Capítulo 1
’s POV
A sensação era tão familiar que parecia um déjà vu. O vento frio da manhã de setembro atravessava a minha capa de viagem, arrepiando minha pele. Meus pais estavam ao meu lado, carregando algumas de minhas malas e me observando com aquele olhar meio orgulhoso, meio preocupado.
— Vai dar tudo certo, querida. — Minha mãe ajeitou o cachecol ao redor do meu pescoço, um sorriso caloroso no rosto.
— Eu sei, mãe. — Sorri de volta, tentando passar confiança. — Vocês não precisam se preocupar tanto. Não é como se eu fosse me perder pelos corredores ou coisa do tipo.
— Bem, considerando o histórico que você tem, não duvido nada que isso aconteça — meu pai respondeu com uma risada leve, enquanto ajustava a alça de uma das malas que carregava.
— Sou praticamente uma veterana, pai. E, além disso, vocês sabem que a Gina e os outros não vão me largar um segundo — retruquei, cruzando os braços com um sorriso brincalhão.
Minha mãe me olhou com aquela mistura de carinho e leveza que só ela conseguia.
— Ainda assim, se precisar de algo, sabe que é só mandar uma coruja — meu pai completou, sua voz suave, mas carregada de preocupação. Apenas concordei com a cabeça.
Meus dedos apertavam a alça do meu malão enquanto eu atravessava a estação King’s Cross, meu coração acelerado a cada passo que me aproximava da plataforma 9 ¾. Fazia dois anos desde a última vez que eu pisara ali, dois anos desde que ouvi o apito do Expresso de Hogwarts cortando o ar, anunciando o início de um novo ano.
Será que Harry, Rony, Hermione, Gina, Fred e George estariam lá me esperando? Era estranho admitir que eles eram a maior parte da minha expectativa.
Senti um sorriso surgir nos meus lábios enquanto lembrava da última carta que recebi da Hermione. Ela insistia que todos estavam contando os dias para me ver novamente e, na verdade, isso me acalmava. Era bom saber que, depois de tantos recomeços, ainda tinha um lugar para onde pertencer.
Finalmente, cheguei ao bloco de tijolos entre as plataformas nove e dez. Meu coração quase parou por um segundo. Ajeitei a postura, respirei fundo e empurrei meu carrinho contra a barreira mágica, atravessando-a sem hesitação.
A plataforma estava lotada e barulhenta, exatamente como eu me lembrava. A fumaça que saía da locomotiva vermelha me envolveu, e por um momento eu só conseguia observar. Era como se dois anos nunca tivessem passado.
E então, no meio do caos, eu os vi.
Harry ria do constrangimento de Rony, que fazia caretas, com as bochechas vermelhas, enquanto Hermione ajustava sua gravata. Ao lado, Fred, George e Gina estavam conversando animadamente sobre algo.
Quando atravessei o pilar, os três me olharam ao mesmo tempo, e não precisei de mais nada. Corri em sua direção, e logo eles também estavam correndo em meu encontro.
Antes que Gina pudesse me alcançar, um par de braços me puxou para um abraço apertado. Eu soltei um suspiro de alívio, reconhecendo-o.
Fred me abraçou com força, como se estivesse tentando me proteger de tudo ao redor. Seu cheiro me envolveu e, por um momento, eu realmente senti a saudade se desmanchando dentro do meu peito.
— Eu sabia que você estava com saudade de mim — ele disse, baixinho, sorrindo. Ele me olhou com carinho, como se me visse pela primeira vez em muito tempo. — E, cá entre nós, a casa não era a mesma sem você. Sentimos sua falta, . Eu senti.
Fred me segurou por mais um momento, seus braços firmes e reconfortantes, como se o abraço fosse o suficiente para preencher o tempo que ficamos afastados. Quando ele finalmente me soltou, ainda pude sentir o calor do seu toque, um conforto que parecia faltar em tudo o que eu fazia nos últimos meses.
— É bom te ver de novo, — George disse, com um sorriso largo, vindo logo depois de Fred. Ele me envolveu em um abraço apertado, quase tão reconfortante quanto o de Fred. Eu senti aquele toque familiar, uma mistura de carinho e a energia que sempre teve entre nós. — Finalmente as coisas vão voltar ao que eram.
Eu sorri, concordando, meu peito preenchido por aquela sensação de pertencimento, como se a distância não tivesse existido. O abraço de George durou mais um momento, como se ele também quisesse garantir que esse reencontro fosse real.
Logo depois, Gina saltou para me abraçar, com aquele sorriso radiante que só ela sabia ter.
— Eu sabia que você ia voltar para Hogwarts! — Gina disse, sua voz carregada de alegria. — Você fez a escolha certa, . Nós vamos nos divertir tanto esse ano! Por Merlin, eu tenho tantas coisas para te contar!
Eu sorri para ela, meu coração aquecido pela amizade que compartilhávamos. Mesmo com todo o caos que ainda estava por vir, estar com eles novamente fazia tudo parecer mais fácil.
— Eu também senti saudades, Ginny — respondi, me afastando um pouco do abraço apertado. — E não vejo a hora de ouvir tudo o que você tem para contar.
— Eu esperei tanto por isso! — A voz animada de Hermione chamou minha atenção enquanto ela se aproximava com Harry e Rony logo atrás.
Hermione, se atirou em mim e eu passei meus braços ao redor de seu corpo.
— Que saudades! — disse ela, a voz levemente trêmula de emoção. — Não acredito que finalmente está de volta!
Eu ri, abraçando-a com força.
— Eu também senti sua falta, Mione. Não aguentava mais ficar longe de vocês.
— ! — Harry exclamou, tirando os óculos para limpá-los nervosamente, antes de me puxar para um abraço caloroso. — É tão bom ver você de novo. A gente precisa te atualizar sobre tudo que aconteceu por aqui!
— E as novidades de Beauxbatons também — acrescentou Rony, com um sorriso sincero enquanto passava seus braços ao meu redor com carinho. — Mas, er… sem falar em francês, tá?
Ri com o pedido. Sempre que enviava cartas contando sobre as coisas que rolavam na França, acabava escrevendo algumas palavras em francês pelo costume — mas aparentemente Ron não era muito fã da língua.
— Jura que ainda não aprendeu nenhuma palavra, Rony? — Hermione o cutucou, revirando os olhos.
Antes que pudesse trocar mais palavras com os outros, Molly Weasley falou, enquanto vinha em minha direção com um sorriso acolhedor.
— , querida! Olhe só para você, tão crescida! Nem acredito que está de volta — disse ela, sua voz cheia de emoção enquanto afagava meu cabelo.
— Estávamos contando os dias para ter você conosco outra vez — acrescentou Arthur, se aproximando e me cumprimentando com gentileza. — A garotada não parava de falar de você.
— Vocês são sempre tão carinhosos comigo… — murmurei, sorrindo. Eles sempre foram como uma segunda família para mim, e voltar a vê-los daquele jeito me fazia sentir que estava exatamente onde deveria estar.
Meus pais também estavam próximos, trocando cumprimentos amigáveis com Molly e Arthur. Era fácil notar como eles se davam bem, suas conversas fluíam com a naturalidade de velhos amigos.
— É tão bom ver vocês de novo, Lucian, Vivienne… — disse Molly, sorrindo para os dois. — Imagino o quanto será difícil deixá-la partir mais uma vez, mas prometo que cuidaremos bem dela.
— Não temos dúvidas disso, Molly — respondeu minha mãe, apertando sua mão em um gesto caloroso. — A sempre fala de vocês com tanto carinho. Estamos felizes por saber que ela estará rodeada por amigos tão incríveis.
— Mas já avisamos que, se precisarem de algo, podem nos chamar — acrescentou meu pai, olhando para mim com aquele ar protetor que só ele tinha. — E, , lembre-se de nos escrever com frequência, está bem?
— Prometo, pai — disse, abraçando-o apertado. — E prometo não esquecer de avisar sobre os trabalhos atrasados, mãe.
Minha mãe riu, me abraçando logo em seguida.
— Boa garota. Agora, divirta-se e aproveite cada momento.
Depois de mais algumas palavras de despedida e abraços apertados, ouvi o apito do trem, sinalizando que era hora de embarcar. Fred e George pegaram minhas malas com um exagerado “Deixa com a gente, madame!”, e eu me virei para acenar uma última vez para meus pais e para Molly e Arthur.
— Cuide-se, meu amor! — gritou minha mãe.
— Amamos você! — completou meu pai, acenando energicamente. Respondi um último “Amo vocês” antes de, finalmente, subir no trem ao lado dos outros.
Assim que entramos, Fred e George foram na frente, abrindo caminho pela multidão enquanto Gina e eu os seguíamos. Harry, Hermione e Rony vieram logo atrás, discutindo se o trem parecia mais lotado do que nos anos anteriores.
— Achei uma cabine! — Fred anunciou, empurrando a porta com um movimento exagerado e se jogando no banco ao lado da janela.
— O rei do exagero — Gina murmurou, revirando os olhos, mas acabou rindo enquanto entrava.
Eu me sentei perto da janela oposta, colocando minha mochila no colo. Harry e Hermione se acomodaram no banco ao meu lado, e Gina, Fred, George e Rony ficaram no banco de frente. Mal tínhamos nos ajeitado, e Fred já estava me cutucando com aquele sorriso de sempre.
— Então, , vou fingir que não fiquei chateado com o fato de não ter me mandado uma carta decente nos últimos meses... — disse ele, colocando a mão no peito de forma dramática.
Eu revirei os olhos, mas sua provocação fez algo dentro de mim se remexer de leve. Ele dizia isso como se tivesse sentido minha falta, mas, durante todo o tempo que passei longe, nunca fez questão de responder nenhuma das minhas cartas.
No começo, eu esperava. Pensava que ele podia ter se esquecido, que talvez tivesse perdido a carta ou estivesse ocupado demais. Mas, conforme os meses passaram e eu nunca recebi nada em resposta, a frustração se transformou em um leve ressentimento. Fred seguiu a vida dele como se eu nunca tivesse estado aqui, e isso doía mais do que eu queria admitir.
O jeito como ele reagiu ao me ver mais cedo até me surpreendeu — como se só tivesse se lembrado de mim no momento em que apareci na frente dele.
— Eu mandei cartas para todos que estão aqui. Talvez você devesse se perguntar por que eu parei de escrever tantas para você nesses últimos tempos.
Ele arqueou a sobrancelha, um sorriso convencido brincando nos lábios.
— Ora, eu sei por quê. Você estava ocupada demais suspirando de saudade — respondeu ele, piscando para mim.
Eu soltei uma risada seca, balançando a cabeça.
— Ou talvez tenha sido porque eu sabia que você nunca lê cartas mesmo.
— Ei, eu leio sim! — Fred retrucou, cruzando os braços.
— Responder que é difícil — George comentou, rindo ao ver o olhar irritado do irmão. Fred bufou, e George levantou as mãos em rendição.
Eu ri junto, mas aquele incômodo continuava lá, enterrado fundo o suficiente para que ninguém percebesse.
— Sorte minha que tenho Mione e Gina. Ler as cartas era o meu momento favorito da semana. Quer dizer, alguém precisava me atualizar sobre o caos de Hogwarts, não é?
— Você não perdeu nada por aqui, — Harry comentou, rindo. — Mas e a França? Como foi?
— Foi incrível, mas bem diferente. Beauxbatons é… lindo, todo mundo parece ter saído de um conto de fadas, mas é tão sério! — Suspirei, me recostando no banco. — Não tinha toda essa diversão que temos aqui. Sentia falta das festas na sala precisa, das fofocas, das pegadinhas…
— Você está dizendo que quer mais festas este ano? — George perguntou, com um brilho travesso nos olhos.
— Você sabe que eu não vou negar. É meu quinto ano, preciso aproveitar — brinquei, o fazendo rir.
— Mas e os meninos, ? Ouvi falar que os franceses são tão interessantes… — Gina perguntou, travessa, com um sorriso malicioso no rosto.
Rony fez uma careta imediata, revirando os olhos como se estivesse prestes a fugir da conversa.
— Por Merlin, Gina, ninguém quer ouvir isso.
— Fala por você, Ron — Fred interrompeu, inclinando-se para frente com interesse exagerado. — , conta tudo. Algum francês encantador conseguiu roubar seu coração?
Eu revirei os olhos, rindo com a “preocupação” do ruivo.
— Ah, é impossível não falar que eles não têm um certo charme, mas ainda prefiro os daqui… — disse casualmente.
Fred arqueou uma sobrancelha, um sorriso se formando em seus lábios, mas antes que ele pudesse responder, George entrou no meio da conversa.
— Certo, chega de papinho. Vamos falar de coisas importantes, como quem vai me ajudar a testar os novos produtos das Gemialidades este ano.
Hermione suspirou, murmurando algo sobre “prioridades completamente equivocadas”.
Eu desviei o olhar para a janela, deixando a conversa se esvair em segundo plano. O Expresso de Hogwarts serpenteava pela paisagem britânica como um dragão de ferro e vapor, expelindo fumaça para o céu nublado. Meus olhos se prenderam no contraste entre o verde apagado dos campos e o cinza melancólico acima, e, por um momento, me senti hipnotizada. A tranquilidade do cenário parecia querer abafar a excitação que fazia meu coração bater tão rápido.
A viagem seguiu calma depois disso. Entre risadas ocasionais e o conforto da companhia dos meus amigos, acabei fechando os olhos e me entregando ao balanço do trem. Quando percebi, estava cochilando, com a cabeça apoiada no ombro de Harry, que, para minha sorte, não parecia se importar. O restante do percurso passou como um borrão tranquilo, como se minha ansiedade inicial finalmente tivesse dado lugar a uma paz inesperada.
Eu até ri sozinha, pensando em como, mesmo depois de tudo que passei lá, nada, absolutamente nada, se comparava ao banquete aqui. A comida francesa tinha sua graça, mas cá entre nós… eu realmente sentia falta dessas tortas quentinhas, do frango dourado, dos pães fresquinhos que quase derretem na boca, e, principalmente, das sobremesas que são um espetáculo por si só.
Eu estava praticamente de olhos brilhando, pegando um pedacinho de tudo. Não podia deixar de me perguntar por que eu tinha ficado tanto tempo longe disso. De repente, percebi que estava praticamente suspensa em uma bolha de felicidade enquanto devorava a comida.
— Pelo jeito a comida de Beauxbatons não era tão incrível assim, hein? — George comentou, tentando segurar o riso enquanto me observava pegar mais um pedaço de torta com a empolgação de alguém que não comia há dias. — Tá parecendo que passou os últimos anos à base de sopa rala e ar fresco.
— Você sabia que não é educado julgar uma menina quando ela está comendo igual a um trasgo faminto? — retruquei, apontando o garfo para ele com um olhar desafiador.
— Uau, calma aí, ninguém aqui quer virar o próximo prato do banquete! — George levantou as mãos, fingindo se proteger, mas ainda com aquele sorriso travesso.
— Olha, estou tentando recuperar o tempo perdido. — Dei de ombros, fingindo desdém, enquanto atacava um pedaço de pão quentinho. — E, sinceramente, você tá com inveja da minha habilidade de comer e aproveitar a vida ao mesmo tempo.
— É, claro, porque todo mundo sonha em competir com você em quem devora mais tortas em menos tempo. — Ele revirou os olhos, mas o tom brincalhão continuava.
— Não me provoque, George. Você sabe que eu ganho. — Sorri de canto, achando graça.
— Já tiramos a prova disso uma vez — Fred entrou na conversa, rindo.
Gina riu, cutucando meu braço.
— Bom, agora que você está de volta, vamos te atualizar das fofocas, porque, minha amiga, Hogwarts não parou enquanto você esteve fora. Você quer primeiro as boas ou as bombas? — ela perguntou, apoiando o queixo nas mãos, os olhos brilhando de empolgação.
— Sempre as bombas primeiro — respondi, sem nem pensar.
— Excelente escolha. — Ela trocou um olhar cúmplice com Hermione e lançou um sorriso travesso. — Para começar, Pansy Parkinson e Draco Malfoy não estão mais juntos.
— Espera, o quê? — Me engasguei com um gole de suco. Ele e Pansy estavam juntos desde quando saí de Hogwarts, dois anos atrás, então me surpreendi e fiquei até mesmo um pouco curiosa para saber o motivo do fim do relacionamento.
— Pois é — Hermione confirmou, mexendo distraidamente na própria comida. — Parece que eles brigaram feio no final do ano passado, algo a ver com Pansy ter dado bola para outro cara.
— E pra piorar, acho que foi ela quem terminou — Gina acrescentou, inclinando-se para frente como se estivesse compartilhando um segredo. — Malfoy ficou meio perdido no começo, mas agora… digamos que está aproveitando a vida de solteiro. Até demais, na verdade.
— Chocante — respondi, enquanto Rony bufava do outro lado da mesa.
— Ok, próxima fofoca — Gina continuou. — Lilá Brown e Simas estão naquele vai e volta de sempre, mas juro que a qualquer momento alguém vai jogar um feitiço de silêncio neles porque ninguém aguenta mais.
— Isso não é novidade — Harry resmungou, revirando os olhos.
— Agora uma boa: Blaise Zabini começou a flertar mais com algumas meninas daqui… e posso jurar que te olhou umas três vezes desde que chegamos.
Arqueei uma sobrancelha. Blaise era um cara reservado, principalmente sobre sua vida amorosa. Ele não parecia curtir ficar com as meninas de Hogwarts, pois eram poucas as que poderiam dizer que ficaram, de fato, com ele.
— Isso eu duvido. Ainda mais se me viu comendo desse jeito — brinquei.
— Pois duvide menos. Você tem seu charme, amiga. — Gina riu, tomando um gole da própria bebida. — Aposto que em menos de uma semana ele arranja um jeito de te abordar.
— Eu mesmo aposto que não dura nem isso — Fred entrou na conversa, como um bom enxerido, inclinando-se contra a mesa com um sorriso presunçoso. — tem um talento especial para atrair atenção.
— Para o seu desgosto, Fred? — provoquei, sorrindo para ele.
— Só se for desgosto para os outros. — Ele piscou.
Revirei os olhos, fingindo impaciência, mas sentindo um calor subir pelo meu rosto.
— Agora que você está atualizada, acho que a festa de boas-vindas vai ser muito mais interessante.
— Festa? — perguntei, interessada.
— Sala Precisa. Depois do toque de recolher — Gina disse como se fosse óbvio. — É claro que você vai, né?
— Vocês não me deixariam faltar, mesmo se eu não quisesse ir — respondi, rindo.
— Bom, isso é verdade. — Mione riu.
— Mas agora falando da melhor parte da sua volta: vamos dividir o dormitório! — Gina sorriu, apoiando o rosto nas mãos.
— Sério, eu já tava de saco cheio de acordar com a Lilá Brown contando os sonhos dela com o Rony. — Hermione revirou os olhos, fazendo Gina e eu rimos.
— Ela não estava com Simas? — perguntei, confusa. — Pensei que a quedinha dela por Ron já tinha passado — provoquei, cutucando Rony com o cotovelo.
— Sabe-se lá o que passa pela cabeça dela. Nada faz sentido — Gina resmungou. — Assim que termina com o Simas, ela vai correndo para o Ronyzinho.
Rony ficou vermelho na hora.
— Não é minha culpa!
— Mas é claro que não — Hermione disse, a voz carregada de sarcasmo. — Você quem não dispensa ela de uma vez…
— Deixando o drama do Rony de lado… — continuei, olhando para as meninas. — Eu juro que nem acredito que vou ter vocês por perto o tempo todo. Não que cartas fossem ruins, mas nada supera isso.
— Finalmente vamos poder fofocar sem precisar esperar semanas para uma resposta! — Gina concordou, empolgada.
Depois do banquete, subimos para o dormitório da Grifinória, onde eu pude organizar minhas coisas com a ajuda das meninas. Era estranho, no melhor dos sentidos, ver minhas malas ali no meio das delas, sabendo que dessa vez eu ficaria.
Hermione ajudava a dobrar algumas roupas enquanto Gina revirava o baú em busca de algo para a festa.
— O que você vai usar, ? — ela perguntou, jogando uma blusa para o lado. — Porque hoje é sua reestreia em Hogwarts.
— Relaxa, Ginny, eu trouxe roupas decentes — respondi rindo.
Depois de um tempo, com muita indecisão e trocas de roupas, finalmente estávamos prontas. Gina escolheu um vestido curto de veludo vinho, que realçava seu cabelo vibrante. Hermione, que normalmente não ligava tanto para essas coisas, estava deslumbrante em um conjunto preto justo, simples, mas elegante.
O vestido azul-marinho que escolhi caía perfeitamente no meu corpo, justo no tronco e leve na saia, que tinha um corte assimétrico esvoaçante, com pequenos detalhes brilhantes.
— Bom, acho que está mais do que aprovado — Gina disse, nos analisando com um olhar crítico antes de soltar um sorriso satisfeito.
— Só espero que não acabe em detenção. — Hermione suspirou, mas não parecia de fato preocupada.
— É uma festa clandestina, claro que vai acabar em confusão. — Dei de ombros, pegando a garrafa de bebida que George nos passou antes de subir para o dormitório masculino.
— Você quer mesmo começar agora? — Hermione perguntou, olhando a garrafa.
— Se vamos fazer isso, vamos fazer direito. — Gina pegou alguns copos escondidos no fundo do baú.
Com uma risada cúmplice, fizemos um pequeno brinde e tomamos os primeiros goles. O líquido queimou um pouco na garganta, mas logo tomamos mais um pouco. Então, minutos depois, as batidas na porta vieram baixas.
— Devem ser os meninos — Mione falou.
Outro ponto diferente daqui e de Beauxbatons são as permissões de dormitórios. Lá na França, ninguém do sexo masculino pode entrar no dormitório feminino, e vice versa. Já aqui, as coisas são mais… liberais. Pelo menos até meia-noite, horário do toque de recolher. Não que alguém passasse analisando quarto por quarto, era bem tranquilo.
Até meu segundo ano aqui, os meninos viviam dormindo em nosso dormitório. Pra ser sincera, isso era uma das milhares de coisas que sentia saudades daqui, essa proximidade e liberdade que tínhamos.
— Se não abrirem logo, vamos ter que invadir — George sussurrou.
Gina rolou os olhos, mas abriu a porta sem cerimônia para os meninos entrarem no quarto. Assim que Fred me viu, simplesmente parou por um segundo, os olhos deslizando lentamente por mim antes de abrir um sorriso torto.
— E eu achando que você não conseguiria chamar mais atenção… — Fred comentou, cruzando os braços, o olhar descaradamente fixo em mim.
Franzi a testa, sentindo o calor subir pelo meu rosto, mas me recusei a demonstrar.
— Ah, ótimo. Você já começou.
Fred sempre teve essa mania de jogar elogios como se fossem parte de uma piada interna que só ele entendia. Ele fazia isso com todo mundo, então nunca levei muito a sério. Nos conhecemos há tempo suficiente para que eu soubesse que sua lábia era afiada, e os rumores que já ouvi sobre ele só reforçavam isso.
Além do mais, eu sabia que, para ele, essas palavras nunca vinham de um lugar real. Era só provocação, brincadeira. Se eu levasse a sério, só estaria mentindo para mim mesma.
— Estou apenas fazendo uma observação. — Ele ergueu as mãos em falsa inocência, mas o brilho no olhar mostrava que ele estava se divertindo.
— Bom, então guarde suas observações para você — retruquei, cruzando os braços.
— Difícil — Fred disse simplesmente, um tom despreocupado na voz, como se fosse um fato óbvio.
Bufei, irritada, e peguei meu copo de bebida para me distrair, mas senti Gina cutucar minha costela.
— Suas bochechas estão vermelhas.
— Cala a boca.
Ela apenas riu, voltando sua atenção para Harry.
— E você, Potter? Nada para dizer?
Harry abriu a boca, depois fechou, desviando o olhar rapidamente.
— N-não é isso… Você sabe que está incrível.
— Aham. — Gina sorriu, triunfante.
— Certo, podemos parar de brincar de “quem deixa quem mais sem graça” e ir para a festa? — George interrompeu, pegando a garrafa da mesa e tomando um gole direto do gargalo.
— Concordo — falei, sorrindo para as meninas.
Os corredores estavam surpreendentemente silenciosos enquanto nos aproximávamos da Sala Precisa, como se todos os alunos conspirassem para manter a festa em segredo. Ninguém queria ser pego, então os passos eram cuidadosos e os sussurros abafados. Parecia que o castelo inteiro estava adormecido, mas sabíamos bem o que nos esperava atrás daquela porta.
Assim que entramos, o ambiente me deixou de queixo caído. Luzes arroxeadas dançavam pelo teto, iluminando a sala com um brilho etéreo que só tornava tudo mais mágico. Havia uma música vibrante preenchendo o espaço, e o som de risadas e conversas já se misturava ao ar. O lugar estava lotado, alunos de várias casas se espalhavam por ali, alguns dançando, outros reunidos em pequenos grupos.
— Agora sim, isso é uma recepção decente! — George exclamou, batendo de leve no meu ombro antes de puxar Fred para o bar improvisado no canto da sala. Não demoraram muito e já voltavam com copinhos de shot para todos nós.
— Um brinde à volta de ! — Fred ergueu o copo.
As vozes se ergueram em comemoração e eu não pude evitar um sorriso, sentindo o calor da bebida descer pela garganta logo em seguida.
— Sabe, não sei se foi uma boa ideia você voltar… — Fred comentou, inclinando-se um pouco na minha direção.
Franzi o cenho, já me preparando para retrucar, mas ele continuou antes que eu pudesse abrir a boca:
— Agora ninguém mais vai tirar os olhos de você.
Bufei, revirando os olhos.
— Engraçadinho.
— Quem disse que eu tô brincando? — Ele ergueu a sobrancelha, um sorriso de canto brincando nos lábios.
Fingi ignorá-lo, mas o olhar dele ficou na minha mente por mais tempo do que eu gostaria de admitir. Antes que pudesse responder, Gina já estava puxando minha mão.
— Agora que você foi oficialmente recebida, hora de aproveitar a festa de verdade!
Gina me arrastou e Hermione veio logo atrás, rindo. Pegamos mais um copo, dessa vez com vodka misturada a algo doce — talvez suco ou alguma poção açucarada que arrumaram para a festa. O gosto era forte mas não tão ruim, e brindamos antes de tomar um longo gole.
As luzes piscavam no ritmo da música e eu me deixei levar pela batida. Estava me divertindo, sentindo a leveza da bebida e a presença das minhas amigas ao meu lado. Dançamos juntas, rindo e cantando sem nos importar com nada.
Não sei quanto tempo havia passado quando percebi que meu copo estava vazio. Murmurei algo para as meninas e fui até a mesa onde estavam as bebidas. Assim que peguei mais um copo, ouvi uma voz conhecida atrás de mim.
— Então, como está sendo sua volta a Hogwarts?
Virei-me e dei de cara com Blaise Zabini. Ele segurava um copo, o olhar atento em mim.
— Muito boa — respondi, sorrindo. — Você se lembra de mim? Quer dizer, foram dois anos…
Ele soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
— Impossível esquecer. Você pode ter ficado dois anos fora, mas me chamou atenção antes disso.
Eu pisquei, surpresa com a resposta. Ele parecia tranquilo, mas havia algo no jeito que ele me olhava que me fez sentir um frio na barriga.
— Isso é… um elogio? — perguntei, sem saber bem o que pensar.
Blaise deu um pequeno sorriso, quase imperceptível.
— Sim, é um elogio.
Sorri com a resposta, mas antes que pudesse responder ouvi uma risada familiar e uma mão surgir sobre o meu ombro. Era Hermione, com Gina logo atrás dela, os olhos brilhando de excitação.
— ! Vai jogar ou não? Já vai começar!
Eu dei um sorriso aliviado e olhei para as duas.
— Acho que sim — respondi, virando para Blaise. — Até mais. Nos vemos depois?
— Com certeza. — Ele acenou com um leve sorriso, ainda observando enquanto eu me afastava.
Hermione me puxou em direção ao círculo que já se formava, onde Fred estava no meio, contando uma de suas piadas para alguns amigos. Gina riu ao meu lado, mais animada com o jogo do que qualquer coisa.
Chegando no centro, percebi que havia muitas pessoas ali, e o jogo estava começando.
A garrafa girou e parou em Theo Nott, que olhou ao redor com aquele sorriso presunçoso.
— Verdade ou desafio? — perguntou Lila, a voz cheia de expectativa.
Theo pensou por um momento, antes de responder com um sorriso malicioso.
— Desafio.
A garota fez um gesto pensativo e então disse:
— Diga algo que você nunca contou a ninguém.
Theo olhou ao redor, e por um momento o sorriso dele desapareceu. Todos estavam ansiosos, esperando a resposta. Theo se recostou na cadeira, olhando para a mesa e, finalmente, murmurou:
— Eu… tenho sentimentos por uma pessoa daqui.
Admito, fiquei curiosa e, ao olhar para Gina, entendi que seria um tópico para as sessões de fofocas, mas pelo olhar rápido que Theo deu a Dafne, poderia chutar que havia algo entre eles.
A garrafa girou de novo, parando agora em Draco Malfoy, que estava com o olhar fixo em alguma coisa à distância, claramente desconcentrado.
— Verdade ou desafio? — perguntou George.
— Desafio — respondeu Draco com um ar indiferente.
George, com um brilho travesso nos olhos, disse:
— Beije alguém que te interesse dessa roda.
Draco olhou ao redor, e seus olhos pararam por um segundo em Hermione. A tensão no ar foi instantânea, e todos perceberam o que estava acontecendo.
Sem dizer uma palavra, Draco atravessou a roda e se aproximou de Hermione. Ele a pegou pela cintura, com uma firmeza que claramente surpreendeu Hermione, e, com um movimento rápido, a puxou para perto. Antes que ela pudesse reagir, seus lábios se encontraram. Não foi um beijo suave ou tímido.
Hermione inicialmente ficou paralisada, mas logo seus olhos se fecharam e ela correspondeu, subindo sua mão para o pescoço de Draco.
A sala estava em silêncio absoluto, como se todos estivessem processando o que acabara de acontecer. Olhei rapidamente para Ron, apenas para ver uma carranca se formar em seu rosto e não consegui evitar rir baixinho com isso.
Agora era a vez de Gina. Ela olhou para todos antes de girar a garrafa, claramente se divertindo com a situação.
— Verdade ou desafio? — perguntou Cedrico.
— Desafio — respondeu Gina, confiante.
— Escolha alguém aqui e sussurre no ouvido dele um segredo que ninguém mais sabe.
Gina arqueou uma sobrancelha, mas não hesitou. Seu olhar percorreu a roda e, depois de um momento de suspense, ela se inclinou para perto de Harry. Ele arregalou os olhos quando ela sussurrou algo em seu ouvido, e seu rosto ficou levemente vermelho, enquanto abria um sorriso disfarçado.
— O que foi isso? — perguntou Rony, desconfiado.
— Segredo, Rony — respondeu Gina, piscando.
A roda explodiu em risadas, enquanto Harry ainda parecia processar o que tinha acabado de ouvir.
A garrafa girou novamente e parou em Hermione.
— Verdade ou desafio? — perguntou Harry, agora parecendo mais relaxado.
— Verdade — respondeu Hermione, hesitante.
Harry olhou para ela com um sorriso, antes de escolher seu desafio.
— Fale o nome de alguém que tenha te surpreendido hoje.
— Draco — ela respondeu, com um sorriso de canto. Mione e Draco trocaram olhares brevemente, e ele parecia bem satisfeito com isso.
A roda girou novamente e a garrafa parou na frente de Angelina.
— Verdade ou desafio? — Era a vez de Fred perguntar.
Angelina hesitou por um momento, mas logo respondeu com um sorriso:
— Verdade.
Fred, com um sorriso travesso, não perdeu tempo e perguntou:
— É verdade que você está a fim de George?
— Sim, é verdade — respondeu ela, sem hesitar.
George, que parecia um pouco sem jeito, riu, mas não conseguiu esconder o sorriso de satisfação.
— Bom saber — disse ele com um sorriso brincalhão, antes de se recostar na cadeira.
Angelina, com um sorriso descontraído, voltou a se concentrar no jogo. Dessa vez, a garrafa girou lentamente e parou em mim.
— Verdade ou desafio? — perguntou Pansy, com um sorriso malicioso.
— Desafio — respondi, com confiança.
Pansy fez uma pausa e então disse:
— Fique cinco minutos com Fred no armário.
Meu olhar cruzou com o dele no mesmo instante. Fred me encarava daquele jeito desafiador, como se esperasse que eu recuasse. Mas eu não hesitei. Apenas me levantei e segui até a parede, onde um armário estreito e apertado se materializou.
Fred entrou primeiro, e eu o segui, fechando a porta atrás de nós. A escuridão nos envolveu, e o espaço minúsculo parecia ainda menor com nós dois ali dentro. Eu podia sentir o calor do corpo dele, tão perto que qualquer movimento faria nossas peles se tocarem.
— Então… cinco minutos, hein? — ele quebrou o silêncio, a voz baixa, quase um sussurro.
— O que você está esperando disso? — retruquei, tentando soar indiferente, mas minha voz saiu mais suave do que eu queria.
Fred sorriu, daquele jeito que sempre fazia parecer que nada o abalava. Ele se inclinou um pouco, fazendo nossas mãos se encostarem levemente.
— Não estou esperando nada — murmurou. O toque foi leve, mas queimou contra minha pele. — Só… não sei o que você espera.
Eu ri, mas foi um riso fraco.
— Era você que se gabava de “me conhecer demais”.
— Eu achava que sim — ele admitiu, os olhos passeando pelo meu rosto. — Mas pra ser sincero… não sei mais.
Algo no jeito que ele disse aquilo me incomodou.
— E de quem é a culpa disso? — soltei antes de conseguir me conter.
Fred piscou, confuso, como se não tivesse entendido.
— Você que me esqueceu, Fred — continuei, cruzando os braços, tentando ignorar o aperto no peito. — Então desculpa se eu não sei como reagir com você ainda.
A expressão dele mudou. Foi um baque visível. Ele umedeceu os lábios, respirando fundo, e antes que eu pudesse desviar o olhar, se inclinou um pouco mais. Sua mão subiu, tocando meu cabelo, afastando uma mecha do meu rosto, devagar.
— … — Sua voz saiu mais baixa, quase hesitante, e eu senti minha respiração falhar por um segundo.
A porta do armário se abriu de forma brusca.
— O tempo acabou! — A voz de Pansy ecoou.
Nos afastamos rápido, saindo do armário em meio às risadas e olhares curiosos. Meu coração ainda martelava no peito.
Definitivamente, era a deixa pra beber mais até esquecer.