terminamos, senti sua mão quente segurar a minha, puxando-me de leve.
— Vem comigo.
Deixei que ele me guiasse pelos corredores do castelo, subindo algumas escadas até sairmos para o ar livre. O vento fresco da tarde bagunçava meus cabelos enquanto descíamos uma pequena trilha em direção ao Lago Negro. O sol já começava a descer no horizonte, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados.
Fred soltou minha mão quando chegamos perto da margem e se sentou na grama, dando tapinhas ao lado para que eu fizesse o mesmo.
— Espero que isso seja melhor do que aquela vez que você me fez vir até aqui só para ver um sapo inchado depois de uma poção errada do George — provoquei, me sentando ao lado dele.
Ele riu.
— Prometo que dessa vez é algo mais interessante. — E, sem dizer mais nada, ele puxou um pequeno bolo de cartas do bolso interno do casaco e colocou sobre minhas mãos.
Franzi a testa, virando uma delas e lendo o destinatário. Foi aí que notei.
Meu nome. Meu endereço na França.
Minha respiração ficou presa na garganta quando ergui os olhos para Fred, que apenas me observava em silêncio, deixando que eu absorvesse o que estava segurando.
— São…? — comecei a perguntar, mas minha própria voz falhou.
— Cartas — ele disse simplesmente. — Cartas que eu escrevi para você.
Olhei para as folhas de pergaminho em minhas mãos, o coração batendo forte. Eu nunca tinha recebido nenhuma.
E agora elas estavam bem ali.
Fred esfregou a nuca, ainda olhando para o lago, como se a água pudesse engolir a confissão que ele não tinha coragem de fazer. Eu esperei, sem pressa, sentindo o vento bagunçar meu cabelo.
— Toda vez que eu recebia uma carta sua, eu respondia no mesmo dia. Mas aí eu relia, pensava demais… e guardava.
— Por quê? — Minha voz saiu mais suave do que eu esperava.
Ele finalmente me encarou, os olhos castanhos um pouco mais sérios do que eu estava acostumada.
— Porque, se eu te enviasse… — Ele respirou fundo, desviando o olhar outra vez. — Eu ia ficar esperando. Esperando a sua resposta, esperando uma notícia sua, esperando o tempo passar mais rápido pra você voltar. E se eu ficasse esperando tudo isso, ia ser mais difícil aceitar que você não estava aqui.
Eu engoli em seco, apertando a carta entre os dedos.
— E guardar as cartas fez tudo ficar mais fácil?
Fred soltou uma risada sem humor.
— Você voltou, não voltou?
Eu abri a boca, mas não soube o que responder. Ele não me olhava, e isso só tornava tudo mais verdadeiro. Fred Weasley sempre foi brincalhão, sempre soube transformar tudo em piada e eu amava isso nele, mas esses momentos em que eu o via sem essa “proteção”, valia mais do que qualquer coisa.
Engoli em seco, desviando os olhos para a última carta, sendo a primeira que ele escreveu, já que a data batia com a que enviei quando cheguei na França. Minhas mãos estavam um pouco trêmulas quando desfiz o laço de uma delas e abri o pergaminho. A caligrafia de Fred era um pouco inclinada, como se ele tivesse escrito às pressas, mas eu a entendia perfeitamente.
E então eu li:

",
Não sei como começar isso, então vou direto ao ponto: sua carta chegou hoje. A gente estava no meio de um teste de explosão de caldeirões (deu certo, a propósito, Snape quase nos assassinou) quando o Errol despencou na mesa. Quase caiu dentro do caldeirão do George. Eu ri tanto que quase não percebi que tinha uma carta sua bem na minha frente.
Você disse que Beauxbatons é elegante e cheio de regras, então estou oficialmente preocupado com a sua sanidade. Mas pelo menos agora eu entendo por que você sempre gostou de brigar comigo por boas maneiras. Se não fossem esses anos de convivência comigo, aposto que já teria sido expulsa por chamar alguém de cabeça de lesma ou algo assim.
Eu gostei da parte em que você disse que sente falta da gente. Especialmente porque você listou um monte de momentos que eu também não paro de lembrar. Como quando fizemos uma competição para ver quem roubava mais tortinhas de abóbora do jantar (ainda acho que você trapaceou). Ou quando você me fez companhia na detenção porque ‘não era justo me deixarem limpando o salão comunal sozinho’. Você é péssima em encantar esfregões, aliás.
E sim, , eu também sinto sua falta. Mas não se ache muito, tenho a impressão de que já aumentei demais esse seu ego.
Fred."

Segurei a carta com mais força, como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento. Meu peito apertou com cada palavra.
Fred ainda não me olhava, mas o jeito que ele tamborilava os dedos contra a perna mostrava que estava ansioso. Eu voltei os olhos para a carta, relendo alguns trechos, e então para o bolo ao meu lado com outras dezenas de cartas empilhadas.
Ele sempre respondeu. Sempre escreveu. Mas nunca enviou.
— Você realmente achou que eu trapaceei naquela competição? — perguntei, com um sorrisinho.
Fred soltou uma risada baixa, finalmente me encarando.
— Tenho certeza, na verdade. Você sumiu por cinco minutos e voltou com o dobro de tortinhas do que caberia nos bolsos da sua capa.
— Eu sou habilidosa, Weasley. Você devia saber disso.
Ele me olhou de um jeito que fez meu estômago dar uma cambalhota, mas eu me forcei a manter o foco.
— E essa parte da detenção? — continuei. — Eu definitivamente lembro disso. Você tava limpando tudo com um drama absurdo, como se fosse morrer ali mesmo.
— Eu podia ter morrido! — ele exclamou, apontando para mim. — Você viu quantas teias de aranha tinham naquele salão?
Eu gargalhei, balançando a cabeça.
— Você era mais covarde do que eu pensava.
— E você era pior com encantamentos do que eu imaginava.
O silêncio que veio depois foi diferente. Ainda leve, mas carregado de algo que eu não sabia bem como descrever.
Meu olhar caiu sobre as cartas novamente. Eu as segurei com mais cuidado, como se fossem frágeis demais para ficarem ali, expostas.
— Posso ler outra? — perguntei, a voz mais baixa.
Fred hesitou por um segundo, mas assentiu.
— Só se prometer não rir da minha caligrafia.
— Eu jamais riria.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você já riu.
— Vou rir menos, então.
Fred bufou, mas não impediu quando eu soltei mais um laço e puxei outra carta. Dessa vez, a data era de um mês depois da primeira.
Eu respirei fundo antes de começar a ler.

“Querida ,
Eu ia começar essa carta com um “como está sendo na França?”, mas percebi que já sei a resposta. Aparentemente, cheia de garotas que falam baixo, andam em fila e treinam passos de dança no intervalo. Você já deve estar enlouquecendo.
Fico feliz que tenha feito amizade com a tal Victoire, apesar de ainda achar estranho como vocês duas se entenderam tão rápido. Eu te imaginava jogando feitiços nas outras meninas antes de socializar de verdade, então ponto pra você.
E sim, admito, Hogwarts sem você está esquisito. George e eu tentamos recriar aquele esquema do suco encantado que mudava de cor sempre que alguém dava um gole, mas sem você para inventar uma desculpa convincente quando McGonagall apareceu, fomos pegos. Perdemos 20 pontos da Grifinória. Minha mãe vai me matar.
Falando nisso, Rony quase chorou no jantar outro dia porque você não está aqui para roubar as batatas dele. Hermione me mandou dizer que está com saudades e que, se você não escrever para ela pelo menos uma vez por semana, ela vai aprender um feitiço para te assombrar.
Ah, e o treino de quadribol? Você tem noção do que foi assistir sem ouvir você gritando do lado? Harry parecia perdido sem sua narração dramática sobre os “momentos épicos” dele. (PS: ele adorou a parte da carta que enviou onde você elogiou as jogadas dele, mas jurou que eu não podia te contar isso. Estou contando mesmo assim.)
E antes que eu esqueça: George e eu passamos pelo seu lugar favorito perto do Lago ontem. Aquele cantinho onde você insistia que a água “brilhava de um jeito diferente” dependendo do horário do dia? Continua igual. Mas meio… sem graça.
Eu poderia continuar escrevendo sobre como tudo está chato e sem graça sem você, mas vou fingir que não sou um sentimental e só encerrar dizendo que… bem, sinto sua falta. Mas nem um pio para os outros, ouviu? Minha reputação de garoto descolado e sem coração depende disso.
Com um pouco de saudade (mas não muito, claro), — Fred.”

Terminei de ler, e minha garganta parecia apertada com tantos sentimentos guardados.
— Eu era um idiota — ele disse, sem encarar.
— Um pouco — concordei, dobrando a carta com cuidado. Ele riu baixo.
Fred pegou uma pedrinha do chão e a lançou no lago, observando as ondulações se espalharem na água escura. Ele parecia pensativo, como se ainda tentasse encontrar as palavras certas para explicar algo que já estava dito.
— Mas um idiota charmoso, ao menos? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha enquanto me lançava um olhar de canto.
Revirei os olhos, mas não consegui segurar um sorriso.
— Eu diria... consideravelmente suportável e… só um pouquinho charmoso — admiti.
Ele soltou uma risada, balançando a cabeça antes de se jogar para trás, apoiando-se nos cotovelos. O céu já começava a escurecer, o sol descendo mais rápido no horizonte.
— Sabe, eu quase te mandei uma dessas cartas, uma das mais recentes que escrevi.
Virei o rosto para ele, curiosa.
— Quase?
Fred assentiu, os olhos fixos no céu.
— No seu aniversário. George me convenceu de que eu devia mandar pelo menos uma. Até ajudou a escolher uma coruja. Mas quando cheguei na torre de corujas, fiquei lá parado... e acabei saindo sem entregar nada.
Minha expressão suavizou.
— O que dizia essa carta?
Ele suspirou, pensativo, então pegou o bolo de cartas da minha mão e retirou uma do meio.
— Aqui.
O envelope era diferente dos outros. O papel parecia mais grosso, e o selo… azul. Minha cor favorita. Meu coração deu um salto involuntário.
— Essa é a carta? — perguntei, encarando o envelope como se fosse um objeto precioso.
Fred apenas assentiu, me observando enquanto eu deslizava os dedos pelo selo antes de abri-lo com cuidado. Assim que tirei o papel dobrado lá de dentro, algo pequeno caiu sobre minha palma.
Pisquei surpresa.
Era um colar. Um fio fino de prata, com um pequeno pingente de estrela pendurado.
— Eu… — comecei, franzindo a testa enquanto o segurava.
— Vi esse colar em Hogsmeade em um dos passeios que fizemos — Fred explicou, coçando a nuca. — Lembrei de quando vínhamos pra cá ver as estrelas e achei que combinava com você. Eu… comprei ele bem antes do seu aniversário, na verdade.
Minhas mãos apertaram o pingente de leve. Era simples, pequeno, mas de alguma forma… muito significativo.
— Eu ia mandar um presente melhor, mas nada parecia certo. Então decidi mandar algo que me lembrava você.
Engoli em seco, sentindo um calor estranho no peito.
Respirei fundo e abri a carta, sentindo o coração acelerar conforme meus olhos percorriam as primeiras linhas.

Querida ,
Se você está lendo isso, significa que eu finalmente tomei vergonha na cara e enviei uma carta. Mas como provavelmente não enviei, vou assumir que essa continua na pilha das “cartas que Fred Weasley nunca teve coragem de mandar”.
Ainda assim, feliz aniversário.
Aposto que sua mãe fez alguma torta maravilhosa hoje e que seu pai apareceu com um presente que, de alguma forma, tem a ver com criaturas mágicas. Imagino que as meninas de Beauxbatons tenham te dado algo cheio de laços e bordados, e que você tenha sorrido educadamente enquanto tentava esconder o fato de que preferia algo mais prático. Acertei?
Aqui as coisas continuam caóticas como sempre, mas a verdade é que não é a mesma coisa sem você. Já te falaram que sua presença é meio barulhenta? Não no sentido de falar alto (bom, às vezes também), mas no jeito que você preenche um espaço. Parece errado não ter você implicando comigo e George, revirando os olhos quando aprontamos alguma ou jogando seu cabelo para trás daquele jeito meio dramático quando está brava.
(Aliás, nunca te falei isso, mas você faz esse gesto sempre que está prestes a discutir. É meio engraçado.)
Mas, mais do que tudo, sinto falta das pequenas coisas que fazem você ser você. Do jeito que você franze o nariz quando está concentrada, como se o mundo inteiro tivesse sumido ao seu redor. Da forma como seus olhos brilham quando está contando uma história ou planejando alguma coisa absurda. Da mania irritante de mexer no próprio anel quando está tentando esconder que está nervosa. E de como, quando ri de verdade, solta a cabeça para trás, como se o próprio corpo não conseguisse segurar a alegria.
A verdade é que, se alguém me perguntasse, eu diria que você é uma das minhas pessoas favoritas no mundo. Porque ninguém argumenta como você, com fogo nos olhos e um sorriso no canto da boca, pronta para provar seu ponto mesmo quando sabe que está errada. Porque sua teimosia só perde para sua lealdade. Porque você sempre sabe exatamente o que dizer para me irritar e, ao mesmo tempo, o que dizer para me fazer sentir que tudo está bem.
E porque, mesmo longe, mesmo depois de tanto tempo, eu ainda acho que nada é tão divertido quanto qualquer besteira que a gente fazia juntos.
Então, deixei algo para você junto com essa carta. Sei que não é um presente impressionante, mas achei que deveria te dar algo que pudesse carregar sempre, que coubesse no bolso e que, de alguma forma, fosse um pedacinho daqui. Então, peguei esse cordão de prata com um pingente de estrela. Não sei se você ainda olha para o céu à noite como fazia aqui, mas agora pode ter pelo menos uma estrela sempre com você.
Espero que tenha um aniversário de 18 anos incrível, . E que, quando você voltar (porque você vai voltar, certo?), a gente possa rir disso tudo e brigar porque eu nunca enviei nenhuma dessas cartas.
— Fred.”

— Você estava certo na parte de brigar… — falei, enxugando meus olhos com a manga da blusa.
Fred soltou um riso nasalado, sem humor.
— Eu sei. — Ele passou a mão pelo rosto e suspirou.
Fechei a carta com cuidado, alisando o papel como se pudesse apagá-lo do tempo e entregá-lo a mim mesma, meses atrás.
— Eu teria adorado receber essa carta. Esse presente. — Engoli em seco. — Eu teria respondido na hora.
Fred desviou o olhar para o lago, parecendo escolher as palavras com cuidado.
— Mas agora eu não preciso mais escrever — ele disse, enfim, virando o rosto na minha direção. — Porque você está aqui.
— Estou… — murmurei, segurando o olhar dele por um segundo a mais do que deveria.
O silêncio se estendeu, pesado e cheio de algo que não ousei nomear. Então, como se quisesse espantar aquilo, Fred pigarreou e pegou o colar da minha mão.
— Vem cá.
Franzi a testa, mas me virei de costas para ele, sentindo o frio do metal quando ele encostou a corrente na minha pele. Seus dedos esbarraram na minha nuca enquanto ele fechava o fecho, e eu não sabia dizer se aquele arrepio era por causa do vento gelado ou do toque dele.
— Pronto — ele murmurou, a voz um pouco mais baixa.
Passei os dedos pelo pingente de estrela, como se quisesse gravá-lo na memória.
— Combina com você — Fred comentou, sem rodeios. — É brilhante. Chama atenção sem nem tentar.
Minha boca se curvou, sem que eu pudesse evitar.
— Isso foi um elogio sério, Weasley?
— Não se acostume — ele rebateu, estalando a língua.
Ri baixinho e guardei a carta dobrada com cuidado junto com as outras, tocando o colar uma última vez antes de me virar para ele.
— Certo. E agora? Você sabe que eu vou ler todas essas cartas, mas acho que não seria interessante chorar na sua frente desse jeito — brinquei.
— Apesar de ter adorado ver suas reações, vou aceitar. — Fred abriu um sorriso convencido. — Então agora vamos dar uma volta.
— Para onde?
— Ainda não decidi. Mas prometo que vai ser divertido.
— Tudo bem, Fred Weasley. Me surpreenda.
Ele sorriu de canto e se levantou, me estendendo a mão para ajudar. Aceitei sem hesitar, sentindo o toque quente dos dedos dele nos meus. Quando já estávamos de pé, ele não soltou imediatamente. Só deu um pequeno aperto antes de afastar a mão e dar um passo para trás.
Fred sugeriu que déssemos mais uma volta antes de voltar ao castelo, e de alguma forma acabamos indo parar nas estufas. O ar lá dentro era morno e úmido, carregado com o cheiro de terra fresca e folhas molhadas. As lanternas encantadas iluminavam o espaço com um brilho suave, e o vidro embaçado das janelas deixava a luz da lua entrar de um jeito quase etéreo.
— E se alguma planta tentar nos atacar? — murmurei, observando um arbusto se mexer sozinho ao nosso lado.
— Aí você me protege. — Fred abriu um sorriso travesso. — Ou a gente sai correndo.
Revirei os olhos, mas sorri. Caminhamos entre as plantas, algumas conhecidas, outras completamente exóticas. Pequenos frascos de poções inacabadas estavam espalhados pelas bancadas de madeira, e era possível ouvir o som de folhas farfalhando ao menor movimento.
— Olha só isso. — Fred parou de repente, abaixando-se perto de um canteiro de flores pálidas que pareciam brilhar levemente.
Me ajoelhei ao lado dele, observando as pétalas prateadas que pareciam absorver a luz ao invés de refletir.
— Flor-da-Lua. — Reconheci. — Elas florescem sob a luz da lua e são usadas em poções bem raras.
Fred não respondeu. Só estendeu a mão e arrancou uma das flores do caule com um movimento cuidadoso.
— Ei! — sussurrei, alarmada. — Você não pode simplesmente…
Mas ele já estava segurando a flor entre os dedos, girando-a levemente antes de me estender.
— Combina com você.
Minha boca se abriu, mas nada saiu. Só consegui encarar a flor e depois o rosto dele, iluminado de um jeito suave pelo brilho prateado das pétalas.
— Eu não deveria aceitar algo roubado — murmurei, mesmo pegando a flor delicadamente.
— Então considere como um empréstimo. — Ele sorriu de canto.
Eu ri, balançando a cabeça, mas segurei a flor com mais carinho. O silêncio entre nós era confortável, quase íntimo, preenchido apenas pelo som distante de grilos e pelo vento sacudindo as folhas do lado de fora.
— Devemos voltar antes que a comida acabe? — Fred perguntou, depois de alguns segundos.
Suspirei, sabendo que o momento estava chegando ao fim.
— Provavelmente.
— Então vamos. Antes que George e Gina espalhem um boato absurdo.
Sorri, colocando a Flor-da-Lua atrás da orelha antes de acompanhá-lo de volta ao jantar.
Antes de seguirmos para o Salão Principal, desviamos para a Torre da Grifinória. Eu precisava guardar as cartas e a flor antes que algo acontecesse com elas, sabia bem como era dividir o jantar com um bando de adolescentes famintos e desastrados.
Assim que entramos na Sala Comunal, fui direto para meu baú, organizando as cartas com cuidado e coloquei a Flor-da-Lua em um vaso improvisado na mesinha ao lado da minha cama, enquanto Fred esperava apoiado no batente da porta, observando-me.
— Pronto. Agora sim, podemos comer sem risco de tragédia.
Ele riu, empurrando a porta para sairmos, e então descemos as escadas lado a lado.
Quando nos aproximamos do Salão Principal, o barulho de vozes e pratos tilintando preencheu o espaço, indicando que o jantar já havia começado há poucos minutos.
Parei na entrada, virando para encará-lo e Fred arqueou uma sobrancelha, curioso.
— O quê?
Respirei fundo, um pequeno sorriso surgindo nos meus lábios.
— Você também é uma das minhas pessoas favoritas no mundo.
Ele piscou, surpreso.
— E… ninguém mais poderia ter me proporcionado esse momento além de você, então obrigada, Freddie.
O olhar dele se suavizou. Por um instante, tive a impressão de que ele ia dizer algo, mas ao invés disso, um sorriso cresceu em seu rosto, aquele sorriso de canto que sempre me fazia sentir um calor estranho no peito.
— Estou muito feliz com a sua volta, .
Ele abriu a porta para mim, e juntos entramos no Salão Principal.


’s POV
O sol ainda estava nascendo quando abri os olhos, piscando devagar para me acostumar com a luz fraca que entrava pela janela do dormitório. O ar fresco da manhã preenchia o quarto, e o silêncio era cortado apenas pela respiração ritmada de Hermione e Gina, ainda adormecidas nas camas ao lado.
Levantei silenciosamente e caminhei até o baú, no pé da minha cama, onde guardei com cuidado o bolo de cartas que Fred nunca me enviou. Desde a noite anterior, sentia uma espécie de aperto no peito ao lembrar das palavras que ele escreveu, sabendo que passaria dias lendo cada uma delas.
Com um suspiro, peguei uma das cartas ao acaso e comecei a ler.

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Bom, se algum dia você estiver lendo isso, de alguma forma, elas foram parar nas suas mãos por conta de um acidente muito conveniente, pois duvido que eu tenha enviado por livre e espontânea coragem. De qualquer forma, olá.
Caso — e quando – você voltar para Hogwarts, saiba que já decidi: você tem a obrigação moral de ir comigo ao Baile de Inverno. Sim, estou estabelecendo isso como um fato. Não tente discutir. É uma questão de princípios. Não quero saber se algum francês charmoso roubou seu coração durante sua estadia em Beauxbatons, eu exijo compensação emocional por dois anos inteiros sem você aqui.
Hoje Dumbledore anunciou o baile desse ano e essa foi a única coisa que consegui pensar.
Falando em dois anos sem você, tem ideia do inferno que foi? George tentou suprir sua ausência, mas não tem o mesmo talento dramático que você. Hermione até tentou me ensinar francês para eu mandar uma carta (irônico, né?), mas depois de duas aulas e meia, descobri que minha pronúncia de je m'appelle Fred soava como um trasgo resfriado e desisti.
Sabe, eu pensei em mandar isso pra você de verdade. Mas e se você tivesse seguido em frente? Se Hogwarts tivesse se tornado só uma lembrança distante? Se... sei lá.
Enfim. Se um dia você ler isso, e por acaso ainda se lembrar de mim, espero que saiba que senti sua falta.
E sobre o baile... estou esperando minha resposta.
— Fred.”

Mordi o lábio, sentindo um sorriso involuntário surgir no canto dos lábios. Céus, como ele é dramático. Ainda assim, me senti ansiosa pelo baile. Aqui em Hogwarts, apenas os alunos do quarto ano pra frente podiam participar. Ou seja, quando entrei aqui, cinco anos atrás, com meus míseros quatorze anos, não havia nem pensado em nada sobre isso, e agora me perguntava com quem iria.
Antes que pudesse pensar muito sobre aquilo, uma voz sonolenta soou do outro lado do quarto.
— Que carta é essa? — Gina perguntou, a voz rouca pelo sono enquanto se sentava na cama, os cabelos ruivos completamente bagunçados.
— É… do Fred — admiti, dobrando o papel com cuidado.
— Ele te enviou uma carta agora? — Hermione, que também acordou, franziu a testa.
Soltei uma risada baixa, com a curiosidade delas.
— Não exatamente. Lembra que eu falei para vocês como havia ficado chateada com a falta de resposta dele durante o tempo que fiquei fora? — As duas concordaram com a cabeça. — Então, ele havia respondido cada uma das cartas que enviei, mas não enviou nenhuma delas.
— E como você soube disso? — Mione perguntou, ainda confusa.
— Ele me falou. Ontem — respondi, pegando o bolo de cartas de dentro do baú. — E me entregou todas elas. Ele disse que não enviar tornava as coisas mais fáceis e, pra ser sincera, eu entendi o que ele quis dizer…
Gina trocou um olhar significativo com Hermione antes de voltar a me encarar.
— Você já leu todas elas? — Gina perguntou e eu balancei a cabeça negativamente.
— Ainda não, li umas três… bom, quatro com essa — falei, levantando o papel em minha mão.
— E o que ela fala? — Dessa vez foi Mione quem perguntou.
Li a carta novamente, mas em voz alta dessa vez. As meninas riram com algumas frases bem típicas, mas quando terminei, ergui os olhos, encarando-as.
— Isso soa bem Fred mesmo. — Gina sorriu de lado.
— Soa, né? — brinquei.
— E realmente, ele era péssimo nas aulas de francês. Deve ser de família. — Mione riu, levando uma travesseirada voadora de Gina. — Pelo menos a parte masculina da família… — ela corrigiu, recebendo um olhar satisfeito da ruiva.
— E o que você vai fazer agora? — Gina perguntou, curiosa.
— …E se eu convidá-lo para o baile?
— Sério?! — Hermione incentivou, batendo palmas.
— Mas tem que ser… diferente. Quer dizer, Fred adora fazer coisas grandes, né? — falei, percebendo que minhas amigas estavam quase entrando em combustão de felicidade com a minha decisão.
— E você já tem algo em mente? — Gina questionou, pensativa.
— Pensei em algo, sim. O que vocês acham de…
Despejei a ideia sobre elas e, como se fosse uma ação previamente ensaiada, Hermione começou a murmurar feitiços enquanto Gina pegava um pergaminho para anotar tudo. Eu, por outro lado, não conseguia evitar o sorriso largo no rosto, já imaginando o que Fred acharia de tudo aquilo. Minhas amigas estavam tão empolgadas quanto eu, quase parecendo mais ansiosas pela reação dele do que eu mesma.
A verdade é que poderia fazer algo simples, afinal, ele me convidou através da carta, né? Mas dado as últimas coisas que aconteceram na nossa amizade, eu realmente queria fazer algo legal por ele.
*
Estava passando pelo corredor, indo encontrar os meninos, Gina e Mione que me esperavam no campo de quadribol, quando a voz familiar de Blaise Zabini surgiu do nada. Ele estava encostado em uma pilastra e, assim que me viu, me chamou com um sorriso nos lábios.
— Finalmente te achei, — ele disse, enquanto me aproximava.
O olhei surpresa, já que ele havia sumido por dias. O via somente em algumas aulas e, mesmo assim, ele desaparecia no final delas, sem nem dar tempo de conversar.
— Você sumiu, Blaise. Onde andava? — perguntei, curiosa. Ele deu de ombros, parecendo não se importar muito com a ausência.
— Meus amigos entraram em uma boa confusão e, como sempre, acabei me metendo na história. Fiquei preso tentando ajudá-los... Acabei até na detenção com eles — ele falou com um sorriso de canto, como se estivesse se divertindo com o acontecido.
Ri baixo, entendendo exatamente como a situação poderia ter sido.
— Pelo visto não foi nada tranquilo.
— Agora está tudo bem. Mas que bom que te achei, estava mesmo querendo falar com você… — ele disse, mudando de assunto. — Então, tem alguém em mente para o Baile de Inverno?
Ele foi direto.
— Bem… — comecei, hesitando por um momento. Quer dizer, Fred não sabia que eu iria ao baile com ele ainda, pode ser até que ele tenha pensado em chamar outra pessoa. Afinal, ele pode muito bem ter esquecido daquela carta. Ah, dane-se. — Eu prometi ao Fred que iríamos juntos assim que eu voltasse para Hogwarts. Foi algo que ele pediu no ano passado.
Blaise me olhou, sem perder a compostura.
— Mas vocês…?
— Não, não. Somos melhores amigos — respondi, sentindo sua expressão suavizar.
— Então acho que ele não se importaria se eu te convidasse para uma dança? — ele questionou, cruzando os braços.
— Tenho certeza que não. Acho que é uma ótima ideia — respondi, sorrindo.
— Combinado então, . — Ele sorriu, satisfeito com a resposta.
Ao ouvir gritos no fundo, soube exatamente de onde eles vinham.
— Nos vemos depois, Zabini? — Ele concordou com a cabeça, enquanto saía apressada para conseguir ver meus amigos antes de entrarem em campo.
Apressei-me pelos corredores de Hogwarts, desviando dos alunos que ainda circulavam pelo castelo, até finalmente alcançar a passagem para o campo de quadribol. O burburinho da torcida já podia ser ouvido ao longe, misturado ao vento cortante do final de tarde.
Ao dobrar o último corredor, encontrei Gina e Hermione próximas à entrada dos vestiários, conversando com os meninos, que já estavam quase prontos para entrar em campo. Fred e George pareciam relaxados, como sempre, enquanto Harry amarrava as luvas com concentração.
— Até que enfim, ! — Gina exclamou ao me ver, sorrindo.
— Tive que desviar de umas dúzias de alunos no caminho — brinquei, antes de virar para os meninos. — Mas cheguei a tempo de desejar boa sorte!
— Vamos precisar — Harry comentou, soltando um suspiro. — O time da Lufa-Lufa melhorou muito esse ano.
— Mas não o suficiente para ganhar de nós — Fred rebateu, convencido.
— Isso se vocês não ficarem bancando os palhaços em campo — Hermione advertiu, cruzando os braços.
George levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido.
— Mione, você fere nossos sentimentos. Somos atletas muito sérios.
— Com certeza — ela respondeu, sarcástica.
Ri e me aproximei mais de Fred, cutucando seu braço de leve.
— Vamos estar na arquibancada torcendo por vocês.
Ele sorriu, piscando com o olho esquerdo. Desejei boa sorte para o time novamente antes de seguir com as meninas para as arquibancadas, onde a torcida já estava animada.
Os jogadores entraram em campo sob os aplausos ensurdecedores da multidão. O céu estava claro, perfeito para um jogo, e o vento soprava na medida certa para não atrapalhar a partida. Madame Hooch fez os últimos avisos e lançou a goles no ar.
O jogo começou intenso. Harry disparou pelo campo atento ao pomo de ouro, enquanto as artilheiras da Grifinória, Angelina, Alicia e Katie trabalhavam juntas para manter a posse da goles. Mas a defesa da Lufa-Lufa estava mais forte do que nunca, bloqueando os passes e dificultando os gols.
Os gêmeos, como batedores, estavam em seu auge. George rebateu um balaço com tanta força que quase derrubou o artilheiro adversário. Fred por outro lado, jogava de forma estratégica, mantendo os olhos na movimentação dos lufanos e impedindo qualquer tentativa de contra-ataque.
Vamos! — gritei junto com Gina, quando Angelina conseguiu passar pela defesa e marcar o primeiro gol do jogo.
A Lufa-Lufa não ficou para trás. Seu artilheiro principal, Zacharias Smith, conseguiu um belo passe e marcou para o time amarelo, empatando o jogo.
O ritmo só aumentou a partir dali. Fred e George estavam imparáveis, frustrando qualquer tentativa da Lufa-Lufa de virar o placar. Harry voava rápido, atento a qualquer sinal do pomo de ouro.
A torcida estava à beira do colapso quando Angelina conseguiu mais um gol, colocando a Grifinória na frente. Mas o jogo ainda não estava decidido.
Foi então que, do outro lado do campo, Harry disparou de repente, os olhos fixos em um pequeno brilho dourado. O apanhador da Lufa-Lufa percebeu e mergulhou junto, ambos disputando o pomo em um voo arriscado. O estádio prendeu a respiração.
— Vai, Harry! — Hermione gritou ao meu lado.
Com um último impulso, Harry esticou a mão e agarrou o pomo, erguendo-o no ar.
A Grifinória vence! — a voz do comentarista anunciou, e a arquibancada explodiu em gritos de comemoração.
As jogadoras do time abraçaram Harry no ar, enquanto Fred e George trocavam um cumprimento vitorioso.
O campo de quadribol ainda vibrava com a vitória. Os jogadores da Grifinória desciam de suas vassouras, sendo recebidos pelos colegas que correram para parabenizá-los. Fred e George vieram na nossa direção, ainda radiantes.
— O que acharam, senhoritas? — Fred perguntou, apoiando a vassoura no ombro e arqueando uma sobrancelha para mim. — O melhor show de quadribol do ano?
— Não foi ruim — provoquei, cruzando os braços. — Mas… talvez eu deva retribuir o espetáculo.
Ele piscou, confuso.
Foi então que Gina e Hermione sacaram suas varinhas, apontando discretamente para o céu acima do campo. Uma sequência de faíscas douradas surgiu no ar, subindo como fogos de artifício. Num instante, pequenos estouros luminosos explodiram, formando letras brilhantes que reluziam contra o céu do fim da tarde:
“Fred Weasley, quer ir ao baile comigo?”
A multidão ficou em silêncio por um segundo, antes de uma onda de murmúrios, risadas e assovios tomarem conta do campo. Algumas pessoas começaram a aplaudir, e os grifinórios soltaram um “Ooooh” sincronizado.
Fred olhava para cima, piscando como se não acreditasse no que estava vendo. Então virou os olhos para mim, surpreso e com um sorriso desacreditado no rosto.
— Você tá brincando…
— Achei que merecia um convite à altura do grande astro do quadribol — respondi, tentando conter minha própria risada. — Mas, se não gostou, posso fazer os fogos sumirem e…
Ele riu, balançando a cabeça.
— Nem pensar. Eu amei.
Os fogos brilharam uma última vez antes de desaparecerem, deixando apenas faíscas douradas que caíam suavemente no ar como pequenas estrelas.
— Então, Fred Weasley…? — levantei uma sobrancelha.
Ele cruzou os braços, fingindo pensar.
— Hmm… deixa eu ver… você tem mais alguma coisa a me oferecer além de um espetáculo pirotécnico?
Rolei os olhos.
— Não.
— Hm, interessante… — ele estreitou os olhos. — Acho que é o suficiente, eu aceito.
A galera ao redor explodiu em gritos e palmas. George bateu nas costas do irmão, rindo.
— Isso foi completamente injusto! Como é que eu supero um convite desses?
— Com muito esforço — respondi, piscando para ele.
Fred se aproximou um pouco mais, ainda sorrindo.
— Você é inacreditável, .
— Eu sei — respondi, dando de ombros.
Ele riu e, sem aviso, me puxou para um abraço repentino, me girando no ar.
— Obrigado pelo convite, Moonveil. De verdade — sussurrou contra meu cabelo antes de me colocar de volta no chão.
Ali, eu tive a certeza que faria aquilo outras mil vezes para ele, mas é óbvio que não falaria, seu ego já era alto o suficiente.

*

A vitória da Grifinória parecia ecoar até dentro das paredes da torre.
Quando chegamos à Sala Comunal, já havia bandeiras vermelhas e douradas se desenrolando pelas paredes, serpentinas mágicas serpenteando pelo teto e pequenas explosões de faíscas douradas surgindo da lareira como se o próprio fogo estivesse comemorando.
— Isso foi rápido… — murmurei, olhando ao redor.
— Você esqueceu a capacidade da Grifinória de transformar qualquer vitória em desculpa para uma festa? — George respondeu, já pegando duas garrafas de cerveja amanteigada de uma mesa improvisada.
A música começou quase imediatamente, algum aluno do sexto ano havia encantado um rádio trouxa e agora o som preenchia o ambiente com batidas animadas. Sofás foram empurrados para as laterais e o centro da sala virou uma pista improvisada.
Fred apareceu ao meu lado de repente.
— Então… — ele disse, inclinando-se para falar perto do meu ouvido por causa do barulho. — Eu ainda estou processando aquilo.
— Qual parte? Os fogos? Ou o fato de eu ter feito você ficar sem palavras na frente da escola inteira?
Ele riu baixo.
— Eu nunca fico sem palavras.
— Você ficou.
— Fiquei surpreso — ele corrigiu, mas o sorriso dele denunciava que eu tinha razão.
George entregou uma garrafa para ele e outra para mim.
— Aos campeões! — alguém gritou.
— Aos campeões! — repetimos.
Bebi um gole. Depois outro. A cerveja amanteigada estava mais forte do que o normal, alguém claramente tinha “melhorado” a receita.
A sala foi ficando mais cheia. Risadas, gritos, gente dançando em cima das poltronas. Gina já estava no meio de um grupo, rodopiando com Harry enquanto ele tentava acompanhar o ritmo.
Eu me virei para comentar algo com Fred e quase esbarrei nele. Ele estava muito mais perto do que eu esperava.
— Cuidado, Moonveil — ele disse, segurando minha cintura para me equilibrar.
Era só um gesto rápido, mas a mão dele demorou um segundo a mais do que o necessário.
— Você está invadindo meu espaço pessoal, Weasley — falei, tentando manter o tom de brincadeira.
— Engraçado… — ele inclinou a cabeça. — Eu sempre achei que você gostava.
Revirei os olhos, mas o calor subiu pelo meu pescoço mesmo assim.
A música mudou para algo mais animado e alguém puxou Fred pelo braço para o meio da roda que se formava. Ele estava rindo, mas antes de se afastar segurou minha mão.
A dança começou desajeitada, como sempre. Empurrões, gargalhadas, gente rodopiando sem qualquer noção de ritmo, alguém quase caindo por tentar uma pirueta que claramente não sabia fazer. A música vibrava pelas paredes, fazendo o chão tremer sob nossos pés.
Fred dançava com zero vergonha.
Ele levantava os braços, girava sozinho, puxava qualquer pessoa que estivesse por perto para o meio da roda. O cabelo ruivo caía na testa, desalinhado, os olhos brilhando com euforia.
— Você chama isso de dança? — provoquei, rindo quando ele quase esbarrou em um sofá.
— Isso é arte incompreendida — ele respondeu, estendendo a mão para mim.
Antes que eu pudesse fingir recusa, ele me puxou.
O giro veio rápido. Meu mundo virou vermelho e dourado por um segundo, a sala misturada em cores borradas enquanto ele me rodava pelo braço. Soltei uma gargalhada involuntária.
— Você vai me derrubar!
— Confia em mim.
Ele me girou de novo e então voltamos a dançar. A segunda bebida apareceu na minha mão sem que eu percebesse exatamente como. Alguém gritou algo sobre “brindar aos campeões” e eu ergui o copo junto com os outros.
Fred bateu o dele no meu.
— À minha acompanhante de baile! — ele anunciou.
— Cala a boca! — respondi, mas estava rindo.
Bebi mais um gole. O líquido queimava levemente, mas era agradável.
Então a terceira rodada veio ainda mais rápido.
Agora a sala parecia um pouco mais brilhante. O som um pouco mais alto. As risadas mais fáceis. Eu sentia o corpo leve, os movimentos mais soltos, o cuidado diminuindo.
Fred também, mas nele a diferença era mais visível.
Ele falava mais alto do que o normal, interrompia as próprias frases para começar outras, gesticulava como se estivesse discursando para o mundo inteiro. Abraçava qualquer um que passasse perto demais. Subia nas cadeiras. Descia delas. Girava sozinho no meio da pista como se estivesse em um palco.
George também não parecia exatamente sóbrio.
— Isso aqui é uma celebração histórica! — Fred anunciou em cima da mesa central, quase derrubando um copo.
— Desce daí! — gritei, rindo.
Ele apontou para mim dramaticamente.
— Essa aqui é a responsável por eu ter um encontro no baile mais épico da história!
A sala respondeu com gritos e assobios.
Meu rosto queimou. Por Merlin.
Ele desceu da mesa, quase tropeçando, e veio até mim. Dessa vez, quando segurou minha cintura, não foi para me equilibrar, foi para me puxar mais perto.
— Você sabe que eu teria dito sim de qualquer jeito, né? — ele disse, o sorriso torto, os olhos brilhando demais.
Meu coração deu um salto pequeno e irritante.
— Eu sei.
— Mas aquilo… — ele apontou para o teto, como se os fogos ainda estivessem lá. — Aquilo foi absurdo.
— Você merece coisas absurdas.
Ele me olhou de um jeito diferente por longos segundos em silêncio. E então sorriu de novo, quebrando o momento.
— Mais uma rodada! — ele gritou.
Eu peguei o copo que alguém me ofereceu, mas dessa vez só molhei os lábios. Comecei a prestar mais atenção.
George já estava abraçado com dois colegas, rindo sem parar, e Fred tinha perdido completamente a noção do próprio equilíbrio.
Ops… — ele murmurou após tropeçar no nada, rindo sozinho.
Segurei o braço dele.
— Fred, acho que já deu. Você mal consegue ficar em pé.
— Consigo sim.
Ele tentou provar e falhou miseravelmente.
Eu suspirei, olhando ao redor. George definitivamente não estava em condições de ajudar ninguém. Rony havia sumido. Hermione tinha ido dormir mais cedo e Gina estava ocupada demais com Harry.
Respirei fundo.
— Certo. Chega. — Peguei o copo da mão de Fred e coloquei em uma mesa. — Você está oficialmente proibido de beber mais.
— Gosto quando você manda em mim.
Ele disse aquilo com um sorriso torto e os olhos meio desfocados, como se tivesse acabado de descobrir um pensamento brilhante demais para guardar só para si. A frase saiu baixa, mas perto o suficiente para que eu sentisse o calor da respiração dele misturado ao cheiro adocicado da cerveja amanteigada.
Revirei os olhos, mas o gesto não teve a firmeza que eu gostaria.
— Você é chato.
— Sempre fui — ele rebateu. — A diferença é que agora estou celebrando.
E ele realmente estava. Só que a linha entre celebrar e exagerar já tinha ficado para trás há alguns copos.
A música continuava alta, vibrando pelas paredes, e alguém tinha começado a bater palmas no ritmo errado, o que deixava tudo ainda mais caótico. Dois alunos dançavam em cima de uma poltrona que claramente não tinha sido feita para suportar aquilo, enquanto do outro lado da sala um grupo tentava organizar um brinde coletivo que ninguém conseguia acompanhar.
Fred tentou se soltar da minha mão para buscar outro copo, mas eu segurei o pulso dele com mais firmeza.
— Não.
Ele me encarou como se estivesse processando a informação com atraso.
— Não?
— Não — disse, jogando meu cabelo para trás do ombro.
Por um instante, ele pareceu genuinamente ofendido. Então a expressão mudou para algo quase divertido, como se aquilo fosse um jogo novo.
— Você ficou séria de repente — comentou, inclinando o rosto para me observar melhor. — Está ficando irritada, não é?
Eu deveria ter perguntado como ele sabia disso, mas a verdade é que Fred sempre soube ler minhas expressões melhor do que qualquer pessoa.
— Você é muito bonita quando está irritada — ele murmurou, como se fosse um comentário casual.
Meu coração tropeçou de novo, irritantemente.
— Você está falando demais.
— Eu sempre falei demais.
A música ainda explodia pela sala, mas para mim o barulho tinha diminuído. O que eu via agora era o leve desequilíbrio no corpo dele. O jeito como piscava devagar demais. A demora em focar os olhos em mim.
Trancei meu braço com o dele, puxando-o para mais perto.
— Vamos.
— Para onde? — ele perguntou, mas já me acompanhava lentamente.
— Para o seu quarto.
— Ah. Interessante. — Ele riu baixo.
Revirei os olhos.
— Não começa.
Comecei a guiá-lo em direção à escada dos dormitórios masculinos, desviando de grupos de alunos que estavam ocupados demais com a própria animação para prestar atenção em nós.
O calor da festa foi ficando para trás conforme subíamos os degraus. O som da música se tornava mais abafado, misturado com o eco dos nossos passos.
Ele tropeçou no segundo lance de escadas e precisei segurá-lo pela cintura para evitar que caísse para trás.
Minha mão deslizou involuntariamente sob a camisa dele por um segundo, encontrando pele quente e firme.
Engoli seco.
Subimos o último degrau com dificuldade, e finalmente chegamos ao dormitório masculino. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que vinha das janelas.
As camas estavam vazias, provavelmente Lino Jordan ainda estava na festa com George, e o dormitório masculino estava mergulhado em um silêncio estranho depois do caos lá embaixo.
Assim que cruzamos a porta, senti o corpo de Fred relaxar um pouco mais. Ele soltou um suspiro longo, como se finalmente tivesse saído do campo de batalha.
— Vitória merecida — murmurou, passando a mão pelo cabelo já completamente desalinhado.
Foi quando ele começou a desabotoar a camisa. Demorei um instante para perceber o que estava acontecendo.
— O que você está fazendo?
Ele ergueu os olhos para mim, como se a pergunta fosse óbvia demais.
— Vou tomar banho.
— Você não está em condições de tomar banho sozinho.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— É só ficar parado embaixo do chuveiro. Eu consigo.
— Consegue agora — rebati. — Daqui a cinco minutos não sei.
Ele deu de ombros, continuando a abrir os botões com uma coordenação ligeiramente comprometida.
— Então me ajuda. — A frase foi dita com naturalidade demais.
— Ajudar… como exatamente?
Ele riu baixo.
— A ficar vivo. Não vou desmaiar dramaticamente no box.
Eu suspirei, cruzando os braços por um segundo enquanto avaliava a situação. A última coisa que eu queria era que ele escorregasse e quebrasse a cabeça no piso de pedra do banheiro.
— Você vai tomar banho — decidi, finalmente. — E eu vou ficar esperando na porta. Se você cair, eu entro.
Ele pareceu satisfeito com aquilo.
— Justo.
A camisa já estava aberta, revelando o torso que eu tinha tentado ignorar alguns minutos atrás. A luz da lua marcava as linhas dos ombros e do abdômen de um jeito quase injusto.
Eu desviei o olhar.
— Termina logo isso — murmurei.
Ele começou a tirar a camisa com menos coordenação do que gostaria de admitir, e eu me aproximei automaticamente para ajudar antes que ele ficasse preso no próprio braço. Meus dedos roçaram a pele quente dele ao puxar o tecido para fora.
Ele não fez nenhum comentário dessa vez. Só me observou por um segundo, com aquele olhar meio desfocado, meio atento demais.
A camisa caiu no chão. Ele tirou os sapatos com um pouco de esforço e se apoiou na parede enquanto eu o guiava até o banheiro.
— Porta aberta — avisei.
— Autoritária.
— Só entra no banho logo.
Ele entrou no banheiro, fechando a porta apenas o suficiente para manter alguma privacidade, mas sem trancar. Eu me sentei na beira da cama, ouvindo o barulho da água começar a correr.
Por alguns segundos, fiquei apenas respirando.
O som do chuveiro ecoava pelo quarto silencioso. A festa lá embaixo era apenas um ruído distante agora. Meus olhos caíram na camisa dele jogada no chão, depois na toalha pendurada na cadeira.
Passei as mãos pelo rosto e suspirei.
Depois de alguns minutos, ouvi o chuveiro desligar. O som da água parando foi substituído pelo barulho leve de movimentos, a torneira da pia abrindo, o som inconfundível da escova de dentes sendo usada de maneira meio preguiçosa.
Eu ri sozinha. Ele estava mesmo tentando se recompor.
A porta se abriu alguns minutos depois e eu ergui os olhos, imediatamente desejando não ter erguido tão rápido.
Fred saiu do banheiro com uma toalha branca presa na cintura, os cabelos úmidos caindo sobre a testa, gotas de água escorrendo pelo pescoço e descendo pelo peito ainda levemente avermelhado do banho quente.
Ele passou a mão pelo cabelo, jogando-o para trás.
— Muito melhor.
Eu ainda estava olhando.
— Você está me encarando — ele murmurou, com um meio sorriso preguiçoso.
— Não estou.
— Está sim.
— Cala a boca — resmunguei. — Coloca uma roupa.
— Não trouxe pro banheiro.
Claro que não trouxe.
Ele caminhou até a cômoda, cada passo calmo demais para alguém recém-bêbado. Pegou uma bermuda de moletom e virou-se para mim com a naturalidade de quem não via problema algum na situação.
Eu vi o momento exato em que ele segurou a ponta da toalha e eu sabia o que ele iria fazer. Virei o rosto e fechei os olhos rapidamente, sentindo o calor subir pelo pescoço.
Céus.
Ouvi o som da toalha sendo solta e em seguida o farfalhar do moletom sendo puxado.
— Pronto.
Abri os olhos com cuidado.
Ele estava “vestido”, sem camisa e com a bermuda baixa no quadril.
Fred caminhou até a cama e simplesmente se deixou cair no colchão, olhando para o teto por um momento.
Eu caminhei devagar e me sentei ao lado dele, sentindo o alívio de vê-lo bem e finalmente deitado.
— Dessa vez eu fui a heroína — brinquei.
Ele virou o rosto para mim, o sorriso agora menor e mais suave.
— Foi.
O silêncio que se seguiu era tranquilo. Ele estendeu a mão, segurando levemente a barra da minha blusa, como se quisesse garantir que eu ainda estava ali. Os olhos dele estavam mais pesados agora e o sorriso já havia sumido.
— Fica aqui.
Meu coração falhou uma batida.
Fred…
— Só… fica.
Eu hesitei apenas um segundo.
Olhei para a porta, depois para ele, então deslizei as pernas para cima da cama e me deitei ao lado dele, mantendo alguma distância.
Ele virou de lado quase imediatamente, passando o braço pela minha cintura, encaixando o rosto contra meu ombro como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Você cheira a caramelo — ele murmurou, a voz mais baixa, menos brincalhona do que o habitual.
— E você cheira a imprudência e sabonete — respondi, quase num sussurro.
Ele soltou um som que poderia ter sido uma risada, mas que se dissolveu no meio do caminho, substituído por um suspiro longo. O corpo dele relaxou de vez contra o meu, como se finalmente tivesse permitido que o cansaço o alcançasse.
Eu hesitei antes de fazer qualquer coisa, mas meus dedos acabaram encontrando o cabelo dele sozinhos. Passei a mão devagar pelos fios ainda úmidos, afastando uma mecha da testa dele.
Ele não abriu os olhos, só se aproximou um pouco mais.
Eu podia sentir o peito dele subir e descer contra minhas costelas. O calor da pele dele atravessava o tecido da minha blusa. O braço ainda firme na minha cintura como se houvesse receio de que eu desaparecesse se ele afrouxasse o aperto.
… — ele chamou, mais baixo.
— Hm?
Houve uma pausa longa demais antes de continuar falando.
— Eu gostei.
— Do banho? — provoquei. Ele fez um pequeno movimento negativo com a cabeça.
— Do convite.
Meu coração apertou.
— Eu fiquei pensando que você poderia ter… sei lá… escolhido qualquer outra pessoa.
— Eu quis escolher você — respondi, também mais baixo.
A respiração dele começou a desacelerar de novo, o peso do corpo ficando mais solto, mais pesado, o cansaço finalmente vencendo qualquer resquício de euforia.
Ele ajustou o braço ao redor da minha cintura, puxando-me alguns centímetros mais perto. Passei a mão devagar pelas costas dele, sentindo a pele ainda quente do banho, o movimento suave da respiração sob meus dedos.
— Você fica até eu dormir?
— Fico.
Observei os olhos dele se fecharem de vez, sentindo o corpo relaxar completamente contra o meu e o aperto no tecido da minha blusa afrouxar aos poucos, substituído por um gesto mais inconsciente, mas ainda presente.
Eu não sabia exatamente quando o sono me alcançou também, mas minha ideia de voltar para o meu quarto simplesmente morreu.


’s POV
Eu acordei antes do sol realmente nascer.
Não foi um despertar brusco. Foi aquele tipo de consciência lenta, em que o corpo acorda primeiro e a mente demora alguns segundos para entender onde está.
O quarto ainda estava escuro, tingido por um azul quase acinzentado da madrugada e o ar estava levemente frio, contrastando com o calor constante ao meu lado.
Foi quando eu senti o peso do braço dele ainda na minha cintura, o rosto encaixado no meu ombro e a respiração quente e regular contra minha pele.
Meu coração acelerou instantaneamente.
Continuei imóvel por alguns segundos, absorvendo tudo como se fosse uma cena que eu precisava memorizar antes que desaparecesse. Fred dormia profundamente, completamente entregue ao sono, o cabelo formando pequenas ondas na testa.
Ele parecia mais novo assim. Mais tranquilo. Sem o sorriso torto, sem a ironia de sempre.
Olhei para a janela e um feixe muito discreto de luz começava a aparecer no horizonte. Deviam ser seis da manhã, no máximo.
Então a porta do dormitório abriu.
George entrou cambaleando, com o uniforme do jogo ainda amassado e o cabelo tão desalinhado quanto o do irmão. Ele fechou a porta com cuidado demais para alguém naquele estado e ficou parado por um segundo, claramente tentando focar a visão.
O olhar dele passou por mim. Depois por Fred. Depois voltou para mim.
Por um instante, achei que ele fosse fazer algum comentário, mas ele só piscou devagar, como se aquilo exigisse energia demais.
— Passei a noite com a Angelina — murmurou, com a voz arrastada de exaustão absoluta.
Eu quase ri.
— Percebi que você não voltou.
— Valeu a pena — ele respondeu, já caminhando até a própria cama.
Ele caiu no colchão sem tirar os sapatos e apagou praticamente no mesmo segundo.
Eu esperei alguns instantes, certificando-me de que ele realmente estava inconsciente. O que não foi difícil, considerando que o ronco baixo começou quase imediatamente.
Respirei fundo e com cuidado, levantei o braço de Fred da minha cintura, deslizando devagar para fora do alcance dele. Ele murmurou algo incompreensível, virando de lado, mas não acordou.
Eu o observei por um segundo a mais e então me levantei da cama. Ajeitei minha roupa, passei a mão pelo cabelo e saí do dormitório em silêncio, descendo as escadas antes que qualquer outro grifinório decidisse aparecer.
O salão comunal àquela hora era outro mundo: silencioso, frio, limpo e sem vestígios da festa que aconteceu.
Quando cheguei ao meu quarto, Gina e Hermione ainda dormiam profundamente. Entrei devagar, tirei os sapatos, coloquei uma blusa larga como pijama e me deitei na minha própria cama.
Fechei os olhos e só então percebi o quanto estava cansada.
Quando acordei pela segunda vez, o sol já invadia o dormitório com muito mais intensidade. Gina estava sentada na própria cama, escovando o cabelo enquanto reclamava da própria cabeça e Hermione organizava livros sobre a colcha como se a noite anterior tivesse sido apenas uma nota de rodapé na agenda dela.
— Bom dia — murmurei, a voz ainda arrastada.
— Bom dia nada — Gina respondeu. — Minha cabeça está latejando.
Hermione me lançou um olhar rápido.
— Você dormiu como uma pedra.
Eu pisquei.
— Dormi mesmo?
Ela assentiu, distraída demais para notar qualquer coisa. Nem uma pergunta, nem um olhar suspeito. Me senti instantaneamente aliviada. Com certeza comentaria com elas depois sobre ter cuidado de Fred, mas não queria ter que me explicar agora.
Gina terminou de prender o cabelo em um rabo de cavalo alto e fez uma careta ao se levantar.
— Se eu sobreviver hoje, é milagre.
— Assim você aprende a não misturar bebidas — Hermione comentou, já vestindo o uniforme perfeitamente alinhado.
— Eu não misturei! — Gina rebateu. — Só… bebi demais.
Eu ri baixo, levantando também.
Tomei um banho rápido, terminamos de nos arrumar e descemos juntas para o Salão Principal. O caminho pelo castelo parecia mais lento do que o normal, talvez porque a energia da noite anterior ainda estivesse pairando no ar, como um eco que se recusava a ir embora.
Quando entramos no Salão, ouvíamos apenas o barulho habitual do café da manhã de talheres tilintando, cadeiras arrastando e conversas cruzadas.
Mas algo estava faltando.
A mesa da Grifinória tinha vários alunos ainda comentando a vitória do dia anterior, mas quatro lugares estavam vazios.
Gina foi a primeira a notar.
— Eles não vieram?
Hermione franziu a testa, olhando ao redor como se os meninos pudessem simplesmente surgir atrás de uma pilastra.
— Estranho. Harry nunca perde café da manhã.
— Depois de ontem? — Gina bufou, pegando uma torrada. — Ele perderia até a própria formatura.
— Eles devem estar de ressaca — falei, tomando um gole de chá.
— Devem estar destruídos — Gina corrigiu, já servindo suco de abóbora. — Principalmente os meus irmãos. Eles exageraram ontem.
Hermione fez um som de leve reprovação.
— Eu avisei que aquela cerveja estava diferente, forte demais.
— Isso explica muita coisa. — Gina soltou uma risada curta.
Eu fiquei em silêncio por um instante, lembrando de Fred tropeçando no nada e declarando a festa como “celebração histórica”.
— Deveríamos levar alguma coisa pra eles — falei, antes mesmo de pensar demais e Hermione já concordava com a cabeça.
— Sim. Chá ajudaria. E algo leve para comer.
— E talvez aquela sua poção pra dor de cabeça. Me ajudou muito — Gina completou, esfregando a própria testa como se estivesse aprovado.
Começamos a montar pequenas bandejas improvisadas: torradas, algumas frutas, jarras de suco de abóbora e um bule de chá quente que Hermione insistiu em carregar com extremo cuidado.
Subimos de volta para a torre carregando tudo, equilibrando bandejas e copos com cuidado. Quando chegamos ao topo da escada, nos entreolhamos.
— Nós vamos no dormitório do Harry e do Rony — Gina disse, já virando à esquerda. — Você leva para Fred e George?
Concordei com a cabeça e então nos dividimos.
Segurei a bandeja com mais firmeza antes de virar para a escada que levava ao dormitório dos gêmeos.
Subi os degraus devagar, tentando manter o equilíbrio do bule de chá que ameaçava escorregar a cada passo. O barulho da Sala Comunal ia ficando mais distante, substituído pelo silêncio mais denso do corredor superior.
Bati duas vezes na porta do dormitório masculino.
Nenhuma resposta.
Esperei alguns segundos e bati de novo, um pouco mais forte.
— George? — chamei baixo. — Fred?
Um som abafado veio lá de dentro. Algo entre um gemido e um resmungo indignado.
— Se for o fim do mundo… volta mais tarde… — a voz de George saiu arrastada, claramente soterrada por travesseiros.
Eu sorri sozinha.
Empurrei a porta devagar com o ombro, tomando cuidado para não derrubar nada. O quarto estava mergulhado numa penumbra confortável, as cortinas ainda meio fechadas.
Aparentemente Lino Jordan ainda não havia voltado para o próprio quarto, então estavam apenas os dois ali.
George estava esticado na própria cama, de bruços, com um braço pendurado para fora como se tivesse sido abandonado ali. O cabelo ruivo espalhado pelo travesseiro e um travesseiro extra pressionado contra a própria cabeça.
— Trouxe comida — anunciei, entrando.
Ele levantou a cabeça milimetricamente, um olho só se abrindo.
… você é um anjo?
— Depende. Você merece?
Ele soltou um gemido dramático e largou a cabeça de volta no colchão. Ri baixo, caminhando até a pequena mesa entre as camas para apoiar a bandeja.
Foi quando meu olhar finalmente foi para a outra cama.
Fred estava deitado de lado, ainda sem camisa, a bermuda de moletom amassada no quadril. Um braço jogado por cima da cabeça, o outro repousando sobre o próprio abdômen. O cabelo estava mais bagunçado do que nunca e o rosto tinha uma expressão relaxada de quem dormiu pesado demais.
Ele se mexeu levemente e soltou um resmungo baixo.
— George… se você estiver respirando muito alto… eu juro que…
— Não sou eu — George murmurou do outro lado. — É a sua consciência pesada.
— Eu não tenho consciência pesada.
— Sei.
Eu não consegui segurar a risada dessa vez. Fred abriu um dos olhos, ainda meio perdido, e levou alguns segundos para focar. Quando me viu, piscou duas vezes.
?
— Em carne e osso.
Ele fechou o olho de novo por um segundo, como se estivesse recalibrando a realidade, e então abriu ambos com mais esforço.
— Por que você está… — ele fez um gesto vago com a mão. — …brilhando tanto?
— Isso se chama luz do dia.
Ele fez uma careta como se eu tivesse o ofendido pessoalmente. Ri e caminhei até a cama dele, apoiando a bandeja na mesa de cabeceira.
— Trouxe comida. E poção pra dor de cabeça.
— Você é oficialmente minha pessoa favorita no mundo — George murmurou, ainda enterrado no travesseiro.
— Eu sei — respondi, rindo.
Fred me lançou um olhar preguiçoso, um canto da boca subindo de leve.
— Você parece muito bem. Eu lembro de te ver bebendo também…
— Eu parei antes de ficar igual a vocês.
— Traição.
— Inteligência.
Ele soltou uma risada fraca que terminou num gemido.
Eu me sentei na beira da cama dele sem pensar muito, pegando o pequeno frasco que Hermione tinha preparado.
— Abre a boca.
Ele arqueou uma sobrancelha, mesmo naquele estado.
— Isso ficou sugestivo demais para essa hora da manhã.
Fred…
Ele obedeceu, ainda sorrindo, e tomou a poção. Fez uma careta imediata.
— Isso é horrível.
— Mas funciona.
— Ei, eu também quero sobreviver. — George ergueu o braço no ar, dramaticamente.
Revirei os olhos, mas peguei o segundo frasco na bandeja.
— Drama não é sintoma listado para essa poção, sabia?
— Deveria ser. É o mais grave.
Caminhei até a cama dele e me sentei na beirada, afastando com cuidado o travesseiro que ele tinha enfiado na própria cabeça como escudo contra o mundo.
O estado era quase cômico. O cabelo completamente espetado, a marca do travesseiro ainda desenhada na bochecha e os olhos semicerrados como se a luz estivesse cometendo um crime pessoal contra ele.
— Abre a boca também, senhor exagero.
— Você está mandona hoje — ele murmurou, obedecendo mesmo assim.
Inclinei o frasco e deixei a poção escorrer devagar. Ele engoliu com dificuldade e fez uma expressão de traição absoluta.
— Isso é pior do que eu lembrava.
— Engraçado. Ontem vocês estavam muito confiantes.
— Ontem eu era jovem e cheio de sonhos — ele respondeu, jogando o braço sobre os olhos.
Eu ri baixo e ajeitei o travesseiro atrás da cabeça dele para que ficasse mais confortável.
— Bebe um pouco de água também. E come alguma coisa, seu estômago vai agradecer.
— Se eu sobreviver a isso, vou contar para todo mundo que você é oficialmente a pessoa mais responsável da nossa geração. — Ele abriu um olho de novo, me encarando com falsa solenidade.
— Não ouse.
Voltei para a pequena mesa e entreguei uma torrada para ele, que segurou como se fosse um objeto sagrado.
Caminhei até a cama de Fred também, ajeitando o travesseiro que estava meio torto antes de fazer o mesmo.
— Vocês dois vão beber água, comer isso aqui e depois tentar dormir mais um pouco. Se continuarem com dor de cabeça, posso pedir outra poção para Hermione depois.
George ergueu a torrada como se estivesse fazendo um brinde silencioso.
— Nós não merecemos você.
— Eu sei.
Fred apoiou o cotovelo na cama, ainda com aquele ar sonolento.
— G estava certo, você está muito mandona.
— E vocês estão muito irresponsáveis — retruquei, cruzando os braços. — Equilíbrio perfeito.
George já estava mastigando lentamente, com os olhos fechados de novo.
— Se minha mãe descobre que eu estou assim, ela manda uma carta berradora.
— Então considere que eu estou sendo gentil — respondi.
Passei os olhos pelo quarto mais uma vez para ter certeza de que estava tudo em ordem. Copos ao alcance, bandeja organizada, cortinas ainda fechadas o suficiente para não deixar a luz invadir demais.
— Vou descer. Qualquer coisa, me chamem.
— Como? — George perguntou, ainda de olhos fechados.
— Gritando menos dramaticamente do que ontem, se possível.
Fred riu pelo nariz.
— Vai estudar, senhorita responsável?
— Vou tentar.
Antes de sair, ouvi George murmurar:
— Isso é assustador.
No Salão Comunal, alguns alunos estavam espalhados pelos sofás, falando em voz baixa, claramente cansados. Gina e Hermione ainda não tinham voltado, provavelmente lidando com Harry e Rony.
Me joguei em uma poltrona perto da lareira, puxando minha bolsa para o colo. Tirei o livro de História da Magia e o pergaminho que o professor havia passado na última aula. Eu realmente precisava começar aquilo.
Abri o livro na página marcada e li o título do capítulo: A Rebelião dos Goblins no Século XIV. Suspirei.
A lareira crepitava suavemente, criando um contraste agradável com o silêncio concentrado da sala. A luz da manhã atravessava as janelas altas, iluminando partículas de poeira que flutuavam no ar.
Peguei a pena mágica e comecei a escrever:
“Os conflitos entre bruxos e goblins ao longo da história foram marcados por disputas territoriais e divergências quanto à posse de artefatos mágicos…”
Parecia impossível que, poucas horas antes, eu estivesse no meio de uma pista improvisada, girando sob fogos dourados. Agora eu estava ali, organizando pensamentos sobre tratados mágicos e alianças quebradas.
E, de alguma forma, aquilo também era reconfortante.
Escrevi mais alguns parágrafos, concentrando-me nos detalhes, sublinhando datas importantes no livro e organizando os argumentos. Depois de algum tempo, ouvi passos descendo as escadas. Levantei os olhos e vi Gina surgir.
— Sobreviveram? — perguntei.
— Por pouco. Harry parecia uma alma penada. Rony disse que nunca mais bebe nada que não seja suco de abóbora.
— Eles sempre dizem isso.
— Eu sei.
Ela se sentou ao meu lado, apoiando a cabeça no encosto da poltrona.
— E os meus irmãos?
— Vivos, dramáticos e hidratados.
Perfeito.
Hermione apareceu logo depois, ajeitando as mangas do uniforme.
— Já começou História da Magia?
— Alguém precisa manter a honra acadêmica da Grifinória intacta — respondi, e minhas amigas riram.

*

Os dias que se seguiram ao meu pedido foram um espetáculo à parte.
Eu não tinha calculado o efeito colateral de escrever o nome de Fred Weasley no céu diante da escola inteira, mas aparentemente eu tinha iniciado uma competição não oficial de criatividade romântica em Hogwarts.
Na segunda-feira, um grupo da Corvinal encantou centenas de pequenos pássaros de papel que atravessaram o Salão Principal durante o jantar, formando a pergunta no ar antes de pousarem suavemente no colo da garota em questão.
Na terça, um aluno da Sonserina transformou a própria gravata em serpentes verdes que se entrelaçaram no ar formando um “Aceita?” dramático demais para as oito da manhã.
Mas alguns foram particularmente memoráveis.
Cedrico Diggory encantou uma pilha de livros na biblioteca para que, ao serem abertos por Cho Chang, revelassem mensagens douradas flutuando entre as páginas. As letras pairavam delicadas, como fumaça luminosa, até se reorganizarem na pergunta final. Foi bem fofo.
George, é claro, decidiu que não ficaria para trás. Ele nos arrastou para ajudá-lo numa operação quase militar na Sala Comunal. Quando Angelina entrou naquela noite, as flores que estavam espalhadas pelo ambiente se abriram todas ao mesmo tempo, pétalas vermelhas formando no ar “Angelina Johnson, quer ir ao baile comigo?”
Ela tentou fingir que não estava impressionada, mas não conseguiu.
E até Theo Nott fez algo que deixou metade da escola boquiaberta. Ele encantou a superfície do Lago Negro para refletir uma imagem brilhante no céu, como um holograma líquido, onde o convite flutuava sobre a água prateada. Dafne ficou completamente sem palavras.
Gina dizia que eu tinha criado uma pandemia de exagero romântico, já Hermione chamava de “fenômeno social espontâneo”.
Fred só ria e dizia que aquilo estava ficando fora de controle. O que, vindo dele, era quase irônico.
As semanas passaram voando entre as aulas e então, finalmente, chegou o primeiro fim de semana com permissão para ir a Hogsmeade.
O sábado amanheceu claro, com um céu azul pálido que parecia recém lavado pelo vento da madrugada. Depois do café da manhã, em vez de subir direto para o dormitório ou me enfiar na biblioteca, fui com Gina, Harry, George e Fred até a beira do Lago Negro. O gramado ainda estava levemente úmido, mas o sol já aquecia o suficiente para tornar o frio suportável.
Hermione havia dito que passaria a manhã estudando, mas eu sabia que aquilo era só metade da verdade. Nos últimos dias, ela vinha “coincidentemente” passando tempo demais perto das masmorras. E Draco Malfoy, curiosamente, também.
Eu não tinha provas, mas tinha olhos!
Rony, por outro lado, tinha sumido logo depois do café. Gina havia comentado com um sorriso malicioso que provavelmente ele estava “esbarrando” em Lilá Brown no corredor.
— Aposto cinco galeões que Rony vai fingir que não estava procurando ela — Gina comentou, sentando na grama e apoiando as mãos para trás.
— Ele já está na fase da negação pública — George respondeu, se jogando ao lado dela. — É um estágio clássico.
Harry soltou uma risada baixa, esticando as pernas na direção da água. A superfície do lago refletia o céu com tranquilidade quase hipnótica, apenas levemente ondulada pelo vento.
Fred se sentou perto de mim, apoiando os cotovelos nos joelhos. O cabelo ruivo brilhava sob o sol, ainda um pouco bagunçado do jeito que sempre ficava depois de secar ao natural.
— Então, senhorita causadora do caos romântico… — ele começou, virando o rosto na minha direção. — Está satisfeita com o nível de histeria coletiva que instaurou?
— Não fui eu… — respondi, cruzando os braços, fingindo indignação. — Só fiz um convite criativo.
— Criativo? — George bufou.
— Agora ninguém pode simplesmente perguntar “quer ir ao baile comigo?” sem parecer preguiçoso — Harry completou, rindo.
Fred inclinou a cabeça, me observando.
— Eu gostei do meu padrão.
— Fico feliz que o astro do quadribol tenha aprovado. — Ignorei o leve calor que subiu pelo meu pescoço.
Ele abriu um meio sorriso, mas antes que pudesse responder qualquer coisa, o som de passos na grama chamou nossa atenção.
Blaise Zabini atravessava o gramado com dois colegas da Sonserina. Conversava distraidamente, mas quando passou perto o suficiente, o olhar dele se desviou para mim e diminuiu levemente o ritmo.
— Moonveil — disse, em tom casual, quase preguiçoso.
— Zabini — respondi no mesmo tom.
Foi rápido, mas seu olhar demorou alguns segundos além do normal. Blaise inclinou a cabeça, como se aquilo bastasse, e continuou andando, retomando a conversa com os amigos.
George foi o primeiro a falar:
— Ele sempre cumprimenta assim?
— Sonserinos gostam de parecer misteriosos — Fred resmungou, arrancando uma folha da grama ao lado do joelho.
Eu dei de ombros, fingindo desinteresse, mas antes que alguém pudesse continuar implicando, uma rajada de vento atravessou o gramado com mais força. Meu cabelo veio para o rosto e precisei prendê-lo atrás da orelha enquanto a superfície do Lago Negro se agitava inteira, formando pequenas ondas que refletiam um céu já menos azul do que antes.
— Ok, ficou gelado — Gina murmurou, esfregando os braços. — Eu voto para entrarmos.
— Concordo plenamente — Harry disse, já se levantando e estendendo a mão para ajudá-la.
George fez um som dramático.
— Ah, o outono… Vinte minutos de calor e depois pura traição.
Fred ficou de pé ao meu lado rapidamente e eu me levantei também, batendo a grama da saia, sentindo o frio finalmente atravessar o tecido fino do uniforme enquanto voltávamos para a parte interna da escola.
O castelo parecia ainda mais imponente naquele fim de tarde, as janelas refletindo a luz pálida do sol que se escondia. Assim que atravessamos os grandes portões de pedra, o ar mudou e ficou mais quente instantaneamente, carregado com o cheiro familiar de madeira antiga e velas acesas.
— Muito melhor. — Suspirei.
O som dos nossos passos ecoava pelo corredor de pedra enquanto subíamos as escadas principais. No meio do caminho, quase esbarramos em Rony, que vinha descendo com uma expressão levemente aflita.
— Ah. Vocês — ele disse, como se tivesse sido pego em flagrante por algo que ninguém tinha acusado.
— E você está indo para onde com essa cara? — George perguntou, cruzando os braços.
— Eu não tenho cara nenhuma.
— Tem sim — Gina respondeu imediatamente. — Tem cara de “estava casualmente me pegando com Lilá Brown um corredor vazio”.
Rony ficou vermelho quase no mesmo tom do cabelo dela.
— Eu só estava… caminhando.
— Uhum — eu murmurei e Harry soltou uma risada baixa, claramente se divertindo demais com aquilo.
Continuamos subindo, deixando Rony para trás com um resmungo indignado.
Quando finalmente chegamos à Torre da Grifinória, o retrato da Mulher Gorda nos recebeu com um olhar entediado.
— Senha?
Harry respondeu, e o quadro girou para nos dar passagem.
A Sala Comunal estava mais tranquila agora, o barulho do dia reduzido a pequenos grupos espalhados pelos sofás e mesas. A lareira crepitava forte, deixando o ambiente mais aconchegante.
Hermione já estava sentada em uma das poltronas próximas ao fogo, um livro aberto no colo e outro empilhado ao lado. Ela levantou os olhos assim que nos viu.
— Vocês demoraram.
— Estávamos discutindo fenômenos sociais espontâneos — Gina respondeu, se jogando no sofá mais próximo.
— Fenômenos sociais… claro — Hermione falou, estreitando os olhos.
— E você? — George perguntou, sentando no braço de uma poltrona. — Como foi a… biblioteca?
— Produtiva — Mione respondeu, fechando o livro com uma calma suspeita.
Muito produtiva? — Gina insistiu, sorrindo de lado.
— Gina…
— Só perguntando.
Eu me sentei no sofá em frente à lareira, esticando as pernas em direção ao calor. Fred se acomodou no chão, apoiando as costas nas minhas pernas.
— Confortável? — brinquei.
— Extremamente — ele respondeu, inclinando a cabeça levemente para trás, encostando-a de leve no meu joelho.
Gina se jogou no sofá ao lado do meu, cruzando as pernas, Harry se sentou no tapete, perto da lareira, apoiado com uma das mãos no chão e a outra descansando no joelho dobrado. George ocupou o braço de uma poltrona próxima, equilibrando-se ali como se fosse o lugar mais confortável do mundo e Ron ficou ao lado de sua irmã, na outra ponta do sofá.
— Sabe, eu ainda não me conformo que você passou dois anos cercada de franceses, — Rony disse, mastigando alguma coisa que ele claramente tinha tirado do bolso. —
— Qual é o problema com os franceses? — perguntei.
— Eles falam rápido demais — ele respondeu, fazendo um gesto com a mão. — Parece que estão sempre discutindo.
— Isso é italiano — Hermione corrigiu, ajeitando a postura. — Francês é mais… fluido.
— Francês é sexy — Gina completou, com naturalidade.
Fred virou o rosto na minha direção imediatamente.
— Eu nunca ouvi você falando em francês.
— Você nunca pediu — respondi, dando de ombros.
— Então estou pedindo agora — ele disse, passando a mão pelo cabelo de forma distraída, mas claramente curioso. — Fala alguma coisa.
George abriu um sorriso.
— Sim, isso é interessante. Sempre achei legal ouvir as pessoas falando em outras línguas. Faz a gente parecer mais sofisticado.
— Vocês não vão rir? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Talvez — George respondeu. — Mas com carinho.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar o sorriso.
Vous êtes tous ridicules, mais je vous aime quand même.
Por um segundo, ficaram em silêncio.
— O que você disse? — Harry perguntou, franzindo a testa.
— Que vocês são todos ridículos, mas ela gosta de vocês mesmo assim — Hermione traduziu automaticamente, rindo baixinho.
Fred estava me encarando, não rindo. Encarando.
— Fala de novo — ele pediu.
— Não.
— Fala.
— Não vou repetir.
Por favor.
— Você está fazendo essa cara só pra me convencer — respondi, apontando o dedo indicador em sua direção.
— Está funcionando? — ele perguntou, inclinando levemente a cabeça.
Eu estreitei os olhos para ele, tentando manter alguma dignidade.
— Talvez um pouco.
George fez um som dramático.
— Isso é injusto. Ele pede e consegue.
— Vocês também podem pedir — respondi, achando graça.
— Só mais uma frase — Fred insistiu. — Qualquer coisa.
— Você nem vai entender.
— Não preciso entender.
O jeito que ele disse aquilo fez meu estômago dar uma pequena cambalhota irritante. Suspirei, fingindo resistência, mas acabei cedendo.
Si tu continues à me regarder comme ça, je vais finir par croire que tu es impressionné.
— Tradução? — Harry pediu imediatamente, virando para Mione.
— Que se ele continuar olhando para ela desse jeito, ela vai acabar achando que ele está impressionado — ela respondeu, com um sorriso que não ajudava em nada.
Rony soltou um “ah” prolongado.
— Ok, agora eu preciso aprender francês — George falou, animado.
— Você mal domina o inglês — Hermione comentou, fazendo todos rirem e George abrir a boca, ofendido.
— Vocês estão exagerando. Não é tudo isso. — Tentei disfarçar, cruzando os braços.
— Não estamos — Gina rebateu.
Fred finalmente sorriu, satisfeito.
— É sexy.
Eu pisquei.
— O quê?
— Você falando em francês é sexy — ele respondeu, dando de ombros.
George soltou um assobio exagerado. Meu rosto definitivamente estava quente demais agora. Eu desviei o olhar para o fogo, fingindo interesse nas chamas.
— Cala a boca — resmunguei, sem graça.
— Eu acho que deveríamos implementar aulas de francês na Grifinória — George declarou, já levantando a mão como se estivesse votando numa assembleia.
— Só se for com demonstração prática — Gina acrescentou, rindo.
— Eu apoio a iniciativa educacional — Harry comentou, claramente se divertindo.
— Será que os franceses se sentem assim com o inglês também? — Rony soltou, pensativo.
— Eu lembro das cartas dela! — Gina disse, apontando para mim. — Ela disse que eles gostavam quando ela falava em inglês pelo sotaque britânico.
Eu dei de ombros.
— É, gostavam.
— Claro que gostavam — George comentou. — Sotaques sempre funcionam.
deve ter feito sucesso em Beauxbatons, então — Harry falou, inclinou a cabeça.
Rony fez um gesto exagerado com a mão.
— Com certeza!
Eu ergui uma sobrancelha, cruzando as pernas no sofá.
— Vocês são dramáticos — respondi, dando de ombros. Sabia que era a oportunidade perfeita para tirar a atenção de mim, então só continuei. — Mas certamente não fiz mais sucesso que Fred nesse tempo todo.
O efeito foi imediato. Fred, que estava apoiado nas minhas pernas, virou o rosto para me encarar.
Como é que é?
George soltou uma gargalhada alta. Fred se apoiou nos cotovelos e se virou parcialmente para me olhar melhor.
— Como você sabe disso?
— Informação privilegiada — disse, sorrindo lentamente.
Ele estreitou os olhos, então apontou diretamente para Gina, de forma acusatória.
Você!
— O que foi? — Gina abriu um sorriso inocente demais, enquanto isso Mione, Harry e Rony riam alto.
— Você contou coisas — ele falou.
— Meu papel era atualizar a sobre o que estava acontecendo com os amigos dela… — ela respondeu, dando de ombros. — Isso incluía meu irmão mais velho.
— Transparência familiar. Eu apoio — George comentou, levando a mão ao peito, enquanto Fred bufava. — O quê? É fato histórico. Ano passado ele estava, de fato… sociável.
Harry riu.
— Sociável é uma palavra gentil.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Eu flertava…
— Com metade da escola — Rony acrescentou.
— Isso é exagero!
— Um quarto — Gina corrigiu.
— Vocês são ridículos. — Fred cruzou os braços.
— Toda semana tinha alguém rindo alto demais das suas piadas — George insistiu.
— Minhas piadas são excelentes.
— São irritantes — Hermione murmurou.
Eu cruzei os braços, fingindo choque.
— Então quer dizer que enquanto eu estava na França, estudando com disciplina e elegância — fiz uma pausa dramática —, você estava…
— Mantendo a economia social ativa — ele completou com um sorriso torto.
Economia social? — repeti, rindo alto.
— Demanda e oferta.
— Céus, às vezes você fala cada idiotice... — Gina comentou, o encarando indignada.
George então inclinou a cabeça de lado, como se tivesse acabado de lembrar de algo.
— Engraçado que desde que voltou, ele está bem mais tranquilo.
Fred lançou um olhar mortal para o irmão.
— Eu vou jogar você na lareira — falou, pegando uma almofada e acertando-o no ombro.
Rony começou a rir, Harry balançou a cabeça e Fred passou a mão pelo rosto, dramático.
— Eu odeio todos vocês.
— Não odeia não — eu respondi, inclinando o corpo para frente o suficiente para olhar para ele por cima. — Você só está irritado porque eu estou bem informada.
Fred me encarou por um segundo, estreitando os olhos.
— Eu fui traído.
— Traído? — Gina repetiu, incrédula.
— Traído — ele confirmou, cruzando os braços como se estivesse realmente ofendido. — Existe um código implícito entre irmãos.
— Eram atualizações essenciais — ela rebateu, como se fosse o suficiente para ele aceitar.
— Essenciais pra quem?
— Pra — ela respondeu simplesmente.
Eu ri, incapaz de segurar.
— Eu agradeço o serviço prestado.
Viu?! — Gina apontou para mim, satisfeita.
— Inacreditável… — Fred soltou um suspiro dramático.
A mais nova dos Weasley então se inclinou para frente, os olhos brilhando com aquele entusiasmo específico que sempre precedia uma história.
— Aliás, falando em traição…
Hermione fechou os olhos por um segundo, já sabendo o que viria.
— Duas meninas do meu ano brigaram feio essa semana. Aparentemente, uma delas estava saindo com um garoto da Corvinal, mas a melhor amiga também estava interessada nele. Só que ninguém sabia. Até que descobriram que ele tinha convidado as duas para Hogsmeade em horários diferentes no mesmo dia!
Harry levou a mão à testa, agora completamente imerso na fofoca.
— Isso é… um péssimo planejamento.
— Péssimo caráter — Hermione corrigiu.
— E péssima logística — George completou.
Eu ri, recostando no sofá enquanto Gina dramatizava cada detalhe, imitando vozes, gestos exagerados e o momento exato em que uma das meninas teria jogado suco de abóbora na outra. Fred, já menos emburrado, estava rindo também agora, balançando a cabeça.
A história virou debate sobre códigos não escritos de amizade, depois virou piada sobre quem seria burro o suficiente para tentar dois encontros no mesmo dia.
A lareira continuava crepitando, lançando luz quente sobre todos nós. Eu deixei que meus dedos mexessem distraidamente no cabelo de Fred enquanto Gina narrava o desfecho da briga com entusiasmo quase profissional.
Durante os dois anos na França, houve noites em que eu deitei olhando para o teto do dormitório de Beauxbatons imaginando exatamente isso. E, naquele momento, soube que eu não desejaria estar em mais nenhum outro lugar do mundo.




Continua...


Nota da autora: Essa história é meu xodó e tem tudo que eu mais amo, então espero que gostem. Me contem nos comentários o que estão achando e não deixem de conferir a pasta no pinterest para entrarem ainda mais nesse universo! <3


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