Depois de conhecer o Santuário, tive três dias antes de conhecer vovó Olivia, avó de Bia e . Nesse meio tempo, resolvi uma tradução cujo prazo já estava chegando (e demorei o triplo do tempo, para meu eterno desespero) e enfim contatei a empresa para venda do imóvel. Para a tristeza de Tatiana, ela não ficava localizada em Pisa. Na verdade, nem importava sua localização já que eles tratavam tudo por e-mail.
Estava lendo um dos vários documentos enviados pela empresa quando a campainha tocou. Do outro lado, os cabelos loiros com pontas azuis de Bia balançavam com o típico vento de litoral. No final das contas, não havia sido seu irmão a me buscar.
— Oi, ! Pronta para conhecer vovó Olivia?
— Com certeza! — Mas eu estava nervosa. Queria muito agradar aquela mulher que poderia ter todas as respostas das minhas perguntas.
Busquei um pequeno pacote na cozinha e Bia me ajudou a fechar a porta, já que a outra mão enfaixada complicava a situação.
Não precisamos andar nem um minuto inteiro que já paramos na frente de uma casa toda feita de pedras, com uma porta de madeira. Bianca já chegou abrindo a porta destrancada.
— Nonna? Nós chegamos!
Olhei ao redor, reparando nos móveis de madeira com disposição similar à casa de nonna Gema. Inclusive os vários retratos de bebês muito fofos, especialmente um que parecia não ter nem dois anos, todo sujo de gelato.
— Que gracinha! Quem é?
— Ah! Meu irmão.
Franzi a testa, irritada com sua inegável fofura infantil, mas minha expressão se suavizou assim que vovó Olivia entrou na sala, guiada por uma pequena bengala. Tinha cabelos completamente grisalhos e era consideravelmente mais baixa que Bianca, mas havia algo no brilho dos olhos por trás de seus óculos que a tornava a pessoa mais viva daquele lugar.
— Ah! ? Não acredito que enfim estou conhecendo uma das sobrinhas netas de Gema — disse, sorrindo abertamente para mim.
— Olá, senhora Olivia, é um prazer conhecê-la. Obrigada por me receber em sua casa.
— Ora, querida, o prazer é meu! — E imediatamente me puxou para um abraço.
Meu corpo relaxou em contato com aquele carinho fraterno. Como poderia tê-la conhecido naquele instante e já sentir uma conexão tão forte com a mulher? Me senti imediatamente à vontade conforme ela me soltava e me guiava para a mesa, posta com café.
Estendi o pequeno pacote pardo que eu trazia em mãos.
— É apenas uma lembrancinha, gostaria de poder agradecer por mais.
— Mas nem precisava ter trazido nada! Bianca, você a avisou que não precisava ter trazido nada?
— Eu avisei — respondeu a menina, bem humorada.
— Que belezinha! — Olivia ergueu o pequeno chaveiro de havaianas, que antes enfeitava minha chave de casa. Era a única coisa mais brasileira que eu tinha para oferecer.
— É de uma marca brasileira bem famosa de chinelos, quis oferecer algo que fosse diferente para você — comentei, envergonhada.
— E eu simplesmente adorei. — Ela se sentou em uma cadeira de frente para a minha, chamando Bianca para se sentar conosco, antes de estender as mãos para pegar as minhas. Seus olhos, percebi, ficaram marejados, embora seu sorriso não fosse embora. — Eu sinto muito pela dor que você e sua família estão passando, Espero que Deus os conforte, especialmente sua avó. Mesmo distantes, Gema e Pina eram inseparáveis.
— Obrigada pelo carinho, sinto muito pela sua perda também. — Apertei a mão dela de volta.
— Obrigada. E como sua vó está?
— Indo — admiti. — Ela ficou mais melancólica, fica dizendo que será a próxima, que meu avô já a abandonou, e agora nonna Gema… Mas eu sei que ela vai conseguir melhorar, ela é forte.
— É de família. — Olivia sorriu. — E você está aqui para cuidar das burocracias?
— Sim, vovó, tanto que fui ajudá-la a empacotar as coisas que levou para o santuário de São Francisco de Paula.
— Ah, minhas bênçãos. Como eu poderia pedir por netos melhores?
Eu forcei um sorriso que esperei ter passado despercebido enquanto Olivia nos servia o café.
— Obrigada — agradeci, levando a caneca aos lábios e assoprando. O vapor esquentou meu rosto, mas nunca era quente o suficiente para recusar uma boa xícara de café.
— Mas conte-me. Bia me disse que gostaria de fazer mais perguntas sobre Gema.
— Só se não for incomodar. Sei que pode ser doloroso falar dela, ainda mais quando era alguém tão querida sua.
— Não é incômodo algum! Pelo contrário, agora mais do que nunca quero mantê-la acesa na minha memória e no meu coração.
Minha visão ficou embaçada, o que me surpreendeu, já que eu nem percebi as lágrimas chegando. Mas aquela tristeza misturada com amor e saudade… Eu gostaria que, no futuro, alguém se lembrasse de mim assim.
— Fico feliz que isso não te incomode. — Afastei uma lágrima do rosto, abrindo um sorriso. — Eu gostaria de saber mais sobre vocês duas, para começar. Onde se conheceram?
— Nessa mesma casa. — Olivia sorriu, bebendo um gole do café em seguida. Segundos depois, ela prosseguiu: — Nossos pais já eram vizinhos e se conheciam. A mãe de Gema era uma parteira, e ajudou minha mãe a me ter, mesmo que ela mesma estivesse grávida de oito meses. Gema é menos de um mês mais velha que eu. Precisamente 20 dias.
Nós três sorrimos ao imaginarmos esse cenário.
— Passamos a infância brincando juntas, e, alguns anos depois, Pina depois, embora fosse quatro anos mais jovens. Nós nos julgávamos superiores e pensávamos que uma criança não iria nos entender. — Rimos. — Mas frequentamos a mesma escola, fazíamos os deveres juntas, brincávamos na rua, na praia, frequentamos a mesma igreja do Santuário. Ninguém via Gema sem me ver junto, já nós tomávamos como gêmeas. Andávamos com as mesmas tranças de um lado para o outro. Ah, acho que tenho uma foto disso! Bianca, pode buscar a caixa verde que está dentro do meu armário? Na porta direita, no alto, por favor.
— É claro!
Enquanto Bianca saía, me permiti imaginar as cenas descritas e sorrir. Eu amava nonna Gema, mas apenas a conheci mais velha. Era tão engraçado imaginar minha vó e ela nessa idade, mas era ao mesmo tempo esquisito ter que ouvir isso de alguém que eu acabara de conhecer.
— Vocês eram mais próximas do que eu imaginava. Fico triste de não ter me interessado mais no passado dela enquanto ainda podia perguntar a ela — confessei, sentindo um bolo na garganta.
— Vocês, jovens, possuem vidas muito mais interessantes para nós. As baboseiras de nosso passado não competem com seus futuros brilhantes.
— Eu discordo! Nunca me senti tão envolvida quanto ao escutar tudo isso!
Ora, eu era uma escritora! Como eu queria ser uma escritora que não conhecia histórias?
Olivia sorriu para mim, carinhosa.
— Fico feliz por isso. — No mesmo momento, Bianca retornou com a caixa. — Ah, que bom que você achou, querida!
— Só não sei se vamos encontrar a foto rapidamente no meio de tudo. São tantas!
— Mas vamos achar. — As duas abriram a tampa juntas, apoiando-a no chão. — Hm, o que temos aqui? Ah, é do nascimento da sua mãe! Olhe, e Gema foi a primeira a visitá-la!
Olivia me estendeu uma foto em preto e branco. Nela, uma versão bem mais jovem de nonna Gema olhava para a câmera, com um sorriso fechado, segurando uma diminuta versão da mãe de Bianca. Atrás da foto, uma letra cursiva bonita escreveu: “18 de maio de 1970”.
— E essa aqui foi do meu casamento, Gema foi minha madrinha, claro.
Ela me estendeu outra foto. Nela, mesmo em preto e branco, eu podia ver que a jovem Olivia sempre havia sido uma mulher irradiante. Em um vestido branco simples, ela olhava com amor para um homem muito bonito ao seu lado, que, infelizmente, me lembrava , com seu sorriso sedutor. Perto deles, nonna Gema segurava o véu, conversando com alguém que vinha atrás.
Era uma cena tão bonita. E que despertou a pergunta que eu tanto queria fazer.
— Sabe por que nonna Gema nunca se casou? Tenho certeza que ela já se apaixonou alguma vez na vida.
— Ah, pois acredito que não. — Olivia sacudiu a cabeça em negativa. — Gema sempre revirava os olhos a cada vez que eu lhe apontava um menino bonito! Admito que eu me apaixonava fácil por qualquer um. Isso até conhecer seu avô, Bia. Um homem tão gentil, mas tão alto e grande! Mesmo assim, tudo coube direitinho.
— Vó! — Bia ralhou, enquanto eu engasguei com o café que eu estava terminando, mas Olivia permaneceu impassível.
— Mas Gema era uma reclamona, dizia que homens apenas atrapalhavam as mulheres e que não acrescentavam nada de bom.
— Não que ela estivesse errada, mas é um pensamento bem diferente para a época — comentou Bianca, surpresa.
— De fato, era. Seus pais inclusive tentaram arranjar um casamento para ela com um italiano que também morava no Brasil, como eles, mas ela se recusou. Dizia que não queria sair daqui.
— Então acha impossível que ela tenha se apaixonado? — perguntei.
— Impossível? Não acho que nada é impossível. — Ela deu uma risadinha. — Mas com certeza seria improvável.
— Certo. — Troquei um olhar com Bia, que acenou com a cabeça, me incentivando. Levantei-me de leve, então, para poder alcançar o bolso da calça, de onde tirei três das várias cartas de amor de nonna Gema. — Quando Bia foi lá em casa me ajudar com as roupas, encontramos algumas cartas de minha tia que me deixaram… intrigada.
Olivia parou de mexer na caixa de fotos, e ergueu o olhar, fitando as cartas. Ela passou a caixa para Bianca (instruindo-a a encontrar a tal foto das duas meninas de tranças), enquanto estendia as mãos para pegar as cartas.
Fitei o olhar em Bia procurando as fotos, tentando não pressionar Olivia em sua leitura, embora meu peito estivesse acelerado, ansiosa pelas respostas. O que a amiga mais próxima de nonna Gema dizia condizia com tudo que eu escutara a vida inteira, e aquelas cartas se tornaram ainda mais excêntricas, secretas até para a pessoa mais próxima dela, talvez mais próxima do que a própria irmã.
Esperei longos dez minutos até Olivia terminar de ler as cartas, erguendo o olhar para mim com as sobrancelhas bem arqueadas em surpresa.
— Eu… não tinha conhecimento de nada disso. E confesso que nem sei por que, afinal, eu sempre a apoiaria.
— E se fosse alguém inadequado, e ela sentisse vergonha?
— Não, ela ainda assim me contaria. Ou eu achava que sim. Estou… confusa. Ah, Gema, queria que você estivesse aqui para eu cobrar algumas explicações!
Abri um sorriso pequeno, embora eu sentisse que, por trás daquela leveza, Olivia estivesse se sentindo um pouco triste por nonna Gema ter cortado-a de uma parte de sua vida.
— Mas sabe quem pode ser essa pessoa? Esse P? Alguém que possa ter causado esse interesse?
Olivia olhou para o alto, com o dedo indicador batendo na boca, pensativa. Releu as cartas e fixou seu olhar nas datas.
— Tínhamos vinte e três anos. Já estávamos instaladas aqui, Simona já estava nascida… Ah! — Olivia abriu um sorriso, confiante. — O professor de música!
— Professor de música? — perguntei, confusa.
— Nessa época, Gema cismou que usaria seu dinheiro de professora para bancar um dos seus sonhos de menina: aprender violino. Começou a fazer aulas com um jovem professor da região junto de uma outra menina aqui da rua. O nome dele era Paolo Osso!
Abri um sorriso, me empolgando também.
— Um romance secreto com o professor de música? Que incrível!
— E faz sentido com o que foi citado na carta. Ah, ele se mudou daqui quando se casou, poucos anos mais tarde, mas tenho certeza que encontrarei o contato dele. Você pode contatá-lo, que tal?
— Nossa, eu adoraria muito, sério! Nem consigo agradecer!
— É só voltar aqui e me contar tudo depois. Ah, Gema me paga de não me contar isso!
— Achei! Achei a foto das meninas de trança! — exclamou Bianca, balançando uma foto em preto e branco nas mãos.
Nós rimos e nos envolvemos em mais histórias. Eu me senti em casa. Toda a sensação positiva que eu sentia perto de Bianca foi duplicada na presença de sua vó. Nós rimos, choramos um pouco e às vezes ficamos chocadas quando Olivia dizia alguma coisa absurda sem nem mudar sua expressão, o que depois gerava uma gargalhada.
Duas horas depois, eu anunciei que precisava voltar para casa.
— Estou trabalhando em dobro com o punho assim. — Sorri amarelo.
— Coitada. Mas saiba que é sempre bem-vinda para voltar, especialmente nos dias que tiver biscoitos.
— Ah, nesses eu com certeza virei. — Rimos.
— Mas também não hesite em pedir ajuda se precisar de alguma coisa, viu? Sei como esses processos burocráticos são chatos, e eu conheço bem as empresas daqui. Não hesite em me procurar.
— Não hesitarei — respondi, me sentindo levemente emocionada com todo aquele carinho.
Ali, eu me sentia da família.
As duas já estavam me conduzindo à porta quando Olivia soltou.
— Bia! Quase que me esqueço! Busque na cozinha os biscoitos amanteigados que fiz ontem, coloque um pouco em um pote para levar para casa.
— Não é necessário!
— Mas é necessário, sim. Você amou os biscoitos! — Bianca me entregou.
— Tá bom, eu amei os biscoitos. — Fiz uma careta e as duas riram, antes que Bia se retirasse.
Assim que ficamos sozinhas, Olivia se aproximou, abrindo um sorriso cúmplice.
— Minha neta me contou que meu teve envolvimento no estado em que seu punho se encontra agora.
Todas as caras educadas forçadas que eu fizera a tarde inteira quando o nome era mencionado foram por água abaixo quando ela citou meu punho, e fiz uma careta.
— É, ele teve.
Olivia gargalhou, me dando um tapinha no ombro.
— Ele pode ser um menino teimoso, mas tem um bom coração. Abandonou seu sonho de estudar em Roma apenas para me ajudar na loja. Ele finge que escolheu o que realmente queria, e eu finjo que acredito, mas nós dois sabemos a verdade. Ele é honesto e sensível, e tenho certeza que ficou apavorado com o que fez, mas não soube expressar, cedendo à raiva. Mas não odeie meu menino. — Ela sorriu para mim, e eu engoli em seco. — Sei que isso pode parecer difícil, mas tente não odiá-lo.
Sem graça, não tive outra opção a não ser responder:
— Tentarei bastante, se ele tentar também.
Ela soltou outra gargalhada, no mesmo momento em que Bia voltou com os biscoitos.
— Estão frescos, mas eu recomendaria levar ao forno por uns cinco minutos só para ficarem um pouco mais quentes e crocantes.
— Obrigada, Bia. E obrigada, Olivia. Por tudo. Não tenho palavras para agradecer o suficiente — falei, honestamente.
— Nós que agradecemos sua companhia. Não me divertia assim há muito tempo — respondeu Olivia, sorridente. — Não se esqueça de tudo que eu lhe falei, viu? E não deixe de visitar.
— Pode deixar. — Eu sorri, dando tchauzinho com a minha mão boa, enquanto eu saía da casa.
Assim que a porta se fechou, no entanto, ouvi ao longe o barulho de uma vespa. Olhei para o fim da rua e vi a vespa azul se aproximando rapidamente, logo parando exatamente na minha frente.
Antes de tirar o capacete, eu já soube que era .
— Vejo que a conversa acabou antes do meu turno.
Me lembrei de nossa última interação amigável no Santuário e do pedido de vovó Olivia. Por isso, abri um pequeno sorriso.
— Sim, mas foi excelente. Obrigada por me incentivar a conversar com sua avó, ela é uma pessoa incrível.
me encarou, como que surpreso com minhas palavras, antes de abrir um sorriso também. E eu segurei um arquejo, porque ele ficava lindo de forma irreal quando sorria com felicidade.
— Ela é. É a melhor pessoa que eu conheço.
— Talvez seja até a melhor pessoa que eu conheço agora.
— Ela tem esse efeito nas pessoas.
Nos encaramos por alguns segundos, e eu senti o ar começar a faltar em meus pulmões. Apenas a raiva me salvava de sofrer os efeitos avassaladores de sua beleza. Me forcei a pigarrear.
— Bom, eu tenho que ir. O trabalho está acumulando, tenho questões burocráticas da casa para resolver, e tudo está demorando o dobro do tempo recentemente. — Estendi a mão esquerda.
Quis fazer uma piada, e não acusá-lo, mas percebi que seus olhos pareceram um pouco culpados ao pousarem na minha mão. Confesso que não consegui ficar muito chateada com a culpa dele, pelo contrário.
— Certo, não vou atrapalhá-la mais. A gente se vê por aí.
— A gente se vê.
Eu tentei não olhar para trás. Tentei mesmo. Mas, quando parei na entrada de casa, duas portas depois, eu não pude deixar de olhar para trás.
E encontrá-lo exatamente no mesmo lugar, me encarando.