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Última Atualização: 22/01/25

Parei em frente à casa de pedra, apoiando as enormes malas roxas ao meu lado. Me revirei para encontrar na minha mochila a foto, mas, quando comparei, não tive dúvidas.
Aquela havia sido a casa de minha avó.
Senti algo esquisito no peito, mas não parei para pensar muito sobre. Peguei a chave e encaixei na fechadura. A porta rangeu quando eu me inclinei para abrir.
Por fora, a casa parecia muito estreita, mas seu saguão era espaçoso. Levava a uma sala com uma pequena televisão, uma estante que exibia um presépio e vários retratos de pessoas que eu conhecia e não conhecia.
Me aproximei, olhando uma foto em preto e branco. Eu conhecia aquela foto, vovó tinha uma igual em sua casa. Era meu biso Francesco, minha bisa Maria, minha avó Pina e sua irmã, nonna Gema, como a chamávamos.
Algumas outras fotos eram ainda mais familiares: o casamento dos meus avós, minha mãe e seus três irmãos quando crianças, o casamento dos meus pais, o nascimento dos meus primos. Tinha até mesmo uma foto da minha formatura. Cada pequeno momento vivido no Brasil pela nossa família que nonna Gema não pôde acompanhar.
Olhei a escada com desânimo. Deixaria as malas serem levadas pela de amanhã. A de hoje só queria subir as escadas, se jogar na cama e dormir até não aguentar mais. O relógio me dizia que eram 9h da manhã, mas meu corpo, fora do fuso horário, tinha certeza que eram 4h.
Quase me arrastei escada acima, encontrando um banheiro e dois quartos. Não pareceu certo dormir no quarto de nonna com todas as suas coisas ainda lá, então fui para o quartinho de visitas. Era um quarto pequeno, mas reformado, com paredes amarelas, uma cama de madeira de solteiro, um guarda roupa, uma bancada e algumas pinturas. Além da grande janela.
Eu não sabia se iria me acostumar à vista daquele mar tão azul, sem nenhuma montanha, tão diferente do Rio de Janeiro. Não, era um azul infinito que chamava diversas pessoas para a praia naquele verão. Eu havia trazido minhas roupas de banho para aproveitar também. Afinal, os verões italianos eram ditos como os melhores.
Sentei-me na cama e tirei a pesada mochila dos meus ombros, tirando meu computador de lá e apoiando na bancada, assim como algumas mudas de roupa. Alcancei meu celular e digitei uma mensagem no grupo da família.

: Já cheguei na casa da nonna.

Me joguei na cama, encarando o teto e o candelabro antigo que pendia ali. Abri um sorriso discreto. Estava um pouco apavorada, mas muito, muito empolgada. Nem poderia acreditar que estava ali.
Nem poderia acreditar que San Lucido era meu novo lar.

Acordei meio perdida, sem entender onde estava. Peguei o celular e me deparei com dois horários: 9h55min, de acordo com o fuso horário de Brasília, e 14h55min, de acordo com o fuso horário de Roma, somado ao horário de verão. Meu rosto estava claramente amassado e meu estômago começou a roncar alto. Resmunguei, sabendo que ia ser obrigada a sair daquela cama, e me arrastei para fora.
Depois de me arrumar no banheiro (que era enorme: tinha até uma banheira!), colocar um vestido leve e passar uma maquiagem para disfarçar a cara de “acabei de enfrentar 12 horas de voo”, peguei uma bolsa onde coloquei a chave da casa, meu celular, minha carteira e meu passaporte. Tirei minha identidade da bolsa, sabendo que ela iria ser inútil em outro país, e deixei-a bem guardada em uma gaveta qualquer.
Saí de casa e precisei tapar meu rosto para a luz inesperadamente forte do sol. As casas tinham no máximo três andares e não faziam sombra o suficiente, o que, apesar do calor, era um cenário surpreendentemente agradável depois de me acostumar a tantos prédios altos e cinzas.
As ruas eram estreitas e nem ao menos tinham calçadas. Várias subidas e descidas se desenhavam ao meu redor e, para minha surpresa, algumas vespas estavam estacionadas, como a típica foto de verão italiano. Não me contive e tirei uma foto.
Tinham várias mensagens no grupo da família, mas eu daria atenção àquilo depois, estava com fome demais. Desci algumas ruas e logo estava de frente para o mar novamente. Apesar de ser terça-feira, como as escolas estavam em recesso por ser julho, a praia estava tomada de gente.
Caminhei um pouco pela beirada, observando mais uma vez aquela imensidão azul. Seria difícil me acostumar com a vista. Parei em frente a uma trattoria simples, mas arrumadinha que, como em todo lugar, vendia massas e pizza.
Em geral, almoçar pizza não era a opção mais saudável, mas, caramba, eu estava na Itália! Por isso, acabei acrescentando um copo de vinho da casa. Mais uma foto acabou ilustrando minha galeria antes que eu comesse.
— Meu Deus… — murmurei, encantada.
Eu sabia que pizza era uma delícia em qualquer lugar, mas aquela pizza no estilo napolitana, bem típica do sul, com a massa grossa e cheia de molho… me fez sentir gosto de casa. Me fez pensar nos jantares de sábado à noite na casa da vovó Pina.
Não deixei um único pedaço de pizza para trás, assim como dei fim a cada gota do vinho branco da trattoria. Com a barriga cheia e o bolso até que não tão menos pesado (apesar do euro mais caro, a comida na Itália não estava tão cara assim), decidi dar uma última volta antes de retornar à casa e ter que lidar com o motivo de ter vindo a San Lucido.
E claro que, assim que avistei a gelateria, não resisti.
— Bom dia — falei educadamente em italiano para a moça no caixa.
Ela parecia uma mulher legal, de idade próxima à minha. Tinha um cabelo loiro pintado nas pontas de azul que combinava aquela cidade litorânea. Senti algo bom vindo dela que se confirmou quando ela abriu um sorriso gentil.
— Bom dia! Como posso te ajudar?
— Quantos sabores posso escolher no pote pequeno? — Ok, a comida era mais barata na Itália, mas ainda era em euro.
— Até três sabores. E com adicional de um euro, ainda pode colocar panna montata.
Meu estômago estava cheio da pizza, mas ainda sim roncou quando vi o chantilly que ela se referenciava.
— Certo… vou querer um pote pequeno com adicional de chantilly, por favor.
Prego.
Eu adorava aquela palavra em italiano. Poderia significar “próximo”, “sim”, “de nada”, “por favor”, “tudo bem”, “o que precisa?”, e mais o que fosse que os italianos inventassem.
A menina de cabelo azul pegou o pote e me guiou para o mostrador de gelatos. Vovó e nonna me ensinaram a nunca ir em uma gelateria onde os gelatos à mostra fossem muito espalhafatosos, com sabores de cores muito artificiais. Os melhores não ficavam em pilhas tão altas, tinham aparência mais natural e cremosa, e os sabores já estariam mais ou menos pela metade, como estava ali.
— Hm… vou querer pistacchio, nocciola e… — Travei, já tendo falado os meus dois favoritos. Eram tantos sabores ali que não percebi que estava me demorando, encarando um por um ali.
— Se quer minha opinião — a menina de cabelos azuis começou —, esse aqui é o meu favorito.
Encarei o sabor. Fior di latte all'arancia. Hm, não poderia ser ruim.
— Então vou ter que confiar em você, senhorita… Bem, qual o seu nome?
A garota de cabelo azul sorriu, olhando por cima do ombro para mim enquanto pegava um pote pequeno.
— Bianca. Ou Bia se preferir.
— Sou — respondi, sorrindo. — .
— Nunca te vi por aqui. Está conhecendo a cidade? Férias? Geralmente o pessoal vai para Nápoles.
— Ah, é, vim resolver umas… questões familiares. Obrigada. — Peguei o sorvete que ela me estendia.
— Ah, então sua família é daqui? Que bacana!
— Sim, sim, a família da minha vó. — Me distraí enquanto me aproximava do caixa, do qual ela mesma estava cuidando também. — É você?
Apontei para um retrato próximo do computador de uma adolescente loira junto com uma mulher, supostamente sua mãe, na frente de uma linda ruína. Meu coração deu um salto.
— O quê? — ela perguntou, confusa, antes de ver a foto. — Ah, sim! É uma bobeira aqui — ela comentou, rindo —, mas é uma ruína famosa da cidade. O Castello Ruffo.
— Nossa, é maravilhoso…
— É aqui perto, sabia? Se caminhar mais para a praia na direção das pedras altas, vai ver o castelo.
— Obrigada pela dica, Bia! — Terminei de pagar o gelato e aproveitei para provar o sabor sugerido. — Hmm… na verdade, obrigada pelas dicas. Que delícia!
— Eu te disse! Tchau, , espero te ver aqui mais vezes.
— Eu também — respondi, sorrindo, antes de sair do estabelecimento.
Talvez eu estivesse um pouco mais contente do que a situação exigia. Ainda havia muita burocracia para lidar com, e não estava livre do trabalho on-line. Eu não estava ali para passear, mas eu não conseguia evitar. A vida adulta não permitia facilmente que eu juntasse dinheiro para conhecer outro país, eu só estava ali porque minha família havia pagado, e pela sorte de ser a única que conseguia trabalhar à distância. Eu não deveria me sentir culpada de transformar uma viagem burocrática em um passeio, certo? E isso com certeza não tinha nada a ver com o fato de que eu estava ignorando a todos no grupo da família.
Minhas dúvidas foram embora na hora que eu avistei a ruína ao longe. Meu queixo caiu e meu coração acelerou. Era… era… perfeita.
Meus pés se mexeram para mais perto sem eu nem perceber. O local estava movimentado de turistas e, assim como várias partes da cidade, não tinha calçada. Fiquei mais próxima da construção de pedras, bem perto do mar e no meio da mata. Não consegui impedir minha mente de viajar para longe.

Penelope respirou fundo ao perceber que os passos dos guardas se afastavam. Tinha os despistado. Percebeu que o corredor estava liberado e correu para a varanda externa.
Seu pai podia ter prometido sua mão ao príncipe do reino vizinho, mas ele não podia decidir o que seu coração queria. Observando o sol se por no meio daquele azul infinito do oceano, Penelope suspirou, se apoiando na murada de pedra.
Ele ia voltar. Claro que ia. E quando voltasse, ia levá-la com ele. Ela tinha separado algumas joias da família e separado alguns disfarces. Eles navegariam para longe, para um lugar em que seriam felizes, assim que ele vencesse aquela guerra.
Penelope suspirou, pensar na guerra fazia com que seu estômago se revirasse. Mas ele precisava que ela se mantivesse firme. Pelo amor dos dois. Para que ninguém suspeitasse do plano. Para que…”

— Sai da frente!
O grito me assustou, mas minhas pernas agiram contrárias ao meu reflexo, se fixando no chão. Só pude ver o sol refletido no metal azul da vespa.
O coração batia forte nos meus ouvidos e o tempo pareceu se mover mais devagar. Juntei o que sobrou de forças em mim para forçar meu corpo a se mover. No último segundo, consegui andar para trás, mas as pernas se embolaram e eu caí vergonhosamente para trás, apoiando a mão esquerda em uma posição não muito natural no asfalto.
— Ai! Puta que pariu!
Pontos pretos começaram a aparecer e dançar na minha visão, enquanto minhas forças se esvaíam. Não, desmaiar em outro país sem conhecer ninguém não parecia seguro. Eu precisava ficar acordada, mas os sinais tão conhecidos só continuavam a crescer.
Só pude ver um vulto descendo da vespa e se aproximando de mim, se destacando no meio da multidão que começava a tentar me ajudar. Com um último fio de consciência e visão quase zerada, eu consegui sussurrar o que a raiva em meu coração pedia:
— Filho da puta…

O médico passava a lanterninha de um olho para o outro. Era difícil não piscar pelo menos um pouco, mas ele tinha uma expressão tranquila enquanto respondia:
— Nenhuma concussão. O desmaio veio do susto mesmo. Já o punho… Sem fraturas, duas semanas imobilizado devem resolver.
Bufei, irritada.
— Não posso ficar duas semanas imobilizada. Meu trabalho depende exclusivamente que eu mexa no computador.
— Por isso irei te arrumar um atestado.
Ah, sim. Uma empresa brasileira iria ficar felicíssima com um atestado médico escrito em italiano.
Não tinha muitas opções. Não era culpa do médico que a cidade fosse mal planejada e algumas pessoas fossem mal educadas demais. Me vi forçada a sorrir enquanto ele colocava o gesso em mim.
— Obrigada.
— Por nada. Aqui o atestado e a receita. Compre esse remédio caso continue sentindo muita dor.
— Pode deixar — menti. Eu não tinha trazido uma cartela inteira de dipirona à toa.
— Pode fazer o pagamento na recepção. Seu acompanhante está esperando por lá.
Bufei de novo. Grande acompanhante, um homem que me atropelava na rua. Juntei minha bolsa e saí de cima da maca coberta pelo pano descartável branco, desejando uma boa tarde.
Olhei pela janela e ainda estava claro, mesmo que um relógio no corredor anunciasse que já 18h na Itália. Todo meu desejo de passear tinha se evaporado, eu ia comprar uma lasanha de microondas e tomar coragem de responder as mensagens de todo mundo.
Quando cheguei na recepção, o local estava vazio, exceto por dois idosos e um homem moreno esparramado em uma das cadeiras, com um capacete de moto apoiado na coxa direita, olhando para o celular. Mesmo que eu mal tivesse registrado meu agressor enquanto era levada inconsciente para o hospital, não havia como confundi-lo.
Em qualquer outra ocasião, teria achado seu corpo musculoso atraente, que seu cabelo moreno curto e cacheado combinava com rosto bem esculpido coberto por uma barba curta, e que suas roupas no estilo despojado o deixavam charmoso e, bom, sexy.
Mas tudo que ele despertava em mim era ódio.
Sentindo as ondas de raiva que eu emanava, o homem levantou o rosto, e abriu um sorriso irônico ao me ver.
— Que milagre, está viva!
Nem minha irmã adolescente de TPM poderia testar tanto a minha paciência.
— É, mas não graças a você.
— Eu diria que bem graças a mim — ele falou, se levantando e se espreguiçando. — Afinal, eu que te trouxe para o pronto socorro.
— Que eu não precisaria ser trazida se você não tivesse me atropelado — o acusei.
— E você não teria sido atropelada se não estivesse no meio da rua. — O sorriso irônico dele ficou mais amargo.
— Não tem onde mais ficar, aqui não tem calçada!
— Shh! — A moça da recepção pediu silêncio, embora seu rosto demonstrasse diversão e curiosidade.
— Agora, graças a você, ainda tenho que pagar uma consulta que não estava nos meus planos. E não sei nem mesmo como vou trabalhar com o punho assim — reclamei, tentando abrir a bolsa com uma mão só.
Resmunguei, mas não recusei a ajuda quando ele colocou a mão na minha bolsa e abriu o zíper. Porém, seu rosto continuava confuso.
— Pagar? Você não tem SSN?
— SSN? — eu questionei, enquanto falava com a moça da recepção: — Crédito, por favor.
Olhei a maquininha. 22 euros. Eram tantos gelatos perdidos…
Servizio Sanitario Nazionale. O atendimento público de saúde para moradores italianos.
— Aí está a questão! — Eu me virei para ele, prestes a explodir. — Eu não sou uma moradora! É meu primeiro dia nessa merda de lugar e eu fui atropelada! Sabe o quanto eu já estou louca para ir embora?
— Não mais do que eu — ele resmungou.
Eu tive que segurar tudo de mim para não bater nele ali mesmo. O homem já estaria no hospital, pelo menos.
— Então por que não vai embora? Vai! Nem sei porque você está aqui.
— Estou prestando socorro a você, mesmo que não mereça — ele respondeu de maneira irônica.
— Já prestou. Você já fez mais do que suficiente. Pode ir!
Ele ergueu uma sobrancelha, então deu de ombros.
— Se é assim… presta atenção na rua de agora em diante, senhorita .
Praguejei enquanto ele ia embora. Aquele homem tinha lido meus documentos para dar entrada na consulta. Inferno. E eu nem sabia o nome dele para pedir pra minha prima colocar o nome dele com vinagre no congelador. As simpatias dela sempre funcionavam, e eu não queria de jeito nenhum que aquele homem se aproximasse de mim mais alguma vez que fosse.
Sentei-me numa cadeira e apoiei a bolsa entre minhas pernas, foi a única forma que achei para guardar minhas coisas, tirar meu celular da bolsa e fechar o zíper depois. Imediatamente, joguei o endereço da casa da nonna no google maps. Praguejei baixinho ao ver que teria que andar por meia hora, mas não tinha opções. Pelo menos, mostrava que eu passaria por um mercado em cinco minutos.
Não demorou para eu avistar um Carrefour, um nome que eu já conhecia. Entrei no mercado e foquei em dirigir o carrinho com apenas uma mão, descobrindo que era uma tarefa mais árdua do que aparentava. Fui para os fundos, onde estavam os congelados, e peguei a lasanha de queijo mais barata que encontrei. Coloquei um miojo no carrinho também, por via das dúvidas. Aproveitei e coloquei alguns lanches para o café da manhã no dia seguinte.
Estava avaliando se levava umas laranjas para fazer suco quando esbarrei em alguém.
— Me desculpa — falei, constrangida, antes de levantar o rosto e encontrar um cabelo azul.
Bianca sorriu para mim, tirando o fone da orelha direita.
— Desculpa eu, estava distraída! Sempre que coloco o fone, parece que minha visão também fica pior. — Então seus olhos se arregalaram quando viram minha mão esquerda engessada. — Meu Deus! Você já estava com isso mais cedo e eu não vi?
— Não, consegui arrumar nem uma hora depois — falei, abrindo um sorriso meio irritado ao lembrar daquele homem.
— O que aconteceu?!
— Eu fui visitar a ruína que você me recomendou, mas um doido andando de vespa veio correndo entre as pessoas e quase me atropelou. — Senti a raiva ferver minha cabeça já quente. — No que fui desviar, tropecei e machuquei minha mão. O mal educado ainda disse que foi minha culpa, acredita?
— Caramba, bem que meu irmão sempre reclama que o pessoal da cidade anda muito mal humorado no trânsito. — Bia sacudiu a cabeça, chocada. — Mas quebrou?
— Só torceu, pelo menos. Mas vou ter que imobilizar por duas semanas, o que vai me atrapalhar bastante — disse, desanimada. Andamos até o caixa e cumprimentei o atendente. — Agora, ainda vou andar até em casa porque não tenho coragem de chamar um Uber depois de gastar 22 euros na consulta.
— Você não tem o SSN? — O olhar dela ficou mais arregalado.
— O mal educado disse a mesma coisa. — Comecei a empacotar minhas compras enquanto Bianca passava as dela. — Pois lá no Brasil, não importa se você não é cidadão, todo mundo pode ser atendido. Bem que o SUS poderia ser universal…
— Você é brasileira?! Caramba, seu italiano é tão bom que eu nunca saberia.
— Obrigada. — Eu sorri, genuinamente. — Minha vó é italiana, então eu aprendi desde pequena. Amava escutar os telefonemas que ela tinha com minha tia avó, ela falava tão bonito…
— Isso é muito legal! Tem muitos brasileiros que descendem de moradores de San Lucido e Paola, a cidade vizinha, frequentemente tem um turista brasileiro conhecendo as raízes familiares passando pela loja.
— Que interessante! — falei, sorrindo, mas fechando a cara quando não consegui segurar todas as sacolas com a mão direita.
— Vem, eu te dou uma carona.
— Não, que isso! Você não precisa. Não precisa voltar para a loja?
— Tenho até às sete para voltar, tá tudo certo — Bianca disse, dispensando com a mão qualquer dispensa. — Por favor, eu insisto.
Um pouco sem graça, mas muito agradecida, eu aceitei a carona. Bia tinha uma caminhonete, e na parte traseira ela colocou todas as sacolas de compras, inclusive as minhas.
— Viu? Espaço de sobra — ela falou, sorrindo, e eu acabei sorrindo de volta. — Onde você está ficando?
— Perto da sorveteria. Pera, deixa eu ver o endereço exato. — Peguei o celular e mostrei o local que ainda estava aberto no meu google maps.
Os olhos dela se arregalaram.
— Você está do ladinho da minha vó, bem na casa da Gema!
— Gema é minha tia avó — eu falei, sorrindo. Então, fechei a expressão. — Bom, era. Ela faleceu semana passada.
Bia arregalou os olhos e pareceu um pouco abalada pela notícia.
— Santo Cristo! Eu sabia que ela estava doente e por isso ia ficar com a família, mas eu não sabia… Sinto tanto, Bella, ela era uma pessoa muito querida aqui na cidade!
— É bom saber disso — eu falei, voltando a sorrir. — Minha vó é quem está sofrendo mais. Mesmo morando longe, nunca passou um dia sem falar com a irmã.
— Deve ser difícil mesmo. Ah, minha avó vai ficar destruída. — Bianca sacudiu a cabeça, dando partida no carro. — As duas se conheciam desde a infância.
— Talvez sua avó tenha conhecido a minha avó também.
— Talvez. Você deveria passar um dia lá em casa, ela ficará feliz em te ver. É a casa amarela bem ao lado.
— Seria legal, se não for incomodá-la.
— Tenho certeza que não, mas vou perguntar.
De carro, o trajeto de meia hora durou nem dez minutos. Bianca foi contando mais sobre seus pais, que moravam em Roma, e como ela e seu irmão haviam ficado com a avó, gerenciando a gelateria até, no caso dela, decidir que faculdade fazer, e, no caso do seu irmão, conseguir uma oportunidade de emprego mais sólida na sua área.
Bianca puxou o freio de mão quando estávamos em frente à casa de pedra.
— Chegamos — ela anunciou, enquanto descia para pegar as compras.
— Pode deixar que eu pego — falando, constrangida de tanta ajuda que estava recebendo.
— Deixe eu colocar as compras na porta, não custa nada!
E assim, acabei não tendo outra escolha. Acenei para Bia, sem parar de falar gracias enquanto ela acelerava em direção à gelateria. Tive que apoiar a bolsa no chão para conseguir abrir o zíper novamente e tirar a chave dali.
Depois de entrar com uma sacola de cada vez na cozinha, tranquei a porta e me joguei no sofá. O dia definitivamente tinha sido intenso demais. Talvez fosse o destino me alertando que era para eu ficar menos alegre, e mais focada em resolver as questões burocráticas. No dia seguinte, eu começaria a arrumar o quarto da nonna, por mais dolorido que pudesse ser. Ainda assim, era melhor do que a possibilidade de ser atropelada novamente.

ITinha acabado de dobrar a última calça de nonna quando a campainha tocou. Desci as escadas rapidamente e abri uma fresta da porta para espiar quem era, logo abrindo um sorriso.
— Bia!
— Oi, . — A loira abriu um sorriso gentil e estendeu uma travessa coberta por papel alumínio. — Vovó pediu para eu te entregar como um presente de boas vindas.
Meu coração se esquentou pelo gesto de uma pessoa que eu sequer conhecia.
— Muito obrigada. Eu juro que pegaria, mas… — Levantei minha mão esquerda imobilizada. — Posso te pedir para levar para a cozinha, por favor?
— É claro.
Bianca entrou e foi logo para a cozinha, desviando de algumas caixas de papelão no chão.
— Desculpa a bagunça, eu decidi enfim organizar as roupas da nonna Gema.
— Decidiu o que vai fazer? — a garota perguntou, o tom leve e delicado.
— Ela pediu especificamente para doar ao Santuário de São Francisco de Paula. Ela e minha vó frequentavam muito a igreja de lá quando eram pequenas.
— Faz sentido, vovó também frequentava. — Bia sacudiu a cabeça. — Já conseguiu ajeitar tudo?
— Faltam poucas coisas. Terminei as calças, blusas, vestidos e sapatos. Faltam os casacos, mas estou mais lenta que o normal.
— Estou no meu horário livre. Quer ajuda?
— Ah, não quero te incomodar de maneira alguma.
— Não é incômodo! É interesse. — Ela tirou o alumínio, revelando uma travessa de biscoitos. — Eu te ajudo e você divide esses maravilhosos biscoitos comigo.
Eu soltei uma gargalhada e acabei aceitando. Nós pegamos um biscoito cada um antes de subirmos para o quarto. E, meu Deus, eles eram maravilhosos!
Já lá em cima, apontei para o único armário que não havia mexido e para a pilha de calças em cima da cama.
— É colocar isso aqui na caixa basicamente.
— A gente termina ainda hoje! Depois, vou pedir para meu irmão buscar as coisas aqui para vocês levarem ao Santuário. Você está livre hoje?
— Estou, mas não vai incomodar seu irmão? Vocês já estão me ajudando demais — perguntei, um pouco constrangida.
— Que nada. — Ela afastou algo invisível no ar. — Se minha vó souber que ele teve a oportunidade de te ajudar e não te ajudou, é capaz de tirá-lo de casa. Sem contar que é um cavalheiro.
— Acho que você já pensou em todos os argumentos — respondi. — Eu não tenho escolha a não ser aceitar, né?
— Basicamente — Bia disse, muito séria, o que nos arrancou uma gargalhada.
Nós abrimos o último armário e começamos a trabalhar nos grandes casacos de frio, tão contrastante com o atual clima de verão. Estavam com cheiro de guardado e ocupavam uma grande parte do espaço, mal dando para enxergar o que mais havia ali.
Por isso que eu nunca ia suspeitar que haveria um enorme bolo de papéis no meio delas.
— O que é isso? — Bianca perguntou.
— Não faço ideia — respondi honestamente.
Levei o envelope até a cama e o abri com cuidado. Estava cheio de pequenas fotos antigas e papéis que pareciam que poderiam esfarelar ao toque, de tão amarelados. Comecei a abrir os papéis um por um.
— São… cartas.
— De Gema?
Não respondi, absorta na leitura. Acabava uma e passava para a outra. Tinha muita história ali. Cartas para meus bisavós. Cartas trocadas entre amigas. Cartas entre…
— G e P?
Bianca olhou para mim, franzindo o cenho, uma foto de minha vó pequena em mãos.
— O que disse?
— Achei uma carta de amor entre duas pessoas: P e G. G imagino que seja de Gema, mas quem é esse outro? Minha nonna nunca se casou, e nunca pareceu mostrar interesse por isso.
— Talvez tenha se casado secretamente?
— Impossível, minha vó saberia em algum momento. E não teria motivo, meus bisavós pareciam pessoas muito abertas.
Conforme as dúvidas iam surgindo, mais cartas eu revirava. E haviam dezenas delas. Não tinha como dizer que eram apenas cartas de amizade: relatavam beijos, promessas de casamento e muito mais. Me sentia constrangida por invadir a vida pessoal da Gema adolescente, mas eu não conseguia parar.
Eu era uma tradutora, então claro que minha adolescência foi passada cercada de livros, especialmente os romances infanto juvenis com fantasia, amores proibidos e muito mais. Por muito tempo, fui uma romântica incurável, que acreditava que o par perfeito estaria ali, a uma curva do destino de distância.
Agora, aos vinte e cinco anos, depois de muitos homens medíocres e uma traição, o amor não parecia tão incrível assim. Mas ele existia, eu percebia. Alguns casais faziam com que eu acreditasse no amor dos filmes, mesmo que não fossem pra mim.
E aquelas cartas… elas pareciam refletir todo aquele amor que eu via nos livros. Todo aquele amor que eu busquei. Será que os homens eram canalhas desde 1960? Faziam grandes declarações, mas estavam trocando cartas com três ao mesmo tempo?
Depois de meia hora, Bianca me deu um leve cutucar.
— Se está tão curiosa, deveria passar um dia e visitar vovó aqui do lado. Talvez ela saiba quem é o autor das cartas.
Senti meu rosto esquentar de leve.
— Ah, eu não quero incomodá-la por algo tão bobo. Isso não vai mudar em nada a situação atual, certo?
— É, mas ela ficaria feliz de falar do passado. Ela ama contar histórias.
Eu sorri, com o peito aquecido. Minha avó também era assim. E, de certa forma, eu também era.
— Obrigada, Bia, eu ficaria muito feliz de visitar e conversar com ela.
Me forcei a deixar as cartas e fotos separadas, jurando que iria continuar mais tarde, mas precisando encerrar a separação das roupas. Terminamos de dobrar os casacos e algumas meias e acessórios que encontramos juntos, então descemos com todas as caixas.
— Conseguimos! — Bia comemorou, sorrindo para mim e jogando seu cabelo loiro e azul para trás. — O que acha de biscoitos da comemoração?
— Estou dentro! — respondi, rindo.
Mas mal começamos a comer os biscoitos e conversar sobre as cartas quando o celular de Bianca tocou.
— Alô? Ah, oi, ! Eu tô aqui na casa da sobrinha neta da Gema. Você pode vir agora? Já acabamos. — Ela escutava a resposta enquanto mordiscava um biscoito. — Beleza, já vamos abrir. Tchau.
Bianca desligou o telefone e me encarou, mordendo um pedaço do biscoito e falando de boca cheia, o que tornou um pouco mais difícil de entender o italiano:
— Ele disse que chega em cinco minutos. Já tinha falado mais cedo com ele, e ele tinha topado ajudar. Ele não gosta muito de dirigir o carro, e apesar de não ser tão bom quanto eu, dá pro gasto.
Isso me tirou uma risada inesperada.
— E você vai agora pra gelateria?
— Aham. Eu pego sempre o horário de almoço e da noite.
— Então quando marcarmos de sair, vamos ter que marcar de manhã ou de tarde?
— Isso — ela respondeu, abrindo um grande sorriso. — Podemos tomar café da manhã em uma barraca de lanches que tem na praia de um amigo meu. Os sanduíches são maravilhosos.
— Estou dentro! — Me lembrei da cor daquele mar e senti um formigamento para entrar na água, franzindo a testa ao me lembrar da mão enfaixada. — Também queria marcar de irmos na praia em si, mas vai ser mais complicado.
— Que nada! É só manter a mão sempre erguida em cima da cabeça, como se estivesse acenando loucamente para os salva vidas.
— Ou usar uma sacola amarrada na mão, o que acha dessa moda?
— Certamente vai ser um destaque.
Na mesma hora, a campainha tocou. Os olhos de Bianca se acenderam.
— Vou pegar as caixas. Pode atender a porta, por favor?
— Claro — respondi, me levantando da cabeça, entendendo que aquela função era melhor para alguém com apenas uma mão livre.
A campainha tocou de novo e franzi a testa, um pouco irritada. Será que o irmão de Bia era um adolescente recém adulto? Era impaciente demais!
Enfim abri a porta, o que fez com que eu sentisse meu coração parar.
E logo em seguida acelerar, tomado de ódio.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, sem conseguir conter o veneno em sua voz.
— Eu que te faço essa pergunta — ele retornou, abrindo aquele sorriso falso e irritante.
! Pode me ajudar com essa caixa, por favor?
Quando Bianca falou com ele, meu estômago despencou. Aquele homem lindo e incompetente era o irmão da minha amiga?
Não consegui conter o choque na minha voz.
— Você é o irmão da Bia?
— Você é a sobrinha neta da Gema? — ele questionou de volta, tão chocado e irritado quanto eu.
Bianca chegou ao batente da porta, ainda segurando a caixa, e olhou de um para o outro com a testa franzida.
— Vocês se conhecem?
— Esse… — imbecil, completei mentalmente — homem é quem me atropelou.
— Você estava no meio da rua — ele replicou.
— Vocês não têm calçadas! — Eu respirei fundo, tentando me acalmar. — Quer saber? Não vou discutir isso de novo.
— Tenho certeza que foi tudo um mal entendido — Bianca interviu, colocando a caixa no peito do irmão. — Agora me ajude a colocar isso no porta malas.
Ele franziu o cenho, olhando da irmã para mim.
— Mas…
— Você ainda vai levar as coisas da Gema para o santuário.
— Ele não precisa — eu logo tratei de dizer.
— Viu? Não precisa.
— Larga de ser estúpido, ! Você sabe muito bem que ela não tem condições de levar essas caixas sozinhas.
— Ei! — reclamei.
— Nem vem, . Você mal conseguia descer da escada com uma caixa, quem dirá ir para o Santuário.
Sim, não consigo por culpa dele, me segurei para não falar, chegando até a morder o interior da boca para me conter. me encarou, como se soubesse o que eu estava pensando.
… aquele era um nome que combinava com ele.
— Tudo bem, vamos resolver isso rápido — eu falei por fim.
— Certo.
— E depois nunca mais nos vermos.
— Seria conveniente — ele acrescentou, o que, mesmo que ele estivesse concordando comigo, me irritou.
— Ótimo, parem de brigas. Não vale a pena.
Ah, pelos danos que ele causou no meu punho, valia a pena sim, mas eu fiquei calada em respeito à Bia, que inspirava uma aura assustadora que parecia surtir o mesmo efeito em .
Ele terminou de colocar todas as caixas no porta malas com ela, que enfim sorriu.
— Agora, vou deixar vocês dois. Não se matem, viu? E me avisem quando voltarem.
— Pode deixar — eu respondi, com um sorriso amarelo.
— Tchau! — Ela acenou enquanto eu entrava no banco de carona.
Do outro lado, entrou no lugar do motorista e colocou o cinto, ligando o rádio que tocava alguma música pop italiana.
— Certo. O Santuário é muito longe? — eu perguntei para quebrar o gelo.
— Não precisa se preocupar com isso, sou eu quem vai dirigir.
Trinquei os dentes, irritada.
— Só estava sendo educada.
— Eu sei. Mas não quero sua educação forçada.
Segurei a vontade de dar um tapa nele, me sentindo novamente como uma criança. Olhei-o com raiva, antes de voltar a encarar fixamente a rua à minha frente.
Seria um longo trajeto.

De carro, mal demoramos 15 minutos, e ainda assim foram os 15 minutos mais longos e irritantes da minha vida. Não contive um suspiro audível de alívio quando chegamos enfim na enorme construção.
Saímos do carro e não pude deixar de me encantar. Apesar de serem quase 18h, o sol brilhava como se mal passasse das 15h, iluminando o prédio bege com vários portais e pilastras de pedra, entregando que era antigo. Corri para a beirada da calçada, onde um muro se estendia, e senti meu estômago se revirar de leve ao olhar para baixo.
Estávamos no alto, bem mais alto que a casa de nonna Gema em San Lucido. Na esquerda, ainda enxergava o mar mediterrâneo em um azul que parecia falso, e na direita uma grande floresta se estendia, com um pequeno riacho cercando a propriedade. Era tão lindo que fazia meu coração acelerar.
E se perto do castelo de Penelope houver uma grande floresta…
O som de uma caixa sendo largada no chão me despertou, e eu me virei, me deparando com tirando as caixas com nenhum cuidado do porta-malas.
— Cuidado! Assim elas podem se desmontar.
— Agora decidiu opinar? — ele falou ironicamente. — Certeza que não prefere continuar olhando a paisagem enquanto eu carrego o seu peso?
— Peso que eu não consigo carregar por sua causa. Podemos só deixar as coisas lá?
— Já que não consegue carregar nada, tenta ao menos encontrar alguém que possa me ajudar.
Segurei uma resposta afiada na língua, pensando que, com ajuda, aquela situação acabaria mais cedo. Entrei mais adentro do santuário, meu olhar ainda fugindo para o bosque abaixo de mim, e, no meio dos turistas, consegui enfim encontrar alguém que trabalhava no santuário.
— Com licença? Estou com algumas doações para o santuário, e gostaria de saber onde deixar.
— Ah, doações? — O homem tirou um rádio comunicador do bolso da blusa e apertou um botão. — Lucio? Preciso de ajuda aqui na entrada para pegar algumas doações. — O homem voltou a olhar para mim. — São muitas doações?
— Umas dez caixas — respondi.
— E traga o carrinho — ele voltou a falar no rádio.
Pouco depois, um homem que aparentava ter cerca de quarenta anos apareceu segurando um carrinho de mão próprio para empilhar caixas.
— Lucio, essa é a dona das doações.
— Prazer — eu disse, sorrindo. — As doações estão lá na entrada.
— Então vamos buscá-las — ele respondeu, simpático, fazendo meu sorriso se ampliar.
Andamos para a entrada do santuário, passando pelo maior presépio que eu já havia visto na minha vida, mesmo estando no mês do ano mais oposto possível do Natal. Lucio, parecendo reparar meu olhar, abriu um sorriso.
— Sabia que o primeiro presépio foi criado por Francesco de Assis? E Francesco de Paola era seu devoto, salvo por ele por um milagre, e por isso também se conecta bastante com os presentes. No Natal, temos até mesmo concurso de presépios na cidade.
— Sério? — eu falei, os olhos arregalados.
— Ah, estou bem sério. É sua primeira vez na cidade?
— Sim, vim apenas ajudar a resolver algumas coisas da minha falecida tia avó.
— Sinto muito por sua perda. Espero que pelo menos esteja aproveitando a visita.
— Dentro do possível. — Ergui meu braço machucado. — Mas estou apaixonada pela região.
— Espero que fique até o Natal para ver nosso concurso de presépios.
— É, claro — eu respondi com um sorriso contido. Aquilo era praticamente impossível, eu devia partir em no máximo um mês.
Então, a visão de com uma pilha de caixas aos seus pés se dispôs à nossa frente, e mais uma vez não pude ignorar o fato de que ele ficava extremamente bonito, com o rosto tranquilo e bem feito observando o mesmo mar que eu ficara encarando antes.
Então, ele se virou para nós e seu sorriso irônico voltou, deixando-o horroroso novamente.
— Finalmente.
, esse é o sr. Lucio. Ele veio nos ajudar com as caixas.
— Pode me ajudar a colocar no carrinho, garoto?
— Claro, senhor.
Eles logo empilharam todas as caixas com facilidade, e me senti um pouco mal por não poder ser de muita ajuda física. Porém, Lucio se virou para mim sorrindo, como se de forma alguma me achasse uma inútil como eu pensava.
— Obrigado pelas doações. Espero que aproveite o santuário.
— Na verdade, estamos indo — anunciou, fazendo meu sorriso murchar.
— Ora, é a primeira vez que sua namorada vem aqui, não vá embora sem mostrar o local.
Minhas bochechas ficaram imediatamente quentes, e, do campo de visão, percebi que o rosto de também estava vermelho.
— Ela não é…
— Nós não somos…
Falamos um por cima do outro, e acabamos calados, sobrando apenas o sorriso de Lucio.
— Espero que fique até o Natal, senhorita.
— Obrigada — falei, ainda um pouco sem jeito.
Ficamos calados enquanto observamos Lucio se distanciar com todas as caixas. Senti meu coração se apertar de leve.
— Como pode a vida inteira de uma pessoa caber em menos de dez caixas? — sussurrei.
continuou em silêncio. Então, soltou um suspiro.
— Acho que você vai gostar de conhecer o santuário.
Me virei para ele com tanta rapidez que senti minha cabeça ficar um pouco tonta.
— Hãn? Você não precisa ir?
— Posso esperar um pouco mais. — Ele deu de ombro. — Mas não enrole muito.
Abri meu primeiro sorriso genuíno direcionado a ele, e pareceu ficar um pouco desconcertado, então fui explorar o Santuário.
E era lindo. A igreja, a primeira caverna onde ele rezou, mas principalmente as construções e a natureza. Quando eu saí da caverna dentro do santuário e dei de cara com o riacho e as árvores, senti o ar escapar. Eu poderia ficar horas ali, com o computador aberto, um álbum da Taylor Swift de fundo (provavelmente o Folklore) e essa paisagem. Sentia que poderia escrever por horas e horas a fio.
Mas provavelmente eu ia apenas criar uma pasta do pinterest e enrolar ainda mais na escrita.
Tentei agilizar porque, por mais gentil que fosse, não ia ser certo com ele demorar demais. Por isso, com dor no coração e vontade de conhecer muito mais, acabei saindo do santuário em meia hora, encontrando-o dentro do carro mexendo no celular.
Dei três batidinhas de leve no vidro dele, que ele abriu.
— Oi. Como foi lá?
— Muito bonito. Obrigada mesmo por esperar, e me desculpe pela demora.
— Não demorou — ele respondeu, e ouvi o barulho da porta destrancando. — Mas agora vamos.
A viagem de volta foi tão rápida quanto a de ida, se não mais, e logo já estava me deixando na porta da casa da minha tia avó. Tirei o cinto e estava prestes a sair quando o ouvi dizer:
— Então você é mesmo sobrinha neta da Gema? E ela… faleceu?
— Sim — respondi simplesmente.
— Sinto muito por sua perda.
— Obrigada. — Ficamos em silêncio e não consegui deixar a curiosidade de lado. — Você a conheceu?
— Sim. Ela vivia na casa da minha avó.
— Sua irmã falou que elas eram muito amigas.
— Vovó Olivia e ela eram amigas desde muito novas. Elas viviam grudadas.
— Então sinto muito pela perda da sua vó também. — Mexi no cabelo, com vergonha de encará-lo. — Bianca disse que eu deveria um dia passar na casa de sua avó e perguntar para ela de nonna Gema, mas fico com medo de incomodá-la. Bia parece muito gentil em oferecer e tenho medo de ela não perceber que seria um incômodo.
— Não, não seria. Vovó ficaria muito feliz em te conhecer.
— Mas seria um incômodo para você? — eu perguntei, encarando-o.
E lá estava de novo, aquela beleza capaz de tirar qualquer um do eixo.
— Não sei — ele falou, tão baixinho, como se estivesse com medo de quebrar o momento. — Você se incomodaria.
Engoli em seco. Eu me incomodaria com a presença daquele sorriso sarcástico? Daquele cabelo sedoso e daqueles olhos? Daquele homem que esperou eu conhecer o santuário mesmo depois de me criticar?
— Não — falei, simplesmente.
Ele abriu um sorriso pequeno.
— Então venha na quarta que vem. É o dia que vovó planejou fazer alguns docinhos e suco com as cerejas que cresceram no seu jardim.
— Eu ia adorar. — Sorri, sentindo algo esquisito no estômago.
Saí do carro, um tanto tonta, e parei na calçada.
— Tchau, . Obrigada por hoje.
— Nada. Fique de olho na estrada. Não queremos que você sofra nenhum acidente.
Senti minhas bochechas quentes.
— E nem que você cause outro, não?
Ele soltou uma gargalhada inesperada que reverberou pelo meu corpo todo até mesmo depois de ele acelerar e sumir pela rua.
Entrei na casa, um pouco atordoada, e fui abrir o grupo da família. Estava cheio de mensagens da minha mãe. Eram onze horas da noite lá, mas mesmo assim eu mandei a mensagem.

: Cheguei agora. Querem ligar?

Não tive cinco segundos depois de enviar a mensagem para ver a solicitação da ligação de vídeo na tela. Cliquei no botão verde e os rostos da minha irmã e da minha mãe apareceram na tela.
!
— Oi, mãe, oi, Tati.
— Como você tá? Tá comendo bem?
— Você conheceu a torre de Pisa?
— Não, Tati, a torre de Pisa fica em Pisa, e eu tô em San Lucido.
— Você tá comendo bem? — minha mãe repetiu, nervosa.
— Sim, mãe! Eu estou na Itália. Hoje eu deixei as roupas da nonna Gema no santuário.
— Que bom. — Minha mãe assentiu. — E a venda?
— Vou entrar em contato com a empresa amanhã, acabei focada na doação.
— Certo, mas não demora muito, ok? E nem esquece do seu trabalho.
— Não vou — eu falei, sentindo meu estômago revirar. Eu mal havia tocado em uma tradução desde que eu havia chegado.
— Mas você não pode visitar Pisa antes de ir? — minha irmã perguntou.
— Acho que não vou ter muito tempo — falei, desviando o olhar da minha mãe.
— Mas…
— Sua irmã não está a passeio, Tatiana.
— Que merda…
— TATIANA! A BOCA!
— Shhh! Olha a hora, mãe — Tati brigou com ela. — Vai acordar a vovó.
— E como ela está, inclusive? — sussurrei.
Minha mãe e Tati ficaram quietas, e minha irmã olhou para baixo.
— Indo, meu bem. Ela vai ficar bem, ela só… precisa de tempo.
— Sim, ela vai.
Nem eu e minha mãe podíamos ter certeza disso, mas precisávamos falar.
— Vou deixar vocês dormirem, tá muito tarde aí — quebrei o silêncio.
— Tá, mas não esquece de falar com a empresa amanhã de manhã.
— Pode deixar, mãe.
— Tomara que a empresa seja em Pisa pra você ter que ir.
— Acho bem difícil — respondi com um sorriso.
— Mas vai que é? Se for, compra uma lembrancinha pra mim. Ou três. Sou sua irmã favorita mesmo.
— Você é minha única irmã.
— Exatamente! Boa noite, .
— Boa noite. Amo vocês.
— E a gente te ama — minha mãe falou, com um sorriso cansado.
Foi a última imagem que eu tive antes de desligarmos a ligação. Subi para o quarto e larguei minha bolsa lá. Com minha mão boa, peguei as cartas de nonna Gema de novo e reli mais dez vezes, pensando em como seria o encontro com a avó de Bianca e na quarta, especialmente se os dois de fato estiverem lá.

Depois de conhecer o Santuário, tive três dias antes de conhecer vovó Olivia, avó de Bia e . Nesse meio tempo, resolvi uma tradução cujo prazo já estava chegando (e demorei o triplo do tempo, para meu eterno desespero) e enfim contatei a empresa para venda do imóvel. Para a tristeza de Tatiana, ela não ficava localizada em Pisa. Na verdade, nem importava sua localização já que eles tratavam tudo por e-mail.
Estava lendo um dos vários documentos enviados pela empresa quando a campainha tocou. Do outro lado, os cabelos loiros com pontas azuis de Bia balançavam com o típico vento de litoral. No final das contas, não havia sido seu irmão a me buscar.
— Oi, ! Pronta para conhecer vovó Olivia?
— Com certeza! — Mas eu estava nervosa. Queria muito agradar aquela mulher que poderia ter todas as respostas das minhas perguntas.
Busquei um pequeno pacote na cozinha e Bia me ajudou a fechar a porta, já que a outra mão enfaixada complicava a situação.
Não precisamos andar nem um minuto inteiro que já paramos na frente de uma casa toda feita de pedras, com uma porta de madeira. Bianca já chegou abrindo a porta destrancada.
Nonna? Nós chegamos!
Olhei ao redor, reparando nos móveis de madeira com disposição similar à casa de nonna Gema. Inclusive os vários retratos de bebês muito fofos, especialmente um que parecia não ter nem dois anos, todo sujo de gelato.
— Que gracinha! Quem é?
— Ah! Meu irmão.
Franzi a testa, irritada com sua inegável fofura infantil, mas minha expressão se suavizou assim que vovó Olivia entrou na sala, guiada por uma pequena bengala. Tinha cabelos completamente grisalhos e era consideravelmente mais baixa que Bianca, mas havia algo no brilho dos olhos por trás de seus óculos que a tornava a pessoa mais viva daquele lugar.
— Ah! ? Não acredito que enfim estou conhecendo uma das sobrinhas netas de Gema — disse, sorrindo abertamente para mim.
— Olá, senhora Olivia, é um prazer conhecê-la. Obrigada por me receber em sua casa.
— Ora, querida, o prazer é meu! — E imediatamente me puxou para um abraço.
Meu corpo relaxou em contato com aquele carinho fraterno. Como poderia tê-la conhecido naquele instante e já sentir uma conexão tão forte com a mulher? Me senti imediatamente à vontade conforme ela me soltava e me guiava para a mesa, posta com café.
Estendi o pequeno pacote pardo que eu trazia em mãos.
— É apenas uma lembrancinha, gostaria de poder agradecer por mais.
— Mas nem precisava ter trazido nada! Bianca, você a avisou que não precisava ter trazido nada?
— Eu avisei — respondeu a menina, bem humorada.
— Que belezinha! — Olivia ergueu o pequeno chaveiro de havaianas, que antes enfeitava minha chave de casa. Era a única coisa mais brasileira que eu tinha para oferecer.
— É de uma marca brasileira bem famosa de chinelos, quis oferecer algo que fosse diferente para você — comentei, envergonhada.
— E eu simplesmente adorei. — Ela se sentou em uma cadeira de frente para a minha, chamando Bianca para se sentar conosco, antes de estender as mãos para pegar as minhas. Seus olhos, percebi, ficaram marejados, embora seu sorriso não fosse embora. — Eu sinto muito pela dor que você e sua família estão passando, Espero que Deus os conforte, especialmente sua avó. Mesmo distantes, Gema e Pina eram inseparáveis.
— Obrigada pelo carinho, sinto muito pela sua perda também. — Apertei a mão dela de volta.
— Obrigada. E como sua vó está?
— Indo — admiti. — Ela ficou mais melancólica, fica dizendo que será a próxima, que meu avô já a abandonou, e agora nonna Gema… Mas eu sei que ela vai conseguir melhorar, ela é forte.
— É de família. — Olivia sorriu. — E você está aqui para cuidar das burocracias?
— Sim, vovó, tanto que fui ajudá-la a empacotar as coisas que levou para o santuário de São Francisco de Paula.
— Ah, minhas bênçãos. Como eu poderia pedir por netos melhores?
Eu forcei um sorriso que esperei ter passado despercebido enquanto Olivia nos servia o café.
— Obrigada — agradeci, levando a caneca aos lábios e assoprando. O vapor esquentou meu rosto, mas nunca era quente o suficiente para recusar uma boa xícara de café.
— Mas conte-me. Bia me disse que gostaria de fazer mais perguntas sobre Gema.
— Só se não for incomodar. Sei que pode ser doloroso falar dela, ainda mais quando era alguém tão querida sua.
— Não é incômodo algum! Pelo contrário, agora mais do que nunca quero mantê-la acesa na minha memória e no meu coração.
Minha visão ficou embaçada, o que me surpreendeu, já que eu nem percebi as lágrimas chegando. Mas aquela tristeza misturada com amor e saudade… Eu gostaria que, no futuro, alguém se lembrasse de mim assim.
— Fico feliz que isso não te incomode. — Afastei uma lágrima do rosto, abrindo um sorriso. — Eu gostaria de saber mais sobre vocês duas, para começar. Onde se conheceram?
— Nessa mesma casa. — Olivia sorriu, bebendo um gole do café em seguida. Segundos depois, ela prosseguiu: — Nossos pais já eram vizinhos e se conheciam. A mãe de Gema era uma parteira, e ajudou minha mãe a me ter, mesmo que ela mesma estivesse grávida de oito meses. Gema é menos de um mês mais velha que eu. Precisamente 20 dias.
Nós três sorrimos ao imaginarmos esse cenário.
— Passamos a infância brincando juntas, e, alguns anos depois, Pina depois, embora fosse quatro anos mais jovens. Nós nos julgávamos superiores e pensávamos que uma criança não iria nos entender. — Rimos. — Mas frequentamos a mesma escola, fazíamos os deveres juntas, brincávamos na rua, na praia, frequentamos a mesma igreja do Santuário. Ninguém via Gema sem me ver junto, já nós tomávamos como gêmeas. Andávamos com as mesmas tranças de um lado para o outro. Ah, acho que tenho uma foto disso! Bianca, pode buscar a caixa verde que está dentro do meu armário? Na porta direita, no alto, por favor.
— É claro!
Enquanto Bianca saía, me permiti imaginar as cenas descritas e sorrir. Eu amava nonna Gema, mas apenas a conheci mais velha. Era tão engraçado imaginar minha vó e ela nessa idade, mas era ao mesmo tempo esquisito ter que ouvir isso de alguém que eu acabara de conhecer.
— Vocês eram mais próximas do que eu imaginava. Fico triste de não ter me interessado mais no passado dela enquanto ainda podia perguntar a ela — confessei, sentindo um bolo na garganta.
— Vocês, jovens, possuem vidas muito mais interessantes para nós. As baboseiras de nosso passado não competem com seus futuros brilhantes.
— Eu discordo! Nunca me senti tão envolvida quanto ao escutar tudo isso!
Ora, eu era uma escritora! Como eu queria ser uma escritora que não conhecia histórias?
Olivia sorriu para mim, carinhosa.
— Fico feliz por isso. — No mesmo momento, Bianca retornou com a caixa. — Ah, que bom que você achou, querida!
— Só não sei se vamos encontrar a foto rapidamente no meio de tudo. São tantas!
— Mas vamos achar. — As duas abriram a tampa juntas, apoiando-a no chão. — Hm, o que temos aqui? Ah, é do nascimento da sua mãe! Olhe, e Gema foi a primeira a visitá-la!
Olivia me estendeu uma foto em preto e branco. Nela, uma versão bem mais jovem de nonna Gema olhava para a câmera, com um sorriso fechado, segurando uma diminuta versão da mãe de Bianca. Atrás da foto, uma letra cursiva bonita escreveu: “18 de maio de 1970”.
— E essa aqui foi do meu casamento, Gema foi minha madrinha, claro.
Ela me estendeu outra foto. Nela, mesmo em preto e branco, eu podia ver que a jovem Olivia sempre havia sido uma mulher irradiante. Em um vestido branco simples, ela olhava com amor para um homem muito bonito ao seu lado, que, infelizmente, me lembrava , com seu sorriso sedutor. Perto deles, nonna Gema segurava o véu, conversando com alguém que vinha atrás.
Era uma cena tão bonita. E que despertou a pergunta que eu tanto queria fazer.
— Sabe por que nonna Gema nunca se casou? Tenho certeza que ela já se apaixonou alguma vez na vida.
— Ah, pois acredito que não. — Olivia sacudiu a cabeça em negativa. — Gema sempre revirava os olhos a cada vez que eu lhe apontava um menino bonito! Admito que eu me apaixonava fácil por qualquer um. Isso até conhecer seu avô, Bia. Um homem tão gentil, mas tão alto e grande! Mesmo assim, tudo coube direitinho.
— Vó! — Bia ralhou, enquanto eu engasguei com o café que eu estava terminando, mas Olivia permaneceu impassível.
— Mas Gema era uma reclamona, dizia que homens apenas atrapalhavam as mulheres e que não acrescentavam nada de bom.
— Não que ela estivesse errada, mas é um pensamento bem diferente para a época — comentou Bianca, surpresa.
— De fato, era. Seus pais inclusive tentaram arranjar um casamento para ela com um italiano que também morava no Brasil, como eles, mas ela se recusou. Dizia que não queria sair daqui.
— Então acha impossível que ela tenha se apaixonado? — perguntei.
— Impossível? Não acho que nada é impossível. — Ela deu uma risadinha. — Mas com certeza seria improvável.
— Certo. — Troquei um olhar com Bia, que acenou com a cabeça, me incentivando. Levantei-me de leve, então, para poder alcançar o bolso da calça, de onde tirei três das várias cartas de amor de nonna Gema. — Quando Bia foi lá em casa me ajudar com as roupas, encontramos algumas cartas de minha tia que me deixaram… intrigada.
Olivia parou de mexer na caixa de fotos, e ergueu o olhar, fitando as cartas. Ela passou a caixa para Bianca (instruindo-a a encontrar a tal foto das duas meninas de tranças), enquanto estendia as mãos para pegar as cartas.
Fitei o olhar em Bia procurando as fotos, tentando não pressionar Olivia em sua leitura, embora meu peito estivesse acelerado, ansiosa pelas respostas. O que a amiga mais próxima de nonna Gema dizia condizia com tudo que eu escutara a vida inteira, e aquelas cartas se tornaram ainda mais excêntricas, secretas até para a pessoa mais próxima dela, talvez mais próxima do que a própria irmã.
Esperei longos dez minutos até Olivia terminar de ler as cartas, erguendo o olhar para mim com as sobrancelhas bem arqueadas em surpresa.
— Eu… não tinha conhecimento de nada disso. E confesso que nem sei por que, afinal, eu sempre a apoiaria.
— E se fosse alguém inadequado, e ela sentisse vergonha?
— Não, ela ainda assim me contaria. Ou eu achava que sim. Estou… confusa. Ah, Gema, queria que você estivesse aqui para eu cobrar algumas explicações!
Abri um sorriso pequeno, embora eu sentisse que, por trás daquela leveza, Olivia estivesse se sentindo um pouco triste por nonna Gema ter cortado-a de uma parte de sua vida.
— Mas sabe quem pode ser essa pessoa? Esse P? Alguém que possa ter causado esse interesse?
Olivia olhou para o alto, com o dedo indicador batendo na boca, pensativa. Releu as cartas e fixou seu olhar nas datas.
— Tínhamos vinte e três anos. Já estávamos instaladas aqui, Simona já estava nascida… Ah! — Olivia abriu um sorriso, confiante. — O professor de música!
— Professor de música? — perguntei, confusa.
— Nessa época, Gema cismou que usaria seu dinheiro de professora para bancar um dos seus sonhos de menina: aprender violino. Começou a fazer aulas com um jovem professor da região junto de uma outra menina aqui da rua. O nome dele era Paolo Osso!
Abri um sorriso, me empolgando também.
— Um romance secreto com o professor de música? Que incrível!
— E faz sentido com o que foi citado na carta. Ah, ele se mudou daqui quando se casou, poucos anos mais tarde, mas tenho certeza que encontrarei o contato dele. Você pode contatá-lo, que tal?
— Nossa, eu adoraria muito, sério! Nem consigo agradecer!
— É só voltar aqui e me contar tudo depois. Ah, Gema me paga de não me contar isso!
— Achei! Achei a foto das meninas de trança! — exclamou Bianca, balançando uma foto em preto e branco nas mãos.
Nós rimos e nos envolvemos em mais histórias. Eu me senti em casa. Toda a sensação positiva que eu sentia perto de Bianca foi duplicada na presença de sua vó. Nós rimos, choramos um pouco e às vezes ficamos chocadas quando Olivia dizia alguma coisa absurda sem nem mudar sua expressão, o que depois gerava uma gargalhada.
Duas horas depois, eu anunciei que precisava voltar para casa.
— Estou trabalhando em dobro com o punho assim. — Sorri amarelo.
— Coitada. Mas saiba que é sempre bem-vinda para voltar, especialmente nos dias que tiver biscoitos.
— Ah, nesses eu com certeza virei. — Rimos.
— Mas também não hesite em pedir ajuda se precisar de alguma coisa, viu? Sei como esses processos burocráticos são chatos, e eu conheço bem as empresas daqui. Não hesite em me procurar.
— Não hesitarei — respondi, me sentindo levemente emocionada com todo aquele carinho.
Ali, eu me sentia da família.
As duas já estavam me conduzindo à porta quando Olivia soltou.
— Bia! Quase que me esqueço! Busque na cozinha os biscoitos amanteigados que fiz ontem, coloque um pouco em um pote para levar para casa.
— Não é necessário!
— Mas é necessário, sim. Você amou os biscoitos! — Bianca me entregou.
— Tá bom, eu amei os biscoitos. — Fiz uma careta e as duas riram, antes que Bia se retirasse.
Assim que ficamos sozinhas, Olivia se aproximou, abrindo um sorriso cúmplice.
— Minha neta me contou que meu teve envolvimento no estado em que seu punho se encontra agora.
Todas as caras educadas forçadas que eu fizera a tarde inteira quando o nome era mencionado foram por água abaixo quando ela citou meu punho, e fiz uma careta.
— É, ele teve.
Olivia gargalhou, me dando um tapinha no ombro.
— Ele pode ser um menino teimoso, mas tem um bom coração. Abandonou seu sonho de estudar em Roma apenas para me ajudar na loja. Ele finge que escolheu o que realmente queria, e eu finjo que acredito, mas nós dois sabemos a verdade. Ele é honesto e sensível, e tenho certeza que ficou apavorado com o que fez, mas não soube expressar, cedendo à raiva. Mas não odeie meu menino. — Ela sorriu para mim, e eu engoli em seco. — Sei que isso pode parecer difícil, mas tente não odiá-lo.
Sem graça, não tive outra opção a não ser responder:
— Tentarei bastante, se ele tentar também.
Ela soltou outra gargalhada, no mesmo momento em que Bia voltou com os biscoitos.
— Estão frescos, mas eu recomendaria levar ao forno por uns cinco minutos só para ficarem um pouco mais quentes e crocantes.
— Obrigada, Bia. E obrigada, Olivia. Por tudo. Não tenho palavras para agradecer o suficiente — falei, honestamente.
— Nós que agradecemos sua companhia. Não me divertia assim há muito tempo — respondeu Olivia, sorridente. — Não se esqueça de tudo que eu lhe falei, viu? E não deixe de visitar.
— Pode deixar. — Eu sorri, dando tchauzinho com a minha mão boa, enquanto eu saía da casa.
Assim que a porta se fechou, no entanto, ouvi ao longe o barulho de uma vespa. Olhei para o fim da rua e vi a vespa azul se aproximando rapidamente, logo parando exatamente na minha frente.
Antes de tirar o capacete, eu já soube que era .
— Vejo que a conversa acabou antes do meu turno.
Me lembrei de nossa última interação amigável no Santuário e do pedido de vovó Olivia. Por isso, abri um pequeno sorriso.
— Sim, mas foi excelente. Obrigada por me incentivar a conversar com sua avó, ela é uma pessoa incrível.
me encarou, como que surpreso com minhas palavras, antes de abrir um sorriso também. E eu segurei um arquejo, porque ele ficava lindo de forma irreal quando sorria com felicidade.
— Ela é. É a melhor pessoa que eu conheço.
— Talvez seja até a melhor pessoa que eu conheço agora.
— Ela tem esse efeito nas pessoas.
Nos encaramos por alguns segundos, e eu senti o ar começar a faltar em meus pulmões. Apenas a raiva me salvava de sofrer os efeitos avassaladores de sua beleza. Me forcei a pigarrear.
— Bom, eu tenho que ir. O trabalho está acumulando, tenho questões burocráticas da casa para resolver, e tudo está demorando o dobro do tempo recentemente. — Estendi a mão esquerda.
Quis fazer uma piada, e não acusá-lo, mas percebi que seus olhos pareceram um pouco culpados ao pousarem na minha mão. Confesso que não consegui ficar muito chateada com a culpa dele, pelo contrário.
— Certo, não vou atrapalhá-la mais. A gente se vê por aí.
— A gente se vê.
Eu tentei não olhar para trás. Tentei mesmo. Mas, quando parei na entrada de casa, duas portas depois, eu não pude deixar de olhar para trás.
E encontrá-lo exatamente no mesmo lugar, me encarando.



Continua...


Nota da autora: Sem nota!

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