Codificada por: Lua ☾
Última Atualização: 31/12/25
O cheiro de álcool, látex e desinfetante barato me acertou de novo, e pensei que se o inferno tivesse um aroma, provavelmente seria aquele.
Joguei minha mochila no canto e sentei no fundo, abrindo meu jaleco amassado.
No meio da sala, o manequim de reanimação — aquele torso de plástico bege, sem olhos e com a boca eternamente aberta — me encarava como se soubesse de algo.
“Perfeito”, pensei. “Mais um dia em que sou julgada por um pedaço de borracha.”
— Bom dia, turma. — A voz do professor ecoou, carregada de tédio. — Hoje vamos revisar o protocolo de parada cardiorrespiratória. Espero que estejam vivos o suficiente pra prestar atenção.
Metade da turma riu. A outra metade fingiu estar anotando algo.
Eu só queria que o café funcionasse.
— Se for pra morrer, que seja depois da aula — murmurei, mais para mim mesma, arrancando um risinho da garota ao lado.
O professor começou a escrever no quadro: “RCP — Suporte Avançado de Vida”.
— Alguém lembra a frequência ideal das compressões torácicas? — perguntou.
Silêncio total.
Ninguém queria ser o nerd do dia.
Até que uma voz masculina respondeu, lá do fundo:
— Cem a cento e vinte por minuto.
Virei o rosto.
Um cara que eu nunca tinha visto antes estava sentado duas fileiras atrás de mim. Jaleco impecável, cabelo escuro, olhar tranquilo. O tipo de rosto que te faz querer fingir que não está encarando — mas, claro, eu estava.
— Aluno novo? — cochichei pra colega.
Ela deu de ombros. — Nunca vi.
O professor assentiu, satisfeito.
— Muito bem, senhor…
O garoto levantou o olhar, um meio sorriso no rosto.
— . .
Alguns riram.
Eu revirei os olhos.
— Sério? Original, pelo menos.
Mas ele não respondeu — só manteve o olhar em mim, firme, quase divertido.
E foi aí que percebi: aquele tipo de sorriso que parece inofensivo, mas tem algo estranho por trás.
A aula continuou.
Pelo menos até as luzes começarem a piscar.
Uma. Duas vezes.
O professor suspirou.
— Devem estar mexendo na rede elétrica de novo.
Mas antes que alguém concordasse, o manequim fez um som metálico.
Um estalo seco, como se algo tivesse se mexido lá dentro.
— Ótimo. Agora ele tem alma. — murmurei.
O peito do manequim começou a subir e descer lentamente.
Respirando.
As risadas morreram.
O professor parou de escrever.
— Isso faz parte da simulação? — perguntei, tentando rir.
— Não — ele respondeu, franzindo o cenho. — Ele não tá ligado na tomada.
E foi então que o boneco virou a cabeça.
O ar ficou pesado.
Ninguém se mexia.
Eu quis acreditar que era uma brincadeira, uma pegadinha de Halloween antecipada, qualquer coisa.
Mas aí o manequim falou.
— .
Meu café caiu no chão.
A caneca quebrou, o som ecoando na sala muda.
— Tá… quem é o engraçadinho? — tentei rir, mas minha voz falhou. — Muito bom, gente. Amei o susto.
Nada.
O manequim me encarava — ou parecia encarar — e então... sorriu.
Um estalo ecoou do teto, o alarme de incêndio disparou, e as luzes vermelhas começaram a piscar.
O professor gritou para todos saírem.
Cadeiras se arrastaram, alguém caiu, todo mundo correndo.
Quando cheguei à porta, ele estava lá.
.
Encostado no batente, calmo.
— Você não devia correr, — disse, a voz baixa, quase gentil. — Ainda não é a hora.
— Que—?
Antes que eu terminasse, uma explosão ensurdecedora me lançou contra a parede.
O calor queimou o ar, o chão sumiu sob meus pés, e então… silêncio.
Escuridão total.
…até o som irritante de um despertador romper o vazio.
Abri os olhos.
07h58.
Mesmo café morno na minha mão.
Mesmo professor abrindo a porta.
Mesmo manequim imóvel no centro da sala.
E , sentado duas fileiras atrás, me olhando com o mesmo sorriso.
— Bom dia, — ele disse, piscando. — Vamos tentar de novo?
