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Roses and Thorns

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1. Santa Lua


“Não lamente o que podia ter e perdeu-se por caminhos errados e nunca mais voltou.”
Cora Coralina


Yinsia - 21h
— Eu odeio ser um príncipe!
Ele exclamou alto, batendo a porta do próprio aposento com força suficiente para ecoar pelos corredores do castelo. Tinha certeza de que o barulho absurdo não passara despercebido pelos pais. Ele não se importava mais com toda a sinceridade que o habitava. Se sentia perdido e sem ânimo. E como se todas as obrigações da realeza já não fossem enormes, agora, com os seus dezenove anos recém completados, algo maior pesaria os seus ombros, sem direito a questionamentos.

O jovem príncipe sempre teve tantos sonhos, inúmeros planos. Queria estudar as plantas medicinais, as espécies que habitavam a floresta de Zianol, fazer amigos, encontrar o amor… Mas tudo isso lhe foi arrancado com brutalidade. A sua frustração era tanta que só lhe sobrou desabafar com a enorme ave albina empoleirada perto da janela, Brownie. Com sua habitual e irônica serenidade, inclinava a cabeça para o lado e piava suavemente, como se não compreendesse uma só palavra dita pelo humano. Realmente, a ave não tinha esse super poder, parecia mesmo era zombar da dor do elfo que caminhava e gesticulava pelo enorme quarto.

— Brownie, os meus pais passaram dos limites. Eles estão loucos! — soltou, exasperado. — E dessa vez… Não tem como fugir. Sem refúgio em Zianol como das outras vezes. Está tudo acabado.

Afundou-se na poltrona perto da lareira, cobrindo o rosto com as mãos. A vida como conhecia terminava ali depois da drástica notícia.

Como esperado, não demorou muito para que seus pais, atuais reis, batessem à porta. Sem coragem de negar-lhes entrada, a porta abriu-se devagar, com um receio palpável, virando de costas assim que os reis passaram pelo umbral. O som firme e ritmado dos passos pelo porcelanato polido — tão impecável quanto a imagem que esperavam dele — chegou aos ouvidos de Taehyung.
Melian foi o primeiro a falar, com aquela voz aveludada que sempre usava quando o filho chorava à noite.
— Meu amor, não fique bravo conosco — disse, gentil, como se não tivesse acabado de destruir o mundo que Taehyung conhecia.
— Mas, papai… — Taehyung se virou com dificuldade. Sua voz estava embargada. — Eu não queria isso. Não assim. Eu tinha planos. Eu tinha sonhos...
Galadriel cruzou os braços. Seu semblante era sereno, mas havia firmeza em sua postura.
— Infelizmente, essa decisão não cabe a você — respondeu com a firmeza que o tornava temido em reuniões do Conselho. — É pelo bem do povo. E você sabe disso. Há responsabilidades que não podem ser evitadas, não importa o quanto doam.
Taehyung estremeceu. Seu olhar encontrou o de Galadriel — olhos azuis, iguais aos seus, mas cheios de convicção. Ele só via frieza. A raiva subiu como um incêndio pelas veias. Seu rosto se avermelhou, o pescoço pulsava de tensão, e até as orelhas pontudas ardiam.
— Eu nunca pedi nada disso! Nunca quis ser da realeza! Isso é... isso é uma maldição!
— Kim Idril Taehyung. — Melian ergueu uma sobrancelha. — Modere-se. Você está se esquecendo de quem é e de quem está diante de você.
Taehyung cerrou os punhos. Queria gritar, mas sua garganta estava presa. Queria correr, mas o chão parecia colado aos pés. Em vez disso, ficou parado, como uma estátua rachada por dentro. Sem dizer mais nada, os reis deixaram o aposento.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Um silêncio que gritava.
Ele caminhou até a janela. O parapeito de pedra era frio, e o luar beijava seu rosto com doçura — ironia cruel diante de um coração em guerra. A lua brilhava no céu, redonda, imponente, cercada por estrelas tímidas. Como ele queria ser como elas... discretas, distantes, livres.
Suspirou. Longo e pesado.
Deitou-se na cama, ainda com as roupas do dia. Não se importou. Puxou a colcha branca até o queixo, buscando refúgio no tecido pesado. Queria esquecer. Queria que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo delirante. Mas o dia seguinte chegou, e com ele, a realidade.
A luz da manhã filtrou-se pelas cortinas de linho e acariciou sua pele. Taehyung despertou devagar. O quarto estava perfumado com flores frescas. As criadas já haviam acendido velas perfumadas no banheiro ao lado. O espaço era amplo, adornado por jarras de cristal cheias de lavanda, cravos e lírios silvestres. A banheira de porcelana branca, com detalhes dourados, aguardava-o como um altar silencioso. Ele despejou essências relaxantes na água e mergulhou lentamente. O calor abraçou seu corpo como um manto invisível. Ali, por um instante, encontrou um pingo de paz.
Após o banho, escolheu com cuidado suas roupas: seda, linho e bordados élficos. Os tons suaves contrastam com o peso em seu peito. O reflexo no espelho mostrava um príncipe composto, mas por dentro ele era uma tempestade. Desceu as escadas lentamente. As colunas de mármore refletiam o brilho do sol matutino. O salão já estava preparado para o desjejum. A mesa, longa e impecável, parecia saída de uma pintura. Os reis o aguardavam, sentou-se entre eles. Os primeiros pratos chegaram, frutas cortadas com perfeição, pães fumegantes, chá de flores, então ouviu passos, ritmados, firmes.
Um jovem cavaleiro se aproximava, e sua armadura trazia símbolos desconhecidos. O estômago de Taehyung se revirou. Ele sabia o que aquilo significava.O mensageiro do destino havia chegado.
Melian sorriu com gentileza.
— Sente-se, querido.
O cavaleiro assentiu. Os movimentos eram graciosos, disciplinados. Ele era jovem e belo.
— Taehyung, este é Kim Seokjin, Cavaleiro Real de Nyria e sobrinho do rei Dorian — disse Galadriel, observando o filho com olhos que buscavam aprovação.
Taehyung inclinou a cabeça num gesto de respeito. Recebeu outro, igualmente elegante. E então... o viu.
De verdade.
Kim Seokjin era a personificação da beleza. Um quadro vivo, como se os deuses tivessem pintado cada traço com esmero. Cabelos escuros, pele alva, olhos profundos e lábios que beiravam o pecado. Quando sorriu — um sorriso ladino, carregado de uma malícia discreta — o mundo de Taehyung tremeu. Ele desviou o olhar, envergonhado. Continuou a comer como se as frutas pudessem protegê-lo. Era só o que faltava: além de tudo... o cavaleiro ainda era bonito.
O dia passou em conversas entre os reis e Seokjin. Taehyung foi ignorado. Apenas um nome nos papéis, uma peça no jogo. Mas naquela sala tomada pelo cheiro seco do vinho e pela rigidez das vozes, ninguém parecia enxergar o que o nome dele carregava — não apenas uma assinatura, mas séculos de fé, magia e história. Durante gerações, o reino de Yinsia, terra natal de Taehyung, viveu sob a proteção da Deusa da Lua, uma entidade feminina cultuada como mãe dos ciclos, guardiã dos presságios e tecelã dos destinos. Suas montanhas eram envoltas por neblina prateada, suas florestas brilhavam sob o luar, e os lagos refletiam mais do que apenas o céu noturno, refletiam segredos.
Ali, os nascimentos eram celebrados à meia-noite, os reis coroados sob a lua cheia, e as sacerdotisas dançavam em círculos silenciosos sob o orvalho. Acreditava-se que a vida era feita de fases, como a lua, e que o amor verdadeiro só florescia sob sua bênção. Era um povo pacífico, sim, mas com uma magia ancestral profundamente enraizada nas marés e nos ritmos invisíveis do mundo, e por isso, temido.
O império de Nirya, governado por Dorian, via Yinsia com olhos desconfiados. Para um reino movido por lógica militar, estratégias expansionistas e controle absoluto, a fé lunar era uma ameaça sutil — um poder que não se dobrava a espadas ou tratados. A tensão crescia a cada ciclo, e o risco de guerra era iminente. Foi então que uma antiga profecia veio à tona:
“Quando o sangue do Sol se unir à linhagem da Terra, e o filho da Noite vestir o véu da união, cessará a guerra entre luz e pedra.”
Os intérpretes de ambas as cortes viram nela um chamado à aliança. O sangue do Sol seria Nirya. A linhagem da Terra, Yinsia. E o filho da Noite... Taehyung.
Nascido sob um eclipse, em uma noite silenciosa, ele carregava no pulso esquerdo a marca prateada da Deusa — uma espiral luminosa que só se revelava sob o luar. Mesmo sendo o filho mais novo de uma casa nobre, era abençoado por um dos Filhos da Lua, escolhido para aconselhar, guiar e proteger os ciclos sagrados da vida.
Unir-se a ele seria, para Dorian, mais do que um ato político: seria a chance de possuir o símbolo máximo de Yinsia — e, com isso, talvez, domar o próprio espírito do reino. Um consorte com sangue nobre e alma sagrada, um verdadeiro troféu. Taehyung, no entanto, nunca teve escolha. Não lhe falaram sobre a profecia até ser tarde demais. Não lhe perguntaram se desejava partir. Estava ali como oferenda — um sacrifício enfeitado, empurrado para um casamento vendido ao povo como um pacto de prosperidade, mas selado em silêncio por pressões econômicas, religiosas e mágicas. Para Yinsia, ele era o escudo que impediria a guerra. Para Dorian, o ornamento perfeito para legitimar seu poder. Para Taehyung, era apenas o começo de uma prisão reluzente.
À noite, fez as malas, cada peça de roupa, cada anel, cada frasco de perfume era um grito silencioso: não me esqueçam. Pegou tudo o que pudesse lembrar-lhe quem era, caso um dia alguém tentasse apagá-lo. E Brownie, é claro. Ela ia com ele. Que o destino ousasse questionar isso.
Mais tarde, Taehyung caminhou até seu refúgio: a biblioteca de Yinsia. Era o lugar mais sagrado de todo o castelo. Estantes douradas cobriam as paredes. Uma árvore viva crescia no centro, flores rosadas brotando de seus galhos. A luz do entardecer entrava por vitrais altos. O ar era perfumado por livros antigos e promessas esquecidas. Sentou-se à sombra da árvore. Pegou um livro ao acaso. Nem o abriu. O silêncio era um bálsamo.
Adormeceu ali mesmo. Foi despertado por um som suave — uma risada contida, abriu os olhos devagar. Kim Seokjin estava ali. A luz dourada o iluminava como uma pintura viva, sua armadura reluzia. Seus traços eram hipnotizantes.
— Uhum... Não queria incomodar vosso descanso, Alteza, mas seus pais solicitam sua presença para o jantar — disse ele, cortês.
Taehyung tentou responder. A voz falhou.
— A... am... obrigado. Diga que já estou indo.
Levantou-se rápido demais, coincidentemente tropeçou numa raiz, o chão parecia se aproximar. Mas não caiu, uma mão firme o segurou.
— Cuidado, Alteza — disse Seokjin, com um brilho divertido nos olhos. — Seria um ultraje permitir que seu belíssimo rosto sofresse um arranhão, por menor que fosse.
Taehyung corou intensamente. Afastou-se, murmurando algo incoerente. Ajeitou as roupas, tentando recuperar a compostura, e caminhou em direção ao salão com passos vacilantes. Mas, por dentro, só conseguia pensar em uma coisa:
Aquele homem ainda vai ser a minha ruína. Santa Lua que me proteja.

2. Os Amantes

“Poucas palavras me sobraram para descrever o
que senti por ti.”
giulia Ola


Yinsia – Alguns dias depois

O entardecer tingia o céu com tons dourados e lavanda quando o Príncipe Kim descia lentamente as escadas do Palácio da Lua. Atrás dele, os luzeiros azuis cintilavam como cascatas etéreas, vertendo sua luz mágica ao redor da residência real. A cena era de uma beleza solene, mas também de cortar o coração.
O choro dolorido do primogênito ecoava entre as colunas de mármore, abalando o coração de todos que ousavam presenciar aquele momento. Melian, que um dia o havia gerado em seu ventre com tanto amor, encontrava-se inconsolável, escondido nos braços do esposo, incapaz de conter o instinto de proteger seu filho — mesmo sabendo que, desta vez, não poderia acompanhá-lo. O mundo lá fora era vasto e cruel, e seu pequeno elfo agora partiria para terras longínquas, onde nem mesmo os deuses poderiam protegê-lo de todos os males.
Ao seu lado, Galadriel permanecia firme, a altivez estampada no rosto de um rei acostumado a carregar o peso de decisões impossíveis. Para os olhos do mundo, parecia impassível, como se entregar o único filho a um rei decrépito fosse apenas mais uma questão de Estado. Mas, por dentro, sua alma era consumida pela dor silenciosa, um lamento que devorava seus órgãos um a um, deixando um vazio que nem a deusa da Lua poderia preencher. Contudo, ele era rei. E por mais que seu coração clamasse pela família, havia uma coroa sobre sua cabeça e um povo inteiro sob sua guarda.
Despedidas nunca eram fáceis, fossem elas temporárias ou não. E aquela, em especial, foi regada de sentimentos confusos: dor, medo, resignação. Uma sensação de perda irreversível pairava sobre todos.
Kim Taehyung partiu com a postura que se esperava de um príncipe, mas, por dentro, era apenas um jovem com o coração partido. Seguiu escoltado pela Guarda Real, acompanhado por sua fiel dama Lyra, a coruja Brownie, e por Kim Seokjin — o cavaleiro de Nyria, cuja presença silenciosa já começava a ressoar como um bálsamo em sua vida.
O príncipe sentia os olhares se acumulando sobre si enquanto cruzava os portões dourados. Inveja, pena, curiosidade... Uma enxurrada de sentimentos negativos o seguia como sombras. Mas, entre todos eles, havia também compaixão, ela vinha de Seokjin, e era discreta, mas genuína.
E mesmo que tudo ao seu redor parecesse ruir, mesmo que o futuro fosse uma estrada nebulosa, o coração do jovem encheu-se de uma luz tênue, como a de uma vela protegida pelas mãos.

Com os olhos voltados para o céu, fez uma prece silenciosa: "Santa Lua, se não puder impedir... que ao menos me acompanhe."

O sacolejar da carruagem remexia as entranhas de Taehyung como se ele fosse apenas uma trouxa de roupas esquecida no canto. Por mais acolchoado que fosse o assento, seu corpo já se encontrava dormente, e o estômago se revoltava a cada solavanco. Com um suspiro resignado, ele estendeu a destra pela janela entreaberta, chamando a atenção do chefe da guarda que cavalgava à frente.
— Alteza. — O homem se virou de pronto, reverenciando-o com respeito. — Desejas algo?
— Sim — respondeu o príncipe, levando uma mão à têmpora com um suspiro. — Estou nauseado e dolorido. Já faz horas que seguimos nessa carruagem. Preciso esticar as pernas... e, de preferência, não vomitar sobre a tapeçaria imperial.
— Como quiser, Alteza. Providenciarei um local adequado para o descanso imediato.
A carruagem diminuiu o ritmo enquanto os guardas à frente se dispersavam em busca de um espaço seguro à beira da estrada. A paisagem ao redor era densa, envolta por árvores de troncos prateados e folhas em tons dourados, algo familiar para Taehyung, pois ainda estavam sob a proteção de Yinsia.
Seu reino. Sua casa.
Yinsia era um território abençoado. Suas terras eram ricas, banhadas por rios cristalinos e protegidas por florestas mágicas. O povo vivia em paz, sustentado pela generosidade da natureza e pelas bênçãos da Santa Lua. O reinado de seus pais sempre fora próspero, e seus corações, voltados ao bem-estar do povo. Taehyung crescera desejando continuar esse legado, conduzindo sua nação com justiça, honra... e talvez, se a Deusa permitisse, com amor.
A magia corria em suas veias como o sangue mais nobre. Usavam feitiços em comunhão com a natureza: para curar, cultivar, proteger. Fome e doenças eram quase inexistentes sob sua jurisdição. No comércio, podia-se encontrar poções de todos os tipos — algumas de teor duvidoso, verdade. Existiam aquelas que eram proibidas, claro, mas quem conhecia as vielas sabia que sempre havia alguém disposto a vender o que não devia. E outros ainda mais dispostos a comprar.
A fé do povo era devotada à Santa Lua, a Deusa Mãe de todas as criaturas mágicas. Seus cabelos, diziam, eram longos como cascatas de prata líquida; sua pele, translúcida como cristal sob a luz do luar. A antiga lenda contava que, antes de Yinsia ser fundada, havia apenas uma vasta e inóspita floresta. Então, certa noite, uma luz tão pura e radiante surgiu no céu que cegaria qualquer ser tolo o suficiente para encará-la diretamente.
Dessa luz desceu uma figura celestial, caminhando pelo coração daquela escuridão. E conforme ela avançava, as árvores se curvavam em reverência, os animais despertavam e criaturas místicas brotavam do solo. Desde então, todos os anos, quando a lua cheia atinge o ápice de seu esplendor, ela desce por um breve instante, contemplando o que criou.
Taehyung não sabia se essa história era verdadeira. Não sabia se a Deusa tinha mesmo cabelos prateados ou se a floresta falou com ela. Mas sabia que foi assim que lhe ensinaram a crer — e, em momentos de angústia, fé era tudo o que restava.
Algum tempo depois, pararam em frente a uma taverna. Taehyung não a conhecia; nunca tivera costume, tampouco permissão, para frequentar esse tipo de ambiente. Ronald, o mesmo guarda a quem se dirigiu anteriormente, organizou sua estadia e também a alimentação.
O local era dividido em dois andares: no térreo, o bar; no piso superior, os dormitórios. O príncipe subiu as escadas com a gaiola da Brownie nas mãos, precisava urgentemente de um bom banho. Lyra, sua dama pessoal, tratou de esquentar a água e encher a tina; separar seus trajes e os deixar sobre a cama. O quarto não era voltado ao luxo, mas não poderia reclamar do conforto. As paredes, em tons terrosos, contrastavam com os móveis de madeira escura. A cama localizava-se à esquerda, de frente para uma lareira de pedras. No centro, um sofá médio de camurça verde-musgo. Acima, um candelabro com diversas velas iluminava o ambiente com suavidade. O quarto de banho possuía um lavabo, sanitário e uma tina de madeira envernizada.
Ele lavou-se sozinho e, devidamente vestido, alimentou a mascote antes de descer os degraus com o olhar atento, procurando por Lyra ou até mesmo Ronald. Contudo, seus olhos cruzaram com os de outro ser — e, pela intensidade do encontro, imaginou o rubor que se espalhava por sua tez. Seokjin caminhava em sua direção e, a cada passo, o coração do príncipe parecia errar as batidas.
Seokjin aproximou-se e fez uma singela reverência.
— Alteza, permita-me acompanhar-te até à mesa — disse, esticando a mão com a intenção de que Taehyung a tomasse.
Com receio e completamente envergonhado, o príncipe depositou suavemente sua destra na dele e foi conduzido até uma mesa mais afastada. Seokjin puxou a cadeira para que ele se sentasse primeiro e, contornando a mesa, acomodou-se à sua frente. O jantar foi servido, e comeram em um silêncio ensurdecedor. Minha Santa Lua, como acabou esse clima tão tenso?, pensou Taehyung, desviando o olhar por um momento.
Seokjin o olhou de esguelha, e lá estava novamente aquele sorriso ladino. Quando ele o olhava assim, Taehyung esquecia até de respirar. Subia uma sensação estranha do estômago até o peito... definitivamente não era normal.
— O jantar é do seu agrado, Príncipe Kim? — indagou Seokjin, com voz suave.
Taehyung ergueu o olhar, saindo de seus devaneios.
— Está tudo ótimo, Senhor Kim. Só uma coisa não me agrada.
Seokjin arregalou levemente os olhos.
— Diga-me, Alteza, e farei o possível para resolver.
— Peço que pare de me chamar assim... tão formal e correto.
— Mas Alteza, não posso agir diferente. Somos de hierarquias distintas.
— Deixe de bobagens, Senhor Kim. Seremos membros da mesma família... infelizmente — murmurou a última palavra.
— E como desejas ser chamado?
— Pelo meu nome, oras: Taehyung. — Um sorriso quadrado moldou o rosto do príncipe.
— Seu pedido é uma ordem, Al... Taehyung.
Vê-lo sem jeito por algo tão simples fez Taehyung rir, risadas nada graciosas, por sinal. Conversaram mais um pouco, e Seokjin contou sobre as trivialidades de Nyria. A presença de uma garçonete parada ao lado da mesa, com dois cálices nas mãos, chamou a atenção de ambos.
— Vossa Alteza, perdoe-me por interromper, mas trouxe vinho em cortesia — disse ela, com um sorriso simpático.
— Pois leve de volta, eu não solicitei nada. Pediu algo, Senhor Kim?
— Não, meu Príncipe. — Ai, minha Santinha... pronomes possessivos são um pecado, pensou Taehyung. Foco, homem! — Como ouvistes, não pedimos nada. — Respondeu ele.
— Alteza, é apenas um agrado para Vossa Senhoria — insistiu a garçonete, antes de deixar os cálices e se retirar.
Taehyung sentiu-se intrigado e, para ser honesto, desconfiado. Pegou o cálice e cheirou seu conteúdo. Realmente era vinho. Porém, havia algo a mais — um aroma delicado, que mudava sutilmente conforme ele inspirava. Notas familiares e inexplicavelmente agradáveis o invadiram: um leve perfume de couro novo, a brisa das flores do jardim de sua infância, e o inconfundível cheiro de tinta fresca sobre pergaminho antigo. Era como se o vinho soubesse exatamente o que mais o atraía.
Um arrepio subiu por sua espinha, e uma sensação de estar sendo vigiado tomou conta de seu corpo. Ainda assim, levou o líquido aos lábios, sentindo primeiro o doce das uvas, seguido do amargor do álcool. Seokjin, por sua vez, repetiu seu gesto sem hesitação. Assim que o cálice se aproximou de seus lábios, seus olhos piscaram, surpresos com o aroma inesperado que subiu de leve, quase imperceptível. Não era só vinho. Ele sentiu o cheiro da chuva tocando a terra quente — a mesma que costumava correr descalço quando criança. Um toque de hortelã fresca, como a das mãos de alguém que costumava lhe fazer chás. E algo mais... algo inconfundível. O perfume suave que Taehyung exalava, como um campo florido.
O cálice tremeu levemente em sua mão. Ele disfarçou, levando a bebida à boca, mas seu coração batia mais rápido do que gostaria de admitir. O restante da noite seguiu tranquilo. Seokjin o acompanhou até a porta do quarto, contudo, Taehyung não conseguia entrar e deixálo para trás. Havia algo no âmago, insistente, pedindo que se arriscasse. O calor subia dos seus pés até as pontas das orelhas pontiagudas. Sentia-se transpirar.
— Seu rosto está vermelho como um morango maduro. Sente-se bem? — perguntou Seokjin.
— Oh! — Antes que o príncipe dissesse qualquer coisa, as mãos dele repousaram em suas bochechas. — Estás quente.
— Deve ser o vinho, Senhor Kim. Não costumo beber... — A voz de Taehyung vacilava. O toque era carinhoso, e a distância entre seus corpos, mínima. A respiração de Seokjin batia em seu rosto. — O Senhor também parece com calor.
— A armadura esquenta um pouco. E, por favor... quero que me chame de Seokjin.
Aquele clima todo cheirava a sedução e luxúria. As mãos do príncipe formigavam de vontade de tocá-lo também. E, num ímpeto, ele tomou uma atitude impensada:
— Não gostaria de entrar um pouco, Seokjin?
— Príncipe Taehyung... isso não seria adequado. És comprometido com meu tio.
— Vamos, não sejas retrógrado. Só quero conversar mais.
— Se insistes, meu Príncipe... posso entrar por alguns minutos.
Taehyung deu passagem para que o corpo alto e forte do cavaleiro adentrasse o aposento. O calor parecia triplicar com o ambiente fechado. Seokjin permaneceu parado no centro do quarto. O príncipe passou por ele em direção à cama, arrancou as botas de couro marrom e, ao sentar, percebeu o olhar do outro o acompanhando com atenção. Jogou a capa azul-escuro no chão e desfez os cordões da camisa branca de algodão, revelando parte da clavícula.
— Não queres ver de perto o que tanto aprecias de longe, cavalheiro Kim?
— Vossa Senhoria me atenta demais... isso pode ser perigoso — sua voz grave reverberou pelo quarto, fazendo todos os pelos de Taehyung se eriçarem.
Ele caminhou até o sofá de camurça e bateu levemente o assento ao seu lado. Seokjin sentouse. A tensão se fez presente no ar. Seu joelho encostou-se ao do príncipe, a respiração dele tornou-se mais profunda. Seokjin umedeceu os lábios antes de pronunciar o que seria sua sentença:
— Vossa Alteza, eu não tenho o direito... mas gostaria tanto de beijá-lo agora.
— Então por que não beijas?
Seus lábios tocaram suavemente os do jovem príncipe, num gesto delicado, como se quisessem perguntar antes de avançar. Taehyung passou a mão pelos cabelos sedosos de Seokjin e, sem saber o que fazer, aguardou um sinal. A ponta da língua do cavalheiro tocou seus lábios e, lentamente, foi abrindo caminho.
As línguas se encontraram numa dança tranquila, e algo dentro de Taehyung despertou, ou talvez sempre tivesse estado ali, esperando para aparecer. Ele achava o mais velho lindo. O que estava sentindo era algo bonito. A boca de Seokjin desceu pelo pescoço do príncipe, e suspiros escaparam sem que ele pudesse controlar. Seus lábios cheios reverenciavam a pele dele como se fossem devotos. Taehyung se sentiu explodir de emoções. Ele entrou numa mistura de sensações intensas. Nunca imaginara que fosse possível sentir tantas coisas novas — e tão boas — apenas com um beijo.
A única certeza que tinha…
Era que não iria se afastar de Seokjin tão cedo.
[...]
Em algum lugar no meio da floresta de Zianol
A brisa da noite trazia o aroma de pinho e de umidade no ar. As árvores, altas e silenciosas, pareciam testemunhas de algo que ultrapassava o próprio tempo.

— Está concluído. Os caminhos se cruzam mais uma vez.

A voz era rouca, quase um sussurro, misturada ao som suave das folhas ao vento. Sob a luz fraca da lua, uma figura com capuz apagava um círculo de runas brilhantes com os dedos.

— Que os deuses tenham piedade.

3. Interligados

“Nossas almas sabiam antes do nosso coração que nosso destino era ficarmos juntos.”
Marianna Moreno



Lyra o encarava a cada cinco minutos dentro daquela carruagem, e, sinceramente, aquilo já começava a incomodá-lo. A insistência dela em fitá-lo como se pudesse ler seus pensamentos o deixava inquieto.
— Se quiser algo, trate de dizer logo. Seu olhar sobre mim está me incomodando — disparou ele, cruzando os braços.
Ela pareceu ser pega de surpresa. As mãos se esfregavam uma na outra sobre o colo e o pé esquerdo balançava num movimento nervoso e repetitivo. Engraçado… quando era para repreendê-lo, ela nunca demonstrava tanto constrangimento.
Lyra desviou o olhar para a janela, respirou fundo e, por fim, voltou os olhos para o príncipe.
— Alteza… não quero ser invasiva, mas, como sua dama e amiga íntima… — fez uma pausa desnecessária e dramaticamente teatral — … aconteceu algo entre Vossa Senhoria e o Senhor Kim ontem à noite?
Se Taehyung estivesse bebendo algo naquele momento, certamente teria cuspido tudo. Seu cerne ferveu, a alma pareceu fugir do corpo e, com toda certeza, estava roxo de vergonha. Ele precisava urgentemente encontrar um feitiço que o impedisse de corar daquela maneira. Não combinava nada com sua personalidade… apenas o entregava.
— EU SABIA! — O grito prescindível de Lyra só serviu para deixá-lo ainda mais constrangido. — Meu sentido de fada nunca falha! Toda aquela aura entre vocês dois… minha Santa Lua! Pode me contar tudinho, Taehy!
Ele estava perdido com aquela garota.
Taehyung lembrou-se de como conheceu Lyra, uma memória que sempre lhe arrancava um sorriso, apesar das circunstâncias nada agradáveis.
Em uma de suas aventuras pelas coníferas de Zianol, algo terrível aconteceu. Estava colhendo algumas ervas para estudo quando acabou furando o anelar em um espinho de uma planta desconhecida. No mesmo instante, começou a suar frio; a visão ficou turva, o corpo amoleceu… e a última coisa de que se recordou foi o chão da floresta girando ao seu redor.
Acordou em uma cama macia, com o cheiro de flores silvestres impregnando o ar. Sua cabeça latejava. Ao tocar a testa, sentiu um pano úmido repousado ali.
A porta rangeu ao abrir, e uma jovem entrou. Tinha longas madeixas verde-musgo caindo em ondas suaves até a cintura. Os olhos, da mesma cor, eram como esmeraldas líquidas.
— Graças à Santa Lua, está bem, Alteza! — disse ela, com voz doce, suave e acolhedora. — Estive aflita… o senhor não acordava. Temi o pior.
— Q-Quem é você? — perguntou ele, com dificuldade.
— Oh! Perdoe minha falta de modos! — A jovem se levantou e fez uma reverência graciosa. — Lyra Sweetbloom, ao seu dispor, Alteza.
— Hmmm… — Taehyung olhou ao redor, tentando entender. — Pode me dizer onde estou… e o motivo?
— Está em minha casa. Em uma de minhas expedições, encontrei o senhor desacordado no meio da floresta, há algumas horas. Estava febril, pálido como a neve. Trouxe-o para cá — explicou, aliviada. — Vossa Senhoria se feriu com uma Infecunditas plantarum… popularmente conhecida como Planta da Infertilidade. São muito perigosas… sorte que o encontrei a tempo.
— E… como soube o tipo de planta? — a curiosidade dele o corroía.
— Sou uma fada da floresta — respondeu com um sorriso convencido. — Tenho conhecimento natural sobre plantas e flores. Se fosse um mortal comum se ferisse e demorasse muito para receber auxílio, além da infertilidade… poderia ser levado à morte. Mas como é um ser imortal, o máximo que lhe aconteceria seria a perda da capacidade de gerar descendência.
— Que incrível… nunca me aproximei de uma fada antes. Achei que tivessem asas cintilantes… — comentou ele, rindo fraco.
— Oras, Príncipe Taehyung! A Deusa nos fez assim. Não estuda no castelo? — rebateu com um tom debochado.
— Claro que estudo! Quem pensa que sou, garota?
— A única diferença entre você e eu são os poderes. As fadas têm conexão direta com os espíritos da floresta e com os elementos. Vocês, elfos… bem… precisam de grimórios e conjurações para fazer magia — gabou-se.
— Tudo bem, sabe-tudo… já que salvou minha vida… diga-me como posso recompensá-la.
— Não é preciso, Príncipe Kim. Foi uma honra cuidar de você — disse ela com um sorriso leve… gentil… e, de certa forma, perigoso.
— Como sou eternamente grato por preservar minha futura linhagem… gostaria de tê-la ao meu lado.
— Está me pedindo matrimônio? — arqueou uma sobrancelha.
— Não seja ridícula, fada! O que me interessa, certamente você não carrega! — retrucou ele, revirando os olhos.
— Não imaginava que o herdeiro de Yinsia era um devasso!
— Garota… se eu não estivesse tão fraco… te daria um tapa. Quero tê-la como minha dama de companhia… sua doida!
— Estou lisonjeada, Vossa Graça! Será um imenso prazer servi-lo.
Desde aquele dia, Lyra tornou-se uma presença indispensável na vida do príncipe. Tornaramse confidentes. Sabiam tudo um sobre o outro… e, infelizmente, o rosto corando de Taehyung sempre o entregava.

— Ok, ok... eu conto! Mas tens que se acalmar! — Suspirou, já prevendo o escândalo que viria. — Anda, orelhudo, desembucha! — Ela cruzou os braços, lhe desafiando.
— Como se suas orelhas fossem menores... — Se ajeitou no assento, respirou fundo e começou a narrar os acontecimentos: desde a primeira troca de olhares com Seokjin no Palácio da Lua, passando pela interação na Taverna do Elfo Eterno, até culminar no beijo... em seus aposentos.
Lyra ouvia tudo embasbacada, os olhos arregalados.
— Uau… tudo isso… em apenas alguns dias?! Taehy… nem sei o que dizer. Sempre percebi uma tensão sexual entre vocês, mas… algo que disseste me chamou a atenção.
— Graminha, não me enrole. Sabes que sou curioso.
— Me contaste sobre os cálices de vinho… e que não sabiam quem os enviou — ele confirmou com um aceno atento. — Não passou pela sua cabecinha que poderia ter… algo no meio?
— Na… na verdade, não… — admitiu, coçando a nuca. — Mas… antes de beber, tive uma estranha sensação… como se alguém nos observasse.
— Moleque! — exclamou ela, dando um tapa ardido na cabeça dele. — O que eu faço com você? Seus pais não lhe ensinaram a não aceitar coisas estranhas? E se fosse veneno?! Minha Santa Lua… Eu sei que tens um fogo nesse rabo virgem, mas o que sentiu antes de se atracar ao cavalheiro de Nyria… parece obra de feitiço! E não me olhe assim… como se eu fosse doida!
— Mas você é doida! — Taehyung riu. — Está exagerando… O cheiro e o gosto eram normais.
— Taehy… quantas vezes já ingeriste vinho, me diga.
— Foi a primeira vez… Sabes que, no máximo, roubava umas garrafas de Lágrimas da Deusa¹… mas outras bebidas… nunca.
— Aish! Irresponsável! Só me arruma problemas… Me dê seu dedo. Preciso testar seu sangue.
Lyra retirou uma pequena adaga do cinto e um frasco transparente. Ele sentiu ardência no polegar e viu o líquido vermelho escorrer. Ela fechou os olhos, murmurando em uma língua antiga:
Sanguis hseredis effusus latens se revela².
(O sangue do herdeiro derramado… que o oculto se revele.)
Uma pequena fumaça magenta subiu, seguida por um círculo vermelho que girava em torno dela. Pela expressão de Lyra… coisa boa não era.
— Lyra… o que está acontecendo?
— Sinceramente… eu esperava tudo… menos isso.
— Pare de mistério e conte logo! O que significam a fumaça… e o círculo?!
Ela respirou fundo, fitando-o com seriedade.
— Taehyung… preste bastante atenção nas minhas palavras. O vinho que ingeriu com o Senhor Kim estava alterado. Já ouviu falar na poção Amortentia?
O príncipe franziu o cenho.
— A… Poção do Amor?! Lyli… isso não existe! São só lendas! E mesmo que não fossem… sabes que poções envolvendo sentimentos e livre-arbítrio são proibidas!
— Eu conheço as leis, Alteza… mas isso não impediu alguém de enfeitiçar sua bebida! — bufou, indignada. — E a Amortentia não é uma poção qualquer… ela exala o aroma daquilo que mais desperta o desejo de quem a cheira. Só pelo seu olhar, sei que você sentiu algo estranho… e tenho quase certeza de que o Senhor Kim também.
Taehyung engoliu seco, lembrando-se dos aromas que o vinho trouxera — notas de couro novo, flores do jardim da infância, o perfume amadeirado que conhecia bem… e que agora sabia de quem era.
— E isso nem é o mais surpreendente… — continuou Lyra, apontando para o círculo vermelho. — Este círculo… indica a união de almas. Eu… eu nunca vi almas gêmeas de verdade… só estudei sobre. São extremamente raras.
— Espera… estás a me dizer… que alguém colocou uma poção no meu vinho… e que minha alma gêmea é… o Seokjin?!
— Hummm… já estão tão íntimos que até esqueceu o decoro…
— Foco, mulher!
— Sim, meu querido… você e o cavalheiro bonitão são destinados. E se não confia em mim… uma amostra do sangue dele seria suficiente para confirmar.
— Não precisa… eu acredito… Mas… estou… sem reação… Se somos destinados… por que usarem a Amortentia então?
— Eu não sei… Quem fez isso certamente tem um propósito oculto. Alguém quis acelerar as coisas… e isso é preocupante. Tens que contar ao Senhor Kim.
— Tá doida, garota? Quer que eu diga: “Então… parece que alguém, sabe-se lá de onde, decidiu que somos almas gêmeas e, pra adiantar o serviço, nos enfeitiçou com uma poção do amor… contudo, não podemos ficar juntos porque sou comprometido com o senil do seu tio”? Sem chances, Lyra!
— Deixa de ser debochado, Taehyung.
— Impossível… é como pedir pra eu não ser bonito.
— Não basta ser orelhudo… tem que se achar! — ela revirou os olhos. — Leve isso a sério.
Ele precisa saber… o coitado deve estar desesperado… Além de cobiçar, agora tocou no futuro rei-consorte de Nyria!
— Ontem… o desespero dele era por outra coisa… — sorriu de canto, malicioso.
— Me poupe, Idril!
Eles continuaram discutindo de forma boba durante o restante do caminho. Ainda levariam alguns dias para chegar ao reino de Nyria, e, na opinião dele, essa viagem parecia que nunca ia acabar. Em algum momento teriam que parar no meio da floresta de Zianol e, depois, pegariam uma embarcação para atravessar o Mar das Sereias em direção ao destino, e quem sabe a sua perdição.
Ao cair de mais uma noite, continuar a viagem no breu daquela junção de árvores estava fora de cogitação. Seria perigoso demais vagar por ali, ninguém sabia ao certo que tipos de seres espreitavam na escuridão, por isso, a caravana precisou parar. Os guardas armaram uma tenda para o príncipe Taehyung e para Lyra, acenderam uma fogueira e organizaram as equipes de revezamento para a guarda noturna.
Seokjin, além de Cavalheiro Real de Nyria e Chefe da Guarda, era sobrinho do rei Dorian, o que também o tornava um príncipe, embora nunca tivesse reclamado oficialmente o título. Se, por algum motivo, o monarca não tivesse herdeiros diretos, ele seria o próximo na linha de sucessão. E, mesmo sem obrigação, lá estava espada em punho disposto a proteger Taehyung. Saber disso aquecia o peito do elfo.
As estrelas mal conseguiam atravessar a densa copa das árvores, mas o brilho que escapava parecia suficiente para acalmar a mente do príncipe. Lyra já cochilava ao seu lado, encolhida sob um cobertor, os cabelos verdes espalhados como ervas rasteiras. Decidiu, então, que uma breve caminhada pela clareira não lhe faria mal.
Caminhou devagar, chutando pequenas pedras, até ouvir passos leves atrás de si. Ao virar, encontrou Seokjin. As roupas escuras o camuflavam na noite, mas os olhos… ah, os olhos guardavam o brilho que faltava ao céu.
— Não devia estar sozinho — alertou o cavalheiro, a voz baixa, mas carregada de autoridade.
— Não estou. Agora estou com você — respondeu Taehyung, cruzando os braços numa tentativa pouco convincente de parecer confiante.
O arqueado sutil de uma sobrancelha de Seokjin entregou que ele havia notado o flerte.
— E se eu fosse uma criatura hostil? — questionou, aproximando-se um passo.
— Você não é. Eu reconheceria o cheiro.
Seokjin riu, um riso curto e abafado, que arrepiou o corpo do príncipe.
— Cheiro, é? Método interessante de identificação.
— Funciona. — Deu de ombros. — A propósito… obrigado. Por proteger, montar guarda… enfim.
O cavaleiro inclinou a cabeça, estudando-o com um olhar que parecia atravessar cada camada de defesa.
— Não faço só por dever, Alteza.
A confissão acertou Taehyung como um golpe certeiro, fazendo a respiração vacilar.
— Então… por quê?
— Porque me importo. Mais do que deveria.
Antes que o príncipe encontrasse palavras, Seokjin recuou para a escuridão, deixando-o com o coração descompassado.
Mais tarde, quando a fogueira queimava baixa e quase todos já haviam se recolhido, restaram apenas Taehyung, Lyra e Seokjin. Com um pretexto qualquer, a fada se retirou, deixando o príncipe diante do cavaleiro, cujo olhar era fixo, intenso, quase predatório.
— Me olha como um lobo faminto — murmurou Taehyung, tentando aliviar a tensão.
— Talvez eu queira mesmo — respondeu Seokjin, com um sorriso lento e perigoso. — Torná-lo minha presa… e consumi-lo até os últimos resquícios de sanidade.
O calor subiu pelo corpo do elfo.
— Não tem medo de cobiçar o que não lhe pertence?
— Pode até estar “comprometido” com o meu tio — disse o cavaleiro, os olhos cravados nele —, mas és meu… e sabe disso.
O príncipe se levantou, fingindo frieza.
— Eu não sou de ninguém além de mim mesmo, Cavalheiro Kim.
A tensão pairou no ar como uma tempestade prestes a desabar, e Taehyung precisou recuar antes que cedesse por completo. Retirou-se para a tenda, deixando para trás o calor do olhar de Seokjin.
Lyra, é claro, estava acordada. O brilho de curiosidade nos olhos dela era quase palpável.
— Vocês se beijaram de novo? — disparou, antes mesmo que o príncipe fechasse a entrada da tenda. — Contou a ele sobre o feitiço? Sobre a ligação de almas?
Taehyung revirou os olhos.
— Não para todas as perguntas, graminha. — Jogou a capa num canto.
Ela se jogou de barriga na cama improvisada, batendo os pés no ar.
— Mas e aquele olhar de lobo no cio que ele te lançou? Quero detalhes!
Com um suspiro rendido, ele contou. A aproximação, as palavras perigosas, a sensação de que o cavaleiro era um pecado em forma de homem. Lyra suspirou, teatral, e fez comentários que o deixaram ainda mais corado. Passaram o resto da madrugada entre risos e provocações, até que o céu começou a clarear.
No dia seguinte, desmontaram o acampamento cedo. Taehyung sentia o peso de tudo o que estava acontecendo. Montado, deixou-se acomodar no colo de Lyra, que acariciava seus cabelos em silêncio.
— Tá doendo, graminha… — murmurou.
— Eu imagino… — ela respondeu baixinho. — É difícil ter que se casar com um e estar destinado a outro.
O príncipe riu, mas o som foi trêmulo.
— Eu não quero me casar com aquela múmia barbuda. Não quero entregar minha pureza pra ele. Eu… eu me mato antes disso.
Lyra lhe deu um leve tapa na testa.
— Ninguém vai morrer. Vamos dar um jeito. Temos a magia a nosso favor.
Houve um momento de silêncio antes de Taehyung confessar:
— Mesmo que eu esteja… apaixonado por causa daquela maldita poção, sinto que já o amei muito… antes de tudo isso.
O olhar de Lyra suavizou.
— A ligação de vocês deve ser muito forte… de muitas vidas passadas. — Disse com suavidade, como se confidenciasse um segredo ao vento. — Você pode não acreditar nas minhas próximas palavras… mas vou lhe contar mesmo assim.
O jovem Kim abriu os olhos, encarando o céu acinzentado por entre as árvores.
— Tu és a personificação da nossa Deusa. — Ela continuou, os dedos agora traçando círculos em sua cabeça. — Teus cabelos pálidos, tua bondade, teus poderes, até mesmo o teu nome… tudo remete a ela. Você sabe o significado do seu nome?
Ele deu um sorriso fraco.
— Idril significa “Radiante como a lua”… — sussurrou. — E Taehyung é… “Grande e iluminado”.
— Exato… — Ela sorriu, com aquele brilho místico nos olhos. — Você é o brilho que vai iluminar o caminho dessa nação… como a Deusa sempre fez. E sabia que seus olhos mudam de cor quando você conjura? — Ela riu baixinho. — Magicamente… eles se tornam como prata líquida, como se a própria lua vivesse dentro de você.
Arregalou os olhos, surpreso.
— Eu… não sabia.
A Deusa te protege, meu amigo. Ela tem seus motivos… para tudo o que está acontecendo. Tenha fé.
O príncipe fechou os olhos e abraçou o ventre dela, tentando segurar a segurança que ainda restava.
O mar se estendia diante deles, um campo infinito de ondas prateadas que refletiam a luz fria do amanhecer. Seokjin estava na proa, de costas para a maior parte da tripulação, com o vento bagunçando-lhe os cabelos castanhos. Taehyung hesitou antes de se aproximar, sentindo cada passo pesar mais que o anterior.
Quando parou ao lado do cavaleiro, o som das ondas quase abafou a voz que ouviu.
— Me desculpe, Príncipe Taehyung… — disse Seokjin, baixo, quase como se falasse consigo mesmo. — Me excedi na noite passada. Não sei o que aconteceu comigo.
Taehyung respirou fundo, sentindo o coração acelerar.
— Está tudo bem — respondeu. — Mas… é sobre isso que eu queria falar. Preciso explicar o que realmente houve.
Seokjin virou-se para ele, com os olhos atentos, como se pudesse prever que ouviria algo importante.
— Pode dizer, Alteza. Prometo ouvir… sem julgamentos.
O príncipe desviou o olhar por um instante, buscando coragem.
— Você se lembra da noite em que jantamos na Taverna do Elfo Eterno?
O canto da boca de Seokjin se curvou num sorriso quase perigoso.
— Claro. Seria impossível esquecer aquela noite… moranguinho.
A expressão de Taehyung se fechou de imediato, o calor subindo ao rosto.
— Foco, homem! — retrucou, com um suspiro nervoso. — Não me chame assim.
Seokjin riu, o som baixo e provocador.
— É que você fica lindo quando se irrita… e ainda mais quando cora.
O príncipe suspirou, tentando ignorar a provocação.
— Naquela noite, nos ofereceram vinho. Eu deveria ter desconfiado. Tive a sensação de estar sendo observado, mas mesmo assim… bebi. E você também.
Seokjin estreitou os olhos.
— Continue.
Taehyung umedeceu os lábios antes de dizer:
— Fomos enfeitiçados.
O cavaleiro não respondeu de imediato, como se pesasse cada palavra.
— Enfeitiçados… como?
— Amortentia — revelou o príncipe. — Uma poção de amor. Eu também não acreditei no início, mas Lyra testou meu sangue e confirmou.
Seokjin ficou imóvel, o olhar fixo no rosto dele.
— Então… o que aconteceu entre nós… foi por causa daquela maldita poção?
— Não exatamente. — A hesitação na voz de Taehyung foi notada imediatamente.
— Está escondendo algo. — Seokjin cruzou os braços. — O que mais a senhorita Sweetbloom disse?
O príncipe respirou fundo, sentindo um peso no peito.
— Durante o feitiço de verificação… uma fumaça magenta apareceu, sinal da poção. Mas… junto dela surgiu um círculo vermelho… envolvendo tudo.
Seokjin franziu o cenho.
— E isso significa…?
— Significa que… somos almas gêmeas. — A frase saiu quase num sussurro, mas carregada de verdade.
O cavaleiro ficou em silêncio por longos segundos, os olhos vagando pelo horizonte, como se buscasse respostas nas ondas.
— Tem certeza?
— Absoluta. — A voz de Taehyung falhou levemente. — Só Lyra sabe… e agora você.
Seokjin soltou um riso curto, sem humor.
— Pelo sagrado Sol… — passou as mãos pelos cabelos, num gesto de exasperação. — Eu vim nesta missão apenas para protegê-lo… e agora descubro que o destino nos amarrou.
— E o pior… — completou o príncipe, num tom sombrio. — È que o casamento não pode ser cancelado. Eu não quero me casar com aquele fóssil.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Seokjin, apesar da tensão.
— Sinceramente… também não sei o que fazer. Mas uma coisa é certa — sua voz ganhou firmeza — não vou renunciar a você.
O impacto daquelas palavras atingiu Taehyung como uma onda, e ele não conseguiu evitar que lágrimas silenciosas escapassem.
Seokjin se aproximou, tomou-lhe as mãos e, com a ponta dos dedos, enxugou cada gota de sal que caía pelo rosto do elfo.
— Não chore… minha lua — disse, num tom baixo e quase reverente. — Vamos encontrar uma saída… juntos.
Taehyung prendeu o seu olhar no dele, o peito apertado, mas aquecido por aquela promessa.
O príncipe decidiu, então, se recolher. Pediu que levassem sua refeição até os aposentos, alegando mal-estar, e fechou-se na cabine. Passou horas encarando o vazio, ouvindo o ranger da madeira e sentindo o cheiro salgado do mar invadir cada canto. O balanço constante parecia conversar com a inquietude que carregava no peito, tornando impossível encontrar paz.
Uma batida suave à porta o trouxe de volta à realidade.
— Entre — murmurou, sem erguer a voz.
Lyra surgiu, trazendo consigo o perfume de flores que sempre parecia iluminar o ambiente. Fechou a porta atrás de si e o observou por um instante.
— Meu príncipe… chegamos. — Sua voz soou baixa, mas firme. — Respira fundo.
Taehyung sentiu o corpo travar. As pernas não obedeciam. Por um momento, desejou estar em qualquer outro lugar menos ali.
A fada se aproximou e passou um braço por sua cintura, puxando-o para fora da inércia.
— Se recomponha, homem — disse, num tom que misturava carinho e repreensão. — Não deixe aquele velho acreditar que tem poder sobre você.
Seus olhos encontraram os dele, intensos e convictos.
— Lembre-se de quem é. O herdeiro do trono de Yinsia. Kim Idril Taehyung. O meu melhor amigo debochado e orelhudo. — Um sorriso breve surgiu. — Acaba com ele. Mostre a toda Nyria que o brilho da Lua é mais forte que o do Sol.
Ele fechou os olhos, inspirando profundamente.
— Certo… vamos lá. — E, lado a lado com sua dama de companhia, deixou a cabine para encarar o convés e o que o aguardava no porto.
Quando o príncipe chegou à popa da embarcação, a paisagem dourada se estendia diante dele como um aviso. O sol, já alto, parecia incendiar o horizonte, queimando cada onda com um brilho agressivo. Taehyung lançou um último olhar para trás — para o mar, para o que deixava — e, no silêncio do próprio peito, desejou que parte daquele passado também fosse o seu futuro.
A rampa de desembarque aguardava, e seus passos hesitavam. Foi então que sentiu uma mão firme segurar a sua.
Seokjin.
O toque não precisou de palavras. Era apoio, promessa e desafio, tudo condensado em um gesto silencioso.
A comitiva foi levada em uma carruagem até o Castelo Sollaria. O trajeto, que tantas vezes lhe parecerá longo, dessa vez pareceu encurtado pela ansiedade sufocante que crescia no ar. Cada solavanco das rodas sobre a estrada era como um lembrete de que, em poucos minutos, ele estaria diante do homem que representava o seu maior pesadelo.
Quando o veículo parou diante da escadaria principal, Taehyung sentiu o coração disparar. Lyra, sentada ao lado, pousou uma mão sobre sua coxa num gesto silencioso de apoio. Seus olhos verdes buscaram os dele, transmitindo a força que sabia que ele precisaria. Ronald abriu a porta e ajudou o príncipe a descer.
E lá estava ele.
No topo dos degraus, parado com ares de soberania, o homem que se auto proclamava seu futuro marido. Um sorriso lento e carregado de malícia se espalhou em seus lábios.
Taehyung manteve a postura. Subiu os degraus com passos calculados, controlando cada respiração para não permitir que a raiva ou o nojo lhe dominassem.
Quando parou diante dele, ouviu a voz do homem cortar o ar como lâmina enferrujada.
— Seja bem-vindo ao meu reino… meu futuro marido. — A pausa, intencional, foi seguida por um tom mais baixo e carregado de sugestão. — Estou ansioso pela nossa noite de núpcias.
O estômago do príncipe se revirou. A náusea subiu como um golpe certeiro, mas antes que pudesse responder, sentiu o corpo atrás de si enrijecer. Uma respiração quente e furiosa roçou sua nuca, arrepiando-lhe a pele.
A voz que soou a seguir era grave, baixa, e carregada de ameaça — o tipo de tom que até o mais imprudente dos homens saberia reconhecer como perigoso.
— Sugiro que… reveja suas palavras, titio. Não é assim que se dirige a um príncipe.
Seokjin.
Ali, de pé, ao lado dele, o cavaleiro não apenas lhe oferecia proteção. Era sua muralha, seu escudo e sua coragem disfarçada de carne e osso.
Pela primeira vez desde que aquela viagem havia começado, Taehyung respirou mais fundo.

Glossário
¹ Lágrimas da Deusa é tipo um Champagne.
² Todos os feitiços são feitos em Latim. Colocarei a tradução logo em seguida, não se preocupem em usarem o tradutor.

4. Sob o seu feitiço

“Meu amuleto é meu corpo,
Meu ritual é a minha vida,
Minha oração é minha
consciência.”

O sentimento de nostalgia impregnava aquele quarto, como um perfume antigo que se recusava a desaparecer. O jovem príncipe andava em círculos, os passos apressados deixando marcas invisíveis no tapete macio. Desabafava com sua única plateia: a pequena ave albina que o observava do parapeito da janela. A cada frase incompreensível, a criatura apenas inclinava o pescoço, soltando um pio curto e curioso. Taehyung, é claro, interpretava aquilo como uma resposta afirmativa.
— Como ele ousa… ousa agir assim comigo?! — Bufou, gesticulando com as mãos. — Com aquela frase chula, de quinta categoria! — Engrossou a voz, debochando: — "Meu reino". Ah, que esse reino exploda… junto com aquele decrépito, senil, gagá, múmia paralítica, alma penada… — E lá foi ele, disparando uma sequência de insultos cada vez mais criativos, como se cada um fosse um soco imaginário.
Foi interrompido por um toque suave na porta. Lyra entrou sem cerimônia, se jogando de bruços na cama de dossel, como se fosse dona do lugar.
— Estava conversando ou conjurando um ritual de assassinato? — perguntou com um sorriso zombeteiro. — Com o tanto de apelido carinhoso que seu futuro marido já tem… começo a sentir até dó dele.
— Faça-me um favor e cale essa boca, graminha. Não estou para brincadeiras. — Taehyung respondeu sem sequer olhar para ela, ainda bufando de indignação.
— Não está mais aqui quem falou. — Ela ergueu as mãos em rendição, mas não resistiu ao sarcasmo. — Tá bravinho só porque o velho indiretamente disse que está ansioso pra te fu…
— Não termina essa frase! — Ele girou nos calcanhares, apontando um dedo ameaçador. — Só de imaginar… me dá ânsia.
Lyra riu, divertindo-se com a fúria do amigo.
— E o que pretende fazer a respeito, Alteza?
Taehyung parou no meio do quarto. Seus olhos ganharam um brilho malicioso, e o sorriso que surgiu em seus lábios foi tudo… menos inocente.
— Vou me tornar… o pior pesadelo daquele caduco. — Fez uma pausa dramática, como um ator ensaiando seu monólogo de vilão. — Ele vai se arrepender… de cada segundo… dessa maldita aliança.
Lyra soltou uma gargalhada, rolando na cama.
— É isso que eu gosto de ouvir! Bora tocar o terror, Príncipe da Lua.
E assim, naquela noite, nascia oficialmente a primeira de muitas ideias maquiavélicas que Taehyung teria para transformar o palácio de Nyria em um verdadeiro campo de batalha psicológico.
[...]
A grande mesa estava posta, esbanjando luxo e ostentação. Um verdadeiro banquete de realeza, quase um insulto em forma de exagero gastronômico. Havia mais tipos de carnes, frutas, pães e doces do que seria possível comer em uma semana.
O casal de amigos desceu a longa escadaria rindo entre si, como se o mundo lá fora não os afetasse. A beleza única e extraordinária do povo Yinsiriano chamou a atenção de todos os empregados. Eles interromperam seus afazeres apenas para admirá-los, como se presenciasse duas criaturas míticas passeando em meio aos mortais.
Lyra, com seus trejeitos meigos e expressão sempre suave, exalava o cheiro de um jardim florido no auge da primavera. Já o herdeiro de Yinsia… era como uma rosa vermelha. Bonita, perfumada, símbolo de amor e paixão… mas com espinhos afiados. E ele sabia muito bem como usá-los.
Taehyung escolheu o lugar mais distante que conseguiu, com Lyra ao seu lado. Mal havia tocado o talher quando um pigarrear alto demais cortou o salão.
— Por que está tão longe, Príncipe Taehyung? — A voz de Dorian soou arrastada, carregada de malícia. — Eu não mordo… a menos que você queira.
O talher voltou devagar para o prato. Taehyung respirou fundo, virou-se para Lyra e sussurrou entre dentes:
— Eu vou matar esse velho…
Depois, endireitou a postura e sorriu falsamente.
— O senhor deseja que eu me sente próximo a ti?
— Claro, venha logo! — o rei respondeu com um sorriso nojento. — Como posso admirar sua beleza estando tão longe?
Taehyung sabia bem que aquela "beleza" que o rei se referia… não tinha nada a ver com seu rosto.
Ainda assim, ergueu-se com graça, desfilando até o lugar à direita do monarca, como uma oferenda sendo entregue ao sacrifício.
— Esse é meu filho, Jimin. Lembra dele? — Dorian disse, com um tom forçadamente casual.
— Evidentemente. — Taehyung se virou com um sorriso educado. — Olá, Príncipe Jimin.
Desejo que possamos ser… amigos.
Quem não o conhecia talvez interpretasse como simpatia genuína, mas Lyra e o próprio Jimin reconheceram a ironia escorrendo pelas entrelinhas.
— Nem em seus mais profundos sonhos — Jimin disparou com frieza, sem sequer olhar para ele.
O olhar de Dorian escureceu.
— Park Augustus Jimin! Tenha mais respeito. Além de príncipe, Taehyung será meu consorte.
— Me poupe! — Jimin levantou-se abruptamente, atirando o guardanapo de tecido sobre a mesa. — Faz apenas alguns meses que minha mãe morreu e você já quer colocar outro no lugar dela? Eu não tenho obrigação nenhuma de respeitar esse tipo de gente.
A sala silenciou por um segundo. Depois, só se ouviu o grito de Dorian:
— JIMIN! VOLTE AQUI AGORA! JIMIN!
Mas o rapaz já caminhava decidido para longe, ignorando o pai como quem ignora uma pedra no caminho.
O peso daquele momento ficou suspenso no ar. Dorian respirou fundo, tentando recuperar a postura.
— Me perdoe pelos péssimos modos do meu filho… — disse por fim, com um sorriso forçado. — Desde que a mãe faleceu, ele vem agindo assim.
Taehyung pousou os talheres, com um olhar sereno que escondia o furacão interno.
— Deixe-o — respondeu com suavidade ensaiada. — Sinto muito pela perda de vocês… deve ter sido difícil. Não me imagino sem meus pais.
— Tem razão… — Dorian respondeu, distraído, com o olhar ainda direcionado ao corredor por onde o filho sumira.
O restante do jantar seguiu em silêncio tenso. Porém, Taehyung sentia o olhar constante de
Dorian queimando sobre si. Não era o tipo de olhar que Seokjin lhe lançava… era algo sujo, possessivo… e nojento.
Perdendo o apetite, o príncipe largou o garfo de vez.
— Com licença, não estou me sentindo bem.
— Vá descansar — Dorian respondeu com falsa preocupação. — O clima aqui é muito diferente do de Yinsia. Quero que esteja bem… para provar seu traje mais tarde.
Taehyung parou.
— Meu traje? Para qual evento, rei Dorian?
O sorriso dele se abriu.
— Não se faça de tolo, meu jovem. O seu traje de casamento já está quase pronto. O alfaiate só precisa acertar as medidas.
Taehyung engoliu em seco.
— Mas… eu não escolhi nada referente ao casamento ainda. Como minha roupa já pode estar pronta?
Dorian se recostou na cadeira, com a postura de alguém que está prestes a agir.
— Preste bem atenção, príncipe Taehyung. Esse reino… é meu. Tu és o meu noivo. É o meu casamento. Então quem decide… sou eu. Você só precisa cumprir o seu papel de consorte: ficar sempre lindo para mim, ser submisso, me satisfazer… e gerar meus herdeiros. Estamos de acordo?
As unhas de Taehyung fincaram-se na própria palma até quase romper a pele. Os olhos… por pouco não mudaram de cor. Lyra percebeu e segurou o braço dele com urgência.
Respire.
Controle-se.
Jogo de xadrez.
— Claro, Alteza… — As palavras saíram com um amargor indescritível. — Com licença. Vou para os meus aposentos. Me acompanha, senhorita Sweetbloom?
Lyra nem hesitou.
Assim que a porta do quarto se fechou, o castelo inteiro pareceu estremecer com o som da madeira sendo brutalmente arremessada. A coruja, assustada, quase caiu do poleiro.
— Cacete de velho doido! — Taehyung explodiu, andando de um lado para o outro. — Como assim… eu nem posso decidir a minha roupa?! Tenho certeza que ele já enviou os convites. Além de ser obrigado a me casar, agora tenho que ouvir essas barbaridades…
— Respira, Taehy. — Lyra tentava segurar o riso, apesar da situação. — Eu sei que você vai dar um jeito. Mas precisa tomar mais cuidado. Quase deixou seus olhos prata… já estava vendo a cabeça do velho rolando em cima da mesa. Não pode invocar sua espada assim… deixe ele continuar achando que você é só um elfozinho frágil. Essa é sua maior arma. Você é astuto.
Ele parou por um instante, os pulmões tentando encontrar ar.
— Eu sei… eu sei… mas a minha mão coçou para invocar a Margareth… faz tanto tempo que não treino.
— E você vai treinar. Quando voltarmos pra casa… com o anel de viúvo no dedo, se for o caso. — Ela sorriu maliciosa.
Taehyung finalmente sorriu também, um sorriso maquiavélico e perigoso.
— Quer organizar sozinho essa merda de casamento? Que organize… — Seus olhos brilharam de um jeito nada inocente. — Tenho o primeiro passo do meu plano… e preciso da sua ajuda. Vamos precisar de alguns ingredientes… e de um pouco de criatividade.
E assim começou. O rei ainda não sabia, mas acabara de abrir as portas do inferno.
[...]
Os dias transcorreram sem mais palavras trocadas entre o monarca e o príncipe, o que era um alívio para Taehyung. A movimentação no Castelo Sollaria estava intensa: flores, tecidos, prataria e cristais por todos os lados. Os tons dourados sobressaíam em meio ao caos que tomava conta do salão principal. O futuro consorte, no entanto, não poderia se importar menos. Passou pela cozinha, pegou uma maçã verde — já que não havia tomado o desjejum — e seguiu em direção ao jardim.
Mesmo com a pressa e o medo de serem punidos caso algo saísse do lugar, os servos paravam para cochichar sobre o novo membro da família real de Nyria.
— Como um jovem tão bonito pode estar se casando com alguém tão desprezível quanto o rei Dorian?
— Sinceramente, eu não sei... Mas é melhor ficarmos quietas. Se essa conversa chegar aos ouvidos do tirano, vamos parar na forca.
O temor era palpável, estampado nos olhos das duas criadas que logo voltaram às suas tarefas. Não era segredo para ninguém que o rei não era amado, mas todos ali gostavam de suas cabeças coladas ao pescoço. Onde há medo, não há respeito.
Os curiosos lumes, de um azul semelhante ao lápis-lazúli, vasculharam o extenso jardim em busca de algo mais interessante do que a decoração brega de seu próprio casamento. Só perdia para o terno cafona e horroroso que Dorian havia escolhido. A vontade de Taehyung era rasgar o tecido extravagante em mil pedaços. Parecia uma banana gigante.
Seguiu caminhando por uma trilha de cascalhos, afastando-se cada vez mais. Logo, o som de aço se chocando chamou sua atenção. Espadas. A estrutura de pedra à frente, com um grande portão de madeira, confirmou sua suspeita: uma arena de treinamento.
Ao entrar, o coração bateu mais forte e o sangue ferveu nas veias. As arquibancadas de pedra cercavam todo o espaço, mas foi o imenso camarote acima que capturou sua atenção. Esgueirando-se pela escada lateral, observou os detalhes do ambiente: um trono com estofado vermelho bem ao centro, tochas nas paredes e uma tapeçaria negra e dourada com o brasão do reino estendida na parede ao fundo. No lado esquerdo da arena, repousavam as armas: espadas, lanças, arcos e flechas.
A coceira na palma da mão se tornou insuportável. Sem conseguir conter a vontade, Taehyung desceu aos pulinhos os degraus, aproximando-se do centro onde alguns soldados treinavam. No instante em que o notaram, todas as atenções se voltaram para ele.
— A que devemos sua ilustre visita, principezinho? — O tom de escárnio era inconfundível. Taehyung reconhecia esse tipo de voz e adorava ver quando o sorriso de zombaria sumia ao perceberem que ele era muito mais do que os olhos podiam ver.
— Só estou conhecendo o lugar... — respondeu, olhando para as unhas com desdém.
— Esse não é lugar pra donzelas... digo, rapazes. — As risadas ecoaram entre os soldados, atiçando a fera que dormia dentro do Kim.
— Hum... não tenho certeza disso. Afinal... você está aqui.
O rosto do homem, parrudo, se contorceu. Estava claro que não deixaria barato ser motivo de chacota diante dos companheiros.
— Vossa Graça tem uma boca muito grande. Deveria usá-la para outras coisas... e não pra sair falando tolices.
— Quem está sendo tolo é você. E para provar... te desafio a um duelo de espadas.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Os soldados congelaram no lugar, o raciocínio de cada um tentando processar o que acabara de acontecer. Um a um, todos os olhares se voltaram para o homem de armadura, esperando sua resposta.
— Não quero machucá-lo e acabar perdendo a cabeça por isso.
— Eu insisto. Pegue sua melhor espada.
Taehyung caminhou até o centro da arena, o olhar provocador. Ao longe, sentiu o par de olhos castanhos que o fitavam com atenção. Sorriu graciosamente ao perceber a tentativa de intervir, mas um sutil manear de cabeça foi suficiente para impedir qualquer aproximação.
— Vejo que não tem espada e mesmo assim teve a ousadia de propor um desafio. Serei benevolente e deixarei que escolha uma.
— Não será necessário, usarei Margareth.
Assim que as palavras saíram de seus lábios, os olhos antes azuis tornaram-se prata. Um sussurro quase inaudível escapou de sua boca. O vento tomou a arena e, em sua destra, surgiu uma linda espada. Prata e azul como seus próprios olhos. O cabo ornado com rosas e espinhos que desciam até a lâmina. Um espetáculo.
O espanto no rosto de todos foi hilário. Quem poderia imaginar que o elfo trajado com uma camisa branca de babados e calça preta justa, que moldava seu corpo com perfeição, pudesse invocar com um sussurro uma arma tão gloriosa?
Ninguém.
O homem investiu com lentidão, subestimando o adversário. Taehyung manteve-se imóvel, apenas segurando o cabo da espada, analisando os movimentos com calma. Girou no sentido horário, os pés calçados em longas botas negras mal fazendo barulho no chão de pedra. Pela visão periférica, percebeu o ataque furtivo vindo pela lateral — um golpe de cima para baixo.
A lâmina rasgou o tecido da manga bufante de Taehyung. O oponente já se vangloriava da suposta vitória, mas não contava com o que veio a seguir. O Príncipe desviou com um movimento tão rápido e gracioso que confundiu os olhos treinados dos soldados. Aproveitando o impulso, desferiu um ataque vertical, cortando o adversário do ombro ao quadril.
O sangue jorrou.
O duelo, breve como um suspiro, chegou ao fim. Para Taehyung, lutar era como dançar. Ambos executados com maestria, com leveza e precisão.
Os soldados estavam estupefatos. Observavam o homem, quase duas vezes maior que o jovem elfo, ajoelhado no chão duro, pressionando a ferida aberta. Por não se tratar de um duelo oficial, os combatentes estavam sem armaduras — e o homem, ao subestimar o adversário, não se preocupou em se proteger.
Tremendamente enganado.
Margareth desapareceu em um sopro de luz. Taehyung estendeu a mão ao oponente caído. Os olhos negros do homem subiram devagar pelos dedos pálidos, passando pelo pulso magro, até o sorriso retangular e, por fim, chegando ao mar azul que o fitava com naturalidade.
Ali, ele entendeu: o verdadeiro tolo era ele.
— Eu lhe devo desculpas, Alteza usei palavras rudes e o julguei pela aparência. — A curta reverência veio acompanhada de um grunhido de dor.
— Não é necessário. — Taehyung sorriu, um brilho malicioso nos olhos. — Eu adoro quando me subestimam. Eu que peço desculpas... não era minha intenção feri-lo assim. Ficará bem, senhor...?
— Milo Grannus, ao seu dispor. E, por favor... não me chame de senhor. Devo ser apenas alguns anos mais velho que você.
Seokjin, que até então apenas observava, finalmente se aproximou. As mãos cruzadas nas costas, sua típica postura de coronel. A simples presença do mais velho fez Milo bater continência, mesmo ferido.
— Coronel Kim Seokjin.
— Capitão Milo Grannus... Vejo que não está no seu melhor estado. E quem realizou tal proeza foi nosso querido convidado aqui — disse, voltando o olhar para Taehyung. — Sua Alteza tem habilidades impressionantes com a espada... e, se me permite dizer, uma arma belíssima. Só não compreendi como ela veio parar em suas mãos.
— Segredo, meu querido cavaleiro. — Taehyung piscou com charme e seguiu em direção aos portões. — Melhoras, Capitão Milo... Foi um prazer. Espero que possamos duelar de verdade da próxima vez.
Seokjin soltou uma risada baixa, observando o jovem desaparecer pela saída da arena. E pela primeira vez, o pensamento surgiu claro em sua mente:
Kim Idril Taehyung é, de fato, uma caixinha de surpresas.
[...]
Sentia os cascalhos por baixo das longas botas de couro enquanto assobiava uma breve canção. O platinado percebia a presença do coronel e, com um sorriso arteiro, deixou que a expressão surgisse nos doces lábios — embora não tão doces quanto os fartos lábios do homem atrás de si. Esperou os passos se tornarem cadenciados e, com o mesmo sorriso, direcionou o olhar ao cavaleiro.
— Irá me acompanhar, Seokjin?
— Se me permite, gostaria de conversar sem ter que dar muitas explicações... boatos infundados surgem com muita facilidade.
— Imagino que sim... então, por favor, vamos.
— Como tem passado? Já está familiarizado com o clima?
— Apavorado e ansioso, é assim que passo meus dias. Quanto ao clima... eu detesto. Aqui é quente demais. Faz jus ao seu deus.
— Sinto muito por isso... Está assim por causa do casamento?
— Por causa desse maldito matrimônio. — Bufou, revirando os olhos. — Eu não suporto nem olhar para a face dele... imagina então passar uma vida ao lado daquele crápula. — Suspirou fundo, antes de completar: — Mas se ele pensa que vou cumprir com o que me disse dias atrás, está perdendo o tempo dele.
Seokjin parou no meio da trilha, o olhar estreito.
— Taehyung... o que Dorian te disse? — O tom de voz era grave, quase um aviso. Conhecia bem demais a índole do Monarca, e ela nunca fora boa. — E não ouse me enrolar dessa vez.
— Sandices de um velho louco — respondeu, cruzando os braços. — Ele deixou claro que o casamento é dele, então eu não tenho voz. Disse que está tudo organizado, que só preciso aceitar as ordens dele... ser fiel, submisso... satisfazê-lo... e gerar herdeiros. — A careta de nojo foi inevitável. — Me dá vontade de vomitar toda vez que lembro que fui obrigado a ouvir essas coisas... Coitada da falecida Rainha... que a Deusa a tenha.
Seokjin fez um esforço tremendo para não cometer um crime de ódio ali mesmo, contra o próprio familiar. A mandíbula travada, os punhos fechados e a respiração acelerada deixaram claro o quanto lutava contra os próprios impulsos. Taehyung percebeu. Parou onde estava e o fitou, diretamente, sem desviar os olhos.
— Ele não vai tocar em um fio do seu cabelo, minha Lua — disse, a voz baixa e carregada de promessa. — Nem que, pra isso, eu tenha que virar Nyria de cabeça pra baixo. Que eu seja destituído do meu cargo... pro inferno se ele é sangue do meu sangue.
— Olha... eu adoro quando você demonstra seus sentimentos por mim... porque isso só reforça que o que sentimos vai muito além daquela maldita poção. — Taehyung sorriu, aquele sorriso que desmontava qualquer um. — Mas não se preocupe... antes da mão dele chegar em mim, já terei a cortado fora. Não me subestime, meu amado cavaleiro.
Kim Cornelius Seokjin... aquele nome ecoou com um peso diferente dentro de si. Um homem que amava... e que era capaz de ir até o fim do mundo por ele.
— Eu confio em ti... — disse o coronel, com um sorriso melancólico. — Mas me tira a razão saber que ele te trata assim. Peço que se cuide... e não hesite em me chamar, se precisar. — Se aproximou, diminuindo ainda mais a distância entre os dois. — Preciso ir agora... mas espero lhe encontrar mais vezes... — Curvou-se levemente, sussurrando como um segredo proibido: — Sinto saudade dos vossos lábios, Alteza.
E, da mesma forma que veio... ele se foi. Deixando o coração do garoto aquecido e fortalecido para enfrentar qualquer ameaça que viesse.
[...]
O dia tão temido pelo belíssimo príncipe havia chegado. E, para quem tanto detestou a ideia de estar casado, Taehyung estava reluzente naquela manhã.
Tomou um belo banho com muitas ervas e essências, desceu para o desjejum e fez a última prova do terno. A cerimônia aconteceria na parte da tarde e, à noite, um grande baile marcaria a união dos reinos. O único momento que fez o sorriso do Kim vacilar foi quando soube, por meio de sua querida amiga, que seus pais não estariam ali. A viagem era longa, e saber que um dos seus pais estava enfermo, lhe feria o coração, só queria estar com eles.
Dada a hora de se arrumar, várias criadas estavam no quarto do futuro Consorte. Um outro banho foi preparado, e, dessa vez, Lyra o auxiliou, adicionando outras ervas que tirou de sua bolsinha. Foram feitas duas trancinhas na lateral do cabelo, enfeitadas com pequenas argolinhas de ouro, deixando o restante solto em ondas suaves. Já trajado — e novamente odiando aquele amontoado de tecido amarelo — seguiu com sua dama até a capela real.
O lugar estava lotado. Todos os convidados do Monarca de Nyria ocupavam os bancos, aguardando o início da cerimônia. No altar, Dorian o esperava com ar de dono de tudo. Lírios. Por todos os lados. Enfeitavam cada canto da capela. Taehyung achou um absurdo, quase uma piada de mau gosto. Lírios simbolizavam pureza, atração, alegria e renovação de um amor... Nenhum desses sentimentos estava presente naquele dia.
Caminhando lentamente ao som de violinos, parecia mais um condenado rumo ao corredor da morte. Mas, como sempre, estampava um enorme sorriso. Não por felicidade, mas porque já arquitetava o que aprontaria mais tarde.
Ao chegar ao altar, Dorian segurou sua destra enluvada e, com um gesto forçado de ternura, depositou um beijo sobre ela. Taehyung precisou reunir toda a sua força de atuação para não fazer uma careta ainda mais visível.
— Boa tarde a todos! — A voz do padre ecoou, carregada de formalidade e hipocrisia. — Estamos aqui hoje para celebrar as melhores coisas da vida: a confiança, a esperança, o companheirismo e o amor entre este casal.
Taehyung quase riu.
— Vocês foram convidados para compartilhar este momento com o príncipe de Yinsia e com o nosso rei Dorian, porque são as pessoas mais importantes para eles. O respeito, a compreensão e o carinho que sustentam o relacionamento deles têm suas raízes no amor que todos vocês deram a este jovem casal.
“Que amor?, pensou, contendo uma gargalhada.
— Vocês são parte insubstituível do seu ontem, do seu hoje e de todos os seus amanhãs. Eles escolheram um ao outro como sua família, e hoje estão celebrando o amor que já começou e que vai continuar crescendo ao longo dos anos. Pois o casamento é a união, uma caminhada rumo a um futuro, que envolve abrir mão do que somos, separados em prol de tudo o que podemos vir a ser, juntos.
Balela, Taehyung pensou, respirando fundo para não revirar os olhos.
— Rei Park Augustus Dorian, aceita Kim Idril Taehyung como seu legítimo esposo, para amar, respeitar, cuidar, na saúde e na doença, até que a morte os separe?
— Aceito.
Sem surpresa.
— Príncipe Kim Idril Taehyung, aceita o rei Park Augustus Dorian como seu legítimo esposo, para amar, respeitar, cuidar, na saúde e na doença, até que a morte os separe?
O silêncio percorreu a capela por alguns segundos. O atual príncipe hesitou. Olhou para trás... e lá estava ele.
Na porta... seu amado.
O peito de Taehyung doeu, como se o ar faltasse. Sentiu a pressão do aperto da mão de Dorian em sua, chamando-o de volta à realidade cruel. Virou-se novamente para o padre.
— Aceito. — E, com a voz embargada, uma lágrima solitária e dolorosa desceu por sua face angelical, escorrendo até sumir nos bonitos lábios.
— Com a graça do deus Sol, eu os declaro casados. O rei pode beijar seu esposo.
Com a deixa, Dorian se inclinou, pronto para tocar os lábios do príncipe. Mas antes que o contato acontecesse, Taehyung simplesmente saiu andando.
Deixou todos abismados com a atitude. O salão inteiro prendeu a respiração.
Lyra, em choque apenas por um segundo, correu para alcançar o amigo. Já Jimin... Jimin não conseguiu conter a risada. Alta, debochada, como quem acabava de encontrar um motivo pra gostar de alguém.
Talvez... ele e Taehyung pudessem ser amigos, afinal.
[...]
O baile estava agitado. Os burburinhos que corriam entre os convidados eram todos sobre o beijo que não aconteceu. Dorian estava furioso, é claro, procurando o Kim por todos os cantos do salão. Contudo, sabia muito bem que não podia fazer uma cena ali. A coroação seria rápida — e, para o rei, absolutamente desnecessária. Mas contrariar o Conselho e a Igreja naquele momento não seria uma jogada inteligente.
— Peço silêncio a todos! — A voz do padre ecoou forte, fazendo os presentes se calarem. — Vamos dar início à coroação do nosso consorte. Aproxime-se, meu jovem.
A coroa de ouro, cravejada com safiras e pequenos diamantes, foi colocada na cabeça de Taehyung. Na mão direita, o cetro. Na esquerda, o globo. O peso simbólico do poder.
— Você promete e jura solenemente governar e proteger o povo de Nyria, de acordo com as leis aprovadas pelo Conselho, e com os costumes estabelecidos pelos mesmos? Promete, através desse poder, exigir que a justiça seja cumprida em todos os julgamentos?
— Eu solenemente prometo que assim será. — Virado para o público, o antigo príncipe sustentava com firmeza os bens sagrados.
— E é coroado neste lugar... — o padre finalizou com a entonação cerimonial. — Eu apresento o rei consorte Park Idril Taehyung de Nyria!
— Rei consorte Park Idril Taehyung de Nyria! — O povo repetiu em uníssono, e uma salva de palmas encheu o salão.
O novo rei entregou os bens sagrados ao padre e, como se nada daquilo lhe pesasse, seguiu em direção à amiga. Recebia parabéns de todos os lados, mas só uma pessoa realmente importava em sua cabeça.
A música alta, risadas e conversas enchiam o ambiente, iluminado por centenas de candelabros e lustres. Casais dançavam e se divertiam, alheios à tensão invisível que pairava no ar. Ninguém parecia se importar com o paradeiro do rei Dorian.
Aproveitando o momento, o novo Park inclinou-se discretamente para Lyra:
— Conseguiu o que lhe pedi?
— Claro. — Ela sorriu de lado, com aquele brilho maroto nos olhos. — Não duvide da minha capacidade... mas não garanto que vá funcionar.
— Vai sim... Eu consigo. — Taehyung respirou fundo e completou com um sorriso travesso: — Agora, vamos dançar... antes que aquele porco apareça.
Entre muitas risadas e diversas voltas pela pista, os olhos de Lyra de repente se fixaram por sobre o ombro do amigo. Ela sorriu, de um jeito cúmplice.
Sem entender, Taehyung se virou... e encontrou o homem da sua vida.
— Me concede essa dança, Vossa Alteza? — Seokjin se aproximou com uma reverência impecável, estendendo a destra com elegância. Quando seus dedos gelados tocaram os do novo rei consorte, um arrepio percorreu-lhe a espinha.
Uma mão de Taehyung foi para o ombro largo do Coronel; a outra uniu-se à dele. Seokjin, com naturalidade, pousou a mão firme na cintura estreita do elfo.
Os passos da valsa começaram, suaves e ritmados, como se tivessem ensaiado aquela dança a vida toda. O salão parecia ter parado ao redor deles.
— Estás muito bonito... — sussurrou Seokjin, com um sorriso discreto. — Mas sinto que esses tons não combinam contigo.
— Tens razão... — Taehyung respondeu no mesmo tom, os olhos semicerrados, fixos no rosto amado. — Prefiro tons frios... Afinal, sou filho da Lua, não do Sol.
As testas quase se tocaram. Os movimentos estavam tão sincronizados, tão íntimos, que chamaram atenção demais. Era hora de se afastarem. Com outra reverência impecável, Seokjin se despediu, deixando o platinado sozinho no meio do salão. Do canto, Jimin observava. Aquilo... definitivamente parecia estranho. Havia algo acontecendo e ele sabia.
Lyra, sempre atenta, se aproximou com um leve aceno.
— Está na hora.
Sem dizer uma palavra, Taehyung assentiu e, discretamente, subiu para seus aposentos.
Quando Dorian perguntou por ele, foi informado apenas que o consorte o aguardava nos aposentos reais.
E o jogo... estava apenas começando.
[...]
O quarto estava parcialmente às escuras. Apenas algumas velas espalhadas pelas extremidades iluminavam com uma luz trêmula as paredes de pedra, criando formas distorcidas nas sombras. Um perfume adocicado e denso pairava no ar, vindo de incensos cuidadosamente escolhidos e preparados por Lyra. O cheiro era inebriante, feito para confundir os sentidos e manipular a mente.
Quando Dorian entrou, cambaleante e com os olhos semicerrados, parecia mais bêbado de poder do que de vinho. Cada passo que dava era pesado, mas determinado. Não havia sequer a mínima desconfiança de que algo estava fora do esperado.
— Onde está o meu consorte? — resmungou, a voz arrastada, os pensamentos confusos entre desejo, frustração e ego ferido.
No centro do quarto, a cama de dossel o aguardava com as cortinas semi abertas. As velas ao redor tremeluziam, e o aroma no ar parecia mais forte a cada instante. Dorian retirou as roupas com pressa, deixando peças espalhadas pelo chão enquanto sua mente se nublou, mergulhando em imagens criadas pelo feitiço.
No canto mais escuro do cômodo, escondido atrás de um biombo com estampas florais, Taehyung observava em silêncio. O coração batia forte, não por medo, mas por uma mistura de ansiedade e repulsa.
Lyra havia preparado tudo com precisão: a combinação de ervas, o encantamento sussurrado e o ritual de ilusão projetado para enredar os pensamentos do rei. Agora, Dorian caminhava em direção à cama, onde apenas lençóis frios e um travesseiro cuidadosamente posicionado o esperavam. Mas, para ele, seria como se visse e tocasse o que sua mente mais desejava.
— Tão obediente… — murmurou o rei, já deitado, afundado na alucinação criada.
Os gemidos que soltava eram apenas ecos de sua própria loucura, como um homem que luta contra fantasmas e desejos que não têm resposta. Ele se movia, delirante, chamando o nome de Taehyung como se a noite realmente estivesse acontecendo do jeito que imaginava.
Do outro lado do biombo, o verdadeiro consorte apenas suspirou, cansado de ouvir aquela cena ridícula e grotesca. Vestia seu robe de seda preta, os cabelos soltos, a pele ainda perfumada pelas ervas da proteção lunar. Caminhou até o divã, serviu-se de uma taça de vinho e ficou ali, olhando a lua pela grande janela aberta, sentindo a brisa noturna tocar seu rosto.
— Quais serão as loucuras que essa múmia está imaginando pra berrar desse jeito? Parece um bicho no cio… — sussurrou com desdém, tomando mais um gole. — Pelo menos... minha pureza está salva. Que a Deusa me proteja para que eu só me entregue ao homem que amo de verdade.
Ergueu a taça em direção à lua, como se brindasse com a própria divindade. Brownie, a ave albino, piou baixinho dentro da gaiola, como se entendesse o alívio do dono.
Na cama, o rei continuava imerso no feitiço, cego a tudo que era real.
Taehyung sorriu com uma mistura de alívio e vitória.
— Um a zero pra mim...

5. No calor dos seus braços

“E sei que passei todas as vidas, antes desta, procurando você.
Não alguém como você, mas você.
Porque a sua alma e a minha têm de estar
sempre juntas.”
Nicholas Sparks


Descendo os imensos degraus de mármore polido com leveza e elegância, vinha o mais novo membro da família Park. Taehyung estava radiante após uma noite de sono revigorante. Seus cabelos soltos dançavam ao vento, e o sorriso sereno parecia ter se fixado em seu rosto como um reflexo involuntário da própria satisfação.
Ao se aproximar da longa mesa de café da manhã, cumprimentou todos com a habitual cortesia antes de se sentar ao lado do rei, que ocupava a cabeceira com o mesmo semblante vitorioso de quem acabara de vencer uma guerra que durara anos. Havia algo de arrogante e triunfante no modo como ele segurava a xícara, como se cada pequeno gesto afirmasse sua recente conquista.
O desjejum foi servido, e, enquanto o elfo de cabelos platinados tomava um gole de suco, foi subitamente interrompido pelo tom zombeteiro do marido.
— Vejo que está de bom humor, meu consorte.
— Tive uma noite maravilhosa, Majestade. — respondeu Taehyung, ainda sorrindo, mas com uma centelha irônica no olhar.
— Você não foi o único. Espero que continue me agradando assim. — O comentário veio acompanhado de um sorriso malicioso e de um olhar insinuante, que fez o mais jovem conter o impulso de revirar os olhos. Em vez disso, desviou o olhar para sua amiga, que se esforçava para não rir, o que apenas piorava sua própria contenção.
Taehyung era astuto como uma velha raposa e sorrateiro como uma serpente em silêncio. O rei, por sua vez, era um tolo encantado pela beleza traiçoeira daquele com quem se casara. Mal sabia ele que aquele encantamento seria o prenúncio do seu declínio.
A tensão no ar foi cortada abruptamente pela voz grave do primogênito da família Park, que até então permanecia em silêncio. Entediado e visivelmente incomodado com a encenação do casal, largou os talheres e empurrou o prato ainda cheio.
— Vocês são nojentos. Perdi até o apetite.
O comentário ácido caiu como uma pedra no salão, mas não foi suficiente para interromper o bom humor de Taehyung, tampouco abalou o rei, que já estava acostumado com a resistência do filho desde que anunciara o novo casamento.
Ignorando completamente a reação do caçula, Dorian continuou a se alimentar com a tranquilidade de quem acredita ter tudo sob controle. O olhar de superioridade no rosto denunciava sua satisfação ao imaginar que havia finalmente domado o elfo rebelde com as lições da noite anterior. Mal sabia ele que não passava de uma peça manipulável no tabuleiro de seus próprios inimigos.
— E o que fará hoje, rei Dorian? — perguntou Taehyung, sustentando a pose de consorte obediente.
— Terei uma reunião com o Conselho. Já você… — respondeu ele, enquanto terminava seu café e gesticulava para uma criada trazer um guardanapo de pano. — Pode fazer o que quiser, desde que não se meta nos assuntos do reino.
Limpou os lábios com calma e, sem acrescentar mais nada, atirou o guardanapo sobre a mesa e deixou o salão com passos firmes.
Assim que ele desapareceu de vista, Taehyung suspirou aliviado, levando as mãos ao rosto.
— Graças à Santa Lua, ele já foi. Minhas bochechas estão doendo de tanto fingir que estou feliz… que saco — resmungou, massageando o rosto para aliviar a tensão.
— Você não presta mesmo, sua cara nem queima, orelhudo! — exclamou a amiga, rindo alto. — Quase me engasguei com o suco. Você viu a felicidade estampada no rosto dele? — As duas gargalhadas ecoaram pelo salão, chamando a atenção de alguns criados.
— Nem quero imaginar as atrocidades que ele pensa que fez comigo — disse Taehyung, fazendo uma careta de nojo. — Me dá enjoo só de pensar. Vamos sair daqui antes que eu acabe colocando meu café para fora. Quero explorar essa propriedade e entender melhor onde estou me metendo. Isso, pra mim, é mais importante do que ele jamais saberá.
[...]
Jogado no grande acolchoado de linho e penas, o consorte permanecia de olhos fixos no teto abobadado, entregue aos próprios pensamentos. Refletia sobre o que poderia fazer com o dia, agora que o inestimável marido deixara bastante claro o quanto valorizava sua ausência nos assuntos da regência.
Uma brisa suave e perfumada invadia o cômodo pelas altas janelas abertas, trazendo consigo o frescor da manhã e o aroma das flores do jardim interno. A temperatura, no entanto, já começava a subir, e perambular pelas alas abafadas do castelo não parecia uma ideia minimamente agradável.
Taehyung suspirou, sentindo uma pontada no peito. Estava com saudades. Da liberdade das florestas de Yinsia, das águas cristalinas e gélidas das inúmeras cascatas escondidas entre as árvores, das trilhas estreitas e dos cheiros selvagens. Sentia falta dos amigos leais, de seu lar — e, mais do que tudo, dos pais.
Com essa melancolia a apertar-lhe o coração, levantou-se com determinação e foi até a escrivaninha. Precisava escrever uma carta. As palavras fluíam rápido, guiadas por um misto de saudade e necessidade de conexão. No entanto, ao finalizar, o bom senso o freou: não confiava plenamente nos mensageiros do castelo. E tampouco se sentia seguro para recorrer à magia ou enviar Brownie, sua pequena criatura alada, que poderia facilmente ser interceptada.
Dirigiu-se então ao grande baú de carvalho entalhado no canto do quarto. Ajoelhou-se e começou a remexer entre as mantas e livros até encontrar o que procurava: um antigo grimório de feitiços de ocultação. O volume era pesado e suas folhas envelhecidas exalavam o cheiro forte de mofo e pó, o que lhe rendeu uma breve sequência de espirros.
Folheou rapidamente até encontrar o encantamento desejado — uma conjuração simples, mas eficaz, que camuflaria o conteúdo da carta, tornando-a ilegível para qualquer um que não conhecesse a chave mágica. Murmurando as palavras arcanas com naturalidade, derreteu uma vela de cera azul e carimbou o envelope com o selo da lua crescente, símbolo de sua linhagem.
Do lado de fora, no amplo corredor ornamentado por tapeçarias douradas, candelabros elegantes e o brasão de Nyria gravado em mármore, Lyra o aguardava impaciente. Vestia uma calça justa e um corselet de couro verde-oliva, por cima de uma camisa de linho branco. Andava de um lado para o outro, roendo as pequenas unhas, até que o ranger da porta chamou sua atenção. Assumiu rapidamente uma postura mais digna.
— Já estava prestes a entrar para ver se ainda estava vivo — comentou, erguendo uma sobrancelha com sarcasmo.
— Não seja tão dramática. Só precisava selar a correspondência. — Taehyung respondeu com um leve sorriso.
— Se Vossa Alteza está pronto, é melhor irmos logo. O dia mal começou, mas o calor promete ser implacável.
Ao atravessarem a ponte de pedra que ligava o castelo à vila, uma nova atmosfera os envolveu. O lugar fervilhava de vida. Bandeirolas coloridas balançavam com o vento, os sinos da igreja badalavam ao longe e os sons de risos, conversas e música preenchiam o ar.
Barracas repletas de frutas e verduras frescas ocupavam as calçadas. Floristas ofereciam arranjos perfumados, carroças passavam puxadas por cavalos preguiçosos, galinhas corriam soltas pelas esquinas e o aroma de pão fresco saindo das padarias invadia os sentidos como um abraço quente.
No centro da praça, uma grande fonte de pedra exibia a imponente estátua do suposto deus Sol, cercada por crianças correndo e rindo. Taehyung sorriu ao vê-las. Sempre amou crianças — a alegria genuína, a ausência de malícia, a forma como viam o mundo com encantamento. Algumas delas, curiosas com o brilho de seus cabelos platinados, corriam em volta dele, puxando seu manto, gargalhando e fazendo perguntas.
Conforme caminhava pela vila, os aldeões o saudavam com respeito e simpatia:
— Vida longa ao Consorte! — Que o deus Sol o abençoe!
— Saúde e prosperidade, Vossa Graça!
Tae sentia o coração aquecido. Aquela visita simples, espontânea, se revelava mais gratificante do que qualquer banquete real. Era querido. Ali, entre o povo, sentia-se verdadeiro.
Um grupo de músicos se reuniu na praça e iniciou uma melodia animada em homenagem ao rei. Mas foi Taehyung quem puxou a amiga para o centro do pátio, dando início a uma dança improvisada. Lyra, surpresa, riu alto e puxou um aldeão, que logo puxou outro e assim uma grande roda de dança se formou, envolvendo todos num momento de pura celebração.
Milo, um dos cavaleiros encarregados da segurança do Consorte, observava tudo com atenção.
O sorriso largo e quadrado de Taehyung, seus cabelos ao vento, o brilho genuíno nos olhos… tudo aquilo o encantava. Mas ele freou os pensamentos antes que se tornassem perigosos demais. Porém alguém ali o fazia não conseguir controlar os pensamentos, ia além de beleza e admiração. Algo forte, como uma chama o queimando por dentro quando via a pequena criatura tão solta, como se pudesse voar. Tão delicada quanto uma flor, mas com um quê de valentia, aprendeu na marra a não subestimar o povo Yinsiriano.
Quando a dança chegou ao fim, o som das palmas e assobios ecoou pelas ruas. Taehyung, ofegante, com as bochechas ruborizadas e o suor escorrendo pela lateral do rosto, sentia-se vivo. Aquela adrenalina, o contato humano, a espontaneidade… tudo lhe fazia uma falta indescritível. Em Yinsia, costumava passar mais tempo no vilarejo do que no próprio palácio. Lá, todos o conheciam desde pequeno e tratavam-no com um carinho desmedido.
Após recuperar o fôlego, dirigiu-se ao pequeno edifício que servia de correio. Entregou a carta cuidadosamente lacrada ao velho atendente e pediu urgência no envio. Ainda recomendou que fosse avisado assim que houvesse resposta, faria questão de buscar pessoalmente.
— Gratidão, senhor. A gentileza dos seus olhos me conforta hoje — disse ao homem, oferecendo uma moeda extra como agradecimento antes de se retirar.
De volta à carruagem, o cansaço começou a pesar nos ombros. Sentou-se e permaneceu em silêncio durante todo o trajeto, observando a paisagem neutra com olhos atentos. Por fora, a estrada era comum. Por dentro, seu espírito fervilhava de saudade, de inquietação… e de planos.
[...]
Passeando tranquilamente pelo vasto pátio da propriedade real, o som ritmado dos próprios passos sobre a estrada de cascalhos era a única companhia de Seokjin. O sol refletia nas pedras brancas, lançando brilhos que ofuscavam a vista, mas ele mantinha o olhar atento ao caminho que levava à arena de treinamento. Ao longe, avistou duas figuras com cabelos incomuns, tons e texturas que destoavam da paleta solar do reino. Curioso e movido por algo mais profundo que ele preferia não nomear, Seokjin aproximou-se com passos firmes e comedidos, até caminhar lado a lado com os dois.
Assim que percebeu a presença dele, Lyra sentiu-se imediatamente uma intrusa. Bastou um olhar trocado com Taehyung — um sorriso discreto e sereno emoldurado pela luz da manhã — para entender que o amigo desejava um momento a sós com o nobre cavaleiro.
— Preciso coletar algumas ervas, te vejo mais tarde, Taehy. — virou-se para Seokjin e fez uma breve reverência. — Senhor Kim.
— Senhorita Sweetbloom. — respondeu o cavaleiro com um aceno elegante, inclinando-se para selar com leveza a destra da jovem, que se afastou logo em seguida, deixando um sutil perfume herbal no ar.
— Como tem passado, meu rei? — indagou Kim com naturalidade.
— Muito bem. E você, Seok?
— Não tão bem quanto gostaria. — A resposta veio acompanhada de um suspiro discreto, mas o semblante abatido não passou despercebido ao pequeno elfo, que franziu o cenho em preocupação.
— Você tem certeza de que está bem? — perguntou, parando de caminhar.
— E por que eu não estaria? — Taehyung inclinou a cabeça, levemente desconfiado, estranhando o rumo inesperado da conversa.
— É que ontem à noite… — Seokjin hesitou, coçou a nuca e desviou o olhar como um garoto tímido. — Seu corpo está bem? Quero dizer… imagino que gentileza não faça parte do vocabulário dele.
Taehyung arregalou levemente os olhos, mas logo compreendeu a origem da preocupação do cavaleiro.
— Ah… agora entendo — disse com um sorriso suave. — Mas fique tranquilo, estou perfeitamente bem.
— Isso é impossível. Passei a noite inteira preocupado contigo. Não consegui dormir.
— Que doce da sua parte — comentou, tocado pela sinceridade. — Mas realmente, não aconteceu nada.
— Nada? — Seokjin arqueou as sobrancelhas. — Como assim?
— Aqui não é um lugar seguro para esse tipo de conversa. — sussurrou, olhando em volta com cautela. — Me perdoe por não ter compartilhado os detalhes antes, mas não podia correr o risco.
Voltando a caminhar, agora em passos mais lentos, os dois se aproximaram de um dos canteiros ornamentais do jardim, onde flores selvagens disputavam espaço com ervas medicinais.
— Não é arriscado ficarmos tanto tempo conversando assim? — questionou Seokjin, ainda inquieto.
— Não se preocupe, querido. Ele está em reunião com o Conselho neste momento. Serei breve.
— disse, inclinando-se sobre as flores como se as estivesse apreciando. Depois, sussurrou: — Ontem, o casamento não foi consumado. Ele estava sob efeito de um encantamento. Tudo o que viu… foi apenas uma ilusão cuidadosamente construída.
Seokjin piscou, atônito.
— Lyra e eu planejamos isso nos mínimos detalhes — prosseguiu, com voz baixa. — Usamos ervas e cogumelos com propriedades alucinógenas. Demoramos a encontrar o feitiço certo, mas sabíamos que seria impossível fazer ele beber algo suspeito durante o baile. Então, comecei dias antes a me banhar com infusões aromáticas feitas com as mesmas plantas. O aroma, por si só, já causava torpor e confusão mental.
Fez uma pausa e olhou ao redor antes de continuar:
— Fervemos os ingredientes e misturamos com cera de abelha. Moldamos velas e incensos com gravetos de eucalipto, para disfarçar o cheiro. Quando subi até os aposentos dele, acendi cada vela, espalhei os incensos e conjurei o encantamento. Não sabia se daria certo… mas era um risco que precisava correr.
Seokjin ficou em silêncio por um momento, digerindo tudo. Depois, riu, um riso alegre, um pouco alto demais para a situação. Mas não conseguia conter a felicidade que o invadia como uma onda quente.
— Eu te beijaria agora se pudesse, minha lua… — disse com sinceridade. — Você é inacreditável. Às vezes esqueço o quão místico é seu povo. Saber que ele não te tocou… aliviar o peso do meu coração.
Eu jamais permitiria que alguém que não fosse meu verdadeiro amor me tocasse. — A declaração escapou em um sussurro emocionado, e Taehyung corou até as orelhas. — Sinto falta dos teus lábios nos meus, Jinnie…
— Ah, como você é manhoso, meu menino… — murmurou o cavaleiro, tocando com ternura o dorso da mão do elfo. — Também sinto sua falta, mas não posso arriscar sua segurança. Prometo, encontrarei uma maneira. — Inclinou-se e selou a mão dele com um beijo contido, desejando poder levá-lo aos lábios de fato. — É melhor você ir agora.
Na torre mais alta do castelo, entre as janelas de vidro fosco, Jimin observava a cena lá embaixo com os olhos semicerrados. Braços cruzados, expressão dura, não conseguia afastar o incômodo que aquela proximidade lhe causava.
— De novo… — murmurou. — Sempre juntos. E com uma intimidade que não condiz com os títulos… nem com o tempo que se conhecem. Não faz nem um mês desde a chegada dele. Tem algo acontecendo aí.
Se havia ciúmes, desconfiança ou outra coisa ali, até Jimin ainda não sabia.
[...]

Lyra estava à porta dos aposentos do atual Consorte. Os dois conversavam em sussurros, tão baixos quanto o vento que se infiltrava pelas frestas da janela. O assunto era sensível demais para ser exposto, perigoso o suficiente para condená-los à prisão, e no caso da senhorita Sweetbloom, à morte sem direito a julgamento.
Achando mais seguro, ela entrou no quarto e fechou a porta com cuidado, girando a chave na fechadura. O leve clique soou como um trovão aos ouvidos de ambos.
— Lyra… — Taehyung começou, a voz embargada pelo medo — … não sei até quando os incensos vão funcionar. Tenho medo de que ele descubra que está sendo enganado… e tente algo contra mim. Ou contra você.
A jovem franziu o cenho, mas sua voz permaneceu firme:
— Eu entendo teu receio. Mas vamos encontrar outra solução. Você pode dopá-lo com alguma bebida… um chá… talvez algo mais forte misturado ao vinho.
— Sim, isso pode funcionar. — assentiu o elfo, andando em círculos sobre o tapete grosso. — Você pode me ajudar a preparar algo? Ninguém conhece as ervas melhor que você.
Os passos inquietos dentro do aposento criavam um ritmo ansioso, abafado apenas pelas tapeçarias nas paredes. O Consorte parou de repente diante da amiga, os olhos brilhando de culpa e gratidão.
Lyra… me perdoa por te arrastar para essa encrenca. Mas você é mais do que minha dama de companhia. É minha melhor amiga. Minha irmã, de alma. Eu não tenho palavras pra agradecer por não me abandonar… por não me deixar sozinho nas mãos daquele ogro.
Ele pegou em suas mãos com ternura, e sentiu os dedos dela apertarem os seus com força e calor.
— Eu jamais faria isso contigo, orelhudo. — sorriu, os olhos marejando levemente. — Também és um irmão pra mim, mesmo sendo dramático como uma noiva à beira de um surto.
Ambos riram em meio à tensão, um momento de respiro antes do caos iminente. Mas aquele instante breve de afeto foi observado por olhos atentos.
No corredor do andar superior, encostado na balaustrada de pedra, Jimin encarava a porta agora fechada dos aposentos. Mais uma vez, flagrou o casal de amigos em conversas sussurradas pelos corredores, sempre em sigilo, sempre conspirando algo. Isso já era recorrente. E embora Taehyung parecesse muito jovem e inofensivo à primeira vista, havia algo nele que perturbava Jimin. Algo que não sabia nomear.
E não era só com Lyra.
Havia também a estranha, quase sutil, mas notável interação entre Seokjin e o Consorte. Trocas de olhares demorados, gestos silenciosos e um cuidado mútuo que ultrapassava o protocolo. Jimin percebia isso. Sempre percebera as coisas. E ultimamente, percebia demais.
Queria muito esclarecer toda aquela história. Mas desde que Seokjin se tornou um Cavaleiro Real, o pouco contato que tinham havia se esvaído como areia entre os dedos. Isso o consumia.
A ausência da mãe já o deixava com um buraco no peito… agora, a distância de Jin parecia agravar tudo.
Mesmo que demonstrasse irritação com Taehyung, Jimin não lhe desejava mal algum. Na verdade, se o ex-príncipe não fosse tão insolente e encantador aos olhos alheios, irritantemente encantador, talvez ele até tentasse se aproximar. Mas enquanto ambos resistissem, enquanto não cedessem à verdade que parecia gritar debaixo de todas aquelas máscaras, tudo continuaria complicado.
E Jimin odiava coisas complicadas.
[...]
Chamando pelos corredores do castelo, Jimin parecia inquieto. Os passos apressados ecoavam nas paredes de pedra, enquanto seu olhar varria os arredores à procura de algo, ou melhor, alguém.
— Effie... Effie, onde você está, menina? — a voz saiu num tom baixo, mas aflito.
Passou por escadarias, jardins internos e até pelas cozinhas, questionando servas e guardas, mas ninguém havia visto a pequena criatura. Desesperado, acabou chegando à ala que evitava com afinco: os aposentos reais.
Suspirando com irritação, parou diante da porta que tanto preferia ignorar. Bateu duas vezes, firme. A resposta veio imediatamente, quando a folha da porta se abriu revelando o rosto platinado do rei. Os olhos azuis o analisaram de cima a baixo, com frieza escorregadia.
— O que queres aqui, Jimin? — o tom baixo carregava um desdém gélido.
— Olha só, ele tirou a máscara de bom moço. — provocou, o canto da boca erguido num sorriso cínico.
— Se veio só me atazanar, pode dar meia-volta. — A porta começou a se fechar, mas Jimin foi mais rápido, enfiando o pé para impedir.
— Estou procurando algo... E acho que pode estar aqui dentro. — tentou olhar para dentro do aposento, sem sucesso. O rei se postava como uma muralha à sua frente.
— Impossível. Não há nada que lhe pertença aqui, filhinho. — disse com veneno na voz.
— Nunca mais me chame assim. É nojento. — Jimin rosnou, empurrando levemente a porta. — Me deixe entrar, será rápido.
Com um revirar de olhos, o rei abriu caminho com má vontade. O jovem príncipe adentrou o quarto, os olhos percorrendo cada canto com urgência.
— Effie… vem, menina. Onde você se meteu?
Foi então que, no canto mais afastado do aposento, ele a viu: a pequena criatura, encolhida, acuada, encarando o olhar predador de uma ave albina empoleirada no encosto de uma cadeira. Os pelos da Sugar Glider tremiam.
— MINHA SANTA LUA, UM RATO! — o grito de surpresa do rei ecoou pelas paredes.
— Não grita! — Jimin sussurrou com firmeza, indo até a criaturinha com cuidado. — Ela já está assustada. E pra sua informação, Effie é um Sugar Glider, não um rato.
— Tanto faz. — Taehyung cruzou os braços. — Tire esse roedor do meu quarto antes que ele vire o jantar da Brownie.
Jimin pegou a pequena bolinha de pelos com delicadeza, aconchegando-a ao peito.
Antes de sair, parou na porta e virou-se com uma expressão de desgosto contido.
— Marsupial. Ela é um marsupial, não um roedor. E mantenha essa sua ave pulguenta longe da minha bebê.
E saiu, porta batendo logo atrás dele, deixando para trás um rei levemente atônito... e uma ave que tilintava com um assobio ofendido, como se também tivesse entendido a afronta.
[...]
Ao cair da noite, quando o silêncio dominava os corredores do castelo e todos repousavam em suas camas, uma sombra deslizava furtivamente entre as paredes de pedra. Passos leves desciam as escadas em direção à cozinha, onde uma pequena porta lateral levava à parte de trás da residência. Coincidentemente, ou não, aquela não era a única alma a se embrenhar na escuridão.
Taehyung caminhava com calma, atento a qualquer som, verificando se havia guardas por perto. Durante suas andanças pela propriedade, descobrira muitos pontos cegos, e agora eles lhe serviam bem. Assim que deixou os muros para trás, seguiu por uma trilha de terra batida, ladeada por árvores altas. Estava acostumado com a floresta, o som dos grilos, o piar das aves noturnas, nada o assustava. Seu senso de direção era aguçado, e logo avistou a pequena cabana escondida entre as sombras.
A construção era simples, de madeira rústica, com troncos sustentando a estrutura. Uma pequena escada de quatro degraus levava a uma varanda, onde havia um banco e duas cadeiras. Uma janela discreta e uma porta completavam a fachada.
Dois toques sutis na madeira, e logo a porta se abriu. Um calor acolhedor escapou de dentro, e Taehyung não hesitou, entrou.
O interior era aconchegante. Um sofá em frente à lareira crepitante, uma cozinha aberta e duas portas: uma para o banheiro, outra para um quarto modesto com cama e baú. Ao vê-lo, Seokjin abriu os braços, e Taehyung não perdeu tempo, se jogou contra o corpo do coronel, como se semanas de distância pudessem ser apagadas num só abraço.
— Eu nem acredito que estamos finalmente juntos, minha lua. — Os dedos longos acariciavam o rosto do jovem rei com ternura e reverência.
— Também não… Isso parece um sonho comparado ao pesadelo que estou vivendo. — Ele passou os braços ao redor do pescoço do amado. — Esse lugar é incrível, Jin. Como sabia da existência dela?
— Era da minha mãe. — respondeu, com um sorriso melancólico. — Ela amava a simplicidade... e a paz que a natureza oferece.
Taehyung notou o cair dos ombros alheios, o peso da lembrança.
— Você ficou triste... Me perdoa, querido. Imagino como deve sentir falta dos seus pais.
— Estou bem. — disse, forçando um sorriso. — Deixemos esse assunto para depois. Nosso tempo juntos é curto.
Encostaram as testas, os olhares fundidos como dois espelhos. As respirações se entrelaçaram, e as palavras sussurradas aqueceram o ar entre eles. Seokjin selou a testa do elfo, depois o nariz... e por fim os lábios, fazendo-o sorrir com doçura. Aos poucos, os beijos se aprofundaram, até que as línguas se encontraram em cumplicidade. As mãos de Taehyung exploravam timidamente os braços do cavaleiro, apertando com carinho os músculos firmes. Já Seokjin, mais ousado, desceu pelas curvas da cintura, apertando os quadris com desejo contido.
O calor crescia entre eles, mas quando os beijos chegaram ao pescoço e as mãos mais abaixo, o corpo do elfo sobressaltou-se.
— O que aconteceu à minha lazulita? — perguntou o cavaleiro, preocupado com a reação. Ainda com o amado nos braços, tentava entender se tinha avançado demais.
— Você… deve imaginar que eu nunca tive esse tipo de contato com ninguém. — respondeu, com voz tímida e envergonhada, os dedos traçando círculos no braço alheio. — Fiquei um pouco surpreso. Acho que ainda não estou pronto... Espero que me entenda.
Seokjin sorriu com doçura, erguendo o rosto do elfo com cuidado.
— Meu amor, olhe para mim. Como eu poderia forçar-te a fazer algo? Eu respeito você. E esperarei, o tempo que for.
Três selinhos breves foram dados nos lábios trêmulos de Taehyung, que se iluminou com um sorriso tênue.
— Eu não vou conseguir viver sem você. Sinto que fico incompleto quando estamos longe. Mas sei que preciso ir agora...
— Venha. — respondeu Seokjin, entrelaçando os dedos aos dele. — Logo o dia nascerá, e não quero lhe causar problemas.
A despedida foi apertada, carregada de afeto silencioso. Taehyung fungou discretamente no pescoço do cavaleiro, tentando gravar aquele aroma amadeirado em sua memória. Quando Seokjin o afastou com delicadeza, o capuz deslizou sobre as madeixas claras. Cuidadoso, o cavaleiro abriu a porta e espiou a noite. A lua iluminava suavemente a trilha, ainda segura para retorno. Com um último olhar, Taehyung partiu.
Caminhava com o coração pesado, os passos firmes, mas o olhar inquieto. Quando olhou para trás, viu algo estranho: um par de olhos vermelhos, fixos, no alto de uma conífera. O susto fez seu corpo gelar. Apurou os passos, olhando novamente — mas agora só havia escuridão.
A imagem o acompanhou pelo resto da noite, infiltrando-se em seus sonhos e até nos momentos em que Lyra lhe ajudava com o banho. Algo estava passando despercebido. Algo... ou alguém.

6. A lua abraça o sol

“Nós estamos imersos numa conversa silenciosa
dentro do olhar um do outro.”
Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë

A doce brisa da manhã dançava entre os jardins, carregando consigo o perfume fresco do orvalho repousado sobre a grama recém-aparada. O céu, ainda tingido pelos tons suaves do alvorecer, banhava a terra com uma luz dourada, refletindo-se nas pétalas das flores que adornavam o caminho.
Não muito distante dali, passos firmes ecoavam contra o chão de pedra. O jovem monarca avançava com a imponência de quem nascera para comandar, mas com a leveza de um espírito livre. Taehyung exibia, sem esforço, uma beleza quase etérea — os longos fios prateados caíam sobre os ombros como seda cintilante, capazes de despertar a inveja de qualquer um que tivesse o privilégio de vê-lo passar.
Na destra, segurava com firmeza e familiaridade um arco magistralmente trabalhado, suas curvas refletindo a dedicação de um arqueiro exímio. Às costas, uma aljava de couro repousava com precisão, carregando flechas meticulosamente afiadas, cada uma adornada com penas brancas, presente silencioso de Brownie, a pequena e travessa coruja que, vez ou outra, deixava rastros de sua presença nos aposentos do Consorte, como se reivindicasse seu lugar na rotina do monarca.
Ao atravessar os arcos floridos que conduziam ao estábulo, o aroma de feno fresco e terra úmida o envolveu, lembrança vívida dos tempos de juventude, quando aprendera a cavalgar com a mesma naturalidade com que empunhava seu arco.
Com sua habitual gentileza, pediu que preparassem um dos equinos, sua voz firme, mas doce, reverberando pelo espaço de madeira e palha. O serviçal responsável, já acostumado à nobreza do jovem rei, prontamente atendeu ao pedido. Momentos depois, retornou, conduzindo um imponente corcel já selado.
— Essa é Jade. Ela é bem dócil, mas não se engane: é muito veloz.
Taehyung deslizou a mão pelo pescoço do animal, sentindo o calor da pele sob os dedos, como se uma conexão silenciosa se formasse entre eles. O cavalo bufou levemente, reconhecendo o toque e aceitando a liderança daquele que, sem esforço, conquistava a lealdade não apenas de seu povo, mas também das criaturas que dividiam seu mundo.
A égua era uma visão encantadora: sua pelagem caramelo reluzia sob a luz filtrada pelas copas das árvores, e sua longa crina branca, trançada com delicadeza, balançava suavemente ao vento. Exalava uma imponência serena, a graça de um ser que conhecia a terra sob seus cascos como uma velha amiga.
Montando-a com destreza, sem necessidade de auxílio, o elfo guiou Jade floresta adentro, sentindo o balanço rítmico da cavalgada alinhar-se à batida serena de seu coração. O vento fresco trazia consigo um aroma que ele reconheceria em qualquer lugar. Aquele cheiro amadeirado, misturado ao leve perfume de flores silvestres e musgo úmido, era o cheiro de casa.
O peito se encheu de nostalgia. Pensou em seus pais, na carta que enviara semanas atrás, na esperança de uma resposta que, sabia bem, demoraria a chegar. Ainda assim, aguardava ansioso, como um viajante que anseia pelo primeiro vislumbre de sua terra natal no horizonte.
Após um tempo, decidiu não ir muito longe. A floresta ainda lhe era um mistério, e seu instinto dizia que precisava conhecê-la melhor antes de se aventurar além do que os olhos podiam alcançar. Desceu da montaria com elegância e amarrou Jade sob a copa frondosa de uma árvore, onde a sombra e a brisa fresca garantiriam descanso à fiel companheira.
Ali, no coração da natureza, Taehyung entregou-se a um ritual familiar. Posicionou-se com precisão, sentindo o peso do arco como extensão de seu próprio corpo. Seus olhos, afiados como lâminas, encontraram o centro perfeito em uma árvore adiante. Inspirou fundo. O som do mundo ao redor tornou-se um eco distante, até que, com um único movimento fluido, soltou a flecha. O silvo cortante do ar deu lugar ao som abafado do impacto. Exato. Preciso.
Ele não hesitou. Retirou outra flecha, deslocando-se lateralmente. Cada passo era calculado, cada disparo certeiro. Um após o outro, as flechas cravaram-se na madeira até que apenas uma última restasse. No momento em que preparava o tiro final, um som inesperado rompeu o silêncio. O relinchar de Jade fez seu coração saltar no peito. Por um instante, sua mão hesitou. A seta desviou alguns milímetros à esquerda antes de se alojar profundamente na madeira.
Prendeu a respiração e girou o corpo, já pronto para qualquer ameaça. Mas ao erguer os olhos, seu coração bateu diferente. Ali, entre as sombras da floresta, iluminado pela luz filtrada do sol da manhã, estava ele.
Seokjin.
Belíssimo como sempre, como se a própria natureza se curvasse para emoldurar sua figura. O cavaleiro, com o semblante sereno, passava os dedos longos pela pelagem macia de Jade, murmurando algo em tom baixo e afável. Os raios dourados tingiam seus cabelos e destacavam a armadura polida que cintilava em nuances prateadas.
Taehyung sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, não de frio, mas da intensidade do momento. O peito apertou-se em uma ternura quase dolorosa. Quantas vezes sonhara com esse reencontro? Quantas noites imaginara a silhueta do amado surgindo no meio da floresta, exatamente como agora?
E então, como se sentisse o peso daquele olhar, Seokjin ergueu os olhos e sorriu. Era um sorriso de reencontro, de saudade, de uma história que o tempo jamais poderá apagar. E naquele instante, Taehyung soube. Soube que, independentemente de onde estivesse, de quão longe vagase, sempre encontraria o caminho de volta.
Pois ali, diante dele, estava seu lar.
— Minha Lua. — Fez uma reverência delicada, arrancando um sorriso largo do mais jovem. — Não imaginei que fosse tão habilidoso com o arco e flecha. Pensei que só se interessasse por duelos de espada. Vejo que estava enganado sobre suas competências, Alteza.
— Existem muitos mistérios sobre mim que permanecem desconhecidos, meu cavaleiro.
— Sim, Vossa Graça, mas além de admirar suas habilidades, venho lhe fazer um convite. Gostaria que nos reencontrássemos na velha cabana.
— Não considera arriscado, meu amor? Não quero que isso te traga problemas com o rei, mesmo que ele seja seu tio. — Deixou os objetos no chão e caminhou para abraçá-lo.
— Sempre há riscos, meu bem. Mas por você, eu me colocaria na linha de frente da maior guerra já travada. — Passou a mão pelo rosto do amado. — Não me importo, desde que estejamos juntos.
— Então, vou correr o risco com você, meu sol. Esta noite será nossa.
Mais alguns minutos se passaram naquele instante delicado, um momento suspenso no tempo, onde tudo que existia era o sentimento genuíno compartilhado entre eles. Porém, como o amor tem o poder de nos cegar para o que há ao redor, não perceberam que, mais uma vez, uma ave misteriosa e sombria — com penas negras e olhos que brilhavam em vermelho intenso — os observava de longe.
Imóvel, atenta, como uma sentinela silenciosa, ela aguardava o momento certo para voar e levar ao seu mestre informações que, embora esperadas, sempre carregavam um peso oculto.
[...]
Com o cair da noite, um manto de escuridão cobriu o castelo, trazendo consigo o frio cortante que se infiltrava pelas pedras úmidas das muralhas. O pequeno elfo deslizou pelas sombras, os passos silenciosos como os de um felino, atento a qualquer ruído que denunciasse sua presença. Seu capuz, de um verde profundo como o musgo da floresta, ocultava os cabelos prateados que brilhavam suavemente sob o reflexo tímido da lua.
Ele avançou pelos corredores estreitos, evitando qualquer chama tremeluzente das tochas que poderiam revelar sua figura ágil. O cheiro de terra molhada e musgo infiltrava-se no ambiente, e ele sabia que estava perto de seu destino. Atravessou passagens estreitas e escorregadias, os dedos roçando as pedras frias enquanto o coração pulsava acelerado, como o de uma lebre assustada. Ele não hesitaria, não poderia hesitar.
Assim que a imensidão da floresta surgiu à sua frente, Taehyung sentiu o peito se expandir, como se finalmente pudesse respirar livremente. Ali, ele conhecia cada árvore, cada galho quebrado no chão, cada sopro do vento entre as folhas. Se precisasse, encontraria o caminho até Seokjin de olhos fechados.
O trajeto era estreito, pontuado pelo farfalhar das folhas secas sob seus pés, pelos sons distantes de criaturas noturnas despertando para sua rotina oculta. A cada passo, ele olhava para os lados, certificando-se de que ninguém o seguia. Não podia ser visto. Não podia ser impedido.
Quando finalmente avistou o pequeno casebre escondido entre as árvores retorcidas, seu coração martelou contra o peito. As janelas emitiam um brilho brando e acolhedor, e ele soube que Seokjin estava ali, esperando por ele. Com mãos trêmulas de expectativa, tocou sutilmente a madeira envelhecida da porta.
Segundos depois, ela se abriu com um rangido discreto, e antes que Taehyung pudesse sequer dizer uma palavra, sentiu-se puxado para dentro. Dedos longos e quentes se fecharam ao redor de seu pulso, guiando-o para a segurança do abrigo.
Braços firmes envolveram sua cintura com urgência, aproximando seus corpos sem espaço para distância. O calor do outro queimava contra sua pele fria da noite, e ele estremeceu. Então, antes que pudesse soltar qualquer protesto, lábios carnudos desceram com pressa e devoção sobre seu pescoço pálido, depositando beijos repletos de saudade e desejo contido.
— Se isso não for saudade — a voz de Seokjin ressoou rouca contra sua pele —, então eu não sei o que mais poderia ser.
Sem espaço para palavras, os lábios antes devotos ao pescoço agora buscavam a suavidade dos que ansiavam por um encontro há muito aguardado. Taehyung suspirou contra a boca quente do amado, enquanto suas mãos, delicadas mas firmes, encontravam apoio nos ombros largos de Seokjin. Movendo-se como se fossem um só, caminharam às cegas, guiados pelo desejo e pela familiaridade de seus corpos.
A pequena cabana guardava segredos entre suas paredes de madeira antiga, e foi para o fundo dela que os dois seguiram, até que o calor do banheiro os envolvesse. A água da tina fumegava suavemente, oferecendo aconchego contra o frio da noite. Taehyung, sem pressa, puxou a túnica que cobria seu tronco, revelando a pele pálida que parecia reluzir sob a luz fraca da lamparina recém-acesa.
Seokjin, ao se virar, encontrou a visão de seu amado parcialmente despido, os cabelos dourados caindo como fios de luz sobre os ombros nus. Um sorriso nasceu em seus lábios antes que seus braços fortes envolvessem a silhueta esguia, puxando-o para perto, sentindo o calor que emanava de sua pele.
— És tão lindo, meu amor… — murmurou, a voz embargada de ternura e desejo. — Parece um anjo enviado pelos deuses.
Taehyung sorriu, fechando os olhos por um breve instante, permitindo-se absorver a delicadeza das palavras e o calor do toque que o envolvia. Virando-se para encarar o cavaleiro, selou seus lábios em um beijo lento, como se quisesse gravar na memória cada sensação daquele momento.
Seokjin explorava sua pele com dedos ágeis, traçando caminhos secretos que Taehyung respondia com arrepios. As peças de roupa foram sendo removidas aos poucos, sem pressa, como se o tempo houvesse se rendido àquele instante. E então, com delicadeza, o cavaleiro guiou o elfo para dentro da tina, onde a água quente acolheu seu corpo cansado e o fez suspirar em puro alívio.
Seokjin observou-o por um instante, fascinado pelo brilho que dançava sobre a pele úmida de seu amado. Lentamente, retirou suas próprias vestes, e Taehyung, de olhos vidrados e um sorriso sutil nos lábios, acompanhava cada movimento, como se quisesse guardar para si a visão diante de seus olhos.
Ao entrar na tina, Seokjin se aproximou, e como se seus corpos fossem feitos um para o outro, encaixaram-se num abraço apertado.
— És como um pecado, Taehyung… — sussurrou Jin contra seus lábios, o tom rouco carregado de promessas.
O elfo sorriu, traçando um caminho com os dedos pela nuca do amado antes de responder:
— E estás disposto a prová-lo, meu cavaleiro?
As palavras pairaram no ar como uma prece silenciosa. E então, num gesto espontâneo, Seokjin o puxou para mais perto, selando seus lábios em um beijo intenso, repleto de paixão contida. O mundo lá fora desapareceu. Ali, entre beijos, toques e suspiros entrecortados, apenas existiam eles dois, imersos no calor um do outro, como se a eternidade fosse feita daquela noite. Havia sonhado tanto com aquele momento, que até mesmo parecia algo surreal.
A mão calejada fazia questão de apertar cada pequena parte daquele corpo macio e quente do platinado. Soltando alguns suspiros, Taehyung acabou afastando seus lábios dos do mais velho e permitiu que ele o explorasse ainda mais. Deslizando os lábios pela clavícula e pescoço do amado, Seok cuidadosamente passou a explorar outros pontos do corpo de Taehyung, escutando seus arfares ficarem cada vez mais altos. Em uma gesto automático – e até então, desconhecido pelo elfo –, ele passou a mover os quadris sobre o colo do outro o fazendo gemer surpreso. Jogando a cabeça para trás, Jin segurou firmemente a cintura do loiro o guiando a ir mais rápido e forte com os movimentos de seu quadril. Sentindo seu próprio membro roçar no do moreno, Taehyung soltou um gemido e apoiou as mãos sobre a beira da tina e se encarregou de seguir os movimentos dados por Jin.
― Tae… pelos deuses… como pode ser tão divino até isso? ― As palavras escaparam em um suspiro carregado.
O elfo brilha, um brilho travesso dançando em seus olhos cristalinos. ― Gostas do que sentes, meu cavaleiro? ― murmurou, sua voz um fio de provocação e doçura.
Seokjin riu, um som rouco e repleto de desejo. ― Não há nada em ti que eu não queira saborear, meu amor. ― Suas mãos percorreram a pele quente do platinado, apertando-o com devoção e posse, arrancando-lhe um arfar alto.
Taehyung inclinou-se ainda mais contra ele, os corpos moldando-se em perfeita harmonia. ― Então tome-me… ― sussurrou, os lábios roçando os do cavaleiro. ― Faça-me ser seu, por completo.
Se sentindo provocado pelas palavras do elfo, o guarda levou sua mão em direção a entrada enrugada e pulsante. Os dedos roçaram sobre o local, fazendo com que Taehyung gema surpreso, contudo, antes que ele precisasse pedir por mais, Seokjin já a esfregava – com a ponta de seus dedos –, em falsas estimulações.
― Jin... ― gemeu, sentindo seu rosto arder pela vergonha e prazer.

― Você quer isso, Tae? Quer que eu te foda com meus dedos? ― sussurrou provocativo, passando os lábios pela bochecha corada.
― Por favor... ― implorou roucamente sentindo uma falsa estocada.
Sorrindo pela forma que o mais novo está entregue a si, ele avançou contra seus lábios em um beijo calmo, enquanto cuidadosamente introduziu um de seus dedos no canal apertado. Gemendo em desconforto, Taehyung afastou os lábios dos de Jin e encostou sua testa na do mesmo.
― Dói… ― Resmungou em um choramingar.
― Logo irá passar meu bem… é apenas até se acostumar ― o acastanhado murmura calmamente, alisando a coluna do menor em seu colo.
Por ser a primeira vez do elfo, Jin agia com calmaria, para não assustá-lo, mas estava sendo uma tarefa bem complicada, afinal o aperto que ele sentia em seu dedo o estava deixando ainda mais excitado.
― Irei colocar outro, tudo bem? ― Questionou, recebendo um aceno positivo e relutante do platinado.
Deixando um beijo casto sobre a testa suada de Taehyung, Seok introduziu o segundo dedo, o fazendo gemer mais uma vez pelo desconforto. Jin sabia que se continuasse apenas parado, aquilo não ajudaria em nada, por isso passou a fazer leves movimentos, ouvindo os resmungos dos amado. À medida a qual os resmungos do elfo foram cessando, o moreno passou a acelerar seus movimentos, enquanto escutava os gemidos roucos ficarem mais intensos.
Poderia gozar apenas com aquela imagem e aqueles sons obscenos.
― Jinnie… e-eu vou gozar se continuar assim… ― resmungou levando suas mãos aos ombros largos do amante ―, quero me satisfazer com você em meu interior… estou pronto para te receber.
Encarando profundamente os olhos azulados, Jin pode ver que ele realmente estava decidido, por isso, retirou seus dedos do interior quente e pulsante.
― Serei o mais cuidadoso que eu puder, meu amor. ― Garantiu afastando uma madeixa loira do rosto esculpido do outro.
― Confio em você ― sussurrou sem hesitar.
Sorrindo mais uma vez, o moreno posicionou corretamente o elfo sobre seu colo, o deixando próximo a ponta de seu pênis. Assim como prometido, o acastanhado passou a se introduzir no interior quente e apertado, com toda a calma e paciência que tinha naquele momento.
Sentindo seu membro ser apertado pela entrada do platinado, Jin revirou seus olhos e abriu a boca, deixando com que um gemido mudo escapasse. Por vez, Taehyung mordia fortemente o lábio e fincava suas unhas sobre os ombros musculosos, em uma tentativa de amenizar a dor, causada pela nova invasão.
Assim como fez com os dedos, Jin começou se movendo lentamente, porém, à medida que o interior de seu amado parecia o aceitar ainda mais, ele mudou a posição, o deixando com o peitoral sobre a borda da tina ‒ essa que já estava pela metade, devido a toda água que vazou ‒, enquanto seu membro invadia repetidas vezes sem parar na bunda empinada e estapeada. Os gemidos de ambos ecoavam por toda cabana e se duvidar até mais do que apenas dentro daquele lugar, qualquer um que passasse por ali, saberia o que estavam fazendo.

― A-amor… e-eu acho que…
― Shhh, não precisa falar nada, meu pequeno elfo ― Jin murmurou levando a mão até o membro de Taehyung ‒ que escorria em abundância e se misturava com a água ainda restante.
Aumentando a velocidade e movimentando firmemente o membro do elfo, o acastanhado começou a sentir seu membro ser ainda mais esmagado pela entrada do outro. Já o platinado sentia uma formigação constante, enquanto seus olhos se reviraram pelo prazer e a boca se abria, soltando um gemido mais fino. Quando o platinado chegou ao seu clímax, sentiu todo seu corpo se contrair, o que aumentou o aperto no membro de Jin e o fez também alcançar seu limite e gozar fortemente no interior do ser místico. Notando que Taehyung estava com as pernas fracas, Jin o apoiou pela barriga e o ergueu ‒ ainda sem retirar seu pênis do interior quente e agora melecado por sua porra.
― Você está bem? ― Questionou ―, machuquei você? ― Dessa vez seu tom saiu mais preocupado.
― Isso foi… perfeito ― soltou, em um suspiro ―, você foi perfeito, meu amor.
Sorrindo, o platinado encostou sua coluna contra o peitoral do moreno e fechou seus olhos, ainda sentindo todas as sensações de segundos atrás.

― Precisamos de um banho. ― O moreno murmurou tocando o rosto suado do amado.

― Com certeza…
[...]
Envoltos pela manta grossa e aconchegante, permaneceram lado a lado, os corpos entrelaçados, o silêncio preenchido apenas pela respiração compassada de ambos. O céu, antes tingido pelo negro profundo da noite, começava a ceder espaço aos tons suaves do amanhecer, colorindo o horizonte com matizes dourados e alaranjados.
O momento era puro, intenso — um testemunho silencioso do amor que florescia entre eles. A conexão transcendia o físico; não era apenas o desejo que os unia, mas a certeza inabalável de que pertenciam um ao outro. Nenhuma feitiçaria, encantamento ou força mística poderia criar o que havia nascido entre aquelas duas almas errantes.
Jin virou-se suavemente, os olhos brilhando com uma ternura rara, e sussurrou palavras que fizeram o coração de Taehyung hesitar, como se o tempo tivesse parado só para aquele instante.
— A lua está linda...
— E as estrelas também — respondeu Taehyung, um sorriso brando curvando-lhe os lábios.
O beijo que se seguiu foi lento, profundo, carregado de significado. Nenhuma outra palavra se fez necessária. Mas o tempo, sempre cruel, exigia seu tributo. Taehyung não podia permanecer ali para sempre. A realidade o chamava de volta ao seu dever, à sua posição como consorte do reino.
Com o raiar da manhã, o elfo pôs-se a caminho do castelo, o coração apertado pela despedida. Caminhava sem pressa, como se cada passo adiasse o inevitável. Ainda podia sentir o calor do toque de Jin em sua pele, o eco dos sussurros partilhados na escuridão. Mas seu retorno era necessário, por mais que detestasse a ideia.
Ao se aproximar dos portões, notou uma movimentação incomum. Guardas e criados iam e vinham com inquietação evidente. Ainda assim, exausto pela noite intensa, não lhes deu atenção. Tudo o que queria era repousar.
No entanto, seu descanso foi abruptamente interrompido por um rugido que ecoou pelo salão:
— ONDE RAIOS TU ESTAVAS?!
A voz cortante arrepiou-lhe a espinha. Parou, os músculos enrijecidos, e voltou-se para encarar o rei, cuja expressão era uma máscara de ira e desprezo.
— Perdão? — indagou Taehyung, arqueando uma sobrancelha, mantendo a voz serena.
— ONDE ESTAVA ATÉ ESSA HORA?! — gritou novamente, os olhos faiscando de indignação. Taehyung fechou os olhos por um instante, puxando o ar profundamente. Lutava para manter a calma.
— Primeiramente, não há necessidade de gritos. Todos aqui podem ouvir muito bem — respondeu, calmo, mas firme.
O rosto do rei contorceu-se ainda mais de raiva.
— VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME EXIGIR TAL COISA! PASSOU A NOITE FORA COMO UM QUALQUER! O QUE VÃO DIZER SOBRE ISSO?!
— Desde quando as opiniões alheias regem nossas vidas? — rebateu Taehyung, o tom brando, porém afiado.
O rei cerrou os punhos. Sua paciência se esgotava.
— NÃO ESTOU PARA BRINCADEIRAS! OUSAS ME TESTAR? PENSA QUE É LIVRE PARA FAZER O QUE QUISER SEM CONSEQUÊNCIAS?! NÃO SEJA INSOLENTE!
A mandíbula do elfo se contraiu. Respirou fundo antes de responder, a voz agora firme como aço:
— Posso ser seu esposo, mas não sou seu prisioneiro. Não devo satisfações de cada passo que dou neste castelo — disse, com a paciência por um fio. — E com que base alegas que pernoitei fora? Apenas saí cedo. Estás a delirar.
A ousadia na resposta fez os olhos do rei se estreitaram. Num ímpeto de fúria, ele avançou, erguendo a mão para desferir um golpe.
Antes que o impacto ocorresse, uma mão firme segurou-lhe o braço com força.
— NÃO! — A voz de Jimin ecoou pelo salão, carregada de indignação. — Não permitirei que continues espalhando violência! Minha mãe já sofreu sob tuas mãos… e não deixarei que Taehyung tenha o mesmo destino!
Os olhos do príncipe ardiam com uma ira contida. O rei congelou, surpreso. Lentamente, puxou o braço de volta, encarando o filho com uma mistura de fúria e... algo que talvez fosse culpa. Mas certamente não era.
— Tornou-se um homem, afinal — disse ele, com um sorriso frio. — Mas lembre-se, Jimin, sou eu quem carrega a coroa neste salão. Cuidado para não esquecer do seu lugar.
— E eu carrego o legado de minha mãe — replicou Jimin, firme. — Sua era de terror está chegando ao fim.
Um silêncio tenso pairou no ar. O rei estreitou os olhos, mas não respondeu. Virou-se com brusquidão e saiu, a capa esvoaçando atrás de si. Taehyung soltou um suspiro que não sabia estar prendendo. Jimin ainda mantinha os punhos cerrados, os olhos fixos na escuridão por onde o pai desaparecera. O elfo repousou uma mão sobre o ombro dele, um gesto silencioso de gratidão.
Ambos sabiam: aquela batalha estava longe de terminar.
[..]
Mais tarde, no salão privado do castelo, a luz suave de candelabros tremeluzia nas paredes de pedra, lançando sombras que dançavam lentamente ao redor. Jimin estava encostado à beira da janela, os braços cruzados sobre o peito e o maxilar tenso. Seus olhos, escurecidos pela preocupação, não deixavam Taehyung.
— Eu sei onde você esteve esta noite — disse, a voz baixa, controlada, mas cheia de significado. — E sei com quem.
Taehyung permaneceu em silêncio por um momento. Passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar, antes de soltar um suspiro pesado.
— Passei a noite com o coronel.
Jimin não reagiu de imediato. Seu olhar continuava fixo, impassível, mas a rigidez de seus ombros denunciava a tensão sob a superfície.
— Já suspeitava — murmurou por fim. — Mas não é algo que eu possa simplesmente ignorar. Você entende o que isso significa? Se alguém o tivesse seguido... se meu pai souber...
Taehyung ergueu os olhos. Havia firmeza neles, mas também cansaço.
— Eu fui cuidadoso, Jimin.
— Cautela não basta — ele cortou, com mais dureza do que pretendia. Deu alguns passos à frente, parando a poucos metros de Taehyung. — Está lidando com forças que não perdoam falhas. Meu pai já suspeita de suas ausências, e o coronel não é uma figura discreta. Uma aliança como essa, se descoberta, será tratada como traição. E não apenas contra a coroa, mas contra a ordem que sustenta o reino.
Taehyung engoliu em seco. O peso daquelas palavras não lhe era estranho, mas ouvir da boca de Jimin tornava tudo mais real.
— Sei do risco. Mas também sei o que sinto — respondeu, com suavidade, como quem protege algo precioso demais para ser negado. — Fingir que não está acontecendo... fingir que não existe... só me dilacera por dentro. Você pode mesmo me culpar por querer algo que me faz sentir vivo?
Jimin vacilou. Os olhos baixaram por um instante, os punhos cerrando-se brevemente antes de relaxarem. Quando voltou a encará-lo, havia algo mais nos olhos do príncipe: uma mistura de dor, lealdade e um medo que ele não conseguia disfarçar.
— Não, eu não o culpo. Mas quero que entenda... eu não temo apenas por sua reputação ou pela posição que ocupa. Temo por você, Taehyung. Se algo acontecer, não sei se conseguirei... — a voz falhou por um instante, e ele se obrigou a respirar fundo — não sei se poderei protegêlo de novo.
Um silêncio carregado se instalou entre os dois. A chama das velas oscilava, como se também segurasse o fôlego.
Taehyung deu um passo adiante. A distância entre eles agora era quase nada.
— E quem o protegerá, Jimin?
O príncipe fechou os olhos por um instante, e quando os abriu, seu semblante estava mais contido, mas ainda abalado. Ele não respondeu. Em vez disso, apenas assentiu — um gesto pequeno, mas cheio de tudo o que ele não conseguia dizer.
— Prometo que tomarei mais cuidado — disse Taehyung, a voz baixa, mas firme.
Jimin o observou por mais alguns segundos, como se gravasse cada traço daquele rosto, cada centímetro daquele momento.
— Espero que sim — respondeu por fim, e virou-se de volta à janela, mas sem afastar-se por completo. Ficou ali, de costas, os ombros ligeiramente caídos — um guerreiro cansado demais para abaixar a espada, mas humano o bastante para temer o que não pode controlar.
[...]

7. Segredos entre sombras

“Está aí uma coisa que
NUNCA saberei nem compreenderei- do que os humanos são capazes’’.

A menina que roubava livros

A primeira lembrança de Seokjin era moldada pelo som do riso de sua mãe. Não a mãe biológica que o trouxe ao mundo — sobre a qual nada sabia — mas a mulher que o criou com uma devoção inabalável. Ele se recordava do modo como ela o envolvia em seus braços após dias exaustivos, e do aroma das ervas que ela misturava ao chá para aquecer as noites gélidas de inverno.
Cornelius e sua esposa, Helena, não podiam ter filhos. Ainda assim, ao acolherem Seokjin em suas vidas, fizeram dele o centro de seu universo. Cresceu cercado por um amor sincero, sem jamais suspeitar que não fazia parte daquela família desde o princípio. Cornelius, o então rei, era um homem austero, mas justo. Já Helena tratava Seokjin como uma dádiva enviada pelo deus Sol.
Sua infância foi idílica, repleta de tardes douradas nos jardins do castelo, onde brincava de cavaleiro ao lado de seu primo Jimin, empunhando gravetos como espadas e rindo até o anoitecer. Mas a inocência tem prazo curto — e a dele se esgotou cedo demais.
Aos nove anos, sua vida começou a ruir.
Naquela noite, os pais estavam retornando de uma visita ao castelo ancestral da família. Seokjin se lembrava da excitação correndo em suas veias enquanto atravessava os corredores de pedra, ansioso para recebê-los. Mas, no salão principal, foi interceptado pelo duque Dorian. A expressão de seu tio era sombria; sua voz, mais fria do que Seokjin jamais ouvira.
— Seokjin, venha comigo.
Sem entender, ele seguiu. No pátio, viu a carruagem destruída e os corpos cobertos por mantos escuros. Os criados sussurravam: “Os cavalos enlouqueceram”, diziam uns. “A roda quebrou”, murmuravam outros. Mas, mesmo sendo apenas uma criança, Seokjin sentiu que havia algo errado.
Esperou que alguém dissesse que era um engano. Que sua mãe abriria os olhos e sorriria para ele como sempre fazia. Mas o silêncio foi sua única resposta.
Naquela noite, ninguém o consolou. Foi deixado sozinho em seus aposentos, onde se encolheu sob as cobertas, tentando conter as lágrimas. Mas o vazio crescia em seu peito como um abismo sem fim.
Nos dias seguintes, o luto se esvaneceu depressa. Embora o rei e sua esposa tenham recebido homenagens oficiais, a comoção foi breve — substituída rapidamente pela coroação de Dorian. Seokjin, por outro lado, permaneceu preso à dor. Cada canto do castelo o lembrava da ausência deles. Cada manhã sem o canto suave de sua mãe era um novo golpe.
Ele queria respostas. Mas sempre que questionava o acidente, encontrava apenas evasivas. Os guardas silenciavam. Os criados desviavam o olhar.
Foi então que Seokjin compreendeu: aquilo não fora um acidente.
Mas quem havia tirado seus pais dele? E por quê?
Jovem demais para decifrar os meandros de uma conspiração, Seokjin aprendeu a sufocar a dor. Enterrou-a fundo, substituindo-a por uma determinação obstinada. Se não podia trazer sua família de volta, ao menos se tornaria forte o suficiente para nunca mais perder nada — nem ninguém.
E assim os anos passaram. Submeteu-se a treinamentos rigorosos. Lutou por cada posto que alcançou no exército, determinado a provar que sua presença no castelo não era fruto de caridade, mas de mérito.
Aos dezesseis anos, enfim, encontrou as respostas que buscava — e elas foram ainda piores do que imaginava.
A chuva tamborilava contra os vitrais, escorrendo como lágrimas pelas janelas do castelo. Naquela noite, Seokjin vagava pelos corredores, inquieto, tentando escapar da sombra do novo rei — seu tio. Mesmo com toda sua disciplina, sentia que nada era suficiente. Olhares céticos e cochichos sugeriam que sua ascensão era apenas reflexo da benevolência real, e não de suas habilidades.
Ao passar pelo corredor leste, perto de uma porta entreaberta, ouviu vozes abafadas. Reconheceu o tom grave de um dos conselheiros do rei. Instintivamente, ocultou-se nas sombras.
— Não foi sábio permitir que Cornelius o levasse — disse o conselheiro. — Isso pode trazer consequências, Vossa Majestade.
O silêncio que se seguiu foi mais cortante do que qualquer acusação. Então, o rei respondeu, com a voz baixa e tensa:
— Não havia escolha. Se ela tivesse permanecido aqui, o reino teria sido arrastado ao escândalo. Ele nunca poderia ser reconhecido como meu filho.
O coração de Seokjin falhou uma batida.
Quis acreditar que havia ouvido errado. Que era um mal-entendido. Mas algo em seu íntimo sabia: era verdade.
Naquela mesma noite, movido por uma urgência desesperada, ele começou a investigar. Vasculhou arquivos antigos, revirou correspondências, interrogou criados que serviram no castelo antes de seu nascimento. E, lentamente, a verdade emergiu como um veneno.
Sua mãe fora uma simples criada. Tinha sido afastada discretamente assim que sua gravidez se tornou um risco político. Cornelius — irmão do rei — assumiu o menino como seu, protegendo-o de um destino que teria sido cruel.
Seokjin apertou os punhos, os olhos ardendo. A vida inteira lutou para conquistar um espaço. E, ainda assim, carregava o sangue do trono — um segredo que todos haviam se esforçado para enterrar.
Mas não permitiria que isso o esmagasse. Não mais.
No dia seguinte, empunhou sua espada e treinou até que seus músculos ardessem. Se precisava conquistar seu nome com suor e sangue, que assim fosse.
E jurou a si mesmo: jamais deixaria que descobrissem que ele sabia.
[...]
As semanas após aquele encontro na velha cabana haviam sido um turbilhão de sentimentos e pensamentos para Taehyung. Algo dentro dele havia mudado — uma sensação de liberdade que se misturava ao medo, pois a intensidade de seu amor por Seokjin crescia a cada dia. Sentia-se preso entre esse amor e os riscos que o cercavam, especialmente sob o olhar atento e implacável de seu marido, o rei Dorian. Aquela tarde, no entanto, estava longe de ser tranquila.
Taehyung retornava ao castelo após horas fora, quando, ao cruzar as portas reais, foi recebido por uma explosão de fúria. Dorian o aguardava na sala do trono, os olhos dourados cintilando com um furor que parecia fazer o ar vibrar.
— Você voltou tarde, Taehyung! — a voz do rei ecoou pelo salão. — E tem mais: onde esteve durante o dia todo? Com quem andou?
O estômago de Taehyung se revirou. Sabia que o rei começava a desconfiar de seus comportamentos, especialmente após suas últimas ausências. Mesmo assim, o tom de acusação fez seu corpo querer recuar — mas não podia.
— Estava tratando de assuntos pessoais, marido — respondeu, tentando manter a voz firme, embora um leve tremor denunciasse seu nervosismo. Sabia que uma palavra errada poderia ser sua perdição.
— Assuntos pessoais?! — Dorian avançou, e sua mão se ergueu, pronta para desferir um tapa que parecia mais uma lâmina do que um gesto de raiva — uma punição destinada a cortar qualquer traço de rebeldia no consorte.
Mas antes que a mão do rei o atingisse, um movimento rápido rompeu o espaço entre eles.
Jimin, que havia entrado na sala silenciosamente, interpôs-se entre os dois. Sua postura era firme, embora a tensão em seu corpo fosse visível, como se já antecipasse aquele momento.
— Basta, pai — disse ele, com voz calma, mas autoritária. — Não é assim que se resolve nada. Quando vai perder essa mania de levantar a mão para seus consortes?
O rei permaneceu imóvel por um instante, o olhar fixo em Jimin, os olhos ardendo em indignação.
— E você se atreve a se meter nisso outra vez? Ele é meu esposo, Jimin! Eu é que cuido dele!
Jimin suspirou, desviando os olhos por um instante para Taehyung, antes de voltar sua atenção ao pai.
— E tu achas que batendo nele ele vai te ouvir?
Dorian o encarou por mais alguns segundos, mas sua fúria não encontrava mais saída. Com um movimento brusco, afastou-se. Deixou a sala sem dizer mais nada, o som das botas ecoando pelo mármore até que o silêncio, tenso e espesso, se instalasse.
Jimin permaneceu onde estava, absorvendo a cena, o semblante mais calmo, mas ainda vigilante. Virou-se lentamente para Taehyung, seus olhos suaves, mas carregados de uma seriedade que não deixava espaço para ilusões.
— Você precisa ser mais cauteloso, Taehyung — começou, num tom baixo, mas firme. — Já falamos sobre isso. O rei Dorian é… difícil de enganar. E ele não vai deixar isso passar.
Taehyung o olhou, surpreso com a sinceridade nas palavras, mas também tocado pela preocupação genuína que Jimin demonstrava. Não era uma repreensão — era um aviso, quase um apelo.
— Eu sei, Jimin — respondeu, a voz mais suave do que o habitual. — Eu só… não consigo controlar isso. E não quero mais esconder, nem de mim mesmo.
Jimin deu um passo à frente, sua expressão suavizada, como se compreendesse algo que ninguém mais entendia.
— Eu entendo, Taehyung. E sei que Seokjin é importante para você. Sei também que ele sente algo profundo por você. Mas, se forem pegos... as consequências podem ser catastróficas.
Taehyung engoliu em seco, sentindo o peso das palavras doer em seu peito.
— Eu sei que você está certo. Mas como posso me afastar, quando tudo dentro de mim grita para que eu esteja ao lado dele?
Jimin o observou por um momento, depois colocou a mão com firmeza em seu ombro.
— Não estou pedindo que se afaste. Só peço que seja mais inteligente. Não é só sua vida que está em jogo. E, honestamente… não é só você que vai sofrer.
Houve um silêncio entre eles, carregado de significados não ditos. Taehyung sentiu a sinceridade em cada palavra de Jimin — e, naquele instante, algo mudou entre eles. Aquela amizade que nascia aos poucos, costurada por compreensão e confiança, estava crescendo. Jimin, com sua serenidade e percepção aguçada, enxergava além das atitudes impulsivas de Taehyung. E, pela primeira vez, Taehyung percebeu que talvez tivesse muito a aprender com ele.
— Eu não sei o que faria sem você, Jimin — murmurou, com a gratidão evidente na voz.
Jimin sorriu, leve, com uma sabedoria que parecia ultrapassar sua idade.
— Você não precisa fazer nada sem mim. Estamos juntos nisso, Taehyung. Não importa o que aconteça.
Por um momento, Taehyung sentiu que, por mais desafiador que o futuro fosse, com Jimin ao seu lado, poderia enfrentar qualquer coisa. Eles eram diferentes — mas ali, naquela sala marcada por tensões e promessas silenciosas, Jimin estava se tornando mais do que um aliado. Estava se tornando um irmão.
O silêncio os envolveu por mais um tempo, até que Taehyung esboçou um sorriso fraco e disse:
— Prometo que tentarei ser mais cauteloso.
Jimin o fitou com um sorriso genuíno, mas carregado de malícia.
— Só tente não nos meter em mais problemas com o rei Dorian, está bem? Não sei se da próxima vez estarei aqui para impedi-lo.
Taehyung riu baixinho, sentindo um calor nascer em seu peito.
— Tentarei, Jimin. Tentarei.
[...]
O entardecer descia suavemente sobre o reino de Nirya, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados, enquanto Taehyung se via dividido entre os deveres de seu título e o desejo crescente que queimava em seu peito. Havia algo irresistível que o puxava de volta à floresta — o coração oculto daquele reino — onde a velha cabana o aguardava como um refúgio seguro, longe dos olhos vigilantes de seu marido, o rei Dorian.
Com passos leves e urgentes, Taehyung adentrou a cabana, sendo recebido pelo olhar penetrante de Seokjin. O cavaleiro estava ali, como sempre, com uma serenidade que silenciava o mundo ao redor. Não era necessário dizer nada. O simples cruzar de olhares entre eles carregava a promessa de uma noite intensa — uma noite cada vez mais impossível de evitar.
As mãos de Taehyung encontraram a pele de Seokjin com uma urgência contida, como se aquele instante fosse o último que teriam. Seus corpos se entrelaçaram com familiaridade e fome, redescobrindo-se em um silêncio cúmplice, entre suspiros e gemidos que se misturavam ao sussurro das árvores.
O mundo além da floresta desaparecia. Por alguns instantes, Taehyung podia esquecer tudo — as pressões de ser consorte real, o olhar austero de Dorian, as obrigações que o aprisionavam. Apenas Seokjin existia. Apenas eles. Envoltos por um amor que queimava sem culpa, sem medo, sem limites.
Mas a realidade era implacável. Ao retornar ao castelo, o peso de seu segredo se fazia presente com ainda mais força. O clima era tenso, e Dorian, impaciente, aguardava. O rei não se importava com os silêncios do consorte, nem com os devaneios que ele mal conseguia esconder. Suas exigências eram diretas — especialmente nas noites solitárias do quarto real.
— Você tem obrigações como meu marido, Taehyung — disse Dorian com frieza cortante. — Deve me satisfazer como é esperado de um consorte. Chega de desculpas.
As palavras do rei ecoaram como açoite na mente de Taehyung, sufocando-o. Ele já não sabia como esconder a repulsa que sentia pelas exigências de Dorian. As noites com o rei eram um fardo que o afastava de si mesmo, uma prisão onde não podia mais se refugiar nem mesmo no incenso adormecedor que vinha usando.
Foi então que Lyra surgiu. Fada e amiga leal, ela percebera a dor silenciosa de Taehyung e sabia que algo precisava ser feito. Juntos, prepararam uma poção — uma mistura de ervas e encantamentos suaves que induziam a um sono profundo.
Havia magia, sim, mas também esperança.
Na noite seguinte, com o coração em tumulto, Taehyung ofereceu a bebida ao rei. Dorian, irritado e cansado da resistência do consorte, aceitou sem hesitar. Em minutos, seus olhos se fecharam, e o corpo pesado caiu sobre os lençóis. Um sono profundo o tomou por completo.
Taehyung respirou, aliviado, mas o gosto da vitória era amargo. Aquilo não era uma solução, apenas uma pausa. Uma pequena fresta de liberdade num cativeiro cada vez mais sufocante. O dilema entre seu amor por Seokjin e as aparências do casamento real o despedaçava mais a cada dia.
Recolheu-se aos próprios aposentos, onde a paz momentânea lhe permitiu respirar com um pouco mais de leveza. No entanto, ele sabia — o problema não desapareceria com o sono do rei. As expectativas, os riscos e os olhares da corte ainda o cercavam como muralhas invisíveis.
A amizade crescente com Jimin tornava-se sua âncora em meio ao caos. O jovem príncipe, com sua calma firme e sensibilidade incomum, era um dos poucos que viam além das máscaras e dos rituais do palácio. Mas nem mesmo Jimin podia carregá-lo para longe do abismo.
Na floresta, porém, a cabana e os momentos furtivos com Seokjin permaneciam sendo seu refúgio mais sagrado. Cada encontro, cada toque, cada beijo roubado era como uma centelha que reacendia sua verdadeira essência — um lembrete de quem ele era longe da coroa e das correntes.
Contudo, por quanto tempo seria possível viver esse amor sob as sombras das árvores e do segredo?
Taehyung não tinha a resposta. Mas por ora, tinha a magia do momento com Seokjin, a lealdade de Lyra, o apoio silencioso de Jimin — e a esperança, ainda viva, de que um dia seria livre. Livre para amar, para escolher, para ser.
[...]
A noite caía silenciosamente sobre o castelo. As sombras longas dos pilares e das árvores projetavam-se pelo jardim, um refúgio raro para aqueles que buscavam um pouco de paz em meio à pressão do reino. Jimin caminhava com as mãos nos bolsos, a expressão fria e calculista, mas os olhos — sempre atentos — seguiam Taehyung a certa distância.
Taehyung estava mais agitado do que o habitual. Sua postura, normalmente relaxada, escondia uma inquietação evidente. Jimin sabia exatamente o porquê. O rei Dorian, seu pai, não estava longe, e isso fazia com que Taehyung se sentisse mais como uma sombra do que como alguém de carne e vontade.
De longe, Jimin o observava. Aprendera a ler Taehyung como ninguém — a reconhecer os sorrisos falsos, o brilho dos olhos quando se apagava, os pequenos gestos que revelavam o que ele tanto tentava esconder.
Foi quando Taehyung se aproximou da borda do jardim, onde o vento trazia o perfume de lavanda misturado à umidade da noite. Ele olhava para o horizonte, mas seus olhos estavam longe, perdidos em um lugar que só ele conhecia.
Jimin se aproximou em silêncio, os passos lentos, quase cerimoniais. Quando finalmente parou ao seu lado, Taehyung não se assustou. Seu olhar apenas se suavizou, como se já o esperasse.
— Você está inquieto — disse Jimin, sem rodeios, com a calma que lhe era característica. — Anda se arriscando demais.
Taehyung virou o rosto para ele, mas não respondeu de imediato. Apenas sorriu — um sorriso breve, levemente forçado, mas ainda assim carregado de afeto.
— Você percebe tudo, não é, Jimin?
— Não é difícil perceber. Eu conheço esse olhar. Está preocupado com Seokjin, não está?
O sorriso de Taehyung desvaneceu. Baixou os olhos, buscando palavras.
— Não é preocupação. É que... — ele hesitou, lutando contra os próprios pensamentos — eu só não sei mais o que fazer. Isso está me consumindo, Jimin.
Jimin deu um passo à frente e pousou as mãos com delicadeza nos ombros de Taehyung.
— Eu sei. E é por isso que vivo te dizendo pra ser mais cuidadoso. Se o rei descobrir... se qualquer um descobrir, vai ser um desastre. Não só pra você, mas pra todos nós.
Taehyung fechou os olhos por um breve instante. Um suspiro escapou de seus lábios, pesado.
— Eu sei disso. Mas... quando estou com Seokjin, é como se o mundo desaparecesse. Como se eu, finalmente, pudesse respirar. Eu não consigo mais lutar contra isso.
Jimin o encarou com seriedade.
— E se você fosse qualquer outra pessoa, talvez eu até dissesse pra ir em frente.
Mas você não é. Você é o rei. Não pode se dar ao luxo de ser imprudente.
O silêncio que se seguiu foi denso, mas não hostil. Era um silêncio de compreensão. E então, Taehyung sorriu de novo — dessa vez, com mais verdade. Olhou para Jimin com ternura nos olhos.
— Você sempre sabe como me fazer sorrir... mesmo quando tudo em mim está em ruínas.
Jimin retribuiu o sorriso, embora seus olhos mantivessem a seriedade.
— Eu faço isso porque me importo, Taehyung. E sei o quanto você está tentando carregar tudo isso sozinho. Mas não precisa. Eu estou aqui.
A tensão no ar cedeu um pouco. Ainda assim, Jimin não baixava a guarda.
— Mas me promete uma coisa. Promete que vai se cuidar. Que não vai colocar tudo em risco por impulso.
Taehyung ergueu o rosto para o céu. A luz da lua banhava seus traços com uma beleza melancólica.
— Eu não sei o que seria de mim sem você, Jimin.
Jimin apertou levemente o ombro do amigo, a voz mais baixa, quase um sussurro.
— Nem eu.
E, por um momento, o silêncio entre eles não era mais opressor. Era um abrigo. Uma ponte invisível de confiança, erguida entre duas almas que se compreendiam profundamente. Jimin podia ser pragmático e austero, mas, diante de Taehyung, ele era apoio, era lar.
O tempo pareceu parar enquanto os dois permaneciam ali, lado a lado. Nada fora resolvido, mas algo havia sido reafirmado: Jimin continuaria ao lado de Taehyung — e, mais cedo ou mais tarde, quando o momento chegasse, ele o ajudaria a escolher o caminho certo. PArei AQUI
[...]

Jimin percorreu os corredores escuros do castelo com um passo rápido e silencioso, sua mente ainda cheia das palavras que trocara com Taehyung. O amigo estava cada vez mais difícil de proteger, mais perdido em suas próprias emoções. Jimin sabia que seu papel não se limitava apenas a ser o confidente de Taehyung, mas também a pessoa que conseguiria manter a calma diante do caos que estava prestes a se desenrolar. E havia outro segredo, um que ele mantinha com grande cautela: um encontro nas sombras, uma promessa silenciosa.
Com um movimento experiente, Jimin ativou uma das passagens secretas que poucos conheciam no castelo. O frio de pedra e a escuridão abafada o envolviam enquanto ele avançava, seus passos ecoando suavemente no labirinto de corredores escondidos. Ele estava indo até ele – o homem com quem mantinha um vínculo silencioso, uma conexão que ele não podia compartilhar com ninguém. Um homem que, apesar de seu comportamento rígido e distante, era mais próximo de Jimin do que qualquer outro.
Quando chegou ao ponto de encontro, Jimin parou por um momento, sua respiração acelerada. Ele sabia o que encontraria ali – a presença constante e inabalável do homem que o observava com uma intensidade silenciosa. E, ao mesmo tempo, ele sentia que esse encontro era inevitável, como se estivesse sendo puxado por algo muito mais forte do que ele mesmo poderia controlar.
Ele empurrou a porta secreta e entrou. Lá estava ele, como sempre, na penumbra. A figura alta e imponente estava encostada na parede, como se estivesse aguardando por ele. Seus olhos escuros, tão profundos e penetrantes, brilharam na escuridão, e Jimin sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O homem não se moveu, mas seus olhos seguiram cada passo de Jimin com uma intensidade que o fez sentir como se estivesse sendo desnudado, como se aquele olhar soubesse mais sobre ele do que ele mesmo.
— Você está atrasado,— a voz do homem cortou o silêncio, baixa, carregada de uma tensão quase palpável. Ele não sorria, mas Jimin podia sentir a familiaridade em suas palavras, como se a distância entre eles fosse uma barreira que ele já conhecia demais.
Jimin desviou o olhar por um momento, tentando não deixar transparecer a leve ansiedade que sentia.
—Eu tinha que garantir que Taehyung estivesse seguro,— disse, a voz suavizada pela preocupação. —Ele está cada vez mais vulnerável, e Dorian…
—Eu sei,— o homem interrompeu, seu tom firme e intransigente. Ele se aproximou ligeiramente, como se quisesse estar mais perto de Jimin. —Você não precisa dizer mais nada.
— E quanto Akari?—Jimin questionou, seu tom baixo, como se temesse que alguém pudesse ouvi-los.
O homem deu um leve aceno de cabeça, seus olhos fixos em Jimin.
—Ele está próximo. Como sempre.
A menção do corvo fez o coração de Jimin acelerar um pouco. Esse corvo, com seus olhos vermelhos penetrantes, seguia Taehyung sempre que ele se movia, observando-o em silêncio e, aparentemente, sem jamais ser visto. Jimin sabia que o corvo não era apenas um animal qualquer, mas um símbolo, algo mais complexo e profundo. Ele estava ali por um motivo, e esse motivo estava diretamente ligado à proteção do ex príncipe.
—Eu preciso que você se certifique de que ele está fora de perigo. Não podemos correr riscos, não com Dorian tão perto. — Jimin falava com uma firmeza que contrastava com sua habitual cautela. O homem olhou-o atentamente, mas sem mudar sua expressão impenetrável.
O homem assentiu com um movimento quase imperceptível.
—Eu sei o que estou fazendo.
Havia algo em seu olhar, uma vulnerabilidade contida que Jimin conhecia muito bem. O homem nunca mostrava suas emoções com facilidade, mas ali, naquele espaço estreito e sombrio, ele parecia quase… hesitante. E Jimin sabia o porquê.
A distância entre eles diminuiu. Jimin podia sentir o calor de seu corpo, o cheiro familiar de couro e um perfume leve que sempre o envolvia. Os olhos negros do homem estavam fixos em Jimin, mas havia algo mais ali, algo que ele nunca havia dito em voz alta, mas que estava evidente como um livro aberto para quem tivesse coragem de ler.
—Você tem que tomar cuidado, Jimin,— o homem disse, a voz mais baixa agora, como se temesse que alguém pudesse ouvi-los. —Eu... Eu não posso perder você.
Jimin se estremeceu, e algo no fundo de seu peito reagiu com as palavras dele. Ele não queria olhar para ele, não queria admitir que sentia a mesma coisa, mas as palavras estavam presas, engasgadas, e a tensão entre eles se tornava cada vez mais insuportável.
—Eu sou sua responsabilidade,— Jimin respondeu com uma voz mais suave, quase quebrando. —Você sempre me protegeu. Mas você precisa entender, não posso ser… sua responsabilidade para sempre.
O homem deu um passo à frente, quase imperceptível, mas suficiente para que Jimin sentisse a pressão de sua presença.
—Eu sei o que você quer dizer,— ele murmurou, os olhos brilhando com uma intensidade que Jimin nunca poderia esquecer. —Mas, Jimin… você é mais do que apenas alguém que eu protejo. Você é tudo para mim.
Jimin sentiu seu coração bater mais rápido, as palavras do homem se cravando em seu peito como uma lâmina afiada. Ele sabia o que significavam, sabia o que aquilo representava. E, naquele momento, tudo o que ele queria era ser sincero consigo mesmo.
—Eu… não sei como lidar com isso, Jimin confessou, seu olhar se suavizando. — Eu… nunca pensei que fosse possível, mas eu sinto o mesmo.
O homem se aproximou ainda mais, seus olhos fixos nos de Jimin, e então ele se inclinou levemente, como se estivesse esperando por algo. Jimin sentiu seu corpo se tensionar, e a distância que ainda havia entre eles parecia uma linha tênue, prestes a ser rompida.
—Eu só quero estar ao seu lado, — o homem sussurrou, seus lábios quase tocando a pele de Jimin enquanto falava. —Não me peça para ficar longe.
Jimin fechou os olhos por um momento, sentindo as palavras dele se infiltrarem em sua alma. Ele sabia o que estava acontecendo, sabia o que estava se formando entre eles. Mas, antes que pudesse responder, ele sentiu a mão do homem em seu braço, firme e protetora, mas também cheia de algo mais… algo que ele não estava pronto para lidar. Não ainda.
—Eu preciso ir. — Jimin disse, a voz mais baixa agora, como se tentasse se distanciar do que estava começando a acontecer. Ele forçou um sorriso. —Nós vamos ter que lidar com isso depois.
O homem olhou-o por um momento, uma luta silenciosa passando em seu olhar. Mas então ele se afastou, dando a Jimin o espaço que ele precisava.
—Eu estarei esperando.— ele disse com uma suavidade quase impossível de detectar em sua voz.
Antes de sair, Jimin olhou para ele mais uma vez.
— Cuidado. Não se deixe levar pelo jogo do rei Dorian. Ele é imprevisível.
Jimin saiu da sala em silêncio, seu coração ainda acelerado, enquanto o homem ficava para trás, observando-o com um olhar cheio de desejo e esperança. Algo havia mudado entre eles, e Jimin não sabia se estava preparado para as consequências daquele encontro.
Mas, no fundo, ele sabia que o que estava começando entre ele e aquele homem não tão misterioso era algo que nenhum dos dois poderia controlar.


8. Ecos do silêncio

"o caminho do amor verdadeiro nunca foi livre de problemas".
William Shakespeare

A vigilância no castelo havia se intensificado. Guardas circulavam pelos corredores a todo instante, e serviçais eram instruídos a reportar qualquer movimentação suspeita. Taehyung sentia o peso da presença constante de Dorian, que parecia cada vez mais desconfiado e insistente em suas demandas como marido. Seokjin, por sua vez, encontrava-se constantemente cercado por compromissos militares, sem espaço sequer para respirar sem que olhos atentos o seguissem.
Diante dessas barreiras, ambos souberam que se ver pessoalmente seria quase impossível. Mas eles se recusavam a deixar que isso os afastasse. Seokjin foi o primeiro a sugerir as cartas. Ele conhecia as rotas dos serviçais e sabia como uma mensagem poderia atravessar o castelo sem ser notada. Foi assim que a primeira carta chegou a Taehyung, escondida entre as dobras do pano de um manto que uma criada lhe entregou discretamente. As palavras eram poucas, mas carregavam tudo o que ele precisava para suportar aqueles dias de distância:
"Me diga que ainda pensa em mim. Me diga que essa espera logo terá fim minha lua. - S."
Taehyung apertou o pedaço de papel contra o peito, o coração acelerado. Ele passou aquela noite em claro, sentindo o calor das palavras de Seokjin. Na manhã seguinte, encontrou uma maneira de responder. Usando um pequeno pergaminho, escreveu com mãos trêmulas:
"Penso em ti mais do que deveria. Fecho os olhos e ainda sinto o toque da última vez que estivemos juntos. Se fosse livre, eu iria agora ao seu encontro. - T."
Lyra, sua amiga fada, tornou-se sua maior aliada nessa missão. Sempre ágil, ela conseguia atravessar os corredores sem ser percebida, levando e trazendo as mensagens entre os amantes proibidos. As palavras trocadas se tornavam cada vez mais intensas, carregadas de desejo e saudade. Mas também havia medo. Se fossem descobertos, as consequências seriam desastrosas.
Em uma das cartas, Seokjin escreveu:
"Há noites em que acordo chamando seu nome. Mas não posso chamá-lo em voz alta. Tudo o que posso fazer é segurar essas palavras dentro de mim, esperando que de alguma forma cheguem até você. - S."
Taehyung leu e sentiu os olhos arderem. A saudade se tornava insuportável, mas ele sabia que não podiam ceder ao impulso de se verem sem cuidado. Enquanto Dorian aumentava sua vigia sobre o consorte, as cartas se tornavam o único espaço onde poderiam ser eles mesmos, onde o amor sobrevivia mesmo diante da distância e do perigo.
Cada carta era uma promessa silenciosa: eles não desistiriam. Eles encontrariam um caminho. E um dia, ninguém mais os impediria de ficarem juntos.
[...]
A noite cobria o castelo como um manto de sombras. A chuva tamborilava contra as janelas, e o som distante de trovões ecoavam pelos corredores desertos. Jimin se movia com destreza pelos caminhos secretos, passos leves sobre as pedras frias. Seu coração batia em expectativa, não apenas pelo perigo de ser descoberto, mas pela promessa do encontro.
Quando alcançou a câmara escondida na ala leste, encontrou-o à espera. O homem misterioso estava encostado na parede de pedra, o capuz ocultando parcialmente seu rosto pálido e seus cabelos negros. Seus olhos – frios como navalhas, mas repletos de algo que Jimin não conseguia nomear – se fixaram nele.
— Vossa alteza não deveria estar aqui. — A voz dele era baixa, carregada de advertência.
Jimin sorriu, desafiador. — Se você realmente quisesse que eu ficasse longe, já teria me impedido há muito tempo. Pararia de mandar Akari deixar suas penas negras para mim.
O homem nada respondeu, apenas desviou o olhar para a pequena vela tremulando sobre a mesa de madeira ao centro do cômodo. Jimin se aproximou, parando a poucos passos de distância. Ele sempre soube que havia algo mais sob aquela postura rígida, algo que ninguém mais via.
— Você sempre sabe onde me encontrar — comentou Jimin, os olhos observando cada detalhe do rosto parcialmente oculto. — Mas eu não sei quase nada sobre você.
O silêncio entre eles era espesso, carregado de significados não ditos. O homem suspirou pesadamente, descruzando os braços. — Não há nada que valha a pena saber.
— Mentira — retrucou Jimin, cruzando os braços. — Você carrega segredos como se fossem uma segunda pele. Deve haver algo que possa me dizer... algo que não seja só mais um aviso para que eu me afaste.
Os olhos do homem se estreitaram, um lampejo de hesitação passando por eles. Então, ele quebrou o contato visual e caminhou até uma pequena mesa onde descansava uma adaga de lâmina negra. Pegou-a e girou-a entre os dedos, como se ponderasse sua resposta.
— Quando eu era jovem, aprendi que a sobrevivência não permitia luxos como afeto ou confiança — disse, finalmente. Sua voz era controlada, mas Jimin notou o peso por trás de cada palavra. — Servir, obedecer, lutar... era tudo que eu sabia fazer. Não havia espaço para mais nada.
Jimin se aproximou um pouco mais, estudando cada traço do rosto do outro. — E agora? — sua voz saiu mais suave do que pretendia. — Você ainda pensa assim?
O homem parou, segurando a adaga firmemente antes de colocá-la de volta na mesa. Sua mandíbula se contraiu, como se estivesse travando uma luta interna.
— Não deveria — murmurou. — Mas você... você torna isso mais difícil do que deveria ser.
Jimin sentiu algo apertar em seu peito, mas ao invés de recuar, apenas sorriu, satisfeito por finalmente ter conseguido arrancar uma verdade dele. O homem misterioso podia ser frio e distante, como um felino, mas Jimin sabia que sua presença causava rachaduras nessa armadura impenetrável.
— Então talvez eu continue tentando — provocou, inclinando ligeiramente a cabeça. — Até que você perceba que não precisa lutar sozinho.
A resposta veio em silêncio, mas nos olhos do homem, por um breve instante, Jimin viu algo mais profundo do que qualquer palavra poderia expressar. Algo que o fez querer voltar ali, noite após noite, para quebrar as barreiras que ainda restavam entre eles.
[...]
O estalar das chamas nas lareiras da grande sala parecia ser o único som além da pena deslizando pelo papel, quando Dorian, sentado atrás de sua imponente escrivaninha de madeira escura, revisava decretos com expressão severa. A noite estava densa e fria, e a luz bruxuleante das velas projetava sombras inquietantes pelas paredes repletas de tapeçarias.
Então, a porta se abriu sem ser anunciada.
O rei ergueu o olhar, franzindo o cenho. Poucos ousariam interrompê-lo daquela maneira. A figura que adentrou o cômodo, envolta em um manto escuro, deslizou para dentro como um sussurro da noite. O capuz ocultava parcialmente o rosto, mas a firmeza na postura e o olhar frio, que brilhou sob a luz da lareira, transpareciam determinação.
— O que significa essa audácia? — Dorian se ergueu de sua cadeira, os dedos crispando contra a borda da mesa. — Se veio me trazer problemas, aconselho que recue antes que se arrependa.
A figura misteriosa deu um passo à frente, ignorando a ameaça velada.
— Eu sei o que você fez, Dorian — disse a voz, firme e implacável. — Sei de seus erros. Sei do sangue que mancha suas mãos.
O rei congelou. Seus olhos, por um momento, brilharam com algo entre choque e fúria, mas logo se transformaram em um olhar glacial. Ele riu, um som curto e sem humor.
— Você não sabe de nada.
— Sei mais do que imagina — a voz continuou, cada palavra impregnada de certeza. — Sei da traição que cometeu contra aqueles que confiaram em você. Sei o que fez para chegar onde está. E, acima de tudo, sei que os fantasmas do passado ainda o assombram.
A respiração de Dorian ficou pesada. Seu olhar faiscando de raiva enquanto sua mandíbula se retesou.
— Quem ousa vir ao meu castelo me desafiar dessa forma? Quem lhe deu a ilusão de que pode me afrontar e sair impune? — Sua voz, antes controlada, agora transbordava fúria contida.
O visitante inclinou a cabeça levemente, um sorriso ínfimo brincando no canto dos lábios.
— O tempo das sombras está acabando, Majestade. Cedo ou tarde, a verdade encontrará seu caminho. E quando isso acontecer… quero ver como irá se esconder do que fez.
Com essas palavras, a figura se virou e desapareceu pela porta, sem pressa, como se não temesse represálias. Os guardas postados no corredor não fizeram menção de detê-lo, o que apenas inflamou ainda mais a raiva de Dorian.
O rei permaneceu imóvel por um instante, os punhos cerrados ao lado do corpo, o peito subindo e descendo em uma respiração agitada. Então, num acesso de fúria, varreu com o braço os objetos sobre a mesa, espalhando papeis e tinteiros pelo chão.
Agarrando um cálice de vinho, lançou-o contra a parede, onde se estilhaçou em centenas de fragmentos rubros contra a tapeçaria.
— MALDITO! — rugiu, sua voz reverberando pelo salão.
Ele respirou fundo, tentando recuperar o controle, mas seu corpo ainda tremia de raiva. Quem quer que fosse aquela pessoa, sabia demais. E isso era inaceitável.
Dorian não permitiria que seu passado viesse à tona. Não agora. Nem nunca.
[...]
A brisa da manhã carregava o perfume das flores do palácio, mas Taehyung não conseguia se concentrar em nada além da carta que nunca chegará. A cada dia que passava sem resposta, a ansiedade crescia em seu peito. Ele enviara aquela mensagem mágica logo após o casamento, esperando que os pais entendessem, que talvez pudessem lhe dar algum consolo. Mas o silêncio perdurava.
No entanto, naquela tarde, algo inesperado aconteceu.
Os portões do castelo de Nyria abriram-se para um cortejo elegante e imponente. As armaduras prateadas dos guardas de Yinsia refletiam a luz do sol, e no centro, montados em cavalos tão brancos quanto a neve, estavam os reis elfos de Yinsia: Kim Galadriel e Kim Melian.
Taehyung mal conseguiu acreditar no que via. O choque inicial se dissolveu rapidamente em uma onda avassaladora de emoção, e antes que percebesse, ele já corria ao encontro dos pais.
— Pai! Papai! — Sua voz saiu trêmula, carregada de saudade e surpresa.
Melian desmontou rapidamente e o recebeu nos braços, estreitando-o contra si. O toque quente e familiar desmanchou as últimas semanas de incerteza, e Taehyung fechou os olhos por um instante, absorvendo aquele momento.
— Meu menino... — A voz suave de Melian trouxe lágrimas aos olhos de Taehyung. — Sentimos tanto a sua falta.
Galadriel, mais reservado, demorou um pouco mais para se aproximar. Ele analisou o filho por alguns instantes, seu olhar carregando algo que Taehyung não soube interpretar. Mas então, para sua surpresa, o rei o abraçou. Não era um gesto tão caloroso quanto o de Melian, mas tinha o peso de algo sincero.
— Está bem? — A pergunta veio seca, mas havia um fundo de preocupação em suas palavras.
Taehyung assentiu, mas o nó em sua garganta não lhe permitiu falar de imediato. Ele ainda guardava um certo ressentimento. Os pais não compareceram ao seu casamento. Pior, as últimas palavras de Galadriel tinham sido frias, duras demais para esquecer.
— Pensei que nunca mais os veria — murmurou, deixando escapar a dor que vinha guardando.
Melian tocou seu rosto, observando-o com ternura. — Nunca deixaríamos de vir até você. Sabíamos que as cartas poderiam ser interceptadas. Preferimos vir pessoalmente, mesmo que tardasse.
Galadriel suspirou e desviou o olhar. — Não deveria ter falado com você daquela forma antes. Fiz o que achei certo para protegê-lo, mas talvez... tenha sido severo demais.
Era um pedido de desculpas do jeito de Galadriel, e Taehyung soube disso. Ele inspirou fundo, contendo as emoções em seu peito. Não seria tão fácil apagar o que aconteceu, mas naquele instante, sentiu que poderia perdoar.
— Estou feliz que estejam aqui — disse, por fim. — Muito feliz.
Os três compartilharam um momento silencioso antes de Melian pegar em sua mão e apertá-la levemente.
— Venha, temos muito a conversar. Mostre-nos o lugar onde agora vive. Quero ver com os meus próprios olhos como está meu filho.
E assim, juntos, eles caminharam pelo reino de Nyria, remendando a saudade e redescobrindo os laços que o tempo e a distância não poderiam jamais desfazer.
[...]
O grande salão do castelo estava impecavelmente decorado para receber os reis de Yinsia. A luz suave das velas cintilava nos candelabros dourados, refletindo nos cálices cheios de vinho rubro. Dorian estava sentado à cabeceira da longa mesa, ostentando um sorriso afável, seus gestos calculadamente gentis enquanto servia Taehyung e seus sogros. Para qualquer um que não conhecesse a realidade daquele casamento, ele pareceria um marido atencioso. Mas dentro do castelo, todos sabiam que aquela demonstração de afeto não passava de um teatro.
Os olhos de Taehyung estavam baixos, evitando os de Dorian sempre que possível. Ele trocava olhares discretos com seu pai, Kim Melian, que percebia cada nuance do desconforto do filho. Galadriel, por sua vez, mantinha-se em silêncio, observando o ambiente com uma expressão neutra, mas seus olhos astutos analisavam cada detalhe.
— É uma honra recebê-los em meu reino — Dorian disse, erguendo sua taça. — Espero que tenham tido uma viagem agradável.
— Foi longa, mas nada que um reencontro não compense — respondeu Melian com um sorriso gentil, segurando a mão de Taehyung por um breve instante. Ele apertou os dedos do progenitor em resposta, sentindo um conforto momentâneo.
— Sim, é sempre bom visitar Nyria — Galadriel disse, sua voz firme, mas sem muita emoção. — Ainda que eu esperasse ter vindo antes.
Taehyung desviou o olhar, sabendo que aquela era uma indireta pelo fato de seus pais não terem comparecido ao casamento. O assunto morreu ali, e a refeição prosseguiu em um clima superficialmente ameno, com conversas diplomáticas e elogios trocados. Mas os olhares dos servos e dos soldados presentes denunciavam o que estava além das palavras: ninguém ali acreditava na farsa de Dorian.
Após o almoço, Melian chamou Taehyung para caminharem pelos jardins do castelo. O ar fresco e o aroma das flores acalmaram um pouco seu coração inquieto. Quando se afastaram o suficiente do castelo, o rei elfo parou sob a sombra de uma cerejeira em flor e segurou as mãos do filho.
— Fale-me com sinceridade, meu amado — ele sussurrou, sua voz doce e firme. — Você está feliz aqui?
Taehyung sentiu um nó na garganta. Ele queria mentir, queria poupá-lo da dor, mas não conseguiu. Suspirou, baixando o olhar.
— Não, papai. Não estou. Não por inteiro.
Melian não demonstrou surpresa. Em vez disso, seus olhos se encheram de ternura e compaixão. Ele puxou Taehyung para um abraço apertado, acariciando seus cabelos como fazia quando ele era criança.
— Eu sinto muito, meu querido — sussurrou contra seus cabelos. — Eu deveria ter insistido para que você não aceitasse esse casamento.
— Não havia escolha — Taehyung murmurou contra o ombro do mais velho, sentindose seguro pela primeira vez em muito tempo. — Mas agora estou preso a isso, e não sei o que fazer.
Melian afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos do filho. Ele deslizou a mão por dentro do manto e retirou um pequeno amuleto de prata em formato de folha.
— Isto é um presente — prendendo o amuleto ao redor do pescoço de Taehyung. — Ele contém a benção dos elfos de Yinsia e da Santa Lua. Sempre que precisar de força, segure-o e lembre-se de quem você é. Você nunca estará sozinho.
Taehyung segurou o amuleto entre os dedos, sentindo um calor suave irradiar dele. As lágrimas vieram silenciosas, mas ele não as conteve. Apenas se deixou ser confortado por quem mais amava, pelo elo inquebrantável que compartilhavam. Naquele momento, sob a sombra da cerejeira, ele não era um consorte infeliz, nem um prisioneiro do próprio destino.
Ele era, simplesmente, o filho de Melian.
[...]
A noite envolvia o castelo em sombras profundas quando Jimin deslizou pelas passagens secretas, o coração martelando no peito. Ele conhecia bem aquele caminho – tantas vezes o percorrera que poderia fazê -lo de olhos fechados. Mas, ainda assim, cada passo trazia um arrepio de expectativa, um misto de desejo e perigo que lhe acelerava a respiração.
Quando empurrou a porta oculta que levava a um dos quartos esquecidos na ala leste, foi recebido por uma corrente de ar frio... e por um olhar afiado que faiscava na penumbra.
Os olhos tão escuros quanto uma safira negra brilharam à fraca luz das velas. Ele estava ali, encostado à janela aberta, a silhueta recortada contra a lua. Vestia-se sempre de negro, trajes leves que permitiam movimentos rápidos, mas, naquela noite, estavam levemente desalinhados – um detalhe quase imperceptível, mas que fez
Jimin sorrir.
— Você está atrasado. — A voz grave e aveludada ressoou no aposento, carregada de algo entre provocação e expectativa.
Jimin fechou a porta atrás de si e se aproximou sem hesitar, os passos suaves, mas cheios de propósito.
— Você sempre diz isso, mas nunca parece se importar. — Seu olhar brilhou com um desafio silencioso ao parar diante dele. — Ou se importa?
O homem não respondeu de imediato. Em vez disso, ergueu uma das mãos enluvadas e tocou o queixo de Jimin, inclinando seu rosto para analisá-lo com atenção. O contato era frio, mas o calor que percorreu o corpo de Jimin foi instantâ neo.
— Eu deveria me importar. — Ele inclinou a cabeça, os lábios a um fio de distâ ncia dos de Jimin. — Mas você me deixou descuidado.
Jimin riu baixo. O jogo entre eles era tão perigoso quanto irresistível. Com um movimento ágil, agarrou-o pela gola da camisa e o puxou para um beijo urgente, sem hesitação, sem medo. As mãos do homem deslizaram para sua cintura, puxando-o para mais perto, como se quisesse gravar aquele momento em sua pele.
Quando se afastaram, ofegantes, Jimin pousou a testa contra a dele, os dedos ainda entrelaçados na gola do traje.
— Tu nunca me diz seu nome verdadeiro.
O homem sorriu de canto, um raro lampejo de humor suavizando sua expressão séria. — E você nunca me pede com sinceridade leãozinho.
Jimin estreitou os olhos e os dedos deslizando pelo peito do amante, sentindo os músculos sob o tecido fino. Aquele apelido mexendo com suas entranhas.
— Eu não preciso do seu nome para saber quem és. Mas quero saber mais. Tu não pode continuar sendo apenas um vulto na escuridão.
O homem suspirou, seu corpo rigido relaxando apenas um pouco.́
— Eu sou um assassino, Jimin. Um fantasma entre reis e traidores. Meu trabalho é eliminar aqueles que se tornam um problema para pessoas poderosas. Às vezes, antes mesmo que percebam que são um problema.
Jimin engoliu em seco. Sempre suspeitara, mas ouvir em voz alta causava um arrepio diferente – não de medo, mas de algo mais perigoso, algo que ele não sabia nomear. — Você já me viu como um problema? — sussurrou.
Os olhos negros do homem faiscaram na escuridão. Ele deslizou os dedos pela linha do maxilar de Jimin, segurando-o com uma delicadeza que contrastava com a firmeza de seu toque.
— Desde o dia em que te conheci. Mas nunca quis resolver esse problema.
A chama das velas tremulava suavemente, lançando sombras dançantes pelas paredes de pedra. Jimin se desvinculou do toque e sentou-se à beira da cama, a mente vagando entre preocupaçoes e vontades inconfess̃ áveis.
— Tu sabes que não deveria estar aqui.
Sua voz saiu baixa, quase um aviso, mas sem verdadeira intenção de mandá-lo embora.
A figura caminhou para perto do príncipe, a noite se estendendo atrás dele como um manto. Os cabelos escuros caiam um pouco sobre os olhos intensos, e o brilho rubro ́ do anel que usava no dedo indicador refletia a luz fraca da vela.
— Mas eu estava com saudades.
A confissão rouca, crua, fez algo vibrar dentro de Jimin.
Ele deveria se afastar. Manter as barreiras que sempre ergueu entre si e o mundo. Mas, quando aquelas mãos enluvadas tocaram seu rosto novamente, toda resistê ncia se desfez.
— Vossa alteza sente minha falta? — O homem inclinou-se progressivamente, os olhos escuros observando cada nuance de sua expressão.
— Achas que não? — Jimin segurou o pulso dele, puxando-o levemente para mais perto. — Sempre surge das sombras e me deixa querendo mais.
Um sorriso de canto apareceu nos lábios do outro, algo predatório, felino e, ao mesmo tempo, ternamente cruel.
— Então tome tudo o que quiser esta noite.
Outro beijo deu inicio, começou lento, exploratório, mas logo se transformou em algo mais feroz. As mãos do homem deslizaram para a cintura de Jimin, puxando-o possessivamente. Jimin ofegou entre o contato, os dedos cravando-se nos ombros cobertos por tecido escuro. Ele queria mais. Precisava sentir mais.
Quando se afastaram, os olhos de Jimin estavam brilhando com expectativa.
O silê ncio se estendeu entre eles, carregado de uma tensão que não era apenas carnal, mas algo mais profundo, mais perigoso. Jimin sabia que aquele homem era um enigma que talvez nunca decifrasse por completo, mas, por alguma razão, isso o fazia desejá-lo ainda mais.
E naquela noite, enquanto se entregavam um ao outro sob a luz pálida da lua, Jimin soube que estava completamente perdido naquele mistério.
[...]
Algumas semanas depois
O castelo parecia respirar em silêncio, como se aguardasse ansiosamente o momento em que a verdade viria à tona. Os corredores antes movimentados estavam mais vazios do que o normal, e os criados trocavam olhares cautelosos enquanto cumpriam suas tarefas. Algo estava diferente. O ar estava carregado, como se uma tempestade estivesse prestes a desabar sobre todos.
Jimin sentia isso.
Ele caminhava sozinho por um dos corredores mais afastados do castelo, os passos ecoando no chão de mármore. Sua intuição lhe dizia que algo estava errado, mas ele ainda não conseguia entender o quê. Durante toda a sua vida, aprendeu a prestar atenção nos detalhes, a ler as entrelinhas dos olhares e gestos das pessoas ao seu redor.
E agora, tudo lhe dizia que um desastre estava por vir.
Do outro lado do castelo, longe dos olhos atentos dos nobres e soldados, um criado atravessava os portões às pressas. Seu rosto estava pálido, e sua respiração entrecortada. Ele carregava algo que não deveria ter chegado às mãos erradas — uma carta interceptada antes de encontrar seu verdadeiro destino.
Palavras escritas em segredo, agora prestes a serem expostas.
E na escuridão da floresta, uma sombra observava.
Entre os galhos retorcidos, olhos atentos seguiram cada movimento do criado. O espião não precisava se aproximar para entender o que estava acontecendo. Ele já havia cumprido sua missão. A prova que o rei tanto queria estava agora em mãos confiáveis, e ao amanhecer, tudo mudaria.
No alto de uma das torres, Jimin permanecia encostado na parede fria de pedra, os braços cruzados sobre o peito enquanto observava a noite se desenrolar sobre Nirya. Algo o inquietava, uma sensação incômoda que não conseguia ignorar.
Foi então que sentiu uma presença atrás de si.
— Você está inquieto leãozinho.
A voz grave e serena não o assustou. Ele reconheceria aquele apelido em qualquer lugar. Virando o rosto lentamente, encontrou os olhos intensos daquele homem, que o analisava com sua costumeira seriedade.
— Você também sente isso, não sente? — Jimin perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.
O homem não respondeu de imediato. Em vez disso, desviou o olhar para o horizonte, os olhos afiados analisando a escuridão da noite como se tentasse enxergar algo além do que era visível.
— Há algo fora do lugar — ele admitiu, por fim. — O castelo está silencioso demais. Isso nunca é um bom sinal.
Jimin apertou os lábios, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.
— Então precisamos estar preparados.
O homem virou-se para ele novamente, seu olhar se suavizando apenas um pouco. Ele raramente demonstrava emoções, mas havia algo na forma como o observava — um cuidado silencioso, quase imperceptível.
— Eu sempre estarei um passo à sua frente — ele disse, com uma convicção que fez o coração de Jimin acelerar.
O príncipe sustentou o olhar dele por um momento, sentindo um calor estranho crescer dentro de si.
— Eu sei.
No entanto, ele desviou o olhar antes que pudesse se perder naquele mar negro profundo. Ele sabia que não havia nada que pudesse fazer para impedir a tempestade que se aproximava.
Mas, se alguém ousasse machucar aqueles que lhe eram importantes, Jimin estaria pronto para lutar.
Na escuridão, o vento soprou forte contra as torres do castelo.
A última noite antes do escândalo.

9. Segredos Expostos, Destinos Selados…

''E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.''
As vantagens de ser invisível

A luz dourada do entardecer filtrava-se pelas copas das árvores, lançando sombras suaves no chão coberto de folhas. O vento trazia consigo o cheiro amadeirado da floresta e o canto distante dos pássaros. Seokjin estava parado próximo à lareira acesa da cabana, com os olhos fixos na chama tremeluzente, perdido em pensamentos.
Taehyung, sentado na pequena cama de madeira, observava-o com atenção. Ele conhecia Seokjin o suficiente para notar quando algo o perturbava. Havia um peso em seus ombros, um segredo que ele carregava há muito tempo. O silêncio entre eles não era incômodo, mas estava carregado de expectativa.
— O que há com você? — Taehyung perguntou suavemente, inclinando-se para frente, tentando captar o olhar do amado.
Seokjin suspirou, passando uma mão pelos cabelos escuros antes de finalmente encará-lo. Havia uma tristeza profunda em seus olhos, uma dor que ele parecia evitar há anos. Taehyung franziu a testa, inquieto.
— Há algo que preciso lhe contar. Algo que guardei por tempo demais.
A seriedade em sua voz fez o coração de Taehyung acelerar. Ele assentiu, encorajando-o a continuar.
— Eu... — Seokjin hesitou, como se as palavras fossem um fardo pesado demais para carregar. — Você não sabe, mas fui adotado pelo rei Cornelius e pela Rainha Helena quando criança, na época eu também não sabia, vou lhe contar os detalhes.
Taehyung manteve o olhar atento, seu peito apertando-se. Seokjin nunca falava sobre sua infância antes do castelo, e agora ele entendia o porquê.
— A verdade é que... eu não sou filho deles. Eles não podiam ter filhos, mesmo tentando por longos anos, Helena não conseguia ficar grávida, e isso era frustrante demais. Então eu fui adotado, recebi um nome, um lar, e muito amor. Porém eu acabei descobrindo por acaso que sou filho bastardo do rei Dorian.
O silêncio que se seguiu foi esmagador. Taehyung arregalou os olhos, o impacto das palavras batendo com força. Ele abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada imediatamente.
— O quê? — Ele finalmente sussurrou.
Seokjin sorriu amargamente. — Meu verdadeiro pai me rejeitou no momento em que nasci. Minha mãe era apenas uma empregada no castelo. Alguém sem importância. Para ele, minha existência era um erro, uma mancha em sua reputação. Foi Cornelius, seu irmão mais velho, quem interveio e me tomou para si. Ele e Helena me criaram como se eu fosse deles. Me deram amor, proteção... tudo o que Dorian nunca me daria.
Taehyung sentiu um nó na garganta. Como Dorian poderia ser tão cruel? Como ele pôde simplesmente jogar fora seu próprio filho?
— Mas... e seus pais? Cornelius e Helena. Eles te amavam tanto.
Seokjin fechou os olhos por um momento, como se estivesse tentando se recompor. Uma lágrima solitária escorreu pelo olho direito.
— Sim, eles me amavam. E morreram de forma... suspeita.
A respiração de Taehyung ficou presa na garganta. — Você acha que foi Dorian?
Seokjin passou a língua pelos lábios ressecados, um brilho sombrio cruzando seu olhar.
— Sei que foi. Mas nunca tive provas. O acidente de carruagem foi bem orquestrado, sem testemunhas, sem sobreviventes... Mas não posso ignorar o fato de que, após a morte deles, Dorian foi coroado com muita pressa e me criou junto ao Jimin. Como se quisesse me manter sob seus olhos. Como se quisesse garantir que eu nunca descobrisse a verdade.
O choque percorreu o corpo de Taehyung como uma corrente elétrica. Ele se levantou da cama, o peito subindo e descendo com a respiração acelerada.
— Ele matou seu próprio irmão? Para quê? O que ele ganharia com isso?
Seokjin desviou o olhar, os punhos cerrados.
— Poder. Cornelius era o primogênito. O verdadeiro herdeiro do trono. Ele sempre foi mais amado pelo povo, mais respeitado pelos nobres. Dorian vivia à sombra dele... e então, de repente, meus pais morreram e o caminho para o trono ficou livre.
Taehyung sentiu uma onda de repulsa subir pelo seu estômago. Ele conhecia o marido o suficiente para saber que ele era um homem cruel, mas jamais imaginara algo dessa magnitude.
— Ele sabe que você sabe? — A voz de Taehyung saiu baixa, tensa.
— Não. Nunca deixei transparecer. Passei anos enterrando isso dentro de mim, fingindo que acreditava na história do acidente. Mas agora... agora que ele tem me observado mais de perto, agora que há suspeitas rondando o castelo, sinto que o perigo está se aproximando novamente.
Taehyung mordeu o lábio, sentindo uma mistura de raiva e desespero.
— Você está dizendo que Dorian pode querer se livrar de você? Como fez com Cornelius?
Seokjin assentiu lentamente.
— Se ele descobrir sobre nós, se perceber que eu tenho alguém ao meu lado, pode usar isso contra mim. Contra você.
O coração de Taehyung apertou-se dolorosamente. Ele segurou as mãos de Seokjin, apertando-as com força.
— Meu sol, tu não podes ficar aqui. Precisa sair do castelo. Precisamos encontrar um jeito de tirá-lo de Nirya.
Seokjin balançou a cabeça.
— Eu não posso fugir. Isso apenas confirmaria minha culpa aos olhos dele. Eu tenho que continuar jogando esse jogo, pelo menos até encontrar uma saída segura.
Taehyung odiava aquilo. Odiava a ideia de Seokjin em perigo, de Dorian arquitetando algo nas sombras. Odiava o fato de que estavam presos em um jogo de poder que não pediram para jogar.
— Eu não quero te perder. — A voz de Taehyung tremeu levemente, o desespero transbordando.
Seokjin sorriu suavemente e tocou seu rosto com carinho.
— Vossa alteza nunca irá me perder. Nem mesmo se Dorian tentar separar nossos caminhos.
Taehyung fechou os olhos, sentindo a dor apertar seu peito. Ele queria acreditar naquelas palavras. Mas, no fundo, temia que essa fosse apenas mais uma promessa impossível de ser cumprida.
[...]
A noite caía sobre o reino de Nirya, mas a escuridão que se instalava no castelo era muito mais do que apenas ausência de luz. A revelação do caso entre Seokjin e Taehyung espalhou-se pelos corredores como fogo em palha seca, levando o escândalo diretamente aos ouvidos do rei Dorian, que já sabia do que se tratava, com vários olhos pelo castelo, nada passaria despercebido. Sua face não demonstrava surpresa nenhuma; e agora, sob os imponentes vitrais do grande salão, um julgamento estava prestes a começar.
Taehyung sentia o peito apertado, a respiração curta. Estava de joelhos diante do trono, as mãos atadas por correntes de prata, mesmo possuindo magia suficiente para se livrar do que lhe prendia, ele não seria capaz de fazer nada imprudente. Seokjin estava ao seu lado, também com os pulsos amarrados, os olhos carregados de emoção e determinação. O salão estava lotado, os nobres murmurando entre si, muitos com olhares de desprezo, outros de pena.
Você desonrou este reino, Taehyung — Dorian declarou, sua voz firme como lâmina de aço. — E arrastou esse bastardo para sua vergonha.
— Ele não é um bastardo! — Taehyung gritou, a voz embargada pela fúria e pelo desespero. — Você sabe muito bem quem ele é!
Dorian apertou os olhos, sua expressão endurecendo. No fundo, ele sabia. E era por isso que Seokjin precisava desaparecer. Assim como Cornelius desapareceu no passado.
— Seu crime é imperdoável — continuou o rei. — Um escândalo como esse deve ser punido com morte.
A sala mergulhou em silêncio. Seokjin ergueu o queixo, mas Taehyung ofegou, puxando as correntes que o prendiam.
— NÃO! — O desespero tomou sua voz. — Você não pode fazer isso! Eu o amo!
Jimin, parado ao lado de Lyra, sentiu o coração se despedaçar ao ouvir a confissão. Ele já sabia, mas vê-lo dizer aquilo em meio a tantas pessoas, com lágrimas nos olhos, era devastador.
— Sua clemência, majestade — a voz de Kim Galadriel ecoou pelo salão. O rei elfo deu um passo à frente, sua presença imponente exigindo atenção. — Seokjin tem sangue real. Sua execução mancharia o nome da realeza. Banimento seria uma solução mais aceitável.
Dorian apertou os punhos. Odiava que os elfos tivessem tanto poder naquele momento. Mas talvez o banimento resolvesse seus problemas sem causar uma rebelião dentro da corte.
— Que assim seja. — Ele se levantou. — Seokjin será banido imediatamente. Partirá na caravana dos reis de Yinsia, largado no meio da floresta de Zianol e jamais poderá pisar em Nirya novamente. Se for encontrado, será morto sem hesitação.
Um soluço escapou de Taehyung.
Por favor, não... — Ele se arrastou de joelhos até Seokjin, segurando-se às correntes como se pudesse impedi-lo de ser levado. — Não me deixe...
Seokjin se ajoelhou à sua frente, ignorando todos os olhares. Suas mãos, trêmulas, tocaram o rosto de Taehyung, limpando as lágrimas.
— Não há escolha, meu amor — murmurou. — Eu não posso arriscar sua vida.
— Eu vou com você — Taehyung insistiu, segurando-o com força. — Fugimos juntos, podemos encontrar outro lugar para viver...
— E você quer que os reinos entrem em guerra por isso? — Seokjin forçou um sorriso doloroso. — Eu não posso carregar esse peso.
Taehyung negou com a cabeça, segurando-se ainda mais ao homem que amava. Jimin, de pé, não suportava mais assistir aquilo sem fazer nada. Ele se aproximou e colocou uma mão reconfortante no ombro de Taehyung.
— Nós vamos achar uma forma — sussurrou. — Eu prometo que isso não é um adeus para sempre.
As palavras de Jimin pouco aliviaram a dor que Taehyung sentia. Ainda assim, ele fechou os olhos quando os lábios de Seokjin tocaram os seus em um beijo desesperado, selando uma promessa silenciosa entre eles.
Quando os guardas puxaram Seokjin para longe, Taehyung caiu ao chão, soluçando. Lyra se aproximou rapidamente, envolvendo-o em seus braços, tentando acalmá-lo.
A caravana partiu naquela noite.
Horas depois, Jimin ainda se encontrava no mesmo lugar, sentindo um vazio dentro do peito. Foi então que percebeu a presença dele. O homem misterioso saiu das sombras, aproximando-se com passos silenciosos.
— Você sabia, não sabia? — Jimin perguntou, sem virar-se completamente.
O homem assentiu.
Seokjin é meu meio-irmão — revelou, com uma voz baixa, quase hesitante. — Eu sabia que esse dia chegaria.
Jimin virou-se para ele, seus olhos buscando respostas que talvez nunca encontrasse.
— E você não fez nada para impedir?
— Se eu tentasse intervir, apenas chamaria mais atenção. Meu trabalho é nas sombras, não nos tribunais.
Jimin sentiu um aperto no peito. Pela primeira vez, o homem misterioso pareceu vulnerável. Antes que pudesse dizer algo, ele se aproximou e envolveu Jimin em seus braços.
— Sinto muito — murmurou contra seus cabelos.
Jimin fechou os olhos, permitindo-se afundar naquele abraço. Era a única coisa que o mantinha de pé naquele momento.
Na manhã seguinte, Dorian sequer mencionou Seokjin. Para ele, aquilo era um assunto encerrado. Mas todos no castelo sabiam a verdade.
E ninguém esqueceria.
[...]
A ausência de Seokjin pesava sobre Taehyung como uma sombra sufocante. Desde o momento em que a caravana partirá, levando seu amado para longe, ele se fechará em seus aposentos, recusando-se a sair. O castelo, antes um lugar que ele aprendera a suportar, tornara-se um túmulo frio e opressor. Nem mesmo a luz do sol que entrava pelas janelas era capaz de aquecer seu coração despedaçado.
Os criados tentaram, em vão, convencê-lo a se alimentar. Pratos requintados eram deixados à sua porta e retirados intactos no dia seguinte. As noites eram ainda piores. Taehyung rolava na cama, buscando um sono que nunca vinha, afogado pelas lembranças do toque quente de Seokjin, do timbre suave de sua voz. As promessas trocadas na despedida ecoavam em sua mente como uma tortura silenciosa.
Jimin e Lyra eram os únicos que ousavam adentrar seu quarto sem permissão. Lyra, sempre paciente, segurava sua mão, murmurando palavras de conforto. Jimin, por outro lado, sentia a mesma dor, mas era mais prático em lidar com ela. "Você precisa reagir", dissera mais de uma vez, mas suas palavras nunca encontravam um eco real no coração do consorte.
A explosão ocorreu na terceira noite após a partida de Seokjin. O silêncio opressor do quarto de Taehyung foi quebrado pelo estrondo da porta se abrindo com força. Dorian entrou como uma tempestade, sua expressão carregada de desprezo e irritação.
— Levante-se, vista-se e cumpra seus deveres — ordenou, a voz cortante como uma lâmina.
Taehyung estava sentado no chão, encostado na lateral da cama desfeita. Seu corpo estava imóvel, mas sua mente ardia em caos. Os olhos, vermelhos de tanto chorar, ergueram-se lentamente até encontrar os de Dorian. Porém, por trás da tristeza, havia um brilho prateado gélido, como o reflexo da lua sobre uma lâmina afiada.
— Não há mais nada a ser cumprido — sua voz saiu baixa, mas carregada de veneno. — Você já tirou tudo de mim.
Dorian franziu o cenho diante daquela resposta. Avançou alguns passos, os olhos faiscando de fúria contida.
— Tu se esqueces do seu lugar, consorte. Eu poderia facilmente... — Ele se interrompeu, inspirando profundamente, como se reconsiderasse suas palavras. Então, retomou com frieza: — Você continuará vivendo neste castelo e cumprirá seu papel. Seu choro patético não mudará nada.
Foi nesse instante que algo dentro de Taehyung rompeu-se. Ele se levantou abruptamente, e o ar ao seu redor pareceu vibrar com uma energia avassaladora. As velas no quarto tremulavam, algumas se apagaram, lançando sombras ameaçadoras pelas paredes. Seus olhos, antes meramente úmidos, agora brilhavam em um prateado intenso e ameaçador.
— Você ousa falar de lugar e deveres, Dorian? — Sua voz não era mais baixa, nem contida. Era como um trovão prestes a rasgar o céu.
Dorian deu um passo para trás, instintivamente. Nunca temerá Taehyung, mas algo nele agora parecia diferente. Algo letal.
O consorte ergueu a mão, e, num movimento fluido, invocou Margareth. A espada prateada surgiu em um brilho intenso, sua lâmina reluzente refletindo a ira de seu dono.
— Você me fez assistir enquanto bania o homem que eu amo — sua voz tremeu, mas não de fragilidade, e sim de pura fúria contida. — Você me fez engolir cada lágrima, cada súplica, e agora vem até mim exigir que eu me porte como se nada tivesse acontecido?
Dorian permaneceu firme, mas seus olhos analisavam cada movimento de Taehyung com cautela.
— Você se esquece, Taehyung, que, apesar do seu sangue élfico, ainda é apenas um consorte. Não pode me ameaçar.
Taehyung sorriu, mas não havia alegria naquele gesto. Era um sorriso frio, predatório.
— Acha que não posso? — Em um movimento ágil, ele ergueu Margareth, e a lâmina prateada deslizou pelo ar, cortando um fio do manto de Dorian antes que o rei sequer piscasse. — Se eu quisesse, sua cabeça já teria rolado.
Dorian ficou imóvel por um momento, analisando a situação. Então, sorriu de canto, como se aceitasse um desafio invisível.
— Você quer me enfrentar, elfo? Está pronto para arcar com as consequências?
Taehyung cerrou os dentes, seu peito subindo e descendo rapidamente, o coração acelerado pelo peso da raiva e da dor. Mas então, respirou fundo. A lâmina de Margareth brilhou por um instante antes de desaparecer, deixando apenas o silêncio carregado entre os dois.
— Não sou tolo, Dorian. Sei que sua força não está apenas em sua lâmina, mas em sua coroa e na podridão de suas alianças. Mas um dia... um dia, tudo isso desmoronará.
Dorian estreitou os olhos.
— Você não passa de um homem destruído, agarrado a esperanças vazias.
— E você não passa de um rei covarde, aterrorizado pela sombra do próprio sangue.
A tensão no quarto era sufocante, como se o próprio ar estivesse carregado de eletricidade. Dorian, no entanto, apenas deu um último olhar de desprezo antes de virar-se e sair do quarto, fechando a porta com força.
Taehyung permaneceu ali, imóvel, com os punhos cerrados ao lado do corpo. Seu peito ardia, não apenas de raiva, mas de uma dor insuportável. Seu coração clamava por Seokjin, perdido em algum lugar da floresta, enquanto ele permanecia preso naquele castelo, condenado a viver sob as ordens do homem que destruiu sua felicidade.
Mas uma promessa silenciosa queimava dentro dele.
Seokjin voltaria.
E quando isso acontecesse, Dorian pagaria por tudo.
Quando Dorian saiu, Jimin entrou pouco depois, encontrando Taehyung encolhido, os punhos cerrados até as juntas ficarem brancas. Ele se ajoelhou ao lado do amigo, colocando uma mão gentil sobre seu ombro.
— Nós daremos um jeito. Eu prometo. Você não está sozinho.
Taehyung não respondeu de imediato. O vazio que sentia era avassalador, mas Jimin estava certo. Ele ainda estava ali. Ainda podia lutar, mesmo que por enquanto isso significasse apenas existir.
[...]
A noite na Floresta de Zianol era densa, carregada de sombras que se moviam ao menor sinal de vento. Seokjin sentia o peso do banimento em seus ombros, não apenas pelo frio cortante que atravessava suas vestes, mas pela solidão avassaladora que se instalava em seu peito. Cada passo na terra úmida parecia ecoar dentro de si, um lembrete constante de que não havia mais lar para onde retornar.
Os primeiros dias foram os mais difíceis. A caravana dos reis de Yinsia o acompanhou até a orla da floresta, mas Seokjin recusou qualquer ajuda além do necessário. Ele não queria que Taehyung fosse ainda mais prejudicado por sua existência. Assim, entrou na floresta sozinho, sem olhar para trás.
O ar ali dentro era espesso, carregado com a umidade das árvores milenares e o aroma forte de vegetação selvagem. O silêncio não era absoluto; havia sussurros entre as folhas, estalos nos galhos e olhos ocultos na escuridão. Zianol era conhecida como um território onde poucos se aventuravam e menos ainda voltavam. Seokjin, porém, não tinha escolha.
Seu primeiro desafio foi a sobrevivência. Ele não era um caçador, mas aprendera algumas técnicas básicas no exército. Ainda assim, enfrentar a natureza sem qualquer estrutura era exaustivo. Encontrou um riacho de águas cristalinas e decidiu seguir seu curso, pois sabia que a água era a chave para a vida. A fome foi um inimigo constante nos primeiros dias, até que aprendeu a identificar frutos seguros para consumo e a improvisar armadilhas rudimentares para pequenos animais.
As noites eram o pior momento. O frio era impiedoso, e as lembranças de Taehyung o assombravam sem piedade. O cheiro de seus cabelos, o som de sua risada, a forma como suas mãos sempre encontravam as dele, como se fossem feitas para nunca se separar. Seokjin passava horas encarando o céu escuro, murmurando promessas que talvez nunca pudesse cumprir. A lua era um lembrete constante do seu pequeno elfo.
Mas Zianol não era apenas uma floresta hostil – era um lugar de segredos antigos. Conforme os dias passavam, ele começou a sentir que não estava sozinho. Às vezes, percebia sombras se movendo entre as árvores, olhos luminosos observando de longe. Durante uma madrugada, acordou com a sensação de que algo roçava sua pele. Num salto, puxou sua lâmina improvisada, apenas para ver um vulto esguio desaparecer entre os troncos.
A floresta o aceitava aos poucos, mas não sem testes. Em uma noite particularmente tempestuosa, Seokjin encontrou refúgio em uma caverna entre raízes gigantescas. O cansaço pesava sobre seus ossos, mas seu instinto o alertava para não baixar completamente a guarda. E com razão – quando fechava os olhos, um som baixo e gutural ecoou pela caverna. Um lobo, grande e de pelos escuros, o observava das sombras.
Seokjin manteve a respiração controlada. Ele sabia que correr não era uma opção. Lentamente, afastou a mão da faca e se manteve imóvel. O lobo não atacou. Em vez disso, soltou um rosnado baixo e recuou para as sombras, deixando apenas seus olhos brilhantes visíveis. Na manhã seguinte, Seokjin percebeu que havia pegadas ao redor da entrada da caverna, como se o animal tivesse vigiado seu sono.
Aos poucos, ele começou a entender que Zianol não era um lugar comum. Havia magia ali, antiga e silenciosa. Algumas vezes, teve a impressão de que as árvores sussurravam segredos quando o vento passava. Pequenos feixes de luz pareciam dançar ao redor dele em certos momentos, e sonhos estranhos o assaltavam, cheios de vozes que não reconhecia.
Mas, entre todos os desafios, nada era pior do que a saudade.
O amor por Taehyung era um fogo constante dentro dele. Cada vez que fechava os olhos, lembrava-se do calor de seu corpo, do jeito que Taehyung o olhava como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Lembrava-se de suas juras de amor, das promessas sussurradas entre lençois e risadas. A dor de estar longe era insuportável, uma ferida que não cicatrizava.
Mesmo na solidão da floresta, Seokjin não se permitia desistir. Ele sabia que, de alguma forma, ainda havia um caminho a seguir. Talvez a própria Zianol tivesse respostas para ele. Afinal, se a floresta o aceitara até agora, talvez houvesse um propósito maior em sua jornada.
E com essa esperança frágil, ele seguiu em frente.
[...]
O silêncio pairava pesado sobre os aposentos de Taehyung, uma sombra tão densa quanto a dor que ele carregava. A noite já avançava, mas Jimin permanecia diante da porta fechada, hesitante. Lyra lhe pedira que tentasse, mais uma vez, alcançar o amigo. O príncipe não sabia se conseguiria, mas precisava tentar.
Inspirando fundo, bateu levemente.
O som abafado de passos arrastados chegou a seus ouvidos. Não passos firmes e elegantes, como costumavam ser os de Taehyung, mas pesados, desgastados. A porta se abriu apenas uma fresta, e o feixe de luz de dentro refletiu-se nos olhos caramelados de Jimin. Por um momento, eles se encararam em silêncio.
Então, sem dizer nada, Taehyung cedeu espaço para que ele entrasse.
O quarto estava mergulhado em penumbra, com poucas velas acesas. O ar ali dentro carregava o cheiro sutil da floresta—o aroma natural que pertencia a Taehyung—mas estava misturado ao peso de noites insones e lágrimas silenciosas.
Jimin seguiu até a cama espaçosa e sentou-se, observando o amigo. Taehyung parecia exausto, os olhos avermelhados, os ombros curvados. Ele hesitou, mas depois se aproximou, deitando a cabeça no colo do príncipe.
Jimin suspirou baixinho e começou a deslizar os dedos pelos longos fios loiros, sentindo a textura macia escorrer entre seus dedos. Era um gesto automático, instintivo, como se quisesse transmitir conforto sem precisar de palavras.
Por um tempo, apenas o silêncio os envolveu. O elfo manteve os olhos fechados, e Jimin não forçou conversa. Sabia que Taehyung falaria quando estivesse pronto.
— Você o amava tanto assim? — a voz do príncipe foi baixa, cuidadosa.
Taehyung demorou um pouco para responder.
— Amo.
Jimin continuou o carinho, observando a expressão do amigo suavizar levemente sob seu toque.
— Você não está sozinho, Taehyung. Sei que parece... que o mundo todo virou as costas para você. Mas ainda estou aqui.
Os lábios do elfo se curvaram em um sorriso amargo.
Eu sei.
Um novo silêncio caiu entre eles.
Foi então que Jimin, com um pequeno sorriso brincando nos lábios, resolveu suavizar o peso da conversa.
— Você quer saber um segredo?
Taehyung abriu os olhos, apenas o suficiente para encará-lo de relance.
— Que segredo?
Jimin riu, sem pressa, deslizando os dedos entre os fios dourados.
— Eu também tenho sentimentos por alguém.
Isso pareceu despertar um pouco da atenção do elfo, pois ele ergueu uma sobrancelha, ainda sem mover-se.
— Ah, é? — murmurou.
— Sim.
— E por que só está me contando agora?
Jimin deu de ombros, sorrindo de leve.
— Porque só agora parece o momento certo.
Taehyung fechou os olhos novamente.
— Como vocês se conheceram?
O príncipe não respondeu de imediato. Ele deixou os dedos deslizarem suavemente pelo cabelo do amigo, organizando seus pensamentos. Então, com uma voz tranquila e quase nostálgica, começou a contar.
Foi numa noite de lua cheia...
Taehyung permaneceu quieto, ouvindo atentamente, enquanto Jimin, com um tom gentil e cheio de mistério, narrava o momento que mudará sua vida para sempre.
— Foi numa noite de lua cheia... — Jimin repetiu, a voz adquirindo um tom distante, quase sonhador.
Taehyung não abriu os olhos, mas o silêncio expectante demonstrava que estava ouvindo.
— Eu não conseguia dormir naquela noite — o príncipe continuou. — Então saí para caminhar pelo jardim. O céu estava tão claro que a lua iluminava tudo, desenhando sombras prateadas sobre as folhas. Sem perceber, fui parar no labirinto.
Jimin fez uma pausa, fechando os olhos por um momento, revivendo a cena em sua mente.
— Sempre achei aquele lugar fascinante — continuou. — O silêncio, o cheiro das flores, a sensação de se perder por um instante e depois se encontrar... Mas naquela noite, algo estava diferente. Havia uma presença ali.
Ele sentiu Taehyung se mover levemente em seu colo, mas continuou.
— No inicio, achei que era só minha imaginação. Um arrepio na nuca, aquela sensação de que alguém te observa. Mas então, quando virei um corredor, ele estava lá.
— Como ele é? — Taehyung murmurou, a voz um pouco mais interessada.
Jimin sorriu.
— No começo eu não via muito do seu rosto, ouvia mais a sua voz. Conforme fomos nos encontrando ele foi revelando-se, ele é lindo Tae, tem um ar de mistério sabe, cabelos escuros, e seus olhos mais ainda, e o sorriso... Parece um felino, não sei dizer...
O príncipe fez uma pausa dramática antes de prosseguir.
Enfim, continuando, ele estava parado no centro de um pequeno espaço aberto entre as cercas vivas. A lua banhava sua figura, e por um momento, eu não soube dizer se era um homem ou uma sombra trazida pelo vento.
Taehyung abriu os olhos, estreitando-os ligeiramente.
— E o principe não pensou em fugiu?
Jimin soltou uma risada suave.
— Eu deveria ter fugido?
— Você nunca foi bom em evitar o perigo — o elfo murmurou, voltando a fechar os olhos.
O príncipe riu novamente antes de continuar.
— Ele me olhou como se já soubesse quem eu era. Como se já estivesse me esperando a muito tempo.
A lembrança ainda fazia seu coração bater mais rápido. O homem misterioso não parecia um inimigo, mas também não parecia um amigo. Ele era um enigma.
— "Está perdido, príncipe?" — ele me perguntou.
— Ele sabia quem você era? — Taehyung questionou, erguendo levemente a cabeça.
— Sim — Jimin assentiu. — Mas eu não sabia quem ele era. Ainda não sei ao certo, ele não me conta muitas coisas a seu respeito.
— O que você respondeu?
— Disse que não estava perdido... mas talvez estivesse.
O elfo soltou um ruído nasal, quase um riso contido.
— Típico.
Jimin sorriu e continuou:
— Ele me observou por um longo tempo antes de dizer algo que nunca esqueci: "Se não está perdido, por que o destino fez nossos caminhos se cruzarem?" O silêncio se instalou no quarto, carregado de significado.
— Poético — Taehyung murmurou.
Jimin suspirou.
— Ele parecia saber coisas sobre mim que ninguém mais sabia. Cada palavra sua era envolta em mistério, como se carregasse um peso maior do que eu podia compreender naquela época.
— E então? — O elfo ergueu uma sobrancelha, visivelmente mais interessado agora.
— Ele se virou para ir embora — Jimin disse. — Mas quando partiu, algo caiu ao chão. Uma pena negra.
Os olhos prateados de Taehyung brilharam levemente sob a luz fraca das velas.
— Desde então, toda vez que ele quer me ver, uma pena negra aparece na minha janela.
Taehyung ficou em silêncio, assimilando as palavras.
— Você confia nele?
Jimin hesitou por um momento antes de responder:
— Meu coração me diz que sim. Que confiar nele é o certo a se fazer.
O elfo suspirou, fechando os olhos mais uma vez.
— Espero que não quebre seu coração como o meu foi quebrado.
Jimin apertou os lábios e continuou acariciando os fios dourados do amigo.
— Eu também espero Tae.
O silêncio voltou a preencher o espaço, mas dessa vez, ele era menos pesado. Taehyung, pela primeira vez desde que Seokjin partira, pareceu encontrar um fiapo de distração, um resquício de conexão com algo além da dor.
E Jimin ficou ali, ao seu lado, sem pressa, disposto a ser esse fio de apoio pelo tempo que fosse necessário.
[...]
Morana era filha de um duque falido, que perderá toda fortuna da família em jogos, bebidas e mulheres, sua mãe acabou morrendo de desgosto, por tamanha humilhação, e assim a jovem se tornou uma das concubinas do rei Dorian, não era a sua favorita - não ainda. Uma mulher ambiciosa e venenosa, que passaria por cima de qualquer obstáculo, para conseguir concluir seus objetivos. Todavia precisava ser perspicaz, não poderia agir de forma imprudente, só existia uma chance, não havia espaço para erros. Na penumbra dos corredores do palácio, Morana costurava seu império de palavras venenosas.
Sentada em um salão reservado, com suas longas madeixas cor de fogo, trajada em um vestido carmim, que sustentava os fartos seios, cercada por damas da corte e alguns nobres menores, ela fingia pesar ao suspirar, sua mão deslizando pela taça de vinho. Sua voz era baixa, um sussurro que se espalhava como veneno diluído em mel.
— O pobre consorte real... tão debilitado — disse, seus olhos âmbar abaixados como se lamentasse. — Dizem que mal se levanta da cama. Que cena terrível para nosso amado rei, preso a um casamento assim… Um castigo.
Algumas mulheres trocaram olhares incertos, outras murmuraram palavras de falsa simpatia. Morana percebeu que tinha fisgado algumas delas e continuou, inclinandose levemente para frente, como quem compartilha um segredo. O sorriso peçonhento dançava nos lábios finos.
— Claro, não estou insinuando nada... mas há quem diga que a doença do consorte não é meramente física. Que há algo... obscuro pairando sobre ele.
Uma das damas arregalou os olhos. — O que quer dizer?
Morana deu um sorriso sutil, estudado.
— Todos sabemos que o coração pode adoecer tanto quanto o corpo. Às vezes, aqueles que guardam segredos muito pesados... acabam sendo consumidos por eles.
A insinuação caiu sobre a roda como uma pedra em um lago calmo. Não era uma acusação direta, mas o suficiente para fazer as mentes começarem a trabalhar, imaginando cenários, criando histórias.
E era exatamente isso que Morana queria.
Ela levantou-se, ajeitando os longos cabelos ruivos e pegando sua taça de vinho.
— Mas não devemos dar ouvidos a rumores, claro — disse suavemente, saindo do salão com um olhar satisfeito.
Lá fora, encontrou um dos conselheiros do rei, um homem idoso de expressão severa. Ela lhe ofereceu um sorriso respeitoso, sua postura impecável.
— Vossa Graça, espero que o rei esteja bem — disse com doçura. — Imagino que sua majestade precise de conforto nesses tempos difíceis.
O conselheiro a estudou por um momento, avaliando suas palavras.
— Sua Majestade tem muitas responsabilidades. Ele não pode se dar ao luxo de fraquejar.
Morana assentiu lentamente, como se compreendesse profundamente aquela verdade.
— Sim... e uma rainha forte ao seu lado poderia aliviar parte desse fardo, não acha?
O velho franziu a testa, mas ela apenas sorriu e se afastou, deixando a ideia no ar.
Ainda não era hora de pressionar.
Por enquanto, bastava que o veneno se espalhasse sozinho.
[...]

10. Os olhos do destino

“É durante nossas decisões que nosso destino é moldado.”
Aristóteles

O tempo passava, mas para Taehyung, cada dia era apenas uma repetição do anterior. O brilho que costumava iluminar seus olhos azuis havia se apagado, e seu corpo, antes forte e vibrante, agora parecia cada vez mais frágil. Ele não comia, mal bebia água, e recusava-se a sair do quarto. O mundo ao seu redor perdeu as cores, tornando-se um borrão de sombras e silêncios.
A cama tornou-se seu refúgio, um casulo onde ele se permitia afundar nos lençóis, incapaz de encontrar forças para enfrentar o dia. O travesseiro estava sempre úmido com suas lágrimas silenciosas, derramadas nas madrugadas solitárias. A pobre coruja albina permanecia em sua gaiola, sem compreender o que estava acontecendo com seu dono. Eles não saíram mais do quarto, ela não voava há semanas. O único movimento que Taehyung fazia era olhar pela janela, observando o céu mudar de tonalidade ao longo do dia, como se esperasse que, em algum momento, o destino lhe trouxesse uma resposta ou uma cura para a dor esmagadora que sentia no peito.
Sobre a mesa, cartas antigas estavam espalhadas. As mesmas cartas que ele já havia lido tantas vezes que sabia cada palavra de cor, mas ainda assim as pegava, passando os dedos sobre a caligrafia marcada no papel amarelado. Ele procurava nas entrelinhas algo que talvez tivesse deixado escapar, um sinal, um aviso, uma promessa que pudesse aquecer seu coração. Mas tudo o que encontrava era o peso da saudade e a crueza da realidade: Seokjin não estava ali. Não estaria mais.
As noites eram ainda piores. O sono se recusava a acolhê-lo, e quando finalmente cedia ao cansaço, era atormentado por sonhos e lembranças que o faziam acordar suando frio. O toque de Seokjin, seu sorriso, sua voz grave e suave ao mesmo tempo—tudo isso o assombrava. Ele estendia a mão no escuro, desejando que, por um milagre, pudesse sentir aquele calor familiar. Mas tudo o que encontrava era vazio.
O tempo passava, e seu corpo fraquejava. O criado que lhe trazia comida começou a deixar a bandeja na mesa, pois sabia que Taehyung não a tocaria. Tentaram convencê-lo, imploraram, mas ele não tinha forças para reagir. A cada dia, o cansaço se tornava maior, a tristeza mais pesada. Era como se estivesse desaparecendo aos poucos, consumido por algo que ninguém podia ver, mas que ele sentia em cada célula de seu ser.
Havia momentos em que ele fechava os olhos e desejava simplesmente não acordar. A dor era insuportável, uma ferida aberta que nunca cicatrizava. O que restava dele, além da ausência? Quem ele era sem Seokjin? Essas perguntas ecoavam em sua mente, sem respostas, sem consolo.
As cortinas de seu quarto permaneceram fechadas por dias. O cheiro de velas apagadas e da madeira úmida impregnava o ambiente, misturando-se ao ar pesado da solidão. O único som que rompia o silêncio era o tilintar ocasional da chuva contra a vidraça. Quando chovia, ele sentia um alívio momentâneo, como se o mundo estivesse chorando por ele, compartilhando sua dor. Como se a deusa Lua estivesse acalentando-o, depois de tanto pedir para que fosse levado embora, de encontro aos seus braços. A imortalidade nunca foi tão dolorosa como naquele momento.
Uma noite, ao ouvir passos se aproximando da porta, Taehyung encolheu-se ainda mais na cama. Não queria ver ninguém, não queria que tentassem consolá-lo, pois sabia que palavras não curariam a ausência. Ele fingiu estar dormindo, ouvindo murmúrios do outro lado da porta. "Ele não pode continuar assim...", sussurrou uma voz preocupada. Mas ele podia. E iria. Porque nada mais fazia sentido sem Seokjin.
Os dias se fundiam uns nos outros. Taehyung começou a perder a noção do tempo. Seu corpo doía por permanecer imóvel por tanto tempo, mas ele não se importava. O vento soprava pela fresta da janela, bagunçando seus cabelos, mas ele nem se movia para afastá-los do rosto. Seu olhar permanecia fixo na paisagem vazia lá fora, como se esperasse que o horizonte lhe trouxesse alguma resposta.
Naquela manhã, quando o sol finalmente rompeu as nuvens pesadas, um raio de luz invadiu o quarto, iluminando as cartas espalhadas. Seus olhos, opacos pela tristeza, fixaram-se no brilho dourado que refletia no papel. Ele hesitou por um momento, então, com dedos trêmulos, pegou uma das cartas mais antigas. A caligrafia de Seokjin parecia tão viva, como se tivesse acabado de escrever aquelas palavras. E ele leu novamente. E de novo. Até que o amanhecer se transformasse em crepúsculo, e mais uma noite solitária envolvesse sua existência.
Os dias seguintes foram um borrão de dor e exaustão. Jimin começou a visitá-lo com mais frequência, entrando no quarto sem pedir permissão. Ele sentava-se ao lado da cama, observando Taehyung com olhos aflitos. Tentava conversar, mas Taehyung raramente respondia. Apenas fitava o teto, ou se virava de lado, ignorando a presença do principe. Certa vez, Jimin segurou sua mão e sussurrou: "Você precisa lutar, Taehyung... Você não pode se deixar consumir assim."
Mas e se ele quisesse ser consumido? A dor era tudo o que lhe restava de Seokjin. Abandoná-la seria como traí-lo, como admitir que o amor deles havia se esvaído junto com o tempo. Ele não queria seguir em frente. Não sabia como.
A coruja albina piou fraco na gaiola, chamando a atenção de Jimin.
— Ela está sofrendo também. Está fraca, Taehyung.
Ele olhou para o animal com um aperto no peito. O pequeno ser, que sempre fora tão livre e majestoso, agora estava abatido, refletindo sua própria decadência. Mesmo assim, ele não se moveu.
Jimin suspirou e levantou-se.
— Eu volto amanhã.
E voltou, todos os dias, trazendo comida, tentando fazê-lo reagir. Ele falava sobre o reino, sobre o que acontecia no castelo, sobre os rumores na corte. Até mencionou Morana e suas manipulações, esperando provocar alguma reação. Mas Taehyung permaneceu inerte.
Os dias passaram, e seu corpo fraquejou ainda mais. Um dia, ao tentar levantar-se da cama, suas pernas falharam, e ele caiu ao chão. Jimin correu para ajudá-lo, segurando-o com força. — — Você não pode continuar assim! — A raiva e a tristeza em sua voz eram palpáveis. — Meu irmão não gostaria de te ver assim!
Mas Taehyung apenas fechou os olhos, deixando-se ser erguido de volta à cama.
Naquela noite, enquanto segurava uma das cartas, seus dedos fracos tremiam. Seu coração doía tanto que parecia prestes a se partir. Ele levou o papel aos lábios, como se quisesse absorver a essência de Seokjin, sentir-se mais perto dele, nem que fosse por um instante.
A lua brilhava lá fora, e ele fechou os olhos, sussurrando uma última súplica.
— Seokjin... me leve com você.
Mas tudo o que veio foi o silêncio da noite e o eco solitário de sua própria respiração falha.
[...]
O castelo estava mergulhado em uma atmosfera pesada, sufocante. Os corredores outrora imponentes agora pareciam frios, preenchidos apenas pelo eco distante das risadas abafadas das concubinas do rei Dorian. Ele não se importava. Não se importava com a condição do próprio consorte, assim como nunca se importara com sua falecida esposa. Para ele, Taehyung não passava de um fardo, uma sombra insignificante de algo que um dia teve utilidade.
As noites de Dorian eram preenchidas pelo calor de novos corpos, seus aposentos sempre ocupados por mulheres e jovens escolhidos para entreter o monarca. Enquanto isso, do outro lado do castelo, Taehyung definhava. Seu corpo, outrora ágil e elegante, estava fraco, seus olhos fundos, sua pele pálida como se a vida estivesse lentamente sendo drenada dele. O leito era sua prisão, e a dor sua única companhia.
Jimin via tudo. Observava a degradação do amigo, sentia sua raiva crescer a cada dia, queimando dentro de si como um fogo incontrolável. Ele odiava seu pai. Odiava sua frieza, sua indiferença. Como podia ignorar o sofrimento de Taehyung? Como podia descartá-lo como se não fosse nada? Jimin não permitiria isso.
Ele passou a visitar o amigo todos os dias, intercalando com Lyra os cuidados do Consorte, trazendo consigo bandejas de comida que muitas vezes eram deixadas intocadas. No começo, Taehyung sequer respondia às suas palavras. Ele apenas olhava para o nada, os olhos perdidos em um vazio profundo. Mas Jimin era persistente. Se Taehyung não queria falar, então ele falaria por ele. Se ele não queria comer, Jimin o alimentaria à força, se preciso. Se não queria levantar, Jimin ficaria ali até que ele o fizesse.
Os primeiros dias foram difíceis. Taehyung rejeitava qualquer tentativa de ajuda, sua mente presa em um luto que parecia interminável. Mas Jimin não desistiu. Ele abriu as cortinas do quarto, permitindo que a luz do sol entrasse. Soltou Brownie, deixando que a ave voasse livre pelo céu. Sentou-se ao lado do amigo, segurou suas mãos frias e as aqueceu com as suas. Trouxe-lhe roupas limpas, penteou seus cabelos embaraçados, leu para ele quando o silêncio se tornava insuportável.
Pouco a pouco, Taehyung começou a responder. Primeiro com olhares, depois com pequenos acenos de cabeça. Um dia, quando Jimin estendeu uma xícara de chá, Taehyung aceitou. Foi um momento pequeno, insignificante para qualquer outra pessoa, mas para Jimin, foi uma vitória.
A cada dia, o príncipe se tornava mais protetor, mais cuidadoso. Ele não podia mudar o passado, não podia trazer o irmão de volta, mas podia garantir que Taehyung não estivesse sozinho. Ele podia ser a âncora que impediria seu amigo de se perder por completo.
Dorian podia ignorar, o castelo podia murmurar, mas Jimin se recusava a deixar Taehyung desaparecer. Ele cuidaria dele, protegeria sua vida, nem que para isso tivesse que desafiar o próprio rei.
E assim, a batalha silenciosa de Jimin começou. Uma luta contra a dor, contra a negligência, contra a crueldade do próprio sangue. Porque se havia algo que Jimin não permitiria, era que Taehyung se tornasse apenas mais uma vítima do egoísmo de Dorian. Ele traria seu amigo de volta, nem que precisasse carregá-lo nos braços para isso.
O tempo passou e os murmúrios na corte se intensificaram. Os criados falavam em sussurros sobre o estado de Taehyung, sobre como ele estava sendo cuidado apenas pelo jovem príncipe. Morana, sempre atenta às oportunidades, começou a semear boatos, insinuando que Taehyung estava amaldiçoado, que sua fraqueza era um sinal dos deuses. Suas palavras, venenosas como sempre, encontraram ouvidos receptivos entre aqueles que já desprezavam o consorte.
Mas Jimin não se importava. Ele via Taehyung lutar, mesmo que fosse uma batalha silenciosa. A cada colherada de sopa tomada, a cada passo dado fora do leito, Jimin sentia que estava ganhando um pouco mais dessa guerra. Quando, em uma noite, Taehyung finalmente sussurrou um agradecimento, sua voz rouca e fraca, Jimin quase chorou. Aquilo era a prova de que ainda havia algo ali, ainda havia esperança.
Os dias continuaram se arrastando, mas aos poucos, Taehyung começou a reagir. Pequenos gestos, pequenas palavras. Ele começou a olhar para Jimin, a notar sua presença, a perceber o esforço que o amigo fazia para mantê-lo vivo. E, com o tempo, começou a sentir que talvez ainda houvesse algo pelo que viver.
Entretanto, Jimin sabia que seu pai não ficaria calado para sempre. Dorian poderia ignorar Taehyung até certo ponto, mas se os boatos chegassem a incomodá-lo, se Morana ou outra concubina decidisse instigar sua raiva, as coisas poderiam tomar um rumo perigoso. O príncipe precisava ser cuidadoso, precisava agir antes que seu pai decidisse que Taehyung não valia mais o incômodo.
Jimin começou a arquitetar planos. Ele sabia que não podia tirar Taehyung do castelo sem levantar suspeitas, mas poderia encontrar aliados, pessoas dispostas a ajudálo. Começou a observar, a ouvir os criados, a entender quem ainda tinha lealdade a Taehyung, quem poderia ser confiável. Não seria fácil, mas Jimin estava determinado. Não deixaria que seu amigo fosse destruído pela crueldade de Dorian.
Enquanto isso, Taehyung continuava sua lenta recuperação. Ele ainda chorava à noite, ainda tinha pesadelos, ainda sentia o vazio esmagador dentro de si. Mas havia algo diferente agora. Havia um fio de esperança, uma pequena centelha que Jimin se recusava a deixar apagar. E talvez, só talvez, isso fosse o suficiente para começar a reconstruir o que havia sido quebrado.
[...]
Carregar essa responsabilidade sozinho estava começando a esmagá-lo. Jimin sentia o peso da pressão como correntes invisíveis, prendendo-o, sufocando sua própria essência. O castelo, sempre tão grandioso, parecia cada vez menor, suas paredes apertando-se ao seu redor, lembrando-o de que estava sozinho nessa luta. Ele não podia vacilar, não podia ceder ao desespero, mas, no fundo, seu coração clamava por um refúgio. Ele precisava de um alívio, de um instante em que pudesse respirar sem sentir o peso do mundo sobre os ombros.
Foi então que o homem nem tão misterioso apareceu mais uma vez, como sempre fazia nos momentos em que Jimin mais precisava.
Akari, o corvo de seu amante secreto, trouxe um novo recado naquela noite. Uma pena negra repousava silenciosa no parapeito da janela, como um sussurro de que ele não estava tão sozinho quanto pensava. Jimin a segurou entre os dedos, fechando os olhos por um instante, permitindo-se sentir um alívio fugaz. Ele sabia o que significava. Sabia onde deveria ir.
O encontrou na penumbra dos corredores ocultos do castelo, onde a luz tremulante das tochas criava sombras dançantes ao redor deles. O homem estava ali, esperando, como se soubesse que Jimin viria. E, de fato, Jimin veio. Porque, apesar de tudo, ele sempre vinha.
O olhar intenso e familiar que tanto o confortava encontrou o seu, e, por um momento, o mundo lá fora desapareceu.
— Tenho notícias do ex-coronel. — A voz do homem era serena, mas carregada de um peso que Jimin não podia ignorar. — Meu corvo trouxe informações. Seu meioirmão está bem, na medida do possível. Ele não está sozinho. Alguém está zelando por ele, mas não posso contar mais do que isso.
Jimin sentiu sua respiração prender por um instante antes de soltar o ar lentamente.
Aquelas palavras deveriam frustrá-lo — ele queria detalhes, queria saber onde Seokjin estava, quem estava ao seu lado, se estava seguro. Mas, em vez disso, ele sentiu um alívio genuíno, um calor suave se espalhando por seu peito. Saber que Seokjin não estava completamente desamparado foi suficiente para que parte da tensão que o sufocava se dissipasse.
O homem percebeu a mudança sutil na expressão de Jimin e deu um passo à frente. Seus olhos estudaram o rosto do princípe, como se estivessem procurando algo — talvez uma confirmação, talvez uma permissão.
Ele hesitou por um instante, como se travasse uma batalha interna, mas então tomou uma decisão que vinha adiando há muito tempo.
— Jimin… — Sua voz era baixa, grave, carregada de algo mais profundo do que simples palavras. — Está na hora de você saber. Meu nome é...
Jimin prendeu a respiração. O momento que ele esperou por tanto tempo finalmente estava ali, diante dele. O homem que sempre esteve nas sombras, o amante que sussurrava segredos ao vento, estava finalmente se revelando.
Quando o nome foi dito, ecoou no silêncio como uma promessa.
O coração de Jimin disparou. Seu olhar encontrou o do outro homem, e ele viu ali uma verdade crua, algo que ia além de mistérios e jogos de esconde-esconde. O véu que os separava finalmente havia sido retirado. E agora, não havia mais por que manter distância.
Sem pensar, ele avançou.
O primeiro toque foi hesitante, como se ambos precisassem de um instante para absorver a realidade do que estavam prestes a fazer. Mas, então, a hesitação se desfez, dando lugar a uma urgência crescente. Seus lábios se encontraram, quentes, intensos, e tudo que foi reprimido por tanto tempo veio à tona em um turbilhão avassalador.
O beijo não era apenas desejo — era necessidade. Era refúgio. Era a âncora que Jimin nem sabia que precisava até aquele momento.
Eles se afastaram apenas o suficiente para se olharem nos olhos, ofegantes, o ar carregado de algo palpável entre eles. O assassino ergueu a mão e deslizou os dedos pelo rosto de Jimin, seu toque firme, mas delicado.
— Você não precisa carregar tudo sozinho, — ele murmurou. — Eu estou aqui.
E Jimin acreditou. Pela primeira vez em muito tempo, ele permitiu que alguém compartilhasse seu fardo. Permitiu-se ser cuidado, ser acolhido.
Naquela noite, no quarto do princípe, eles se entregaram um ao outro. Não apenas em paixão, mas em tudo que carregavam dentro de si. No toque, encontraram conforto. No beijo, encontraram respostas. E na união de seus corpos, encontraram o que precisavam para continuar lutando.
[...]
Jimin caminhava pelos corredores do palácio, os passos firmes, mas o coração pesado. O ar ao seu redor parecia carregado de uma eletricidade silenciosa, como se as paredes sussurrassem segredos que ele já conhecia bem demais. Desde que começara a cuidar de Taehyung, sabia que a corte comentaria. Sempre comentavam. Mas o que antes eram apenas murmúrios velados agora se transformara em algo mais corrosivo, algo que se espalhava como um veneno invisível, diluído na atmosfera do castelo.
Ele não precisava se esforçar para ouvir. As criadas falavam entre si quando pensavam que ele não estava por perto. Os nobres menores trocavam olhares carregados de significado durante os banquetes. Até mesmo os generais do conselho, que até então mantinham-se neutros, passaram a sussurrar quando ele entrava na sala.

— O consorte real está definhando… será mesmo apenas tristeza?

— Dizem que há algo mais… talvez uma culpa oculta?

— Se ele não se recuperar, o rei terá que olhar para outras opções, não?
Jimin cerrou os punhos, sentindo a raiva borbulhar dentro dele como lava prestes a explodir. Ele sabia exatamente de onde vinham aquelas palavras. Morana. A mulher vinha tecendo sua teia de forma sutil, como uma aranha paciente que esperava o momento exato para atacar. Ela não precisava declarar abertamente sua intenção. Bastava lançar pequenas faíscas e deixar que os tolos da corte atiçassem o fogo. Jimin não podia permitir que isso continuasse.

Ele a encontrou pouco depois, em um dos jardins internos do palácio. O sol se punha no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados, mas a cena diante dele parecia intocada por qualquer calor. Morana estava ali, como se estivesse à sua espera. Vestia um tecido fino e fluido que se moldava ao corpo esguio com um requinte calculado. Os cabelos escuros caíam em ondas suaves sobre os ombros, e sua postura era impecável, a de alguém que nunca demonstrava fraqueza. Ao seu lado, duas damas da corte a escutavam com atenção, seus rostos iluminados pela admiração velada que sentiam por ela. Morana falava em um tom baixo e envolvente, como uma sacerdotisa conduzindo um ritual sombrio.

Jimin se aproximou sem hesitação, e sua presença fez com que as duas damas se calassem imediatamente. Elas trocaram olhares e, num reflexo instintivo, fizeram uma pequena reverência antes de se afastarem. Morana, no entanto, permaneceu imóvel, com um pequeno sorriso brincando nos lábios.

— Preciso falar com você — disse Jimin, sem rodeios. Sua voz não tremia, mas havia um peso nela que não podia ser ignorado.

Morana ergueu os olhos para ele e sorriu, inclinando levemente a cabeça em um gesto quase afetuoso.

— Príncipe Jimin — saudou, sua voz melíflua escorrendo como mel envenenado. — Sempre um prazer.

Jimin cruzou os braços.

— Pare de espalhar rumores sobre Taehyung.

A mulher piscou lentamente, como se a acusação a surpreendesse, mas os olhos brilhavam com diversão.

— Rumores? — repetiu, deixando escapar uma risada suave. — Que acusação grave, querido príncipe. Eu apenas comento o que já é falado por toda a corte. Você não pode me culpar por conversas que surgem por conta própria.

Jimin apertou os lábios.

— Você os alimenta. Você os conduz. Sei exatamente o que está fazendo. Morana suspirou, como se estivesse lidando com uma criança teimosa.

— Jimin, querido… Sei que você tem afeição por ele, mas precisa admitir que a situação é delicada. O rei não pode ficar eternamente preso a alguém que não cumpre seu papel.
Os olhos de Jimin arderam de raiva, seu corpo inteiro tenso como uma lâmina prestes a ser desembainhada.

— Você quer ser rainha.

Morana sustentou seu olhar, e o silêncio entre eles se alongou. O pequeno sorriso ainda pairava nos lábios dela, mas havia algo mais em seu olhar agora. Um brilho calculista, uma sombra de ambição que não se preocupava mais em esconder.

— Eu quero apenas o melhor para Nirya — respondeu ela, suavemente. — Assim como você.
Jimin deu um passo à frente, inclinando-se ligeiramente para perto dela. Sua voz saiu baixa, mas afiada como um punhal.

— Se continuar com isso, vou acabar com você antes mesmo que tenha a chance de tocar na coroa.

O ar ao redor deles pareceu se solidificar. Por um breve momento, o sorriso de Morana vacilou. Apenas por um instante. Mas Jimin viu. Ele viu a fissura minúscula na máscara dela, um vislumbre da incerteza que passava por sua mente. E então, como se tudo fosse apenas um jogo, ela recuou um passo, relaxando os ombros e voltando a sorrir, agora com um brilho de provocação nos olhos.

— Que conversa intensa… — murmurou, fingindo um pequeno arrepio. — Acho que precisamos de um chá algum dia desses para discutirmos nossas diferenças com calma.

Jimin não respondeu. Apenas a observou, analisando-a como se estivesse memorizando cada detalhe de sua expressão. Ele sabia que Morana não desistiria. Ela era paciente. Astuta. Mas ele também era.

Virou-se sem dizer mais nada, sentindo o olhar dela queimando em suas costas enquanto se afastava.

A batalha entre eles havia começado.

E Jimin não perderia.

[...]
A floresta era um mundo à parte, selvagem e implacável. O vento assobiava entre as copas das árvores, carregando consigo o cheiro terroso da vegetação úmida e o frescor das folhas recém-caídas. O aroma adocicado das flores silvestres misturavase ao musgo que cobria as pedras do riacho, e o ar estava sempre impregnado com o sutil perfume de resina das árvores ancestrais. O solo era macio sob seus pés, coberto por um tapete de folhas secas e raízes retorcidas que tornavam cada passo um desafio.
Seokjin se movia com cautela, os músculos doloridos pelo esforço de se manter em pé. Seu corpo ainda não havia se recuperado totalmente, mas ele não podia se dar ao luxo de parar. Encontrar comida era uma luta diária, e a caça nem sempre era bem-sucedida. Ele aprenderá a identificar frutas silvestres seguras para o consumo e a pescar nos riachos de águas gélidas, observando os movimentos dos peixes antes de lançar a armadilha improvisada. À noite, o frio se tornava um inimigo invisível, infiltrando-se pelos trapos que usava como vestimenta, fazendo-o tremer até que o sono o levasse.
Mas não estava sozinho.
O lobo continuava ali.
Sempre à espreita, escondido entre as sombras das árvores ou no topo das rochas cobertas de musgo. Seokjin sentia sua presença antes mesmo de vê-lo, um peso invisível pairando sobre ele, como se fosse uma parte da floresta em si. Seus olhos amarelados brilhavam entre os arbustos, observando cada movimento seu. Nunca se aproximava demais, nunca mostrava as presas, mas também nunca o deixava.
Era um guardião ou um caçador à espera do momento certo para atacar?
Seokjin se perguntava isso todas as noites, quando se recolhia ao abrigo improvisado que fizera em uma caverna de pedras cobertas de líquen. Ouvia os uivos distantes misturando-se ao farfalhar das folhas, e mesmo sem entender por quê, sabia que aquele lobo estava próximo.
Certa tarde, enquanto recolhia lenha para o fogo, sentiu-se observado de uma forma diferente. O ar ao seu redor pareceu mudar, carregado de uma eletricidade silenciosa. Quando se virou, o encontrou ali, a poucos passos de distância.
O lobo estava parado entre as árvores, meio oculto pela névoa que subia do solo.
Seu pelo negro brilhava sob os raios dourados do sol poente, e seus olhos… não eram mais os mesmos. O amarelo selvagem dera lugar a um azul profundo, cintilante, impossível de ignorar. Um arrepio percorreu a espinha de Seokjin, e por um instante, ele não conseguiu respirar. Aquilo não era natural. Havia algo — alguém — por trás daqueles olhos. Antes que pudesse reagir, uma voz ecoou dentro de sua cabeça.
Forte. Profunda. Inconfundível.
"Finalmente nos encontramos, Seokjin."
Seu coração disparou, sua mente lutando para compreender o que estava acontecendo. Não era a voz de um animal. Não era um sussurro do vento. Era real.
A floresta pareceu prender a respiração. O farfalhar das folhas cessou, o vento silenciou entre os galhos retorcidos, e até o riacho próximo, sempre murmurante, soou distante demais. Seokjin sentiu o peso do momento se abater sobre ele como uma maré invisível, puxando-o para um abismo desconhecido. A voz dentro de sua cabeça reverberou de novo, como um trovão contido na escuridão da floresta.

“Eu esperei por você.”

O lobo avançou um passo, e Seokjin se forçou a permanecer imóvel. Seu instinto gritava para correr, para se afastar daquela presença que desafiava a lógica do mundo que conhecia. Mas ele ficou. Porque algo naquela criatura, naquela voz, o prendia de um jeito inexplicável. Os olhos azuis do lobo eram antigos, carregados de um conhecimento que Seokjin não compreendia. Não eram apenas os olhos de um animal selvagem — havia algo mais ali. Algo humano.

— Quem... o que é você? — Seokjin perguntou, sem saber se havia dito as palavras em voz alta ou apenas pensado nelas.

O lobo inclinou a cabeça levemente, como se estudasse sua presa, e então deu mais um passo. Quando ele se moveu, foi como se a própria floresta se curvasse ao seu redor. O ar ficou pesado, denso como o nevoeiro rastejante que envolvia o chão.

"Alguém que entende o fardo que você carrega."

As palavras eram ditas com uma certeza inabalável, como se aquele ser soubesse tudo sobre ele. Como se visse dentro de Seokjin — todas as feridas, todas as perguntas sem resposta, todos os medos enterrados em sua alma.

Seokjin deu um passo para trás, sentindo o coração martelar contra as costelas.

—Isso não faz sentido, — murmurou, sentindo a garganta seca.

O lobo então se moveu de novo, mas desta vez, algo aconteceu.

Seu corpo tremeu, como se fosse moldado por forças invisíveis. A pele negra e espessa do animal brilhou sob a luz filtrada das árvores. Seus ossos se alongaram, os músculos se retorceram em um movimento impossível de ser natural. Era como observar um sonho se desdobrar diante de seus olhos — uma metamorfose que não pertencia a este mundo. Seokjin queria correr, queria gritar, mas não conseguia. Tudo que pôde fazer foi assistir, paralisado, enquanto o lobo deixava de ser lobo.

E um homem surgia em seu lugar.

Os olhos azuis permaneceram, agora incrustados em um rosto humano — selvagem e belo ao mesmo tempo. Os cabelos eram escuros como o pelo que antes cobria sua forma animal, caindo em ondas desalinhadas sobre a testa. A pele era marcada por símbolos antigos e cicatrizes discretas, como se tivesse passado por batalhas incontáveis. Ele usava roupas simples de couro e linho, mas sua presença era tudo menos comum. Era algo ancestral, como a própria floresta ao seu redor. O homem ergueu o rosto para Seokjin, e por um instante, um silêncio carregado de significado pairou entre eles. Então ele sorriu — um sorriso pequeno, mas carregado de segredos.

— Agora pode me ver de verdade.

Seokjin sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Seu mundo, já fragmentado, desmoronava ainda mais.

— Quem é você? — Sua voz soou baixa, hesitante.

O homem deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles.

— Kim Namjoon, ao seu dispor Alteza. — Uma majestosa reverência foi feita — Sou alguém que pode lhe dar as respostas que procura.

Os olhos de Seokjin buscaram os dele, tentando decifrar a verdade escondida naquele olhar azul e profundo como o oceano. E, pela primeira vez desde que fugira, sentiu que talvez não estivesse tão sozinho quanto imaginava.

[...]

11. Além do tempo

"Eu atravessaria séculos para encontrar você novamente."
Susana Tamaro


A floresta de Zianol parecia ainda mais densa à medida que Seokjin seguia Namjoon. As árvores ancestrais se erguiam ao redor deles como gigantes adormecidos, suas copas entrelaçadas ocultando grande parte do céu. O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas pelo farfalhar das folhas sob seus passos e pelo canto distante de uma coruja. Mesmo sem confiar inteiramente no estranho, Seokjin sabia que precisava de respostas. E, de alguma forma, sentia que Namjoon poderia lhe dar algumas.
A cabana apareceu entre as árvores como uma extensão da própria floresta. Feita de madeira escura e coberta por trepadeiras e musgo, parecia ter sido construída há séculos, fundindo-se com a natureza ao redor. Uma fina trilha de fumaça subia pela chaminé de pedra, indicando que alguém realmente morava ali. Namjoon abriu a porta sem cerimônia e fez um gesto para que Seokjin entrasse.
— Entre. Vai se sentir mais confortável aqui dentro — disse ele, sem olhar para trás.
Seokjin hesitou por um instante, mas acabou entrando. O interior era aquecido por uma lareira de pedra, onde troncos ardiam em chamas lentas, lançando sombras dançantes pelas paredes. Havia prateleiras repletas de frascos de vidro contendo ervas, raízes e líquidos de cores estranhas. Um caldeirão fumegava sobre um pequeno fogão a lenha, e o cheiro de especiarias misturava-se ao aroma terroso da floresta. O lugar era simples, mas havia um certo conforto ali, algo que Seokjin não sentia há tempos.
Namjoon puxou uma cadeira para si e indicou que Seokjin fizesse o mesmo. O excoronel permaneceu de pé por alguns instantes, ainda em alerta, antes de finalmente ceder e se sentar. O mago serviu um líquido quente em duas canecas de barro e empurrou uma para Seokjin.
— Chá de raízes selvagens. Vai ajudar com a sua exaustão.
Seokjin pegou a caneca, mas não bebeu. Seus olhos estavam fixos no homem à sua frente.
— Você disse que tinha algo para me contar — sua voz era firme, mas carregava uma nota de cansaço.
Namjoon assentiu lentamente, os olhos escuros brilhando à luz do fogo. Ele girou a própria caneca entre os dedos antes de finalmente falar:
— Há muito tempo, antes mesmo dos reinos que conhecemos serem erguidos, existia uma linhagem esquecida, banida das histórias que os nobres contam. Um sangue que deveria ter sido extinto... mas que encontrou uma maneira de sobreviver. — Ele fez uma pausa, avaliando a reação de Seokjin. — Você já ouviu falar dos Amantes de Averdan?
Seokjin franziu o cenho, o nome soando distante, quase como um eco de algo perdido no tempo.
— Não — respondeu, mas uma inquietação crescia dentro dele.
Namjoon soltou um leve suspiro, como se já esperasse aquela resposta.
— Isso não me surpreende. Eles foram apagados da história oficial. Mas a verdade, Seokjin, é que você tem mais conexão com essa história do que imagina. E quando eu terminar de contá-la, todas as suas dúvidas terão uma resposta.
Seokjin sentiu um arrepio subir por sua espinha. Algo dentro dele dizia que aquela noite mudaria tudo o que ele sabia sobre si mesmo.
O mago recostou-se em sua cadeira, os olhos fixos no fogo tremeluzente.
— Nos tempos antigos, em um reino condenado à ruína, dois homens selaram um amor que transcendia a vida e a morte. Elian, o príncipe herdeiro, e Kael, um guerreiro de origens humildes, descobriram que seu amor não era apenas um capricho do destino, mas a chave para salvar toda a nação do colapso iminente. Mas o destino, cruel e implacável, os testaria até o último suspiro.
Elian era a esperança do reino, criado para governar com sabedoria e força, treinado desde a infância nas artes da liderança e da guerra. Carregava nos ombros o peso da coroa, mas em seu coração havia um vazio que nem todas as glórias do trono poderiam preencher. Kael, por outro lado, nascerá entre os camponeses e crescerá conhecendo a fome, a guerra e a dor. Tornara-se um guerreiro feroz, não por escolha, mas por necessidade. Seu espírito era indomável, e sua lealdade, inquestionável. O que começou como olhares furtivos e silêncios carregados logo se tornou um amor avassalador, proibido não apenas pelas leis do reino, mas pelo próprio destino de Elian.
Contudo, havia algo maior do que ambos em jogo. Uma profecia antiga, enterrada nas páginas esquecidas dos anciãos e temida pelos poderosos, falava de dois corações entrelaçados cujo amor traria equilíbrio à terra. O trono estava ameaçado por forças obscuras e, segundo as escrituras, apenas um sacrifício de amor verdadeiro poderia selar a magia ancestral que mantinha o reino vivo.
Eles tentaram lutar contra o destino. Tentaram enganar os deuses. Planejaram fugir, desafiaram a ordem imposta pelos homens, imploraram por uma alternativa. Mas o mundo não estava pronto para aceitar um amor tão puro. E seus inimigos estavam à espreita. Nobres traiçoeiros, sacerdotes corrompidos e até o próprio sangue de Elian conspiraram contra eles. A traição chegou sem aviso. Na calada da noite, quando tentavam realizar o ritual que uniria suas almas para sempre e salvaria o reino, foram descobertos. Kael foi arrancado dos braços de Elian e arrastado diante da multidão, acusado de bruxaria e traição.
Na praça central, sob o olhar impiedoso dos cidadãos, Kael foi condenado à morte. Elian, acorrentado, gritou até que sua voz se tornasse um sussurro rouco. Implorou, prometeu tudo o que possuía, ofereceu sua coroa, seu sangue, sua vida. Mas a sentença era irrevogável.
Quando a lâmina desceu sobre Kael, o tempo pareceu se partir. O sangue tingiu a terra como uma maldição, libertando uma força ancestral há muito adormecida. O céu se rasgou em tempestades furiosas, os rios secaram, a terra tremeu. O reino inteiro sentiu a perda, pois o amor verdadeiro, quando despedaçado, grita tão alto que até os deuses se encolhem em desespero.
O caos se instaurou. Aqueles que tramaram a separação dos dois perceberam tarde demais o erro que haviam cometido. O reino começou a ruir, e a linhagem de Elian caiu em desgraça. O príncipe, consumido pela dor e pelo ódio, foi levado à sua própria execução. Mas antes que sua vida fosse tirada, lançou sua última promessa ao vento:
"Eu voltarei para você, Kael. Nem que tenha que renascer mil vezes. Nem que tenha que desafiar o tempo e os deuses. Eu voltarei."
A Deusa Lua, testemunha silenciosa da tragédia, observou a promessa do príncipe e a dor que dilacerava sua alma. Não achando justo o que lhes acontecera, decidiu intervir. Com toda a sabedoria e compaixão que possuía, jurou ajudar aqueles cujos corações clamassem por um amor impossível. E para Elian e Kael, ela teceu um destino de esperança. Poderia levar eras, poderia ser um ciclo de busca e espera, mas a Deusa lhes daria uma segunda chance. Um dia, em outra vida, sob um novo céu, os dois renasceriam. E dessa vez, ninguém os separaria.
E assim, os séculos passaram. As lendas do príncipe e do guerreiro foram sussurradas em canções e escritas nas estrelas. Dizem que, em cada geração, duas almas são atraídas uma para a outra, sempre buscando o final que lhes foi negado. Pois o amor verdadeiro nunca morre. Ele apenas aguarda. Aguarda o momento certo para renascer e, enfim, se completar.
Seokjin sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A história ecoava dentro dele de uma maneira que ele não conseguia explicar.
Seokjin engoliu em seco, seu coração batendo forte contra as costelas.
— O que isso tem a ver comigo? — sua voz saiu quase como um sussurro.
Namjoon sorriu, mas não era um sorriso de felicidade. Era o sorriso de alguém que carregava um fardo de conhecimento por tempo demais.
— Porque, Seokjin, a linhagem de Elian nunca foi extinta. Ela apenas se escondeu. Passou despercebida pelos séculos, disfarçada entre nobres e guerreiros, até chegar a você. Você carrega o sangue dos Filhos da Noite.
O silêncio que se seguiu foi denso como a floresta lá fora. Seokjin sentiu um frio percorrer seu corpo, não pelo vento gelado, mas pela avalanche de perguntas que se formavam em sua mente. Ele queria negar, queria dizer que tudo aquilo era loucura. Mas algo dentro dele sussurrava que era verdade. Sempre sentira que havia algo errado, algo incompleto dentro de si.
E agora, talvez, ele estivesse finalmente prestes a descobrir o que era.
O vento frio cortava a clareira onde Seokjin estava, mas ele mal sentia o ar gelado contra a pele. Sua mente estava presa às palavras de Namjoon, girando em espirais caóticas enquanto ele tentava compreender a verdade que acabara de ouvir.
Filhos da Noite. Uma linhagem perdida. Um destino que ele nunca soubera carregar.
Seokjin olhou para suas próprias mãos, esperando encontrar nelas algo diferente. Marcas, símbolos, qualquer prova visível de que não era apenas um soldado, um bastardo esquecido pelo próprio sangue real. Mas tudo o que via era a mesma pele dourada, os mesmos dedos calejados pelo tempo no exército.
— Você sente, não sente? — A voz de Namjoon veio tranquila, mas havia nela um peso, como se cada palavra fosse escolhida com extremo cuidado. — Algo dentro de você sempre lhe disse que havia mais do que aquilo que lhe contaram. Sempre sentiu que havia algo errado, como se estivesse vivendo uma vida que não era sua.
Seokjin ergueu os olhos para o mago, e, pela primeira vez, não conseguiu negar. O vazio que sempre existira dentro dele, aquela sensação constante de deslocamento, de nunca pertencer completamente a lugar algum… Agora fazia sentido.
— O que isso significa para mim? — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro carregado de dúvidas. — O que muda agora?
Namjoon aproximou-se, seus olhos brilhando sob a luz da lua que começava a surgir entre as nuvens. Ele ergueu a mão, e um leve tremor percorreu o ar ao redor deles. Seokjin sentiu um calor estranho envolver seu corpo, como se algo invisível estivesse tocando sua alma.
— Significa que o passado não está morto — disse o mago. — Significa que as promessas feitas há séculos ainda ecoam no tempo, esperando serem cumpridas. E significa, Seokjin, que sua jornada está apenas começando.
O silêncio caiu sobre os dois. O som das árvores ao redor parecia mais alto, o farfalhar das folhas, mais intenso. Seokjin fechou os olhos por um instante, tentando absorver tudo aquilo. Quando os abriu novamente, Namjoon o observava com um olhar carregado de conhecimento.
— E Taehyung? — A pergunta escapou de seus lábios antes que ele pudesse se conter. — Onde ele se encaixa nisso tudo?
Namjoon sorriu de leve, como se já soubesse que essa pergunta viria.
— Se os Filhos da Noite renascem para cumprir seu destino — ele disse, enigmático — então você deve se perguntar: o que seu coração já sabe, mas sua mente ainda se recusa a aceitar?
[...]

Castelo Sollaria - Nyria 1 mês depois O tempo passava de maneira implacável no palácio de Nirya. As estações começaram a mudar, e com elas, os murmúrios nos corredores se intensificaram. A doença de Taehyung não cedia. O que antes era apenas fraqueza e falta de apetite começou a se manifestar de forma diferente. Agora, náuseas matinais o acometiam quase todos os dias, tonturas repentinas o obrigavam a se sentar, e o cheiro de certos alimentos fazia seu estômago revirar. No início, ele pensou que era apenas o prolongamento de sua fraqueza, o corpo sucumbindo à tristeza de perder Seokjin. Mas então, algo mudou.
Naquela manhã, quando tentou comer um pedaço de pão com mel, o sabor doce o enjoou de imediato. Ele se afastou da bandeja e cobriu a boca, sentindo a bile subir. Jimin, que estava ao seu lado, franziu o cenho e se levantou imediatamente, oferecendo-lhe um pano úmido.
— Taehyung, você está assim há dias — disse ele, com a preocupação evidente no olhar. — Isso não é apenas tristeza. Precisamos chamar um curandeiro.
Taehyung, ainda pálido, balançou a cabeça.
— Não. Isso vai passar… Eu só… preciso de mais tempo.
Jimin apertou os lábios, claramente insatisfeito com a resposta. Ele se sentou ao lado de Taehyung na cama e o observou atentamente. Algo o incomodava. Algo que ele não queria dizer em voz alta, mas que martelava sua mente. Depois de alguns instantes, ele suspirou.
— Taehyung… Há uma possibilidade que talvez você não tenha considerado. — A hesitação em sua voz fez Taehyung erguer os olhos. — Seus sintomas… eles me lembram os de uma gravidez.
O silêncio que se seguiu foi avassalador. O coração de Taehyung disparou, sua respiração ficou entrecortada. Ele sentiu o mundo girar por um instante, e sua mão foi instintivamente até o ventre. Não podia ser. Não era possível.
Mas a incerteza cravou raízes em sua mente.
Ele conhecia seu corpo. Conhecia cada mudança sutil. E agora, ao pensar nisso, percebeu que sua temperatura parecia diferente, que seu cansaço era profundo de uma forma estranha, que seus sentimentos estavam à flor da pele.
— Jimin… — Sua voz saiu fraca, quase um sussurro.
Jimin pegou sua mão com firmeza, seus olhos escuros carregados de seriedade.
— Se for isso… Precisamos ter cuidado. Muito cuidado.
Eles não precisavam dizer em voz alta. O rei Dorian jamais aceitaria esse filho. E Morana… Ela já tentava destruí-lo antes. Se soubesse disso, faria de tudo para garantir que Taehyung jamais pudesse reivindicar algo.
O medo percorreu sua espinha, mas, ao mesmo tempo, uma pequena fagulha de algo novo nasceu dentro dele. Seokjin… poderia ter deixado algo mais do que apenas memórias. Algo vivo. Algo que pertencia aos dois.
Taehyung fechou os olhos e segurou a mão de Jimin com força.
— O que eu faço agora?
Jimin respirou fundo, tomando para si o peso da resposta.
— Primeiro, confirmamos. Depois… protegemos você e essa criança. A qualquer custo.
Preocupado, Jimin chamou discretamente um dos médicos do castelo. A presença de um curandeiro na câmara de Taehyung não passou despercebida, e logo, os sussurros da corte crescem como ervas daninhas em um jardim descuidado.
O médico, um homem idoso e de semblante sério, examinou Taehyung com cautela. Após um longo silêncio, ergueu o olhar para Jimin, que esperava ao lado da cama com os braços cruzados e uma expressão tensa.
— O rei consorte… está esperando um filho.
As palavras pairaram no ar como uma sentença. Jimin piscou, incapaz de processar o que acabara de ouvir.
— Isso é impossível — sua voz saiu mais baixa do que pretendia. — Ele… ele está apenas doente. Ele perdeu peso, não ganhou. Está fraco demais para…
— Seu corpo está reagindo à gestação — o curandeiro interrompeu, escolhendo as palavras com cuidado. — É raro, mas não inédito. E sua fragilidade pode ser justamente um sintoma. Ele não é daqui, em seu reino as coisas são diferentes Vossa Graça.
Taehyung, que ouvira tudo em silêncio, sentiu o coração acelerar. Seu peito subia e descia de forma irregular, a respiração curta. Um filho? Ele levou uma mão ao ventre, como se o toque pudesse confirmar a verdade dita pelo médico.
Seokjin.
Os olhos de Taehyung se encheram de lágrimas. Um mês. Um mês desde que ele partiu, desde que seu mundo desmoronara ao vê-lo atravessar os portões do castelo e desaparecer no convés da enorme embarcação. E agora… agora ele carregava dentro de si a prova viva daquele amor proibido.
Jimin sentiu a fúria crescendo dentro dele, não por Taehyung, mas pelo que isso significava. Morana. O rei. A corte. A notícia, se vazasse, seria como jogar lenha em uma fogueira prestes a incendiar todo o reino.
Ele se ajoelhou ao lado da cama e segurou a mão de Taehyung com força.
— Ninguém pode saber disso — sussurrou, os olhos intensos e determinados. — Pelo menos, não ainda.
O príncipe consorte assentiu devagar, ainda atordoado, enquanto uma única lágrima escorria por sua face. Ele não sabia o que o futuro reservava. Mas uma coisa era certa: Seokjin precisava saber.
[...]
A noite já havia se instalado sobre o reino, envolvendo as muralhas em um manto de sombras e silêncio. Jimin caminhava apressado pelos corredores escuros, sentindo o coração pesado dentro do peito. A revelação ainda latejava em sua mente, e ele precisava contar a única pessoa em quem confiava cegamente. Yoongi precisava saber.
Passando despercebido pelos guardas, Jimin deslizou por uma das passagens secretas que levavam à biblioteca abandonada, o local onde sempre se encontrava com Yoongi. A penumbra envolvia as prateleiras empoeiradas, e a única fonte de luz vinha de um lampião bruxuleante ao lado da mesa de madeira, onde o Min já o esperava. O homem não tão misterioso estava encostado em uma pilha de livros antigos, com os olhos sempre atentos, sempre desconfiados.
— Jimin — sua voz era baixa, mas carregava uma nota de urgência ao perceber a expressão tensa do príncipe. — O que aconteceu?
Jimin hesitou por um instante, como se dizer as palavras em voz alta tornasse tudo ainda mais real. Mas ele sabia que não podia esconder aquilo de Yoongi. Com um suspiro pesado, ele se aproximou, apoiando as mãos sobre a mesa.
— É Taehyung — disse, e o assassino imediatamente se inclinou para frente, alarmado. — Eu... eu descobri algo hoje. Ele está doente há muito tempo, mas os sintomas mudaram. Yoongi, ele não está apenas doente. Ele está... grávido.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Yoongi piscou, como se precisasse de tempo para processar aquelas palavras. Então, levantou-se bruscamente, o banco rangendo com o movimento abrupto.
— O quê? — A incredulidade em sua voz era evidente. Ele passou as mãos pelos cabelos, o olhar selvagem indo de Jimin para o chão, como se buscasse alguma lógica naquela situação. — Isso é impossível...
— Eu também achei — Jimin admitiu, sua voz carregada de preocupação. — Mas os curandeiros confirmaram. Eu vi com meus próprios olhos, Yoongi. O corpo de Taehyung está reagindo a algo que ninguém consegue explicar. Ele carrega uma vida dentro de si.
Yoongi começou a andar de um lado para o outro, o cenho franzido e os músculos do maxilar tensos. Ele parecia prestes a explodir, mas o desespero era nítido em seus olhos.
— Isso não pode estar acontecendo... — murmurou, a voz baixa, quase para si mesmo. — Se Dorian descobrir...
Jimin assentiu, apertando os punhos. — Eu sei. É por isso que precisamos protegêlo. Seokjin ainda está desaparecido, e Taehyung não pode enfrentar isso sozinho. Ele está fraco demais.
Yoongi parou, olhando diretamente para Jimin. Havia um turbilhão de emoções naquele olhar: medo, raiva, desespero.
— Precisamos tirá-lo do castelo — disse ele, a voz finalmente firme. — Antes que seja tarde demais.
[...]
A escuridão da noite envolvia o castelo quando Jimin e Lyra entraram no quarto de Taehyung. O silêncio reinava, interrompido apenas pelo som abafado do vento contra as janelas. A cama estava vazia. As cobertas, desarrumadas. Não havia sinal do consorte em nenhum canto do aposento.
O coração de Jimin disparou.
— Ele não está aqui… — murmurou, sentindo uma onda fria de pavor subir por sua espinha.
Lyra levou as mãos à boca, seus olhos arregalados refletindo o mesmo medo.
— Dorian… ou Morana… — ela sussurrou, incapaz de terminar a frase.
Jimin sentiu o estômago se revirar. Pensar que Taehyung, frágil como estava, poderia ter sido levado ou ferido por qualquer um dos dois era insuportável.
— Temos que encontrá-lo! — ele disse, a urgência tomando conta de sua voz.
Sem perder tempo, os dois começaram a vasculhar o castelo. Percorreram os corredores escuros, perguntaram aos criados, abriram portas, olharam em salões vazios, nos jardins, até mesmo na biblioteca. Nenhum sinal. Nenhuma pista. O desespero só aumentava.
Foi quando, ao chegarem ao pátio, uma figura surgiu da escuridão. Yoongi, envolto por seu manto escuro, tinha a expressão tensa.
— Jimin — chamou, sua voz grave carregada de preocupação. — Akira seguiu o rei consorte. Ele foi até a floresta.
Jimin trocou um olhar apreensivo com Lyra. Taehyung estava tão fraco, como teria conseguido ir tão longe?
— Mostre o caminho! — ele pediu sem hesitar.
Os três partiram imediatamente, cruzando os portões do castelo e adentrando a mata fechada. A lua pálida mal iluminava o caminho, mas Yoongi parecia saber exatamente para onde ir. O silêncio da floresta era denso, apenas quebrado pelo farfalhar das folhas sob seus passos apressados.
Depois do que pareceu uma eternidade, avistaram uma estrutura conhecida. A velha cabana de Seokjin.
O coração de Jimin apertou. Ali, naquele lugar, Taehyung tivera os momentos mais felizes de sua vida.
Com cautela, os três se aproximaram. A porta estava entreaberta. Um fio de luz da lua entrava pelo vão, revelando uma cena que lhes arrancou o fôlego.
Taehyung estava deitado na cama, envolto nos mantos de Seokjin. Seu corpo tremia, e soluços escapavam de seus lábios entrecortados pelo choro silencioso. As mãos seguravam com força o tecido que ainda guardava o cheiro do cavaleiro.
— Eu senti falta do cheiro dele… — sua voz frágil sussurrou no meio das lágrimas. Então, sua mão deslizou até o ventre, repousando ali com delicadeza. — Nós sentimos…
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Jimin sentiu a garganta apertar, sua visão embaçando com a emoção avassaladora da cena diante dele. Lyra levou as mãos ao peito, os olhos cheios de lágrimas. Yoongi, normalmente tão impenetrável, desviou o olhar, como se a dor ali fosse intensa demais para encarar de frente.
Porque ali, naquele momento, perceberam a verdade cruel: mesmo debilitado, Taehyung encontrara forças para chegar ao lugar onde fora mais feliz. Como se apenas ali, cercado pelo que restava de Seokjin, pudesse respirar outra vez.
[...]

A conversa com Namjoon ecoava na mente de Seokjin enquanto ele observava as chamas crepitarem na lareira da cabana. O mago havia desvendado verdades que ele jamais ousara imaginar, e agora tudo parecia se encaixar de uma maneira dolorosamente clara. Cada cicatriz, cada perda, cada momento de dor e desespero que enfrentara desde a morte dos pais até sua paixão avassaladora por Taehyung... nada era obra do acaso.
Seu encontro com o príncipe estrangeiro não fora apenas consequência de uma missão militar ou da poção compartilhada naquela taberna. Havia forças mais antigas, mais profundas, guiando suas almas em direção uma à outra, vez após vez, através dos séculos. Mas sempre terminavam separados antes que pudessem alcançar o desfecho que lhes fora negado. Namjoon explicou que, em cada vida, tentara intervir, tentara ajudá-los, mas sempre chegava tarde demais. E agora, pela primeira vez, ele acreditava que havia uma chance real de mudar esse destino cruel.
— Eu não posso falhar desta vez, Seokjin. — A voz do mago carregava um peso imensurável. — Não depois de tantas tentativas. Não depois de tanto tempo. O ciclo precisa ser quebrado.
Seokjin apertou os punhos, sentindo a gravidade de tudo que lhe fora revelado. Seu peito ardia com a lembrança de Taehyung, a saudade o consumindo como uma ferida aberta. Ele precisava vê-lo. Precisava falar com ele. Mas como? Estava preso ali, afastado do único homem que realmente amou em todas as suas vidas.
Namjoon, como se lesse seus pensamentos, sorriu de canto.
— Eu tenho aliados, Seokjin. Pessoas que também querem que esse ciclo se encerre. Pessoas que acreditam que o amor pode vencer.
O mago se levantou e caminhou até um canto da cabana, pegando um pequeno rolo de pergaminho e um frasco de tinta escura. Colocou-os diante de Seokjin.
— Escreva. Diga a ele tudo o que precisa dizer. Há um meio de essa carta chegar às mãos certas.
Seokjin hesitou por um momento, mas então pegou a pena e mergulhou-a na tinta. Seu coração pulsava com urgência, e as palavras começaram a se derramar pelo pergaminho, como se sua alma finalmente encontrasse um caminho para alcançar Taehyung. Quando terminou, Namjoon enrolou a carta e assobiou suavemente.
Akira, o corvo de olhos astutos, surgiu das sombras, pousando sobre a mesa de madeira. O mago acariciou suas penas negras antes de amarrar a carta em sua perna. Por mais que aparentasse ser uma simples ave, estava longe disso, Akira era uma criatura mágica, como tantas outras, e só assim seria capaz de voar pelo mar das tormentas o mais rápido que qualquer outra ave mensageira.
— Vá — disse Namjoon, olhando nos olhos da ave. — Encontre Yoongi. Ele saberá o que fazer.
O corvo grasnou e alçou voo, desaparecendo na escuridão da floresta. Seokjin fechou os olhos por um instante, prendendo a respiração. Do outro lado do destino, Taehyung saberia que ele ainda estava ali. E que ainda o amava.
[...]
Aquela tarde, embora nublada, era um pouco mais leve que as anteriores. O vento suave balançava as cortinas do quarto, e Taehyung, sentado em sua confortável cadeira junto à janela, observava os pássaros cruzarem o céu. Eram momentos como aquele que lhe davam um mínimo de paz em meio ao turbilhão de sentimentos que o consumia.
Seus dedos brincavam distraidamente com a ponta de uma manta fina sobre suas pernas quando algo chamou sua atenção. Um movimento sutil, uma sombra distinta no parapeito de sua janela. Seus olhos se arregalaram ao notar a ave negra ali pousada. O brilho incomum de seus olhos vermelhos enviou um arrepio pela espinha do elfo. Mas algo no modo como o corvo o observava, como se já o conhecesse, dissipou qualquer temor inicial.
Ele carregava algo na pata. Um pequeno rolo de pergaminho preso delicadamente entre as garras. A princípio, Taehyung hesitou. Não sabia se deveria se aproximar, se aquilo não era mais uma armadilha do destino para atormentá-lo. Mas o olhar do animal era firme, e uma palavra ressoou em sua mente como um eco distante:
“Akira.” O nome brilhou em seu subconsciente, aquecendo sua alma de uma maneira inexplicável. Soube, de imediato, que podia confiar. Com as mãos trêmulas, estendeu os dedos e pegou o pergaminho com extremo cuidado. O corvo permaneceu ali por alguns segundos, como se aguardasse algo. Taehyung o encarou, os olhos azuis refletindo a brasa das pequenas íris vermelhas da ave, um pacto silencioso se formando entre os dois.
Quando desenrolou o pergaminho, seu coração saltou. O mundo pareceu perder o foco ao redor. Ele conhecia aquela caligrafia. Reconheceria cada traço, cada curva das letras. Seu peito apertou, e a emoção tomou conta de seus sentidos antes mesmo que pudesse começar a ler.
Seus olhos se encheram de lágrimas, sua respiração ficou irregular. Com os dedos tremendo, ele apertou o pergaminho contra o peito por um breve momento, como se quisesse sentir a essência daquele que o escrevera. A dor e o amor se misturaram em um nó apertado dentro de si.
O corvo soltou um leve grasnado antes de bater as asas e voar para longe, sumindo entre as nuvens densas que pairavam no céu. Taehyung o observou desaparecer, mas sua atenção logo voltou ao papel entre seus dedos.
Engoliu em seco. Respirou fundo. E então, mesmo com o coração disparado e os sentimentos em desordem, começou a ler.
Minha querida lua, Se soubesse quantas vezes tentei escrever estas palavras, quantas noites passei em claro tentando encontrar uma maneira de alcançar você... Não há dia em que minha mente não se encha com sua imagem, em que meu coração não clame pelo seu nome. A distância entre nós é um abismo que me consome, mas saber que ainda posso lhe enviar esta carta me dá forças para continuar.
Você está bem? Tenho medo da resposta. Meu coração pesa ao imaginar o que sofreu desde que parti. Eu não queria deixá-lo, você sabe disso. Mas a vida sempre nos lança em caminhos que não escolhemos, e tudo o que posso fazer agora é lutar para mudar o nosso destino.
Há tanto que preciso lhe contar, tanto que descobri sobre mim... sobre nós. Nosso encontro não foi um acaso, Taehyung. Eu sempre senti que havia algo maior nos unindo, e agora tenho certeza. Os fios do tempo nos trouxeram até aqui, entrelaçando nossas almas de uma forma que nem mesmo os deuses podem desfazer. Namjoon me mostrou verdades que estavam escondidas, histórias que explicam tudo o que sempre sentimos um pelo outro.
Meu amor, eu prometo que encontrarei um caminho de volta para você. Não importa o que precise enfrentar, eu irei até o fim do mundo se for necessário. Apenas me espere um pouco mais.
Cuide-se. Cuide de você por mim.
Com todo o amor que existe em mim, Seokjin.
[...]

A noite caiu sobre o castelo, envolvendo os corredores em um silêncio profundo. No alto da torre, Taehyung repousava sobre a cama, abraçado ao pergaminho de Seokjin como se fosse sua última âncora com a realidade. O cansaço venceu a dor que pesava sobre seu peito, e seus olhos se fecharam lentamente, arrastando-o para um mundo onde o tempo e a lógica se desfaziam como areia ao vento.
O primeiro vislumbre veio como um sussurro na penumbra. Taehyung se viu em uma vastidão nebulosa, os contornos do mundo desfocados e evanescentes. E então, ali, emergindo das sombras como uma memória distante, Seokjin apareceu. Seu semblante era o mesmo, porém havia algo de etéreo nele, como se estivesse ao mesmo tempo presente e inalcançável.
— Taehyung... — a voz de Seokjin ecoou como o vento sussurrando entre as árvores, suave, mas carregada de um peso que só corações separados pelo destino conheciam.
O elfo tentou avançar, tentou tocar a mão estendida à sua frente, mas seus dedos atravessaram a imagem como se Seokjin fosse apenas um reflexo na água. O desespero apertou seu peito.
— Jin! Onde você está? Por favor, me diga que isso é real! — sua voz quebrou, o medo de que fosse apenas um sonho doloroso demais para suportar.
O rosto de Seokjin se contorceu em angústia.
— Eu estou tentando... tentando chegar até você. Mas as barreiras são fortes, Taehyung. Só conseguimos nos encontrar aqui, por enquanto. Mas eu prometo... Eu prometo que encontrarei um caminho.
Taehyung sentiu as lágrimas queimarem sua pele. Seu corpo inteiro ansiava pelo toque do cavaleiro, mas ele sabia que era inútil. Sentiu algo gelado contra sua barriga e baixou os olhos. Sobre seu ventre, marcas luminescentes se formavam, linhas suaves e douradas, brilhando com um calor reconfortante.
Os olhos de Seokjin se arregalaram.
— Você... você carrega uma parte de mim. É por isso que nos conectamos assim. — sua voz tremia, tomada por um misto de surpresa e adoração.
Taehyung segurou o próprio ventre, compreendendo pela primeira vez a verdadeira magnitude do que estava acontecendo com ele. Antes que pudesse falar, a imagem de Seokjin começou a se desfazer, puxada por um vento invisível.
— Não! Espere! — Taehyung gritou, estendendo a mão.
Seokjin sorriu com tristeza.
— Eu voltarei para você, meu amor. Não importa quanto tempo leve.
E então, tudo se dissolveu em luz.
Taehyung acordou sobressaltado, lágrimas escorrendo por seu rosto. Seu corpo tremia, sua respiração estava entrecortada. Ele levou a mão ao ventre, sentindo a leve pulsação da magia que ainda vibrava ali.
Seokjin estava tentando alcançá-lo.
E ele esperaria por ele, não importava o tempo que levasse.
[...]
Os sonhos vinham todas as noites, fragmentados como cacos de um espelho quebrado. Taehyung sentia-se mergulhado em memórias que não eram suas, mas que pareciam tão vívidas quanto o próprio presente. Sons, cheiros, toques—tudo era tão real que ele acordava suando, com o peito arfante e a alma despedaçada.
No início, ele tentou ignorá-los. Talvez fossem apenas ecos de sua mente perturbada, efeitos da exaustão e do sofrimento. Mas conforme os dias passavam, os sonhos se tornavam mais intensos. Ele via a si mesmo em tempos diferentes, em lugares que jamais conhecera nesta vida. Sentia o toque de mãos familiares, ouvia juras de amor sussurradas contra sua pele e, acima de tudo, revivia a perda. Sempre a perda.
Jimin foi o primeiro a notar. O amigo via a palidez crescente em Taehyung, os círculos escuros sob seus olhos, o jeito distante com que ele encarava o vazio.
— Você sonhou com ele de novo, não foi? — Jimin perguntou certa manhã, quando encontrou Taehyung sentado na beira da cama, segurando um pedaço de pergaminho como se fosse sua única âncora.
Taehyung fechou os olhos por um instante antes de assentir. Sua voz saiu baixa, trêmula:
— Eles parecem tão reais... Eu sinto... tudo. Sinto o toque dele, o cheiro, a dor... Como isso é possível, Jimin? Como posso lembrar de coisas que nunca aconteceram? — Ele ergueu o olhar, confuso e aflito. — Ou será que aconteceram?
Jimin suspirou e se sentou ao lado dele.
— Você já sabe a resposta, hyung. Seokjin e você estão ligados há muito mais tempo do que essa vida. Os sonhos são uma parte disso. Você está se lembrando de quem foi... de quem vocês foram.
Taehyung estremeceu, apertando a folha de pergaminho em seus dedos. A carta de Seokjin havia sido o primeiro fio de esperança em meio ao caos. Ele não sabia como responder, mas sentia que precisava fazer algo.
Foi nesse momento que Jimin decidiu contar sobre Yoongi.
— Há alguém que pode te ajudar. Alguém que entende mais do que você imagina. — Jimin hesitou por um segundo antes de continuar. — Ele se chama Yoongi. É o homem que eu amo, e... ele já tem ajudado mais do que imagina. Foi ele quem trouxe a sua carta.
Taehyung piscou, absorvendo as palavras. Seu olhar se desviou para a janela, onde Akira, o corvo, descansava silencioso, observando-os como se compreendesse cada palavra.
— Então ele é... confiável? — A voz de Taehyung carregava um peso indecifrável, um misto de esperança e receio.
Jimin sorriu de leve.
— Se não fosse, eu não confiaria meu coração a ele.
O silêncio pairou entre os dois, até que Taehyung, com um suspiro longo, finalmente falou:
— Eu preciso responder Seokjin. Eu preciso saber... se tudo isso é real.
Jimin assentiu, já esperando por aquela decisão. Ele se levantou e deu um tapinha leve no ombro do amigo.
— Então acho que está na hora de você conhecer Yoongi.
[...]
A noite havia sido inquieta para Taehyung. Os sonhos o consumiam, trazendo lembranças e vislumbres de algo maior do que ele conseguia compreender. Quando despertou, o peito ainda pesava com as imagens efêmeras de Seokjin. As mãos tremiam levemente, e ele soube que não poderia ignorar aquilo. Precisava agir.
Na manhã seguinte, Jimin encontrou Taehyung ainda sentado à escrivaninha, o olhar perdido sobre o pergaminho onde tentava formular palavras. O príncipe franziu o cenho, percebendo a inquietação no amigo.
— Está escrevendo para meu irmão? — perguntou, puxando uma cadeira para se sentar ao lado dele.
Taehyung assentiu, mas largou a pena e esfregou o rosto com as mãos.
— Não sei o que dizer, Jimin — murmurou. — Eu queria dizer tanta coisa, mas não sei se é o suficiente.
Jimin pousou uma mão gentil sobre o ombro do elfo, oferecendo um sorriso encorajador.
— Apenas escreva o que sente. Ele vai entender.
A porta se abriu suavemente, interrompendo o momento. Yoongi entrou no aposento em passos silenciosos, os olhos escuros avaliando Taehyung com curiosidade e cautela. Era a primeira vez que se viam de tão perto, e, ainda assim, havia algo estranhamente familiar no ar entre eles. Jimin se ergueu, indo até o amante e entrelaçando os dedos aos dele.
— Taehyung, este é Min Yoongi — apresentou. — Ele é... alguém em quem confio muito. E foi ele quem trouxe a carta de Seokjin até nós.
Taehyung ergueu os olhos para o homem à sua frente. Sentia uma aura peculiar ao redor dele, algo que não sabia nomear. Mas se Jimin confiava nele, então deveria acreditar também.
— Obrigado — disse Taehyung, sincero. — Por trazer as palavras dele até mim.
Yoongi apenas inclinou a cabeça levemente em resposta. Havia algo enigmático naquele homem, mas Taehyung não tinha forças para questionar. Seu coração estava ocupado demais tentando se manter inteiro.
Respirando fundo, pegou a pena e, enfim, começou a escrever sua resposta para Seokjin.
‘’Jin, Meu sol, minhas mãos tremem ao escrever para você. Há tanto que desejo dizer, tanto que preciso que saiba. Receber sua carta foi como sentir seu toque outra vez, como um raio de luz cortando a escuridão em que me encontro. Estou perdido sem você, preso em um labirinto de saudade e incerteza.
Não sei quantas vezes tentei escrever essas palavras e falhei. Meu coração e minha mente estão em guerra, porque desde que recebi sua carta, não consigo pensar em nada além de você. A dor da sua ausência é uma ferida aberta, e por mais que eu tente me convencer de que preciso seguir em frente, meu corpo e minha alma gritam pelo seu retorno.
Os sonhos vêm até mim, Seokjin. Sonhos de outras vidas, de promessas feitas sob céus diferentes. Eu vejo você, sinto você. O toque dos seus dedos, a atenção da sua voz, o calor da sua presença... Tudo é tão vívido que me questiona se é real ou apenas uma ilusão cruel do destino. Isso me assusta e conforta ao mesmo tempo. Como se nossas almas fossem encontradas muito antes de nos conhecermos nesta vida.
Queria poder estar com você agora. Queria segurar sua mão e dizer que nada disso é importante, que tudo o que aconteceu não pode nos salvar. Mas as correntes que nos prendem são fortes, Jin, e eu ainda não sei como quebrá-las. Preciso entender o que está acontecendo comigo. Há algo dentro de mim que mudou... algo que cresce e que, de alguma forma, me liga ainda mais a você.
Então, por favor, continue escrevendo. Continue me guiando até você. Você pode me perdoar? Você ainda me espera?
Com todo o amor que meu coração suporta,
Teu Taehyung.’’ Quando terminou, soltou um longo suspiro. Jimin pegou a carta delicadamente e a entregou a Yoongi, que a guardou com cuidado. O corvo Akira, empoleirado perto da janela, crocitou baixinho, como se entendesse a importância do que estava prestes a carregar.
— Ele vai recebê-la — garantiu Yoongi. — E você terá sua resposta.
Taehyung fechou os olhos por um momento, permitindo-se um lampejo de esperança. Talvez, apenas talvez, estivesse um passo mais perto de Seokjin.
[...]
A noite caía suavemente sobre a floresta de Zianol, e Seokjin estava sentado à beira da mesa de madeira rústica da cabana, observando as chamas dançarem na lareira.
A conversa com Namjoon ainda ecoava em sua mente, preenchendo-o com uma mistura de propósito e saudade. Ele sabia que agora entendia mais sobre sua existência, mas isso não amenizava a dor de estar longe de Taehyung.
O som de asas cortando o ar chamou sua atenção. O corvo negro pousou no parapeito da janela, os olhos escarlates brilhando no escuro. Akira. O coração de Seokjin deu um salto no peito. Com passos firmes, mas ligeiramente hesitantes, ele se aproximou e estendeu a mão. O corvo permitiu que ele retirasse o pergaminho preso à sua pata, mas antes de alçar voo novamente, inclinou a cabeça, como se quisesse que Seokjin compreendesse algo além da mensagem.
Respirando fundo, ele desenrolou o pergaminho e sentiu o ar escapar de seus pulmões ao reconhecer a caligrafia de Taehyung. As letras eram firmes, mas levemente trêmulas, como se escritas com mãos ansiosas.
‘’Jin, Meu sol, minhas mãos tremem ao escrever para você. Há tanto que desejo dizer, tanto que preciso que saiba. Receber sua carta foi como sentir seu toque outra vez, como um raio de luz cortando a escuridão em que me encontro. Estou perdido sem você, preso em um labirinto de saudade e incerteza.
Não sei quantas vezes tentei escrever essas palavras e falhei. Meu coração e minha mente estão em guerra, porque desde que recebi sua carta, não consigo pensar em nada além de você. A dor da sua ausência é uma ferida aberta, e por mais que eu tente me convencer de que preciso seguir em frente, meu corpo e minha alma gritam pelo seu retorno.
Os sonhos vêm até mim, Seokjin. Sonhos de outras vidas, de promessas feitas sob céus diferentes. Eu vejo você, sinto você. O toque dos seus dedos, a atenção da sua voz, o calor da sua presença... Tudo é tão vívido que me questiona se é real ou apenas uma ilusão cruel do destino. Isso me assusta e conforta ao mesmo tempo. Como se nossas almas fossem encontradas muito antes de nos conhecermos nesta vida.
Queria poder estar com você agora. Queria segurar sua mão e dizer que nada disso é importante, que tudo o que aconteceu não pode nos salvar. Mas as correntes que nos prendem são fortes, Jin, e eu ainda não sei como quebrá-las. Preciso entender o que está acontecendo comigo. Há algo dentro de mim que mudou... algo que cresce e que, de alguma forma, me liga ainda mais a você.
Então, por favor, continue escrevendo. Continue me guiando até você. Você pode me perdoar? Você ainda me espera?
Com todo o amor que meu coração suporta,
Teu Taehyung.’’ Seokjin apertou a carta contra o peito, os olhos ardiam com lágrimas contidas. Ele leu e releu cada linha, cada palavra, tentando absorver cada pedaço da alma de Taehyung que havia sido derramado ali. Mas então seus olhos pousaram sobre algo mais. Um pequeno pedaço de tecido amarrado junto à carta – um lenço bordado com seu nome.
Aquele lenço… era o mesmo que Seokjin havia dado a Taehyung uma vez, quando riram juntos no meio de um campo florido, quando tudo ainda parecia simples.
Namjoon apareceu na porta, observando em silêncio. Ele sabia que esse momento era apenas o início de algo maior. Seokjin ergueu os olhos úmidos para ele e sussurrou:
— Preciso escrever para ele de novo. Preciso encontrá-lo.
O mago assentiu, um pequeno sorriso nos lábios.
— Então é melhor começarmos agora. O tempo está correndo, Seokjin, e você tem muito a dizer.
[...]

12. O Sopro do Destino

"Quando duas almas finalmente se encontram, nenhum tempo ou distância pode separá-las."
-Antoine de Saint-Exupéry

Casa do Mago - 20h15 A noite estava pesada, carregada de um silêncio que parecia prender a respiração de Seokjin. Sentado ao lado da lareira, ele encarava as chamas como se nelas pudesse encontrar respostas. Namjoon permanecia de pé, observando-o com uma expressão grave, sabendo que a verdade que acabara de revelar ainda pulsava na mente do cavaleiro.
— Todas as suas reencarnações terminaram em tragédia, Seokjin — a voz do mago era baixa, mas cada palavra parecia pesar toneladas. — Você e Taehyung sempre se encontram, com nomes e classes diferentes, sempre se amam... e sempre são arrancados um do outro.
O cavaleiro fechou os olhos por um momento, os dedos apertando o tecido de sua calça. As imagens das vidas passadas que Namjoon lhe mostrará ainda queimavam em sua mente: ele e Taehyung em diferentes épocas, diferentes corpos, mas sempre os mesmos olhares apaixonados, os mesmos toques furtivos, as mesmas promessas murmuradas ao vento. E o mesmo fim cruel.
— Por quê? — sua voz soou rouca, repleta de desespero. — Por que o destino insiste em nos separar?
Namjoon se ajoelhou ao lado dele, os olhos escuros carregados de compaixão.
— Porque algo ou alguém não quer que fiquem juntos. Existe uma força impedindo esse amor de florescer até o fim, e eu ainda não sei quem ou o que está por trás disso.
Seokjin passou as mãos pelos cabelos, frustrado. Seu coração martelava com um medo crescente. E se esta vida não fosse diferente? E se estivessem condenados a repetir o mesmo sofrimento?
— Eu não posso deixar isso acontecer de novo — murmurou, mais para si mesmo. — Eu não posso perdê-lo outra vez. Perdê-los…
Namjoon o encarou por um instante e depois se levantou, indo até uma das prateleiras repletas de pergaminhos antigos. Pegou um em particular e o estendeu para Seokjin.
— Eu também não quero que você perca — disse. — Por isso estou aqui. Por isso sempre tentei impedir esse ciclo. Desta vez, temos uma chance.
Seokjin pegou o pergaminho com as mãos ligeiramente trêmulas. Algo dentro dele queria acreditar. Queria agarrar essa possibilidade com todas as suas forças.
Mas, no fundo, o medo ainda o assombrava.
O destino os deixaria escapar desta vez?
Os dias se passaram desde a revelação de Namjoon, mas a mente de Seokjin estava longe de encontrar descanso. A cada noite, os sonhos vinham com mais força, fragmentos de vidas que ele nunca viveu e, ao mesmo tempo, reconhecia. Vultos, promessas quebradas, finais trágicos que sempre se repetiam. Em todas as visões, ele e Taehyung eram arrancados um do outro antes de terem a chance de serem felizes.
Em uma dessas noites, Seokjin viu-se em um campo dourado, o céu tingido de tons de vermelho e roxo ao entardecer. Ele correu, o coração acelerado, sabendo que alguém o esperava do outro lado. Quando finalmente o encontrou, Taehyung estava ali, de pé, sorrindo. Mas antes que pudesse tocá-lo, a cena se desfez, substituída por chamas consumindo um castelo, por gritos ecoando no vazio.
Ele acordou sobressaltado, o peito arfando. O suor frio escorria por suas têmporas enquanto tentava se agarrar às imagens que fugiam rapidamente de sua mente. O destino estava tentando lhe dizer algo? Seria apenas coincidência ou estavam fadados a sempre se perderem?
Na manhã seguinte, Seokjin confrontou Namjoon.
— Por que estou vendo isso? — Sua voz soava rouca. — Todas as nossas vidas... por que sempre termina assim?
Namjoon suspirou, parecendo pesaroso.
— Porque há algo que ainda não foi quebrado. O ciclo de vocês é antigo, Seokjin. Há forças que não desejam que fiquem juntos, mas também há forças que lutam para mudar isso. Você precisa decidir se está pronto para enfrentar esse destino... ou se vai permitir que ele se repita mais uma vez.
[...]
O silêncio no salão do trono era quase insuportável. A tensão pesava no ar, como se as próprias paredes sentissem o peso do que estava prestes a acontecer. Taehyung estava de pé no centro do salão, as costas eretas, as mãos pousadas sobre o ventre ainda discreto, mas que agora carregava um segredo impossível de esconder. Seu olhar não vacilava diante da fúria do rei.
Dorian estava diante dele, os punhos cerrados ao lado do corpo, os olhos incendiados de raiva. Morana, postada à direita do monarca, observava a cena com um sorriso satisfeito, como um espectador à espera do clímax de um espetáculo sangrento. Lyra e Jimin, ao lado de Taehyung, mantinham-se tensos, os olhos se movendo de um para outro, pronto para intervir se fosse necessário.
— É verdade? — a voz do rei cortou o silêncio como uma lâmina afiada. — Você carrega um filho?
Taehyung manteve o queixo erguido, mas não respondeu de imediato. Havia um brilho desafiador em seus olhos, um fogo que jamais se apagaria, não importa quantas vezes Dorian tentasse quebrá-lo.
— E se for? — devolveu, a voz firme, porém suave.
Dorian riu, mas não havia humor no som. Era um riso envenenado pela frustração e pelo orgulho ferido.
— Não se faça de tolo, Taehyung! Você sabe muito bem o que estou perguntando. Esse filho... — ele apontou para o ventre do elfo com um gesto brusco. — Esse filho é meu?
Um silêncio sepulcral se instalou. Todos os presentes pareceram prender a respiração ao mesmo tempo. Morana inclinou-se levemente para frente, os olhos brilhando com uma mistura de malícia e curiosidade. Jimin cerrou os punhos, pronto para agir se Dorian tentasse algo.
Taehyung, por sua vez, sustentou o olhar do rei por um longo momento antes de sorrir. Não um sorriso alegre ou afetuoso, mas um sorriso carregado de ironia, como se estivesse se divertindo com a ignorância do homem à sua frente.
— Você realmente quer saber, meu rei? — sua voz era um sussurro afiado como vidro quebrado. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, os olhos brilhando com pura provocação. — Então, escute bem: não, este filho não é seu.
A resposta veio como um golpe, e Dorian ficou imóvel por um segundo, como se seu cérebro estivesse processando o que acabara de ouvir. Então, sua expressão se transformou. Seus olhos se arregalaram, sua respiração se tornou irregular e seus lábios se curvaram em um rosnado de pura fúria.
— O quê? — Sua voz tremeu, carregada de incredulidade e ódio crescente.
Taehyung riu baixinho, um som que reverberou pelo salão como uma melodia proibida.
— Por acaso você se esqueceu? — ele sussurrou, inclinando-se levemente para frente, aproximando-se do rei. — Você nunca me tocou. Nunca se deitou comigo. Você me fez consorte, me prendeu nesta gaiola dourada, mas jamais conseguiu me possuir. Então me diga, Dorian... como poderia este filho ser seu?
O som que escapou da garganta do rei foi quase um rugido. Ele avançou um passo, a mão erguida como se estivesse prestes a golpear Taehyung. Mas antes que pudesse completar o movimento, Jimin se interpôs entre os dois, os olhos ardendo em desafio.
— Não ouse tocá-lo — a voz de Jimin foi baixa, mas carregada de uma ameaça inegável. — Se encostar um dedo nele, eu juro que...
Dorian olhou para o próprio filho, seus olhos chamejando de raiva e traição. Mas algo nele hesitou. Talvez fosse o fato de que Jimin não recuava. Ou talvez fosse a certeza de que, mesmo com toda sua autoridade, ele não poderia quebrar Taehyung da maneira que desejava.
O rei então voltou novamente para Taehyung, e sua raiva transbordava de maneira diferente agora. Não era apenas fúria, mas algo mais sombrio, algo profundamente ferido.
— Você me enganou — cuspiu. — Fez de mim um tolo diante da corte. Todos devem estar rindo de mim pelas minhas costas, sabendo que meu próprio consorte me traiu como uma meretriz vulgar!
Os olhos de Taehyung brilharam com algo perigoso.
— Não me compare às suas concubinas — sua voz era fria, como uma lâmina deslizando pelo pescoço do rei. — Eu nunca precisei me deitar com ninguém por status ou favor. O amor que vivi foi verdadeiro. Coisa que você jamais conhecerá.
O peito de Dorian subia e descia rapidamente, sua mente um turbilhão de pensamentos e emoções que ele não conseguia conter. Ele olhou para Morana, que permanecia em silêncio, apenas observando, os olhos astutos calculando cada detalhe. Ele olhou para Jimin, que não sairia do lado de Taehyung nem que o próprio inferno se abrisse ali. E, por fim, olhou para o próprio consorte, que permanecia ali, belo e altivo, sem medo de suas ameaças.
— Você vai pagar por isso, Taehyung — murmurou o rei, sua voz gélida, um aviso silencioso.
O elfo apenas ergueu o queixo, um brilho de desafio em seus olhos.
— Talvez — respondeu. — Mas, ao contrário de você, eu nunca fui um homem preso a correntes invisíveis. Você pode me ameaçar, Dorian, mas nunca poderá tirar de mim o que já é meu por direito.
Dorian deu um último olhar a ele antes de se virar e sair do salão, seus passos ecoando pesadamente pelo chão de mármore. Morana o seguiu, embora tenha lançado um olhar carregado de interesse para Taehyung antes de desaparecer pela porta.
Lyra soltou um suspiro profundo, virando-se para Taehyung, os olhos preocupados.
— Isso foi insano — murmurou. — Mas, ao mesmo tempo... brilhante Taehy.
Taehyung finalmente permitiu que seu corpo relaxasse um pouco, um cansaço súbito se abatendo sobre ele. Ele pousou uma mão protetora sobre o ventre e sorriu levemente.
— Eu não poderia mais viver com essa mentira — disse baixinho. — Ele precisava saber. Agora, nós devemos estar preparados para o que virá a seguir.
E, no fundo, todos sabiam que Dorian não deixaria isso barato.
[...]
A inquietação tomava conta de Taehyung. Nos últimos dias, ele sentia algo diferente em seu ventre—um pulsar duplo, uma energia que não poderia ser explicada apenas pela presença de um único bebê. O curandeiro havia afirmado que sua gravidez estava dentro do esperado, mas seu instinto dizia o contrário. Ele sabia que ali havia mais de uma vida.
Lyra notou sua expressão distante enquanto ajeitava as almofadas no divã. A dama de companhia aproximou-se, pousando uma mão delicada sobre a dele.
— O que há, Alteza? Tem estado tão pensativo ultimamente…
Taehyung hesitou por um momento antes de falar, sua voz saiu baixa, quase um sussurro:
— Eu sinto que há dois.
Lyra franziu o cenho, sem entender de imediato.
— Dois…?
O elfo levou a mão ao ventre, acariciando-o com ternura e preocupação.
— Não é apenas um bebê, Lyra. Eu sei que são dois. Eu posso senti-los, como se suas presenças sussurrassem para mim… mas o curandeiro não percebeu.
Os olhos da mulher se arregalaram ligeiramente. Ela não duvidava das palavras de Taehyung—havia algo nele, uma sensibilidade mágica que a fascinava e a assustava ao mesmo tempo.
— Então precisamos encontrar alguém que possa confirmar isso — disse Lyra, sua mente já trabalhando em uma solução.
Taehyung assentiu, já sabendo exatamente quem poderia ajudá-lo.
— O Papai Melian. Ele já passou por isso antes… Ele entenderia.
Lyra engoliu em seco. Buscar o Consorte Melian significava que Taehyung teria que sair do castelo em segredo, ainda mais agora que Dorian estava mais atento a cada movimento seu. Mas olhando para a expressão determinada do consorte, ela soube que nada o impediria.
— Então, vamos chegar até ele de alguma maneira — declarou Lyra, decidida a proteger Taehyung em qualquer circunstância.
O elfo soltou um suspiro aliviado e apertou a mão dela em gratidão. Ele precisava de respostas e não descansará até tê-las.
[...]
A carta chegou ao amanhecer, selada com o brasão do reino Prateado. Taehyung a encarou por longos minutos antes de reunir coragem para abri-la. Seus dedos deslizaram sobre o selo verde, rompendo-o com um suspiro pesado. Ele conhecia aquela caligrafia. Era a letra do rei Galandriel.
"Meu amado filho,
Palavras jamais serão suficientes para expressar o peso que carregamos desde que deixamos você partir. Achamos que fazíamos o certo, que um casamento garantiria seu futuro e manteria a paz entre os reinos. Mas fomos cegos. Em nossa preocupação com o povo, esquecemos de olhar para você, para seu coração e sua felicidade. Nossa última visita nos abriu os olhos, e a dor que vimos refletida em você nos consome desde então.
Agora sabemos que esperamos tempo demais para agir. E o destino nos deu uma nova chance, uma nova razão para tentar nos redimir. Recebemos a notícia da sua gravidez, e isso nos trouxe alegria e medo. Sabemos que o lugar onde esta pode não ser seguro para você e para as vidas que agora carrega. Então, por favor, permitanos corrigir nossos erros. Permita-nos estar ao seu lado, não como reis, mas como seus pais.
Se você aceitar, enviaremos uma comitiva para buscá-lo. Se não puder partir, então iremos até você. Mas não ficaremos mais parados enquanto você sofre sozinho.
Com amor e arrependimento, Seus pais, Galandriel e Melian."
Os olhos de Taehyung passaram por cada linha várias vezes, o coração em tumulto. Ele sentia raiva, saudade e esperança misturadas de maneira avassaladora. Por meses, esperou uma demonstração de que ainda importava para eles. Agora, quando estava tão frágil, eles finalmente o buscavam. Mas seria o suficiente?
[...]
Os portões de Sollaria se abriram para a chegada imponente do Consorte de Yinsia. Cavalgando à frente de uma pequena comitiva de guardas élficos, Melian exalava uma presença que poucos ousariam desafiar. Sua túnica dourada refletia a luz do sol, mas seu semblante carregava a frieza de uma tempestade prestes a se formar. Não era apenas um líder chegando a um reino estrangeiro – era um pai em busca de seu filho.
O castelo estava em um estado de tensão evidente, sussurros percorrendo os corredores enquanto Melian avançava com passos firmes. Ao entrar no grande salão, Dorian o aguardava no trono, reclinado com arrogância e um meio sorriso de escárnio nos lábios. Morana estava ao lado, vestida de forma impecável, com olhos atentos e um ar de triunfo silencioso.
— Que honra receber o ilustre Consorte de Yinsia — Dorian disse, a voz carregada de sarcasmo. — Espero que a viagem tenha sido confortável. Mas confesso que estou surpreso por vê-lo. Não recebemos aviso de sua visita.
Melian parou a poucos metros do trono, a postura impecável, os olhos faiscando de indignação.
— E eu estou surpreso por não ter sido informado da real situação de Taehyung. Como ousa esconder de mim que meu filho está sofrendo neste castelo? Como ousa trancafiá-lo, humilhá-lo e tratá-lo como se fosse um prisioneiro?
O sorriso de Dorian se alargou, mas não alcançou os olhos.
— Seu filho? — Ele soltou um riso baixo. — O mesmo filho que você entregou de bom grado para este casamento? O mesmo filho que deveria honrar o seu papel, mas ao invés disso se envolve em traições e desonras?
Os punhos de Melian se cerraram, e sua aura mágica tremulou no ar como uma faísca prestes a incendiar tudo ao redor.
— Não ouse falar de honra, Dorian, quando você não tem nenhuma. Eu permiti esse casamento pensando no bem de nossos povos, mas nunca autorizei que você torturasse meu filho! Nunca permiti que o tratasse como se fosse menos do que o príncipe que é!
Dorian se ergueu de seu trono lentamente, descendo os degraus com a postura de um predador.
— Taehyung pertence a este reino agora. Ele é meu consorte, e as decisões sobre ele cabem a mim. Se ele tentou fugir, se quebrou suas obrigações, então é justo que enfrente as consequências.
Melian deu um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que seus olhares se enfrentassem como lâminas cruzadas.
— As consequências? Você fala de punição quando foi você quem o condenou a uma vida infeliz? Seu ciúme doentio, sua arrogância e sua obsessão pelo controle são as verdadeiras correntes que o prendem! Mas eu lhe aviso, Dorian: se algo acontecer a Taehyung, não haverá tratado, não haverá diplomacia, não haverá guerra que me impeça de tomá-lo de volta. Ele pode ser seu consorte, mas antes de tudo, ele é meu filho.
O salão ficou em silêncio absoluto. Morana, que até então observava em silêncio, pigarreou, tentando recuperar o controle da situação.
— Majestade, talvez possamos resolver isso de forma mais… civilizada — ela sugeriu, lançando um olhar calculado para Dorian. — O príncipe está em repouso. Com o devido cuidado, tenho certeza de que ele poderá esclarecer tudo a respeito desses boatos e evitar mal-entendidos.
Dorian lançou um olhar duro para ela, mas algo na fúria de Melian o fez hesitar. No fundo, o rei sabia que não podia simplesmente descartar as palavras do Consorte de Yinsia sem consequências.
— Muito bem — ele disse, recuando ligeiramente. — Você quer ver seu filho? Então seja bem-vindo a este castelo, Consorte Melian. Mas lembre-se: ele pertence a Sollaria agora.
Melian não respondeu. Não precisava. O fogo em seus olhos dizia tudo: se Taehyung estivesse ferido, nada impediria sua fúria.
[...]
A noite estava densa quando Melian adentrou os aposentos de Taehyung. A lareira queimava de forma preguiçosa, lançando sombras suaves pelas paredes, e o consorte real estava sentado em uma poltrona próxima à janela, envolto em um manto grosso. Ele não se virou imediatamente ao ouvir a porta se abrir, como se já soubesse quem era.
— Então, finalmente decidiu aparecer? — A voz de Taehyung era baixa, mas carregada de mágoa.
Melian deu alguns passos hesitantes em direção ao filho, mas manteve uma distância respeitosa. Seu olhar se suavizou ao ver o estado do jovem elfo. A palidez de sua pele, a magreza acentuada, os olhos inchados de noites mal dormidas. Ele era apenas a sombra do filho que ele lembrava.
— Meu menino…
— Não me chame assim! — Taehyung se levantou abruptamente, virando-se para encará-lo. Seus olhos, outrora brilhantes e cheios de vida, estavam nublados de tristeza e ressentimento. — Você não tem o direito.
Melian fechou os olhos por um momento, respirando fundo antes de continuar.
— Eu sei que te magoei… Eu sei que sua dor tem parte da minha culpa. — Ele hesitou, sua voz vacilando. — Mas eu estou aqui agora.
— Agora? Agora?! — Taehyung riu, mas era um riso amargo, sem alegria. — Depois de meses de silêncio, depois de me entregarem a um homem que nunca me amou, depois de me deixarem sozinho nesse castelo podre, você vem aqui e diz que está ‘aqui agora’?
Melian deu mais um passo à frente, a dor estampada em seus traços delicados.
— Eu nunca quis te abandonar.
— Mas abandonou! — Taehyung gritou, sua voz quebrando. — Você me entregou como se eu fosse um objeto, uma peça de um jogo político. Fez isso porque era mais fácil do que lutar por mim. Porque o seu povo importava mais do que seu próprio filho!
O silêncio que se seguiu foi pesado, cortado apenas pela respiração acelerada de Taehyung. Melian abaixou a cabeça, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas.
— Eu pensei que estava fazendo o que era certo… Que garantir um lugar para você ao lado de um rei te traria segurança. Mas eu estava errado. — Ele ergueu os olhos novamente, firmes, mas cheios de arrependimento. — Quando estive aqui pela última vez, vi o que Dorian fez com você. Vi o que você se tornou… E isso me destruiu.
Taehyung apertou os punhos, seu corpo tremendo com uma enxurrada de emoções conflitantes.
— Eu não preciso da sua piedade, Melian. Não agora. — Sua voz era fria, mas havia um tremor sutil em suas palavras.
— E eu não estou aqui para oferecer piedade. Estou aqui porque ainda sou seu pai.
Porque eu te amo e porque não vou mais fechar os olhos para o que está acontecendo. — Melian se aproximou, seu olhar firme. — Você está esperando um filho. Meu neto.
O olhar de Taehyung se suavizou por um instante, seus braços envolvendo instintivamente o próprio ventre.
— Eu senti que não era apenas um bebê… Eu sei que são dois. — Ele sussurrou, quase para si mesmo.
Melian pareceu surpreso, mas logo assentiu, como se aquilo fizesse sentido.
— Os curandeiros não perceberam?
— Não. Mas eu sinto. Eu sei. — Taehyung finalmente olhou diretamente para Melian, seus olhos azuis brilhando com uma emoção nova. — Eu não sei o que fazer. Não sei como protegê-los.
Melian se aproximou ainda mais e, hesitante, pousou uma mão delicada sobre o ombro do filho.
— Então deixe que eu te ajude. Não posso apagar os erros do passado, mas posso garantir que você e essas crianças nunca estejam sozinhos de novo.
O olhar de Taehyung oscilou entre resistência e necessidade. Uma parte dele queria empurrar Melian para longe, mas outra, desesperada, ansiava pelo amor e proteção que ele sempre quis receber.
A batalha dentro dele durou um longo instante, até que ele fechou os olhos e, com um suspiro trêmulo, permitiu que Melian o puxasse para um abraço apertado. Um abraço que, por tanto tempo, ele desejou, mas nunca teve coragem de pedir.
[...]
1 mês e 2 semanas depois… A floresta de Zianol pulsava com uma energia própria, um mundo vivo que sussurrava segredos aos que se dispunham a escutá-los. Seokjin caminhava ao lado de Namjoon, seus olhos atentos aos detalhes ao redor. Cada folha, cada galho retorcido e cada raiz parecia guardar uma história. O vento soprava levemente, carregando o perfume amadeirado da terra úmida e o aroma sutil de ervas desconhecidas.
— Escute, Seokjin — disse Namjoon, sua voz grave e tranquila. — A floresta tem vida própria. Ela acolhe aqueles que a respeitam e repele os intrusos.
Seokjin assentiu, observando o mais velho se abaixar próximo a um arbusto de folhas prateadas. Namjoon arrancou uma única folha e a esfregou entre os dedos, liberando um cheiro cítrico e refrescante.
— Esta é a folha de Lumevar — explicou. — Misturada com água morna, pode curar feridas leves. Mas se triturada e exposta ao luar, torna-se um veneno mortal.
Seokjin pegou a folha e sentiu a textura fina entre os dedos. Ele tinha muito a aprender. Desde que chegara a Zianol, sentia-se como um estrangeiro em meio a um reino de mistérios.
Eles continuaram caminhando, e Namjoon mostrou outras ervas e flores, cada uma com um propósito, seja para curar, fortalecer ou, em mãos erradas, destruir. Era fascinante, mas algo dentro de Seokjin estava inquieto.
Era a terceira noite seguida que sonhava com Taehyung.
Não eram sonhos comuns. Eram vislumbres. Vislumbres de algo que parecia real, como se, em algum lugar, Taehyung também o estivesse sentindo.
No primeiro sonho, ele vira o elfo deitado em seu leito, segurando algo junto ao peito, os olhos marejados de lágrimas. No segundo, o ouvira sussurrar seu nome no vento, quase como um chamado. Mas na última noite, o sonho havia sido diferente. Ele vira Taehyung em meio a uma tempestade, cercado por sombras. Uma presença ameaçadora se escondia além do véu nebuloso, mas antes que pudesse entender o que era, ele acordara.
— Você está distraído — observou Namjoon, tirando-o dos pensamentos. — O que te preocupa tanto?
Seokjin hesitou. Não sabia explicar. Como poderia dizer que sentia Taehyung sem sequer vê-lo? Como poderia dizer que os sonhos pareciam mais do que meras lembranças?
— Eu... acho que ele está tentando me dizer algo — murmurou.
Namjoon o encarou por um momento e suspirou, como se já esperasse aquela resposta.
— O vínculo entre vocês é mais forte do que imagina — disse. — Não se trata apenas do presente, Seokjin. Essas conexões transcendem o tempo. São ecos de vidas passadas.
O guerreiro engoliu em seco. A ideia de que ele e Taehyung estavam entrelaçados em um destino antigo o assustava. O medo crescia dentro de si. Em cada sonho, sentia um fio invisível os unindo, mas também sentia algo tentando cortá-lo.
Namjoon pegou um pequeno frasco de vidro preso ao cinto e o entregou a Seokjin. — Mantenha isso perto de você ao dormir — aconselhou. — É um preparado que fortalece a mente e abre os sentidos para entender melhor o que os sonhos tentam dizer.
Seokjin aceitou o frasco, sentindo um peso desconhecido na consciência. Algo estava prestes a acontecer, e ele precisava estar preparado.
Porque, no fundo, sabia que o tempo estava se esgotando.
[...]
Seokjin já se acostumara à vibração das árvores, ao sussurro do vento entre as folhas, ao brilho etéreo das criaturas noturnas que deslizavam na penumbra. Mas naquela noite, algo estava diferente. O ar estava denso, carregado de uma energia opressora que eriçava os pelos de sua nuca.
Ele se movia com cautela entre os troncos retorcidos, atento a qualquer som que rompesse a sinfonia natural da floresta. Namjoon o ensinara sobre os perigos daquele lugar, sobre as plantas que poderiam curar ou matar, sobre os animais que caminhavam entre o mundo físico e o espiritual. Mas nada o preparara para o que estava prestes a enfrentar.
Um rugido rasgou o silêncio, reverberando entre as árvores como um trovão abafado. Seokjin congelou, os olhos vasculhando a escuridão até que os viu: dois pontos luminosos e ferozes, cravados na penumbra como brasas ardentes. A criatura emergiu das sombras com uma velocidade aterradora, um ser de presas longas e garras curvas, seu corpo revestido de escamas escuras que refletiam a pouca luz do luar.
Seokjin sacou a espada, o coração batendo frenético contra as costelas. O monstro rosnou, uma névoa esverdeada escapando de suas narinas – veneno. Ele não podia deixar que aquilo o atingisse. Com um movimento ágil, girou a lâmina e atacou, mirando as patas traseiras para desequilibrar a criatura. Mas era rápida, mais do que ele imaginava.
As garras se cravaram em seu ombro, rasgando a carne e jogando-o ao chão. A dor foi lancinante, um calor abrasador se espalhando pelo ferimento. Seokjin cerrou os dentes, rolando para longe do ataque seguinte, mas a fraqueza já começava a se instalar. O veneno se espalhava, lento e cruel.
Ele tentou se erguer, mas o monstro avançou novamente, pronto para desferir o golpe final. Então, um uivo cortou a noite. Um som primal, carregado de poder e fúria. A floresta estremeceu.
Namjoon.
A criatura hesitou por um instante, e foi o suficiente. Da escuridão, um vulto negro e feroz surgiu em uma investida brutal, cravando presas afiadas na carne do monstro. A batalha foi selvagem, brutal, mas Seokjin já não conseguia acompanhar. O veneno pulsava em suas veias, cada batida de seu coração era um tormento. Seu corpo tombou para o lado, a consciência se esvaindo como areia entre os dedos.
A última coisa que viu foram olhos dourados pairando sobre si, e a sensação reconfortante de que estava seguro.
Namjoon o carregou através da floresta em sua forma de lobo, os músculos tensos pelo medo e pela urgência. O sangue de Seokjin manchava seu pelo, quente e pegajoso. Ele sabia que o tempo era curto.
Ao chegar à cabana, transformou-se de volta, deitando Seokjin na cama com cuidado. Suas mãos buscaram ervas curativas, unguentos, qualquer coisa que pudesse desacelerar o efeito do veneno. Mas ele precisava de ajuda. Não poderia fazer isso sozinho.
Foi então que pegou um pergaminho e uma pena, escrevendo apressadamente:
“Yoongi, Seokjin está ferido. O veneno é forte e não sei se posso contê-lo por muito tempo. Ele precisa de ajuda, e sei que você fará o que for necessário. Akari levará esta carta até você.
Não demore. Ele precisa dele.
Namjoon.”
Com um assovio cadente, a ave apareceu na penumbra da noite, ele amarrou o pergaminho na pata de Akari e sussurrou uma ordem. O corvo grasnou, batendo as asas e desaparecendo à noite.
Agora, tudo o que restava era esperar – e torcer para que não fosse tarde demais.
[...]
Algumas horas mais tarde… A noite estava densa quando Akari cortou os céus, suas penas escuras se misturando à escuridão como sombras vivas. O corvo desceu silenciosamente até a janela do assassino, onde Yoongi aguardava, sempre atento a qualquer notícia. Ao ver a ave, seu coração se apertou—nenhuma mensagem vinda daquele caminho poderia trazer boas novas.
Com dedos firmes, mas tensos, ele pegou a carta amarrada à pata de Akari e a abriu sob a luz fraca das velas. A caligrafia era de Namjoon, mas o conteúdo era o que mais importava.
“Yoongi, Seokjin está ferido. O veneno é forte e não sei se posso contê-lo por muito tempo. Ele precisa de ajuda, e sei que você fará o que for necessário. Akari levará esta carta até você.
Não demore. Ele precisa dele.
Namjoon.”
O papel tremia em suas mãos.
— Jimin! — Yoongi chamou com urgência.
Jimin surgiu no quarto em poucos instantes, acompanhado de Lyra. O príncipe não precisou perguntar nada—o olhar de Yoongi dizia tudo. Ele pegou a carta e leu em silêncio, os olhos se arregalando e a respiração falhando.
— Não… — A voz de Jimin quebrou, um sussurro carregado de horror. — Seokjin…
Lyra levou as mãos à boca, sentindo o choque atingir seu peito como uma onda fria.
— Precisamos contar a Taehyung — disse Yoongi, já se preparando para sair.

Taehyung estava sentado com Melian quando a porta do salão foi aberta de forma abrupta. O príncipe Jimin entrou primeiro, seguido de Yoongi e Lyra, todos com expressões tensas. Taehyung sentiu um arrepio percorrer sua espinha antes mesmo que dissessem algo.
— O que houve? — Ele se levantou lentamente, o instinto de proteção já se manifestando.
Jimin hesitou por um instante, mas não havia como suavizar aquilo.
— Seokjin está ferido. Gravemente ferido. Foi atacado… Yoongi recebeu uma mensagem. Ele pode não resistir.
O impacto daquelas palavras foi brutal. O corpo de Taehyung perdeu as forças, e se não fosse por Melian segurando-o, ele teria desabado no chão. Um aperto insuportável tomou conta de seu peito, e a respiração tornou-se errática.
— Não… não… — Ele levou as mãos ao ventre, sentindo o peso de uma dor que parecia transpassá-lo. — Eu… preciso ir até ele…
— Tae, você precisa se acalmar — Lyra segurou sua mão, mas ele a puxou de volta.
— Não me peça isso! — Ele gritou, lágrimas descendo por seu rosto. — Eu não posso ficar aqui enquanto ele morre! Eu não posso!
Melian segurou o rosto do filho com as duas mãos, olhando diretamente em seus olhos.
— Você não está sozinho, meu pequeno. Vamos encontrar um jeito… Mas o tempo estava contra eles.
[...]
A decisão foi tomada rapidamente. Jimin e Yoongi ajudariam Taehyung a fugir do castelo. Eles sabiam que Dorian jamais o deixaria partir, muito menos agora, com a gravidez descoberta. Era um risco enorme, mas Taehyung não via outra escolha.
O plano começou ao cair da noite. Com Lyra criando distrações dentro do castelo, Jimin e Yoongi guiaram Taehyung pelos corredores escuros, evitando guardas e olhos curiosos. Cada passo era um teste para os nervos, cada sombra parecia uma ameaça.
Eles quase conseguiram.
Mas então, a armadilha se fechou.
— Levem-nos! — A voz de Dorian soou como um trovão no corredor quando os guardas surgiram de todos os lados.
Havia sido um erro subestimar a vigilância do rei.
Jimin sacou a espada, pronto para lutar, mas Taehyung colocou a mão em seu braço, impedindo-o.
— Não. Não vale a pena. — Sua voz estava trêmula, mas determinada. Ele olhou para Dorian, os olhos transbordando ódio e desafio. — O que vai fazer agora, majestade? Me prender como um pássaro enjaulado? Me deixar definhar aqui enquanto ele morre?
Dorian não respondeu de imediato. Seus olhos brilharam de fúria e frustração.
— Vocês me enojam — ele rosnou. — Leve-o para os aposentos do consorte. Guardas, certifiquem-se de que ele não saia de lá novamente.
E assim, a esperança de fuga se desfez, deixando apenas o desespero e a incerteza sobre o destino de Seokjin.
[...]
A fúria do rei ressoava pelos corredores como uma tempestade furiosa. Guardas foram enviados em todas as direções, e quando Taehyung foi finalmente capturado, arrastado de volta ao castelo como um prisioneiro qualquer, o ar parecia pesado, sufocante. Seu corpo tremia, mas não de medo—era raiva, frustração, desespero. Ele tinha chegado tão perto. Tão perto de escapar.
Dorian o esperava no salão principal, o rosto contorcido em um misto de incredulidade e ira. A sala, normalmente fria e austera, parecia ainda mais opressora sob o olhar de fogo do rei. Taehyung foi jogado de joelhos no chão de pedra, seu cabelo bagunçado caindo sobre os olhos. Mesmo machucado e sujo, sua postura ainda era altiva.
—Você ousou tentar fugir de mim? — Dorian rosnou, dando passos lentos até ele. — Você me desonra, humilha esta corte, trai o seu próprio povo?
— Seu povo nunca me quis aqui — Taehyung rebateu, sua voz cortante. — E você... nunca me tratou como algo além de um troféu.
A resposta só aumentou a ira do rei. Sem aviso, Dorian desceu um tapa ardente contra o rosto do elfo, o som ecoando pelo salão. Taehyung virou o rosto com o impacto, mas não demonstrou fraqueza. Seu coração batia acelerado, e uma parte de si sabia que aquilo não terminaria ali.
— Você se acha intocável por causa dessa... abominação que carrega? — O rei cuspiu as palavras. — Um filho bastardo, fruto de traição! Filho de outro bastardo.
Os olhos de Taehyung brilharam de escárnio, apesar da dor em sua face.
— Não tanto quanto você.
Dorian avançou sobre ele de novo, mas antes que pudesse encostar a mão, Morana se aproximou, sua presença foi serpenteando entre os dois como veneno.
— Majestade... — sua voz era doce, traiçoeira. — Talvez seja prudente não feri-lo ainda mais. Ele está debilitado. Devemos pensar no futuro.
O rei apertou os punhos. A raiva estava em seu olhar, mas Morana sabia que o envenenamento correto das palavras poderia direcioná-la para algo pior do que um simples castigo físico.
— O que sugere, minha querida? — Dorian perguntou, sem desviar os olhos de Taehyung, que ainda permanecia de joelhos, desafiador.
— Um exemplo. Uma lição inesquecível. O castelo inteiro precisa saber o que acontece com aqueles que ousam desobedecê-lo. — Morana se inclinou perto do rei, sussurrando algo que Taehyung não conseguiu ouvir, mas que fez o monarca esboçar um sorriso sombrio.
O consorte sentiu um calafrio subir por sua espinha. Ele sabia que qualquer coisa que
Morana estivesse tramando não seria boa. Seu coração batia forte contra o peito, o instinto gritava para lutar, para escapar de novo, mas agora ele estava completamente à mercê de Dorian.
O rei deu um passo para trás e o observou como se estivesse decidindo qual punição seria mais adequada. E então, ele finalmente falou:
— Amanhã ao amanhecer, todos verão do que sou capaz. Você não tentará me humilhar novamente, Taehyung. Seu lugar será definido de uma vez por todas.
O silêncio pesado caiu sobre a sala. Taehyung manteve o olhar fixo no rei, recusandose a mostrar medo. Mas por dentro, uma tempestade se formou.
Ele sabia que algo terrível estava por vir. E pelo bem da sua família, lutaria até o fim.
Mostraria a todos que além de herdeiro de um reino, ele era um guerreiro. Se Morana era como uma serpente, ele seria seu predador.
Taehyung podia estar ajoelhado no chão frio daquele salão, o corpo fraco pela dor e pelo cansaço, mas sua essência permanecia intacta. Seus olhos, embora sombreados pelo sofrimento, ainda carregavam o brilho de um rei coroado, de um guerreiro não vencido.
As correntes apertavam seus pulsos, mas não podiam prender sua vontade. O ar ao seu redor parecia carregado de algo invisível, algo que os guardas ao redor sentiam, mesmo sem entender. Eles tentavam ignorar o arrepio em suas peles, o estranho peso que pairava no ambiente.
Morana olhou-o, um sorriso satisfeito nos lábios.
— Você está acabado, Taehyung — sussurrou ela, se aproximando. — Não importa o que faça, não tem para onde correr.
Ele ergueu os olhos para ela, e foi naquele instante que Morana sentiu. O erro que acabara de cometer.
Porque Taehyung não era um prisioneiro.
Ele era um ser mágico, um descendente de linhagens antigas, de poderes que nem mesmo ela compreendia completamente. Ele era aquele que, mesmo em correntes, mesmo ferido, exalava uma presença que fazia o coração de qualquer um hesitar.
— Eu posso estar preso — sua voz soou baixa, rouca, mas implacável. — Mas não significa que você venceu.
O ar pareceu vibrar ao seu redor. Sua força estava ali, sob a pele pálida, nos ossos quebradiços, na dor que queimava como um lembrete de que ele ainda estava vivo.
E enquanto estivesse vivo, lutaria.
[...]

13. Eternamente teu

"Não há adeus para nós.
Onde quer que você esteja, sempre estará em meu coração." – Mahatma Gandhi


A notícia os atingiu como uma lâmina fria.
Jimin sentiu o ar escapar de seus pulmões quando soube que Taehyung fora preso em seus aposentos, como um criminoso imundo. O desespero cresceu em sua garganta como um nó sufocante. Ele não podia permitir isso. Não podia deixar que seu amigo enfrentasse sozinho a fúria de Dorian.
— Isso não pode estar acontecendo... — murmurou, passando as mãos pelos cabelos, andando de um lado para o outro. Seu coração martelava contra as costelas. — Eu preciso fazer alguma coisa, eu preciso...
Yoongi, ao contrário, ficou imóvel. O assassino parecia esculpido em pedra, o rosto sem expressão, mas seus olhos ardiam com uma fúria silenciosa. Ele apertou os punhos, os nós dos dedos ficando brancos.
— Maldição... — foi tudo o que disse. Mas sua voz era um veneno contido.
Jimin virou-se para ele, o desespero transbordando.
— Não podemos deixá-lo lá, Yoongi! Ele não pode enfrentar Dorian sozinho!
Yoongi finalmente se moveu, os olhos sombrios como a noite.
— Ele não vai. — Sua voz era fria, letal. — Eu falhei uma vez. Não falharei de novo.
Jimin engoliu em seco. Conhecia bem aquele tom. Yoongi estava furioso. Mas não era uma fúria explosiva e impetuosa como a dele. Era um ódio calculado, um juramento silencioso de vingança.
— Então o que vamos fazer? — Jimin perguntou, a voz trêmula, mas firme.
Yoongi ergueu o olhar, e um pequeno sorriso, cruel e perigoso, curvou seus lábios.
— Vamos derrubar aquele maldito rei. E trazer Taehyung de volta.
E naquele momento, Jimin soube que não havia mais volta.
Jimin sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir as palavras de Yoongi. Ele sabia que o assassino não fazia ameaças vazias. Quando Yoongi se comprometia com algo, ele levava aquilo até o fim—não importava o preço.
— Como vamos fazer isso? — Jimin perguntou, a voz mais firme agora.
Yoongi passou a língua pelos lábios, pensativo.
— Precisamos de aliados. Se tentarmos agir agora, sem um plano, estaremos condenados.
Jimin cerrou os punhos.
— Não temos tempo para esperar! Taehyung está lá dentro, sozinho!
Yoongi virou-se para ele, os olhos sombrios como a noite.
— E se corrermos para lá sem estratégia, tudo o que vamos conseguir é morrer junto com ele.
As palavras frias fizeram Jimin engolir em seco. Ele queria gritar, queria se jogar contra as muralhas do castelo e arrancar Taehyung de lá com as próprias mãos. Mas sabia que Yoongi estava certo. Eles precisavam ser inteligentes.
Lyra, que até então estava em silêncio, deu um passo à frente, sua expressão séria.
— Conhecemos as passagens secretas do castelo. Se precisarmos entrar ou sair despercebidos, não será um problema.
Yoongi assentiu, avaliando-a.
— Isso será útil. Mas antes de qualquer coisa, precisamos saber o estado de Taehyung.
Jimin inspirou fundo e, mesmo relutante, concordou.
— Eu posso tentar falar com meu pai. Sei que Dorian me odeia, mas talvez… talvez ele não me veja como uma ameaça.
Yoongi não pareceu convencido.
— Isso é perigoso. E se ele decidir que você também é um problema?
Jimin deu um sorriso amargo.
— Já sou um problema para ele há anos. Se eu não fizer nada, nunca vou me perdoar.
Yoongi estreitou os olhos, mas não discutiu.
— Muito bem. Mas você não irá sozinho. Eu ficarei por perto. Se algo der errado… — Eu sei. — Jimin o interrompeu, trocando um olhar carregado com ele.
Lyra observou os dois e respirou fundo.
— Então está decidido. Salvaremos Taehyung. E se for preciso… Ela não terminou a frase, mas todos entenderam o que queria dizer.
Se fosse preciso, eles derrubariam Dorian.
A noite caiu sobre o castelo de Sollaria como um presságio sombrio. As tochas iluminavam os corredores, mas a escuridão parecia engolir cada canto, tornando o ar denso e pesado.
Jimin ajeitou o manto sobre os ombros, respirando fundo antes de atravessar as portas do salão principal. Seu coração batia forte. Ele precisava manter a calma. Precisava fingir que não estava ali para desafiar seu pai.
Dorian estava sentado no trono, com a expressão fechada. Morana estava ao seu lado, sussurrando algo em seu ouvido. Ao notar a presença do filho, o rei ergueu uma sobrancelha.
— O que deseja, Jimin?
O príncipe avançou com passos firmes.
— Quero ver Taehyung.
O silêncio caiu sobre o salão. Morana sorriu de canto, inclinando-se levemente para frente.
— Tão preocupado com ele, meu príncipe… — sua voz era doce como mel envenenado. — O consorte cometeu traição. Você deveria estar ao lado de seu rei.
Jimin a ignorou, mantendo os olhos fixos em Dorian.
— Ele está grávido. Você sabe o que isso significa. Independente do que pensa dele, Taehyung carrega um herdeiro real. Você não pode tratá-lo como um prisioneiro.
Dorian suspirou, batendo os dedos no braço do trono.
— Um bastardo. E o que sugere que eu faça? Deixe-o fugir e levar essa criança com ele?
— Ele não fugiria se tivesse segurança aqui. — Jimin deu um passo à frente. — O que está fazendo com ele, pai?
O rei estreitou os olhos.
— Estou garantindo que não cometa mais nenhuma tolice.
Jimin sentiu a raiva crescer dentro de si, mas se forçou a manter o controle.
— Quero vê-lo. Agora.
Dorian se inclinou ligeiramente para frente, um sorriso cruel nos lábios.
— Você acha que pode me dar ordens, garoto?
O ar ficou pesado.
Jimin soube, naquele momento, que seu pai nunca permitiria que Taehyung escapasse ileso dessa situação. Ele precisava agir rápido. Antes da punição ser decidida.
Do lado de fora do castelo, Yoongi esperava na escuridão. Seu olhar estava fixo nas torres, seus sentidos aguçados para qualquer sinal de perigo.
— Algo está errado — ele murmurou, sentindo a inquietação crescer.
Ao seu lado, Lyra observava os guardas patrulhando os muros.
— Se Jimin não conseguir nada lá dentro… temos que invadir.
Yoongi não respondeu, mas sua mão se fechou ao redor do punhal preso à cintura.
Se Jimin falhasse, ele faria chover sangue dentro daquele castelo.
[...]
O silêncio da noite era apenas uma ilusão. Dentro do castelo, as correntes da opressão se apertavam ao redor de Taehyung. E do lado de fora, nas sombras, Yoongi se preparava para agir.
— Esperamos ou invadimos? — Lyra perguntou, seus olhos atentos às movimentações nos portões.
Yoongi estreitou os olhos, analisando a situação.
— Jimin ainda está lá dentro. Não podemos agir sem saber o que aconteceu.
Mas a impaciência crescia dentro dele como uma fera inquieta. Ele não suportava a ideia de Taehyung preso naquele castelo, sozinho, vulnerável.
O vento noturno trouxe um ruído leve. Um bater de asas. Akari pousou no ombro de Yoongi, soltando um grasnado baixo. Seus olhos negros brilharam como brasas, e no instante seguinte, a voz de Jimin sussurrou em sua mente através da magia que o corvo carregava.
"Ele não vai soltar Taehyung. Mas o consorte ainda resiste. Ele não se quebrou."
Yoongi apertou os punhos.
— O que isso significa? — Lyra questionou.
— Significa que temos que tirá-lo de lá. — Yoongi puxou o capuz sobre os cabelos escuros. — Agora.
Lá dentro, Jimin sentia a tensão crescer no ar.
— Pai, escute-me. Se continuar tratando Taehyung como um prisioneiro, estará apenas fortalecendo seus inimigos. — A voz dele era firme, mas o rei apenas sorriu com desprezo.
— Meus inimigos? — Dorian se levantou, descendo lentamente os degraus do trono. — Meu filho, você ainda não entendeu, não é? Taehyung nunca foi mais do que uma peça nesse jogo.
Jimin sentiu um arrepio na espinha.
— Você sabia que ele estava grávido, e mesmo assim o prendeu?
— O que isso importa? — O rei revirou os olhos. — Ele tentou fugir. Traiu minha confiança duas vezes.
Jimin respirou fundo, tentando conter a ira.
— Ele nunca te pertenceu.
Dorian riu.
— Você é jovem, Jimin. Ainda não entende como o poder funciona.
Antes que pudesse responder, a grande porta se abriu, e um dos guardas entrou apressado.
— Majestade, o Consorte Melian exige uma audiência imediata.
O salão mergulhou em um silêncio pesado.
O sorriso de Dorian desapareceu.
Melian?
Jimin conteve um suspiro aliviado.
A tempestade estava prestes a começar.
[...]
O salão do trono estava mergulhado em um silêncio denso quando Melian deu um passo à frente, seu olhar dourado queimando de fúria contida. Os nobres de Sollaria, acostumados à altivez de Dorian, murmuravam entre si, sentindo a tensão crescer a cada segundo.
Dorian, recostado em seu trono, ergueu uma sobrancelha, desdenhoso.
— O consorte de Yinsia deseja uma audiência?—, ele riu, sem se mover. —Curioso. Não me lembro de ter concedido tal permissão.
Melian manteve a postura ereta, sua capa esvoaçando atrás de si.
— E eu não me lembro de você ter o direito de manter meu filho como prisioneiro, muito menos de torturá-lo publicamente. O que está acontecendo aqui, Dorian?— Sua voz soou cortante, fazendo até mesmo alguns guardas se encolherem. Os olhos frios do rei encontraram os dele.
— O que acontece no meu reino não diz respeito a Yinsia. Taehyung é meu consorte e, portanto, está sob minhas regras.
Melian riu, um som seco e perigoso.
— Você fala de regras? Seu casamento com meu filho deveria ter selado a paz entre nossos povos, mas tudo que vejo é traição e desonra.— Ele olhou ao redor, encarando os nobres e conselheiros presentes. — Será que todos vocês aprovam essa barbárie?
Dorian apertou os punhos nos braços do trono, sua expressão se tornando sombria.
— Você ousa me desafiar dentro do meu próprio castelo, Melian? Eu sou o rei de Nirya!
— E eu sou pai de Taehyung antes de qualquer título.— Melian avançou mais alguns passos, seus olhos brilhando com uma energia selvagem. — Quero vê-lo agora. E quero garantias de que nada mais lhe acontecerá.
Morana, que até então observava silenciosa, sorriu ao ver o conflito se desenrolar.
Perdoe-me, majestade,— sua voz suave interrompeu o momento,— mas devemos mesmo ceder a exigências de um pai que nunca se preocupou com o bem-estar do próprio filho antes?— Ela virou-se para os presentes, encenando uma expressão de preocupação. — Será que Melian veio por amor, ou por conveniência?
Melian girou a cabeça lentamente em sua direção, seu olhar gelado.
— Você ousa falar sobre amor, Morana? Uma mulher que se arrasta pelos corredores sussurrando venenos nos ouvidos do rei?
A concubina manteve o sorriso, mas seus olhos brilharam em desafio.
— Apenas questiono o que vejo.
Melian girou o rosto na direção da mulher, seus olhos percorrendo-a como se já soubesse de suas intenções só pelo modo como ela se portava.
— E quem é você, que se atreve a falar sobre meu filho como se conhecesse sua dor? — Sua voz era afiada como um punhal.
Morana sorriu, mas havia algo de venenoso na expressão dela.
— Apenas uma leal serva da coroa, preocupada com o equilíbrio do reino.
— Equilíbrio? — Melian riu de leve, mas não havia humor. — Você fala de equilíbrio enquanto se alimenta do sofrimento dos outros. Sei muito bem o que está fazendo. Você quer eliminar Taehyung, pois o vê como uma ameaça. Mas não permitirei que isso aconteça.
Dorian tamborilou os dedos no trono, entediado.
— Você não tem autoridade aqui, Melian. Seu filho é meu consorte, e minha decisão é absoluta.
Melian então deu um passo à frente, sua aura faiscando com poder.
— O erro foi acreditar que Taehyung ainda é seu consorte. Mas não se preocupe, Dorian. Eu mesmo cuidarei para que isso não dure muito mais tempo.
Dorian bateu sua mão contra o braço do trono.
— Basta!— Ele encarou Melian. — Se quiser ver Taehyung, verá. Mas apenas sob as minhas condições. Ele será trazido à sua presença, mas não haverá discussões sobre sua punição.
Melian estreitou os olhos.
Então me leve até ele agora.

O salão mergulhou em um silêncio tenso. Dorian franziu a testa, como se as palavras de Melian lhe causassem um incômodo particular. Morana apertou os lábios, percebendo que a situação poderia fugir do controle.
Mas a tempestade já estava se formando. E Melian não sairia dali sem seu filho.
[...]
Enquanto isso no meio da floresta
O cheiro de sangue era forte no ar, misturado ao aroma úmido da terra da floresta. O corpo de Seokjin jazia sobre a superfície áspera da mesa improvisada, a pele pálida contrastando com a escuridão da noite. Namjoon trabalhava rápido, os dedos ágeis pressionando as bordas do ferimento profundo, tentando conter o fluxo contínuo de sangue que insistia em escorrer, tingindo seus dedos de vermelho.
Os olhos de Seokjin estavam semicerrados, oscilando entre a consciência e a inconsciência. A respiração dele era irregular, cada inspiração parecendo um esforço colossal. Namjoon sentia o suor escorrendo por sua têmpora, o coração batendo acelerado em seu peito. Ele conhecia muitas ervas, muitos feitiços, mas aquilo… aquilo era diferente. O corte havia sido feito por algo impuro, algo envenenado, algo que nem mesmo sua magia parecia conseguir dissipar completamente.
— Fique comigo, Jin. — Namjoon murmurou, sua voz carregada de urgência. — Você já passou por tanta coisa, não é agora que vai me deixar.
Ele pegou um frasco com um líquido dourado e despejou algumas gotas no ferimento, observando atentamente a reação. O sangramento começou a diminuir, mas o veneno ainda estava ali, pulsando sob a pele, escurecendo as bordas da ferida. Namjoon cerrou os dentes, frustrado. Ele precisava de algo mais forte, algo que pudesse purificar aquele mal.
A madeira rangeu quando ele se afastou por um instante, pegando um pano limpo para pressionar contra a ferida. Seokjin soltou um gemido baixo, o rosto se contorcendo de dor. Namjoon sabia que precisava agir rápido. Se esperasse muito, o veneno se espalharia por todo o corpo.
— Aguente firme… eu vou achar uma solução. — Ele prometeu, apertando o pano sobre o ferimento.
Lá fora, o vento sussurrava entre as árvores, como se os próprios espíritos da floresta estivessem atentos ao destino do guerreiro caído. O tempo corria contra eles, e Namjoon sabia que Seokjin não poderia esperar por muito mais tempo.
[...]
O céu de Sollaria estava encoberto por nuvens carregadas quando os tambores soaram, anunciando o início do castigo público. A praça central estava lotada de nobres e plebeus, todos ansiosos para testemunhar a punição do Consorte. Alguns assistiam com verdadeira crueldade, outros com um misto de horror e incredulidade. Mas ninguém ousava desafiar a ordem do rei.
Taehyung foi trazido pelos guardas, algemado e com vestes rasgadas. Seu rosto estava marcado pela exaustão, mas seus olhos, mesmo cansados, ainda sustentavam um brilho de desafio. Ele se recusava a demonstrar medo, mesmo sabendo que Dorian não teria misericórdia. O rei estava sentado em seu trono elevado, com um olhar de puro desprezo.
Ao lado dele, Morana mantinha um sorriso quase satisfeito, a serpente que sussurrava veneno no ouvido do monarca. Ela se aproximou lentamente de Dorian e, em um tom suave, disse:
— Meu rei, talvez seja prudente oferecer ao povo um verdadeiro exemplo. Um castigo que deixará claro o que acontece com aqueles que desafiam sua autoridade.
Dorian ergueu uma sobrancelha, claramente interessado.
— E o que sugere, minha querida?
Ela se inclinou, sua voz melosa como mel envenenado.
— Chicotes são comuns, meu senhor. Mas há formas mais eficientes de humilhação. Talvez devêssemos marcar o corpo do Consorte com ferro em brasa. Que ele carregue o símbolo de sua traição para sempre.
Um murmúrio inquieto percorreu a multidão. Alguns olhares se cruzaram, incertos. A sugestão era cruel até mesmo para os padrões de Sollaria. Taehyung, no entanto, não demonstrou reação imediata. Ele apenas ergueu o rosto, encontrando o olhar do rei sem hesitação.
— Faça o que quiser — sua voz saiu firme, mas serena. — Mas saiba que, não importa o que faça comigo, nunca terá meu espírito.
Dorian se inclinou para frente, os olhos se estreitando em fúria.
— Seu espírito? — ele riu, uma risada seca e cruel. — Seu espírito não vale nada, Taehyung. Você me enganou, desonrou este reino. E agora, todos verão o preço da sua traição.
O pátio do castelo estava silencioso, um silêncio pesado e sufocante. Servos e nobres se amontoavam ao redor, observando a cena que se desenrolava diante deles. No centro, Taehyung estava ajoelhado, os pulsos acorrentados, o olhar fixo no chão de pedra. A brisa fria da manhã parecia zombar de sua vulnerabilidade.
Dorian estava sentado em seu trono de pedra, erguido no alto do pátio, como um deus impassível que determinava o destino dos mortais abaixo. Ao seu lado, Morana sorria discretamente, os olhos brilhando com expectativa. Ela havia sussurrado veneno nos ouvidos do rei por dias, incitando sua fúria contra Taehyung. E agora, seu momento havia chegado.
— O Consorte Real, Taehyung de Yinsia, cometeu o mais grave dos crimes contra a Coroa. Sua traição não será esquecida, e para que todos vejam e compreendam as consequências de sua deslealdade, ele será marcado. Para que ninguém mais ouse me enganar! — A voz de Dorian ecoou pelo pátio, cheia de ódio e ressentimento.
O carrasco se aproximou, trazendo consigo uma barra de ferro incandescente, o símbolo do sol estampado na ponta. O calor emanava dela, e alguns na multidão desviaram o olhar, incapazes de assistir. Taehyung respirou fundo, sentindo o suor escorrer pela testa, mas não desviou o olhar. Ele suportaria. Ele sempre suportou.
Quando o soldado ergueu a haste para pressioná-la contra a pele de Taehyung, um grito cortou o silêncio:
— PAREM!
O som ecoou forte, e todos se voltaram para a entrada do pátio. Um grupo de figuras emergia, os passos determinados e os olhos ardendo com fúria. No centro, Melian, envolto em vestes reais de Yinsia, avançava como uma tempestade.
— Isso é um ultraje! — O consorte de Yinsia rugiu, sua voz carregada de autoridade. — O que está acontecendo aqui não é justiça. É crueldade. E eu não permitirei que meu filho seja tratado como um criminoso!
O impacto de suas palavras paralisou o pátio. Dorian estreitou os olhos, claramente irritado com a interrupção. Morana franziu a testa, percebendo que seus planos estavam ameaçados.
Taehyung, ainda ajoelhado, ergueu os olhos para o pai. Uma chama de esperança brilhou em seu olhar ferido. Ele sabia que a luta ainda não havia terminado, mas naquele momento, não estava mais sozinho.
O silêncio que se seguiu à interrupção foi carregado de eletricidade. Dorian não tirava os olhos de Taehyung, os punhos cerrados ao lado do corpo. O Consorte, mesmo de joelhos e sujo, sustentava o olhar do rei com firmeza, como se desafiasse sua autoridade apenas com sua mera existência.
Os murmúrios da corte foram se transformando em um zumbido baixo, até que Dorian, com um sorriso frio, ergueu uma das mãos, silenciando o lugar.
— Talvez eu tenha sido precipitado — disse ele, sua voz controlada, mas carregada de veneno. — Um castigo rápido seria misericórdia demais para alguém que ousou me humilhar dessa maneira. Um traidor merece um destino à altura da sua ofensa.
Os olhos do rei percorreram os rostos ao redor, como se quisesse gravar a expressão de cada um ali. Seu olhar se demorou em Morana, que mantinha-se próxima, os lábios curvados em um sorriso contido. Ela não precisou dizer nada; o brilho em seus olhos deixava claro que aprovava cada decisão de Dorian.
O rei então voltou-se para os guardas, sua voz saindo como um trovão:
— Levem-no para os calabouços. Quero que ele apodreça na escuridão até que eu decida o que fazer com ele.
Os murmúrios explodiram na multidão. Havia os que aprovavam o castigo e os que olhavam com receio, temendo o que mais poderia acontecer.
Taehyung fechou os olhos por um momento, sentindo os braços fortes dos guardas o puxando para cima. Seu corpo estava fraco, mas sua alma permanecia intacta. Dorian podia aprisioná-lo, torturá-lo, mas nunca o faria se curvar.
Enquanto era arrastado para fora, sentiu o olhar de Jimin cravado nele. O príncipe mordeu o lábio, claramente lutando contra o impulso de agir. Yoongi, parado mais atrás, mantinha-se imóvel como uma sombra, mas havia um brilho perigoso em seus olhos.
Antes de ser levado para longe, Dorian se aproximou de Taehyung e sussurrou em seu ouvido:
— Achei que fosse mais esperto, Consorte. Eu ia acabar com isso agora, mas você me deu um motivo para prolongar sua dor. Vamos ver quanto tempo mais consegue suportar.
Taehyung não reagiu, não lhe daria essa satisfação. Em vez disso, ergueu o queixo e, com um sorriso irônico, sussurrou de volta:
— Você tem medo de mim, Majestade. E isso te enfurece, não é?
Dorian cerrou os dentes, mas antes que pudesse responder, os guardas puxaram Taehyung, levando-o para as profundezas do castelo.
Enquanto caminhavam pelos corredores frios, os passos ecoando, Taehyung soube que o verdadeiro jogo havia começado. Ele precisava ser forte, porque lá fora, seus aliados não ficariam de braços cruzados.
E quando chegasse o momento certo, ele sairia daquela prisão.
Livre.
[...]
A lua alta no céu lançava um brilho pálido sobre as torres de Sollaria, onde sombras se moviam furtivamente entre os corredores silenciosos. O castelo estava em alerta máximo. Dorian, furioso após a tentativa frustrada de fuga de Taehyung, havia dobrado a segurança, ordenando que seus guardas não hesitassem em derramar sangue caso houvesse nova insubordinação.
Mas Jimin e Yoongi não podiam esperar mais.
Taehyung estava enfraquecido, mas sua alma ardia em resistência. A humilhação do quase castigo imposto por Dorian ainda queimava em sua pele, mas não quebrará seu espírito. E agora, com a chance de escapar mais uma vez, ele reunia cada fragmento de força que lhe restava.
A estratégia era clara: infiltrar-se no calabouço e libertar Taehyung antes que Dorian percebesse. Melian, embora poderoso, não conseguira impedir o rei de manter seu filho cativo, já tinha impedido que o castigo acontecesse, mas seu olhar havia dito tudo: ele confiava neles para salvá-lo.
Yoongi liderava o avanço com a precisão de um assassino experiente. Vestido como um dos guardas do castelo, movia-se com frieza pelos corredores, eliminando silenciosamente qualquer obstáculo com sua lâmina curta e letal. Jimin e Lyra seguiam logo atrás, ambos camuflados com mantos escuros, os corações pulsando contra o peito.
O tempo era escasso.
Ao chegarem às celas subterrâneas, encontraram Taehyung algemado, a cabeça baixa, os cabelos desgrenhados cobrindo parte de seu rosto marcado. Mas seus olhos ainda brilhavam com a mesma determinação de sempre. Quando a porta foi aberta, ele não hesitou. Com um aceno resoluto, aceitou a ajuda de Jimin e se ergueu.
— O caminho está livre até os estábulos — sussurrou Yoongi. — Mas teremos problemas quando chegarmos ao portão principal. Morana pode ter previsto nossa jogada.
E de fato, ela havia.
Ao emergirem na ala externa do castelo, os gritos de alerta cortaram o silêncio. Arqueiros postados nos muros começaram a disparar flechas, obrigando o grupo a correr em zigue-zague para evitar os projéteis. Os portões estavam fechados, trancados por pesadas correntes e protegidos por soldados que não hesitariam em matar.
— Maldição — rosnou Yoongi, sacando suas lâminas. — Vamos ter que lutar.
Jimin e Lyra se posicionaram ao seu lado, prontos para o embate. Taehyung, mesmo debilitado, ergueu uma das mãos, e um brilho dourado percorreu seus dedos. A magia dentro dele, mesmo instável, ainda respondia ao seu chamado.
Os soldados avançaram.
O choque de espadas ecoou na noite. Jimin se movia com a agilidade de um dançarino, desviando dos ataques e derrubando inimigos com golpes precisos. Yoongi era pura letalidade, uma sombra entre as sombras, suas lâminas ceifando vidas antes que os guardas pudessem gritar. Lyra, com uma adaga em cada mão, desferia cortes rápidos e certeiros, impedindo qualquer um de se aproximar de Taehyung.
E então, no auge do caos, uma explosão de energia veio do próprio consorte.
O chão tremeu sob os pés deles quando Taehyung canalizou sua última reserva de magia. O portão de ferro rangeu, as correntes que o selavam se desfazendo como se corroídas pelo tempo. O impacto derrubou alguns soldados, abrindo uma brecha na defesa.
— Agora! — gritou Jimin.
Montando nos cavalos preparados previamente, eles dispararam em direção à floresta. Flechas ainda cortavam o ar atrás deles, mas a liberdade era uma promessa logo adiante.
Dorian podia ter sido implacável. Morana podia ter tramado contra eles.
Mas nenhum deles havia conseguido impedir Taehyung de se libertar.
[...]
A noite estava pesada e densa quando Taehyung emergiu das sombras da fortaleza, o vento frio açoitando seu rosto enquanto seus pés descalços tocavam o chão úmido. Seus pulmões queimavam, mas ele não podia parar. Não agora. Não quando sabia que cada segundo contava para salvar Seokjin.
O coração do elfo pulsava em um ritmo frenético, guiado pelo instinto. Havia algo chamando por ele, algo antigo e poderoso, algo que residia na floresta além do mar. As criaturas da noite sussurravam seu nome, seus olhos brilhantes espreitando entre as árvores enquanto ele corria em meio às raízes retorcidas.
Quando alcançou a clareira iluminada pela lua, Taehyung parou, fechando os olhos e erguendo as mãos. Sua magia fluía como um rio revolto, preenchendo o ar com um brilho dourado. Seu chamado não era em palavras, mas em energia pura, um eco vibrante que atravessava a terra, o céu e as águas. E então, ele sentiu. Uma resposta vinda das alturas.
O vento rugiu ao seu redor quando enormes asas bateram contra o céu. Dos confins da floresta, uma criatura majestosa desceu, sua pele escamada refletindo a luz da lua como um espelho prateado. Um dragão.
Os olhos da criatura se fixaram nos de Taehyung, uma compreensão silenciosa passando entre eles. O elfo avançou, sem hesitar, pousando a mão no focinho quente do animal. Ele sentiu a conexão se fortalecer, um pacto selado sem necessidade de palavras. A criatura se abaixou, permitindo que Taehyung subisse sobre seu dorso largo. Assim que ele se acomodou, o dragão bateu as asas e, em um único impulso poderoso, ergueu-se no céu estrelado.
Abaixo deles, o mar se estendia como um espelho negro, refletindo as constelações que dançavam acima. A velocidade era estonteante, os ventos cortantes, mas Taehyung não se importava. Seu único pensamento era alcançar Seokjin a tempo. Através da conexão mística que agora pulsava em suas veias, ele sentiu a dor de seu amado. Um grito silencioso ecoava dentro dele, um pedido desesperado de ajuda.
Taehyung segurou firmemente a crina reluzente da criatura enquanto sobrevoava o oceano, sua determinação ardendo como uma estrela cadente. Ele não permitiria que o destino os separasse novamente. Não dessa vez.
A floresta de Zianol já estava à vista no horizonte, e dentro dela, Seokjin aguardava, pendurado entre a vida e a morte. Taehyung apenas rezava para que tivesse chegado a tempo.
[...]
O vento cortante da noite fria chicoteava o rosto de Taehyung enquanto ele descia do enorme dragão, os pés tocando a terra macia da floresta. O silêncio ao redor parecia ensurdecedor, e seu coração martelava no peito, apertado por uma angústia avassaladora. O cheiro de folhas molhadas e terra misturava-se ao odor metálico de sangue, e foi esse cheiro que fez seus joelhos quase cederem.
— Seokjin... — sua voz era apenas um sussurro trêmulo, mas carregava todo o desespero e amor que lhe preenchiam a alma.
Avançou com passos rápidos, tropeçando entre raízes e galhos, até que seus olhos encontraram a pequena cabana iluminada por uma tocha bruxuleante. A porta estava entreaberta, e dentro, o som de uma respiração pesada e fraca o fez congelar por um instante.
Ao atravessar a soleira, o mundo pareceu girar ao seu redor. Sobre uma cama improvisada, coberto com mantas grossas, Seokjin jazia pálido, os lábios rachados e a testa úmida de suor febril. O peito subia e descia com dificuldade, os curativos sobre o ferimento encharcados de sangue seco e fresco. Ao seu lado, Namjoon ajeitava ervas em uma bacia, os olhos carregados de preocupação.
— Você demorou — disse o mago, a voz grave, mas sem qualquer tom de repreensão.
Taehyung não conseguiu responder. Suas pernas finalmente cederam, e ele caiu ao lado da cama, as mãos trêmulas tocando o rosto pálido de Seokjin. O toque fez seu coração se apertar ainda mais.
— Ele está tão frio... — Taehyung sussurrou, as lágrimas desabando antes que pudesse segurá-las. — Jin... meu amor, por favor... — Acariciou-lhe os cabelos úmidos, os dedos deslizando pela pele pálida como se o próprio toque pudesse trazê-lo de volta.
Namjoon se aproximou, pousando uma mão reconfortante em seu ombro.
— Ele lutou para se manter consciente, Majestade. Mas o veneno... É forte. Estou tentando neutralizá-lo, mas precisamos de tempo.
— Tempo? — Taehyung levantou o olhar, os olhos brilhando em fúria e desespero. — Eu não tenho tempo, Mago! Não posso perdê-lo!
As mãos de Taehyung deslizaram para a barriga, onde um calor familiar pulsava. A conexão entre ele e seus filhos parecia se intensificar naquele momento, e pela primeira vez, ele sentiu que não estava sozinho naquela batalha. Seu sangue era magia, sua essência era sagrada. Talvez houvesse algo que pudesse fazer.
— Jin, por favor, abra os olhos! Eu estou aqui! Eu vim por você! — Sua voz era um grito de dor, um apelo desesperado aos deuses que sempre pareciam impiedosos.
Os olhos de Seokjin se entreabriram lentamente. Um brilho fraco neles reluziu ao encontrar os de Taehyung. Um sorriso tímido puxou os cantos de seus lábios, mesmo que a dor o dominasse.
— Tae... você veio...
— Claro que eu vim! Eu nunca te deixaria! Eu vou salvar você, Jin, aguente firme! — As lágrimas caíam sem controle enquanto ele pressionava as mãos sobre os ferimentos, mas o sangue continuava fluindo.
Seokjin soltou um riso fraco, um som mais triste do que alegre. Sua mão trêmula encontrou o rosto de Taehyung, traçando sua linha da mandíbula com uma ternura desesperada.
— Eu... sempre soube que você viria. Mas já é tarde...
— NÃO! — Taehyung gritou, segurando-o com mais força. — Você não pode me deixar! Não agora, não depois de tudo! Não depois de todo o amor que ainda temos para viver!
Os dedos de Seokjin escorregaram pelo ventre de Taehyung, pousando ali, onde carregava suas crias. Seu olhar suavizou, e um brilho de compreensão brilhou em seus olhos escuros.
— Eles... você os protegeu...
Taehyung apenas assentiu entre soluços. Seokjin fechou os olhos por um instante, como se sentisse aquelas vidas pulsando sob sua palma. Quando os abriu novamente, um último vestígio de força reluziu em sua voz.
— Então viva, Taehyung. Viva por nós. Proteja nossa família. Ame por nós.
O corpo de Seokjin se tornou mais pesado nos braços de Taehyung. O elfo soluçou alto, sacudindo-o levemente.
— Não, Jin! Fique comigo! Eu suplico, por favor! — Mas a respiração do cavaleiro já se dissipava, e o calor se esvaía de seu corpo.
Com um último suspiro, Seokjin fechou os olhos. Sua mão deslizou do ventre de Taehyung para o chão, inerte.
O grito que ecoou pela floresta naquela noite foi o som de um coração se partindo para sempre.
[...]

14. Luz após a tempestade

"No fim, todas as sombras serão dissipadas, e cada coração conhecerá a verdadeira luz."
As Crônicas de Nárnia – C.S. Lewis

A dor rasgava Taehyung por dentro como lâminas afiadas de saudade e desespero. O corpo de Seokjin jazia imóvel em seus braços, pálido e sem vida, e mesmo com o calor do abraço do elfo, o cavaleiro não respondia. O mundo parecia ter parado. Lá fora, o som dos ventos entre as árvores cessara, e até os grilos silenciaram, como se a natureza inteira respeitasse aquele instante de perda.
O pequeno elfo, ainda tremendo, levou uma das mãos trêmulas ao ventre, onde sentia o frágil pulsar de duas vidas que cresciam dentro de si. Seus olhos marejados se ergueram para o teto da cabana, onde a claridade da lua, como se atendesse a um chamado silencioso, derramava sua luz prateada pelas frestas.
— Por favor… — sussurrou Taehyung, a voz embargada. — Senhora da Noite, Mãe dos Mistérios, guardiã dos amantes esquecidos… eu te imploro…
As palavras vinham entre soluços, os dedos apertando os tecidos ensanguentados da túnica de Jin.
— Leva minha imortalidade, leva tudo o que sou… mas não me tire ele. Não agora. Não assim. — Sua voz quebrou-se. — Não deixe que nossos filhos cresçam sem conhecer o pai. Não deixe que o amor morra outra vez.
Seu clamor ecoou na noite silenciosa, atravessando véus entre mundos. A lua acima cintilou mais forte.
Foi então que uma lágrima solitária, espessa e cintilante como prata líquida, escorreu pela bochecha corada de Taehyung. Ela desceu lentamente, como guiada por uma força divina, até cair suavemente sobre a face fria de Seokjin.
No instante em que a lágrima tocou a pele do guerreiro, um brilho intenso explodiu no interior da cabana. Uma luz mágica, de tons azulados e prateados, envolveu os corpos dos dois como um véu etéreo. O ar crepitava com energia antiga, divina, e até mesmo o feiticeiro Namjoon deu um passo para trás, o olhar arregalado diante do milagre que se desenrolava.
As chamas da lareira se curvaram, como se reverenciassem a presença sagrada. A madeira rangeu, as criaturas lá fora correram assustadas, e então, dentro daquela luz, o coração de Seokjin — outrora silencioso — voltou a bater.
Uma… duas… três batidas.
Seus dedos se moveram levemente, e um fraco suspiro escapou por seus lábios.
— T…ae… — murmurou, quase inaudível.
Taehyung soltou um grito abafado, cobrindo a boca com as mãos trêmulas, o rosto banhado em lágrimas e incredulidade. Seokjin estava respirando. Estava vivo.
A deusa ouvira.
E pela primeira vez em eras, o amor vencera a morte.
— Jin… meu amor… — sussurrou o elfo, curvando-se para encostar a testa na dele, sentindo o calor frágil retornando à sua pele. — Você voltou pra mim.
Ali, sob a benção da lua, com os corações batendo juntos outra vez, uma nova esperança nascia. Mas tudo tem um preço — e mesmo que ele ainda não tenha sido revelado, Taehyung aceitaria sem hesitar. Porque agora, ao menos por um instante, ele não estava mais sozinho.
[...]
O caos havia se instaurado como um vendaval impiedoso dentro das muralhas de Sollaria.
Gritos ecoavam pelos corredores do castelo, o som das espadas se cruzando misturava-se ao de armaduras colidindo, correria, ordens gritadas e o tilintar das correntes dos portões sendo trancados — tarde demais. O Consorte havia escapado.
O trono fora desafiado, e o rei Dorian, em sua fúria desmedida, parecia uma tempestade encarnada. Ele berrava ordens sem coerência, os olhos vermelhos de raiva, cuspindo ameaças e exigindo a cabeça dos traidores.
— Tragam-me o corpo de Taehyung! — vociferava, empunhando a espada pessoalmente. — Vivo ou morto, não importa!
Mas a fúria o cegou.
Nos salões superiores, Jimin e Lyra lutavam bravamente com os soldados que tentavam cercá-los. Jimin, hábil com a espada curta, girava com precisão, seus movimentos fluidos e afiados como as asas de um corvo. Lyra, com adagas gêmeas, mostrava que ser dama de companhia não a impedia de ser mortal. Os dois protegiam a rota de fuga, abrindo caminho para que Yoongi escapasse pelos túneis secretos.
Foi nesse instante, em meio ao desespero generalizado, que o destino golpeou.
O castelo de Sollaria estava em chamas de caos. Gritos ecoavam pelos corredores de pedra, e os estandartes do reino tremulavam ao vento como se também clamassem por justiça. Enquanto os guardas lutavam contra os aliados de Jimin, e Morana gritava por misericórdia em meio aos escombros do seu fracasso, um homem caminhava em silêncio — como a própria morte.
Yoongi.
A capa escura esvoaçava às suas costas enquanto cruzava os salões manchados de sangue. Seu olhar era gelado, fixo, faminto. Havia passado tempo demais escondido, tempo demais assistindo à dor dos outros, sufocando sua própria sede de vingança.
Agora era a hora.
Encontrou o rei sozinho no salão do trono, caído entre colunas rachadas e tapeçarias rasgadas. Dorian sangrava de um corte no ombro, lutando para se levantar. Seu olhar encontrou o de Yoongi e, por um instante, tentou manter a altivez.
— Maldito... o que pensa que está fazendo? Sou o rei! — vociferou, cuspindo sangue.
Yoongi se aproximou sem pressa, tirando as luvas negras e revelando a adaga curva banhada em obsidiana encantada — a lâmina sagrada da Mão Sombria, forjada para trazer uma morte que se arrasta pela alma antes de tomar o corpo.
— Você foi rei. — A voz de Yoongi era baixa, um sussurro mortal. — Agora... será apenas mais um tirano que caiu.
— Isso é traição...! — rosnou Dorian, tentando se erguer.
Yoongi chutou-o de volta ao chão com brutalidade. O rei gritou, e Yoongi se ajoelhou ao lado de seu rosto, forçando-o a encarar a própria miséria.
— Você torturou inocentes. Arruinou a vida de quem jurou proteger. Feriu o único ser que ousou amar de verdade neste castelo. — Seus olhos queimavam de dor e ódio. — E matou a mãe do meu amado Jimin. Isso é justiça.
Sem hesitar, Yoongi cravou a adaga no abdômen de Dorian — não para matá-lo rapidamente, mas para deixá-lo sangrar. A lâmina mágica envenenava lentamente o corpo, tornando cada batida do coração uma chama de agonia. Dorian se contorceu, urrando de dor.
— Sente isso? — sussurrou Yoongi, encostando os lábios no ouvido do rei. — É a sua alma sendo consumida... gota por gota.
O rei tentava respirar, mas o veneno o fazia sufocar com o próprio sangue. Sua pele empalidecia, os olhos reviraram, e ainda assim, Yoongi não se afastava. Observava, imóvel, até o último fio de força se esvair de seu inimigo.
— Não chore agora — murmurou o assassino, com desprezo. — Você não chorou por ninguém. Morra como viveu: sozinho e odiado.
Quando, por fim, o último suspiro deixou o corpo do rei, Yoongi se ergueu e limpou a lâmina no manto do morto. Os gritos de batalha ainda ecoavam ao fundo, mas, naquele momento, o silêncio reinava sobre o trono vazio de Sollaria.
E a vingança, enfim, estava selada. Como uma sombra ele se retirou do salão.
O choque caiu como uma pedra em meio ao pânico.
E como toda corte precisa de um culpado, todos os olhares recaíram sobre Morana.
A concubina estava próxima demais. Seus olhos arregalados de falsa surpresa não convenceram. E então, alguém sussurrou o suficiente para incendiar as suspeitas:
— Ela o envenenou com palavras. Ela instigou a ruína. Ela conspirou!
Em poucas horas, o julgamento foi feito — se é que se pode chamar aquilo de justiça.
Morana foi arrastada pelos corredores diante da corte reunida, os cabelos despenteados, o vestido rasgado nos ombros. Ela gritava por clemência, cuspia acusações e negava tudo entre prantos. Mas ninguém ouvia. O povo queria sangue. O castigo foi selado: a Morte das Mil Chamas.
Na praça central de Sollaria, uma antiga pira ritualística foi reacendida. Correntes de ferro pesado foram presas em seus pulsos, Morana foi erguida ao centro do altar.
A cada volta da tocha ao redor de seu corpo, a multidão clamava. Primeiramente, os pés foram atingidos, depois os braços. Não chamas que matassem de imediato — mas brasas encantadas, que ardiam sob a pele lentamente, queimando os nervos, arrancando gritos tão altos que pareciam dilacerar o próprio céu.
Ela implorou, chorou, amaldiçoou cada rosto ali.
Mas o povo não perdoa traidores.
Quando a chama final subiu por seu peito, e seus olhos perderam o brilho de manipulação, a multidão silenciou.
O rei estava morto. A concubina, punida.
Mas o reino estava à deriva.
E as sombras, mais perto do que nunca.
[...]
O sol nascia devagar sobre as montanhas de Zianol, pintando o céu com tons de dourado e lilás. A floresta mágica ainda estava mergulhada no silêncio sagrado da madrugada, com a névoa rasteira beijando as folhas e os animais despertando com suavidade.
Diante da cabana de pedras cobertas por musgo encantado, Seokjin terminava de ajustar a armadura leve que usaria para a viagem até Yinsia. Seus movimentos eram firmes, mas seu olhar voltava, vez ou outra, para a figura que permanecia encostada na porta: Namjoon, com os braços cruzados e o semblante sereno, mas com os olhos cheios de sentimento.
— Você vai mesmo? — perguntou o feiticeiro, a voz baixa, quase sufocada pela brisa da manhã.
Seokjin sorriu, ajeitando a capa sobre os ombros. — Não posso mais ficar aqui, Nam. Taehyung precisa de mim. E eu preciso dele. — Fez uma pausa, encarando o amigo. — Mas parte de mim vai continuar nesse lugar... com você.
Namjoon se aproximou, parando diante dele. Estavam tão perto que podiam sentir a respiração um do outro. O feiticeiro observou o cavaleiro como se quisesse memorizar cada traço, cada cicatriz, cada lembrança.
— Ele te trouxe de volta da morte, mas... você me trouxe de volta pra vida, Jin. Sua companhia, sua fé, sua força... me fizeram lembrar por que escolhi esse caminho.
— E você me salvou mais de uma vez — respondeu Seokjin, tocando de leve o braço do amigo. — Com seus feitiços, sim, mas também com sua escuta. Seu silêncio. Sua presença. Você é mais que um feiticeiro. Você é minha família.
Namjoon mordeu o lábio para conter a emoção, mas não conseguiu evitar quando os olhos se encheram de lágrimas.
— Eu vou sentir sua falta, cavaleiro.
— E eu a sua, feiticeiro.
Um silêncio profundo envolveu os dois, até que Namjoon ergueu a mão e, com delicadeza, desenhou um símbolo mágico no peito de Seokjin, feito com luz dourada.
— Este selo irá protegê-lo. Mesmo que a distância nos separe, ele manterá o vínculo entre nós. Se estiver em perigo, sentirei. Se seu coração fraquejar, saberei. Estarei sempre zelando por você... por vocês dois.
Seokjin assentiu, com os olhos marejados.
— Obrigado, Namjoon. Por tudo.
Os dois se abraçaram com força, um daqueles abraços que não precisam de palavras. Quando se afastaram, Seokjin subiu em seu grifo, que aguardava em silêncio, suas asas dobradas e os olhos atentos.
Antes de partir, o cavaleiro olhou uma última vez para o feiticeiro, que se manteve firme, mas com a alma em pedaços.
— Cuide da floresta... e de você mesmo.
— Vá... E viva, Jin. Viva com tudo o que você tem direito.
Com um último aceno, Seokjin posicionou atrás de Taehyung, que segurou firme em sua cintura, então puxou a crina da criatura mística e alçou voo, desaparecendo entre as nuvens douradas da alvorada.
Namjoon ficou ali, imóvel, até que o dragão sumisse no horizonte. Então respirou fundo, e sorriu. Mesmo à distância, ele protegeria aquele que se tornara seu irmão. Sempre.
[...]
A luz da lua parecia mais viva em Yinsia naquela noite.
Depois da ressurreição de Seokjin, ainda abalado, fraco, mas vivo — Taehyung não perdeu tempo. Com a ajuda das criaturas místicas, atravessaram os céus e mares até seu reino natal. As torres prateadas de Yinsia surgiram como um farol de esperança ao longe, e assim que seus pés tocaram o solo sagrado dos Elfos, lágrimas correram pelo rosto do consorte.
Foi recebido como filho. E mais uma vez, a paz dos salões de luz contrastou com o horror vivido nos calabouços de Sollaria.
No templo real, entre véus esvoaçantes e a música suave de harpas encantadas, Galandriel esperava por eles.
Ao ver Taehyung entrar, sustentando Seokjin ao seu lado, o rei se ergueu do trono de cristal como se o tempo houvesse parado. A emoção estremeceu sua voz ao chamar pelo filho.
— Taehyung… minha pequena lua…
O elfo correu para os braços do pai, e se permitiu desabar, finalmente. Soluçava, enquanto Galandriel acariciava seus cabelos e olhava, por sobre o ombro do filho, para Seokjin — a quem fez um gesto respeitoso de cabeça.
— Perdoe-nos por não estarmos ao seu lado… — disse Galandriel, baixo, apertando o filho com mais força. — Mas agora... agora não estaremos mais longe.
Quando Taehyung se acalmou, tomou a mão do pai e, ainda com a voz embargada, pediu:
— Preciso ver o Papai… Preciso do Pai Melian… e também de Jimin, Lyra e Yoongi.
O rei assentiu, comovido, e fechou os olhos. A magia do vínculo de alma entre ele e seu consorte entrou em ação. Um brilho dourado percorreu seu corpo, e palavras silenciosas viajaram pelos ventos antigos, atravessando distâncias, até alcançar o coração de Melian.
Enquanto isso, na antiga sala de conselhos de Sollaria, agora silenciosa e tomada pelo cheiro de sangue e fumaça, Jimin lia o último decreto assinado pelos conselheiros do reino: ele seria coroado.
Quando Yoongi entrou, trazendo o corvo Akari com a resposta de Galandriel, o novo rei levantou os olhos, cansado.
— Ele quer que a gente vá até Yinsia… — murmurou, após ler. — Tae precisa de nós.
— Então vamos — respondeu Yoongi sem hesitar. — Jin está vivo, mas frágil. Taehyung também. Precisam de aliados.
Jimin, no entanto, pousou a carta sobre a mesa com pesar.
— Eu… eu não posso.
Yoongi o olhou com surpresa.
— Não pode?
Jimin respirou fundo, e os olhos marejaram.
— Meu pai está morto. A coroa precisa de alguém agora. Há feridos, caos, lacunas no conselho. Se eu for… tudo o que fizemos terá sido em vão.
Yoongi fechou os punhos. Parte dele queria arrastá-lo. Mas entendia. Lyra ao lado dos novos amigos se pronunciou.
— Então… eu irei. Por vocês. Lá é meu lar.
Jimin se aproximou, abraçando a jovem fada, num gesto silencioso de despedida.
— Cuide deles por mim. Diga a Tae que… mesmo longe, eu vou protegê-los.
E com essas palavras, a promessa de um novo ciclo foi selada.
Alguns dias depois, em Yinsia
Seokjin repousava nos jardins curativos, o corpo ainda se recuperando da ferida mágica. Taehyung, sentado ao lado da fonte sagrada, ergueu os olhos quando ouviu passos.
Lyra, Melian.
O reencontro foi silencioso e intenso.
Melian correu até o filho, ajoelhando-se à sua frente, acariciando o ventre levemente arredondado e beijando a testa do filho como se pudesse espantar toda a dor.
— Estou aqui agora, meu coração. Nunca mais estaremos separados.
Enquanto a noite caía sobre Yinsia, o futuro dos reinos começava a ser traçado nas sombras e luzes que dançavam entre os salões. A guerra ainda não havia acabado.
Mas o amor… o amor agora estava reunido.
[...]
O grande salão de mármore branco estava lotado, mas o silêncio que pairava era reverente, quase sagrado. As colunas altas estavam adornadas com longas faixas douradas e o brasão real de Sollaria tremulava ao vento que passava pelas janelas abertas, como se o próprio castelo respirasse um novo tempo.
No centro da sala, sob a luz cálida de um vitral celestial, Jimin caminhava com passos firmes, vestido com um manto de veludo bordô bordado com fios de prata.
Cada passo ecoava entre os pilares como o compasso do destino se ajustando. Seus olhos carregavam a dor das perdas, mas também a convicção de quem sobreviveu ao caos e escolheu a esperança.
Os nobres estavam reunidos, parte em respeito, parte em temor. Muitos haviam se curvado ao antigo rei, mas agora estavam diante de algo diferente: um jovem que não conquistou o trono pela tirania, mas pela coragem, pela compaixão e pela luta.
Yoongi observava das sombras da galeria, distante, mas presente. Galandriel havia enviado mensageiros, e o povo de Yinsia aguardava notícias. Era um momento que cruzava fronteiras.
O sumo sacerdote da Coroa aproximou-se com a coroa ancestral, feita de ouro e pedra da lua, símbolo de poder, mas agora, símbolo de renovação.
— Park Augustus Jimin, filho legítimo da luz e do dever — começou o sacerdote, sua voz solene —, jurais proteger vosso povo, honrar a verdade e reinar com justiça?
Jimin ergueu o queixo, com os olhos úmidos, mas a postura de um verdadeiro soberano.
— Juro — respondeu, sua voz firme como a lâmina de uma espada.
O sacerdote ergueu a coroa aos céus e a repousou sobre os cabelos claros do novo rei. No instante em que o metal sagrado tocou sua cabeça, uma brisa atravessou o salão, balançando os estandartes, apagando algumas velas... e reacendendo outras. Era como se o mundo aceitasse aquele momento.
— Longa vida ao rei Jimin! — gritou Miles, rompendo o silêncio. — Longa vida ao rei! — ecoaram os demais, em uníssono.
Jimin fechou os olhos por um breve instante. Em seu peito, o peso da responsabilidade se misturava com a lembrança daqueles que o ajudaram a chegar ali — Taehyung, seu irmão de alma... Yoongi, seu cúmplice nas sombras... e Seokjin, o guerreiro que deu tudo por amor, seu amado irmão de sangue.
Ele havia ascendido não para dominar, mas para curar.
E o povo, pela primeira vez em muito tempo, acreditou que o sol voltaria a brilhar sobre Sollaria.
[...]
A lua cheia pairava no céu como um olho prateado e atento, testemunha silenciosa daquilo que estava prestes a acontecer. Em Yinsia, o templo da Deusa da Lua fora cuidadosamente preparado pelos sacerdotes lunares desde a chegada do príncipe Taehyung e de seu amado, Seokjin, ressuscitado por um milagre. Os sinos de cristal soaram pela floresta, ecoando como um sussurro suave que atravessava o ar noturno.
Taehyung estava de branco, envolto em um manto bordado com fios prateados que pareciam pulsar com magia viva. Seus longos cabelos estavam presos em uma trança cerimonial, enfeitados com pequenas flores lunares que floresciam apenas sob a luz da deusa. Seokjin, ainda pálido e frágil, foi conduzido até o centro do altar circular, onde o símbolo da Lua Crescente fora desenhado com pétalas e sal encantado.
Galandriel, com vestes reais e coroa de folhas lunares, abriu o ritual com a voz grave e solene.
— Esta noite, diante da luz da Mãe Prateada, selamos a vida devolvida e o ventre sagrado. Que a bênção da Lua recubra os amantes, os guie e os proteja.
Os sacerdotes começaram a entoar cânticos antigos, línguas esquecidas fluindo como um rio etéreo, enquanto a luz da lua parecia concentrar-se no altar. Pequenos fragmentos de luz começaram a dançar sobre a pele de Seokjin, cicatrizando lentamente as marcas da morte, enquanto sobre o ventre de Taehyung uma auréola suave e azulada surgia — como se a própria Deusa acariciasse os bebês que cresciam ali.
Taehyung, com lágrimas nos olhos, segurou a mão de Seokjin. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se inteiro.
— Obrigado... — murmurou, olhando para o céu. — Obrigado por me ouvir. Eu juro protegê-los. Todos vocês.
Um vento prateado percorreu o templo, fazendo os cristais suspensos tilintarem como estrelas cantantes. A Deusa não respondeu com palavras, mas todos ali sentiram sua presença acolhedora, firme e sagrada.
Seokjin apertou sua mão de volta, com um sorriso fraco, porém sereno. — Parece que ainda temos um longo caminho pela frente, não é, meu príncipe?
Taehyung apenas assentiu, apoiando a cabeça no ombro do amado. Os cânticos cessaram, a luz se dissipou lentamente, mas a paz que se instaurou ali permaneceria para sempre na memória dos que testemunharam.
Naquela noite, dois corações partidos foram restaurados. Uma nova família foi abençoada. E a esperança, por fim, renasceu sob a luz da lua.
[...]
A noite seguia silenciosa, embalada apenas pelo som suave do vento entre as árvores altas de Yinsia. O templo agora estava vazio, os sacerdotes haviam se retirado respeitosamente, deixando apenas Taehyung e Galandriel no centro da clareira sagrada. A luz da lua continuava intensa, como se a Deusa ainda observasse, mesmo após o ritual.
Taehyung estava sentado em uma pedra coberta por musgo prateado, os olhos fixos no céu. Ele acariciava o ventre instintivamente, em silêncio, como se procurasse coragem nas estrelas.
Galandriel aproximou-se devagar, sem a altivez típica dos reis. Seus ombros estavam mais baixos, o semblante marcado por preocupação... e culpa.
— Posso me sentar? — perguntou com voz baixa, quase hesitante.
Taehyung apenas assentiu, sem olhar diretamente para ele.
O rei acomodou-se ao lado do filho, deixando um espaço respeitoso entre eles. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Até que Galandriel quebrou o silêncio.
— Você se parece tanto com seu pai... tem o espírito inquieto dele — disse com um meio sorriso. — E foi exatamente isso que me assustou.
Taehyung desviou os olhos do céu e finalmente o encarou. Sua expressão era calma, mas havia dor por trás da compostura.
— E por isso me entregou a um tirano?
O impacto das palavras fez o rei estremecer. Ele abaixou o olhar, envergonhado.
— Não há desculpa que apague o que fizemos, Taehyung. Nem justificativa que alivie o peso da escolha que tomamos. Eu... eu segui a razão. Governar um reino exige sacrifícios, e eu fui tolo o bastante pra achar que poderia sacrificar você. — A voz falhou. — Mas fui covarde. E fraco. E só percebi isso tarde demais.
Taehyung mordeu o lábio inferior, sentindo os olhos marejarem. — Vocês me deixaram sozinho... em um lugar onde eu era tratado como um objeto. Como moeda de troca. Como uma peça em um jogo cruel.
Galandriel colocou a mão sobre o peito, como se quisesse conter a dor que as palavras do filho causavam.
— Melian sempre acreditou que você resistiria... que seu coração era mais forte do que o mundo. E ele estava certo. Mas ainda assim, nós o abandonamos. E isso me corrói.
O silêncio voltou a pairar, até que Taehyung murmurou:
— Eu não sou mais o mesmo garoto que partiu de Yinsia... Eu vi a escuridão de perto, pai. Perdi quase tudo. Mas... também encontrei o amor. E agora, eu só quero proteger o que resta.
Galandriel assentiu com olhos marejados. — Então você não está mais sozinho. A partir de agora, lute com o apoio de seu povo... e de seu pai. — Ele estendeu a mão, com um gesto de carinho. — Se ainda puder me chamar assim.
Taehyung hesitou, mas então se inclinou, apoiando a cabeça no ombro do rei, como fazia quando criança.
— Eu te chamo. Mas não me deixe mais. Nem a mim, nem a eles. — Ele acariciou a barriga, com um sorriso triste.
— Nunca mais — prometeu Galandriel, beijando os cabelos do filho.
Ali, sob a bênção da Lua e cercados pela magia antiga de Yinsia, pai e filho se reconciliaram — não como rei e príncipe, mas como sangue e alma. Como família.
[...]


15. Sob a Bênção da Coroa e do Amor

''Eu te amo mais do que amei qualquer pessoa, e eu sempre amarei.''
— Cassandra Clare, Princesa Mecânica


O grande salão de mármore branco fora decorado com astromélias laranja e fitas douradas, simbolizando amor, renascimento e compromisso eterno. As altas janelas deixavam a luz do sol filtrar suavemente, abençoando o novo reinado com calor e esperança. Os nobres de Yinsia se reuniram, vestidos em trajes cerimoniais, e pela primeira vez em muitos anos, o castelo de Sollaria parecia repleto de vida.
Jimin, trajando um manto branco bordado a fios de ouro e pedras celestiais, caminhava com serenidade pelo corredor real, seu rosto sereno, mas com os olhos marejados de emoção. Cada passo era a confirmação de sua liberdade, de sua escolha — e de seu coração.
No altar, entre colunas de cristal encantado, esperava Yoongi. Vestia um traje negro com detalhes prateados, uma rosa branca presa ao peito, símbolo do amor eterno e da memória dos que lutaram para que aquele dia existisse. Seus olhos se encontraram, e ali, no silêncio cúmplice, prometeram tudo sem precisar dizer uma palavra.
Oriel, um xamã que vivia entre os dois mundos, como representante da espiritualidade e da união entre os reinos, conduzia a cerimônia. Suas palavras eram suaves como o vento de primavera, mas carregadas de poder ancestral. Ele falou de escolhas, de sacrifícios e de esperança. Quando perguntou se juravam amor, fidelidade e parceria diante do reino e dos deuses, suas vozes se uniram em um “Sim” que ecoou forte como um trovão.
As coroas foram colocadas: a de Jimin, forjada com magma vulcânico e pedras de sol; a de Yoongi, esculpida em obsidiana e folhas de jade. Dois tronos foram erguidos lado a lado, como iguais, como parceiros.
E quando os sinos dourados soaram, anunciando o fim da cerimônia e o início de uma nova era, o povo aplaudiu — e muitos choraram. Porque ali não era apenas a coroação de um rei e o casamento de dois homens apaixonados. Era a celebração do amor verdadeiro vencendo a escuridão.
Quando todos achavam que a cerimônia chegaria ao fim, Jimin tomou a mão de Yoongi e, quebrando um pouco o protocolo, olhou em seus olhos diante de todos.
— Antes de ser rei, eu fui prisioneiro. Antes de ser livre, eu fui moldado pela dor. Mas você… você foi a primeira escolha que foi minha. E hoje, diante do meu povo, eu escolho você novamente. E escolherei todos os dias, até meu último suspiro.
Yoongi apertou sua mão, os olhos marejados, e respondeu com voz firme:
— Você foi a luz que encontrei na escuridão, Jimin. E prometo ser a sua fortaleza, sua paz, seu lar. Você me mostrou que até mesmo corações quebrados podem ser remendados com amor.
À noite, o salão ganhou vida com música, vinho e risos. Artistas encantavam os convidados com danças etéreas, e os cozinheiros se uniram para criar um banquete inesquecível. Frutas místicas, carnes defumadas em ervas douradas, vinhos envelhecidos e uma variedade de queijos.
Jimin e Yoongi, em trajes menos cerimoniais, caminhavam entre os convidados, cumprimentando aliados e agradecendo pelo apoio durante as guerras e perdas. Em um momento de pausa, dançaram juntos sob a melodia de uma canção ancestral, cantada pelas sacerdotisas do Sol — uma dança lenta, que fazia o tempo parar.
[...]
Quando a noite caiu completamente, e os convidados se recolheram, Jimin e Yoongi se encontraram sozinhos em seus aposentos reais. A suíte fora decorada com pétalas de flores, e velas aromáticas, lançando reflexos suaves nas paredes.
Jimin retirou a coroa e a pousou sobre a mesa, em seguida olhou para Yoongi com olhos calmos.
— Hoje, eu sou seu, não como rei. Mas como homem.
Yoongi se aproximou, tocando seu rosto com reverência, como se ainda não acreditasse que era real.
— E eu sou teu, meu rei do sol.
O beijo que trocaram foi terno, profundo. As roupas caíram com lentidão, não por pressa, mas por desejo de eternizar aquele momento. A entrega entre eles foi feita de toques suaves, de promessas sussurradas contra a pele, de lágrimas de felicidade e alívio. Pela primeira vez, estavam juntos sem medo, sem correntes, sem esconderijos.
Aquela noite não selava apenas um casamento, mas um futuro onde o amor havia vencido. E sob a luz da lua, os corpos entrelaçados repousavam como dois corações que finalmente haviam encontrado seu lar.
[...]
Já era madrugada. O castelo havia adormecido sob o silêncio acolhedor das pedras quentes e do luar filtrando pelas altas janelas. Yoongi, ainda envolto em sua túnica cerimonial, desceu até a cozinha em busca de água, os pés descalços tocando as lajes frias. Mas o que encontrou lá não foi apenas o eco da madrugada.
Uma mulher de vestes simples estava encolhida no canto, sentada em um banco junto ao forno apagado. Chorava em silêncio, e em seus braços havia um pequeno embrulho de linho branco que se movia suavemente. O som do choro contido do bebê partiu o coração.
Yoongi hesitou, mas se aproximou.
— Você está bem?
A concubina levantou os olhos vermelhos. Ele a reconheceu — ela havia servido ao rei Dorian nos últimos anos, sempre em silêncio, com os olhos vazios.
— É o filho dele, — ela sussurrou, com a voz trêmula. — Do rei. Meu filho… fruto de algo que não escolhi. Eu o amo… mas não posso criá-lo. Cada vez que olho pra ele, sinto a dor de novo.
Ela o ofereceu a Yoongi com as mãos trêmulas.
— Mas eu vejo como você olha para o rei Jimin. Como vocês se amam. E sei que, se há alguém que pode amar esse menino sem rancor… são vocês.
Yoongi ficou imóvel por alguns segundos, olhando para aquele rostinho adormecido, tão frágil, tão pequeno. A criança se mexeu, emitindo um som suave — como se buscasse consolo em seu novo destino.
Com delicadeza, ele o acolheu em seus braços. O peso leve e o calor do bebê invadiram seu peito como uma nova promessa.
— Nós vamos criá-lo com amor, — ele respondeu. — Ele será protegido. Ele terá uma vida melhor.
A concubina caiu em lágrimas, e Yoongi, antes de subir, a abraçou. Em silêncio, ela partiu pelos fundos do castelo, como uma sombra que se desfazia na madrugada.
Quando Yoongi retornou, Jimin estava de pé na sacada, contemplando a lua.
— Você demorou,— indagou virando-se devagar, mas sua voz cessou ao notar o pequeno nos braços do amado.
Yoongi se aproximou devagar, com os olhos marejados.
— Leãozinho, esse é Eryon. — disse Yoongi. — Nosso filho, se você permitir.
Jimin não hesitou. Envolveu os dois num abraço apertado, lágrimas silenciosas escorrendo por sua face.
— Ele será amado. Por nós dois. E por todo esse reino.
Naquela noite, Eryon, “a luz entre as sombras”, encontrou seu lar. E assim, em meio a um novo começo, o casal real encontrou outra forma de amor: aquele que nasce da compaixão, da escolha… e da esperança.
[...]
A notícia se espalhou pelas muralhas do castelo com a delicadeza de uma brisa carregada de esperança. Na varanda principal, onde os pronunciamentos reais eram feitos, Jimin surgiu ao lado de Yoongi — ambos trajando mantos brancos, símbolos de paz e renascimento. Nos braços de Jimin, o pequeno Eryon dormia tranquilo, alheio ao peso do momento.
O povo reunido na praça abaixo olhava com expectativa. Muitos ainda estavam marcados pelos tempos sombrios do reinado de Dorian, mas ali, diante daquela cena, algo diferente florescia: fé no futuro.
— Povo de Nyria — começou Yoongi, com a voz forte, mas serena — hoje vos apresentamos o novo raio de sol que irá aquecer este reino.
Jimin prosseguiu, os olhos brilhando de emoção:
— Este é Eryon. Nosso filho. Nosso herdeiro. Ele veio a este mundo cercado de dor, mas viverá cercado de amor. Ele será criado com honra, justiça e compaixão.
Um silêncio respeitoso tomou conta da multidão. E, então, como uma onda suave, aplausos começaram. Primeiro tímidos, depois crescentes, até tomarem todo o pátio.
Dentro do castelo, o som da vida mudará. Onde antes havia ecos de ordens ríspidas e reuniões tensas, agora ouvia-se o suave choro de Park Eryon, risadas discretas e canções de ninar. Izara, uma jovem nobre, assumiu o papel de dama de companhia e futura conselheira para o novo príncipe, preparando tudo com o cuidado e amor, era dedicada e carinhosa com o pequeno bebê.
Jimin passou a dividir o tempo entre o trono e o berço, aprendendo a equilibrar decisões políticas com fraldas e mamadeiras. Yoongi, por sua vez, mostrava um lado pouco visto: protetor, carinhoso e profundamente conectado àquela pequena vida.
Eryon, mesmo tão novo, parecia sentir a mudança. Chorava pouco, dormia com facilidade quando ouvia a voz de Jimin e se acalmava no colo de Yoongi. Era como se ele soubesse que, finalmente, estava em segurança.
Os corredores outrora frios de Sollaria agora pulsavam com calor. A presença do bebê renovava esperanças, suavizava corações endurecidos e lembrava a todos que até nas cinzas de um império cruel, uma nova história podia florescer.
A noite envolvia o castelo em seu manto profundo de estrelas. As chamas das velas tremeluziam no quarto real, lançando sombras suaves nas paredes de pedra. Jimin sentava-se na poltrona junto à janela, o pequeno Eryon aninhado contra seu peito, já adormecido. Ele o embalava devagar, os dedos delicadamente acariciando os fios escuros e finos do bebê.
Yoongi entrou devagar, carregando um pano morno e uma pequena tigela de creme para acalmar a pele do menino. Sorriu ao ver a cena — o príncipe dormindo seguro nos braços do rei que tanto lutara por liberdade.
— Ele parece um pouco inquieto hoje — sussurrou Jimin, sem tirar os olhos do filho. — Será que sente falta da mãe?
Yoongi se aproximou em silêncio, agachando-se ao lado da poltrona. Pousou a mão sobre a perna de Jimin com carinho.
— Talvez. Mas ele vai crescer sabendo que foi amado... mesmo que a dor da mãe o tenha impedido de vê-lo crescer. E agora... ele tem nós dois.
Jimin assentiu, mas seu olhar parecia perdido em um mar de dúvidas.
— E se eu não for bom o bastante? Eu não tive o melhor exemplo de pai... e agora, esse pequeno depende de mim para tudo.
Yoongi levantou-se, beijou a testa do amado e sentou-se no chão, de frente para eles.
— Você tem algo que Dorian nunca teve: empatia. Você sabe o que é dor, medo, silêncio forçado... e, por isso, vai ensinar ao nosso filho o valor do cuidado, da escolha, do amor. Você vai ser o pai que ele precisa. Nós dois seremos.
Eryon se mexeu um pouco, como se respondesse ao momento, aconchegando-se ainda mais no peito de Jimin. O rei sorriu, com os olhos marejados.
— Ele merece um mundo melhor.
— E é por isso que vamos lutar para construir um — respondeu Yoongi, firme.
Por fim, eles ficaram ali, em silêncio. Apenas os sons do bebê respirando, o estalar das velas e o bater calmo de três corações — o de um rei, o de um assassino redimido e o de uma nova esperança.
[...]
A primavera tocava Yinsia com mãos suaves. Os ventos traziam o perfume das flores silvestres, e os jardins do palácio estavam em pleno esplendor. A cabana onde Taehyung e Seokjin haviam escolhido viver por enquanto— um lugar simples, porém rodeado por magia e natureza — pulsava com vida e luz.
Dentro da cabana, Seokjin tentava, mais uma vez, convencer Taehyung a comer algo mais sólido do que o mingau doce de amoras que havia pedido pela quarta vez naquele dia.
— Meu amor... você precisa de algo além de açúcar, ou nossos filhos nascerão pulando de tanta energia — resmungou Jin, levando até ele uma tigela com arroz temperado e legumes.
Taehyung, deitado num monte de almofadas, com os cabelos presos em uma trança solta e a pele mais iluminada do que nunca, fez um biquinho irresistível.
— Mas eu só consigo pensar no mingau... e talvez... em cerejas com mel... e pão de amêndoas torrado. Ah, e leite de aveia com canela — disse, colocando as mãos sobre a barriga já arredondada, como se os desejos viessem dali.
Seokjin bufou com doçura.
— São dois, com certeza. Ou talvez três. Só assim pra explicar esse apetite.
Taehyung riu, os olhos brilhando de alegria.
— Você disse "são". Está aceitando que estou certo?
— Nunca! — respondeu Jin, fingindo indignação antes de se inclinar e beijar sua testa. — Mas... talvez esteja me rendendo à evidência.
Do lado de fora, Lyra passava com cestos de flores frescas, sorrindo ao ouvir as risadas vindas de dentro. Namjoon, que havia vindo visitá-los, observava de longe, encantado com a cena. Pela primeira vez em muito tempo, havia paz em seus olhos.
— Eles estão florescendo — disse ele para Lyra, que se aproximava devagar, com um livro antigo nas mãos.
— O amor verdadeiro é como a primavera. Mesmo depois do inverno mais cruel, ele sempre volta a brotar — a fada respondeu com um sorriso sereno.
Dentro da cabana, Seokjin acariciava a barriga de Taehyung, deitado ao seu lado, agora descansando.
— Quando eles nascerem... quero cantar para eles todos os dias. Contar histórias.
Mostrar o mundo com calma. Nada de guerras, meu amor. Nada de separações.
Taehyung assentiu, com os olhos fechados.
— E se um dia o mundo tentar nos quebrar de novo... teremos um ao outro. E agora, teremos eles.
Um silêncio terno se formou entre os dois. Um silêncio cheio de esperança.
Do lado de fora, o sol tocava o campo com ternura. E por um breve instante, parecia que o universo inteiro havia parado para assistir àquele amor florescer de novo.
Era cedo, e o sol espreitava pelas cortinas de linho da cabana. Seokjin acordou com o som suave da respiração de Taehyung, que dormia com um sorriso nos lábios, a mão repousando sobre a barriga.
Sem querer acordá-lo, Jin se inclinou devagar, beijando de leve seus dedos. Depois encostou o rosto na barriga, como fazia todas as manhãs.
— Bom dia, meus amores — sussurrou. — Aqui é o papai Jin. Dormiram bem?
Taehyung se mexeu, rindo baixinho, ainda de olhos fechados.
— Eles sempre dormem bem quando você canta pra eles...
— Eu nem cantei hoje.
— Canta agora, então. — E, com os olhos semicerrados, ele apontou para o alaúde encostado na parede.
Seokjin sorriu, pegou o instrumento e dedilhou algumas notas. A melodia era suave, quase uma prece. Ele cantou em voz baixa, uma antiga canção sobre o amor e os ciclos da vida.
Enquanto a música preenchia o ambiente, Taehyung abriu os olhos devagar e o observou.
— Eu amo você — sussurrou.
— Eu também, pequeno príncipe. Mais do que qualquer música que eu possa compor.
[...]
A brisa da manhã dançava entre os galhos, fazendo as folhas cantarem baixinho. Taehyung, envolto num robe de seda clara, caminhava lentamente pelo jardim com a mão sobre o ventre. Jin o seguia com um olhar atento, sempre próximo.
Um dos guardas se aproximou, entregando uma pequena caixa enfeitada com o selo real de Nyria. O coração de Taehyung bateu mais forte.
— É do Jimin… — sussurrou, com os olhos marejados.
Sentou-se num banco de pedra entre as flores e abriu o envelope com cuidado. Conforme lia as palavras do amigo, Taehyung levou a mão à boca, contendo um soluço. Jin ajoelhou-se ao seu lado, passando o braço por seus ombros.
Meu querido Tae, Finalmente consegui um momento para te escrever, e mesmo que o papel não consiga carregar o som da minha risada ou o calor do meu abraço, espero que minhas palavras te alcancem como um vento doce vindo do sul.
Casei. Sim, eu, o antigo príncipe rebelde, agora sou marido. E mais do que isso… sou pai.
Uma antiga concubina do castelo me procurou, com lágrimas nos olhos e um bebê nos braços. Um menino. Fruto da dor, mas também da esperança. Ela nos confiou a vida dele… e eu e Yoongi o amamos com toda nossa alma.
Ainda me parece um sonho ver Yoongi ninando o pequeno na varanda ao entardecer. Demos a ele o nome Eryon, que significa “a luz entre as sombras”. Porque é isso que ele trouxe.
Mas mesmo nos meus dias mais felizes… sinto falta de você.
Sinto falta do som da sua risada ecoando nos corredores, da sua leveza, dos nossos planos sussurrados à meia-noite.
Espero que sua barriga esteja crescendo linda e redonda, como você sempre sonhou.
Escreva logo.
Com todo o meu amor,
Jimin.
— Ele é pai, Jin… E casou com o Yoongi. Estão criando um menino chamado Eryon.
— Seus olhos transbordavam de ternura. — Eu queria tanto estar lá pra ver isso… Jin beijou o topo de sua cabeça, enxugando as lágrimas com os polegares.
— Um dia estaremos. Todos nós. — Sim — murmurou Tae, repousando a carta sobre o ventre. — E nossos filhos vão correr juntos pelos campos… livres de toda dor.
A luz do sol atravessava as árvores, como se abençoasse aquele momento. E por um instante, o mundo parecia inteiro e calmo.
[...]
O céu já se tingia de tons dourados quando Jimin entrou silenciosamente em seus aposentos. Yoongi estava junto à janela, embalando Eryon, que dormia profundamente. O pequeno fazia um barulhinho suave, um som sereno que preenchia a sala com paz.
Jimin se aproximou, carregando a carta de Taehyung com as mãos trêmulas de emoção. Seus olhos brilharam ao reler cada linha, como se pudesse ouvir a voz doce do elfo ecoando em sua mente.
Yoongi o olhou de lado, sorrindo ao notar a expressão emocionada no rosto do marido.
— Ele respondeu? — perguntou em voz baixa.
Jimin assentiu, com um sorriso misturado à saudade.
Meu amado irmão de alma, Suas palavras chegaram até mim como um abraço morno numa tarde chuvosa. Li sua carta tantas vezes que acho que a tinta vai desaparecer logo.
Eu sou tão, tão feliz por você. Por vocês. Imaginar você como pai me enche os olhos d’água. E Eryon… que nome lindo. Já sinto que ele será alguém especial.
Por aqui, os dias têm sido serenos, quase mágicos. Jin cuida de mim como se eu fosse feito de cristal (e às vezes, com os hormônios, talvez eu esteja mesmo!).
Minha barriga cresce a cada lua. Já posso sentir pequenos chutes, como se dissessem: “estamos aqui, e somos fortes”.
As manhãs são suaves. Passeamos pelos campos floridos, Jin canta para nós, e à noite, dormimos aninhados, gratos por termos escapado de tudo aquilo.
Mas eu sinto falta. De você. Do Yoongi. Da nossa cumplicidade.
Um dia, vamos nos encontrar novamente. E nossos filhos brincarão juntos sob o céu de Yinsia ou de Nyria, livres de tudo o que nos feriu.
Com amor eterno,
Tae.

— Ele está bem… Jin também. A barriga está crescendo e... Tae sente minha falta. — Ele engoliu em seco, olhando para Eryon. — Disse que um dia nossos filhos vão brincar juntos sob o céu.
Yoongi se aproximou, apoiando o queixo no ombro do marido enquanto liam a carta juntos. O silêncio era cheio de sentimento.
— Esse dia vai chegar — disse Yoongi com convicção, apertando Jimin de leve. — Nós merecemos esse futuro.
Jimin fechou os olhos, deixando uma lágrima escorrer pela bochecha. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentia inteiro.
[...]
O vasto salão era iluminado por vitrais coloridos que projetavam luzes suaves pelas paredes de mármore claro. No centro, cercado por tapeçarias bordadas com fios de prata, o trono de Galandriel se impunha com serena elegância. Mas naquela manhã, o trono estava vazio.
Em vez disso, o rei estava de pé próximo à sacada, observando os jardins encantados de Yinsia. As flores mágicas dançavam suavemente ao vento, acompanhando uma melodia que só os elfos pareciam ouvir.
Quando Seokjin entrou, o rei virou-se com um sorriso contido, mas sincero.
— Ah, Seokjin. Obrigado por vir.
— Sempre à disposição, Vossa Majestade — respondeu Jin, fazendo uma reverência respeitosa.
— Nada de formalidades entre nós — Galandriel disse, caminhando até ele. — Não depois de tudo que enfrentamos juntos.
Seokjin assentiu, os olhos ainda marcados pelo cansaço da recuperação, mas com firmeza na postura. Galandriel estudou o rapaz por um instante, depois fez sinal para que se sentassem em um banco de pedra próximo, sob um arco coberto de flores brancas.
— Eu vejo em você algo raro, Jin. Lealdade inabalável, coragem, e agora… responsabilidade. Você é mais do que um soldado. É um símbolo.
Seokjin o olhou em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras.
— Você e Taehyung não terão apenas uma família para proteger — continuou Galandriel — mas um povo. Um lar. E esse lar, cedo ou tarde, precisará de um rei.
Taehyung nasceu com isso no sangue, mas você… você precisa aprender. Lhe foi tirado esse direito. E é por isso que estou aqui.
Jin arregalou os olhos, surpreso.
— Vossa Maje… Galandriel… quer dizer que… vai me treinar?
— Exatamente. — O rei assentiu com um pequeno sorriso. — Não só como guerreiro, mas como líder. Vamos trabalhar juntos: táticas de batalha, diplomacia, história, política, magia… tudo o que um governante precisa saber. Seu coração já está no lugar certo. Agora, sua mente precisa acompanhar.
Seokjin sentiu-se tomado por uma mistura de honra e receio. Mas quando pensou em Taehyung, nos filhos que viriam, em tudo o que desejavam construir… soube que não podia recusar.
— Eu aceito. E prometo me dedicar com tudo o que sou.
Galandriel tocou o ombro do rapaz com orgulho.
— Então vamos começar logo. O mundo muda depressa, e quando a hora chegar… quero ver você pronto para usar uma coroa, não como peso, mas como escudo para os seus.
[...]
A brisa da tarde carregava o doce aroma das glicínias encantadas que desciam em cachos ao redor da pérgula. Taehyung estava deitado sobre uma manta macia entre almofadas bordadas, com a cabeça apoiada no colo de Seokjin. A barriga já bem saliente se movia sutilmente sob suas mãos.
— Eles chutaram de novo — sussurrou Taehyung, sorrindo. — Um deles está claramente impaciente como o papai.
Seokjin sorriu e acariciou os cabelos dourados do amado.
— Ou talvez tenha herdado o espírito de um guerreiro.
Taehyung ergueu o rosto, desconfiado. — Está tentando me convencer de que terei dois pequenos cavaleiros selvagens correndo por aí?
— Não. — Jin se inclinou e tocou sua testa com a própria. — Mas talvez você tenha dois futuros líderes. E eu... talvez eu precise ser um rei à altura deles.
Taehyung piscou, confuso. Seokjin então contou-lhe, com calma e carinho, sobre a conversa com Galandriel, sobre o treinamento que começaria em breve, sobre a confiança que o rei havia depositado nele.
Por um momento, o pequeno elfo ficou em silêncio, os olhos marejando.
— Você vai ser incrível. Eu sei que vai. — Sua voz saiu embargada. — Meu cavaleiro, meu rei... meu amor.
Seokjin riu baixinho e beijou suas pálpebras úmidas.
— Eu só sou tudo isso porque tenho você ao meu lado, minha lua.
Eles se abraçaram ali, entre flores e promessas silenciosas, com os filhos chutando como pequenos lembretes de que a esperança, enfim, estava florescendo.
E entre uma risada, um beijo e um leve soluço de emoção, Taehyung murmurou:
— Vamos construir um lar lindo, Jin. Um reino onde nossos bebês possam correr livres. Onde o amor não precise mais se esconder.
Seokjin o apertou contra si, olhando para o céu em tons dourados.
— E dessa vez… ninguém vai tirar isso de nós.
[...]
Salão da Árvore Sagrada, Palácio de Yinsia O grande salão oval era construído ao redor da Árvore Sagrada de Yinsia, cujas raízes grossas emergiam do chão de mármore e subiam pelas paredes como veias vivas, iluminadas por cristais lunares. O lugar pulsava com energia antiga, um espaço onde reis recebiam bênçãos, faziam promessas e selavam pactos com o destino.
Seokjin estava de pé diante de Galandriel, vestindo uma túnica de linho branco. Estava calmo por fora, mas o coração batia com a intensidade de quem compreendia a importância daquele momento.
Galandriel, em trajes formais e coroa baixa repousando entre os longos cabelos negros, observava-o com atenção silenciosa. Nos olhos do rei, não havia mais sombra de dúvida.
— Quando ouvi pela primeira vez o nome do guerreiro que havia conquistado o coração do meu filho — começou ele — confesso que meu orgulho paterno se feriu. Não por você, Seokjin. Mas pelo medo de perdê-lo. E, talvez, por não enxergar além do que a dor nos permite.
Seokjin permaneceu em silêncio, respeitoso, os olhos fixos nos do rei.
— Hoje, vejo o homem que meu filho escolheu. E vejo, além disso, um futuro. Um herdeiro de coragem, de lealdade. Alguém que enfrentou a morte, o exílio, a guerra... e ainda assim, permaneceu fiel ao amor.
Galandriel se aproximou e estendeu um pequeno bastão prateado, símbolo dos aprendizes da linhagem real.
— O que aprenderemos juntos a partir de hoje, Seokjin, não está apenas nos livros ou nas espadas. Está nos silêncios, nas decisões difíceis, no equilíbrio entre firmeza e compaixão.
Seokjin recebeu o bastão com ambas as mãos, ajoelhando-se com respeito.
— Eu não sou filho do seu sangue, Majestade. Mas serei filho do seu legado.
Galandriel pousou a mão sobre sua cabeça, como em uma bênção ancestral.
— E filho do meu coração.
A Árvore Sagrada reagiu com um leve tremor, folhas douradas se desprendendo e flutuando ao redor deles. Era como se a própria floresta tivesse aceitado aquela aliança.
[...]
O sol nascente atravessava os vitrais de cristal lunar, tingindo o Salão dos Ecos com tons suaves de azul e lilás. As paredes pareciam respirar conhecimento antigo. Ecos de vozes ancestrais ainda sussurravam entre as colunas, como se observassem a nova geração tomando forma.
Seokjin adentrou o salão acompanhado de Galandriel. Atrás deles, o Conselho dos Anciãos aguardava — elfos milenares, guardiões do saber de Yinsia, sentados em tronos talhados em âmbar e jade.
O silêncio era profundo, quase reverente.
Galandriel parou diante de uma mesa redonda, coberta por mapas antigos, pergaminhos e esferas mágicas que representavam as terras dos Sete reinos. Com um gesto, ele indicou que Seokjin se aproximasse.
— O trono de Yinsia não é sustentado por força — disse o rei. — Mas por sabedoria e justiça. Diga-me, Seokjin, o que você faria se uma vila inteira roubasse grãos de um armazém real para não morrer de fome?
Seokjin analisou a pergunta com o olhar sério.
— Eu procuraria entender por que passaram fome em primeiro lugar. Investigaria se houve falhas na distribuição, se houve negligência. E... talvez punisse o sistema antes do povo.
Um leve murmúrio percorreu os anciãos. Alguns sorriram em aprovação.
— Boa resposta — disse Galandriel, com um meio sorriso. — Mas a justiça também exige coragem para ouvir verdades dolorosas.
Ele entregou a Seokjin um pergaminho selado com a insígnia real.
— Sua primeira missão é diplomática. Um antigo aliado nos questiona por termos dado abrigo ao consorte fugitivo de Nyria. Você representará Yinsia na reunião com eles. Quero ver como lida com tensão e diplomacia.
Seokjin segurou o pergaminho com firmeza, sem desviar os olhos.
— Honrarei sua confiança.
— E o amor do meu filho — completou Galandriel, com uma expressão mais terna. — Você é mais que um aprendiz. É família agora. E Yinsia... será o que você ajudar a construir.
Do lado de fora, flores lunares desabrochavam ao som dos sinos da manhã.
No alto de uma das janelas, Taehyung observava de longe, as mãos repousando sobre a barriga já proeminente. Um sorriso suave surgiu em seus lábios, orgulhoso e cheio de amor.
Seokjin deu o primeiro passo como herdeiro de um novo reino. Mas dentro dele, nunca deixou de ser o guerreiro que lutou por amor.
[...]
O céu estava coberto por nuvens densas quando Seokjin atravessou os portões do antigo Forte de Levenar, nas Montanhas Cinzentas. Era uma fortaleza fria, cinzenta como o próprio nome, lar de Lorde Varthel, regente das Terras do Norte e antigo aliado de Nyria
Os guardas abriram passagem com relutância. Os olhos de Varthel ardiam como brasas frias ao encarar o homem de cabelos castanho-escuros. Suas mãos pesadas repousavam sobre a mesa de pedra, onde cartas e registros da guerra recente ainda estavam espalhados.
— Então é você o novo "embaixador" de Yinsia? — Varthel rosnou, a voz grave ecoando pelo salão de pedra. — O amante do traidor. O consorte de um consorte.
Seokjin não se deixou abater. Manteve o queixo erguido, o olhar firme.
— Sou Seokjin de Nirya, antigo coronel do exército. Herdeiro de Yinsia por direito do coração de seu povo. E estou aqui em missão de paz.
Lorde Varthel gargalhou, seco.
— Paz? Depois de esconderem Taehyung, que desafiou o trono de Sollaria? Vocês deram abrigo a um desertor. O que impede que abriguem outros? Vocês não são um refúgio. São uma ameaça.
Seokjin se aproximou da mesa. Calmamente, retirou o pergaminho selado por Galandriel.
— Taehyung não é um desertor. Foi um prisioneiro, torturado e ameaçado por um rei tirano. Você sabe disso, Varthel. Dorian usava concubinas como moeda de troca. Você conhece esse jogo. Quantas vezes você calou sua boca por medo?
Um silêncio incômodo se instalou.
— Dorian está morto — continuou Jin, sua voz ganhando firmeza. — E o reino que renasce é um reino que não se ajoelha diante de opressores. Yinsia é terra de cura, não de conquista. Viemos oferecer aliança, não ameaças. Mas se forem nos tratar como inimigos... estaremos prontos.
Lorde Varthel levantou-se com brusquidão, os punhos fechados. Mas ao encarar Seokjin mais de perto, viu algo que o fez hesitar.
Não era arrogância. Era verdade. E coragem.
Ele bufou, passou uma mão pela barba espessa, e disse:
— Você fala bem para um soldado. Melhor do que muitos reis que conheci. Yinsia ainda me intriga... mas não mais me assusta. Levará minha resposta ao seu rei. Por ora, não moveremos exércitos.
Seokjin assentiu, contendo o alívio.
— Uma boa decisão. Que seja o início de tempos melhores.
Quando se retirou, a chuva começava a cessar.
Montando seu corcel branco de crina prateada, com a capa azul de Yinsia ondulando ao vento, Seokjin partiu de volta para casa — sem armas, mas com a vitória de um verdadeiro líder.
As muralhas de Yinsia surgiram no horizonte, banhadas pela luz suave do entardecer. Os campos floridos dançavam ao vento como se comemorassem o retorno de um filho. Seokjin desmontou devagar, com o corpo ainda tensionado pela longa jornada, mas o coração pulsando por um único desejo: ver Taehyung.
Ao entrar no castelo, foi recebido com reverência por soldados e servos, mas não respondeu a nenhum cumprimento — seus olhos buscavam apenas uma figura. E quando enfim o viu, no jardim interno, com uma túnica clara esticada sobre a curva evidente da barriga e as mãos acariciando distraidamente uma flor, ele soube que havia voltado para casa.
— Taehyung...
O nome saiu como um suspiro, carregado de saudade.
Taehyung ergueu o rosto e congelou. Os olhos marejaram quase no mesmo instante. Ele correu, ou ao menos tentou, mas a barriga o fez parar, rindo entre lágrimas.
— Jin! Você voltou... você voltou...
Seokjin o envolveu com cuidado, afundando o rosto no pescoço do amado, inalando o cheiro adocicado de flores e lar.
— Está tudo bem, meu amor. A missão foi um sucesso. Conquistamos respeito. Eles não ousarão levantar espadas contra Yinsia.
Taehyung o apertou com força, as mãos trêmulas acariciando o rosto de Seokjin.
— Eu senti tanto a sua falta... os bebês também. Eles chutaram tanto quando você estava fora, acho que sabiam.
Jin sorriu, emocionado, e se ajoelhou diante da barriga arredondada. Colocou as mãos ali, sentindo os pequenos movimentos, os laços já formados.
— Me perdoem por ter ido... mas agora sei que o mundo que estamos construindo para vocês pode ser seguro. E quero que cresçam ouvindo histórias de coragem, de bondade... e de amor.
Taehyung se inclinou, colocando a testa contra a de Seokjin.
— Só me prometa... que da próxima vez, a gente enfrenta o mundo juntos.
— Prometo. Nunca mais sem você.
E enquanto o sol se punha por trás das montanhas de cristal, dois corações batiam em uníssono. Um lar havia sido conquistado — não pelas espadas, mas pelo amor.
[...]
A noite havia caído sobre Yinsia, serena e perfumada pelas flores noturnas. O vento soprava suave pelas varandas do castelo, onde Taehyung e Seokjin estavam sentados, lado a lado, envoltos em um manto, observando o céu estrelado. As mãos entrelaçadas repousavam sobre a barriga de Taehyung, que se movia em suaves ondas com o sono agitado dos bebês.
— Sabe o que pensei hoje? — disse Taehyung, em tom baixo. — Que nunca imaginei que, depois de tanta dor, eu teria esse momento. Aqui, com você, nossos filhos, em paz.
Seokjin sorriu, beijando a têmpora do amado.
— Você merece tudo isso, meu amor. Tudo. E muito mais.
Um silêncio confortável se instalou entre eles. A lua cheia surgiu por trás das nuvens, lançando um brilho prateado sobre os dois. Taehyung ergueu o olhar e, com os olhos marejados, sussurrou:
— Quero que o mundo saiba. Que todos vejam. Que o nosso amor não é um erro... mas uma bênção.
Seokjin o encarou, emocionado.
— Então vamos mostrar. Vamos fazer o mundo inteiro ouvir nossos votos. Vamos nos casar, Taehyung.
O elfo sorriu com os olhos brilhando.
— Sim... em frente à Deusa, aos nossos amigos, ao nosso povo. Prometo a você, Seokjin… para sempre.
Eles se beijaram sob a luz da lua, embalados por promessas sussurradas ao vento e pela certeza de um futuro que, apesar de imprevisível, começava a se iluminar.
E lá no céu, a lua parecia sorrir.
O amor, finalmente, floresceria sob bênçãos e alianças.


Capítulo 16

"Pois em cada dobra de um véu, em cada pétala que dança ao vento, há a promessa de um amor que renasceu."
Os dias em Yinsia se tornaram mais longos e dourados, como se o próprio sol quisesse eternizar aquele breve período de paz. Taehyung sentava-se todas as manhãs no jardim de flores cintilantes, com a mão pousada sobre a barriga em crescimento, sentindo os suaves movimentos de seus filhos e o calor dos braços de Seokjin ao seu redor. A cada batida do coração, parecia que o tempo os recompensava por cada lágrima que derramaram, cada dor que suportaram, cada despedida que quase os destruiu.
E em meio ao perfume das flores lunares e ao riso leve que escapava do pequeno lago de cristal, onde elfos cantavam cantigas antigas, Seokjin ergueu os olhos para o céu estrelado, como se buscasse uma confirmação silenciosa.
— Está pronto? — perguntou Taehyung com um sorriso, os olhos cheios de brilho.
— Sempre estive, meu amor. — respondeu Jin, entrelaçando seus dedos aos do elfo. — Mas agora... agora o mundo também está pronto para nos ver brilhar.
No alto da torre de prata, os sinos do templo da deusa ecoaram. Uma melodia suave, que cruzou os ventos, os vales e os mares — levando uma mensagem clara ao coração de cada criatura de Zianol: um novo capítulo se aproxima. Um momento aguardado por todos.
O casamento real se aproximava.
E, pela primeira vez em muito tempo, não havia medo — apenas amor.
O sol mal havia surgido no céu quando os salões do palácio da Lua começaram a se agitar com passos apressados, risos contidos e olhares cheios de emoção. O casamento do príncipe Taehyung e do ex-coronel Seokjin era aguardado como um novo sopro de vida para o reino — uma união celebrada não apenas por seu simbolismo, mas pela beleza que nascia da resistência e do verdadeiro amor.
Elfos bordavam à mão cada detalhe dos trajes cerimoniais. Tecido lunar, raro e etéreo, que reluzia sob a luz da manhã como se tivesse sido colhido das nuvens. As vestes de Taehyung seriam dignas de uma lenda: um manto azul-pálido que fluía como água, cravejado de pequenas pérolas mágicas que reagiam ao toque da lua, e uma coroa delicada de flores vivas, conectadas à terra por feitiços antigos de prosperidade.
Já Seokjin teria a armadura cerimonial dos antigos reis guerreiros, forjada com prata e folhas encantadas de Yinsia, mas sem perder a suavidade que seu coração trazia. Ele usaria também uma capa de tecido claro, bordada com runas lunares, símbolo de sua união com o povo élfico — e do pacto que firmava não apenas com seu amado, mas com o destino.
Pelos corredores, elfos cantavam canções antigas de união e renascimento. Crianças corriam entre os jardins encantados, levando fitas coloridas e flores mágicas. Lyra organizava os convites, encantando cada pergaminho com um brilho dourado. Galandriel, o rei, supervisionava os detalhes com um raro sorriso sereno no rosto, visivelmente emocionado. Melian ajudava discretamente com encantamentos protetores e bênçãos antigas.
— Esta união mudará o curso da história — comentou ele, tocando com carinho os ombros do filho adotivo.
Enquanto isso, Jimin, mesmo à distância, enviava cartas carregadas de bênçãos e pequenos presentes. Entre eles, uma delicada pulseira feita à mão, com pedras que brilhavam conforme os sentimentos de quem a usasse.
Na noite anterior à cerimônia, Taehyung teve um sonho. Ele caminhava por um campo de lavandas sob o luar, e Jin o esperava com um buquê de estrelas nas mãos. Quando acordou, com o coração acelerado, soube que aquele dia marcaria mais que um simples casamento.
Marcaria o momento em que o amor, finalmente, venceu tudo.
O céu estava limpo naquela manhã em Yinsia, como se a própria natureza reverenciasse o dia sagrado que estava por vir. Os ventos sopravam docemente entre os campos floridos, e um aroma de flores silvestres e resina perfumada envolvia o ar. O templo da Deusa da Lua havia sido decorado com guirlandas prateadas e fitas azulclaras que dançavam com o vento, enquanto a relva sob os pés parecia mais verde do que nunca, viva e macia como veludo.
Toda a cidade estava reunida. As criaturas místicas que antes apenas habitavam os contos sagrados se aproximavam em silêncio respeitoso — dríades observavam das árvores, unicórnios reluziam ao longe e os grifos sobrevoavam em círculos largos, como guardiões celestiais. Até os dragões de asas etéreas da floresta de Zianol podiam ser vistos no horizonte, como testemunhas do amor que desafiara guerras, reis e até a morte.
Taehyung foi o primeiro a surgir, conduzido por Lyra e envolto em um manto feito especialmente para ele: longas camadas de seda branca com bordados em prata lunar que cintilavam como as estrelas no céu. A barriga redonda, símbolo da vida e da esperança, era destacada por um cinto delicado de cristais translúcidos, e seus cabelos estavam presos com fitas de luz. Ele parecia uma visão ancestral, uma deidade esquecida renascida entre os mortais.
Ao avistar o altar, seus olhos marejaram. Seokjin já o esperava ali, vestindo o uniforme cerimonial dos cavaleiros de outrora, reformulado para a ocasião — túnica azulmarinho com detalhes em dourado solar, a insígnia de Yinsia sobre o peito, e uma capa longa que arrastava pelas pedras brancas. Seus olhos não desviavam de Taehyung nem por um segundo. Ele sorriu, aquele sorriso que tinha conquistado o coração do elfo ainda nas pradarias de Nyria. Um sorriso que dizia: “Você está seguro agora.”
Os convidados estavam em silêncio, respeitosos, mas era possível ver os rostos emocionados — Galandriel com os olhos marejados, Melian segurando a mão do marido com firmeza e orgulho. Jimin e Yoongi, lado a lado, com o pequeno filho entre eles. Namjoon, discreto, escondia um sorriso satisfeito ao lado de Lyra, que chorava sem pudor algum.
A cerimônia foi conduzida pelo Sumo Sacerdote de Yinsia, e também por Melian, que tomou para si o papel de oficiar os votos espirituais. Era mais do que uma união política ou romântica — era um rito ancestral, onde as almas se entrelaçavam sob o testemunho dos céus e das estrelas. A Deusa da Lua foi invocada, e sua bênção foi sentida quando uma brisa prateada percorreu o templo, fazendo as flores brancas desabrocharem ao redor.
— Seokjin de Nyria, filho da verdade e da coragem — começou Melian. — Você jura proteger, honrar e amar este que lhe foi confiado pelas estrelas?
— Juro, com meu corpo, alma e o tempo que me for concedido nesta vida. Ele é meu lar, meu norte, minha razão de lutar — respondeu Jin, com a voz firme, mas o olhar marejado.
— Taehyung de Yinsia, filho da Lua e da Esperança. Você jura caminhar ao lado deste que lhe foi prometido pelas constelações, mesmo quando as sombras ameaçarem o caminho?
— Juro — disse o elfo, com a voz embargada, sorrindo com ternura. — Juro por mim, por nossos filhos e por todas as vidas que meu amor por ele alcançar.
Quando seus lábios se tocaram, selando o juramento sagrado, o céu escureceu brevemente — não em ameaça, mas como se a noite tivesse tomado o dia por um instante para oferecer suas estrelas em homenagem. Um clarão brilhou sobre o altar, e todos os presentes sentiram em seus corações uma onda de calor e paz. Era como se o amor entre eles tivesse alterado o curso dos ventos, do tempo e dos destinos.
A celebração seguiu no palácio. A música preencheu os corredores com notas suaves de harpas e flautas élficas, e dançarinos se revezavam entre as mesas de banquete. Havia comidas de todas as regiões — frutas douradas de Nirya, vinhos azuis de Yinsia, mel das montanhas do Norte e pães assados com ervas da floresta. Crianças corriam pelos jardins encantados, criaturas mágicas observavam pelos vitrais com curiosidade, e todos brindavam ao novo casal com alegria verdadeira.
Taehyung, mesmo cansado, foi o centro das atenções. Tocava com carinho a barriga e sorria toda vez que Seokjin lhe beijava a mão. Jin, por sua vez, não saía de perto dele, cuidando, protegendo, e sorrindo como se tivesse renascido junto com o amor.
Mais tarde, quando o sol se punha e o céu se pintava de lilás e ouro, os dois escaparam para a sacada do quarto real. O vento da noite acariciava seus rostos, e ao longe, as luzes da cidade brilhavam como constelações. Taehyung encostou a cabeça no ombro do amado e disse baixinho:
— Achou que chegaríamos até aqui?
— Eu sempre soube — respondeu Jin, apertando a mão do elfo. — Mas agora acredito com todas as minhas forças. Que o amor vence. Mesmo quando o mundo tenta nos apagar.
E naquele instante, envoltos em silêncio e promessas, não havia mais dor, medo ou dúvidas. Apenas eles, o amor que renasceu do impossível, e as estrelas que testemunharam sua união eterna.
[...]
A lua cheia pairava no céu como uma sentinela prateada, lançando sua luz serena sobre os jardins de Yinsia. O perfume de flores noturnas invadia os corredores do palácio, e a música suave da celebração começava a se esvair, dando lugar ao silêncio encantado da noite.
Na câmara preparada com carinho para os recém-casados, as velas cintilavam suavemente, lançando reflexos dourados nas paredes cobertas de tapeçarias e tecidos leves. Pétalas de rosas estavam espalhadas sobre o leito e pelos degraus que conduziam à grande banheira ornamentada com flores silvestres. Tudo exalava paz, amor... e promessa.
Seokjin entrou primeiro, vestindo uma túnica leve de linho branco, os cabelos soltos sobre os ombros, ainda úmidos da água perfumada do banho. Seus olhos vagaram pelo ambiente até repousarem sobre Taehyung, que entrava logo depois, com os pés descalços e um sorriso suave, quase tímido, nos lábios.
Taehyung parecia feito de luz. Seus olhos brilhavam como se contivessem as estrelas que agora cintilavam no céu. Vestia-se de forma simples, mas havia algo de sagrado em sua presença — talvez fosse a leveza dos meses de gestação, ou o brilho dourado da felicidade tão esperada.
— Você está… deslumbrante. — sussurrou Seokjin, aproximando-se devagar, como quem se curva diante de um milagre.
Taehyung sorriu, seus dedos buscando os do amado.

— Nunca pensei que esse dia chegaria, amor. Que eu pudesse te chamar de marido… e ter paz no peito.
Seokjin o envolveu em um abraço, apertando-o contra si como se quisesse fundir seus corpos em um só.

— Eu também não. E agora que chegou… juro, Tae, que nunca mais vou soltar você.
Se beijaram com reverência, como se recitassem uma prece. O tempo desacelerou. Nada mais existia além deles dois: dois corações cicatrizados, pulsando em perfeita sintonia.
Com cuidado, Seokjin acariciou a curva da barriga de Taehyung, abaixando-se para deixar um beijo ali, onde seus filhos dormiam em segurança.

— Eles vão saber, meu amor. Vão sentir no sangue o quanto esse amor foi lutado, suado, merecido.
Taehyung acariciou os cabelos dele, os olhos marejados.

— Vamos criá-los com liberdade. Onde não existam correntes, nem coroas que sufoquem… só amor.
Despiram-se como se desembrulha presentes preciosos, sem pressa, trocando olhares, carícias e sorrisos tímidos. Não era mais a primeira vez, mas ainda assim parecia um reencontro sagrado de almas. Deitavam-se sob as peles macias e lençois bordados, os corpos se entrelaçando como as raízes de uma árvore antiga.
Fizeram amor com a delicadeza de quem escreve poesia. Os beijos percorriam as cicatrizes, os toques invadiam memórias antigas e as transformavam em cura. Seokjin guiava os movimentos com segurança e adoração. Taehyung entregava-se com confiança e prazer, os dedos trêmulos explorando os traços do rosto que conhecia tão bem.
Não houve pressa. Não havia mais medo.
A lua testemunhava, sorrindo por trás das nuvens, quando os dois atingiram o ápice — um clímax suave e profundo, como a junção de dois rios que por tanto tempo correram paralelos.
Depois, Taehyung repousou a cabeça no peito de Jin, ouvindo as batidas firmes de seu coração.

— Obrigado por voltar pra mim. — murmurou.
— Eu voltaria mil vezes. Pela vida, pela morte... por você. — respondeu Seokjin, seus dedos desenhando promessas na pele do amado.
E naquela noite, envoltos pelo calor do outro, sob as bênçãos da Deusa da Lua, dormiram como reis de um reino onde o amor era a única lei.
[...]

A luz da manhã filtrava-se suavemente pelas cortinas de linho branco que dançavam com a brisa perfumada das flores do jardim real. Pétalas de magnólias e lavandas haviam sido espalhadas pelas damas de honra sob o pedido de Lyra, como um presente à primeira aurora de Taehyung e Seokjin como esposos. O céu tingido em tons de dourado e rosa parecia abençoar a nova união, como se a própria deusa da Lua sorrisse entre as nuvens.
Na suíte real do palácio de Yinsia, Taehyung ainda dormia, aninhado no peito de Seokjin. Os cabelos sedosos caíam como seda dourada sobre os travesseiros bordados, e os braços do antigo coronel o envolviam com delicadeza. O ventre levemente arredondado de Taehyung subia e descia com a respiração calma, revelando que os dias de paz finalmente haviam encontrado espaço entre tantas guerras e lágrimas.
Seokjin despertou primeiro. Seus olhos pousaram com carinho no rosto sereno do amado, e uma expressão de assombro gentil tomou-lhe as feições. Como era possível amar tanto alguém? Como era possível sentir-se completo só por tê-lo ali, em segurança, vivo e ao seu lado?
— Hoje é o nosso dia, meu amor... — murmurou, depositando um beijo suave na testa de Taehyung, que resmungou sonolento.
A preparação para a coroação começou antes mesmo do nascer do sol. O palácio inteiro estava envolto em movimento. Costureiros ajustavam as últimas dobras das vestes cerimoniais, os músicos afinavam harpas e flautas com o coração palpitando de ansiedade, e os corredores de mármore branco estavam repletos de arranjos florais, simbolizando união, prosperidade e renascimento.
Enquanto o casal se arrumava, separados para preservar a tradição, Lyra coordenava cada detalhe com precisão. A jovem dama de companhia agora se tornara conselheira oficial da corte e braço direito de Taehyung, e não deixaria nada sair do controle naquele dia histórico. Ela verificava pessoalmente cada degrau do altar da Coroa, garantindo que as pétalas de lótus estivessem bem posicionadas, pois simbolizavam a purificação dos caminhos.
Os sinos da torre soaram quando o sol atingiu seu zênite.
Diante do povo reunido na praça sagrada de Yinsia, que agora também seria a capital do novo domínio, a cerimônia começou. Milhares de olhos se voltaram para o caminho cerimonial, onde Taehyung e Seokjin caminhavam lado a lado, trajando mantos longos de seda branca bordados com fios de prata e dourado. Suas coroas repousavam sobre almofadas de veludo azul, levadas por crianças escolhidas entre os vilarejos mais humildes — um gesto simbólico de que o novo reinado nasceria da esperança de todos, dos mais nobres aos mais simples.
A multidão silenciou ao ver o casal, uma reverência natural se espalhando como um sussurro entre as árvores. Os dois caminhavam com passos serenos, mas seus corações dançavam dentro do peito.
O altar estava ornado com símbolos das duas linhagens: a árvore sagrada de Yinsia, representando o poder da natureza e da espiritualidade dos elfos, e o escudo alado de Nirya, evocando honra e coragem. À frente, o rei Galandriel os aguardava com olhos marejados de orgulho.
Ele ergueu as mãos e, com voz firme, começou:
— Diante dos olhos da Deusa da Lua e sob a bênção do Sol que nos aquece, consagro hoje o início de uma nova era. Que o amor que une Taehyung e Seokjin seja a fundação de um reinado justo, forte e eterno.
Lyra aproximou-se e entregou as coroas.
Taehyung ajoelhou-se primeiro. Galandriel o olhou com ternura antes de pousar sobre sua cabeça a coroa de cristal lunar, entrelaçada com ramos prateados.
— Que a luz em teu coração guie este povo, meu filho — sussurrou.
Seokjin, logo em seguida, inclinou-se diante do rei, que colocou-lhe a coroa de aço encantado, forjada com as runas de proteção de Yinsia e Nirya.
— Que tua espada esteja sempre a serviço da paz, e teu amor sempre proteja este trono.
Quando os dois se levantaram, ergueram as mãos entrelaçadas para o céu. A multidão explodiu em aplausos e vivas. Pássaros brancos foram soltos, sobrevoando o céu em círculos, e pétalas de flores caíram como chuva suave sobre o novo casal real.
A partir dali, o reino de Yinsia e os remanescentes de Nirya passavam a ser governados por dois homens unidos pelo amor, pela coragem e pela promessa de um futuro melhor.
Mas aquela era apenas a primeira metade da celebração.
A praça central transbordava de alegria. Depois da cerimônia solene, os novos reis foram conduzidos até o salão principal do palácio de Yinsia, onde o banquete de coroação os aguardava. Tapetes florais decoravam o caminho por onde passavam, lançados por crianças das vilas vizinhas, e pétalas de flores caíam do céu, carregadas por ventos encantados invocados pelos magos élficos.
Os sinos do reino soavam em uníssono, avisando a todos que uma nova era havia começado.
O salão do banquete estava inteiramente decorado com luminárias flutuantes, espelhos encantados refletindo imagens do casamento e da coroação que se espalharam como janelas vivas por entre as colunas de mármore. O teto havia sido transformado magicamente em um céu noturno estrelado, onde constelações dançavam lentamente sobre as cabeças dos convidados.
Ao entrarem, Taehyung e Seokjin foram recebidos de pé por todos os presentes. A música preencheu o ar — uma melodia doce e grandiosa, tocada por uma orquestra mágica. Os convidados se curvaram em reverência, e logo começaram os discursos. O primeiro a levantar-se foi Galandriel, com os olhos cheios de orgulho:
— Meus caros, hoje não celebramos apenas a união de dois reis, mas a união de dois povos, de duas histórias, de duas forças. — Ele olhou para Seokjin. — Meu filho, você foi forjado no fogo da injustiça e moldado pela honra. — E então para Taehyung. — E você, pequeno raio de lua... desde que nasceu, sempre foi luz. Agora, vocês são faróis que guiarão a esperança de muitas gerações. Que seus nomes ecoem como lendas.
Os aplausos encheram o salão. Taehyung secava os olhos discretamente, emocionado com as palavras do pai.
Jimin também se levantou, segurando o bebê nos braços e com Yoongi ao seu lado. Sua voz saiu firme, porém embargada:
— Eu os vi nascer como reis antes mesmo de vestirem coroas. — Ele sorriu. — Eu vi
Taehyung suportar o inferno com doçura, e Jin erguer espadas com justiça. Ver vocês aqui, hoje, juntos, é a prova de que o amor é mais forte que a dor, e que a luz sempre retorna. — Então ergueu a taça. — Ao amor que sobreviveu.
— Ao amor que sobreviveu! — repetiram todos.
O banquete começou. Mesas longas, adornadas com frutas raras, vinhos élficos, pães de mel dourado, carnes temperadas e doces cintilantes, se estendiam por todo o salão. Risos se misturavam com a música, enquanto elfos dançavam entre as colunas, convidando os humanos, os druidas, os anciãos e os jovens a se juntarem.
Em um canto mais tranquilo, Seokjin ajudava Taehyung a se sentar com cuidado. A barriga já estava saliente, e os bebês chutavam com alegria como se também celebrassem.
— Eles estão dançando — murmurou Taehyung, sorrindo e pousando a mão sobre o ventre. — Você acha que vão se parecer com você?
— Espero que tenham seu coração, meu amor — respondeu Seokjin, beijando sua têmpora. — Porque nele habita todo o reino.
Enquanto a noite avançava, canções antigas foram entoadas. Uma em especial, chamada “Coração de Dois Sóis”, era dedicada aos reis que renasciam depois da dor. Taehyung chorou ao ouvi-la, e Seokjin apertou sua mão, selando um juramento mudo entre os dois.
Nos jardins, flores brilhavam como vaga-lumes, e criaturas mágicas saíam da floresta para espiar a festa — pequenas fadas, cervos dourados, corujas cintilantes.
Perto da meia-noite, os novos reis se ergueram para seu primeiro pronunciamento real.
— Em tempos de escuridão, muitos pensaram que nosso amor era um erro — começou Seokjin. — Mas amor nunca é erro.
— E nunca será punição — completou Taehyung. — Este reino é agora um lar para todos os que foram esquecidos, feridos ou rejeitados. Aqui, ninguém será silenciado. Aqui, ninguém será deixado para trás.
— Aqui — disseram juntos —, o amor é lei.
O grito da multidão ecoou pelas montanhas. As estrelas pareciam mais brilhantes. E, pela primeira vez em muitos séculos, dois reinos, antes separados por guerra, dor e silêncio, vibraram em uma mesma canção.
Na manhã seguinte, o primeiro decreto real seria assinado. Mas naquela noite... havia apenas amor.
[...]

O primeiro raio de sol atravessou as janelas altas do palácio de Yinsia, tingindo de dourado as cortinas leves e os lençóis de linho onde os dois reis dormiam abraçados. Taehyung, deitado de lado, repousava a mão sobre a barriga levemente inchada, enquanto Seokjin acariciava seus cabelos com dedos lentos. Era a primeira manhã do novo mundo que construíam.
— Está tão silencioso... — murmurou Taehyung com um sorriso sonolento. — Acho que o reino está esperando que a gente acorde pra começar a respirar.
— Então vamos deixá-lo respirar com ternura — respondeu Jin, beijando-lhe a testa. — Hoje... somos a mudança.
Pouco depois, acompanhados por Lyra e dois guardas da confiança de Jin, os reis caminharam até o Salão do Conselho, onde os nobres, líderes das casas élficas e representantes dos vilarejos esperavam ansiosos pelos primeiros decretos reais.
Seokjin subiu os degraus do trono central. Sua armadura cerimonial havia sido trocada por vestes de veludo negro bordadas com fios prateados. Taehyung, ao seu lado, vestia branco e azul-claro, com o emblema lunar em prata no peito. Os dois estavam de mãos dadas.
— Em nome da união entre os povos e da cura das feridas antigas, declaramos a dissolução das leis que puniam o amor entre iguais — anunciou Taehyung, com a voz firme, ainda que doce. — O amor será livre em todos os cantos do reino.
Um murmúrio atravessou o salão — alguns chocados, muitos com lágrimas nos olhos. Era o fim de séculos de repressão.
— E mais — continuou Jin —, todo cidadão, elfo ou humano, terá direito à voz no conselho. A nova câmara será composta não apenas de nobres, mas de líderes das vilas, artesãos, curandeiros, guardiões da floresta e representantes das minorias. O reino será de todos, por todos.
O impacto foi imediato. Galandriel, sentado entre os anciãos, assentiu com orgulho. Jimin, que havia permanecido para assistir à sessão, sorriu largo ao lado de Yoongi e do filho que carregava nos braços.
Após os decretos, os reis foram até os jardins, onde os anciãos da Lua os aguardavam com as bênçãos dos elementos. Como símbolo da nova era, um carvalho branco foi plantado no centro do jardim real. Seus galhos foram entrelaçados por fitas prateadas e douradas — a luz do Sol e o brilho da Lua. Jin e Taehyung enterraram juntos uma caixa com promessas escritas de próprio punho, que ficariam ali como juramento ao povo.
Taehyung, guiado pela intuição e pelos dons que se fortaleciam com a gestação, também fundou o Oráculo dos Dois Sóis, uma ordem de conselheiros formados não por títulos, mas por sabedoria e empatia. A primeira a ser convocada foi Lyra, nomeada Protetora do Círculo da Verdade — título antes reservado a generais de guerra, agora dado a quem preservaria a paz.
Na parte da tarde, os reis caminharam entre o povo, sem carruagens, sem formalidades. Seokjin segurava a mão de um menino órfão que lhe entregara um desenho com os dizeres: “Obrigado por salvar a mamãe do frio”. Taehyung ganhou flores, frutas e até uma canção improvisada por crianças élficas que, ao vê-lo sorrir, disseram: “O rei da lua também sorri como a primavera.”
À noite, sozinhos outra vez, Taehyung e Seokjin se deitaram no terraço, sob um céu pintado de estrelas.
— O que acha que virá agora? — perguntou Tae, virando-se de lado para encarar Jin, que acariciava sua barriga.
— A vida — respondeu ele, simples. — A paz. As responsabilidades. Os desafios... e talvez, se tivermos sorte, noites como essa.
Taehyung sorriu.
— Estamos prontos?
— Estávamos desde o primeiro olhar, meu amor.
A brisa suave soprou entre as flores do jardim real. A lua, cheia e prateada, abençoava o novo tempo. E nas sombras da floresta, onde antes se escondia o medo, agora dançavam as fadas, levando aos quatro cantos do reino a notícia de que um novo alvorecer havia começado — e que ele era feito de luz, coragem e amor.
[...]
O sol dourado despontava sobre os campos de Zianol, tingindo os céus com tonalidades suaves de laranja e rosa. O castelo, agora governado por Taehyung e Seokjin, resplandecia com nova vida. Os vitrais haviam sido restaurados com delicadeza e arte, representando não só os grandes feitos do passado, mas também a união entre dois mundos: o etéreo e o terreno, o elfo e o homem.
Os primeiros meses de reinado foram repletos de expectativas e desafios. O povo, dividido entre o receio do novo e a esperança de tempos melhores, olhava com atenção cada decreto, cada gesto, cada aparição do jovem casal. Taehyung, mesmo grávido, não se afastou de suas obrigações. Caminhava pelos corredores do castelo com serenidade, os passos envoltos em tecidos finos que ocultavam sua crescente barriga. Seokjin, ao seu lado, fazia questão de equilibrar a ternura com a firmeza, impondo respeito, mas também acolhendo com compaixão.
Reformas foram implementadas. Antigas alas do castelo, que haviam servido de prisão e punição, foram transformadas em bibliotecas, hospitais e jardins abertos ao povo. A música voltou a ecoar pelos corredores, e o cheiro de pães assando se espalhava pelas manhãs. Zianol florescia.
Contudo, a paz não vinha sem tribulações. Rumores de rebeliões silenciosas surgiam entre nobres insatisfeitos com o novo governo. Moradores de regiões mais distantes hesitavam em confiar em um ex-chefe da guarda, estrangeiro. Havia cartas anônimas, ameaças veladas. Mas o casal reinante se mantinha firme. Reuniam conselheiros fieis, fortalecendo laços com Nyria, e contavam com a presença constante de Namjoon, agora como conselheiro mágico da corte.
Entre as reuniões e cerimônias, havia momentos de respiro. Taehyung passava as tardes no jardim real, cercado de flores e brisas suaves, sentindo os primeiros chutes de seus filhos. Seokjin muitas vezes largava pergaminhos e armaduras para sentar ao seu lado, colocando a mão sobre o ventre arredondado e trocando sorrisos silenciosos com o amado. Era ali, na simplicidade do toque e do olhar, que encontravam forças para continuar.
O palácio inteiro parecia acompanhar o avanço da gestação com carinho. Lyra não deixava Taehyung sozinho nem por um segundo. Preparava infusões, embalava mantas bordadas à mão e já sonhava com os nomes dos bebês. Até mesmo Galandriel e Melian, se envolviam ativamente, oferecendo cuidados élficos antigos para aliviar as dores da gravidez e proteger a vida que se formava.
Numa tarde especialmente tranquila, Seokjin convocou o povo à praça para um discurso. Sua voz ecoou com firmeza e doçura, anunciando que, ao nascerem, seus filhos seriam educados com os princípios de igualdade, honra e respeito. Declarou também a construção de uma nova escola mágica e militar, onde filhos de todas as raças poderiam estudar lado a lado. Foi ovacionado.
No entanto, entre as multidões sorridentes, olhos sombrios ainda espreitavam.
Nos salões do castelo, Taehyung preparava-se para o sétimo mês de gestação. Os desejos se tornaram mais peculiares — uma vez pediu flores lunares frescas no meio da madrugada, em outra, exigiu um pão doce com mel das montanhas de Yinsia. Seokjin, mesmo cansado após dias longos, atendia a cada pedido com um sorriso no rosto. Era sua maneira de retribuir tudo que Taehyung havia suportado.
À noite, quando os corredores se acalmavam e as estrelas cobriam o céu, eles se deitavam lado a lado, o calor de seus corpos aquecendo o quarto. Taehyung, aninhado ao peito de Seokjin, às vezes chorava baixinho — de alegria, de medo, de amor demais. Seokjin sussurrava promessas, juras de que jamais se separariam de novo.
Agora havia paz.
[...]
A primavera delicada, e os campos ao redor do castelo pareciam sussurrar boas novas. Flores silvestres brotavam com ousadia entre as pedras e as janelas se abriam para ventos suaves e cálidos. Era o tempo perfeito para um renascimento.
Taehyung já não conseguia dormir — não por desconforto, mas pela expectativa que tomava conta de seu corpo e alma. Os dois corações que cresciam dentro de si pulsavam com força, quase como se compartilhassem da ansiedade dele. Sentia suas pequenas presenças com uma clareza sobrenatural, como se os conhecesse há eras, como se a alma deles já tivesse andado ao seu lado em vidas passadas.
— Eles estão prontos — sussurrou, com os olhos voltados ao céu estrelado, onde duas estrelas pareciam brilhar mais intensamente naquela noite.
Foi então que Pai Melian foi chamado.
O antigo consorte, sábio e calmo, não chegou com bisturis ou instrumentos frios, mas com uma coroa de folhas prateadas, ervas em pequenos sachês e um livro antigo, cujas páginas exalavam o aroma do tempo e da magia. Ele não falava alto, não dava ordens. Apenas sorria com ternura, como quem reencontra um segredo antigo e precioso.
— O nascimento não será uma ruptura, mas uma passagem. O corpo de Taehyung não será cortado. Será aberto pelo amor.
Seokjin segurava a mão do marido com força. Seus olhos estavam marejados, mas o coração firme. Eles haviam passado por tanto... tantas lutas, separações, curas e reencontros. E agora, juntos, assistiriam à chegada de seus bebês.
A câmara ritualística fora preparada em um antigo salão do templo de Yinsia, onde gerações de nascimentos mágicos haviam acontecido em tempos esquecidos. Os guardiões do templo, vestindo túnicas brancas e douradas, entoavam cânticos em uma língua ancestral. O som envolvia o ambiente como um manto de proteção.
Taehyung foi deitado sobre uma cama de pétalas de camélia e algodão selvagem. A luz da lua cheia banhava seu ventre nu, onde símbolos antigos haviam sido desenhados com óleos sagrados. Melian, com as mãos erguidas, invocava o Espírito da Vida, aquele que zela pelos nascimentos sagrados.
— Que a carne se abra sem dor. Que o espírito conduza os novos ao mundo com ternura. Que o amor seja o canal.
Taehyung sentiu uma onda quente subir por sua espinha. Não era dor, mas uma pressão crescente, como se as estrelas o puxassem para cima enquanto a terra o segurava com doçura. Um portal havia sido aberto dentro dele — não físico, mas energético.
Sua respiração se intensificou. Seokjin, ainda ao seu lado, cantava uma melodia suave que havia ouvido da mãe em sonhos. Seus olhos não deixavam os de Taehyung. Entre cada nota, havia amor, coragem, promessa.
E então, no exato instante em que a lua alcançou seu ápice, uma luz dourada se derramou sobre o ventre de Taehyung. Não era imaginária — todos podiam vê-la. As marcas em sua pele começaram a brilhar, e com um sussurro de vento, a magia cumpriu seu desígnio.
O primeiro choro ecoou — não de dor, mas de chegada. Um bebê foi recebido pelas mãos de Melian, envolto em uma névoa brilhante. Uma menina. Seus olhos eram cerrados, mas seu pequeno punho já buscava algo: a mão da irmã.
Logo em seguida, como uma onda suave que rompe após a primeira, o segundo bebê nasceu. Outra menina, envolta em um brilho prateado, tão tranquila que parecia sorrir ao encontrar o mundo.
O salão inteiro se silenciou.
Taehyung chorava, mas sem tristeza — lágrimas que pareciam purificar todo o caminho trilhado até ali. Seokjin os pegou nos braços, um de cada lado, e beijou a testa do amado.
— Elas são perfeitas — sussurrou.
— São tudo que eu sonhei — Taehyung respondeu, com a voz embargada.
Melian os abençoou com palavras sagradas. A luz ao redor dos bebês persistia, como se a própria magia reconhecesse a importância daquele nascimento. Eram filhas de amor verdadeiro, nascidos do impossível, protegidos por antigos deuses.
No céu, as duas estrelas ainda brilhavam. E naquele instante, o mundo parecia um lugar mais suave, como se soubesse que algo precioso havia chegado.
Melian, com os olhos marejados pela emoção silenciosa que só os muito antigos conhecem, ergueu as duas pequenas recém-nascidas nos braços, como se apresentasse ao universo algo que nem os deuses ousariam tocar sem reverência.
— A luz veio em dobro — murmurou. — E com ela, os nomes que nasceram junto aos corações.
Taehyung ergueu o rosto, ofegante ainda, mais pleno. Ele estendeu os braços com dificuldade, e Melian colocou as meninas uma de cada vez em seu peito. Seus pequenos corpos pulsavam calor e magia, como brasas recém-acesas.
— Aerin — disse Taehyung, tocando suavemente a bochecha da primeira, que já movia os lábios num gesto curioso. — Significa “canção da eternidade” na língua antiga. Ela carrega o silêncio que canta e a força que dança.
Seokjin sorriu, acariciando os cabelos prateados da pequena. — E Elora — completou, olhando para a irmã que descansava ao lado. — “Luz que guia.” Ela veio com a calma dos ventos antigos, com olhos que já conhecem os caminhos.
As gêmeas se entreolharam, como se compreendessem — ou talvez simplesmente estivessem se reencontrando. Seus olhos dourado-avelã brilharam por um instante, refletindo a luz da lua que ainda as banhava. Uma das guardiãs do templo murmurou baixinho: "São como a lua e o sol em harmonia. Um presságio de equilíbrio."
A notícia se espalharia como o vento pelas colinas e vilas, atravessando muralhas e mares. As herdeiras do sangue impossível haviam nascido. O reino, há tanto dividido por linhagens, agora contemplava um novo símbolo — não de poder, mas de união. Alfa e ômega. Magia e carne. Luz e luz.
O Alto Conselho seria avisado pela manhã. Haveria aqueles que duvidariam. Outros que temeriam. Mas também haveria quem celebrasse. O nascimento de Kim Aerin e Kim Elora não era apenas um evento familiar — era uma profecia realizada. Um novo ciclo começava.
Na sala do templo, no entanto, o tempo parecia suspenso.
Taehyung, exausto e radiante, recostou-se contra o peito de Seokjin. As meninas dormiam entre eles, seus peitos subindo e descendo em sincronia. Seokjin envolveu os quatro com um manto branco, e, com a voz embargada, sussurrou uma promessa: — Enquanto eu respirar, elas estarão seguras. Enquanto eu existir, você será amado.
Taehyung fechou os olhos, com um sorriso calmo. — E se um dia eu partir antes... estarei em cada raio de sol que tocar a pele delas.
Lá fora, as flores silvestres continuavam a abrir-se, como se o mundo soubesse que duas novas estrelas haviam descido à terra — não para iluminar sozinhas, mas para ensinar todos a brilharem juntos.
[...]
O nascer do sol seguinte ao nascimento das gêmeas não foi comum.
As nuvens cederam passagem para um céu límpido, e os primeiros raios de luz tocaram o castelo com uma intensidade que não se via desde os tempos antigos. Pássaros que não migravam há séculos haviam retornado àquela terra, entoando cantos esquecidos. Os anciãos do reino sussurraram, assustados e maravilhados:
“Os sinais estão se cumprindo.”
O Alto Conselho se reuniu antes mesmo do meio-dia. Robes pesados arrastavam pelo chão de mármore, e as palavras eram afiadas como punhais escondidos entre elogios diplomáticos.
— Isso muda tudo — disse o Duque Velhar, com a voz carregada de medo. — Duas herdeiras nascidas do impossível. De um ventre masculino. Sob ritos antigos que sequer são mais praticados...
— Isso não é heresia — retrucou Lady Zareth, uma das últimas aliadas leais aos antigos clãs mágicos. — É o renascimento de uma era em que amor e linhagem não eram prisioneiros da carne, mas da essência.
Enquanto os nobres debatiam entre tradição, ameaça e reverência, a notícia corria veloz entre o povo.
Nas vilas, houve dança. Em mercados, canções novas surgiam. Em alguns territórios rivais, sussurros de guerra começaram a se formar — mas também existia temor. Porque nenhum exército se move facilmente contra um milagre. E o nascimento de Kim Aerin e Kim Elora era um milagre vivo.
No castelo, a realidade era mais silenciosa. Menos grandiosa. E infinitamente mais humana.
Aerin chorava alto, exigente e viva. Elora observava o mundo com olhos arregalados, como se já estudasse tudo ao seu redor. Seokjin, com o cabelo desgrenhado e vestes simples, carregava Aerin no colo enquanto cantarolava uma melodia antiga, enquanto Taehyung, sentado perto da janela com Elora dormindo em seu peito, observava a luz brincar nos fios prateados das filhas.
— Elas são tão diferentes e tão iguais — murmurou ele. — Aerin tem o fogo. Elora, o vento.
Seokjin se aproximou, roçando os lábios na têmpora de Taehyung. — E você... é o céu onde esses elementos dançam.
Havia olheiras sob os olhos deles, um cansaço novo no corpo, mas também havia riso. Pequeno, bobo, íntimo. Como quando Aerin soluçou e arrotou ao mesmo tempo. Ou quando Elora fechou a mão sobre o dedo de Taehyung e se recusou a soltar, mesmo dormindo.
Mas o castelo não dormia.
Mensageiros chegavam de todas as regiões — oferendas, convites, alertas. Algumas famílias pediam audiência. Outras ameaçavam enviar exércitos. O destino das meninas estava marcado desde o nascimento — mas Seokjin e Taehyung agora precisariam decidir: proteger as filhas do mundo, ou preparar o mundo para recebêlas.
No fim da noite, sentados em frente à lareira, com as meninas embaladas nos braços, Seokjin quebrou o silêncio:
— Eles vão querer moldá-las. Usá-las.
Taehyung assentiu, olhando o fogo. — Mas elas não vieram ao mundo para serem moldadas. Elas são a chama e a brisa. Elas vão incendiar e suavizar, conforme a própria vontade.
Seokjin sorriu, tocando o rosto do marido.
— Então, ensinaremos a elas a ser tempestade e refúgio.
E assim, sob a sombra de intrigas, esperança e o murmúrio de uma nova era, a história das filhas da luz continuava a crescer.
[...]
Como se fosse natural, Taehyung escreveu para seu precioso amigo, faziam alguns meses que ele havia se casado e coroado, e desde então não havia visto o amigo, porém pegaram o habito de escrever um para o outro. E com o nascimento das gêmeas não seria diferente, ele precisava contar as boas novas ao irmão de seu marido.
Pegou um pergaminho e com a pena em mãos começou a escrever.
Para o meu querido Jimin,
Escrevo esta carta com as mãos ainda tremendo — não de medo ou exaustão, mas de pura emoção. O mundo que eu conhecia se abriu em luz, e dois novos corações agora batem fora de mim… tão pequenos, tão vivos. Elas chegaram, Jimin. Minhas filhas. As nossas meninas.
Aerin e Elora.
Mesmo enquanto escrevo seus nomes, parece que estou desenhando poesia no papel. Elas nasceram sob a lua cheia, em meio a um ritual antigo que nem eu acreditava ser real até senti-lo atravessar meu corpo como um sussurro dos deuses.
Não houve dor como imaginávamos. Apenas luz. Calor. Uma sensação de que eu era só um canal para algo muito maior do que eu.
Aerin foi a primeira. Chorou alto, com os punhos fechados e a testa franzida, como se já tivesse muito a dizer ao mundo. Tem os olhos do Seokjin e a minha boca. Já Elora… ah, Elora veio como uma brisa. Tão silenciosa, tão doce. Quando abriu os olhos pela primeira vez, fiquei certo de que estava vendo as estrelas. Elas são diferentes, mas se procuram o tempo todo. Como se uma só respirasse ao sentir o ar da outra.
Jimin, nunca pensei que sentiria algo tão imenso. Por vezes, me pego observandoas dormir e me perguntando se mereço tanto. Elas me fazem sentir inteiro de novo, mesmo com tudo que já quebrei ou perdi no caminho.
Seokjin... você precisava ver o rosto dele. Nunca o vi tão vulnerável, tão rendido. Quando pegou Aerin no colo pela primeira vez, ele chorou como uma criança. E quando Elora segurou seu dedo com a mãozinha minúscula, ele riu entre lágrimas. Foi a imagem mais bonita da minha vida.
Elas já te conhecem, mesmo sem nunca terem te visto. Às vezes, quando falo seu nome, elas se aquietam, como se ouvissem. Acho que sentem que você é parte do que nos trouxe até aqui. Porque é, Jimin. Sem o seu amor, sem sua força, sua proteção, sua coragem em me manter de pé quando eu mal conseguia respirar… talvez eu não tivesse chegado até este momento.
Você é o tio delas. O primeiro que ouvirão cantar, rir, contar histórias bobas. Já posso até imaginar você as empanturrando de doces escondidos, fazendo promessas secretas no ouvido delas como sempre faz comigo.
Estamos ansiosos pela sua visita. Sei que quando você vir Aerin e Elora pela primeira vez, algo em você também vai renascer. Elas vieram para nos lembrar de que mesmo nos tempos mais sombrios, ainda somos capazes de criar luz. Elas serão amigas de Eryon, como nós somos.
Com todo o meu amor — e um coração que agora bate por quatro,
Tae

A resposta não demorou muito a chegar, e com a mesma emoção de sempre, Taehyung e Seokjin leram aquela carta, como se Jimin sussurasse as palavras em seus ouvidos. Seok estava inteiramente sensível com tudo ao redor, e mesmo que nunca tenha dito em voz alta, ele amava o irmão de todo coração, e nada mudaria isso, perderam muitos anos, foram separados por alguém cruel, todavia o destino sabe o que faz e segue seu caminho, e eles passariam por muitos momentos juntos, o laço fraterno seria refeito.
Para meu querido Taehyung,
Eu reli sua carta tantas vezes que já sei trechos de cor. Chorei já na primeira linha, e depois sorri como um tolo no meio da madrugada, sozinho no salão dos espelhos. Os criados acharam que eu tinha perdido o juízo. Talvez eu tenha mesmo — ou talvez tenha sido apenas meu coração se abrindo para duas novas vidas que eu ainda nem segurei nos braços, mas já amo como se fossem parte de mim.
Aerin e Elora.
Duas pequenas estrelas. Dois nomes que parecem já carregar história, destino, magia. Você sempre teve um dom para nomear o que é bonito, Tae.
Saber que elas chegaram em paz, envoltas em luz, como se o próprio mundo se curvasse para recebê-las… isso me trouxe uma esperança que há muito eu não sentia. Por tanto tempo temi que as dores e os horrores que atravessamos pudessem roubar de você a chance de ser feliz. Mas você lutou. Contra tudo, contra todos. E agora é pai de duas meninas que, tenho certeza, serão tão encantadoras quanto você.
Eu fico imaginando a Elora, silenciosa, observadora, com olhos de constelação… e Aerin, a destemida, a que veio para gritar “estou aqui!”. Já as amo. E, juro por tudo que é sagrado, vou mimá-las de um jeito que Seokjin vai me odiar. Já mandei preparar dois vestidos bordados à mão e pequenas coroas com pedras encantadas — sim, eu sei, elas ainda nem têm dentes, mas eu sou rei agora, não tenho limites.
Tae, obrigado por me deixar fazer parte disso. Obrigado por me confiar as lágrimas e as alegrias, as dúvidas e os sonhos. Você é meu irmão de alma. Um pedaço do meu passado e do meu futuro.
E quanto ao Seokjin… diga a ele que estou feliz por vê-lo enfim onde ele sempre pertenceu: ao seu lado. Vocês foram feitos para se encontrar, mesmo que tivessem que atravessar infernos para isso.
Estou partindo amanhã ao nascer do sol. Não há decreto real que me impeça de conhecer minhas sobrinhas. Quero ser o primeiro a cantar para elas, a embalá-las e contar histórias sobre o reino onde nasceram, e o quanto elas já mudaram tudo.
Nos vemos em breve, meu amor de vida.
Com todo o meu afeto, orgulho e saudade, Jimin

[...]
O sol ainda não havia subido completamente quando os portões do castelo de Yinsia se abriram para receber o novo rei Nyria. Jimin desceu do cavalo com a capa ainda úmida do orvalho da manhã e os olhos cansados da viagem, mas nenhuma parte de seu corpo hesitava. Seu coração batia descompassado, como se também estivesse prestes a encontrar alguém que esperava há muito tempo.
Lyra foi a primeira a recebê-lo, sorrindo com doçura.
— Eles estão te esperando na câmara de luz. As meninas acordaram com o nascer do dia, como se soubessem.
Jimin riu, meio nervoso. Alisou os cabelos e ajeitou o colar dourado que trazia com o brasão de sua família. Um presente para as sobrinhas. Estava vestido com suas melhores roupas, como se fosse a uma cerimônia sagrada. E, de certa forma, era.
Quando entrou no salão, a luz do sol atravessava os vitrais coloridos, banhando o ambiente em tons de rosa, dourado e azul. No centro, sobre um colchão de almofadas bordadas e lençóis de linho branco, estavam Taehyung e Seokjin. E entre eles… dois pequenos feixes de luz.
As meninas estavam nos braços dos pais, enroladas em mantas finas. Elora repousava tranquila no colo de Seokjin, enquanto Aerin mexia os braços com pequenos sons de inquietação nos de Taehyung.
Ao vê-lo, Taehyung abriu um sorriso tão largo que seus olhos brilharam como se voltassem a ser os do jovem que dançava entre flores no jardim do templo.
— Jimin… — disse, num sussurro. — Elas estão aqui.
Seokjin se levantou com cuidado, aproximando-se com Elora nos braços. Jimin ficou imóvel. Seus olhos marejaram no instante em que os pequenos olhos da menina se abriram.
— Ela… ela tem olhos de luar — disse, sem conter a emoção.
Seokjin sorriu e a colocou nos braços dele com delicadeza.
— E agora ela conhece a luz do sol.
Elora se aconchegou no peito de Jimin como se o reconhecesse. E ele chorou — sem vergonha, sem medo, com uma ternura que escorria por sua pele como bênçãos silenciosas.
Logo depois, foi a vez de Aerin.
— Essa aqui tem personalidade — avisou Taehyung, sorrindo. — Já puxou meus cabelos duas vezes hoje.
Jimin a pegou com cuidado, mas Aerin firmou o olhar nele como se quisesse avaliálo.
— Oi, guerreira — ele disse. — Eu sou seu tio Jimin. E juro solenemente que vou te ensinar a dançar, a brigar com graça e a exigir chocolate a qualquer hora do dia.
Aerin espreguiçou os bracinhos, como se aprovasse.
O tempo parecia ter parado.
Eles ficaram ali, os cinco — Jimin, Taehyung, Seokjin, e as duas novas vidas que haviam transformado tudo. O silêncio era preenchido por um amor que não precisava ser explicado.
— Você sempre foi luz na minha vida, Tae — sussurrou Jimin. — Agora você criou duas novas estrelas. Obrigado por me deixar brilhar com elas também.
Taehyung se aproximou e encostou a testa na de Jimin, emocionado.
— Você é parte delas. Sempre será.
Do lado de fora, as flores começavam a desabrochar, como se o mundo também tivesse esperado esse momento para renascer.
[...]
Os dias no castelo haviam desacelerado. Pela primeira vez em muito tempo, Taehyung acordava sem sobressaltos, sem lembranças cortantes ou previsões sombrias. Agora, o que o tirava da cama era um resmungo leve vindo do berço ao lado, seguido de um choramingo sussurrado — Aerin, impaciente, exigindo atenção antes mesmo da luz tocar a janela.
— Está com fome, meu raiozinho — murmurava ele, erguendo a bebê com delicadeza, como se o próprio toque pudesse quebrar o encanto do momento.
Elora, ao contrário, era um lago tranquilo. Acordava devagar, piscando lentamente, como se analisasse os detalhes do mundo antes de decidir interagir com ele. Seokjin a chamava de a pequena sábia, e dizia que seus olhos dourados escondiam segredos de eras anteriores.
Os corredores do castelo, antes tão silenciosos e solenes, agora estavam cheios de sons novos: o eco das risadinhas das meninas, o tilintar das correntes de berço, o canto de Taehyung, que voltara a entoar melodias esquecidas, agora para embalar.
As manhãs eram simples, sagradas em sua rotina.
Seokjin preparava chás com ervas suaves para ajudar no leite de Taehyung, enquanto arrumava o cabelo das meninas com laços bordados à mão. O sol entrava pelas janelas, dourando tudo de forma quase simbólica, como se o mundo, de fato, estivesse mais bonito com a presença delas.
Certo dia, Taehyung e Seokjin levaram as meninas para fora do castelo, até o campo florido onde um antigo carvalho os esperava. Onde haviam feito juras de amor, feito promessas que agora dormiam em seus braços.
— Aqui foi onde tudo começou, nessa terra — sussurrou Taehyung, sentando-se na relva.
— E agora começa de novo — completou Seokjin, deitando ao seu lado, com Elora aninhada ao peito.
As gêmeas estavam vestidas com pequenos mantos de linho branco e coroas de margaridas colhidas ali mesmo. Aerin mordia as flores com a concentração de uma guerreira exploradora. Elora apenas olhava o céu, encantada com o movimento das nuvens.
Foi nesse silêncio florido que Aerin soltou sua primeira risada completa. Um som claro, redondo, que fez os pássaros emudeceram por um instante, como se estivessem ouvindo o nascer de um novo hino.
Taehyung levou a mão à boca, emocionado. Seokjin sorriu como quem recebe o maior presente de todos.
— Estamos vivendo um sonho — disse, quase sem voz.
— E não vamos acordar — respondeu Taehyung, com os olhos marejados, mas serenos.
Naquela tarde, as meninas dormiram sob o carvalho, protegidas pela sombra das folhas e pelo amor de quem lhes deu o mundo. E enquanto o vento dançava entre os ramos, levando consigo o perfume das flores, o tempo pareceu se curvar em respeito.
Ali, onde tantas vezes houve dor, agora só havia paz.


Continua…
Nota da autora
Roses and Thorns nasceu do desejo de escrever um romance intenso, cheio de dor, beleza e recomeços. É uma história sobre amores que atravessam vidas, sobre sacrifícios e a coragem de amar mesmo quando tudo parece contra. Se você gosta de dramas românticos, intrigas na corte e um toque de magia, espero que encontre aqui um pedaço de emoção para chamar de seu. Bem-vindes ao meu mundo!
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