Prólogo
Eu percebi que estava perdido assim que pus os olhos nela.
Só não achei que seria tanto.
Maldito dia que aceitei fazer isso, maldito dia que entrei nesse maldito buncker, curioso com uma carta com selo federal e um carimbo de “confidencial”.
Meu coração parecia querer sair pela boca, o suor nas têmporas escorria a ponto de fazer cócegas e minha respiração era difícil de controlar, mas eu precisava fazer silêncio. Precisávamos de silêncio se eu quisesse ajuda-la. E eu queria, Deus, era uma necessidade tirá-la de lá antes que fosse tarde demais. Antes que a descartassem como um ratinho de laboratório que não passou nos testes.
estava dentro de um cesto de roupas sujas, um cesto grande e com rodinhas, um cesto que eu não devia estar guiando para fora, já que era um dos recrutados para analisar os experimentos e não para retirar roupa suja do local. E mesmo assim estava lá, suando feito um doido e carregando o cesto abarrotado de roupas fingindo normalidade e contando com a sorte enquanto estava debaixo de toda aquela roupa suja fugindo daquele local abominável que fazia testes com ela como se fosse a coisa certa a se fazer.
E eu precisava tirá-la de lá. Ela merecia uma segunda chance.
Nunca conseguiria conviver com minha consciência limpa sabendo que não tentei, não fiz tudo o que estava a meu alcance para tirar aquela mulher de lá.
Os outros experimentos já estavam fadados ao fim: os tanques de repouso, onde permaneceriam em descanso até o momento que sua habilidade fosse necessária. estava fadada ao descarte. Fadada ao incinerador. Era desumano deixar que aquilo acontecesse sem pelo menos tentar tirá-la de lá.
Não tive tempo de planejar algo realmente concreto e mirabolante, era uma situação de “agora ou nunca” e concordamos que o agora era a melhor opção.
Por isso, agora eu estava sentindo meu coração subir pela garganta enquanto usava um macacão cinza de serviços gerais e empurrava o cesto no meio do corredor desejando que ninguém me parasse, me reconhecesse ou viesse falar comigo.
Quando a porta do elevador dos funcionários se abriu e me vi em uma garagem com vários caminhões estacionados, soltei um suspiro de alívio empurrando o cesto para dentro de uma caçamba aberta.
Deu tudo certo.
Caralho.
Deu tudo certo!
Conseguimos.
Liguei o caminhão que estava com a chave na ignição e dirigi por um caminho subterrâneo que parecia infinito, um túnel com quilômetros de comprimento. Parei o caminhão quando vi uma passagem vertical com escadas, era a nossa saída. Andamos pelo deserto que parecia uma paisagem de Breaking Bad durante o que me pareceram horas antes de encontrarmos uma lanchonete de beira de estrada.
E só ali, quando finalmente estávamos livres, que me abraçou. Os braços magros em volta de meu pescoço, os olhos fundos de cansaço e um sorriso que me mostrava que tudo ficaria bem, porque estávamos juntos.
Aquele olhar doce e aquele sorriso, foi por isso que valeu a pena.