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Codificada por: Lua ☾
Última Atualização: 31/12/25

O relógio digital do corredor marcava 07h58 quando empurrei a porta da sala de aula, com um copo de café que já tinha perdido a vontade de viver — igual a mim.
O cheiro de álcool, látex e desinfetante barato me acertou de novo, e pensei que se o inferno tivesse um aroma, provavelmente seria aquele.

Joguei minha mochila no canto e sentei no fundo, abrindo meu jaleco amassado.
No meio da sala, o manequim de reanimação — aquele torso de plástico bege, sem olhos e com a boca eternamente aberta — me encarava como se soubesse de algo.

“Perfeito”, pensei. “Mais um dia em que sou julgada por um pedaço de borracha.”

— Bom dia, turma. — A voz do professor ecoou, carregada de tédio. — Hoje vamos revisar o protocolo de parada cardiorrespiratória. Espero que estejam vivos o suficiente pra prestar atenção.

Metade da turma riu. A outra metade fingiu estar anotando algo.
Eu só queria que o café funcionasse.

— Se for pra morrer, que seja depois da aula — murmurei, mais para mim mesma, arrancando um risinho da garota ao lado.

O professor começou a escrever no quadro: “RCP — Suporte Avançado de Vida”.
— Alguém lembra a frequência ideal das compressões torácicas? — perguntou.

Silêncio total.
Ninguém queria ser o nerd do dia.
Até que uma voz masculina respondeu, lá do fundo:

— Cem a cento e vinte por minuto.

Virei o rosto.
Um cara que eu nunca tinha visto antes estava sentado duas fileiras atrás de mim. Jaleco impecável, cabelo escuro, olhar tranquilo. O tipo de rosto que te faz querer fingir que não está encarando — mas, claro, eu estava.

— Aluno novo? — cochichei pra colega.

Ela deu de ombros. — Nunca vi.

O professor assentiu, satisfeito.
— Muito bem, senhor…

O garoto levantou o olhar, um meio sorriso no rosto.
. .

Alguns riram.
Eu revirei os olhos.
— Sério? Original, pelo menos.

Mas ele não respondeu — só manteve o olhar em mim, firme, quase divertido.
E foi aí que percebi: aquele tipo de sorriso que parece inofensivo, mas tem algo estranho por trás.

A aula continuou.
Pelo menos até as luzes começarem a piscar.

Uma. Duas vezes.
O professor suspirou.
— Devem estar mexendo na rede elétrica de novo.

Mas antes que alguém concordasse, o manequim fez um som metálico.
Um estalo seco, como se algo tivesse se mexido lá dentro.

— Ótimo. Agora ele tem alma. — murmurei.

O peito do manequim começou a subir e descer lentamente.
Respirando.

As risadas morreram.
O professor parou de escrever.

— Isso faz parte da simulação? — perguntei, tentando rir.

— Não — ele respondeu, franzindo o cenho. — Ele não tá ligado na tomada.

E foi então que o boneco virou a cabeça.

O ar ficou pesado.
Ninguém se mexia.
Eu quis acreditar que era uma brincadeira, uma pegadinha de Halloween antecipada, qualquer coisa.

Mas aí o manequim falou.

.

Meu café caiu no chão.
A caneca quebrou, o som ecoando na sala muda.

— Tá… quem é o engraçadinho? — tentei rir, mas minha voz falhou. — Muito bom, gente. Amei o susto.

Nada.
O manequim me encarava — ou parecia encarar — e então... sorriu.

Um estalo ecoou do teto, o alarme de incêndio disparou, e as luzes vermelhas começaram a piscar.
O professor gritou para todos saírem.
Cadeiras se arrastaram, alguém caiu, todo mundo correndo.

Quando cheguei à porta, ele estava lá.

.
Encostado no batente, calmo.

— Você não devia correr, — disse, a voz baixa, quase gentil. — Ainda não é a hora.

— Que—?

Antes que eu terminasse, uma explosão ensurdecedora me lançou contra a parede.
O calor queimou o ar, o chão sumiu sob meus pés, e então… silêncio.

Escuridão total.

…até o som irritante de um despertador romper o vazio.

Abri os olhos.

07h58.
Mesmo café morno na minha mão.
Mesmo professor abrindo a porta.
Mesmo manequim imóvel no centro da sala.

E , sentado duas fileiras atrás, me olhando com o mesmo sorriso.

— Bom dia, — ele disse, piscando. — Vamos tentar de novo?



FIM!


Nota da autora: Sem nota!

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