Codificada por: Sol ☀️
Última Atualização: 11/07/2025.Era impulso. Era instinto. Era... ela.
parou, rígida, como se estivesse decidindo entre me encarar ou continuar seguindo em frente como se eu fosse só mais uma lembrança ruim. Mas ela virou. Lenta. Hesitante. E os olhos dela — aqueles olhos que eu jurava já ter aprendido a decifrar — eram uma bagunça de coisas que ela não sabia como esconder.
Raiva.
Tristeza.
Saudade.
Medo.
— O que você tá fazendo aqui? — minha voz saiu mais rouca do que eu gostaria. Ela ergueu o queixo, a armadura intacta, mas eu conhecia as rachaduras.
— Vim... — a palavra vacilou nos lábios dela, coisa rara — Vim te parabenizar. Pelo novo trabalho. — Forçou um meio sorriso que não chegou nem perto dos olhos, mostrando o vinho que estava na mão direita. — Mas vejo que você já... seguiu em frente.
A forma como ela olhou brevemente para a porta aberta atrás de mim — onde a risada abafada da Clara e do Marcos ainda ecoava — foi como levar um soco sem usar as mãos.
Respirei fundo.
— A Clara é minha irmã, . — falei, baixo, para não assustar o que ainda existia entre nós. — Aquele cara na sala é o namorado dela.
— Ah. — ela soltou, tão baixinho que pareceu mais pra ela mesma do que pra mim. O rosto dela perdeu parte da cor.
Soltei devagar o braço dela, como quem solta algo frágil demais para se arriscar a quebrar.
— Vem. — pedi, em voz baixa. — Vamos conversar. Por favor.
hesitou. A velha — a que calculava todos os riscos — teria dado meia-volta na hora. Mas essa ... essa que estava parada na minha frente, com o coração nos olhos mesmo que tentasse esconder... ela só assentiu, sem palavras.
Dei um passo para o lado, abrindo espaço para que ela entrasse. E, quando ela passou por mim, o perfume dela — familiar e devastador — me acertou em cheio.
Fechei a porta da sala devagar. O silêncio entre nós era tão denso que eu podia quase tocá-lo.
Não queria que a Clara e o Marcos ouvissem — ou vissem — o que estava prestes a acontecer. Então, sem soltar a mão dela, fiz um gesto com a cabeça em direção ao corredor, porque certas conversas merecem ser protegidas do resto do mundo. Mesmo que o que estivesse para acontecer ali, entre quatro paredes, fosse doer pra caralho.
— Vamos pro meu quarto. — falei, num tom que não aceitava muita discussão.
hesitou por um segundo. Só um segundo. Depois assentiu. O caminho até lá foi curto, mas parecia que cada passo pesava toneladas.
Empurrei a porta e entrei primeiro, abrindo espaço pra ela passar. O quarto estava do jeito que sempre foi: simples, pequeno, meio bagunçado — mas cheio de pedaços meus: fotos pregadas na parede, um sketchbook aberto na escrivaninha, a cama desfeita e uma camisa jogada na cadeira.
entrou devagar e olhou tudo. Como se absorvesse cada detalhe. Como se, pela primeira vez, estivesse realmente vendo quem eu era fora das gravatas, fora das paredes de vidro da empresa.
Ela parou diante da parede de fotos. Fotos de família. Eu pequeno na praia. Clara de chapéu de aniversário. Meus pais sorrindo em algum Natal antigo. Eu fiquei ali, encostado na porta, só observando. Deixando ela ver.
Sem máscaras. Sem cenário.
Só eu.
virou lentamente para mim. E pela primeira vez naquela noite, ela parecia... perdida.
— Você... — ela começou, a voz rouca — ...você tem tanto aqui. Tanta vida. Tanta... história.
Dei um passo pra mais perto dela.
— E você, ? — perguntei, baixo. — O que você tem?
Ela piscou rápido. Como se quisesse afastar algo que ameaçava transbordar.
— Não vem aqui só pra fugir, . — insisti, minha voz saindo mais firme agora. — Você veio porque precisa dizer algo. Então diz. Eu tô aqui. Eu aguento.
Ela fechou os olhos com força. Respirou fundo. Quando abriu, havia uma dor crua brilhando neles.
— Eu sou uma covarde. — sussurrou. — Eu... — a voz falhou e ela engoliu em seco — eu estraguei tudo porque não sei amar. Porque amar, pra mim... sempre significou perder.
Fiquei em silêncio. Deixei ela falar. Deixei ela se despedaçar. Porque às vezes... é só assim que a gente consegue juntar os pedaços de volta.
— Meu pai... — ela começou, o queixo tremendo — ele foi embora. Me deixou. Deixou a minha mãe. Saiu daquela casa como se a gente fosse nada.
se abraçou, como se ainda sentisse o frio daquele dia.
— E minha mãe... — continuou, a voz um fiapo — ela nunca me abraçou pra dizer que ia ficar tudo bem. Ela me ensinou a ser dura. A desconfiar. A não precisar de ninguém. — Fechou os olhos de novo. — Porque depender de alguém... significa dar a eles o poder de te destruir.
Ela tremia.
— Então eu cresci assim. Me armando. Me blindando. Construindo um mundo onde ninguém podia me alcançar.
Dei mais um passo.
— Até você. — ela disse, num sussurro quebrado.
O peito doía só de vê-la assim.
— Você me viu. Você... me desarmou. E eu não soube lidar. — ela apertou as mãos contra o peito, como se quisesse se segurar. — Então eu fiz o que sempre fiz. Empurrei. Fingi que não importava. Fingi que era só mais um erro que podia consertar com silêncio.
As lágrimas desciam agora. Silenciosas. Sem drama. Só... verdade.
Eu não aguentei.
Dei os últimos passos e a puxei pra mim, sem pedir permissão. Ela desabou nos meus braços, o rosto enterrado no meu peito, os ombros sacudindo com o choro contido por anos — décadas.
Passei uma mão pelos cachos dela, sentindo a textura suave, apertando-a contra mim como se pudesse, de alguma forma, protegê-la de tudo que já doeu.
Ficamos assim.
Ali.
No meio do meu quarto bagunçado. No meio de todos os medos dela. No meio de tudo que nunca foi dito.
Só eu e ela.
Só a verdade.
Depois de um tempo — minutos, talvez horas — ela ergueu o rosto, os olhos vermelhos e a expressão vulnerável de um jeito que eu nunca tinha visto.
— Me desculpa. — ela sussurrou, a voz embargada. — Por tudo. Pelo medo. Pela covardia. Por ter te ferido quando tudo que eu queria... — a voz quebrou de novo — era te amar do jeito certo.
Segurei o rosto dela entre as mãos, forçando-a a me olhar.
— Você ainda quer tentar? — perguntei, baixo, rouco, sentindo cada palavra nascer direto do peito.
fechou os olhos, e uma nova lágrima rolou, mas quando abriu... havia algo novo ali. Algo mais forte que o medo.
— Quero. — ela disse, sem hesitar dessa vez.
E eu… eu a beijei.
Mas não foi só um beijo. Foi um mergulho. Uma rendição.
Beijei como quem volta pra casa depois de se perder por tempo demais. Como se, naquele toque, eu pudesse apagar cada palavra não dita, cada medo que a afastou de mim.
Os lábios dela tremiam contra os meus no começo — hesitantes, como se ainda lutassem contra a própria vontade. Mas quando suas mãos se agarraram aos meus ombros, como se precisassem de algo para se ancorar, eu soube.
Ela estava ali. Inteira. Pra mim.
Minha mão subiu pela curva delicada das costas dela, puxando-a ainda mais para perto, sentindo o calor, a entrega. se encaixou em mim como se nunca tivesse pertencido a outro lugar.
O beijo se aprofundou, urgente e doce ao mesmo tempo, como se dissesse tudo que a boca dela sempre teve medo de falar.
Não era só desejo.
Não era só saudade.
Era amor. Cru, vulnerável, inegável.
Sem máscaras, sem defesas.
Só nós dois.
Finalmente.
De verdade.
O beijo foi se desfazendo devagar, como quem ainda tentava se manter preso ao momento por mais um segundo, mais um suspiro, mais uma batida de coração.
Nossas testas se encostaram. A respiração dela batia quente contra a minha pele. E então, com a voz rouca e embargada, ela disse:
— Eu amo você, . — Aquelas palavras saíram baixas, mas carregadas de uma força quase física. — Eu amo você... muito. Mais do que eu sei lidar. Mais do que eu pensei que fosse capaz de amar alguém.
Fechei os olhos, sentindo o peso e a leveza que vinham junto com aquela confissão. Porque vindo dela, que ergueu muralhas tão altas e paredes tão frias, aquelas três palavras valiam mais do que qualquer promessa no mundo.
— Você não tem ideia... — minha voz saiu rouca, falhada — não tem ideia do quanto eu esperei pra ouvir isso de você. Eu te amo.
Segurei o rosto dela entre as mãos, com uma ternura desesperada, como quem segura algo precioso demais para deixar escapar.
— Não importa o tempo que leve — continuei, os olhos cravados nos dela — eu vou passar o resto da vida te provando que amor não é abandono. Não é dor. Não é perda. É isso. — beijei a testa dela. — É a gente. Aqui.
soltou um soluço baixo, se permitindo se aninhar contra mim, como se, finalmente, estivesse aceitando que podia descansar. Que podia confiar. Abracei-a forte, sentindo seu cheiro, sua pele quente, o tremor leve que ainda percorria seu corpo.
Ela era minha.
E, agora, sabia disso também.
Terminamos o nosso abraço, ajeitou a blusa com discrição, passando a mão pelos próprios cabelos, enquanto eu apenas observava — ainda meio zonzo com tudo o que tínhamos dito e sentido minutos atrás.
Ela deu um passo em direção à porta, mas hesitou. Olhou para mim por cima do ombro, os olhos escuros brilhando com uma mistura de nervosismo e doçura que era rara de se ver nela.
— Eles vão te amar. — murmurei, caminhando até ela, com um sorriso que eu mal conseguia segurar.
Ela então parou de novo. Respirou fundo. E antes que eu pudesse abrir a porta, a mão dela tocou meu braço, me detendo.
— ... — disse, hesitante, baixando um pouco o tom de voz — Antes de... antes de eu sair dessa porta e me apresentar pra sua família... — ela mordeu de leve o lábio inferior, procurando as palavras — me fala um pouco sobre ela. Sobre vocês.
Eu pisquei, surpreso pela pergunta tão simples e tão... íntima.
— A Clara? — sorri de leve, apoiando o ombro na parede, só pra me manter em pé enquanto olhava pra ela. — Minha melhor amiga antes de ser minha irmã. Vive me infernizando, me provocando... mas é metade do que me mantém são nesse mundo. É como... — procurei uma comparação à altura — como uma âncora. Não importa quão perdido eu esteja, ela me puxa de volta.
abaixou os olhos por um segundo, como quem grava algo precioso.
— Eu quero conhecê-la. — murmurou, tão baixo que parecia um pedido. — Quero conhecer tudo. — levantou o olhar e, por um segundo, não havia muralhas ali, só a vulnerabilidade crua dela. — Não só... — ela respirou fundo — ...não só o seu corpo, . Eu quero conhecer cada partezinha da sua vida. Cada pedaço que você deixou escondido até agora.
Meu peito apertou. De um jeito bom. De um jeito que só ela conseguia. Dei um passo para mais perto, segurando o rosto dela entre minhas mãos com delicadeza.
— Então vem. — sorri, encostando minha testa na dela por um instante. — Deixa eu te apresentar direito pra tudo que é meu.
fechou os olhos por um segundo, se permitindo apenas sentir. Depois, assentiu, com aquele sorrisinho que era só dela — metade arrogante, metade vulnerável.
Abri a porta do quarto, e o cheiro de pizza e risadas invadiu o corredor.
— Sobrevivência básica: não estranha o jeito da Clara. — sussurrei no ouvido dela, enquanto saíamos do quarto
Quando chegamos à sala, Clara estava de costas para nós, terminando de colocar os pratos na mesa improvisada da cozinha. Marcos estava do outro lado, tentando abrir uma garrafa de refrigerante como se fosse uma operação cirúrgica.
Foi Clara quem nos viu primeiro. Ela se virou, deu uma olhada rápida — e quase deixou o prato cair.
— Opa! — soltou, com um sorrisão de quem já estava armando alguma. — Temos visita. Oficialmente, agora?
Ergueu uma sobrancelha para mim de um jeito tão óbvio que eu quis cavar um buraco no chão e me esconder.
— Boa noite. — disse, tão educada quanto elegante, estendendo a mão para a Clara.
Minha irmã aceitou o cumprimento, mas com aquele brilho travesso nos olhos.
— Clara. E você... bom, você é a , né? — riu. — Já ouvi muita coisa sobre você. Tipo... muita mesmo.
Eu pigarreei, tentando abafar o constrangimento. Marcos, coitado, parecia não saber se ria ou se mantinha neutro para não apanhar de ninguém.
— Espero que tenha ouvido as partes boas. — respondeu, com um sorriso que surpreendeu até a mim: genuíno, leve, com aquele toque afiado que só ela tinha.
Clara riu, já se sentando à mesa como se nada fosse mais natural.
— Algumas partes boas... outras traumatizantes. — provocou, lançando um olhar significativo pra mim. — Mas relaxa, eu também sou ótima em pegar no pé do .
— Já percebi. — respondeu, os lábios curvando em um sorriso divertido.
Sentamos à mesa e o jantar começou meio atrapalhado — Marcos tentando servir as fatias de pizza, Clara derrubando guardanapos, e eu tentando impedir que minha irmã transformasse aquilo num circo, mas não adiantou muito.
— Então, já posso saber? — Clara perguntou, com aquele ar de quem estava apenas esperando a hora certa de atacar. — Vocês tão namorando oficialmente ou a gente ainda chama de "amizade colorida 2.0"?
Eu abri a boca para desconversar, enrolar, sair pela tangente como sempre. Mas antes que eu pudesse emitir qualquer som, — impecável, segura e mais linda do que nunca — cruzou as pernas com elegância e disse:
— Estamos namorando. — como quem afirma uma sentença sem medo.
Eu pisquei, pego totalmente desprevenido. Clara deu um gritinho de comemoração, batendo palmas como uma criança.
— Eu sabia! — exclamou, quase derrubando o copo de refrigerante. — Marcos, anota aí: eu sabia!
— Eu... tô anotando. — respondeu Marcos, rindo baixo, provavelmente aceitando que naquela casa, era mais seguro só seguir o fluxo.
Enquanto Clara comemorava como se tivesse ganhado na loteria, eu olhei para . Ela só me encarava, calma, tranquila, como se dizer aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
E naquele olhar dela — sem muralhas, sem máscara — eu entendi. Ela não só queria estar ali. Ela escolheu estar ali. Conosco. Comigo.
A noite seguiu com pizza, piadas ruins e lembranças de infância que a Clara insistia em jogar na roda, só pra me envergonhar mais a cada fatia devorada.
— Vocês sabiam que o tinha um ursinho chamado Sr. Fofura até os doze anos? — Clara disparou, com a boca cheia de pizza.
— Clara! — reclamei, jogando um guardanapo nela.
, sentada ao meu lado, soltou uma gargalhada verdadeira — aquela que eu raramente ouvia.
— Sr. Fofura? — ela repetiu, ainda rindo, virando-se para mim com um brilho nos olhos que eu não via há muito tempo. — Isso explica tanta coisa...
— Traição dentro da própria casa. — murmurei, fingindo indignação enquanto pegava outra fatia de calabresa.
Marcos riu junto, completamente à vontade. apoiou o cotovelo na mesa, inclinando o queixo na mão, e me olhou como quem olha um segredo que acabou de desvendar.
— Eu gosto disso. — disse, num tom baixo que talvez só eu tenha escutado. — De ver você assim. Rindo. Relaxado. Sem o peso do mundo nos ombros.
— Isso aqui é quem eu sou de verdade. — falei, de volta, sem filtros.
Ela sorriu pequeno, aquele sorriso de canto que dizia tudo sem precisar de tradução. Marcos levantou a taça de refrigerante como se fosse um brinde improvisado:
— Então... a nós! — disse, meio encabulado, mas sincero.
— A nós. — repetimos, quase em uníssono, rindo, brindando com copos de vidro e latas amassadas de refrigerante.
E eu... eu só conseguia pensar em como era fácil amá-la daquele jeito.
Sem esforço.
Sem medo.
Talvez, pela primeira vez, eu estivesse vendo a que ela sempre guardou — e ela estivesse, finalmente, se permitindo ser vista.
E era lindo.
Tão lindo que doía, mas doía do jeito certo.
O jantar já tinha virado mais conversa do que comida. As risadas diminuíram, a luz amarelada da cozinha deixava tudo com um clima aconchegante, e eu sabia que era hora de encerrar a noite. Pelo menos, para os convidados.
Empurrei a cadeira para trás e olhei para , que ainda segurava a mão entrelaçada à minha.
— Vamos? — perguntei, com um sorriso leve. Ela assentiu, ajeitando discretamente a bolsa no colo. — Vou te levar em casa. — completei, já me levantando.
Foi aí que Clara soltou uma risada alta e debochada, segurando a barriga.
— Levar? — perguntou, ainda rindo. — Você vai pegar carona, isso sim! O carro é dela, gênio.
Marcos, que tentava se conter, lançou um olhar cúmplice para Clara e riu junto, com aquela risadinha maliciosa que só tornava a cena mais óbvia. ergueu uma sobrancelha, divertida, e eu revirei os olhos, cruzando os braços.
— Vocês são insuportáveis. — murmurei, fingindo irritação, o que só fez eles rirem mais.
apenas se levantou, com aquela compostura elegante de sempre, como se estivesse acima daquela bagunça toda — mas o sorriso escondido no canto da boca a entregava.
— Vamos. — disse ela, olhando pra mim de um jeito que só nós entendíamos agora.
Peguei a chave do carro que ela estendeu pra mim e seguimos até a rua, ela tinha deixado estacionado em frente a nossa casa. Clara ainda soltava uns "boa sorte, hein!" entre risinhos enquanto fechava a porta.
No carro, a atmosfera mudou. O silêncio entre nós era confortável. Expectante. colocou uma playlist baixa no celular — jazz suave — e eu dirigi pelas ruas adormecidas da cidade, uma mão no volante, a outra sobre a perna dela, num toque discreto, mas cheio de significado.
Quando estacionei em frente ao prédio dela, olhei para a fachada iluminada, depois para ela.
— Eu não tô pronto pra te deixar ir ainda. — confessei, a voz rouca de tão sincera.
tirou o cinto devagar, se inclinou na minha direção e sussurrou:
— Então... não deixa.
Sem pensar duas vezes, desliguei o motor e seguimos para o apartamento dela. Nenhum dos dois precisava dizer nada — estava escrito na maneira como nossas mãos se encontraram no elevador, na forma como ela encostou a cabeça no meu ombro no caminho até a cobertura.
A porta da cobertura se fechou atrás de nós com um clique suave, abafando o mundo lá fora.
Ficamos ali, parados no corredor iluminado pela luz baixa. Olhando um para o outro como se, de repente, não soubéssemos como atravessar o pequeno espaço que nos separava. Ou talvez... soubéssemos bem demais.
deu um passo na minha direção. Pequeno, quase imperceptível, mas foi o suficiente para quebrar o feitiço.
Fui até ela.
Minhas mãos encontraram seu rosto, moldando as linhas suaves que eu já conhecia tão bem. E, dessa vez, ela não recuou. Não levantou muralhas. Apenas fechou os olhos sob meu toque e se entregou.
Aproximei meu rosto do dela e, por um segundo, apenas respirei seu cheiro — aquela mistura inconfundível de sabonete caro e algo que era só dela. Meu coração batia forte, rápido, urgente.
— ... — ela sussurrou, a voz rouca de emoção.
E então eu a beijei.
Não como quem toma. Não como quem rouba.
Beijei como quem agradece.
Foi um beijo lento, profundo, carregado de tudo que a gente tinha guardado — a saudade, o medo, o amor recém-confessado. Minhas mãos deslizaram pela sua cintura, sentindo a curva quente do corpo dela se moldar ao meu. Ela se pendurou no meu pescoço, puxando-me para mais perto, como se tivesse medo que eu escapasse de novo.
Entre beijos, tropeçamos rindo baixinho até o quarto.
se sentou na beira da cama, puxando-me pela camisa, desabotoando cada botão com uma delicadeza quase reverente. Como se estivesse, de fato, me descobrindo pela primeira vez.
Eu a observei, hipnotizado, enquanto ela tirava os próprios sapatos, a blusa branca simples deslizando pelos braços até cair no chão, suas roupas íntimas tendo o mesmo destino. O cabelo solto, bagunçado, emoldurava o rosto dela de um jeito tão bonito...
Me ajoelhei na frente dela, com as mãos firmes em suas coxas, e beijei seu ventre exposto, seu estômago, seu coração. Sentia cada arrepio dela sob meus lábios. Cada suspiro dela se misturava ao meu.
Desci os beijos até sua boceta, com a reverência de quem sabe exatamente o valor do que tem nas mãos.
se apoiou para trás, os dedos cravando nos lençóis, o corpo arqueando na minha direção como se fosse impossível resistir. Seus gemidos, primeiro contidos, logo se tornaram mais audíveis, mais desesperados, à medida que ela se rendia ao que sentia — a nós.
— , eu quero tanto te chupar… — murmurei, com a voz rouca de desejo.
Os olhos dela, brilhando com fome e entrega, encontraram os meus. E, sem hesitar, se moveu, posicionando-se sobre mim, as coxas firmes ao redor da minha cabeça, o perfume dela me deixando bêbado antes mesmo do primeiro toque.
Quando ela abriu as pernas, eu mergulhei fundo, faminto.
Lambi sua boceta com a devoção de quem tinha encontrado a melhor parte do mundo ali. Cada gemido que escapou dos lábios dela era como combustível correndo pelas minhas veias, me fazendo querer mais, me fazer melhor.
— ... — ela gemeu, arrastado, a voz embargada pela necessidade. — Mais... mais rápido, porra!
O sorriso que se formou em meus lábios se perdeu entre suas curvas.
Acelerei os movimentos, focando em seu clitoris, explorando cada reação, cada tremor. se movia sobre mim, se esfregando, procurando mais, buscando seu próprio ritmo, enquanto eu a incentivava, a segurava, a puxava para mais perto da minha cara, se é que aquilo era possível.
Meus dedos deslizaram para dentro de sua boceta no mesmo compasso da minha língua em seu clítoris, aprofundando o prazer, arrancando gemidos ainda mais altos — gemidos que ela não tentava mais conter.
Ela se entregava inteira. E eu a levava até o limite, com gosto, com fome, com amor.
— Meu Deus, eu tô quase… — Ela falou, enquanto gemia alto. Cada suspiro, cada rebolada dela contra a minha boca, cada súplica rouca, era como escrever na pele dela que ela era minha — e eu era dela.
Quando senti os tremores intensos atravessando o corpo dela, diminuí o ritmo, prolongando a onda de prazer que a dominava, lambendo sua boceta com mais suavidade até senti-la quase desabar sobre mim.
ofegava, os olhos fechados, o corpo ainda em espasmos leves, as coxas tremendo ao redor da minha cabeça. Um sorriso satisfeito se formou nos meus lábios antes de, com cuidado, segurá-la pela cintura e guiá-la de volta para a cama.
Subi devagar, beijando sua barriga, passando pelos seus seios, onde eu suguei rapidamente seu mamilo direito, até finalmente encontrar seu rosto. abriu os olhos, ainda turvos de prazer, e sorriu — um sorriso pequeno, terno, verdadeiro. Um sorriso só meu.
Beijei seu queixo, a linha do maxilar, cada pedacinho como se estivesse mapeando seu corpo de novo. Quando nossas bocas finalmente se encontraram, o beijo foi calmo, diferente do primeiro. Um beijo de adoração, de reverência.
Ela me puxou para mais perto com as mãos trêmulas, como se não quisesse — como se não pudesse — me deixar afastar nem um centímetro. Seus dedos entrelaçaram nos fios do meu cabelo, e eu senti seu corpo ainda quente sob o meu.
— ... — ela murmurou, a voz rouca. — Eu senti tanto a sua falta.
Parei o beijo apenas o suficiente para encostar minha testa na dela.
— Eu também. — sussurrei, olhando nos olhos dela. — Muito.
fechou os olhos por um instante, como se absorvesse minhas palavras. Como se quisesse gravá-las sob a pele.
Ainda colados, nossos corpos buscaram naturalmente mais.
me puxou para si, com as pernas envolvendo minha cintura, um pedido silencioso que eu entendi sem precisar de palavras. Nossos olhos se encontraram — e naquele instante, havia ali uma certeza que nunca existiu antes.
Eu me alinhei a ela devagar, sentindo a ponta do meu pau roçar contra a entrada de sua boceta, e respirei fundo, como se pudesse guardar aquele momento para sempre. Com cuidado, sem pressa, a penetrei, deslizando para dentro dela de forma lenta, profunda, reverente.
soltou um suspiro rouco, arqueando o corpo contra o meu, recebendo-me como se finalmente estivéssemos ocupando o espaço que sempre foi reservado para nós.
Ficamos assim, unidos, apenas sentindo. O calor, o pulsar, o coração dela batendo forte sob o meu peito.
Eu comecei a me mover, lento, ritmado, cada estocada mais uma jura silenciosa, mais uma promessa entre nossos corpos. me acompanhava, os olhos fechados primeiro, depois abertos, fixos em mim, como se estivesse tentando decorar cada traço, cada sensação. Minhas mãos deslizavam por suas costas, seus quadris, sua cintura, como se eu pudesse gravá-la em minhas memórias, tatuá-la em mim.
— Olha pra mim, amor... — pedi, com a voz rouca.
abriu os olhos de novo, tão abertos, tão vulneráveis, tão cheios de amor que me atravessaram como uma lâmina suave.
— Eu tô aqui. — ela sussurrou, com um sorriso trêmulo, como se prometesse mais do que apenas presença. — Sempre estive.
Acariciei seu rosto com as costas dos dedos, sem parar de me mover dentro dela, sentindo cada gemido, cada suspiro arrancado pela minha pele tocando a dela.
— Eu não vou deixar você sozinha. Nunca. — falei contra sua boca, selando a promessa com um beijo terno, desesperado, que misturava tudo que a gente era e tudo que a gente ainda queria ser.
soltou um gemido baixo, os quadris se moldando ao meu ritmo, os olhos cravados nos meus, sem fugir.
— Me ama assim... — ela pediu, quase num choro, a voz falhando entre um suspiro e outro. — Sem medo. Sem parar.
— Eu já amo. — respondi, afundando o rosto no pescoço dela, respirando seu cheiro, seu amor, sua entrega. — Sempre amei.
Aumentei o ritmo aos poucos, sentindo o prazer se construir entre nós com a mesma intensidade de tudo que sentíamos, de tudo que nunca foi dito, mas que agora estava ali, estampado em cada toque, em cada gemido abafado contra a pele do outro.
sussurrava meu nome entre os dentes, como se fosse uma prece. E eu... eu gemia baixinho contra sua boca, perdido nela, perdido naquele amor que era tão grande que parecia impossível caber só dentro de nós dois.
Quando ela gozou, foi lindo. Seu corpo inteiro estremeceu contra o meu, como se cada célula estivesse explodindo de prazer. jogou a cabeça para trás, os lábios entreabertos, e gemeu meu nome — "" — num som sôfrego, rasgado, carregado de entrega e êxtase. Era como se, naquele gemido, ela despejasse tudo: o prazer, o amor, o medo, a entrega que ela nunca tinha permitido a ninguém.
Senti meu próprio clímax se aproximando rápido, avassalador. Foi então que , ainda ofegante, puxou meu rosto com as duas mãos, os olhos brilhando de desejo e algo mais, algo só nosso.
— Goza na minha boca... — pediu, num sussurro rouco, cheio de entrega.
Meu corpo inteiro reagiu. Saí de dentro de sua boceta com cuidado, tremendo, e ela se ajeitou rapidamente, se ajoelhando à minha frente, tão linda, tão minha, olhando pra mim como se eu fosse tudo.
Segurei seu queixo com uma das mãos, tentando prolongar o momento só um pouquinho mais, mas era impossível. Bastou o calor da boca dela se abrindo, a língua úmida tocando meu pau, para que eu me desmanchasse ali, gemendo seu nome, entregando tudo o que eu era.
Ela engoliu tudo, cada parte de mim com a mesma devoção com que me amava — sem medo, sem reservas.
Quando terminei, encostou a testa na minha, os olhos fechados, nossas respirações misturadas, nossos corpos ainda trêmulos, mas tão completos como nunca tinham sido antes.
— ... — ela sussurrou, a voz rouca pelo prazer. — Você tem ideia do que acabou de fazer comigo?
Sorri contra seus cabelos, beijando o topo da sua cabeça.
— Se for o mesmo que você fez comigo... — murmurei, a voz ainda falha — ...então eu nunca mais vou ser o mesmo.
Ela soltou um riso baixinho, sem forças para mais, e eu senti seus lábios tocarem meu peito, bem sobre onde meu coração batia desgovernado.
Ficamos assim. Só respirando juntos. Só sentindo. Até que, no meio do silêncio confortável, ouvi sua voz de novo — suave, hesitante, mas tão sincera que me desmontou:
— Me promete uma coisa?
Passei a mão em seus cabelos cacheados, afastando-os do rosto dela, antes de responder:
— Qualquer coisa.
ergueu os olhos até encontrar os meus. Brilhavam de um jeito que era só dela, só nosso.
— Não desiste de mim. — pediu. — Mesmo quando eu for difícil. Mesmo quando eu errar. Mesmo quando eu esquecer que posso ser amada.
Apertei-a contra mim, sentindo a garganta fechar com a intensidade do que ela pedia — do que ela se permitia sentir.
— Nunca. — prometi, a voz quase quebrada. — Eu não desisto de você, . Nunca.
E ali, naquele quarto, naquela cama bagunçada, naquele pedaço pequeno de mundo só nosso… Eu soube que, finalmente, ambos tínhamos encontrado o que sempre buscamos sem saber: um lar. Um no outro.
— ... — ela chamou, com a voz mais inocente do mundo, deslizando uma perna por cima da minha cintura.
— Hm? — murmurei, já desconfiando da travessura. Ela sorriu. Aquele sorriso devastador.
— Acho que a gente merece um segundo round... — sussurrou no meu ouvido, a mão descendo perigosamente pela minha barriga.
Soltei uma risada rouca, puxando-a pela cintura, invertendo nossas posições de um jeito que arrancou um gritinho surpreso dela.
— Princesa... — murmurei contra sua boca, antes de beijá-la com fome renovada — ...você vai acabar me matando.
— Que seja uma morte maravilhosa. — ela riu contra meus lábios, entrelaçando as pernas nas minhas costas, puxando-me para ela sem nenhuma vergonha.
E eu... eu mergulhei nela de novo.
Na mulher que eu amava.
Na vida que, finalmente, era nossa.
E, pela primeira vez, o mundo lá fora podia esperar.
A noite anterior tinha sido um fio interminável de beijos, carícias e confissões sussurradas. Depois que nossos corpos finalmente se acalmaram, me puxou para o banheiro, onde dividimos um banho quente, lento, cheio de toques que não queriam dizer adeus à pele do outro.
Entre risos abafados e beijos encharcados de espuma, lavei seus cachos com uma delicadeza que arrancou dela um olhar tão doce que meu coração quase se partiu. Ela retribuiu, passando os dedos com calma pelo meu cabelo, como se estivesse tentando memorizar cada traço meu com as mãos.
Voltamos para a cama ainda molhados, apenas enrolados nos lençóis, grudados, o corpo dela colado ao meu de um jeito que parecia feito para caber ali. Dormimos entrelaçados, como se o mundo inteiro tivesse se resumido àquele colchão.
E, pela primeira vez, eu dormi em paz.
Acordei com o calor do sol filtrado pelas cortinas batendo de leve no meu rosto. Mas não foi isso que me despertou. Foi o toque suave dos dedos dela passeando pelo meu peito, seguido de um sussurro rouco no meu ouvido:
— ... — a voz dela arranhava, preguiçosa, deliciosa — ...quero você de novo.
Abri os olhos devagar, dando de cara com a mulher mais linda que já tinha passado pelos meus sonhos — e agora, pela minha realidade. estava em cima de mim, os cabelos cacheados emoldurando seu rosto ainda amassado de sono, e um sorriso preguiçoso que só ela sabia dar.
— Você não cansa de mim? — brinquei, passando as mãos pela sua cintura nua.
— Nunca. — respondeu, antes de me beijar devagar, com uma doçura que desmontou qualquer tentativa de resistir.
Fizemos amor de novo, mais lento dessa vez, com uma ternura que me deixou sem fôlego. Cada toque dela dizia: "Eu fico." E cada suspiro meu respondia: "Eu quero que fique."
Depois, rindo como adolescentes que sabem que quebraram todas as regras, voltamos para o chuveiro.
Outro banho.
Outra desculpa para não desgrudar.
Ela me lavava com as mãos leves, brincava com os respingos, passava os dedos molhados pelas minhas costas como se pudesse redesenhar meu contorno só para ela. Eu fazia o mesmo, rindo das cócegas, beijando a ponta do nariz dela, o ombro, a clavícula. Era tudo tão simples. Tão íntimo. Tão nosso.
Minutos depois, estávamos na cozinha impecavelmente branca e moderna da cobertura da . O mármore brilhava sob nossos pés descalços, o aroma de café caro se misturava ao perfume suave dela, e a luz natural da manhã filtrava pelas enormes janelas de vidro que cercavam o apartamento.
, usando uma camiseta minha que tinha ficado lá — e nada mais —, tentava, com uma expressão concentrada e divertida, operar a máquina de café automática que, apesar de caríssima, parecia exigir um diploma para ser manuseada.
— Isso aqui é de qual era? — ela resmungou, batendo de leve na máquina, sem muita paciência. — Revolução Industrial?
Soltei uma gargalhada, cortando frutas com uma habilidade que ela, claramente, não dominava.
— É só tecnológica demais pra quem está acostumada a mandar fazer café perfeito, Srta. . — brinquei, piscando.
— Tem personalidade de sucata chique. — retrucou, rindo baixo, antes de aceitar a xícara que estendi para ela.
Sentamos à pequena ilha de mármore, nossos joelhos se tocando de vez em quando, dividindo café, torradas e pedaços de frutas frescas que admitiu não ter comprado — tinha sido a governanta, claro.
A simplicidade daquele momento — mesmo em meio ao luxo — era o que fazia tudo mais perfeito.
Foi no meio de uma mordida num pedaço de mamão que ela soltou, de forma tão casual que quase passou despercebida:
— A gente podia... viajar no próximo feriado.
Pisquei, surpreso, o garfo pairando no ar por um segundo.
— Viajar?
— É. — ela deu de ombros, o tom despreocupado, mas o brilho nos olhos a entregando. — Um lugar só nosso. Onde ninguém conheça a CEO nem o certinho. Só... nós dois.
Meu peito aqueceu.
Era tão simples.
Tão sincero.
Tão diferente de tudo o que já vivi com ela — ou com qualquer outra pessoa. Dei um sorriso torto, sentindo meu coração bater mais rápido só de imaginar.
— Então vamos. — murmurei, deslizando a mão sobre a dela, entrelaçando nossos dedos. — Vamos pra qualquer lugar que tenha você.
desviou o olhar por um segundo, como quem luta contra um sorriso bobo. Um sorriso lindo, meio tímido, meio atrevido — 100% .
E eu soube, naquele instante, com a mesma certeza de quem sente o sol esquentando a pele depois de uma longa tempestade:
Era só o começo.
Nosso começo.
Primeiro foi uma camisa esquecida no closet. Depois, um tênis largado ao pé da cama. O relógio que eu sempre tirava antes de dormir, repousado na mesinha de cabeceira dela como se sempre tivesse pertencido ali. O meu perfume favorito, um frasco novo, discretamente surgindo ao lado dos dela, como se o universo estivesse, ele também, se acostumando à ideia de nós dois.
Era natural. Era inevitável. Era… certo.
A cobertura dela, moderna e impecável, agora carregava pequenas assinaturas minhas espalhadas pelos cantos. E , mesmo com todo o seu perfeccionismo, nunca reclamou.
v Pelo contrário: às vezes, quando achava que eu não estava olhando, eu flagrava o olhar dela repousando nesses pequenos vestígios de mim. E ela sorria. De leve. Sutilmente. Mas sorria.
Minha rotina se moldou à dela de um jeito curioso. Durante o dia, eu me perdia entre rabiscos, briefings e telas no estúdio da Bravura. À noite... era ela quem me buscava, pontual e majestosa, parando o carro de luxo em frente à empresa como se fosse o gesto mais banal do mundo.
descia do carro com sua elegância inata — o salto firme, o blazer alinhado, os cabelos sempre emoldurando o rosto como uma obra de arte viva. E, mesmo depois de tudo, mesmo depois de tê-la nua, crua, entregue nos meus braços, cada vez que a via assim — soberana — meu peito disparava como na primeira vez.
Ela nunca se importou com os olhares curiosos. Nunca hesitou. Apenas me esperava ali, do lado de fora, braços cruzados e um sorriso reservado, como se dissesse: "O mundo pode olhar. Eu não me escondo mais."
E eu… eu saía pela porta da empresa todas as noites sabendo que estava indo para casa. Não o lugar físico, mas para ela. Minha casa era ela.
Naquela sexta-feira, por acaso, decidi passar em casa antes de encontrar a . Precisava pegar uns documentos antigos, umas ilustrações que eu queria mostrar pra ela — e, bem, parte de mim sentia falta da minha zona de conforto bagunçada.
Subi as escadas dois a dois, a mochila jogada de qualquer jeito no ombro, as chaves girando entre os dedos. Quando abri a porta do apartamento, fui recebido por uma cena que me fez congelar no batente.
Clara estava no sofá.
Marcos também.
Muito... próximos.
Muito... envolvidos.
Beijos intensos, mãos ousadas, gemidinhos abafados — e uma falta generalizada de noção do ambiente.
— Pelo amor de Deus, crianças! — exclamei, batendo a porta mais forte do que o necessário para anunciar minha presença.
Os dois se separaram como se tivessem levado choque. Clara ajeitou a blusa toda torta e Marcos, coitado, ficou tão vermelho que parecia um tomate prestes a explodir.
— Você podia ter mandado mensagem, né?! — Clara reclamou, tentando arrumar o cabelo desordenado com uma dignidade que já era impossível de recuperar.
— Ah, claro — revirei os olhos, jogando a mochila no chão — porque a casa é de vocês agora?
— Olha quem fala! — Clara retrucou na hora, apontando pra mim como se fosse advogada de defesa. — Você mal pisa aqui, ! Vive acampado na cobertura da Barbie executiva!
— É, velho... — Marcos murmurou, ainda tentando recompor a postura — Só tô aqui porque sua presença virou evento raro.
Eu cruzei os braços, encarando os dois com uma expressão semi carrancuda.
— Tá falando como se fosse mentira — resmunguei, arrancando uma gargalhada alta da Clara.
Ela se levantou, ajeitando a barra da camiseta e vindo até mim com aquele sorrisinho malicioso que era a marca registrada dela.
— A gente tá zoando... — disse, cutucando minha barriga. — Mas sério, você tá feliz, né?
Suspirei, deixando o peso da verdade escapar num sorriso que não consegui — nem quis — esconder.
— Tô. — admiti. — De um jeito que nem sabia que era possível.
Clara sorriu largo, e eu vi um brilho orgulhoso nos olhos dela. Um daqueles momentos silenciosos que diziam mais do que qualquer zoeira.
— Então... fica lá. — ela piscou. — Mas, se puder, avisa antes de vir.
— Principalmente se for de surpresa. — completou Marcos, rindo, puxando Clara de volta pro sofá, dessa vez de forma mais comportada.
Revirei os olhos mais uma vez, pegando o que eu precisava no armário da sala.
— Dois adolescentes sem controle... é isso que vocês são. — murmurei, saindo pela porta.
Clara ainda gritou atrás de mim:
— A gente aprendeu com o melhor, ! Você e a são pura inspiração!
Eu só levantei a mão em despedida, sem coragem de olhar pra trás. Porque, no fundo, ouvir isso… também me deixou feliz.
Ridiculamente feliz.
A vida, pela primeira vez em muito tempo, tinha encontrado um ritmo que fazia sentido para mim. Meus dias na Bravura se tornaram uma sequência de pequenos momentos de felicidade que eu nunca tinha imaginado sentir no trabalho.
Logo cedo, eu chegava no estúdio com meu sketchbook debaixo do braço, cumprimentava a equipe que, aos poucos, foi se tornando mais do que colegas — foram virando parte da minha história nova.
O espaço era leve, cheio de mesas bagunçadas com canecas de café, computadores lotados de referências, pranchetas improvisadas nos cantos e pôsteres de arte moderna pelas paredes.
Era... vivo.
Era criativo.
Era meu.
Trabalhava em campanhas publicitárias para marcas grandes — ilustrando conceitos, criando personagens que transmitissem o espírito de cada projeto. Mas o que realmente me fazia sorrir era outro trabalho: pequenas séries de ilustrações para livros infantis.
Eu desenhava histórias sobre dragões tímidos, meninas astronautas, florestas encantadas... E cada traço carregava algo que eu nem sabia que estava guardado em mim.
Sensibilidade.
Sonho.
Esperança.
Recebia feedback positivo dos colegas e dos meus chefes — gente como a Marina e o Sr. Navarro, que não economizavam elogios quando algo realmente os tocava.
— Você tem sensibilidade, . — ouvi uma vez da Marina, enquanto analisávamos as páginas coloridas de um projeto novo. — Não é só técnica. Você... sente o que desenha. E isso não se ensina.
Em outra manhã, durante uma reunião de revisão, Navarro passou os olhos por uma série de ilustrações que eu havia feito para um livro sobre amizade e disse, com aquele jeito sóbrio e direto dele:
— Você entende de alma humana, garoto. E isso vale mais que qualquer diploma.
Teve também a Laura, uma colega de equipe que, ao ver uma sequência de esboços para uma campanha de outono, largou o café na mesa e soltou:
— Caramba, ! Seus desenhos fazem a gente querer entrar dentro da cena. Tipo... morar nela.
Saí desses momentos querendo guardar cada palavra num potinho. Porque, pela primeira vez, eu me sentia exatamente onde deveria estar.
Pertencendo.
Sendo visto.
Sendo valorizado não só pelo que eu fazia... mas pelo que eu era. E parte dessa confiança, eu sabia, vinha do amor que, agora, também morava dentro de mim.
.
Meu presente, meu futuro.
O que antes parecia impossível — ser feliz de verdade — agora era minha realidade de todo dia.
Feliz.
Realizado.
Inteiro.
Minha vida não era perfeita. Ainda havia dias difíceis, prazos apertados, noites sem inspiração. Mas agora, tinha um lugar para onde eu queria voltar. Tinha braços me esperando. Tinha um amor que, contra todas as probabilidades, tinha encontrado um jeito de existir.
Um jeito bonito. Simples. Real.
E isso mudava tudo.
Meu celular vibrou no bolso justo no meio dos meus devaneios.
Amor: "Vem pra cá no seu horário de almoço. É urgente."
Pisquei, confuso.
Urgente? Com ela?
Respondi que iria e, sem nem terminar de almoçar, corri.
O elevador parecia mais lento do que nunca. Minhas mãos suavam levemente enquanto atravessava o saguão da empresa dela. Era bizarro como, mesmo agora, a simples ideia de estar naquele território me deixava meio elétrico. Mas... urgente? Entrei direto para o andar da diretoria — e então vi.
estava em pé, num pequeno círculo de conversa com três chefes de área, todos rindo, papéis em mãos, clima casual de uma reunião pós-apresentação. Ela usava um conjunto azul-marinho que parecia desenhado no corpo, cabelo preso num coque despojado que deixava sua nuca à mostra — e, como sempre, irradiava aquela mistura única de elegância e poder.
Antes que eu pudesse sequer abrir a boca, ela me viu. E, sem hesitar, caminhou até mim, pegou a minha mão com naturalidade — e, virando para os presentes, falou:
— Para quem ainda não conhece oficialmente: esse é . Meu ex-secretário, e agora meu namorado.
O chão sumiu por um segundo.
Senti o rubor subindo pelo pescoço, tomando o rosto inteiro. O zum-zum-zum foi imediato.
Olhares arregalados. Pessoas trocando mensagens discretamente. Sussurros atravessando a sala feito corrente elétrica.
Eu fiquei ali, sem saber se sorria, se falava algo, se cavava um buraco para me enfiar. Mas ... não vacilou nem por um segundo. Ela manteve a postura reta, impecável, um leve sorriso no canto dos lábios, mas era nos olhos — só nos olhos — que eu via.
Vi o que ela queria me dizer sem palavras:
"Eu não vou te esconder."
"Eu escolho você."
Meus dedos apertaram de leve a mão dela, sem pensar.
Era simples.
Era direto.
E, ainda assim, era o gesto mais grandioso que ela podia fazer.
— Muito prazer — murmurei, meio sem ar, cumprimentando os poucos que ainda tentavam disfarçar o espanto.
— Ele trabalha com ilustrações agora, na empresa Bravura que admiro muito — continuou, natural como se estivesse apresentando o novo CFO da companhia. — E é... a melhor parte dos meus dias.
Senti meu coração bater no ritmo errado.
Porra, .
Ela sorriu pra mim, breve, privada, daquele jeito que só eu conhecia. Que só existia para mim. E naquele instante, no meio de cochichos, olhares curiosos, e celulares vibrando com fofocas internas, eu soube:
Ela não estava apenas me apresentando.
Ela estava me assumindo.
Nos assumindo.
Sem medo. Sem reservas.
E a parte mais bonita? Ela não disse isso com promessas ou declarações melosas. Disse com um gesto. Com a coragem de ser vista ao meu lado.
Respirei fundo, com o peito tão cheio que parecia que ia explodir.
E sorri.
Sorri como quem finalmente entende que, às vezes, os reparos mais profundos vêm em silêncio — mas deixam marcas eternas.
O sábado parecia normal.
Eu estava jogado no sofá da cobertura da , sketchbook no colo, rascunhando qualquer coisa sem muita pretensão. O sol da tarde entrava pelas janelas enormes, banhando a sala num dourado preguiçoso. O cheiro de café vinha da cozinha, e por um segundo, tudo parecia absurdamente em paz.
Até ela aparecer.
cruzou a sala com passos leves, os passos ecoando no piso de mármore, e parou na minha frente, cruzando os braços de um jeito que só ela conseguia fazer parecer natural e autoritário ao mesmo tempo.
— Troca essa roupa aí. — ordenou, com um sorriso pequeno e perigosamente adorável. — Vamos sair. Quero fazer uma coisa diferente.
Ergui uma sobrancelha, desconfiado, olhando para minha camiseta velha e o short de moletom.
— Diferente tipo... o quê?
Ela apenas piscou, divertida, e se jogou de lado no sofá, roubando espaço e fingindo estudar meu desenho.
— Confia em mim, lindo.
Suspirei, já rindo. Era impossível dizer não para ela — principalmente quando usava aquele apelido de propósito, só pra me provocar.
Larguei o sketchbook na mesinha de centro e fui me trocar. Quando voltei, ela já batucava os dedos no braço do sofá com uma impaciência divertida.
A viagem foi tranquila. dirigia com a mesma elegância que fazia tudo na vida — segura, decidida, impecável. Eu tentei arrancar alguma dica sobre o destino, mas ela apenas ria e desviava, jogando o cabelo para trás como quem escondia o segredo mais valioso do mundo.
Foi só quando viramos uma esquina que eu entendi.
— Parque Marisa? — perguntei, surpreso, olhando as luzes coloridas e meio gastas, a roda-gigante girando contra o céu azul-acinzentado.
— Sim. — ela sorriu, desligando o motor do carro de luxo que destoava completamente dos outros no estacionamento de terra batida. — Achei que a gente merecia uma tarde sem regras. Sem cobranças. Só... diversão.
Meu peito apertou com uma ternura quase adolescente.
. No Parque Marisa.
Deixei que ela puxasse minha mão e nos guiasse entre as barraquinhas de algodão doce, crianças correndo, cheiro de pipoca e carrossel tocando música velha.
E foi mágico.
, que normalmente era a própria definição de autocontrole, soltou um grito agudo na primeira volta da roda-gigante, agarrando meu braço com tanta força que eu achei que ia perder a circulação.
— ! — ela exclamou, com os olhos arregalados, a mão espalmada contra o meu peito. — Eu odeio altura, você não me avisou que balançava tanto!
Soltei uma risada baixa, puxando-a mais para perto.
— Você quem quis vir, amor. Agora aguenta. — provoquei, beijando de leve sua testa.
bufou, mas se aninhou ainda mais contra mim, os dedos cravados no meu casaco. E, quando a roda-gigante começou a descer suavemente, ela soltou uma risada nervosa — daquelas que escapam sem querer, quebrando toda a pose.
Descemos, e ela, já mais corajosa, me puxou pelo braço em direção aos carrinhos bate-bate, a expressão agora desafiadora.
— Vamos ver se você é tão bom no volante quanto fala. — disse, arqueando uma sobrancelha.
— Tá me desafiando, ? — perguntei, rindo.
— Tô te avisando. — ela retrucou, piscando.
Entramos em carrinhos separados e, no segundo que a buzina soou, ela veio na minha direção como uma bala. O impacto nos fez ricochetear de um lado pro outro, rindo alto, a risada dela mais livre e escandalosa do que eu jamais tinha visto.
— Isso é guerra! — gritei, fingindo indignação enquanto tentava escapar dela.
— Guerra é o que você vai ter se continuar fugindo! — ela gritou de volta, a voz embargada de tanto rir.
Quando finalmente saímos dos carrinhos de bate-bate, o cabelo dela estava todo bagunçado, a jaqueta torta no ombro e os olhos brilhando de adrenalina. E, mesmo rindo, eu só conseguia pensar: estou ferrado.
— Viu só? — disse, ajeitando o zíper com um ar vitorioso. — Quem ri por último, ri melhor.
— É, mas quem bate melhor... — sacudi a cabeça, fingindo dor no ombro — sou eu.
Ela me mostrou a língua, sem um pingo de vergonha, e me puxou pela mão em direção ao próximo desafio: o jogo das argolas.
— Se eu ganhar, quero sorvete. E um pedido de desculpas público. — anunciou, pegando as argolas como se fosse uma atleta olímpica.
— E se eu ganhar? — arqueei a sobrancelha, entrando no jogo.
— Hm... — fingiu pensar, mordendo o lábio de leve. — Eu admito que você é bom em mais de uma coisa.
— Excelente prêmio. — sorri, pegando minhas argolas.
Ela foi a primeira. Mirou com concentração, ergueu a mão… e errou feio. A primeira caiu longe. A segunda quicou fora do alvo. A terceira bateu no suporte e rolou.
— Isso é claramente sabotagem. — murmurou, olhando para as mãos como se elas tivessem a culpa.
— Claro, amor. As argolas se rebelaram contra você. — provoquei, rindo tanto que precisei apoiar as mãos nos joelhos.
Quando chegou a minha vez, acertei logo de primeira. Depois outra. E mais uma.
cruzou os braços, o nariz empinado, a expressão teatralmente ofendida.
— Injusto. Você deve ter treinado escondido.
— Ou talvez eu só seja... talentoso. — falei com falsa modéstia, lançando a última argola direto no alvo.
Ganhei um ursinho de pelúcia de olhos tortos e segurei como se fosse um troféu. Fiz questão de estender pra ela com pompa.
— Agora, cadê meu prêmio?
— Vocêébomemaisdeumacoisa. — ela murmurou num sussurro rápido e indecifrável.
— Hein? Repete, por favor. Volume e dicção, docinho. — Ela me fuzilou com os olhos.
— Você é insuportável…
— Mas irresistível. Vai negar?
— Tá bom! — ela bufou. — Você é bom em mais de uma coisa. Satisfeito?
— Muito. — sorri, roubando um selinho rápido antes que ela pudesse fugir. — E o prêmio vai para a dama que perdeu com muita classe.
Entreguei o ursinho com uma reverência exagerada. Ela segurou o bicho com uma expressão de quem queria fingir desprezo… mas não conseguia esconder o sorriso.
— Eu vou guardar. — disse, num tom tão sério que meu peito apertou.
E eu sabia. Ela não falava só do ursinho. Falava daquele momento. Daquela lembrança. Da gente. E eu... eu queria guardar ela. Aquele momento. Aquela que ninguém conhecia — mas que era só minha.
Depois da nossa pequena "competição" nas barracas, com ainda abraçada ao ursinho de pelúcia como se ele fosse feito de ouro, fomos andando devagar pelo parque. O vento da noite já começava a ficar mais frio, trazendo o cheiro doce do algodão doce misturado ao de pipoca estourada.
Ela ergueu o rosto devagar, os olhos nos meus. E então me beijou.
Foi um beijo que veio com calma, mas que cresceu em intensidade a cada segundo. Os lábios dela se moldavam aos meus com precisão quase absurda — como se tivessem sido feitos pra isso. Era um beijo quente, profundo, que trazia saudade e promessa na mesma medida. A ponta dos dedos dela se enroscou na gola da minha jaqueta, enquanto minhas mãos seguravam sua cintura com delicadeza, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer o momento.
Tudo girava — a roda, o mundo, o meu peito — menos a gente.
E então, no auge do silêncio, do encaixe, da certeza… o celular dela vibrou.
afastou os lábios com um suspiro frustrado, encostando a testa na minha. E só então o encanto começou a se desfazer. Ela franziu a testa, relutante. Eu a vi hesitar antes de pegar o aparelho no bolso da jaqueta. Quando olhou a tela, o sorriso sumiu do rosto na mesma hora.
Ela olhou o visor do celular e, por um segundo, hesitou. Depois atendeu, já com a voz mais contida.
— Mãe?
Permaneci em silêncio, apenas observando. Mas era impossível não notar como os ombros dela ficaram tensos quase que imediatamente. A forma como a mão livre apertou o tecido da calça, como se precisasse de um ponto de apoio invisível.
— Sim… — ela disse, a voz firme no início. — Eu apresentei, sim. Na empresa.
Ela desviou o olhar pra janela da cabine, mas não parecia ver nada lá fora.
— O nome dele é .
Meu peito apertou com força. Não pelo nome — mas pela maneira como ela o disse. Como quem tenta manter o controle enquanto o chão racha sob os pés.
— Eu sei o que estou fazendo. — continuou, mais baixo. — É a minha vida. A minha decisão.
As pausas começaram a ficar mais longas. As palavras, mais escolhidas. A cada resposta que ela dava, algo nela parecia encolher. Como se estivesse recuando para dentro de si mesma.
— Mãe… — sussurrou, quase sem som.
Aquilo doeu mais do que qualquer grito. Ela ficou em silêncio por uns segundos, ouvindo, e então disse, com uma calma que me cortou:
— Eu te ligo depois.
Desligou.
Ficou olhando o aparelho na mão, como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa. Depois guardou no bolso da jaqueta e soltou o ar devagar, como quem não sabia mais onde enfiar a dor.
— … — chamei baixinho, colocando a mão sobre a dela.
Ela piscou, como se estivesse voltando de algum lugar.
— Tá tudo bem — mentiu, com um sorriso pequeno, amargo. — Só ganhei um novo título, só isso.
— Que título?
Ela me encarou, os olhos ainda carregados da conversa.
— "Erro estratégico". "Erro estratégico". — repetiu, quase rindo, mas o som saiu seco. Irônico. Como se tentasse achar graça só pra não chorar.
Fiquei quieto por alguns segundos. Não sabia se puxava ela pra mais perto ou se dava espaço. Não sabia se falava alguma coisa ou se o silêncio era o que ela precisava, mas ela não me deixou escolher.
— Ela sempre estraga tudo. — disse de repente, com os olhos fixos no vidro da cabine. A roda-gigante continuava girando devagar, como se zombasse da tensão no ar. — Sempre.
— ...
— Eu não posso fazer nada espontâneo. Nada. — o tom dela era mais alto agora, mas não gritava. Era um tipo de raiva contida, sussurrada com os dentes cerrados. — Se eu tomo uma decisão, tem que ter lógica, estratégia, retorno. Até pra amar alguém, eu tenho que fazer planilha?
Não soube o que responder. Porque, no fundo, eu sabia que essa cobrança que ela carregava nas costas não tinha começado agora. E não era só sobre mim.
Ela passou a mão no cabelo, puxando com força as pontas como se quisesse arrancar a frustração pela raiz.
— Eu tava feliz. Um único momento de paz, de leveza, e ela liga. Como se eu precisasse de autorização pra sentir. Como se tudo que eu faço ainda tivesse que passar pelo crivo dela.
— , olha pra mim. — pedi, tocando seu queixo com delicadeza.
Ela relutou por um segundo, mas acabou virando o rosto, os olhos mais marejados do que ela permitiria que alguém percebesse.
— Você quer conversar sobre isso?
— Não. — respondeu rápido, mas sua voz falhou. — Eu só precisava de um dia sem isso. Só um.
Puxei-a pra mais perto, mesmo que ela estivesse meio rígida no início. Aos poucos, seu corpo foi cedendo, e ela se aninhou no meu peito, como antes.
— Não é você. — murmurou, quase um pedido de desculpa. — É ela. Sempre foi ela.
— Eu sei.
Ficamos em silêncio por um momento. A roda-gigante girava, lá embaixo a cidade seguia acesa, ignorando nossas dores pessoais. E então, quase como quem se lembrou de mais um detalhe irritante no meio do caos, ela falou:
— Ah... — o tom agora era levemente sarcástico, como se tentasse retomar o controle pelo humor ácido — Ela quer te conhecer.
Eu arregalei os olhos, surpreso.
— O quê?
— A rainha-mãe quer avaliar o plebeu. — disse, se afastando um pouco só pra me encarar. — Mas não se anima, tá? Não é porque ela se interessou por você. É porque quer descobrir com qual das minhas decisões você vai destruir o legado da família primeiro.
Não consegui evitar um riso nervoso.
— Tá, agora eu tô com medo real.
sorriu de leve, um daqueles sorrisos curtos e cansados, que não disfarçavam a exaustão emocional, mas tentavam.
— Bem-vindo à minha vida, . Quem namora comigo, namora com a sombra da minha mãe também.
— Então deixa eu te dizer uma coisa. — segurei sua mão. — Se for pra estar contigo, eu lido com qualquer sombra. Até a dela.
Ela não respondeu. Mas respirou fundo, encostando de novo no meu peito. E quando não disse nada, eu entendi: o silêncio dela também era uma resposta.
E, naquela noite, bastava.
A manhã seguinte chegou mais rápido do que eu gostaria — como se a noite tivesse sido só uma vírgula entre dois parágrafos de ansiedade. Desde a ligação da mãe da , que encerrou nosso passeio na roda-gigante, meu cérebro parecia ter entrado em modo de emergência. Dormir? Só se fosse com o pensamento desligado. E claramente não era o caso.
estava visivelmente irritada — com a mãe, com a situação, com o mundo. Disse que ela estragava tudo. E que agora queria que eu fosse tomar café da manhã… com elas.
Sim. Café. Na casa dela.
Com direito a cara fechada, julgamento silencioso e a sensação de que eu seria escaneado da cabeça aos pés por uma mulher que tratava o coração da filha como um patrimônio de alto valor estratégico.
Talvez por isso — ou talvez porque o clima entre a gente tenha ficado estranho depois da ligação — eu tenha decidido dormir em casa naquela noite. O que era raro, ultimamente. Mas naquela noite... eu precisava do meu quarto. Do sofá da sala. Da torneira que pinga desde 2019. Do café da Clara feito no fim do dia como se fosse um abraço em forma líquida.
Então lá estava eu, na manhã seguinte, no quarto da Clara, com uma camisa social passada, sapato lustrado e um pânico crescente a cada vez que o espelho me devolvia o reflexo.
Eu juro que tentei manter a calma. Mas era como se o colarinho tivesse sido costurado com ansiedade pura.
— Tu vai tirar sangue dela ou só tomar um café, ? — perguntou Clara, parada na porta com os braços cruzados e aquele sorriso debochado de quem se diverte com a tragédia alheia.
— Clara, por favor. — murmurei, tentando ajeitar o cabelo que teimava em cair na testa. — Eu vou conhecer a mãe da . A mulher me vê como se eu fosse… sei lá… uma planilha desatualizada no sistema dela.
— E você não é? — Virei, indignado.
— Muito engraçado. Vai abrir um stand-up? — Ela jogou uma almofada em mim, rindo.
— Relaxa. A te ama. Ela te apresentou pra empresa inteira, lembra? Depois daquilo, é meio tarde pra fingir que você é só o secretário bonitinho.
Suspirei e voltei a encarar o espelho. No fundo, eu sabia que não era só sobre o café. Era sobre o que aquela mulher representava: frieza, lógica, poder. O sobrenome dela abria portas antes mesmo dela bater. E eu? Eu era um ex-secretário, agora ilustrador de um estúdio pequeno, morando num apartamento alugado com a Clara e uma selva de samambaias.
— Eu só… — respirei fundo. — Não queria que ela achasse que eu tô com a filha dela por interesse.
Clara, que ainda ria, parou na hora.
— , você foi o único cara que a apresentou pra alguém em anos. Se essa mulher tiver um pingo de bom senso, vai perceber que você não tá ali por status. E se não perceber... — ela deu de ombros. — A que lute.
Não contive o riso, mesmo com o estômago embrulhado.
— E se ela me olhar com aquela cara de CEO do mal?
— Você já sobreviveu a uma CEO do mal. Inclusive, tá dormindo com ela agora.
— Touché.
Clara se aproximou, ajeitou meu colarinho com aquele carinho silencioso que só irmão tem e disse, mais suave:
— Você não precisa ser rico. Nem CEO. Nem ter sobrenome de peso. Só precisa ser o que ama a como ela merece. O cara que não joga charme, mas tem um coração do tamanho do mundo. Isso basta.
— E se ela perguntar onde eu me vejo em cinco anos?
— Aí você mente. Com classe. E depois volta chorando que eu faço chocolate quente.
Suspirei, rindo nervoso.
— Não sei se tô mais pronto… ou mais ferrado.
— Os dois. — ela piscou. — Agora vai. Impressiona a sogra.
A mansão de Regina era exatamente como eu me lembrava da primeira vez que estive ali com a : elegante demais, silenciosa demais, grande demais. Uma daquelas casas em que até o ar parecia pedir permissão para circular. Tudo era imaculado, simétrico, com móveis que pareciam ter saído direto de um catálogo de luxo e uma escadaria digna de final de novela. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhum aroma que indicasse que ali vivia, de fato, uma família.
Ela surgiu na sala de jantar como quem presidia uma reunião do conselho — passos firmes, expressão calculada, cabelo impecavelmente preso num coque alto e um conjunto bege tão alinhado quanto os talheres dispostos à mesa.
— . — disse, com um leve aceno de cabeça. As sobrancelhas erguidas, os olhos avaliando como se eu fosse um relatório trimestral.
— Dona Regina. Bom dia. — respondi com um sorriso educado, ainda que tenso. Senti o peso de cada letra do meu cumprimento.
Ao meu lado, estava com o maxilar travado. Ombros erguidos. Ela já esperava o embate — só não contava que fosse antes mesmo do café esfriar.
Regina caminhou até a cabeceira da mesa com a mesma precisão meticulosa de antes. Sentou-se com elegância quase ensaiada, cruzou as pernas com delicadeza e, então, ajeitou o guardanapo no colo com a precisão de um bisturi.
Nós a acompanhamos, tomando nossos lugares à mesa logo em seguida. As cadeiras estofadas eram rígidas como o ambiente, e por um momento me perguntei se alguém ali realmente já havia relaxado de verdade naquela casa.
— Nós já nos vimos antes, não foi? — comentou, como se retomasse uma reunião pendente. — Você esteve aqui com a há um tempo.
— Sim, senhora. Foi uma visita breve.
— Hm. Parecia... deslocado.
— Talvez porque eu estivesse. — tentei aliviar com um sorriso, mas ela nem piscou.
— Espero que agora se sinta mais à vontade. — disse, embora seu tom deixasse claro que “à vontade” não era exatamente o que ela esperava de mim.
pigarreou. Quase um aviso.
— Mãe, viemos apenas tomar café. Vamos manter isso simples, por favor?
— Eu prefiro refeições a reuniões. As pessoas se revelam muito mais entre goles e garfadas do que em qualquer sala com ar-condicionado. — comentou, enquanto se servia de frutas com gestos medidos.
Recebi um café das mãos de um dos empregados. O cheiro era forte. Amargo. Tudo a ver com o ambiente.
— Então... — Regina retomou. — Você trabalha como ilustrador?
— Sim. Estou no estúdio Bravura. Trabalho com direção de arte editorial, narrativa visual e projetos gráficos autorais.
— Hm. Imagino que não seja um setor muito… lucrativo.
Ela não perguntou. Afirmou. Engoli em seco e mantive a compostura.
— É uma profissão que exige bastante dedicação. Mas paga as contas, sim.
— Algumas, talvez. — murmurou, mexendo o chá com a colher prateada. — E quanto você ganha, exatamente?
largou o garfo. Não foi sem querer.
— Mãe!
— É uma pergunta simples, . Transparência é essencial em qualquer relacionamento.
— Isso aqui não é uma entrevista de emprego. — rebateu, fria. — E, sinceramente? O valor que ele ganha é mais digno do que muito executivo com sobrenome e cargo herdado.
Regina recostou-se, o sorriso congelado nos lábios.
— Que reação desnecessária.
— Que pergunta desnecessária. — respondeu no mesmo tom.
Tentei amenizar o clima:
— Se não se importa, dona Regina… onde fica o banheiro?
— Segunda porta à esquerda no corredor. — respondeu , com um sorrisinho tenso e olhos que pediam desculpa sem dizer.
Saí sentindo o colarinho apertar. Lavei o rosto, respirei fundo, deixei a água correr pelas mãos como se pudesse dissolver o desconforto.
Na volta, parei no pé da escada. Sem querer. Juro. Mas quando ouvi meu nome no meio da frase, meus pés congelaram.
— …é só isso que estou dizendo. Ele é limitado, . Um rapaz simpático, claro. Mas não é um homem pra você. Você sabe disso.
— Você não o conhece, mãe. E não tem o direito de diminuir alguém que construiu tudo com o próprio esforço.
— Esforço não paga viagens para Genebra. Esforço não garante filhos em boas escolas. Não sustenta estabilidade. Eu te criei para escolher com estratégia, não com carência.
— Não fala comigo como se eu fosse um investimento, Regina. Porque, se for, prefiro cortar o contato de vez.
Silêncio.
— Eu amo o . E se você não consegue aceitar isso, talvez precise se perguntar se ainda faz parte da minha vida. Porque eu não vou deixar você acabar com o que a gente tem.
O vazio que se instalou depois disso parecia denso. Como se ali, entre aquelas palavras, estivessem anos de frustração engolidos.
Afastei-me devagar e voltei a andar com firmeza, os sapatos fazendo barulho de propósito no chão de mármore. As duas se viraram. Regina recompôs o rosto num segundo. nem tentou.
— Tudo certo, ? — ela perguntou, a voz baixa e trêmula.
— Tudo sim. — respondi, encarando-a por um instante. Só pra que ela soubesse: eu tinha ouvido. E estava ali.
Regina ajeitou a xícara com um tilintar suave.
— Como eu dizia… amanhã você almoça aqui, . Só nós duas.
demorou a responder. Quando falou, foi com um olhar afiado:
— A gente conversa depois. Agora… eu quero ir embora.
E eu fui com ela. Porque, mesmo sem dizer nada, ela segurou minha mão com força. Daquele jeito que dizia tudo.
— Amor... — chamei, baixo. Ela me olhou de lado, ainda com os ombros tensos da conversa com a mãe. — Você pode me deixar em casa?
Ela franziu o cenho, surpresa.
— Em casa? Você não quer ir para cobertura? — Hesitei só um segundo, antes de inventar.
— Clara me mandou mensagem mais cedo. Parece que tá meio na bad… só queria estar lá hoje, fazer companhia, sei lá.
continuou me encarando, como se procurasse rachaduras no que eu dizia. E talvez até tivesse, mas ela não contestou. Apenas assentiu com um movimento pequeno da cabeça e ligou o carro de novo.
— Tá bom. Eu te levo.
O caminho de volta foi silencioso. Mas não o tipo de silêncio confortável, que se acomoda entre duas pessoas como um cobertor macio. Foi o silêncio denso, incômodo, do tipo que preenchia o carro com mais ruído do que a música do rádio conseguiria cobrir.
dirigia com as mãos firmes no volante. De vez em quando ajeitava o cabelo ou tocava o próprio joelho, numa inquietação contida. Os olhos fixos na estrada. Eu fingia olhar a paisagem pela janela, mas não via nada. Só repetia a conversa. Palavra por palavra.
Quando ela estacionou na frente do prédio, ficou em silêncio. Não desligou o motor, nem me apressou.
— Me avise quando chegar. — disse por fim, num tom mais baixo, mais contido do que o habitual.
— Aviso sim. — respondeu, puxando um sorriso curto, quase tímido.
Me inclinei e beijei sua boca devagar, com um cuidado que não pedia pressa. Meus lábios repousaram nos dela por um segundo a mais do que o habitual — não pela intensidade, mas pelo significado. Foi um beijo calmo. Silencioso. Quase como se dissesse “obrigado”... e também “me perdoa”.
E então saí. Sem olhar pra trás. Porque, se olhasse... talvez não conseguisse ir embora.
Fechei a porta do apartamento. Clara ainda não tinha chegado. O silêncio me recebeu como um velho conhecido — não exatamente bem-vindo, mas familiar o bastante pra saber onde apertar.
Joguei a mochila no sofá com desleixo e fui direto pro quarto. Tirei a camisa, depois a calça social, os sapatos — cada peça caindo no chão como se estivesse cheia de tudo o que eu não consegui dizer hoje.
Fiquei parado diante do espelho. O cabelo bagunçado. As olheiras fundas, quase esculpidas. Os olhos vermelhos, mas não era cansaço, era exaustão de um outro tipo.
E doeu.
Doeu de um jeito silencioso, íntimo, covarde. Doeu porque, pela primeira vez em muito tempo, eu me enxerguei como eles me enxergavam.
Um garoto comum. Pobre. Que cresceu ouvindo que teria que trabalhar o dobro pra ser metade. Que vivia de rabiscos e de sonhos que ninguém levava a sério. Que ainda morava num apartamento apertado e com azulejo antigo. E que, mesmo agora, mesmo amando do jeito mais inteiro que sabia, ainda se perguntava se algum dia ia ser suficiente para alguém como ela.
O barulho da campainha me arrancou desse torpor. Não era entrega. Não era Clara. Já tinha escurecido. E, no fundo, antes mesmo de levantar… eu soube.
Vesti uma bermuda e levantei devagar, o corpo pesado como se cada passo fosse puxado por dentro. Atravessar aquele corredor foi como cruzar um campo minado de inseguranças mal resolvidas.
Quando abri a porta, ela estava lá.
.
Casaco escuro, olhos ainda carregados, como se o dia tivesse drenado tudo que havia de paciência. Mas era ela. Sempre ela.
— Oi. — disse, baixinho.
— Oi. — repeti, engolindo seco. Dei espaço e ela entrou.
Fomos direto pra sala, como se o resto do apartamento nem existisse. deixou a bolsa no sofá e virou de frente pra mim, os braços cruzados como escudo.
— Você sumiu. — falou. — E não foi só no carro. Tá sumido aqui. Nos olhos.
— Eu só... precisava de silêncio. — respondi, sentando. — Pra pensar.
— Pensar no quê?
— Em tudo. — soltei o ar devagar. — Eu ouvi. A conversa entre você e sua mãe, quando fui ao banheiro. Eu estava voltando e... parei sem querer. E aí já era tarde demais...
Ela congelou, mas não desviou o olhar.
— Eu ia te contar. — disse, sentando ao meu lado. — Ia te dizer o que houve, mas você ficou tão quieto… eu achei que talvez quisesse espaço.
— Eu queria. Ainda quero. Mas também quero entender.
— , o que eu disse pra ela... era verdade. Eu não tenho vergonha de você. Nem por um segundo.
— Mas ela tem. E isso ficou bem claro.
— Ela sempre teve vergonha de tudo que não consegue controlar. E você não é controlável. Você é… você. E isso é o que mais me atrai.
— Eu só… — passei as mãos no rosto. — Eu a ouvi dizendo que eu era limitado, que eu não era homem pra você.
— E eu disse que se fosse preciso, eu cortava ela da minha vida. Disse isso com todas as letras. Eu quis que ela soubesse, que entendesse que não se trata dela, nem do que ela quer. É sobre o que eu quero. E o que eu quero é você.
Ela se virou de frente pra mim, e segurou minha mão com força.
— Eu amo você. E não tô dizendo isso pra compensar. Eu tô dizendo porque é verdade. Porque amar você me fez melhor e eu não troco isso por herança nenhuma.
Demorei pra falar. Porque, pela primeira vez, eu sabia que ela falava sério. E isso doía e aquecia ao mesmo tempo.
— Eu também te amo. — sussurrei. — Mas… às vezes eu olho pra mim, pra você… e me pergunto quanto tempo vai levar até o mundo tentar engolir a gente.
Ela sorriu com a cabeça baixa e balançou a cabeça.
— Enquanto você me amar… eu vou lutar com você. Um dia de cada vez.
E então ela me beijou.
Devagar. Depois mais fundo. A mão dela foi pro meu rosto, a minha pra cintura dela, puxando devagar, sem pressa. Nos deitamos ali mesmo no sofá, os corpos se encontrando em silêncio, a respiração começando a acelerar. As mãos deslizando sem urgência, mas com necessidade.
— … — murmurei entre beijos.
— Eu tô aqui. — ela sussurrou contra meu pescoço.
O barulho da chave girando na porta foi como um balde de água fria. Nos afastamos num pulo.
— ? — Clara entrou com uma sacola na mão, e Marcos logo atrás. — Ah. Vocês estão aqui.
ajeitou o cabelo, ofegante. Eu me sentei no sofá, tentando parecer casual.
— A gente tava… conversando. — falei.
Clara arqueou a sobrancelha com um sorrisinho maroto.
— Uhum. Conversando, claro. E aí, , vai dormir aqui hoje?
— Ainda não sei. — ela respondeu, com um sorriso cúmplice. — Mas a conversa foi boa.
Clara piscou e foi direto pra cozinha. Eu olhei pra e ela me olhou de volta. A conversa tinha sido boa mesmo, mas eu sabia que ainda tinha mais por vir.
No dia seguinte, nem o café forte, nem os projetos acumulados, nem os elogios da Marina conseguiram abafar a sensação de deslocamento que insistia em voltar. Era como estar presente com o corpo… mas com a cabeça a dois quarteirões de distância.
O barulho do garfo batendo no prato do lado me tirou do modo automático. Estávamos em mais um daqueles almoços no restaurante por quilo perto do estúdio. O cheiro de comida, a conversa dos outros, os talheres — tudo girando num ritmo que eu não conseguia acompanhar direito hoje.
Sentei com o Hugo e a Ana mais por inércia do que vontade.
— A gente se conheceu aqui, né? — Hugo falou com aquele tom leve de sempre. — Primeiro job juntos, primeira briga por causa de referência visual, primeiro beijo na escada de incêndio… — Ana riu.
— Você é péssimo em datas, mas ótimo em transformar drama em romance.
— Foi meio isso mesmo. — ele olhou pra mim. — E você, ? Ainda não contou pra gente... tá com alguém?
Fingi que estava concentrado no feijão. Olhei pro prato como se dependesse dele pra sobreviver.
— Deixa o quieto. — Ana disse, me dando uma cobertura sutil, mas o olhar dela também era curioso. — Apesar que... tem uma coisa.
— O quê? — perguntei, sem levantar a cabeça.
— A moça do carrão. — ela disse, como quem solta uma carta estratégica. — Aquela que às vezes vem te buscar aqui na porta. Já vimos mais de uma vez. Salto alto, blazer, aquele carro que parece cuspido de um comercial da BMW. Vai dizer que é sua prima?
Suspirei. A boca querendo negar, mas o coração... não deixava.
— Não. — murmurei. — É minha namorada.
Hugo largou os talheres com um clac animado.
— Aí sim! E você escondendo o ouro! — disse, rindo. — O menino é discreto, mas tá namorando uma ricaça, é isso?
— Ela não é uma ricaça. — corrigi, mesmo sabendo que era. — Ela só... trabalha com liderança.
Ana estreitou os olhos, claramente juntando as peças com mais rapidez do que eu gostaria.
— Ahn. Tá apaixonado, ?
Sorri, pequeno.
— Sim, tô tentando ser feliz, só isso.
Eles sorriram também. E voltaram a comer, mas a atmosfera ao redor parecia mais leve, como se agora soubessem de um segredo que nos deixavam cúmplices. Se eles soubessem de tudo...
— Um dia a gente quer conhecer. — Hugo disse, por fim.
— Um dia. — respondi.
Mas antes disso, eu ainda precisava provar pra mim mesmo que merecia estar com ela.
O fim do expediente chegou como sempre: tarde demais e rápido demais ao mesmo tempo. O céu já começava a mudar de cor, estava cansado, a cabeça cheia. O coração... nem se fala.
Eu já estava descendo as escadas do estúdio quando a vi. Encostada no carro, braços cruzados, blazer jogado nos ombros e um sorriso enviesado de quem sabia exatamente o impacto que causava. ergueu a mão num aceno breve, e o coração bateu no mesmo ritmo de sempre — acelerado, meio sem aviso.
Quando me aproximei, ela destravou o carro com um clique e abriu a porta do motorista com elegância.
— Entra. — disse, sem perder o sorriso.
Obedeci, meio hipnotizado, e me acomodei no banco do passageiro. Ela deu a volta com passos calmos e seguros, entrou ao meu lado e fechou a porta com um estalo firme.
— Oi. — falei, virando um pouco o rosto na direção dela.
— Oi, você. — ela respondeu, se inclinando para me dar um selinho demorado, daqueles que aquecem o peito mais do que o ar-condicionado.
Logo depois, deu partida com a mesma tranquilidade de quem carrega um furacão no porta-luvas.
Ficamos em silêncio por um minuto ou dois, só o barulho da cidade filtrando pela janela aberta. A respiração dela estava calma, mas o jeito como segurava o volante — firme demais — entregava que ainda havia coisas não ditas. Até que ela quebrou o clima:
— Sobre o almoço com a minha mãe… — começou, com a voz mais baixa do que o habitual.
Eu respirei fundo, como quem se prepara para uma colisão inevitável.
— Não foi exatamente... caloroso. — ela continuou, os olhos presos na rua à frente. — Mas eu fui firme. Disse que não tinha espaço pra ela interferir nas minhas escolhas. E que se ela quisesse continuar fazendo parte da minha vida, precisava aceitar você nela.
Virei um pouco o rosto, observando o perfil dela à luz do fim de tarde. Havia algo no tom que era mais do que simples desabafo — era um limite traçado a ferro e fogo.
— E ela? — perguntei, com cautela.
soltou uma risada breve, sem humor.
— Disse que não entende. — deu de ombros. — Que não aprova, mas respeita. Que esperava outra coisa pra mim… outro tipo de futuro. Mas percebeu que não vai conseguir me moldar do jeito que fazia antes. E que, mesmo com todas as ressalvas dela, viu que eu tô feliz. E que você me faz bem.
Ela respirou fundo, como se cada palavra da mãe ainda estivesse ali, latejando por dentro.
— Acho que... ela vai engolir a própria expectativa. Vai fingir que não vê, que não escuta, que não concorda, mas vai estar presente. Aos poucos. Do jeito torto dela. É o que temos. Não é uma aceitação calorosa, mas é um começo.
Eu fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando digerir tudo. , tão acostumada a ser racional e impenetrável, tinha enfrentado o coração de pedra da própria mãe por mim.
— Isso é... muita coisa. — murmurei, mais tocado do que consegui demonstrar. — Obrigado por não desistir.
Ela soltou uma risada suave, dessa vez verdadeira, e apertou minha mão que estava sobre o câmbio.
— Eu já desisti de muita coisa pra caber nos moldes da minha mãe, . Mas de você? Nem pensar.
Assenti, olhando pela janela. Deveria ser um alívio — e era, em partes. Mas o silêncio que veio depois trouxe junto aquele velho incômodo. A diferença de mundos. De realidades.
— ... — comecei, devagar. — Você tem noção que só o valor do condomínio do seu apartamento é maior do que meu salário?
Ela olhou de relance, depois voltou os olhos pra estrada.
— E?
— E isso é surreal. A gente vive universos diferentes.
— … — ela suspirou. — Você acha mesmo que eu tô com você esperando equilíbrio bancário? Eu não quero você se importando com essas coisas.
— Mas e se isso virar um problema?
— Não vai. — disse, firme. — Namoros sérios evoluem. E é óbvio que, em algum momento, a gente vai falar sobre casamento, casa, rotina... Mas a minha conta bancária não pode ser o motivo da gente ter uma DR. Eu te amo. E isso é o que importa.
Fiquei quieto. Tentando absorver o que, para ela, parecia tão simples.
— Eu não me importo de pagar as coisas da casa. Se a gente morar junto, eu cuido disso. Eu cresci com tudo isso sendo natural.
— E eu cresci sabendo que eu tinha que correr atrás. — respondi. — Se a gente casar um dia, eu vou ajudar. Mesmo que seja com pouco e que você possa cobrir tudo.
Ela sorriu, sem desviar os olhos do trânsito.
— E é por isso que eu te amo, . Porque você nunca foi pequeno. Nem quando o mundo tenta te fazer sentir assim.
Soltei o ar devagar. Olhei pra ela, com aquele amor que era meio susto, meio milagre.
— E é por isso que eu tô tentando ser suficiente pra você. Mesmo com o medo inteiro no bolso do casaco.
Ela soltou uma risada baixa, doce.
— Você já é.
E a mão dela procurou a minha sobre o câmbio. Quente, firme, decidida.
Naquele instante, a diferença entre os nossos mundos parecia menos importante. Porque o que a gente tava construindo ali, entre sorrisos, DRs e trânsito engarrafado... era um universo só nosso.
Os dias passaram.
Não com a leveza que eu gostaria, mas passaram. e eu voltamos a nos ver com frequência — o café da manhã juntos, as noites no sofá, os domingos preguiçosos em que ela tentava fazer panquecas e eu fingia que dava certo. A vida seguiu. A gente seguiu.
E eu tentava. De verdade. Tentava me manter no presente, nos olhos dela, na risada dela, nos dedos entrelaçados nos meus durante um filme qualquer, mas vez ou outra, o fantasma daquela manhã voltava.
O tom da mãe dela. A palavra "limitado". A forma como me vi, mesmo depois de tudo, ainda duvidando se bastava.
No trabalho, eu me agarrava ao que me fazia bem. Aos rabiscos no sketchbook, às reuniões criativas, às ideias que surgiam no meio de um café derramado. Hugo sempre puxava conversa com aquele entusiasmo de quem parecia viver em ritmo de trilha sonora otimista. Ana me arrastava pros feedbacks coletivos com Marina, que continuava dizendo que meus traços tinham alma.
Era bom. Era leve. Era o que eu precisava. Mas mesmo assim… havia algo que não desgrudava. Talvez fosse só coisa da minha cabeça, fosse o medo voltando em ondas pequenas, disfarçado de paz.
Foi quando ouvi.
A conversa veio pelo corredor, num tom baixo demais pra ser oficial e alto demais pra não alcançar meus ouvidos.
— …aquela recomendação perfeita, vinda da , CEO da Domus… — disse o senhor Navarro, com aquele jeito empolgado de quem valoriza bons contatos e sobrenomes importantes.
Parei. Congelado.
. CEO da Domus.
.
Me escondi atrás do monitor como se aquele gesto patético fosse capaz de amortecer o impacto do que eu tinha acabado de ouvir, mas era tarde. O nome dela martelava na minha cabeça como se alguém tivesse acabado de gritar.
A garganta secou. O coração bateu como se tivesse tropeçado num degrau invisível.
Não era coincidência. Não podia ser. Eu sabia como o Navarro falava quando estava impressionado. Eu conhecia aquele tom. Aquele entusiasmo.
E então, tudo fez sentido. As portas abertas. O convite inesperado. O elogio súbito. A oportunidade que tinha surgido rápido demais, sem que eu tivesse me movido.
Ela.
Foi ela.
E ela não me contou.
Por mais que eu soubesse que ela me admirava, que me amava — uma parte de mim se sentiu pequena e exposta. Como se, no fim, a mãe dela tivesse razão. Como se eu só estivesse ali porque alguém com um sobrenome importante me colocou.
A volta pra casa foi um borrão. O metrô, os degraus, o elevador que demorou mais do que devia. Quando abri a porta, ela tava ali: descalça, um copo de vinho na mão, cabelo preso no alto da cabeça e uma playlist baixa preenchendo o ar.
— Amor… — ela começou, mas parei no meio da sala, sem sentar, sem sorrir.
— Você falou com alguém do Bravura antes de me chamarem pra entrevista?
Ela franziu o cenho, surpresa real, e pousou o copo na mesa com cuidado.
— …
— Fala a verdade, por favor. — respirou fundo, sem fugir.
— Eu só pedi que olhassem seu portfólio. Só isso. Não fiz indicação formal, não promovi, não forcei. Eu pedi que analisassem com atenção, porque você é bom. Porque você merece ser visto.
Eu fechei os olhos por um segundo. O coração doía. O orgulho também.
— Eu queria ter conseguido sozinho.
— E você conseguiu! — ela se levantou, andando até mim. — Eu só empurrei a porta. Você que entrou. Eles viram seu trabalho, te entrevistaram, te testaram. Foi mérito seu.
— Mas se ninguém tivesse falado nada, será que eles teriam me notado?
— ... — a voz dela falhou. — Eu juro que se quiser, eu ligo pra eles agora. Navarro vai dizer. Não teve recomendação formal. Só olharam seu Instagram por minha causa, mas o resto... o resto foi tudo você.
— Mesmo assim...
— Você vai terminar comigo por isso? — ela perguntou, mais baixo. — Por eu ter acreditado em você antes mesmo de você acreditar em si?
Fiquei em silêncio. E ela continuou, agora com a voz mais trêmula:
— Eu tive medo. Medo de te perder por conta de algo que nem foi interferência de verdade. Eu nunca quis te diminuir. Pelo contrário. Eu só queria te dar uma chance de ser visto. E você foi. E eles te escolheram. Isso não te basta?
Respirei fundo. Doía. Porque era verdade.
— É. Eu consegui. — murmurei.
encostou a testa na minha, segurando meu rosto como se o mundo inteiro dependesse daquele toque.
— Não vamos estragar isso, por favor.
Fechei os olhos, deixando meus braços a envolverem, e a abracei forte. O tipo de abraço que pedia desculpas e também pedia pra ficar. Ela beijou minha testa, como se tentasse colar todas as partes inseguras que ainda existiam em mim. Como se dissesse sem palavras: não vai embora por isso.
Mas eu não consegui responder. Porque algo dentro de mim ainda latejava. Soltei o ar devagar, e os dedos que estavam nas costas dela hesitaram.
— …
Ela recuou só o suficiente pra me encarar, os olhos ainda marejados. Não de medo de mim, mas da distância que já sentia vindo.
— Eu… — limpei a garganta, procurando alguma forma de não dizer do jeito errado. — Eu preciso de um tempo. Pra pensar. Para colocar as coisas no lugar.
— Um tempo? — ela sussurrou, quase sem acreditar.
— Não é porque eu quero ir embora. É porque eu preciso entender o que isso mexeu aqui dentro. — levei a mão ao peito. — Eu não quero brigar com você por orgulho, nem carregar esse peso pra frente como se nada tivesse acontecido.
Ela ficou quieta e, por um segundo, só ficou me olhando. Depois assentiu, devagar, como quem não concorda, mas respeita.
— Tá. Se esse tempo for o que você precisa para voltar inteiro… então vai. Mas volta.
— Eu te amo, . — falei, com a voz firme, mesmo doendo.
Ela sorriu, mas foi um sorriso triste.
— Eu sei. E eu também.
Ela disse isso com os olhos nos meus. E por um segundo, por um instante quase covarde, eu quis fingir que aquilo bastava. Quis esquecer tudo e ficar, mas não seria justo comigo.
Soltei um suspiro longo, como quem desaprende a respirar por um momento, e a abracei mais uma vez. Apertado. Silencioso.
Depois me afastei devagar. Como quem desmontava um cenário. Peguei minhas coisas em silêncio. A chave, a carteira, o celular. O casaco jogado na poltrona.
não tentou me parar. E eu soube, ali, que era porque ela me amava. Porque ela entendia, mesmo que doesse.
Abri a porta devagar, e antes de sair, olhei por cima do ombro.
Ela continuava no meio da sala, imóvel, com os olhos brilhando e os braços cruzados sobre o peito, como se quisesse se manter inteira. Eu quis dizer algo. Qualquer coisa, mas não disse.
Apenas assenti, uma vez, fechei a porta atrás de mim.
O corredor parecia mais frio do que o normal. O elevador demorou pra chegar, como se o mundo estivesse me dando tempo pra mudar de ideia, mas eu não mudei.
Desci. Cruzei o saguão com o rosto quente e as mãos frias. Lá fora, a noite tinha caído de vez e a cidade parecia não se importar com o fato de que, naquele instante, eu estava indo embora do lugar onde mais queria ficar.
Mas precisava.
Chamei um carro.
Entrei e encostei a cabeça na janela, tentando não pensar, mas pensando em tudo. E assim, pela primeira vez em muito tempo, voltei pra casa. Mas não levei paz comigo. Levei só o silêncio.
Os dias que se seguiram pareceram longos demais para tão poucas horas. Eu voltava pra casa todos os dias, mas o conceito de casa já não era o mesmo. O sofá, o café amargo, o silêncio das paredes… tudo tinha gosto de ausência.
não me mandou mensagem e eu também não mandei. Mas pensei nela em todos os intervalos. Na hora de escovar os dentes, na hora de dobrar a roupa, na hora de não saber onde guardar o que eu estava sentindo.
Eu tentava me convencer de que era o certo. Que eu precisava desse tempo pra respirar, mas uma dúvida ainda corroía devagar — como ferrugem, como formiga em fruta doce: Ela realmente não tentou me ajudar mais do que disse? Ou estava apenas me poupando da verdade que doía mais?
Na manhã de quarta-feira, tomei coragem. Vi Navarro no refeitório da empresa, com seu jornal dobrado e a caneca de café fumegando como sempre. Ele estava só, folheando lentamente as páginas de cultura como se o mundo pudesse esperar por ele terminar.
Respirei fundo e me aproximei.
— Navarro? — chamei, tentando manter o tom leve. Ele ergueu os olhos por cima dos óculos.
— . Senta aí, rapaz.
Obedeci. A cadeira de metal fez um rangido irritante. Me senti com doze anos, prestes a pedir desculpas por algo que nem tinha certeza se tinha feito.
— Eu queria… tirar uma dúvida contigo, sobre minha entrada aqui. — Ele franziu o cenho, curioso.
— Algum problema?
— Não, não. Nada disso. É só que… esses dias eu soube que meu nome chegou até vocês por causa de uma recomendação da . — Navarro assentiu devagar, como quem volta no tempo.
— Sim, foi isso mesmo. Ela me mandou seu perfil pelo Instagram. Disse que achava seu traço único, que tinha frescor, sensibilidade. Que a Bravura podia se beneficiar com alguém como você e eu confio no faro criativo da . Sempre confiei.
— Ela chegou a pedir alguma coisa? Algum tipo de… preferência?
Navarro me encarou por um segundo a mais. Não com suspeita — mas com sinceridade.
— Não, . Se tivesse feito isso, eu teria dito. Ela foi clara: “Olha esse perfil com calma. Só isso.” E foi o que fiz. Pedi pra nossa equipe de RH entrar em contato. Fizemos entrevista, portfólio. Você passou por tudo, como qualquer outro candidato.
Assenti devagar, sentindo o estômago apertar.
— Então... se ela não tivesse falado nada, você acha que meu trabalho teria chamado atenção?
Ele pensou, mas não demorou.
— Eu não gosto de trabalhar com “e se”. Mas seu portfólio… era bom. Ela acendeu a luz, , mas quem entrou na sala foi você.
Fiquei em silêncio, digerindo as palavras. Parte de mim queria que ele tivesse dito o contrário. Parte de mim queria ter com o que brigar. Mas ele apenas confirmou o que eu já sabia, no fundo e talvez fosse por isso que doía.
— Obrigado por ser honesto. — murmurei, já me levantando.
— . — ele me chamou antes que eu saísse. — Nem sempre o orgulho é sinônimo de força. Às vezes, reconhecer que alguém te estendeu a mão também é.
Assenti. Com mais peso do que queria carregar naquele momento. Voltei pra mesa com um buraco no peito — e, ao mesmo tempo, um pouco mais de clareza.
Porque a verdade, dita com calma, também podia deixar cicatriz, mas pelo menos não deixava dúvida.
A televisão estava ligada, mas eu nem sabia o que passava. Só fazia barulho de fundo enquanto eu rabiscava o canto de uma folha amassada e tentava fingir que não via o celular imóvel na mesa.
Quatorze dias.
Sem mensagem, ligação e . E, dessa vez, o silêncio era escolha minha. Mesmo depois da conversa com Navarro. Mesmo depois da confirmação que deveria ter encerrado tudo.
Mas saber disso não tornava mais fácil encarar o que eu ainda sentia. O orgulho, a insegurança, o medo de parecer pequeno demais ao lado dela — tudo isso ainda morava aqui dentro.
Clara surgiu no corredor com um casaco jogado nos ombros e aquele olhar de quem não ia fingir que estava tudo bem.
— , a gente vai pra casa dos nossos pais no fim de semana, lembra? Já confirmei tudo com eles.
— Vocês vão? — respondi sem pensar. Ela me encarou.
— Nós, . A ideia sempre foi essa. Eu vou apresentar o Marcos pra nossa família. E você devia fazer o mesmo com a . — Suspirei, recostando no sofá.
— Clara...
— Não, sério. — Ela sentou do meu lado, direta como sempre. — Já deu esse “tempo”. Você ama aquela mulher. E ela ama você. Ficar se punindo por orgulho não vai mudar isso.
Soltei um riso seco, mais amargo do que deveria. Fechei o caderno com um estalo.
— Sei lá… Tô me sentindo uma droga. Parece que tudo o que conquistei foi porque ela… ajudou.
— , pelo amor de Deus. Você já conversou com o Navarro. Ele te confirmou. Ela não te indicou. Ela só disse: “olhem com atenção.” E ainda bem que disse. Porque eles viram o que eu, ela, e qualquer um com olhos funcionais já via: que você é bom.
— Mas e se ela não tivesse falado nada? Talvez eu nem tivesse sido chamado.
— Talvez tivesse demorado mais, mas teria acontecido. Porque você é talentoso e comprometido. E sabe o que mais? Se você ama alguém, é natural querer que o mundo enxergue aquela pessoa com o mesmo brilho que você vê.
Fiquei quieto. Porque doía. Mas doía mais saber que ela estava certa.
Clara me analisou de lado, com aquele olhar que ela reservava pras broncas mais sinceras.
— Esse “tempo” que você inventou… já passou da validade. Agora tá virando covardia, . — Ela pegou minha mão com firmeza. — Me desculpa, mas se você não consegue olhar pra mulher que te ama e dizer “obrigado por ter acreditado em mim quando eu mesmo não conseguia”, então talvez o problema não seja ela. Talvez seja o medo que você tem de admitir o quanto ama de verdade.
— Eu só… — respirei fundo. — Tenho orgulho. Às vezes ele fala mais alto do que eu gostaria.
— E você vai deixar o orgulho te impedir de apresentar a mulher da sua vida pra nossa família? Vai deixar esse silêncio virar ponto final?
— Eu não sei…
— Pois eu sei. — Ela apertou meu braço com mais força. — Você vai viajar com a gente. Vai respirar outro ar. Vai lembrar quem você é, o que construiu, sem precisar se diminuir. E, se tiver um pingo de juízo, vai chamar a pra ir junto.
Fez uma pausa. E então completou:
— Porque se o Marcos vai conhecer nossos pais, ela também merece. Aliás… ela já devia ter conhecido.
— Isso foi um ultimato? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
— Isso foi amor, . Eu só tô dizendo o que você mesmo não tá conseguindo enxergar.
Marcos apareceu na cozinha com uma lata de refrigerante na mão.
— Vai dar sermão toda semana, amor?
— Enquanto esse bobo não tomar vergonha na cara, vou sim.
— Justo.
Sorri. Pequeno, mas real. Talvez aquele fim de semana fosse mesmo o que eu precisava. Pra respirar. Pra voltar a mim. E, talvez... pra voltar pra ela.
Peguei o celular. Escrevi devagar, como se as palavras estivessem pesando mais do que deviam, mas enviei. Deixei a tela virada para baixo, como quem sabe que a resposta já existia antes mesmo de chegar.
Não deu dois minutos. A resposta apareceu, curta e sem hesitação:
Amor: Podemos sim. Que vir na minha casa?
Respirei fundo. O peito já apertava fazia dias. Peguei a jaqueta. E fui.
Demorei alguns segundos parado diante da porta. Não por hesitação, mas porque... respirar antes de cruzar aquela linha parecia necessário. Tinha passado dias imaginando como seria revê-la. O som da voz. O primeiro olhar. O que eu diria. O que ela não diria.
Mas a verdade é que, quando a gente ama alguém, nenhum ensaio serve de muito. Levantei a mão pra tocar a campainha, mas não foi preciso.
Ela abriu antes. estava descalça, com uma camiseta larga demais e o cabelo preso de qualquer jeito — e ainda assim, linda do jeito que sempre me desmontava.
— Achei que não ia mais me procurar. — disse, num tom mais calmo do que eu merecia.
— Eu achei que precisava de tempo pra organizar as coisas na minha cabeça. — respondi, entrando devagar.
Ela fechou a porta, mas manteve os olhos em mim. O silêncio da sala era cheio. Mas não desconfortável. Era como se as palavras estivessem ali, pairando, esperando coragem pra nascer.
— E organizou? — ela perguntou, sentando no sofá.
— Na medida do possível. — me sentei ao lado, com os cotovelos apoiados nos joelhos. — Clara me deu um sermão que você ia gostar de ouvir. Disse que eu estava deixando o orgulho falar mais alto que o amor. E... acho que ela tava certa.
arqueou uma sobrancelha, o olhar ainda cauteloso, talvez esperando que eu recuasse, mas não dessa vez.
— Você sabe que eu nunca quis te diminuir, né? — ela perguntou, com a voz baixa.
— Eu sei. — olhei pra ela. — Mas eu me senti pequeno. Não por você… mas por mim mesmo. Por não saber lidar com o fato de alguém como você me amar tanto.
Ela estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos meus. Os olhos calmos, mas intensos.
— Não importa o quanto você lute contra isso... é real. E não tem nada a ver com dinheiro, nem com currículo, nem com o carro que eu dirijo.
Aquela era a mesma mulher que me viu antes de eu mesmo me enxergar. A mesma que acreditou nos meus traços antes que eu me sentisse artista. Sorri. Pequeno, mas sincero.
— Eu fui um idiota.
— Foi. — ela respondeu sem cerimônia, me puxando de leve com o canto da boca curvado. — Mas eu perdoo. Se prometer parar de fugir.
— Prometo. — me aproximei mais. Toquei o rosto dela com a ponta dos dedos, como se ainda precisasse confirmar que era real. — Aliás… eu queria te pedir uma coisa.
me olhou, curiosa, mas sem desviar.
— O que foi?
— Clara e o Marcos vão visitar nossos pais esse fim de semana. — respirei fundo. — E eu queria que você fosse comigo. Que conhecesse minha família. Que a gente… dê esse passo.
Os olhos dela brilharam por um segundo. O sorriso tentou conter-se, mas não conseguiu.
— Você tem certeza?
— Tenho. E não é por impulso. Nem por culpa. É porque eu quero você em tudo. Até na sala de estar da minha infância.
sorriu. Um daqueles sorrisos que derretiam qualquer resistência. E eu soube. Estava de volta. Ao lugar certo.
Ela me puxou com delicadeza, como quem sabia exatamente onde me encontrar.
Nosso beijo veio devagar, sem pressa. Como se o tempo tivesse desacelerado só pra assistir. Tinha gosto de saudade. De perdão. De recomeço.
As mãos dela se prenderam à gola da minha camisa, como se não quisessem mais me soltar. E eu fui, inteiro. Porque era ela, sempre foi.
Quando nossos lábios se separaram, o silêncio ficou entre nós — mas, dessa vez, ele não doía. Ele só… repousava. Como se, finalmente, a gente tivesse encontrado paz.
— Eu topo. — ela disse, encostando a testa na minha. — Mas você vai me avisar se seus pais forem do tipo que serve fígado de entrada, né?
— Prometo. — ri, aliviado. — E, se servirem, eu como por você.
— Ah, então tá. Já é casamento.
— Cuidado com o que deseja, .
Ela me beijou de novo. E, dessa vez, o mundo inteiro desapareceu.
Alugamos um carro no aeroporto de Palmas — um sedã prata com ar-condicionado decente, graças aos céus — e seguimos estrada adentro rumo à cidade onde eu e Clara crescemos. Uma daquelas cidades pequenas do interior onde todo mundo conhece todo mundo, onde o tempo passa devagar e a comida tem gosto de infância.
ajeitou o cinto no banco da frente enquanto eu programava o GPS. Estava em silêncio, o que não era incomum… mas havia algo diferente. Ela passou a mão pelos cabelos, prendeu e soltou o coque umas três vezes, e mordeu o canto da unha — um tique raro, que eu só via quando ela estava nervosa de verdade.
— Tá tudo bem? — perguntei baixinho, virando de leve o rosto pra ela.
— Uhum. — assentiu rápido demais. — Só… conhecendo o território.
Clara jogou a mochila no porta-malas com a habilidade de quem já tinha feito isso mil vezes, enquanto Marcos, do outro lado, guardava o celular como quem se despedia mentalmente da internet — e talvez da civilização moderna por alguns dias.
— Preparados pra três dias de arroz de vó, perguntas indiscretas e cochilos na rede? — Clara perguntou, empolgada, já ligando o bluetooth para assumir a trilha sonora da viagem.
— E pra ouvir sua mãe tentando disfarçar que tá me avaliando o tempo todo? — Marcos brincou, se afundando no banco traseiro com um sorriso nervoso. — Primeira vez a gente nunca esquece, né?
Clara virou pra ele com um olhar afetuoso.
— Relaxa. Se ela te servir cuscuz com manteiga e fizer perguntas sobre sua infância, é porque já te aprovou.
— Ótimo. Se ela perguntar meu signo, eu fujo. — respondeu ele, arrancando risadas de todo mundo no carro.
sorriu, mais contida, e lançou um olhar cúmplice para ele pelo retrovisor. Eles estavam no mesmo barco. Então cruzou os braços, virou pra mim e lançou um olhar entre provocação e disfarce:
— E você? Preparado pra apresentar sua namorada oficialmente?
Soltei o ar num riso meio nervoso, meio feliz.
— Preparado é uma palavra forte… Mas animado, sim.
Ela sorriu, mas os dedos tamborilavam discretamente no joelho. , CEO, mulher que já encarou salas de diretoria e plateias de investidores... estava tensa pra conhecer minha família. E, de algum jeito, aquilo me fez amá-la ainda mais.
O Tocantins se estendia à nossa frente, com suas paisagens secas, céu escancarado e retões infinitos de estrada. Clara e Marcos no banco de trás, entre risadas e travesseiros. ao meu lado, de óculos escuros e a mão repousada na minha perna, como quem dizia tô aqui, mesmo quando tudo dentro dela dizia isso é novo.
Era a nossa roadtrip e eu sentia, no fundo do peito, que ela ia mudar tudo.
Nos últimos quilômetros, a estrada virou chão batido. O GPS já tinha desistido, mas eu não precisava dele. Cada curva, cada árvore torta, cada placa desbotada — tudo era memória.
— Isso aqui ainda existe? — Clara perguntou, rindo, ao passar por uma casinha de madeira que a gente jurava que teria caído com o tempo.
— Estamos em Lizarda. Aqui nada cai, só sobrevive. — respondi, com a voz levemente embargada.
observava tudo pela janela com os olhos de quem queria guardar cada detalhe. Os pés descalços das crianças correndo na rua de terra, os cachorros dormindo na sombra, a vendinha da esquina com os refrigerantes empilhados na porta.
— Aqui parece um mundo à parte. — ela disse, quase num sussurro.
— É. E foi aqui que eu cresci. — respondi, apertando de leve a mão dela no câmbio. Ela apertou de volta. Um gesto pequeno, mas cheio de significado.
Quando viramos na última rua de terra, a casa apareceu. Simples, mas acolhedora, com paredes claras, telhado de cerâmica e um quintal cheio de plantas e cadeiras espalhadas. Tinha cheiro de café fresco no ar — e de bolo também. Sempre tinha bolo.
soltou um longo suspiro. Eu percebi. Ela endireitou a postura e olhou pra mim.
— Só pra confirmar… sua mãe gosta de vinho?
— Ela ama. Mas vai gostar mais ainda de você.
Ela sorriu, mais aliviada. Mas ainda havia nervosismo escondido naquele sorriso e era compreensível. Porque, às vezes, conhecer o mundo do outro é também aprender a se enraizar nele e ela estava disposta.
Eu sabia.
E isso era tudo.
— Chegamos. — falei, engolindo seco.
respirou fundo ao meu lado. Estava com as mãos entrelaçadas no colo, tentando esconder o nervosismo que eu conhecia bem demais. O maxilar dela estava travado, um sinal claro de que a CEO estava dando lugar à mulher que só queria causar uma boa impressão na casa do namorado.
— Pronta? — perguntei, apertando de leve sua mão.
— Acho que sim. — ela respondeu, forçando um sorriso. — Ou pelo menos… o mais pronta que dá pra estar.
Clara, por outro lado, desceu do carro com a pressa de quem voltava pro próprio ninho. Mal esperou desligar o motor e ela já corria pro portão com um sorriso que não cabia no rosto.
— Mãeeeeeee! — gritou, feito criança.
Minha mãe surgiu na porta com o avental florido, os braços abertos e os olhos marejados. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Clara correu e se jogou nos braços dela com força, como se quisesse matar toda a saudade de uma vez só.
— Minha menina… — murmurou minha mãe, apertando-a contra o peito, a voz embargada de emoção. — Você tá magrinha, Clara. Tá se alimentando direito, filha?
— Tô, mãe. Mas a saudade pesa mais que kilo. — ela respondeu, rindo com os olhos brilhando.
— Meus meninos! Minhas meninas! — exclamou então, olhando pra mim e pros outros, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Entrem! Vocês devem estar mortos de fome! Olha o calor que tá isso aqui! — Minha mãe foi entrando junto com Clara.
hesitou um segundo antes de sair do carro. Seus olhos passearam pela fachada simples da casa, pela varanda com samambaias e a cadeira de balanço, como se tentassem mapear o terreno emocional daquele novo mundo.
— Vem. — murmurei, entrelaçando nossos dedos. — Eles vão amar você.
Ela assentiu. E sorriu. Um sorriso contido, nervoso, mas real.
A porta da frente rangeu um pouco quando empurrei. O cheiro de café passado na hora e bolo de fubá recém-saído do forno invadiu o ar, misturado com algo familiar, lembrança, talvez. Memória em estado bruto.
— Pode entrar. — falei pra , ainda de mão dada com ela. — Fica à vontade.
Ela entrou devagar, como se o chão simples e bem varrido fosse feito de vidro. Olhava ao redor com atenção: os retratos antigos pendurados tortos na parede, o sofá com manta de crochê da minha avó, o rádio velho apoiado sobre uma estante baixa, a cortina de tecido florido balançando com a brisa.
parecia absorver cada detalhe como se estivesse tentando se encaixar. Como se quisesse entender de onde eu vinha antes de fazer parte do meu presente.
E então, minha mãe surgiu do corredor. O sorriso largo, o cabelo preso no coque frouxo, e o mesmo avental florido de sempre, agora com uma nova manchinha de farinha.
— E essa aqui é a tal da , né? — disse, indo direto abraçá-la. arregalou os olhos, surpresa, mas se deixou envolver.
— Sou eu, sim. É um prazer conhecer a senhora.
— Senhora nada, menina. Me chama de Dora. Aqui ninguém tem tempo pra formalidade. — ela respondeu, com um olhar curioso que escondia, mal disfarçado, uma avaliação silenciosa. — Bonita, viu? E simpática. Fez bem, meu filho.
Fiquei vermelho. Literalmente. E antes que eu pudesse me recuperar, ela emendou:
— E esse moço bonito aqui — apontou pro Marcos, que se aproximava — é o namorado da minha menina, né?
— Isso mesmo, dona Dora. — Marcos respondeu, estendendo a mão com respeito. — Finalmente tive a honra.
— Menino educado. Clara escolheu bem também. — ela disse, puxando ele pra um abraço apertado.
— Cadê o pai? — perguntei, olhando ao redor.
— Foi comprar carvão pra assar uma carninha pra amanhã. Disse que queria agradar as visitas. Mas deve tá chegando.
Como se fosse combinado, ouvimos o portão rangendo. Meu pai apareceu, camiseta surrada, chapéu de palha e um sorriso que sempre foi maior do que ele próprio. Ele olhou pra todo mundo, viu as malas encostadas, a filha, o genro novo, a nora desconhecida. E então veio me abraçar com força.
— Eita, meu filho… Tava com saudade, viu? — disse, me dando três tapinhas nas costas.
— Eu também, pai.
Depois ele se virou pra , ajeitando o chapéu como quem quer causar boa impressão.
— Oi, moça. Eu sou o Silvério. Pai do . É um prazer ter você aqui.
— O prazer é meu, seu Silvério. — ela disse, estendendo a mão. Mas ele, claro, puxou pra um abraço também.
— Aqui a gente é de abraço. — ele brincou.
Em seguida, olhou pra Clara com os olhos já marejando.
— Minha menina… — disse, emocionado, abrindo os braços.
Clara correu pra ele, rindo, e se jogou no abraço como quem se reencontra com um pedaço de casa.
— Tava morrendo de saudade, pai. — ela falou, escondendo o rosto no ombro dele.
— Eu também, minha filha. Sua falta é barulhenta aqui em casa, viu?
Depois, ele olhou para o Marcos com curiosidade calorosa e estendeu a mão, mas com aquele brilho travesso no olhar.
— E você é o rapaz que tá fazendo minha filha rir pelos cantos?
— Marcos. Muito prazer. — ele respondeu, sem jeito, apertando a mão do meu pai.
— Muito prazer nada, venha cá, rapaz. — E puxou Marcos pra um abraço desajeitado, mas sincero. — Se vai fazer parte dessa bagunça, tem que se acostumar com abraço também.
Todo mundo riu. Até o silêncio pareceu sorrir naquele instante.
A mesa da cozinha estava posta com generosidade. Pão caseiro ainda morno, bolo de fubá cortado em quadrados grandes, biscoitinhos amanteigados num prato de vidro e café preto passado na hora, fumegando na garrafa térmica azul.
— Senta aí, minha gente. — disse dona Dora, já puxando cadeiras. — Aqui a gente conversa melhor comendo.
Nos sentamos os seis à mesa — eu, , Clara, Marcos, meu pai e minha mãe. A luz da manhã entrava suave pela janela, iluminando a toalha de mesa xadrez e dando um tom quase nostálgico à cena.
— Então… — Marcos começou, com aquele jeito leve de sempre. — A gente quer saber de tudo. Como era o e a Clara pequenos? Quem era mais levado?
— Os dois eram levados. — riu Silvério, servindo o café. — Mas o era mais calado. Vivia desenhando nos cadernos, nos guardanapos, nas paredes do quarto. Teve uma época que a gente não podia ver uma caneta fora do lugar que ele já pegava e sumia.
sorriu, olhando pra mim com ternura.
— Já fazia arte desde pequeno, então?
— Fazia, menina. — confirmou dona Dora. — E quando a gente ia chamar ele pra almoçar, ele dizia que tava “terminando uma ideia”. Eu ficava doida! Tinha dias que era preciso desligar o disjuntor pra ele parar e vir comer.
— E a Clara? — perguntou, curiosa.
— A Clara era falante, esperta, metida a mandar em tudo. — disse Silvério, rindo. — Organizava teatrinho, fazia os vizinhos de figurante, escrevia falas no caderno, queria que todo mundo decorasse.
— Um terror. — completou Dora, rindo também. — Mas tudo com bom coração. Sempre quis ser a protagonista de tudo, sempre sendo a “irmã mais velha”.
— Ué… mas eu sou dois anos mais nova! — Clara rebateu, rindo.
— Pois é. — disse o pai. — E mesmo assim, achava que mandava no irmão mais velho desde que aprendeu a falar.
A mesa caiu na gargalhada, e até eu tive que rir. Porque era verdade. Clara podia ser a mais nova… mas sempre teve alma de general de quintal.
O papo seguiu leve, cheio de histórias da infância: a vez que roubamos goiaba do vizinho e nos escondemos embaixo da cama, o dia que eu levei bronca na escola por desenhar a professora como uma bruxa, a primeira vez que Clara ficou de castigo por “emprestar” as ferramentas do nosso pai pra montar uma cabana no quintal.
ouvia tudo com os olhos brilhando, rindo alto, às vezes segurando minha mão debaixo da mesa. E eu? Eu só observava. Aquilo. Ela ali. Como se fosse parte desde sempre.
— E vocês, meus filhos? — perguntou Dora depois, olhando pra e Marcos. — O que vocês fazem da vida?
— Eu curso Engenharia com a Clara. — respondeu Marcos, ajeitando os óculos. — Quero seguir na área aeroespacial, mas por enquanto tô estagiando numa empresa de engenharia civil.
— Olha que bonito. — disse Silvério, sincero. — Isso é importante demais, rapaz. Boa sorte nesse caminho.
— Obrigado, senhor. — Marcos sorriu, um pouco tímido, mas com aquele brilho de quem acredita no que tá construindo.
Os olhos da minha mãe então se voltaram para . Curiosa. Atenta. Não de forma dura, mas com aquele jeito de quem ainda tá tentando entender o que une mundos tão diferentes.
— E você, minha filha?
limpou a boca com o guardanapo de pano e respondeu com um sorriso sereno:
— Eu sou CEO da Domus Enterprises. — respondeu com naturalidade. — É uma holding especializada em marketing e publicidade. A gente desenvolve campanhas estratégicas e posicionamento de marca para grandes empresas. Trabalhamos com vários setores, desde tecnologia até incorporação imobiliária.
Silêncio.
Um breve silêncio.
Até meu pai colocar a xícara na mesa com um toc.
— Rapaz…
— Eita. — murmurou Clara, escondendo o riso. Dora piscou algumas vezes.
— E… é tipo… chefe mesmo?
— Tipo isso. — respondeu, mantendo o tom humilde. — Tenho uma equipe muito boa comigo, mas sim, estou à frente da empresa desde os 28.
— Oxente. — disse meu pai, com os olhos arregalados. — Eu achei que você trabalhava em banco. Ou sei lá, na parte administrativa de uma firma.
— É mais ou menos isso. Só que a firma é dela. — Marcos completou, divertido.
Eu já ia intervir, dizer algo, amenizar, quando vi minha mãe balançar a cabeça, com um sorriso entre encantado e surpreso.
— Eu nunca imaginei que o fosse namorar uma mulher tão decidida.
— Nem eu. — disse meu pai, honesto. — Mas olha… deu gosto de ver como você fala com firmeza. Tem brilho no olho. A gente vê quando a pessoa gosta do que faz.
— Gosto mesmo. — respondeu, olhando de canto pra mim. — Mas mais do que tudo… gosto dele.
Eu corei. Minha mãe sorriu.
E ali, com café quente e bolo partilhado, eu soube que ela tinha ganhado espaço. Não só no meu coração, mas naquela casa também.
Depois do café reforçado, minha mãe empurrou mais uma fatia de bolo pro Marcos, disse que a tava “muito fina” pra comer tão pouco e já avisou que o almoço seria galinhada no fogão a lenha.
Enquanto ela recolhia as xícaras, meu pai se levantou e olhou pra mim com aquele ar de quem já tinha um plano em mente.
— Tô indo ali na fazenda do seu Zeca ver o pasto novo... Se quiserem, posso levar vocês pra conhecer. Tá bonito demais depois da chuva. E tem uns cavalos mansos lá que vocês podem montar.
— Cavalos? — perguntou, com um sorriso contido e as sobrancelhas arqueadas.
— Tem medo, moça? — meu pai respondeu com um brilho divertido nos olhos.
— Não. Mas nunca montei. No máximo, cavalo de carrossel.
— Pois vai gostar. A vista de cima muda tudo.
E foi assim que, meia hora depois, a gente tava a caminho da fazenda. Marcos parecia levemente arrependido da decisão e Clara já tinha colocado um chapéu de palha emprestado da mãe. segurava firme minha mão no banco de trás da caminhonete, tentando disfarçar a ansiedade.
A fazenda era um espetáculo à parte. Cercas de madeira, galinhas soltas perto da casa principal, uma porteira que rangia e aquele cheiro bom de mato e terra molhada. Seu Zeca, um senhor magro e simpático, recebeu a gente com sorriso largo e dois cavalos já selados nos esperando.
— Esses dois são mansinhos. O branquelo é o Lua, e o mais escuro ali é o Carvão. Podem confiar. — garantiu.
Ajudamos e Marcos a montarem primeiro. Marcos quase caiu tentando subir de um pulo só, e Clara não perdeu a chance de rir alto.
— Achei que o atleta aqui era você, amor. — ela provocou.
— Tô economizando energia pro casamento. — ele rebateu, ajeitando o chapéu torto na cabeça.
, por outro lado, surpreendeu. Segurou firme nas rédeas, ouviu as instruções com atenção e, aos poucos, foi se acostumando com o movimento do animal sob ela.
— Ok... isso é oficialmente mais legal do que eu esperava. — ela disse, sorrindo. — Tipo filme de faroeste. Só falta a trilha sonora dramática.
— Cuidado que aqui em Lizarda, filme de faroeste vira documentário rapidinho. — brinquei, cavalgando ao lado dela.
Seguimos os quatro por uma trilha de terra batida que contornava um campo aberto e depois se afunilava entre árvores altas. O sol forte refletia no chão seco, mas a sombra das árvores e o vento leve tornavam o passeio agradável.
Foi no meio desse silêncio tranquilo, quebrado só pelo trote dos cavalos e os sons da natureza ao redor, que olhou pra mim e disse:
— Seus pais... são incríveis.
— Eles gostaram de você. Já te adotaram, acho. — Ela sorriu, abaixando um pouco a cabeça.
— Eu tava com medo, sabe? De não caber nesse mundo. De parecer... artificial demais, mas foi tudo tão natural.
— Porque você pertence. Não é sobre de onde a gente vem. É sobre pra onde a gente quer ir.
esticou a mão até alcançar a minha. E ali, em cima de um cavalo emprestado, no meio do mato, com cheiro de terra e coração batendo tranquilo, eu soube que aquela mulher — com toda sua força, seu mundo sofisticado, seus medos e a coragem de superá-los — cabia em qualquer lugar que eu chamasse de lar.
Voltamos da fazenda no fim da tarde, cheios de poeira, risadas e histórias novas. O céu já tingia o horizonte de laranja queimado quando chegamos em casa, e o cheiro da galinhada no fogão a lenha nos recebeu como um abraço quente.
— Vai todo mundo direto pro banho! — gritou dona Dora da cozinha, já mexendo a panela com a colher de pau como se regesse uma orquestra.
No almoço-jantar, a mesa estava ainda mais cheia. Meus tios tinham passado por lá, um vizinho apareceu “só pra dar um oi”, e logo a cozinha virou aquela bagunça boa: vozes sobrepostas, piadas internas, pratos sendo repostos antes mesmo de esvaziar.
foi elogiada pela compostura, pelo apetite e até pelo jeito de segurar o copo — minha tia disse que “essa menina tem modos de princesa, mas sorriso de mulher de verdade”.
Depois, já quase meia-noite, minha mãe levantou com um bocejo teatral:
— Vamos ajeitar os quartos, né? Meninas num, meninos noutro. Aqui a casa pode ser moderna no wi-fi, mas continua tradicional no resto.
engasgou levemente com o chá. Marcos soltou um “vish” abafado. E eu... apenas engoli a frustração com o pão de queijo.
Mais tarde, o silêncio da casa caiu como um cobertor pesado. No meu quarto, Marcos já dormia roncando baixo, de barriga cheia e alma em paz. Eu, por outro lado, só virava de um lado pro outro, olhos presos no teto e o corpo inquieto.
Até ouvir três batidas secas e leves na janela.
Levantei sem fazer barulho, empurrei a vidraça e lá estava ela. , de moletom e pés descalços, com aquele sorriso de canto que só aparecia quando ela tava tramando alguma coisa.
— Vem pro quintal. — sussurrou.
— Você quer me matar, é isso?
— Quero… mas de outro jeito.
Desci pelas escadas da cozinha como um ladrão em missão secreta e a encontrei encostada no pé de acerola, os cachos soltos, bagunçados de sono, e o rosto meio iluminado pela lua e pelo abajur velho da varanda que insistia em piscar.
— Você tá linda. — falei, antes mesmo de pensar.
— E você tá me devendo beijos desde a estrada.
Não precisei de mais convite. Me aproximei, peguei o rosto dela entre as mãos e a beijei devagar, com a calma de quem queria saborear cada segundo. Mas ela não estava com pressa, estava faminta.
O beijo começou lento, mas logo virou outra coisa. Urgente. Quente. A respiração dela contra a minha, os dedos puxando minha camiseta, as mãos me prendendo pela nuca. A boca dela tinha gosto de saudade e lavanda. E tudo nela pedia mais.
Encostamos no tronco da árvore, os corpos se pressionando num ritmo familiar, desesperado e contido ao mesmo tempo. Um aperto aqui, um gemido baixo ali. Ela mordeu meu lábio de leve e puxou meu quadril mais perto.
— Você tá me deixando louca. — sussurrou, com a voz rouca de desejo.
— Você me deixou assim faz tempo.
Beijei o pescoço dela, sentindo a pele arrepiar. Os dedos dela se afundaram no meu cabelo e as pernas roçaram nas minhas com precisão. Era difícil lembrar que a casa estava cheia, que estávamos a poucos metros da minha mãe, que um galo podia cantar a qualquer momento.
E então… um estalo.
Alguém chutou um balde, ou uma telha caiu. Sei lá. Mas o barulho veio de perto, e nos fez congelar.
Ela me empurrou com as mãos no peito, rindo entre o susto e o nervoso, ainda com os lábios inchados do beijo.
— Meu Deus… — sussurrou, tentando recuperar o fôlego. — Você me deixa igual adolescente. Daqueles que fogem pra se pegar atrás do galinheiro.
Ri baixinho, encostando minha testa na dela e dando um selinho demorado, só pra não deixar a vontade acabar ali.
— E você me deixa burro. Burro o suficiente pra achar que isso aqui é uma boa ideia. — falei, beijando de novo o canto da boca dela.
— É a melhor ideia. — respondeu, colando nossos corpos de novo.
Ficamos ali mais alguns minutos, só nos tocando, respirando perto demais, rindo do absurdo que era precisar se esconder como dois moleques apaixonados no quintal da casa dos meus pais.
Mas era isso. A gente era isso.
E mesmo que fosse loucura, era a nossa loucura favorita.
Acordei com o cheiro de alho e cebola dourando na manteiga. O som do rádio velho tocando modão baixo e o tilintar de talheres na panela denunciavam que a cozinha já estava em movimento. Levantei devagar, me espreguicei e fui até o corredor, guiado mais pelo instinto do que pelos pés. Me escondi discretamente na porta entreaberta e vi a cena que quase me fez voltar a sonhar só pra viver aquilo de novo.
estava ali. De avental emprestado, cabelo preso em um coque torto e rindo de algo que minha mãe dizia. Cortava tomate com cuidado, precisão e foco. Mas sorria como quem sabia que ali, naquele ambiente simples e cheio de calor, ela era bem-vinda.
— Esse tempero aí é segredo de família, viu? — Minha mãe dizia, apontando com uma colher de pau. — Se contar pra alguém, ele desanda.
— Pode deixar. Confidencial. NDA assinado. — respondeu, com aquele humor de canto de boca que me fazia apaixonar por ela de novo todo dia.
Fiquei só observando por alguns minutos, com o coração leve e um sorriso besta no rosto. Ver a mulher que eu amo se encaixando ali — entre panelas, cheiro de comida e afeto — era mais do que um sonho realizado. Era casa. Em todos os sentidos possíveis.
— Tá na mesa, minha gente!
Nos sentamos todos juntos, eu, , Clara, Marcos, minha mãe e meu pai. A mesa estava farta: arroz soltinho, feijão com caldo grosso, carne de panela que desmanchava só de olhar, salada fresquinha, farinha torrada com alho e, claro, suco de caju gelado na jarra grande.
— Olha esse cheiro, meu Deus do céu… — Marcos comentou, puxando a cadeira ao lado da Clara. — Se eu comer demais, vocês me carregam pra rede depois?
— Rede não, meu filho — disse dona Dora, já se sentando com o pano de prato no ombro. — Aqui quem come muito ajuda a lavar a louça depois!
— Ih, se prepara então, Marcos — Clara riu — Você vai lavar até a panela da carne.
— Com esse tempero aqui? Vale o sacrifício. — ele caprichou no prato, enquanto se servia.
O almoço correu do jeito que só um almoço em casa de mãe sabe correr: conversas atravessadas, gargalhadas altas, disputas por quem pegava o último pedaço da carne.
— E esse feijão, dona Dora? — elogiou, com a voz embargada entre a timidez e a satisfação. — Nunca comi um igual.
Minha mãe deu um sorrisinho de canto, limpando as mãos no pano de prato com aquele olhar de quem já tinha sido cativada.
— Ué, mas você ajudou a fazer, menina! — disse, com afeto. — Foi você quem cortou o alho e ficou mexendo a panela enquanto eu ajeitava a carne.
— Mas o tempero é seu. Eu só segui ordens. — respondeu, com um riso leve, olhando para ela com carinho.
— Ah, menina… se você quiser mesmo a receita, tem que vir aqui pegar pessoalmente — disse Dora, piscando, com orgulho na medida certa.
— Se tiver bolo de fubá envolvido, eu venho quantas vezes for preciso. — brincou, e todo mundo riu.
Meu pai, por sua vez, passou metade do tempo contando histórias da infância que eu jurei que estavam enterradas para sempre. E a outra metade... olhando pra com aquele brilho de quem já tinha adotado.
— Lembro como se fosse ontem do escondendo goiaba no colchão pra comer de madrugada. Apodreceu tudo. A Dora quase teve um troço.
— Silvério! — minha mãe reclamou, rindo. — Vai ficar queimando o menino na frente da namorada?
— Ué, ela tem que saber no que tá se metendo.
— Olha, eu já tô colecionando material pra chantagem — disse , divertida. — Toda CEO precisa de um bom arquivo secreto. — Clara gargalhou com a boca cheia.
— Ihhh, , você vai ter que se explicar agora. — Fiz uma careta e levantei o copo de suco em protesto.
— Difamação no próprio lar. É isso que eu ganho por voltar pra casa?
— Vai dar trabalho pra você, viu, ? — emendou meu pai, servindo mais suco no copo da . — Mulher decidida é bicho arretado.
— Eu gosto de trabalho. — respondi, sem pensar, olhando para ela. sorriu com os olhos, daquele jeito que só eu entendia.
Minha mãe aproveitou o momento e apontou o garfo pra gente.
— Mas olha… fiquei feliz demais de ver vocês dois aqui. De verdade. É bom quando a gente vê que o filho da gente tá sendo amado de um jeito bonito. E você também, Clara — ela olhou pra filha, depois pro Marcos. — Esse moço aí é doce. Tem jeito de quem cuida.
Marcos ficou vermelho até a orelha.
— Obrigado, dona Dora. Tô me sentindo em casa mesmo.
Depois do almoço, meus pais foram descansar no sofá, embalados pelo som da novela baixinha na TV. Clara e Marcos saíram pra caminhar, alegando “digestão ativa”.
— Na verdade a gente quer ver se a vendinha da esquina ainda vende aquele picolé de milho — Clara confessou, pegando a mão do namorado. — E dar uma volta, claro. Matar saudade.
— Boa sorte — disse , rindo. — E tragam um pra mim se acharem.
Depois do almoço, quando o sol começou a baixar e o vento ficou mais fresco, a gente escapou pra varanda. Meus pais ainda estavam na sala, embalados pelo som da novela, e Clara e Marcos tinham saído de novo, agora pra visitar um antigo vizinho. Só restamos nós dois — sentados numa rede meio frouxa, lado a lado, os pés balançando no ar, os dedos entrelaçados devagar, como se o tempo tivesse desacelerado só pra deixar a gente respirar.
encostou a cabeça no meu ombro e ficou em silêncio por um tempo, os olhos no céu que começava a ganhar tons cor-de-rosa.
— Se a gente tivesse filhos, você acha que eles iam puxar mais a quem? — ela perguntou de repente, com a voz mansa, quase sonolenta.
— A você, com certeza. — respondi, rindo baixinho. — Imagina uma criança com o meu jeitinho metódico e... socialmente inapto? Ia ser um mini-sistema de planilhas ambulante.
— E a minha teimosia? — ela provocou, com um sorrisinho preguiçoso.
— Perfeito. Uma pequena CEO de fraldas, exigindo relatórios às três da manhã e recusando colo porque quer fazer tudo sozinha.
Ela riu alto, com aquele riso que eu amava — e que, honestamente, me desmontava inteiro.
— E se eu largasse tudo e virasse sua secretária? — ela perguntou, como quem jogava uma ideia no vento.
— Eu pediria um aumento. — disse, sério.
— A gente é o RH, . — ela rebateu, divertida.
— Então eu aceitaria. Com algumas cláusulas, claro.
— Quais?
— Beijos obrigatórios a cada meia hora. Direito à rede compartilhada. Café na cama uma vez por mês.
— Só uma?
— Eu sou um chefe ponderado. Mas podemos renegociar no segundo trimestre do namoro.
Ela se afastou um pouco só pra me olhar de perto. O cabelo bagunçado caía num lado do rosto, e os olhos dela brilhavam de um jeito tão calmo e bonito que eu quase esqueci como se respirava.
— Você ainda tem medo? — ela perguntou, mais baixo.
Demorei um segundo. Não por dúvida, mas por respeito ao peso daquela pergunta.
— Não. — respondi, firme. — Não quando você tá aqui. É como se... tudo finalmente tivesse encontrado seu lugar.
não disse nada. Só voltou a encostar a cabeça no meu ombro, os olhos fechando aos poucos, o corpo se rendendo ao embalo lento da rede, como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo.
E talvez fosse.
Entre o cheiro de terra molhada, o som das árvores balançando devagar e o calor morno da presença dela colada na minha, não existia mais pressa. Nem medo. Nem passado.
Só a certeza silenciosa de que amar — mesmo com todos os ruídos, diferenças e tropeços — era isso. Ficar.
Agora, como fornecedor.
entrou na sala alguns minutos depois, acompanhada dos acionistas e diretores da empresa. Usava um terno branco impecável, os cabelos presos num coque firme, a expressão centrada. Uma muralha de foco e poder.
E eu, , representante da Bravura Design, com meu caderno em mãos e os esboços organizados na pasta, me levantei por reflexo quando ela entrou. Não porque era minha cliente. Mas porque era ela.
A CEO da Domus. E a dona do meu coração.
— Bom dia a todos. — ela disse, firme, sentando-se à cabeceira.
— Bom dia. — respondi junto aos outros.
A reunião começou. Profissional. Estratégica. Ela apresentava as demandas com precisão cirúrgica, discutia com os sócios, elogiava a equipe de criação da Bravura. E eu? Anotava tudo. As palavras dela, os olhares, os gestos que só eu sabia o que significavam. A profissional era fascinante. Mas a minha ... era a parte que o mundo não via.
Uma hora depois, a reunião foi encerrada.
— A Bravura vai entrar em contato com nosso jurídico para seguir com as etapas, certo? — ela disse, olhando diretamente pra mim, como se eu fosse só mais um nome na sala.
— Certo. — confirmei, devolvendo o mesmo tom formal.
Um por um, os acionistas começaram a sair. Cumprimentos, pastas fechando, celulares sendo checados. O último a deixar a sala foi um dos gerentes de marketing. Assim que a porta se fechou atrás dele, o silêncio caiu.
E aí sim, ela falou:
— Você veio mesmo.
— Eu disse que viria. — me aproximei da mesa devagar. — A Bravura não recusaria um projeto da Domus. Nem eu.
Ela tirou os óculos com calma e os deixou sobre a mesa.
— Achei que fosse estranho te ver aqui... mas agora parece certo.
— Porque é.
Não foi preciso mais palavras. Ela contornou a mesa e, antes que eu respirasse fundo, estava ali, perto demais, puxando minha gravata com um sorriso torto.
— Ainda fica bonito de camisa social, .
— E você ainda me desmonta em três palavras, .
O beijo veio urgente, quente, do tipo que carrega lembrança. As mãos dela no meu pescoço, os dedos nos meus cabelos. As minhas na cintura dela, puxando de leve, como se o tempo tivesse voltado para aquelas manhãs e tardes escondidas, atrás da porta da sala de reuniões, quando a gente se pegava em silêncio pra não levantar suspeita.
Ela riu contra minha boca, sussurrando:
— A gente era muito idiota.
— A gente era muito apaixonado.
— Ainda é?
— Muito mais.
Beijei o pescoço dela devagar, o cheiro do perfume conhecido misturado ao da memória. Encostamos na parede de vidro, com a cidade inteira passando lá fora, indiferente ao que acontecia ali dentro.
— Olha só a gente. — ela sorriu. — De volta ao lugar onde tudo começou.
— Só que agora... sem esconderijo. Sem medo.
— Sem segredo de escritório.
Ela se afastou um pouco, só pra me olhar de novo.
— Então, senhor ... posso contar com você nesse projeto?
— Sempre pôde, .
mordeu o lábio, como quem segura um riso, e depois estendeu a mão.
— Bem-vindo de volta.
Apertei os dedos dela, firme.
A gente não sabia... mas era o começo de tudo.


