Revisada por: Polaris 👩🏼🚀
Última Atualização: 31/10/2025Com seus corredores imponentes e salões grandiosos, o hotel oferecia a cada um de seus hóspedes uma experiência única, e era perfeito para Jonathan, que só precisava de um escape para sua vida extremamente agitada.
Qualquer pessoa que conhecesse Blake falaria do quanto o homem era curioso e de como sua avidez pelo desconhecido já havia o colocado em diversas furadas.
Foi movido por essa curiosidade incessante que Jonathan resolveu explorar todos os cômodos possíveis do Hotel Espectral. Munido de sua câmera, que carregava para onde ia, cada um de seus passos era documentado enquanto se aventurava.
De início, não encontrou nada muito diferente do que se esperava em um hotel: corredores vazios, hóspedes saindo ou entrando em seus quartos, e alguns funcionários que o encaravam com um ar que beirava a desconfiança, porém nada o intimidava.
A iluminação fraca e as paredes cobertas por tapeçarias antigas carregavam ainda mais a atmosfera do ambiente. O silêncio parecia envolvê-lo como um manto pesado, e os passos de Jonathan ecoavam contra o piso frio dos corredores estreitos. Suas sombras dançavam nas paredes de forma fantasmagórica e a cada andar que subia, a sensação de que estas o observavam aumentava.
O vislumbre de uma porta semiaberta fez Blake parar subitamente. Aquela ala do hotel parecia completamente esquecida e algo lhe dizia para não avançar. No entanto, a mesma curiosidade que o guiou até ali não o permitiria desistir. Não tão perto.
Ao empurrar a porta, o rangido da madeira quebrou o silêncio. Jonathan não demorou para identificar que o ambiente mergulhado em sombras era uma suíte, onde havia uma grande cama de casal com um dossel de madeira, um guarda-roupas entalhado e uma pequena mesa próxima à janela. O tapete do centro estava encardido e, em um dos lados da cama, havia uma mesa de cabeceira com uma vitrola em cima dela. Grossas teias de aranha atravessavam o ambiente e os móveis cobertos de poeira denunciavam há quanto tempo ninguém aparecia por lá. O rapaz se perguntou o motivo, e, quando tentou acender a luz, descobriu que a lâmpada estava queimada.
Novamente, não se intimidou e usou a lanterna do celular para continuar a explorar e gravar tudo.
Um espirro foi o primeiro protesto e talvez um sinal de que ele não deveria se atrever a adentrar ainda mais o cômodo, porém Blake, mais uma vez, não deu ouvidos, e fez questão de documentar cada canto que apareceu em seu campo de visão. Seu nariz coçou por dentro e ele soube que sua rinite estava prestes a dar as caras, porém, por tudo o que via, valia muito a pena.
Quem diria que em um hotel tão esplêndido haveria um quarto empoeirado!
Então ele o viu.
Posicionado a apenas alguns metros da cama, um grande lençol branco o cobria, mas, ainda assim, seria impossível não o notar.
Sem hesitar, Jonathan se aproximou e puxou o tecido fedendo a mofo. Espirrou quando a poeira veio toda em sua direção, porém o incômodo imediatamente se transformou em fascínio assim que seus olhos pousaram no objeto à sua frente.
Com uma moldura dourada e envelhecida, coberto por inscrições em um idioma que ele não reconhecia, havia um espelho que devia ter pouco mais de um metro de altura.
Diferente do resto do cômodo e até mesmo da própria moldura, nada interferia no reflexo. Não havia sujeira, rachaduras ou sequer um arranhão.
Aquilo deixou Jonathan intrigado.
Sua mão se estendeu para tocar sua superfície, porém algo o deteve e a sensação súbita de que devia correr dali finalmente o fez recuar pela primeira vez.
Dois passos.
Então as inscrições se iluminaram de uma ponta à outra, como se o convidassem a se aproximar mais uma vez.
Embasbacado, Blake o fez.
— Será que isso é um espelho encantado? E se eu tentar fazer um pedido? — Deveria se sentir idiota por pensar algo como aquilo, porém não se importou. Estava só e poderia facilmente editar o vídeo se nada acontecesse.
Jonathan respirou profundamente e buscou concentração. O brilho do espelho pareceu aumentar e ele pôde jurar que seu próprio reflexo tremeu.
— Quero viajar o mundo descobrindo artefatos como esse. E quero ficar mundialmente famoso por isso. — O pedido veio do âmago de seu ser e apenas a ideia de aquilo se realizar trouxe a ele uma extrema euforia.
Uma risada escapou de seus lábios, seu corpo tremeu mais e Blake negou com a cabeça quando, logo após externar seu desejo, enxergou seu próprio reflexo piscar para ele.
Estava imaginando coisas. Aquilo provavelmente era apenas um espelho comum.
Um barulho estridente o fez pular de susto e, com o coração saltando até a boca, Jonathan percebeu que a vitrola havia começado a tocar sozinha uma melodia que ele não conhecia, porém não havia disco e, até onde havia visto, ela não estava ligada.
— Mas o que…
— Jonathan! — uma voz sussurrou em seu ouvido e, com um sobressalto, o rapaz tornou a encarar seu reflexo no espelho.
As inscrições douradas brilhavam como nunca, os olhos de Blake se arregalaram e, antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, antes mesmo que pudesse pensar no que acontecia, duas mãos o agarraram pelos ombros e o puxaram para dentro do espelho.
A câmera de Jonathan caiu com um baque surdo, ainda apontando para seu reflexo. O celular do rapaz se espatifou ao lado dela e ainda emitia a luz da lanterna quando sua tela se rachou.
O brilho da moldura se apagou aos poucos, a silhueta de Blake desapareceu e, de repente, era como se nada tivesse acontecido. O espelho então permaneceu ali, esquecido em uma ala deserta do Hotel Espectral.
Ao contrário do desejo desesperado de seu coração, se não fossem as duas evidências caídas ali naquele cômodo, ninguém sequer teria ideia da existência de Jonathan Blake.
Isso se alguém desse sua falta o suficiente para ir atrás dele afinal.
Num primeiro momento, não se ouviu nada do outro lado da linha, e o rapaz estava prestes a desligar quando uma voz trêmula se pronunciou.
— S-Senhor Jones? Da Mistérios S.A.? — Fred imediatamente se empertigou e acenou positivamente, como se pudessem vê-lo.
— Isso mesmo. No que podemos ajudar?
— Senhor Jones, meu nome é Marlowe e eu sou gerente do Hotel Espectral. Peço discrição, mas nós precisamos muito da ajuda de vocês. Um de nossos hóspedes desapareceu sem deixar rastros e a polícia não encontrou nada suspeito, mas… Tem algo de errado com esse lugar. Têm acontecido outras coisas que não são normais. — Fred podia apostar que o homem do outro lado estremeceu com um calafrio.
Ele franziu o cenho e olhou para seus amigos, que haviam parado tudo o que faziam para prestar atenção. Daphne assentiu positivamente, mesmo sem ter ouvido uma palavra.
— Entendido, senhor Marlowe. Pode contar conosco. Onde fica o seu hotel?
— Em Cypress Hollow, no sul da Louisiana. Se puderem se apressar, temo que mais hóspedes desapareçam, senhor Jones. — A aflição estava nítida em seu tom de voz.
— Hotel Espectral, Cypress Hollow, Louisiana — Fred repetiu e lançou um olhar rápido a Velma, que ajeitou os óculos e já abriu o laptop para começar a digitar a busca. — Entendido. Estaremos aí o mais breve possível.
A ligação foi encerrada com uma despedida breve. O tom grave da voz do gerente pareceu ecoar no ar.
A Mistérios S.A. havia acabado de voltar da investigação de um caso, porém sua sede por mais nunca terminava, e, por esse motivo, sorrisos animados foram trocados.
— O que tem de bom pra comer em Cypress Hollow? — Shaggy Rogers questionou em um tom tão sério que atraiu a atenção de todos.
— Eu não sei, Shaggy. Mas essa história já me deu fome. — Scooby Doo passou a mão na barriga para reforçar seu ponto.
— Incrível como vocês dois só pensam em comida. — Daphne revirou os olhos e se aproximou de Velma para tentar espiar a tela do laptop.
— E tem coisa melhor para se pensar? — Shaggy soltou uma risadinha, que foi acompanhada por Scooby.
— O Hotel Espectral foi fundado em 1892, em Cypress Hollow, Louisiana. Possui uma arquitetura gótica e é muito famoso entre turistas. — Velma os ignorou e leu em voz alta. — Ele tem também um histórico considerável de relatos estranhos. Sombras nos corredores, reflexos que se movem sozinhos e até… Uau! Um colecionador que desapareceu há décadas.
— Colecionador? — Daphne arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços.
Velma inclinou a tela do laptop para o grupo.
— Ele doou parte de sua coleção ao hotel em 1943. Algumas esculturas egípcias, pinturas, e um espelho antigo trazido da Europa. Pelas pesquisas que estou fazendo aqui, depois disso as histórias aumentaram.
Scooby estremeceu.
— Será que é algo amaldiçoado? Não gosto de espelhos, Shaggy! — E, com medo, pulou no colo do amigo.
Fred respirou fundo, na tentativa de esconder um sorriso. Aqueles dois realmente não tinham jeito, mas eram parte da turma e sempre seriam.
— Certo, pessoal. Arrumem tudo. Vamos sair antes que a chuva piore.
— Ótimo! — Rogers bufou baixinho, enquanto soltava Scooby. — A gente vai direto para um hotel mal-assombrado e com um tempo ruim desses… Isso nunca acaba bem.
— Cypress Hollow fica perto do Atchafalaya Basin. É cercada por pântanos, rios e, segundo o folclore local, há muitas histórias sobre espíritos errantes.
— Perfeito! — Shaggy resmungou, enquanto abraçava um pote de biscoitos. — Bem do jeitinho que eu gosto: úmido, escuro e cheio de coisas querendo nos pegar.
Daphne soltou uma risadinha e ajeitou os cabelos ao se encarar pelo espelho retrovisor.
— Pelo menos é um hotel famoso e tem avaliações ótimas sobre o café da manhã.
— Café da manhã? Eu tô dentro! — Scooby acordou de repente, o que fez todos rirem.
Fred mantinha o foco na estrada. Os ciprestes começavam a aparecer à medida que se aproximavam da cidade e suas copas retorcidas recortavam a névoa. Logo o letreiro “Bem-vindo a Cypress Hollow” surgiu à frente, meio corroído pela umidade, em um ar sinistro que não agradou nadinha a Shaggy.
Velma desligou o laptop e olhou para o grupo.
— O gerente pediu discrição porque o desaparecimento ainda não é público.
Rogers engoliu em seco.
— Ele desapareceu mesmo? Tipo… sumiu sumido? Puf?
— Sumiu sumido — ela confirmou. — Seu nome era Jonathan Blake e a única pista que encontraram foi a câmera dele caída no chão de um dos quartos, os últimos registros dela foram danificados, mas acredito que a gente possa dar um jeito nisso.
Um silêncio pesado tomou conta da van. Fred diminuiu a velocidade ao ver o brilho das luzes do estabelecimento à distância.
Daphne encostou o rosto no vidro.
— Uau, ele é enorme.
— Enorme e meio sinistro — acrescentou Shaggy, e apertou Scooby contra o peito. — Sério, por que todo hotel chique tem que parecer cenário de filme de terror?
Fred estacionou a van próximo à entrada principal e olhou brevemente para os amigos.
— Marlowe disse que nos encontrará na recepção. Lembrem-se, nada de alarmar os hóspedes. Entramos, conversamos com ele, e começamos a investigar amanhã cedo. Como a Velminha disse, temos que ser discretos.
Os olhos dela se estreitaram em sua direção.
— Já falei para não me chamar assim, Jones. — Ela guardou o laptop e ajeitou os óculos no rosto. Fred segurou o riso. — Ah, e só pra constar… O hotel tem uma ala antiga que está fechada há mais de cinquenta anos.
— E aposto que é justamente lá que vamos acabar entrando — Shaggy gemeu.
— Com certeza. — Scooby completou, com uma risadinha nervosa.
Rogers olhou em volta, ainda hesitante.
— Eu posso começar investigando o cardápio do café da manhã?
— Só se não for o cardápio da ala trancada — provocou Velma, e saiu da van com um sorriso leve.
Eles cruzaram o saguão, e o calor acolhedor do interior os envolveu de imediato. O ar tinha um perfume doce de flores e madeira encerada, e as vozes de hóspedes conversando misturavam-se ao tilintar de taças no bar. Um imenso lustre de cristal pendia do teto, espalhando reflexos dançantes pelo mármore polido.
O senhor Marlowe os aguardava junto à recepção. Era um homem magro e pálido, com olheiras profundas e um sorriso que parecia mais educado do que tranquilo.
— Senhor Jones, eu presumo? — Ele apertou a mão de Fred. — É uma honra recebê-los.
— O prazer é nosso. — Sorriu em resposta. — Viemos o mais rápido possível. Entendemos que houve um desaparecimento e relatos de coisas estranhas, não é?
— Exato. — O homem baixou o tom e o grupo se inclinou para ouvi-lo melhor. — Um hóspede sumiu há três noites. A polícia vasculhou o hotel inteiro, mas não encontrou nada. Só a câmera dele, caída no chão.
Velma anotou mentalmente.
— Quarto duzentos e dezessete, certo?
Marlowe assentiu.
— Fechado desde então. E, bom… há mais. Funcionários disseram ter ouvido vozes, passos, e visto reflexos se moverem por conta própria. — Engoliu em seco. — Alguns acreditam que seja o espírito do homem desaparecido.
— Se for, espero que ele não esteja com fome — Shaggy, que observava as escadarias ornamentadas, murmurou.
Scooby deu um passo para trás e olhou para o grande espelho do saguão.
— Ruh... Reflexos se… Se movendo? Shaggy, não estou gostando disso.
De repente, o reflexo deles realmente parecia diferente, e a iluminação tremeu levemente, como se o cristal respirasse. Velma passou os dedos sobre a borda do espelho, enquanto observava as figuras entalhadas na moldura.
— Esse não é o mesmo do artigo de 1943, mas é bem parecido — comentou, mais para si mesma do que para qualquer um ali presente. — Interessante.
Fred agradeceu ao gerente e pediu para ver as gravações das câmeras. Eles seguiram até uma salinha de segurança, onde um monitor exibia imagens em preto e branco do corredor do segundo andar.
Por um instante, um vulto cruzou a tela, uma sombra fugaz refletida numa janela. As luzes tremeram mais uma vez.
— É só uma interferência. — Marlowe tentou justificar, nervoso. — As câmeras desses corredores antigos falham o tempo todo.
Fred ficou pensativo.
— É, talvez. Vamos investigar isso melhor amanhã cedo.
Quando saíram da sala, o grupo se dispersou pelo saguão. Daphne foi observar as pinturas antigas nas paredes, Velma anotava observações febrilmente num caderno e Fred falava com Marlowe sobre os horários dos funcionários.
Shaggy, no entanto, ficou para trás, distraído. O hotel, apesar de luxuoso, exalava uma sensação estranha, como se o ar fosse mais denso. As luzes piscavam ocasionalmente, e ele podia jurar que um cheiro suave de jasmim pairava no ar, um perfume que reconheceria em qualquer lugar.
Rogers se virou de repente, os olhos arregalados de surpresa.
Entre os hóspedes que atravessavam o saguão, achou ter visto uma mulher. Seus cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo baixo, e ela usava um vestido simples cor de vinho, com uma jaqueta jeans por cima e seus inseparáveis coturnos pretos nos pés. Ela ainda possuía o mesmo jeito leve de andar, e o coração de Shaggy Rogers falhou por um segundo.
— ? — Deixou escapar, incapaz de se conter. Era coincidência demais ela estar ali, mas aquela visão simplesmente não tinha como ser algo de sua cabeça.
Ou será que tinha?
A figura parou, como se tivesse sentido ser observada. O olhar dela se virou ligeiramente, mas, antes que ele pudesse ter certeza, um grupo de turistas passou entre os dois e bloqueou sua visão. Quando o caminho voltou a ficar livre, a mulher havia desaparecido.
Shaggy ficou imóvel e piscou os olhos, numa tentativa de entender se aquilo havia sido real. O som distante de uma música de jazz qualquer preenchia o silêncio.
Scooby não estava entendendo nada, então puxou a barra da Rogers, curioso.
— Ruh, Shaggy? O que foi?
— Eu... — Ele hesitou e olhou para o ponto onde a mulher deveria estar. — Eu achei que tinha visto alguém conhecido.
Scooby franziu o focinho.
— Bonita?
Shaggy soltou um suspiro e forçou um sorriso.
— Sim, meu amigo. E bonita demais para ser um fantasma. Bonita demais para ser só imaginação também.
Lá de cima, o relógio do saguão bateu meia-noite. E o reflexo do grande espelho em um certo quarto empoeirado brilhou só por um instante.


