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LongficExpedição Temática

Scambio d'amore

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Uno


Estava tudo pronto para sua viagem. estava verificando a casa temporária que iria ficar, era pequena e aconchegante pela foto, e, como já era maior de idade perante os dois continentes, sua ansiedade estava mais atacada do que nos outros dias, mais do que no dia de seu Trabalho de Conclusão de Curso. Com tudo arrumado e suas blusas de rock dentro da pequena mochila vinho, tudo para apenas um ano na Itália, ela e sua família foram para o aeroporto de São Paulo.
Andava de um lado para o outro na sala de espera, olhando seu celular de cinco em cinco minutos. Quando seu voo foi anunciado por uma das mulheres que trabalhava no aeroporto, se encaminhou para o portão nove de embarque e se despediu de seus pais.
— Vai com Deus, filha. — Sua mãe a benzeu. — Tome cuidado por lá, viu? E me envia uma mensagem quando chegar.
— Pode deixar. — A abraçou com os olhos marejados.
— Qualquer coisa você liga para a gente. — Seu pai começou a falar. — Esse é seu cartão reserva se precisar de algo, está bem? — A menina concordou com a cabeça. — Nosso banco também atende no exterior, não esqueça.
— Não me esquecerei, pai, muito obrigada. Eu vou sentir muitas saudades de vocês, mas prometo trazer muita coisa de Milão.
— Nós também, minha pequena. Até daqui um ano.
— Até.
A senhora deu um beijo no topo da testa de sua filha, e o homem acompanhou o gesto. seguiu feliz, nervosa e ansiosa. Sentou em sua cadeira ao lado da janela e colocou seus fones de ouvido. A viagem foi tranquila para o seu primeiro voo de avião, poucas turbulências, e conseguiu se distrair com o filme que havia escolhido.

Milão estava tão linda de cima que seu fôlego se perdeu por um instante. As luzes dos prédios a deixaram admirada, não via a hora de passear por cada pedacinho de Milão.
Já com o cartão carimbado para intercâmbio de um ano, ela seguiu rumo ao seu pequeno lar temporário. Uma conversa breve com sua mãe no celular, e logo foi ajeitar sua casa. Ficou em sua casa com a sua colega de quarto, apenas apreciando e descansando depois do voo cansativo.

O ar da liberdade era inexplicável. Ela fazia as despesas sozinha, comprava mais guloseimas do que alimentos naturais, trabalhava e ainda passava semanalmente na central da sua escola de italiano, a mesma que forneceu o intercâmbio.
Seria um ano longo para ela, tudo com a sua primeira vez. sempre foi uma garota caseira, que gostava de sair com suas amigas e ir a lugares mais calmos e tranquilos. As noites mesmo eram regadas pelos shows de rock, tanto das bandas locais, quanto das mais famosas, e isso não passou a ser diferente para ela em Milão.
Na verdade, tudo estava sendo novo e ao mesmo tempo difícil, sozinha, alugando um lugar para seu período de estadia e trabalhando. Não que no Brasil fosse mais fácil, entretanto, lá as contas eram divididas em três pessoas, e hoje sua realidade era diferente.
Nesse tempo, passou a trabalhar em uma livraria local, era pequena, aconchegante, com grandes poltronas para poder ler e com uma cafeteria quase que no centro dela. Não era um trabalho muito puxado. Trabalhava meio período, e o resto do seu dia dedicava aos cursinhos, séries e ir aos barzinhos de rock com sua amiga gaúcha.



Uns meses depois daquela correria toda e já se sentindo mais tranquila, ela e sua amiga decidiram ir a um pequeno show que teria em Milão. Naquela noite, não tinha planos para séries e filmes, pretendia ir ao show de uma banda não tão famosa em um bar local.
Com seu moletom surrado e sua boa e velha calça jeans, ela esperou sua amiga do lado de fora de casa.
— Demorei? — A menina abriu a porta do táxi.
— Não — a cumprimentou com um abraço. — Eu acabei de chegar aqui fora.
— Menos mal. — Abriu o sorriso. — Vamos. Nós dividimos daqui até o bar. — A amiga se referiu à conta.
— Certo, certo. — Riu.
Os olhos cor de mel decoravam cada cantinho que o motorista passava até chegar ao bar. Estava apaixonada pela cidade, por todos os detalhes, era tudo como ela imaginou que seria. Não em nível de filme, mas no nível da fanfic mental dela.



O bar estava cheio, praticamente não havia nenhum lugar para sentar. O local estava bem iluminado, com o palco centralizado. Quase que de frente para a porta de entrada, estava o bar bem cuidado e com alguns barmen. As meninas procuraram por uma mesa, ou até mesmo duas banquetinhas vazias perto do bar para aproveitar o show.
Naquela noite, a banda Side iria se apresentar.
— Ali, amiga — falou. — Tem dois lugares ali.
— Reserva eles que eu já vou. Você quer cerveja?
— Não, aceito só uma água com gás se tiver. — Ela riu. Andou rapidamente para os lugares vazios e sentou, já segurando a outra cadeira.
— Aqui sua água. — Entregou uma garrafinha. — Eu ouvi que a banda vai cantar músicas mais conhecidas, então você não vai ficar sem cantar nada.
— Isso é maravilhoso. E você não contou como conheceu a banda, Mika.
— Ah, é! Foi andando por perto desse bar de rock que conheci. Vi um papel colado na parede e procurei por eles na internet, gostei do som e com isso passei a curtir a banda.
— Hm, bom, você devia ter me apresentado, né?
— Perdão, amiga, eu juro que, ao sair daqui, eu passo tudo para você. Esse show não vai começar logo? Sei que chegamos tarde, mas já era para ter começado.
— Tenha calma, logo vai começar.
E foi apenas ela dizer que alguns segundos depois a banda já estava no palco, acompanhada do solo do guitarrista. As meninas curtiam o som da banda, que chegava contagiar a ponto de batucarem as unhas na mesa, balançarem a cabeça sutilmente e cantarolarem junto.
— Mi scusi, podemos sentar aqui? — dois homens perguntaram, na verdade, apenas um questionou. — O bar está todo cheio, e meu amigo aqui precisa relaxar um pouco. — Sorriu.
— Claro. — Mika deu a permissão. Ao olhar para sua amiga, viu a expressão confusa e indignada da garota.
— Sou , e esse é o Donatello. — O rapaz meio abatido apenas cumprimentou com um aceno.
se aproximou mais de sua amiga e tentou curtir o show da banda como se não estivesse preocupada com os dois estranhos junto a elas. Com o passar do tempo, já havia mais bebidas não alcoólicas na mesa — dos rapazes, o garoto que não estava muito bem havia se recuperado da pressão baixa, mas permaneceu na mesa junto delas.
Sentada ao lado de , Mikaella percebeu os olhares que deixava escapar por . De uma forma discreta, a amiga pegou seu celular e enviou uma mensagem, queria ser discreta e que não deixasse explícito que estava falando dele para a amiga.
trocou o olhar entre a mensagem e na direção que estava sentado. Instantaneamente, suas bochechas começaram a ruborizar ao perceber os olhares de . Segurou o riso e tomou o fôlego para conversar com Mikaella.
— É sério isso? — questionou e só viu a amiga concordar. — Eu mereço. — Revirou os olhos.
A garota começou a prestar mais atenção no rapaz. Ele não era o homem mais lindo do mundo, como seu ator favorito. Os fios loiros bagunçados, os olhos azuis e a roupa de banda mostrando-se a mais usada por ele. estava bem errada sobre ele, era muito lindo, a ponto de perceber que não parava de olhá-lo.
A troca de olhares permaneceu até o final do show. Uns minutos depois que estava no balcão, esperando seu pedido de fritas, se aproximou, pedindo uma cerveja. O frio na barriga apareceu, suas mãos começaram a suar. Torcia que ele não puxasse assunto com ela enquanto esperavam seus pedidos chegarem, já que ela se sentia um pouco estranha ao falar com pessoas bonitas no geral.
— Me desculpa mesmo sentar na mesa com você e sua amiga. Donatello esqueceu de tomar o remédio de pressão dele, então tive que agir rápido.
— Sem problemas. Ele está melhor?
— Está, vou tomar mais uma cerveja e o levar para casa, é sem álcool — falou, ao saber que criaria dúvidas.
— Ah, sim. — Pegou a porção de fritas e esperou ele pegar a cerveja.
A garota pensava em formas de poder continuar o assunto, mas era como se aqueles olhos azuis apagassem tudo que estivesse em seus devaneios. Voltaram para a mesa em silêncio e só conversaram entre si — os quatro — até a uma da madrugada.
— Tá brincando — Mika comentou. — Chuva bem agora.
— Se desse, eu levava vocês, mas preciso entregar esse mala são e salvo. — Eles riram, menos Donatello.
— Não tem problema, a gente chama um carro.
— Eu vou fazer isso lá dentro, o sinal não está tão bom aqui — Mika avisou. — Usarei o telefone de lá, pode ser que eu demore, amiga.
esperou Donatello se afastar um pouco para poder conversar a sós com a garota, ou melhor, tentar flertar com ela.
— Espero vê-la novamente.
— Eu também, em uma condição mais tranquila.
— Com café, quem sabe? — Sorriu de lado.
— Aceitaria. Quem sabe nos encontramos por aí. — Retribuiu o sorriso.
— Até qualquer dia então.
Ela concordou com a cabeça e o abraçou. Por ser alto, precisou ficar nas pontas do pé. Pôde jurar que estava ficando louca, ou era a única gota de álcool que colocou na boca ao experimentar o drink da amiga, mas era o abraço mais reconfortante que ela já havia recebido em Milão. Ele deu um beijo suave na bochecha da garota e foi para seu carro, colocando a touca.
Mika, que viu tudo de longe, chegou quase explodindo pela amiga.
— Eu não acredito que você finalmente vai viver um amor de intercâmbio.
— Para. — Tentou esconder os olhos brilhando pelo garoto. — Eu só o abracei em forma de despedida.
— Ah, claro, um “espero vê-la novamente, com café, em um lugar tranquilo” é de despedida, sim.
— Você anda escutando a minha conversa agora, é?
— Claro que não, mas eu já estava saindo do bar e não pude deixar de ouvir.
— E quantos minutos para o carro chegar? — Mudou de assunto, ao olhar para a chuva intensa.
— Daqui dez minutos. Eu espero que vocês se encontrem.
não respondeu nada, mas também esperava poder encontrá-lo daqui algum tempo, quem sabe amanhã, ou na semana que vem, mas depois parou para pensar que não poderia acontecer nada, ela iria embora daqui três meses praticamente. Não queria se apaixonar, não queria sentir aquele amor verdadeiro com ele e no fim ter que ir embora e o deixar para trás.
Elas entraram no carro e não conversaram mais, apenas ficaram olhando a chuva cair e o motorista curtir a rádio dele em um tom baixinho.



já tinha deixado seu amigo na casa dele e agora dirigia cuidadosamente pelas ruas de Milão, afinal, ainda chovia. Nunca tinha visto tanta beleza em uma única mulher, e havia feito ele perder todo o foco que existia dentro de si.
Tomou um bom banho e preparou algo para comer enquanto preparava sua mesa de trabalho. era dono de uma loja de instrumentos e acessórios musicais. Mesmo não sendo exatamente o que ele desejava para o seu futuro, era o que ele fazia no momento. Sempre pensava em deixar o emprego e tentar seguir o rumo de seus sonhos. Gastronomia.

Due

O dia amanheceu um pouco frio. Colocou sua jaqueta de couro sintético e a touca da banda que gostava, enviou a lista de pedido que havia feito ontem à noite para os fornecedores enquanto ia em direção ao trabalho.
— Ehi, cara. — Donatello entrou na loja.
— Donatello, como você está? — Deu um abraço no amigo.
— Bem, minha mãe ajudou também e só faltou me deixar de castigo em casa por não tomar o remédio. — Eles riram.
Dom era o típico filho único, sua mãe mais protegia do que outra coisa, e ele não via o momento para poder sair de casa, afinal, ele tinha idade para isso.
— E aquela garota do bar? Vi vocês conversando.
— Foi apenas uma conversa. Tentei jogar uma, mas vejo que não deu certo, ela não marcou um local para nos encontrarmos nem passou o número dela.
— Está se fazendo de difícil.
— Eu não acho que seja isso, ela meio que tentou evitar. — Voltou a arrumar as prateleiras. — Mas não vou forçar nada também, ela tem o espaço dela.
— Cara, então sinto te informar, ela não sentiu nada por você, acho que não gostou que invadimos a mesa dela.
— A culpa foi sua, você ficou todo “Estou morrendo, , me ajuda, minha pressão”. — Tirou sarro do amigo. — Parecia uma criança quando vê sangue pela primeira vez.
— Se não fosse por mim, você nunca teria conhecido ela, será que a amiga dela está solteira? — Olhava as novas guitarras.
— Boa pergunta. O dia que você encontrar com ela, você a questiona. Vamos, é meu horário de almoço.
Donatello concordou e acompanhou o amigo até um restaurante que tinha ali perto. Já em suas respectivas mesas e com os pedidos feitos, Donatello viu Mika entrar junto de , que carregava alguns livros debaixo do braço. Ficou observando de longe.
— Elas estão aqui.
— Elas quem, Don? — Mexia no celular.
— As garotas do bar. Quais são os nomes delas mesmo?
pensou e logo percebeu que não havia questionado os nomes delas, muito menos da garota de olhos cor de mel. Como pôde ser tão burro a ponto de esquecer de perguntar o nome dela.
— Não sei, não. A gente não perguntou, e elas não comentaram, só eu que passei nossos nomes.
— Eu vou até elas e as convidar para almoçar conosco.
— Donatello, não... — o amigo dele já havia levantado — é uma boa ideia. — Esfregou a mão no cabelo, tentando ajustá-lo. Olhou-se no reflexo do celular e viu que estava até que apresentável.
Buon pomeriggio, meninas.
— Buon pomeriggio, Donatello. — sorriu ao cumprimentar. — Não esperava vê-lo aqui.
— Olá, está só você aqui? — Mika disse, com um sorriso amigável.
— Não, está aqui também. — Apontou em direção da mesa. Ele sorriu para as meninas.
— Vocês não querem se juntar a nós, dessa vez invadir a nossa mesa? — Elas riram.
— Não seria uma má ideia, né, ? — Olhou para a amiga com aquele olhar de cachorro pidão.
— Claro que não — disse serena. — Vamos, só não podemos nos atrasar. — Colocou os livros na bolsa e pendurou na cadeira.
— Podem ir, eu vou avisar o garçom.
— Espero que não se incomode, Donatello falou que podíamos. — Mika, como era a mais desinibida, foi direta no assunto.
— Claro que não, podem se sentar.
— Obrigada — agradeceu.
— Eu já avisei o garçom. , o garçom vai mudar a nossa entrada.
— Sem problemas, amigo. Vocês vêm sempre aqui?
— É nossa primeira vez nesse restaurante, viemos comemorar a promoção de Mika.
— Agora a probabilidade de não voltar para o Brasil é noventa por cento.
— Então vocês não são daqui? — Don questionou.
— Não, eu — Mika se auto referiu — sou do sul do Brasil. Já a , é do sudeste, quase minha vizinha. — Ela sorriu.
— Jurava que vocês eram daqui — comentou. — E você? Vai ficar por aqui também?
— Eu quero tanto. Espero que eu consiga algo até o fim do meu intercâmbio.
Era a pior resposta que já tinha escutado naquele ano. Precisou esconder com todas as forças sua decepção. Estava em seus planos mais profundos criar coragem e sair com , ir a lugares que ambos gostassem e até mesmo tomar aquele café em um lugar calmo para conversarem. O almoço deles havia chegado, e não queria tocar mais no assunto. Na verdade, participava bem pouco das conversas. As meninas falavam de como era o Brasil para Donatello, que simplesmente ficava maravilhado e curioso.
— Agradecemos por ter deixado invadir a mesa de vocês. — já estava mais descontraída e agora ria do ocorrido.
— Por nada. — sorriu. — Espero vê-la novamente, só que sem invasão da mesa. — Tirou um riso dela.
— Também, eu sempre estou por aqui, então quem sabe em uma dessas não nos encontramos.
— Vamos, , já pagamos. — Mika apareceu, e perdeu a oportunidade de marcar um momento ali novamente.
As amigas se levantaram e foram acompanhadas até a porta pelos italianos. Se despediram casualmente, entrelaçou seu braço como de costume com o da sua amiga e andaram conversando sobre os garotos. Porém, já no meio do caminho, enquanto via as duas se afastarem, , por impulso, correu até , e disse seu nome alto — ou o que tinha certeza de qual era, atraindo o olhar dela para ele.
— Espera, eu esqueci de confirmar. Seu nome é , certo?
Ela negou com a cabeça com um sublime sorriso nos lábios.
— É — pronunciou devagar. — Mas pode me chamar sempre de .
— Não vou esquecer.
— Certo, vou indo então. — Sentiu suas bochechas esquentarem.
deu um beijo rápido na bochecha do rapaz, que sentiu a barba fazer cócegas em seus lábios. O garoto ficou olhando ela se afastar, até o momento que percebeu que estava parado no meio da calçada. Escutou seu amigo falar algumas coisas que não se incomodou muito. Sempre escutou que sua maravilhosa Itália era o país do amor, mas nunca havia provado algo tão surreal como aqueles dias.
— Você está gostando dela — dizia, enquanto atravessava na faixa. — E pode, por favor, parar com essa cara de idiota? Precisa focar no seu emprego.
— Don, não é tão fácil assim, ela é única.
— Mas você a ouviu, ela não tem emprego efetivo aqui.
— Até lá, pode ser que tenha, Donatello. E você já pensou em chamar a amiga dela para sair?
A pergunta foi muito lógica. Antes de Donatello dizer a verdade para , ele já havia falado que tinha trocado contato com Mika, e não conseguia negar que estava trocando mensagens com ela desde o momento que foram embora.
— Planejamos sair amanhã. Quer que eu consiga uma informação da ?
— Não precisa. — Já estava em frente à loja. — Vai entrar?
— Estou indo para casa. Cuidado com a chuva, falaram que ia chover muito.
— Tranquilo, até mais.
— Até, cara.



A chuva estava intensa. Milão não via tanta chuva assim fazia anos. estava sentada na cadeira de frente para a janela, a esperando cessar. Com o guarda-chuva no colo, ela viu um garoto correndo todo desengonçado pela calçada de água, e a pior parte foi vê-lo cair de bumbum no chão. precisou se conter para não rir.
— Vamos? — Seu chefe parou ao seu lado.
— Aonde?
— Embora. — Ele sorriu. — Eu levo você para casa. — Estendeu a mão para ela.
— Ah, sim, eu aceito, já que a chuva não quer passar.
— Existe uma história que minha mãe contava que chuvas assim só acabam com um amor. — Caminhavam rapidamente para o carro.
— Espero então que alguém se apaixone logo. — Sorriu em agradecimento. Ele deu a volta, entrou e logo deu partida no automóvel.
— Não sei se acontece muito rápido, às vezes demora.
— E a chuva continua? — Ela sabia que não.
— Não. — Riu. — Mas é com mais frequência. A história diz que a cada cinco anos um amor verdadeiro nasce no país do amor, só depende de o destino fazê-los — se referiu ao casal — se encontrarem.
— Cinco anos atrás? Aconteceu algo assim? — Estava interessada.
— Um casal, dois garotos. Eles se encontraram inúmeras vezes pelas ruas de Veneza. Em um jogo de futebol eles se encontraram, esbarraram e perceberam que não era apenas coincidência. Com isso, eles começaram a sair juntos e alguns dias engataram um namoro.
— Ai, que lindo.
— Sim, isso há cinco anos, ou foram seis? — Estavam parados no semáforo. — Não, faz seis anos, mas a história é de cinco em cinco.
— Milão e suas maravilhas. É logo ali. — Apontou.
Dirigiu mais um pouco e logo a deixou em casa, parando em cima da calçada para ela não se molhar muito.
— Está entregue, e espero que não se sinta acanhada com a história.
— Não, eu amei saber, amo essas histórias. Obrigada por contá-la.
— Não há de quê. E, caso esteja chovendo muito amanhã, eu não abrirei a livraria.
— Certo, até mais.
— Até.
colocou o guarda-chuva pendurado no porta guarda-chuva e colocou ao lado seu all-star.
— Chegou com o chefe, foi? — disse, saindo da janela.
— Boa noite para você também! Como foi o seu dia no trabalho? Tomou muita chuva? Parece que não tem mais educação. — Segurava o riso.
— Ai, meu Deus, já vi que não vai contar o que aconteceu, né? Boa noite. Foi bom, não tomei chuva. Agora conta, era seu chefe, né?
— Sim, era ele, mas não tem nada entre mim e ele.
— Mas ele quer.
— Não quer. Ele tem alguém já, ele só fez um favor.
— Sei, sei.
— Vou pro banho.
— Ok, o jantar está no micro-ondas.
Ela se banhou, almoçou e resolveu apenas descansar, não queria estudar nem ver uma série, apenas dormir depois de um dia exaustivo.

Tre

Os dias foram passando, e no dia — sábado — de folga de , ele resolveu andar pelas ruas de Milão. Queria apenas pensar nas coisas, no seu futuro. Quando saiu da casa de seus pais, ele só pensava em diversão e bebida. Fez um curso banal e deixou o seu desejo de lado, tudo pelas más influências que convivia. Agora, tudo estava diferente. Com seus vinte e cinco anos, sentia a grande falta de tudo que deixou para trás e pretendia correr atrás disso, principalmente com o apoio de Donatello.
parou em frente a uma livraria e procurou um tema bom que estava na vitrine. Quando ele olhou para dentro da livraria, precisou piscar mais de uma vez. Lá estava ela, toda amável, ajudando uma criancinha a pegar os livros que ela mais gostava e levar até a pequena área para leituras. O jeito amável e sorridente acendeu um calorzinho em seu coração.
— Ela é bem mais do que perfeita — disse em voz alta.
Por impulso, entrou na livraria e esperou ela terminar de ajudar a pequena criança, andou pelos corredores de grandes estantes com seus livros coloridos, até ficar entre um pequeno vão onde podia vê-la. Ficou ali a observando, não queria atrapalhar a garota que estava atendendo um cliente, até o momento que ela parou de costas para verificar algo no livro que estava em suas mãos. se aproximou dela, torcendo para não a assustar.
— Ciao — disse baixinho e com um sorriso no rosto.
— Ciao. — Seguiu o mesmo tom. — Está procurando algum livro?
— Na verdade, eu vi você através da vitrine, então resolvi entrar.
— Estou achando que você está me seguindo — disse em tom brincalhão.
— Eu já acho que é o destino. — Soou romântico, e ela sorriu tímida. — Você quer sair para tomar um café? Ou ir a algum lugar que você goste.
— Queria muito ir, mas estou no meu expediente.
— Eu espero você.
, não quero atrapalhar, você deve ter outras coisas para fazer.
— Está tranquilo, eu realmente espero você, sei lá, sentado naqueles puffs. — A seguia.
— Só pode ficar se ler um livro. — Entregou um livro qualquer na mão dele. — Ou fingir que está lendo, é uma regrinha daqui — ela sussurrou.
— Faça um sinal para mim, aí te espero lá fora cinco minutos antes de você sair.
Ela concordou com o gesto e recebeu um beijo no topo da testa da moça. sentou-se no puff e ficou a esperar por ela. Fingiu que leu o livro que havia lhe entregado, mexeu no celular para conversar com a irmã e seu melhor amigo, até mesmo andou pela livraria pra ver se encontrava algum tema que lhe agradava, o que não teve dúvidas que seria algo que abordava estrelas e constelações.
Quando estava perto das cinco horas, passou por ele, falou o horário, e logo ela o viu se retirar e agradecer a indicação do livro. Fingiu ser um cliente normal.
— Fiz você esperar muito, né? — Ela fechou a porta do estabelecimento.
— Não se preocupe comigo, estava confortável lá dentro.
— Se você está dizendo. Aonde vamos? — Estava bem curiosa.
— Deixo você escolher dessa vez. — Mostrou que queria sair mais uma vez com a moça.
— Aqui perto tem uma confeitaria. São maravilhosos todos os bolos e doces que ela faz, especialmente o de cenoura com chocolate.
— Cenoura com chocolate? — Arqueou a sobrancelha.
— É. — Riu. — Você precisa experimentar, é a oitava maravilha do mundo.
— Certo.
Caminharam conversando sobre Milão, a beleza da cidade, os gostos musicais. Tinham muitos gostos em comum, até mesmo o famoso amor pelas uvas. Em frente à confeitaria que ela o levou, os dois entraram e se sentaram perto da janela.
A loja era de tamanho médio, mas muito bem distribuída e com lindas decorações. As cores da Itália bem distribuídas e sutis pelo estabelecimento combinavam com os bancos fofinhos e confortáveis, dando um ar mais romântico.
— A dona daqui vem às vezes com o namorado dela, a mãe também. Queria apresentá-la, mas acho que não vou conseguir.
— Ela é famosa?
— Por Milão, não muito.
— Buona notte. — Uma mulher parou ao lado dela. — , como é bom revê-la.
— Clarisse! Eu achei que você não estaria aqui.
— Aproveitei que meu namorado precisou vir até a cidade e eu vim junto.
— Compreendo. É bom revê-la sempre. É bom estar perto de uma brasileira. — Riram. — , essa é a dona da confeitaria, Clarisse Sartori. Eu a conheço de São Paulo, ela também tem uma confeitaria lá.
— Prazer — Clarisse cumprimentou. — Seja bem-vindo. Qual bolo vocês desejam?
— Cenoura com chocolate para nós dois.
— Vou trazer um pedaço generoso para vocês. — Se retirou.
— Você vai amar, . Clari faz os melhores bolos e doces.
— Ela parece ser nova, nem parece ser dona disso tudo.
— Ela tem, sim, carinha de menininha, mas a Clari é uma inspiração para mim.
— Aqui está, e o guardanapo de vocês. — Entregou. — Buon appetito.
— Grazie.
experimentou o bolo, deixando ansiosa. Deu algumas garfadas a mais e não conseguiu mais esconder o suspense sobre o bolo. Era diferente e maravilhoso, o sabor dos dois juntos era mágico.
— Eu agradeço por essa experiência. — Ainda comia seu pedaço de bolo. — Nunca comi nada tão bom como esse bolo.
— Uma dádiva dos deuses, não é?
— Com certeza. Queria poder dizer para minha mãe.
— Diga. — Tomou o suco. — E passa o endereço.
— Não nos entendemos desde que saí da casa dos meus pais. — Parou para lembrar-se de tudo que aconteceu. — Podemos falar disso depois?
— Claro. Você quer mais um pedaço?
— Para a viagem só. Posso te fazer uma pergunta? — A viu concordar, enquanto comia seu bolo. — Aquele cara que saiu com você da livraria era seu namorado?
se engasgou com o suco que tomava no momento. Era lógico que estava falando do dia da chuva, e só pela pergunta percebeu que ele era o garoto que caiu de bumbum no chão. Mundo pequeno.
— Não, ele é meu chefe. Só me deu uma carona por causa da chuva.
— Hm, ele parecia que estava gostando da sua companhia.
— Não somos bem funcionária e chefe, mas não gosto dele. Ele não faz meu tipo, sabe? — Viu ele concordar. — Tenho um gosto diferente, é difícil um homem conseguir ter uma boa conversa comigo.
— Seletiva.
— Sempre fui. — Riu. — Minha mãe fala que eu sou chata para isso, mas a verdade é que eu quero alguém que entenda que um dia eu vou escutar Avenged Sevenfold e no outro Lana Del Rey. Num momento estarei admirando as pinturas do Van Gogh, no outro quero ver hipismo. — Se jogou no encosto. — Entende?
— Perfeitamente. — Admirava.
Era perfeita em tudo. No sorriso, no brilho dos olhos, até mesmo nos cabelinhos que teimavam em cair nos olhos dela, além do gosto musical! Ela era uma obra de arte feita por Michelangelo. Como conseguiu encantá-lo em três dias praticamente seguidos?
Com também era a mesma coisa, estava amando conhecê-lo, ainda mais ao saber que suas bandas favoritas eram as mesmas. E não havia como mentir para si mesma que aqueles olhos azuis não estavam a deixando hipnotizada. Queria sair mais uma vez com ele, quem sabe dessa vez ir a outro lugar, um que ele gostasse tanto.
Os dois ficaram se olhando por um tempo e sorrindo logo depois, ambos com suas bochechas coradas. foi o único que falou depois daquela troca de olhares.
— Vamos dividir? — ele questionou antes de levantarem.
— Vamos, sim. — Pegou a carteira.
— Buona notte, quero levar uma fatia de cenoura com chocolate para viagem, pre favore.
— Solo un momento — disse a atendente.
— Você quer levar um para casa?
— Precisa, não. Eu tenho um em casa ainda. — Sorriu.
Quando a moça voltou com o pedido, passou o valor total para os dois e entregou a parte dela do dinheiro. Já estava escuro lá fora, e os dois andavam tranquilamente pela Paizza Irnerio, a rua onde morava.
— Em qual prédio você mora?
— Aquele ali, o amarelinho com flores na varanda.
— Posso dizer uma coisa?
— Pode.
— Está vendo aquela porta fechada ali? — Apontou para o prédio cinza. — Ali embaixo é minha loja de música.
— Você tem uma loja de música?
— Tenho. — Sorriu acanhado. — Quer conhecer?
— Se não foi atrapalhar você.
— Não vai. — Caminharam até a loja. — Faz um pouco de barulho nesses portões. Entre.
Ele acendeu a luz e fechou a porta de vidro. Sentou-se em uma banquetinha e ficou apenas olhando ela admirando os violões.
— Sabe tocar?
— O quê? — Ela arregalou os olhos.
— O violão. — Sorriu de lado. — Sabe tocar?
— Ah, não. Queria saber tocar alguma coisa, porém, sei bem pouco, quase nada.
— Posso ensinar você se quiser.
— Aceito.
— Qual música você sabe tocar?
— Vermilion.
— Muito bem, pode pegar um banquinho. Você é destra?
Ela concordou, e pegou o violão para destro e entregou para ela. Como sempre aprendeu a respeitar todas as mulheres, colocou seu banquinho ao lado dela. Aos poucos, ele ensinava as notas para a garota que a cada parte tocava. Ele mostrava a cifra pelo o celular; conseguia pegar algumas notas até que rápido, mas, na maioria das vezes, se perdia no perfume floral da garota.
Estavam bem próximos um do outro, suas mãos se tocavam quando ele ia demonstrar a forma correta. Mais um pouco e ele podia jurar que a beijaria a qualquer momento, mas se lembrou que ela não ficaria ali para sempre.
— Está ficando tarde. — Ele se levantou.
— Não vi a hora passar, obrigada. — Deixou o violão em cima do banquinho e foi abraçá-lo, mas ele estendeu apenas a mão. Claro que ela estranhou. Nesses meses todos, teve a maior certeza sobre os italianos, eles são mulherengos.
— Não precisa agradecer, podemos sair de novo no seu dia de folga. — Se arrependeu de convidá-la quase que na mesma hora.
— Hm, pode ser, eu vejo quando estou de folga e passo aqui.
— Combinado, vou acompanhá-la.
fechou a loja e foi até o prédio com a garota e a deixou na casa dela.



Em sua casa, que ficava a três quadras da loja, ele abriu uma cerveja e ficou olhando Milão de sua janela. Podia passar horas ali lembrando dela e do dia todo com ela. Iria aproveitar os dias ao lado dela, era isso que chegou à conclusão ao lado da cerveja. E se fosse necessário, eles terminariam o relacionamento mesmo se fosse apenas uma amizade colorida.
Após o amanhecer, foi para a loja. Com ela aberta e todos os instrumentos limpos, ele esperou seus clientes chegarem aos poucos; ajudou alguns que queriam ter o primeiro instrumento, trocou as cordas do baixo da cliente. Don também havia chegado para poder ajudar seu amigo com a movimentação da loja, que subitamente cresceu logo após o anúncio do festival de rock mais esperado.
— Está cheio — Don comentou na hora do almoço. — Ou melhor, estava cheio, você acha que é só por causa do festival?
— Deve ser. Vão vir grandes bandas, e muitos vão querer arrumar todos os instrumentos para pegar autógrafos. — Deu uma garfada na comida. — Eu vou sair de novo com a .
— Quando? — Estava interessado.
— Depende da folga dela.
— Sabe onde levá-la?
— Não.
— Mostra para ela os pontos turísticos de Milão, acho que você se encantou por ela, não é, amico?
— Lei è affascinante.
— Leve ela para conhecer. Não precisa ser um passeio cansativo, e se for no dia do seu trabalho, eu tomo conta, você sabe que conheço bem o negócio.
— Combinado. Eu pago você por hoje no mesmo dia que ela tiver folga.
— Vai ser feliz, , encontre sua Julieta e viva feliz para sempre, só não se mate.
— Engraçado você, Don. — Bebeu o vinho.

Quattro

Quinta-feira, era a segunda semana desde que ambos haviam saído juntos.
havia ficado em casa e arrumado tudo, até mesmo a bolsa para a aula de análise do seu curso de italiano. Dali, passaria na loja de e veria se ele iria ou não sair com ela, como foi combinado. Antes de trancar a porta, ela parou no batente, se encostou e mandou uma mensagem para sua amiga.

“Mika, eu estou saindo, precisa de algo aqui em casa?”

“Não está tudo bem, te encontro aí ou no curso?”

“Curso, eu chego lá um pouco em cima da hora.”

“Ok, até mais, Ragazza.”

“Até."


Com seu vestido jeans e o all-star preto — combinando com a bolsa —, ela caminhou devagar até a loja de instrumentos musicais, que estava bem cheia. Ela o esperou atender um cliente e se aproximou rápido para evitar que o atrapalhasse.
— Oi.
, tutto bene?
— Sí, va bene. Vim aqui para sairmos, mas vejo que a loja está cheia.
— Não se preocupe. Don vai vir ficar aqui no meu lugar, e peço para minha irmã vir ficar aqui também.
— Mesmo? Não quero atrapalhar.
— Você não atrapalha, bela. Eu vou fazer a ligação e já volto. Pode ficar pela loja.
deu um beijo na bochecha da moça e saiu correndo até o escritório de vidro. A ligação foi rápida, e a irmã de chegou primeiro. Dez minutos depois, seu grande amigo agradeceu a ambos e saiu ao lado da garota, segurando seu moletom do Korn.
— Planos para hoje? — ela questionou.
— Pensei em mostrar para você os melhores lugares de Milão, aceita?
— Sim!
— Vamos passar na minha casa. Vou pegar meu carro e facilitar a nossa ida.
— Qual é a primeira parada?
— Castelo Sforzesco. Podemos só entrar e apreciar o lado externo. Entretanto, tem um giardino molto bello, depois você verá.
— Não vai me sequestrar, né?
— Non. — Riu. — Eu só não planejei bem uma linha turística. É logo ali na frente.
— Fico um pouco aliviada. — Também ria.
abriu a porta do carro para ela. Não ficava tão longe o Castelo Sforzesco, eram dez minutos de carro de onde eles estavam, mas depois de lá eles teriam que se locomover com automóvel para ir a outros pontos turísticos, o que a agradou, assim poderia apreciar a paisagem.



estacionou no lugar certo, deixou a blusa de frio dentro do carro e foi com a garota para o castelo. Seria muito irônico, mas sabia que se Donatello estivesse ali, ele iria zoá-lo por conta do seu nome e do ambiente. Se duvidasse, chamaria ela de Julieta. Eles andaram por quase todo o jardim. Não havia flores para colorir o grande campo verde, mas era lindo, principalmente por ser um monumento do século XV, pelo duque Francesco Sforza.
— Se eu fosse a duquesa, eu teria pedido milhares de flores aqui. Rosas, tulipas, girassóis.
— Concordo. Naquele tempo, eles faziam praticamente tudo pelas suas esposas.
— Sabe o que eu acho? Eles só faziam isso para ter um bom posto. Não digo que não devia ter amor, porque aí não posso falar nada, mas a ponto de fazer quase tudo eu acho que era para ter um bom posto e afins. — Eles riram. — Mas hoje em dia é difícil achar um homem que te dê o mundo igual a eles, então devia ser maravilhoso para eles.
— O que te deixaria feliz?
— Em presente?
— Sì.
— Acho que compreender que meu maior amor é ir ao show do Slipknot e Korn, e depois eu ia querer ir no show da Lana del Rey e do Ed Sheeran, pois também são meus amores.
— Korn é uma das minhas bandas favoritas, então posso levá-la, e do Ed — ele sorriu — não gosto, mas posso fazer esse esforço, desde que depois possamos comer fora.
— Comer? Você acha que eu vou recusar um show e não comer fora? — Gargalhou. — Amore mio, eu aceito quase qualquer restaurante. — O fez rir. — Mas é a verdade.
— Isso me agrada muito. Vamos? — Estendeu a mão. — Temos mais lugares para ver, ou quer entrar no castelo? Ele tem um acervo de museus.
— Qual é o próximo lugar?
— Galleria d'Arte Moderna. Fica a quinze minutos daqui de carro e 56 minutos a pé, o que você prefere?
— Que dúvida cruel. Não podia escolher um lugar diferente que eu não amo tanto?
— Não, eu li seus pensamentos.
— Bom, vamos para a Galleria d'Arte Moderna, e a pé, assim consigo apreciar mais ainda Milão, se você não se incomodar.
— Não mesmo. — Estendeu a mão para ela.
Pelo caminho, os dois conversavam mais sobre Milão e um ao outro. Era como se a primavera com suas lindas cores e perfume os levasse para o caminho que nem imaginaram chegar. Aquele tempo que disse que demoraria.
Galleria d'Arte Moderna, para Duomo de Milão. Do Bairro de Brera, para todos os pontos que ele a levou, entre sorvetes e cannolis. e estavam na rua de casa, na praça em frente ao apartamento de , esperando a pizza chegar.
— E você vai ao festival? — ele questionou.
— Eu queria tanto, mas acho bem improvável.
— Você já vai voltar para o Brasil? — Sentiu uma pontada no coração.
— Não, eu não consegui o ingresso até agora, a Mika não vai comigo, e não queria ir sozinha. Não conheço muito bem os festivais fora do Brasil.
— Aposto que não são os mais tranquilos. Eu vou e Donatello também, podemos conseguir para você e talvez sua amiga.
— Ela vai adorar ver Donatello. — Riu. — Eu vou falar com ela, mas eu aceito o convite.
— Eu vejo para você o ingresso. — Sorriu galanteador. — A pizza chegou.
Pagaram e subiram para o apartamento. Nunca em sua vida havia dado tanta liberdade para uma pessoa que havia conhecido recentemente, mesmo com troca de mensagens. apareceu em sua vida de uma forma surreal, invadiu seus pensamentos ligeiramente, juntamente ao seu coração. Não sabia dizer o que nele a conquistou logo, se eram os olhos azuis, ou os fios loiros bagunçados no dia do restaurante e da livraria. Só sabia que não conseguia ficar mais um minuto longe dele.
Mikaella havia saído para o curso, o mesmo que deveria ter ido se o passeio não tivesse a distraído.
— Eu estou muito farta. A pizza era così meravigliosa.
— Concordo. Eu sinto que posso ir rolando para o carro. — A fez rir. estava deitado no tapete da sala. — Você vai ficar sentada?
— Não consigo me mexer. — Ainda ria.
se levantou e foi até , que estava encostada no sofá. Ele ficou observando-a de perto, os desenhos dos lábios dela ao sorrir, os olhos cor de mel que o cativaram. Ele a queria, a desejava da forma mais sutil e educada.
Acariciou o rosto dela e, gradualmente, se aproximou para beijá-la. O beijo a fez arrepiar por inteira, e, entre o beijo, ela sorriu algumas vezes. Agora era um caminho sem volta, ter a certeza de que o sentimento que tinha por era mais forte do que se podia imaginar.
— Scusa, eu...
— Está tudo bem, eu também queria. — Sorriram.
— Eu preciso ir. Amanhã no almoço passo no seu trabalho. Que horas você almoça?
— Saio a uma hora.
— Vamos juntos, pode ser?
Ela concordou. ajudou a limpar a sala e depois foi embora.
No dia seguinte, ele foi almoçar com a garota e a levou para casa. Passou a vê-la com mais frequência e a trocarem mensagens com mais rapidez. havia confirmado
que Mika iria ao festival de rock com eles, e que ela pagaria a entrada dela. Agora era o momento que tanto esperou com .

Cinque

Um mês depois, os ingressos já estavam com e Donatello. O amigo ia com seu carro, já que Don ia sair do trabalho e ir direto, e levaria as amigas.
se arrumava para o festival, que seria na sexta, após colocar sua blusa de rock e arrumar sua mochilinha cor vinho — uma igual à que levou suas blusas de rock. Ela resolveu mudar seu esmalte, pegou o removedor de esmalte, tirou o nude que estava em suas unhas e passou um preto.
— Mika?
— Oi, amiga. — Viu a amiga na frente da porta.
— Pega o secador e me ajuda a secar.
— Seu cabelo? — Arqueou a sobrancelha. — Ele está seco, garota.
— Não o cabelo, minhas unhas. — Estendeu a mão.
, é sério? A essa hora?
— Por favor, amiga. Eu sei, foi de última hora.
— Às vezes, acho que você esquece do tempo.
Depois de ajudar a amiga a secar as unhas e pegar suas respectivas bolsas e documentos, desceu ao lado de Mika. não demorou muito para chegar, já que morava perto das meninas. Os dois não estavam juntos oficialmente, ficavam juntos quase diariamente, tanto que Mikaella já havia falado para eles começarem a namorar, entretanto, ela sempre fugia do assunto.
— Ciao.
— Ciao, . Obrigada por comprar minha entrada, aqui está o dinheiro. — Mikaella entregou logo.
— Terei que passar em casa para guardar, e não tem problema, o importante é você se divertir. — A olhava pelo retrovisor. — Aqui está seu ingresso, e o seu, .
— Grazie.



— É logo ali, ele vai precisar da identidade de vocês, viu?
— Passaporte também? — Mika questionou.
— Sim. Você trouxe, né, amiga?
— Trouxe, sim. É que eu não ia pegar.
— Don! — falou alto. — Achei que ia demorar para chegar.
— Não faz muito tempo. Eu já ia mandar mensagem para você. Oi, e Mika.
— Oi, Donatello — cumprimentou.
— Vamos? Quero pegar a barra — Mika questionou.
— Claro, como quiser.
— Depois ela fala de mim — disse, ao ver a amiga se afastar. — Ela vai ficar enrolando-o por mais um mês.
— Para que isso?
— Gosta de joguinhos. — Entregou a entrada e os documentos pessoais. Em seguida, recebeu a pulseirinha referente ao festival. — Ela sempre foi assim, desde o Brasil. — Andavam juntos. — Desde que ela se mudou temporariamente para São Paulo e ficou na minha casa para a gente se conhecer melhor, ela fazia isso.
— E nunca ficou com nenhum, só com o Don?
— Ela estar com o Donatello é um milagre, acho isso incrível. — Riu.
— E você?
— Eu não sou de ficar com muitos. Sou muito seletiva, já disse. — Segurou o riso.
— Mesmo se for um italiano, bem sedutor, lindo e apaixonado por você?
— Acho que esse italiano já conquistou tudo. — Sorriu de lado. — Fotos? Desde quando colocam cabine em um show de rock?
— Desde que uma fã de rock gosta de tirar fotos e vai até a cabine. — Se referiu a .
— Pode ser que você esteja certo.
Uma banda já tocava no palco principal, e o único. Andaram até a cabine. Mesmo sendo uma de suas bandas favoritas que estava tocando, eles não se importaram. Queriam tirar as fotografias e poder guardar consigo na carteira, ou em qualquer lugar que eles pudessem ver. Ambos pegaram uma ou duas fileirinhas de fotos, porém deixaram guardadas na bolsa de .
Eles curtiram o show longe da barra, cantaram e até mesmo riram de alguns tropeços que viam as pessoas dar. Era a melhor noite de , o melhor momento, o melhor intercâmbio. Ela não queria ficar longe dele, muito menos ir embora da Itália. Mesmo enviando seus currículos para muitos lugares, para conseguir um emprego efetivado, as coisas estavam complicadas — o curso no qual ela se formou, letras, era válido para atuar na Europa.
— Achei vocês — disse Mika. — Estou ficando com fome. Acharam um lugar para a gente comer?
— Ela está reclamando faz meia hora.
— Vamos achar algo para comer — disse. — Você vai ficar até o fim?
— Não, quero ir embora logo. Preciso dormir, tomei cerveja demais.
— Sua sorte foi que você estava com o Don então, se não já tinha caído.
— Eu a segurei muitas vezes. — Riu. — Se empolgou demais com o show do Metallica.
— E quem não consegue se empolgar? — comentou.
— Logo é minha banda no palco, logo verei minha banda de perto. — chegou perto do foodtruck. — Pode escolher, senhorita.
— Um paraíso. — Todos riram.
Com seus pedidos, eles sentaram à mesa que havia ali no local e ficaram conversando, até o momento em que Mika e Don foram embora.
— Por favor, só hoje, tome iniciativa e comece um namoro com ele.
— Mika! Eu já disse que não dá.
— Dá, sim. Você precisa lembrar-se de viver o hoje, pois amanhã tudo se ajeita perfeitamente, acredite.
— Péssima influência de você. — Sorriu para a amiga. — Prometo pensar com carinho.
— Isso, e não demora para ir para casa.
— Não demoro. Vai logo, Don está esperando você. Tchau.
— Tchau.
— Don vai cuidar bem dela, né?
— Don é meu primo. — olhou surpresa. — Ele foi criado junto comigo, ou vice-versa. Acredite, ele vai cuidar bem dela.
— É bom mesmo. Vamos para a barra? Ou perto da barra, quero vê-los de pertinho.
— Onde você quiser. — Segurou a mão dela e começaram a andar.
e ficaram quase perto da barra e longe das famosas rodinhas de shows. As bandas foram se apresentando, e eles curtindo junto à chuva que caía para refrescar aquela energia de todos. Na última banda, eles já estavam cansados e praticamente ensopados por conta da chuva, além de ser muito tarde. Juntos, escolheram ir para casa, mas antes eles iriam ver algum lugar aberto e comer fora, ou no carro.



Com a chuva amenizada e com o casaco seco de , ficou no carro, enquanto ele pedia uma pizza no único lugar aberto que eles haviam achado.
— Aqui, mozzarella e pepperoni. Segure, por favor.
— Duas caixas, seria meu sonho?
— Bom, pode ser. — Ele riu. — O refrigerante está em casa.
— Eu me contento com a pizza. — Pegava uma rodela. — Quer uma?
— Sì. — Ela colocou na boca dele, afinal, ele estava dirigindo na chuva. — Grazie.
estacionou na frente do prédio — sua casa —, entraram correndo e subiram os lances de escadas. Sentaram-se na pequena mesa perto da varandinha e ficaram por lá comendo.
— A chuva aumentou, eu estou com uma preguiça.
— Dorme aqui. Você pode tomar um banho e eu empresto alguma blusa minha que fique grande, quase um vestido.
— Pode ser. Onde fica o banheiro?
— No meu quarto. Pode mexer na gaveta e ver se tem uma que serve e que você se sinta à vontade. Eu vou ficar aqui na sala, ou na cozinha. Ah, no armário do banheiro tem toalhas limpas.
— Eu ia perguntar delas. — Sorriu. — Já volto.
Ela sorriu e foi para o banho, bem rápido. Secou seus cachos um tanto quanto rebeldes e procurou uma blusa que servisse nela. Até que uma blusa que nem ela imaginaria encontrar serviu nela, a do McFly. Ela riu ao colocar a blusa e saiu para a sala, ainda rindo.
— Não achei que uma blusa dessa ia me servir. — Ela ria.
— Você achou meu segredo mais profundo. Pelo menos serviu direito em você.
— É o meu também. Por trás dessa roqueira, meu amor pelo McFly ainda prevalece.
— Aproveitando. — Segurou-a pela cintura. — Tentei evitar de todas as formas possíveis me apaixonar por você, mas falhei e eu não consigo imaginar um dia sem ter você ao meu lado.
, você sabe que a probabilidade de ficar aqui é pequena. Eu posso voltar para o Brasil no final do ano.
— Eu sei, , mas se ficarmos agora, não sabemos se você vai ter um trabalho aqui, não podemos nos precipitar, porém podemos tentar. — Ela concordou com as palavras dele. — Podemos tentar então? , você aceita namorar comigo? Prometo ser um namorado italiano, fã de McFly e roqueiro mais legal que você vai ter.
— Eu aceito. — Ela ria. — Mas essa história do McFly você vai ter que me contar. — Passou os braços em volta do pescoço dele.
— Pode deixar que eu conto. — A beijou. — Depois que te encher de beijos.



No dia seguinte, no começo da tarde, voltou para sua casa, acompanhada por seu namorado. Mikaella estava terminando de limpar a sala, quando entrou no apartamento.
— Achei que não ia mais chegar.
— Perdão, eu passei a noite fora.
— Jura? — Ela ria. — Se você não tivesse falado, eu não ia perceber.
— Engraçada você.
— Eu sei, eu sei. Agora, aconteceu alguma coisa? Vocês dois?
— Não, isso não, mas ele me pediu em namoro.
— Você aceitou? — Foi mais perto da amiga.
— Aceitei.
— É um milagre, não acredito! — Abraçou. — Ai, que fofos. Vocês dois são tão lindos juntos, parece até e Julieta.
— Calma, o morre, e não quero que o meu morra.
— É, eu não havia pensado nisso, mas são e modernos.
— Pode ser. — Sorria igual boba. — Vou me trocar e colocar a roupa para lavar. Já volto para te ajudar.
— Estarei esperando.
e passavam quase diariamente juntos; em dias de folga, eles passeavam, ou até mesmo iam ficar um tempo no trabalho de cada um. A pequena praça em frente à casa e à loja de era o ponto de encontro favorito do casal. Porém, mesmo com esses dias cheios de amor, o medo de ambos era que não conseguisse ficar em Milão.

Sei

Dias passando, e o aniversário de estava chegando. Mikaella, junto de Don e , fizeram uma pequena festa surpresa para a garota. , para não levantar suspeita da festa, na verdade a única coisa que sentiu falta foi um “Parabéns” das três pessoas mais importantes na Itália.
Entre uma mensagem e outra, foi para o shopping mais próximo, passou em diversas lojas, procurando algo que imaginaria que ela iria gostar.
— Buon pomeriggio, gostaria de levar esse. — Colocou a caixinha em cima do caixa.
— Buon pomerigio.
— È per regalo, tem papel de presente?
— Temos, sim. Irei embrulhar para o senhor.
— Grazie.
pagou o presente e agradeceu ao atendente. No caminho, parou em frente a uma floricultura e comprou um buquê para sua . Teria que chegar logo à casa dela e de Mika, entretanto, deixou seu carro em sua casa e foi a pé até o apartamento. Tudo já estava pronto, os últimos detalhes que ficaram para o casal foram colocados, agora era só esperar chegar.



voltava para casa enquanto conversava com sua mãe e encaracolava seus fios, uma mania que tinha desde que se entendia por gente.
— Ah, mãe, também estou com saudades, mas logo estarei em casa, em três meses, e logo estaremos juntas.
— Mas dessa vez eu não fiz bolo, é muito estranho. — Riram.
— Olha, eu confesso que também queria um bolo seu, mãe, com um belo brigadeiro de dar água na boca.
— Mika não fez nada?
— Não sei. Ela e os meninos não deram parabéns até agora.
— Deve ter sido corrido, tem que dar um desconto. Seu pai te ligou?
— Ligou, sim, mãe, no meu almoço. Ele estava trabalhando ainda.
— Falei para ele ligar mais tarde.
— Está tudo bem, não atrapalhou. Estou no meu prédio já.
— Coma algo antes de dormir, viu.
— Pode deixar, vou desligar. Até, mãe, te amo.
— Também te amo, filha.
jogou o celular na bolsa e pegou a chave do apartamento. Ao abrir, levou um susto e precisou se segurar no batente da porta. Seus olhos brilharam ao ver que eles estavam ali e não haviam esquecido, como imaginou.
— Vocês lembraram.
— E tem como não lembrar? Está anotado até na minha testa — Mikaella disse, indo abraçá-la. — Só queríamos fazer uma pequena surpresa. Parabéns, minha musa.
— Obrigada, e obrigada pela surpresa.
— Foi feito por nós todos. — Don se aproximou. — Parabéns, . Obrigada por aparecer em Milão e fazer aquele idiota se apaixonar. — Riu. — Não aguentava vê-lo tentando chegar nas meninas e só eu conseguindo.
— Ei. — Mika deu um tapinha de leve em Don.
— Ai, vocês dois.
Mika fechou a porta, enquanto a acompanhava até a cozinha.
— E falta eu, mas te dou um parabéns completo depois. — Abraçava pela cintura. — Além de entregar seu presente.
— Não precisava, mesmo.
— Você me deu um, por que não posso dar um presente para você?
— Não vou discutir sobre isso. — Riu. — Até porque eu amo receber presentes. — Sorriu.
— Percebi, amore.
Selaram seus lábios brevemente. Os dois casais sentaram-se à mesa e jantaram primeiramente. Ficaram conversando e jogando jogos de tabuleiro até onze horas, quando foram cantar parabéns — em italiano —, para , que nitidamente não sabia se batia palmas, ou se apenas olhava para eles, como sempre acontecia em seus aniversários.
Quase no fim do dia de seu aniversário, a chamou para a pequena varanda que tinha no apartamento da menina, junto da sacolinha de presente. Ficaram juntos na cadeira que havia ali fora.
— Pensei muito no que te dar, não vou mentir, mas cheguei à conclusão de que esse é o melhor presente. — Entregou.
— Sério, qualquer presente seria recebido com muito amor. Até mesmo se fosse um girassol. — Abriu. — Mas que gracinha! Olha, um funko. Eu ainda não acredito que tenho o Corey. — Ria toda boba. — Grazie, amore mio.
— Eu imaginei. Só tinha esse na loja. Na verdade, acho que era seu desde sempre. — A beijou.
— Vou colocar do lado da cama, bem na cabeceira. Vai ficar lindo.
colocou o funko de volta na caixinha, colocou na pequena mesinha que ali tinha, e encostou em .
— Nenhuma escola chamou você para uma entrevista?
— Ainda não. Estou esperando, mas nada até agora. Eu queria que chamassem logo, os meses estão acabando.
sentiu seus olhos marejarem. Deu graças a Deus que ela não conseguia ver como estava, muito menos imaginar que já tinha uma decisão tomada. Afagava os fios cacheados de . Podia ser que sua história com ela seria a mesma de e Julieta, porém, no lugar de um final trágico, eles apenas se separavam e viveriam para sempre em continentes diferentes.



O casal aproveitou os últimos meses como se fossem os últimos dias de sua vida. enviava currículo para todo o lugar que podia. também fazia o mesmo para poder ajudá-la, não só por ele, mas ela já havia declarado que queria morar em Milão até se cansar do lugar.
Colocou até sua irmã no meio da entrega dos currículos, quase no último mês da garota no país.
— Meu irmão, você disse que era urgente.
— Obrigado por vir, Paula. Sim, no caso, não por mim, mas para .
— A garota que mudou meu irmão.
— Sì. — Deu um sorriso envergonhado.
— O que posso ajudar?
— Poderia levar o currículo até onde a madre trabalha?
, você sabe, você poderia levá-la, não vai matar você. Uns tapas pode ser. — Riu. — Um puxão de orelha, ou até mesmo falar que você está de castigo mesmo não morando com ela, mas ela não vai te matar.
— Paula, eu não estou preparado para poder falar com ela ainda. Eu preciso, eu sei, mas não agora. Poderia levar só o currículo e depois converso com ela.
— Promete? — Levantou o dedinho, como sempre faziam quando eram pequenos.
— Prometo. — Fez a promessa. — Grazie, irmã.
— Não tem o que agradecer. Espero que a mãe consiga a vaga para ela, e assim ela não vá embora. Agora preciso ir. Até mais. Eu te aviso quando entregar.
— Até. Cuidado.
Angustiante, essa palavra definia por inteiro. Ele queria respostas de , queria de Paula e de sua mãe. Queria até mesmo uma resposta divina se ela seria “sua” para sempre. Se, depois de muito tempo, não achava um amor que lhe completava e enchia de todos os sentimentos mais puros, ao vê-la, sentiu todos estes sentimentos ao mesmo tempo. Não estava pronto para dizer adeus à garota.

“Entreguei. Madre disse que depois te dá o retorno sobre o currículo, mas você vai ser o último a ter informação. Primeiro vai avisar a .”

Recebeu a mensagem da irmã.

“Grazie, não tem problema, eu espero. Desde que possa ficar, eu estou feliz. Te retribuo depois.”

“Me deve, viu! Vou lembrar desse favor, não ache que esquecerei. Agora vou trabalhar. Beijos.”

“Beijos. Bom trabalho.”

Agora era só esperar, e esperar, e esperar… Os dias passaram, e não teve nada, nem mesmo pela livraria em que trabalhava. Não sabia como contar isso para Mikaella, ela também fez de tudo para a amiga ficar. E, por último, . Ah, sim, deixaria ele na Itália, mas como já tinha pretensões de voltar — olha que nem havia ido embora —, ela não iria terminar. Bom, era a ideia.
— Eu tentei, amiga. Perdão. Eu devia, sei lá, ter jogado seu currículo na mesa dos donos. — Fez rir.
— Nossa, aí que eles não iam contratar mesmo.
— Iam, sim. Ia ser o primeiro que iam ver e, com isso, iam te amar.
— Louca. Tudo está pronto. Agora a pior parte.
.
— É. — Sentou-se ao lado da amiga. — Mas volto daqui a seis meses. Tenho dinheiro guardado para isso, e o visto está garantido já. Meus pais vêm depois.
— Seu pai está indo atrás da cidadania?
— Está. Ele já deu entrada nos papéis, está na metade do processo. Colocou eu e mamãe também para podermos morar aqui com ele.
— Que seja em Milão.
— Mesmo se não for, caso seja na Itália, eu vivo feliz.
— Aí, longe de mim, como consegue viver feliz?
— Se eu morar em Viena, você vai para lá, passa dias comigo, anda nas gôndolas.
— Me convenceu. Agora vai falar com o antes que fique mais tarde. E já que você não está mais na livraria, pode sair com ele.
— Ele tem uma loja.
— Ele pode fechar — disse o óbvio. — Anda logo, vai. Don vai vir aqui em casa.
— Credo, estou indo.
Despediram-se da amiga e saíram, desviando das caixas de mudança. Como ambas não estavam mais no programa de estágio, Mika teria que se mudar. Ela só estava esperando a chave da casa para poder deixar o apartamento, alugado pelo próprio programa.



e haviam combinado de se encontrar em uma sorveteria, já que ele havia saído de uma reunião com a universidade. Por estar mais perto dele, o homem já havia chegado e pegado um lugar para eles. A cara de sério denunciava que algo não estava bem, e os olhos marejados da garota mostravam a vontade de não ir embora de sua doce Itália.
— Ciao.
— Ciao, amore — disse ela, com todo amor. E o beijo que receberia dela foi recusado discretamente por conta dos outros clientes. — Está tudo bem? — Segurou a mão dele.
Negou.
— Acho que devemos conversar.
— Sobre?
— Nós.
— Temos tempo ainda para ficarmos juntos. Não vou embora agora, não. — Sorriu. — Duas semanas, mas tem tempo.
— Não podemos. Não será justo um com o outro. Você vai, e eu fico.
— É. — Mexeu no cabelo. — Namoro à distância, nunca ouviu falar? Eu não vou deixar de falar com você nem um segundo. Vou enviar mensagem sempre, e nos vemos por vídeo chamada.
— Parece ser tão fácil para você.
— Mas é. Eu tenho planos para voltar, e logo.
Ele suspirou pesado e soltou a mão dela.
— Só pensa em você. Não passou em sua cabeça o que penso disso?
— Você sabia que eu ia embora em um ano, mas, mesmo assim, quis me pedir em namoro. Eu já tinha te avisado. Foi por isso que, todos os momentos que ficava mais sério, eu me afastava, .
— Terminamos então.
— Só isso? “Terminamos então.” Achei que até nisso era diferente, mas vejo ser igual aos outros.
levantou da cadeira, arrastando e fazendo barulho. Não se incomodou com todos os clientes a olhando, nem se mudaria de ideia ao vê-la ir embora da sorveteria. Enxugou as lágrimas e ficou andando por Milão, até voltar para casa.
De noite, precisou fingir que tudo estava bem para Mika, que eles estavam juntos e que terminariam no penúltimo dia dela em Milão. Só havia se esquecido que ela namorava o melhor amigo de .

Sette

Foram as piores duas semanas para eles. saía todos os dias, passeava sozinha e comia tudo o que queria. A verdade era que não foi tão ruim assim. Mesmo com o término, ela não precisou dele para ver mais lugares bonitos, não precisou achar novos pontos de comida — o que foi uma pena, pois todos eram muito bons, e até mesmo viu lugares para morar quando voltasse. Mas sabia que toda vez que voltava para casa e deitava em sua cama, sentia a falta de uma conversa com ele. não foi só um namorado, ensinou muita coisa para ela, foi uma boa companhia.



Faltando um dia para ela ir embora, Don ajudava a fechar a loja. Estava tudo certo, até o momento em que ele resolveu tocar no assunto da .
— E vocês? Pode ser sincero, não precisa mentir.
— Terminei com ela duas semanas antes de ela viajar.
— Mais que… — Respirou fundo. — O que você fez? Só porque ela vai embora, voltar para o país dela? Vocês podiam namorar à distância até ela voltar. Ela tem planos para voltar, ela não falou isso para você, não?
— Falou, mas acha que vai acontecer isso mesmo?
— Vai, porque ela quer, ela deseja e ela lutou para isso. Eu não acredito que meu primo conseguiu ser um idiota de perder aquela mulher. Mesmo com ela sabendo e avisando você, aceitou namorar com você sabendo do tempo dela aqui, dividiu tudo com você, e você fez essas coisas!
— Não, Donatello. Eu sabia, sabia que ela podia ficar aqui também.
— Você perdeu os argumentos, porque não consegue esconder o que sente por ela, então para e pense. Aproveita que você não vai abrir amanhã a loja e veja o que você fez. Ela pode voltar, era só você ter calma, se ela mesmo pensou nisso. Vou me encontrar com a Mika e amanhã a levo para o aeroporto para se despedir da .
Donatello estava certo, não conseguia fazer um argumento coerente. Não conseguiu ter um argumento coerente ao terminar com , podia ter apenas falado “Não quero ter um namoro à distância” e tudo sairia mais bonito. Se arrependimento matasse, ele teria morrido há duas semanas.
Andou devagar até chegar em casa, tomou um banho, procurou uma blusa para utilizar e, ironicamente, a do McFly estava por cima. Ele não havia contado a história e não ia mais fazer isso. Ele havia perdido a garota dos seus sonhos pelo seu próprio medo.



Em seu último dia ali, arrumou suas últimas coisas e, com isso, foi para o aeroporto. Com a mochila vinho, ela carregava o funko Corey e suas blusas de rock. Nunca se sentiu tão em casa em um país, era como se uma grande parte tivesse ficado ali, no país que chamou de lar desde que se entendeu por gente.
— Tudo ok com os documentos — Mika questionou. Eles já estavam no aeroporto.
— Sim, fiz o check-in e tudo correto. Agora é só esperar, né?
— É, a não ser que você queira ficar como desaparecida, ou como fugitiva. — Mikaella a fez rir.
— Vou sentir tantas saudades suas, amiga. Das nossas noites em claro tentando entender esses doramas da vida. Ai, tudo!
— Eu também, mas logo veremos. Espero que seu pai consiga tudo e que você volte para Milão o mais rápido possível.
— Volto, sim, pode acreditar. — A abraçou.
— E você. — Olhou para Don. — Cuide bem dela. É meio louca, mas, tratada como uma deusa, tudo fica perfeito.
— Vai ser bem cuidada. E ela impõe os limites, só vou controlar ela para não cair no chão de tanto beber.
— Por favor, não quero vê-la contando as quedas dela. Obrigada por tudo, Don.
— Eu que devo agradecer. Se cuida lá, , e mande mensagem sempre.
— Claro. E você vai lá. Vai amar, mesmo com os problemas que São Paulo tem, e come açaí, é lei.
— Certo, você que manda.
— Volo 143 da Milano a San Paolo, imbarco al gate 6.
— É minha deixa. Eu amo vocês muito, viu? Se cuidem e tentem me visitar se eu não voltar logo.
— Pode deixar.
entregou seus documentos e sua passagem para a moça que estava recebendo e esperou tudo de volta. Foi quando escutou seu nome sendo gritado e ecoando pelo aeroporto.
, espera.
— Eu preciso ir.
— Eu sei, mas calma, preciso te dizer algumas coisas antes. Eu sei que fui um idiota, eu sei, mas tive medo e eu deixei esse medo me cegar. Sabe quando encontramos nosso verdadeiro amor e ficamos até com medo de acreditar que é ele? Com medo de assumirmos para nós mesmos que encontramos tudo o que desejamos pela vida toda? Foi o que senti com você. Eu tive medo de te perder, de você voltar para o Brasil, de conhecer um outro homem e querer ficar com ele, mas agora, mesmo sabendo que seu voo está para decolar, eu só preciso saber de uma única coisa. Podemos voltar? Podemos namorar à distância? Eu só quero ser seu e mais nada.
— Eu queria falar tanta coisa, porém meu voo está quase indo sem mim, e se eu não aparecer no aeroporto de São Paulo, minha mãe surta, coloca até a Interpol para me procurar. Mas, resumindo tudo em uma única palavra, ou um pouco mais, sim, nós podemos voltar, podemos namorar à distância. Logo volto para você não ser só meu, mas para sermos um só, o que é mais legal.
— Temo di amarti, .
— Temo di amarti, .
Eles se beijaram rapidamente e se despediram. Pelo menos essa história moderna de e Julieta acabaria feliz, mesmo com quilômetros de distância e dias para se encontrarem mais uma vez.



Dentro do avião, colocou sua mala no bagageiro. Bom, tentou de muitas formas, até chegar ao ponto o qual o comissário de bordo se aproximou dela, e esbarrou nele. Por sorte, foi só um esbarrão e não uma cotovelada no rosto.
A única coisa que levou junto a si foi a mochila vinho junto ao funko, que fez questão de deixá-lo à vista só para si e também das fotografias que tirou com todos os dias que passaram juntos. Itália foi bem mais que um Scambio, foi amore, vinho e divertimento.
Sobrevoava pelo oceano, admirando cada imensidão do mundo, mas com um sentimento feliz, é claro, depois de tudo se ajeitar como desejava. Queria só chegar em casa, estava com saudades de São Paulo, da sua família e até mesmo de sua gatinha, que havia deixado com seus pais para cuidarem dela.
Onze horas de voo com conexão, sua mãe já estava se descabelando mesmo sabendo do tempo do voo. Seu pai, por outro lado, estava calmo, tão calmo que dormiu sentado no banco de espera.

— Acorda, ela chegou — disse a senhora Ramos, olhando o painel de desembarque.
— Vamos.
O patriarca estava ainda sonolento, colocou uma bala na boca e esperou a filha ao lado de sua esposa. Era muita saudade da família. foi contando tudo pelo percurso da casa, desde o festival de rock até o momento em que conheceu Milão toda para poder enviar currículo, mas não comentou sobre , era muito cedo ainda.



Duas semanas depois que já estava no Brasil, já tinha um compromisso para ir, um que ela queria com muito amor.
— Filha? Está pronta? — Viu a menina sentada no chão, acariciando os pelos da gatinha.
— Sim. Se comporta, nada de subir nos lugares altos para derrubar tudo.
— Ela não vai subir. — A mulher riu. — Seus documentos estão com você?
— Peguei tudo, está na bolsa. Ele só vai fazer perguntas?
— Isso. Quer saber também qual seu objetivo na Itália, não quer saber um lugar específico. — Entraram no carro.
— Se questionar o motivo de você estar lá, pode dizer a verdade, ou se perguntarem se concorda em pegar a cidadania — seu pai falou enquanto dirigia.
— Vai ser fácil então. Vocês já fizeram?
— Não podíamos, tivemos que esperar você — a senhora falou. — Eles consideram como se estivéssemos privilegiando suas respostas.
— Todos vamos fazer ao mesmo tempo, mas não precisa ficar nervosa.
— Vou não, pai. Minha cota de nervosismo se foi há muito tempo.
A família chegou à assessoria italiana, tendo sido separada e ficado em uma sala de espera, onde ainda se podia mexer no celular. Com a demora, recebeu uma mensagem de e um sorriso involuntário apareceu em seus lábios.

“Ciao, amore. Tenho que te contar uma coisa. Espero que não tenha acordado você.”
“Ciao, . Acordou não, eu estou vendo sobre a cidadania italiana. Tem algo para contar?”
“Consegui meu visto para o Brasil.”
“PARA QUANDO? NÃO ACREDITO!”
“Eu preciso ver quando vou, mas ele vale por um ano e meio, posso ir nesse meio tempo.”
“Dependendo, pode vir quando eu for voltar para a Itália. Acho que pego hoje a cidadania.”
“Me avisa que compro para um mês e volto no dia que você vier, ou dias antes.”


— Senhorita Ramos.

“Eu tenho que ir, daqui a pouco eu volto.”
“Ok, amore.”


— Deixe suas coisas aqui e depois você pode pegar. — Referiu-se ao celular e à bolsa.
— Certo.
— Sente-se…
As entrevistas foram bem-sucedidas, com dia marcado para receber a cidadania, e agora só faltava uma única coisa: o dia em que eles iriam se mudar para a Itália.

Otto

e haviam combinado um horário para poderem conversar por chamada de vídeo, um horário que não atrapalhava ele e nem ela. A garota estava sentada de frente para seu computador, esperando ele ligar para ela. Fazia isso há duas semanas, e apenas uma vez que não deu muito certo esse namoro à distância por chamada de vídeo, pois precisou estudar para uma prova no dia seguinte.

“Oi.”
“Oi. Como foi seu dia, ?”
“Bem, cansativo. Dei assistência em uma escolinha aqui perto, depois aproveitei o tempo livre e fiquei lendo até dar o horário. E o seu?”
“Depois que falei com você, fui para a aula e trabalhei até tarde. Minha irmã está ajudando a manter a loja aberta.”
“Conversou com sua mãe já? Quero que vocês se entendam logo.”
“Ainda não… Quero fazer isso logo, antes de você voltar, ou melhor, de eu ir aí.”
“Ai, é. Eu peguei minha cidadania, só preciso esperar meu pai pegar a transferência do emprego, eu solicitar as contas e a mamãe também.”
“Tem mês marcado?”
“Não, mas, pelo que conheço sobre, pode ser daqui a três meses.”
“Vou começar a ver então as passagens. Mika não falou nada dos currículos?”
“Estou esperando ainda, mas está complicado, porém não estou me incomodando com isso agora.”
“Por conta do seu pai já ter o emprego.”
“Isso. Rapidinho, minha mãe está batendo à porta.”


— Filha, comprei açaí para você. Tem uvas como você gosta.
— Obrigada, já não aguento mais o calor. — Deu um beijo na bochecha de sua mãe. — Depois podemos conversar?
— Claro, filha. Mais tarde passo aqui.

“Voltei. Mas acho que consigo algo por aí, ou então em outra cidade.”
“Vejo que terei que me mudar. Vou colocar na lista de prioridade depois da universidade.”
“Não precisa.”
— Riu. “A gente pode ver o que faz depois. Bom, acho que a melhor coisa é ter calma para ter nossas coisas, não digo nós, eu e você, mas o que desejamos.”
“Sim, eu entendi.”
— Sorriu. “Eu concordo com você. Desculpa, mas o que você está comendo?”
“Açaí. É maravilhoso, e é com uva. Quando você vier aqui, eu te levo para experimentar.”
“Vou cobrar, viu.”


Eles ficaram até de madrugada conversando e só foram dormir quando já estava quase desmaiando de sono.
No dia seguinte, acordou cedo para o trabalho e aproveitou para conversar com sua mãe a conversa que foi adiada pela chamada de vídeo.
— Bom dia.
— Bom dia. Desculpa, eu fiquei muito tempo na chamada de vídeo.
— Tudo bem. O que você queria conversar, filha?
— Quando eu estava em Milão, conheci um garoto chamado . Nós nos conhecemos, saímos juntos, e acho que foi amor à primeira vista. Digo, à segunda vista, sabe? Depois de um tempo, começamos a namorar e estamos até hoje juntos. — Pulou a parte em que se separaram.
— Ai, que lindo. Queria poder conhecê-lo.
— Então é nessa parte que quero chegar. Ele está para vir ao Brasil. Não vai ficar, mas pretende passar aqui.
— Vai ser bem recebido. Agora só precisa ver a reação do seu pai. — As mulheres riram. — Falo com ele, vou preparando o terreno.
— Muito obrigada. — Pegou um pedaço de pão. — Vou indo, vou chegar atrasada daqui a pouco.
— Tchau, vai com Deus. — A benzeu da mesma forma quando ela foi para a Itália.



Uma correspondência havia chegado para os Ramos. assinou a liberação da carta e entrou lendo. Um sorriso apareceu enquanto ia a caminho da cozinha, onde estava apenas sua mãe terminando o almoço.
— Mãe, carta da associação italiana.
— E o que diz? — A moça enxugou as mãos. — Fala logo.
— Podemos nos mudar, temos nossa cidadania.
— Vou avisar seu pai.
— Mãe, ele está trabalhando.
— Melhor ainda. Quando ele sair, comprará algo para comemorarmos.
— Meu Deus, dona Ramos.
Rapidamente, pegou seu celular e enviou uma mensagem breve para Mika.

“Cidadania saiu! Mika, eu não estou acreditando.”
“MENTIRA! Eu não vejo a hora de você voltar.”
“Também. Não conta ainda para o .”
“Segredo nosso.”




Enquanto isso, em Milão, decidiu conversar com sua mãe. Precisava acertar tudo com ela. Além de pedir desculpas, precisava contar tudo para ela, ah, e, claro, avisar que iria viajar para o Brasil.
Parou em frente à casa de sua mãe e hesitou antes de entrar, não pensou que fosse tão difícil assim. Destrancou o portão e entrou devagar. Não tinha como fazer barulho, já que a mulher morava sozinha no momento e não tinha um animalzinho de estimação.
— Madre? — a chamou pela casa.
? Você aqui? Achei que só sua irmã ia vir aqui hoje. — Saiu do escritório particular.
— Vim aqui. Na verdade, foi de última hora que escolhi isso. Podemos conversar ou está muito ocupada?
— Pode ser agora. Quer café? Tem aquele bolo que você gosta. — Golpe baixo, ele amava bolo de chocolate.
— Aceito, mãe. Eu queria apenas me desculpar por tudo. Sei que antigamente fiz tudo errado, bebia demais, saía e só voltava depois de dias. Sair daqui e ir para a casa da tia também não foi uma atitude muito boa.
— Filho. — Acariciou o braço do garoto. — Não precisa se desculpar. Nós brigamos muito, eu sei, mas está tudo certo agora, e minha mãe te ajudou muito e me ajudou também. As broncas era eu que dava. — Viu o filho rir. — Ela falava as coisas que você aprontava, e eu falava o que precisava ser dito, fora o que ela queria falar… Aprendemos muito com tudo, seu pai também.
— Ele está em tour?
— Sim, está. Terá que esperar ele para poder conversar.
— Sem problemas. Preciso dar mais uma notícia. Eu vou para o Brasil ver a , depois aviso quando eu voltar.
— Cuidado. Você tem tudo para ir lá?
— Tenho, a Paula ajudou a preparar.
— Me avise quando chegar lá, por favor.
— Sì.
— Vou sair rapidinho e volto em breve. Vai me esperar aqui?
— Pode ser.
Nesse meio tempo, pegou seu celular.

“Amore.”
“Oi, perdão pela demora.”
“Tudo bem, . Eu conversei com minha mãe, está tudo resolvido, e ela quer conhecer você pessoalmente.”
“Estou tão feliz! Quando eu for aí, nós a visitamos. Foi meio complicado?”
“Não, foi até que fácil. Ela já havia esquecido e perdoado também, só estava esperando eu ir conversar com ela.”
“Perfeito. Acho que agora tudo vai ficar melhor.”
“Fica melhor quando eu estiver com você.”
“O que eu espero que seja rápido.”


Eles conversaram até sua mãe chegar. ficou até o fim da tarde na casa de sua mãe e só foi embora no dia seguinte. Fizeram um programa de mãe e filho, com direito a todas as bobeiras para comer enquanto viam os filmes.



Os meses foram passando, e havia comprado sua passagem para duas semanas. Como ele já tinha arrumado tudo com sua irmã, sua mãe fez questão de levá-lo ao aeroporto, e, como uma boa mãe, levou um pedaço do bolo para ele comer enquanto esperava o voo ser anunciado.
estava à espera dele. Seu pai havia aceitado, mas queria conhecer o garoto. A família Ramos havia preparado tudo para receber o garoto — bom, toda a família sabia falar italiano, só a senhora Ramos que dava algumas travadas ainda — e ensiná-lo a ir até o hotel e à casa da garota.
— Nervosa? — sua mãe questionou.
— Eu estou, e com saudades também. Ali ele.
. — Abraçou a garota. — Eu estava com saudades.
— Eu também, . Deixa eu apresentar, essa é minha mãe e esse é meu pai.
— É um prazer conhecê-los. sempre falou muito bem de vocês.
também sempre falou bem de você. Disse que você tem uma loja de música.
— Tenho, sim, senhora. Ficava perto de onde morou.
— E gosta de rock? — o senhor questionou.
— Ah, sim, meu gosto musical favorito.
— Pronto, lá se vai meu namorado. — e sua mãe riram.
Foi um momento maravilhoso. A comida brasileira encantou , a beleza de São Paulo e o sotaque da cidade. Tudo o deixou impressionado, mas o que mais amou com certeza foi o açaí, ele comeu duas vezes, quase todos os dias que ficou no Brasil. O que deixou até impressionada com o tamanho amor dele pelo doce.
— Deveria ter em Milão, é maravilhoso. — Pegou uma colher farta.
— Deve ter, mas não é igual. Podemos abrir um lugarzinho que fornece açaí, os brasileiros de lá iam amar.
— Eu também. E você já sabe quando vai para a Itália?
— Amor, queria dizer que sei, porém não sei, mas queria que fosse logo. E-mail?
— Nunca recebeu um? — Brincou com a garota, e ela mostrou a língua em resposta.
— A universidade está me contratando. Só agora eles conseguiram me responder.
— Isso é maravilhoso!
— Eu preciso voltar logo, e acho que vou voltar com você.
— E seus pais?
— Eles vêm logo. Eu vou levar algumas roupas e as outras eles doam. O resto da mudança eles vêem como faz, não posso perder essa oportunidade.
— A melhor companhia de voo, então. Não existe nada melhor que eu, .
Na volta para casa, ela contou aos seus pais que foi aceita tranquilamente. Comprou a passagem — ironicamente no mesmo voo que — para Milão e arrumou tudo. Além de ter um cargo muito importante, procuraria uma casa para eles e uma gatinha para morar lá. Seria mais um sonho realizado.
Chegaram a Milão, e a garota mal teve tempo de arrumar tudo na casa de , ela saiu de imediato e foi para a universidade fazer a entrevista. Quem diria que um dia se sentiria tão importante assim.
— Boa tarde. Perdão pela demora, eu não esperava a demora do voo.
— Sem problema, . Eu sou Francesca. Vou fazer algumas perguntas bem simples. — A menina concordou. — Você tem interesse em ensinar literatura da cultura italiana?
— Sim.
— Por que tem essa vontade?
— Desde pequena, sempre fui apaixonada por livros clássicos e modernos. O modo como fui estudando no Brasil só me fez me apaixonar mais pela literatura, e, como sou descendente de italiano, tudo ficou mais fácil de compreender meu futuro.
— Você fala com tanto gosto que nem preciso fazer mais perguntas. — Sorria. — Bem-vinda à equipe docente da universidade.
— Muito obrigada. — Apertaram as mãos, fechando o mais novo passo de .
Com o contrato lido e assinado, ela voltou para a casa de , avisou sua mãe e seu pai sobre o emprego e visitou Mika e Don. De última hora, quis fazer uma comemoração simples referente à conquista da menina, mas seria na casa da sua mãe.



— Chegamos. Don já sabe como é aqui, conhece de olhos fechados.
— Essa casa tem muita história nossa. Chamou a Paula?
— Chamei, logo ela aparece. Mãe, chegamos.
— Oi, filho. — Saía da cozinha. — ?
— Senhora Francisca.
— Não esperava que você fosse a do meu filho.
— Estamos todos em família então, só vou apresentar a minha namorada, Mikaella. — Don disse entre risos.
Mundo pequeno e um destino gigante, isso definia tudo que aconteceu na vida de e .
Um mês depois, seus pais se mudaram para a casa que ela mesma escolheu, juntamente a e Mika. Precisou achar um meio termo para agradar ambos e agora sua sogra.
sempre amou as surpresas da vida. Vindo da classe média, amando suas conquistas e seus pais, ela queria conseguir tudo que seu coração desejava, e agora um desejo que tinha desde pequena se realizou, mas nunca imaginou que conheceria , com quem planejou apenas o hoje. E o amanhã, bom… Às vezes, o próximo mês tem algum festival de rock.
Fim
Nota da autora
Obrigada por ter lido a fanfic todinha. Eu espero do fundo do coração que você tenha gostado da fic, dos personagens e também da Itália. Eu amo esse país e espero que você tenha conseguido se sentir igual eu, dentro de Milão em todos os cantos da fic. Quem sabe eu não dou uma continuação para Scambio d’amore.
Realmente espero que tenham gostado da fanfic ❤
Fanfic escrita desde 2020.

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