Codificada por Lua ☾
Última Atualização: 06/11/2025
Ainda faltava um semestre para que eu acabasse o curso e conciliar isso com o estágio era difícil. Ainda mais depois de um coração partido. Depois que Seungcheol disse que ele e estavam namorando, eu tinha ido ao aquário e contado a ela. Ela pediu um milhão de desculpas com a voz embargada e eu lhe garanti que não era culpa dela. Eu esperava de verdade que ela e Seungcheol fossem felizes, eles mereciam. Mas ver meu amor de infância partindo assim não foi fácil. Só me restava agora seguir em frente.
E era exatamente isso que eu estava fazendo ali.
Sexta era dia de happy hour e a galera do trabalho estava reunida no bar de sempre, reclamando das coisas de sempre e ameaçando o chefe. Eu tinha saído do estágio mais cedo porque tinha que resolver uma coisa na universidade, mas tinha combinado de encontrá-los ali, então tinha passado na modesta casa que agora eu dividia com Seungcheol e tinha ido andando, morávamos perto dali, afinal.
Estava tomando uma cerveja quando uma das garotas da empresa se aproximou de mim e sentou ao meu lado. Eu não a conhecia, provavelmente ainda não tinha passado no setor dela, então não dei tanta atenção.
— O que você faria se seu vizinho fosse um psicopata? — ela perguntou de repente. Era jovem e bonita, mas parecia levemente alcoolizada.
— Boa noite? — respondi em tom de pergunta, claramente sem entender o que ela tinha perguntado.
— É sério, o que você faria? — ela insistiu.
— Chamaria a polícia? — perguntei.
— Eu já fiz isso, desligaram na minha cara depois da sexta ligação. — ela deu de ombros. — O que a gente faz quando a polícia ignora a gente? — ela voltou a perguntar.
— Não insiste. — respondi.
— É verdade, preciso de provas. — ela respirou fundo e seu olhar se iluminou.
— Quê? Moça, eu não disse isso. — tentei apagar o brilho no olhar dela, sabendo que coisa boa não sairia dali.
— E você vai me ajudar. — ela sorriu e tomou minha mão na sua. Levantou do banco onde tinha sentado no início daquela conversa sem noção e começou a andar em direção à saída.
— Ajudar em quê? Moça, pelo amor de Deus, eu... Eu nem sei seu nome. — tentei argumentar.
— . — ela parou de repente e me encarou. — Agora me ajuda.
, agora eu sabia, me arrastou para fora do bar e começou a caminhar em direção à esquina da rua. Virou à direita, seguiu caminhando e virou à direita no final da rua de novo. Se aproximou de um arbusto e me puxou para baixo.
— Ali. Ele mora ali. — ela apontou para uma casa do outro lado da rua. — As luzes estão sempre apagadas.
— Ele deve estar dormindo. — apontei.
— Não... Hansol, né? — ela perguntou.
— Hansol Chwe. — respondi. — Mas...
— As luzes realmente nunca se acendem. Tá sempre tudo escuro, mesmo pela manhã. — ela sussurrou, me interrompendo.
— E como você sabe disso? — perguntei.
— Eu tento observar ele às vezes, mas nunca consigo ver nada. — ela suspirou frustrada.
— , você sabe que isso é crime, né? — perguntei.
— Só se ele me descobrir. — ela sorriu. — Que cheiro é esse? — ela perguntou. Inspirei ao redor, tentando sentir o que ela sentia, mas só consegui sentir o cheiro da grama, como se ela tivesse sido aparada recentemente. De repente, colou o nariz no meu pescoço e respirou fundo, fazendo minha pele arrepiar. — É seu perfume, Hansol. Você cheira bem. — ela disse com a voz parecendo embriagada.
— , que tal se eu te levar até a sua porta? — perguntei com um fio de voz. Precisava voltar ao bar, mas ela já estava passando do ponto, tinha que ir para casa. E talvez eu também.
— Minha porta é essa aqui. — ela apontou para trás.
— Você observa o vizinho daqui? — perguntei. Parecia meio longe.
— Eu tenho um binóculo. Uma lente está meio desfocada, mas serve. — ela explicou e levantou. — Depois vamos falar sobre isso, Hansol. Você não vai fugir de mim.
— Certo, . Depois falamos sobre isso. Mas agora você precisa dormir. Nos vemos na segunda? — perguntei sem querer saber a resposta.
— No café. Eu te acho. — ela procurou a chave na bolsinha e, com esforço, abriu a porta.
A observei entrar em casa e, em seguida, comecei a caminhar de volta ao bar pensando que tinha arrumado um grande problema no momento em que se apresentou.
Estava sentado em uma das mesas do café, observando as pessoas entrando e saindo do prédio quando sentou ao meu lado, descabelada e parecendo acabada.
— Que diabos aconteceu com você? — perguntei. Se nosso chefe a visse assim, ela, no mínimo, levaria uma advertência.
— Não dormi. O vizinho chegou de madrugada e entrou em casa sem acender as luzes. — ela começou a explicar. — Quem anda em casa sem acender as luzes? Isso mesmo! Um psicopata.
— Mas você o viu? Digo, na rua? Conseguiu ver o rosto dele?
— Não. Estava escuro demais e eu não estava enxergando muito bem por conta do... Enfim. — ela suspirou. — Passei a noite olhando a casa dele, ou pelo menos tentando, mas o meliante é sorrateiro, ardiloso.
— , quanto café você ingeriu? — perguntei temendo a resposta.
— Duas garrafas... e meia. E tem uns adesivos de cafeína colados na minha bunda, mas isso não vem ao caso. — ela deu de ombros.
— Por que na... ?
— Cara, foca aqui que eu quero falar do psicopata do meu vizinho. — ela baixou o tom de voz, como se fosse me contar um segredo.
— , você precisa parar. — alertei.
— Hansol, né? — ela perguntou.
— Hansol Chwe, mas pode...
— Então, eu sou viciada em casos criminais. — ela me interrompeu, pois, como sempre, parecia não me ouvir. — Eu não vou parar até pegar ele. — ela bateu a mão em punho na mesa, assustando os presentes.
— Escuta. Vou falar sério agora. — respirei fundo. — Primeiro, para sua segurança, acho que não é uma atitude sábia abordar pessoas no bar e depois levá-las até sua casa. — ela respirou para me interromper, mas levantei a mão para que ela parasse o que nem tinha começado. — Somos todos da mesma empresa, mas até sexta eu não sabia seu nome.
— Você tem um ponto. — ela admitiu.
— Segundo, falando como alguém que conhece pessoas do jurídico, você precisa parar. Tenho quase certeza de que stalking é crime previsto em lei. — expliquei devagar, como se falasse com uma criança.
— Hansol, é sério, eu sei do que eu tô falando. — ela passou as mãos sobre o rosto. — O cara chegou tem uma semana e nesse tempo o cachorro da vizinha sumiu. Simplesmente sumiu! — ela elevou a voz para falar a última frase.
— O cachorro não pode simplesmente ter fugido? — perguntei. Era uma hipótese válida.
— Ou o vizinho do 88 pode ter matado ele. O que o configuraria como um verdadeiro psicopata. — ela apontou como se fosse óbvio. — É um bom nome de caso: “o vizinho do 88”. — ela abriu as mãos como se esticasse uma faixa e eu segui seu olhar perdido.
— A vizinha do 107 também vai ser um bom nome de detenta se você for presa. — apontei.
— Eu não vou. Porque você vai me ajudar. — ela sorriu para mim. — E eu moro no 103.
— E como eu vou te ajudar? — perguntei. — O máximo que eu posso fazer é te arrumar um advogado se te pegarem.
— Eu vou reunir minhas provas e vamos montar um dossiê para apresentar à polícia. — ela sorriu satisfeita.
— Você nem sabe a identidade... , veja bem onde está se metendo. — alertei.
— Primeiramente, me chame de . Pare de ficar repetindo “ isso, aquilo”, me dá nos nervos. — ela suspirou. — Em segundo lugar... Você sabe de alguma coisa, Hansol? Porque parece que não está me contando algo. — ela apoiou os cotovelos na mesa e aproximou o rosto do meu, esquadrinhando minha expressão como a polícia analisa um suspeito.
— Se está suspeitando de mim, não deveria ter me levado até a sua porta na sexta. — cruzei os braços sobre o peito.
— Você tem um ponto. De novo. — ela ponderou. De perto, os olhos amendoados pareciam cansados, porém alertas. — Mas ainda me parece suspeito.
— Eu só tô tentando fazer com que você não seja presa e cause um escândalo. — lembrei. — Trabalhamos em uma empresa de segurança. Imagine o caos se você for presa por perseguir uma pessoa.
— O namorado da Bee é do Direito. Ela consegue me tirar de lá sem levantar poeira. — ela cruzou os braços sobre o peito com uma expressão vitoriosa no rosto.
— A Bee herdeira da Bee’ Safe Private Security & Investigations? — perguntei um pouco chocado.
— Eu tenho meus contatos, Hansol. — ela deu de ombros. De repente, seu semblante franziu. — Que cheiro é esse?
Ri sozinho porque ela tinha feito a mesma pergunta antes, mas provavelmente estava bêbada demais para lembrar. descruzou os braços, inclinou o corpo por cima da mesa novamente e, como antes, cheirou meu pescoço. Se eu achava que a atitude anterior tinha sido por conta do álcool, eu estava enganado. Aparentemente era apenas sendo ela mesma.
— Seu cheiro é bom, Hansol. — ela elogiou perto do meu ouvido e se afastou. Tentei controlar o arrepio na minha nuca e desviei o olhar. — Vai ser interessante trabalhar nesse dossiê com você. — ela sorriu de lado.
— Preciso ir, . Ainda sou um estagiário aqui. — levantei, pronto para ir para a sala lotada de papeis que com certeza estavam me esperando. — Se precisar de mim...
— Eu vou te achar. Não se preocupe. — ela piscou.
— Stalking é crime. — reforcei.
— Bom dia, Hansol. — ela acenou.
Dei as costas e fui para a “minha sala”. Estava estagiando na Contabilidade. As contas estavam uma bagunça. Assim como eu.
88
A casa ainda estava um caos, eu estava atolado até o pescoço com o trabalho. Quase duas semanas e eu não tinha tido tempo de esvaziar as caixas ou limpar as janelas, ou mesmo trocar as luzes queimadas. A pouca iluminação entrava pelas persianas quebradas das janelas da sala por onde eu agora olhava a vizinha da frente que tentava me espiar com... Um binóculo?
— O que ela está fazendo? — meu amigo que dividia a casa comigo perguntou atrás de mim. Tomei lentamente o café da minha xícara e estreitei os olhos para ela.
— Não faço ideia. — respondi a ele.
— Eu já limpei o porão. — ele anunciou.
— Ótimo. Hora da nossa corrida matinal? — perguntei e bebi o resto do café na xícara.
— Não com você sem blusa, garanhão. — meu amigo me deu um tapinha no ombro. O olhei por cima do ombro o encontrando também sem blusa.
— E quanto a você? — perguntei.
— Eu gosto da liberdade do vento batendo no peito enquanto corremos entre as árvores. — ele suspirou.
— O que você é, um quileute? — gargalhei. Ele apenas deu de ombros. — Vista uma roupa e vamos. Não queremos matar ninguém hoje.
Eu estava do lado de fora da minha casa, vendo uma movimentação na casa da frente, mas tudo ficou quieto de repente. Sem sombras, sem barulhos. O cachorro da vizinha continuava sumido e Hansol, apesar das minhas inúmeras tentativas, não estava me ajudando em absolutamente nada.
Continuei a varrer a calçada sem realmente varrer a calçada, apenas observando qualquer movimento suspeito com o binóculo. Já estava ali há bons 40 minutos.
— , o que diabos você está fazendo? — uma voz masculina perguntou atrás de mim e eu pulei de susto, o que me fez jogar o binóculo em um dos arbustos na frente da minha casa. Provavelmente devo ter quebrado a lente que já não estava boa.
— Puta merda, Hansol! Que susto do caralho. — ralhei, me virando para encontrá-lo com o cachorro da vizinha no colo. — Quando você chegou e por que tá com o Buzz no colo?
— Eu tava caminhando um pouco e o encontrei próximo a uns arbustos. — ele explicou com os olhos beirando a inocência.
— Caminhando por aqui? — perguntei e tomei o cachorro de seus braços. Buzz já começava a espernear e daqui a pouco começaria a latir.
— Eu moro aqui perto. — ele explicou simplista.
— Você tá bem? — perguntei ao cachorro, o analisando de perto para ver se não tinha de fato nada errado com ele. Buzz estava imundo, mas parecia bem.
— Sim, só um pouco dolorido por causa do trabalho. — Hansol respondeu e movimentou os ombros largos.
— Eu perguntei ao Buzz, Hansol. — avisei. — Mas que bom que está bem. Agora vem, vamos devolver esse bebê para a mãe dele.
Comecei a caminhar em direção ao final da rua, não sem antes dar uma olhada na casa da frente, procurando qualquer movimento suspeito. Hansol caminhou atrás de mim, quase respirando no meu pescoço. Bati na porta da senhora Martín e ela abriu no segundo toque.
— Buzz, por Deus. Você está imundo, mas está vivo! — ela tomou a bolinha de pelos dos meus braços. — Ah, minha querida. Que bom que o trouxe de volta. — ela me abraçou desajeitada.
— Na verdade, senhora Martín, foi meu amigo que o encontrou. — avisei e apontei para Hansol atrás de mim.
— Um bom e belo rapaz. Obrigada, meu anjo. — ela o abraçou. Pude ouvir a risada contida dele enquanto ele repetia “não foi nada”. — Desde que Genevive se casou, Buzz tem sido meu companheiro.
— A filha da senhora Martín é autora, sabia? Eu amo os livros dela, principalmente Boss. — expliquei a Hansol.
— A Gen é casada com um asiático. Jackson, da China. De onde você é, querido? — ela perguntou a Hansol.
— Daqui mesmo. Minha mãe é norte-americana e meu pai é sul-coreano. — Hansol sorriu.
— Senhora Martín, e quanto ao vizinho do 88? A senhora viu alguma coisa? — toquei no assunto que mais me interessava.
— Não, minha querida. Meus horários estão complicados, não consigo reparar muito bem nos vizinhos. — ela suspirou. — Mas o que tem ele?
— Ele me parece suspeito. — baixei a voz.
— Você o viu? — ela arregalou os olhos.
— Não. Ele entra e sai sem ser notado. E isso está me matando.
— Deveríamos levar algum prato de boas-vindas, . Pode ser uma boa. — a senhora Martín lançou a ideia.
— Eu vou pensar sobre isso, senhora Martín. Obrigada. — agradeci de coração. Ela reforçou o agradecimento a Hansol e fechou a porta. — O que será que um assassino come, Hansol?
— , pare com isso. — ele riu ao meu lado. — Você sequer o conhece. Como pode saber que é um assassino?
— Sabendo, Hansol! — quase gritei. — Eu vou acabar pirando, sabia?
— E você já não é pirada? — ele cutucou meu ombro. O olhei sem expressão e seu sorriso de dentes bonitos murchou. — Vamos, eu te deixo na sua porta. Preciso ir à academia.
A semana tinha acabado e eu seguia pensando em como executar a ideia da senhora Martín. Resolvi usar de todos os meus dotes culinários e assar alguma coisa.
Enquanto preparava uma bandeja de muffins, minha cabeça oscilava os pensamentos entre o assassino do 88 e Hansol, que parecia não conseguir sustentar o olhar de cor de chocolate no meu.
— Ted, a mamãe vai ficar louca. Sério. — murmurei para o meu gato, minha única companhia naquela casa.
Tirei a bandeja do forno e a coloquei sobre o balcão. Estava pensando no que fazer quando finalmente visse o vizinho do 88, mas todas as ideias sumiram da minha cabeça. Usei uma luva para pegar os muffins e os colocar em um prato que comprei especialmente para isso. Reuni toda a minha coragem, peguei o prato, atravessei a rua e, em um rompante de coragem, bati na porta do 88.
— Oi. — uma moça de cabelos escuros abriu a porta. Não estava com uma cara de muitos amigos.
— Eu te conheço? — franzi o cenho para ela. Algo nela me era familiar.
— Receio que não. — ela me encarou com seriedade.
— Você mora aqui?
— Ah, não. Só estou...
— E onde está o dono da casa? — a interrompi sem me preocupar se aquilo tinha soado mal-educado.
— Vernon saiu cedo e não sei que horas ele volta. — ela explicou.
— Vernon. — repeti, o nome soando estranho aos meus ouvidos.
— Isso é pra ele? — ela estendeu a mão para pegar o prato e eu o entreguei.
— São de chocolate com recheio de frutas vermelhas. — expliquei.
— Eu aviso que você veio. Qual o seu nome? — a moça quis saber.
— , do...
— Do 103. Vernon já falou de você. — ela sorriu pequeno.
— Ele já falou de mim? — perguntei assustada.
— Sim, algumas vezes. Você é exatamente como ele descreveu. — ela aproximou um pouco o rosto e eu dei um passo para trás. — É impressionante a riqueza de detalhes.
— Ah. Então tá. Bom dia. — dei as costas e saí dali o mais rápido que pude.
Vernon.
Soava como Venom, e me lembrava sangue e morte.
Balancei a cabeça para espantar os pensamentos. Vai ver ele nem era nada disso e Hansol estava certo.
Ou vai ver ele era e eu estava certa. E ele estava me observando.
Peguei o celular e liguei para Hansol.
— , eu tô um pouco ocupado. — ele atendeu no segundo toque.
— Eu fui no 88. Uma moça me atendeu. Disse que o vizinho me descreveu para ela. Com detalhes, Hansol. Eu tô em pânico total! — gritei a última parte.
— Tá, fica calma. Quer vir até a empresa? Eu tô aqui. Pelo menos você não fica sozinha. — ele ofereceu.
— Chego em 15 minutos.
Desliguei o celular, entrei em casa correndo e quase tropecei em Ted.
— A mamãe já volta. — avisei ao meu gatinho. Conferi rapidamente as janelas, peguei a bolsa e saí. Tomei um táxi e cheguei à empresa antes do previsto. Subi para o andar de Hansol e, sem pensar muito bem, corri até ele e o abracei pela cintura.
— Hey! Tá tudo bem. Fica calma. — ele me abraçou de volta. Mesmo sem ver, eu sabia que ele estava sorrindo e aquilo me tranquilizava um pouco.
— Me desculpe. — soltei o abraço e me afastei, só então reparando bem nele. Hansol vestia uma camisa branca com as mangas dobradas, a gravata pendia frouxa no pescoço e os primeiros botões estavam fora das casas.
— Você tá bem? — ele perguntou enquanto me analisava, me segurando pelos ombros.
— Eu tô bem. Só tô em pânico. — respirei fundo. — Eu vou pegar um café para mim. Você quer?
— Por favor. — seu sorriso contido espalhou uma estranha onda de tranquilidade no meu corpo.
Desci até a sala de descanso e enchi dois copos de café, voltando à sala de Hansol e o encontrando em meio a pilhas de papéis, uma expressão de cansaço no rosto.
— Aqui. — o entreguei o café. — O que tem nesse monte de papel?
— Bagunça. Isso aqui tá uma bagunça. — ele afrouxou mais a gravata.
— Se eu fosse você, começaria tirando essa gravata. É sábado. Você é estagiário, nem deveria tá aqui. — apontei. Hansol riu, mas tirou a gravata e abriu mais um botão, a pele do pescoço ficando cada vez mais exposta. Eu estava com uma séria e estranha vontade de aproximar meu nariz daquela pele e sentir o cheiro bom que eu sabia que estava ali.
— E agora, , qual a dica? — ele quis saber.
— Se você me disser o que fazer, eu posso ajudar. — Hansol me encarou com as sobrancelhas franzidas. — O que foi? Eu trabalho no setor de aquisição de materiais e faço minha pós nessa área, mas eu sou formada em Administração, tá? Assim como você, eu entendo de números, Hansol Chwe. E eu me formei antes do tempo. — apontei convencida.
Com um sorriso que eu julguei sacana, Hansol me entregou uma pasta da pilha e me disse o que estava fazendo. Ele basicamente estava checando se havia falhas nas compras ou nos pagamentos dos funcionários, alguém devia estar desconfiando de alguma coisa. Depois de incontáveis horas, fomos tirados do nosso silêncio pelo som da minha barriga roncando.
— OK, acho que já deu por hoje. Segunda eu termino. — ele sorriu. — Vamos, eu pago seu almoço.
— E me leva em casa? — arrisquei.
— E te levo em casa. — ele confirmou.
— E...
— Sim, . Eu fico um tempo com você. — ele adiantou minhas palavras. — Só vamos ter que ir de ônibus. Eu deixei o carro na oficina e só fica pronto mais tarde.
— Tudo bem. Vamos. — juntei minhas coisas. Hansol recolheu o terno e a gravata largada, a colocou na mochila e nos levou ao elevador.
Durante o almoço, o atualizei sobre minhas recentes suspeitas a respeito do vizinho do 88 e ele opinou no que achou relevante. Decidi chamar um táxi até em casa e fiz questão de pagar. Assim que saltamos do carro, olhei para minha porta e notei algo estranho. Me aproximei e encontrei um post-it amarelo pregado lá.
“Vim deixar o prato e vi que você esqueceu a chave do lado de fora da porta. Venha buscar junto com seu prato.
88.”
— Mas nem fodendo! — gritei, assustando Hansol. Ele se aproximou o suficiente e leu o bilhete.
— , como você pretende entrar em casa?
— Pela janela. Nem é tão alta. Vamos, me ajude. — me adiantei na direção da janela e ele me segurou pelo braço.
— E depois?
— Depois nós trocamos a fechadura. Eu já tava querendo comprar uma fechadura digital mesmo. — dei de ombros. — Vamos, me ajude aqui.
— Você deixou alguma janela aberta? — ele questionou.
Parei para pensar e a resposta é: não. Eu lembro de ter trancado todas as janelas antes de sair para evitar que Ted fugisse.
— Droga! Não. Que inferno. — resmunguei. — Já sei. Vou abrir com o canivete.
— , você anda com um canivete na bolsa? — ele perguntou parecendo preocupado.
— Claro, Hansol. — afirmei enquanto já começava a procurar o dito canivete na bolsa. — Às vezes ele demora para abrir porque é uma avaria da empresa, mas funciona.
— Então é para cá que vêm as avarias da empresa?
— Não todas. — me abaixei para tentar enfiar a ponta do canivete no buraco da chave. — Faça silêncio, Hansol. Preciso me concentrar.
Mexi a ponta do canivete para um lado e outro, tentando fazer a porta destravar. Quando notei uma movimentação nas engrenagens parei por um momento.
— Hansol, use um cartão para abrir. Passe de cima para baixo. Com calma. — pedi. Ele fez exatamente o que eu pedi e com um movimento pequeno, ouvi o clique da porta. Testei a maçaneta e a porta se abriu. — Bem-vindo.
— Você é assustadora às vezes, . — ele sorriu e entrou na minha casa.
— Obrigada.
Quando entrei, Ted apareceu na porta e encarou Hansol com um olhar de julgamento.
— , você tem um gato! — Hansol exclamou. Parecia animado.
— E que tipo de solteira viciada em casos criminais eu seria se não tivesse um gato? — fechei a porta atrás de mim. Olhei para Ted e o vi se aproximando lentamente de Hansol, como se fosse atacar. — Hansol, não se mexa. Deixe-o reconhecer você. Ele não tá acostumado com machos no território dele. — alertei.
Hansol mal respirou durante um minuto inteiro, enquanto Ted o cheirava aqui e ali, como que para reconhecer se ele era um humano aceitável. Quando ele finalmente esfregou a cabeça nas pernas de Hansol, eu quase pude ouvir seu suspiro de alívio.
— OK, você passou. Hansol, esse é o Ted. — sorri para Hansol. — Oi, meu amor. — fiz um carinho atrás das orelhas do meu gato.
— Como o ursinho? — Hansol perguntou com um sorriso fofo.
— Não. Como o assassino, Ted Bundy. — expliquei.
— Eu sempre me pergunto como eu vim parar nessa situação. — ele resmungou.
— Que situação? — perguntei já com a mão na cintura.
— Nessa, . Com você totalmente doida das ideias. — ele riu.
— Você já não consegue viver sem mim, Hansol. — peguei Ted no colo enquanto o ouvia resmungar alguma coisa em um idioma que eu desconhecia. — Fale num idioma que eu entenda, Hansol.
— Não foi nada importante. Esquece.
— Quer beber alguma coisa? — mudei de assunto.
— Não, preciso sair para buscar o carro. Você está segura aqui com Ted, não é? — ele quis saber.
— Eu vou colocar um móvel contra a porta só por precaução. E amanhã eu vou comprar outra fechadura. Então acho que sim?
— Então eu estou indo. — Hansol se adiantou e segurou meu ombro com uma mão, rapidamente se aproximando e deixando um beijo na minha testa. Levantei o rosto para encará-lo e ele desviou o olhar. — Se precisar de mim, é só me ligar. Tchau, Ted.
E se foi, saindo rápido como uma bala.
— Tio Hansol está birutinha, Ted. — ri para meu gato e ele miou como se concordasse. — Agora vamos nos preparar. Vai ser uma longa noite.
Peguei um táxi e fui até a empresa (ainda não estava confiante de ir de metrô até lá).
— Bom dia, Lindsay. — cumprimentei a recepcionista, que apenas me olhou torto como sempre fazia.
Assim que passei pela catraca em direção aos elevadores, senti um perfume característico e olhei ao redor para encontrar Hansol entrando e cumprimentando Lindsay, que sorriu para ele. Hansol sorriu de volta e me encarou ainda sorrindo. Ele passou pelas catracas e eu usei minha bolsa para segurar a porta do elevador. Ele caminhou em minha direção já tirando o boné e arrumando os fios bagunçados. Assim que parou ao meu lado, segui o rastro de seu perfume até seu pescoço.
— Bom dia, Hansol. — soprei. Eu não cansava de fazer aquilo, as reações dele eram sempre engraçadas.
— Bom dia, . — ele respondeu sem me olhar.
— Animado para a reunião? — perguntei e apertei o botão do meu andar.
— Sim. — ele suspirou, completamente infeliz, e apertou o botão do andar da sala de reuniões. — Por que está tão bonita? — ele me mediu.
— Ei! Eu sou bonita. — protestei, o que o fez sorrir minimamente. — Mas achei que precisava receber os novos estagiários em grande estilo.
— E não vai subir? — ele franziu as sobrancelhas para o botão do meu andar apertado.
— Só vou deixar minhas coisas e já subo. Guarde um lugar para mim. — brinquei e desci no andar onde ficava minha sala. Arrumei alguns papéis espalhados sobre a mesa, guardei minha bolsa, peguei minha pasta e subi para o andar da sala de reuniões.
— Davis, estávamos esperando por você. — Alisha Jones, a responsável pelo RH e pela contratação de estagiários, me cumprimentou. — Nosso maior prodígio. De estagiária a líder de setor.
— Faço o que posso, Alisha. — dei de ombros e, pela visão periférica, vi Hansol sorrindo.
— Como sabem, temos o sistema de rodízio para que vocês conheçam várias áreas. E hoje é dia de troca. — ela se dirigiu aos estagiários. — Já que chegou por último, vamos começar por ela. — ela mexeu em seus papéis e encarou os presentes. — , você vai ficar com os estagiários que estavam na Contabilidade.
Quase pulei de alegria. Se bem me lembrava, Hansol era da Contabilidade. Com ele ao meu lado por mais tempo, poderíamos trabalhar no dossiê do vizinho do 88.
— Com licença, senhorita Jones. — Hansol chamou. — No caso, é estagiário. Eu fiquei sozinho. O outro rapaz desistiu.
Jones folheou as páginas e encarou Hansol, completamente confusa.
— Tem razão, Chwe. Por que eu nunca coloquei outro para trabalhar com você? — ela perguntou a ele e não o deu tempo para responder. — , vai precisar de mais um com você?
— Não, Alisha. Tenho certeza de que Hansol dá conta. — sorri para ele. Hansol mordeu o lábio inferior para segurar um sorriso que queria nascer e vi suas orelhas ficarem vermelhas. Eu acho que estava flertando com ele, mas não era de propósito. Só era legal ver como ele reagia quando eu me aproximava demais. Ele era bonito, não podia negar. Será que ele aceitaria... Não, melhor não.
Balancei a cabeça para espantar os pensamentos e quando voltei a prestar atenção, Alisha estava terminando de distribuir os estagiários.
— É isso, pessoal. Agora terão dois meses com novos líderes. Não estraguem tudo. — ela finalizou e todos riram e bateram palmas. Olhei ao redor e não encontrei Hansol.
— Procurando por mim? — ele praticamente soprou no meu ouvido, a voz vindo das minhas costas.
— Me respeite porque agora eu sou sua líder. — dei a volta e saí andando, o som dos meus saltos ecoando pelo andar. Entrei no elevador e Hansol me seguiu.
— O que vamos fazer hoje, ? Estudar seu dossiê? — ele quis saber.
— Eu trabalho, Hansol. Hoje temos muito para fazer. — chequei meus papéis e os entreguei a ele. Hansol olhou curioso e me olhou em seguida.
— Vamos ver os materiais testados? — ele perguntou, genuinamente curioso.
Saí do elevador e ele me seguiu. Quando entrei na minha sala, me desfiz dos saltos e calcei uma sandália mais baixa, o que foi uma ideia ruim porque me lembrava o quão pequena eu era ao lado de Hansol.
— Apesar de você achar que minha função aqui é só pesquisar sobre novos “brinquedos”, eu faço mais. — tirei a presilha do cabelo e o prendi com minha famosa caneta. — Vamos, temos que descer para a área de treinamento.
Hansol semicerrou os olhos para mim, em uma pergunta muda.
— Sempre que chega alguma coisa nova aqui na Bee’, eu mando lá pra baixo, pra ser devidamente testado pelos seguranças mais antigos e responsáveis. — comecei a andar para fora da sala em direção ao elevador, com Hansol em meu encalço, a pasta das fichas de análise debaixo do braço. — Quando eles terminam, me dizem o que serve e o que não serve e porque não serve.
— E então você leva as avarias pra casa. — não foi uma pergunta.
— Só se for seguro pra mim. — dei de ombros.
— Como o canivete que não abre. — ele riu.
— E o binóculo com a lente desfocada e agora quebrada, porque você me fez derrubá-lo no chão. — apertei o dedo no peito dele.
— O que mais você guardou, ?
— Uma adaga pequena que o chefe desistiu de colocar para uso e que eu deixo debaixo da minha cama para casos de emergência. — descemos do elevador e saímos para a área de treinamento.
— E isso não é perigoso?
— Só se você for o vizinho do 88 tentando invadir minha casa durante a noite. — sorri e empurrei a porta. — O que temos aqui, Kevin?
— ! — Kevin, o responsável pelo treinamento dos seguranças me cumprimentou. — Como tem passado?
— Estou quase surtando, mas estou bem.
— Esse é o garoto novo? — ele apontou para Hansol.
— Minha responsabilidade pelos próximos dois meses. — suspirei.
— Hansol. — meu estagiário se apresentou e estendeu a mão para Kevin.
— Nome legal. — o segurança respondeu e apertou a mão estendida de Hansol.
— Já expliquei a ele o que fazemos aqui, Kevin. — entreguei a pasta que carregava para Hansol.
— Ótimo. Então vamos lá. Essas aqui não engatilham. — ele apontou para as armas em cima do pequeno balcão do estande de tiro. — E essa aqui, a menor, finge que engatilha e quando a gente vai atirar, puff, nada. Só prestou em um dos cinco testes.
Passei a mão sobre a pequena arma e alcancei os fones de proteção. Os coloquei um em Hansol e um em mim e vi Kevin arrumar o dele. Em um movimento rápido, alcancei a arma, engatilhei e atirei no alvo. Bom, quase atirei. A arma não funcionou. Quando encarei Hansol, ele estava boquiaberto, os olhos arregalados em surpresa. Tirei meus fones e os dele e sorri.
— Vou precisar que anote algumas coisas, Hansol.
Ele não se mexeu por um longo minuto, arrancando uma risada de Kevin que já estava mais que acostumado com meus surtos ali dentro. Foi ele quem me ensinou a atirar (ele e as séries policiais que eu assistia).
— Hansol. — estalei os dedos na frente de seu rosto e ele pareceu acordar. — Número de série... Vamos, anote.
Hansol pegou a caneta, abriu a pasta e começou a anotar o que eu dizia, ainda boquiaberto.
— Ah, quase esqueci. Chegou um binóculo novo, menor que aquele. — Kevin tentou disfarçar. — Menos desfocado também.
— Ele sabe. — o tranquilizei. — E isso é ótimo, porque Hansol quebrou a lente do meu.
— Moram perto? — o sorriso de Kevin mudou para um de insinuação.
— Eu cometi a burrice de arrastá-lo para a minha investigação. — suspirei.
— Ainda o vizinho? , isso não é perigoso? — Kevin quis saber.
— Finalmente alguém concorda comigo! — Hansol quase gritou.
— Vocês dois, por favor. Eu vou ficar bem. — afirmei.
— Só estamos preocupados. — Kevin deu de ombros. — Você tem boas habilidades, mas... — ele juntou o polegar e o indicador para me dizer o quão pequena eu era.
— Eu não vim aqui para ser ofendida. — coloquei os fones de volta no balcão e tomei a pasta da mão de Hansol. — Vou fazer o relatório final dos testes. Quero o seu na minha mesa antes das 15h.
— Sim, chefinha. — Kevin riu. — É melhor você correr. — ele apontou para Hansol. — Ela vai sair em três, dois...
E antes que Kevin terminasse eu estava saindo da sala.
— , vamos passar o dia fazendo relatórios? — Hansol quis saber.
— Vai me dizer que não é bom com palavras. — alfinetei.
— Sou, mas relatórios... — ele suspirou.
— Ninguém gosta, mas são necessários. — rebati e saímos do elevador em direção à minha sala. — Você vai trabalhar comigo aqui dentro. Vai usar a mesa do finado estagiário.
— Ele morreu? — Hansol perguntou, os olhos quase saindo das caixas.
— É um modo de falar, Hansol. Por Deus. Ele só não aguentou e se demitiu. — suspirei. Dei a volta para trás da minha mesa e encontrei um bilhete sobre o tampo. Eu não tinha secretária (ela também se demitiu), então aquela era a forma de se comunicar comigo quando eu não estava na sala. — Preciso ir na sala do chefe.
— Eu vou com você? — ele quis saber.
— Não, você vai adiantando as coisas aqui. Tem um modelo de relatório no computador. — sorri para ele. — Se demorar e der seu horário de almoço, pode sair.
Hansol apenas confirmou com a cabeça e eu troquei as sandálias pelos saltos outra vez e saí para o elevador. O recado dizia "o chefe quer falar com você". Eu só esperava que não fosse para me demitir por ter ajudado MB com o namorado.
— Ele está te esperando. — a secretária do chefe disse assim que me viu saindo do elevador.
— Está feliz? — perguntei.
— Está de bom humor. — ela deu de ombros. — Entre. Não o deixe esperando mais.
Respirei fundo antes de abrir a porta.
— Oi, chefe. — cumprimentei da forma mais simpática que consegui.
— ! Como tem passado? — ele levantou para me cumprimentar. Apertei sua mão estendida, confiante. Ele estava feliz. Não ia me demitir. Eu acho.
— Estou bem. — sorri.
— Fiquei sabendo que hoje teve troca de estagiários. Gostou do seu? — ele perguntou enquanto voltava a se sentar e me indicava a cadeira à sua frente.
— Hansol é um bom garoto. E considerando que eu sequer tinha um estagiário, ele vai ser de bom tamanho. — afirmei e me sentei.
— Ótimo. Porque eu tenho um trabalho para vocês. — ele apoiou os cotovelos na mesa e cruzou as mãos.
— Estou ouvindo.
Eu estava ouvindo, mas não estava gostando do tom da conversa.
— Vai ter uma conferência de segurança em Washington e eu quero você e seu estagiário lá. — ele despejou as palavras. Fiquei imóvel e incrédula pelo que achei serem horas, mas que com certeza foi apenas um minuto ou menos. — Novos materiais, novas técnicas. E vocês vão ter tudo pago pela empresa. Considere como férias fora de tempo. — ele riu.
— Chefe, eu... — suspirei, as palavras se perdendo.
— Eu sei que foi surpresa, mas, , eu não consigo ver outra pessoa que não você por lá. — ele sorriu.
— Obrigada pela confiança. — consegui agradecer. — E, meu Deus, quando vamos?
— No final dessa semana. Você dá a notícia ao estagiário ou prefere que eu faça isso? — ele quis saber.
— Eu faço isso. E se me der licença, preciso achar alguém para ficar com Ted enquanto eu estou fora. — levantei de repente, pronta para correr para longe. Minha cabeça estava uma bagunça.
— E quem é Ted? — ele franziu as sobrancelhas.
— Meu gato. — eu ri. — Quase um filho. Precisa de cuidados.
— Imagino que sim. — ele riu. — Agora vá. A secretária vai entrar em contato com você para os detalhes. E obrigado, . Você é nota dez. — ele ergueu o polegar em um joinha para mim e eu saí da sala controlando o impulso de correr.
Cheguei à minha sala esbaforida e encontrei Hansol concentrado, com um bico nos lábios.
— Está pronto? — perguntei tirando os saltos.
— Ele vai me demitir? — ele perguntou. Neguei com a cabeça. — Vai te demitir?
— Credo. Não, Hansol. É pior.
— O que pode ser pior que ser demitido, ? — ele cruzou os braços sobre o peito.
— Ter que viajar a trabalho. Com você, Hansol. Bem-vindo ao setor de aquisição de materiais. — tentei sorrir.
— Nós... O quê? — ele não conseguiu formular a pergunta.
— Vamos viajar. Juntos. — suspirei. — Eu só espero que nos coloquem em quartos separados.
— Tem medo de mim, ? — Hansol perguntou sorrindo.
— Tenho medo de mim perto de você, Hansol. — comecei a falar e fui baixando a voz. — Você cheira bem e tem um sorriso atraente. Seria demais.
— O quê? — ele perguntou. Claramente não ouviu a segunda parte.
— Nada. Esqueça. Vamos trabalhar. Temos muito a fazer antes dessa viagem. — suspirei.
E o dia que eu não queria que chegasse infelizmente chegou. Eu já tinha deixado Ted em um hotel para pets e estava indo para a empresa encontrar Hansol. Um motorista nos levaria até o aeroporto. Felizmente era uma viagem curta. Assim que desci do táxi, encontrei Hansol e sua mala na porta, sorrindo e acenando como uma criança feliz.
— Pelo visto, só eu estou detestando a ideia. — resmunguei enquanto me aproximava.
— Veja pelo lado bom, vamos poder trabalhar no seu dossiê longe dos olhos do chefe. — ele tentou amenizar.
— Poderíamos fazer isso na minha casa. Ou na sua. — o lembrei.
— Vai ser legal, . Você só está com mau humor matinal. — ele sorriu e fomos para o aeroporto.
Hansol estava errado. Viajar não foi legal.
As poltronas eram juntas demais e eu fui a viagem toda quase sentada no colo dele, que usava um casaco que ocupava muito do espaço que já não tínhamos.
— Eu espero, de verdade, que não tenham nos colocado juntos no mesmo quarto. — reclamei enquanto arrastava a mala pelo hotel. A empresa tinha nos colocado no hotel em frente ao lugar onde seria a conferência. O que me faz pensar que isso já estava planejado há meses e eu só fui avisada praticamente na hora ir. — Reserva em nome da Bee’ Safe Private Security & Investigations.
— Senhorita Davis e senhor Chwe? — a recepcionista perguntou. Apenas confirmei com a cabeça. — Quartos 103 e 104. — ela nos entregou as chaves. — Bem-vindos.
— O 103 é meu. — peguei as chaves, entreguei a de Hansol e comecei a andar até o elevador. — Nossa programação começa hoje. — expliquei enquanto subíamos.
— Pensei que iríamos relaxar na piscina e conversar sobre seu vizinho. — Hansol fez uma careta.
— Parecem férias, Hansol, mas estamos aqui a trabalho. Lembre-se disso.
— Vejo você daqui uma hora? — ele perguntou esperançoso quando paramos nas portas dos respectivos quartos.
— Quarenta minutos. Não se atrase. E vista uma camisa menos amassada e um suéter. — quase ordenei e entrei no quarto antes de ouvir as reclamações dele. Troquei minha roupa de viagem, que consistia em uma calça jeans e uma camiseta básica, por minha roupa profissional: uma saia lápis e uma blusinha de gola alta e mangas curtas. Calcei os saltos, arrumei minha bolsa de passeio com o necessário e peguei o sobretudo para caso o tempo esfriasse. Chequei a maquiagem e saí do quarto na mesma hora em que Hansol saiu do dele, vestindo uma camisa de botões e gravata por baixo de um suéter escuro, assim como eu tinha dito. Ele carregava uma bolsa do tipo carteiro escura; o cabelo estava arrumado de lado e à distância ele me lembrava alguém.
— Vamos? — ele perguntou se aproximando.
— Se você tivesse o cabelo mais claro, eu diria que você parece o DiCaprio quando era jovem. — pontuei.
— Eu já ouvi isso. — ele riu e me estendeu o braço.
— E já considerou clarear o cabelo? — aceitei o braço estendido e começamos a caminhar para sair do hotel. — Eu acho que ficaria muito bom.
— Eu fiz isso por um tempo, mas as comparações estavam passando dos limites. Então eu desisti. — ele explicou.
Atravessamos a rua enquanto Hansol me contava uma situação que tinha passado e entramos no lugar onde aconteceria a conferência. Demos nossos nomes na entrada, pegamos nossos crachás e a programação. Enquanto eu lia o folheto, escutei uma voz conhecida.
— ?
Olhei ao redor, procurando o dono da voz, e teria sido melhor não olhar. Joshua Hong estava ali, em uma camisa de gola alta com um terno perfeitamente arrumado, os óculos no rosto fino de expressões bonitas.
— Joshua? Meu Deus, o que faz aqui? — perguntei incrédula.
— Sou um palestrante. — ele apontou para a programação nas minhas mãos. Segui o olhar para onde seu dedo bonito apontava e encontrei seu nome ali: "Joshua Hong — Aquisição responsável e controle de gastos". Hansol pigarreou atrás de mim e eu me virei para olhar seu rosto sério.
— Josh, esse é Hansol. Trabalhamos juntos. Hansol, esse é o Joshua, um...
— Amigo. — Joshua completou e estendeu a mão para Hansol, que a apertou com um contragosto visível no olhar sério. — Espero você na minha palestra, . Tenho que ir. — ele se virou para mim, piscou de forma galante e se foi.
— Estudaram juntos? — Hansol quis saber.
— E quase namoramos. Nos conhecemos em um dos dias em que conseguiram me tirar de casa para uma festa. — expliquei. — Hansol, Joshua tem um nome americano e um coreano, Jisoo. Você não tem...
— ! — Joshua voltou a se aproximar quase correndo. — Estava pensando se não poderíamos tomar um drink mais tarde. Pelos velhos tempos.
— Temos uma reunião quando sairmos daqui. — menti. — Fica para a próxima.
— Eu te procuro. — ele sorriu e realmente se foi. Encarei Hansol com um sorriso.
— Pelos velhos tempos? — ele perguntou.
— Nem faz tanto tempo assim. — dei de ombros. — Vamos, temos que ver a...
— Palestra do Joshua. — ele disse com um leve toque de ironia na voz pesada.
— Não fique com ciúmes. — brinquei, torcendo para tudo aquilo ser de fato uma brincadeira.
Depois de correr entre palestras e demonstrações com Hansol durante todo o dia, finalmente eu estava no meu quarto. Já tinha checado todos os pontos de luz do quarto para ver se nenhum deles era uma câmera escondida e, depois de ver que estava segura, tinha pedido um jantar, comido enquanto assistia a um documentário criminal qualquer e agora estava relaxando na cama, esperando que o sono chegasse, mas ouvi um barulho no quarto e sentei na cama em estado de alerta. Talvez o caso criminal tivesse mexido demais comigo.
— Se ao menos Ted estivesse aqui... — resmunguei sozinha. Então ouvi o barulho no quarto novamente. Desci da cama quase correndo e saí do meu quarto, batendo na porta do quarto ao lado.
— Eu não... Ah, é você. — Hansol abriu a porta enquanto tentava me dispensar. Ele vestia um pijama de cetim escuro aberto até o meio do tronco, o cabelo escuro estava levemente bagunçado e ele usava um óculos de armação redonda e dourada. — O que foi? Você parece assustada.
— Eu estou. — sem pensar, o abracei pela cintura e apoiei a cabeça no peito quase nu dele. — Eu ouvi um barulho no meu quarto. Não quero ficar lá. E eu também vi um documentário de caso criminal hoje. Então estou assustada. Me deixe ficar aqui.
— Joshua com certeza te deixaria ficar no quarto dele. — ele alfinetou.
— Se eu quisesse ficar no quarto do Joshua, teria aceitado beber com ele hoje. — separei o abraço e entrei no quarto sem me importar com o suspiro resignado dele. — Você usa óculos?
— Nem sempre, mas hoje meus olhos estão cansados. — ele respondeu enquanto fechava a porta. — E eu já disse para você parar com esses casos, . Principalmente antes de dormir. — ele andou até a cama e começou a tirar os pertences espalhados ali.
— Estava trabalhando? — perguntei quando vi um dos folhetos que tínhamos ganhado em uma das demonstrações.
— Só tentando adiantar alguma coisa. — ele deu de ombros e sentou na cama, o pijama abrindo mais que o necessário e revelando mais da pele que eu nem devia estar vendo. — Anda, vamos dormir. — ele tirou os óculos, os colocou sobre a mesa de cabeceira e bateu no colchão ao seu lado. — Amanhã checamos o seu quarto.
— Tente não me agarrar enquanto dorme. — tentei disfarçar o nervosismo que eu estava sentindo na boca do estômago.
— Digo o mesmo. — ele deitou de costas para mim. — Boa noite, .
— Boa noite, Hansol.
E como (não) esperado, eu acordei deitada quase em cima de Hansol. Minha perna estava enrolada à dele e ele me abraçava pela cintura. Ele tinha um bico fofo nos lábios e o cabelo seguia bagunçado. Estiquei o corpo e cheirei seu pescoço, o vendo se arrepiar.
— Bom dia, Hansol. — desejei.
— Bom dia. — ele respondeu ainda sonolento e apertou o abraço.
— Eu disse pra você não me agarrar.
— É você que tá me agarrando. — ele rebateu de olhos fechados.
— Hansol. — chamei. Ele respondeu um "hm" grave, ainda sem me olhar. — Você namora?
— Se namorasse, jamais estaríamos assim. — ele suspirou. — Você se mexe demais, . Pode ficar quieta pra eu dormir mais dez minutos? — pediu. Não respondi, concentrada em seus lábios finos tão próximos. — ?
Ele finalmente abriu os olhos cor de mel e me encarou. Alternei o olhar entre seus olhos e sua boca e mordi o lábio.
— É melhor eu levantar. — ele partiu o abraço e sentou na cama. — E você também. Melhor você ir se arrumar. Temos que sair daqui a pouco.
— Obrigada pela noite. — soltei. E depois ri. — Isso ficou estranho. Melhor eu ir. Vejo você lá embaixo, no café.
Saí do quarto de Hansol e corri para o banheiro. Precisava me livrar do cheiro dele na minha pele. Urgentemente.
Assim que saiu do meu quarto, caí deitado na cama e sufoquei um grito no travesseiro.
— Parabéns, Hansol. Você mal se curou de um amor não correspondido e já está aí, querendo cair em outro. — falei sozinho.
Peguei o telefone e liguei para Seungcheol.
— Você vai ter que voltar a morar no dormitório. — disse assim que ele atendeu.
— Ficou louco, Chwe? — ele quase gritou.
— Eu vou ter que me demitir, Cheol. está me colocando louco. — confessei.
— Seu coração até que se cura rápido, né? — ele riu.
— Eu liguei pra pedir sua ajuda, não seu deboche. — revirei os olhos sem que ele pudesse ver.
— Diga a ela. Não fique guardando para você como fez com a Deni. — ele suspirou.
— Ou vai aparecer outro espertinho como você...
— Ei! Eu não sabia. Não é culpa minha. — ele se defendeu. — De qualquer forma, conte a ela. Minha mãe diz que guardar as coisas faz mal ao coração. Agora eu preciso ir. Amélia está me esperando para o churrasco.
— Você sempre pode morar com sua namorada.
— Conte a ela, Hansol! — e desligou.
Como contar a ela não era uma opção no momento, apenas me arrumei para sairmos.
Tomamos café e empurrou uns sanduíches do hotel na bolsa, alegando que precisaríamos de um lanche mais tarde.
O dia foi repleto de palestras e mãos esbarrando; gente falando e dedos quase se cruzando; apertos de mão desconhecidos e sorrisos quase cúmplices.
— Vamos falar do seu vizinho hoje? — perguntei quando parei na porta do seu quarto.
— No meu quarto ou no seu? — ela riu.
— No seu.
Minha cama já tem seu cheiro.
— Eu volto em trinta minutos. — avisei. Entrei no quarto e tomei um banho rápido. Vesti meu pijama e fui bater na porta de , que me recebeu com um pijama que muito se parecia com o meu e que não era o mesmo da noite anterior. — Pijamas combinando?
— Coincidência. — ela deu de ombros e me puxou para dentro. — Vamos ao que interessa.
Negando com a cabeça, peguei o notebook de e abri a pasta onde ela guardava as informações. Nada mais que fatos isolados sem nenhuma prova concreta de que o vizinho da casa da frente era realmente o tal assassino temido de que tanto falava.
— Eu fiquei sabendo de fontes concretas que tem uma garota desaparecida na área. — ela começou a andar de um lado para o outro no quarto. — Supondo que o 88 seja o culpado, onde ele poderia esconder o corpo?
— , nós nem sabemos se a garota tá morta. Ela pode ter fugido. Decidido mudar de vida. — comentei sem tirar os olhos das últimas anotações dela.
— Você deveria trabalhar na polícia, Hansol. Eles sempre suspeitam primeiro que as pessoas fugiram. E, no final, a maioria está morta. — ela rebateu. — Como eu me livraria de um corpo? — ela perguntou para ninguém.
— Ácido?
— Deixa o corpo fedendo e não derrete quase nada. — ela respondeu de imediato.
— Moedor de carne?
— Como o nome já diz, vai moer a carne. E os ossos, dentes e cabelo? Sem chance. — ela continuou no devaneio.
— E quanto a queimar?
— A temperatura para queimar um corpo completamente tem que ser acima dos mil e trezentos graus. E precisa queimar por três ou quatro horas. Tempo demais. — ela negou.
— Peso nos pés e jogar no rio? — tentei uma última vez.
— Se não fizer um corte no corpo, os gases vão fazer ele boiar. As bolhas de ar do próprio cimento podem ajudar o corpo a subir.
— Como você sabe de tudo isso, ? — suspirei, considerando sair correndo dali.
— Casos criminais demais. — ela sorriu e eu sorri junto.
— E se assistirmos a um vídeo de caso? Depois vamos dormir. Hoje não chegaremos a lugar nenhum. — sugeri.
— E se a gente pular a parte do caso e passar direto pra parte de dormir? — ela perguntou e se aproximou da cama, tirou o notebook do meu colo, o colocando na mesa de cabeceira, e sentou ao meu lado. — Tô cansada. Hoje o dia foi cheio.
— Vai me dizer para não te agarrar hoje? — perguntei divertido.
— Eu vou te agarrar de qualquer jeito. — ela deu de ombros. Escorreguei na cama, deitando, e deitou ao meu lado, imediatamente se aconchegando no meu peito. Segurei a respiração e soltei de forma audível. — Hansol, se eu te beijasse, seria assédio? Abuso de poder? Porque eu meio que sou sua líder, né?
Baixei a cabeça para olhar seus olhos que, naquele ângulo, pareciam inocentes.
— Só é tudo isso se o RH ficar sabendo, não? — perguntei.
— Então você... — sorriu quase vitoriosa.
— , eu acabei de entrar no seu setor, isso não...
Eu tentei argumentar, mas fui bruscamente interrompido pelos lábios de colados aos meus. Foi apenas um selar demorado, quase inocente, mas foi bom. Porém não tenho certeza se isso era o certo a se fazer. Não no momento.
— Desculpa, Hansol. Foi no impulso e...
— , tá tudo bem. Eu gostei. Mas eu acho que nós não...
— É, a gente não... — ela me interrompeu, sem conseguir concluir a frase.
— Eu vou dormir no meu quarto, tudo bem? Vejo você pela manhã. — beijei sua testa e levantei, pronto para sair, mas querendo ficar.
— Até amanhã. — ela se despediu e suspirou. Sorri para ela e fechei a porta antes que eu fizesse algo de que fosse me arrepender.
Continua...
Nota da autora: sem nota!
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