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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 06/02/2026.



— James e Lily foram assassinados. — Foi Lupin quem me deu a notícia. Senti meu coração perder uma batida. O ar saiu de meus pulmões em uma lufada forte, quase dolorida.
James e Lily estão mortos.
Meus amigos estão mortos.
Cambaleei, sentindo a pressão baixar, e Remus me segurou pelos ombros, enquanto eu perdia meus olhos em algum ponto sem foco. As lágrimas surgiram, queimando à medida que senti as mãos dele apertarem meus ombros com certa ternura. Lupin sempre foi gentil demais comigo, mesmo quando eu não merecia.
, sei que agora não é o momento, mas você sabe o que isso significa, certo?
Eu ainda estava petrificada de terror, não conseguia assimilar a verdade daquela a notícia que ainda ecoava em minha mente sem fazer o real sentido, como se ainda não tivesse entendido o que realmente tivesse acontecido, ou que aquilo fosse uma brincadeira de mau gosto de Remus. Ele era um Maroto afinal de contas, não era?
. — Os olhos cansados de Lupin baixaram até a altura dos meus. Seus olhos também estavam marejados, suas lindas cicatrizes beijavam seu rosto do jeito que eu sempre amava. — , você sabe o que isto significa?
— Ahn? — Mesmo assim, eu ainda estava aturdida demais para conseguir assimilar a urgência do que ele queria me dizer.
, meu amor, Almofadinhas traiu Pontas. Era ele que guardava o segredo. Lily e James foram encontrados porque ele contou.
A menção dos seus apelidos me fez finalmente acordar. Meu peito arfava com tanta força que doía, as lágrimas correram por meu rosto no momento em que ele me puxou para um abraço.
Não havia abraço no mundo que pudesse reconfortar o sentimento que nós sentíamos naquele momento, ainda assim, ficamos abraçados por alguns segundos antes que eu quebrasse a conexão.
— Harry? — perguntei, minha voz falhando em desespero pensando no pequeno.
— Ele sobreviveu. Está com Dumbledore — ele afirmou com segurança, me fazendo alisar a barriga em um suspiro aliviado.
— Eu preciso ir atrás da — afirmei, a sobriedade da nova informação me trazendo de volta ao mundo real de vez. — E se ela estiver com Almofadinhas?
— Por Merlin, você tem razão. Mas não posso te deixar sair assim.
— Remus, minha irmã...
— Você está gravida, . Não posso deixá-la ir desse jeito. — Às vezes a doçura de Remus me irritava e aquilo me fazia querer rir, porque ninguém em sã consciência ficaria irritado com um homem gentil como ele.
— Aluado, estamos falando da minha irmã gêmea, eu iria até o fim do mundo por ela.
— Por favor, , não me faça brigar com você agora. Eu preciso que fique bem.
— Eu vou ficar bem... Quando estiver com a minha irmã. — Era nítido que ele estava irritado comigo, com a minha teimosia. Passou as mãos pelo rosto e jogou os cabelos para trás.
, não faça isso comigo — pediu ele, temeroso, vindo até mim e afagando os meus cabelos. Seu toque era quente, quase febril. — Já perdi James e Lily hoje, não me faça abrir mão de você e do nosso bebê também. Fique aqui com Silver Springs.
A simples menção do nome fez Silver erguer as orelhas em curiosidade. O lobo gigante descansava a cabeça em suas patas dianteiras, porém os olhos cinzentos não desgrudavam de nós dois.
— Ah, sim, eles eram meus amigos também e minha irmã pode estar correndo o mesmo perigo. Você quer que eu fique aqui parada esperando? — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, e Remus deu um passo para trás.
— Eu não vou te perder também. — Ele foi incisivo na decisão, não querendo dar abertura para uma discussão maior, mas era a deixa que eu precisava:
— Ótimo, então venha comigo e me ajude.
Segurei um sorriso, sabendo que tinha ganhado aquela discussão. Ele suspirou derrotado, levando as duas mãos até minha barriga espichada.
...
— Eu vou com ou sem você, Lupin.
Ele voltou a me olhar com aqueles lindos olhos castanho-claros. Levei minha mão até a sua nuca e colei nossas testas, fechando os olhos, sentindo seu cheiro me preenchendo. Suas mãos saíram da minha barriga e foram para minhas mãos, ele as uniu em sua frente e beijou meus dedos.
— Eu não sei viver sem você, garota lobo.
A simples menção do meu apelido secreto me desmontou. Ele tentou jogar baixo tentando me convencer a não ir.
— Eu te amo, Aluado. — Acariciei seu rosto, o vendo fechar os olhos docemente. — Mas precisa de mim.
Antes que ele me desse alguma resposta, ouvimos um estalo seco vindo do quarto da bebê. Poucas eram as pessoas que podiam aparatar em nossa casa, mesmo assim, Almofadinhas era uma dessas pessoas. Retirei minha varinha do bolso e Remus empunhou sua varinha também.

estava ajoelhada no chão, seu choro fez meu coração doer e me ajoelhei ao seu lado com certa dificuldade. Seu choro preencheu o ambiente quando ela apoiou sua cabeça em meu ombro. Acariciei seus cabelos macios, enquanto Remus se abaixava do outro lado. Toda nossa discussão foi por água abaixo quando vimos o motivo dela bem ali. Ele acariciou suas costas, enquanto ela ainda se debulhava em lágrimas.
... — Tentei iniciar, mas minha voz estava tão embargada que eu mal conseguia formar as palavras.
— Não foi ele, . Não foi ele!
— Do que você está falando, ? — Remus perguntou, com a voz tão suave e calma que eu tinha minhas dúvidas se ele realmente tinha entendido o que ela havia dito.
— Sirius! Não foi ele que traiu James. — Ela levantou o rosto para nos olhar, os olhos estavam manchados de preto onde as lágrimas escorriam por conta do rímel que usava.
— Quem te disse isso? — perguntou Remus, ainda com a calma de quem tinha tomado um chá de cannabis sativa.
— Ele me disse. Agora mesmo.
! Pelos deuses, você foi atrás dele? — E eu preocupada com a cadela!
— É claro que eu fui, . Você não iria se fosse Remus? — perguntou ela, mais grosseira do que eu estava acostumada. normalmente era a gêmea tranquila quando comparada a mim, era o oposto de Sirius Black. Assim como eu era o oposto de Remus Lupin. E, de alguma maneira, isso dava certo.
Fiquei quieta, todos os presentes no recinto sabiam que eu teria feito o mesmo pelo homem que eu amava.
— Você acredita nele, ? — Lupin perguntou sério. Ele estava de cócoras, com a mão apoiada no ombro de minha irmã, suas sobrancelhas tinham uma ruga de preocupação entre elas, seus olhos correram do rosto dela para o meu e eu o encarei sem saber o que dizer. Limpei meu rosto das lágrimas.
— Acredito, Remus, não foi ele, ele... Ele disse que convenceu James no último instante a colocar Peter como o fiel do segredo.
Remus ficou em silêncio, sua mente provavelmente estava em parafuso como a minha.
Peter?
Peter tinha feito aquilo? O garoto que só queria se encaixar? Peter não fazia mal a uma mosca, era mole demais, não tinha culhão...
Espera.
Era isso! Ele realmente não tinha coragem para nada, como iria manter um segredo se Lord Voldemort o torturasse?
Sirius era corajoso o bastante para enfrentar qualquer um por seus amigos. Sirius tinha muito a perder, seus amigos, seu afilhado, sua noiva... Sirius enfrentaria qualquer um pela minha irmã, assim como já tinha feito antes.
Mas... Peter? Peter só ia de acordo com o que a maré lhe oferecia.
A questão é: Por que Sirius convenceria James de algo assim? Trocar o fiel do segredo era arriscado demais.
Olhei para minha irmã, desesperada, desolada e completamente perdida, depois olhei para Remus, seus olhos preocupados não saíam do meu rosto, como se tentasse encontrar a resposta em mim.
, temos que pensar por um instante, se o que ele diz é verdade... Então temos muito o que fazer — meu noivo disse, se levantando devagar. Ajudou ela a se levantar primeiro e depois veio ao meu lado, me erguendo com cuidado. — Vamos lá na cozinha, assim eu faço um chá e a gente conversa com calma.

Durante meu percurso até a cozinha, acompanhada de minha irmã gêmea de coração partido e do homem que fazia as borboletas do meu estômago voarem alto, me lembrei dos momentos incríveis que passei ao lado daqueles dois em Hogwarts, de como as coisas eram divertidas e leves, de como tudo era simples e, mesmo com problemas familiares, quando estávamos todos juntos, tudo era deixado para trás e apenas nós existíamos, os Marotos e as gêmeas Stark.





— Da família Black, temos os jovens senhores Sirius e Regulus. — Consegui observar, pelo canto dos olhos, os dois irmãos descendo a escadaria.
— Pelos Deuses, que coisa estúpida — , minha irmã gêmea, gemeu desdenhosa, enquanto íamos na direção da escararia com nosso irmão mais velho no meio.
— Se você acha estúpido, imagine eu, que tenho que sair com uma pretendente daqui hoje — Brandon murmurou entredentes. — Vocês, pelo menos, só precisam encantar uns idiotas... Pai disse que preciso de uma noiva.
— Isso é ridículo, Bram, você já tem namorada — argumentei assustada. Melody era uma moça adorável, porém não tinha certeza se o relacionamento deles ia durar diante da distância que tínhamos do nosso verdadeiro lar ao norte. E, claro, ao possível noivado que meu irmão poderia encontrar hoje.
— É, eu tenho... Mas é mestiça e eu sou o primogênito.
Eu podia ver o olhar triste dele, porém ele logo retirou aquilo da cabeça quando chegou a nossa vez de descer a escadaria. Estávamos em um jantar de gala para famílias puro-sangue, um local onde os nobres olhavam para as filhas de outros nobres para ver se elas tinham o que era preciso para fazer seu filho mimado feliz.
— Brandon Stark e suas irmãs gêmeas, e — Bram disse ao lacaio que estava no canto.
Iniciamos nossa descida com calma, enganchei meu braço no braço de Bram, enquanto fazia o mesmo. Notei os olhares sobre nós, haviam umas cinquenta pessoas no grande salão, dava para ver os grupinhos de cada família reunidos, cochichando fofocas, julgando nossas roupas e talvez até histórias de nossa família.
Espiei e ela estava com o ar nítido de nojo, narinas infladas, queixo erguido e boca crispada. ela tinha nojo daquelas pessoas, nojo daquela situação e nojo de toda aquela soberba dourada ridícula.
Eu a entendia, sabia que estávamos como dois pedaços de carne ambulante, esperando o primeiro garanhão surgir no horizonte para pedir nossa mão em casamento, mas aquilo não me deixava irritada, me deixava com pena daquelas pobres almas que nunca teriam um amor de verdade para chamar de seu.
— Da família Stark, temos o primogênito Brandon e suas irmãs gêmeas, e — o lacaio berrou quando estávamos mais ou menos no meio da escadaria. Os dois irmãos que haviam acabado de descer ainda estavam próximos do pé da escada, os pais davam total atenção ao mais baixo e o mais alto nos observava descer com os olhos perigosamente negros, alternando entre mim e com a boca ligeiramente aberta.
Ele era bonito, não tinha como negar, tinha cabelos compridos tão negros quanto os olhos e usava uma roupa de gala também negra. Na verdade, toda a família usava, como se Black fosse além de apenas um nome.
Chegamos ao fim da escadaria e tive que me espremer um pouco para não esbarrar nele, que não foi capaz de mover um músculo quando passamos. Seguimos até nossa família, que estava ligeiramente mais afastada dali, se entrosando com uma família de cabelos platinados.
— Será que são os descendentes dos Targaryen? — perguntou debochada, já que ela sabia que a família havia sido extinta e, pior, nossa família era o motivo da extinção deles.
! — a censurei, e Bram segurou o riso ainda entre nós.
— Queridos, vocês estavam lindos! — nossa mãe disse animada. Ela usava um belo vestido azul escuro, e meu pai usava um terno preto, com a gravata da mesma cor do vestido de nossa mãe.
— Obrigada, mãe — respondi, e ficou em silêncio. Bram desencaixou nossos braços e foi até nosso pai, que o chamava com a mão.
— Queridas, essa é Madame Malfoy e seu filho, Lucius.
Eu e apenas abaixamos as cabeças em uma reverência cortês.
— Sou e essa é minha irmã, . — Eu sempre era a que falava nessas horas. sabia ser um pouco... Afiada demais, o que deixava mamãe irritada e acabava sobrado para mim.
Lucius era bonito, devia ter a idade de Bram, o que me deixava um pouco preocupada com a parte de que se Bram estava procurando uma noiva, Lucius também podia estar.
Segurei a mão de , a apertando com força.
— É um prazer conhecer vocês, mas eu e precisamos fugir rapidinho, ficamos tempo demais na fila da escadaria, se é que me entendem... — Tentei soar engraçadinha, e eles sorriram, caindo no meu papinho. Uau, Lucius tinha um sorriso bonito, mas não deixei aquilo me abalar muito.
Saímos dali rápido.
Ela me puxou para uma sacada e encostou as portas atrás de nós.
A sacada era enorme e bonita, feita de pedras de ardósia e o parapeito era de pedras esculpidas belíssimas. Nas paredes em volta da porta, havia trepadeiras com belas flores roxas.
Fomos até o parapeito e olhamos os jardins lá de cima, com um belo chafariz no formato de uma serpente esguichando água pela boca aberta com dentes afiados.
— Uau. — Deixei escapar. — Esse jardim é incrível.
murmurou um “uhum” desatento.
Havia tantos canteiros de flores coloridas que era difícil não ficar encantada, a grama estava bem aparada e parecia ter a textura muito fofa. Havia caminhos feitos de lajotas hexagonais e alguns bancos de madeira para descanso.
retirou um cigarro do decote e esticou a mão para mim.
— O que foi? — perguntei distraída com a paisagem.
— Eu preciso de fogo. — Indicou o cigarro na boca.
— Eu não tenho fogo — falei, como se fosse óbvio.
— Eu te dei um isqueiro antes de virmos, .
— Eu dei para Bram colocar no bolso do paletó como qualquer mulher faria.
— Por que fez isso? — ela bufou irritada.
— Você queria que eu enfiasse no meio dos peitos igual a você?!
— É claro! Qual a dificuldade? Você sabia que estaríamos sem varinhas!
, você sabe muito bem...
Fomos interrompidas por alguém entrando na sacada também. Fechou a porta com um baque alto. Virei meu corpo para ver quem era e notei que era um dos irmãos Black, o que estava nos olhando descer a escadaria.
Ele não pareceu notar nossa presença de primeira. Acendeu um cigarro e tragou de olhos fechados. Pelo Deuses, ele era muito bonito. Passou as mãos pelo rosto, ainda mantendo o cigarro entre os dedos, e massageou a têmpora como se tentasse não pirar, suspirando alto, soltando a fumaça pela boca.
— Hey! — o chamou. Meu coração disparou nervoso quando os olhos dele desviaram até nós. Ele finalmente percebeu que estávamos ali. Veio andando com calma, uma mão no bolso da sua calça. Ele já havia se livrado do paletó e agora usava uma camisa de botões e um colete preto de veludo. — Me empresta o fogo?
Ele assentiu, tirando o isqueiro do bolso e entregando a ela. fez uma cabaninha com a mão para proteger o fogo da brisa que batia em nós e acendeu seu maldito cigarro.
— Vocês são novas aqui — ele concluiu, talvez pelo sotaque nortenho ou por nunca ter visto qualquer uma de nós na vida.
— Isso foi uma pergunta? — ergueu as sobrancelhas, devolvendo o isqueiro. — Obrigada.
— Não — disse, tragando mais uma vez. Seus olhos dançaram rapidamente por , depois seguiram para mim. Notei ele percebendo meus anéis de pedras da lua, subiu o olhar até meu colo, onde parou novamente em meu colar em forma de lobo, seguiu por meu pescoço, olhou minhas orelhas salpicadas de piercings dourados e depois parou em meu cabelo ruivo, preso por tranças adornadas com pequenas flores. Juro que fiquei sem ar por um segundo. — Quer um?
Ofereceu a carteira de cigarros.
— Eu não fumo, obrigada.
— E então, quem é e quem é ?
— Sou — respondi tão rápido que minhas bochechas esquentaram imediatamente. me olhou com as sobrancelhas franzidas, como se perguntasse “Qual é o seu problema?”.
— ele repetiu, quase sorrindo. — Então você é .
, por favor. me faz parecer uma princesinha de cinco anos.
— Bom, vocês estão em um baile que é basicamente para achar maridos que os seus pais escolhem, então não dá para negar que vocês são duas princesinhas de cinco anos.
— Você não está muito diferente, garotão. — piscou para ele, que ergueu as sobrancelhas, concordando.
— E você, é Sirius ou Regulus? — perguntei, quando finalmente lembrei o segundo nome.
Seus olhos negros faiscaram na minha direção. Ele tragou mais uma vez, fazendo um certo suspense.
— Sirius. Eu sou Sirius Black. — A fumaça foi saindo da sua boca enquanto ele falava.
— É um prazer te conhecer, Sirius Black — disse. — Saiu de lá porque você também acha isso escroto pra caralho?
— Isso lá é linguajar de uma princesa, Srta. ? — ele provocou, me fazendo rir. virou os olhos para cima, dando uma tragada no cigarro entre seus dedos de unhas pretas.
— A princesa aqui é a .
Sirius levou seus olhos de para mim e depois para ela de novo, provavelmente analisando nossas diferenças. era loura, gostava de preto e ouvia músicas de rock que eu não conhecia, tinha uma personalidade forte e falava mais do que era para falar, sempre.
— Entendi — ele disse simplesmente. — Mas, sim, eu saí de lá porque isso é escroto pra caralho. E porque meus amigos estão vindo me buscar.
— Olha só quem é a princesinha sendo resgatada do castelo. — sorriu maliciosa, e eu sorri junto. Ele sorriu sem mostrar os dentes.
Eu gostava de deixar comandar as conversas, porque eu era uma pessoa mais reservada e gostava do meu espaço. Isso nunca me incomodou.
— Eu posso deixar que eles resgatem vocês também, se vocês quiserem. — Ele soou persuasivo, e eu olhei para , a vendo amassar a bituca de cigarro no parapeito e jogar lá embaixo.
— Acabamos de te conhecer, Sirius Black. O que te faz pensar que iríamos a algum lugar com você? — Acabei me rendendo ao lado sarcástico de e o retruquei antes que ela o fizesse.
— Talvez o meu charme seja o suficiente, Stark. — Seus lábios se curvaram para cima em um belo sorriso que fez minhas pernas amolecerem por um instante.
— Talvez você esteja superestimando esse charme todo — respondi, sem querer dar o braço a torcer. Minha irmã nos olhava com seus olhos atentos, como se estivesse vendo algo além do que realmente deveria ser visto. O sorriso dele não sumiu. Ele molhou os lábios, me encarando, e deu de ombros.
— Provavelmente você tem razão, mas o convite ainda está de pé.
— Seus amigos vão chegar para o resgate que horas? — perguntou, ficando de costas para o parapeito, apoiando os cotovelos ali. Seu vestido era verde escuro, com detalhes em dourado. O modelo era o mesmo para nós duas, um corset ciganinha, com mangas longas e boca de sino.
Meu vestido era azul claro, com detalhes dourados também. Nós realmente parecíamos duas princesas aguardando o resgate do príncipe encantado.
— Já era para aqueles filhos da puta estarem aqui — ele resmungou, jogando a bituca de cigarro no chão e pisando com o pé.
— Então eles não são do sangue mais fino da Grã-Bretanha para estarem nessa esplendorosa festa? — perguntei, fazendo um sotaque forçado.
Ele riu pelo nariz, pondo as mãos nos bolsos da frente da calça.
— James é puro-sangue, mas a família dele não é idiota como a nossa, quero dizer, como a minha, não conheço a família de vocês.
— Fica tranquilo, nós compartilhamos os mesmos genes de famílias idiotas — disse, sorrindo.
— Nossa, eu adoraria não pertencer a uma família de idiotas para variar — brinquei, fazendo me olhar com a boca aberta em uma falsa surpresa.
! Você é a irmã certinha, não pode sair por aí falando para um estranho que nossa família é idiota.
— Bom... Em minha defesa, nosso irmão não é idiota. Ele só aceitou o fardo de ser o primogênito com mais facilidade do que eu e aceitamos ser as filhas vacas reprodutoras.
Sirius concordou com a cabeça.
— Eu sou o primogênito, mas acho que minha rebeldia fez meu irmão mais novo ser o principal alvo de um casamento arranjado. — Ele ergueu os ombros, sorrindo de boca fechada.
— Nossa, , estamos na presença de um jovem rebelde, é por isso que nenhuma garota resiste ao grandioso charme dele. — foi deliciosamente irônica, e ele riu, jogando a cabeça para trás.
— Não é incrível, ? E isso na nossa primeira semana aqui. Uma honra, eu diria. — Entrei no joguinho dela.
— Tá bem, tá bem. Vocês são imunes aos meus encantos, mas não se acostumem, isso não dura muito — ele disse, entrando na brincadeira, mas seus olhos encontraram algo no jardim e ele se aproximou do parapeito, ficando entre eu e . — Meus amigos chegaram.
— Onde? — perguntou . Me virei completamente para o jardim, estreitando os olhos na direção que ele apontava. A ponta de uma varinha voava solitária, com um pequeno pinguinho de luz na ponta. Assim que Sirius levantou o dedo do meio naquela direção, duas cabeças flutuantes apareceram, e eu finalmente entendi que eles estavam cobertos por uma capa da invisibilidade.
Os garotos tamparam a cabeça novamente e pude notar as pegadas na grama fofa, amassando e voltando ao normal à medida que eles iam se aproximando do parapeito da sacada.
— Trouxeram escada? — Sirius sussurrou, quando as pegadas pararam bem abaixo de nós.
— Sim, só um segundo — um dos dois respondeu.
— Por que não usa a porta? — perguntou, como se fosse óbvio.
— E dar a chance de meus pais me chamarem para conhecer uma esquisita qualquer? — Sirius perguntou, dobrando as mangas da camisa.
— Faz sentido — falei, olhando e erguendo as sobrancelhas. Se fôssemos com eles, eu preferiria aquela ideia também.
— Além do mais, eu meio que já estou com as duas garotas mais bonitas da festa — ele disse, dando uma última olhada para fora do parapeito, o subiu e foi para o primeiro degrau da escada que já estava ali. Piscou para nós e começou a descer.
me olhou, mordendo o lábio inferior.
— O que você acha? — perguntei, sussurrando.
— Você sabe que eu já teria ido, certo? Estou aqui esperando a sua decisão. — Ela sorriu ladina. — Eu preciso saber se ele tem algum amigo bonito, já que você meio que se derreteu por ele no primeiro olhar.
— O quê?! Cale a boca, , você está sendo idiota.
soltou uma gargalhada alta.
— Vocês não vêm?! — Sirius perguntou, lá de baixo, e eu acenei positivamente para , que subiu no parapeito com um sorriso ladino nos lábios.
— Se eu pegar algum de vocês olhando a minha bunda ou a da minha irmã... Narizes serão quebrados — ela disse, antes de começar a descer a escada.



Desci a escada que estava sendo segurada por magia, vi os três garotos lá embaixo, mas não prestei a atenção neles, estava mais preocupada com minha irmã descendo. nunca foi conhecida por sua confiança e cuidado. A quem estou querendo enganar? era uma desastrada por natureza.
A vi colocando o pé para fora e percebi que as malditas anáguas daquele maldito vestido, por sorte, tampavam a maior parte das suas pernas e provavelmente também tamparam as minhas. Mesmo assim, achei divertido dizer:
— Olhos no chão, bando de tarados.
Cada um olhava para um lado. Um deles estava com a capa da inviabilidade enrolada nos braços, e o outro usava uma mochila em um ombro só.
Quando firmou os pés no chão, cambaleando um pouco para o lado, vi Sirius dando um passo em sua direção e firmando suas mãos em seus cotovelos. Nunca vi tão corada na vida.
— Marotos, essas são e ... — O olhei com uma cara feia, ele pigarreou. — Stark.
Marotos? O que diabos é isso?
— Gêmeas Stark, esses são James Potter e Remus Lupin.
Eu juro pela vida da minha irmã que meu coração descompassou quando o tal Remus levantou uma mão e acenou. Pelos deuses novos e antigos... Aquela beleza devia ter uma passagem direta para Azkaban, pelo simples fato de existir.
Ele usava um suéter de lã sem mangas por cima de uma camisa de botões que ficava ligeiramente grande para ele, uma calça de alfaiataria e sapatos gastos. Seu rosto tinha um olhar abatido, com pequenas olheiras abaixo dos olhos e cicatrizes pelo rosto, como se um animal tivesse lhe dado um belo arranhão que cruzou da testa ao maxilar. Todavia, ao invés dele parecer estranho ou assustador, aquilo combinava com ele, deixava seu rosto harmonioso, como se tudo ali fizesse sentido junto aos seus olhos em um tom castanho amendoado e seus cabelos cor de palha.
— É um prazer conhecê-las, belas donzelas. — James me tirou de meu transe, fazendo uma reverência exagerada. Pegou minha mão e beijou, depois fez o mesmo com , nos arrancando risadas.
— Ignorem o James. Ele tem uma pequena tendência a falar babaquices quando está animado — Remus disse, apertando minha mão e depois da de . Minha mão ficou dormente.
— E você está animado por quê, James? — perguntou, se solidarizando com o garoto.
James era bonito também, tinha olhos castanhos e um cabelo negro revoltado, era o mais alto dos três, e, aparentemente, o mais palhaço.
— Estou animado, pois meus melhores amigos finalmente encontraram belas mulheres para namorar! — ele disse, já emendando uma risada alta. Eu e nos entreolhamos e caímos na risada também.
— Pelo amor de Merlin, Pontas, tenha modos, elas não sabem que você é um idiota ainda — Sirius o repreendeu, enquanto Remus fingia que não ouviu nada e ia ao encontro da escada para guardá-la em sua mochila.
— Ah, nós já sabemos, sim! — respondi, fazendo James rir mais ainda.
— Já gostei delas! Vocês querem ir até a minha casa? Não é muito longe daqui. Meia noite a gente volta — James perguntou, quando se recuperou das risadas.
— Claro, seria adorável — respondeu, como sempre estava acostumada a fazer quando devíamos ser simpáticas. Eu sempre a deixava ser encarregada dessa parte.

Erguemos nossos vestidos com as mãos e seguimos aqueles três garotos estranhos na direção da floresta que circundava o jardim da bela mansão que acabamos de fugir.
Imprudente? Talvez.
Divertido? Com certeza.
Fomos contando aos garotos novos como era lá dentro e o que havia acontecido, como tínhamos nos conhecido, e Sirius fez questão de mencionar que Lucius Malfoy estava conversando com os nossos pais e que ele provavelmente estava lá para nos conhecer.
As respostas de Remus e James foram algo como “Lucius é o maior babaca que vocês vão conhecer na vida, a sua vida é amargurada e triste e ele só tem amigos porque os compra com dinheiro”.
— Ah, minha santa Morgana! — a mulher que provavelmente era mãe de James exclamou quando viu eu e minha irmã em sua cozinha. — Quem são essas garotas adoráveis?
Passou por e beijou o seu rosto, depois veio até mim e fez o mesmo.
— Meu nome é Stark, Sra. Potter, e essa é minha irmã, — ela disse simpática, e tudo o que eu consegui fazer foi sorrir com a boca fechada. Céus, como conseguia ser tão simpática com tanta naturalidade. E como ela lembrava o sobrenome do garoto?
— Que duas preciosidades, lindas! Que vestidos maravilhosos!
— Muito obrigada, é muito simpático da sua parte, e obrigada por nos deixar entrar em sua residência, é uma bela casa.
— Fiquem à vontade, queridas. Se precisarem de algo, é só chamar — ela disse, piscando para nós. Quando saiu, passou a mão pelo meu rosto como se quisesse me levar junto.
— E nós? — Sirius perguntou, brincando, e ela riu.
— Vocês já são de casa, se viram sozinhos.
— Está vendo que ultraje? Nós que as trouxemos aqui! — James reclamou, se jogando sobre o sofá.
— Vocês vão estudar em Hogwarts? — Remus perguntou, levando seu olhar de para mim e se sentou na outra ponta do sofá, deixando o meio vazio entre eles. Achei mais prudente sentar no outro sofá com minha irmã, assim Sirius sentou-se no meio por falta de opção. Tenho certeza de que ele queria se sentar ao lado de minha irmã, mas... qual é, já estávamos na casa de um estranho, com três garotos estranhos. Já era loucura o suficiente. Eu sei me cuidar, mas nunca colocaria minha irmã em perigo.
— Sim, a transferência já foi feita — respondi. — Todos vocês estudam lá?
— Yep — James respondeu. — Além disso, ainda estudamos na mesma casa.
— Casa?
— É, Hogwarts é dividida em quatro casas, e os alunos são sorteados de acordo com a sua personalidade.
— Isso é legal. E qual a casa de vocês? — Foi que perguntou.
— Grifinória. É a casa mais foda. Lufa-Lufa são um bando de bunda-moles — James disse divertido.
— Corvinal são um bando de chatos sabem-tudo — Sirius complementou.
— E Sonserina são um bando de babacas esnobes — Remus finalizou, cúmplice.
— Ah, sim, e a Grifinória só tem os anjos imaculados perfeitos que caíram diretamente do céu — rebati irônica e notei Remus puxando um sorrisinho de canto.
— É exatamente isso! — James aplaudiu. — Como você sabe?
Isso fez soltar uma risada.
— Vocês sabem que a chance é muito pequena de irmos para a mesma casa de vocês, certo? — perguntei, erguendo as sobrancelhas.
— Vocês são princesinhas puro-sangue — Sirius respondeu. — Certeza que vão para a Sonserina.
— Não, cara, elas são gente boa. Acho que vão para a Grifinória — James rebateu.
— Não precisa se preocupar, James. Se a gente for para a Sonserina, ainda vamos conversar com os perdedores da Grifinória como vocês — falei convencida, fazendo os três sorrirem.
— Gostei delas, Almofadinhas, você foi certeiro nessa.
Almofadinhas, de novo esses apelidos esquisitos.
— Falando nisso, Aluado, por que você está tão quieto? — Aparentemente, Aluado era Remus. Suas bochechas ficaram rosadas por um segundo e ele balançou a cabeça, distraído.
— Eu? Nada — apenas disse ele. — Estava só aqui pensando em que hora você vai oferecer algo para nós bebermos.
— Eita! — James levantou-se em um pulo, envergonhado, passou por nós e correu até a cozinha atrás de algo.
— Qual é a dos apelidos? — perguntei genuinamente curiosa. trouxe seu tronco para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos, esperando a maior história de todas por trás daquele segredo.
— É uma piada interna nossa, meio que perde o sentido se contarmos — Remus disse, olhando de soslaio para Sirius, que concordou com a cabeça.
— Que sem graça! — exclamou, voltando as costas para o sofá.
— Eu achei que vocês fossem mais legais. — Entrei na onda, tentando convencê-los de contar.
— Nós teríamos que explicar muita coisa para fazer sentido. — Sirius tentou ser convincente, mas aquilo só nos deixou mais curiosas.
— Estamos com tempo, não estamos? — Ergui minha sobrancelha em desafio, e notei que Remus segurou um sorriso.
— Infelizmente, garotas, dessa vez vamos ter que deixar vocês na curiosidade... — Remus disse, erguendo os ombros.
— E o que vocês vão fazer para compensar isso? — Minha língua enorme deixou escapar, e notei as bochechas de Remus ficando vermelhas novamente.
Ele tinha aquela vibe indescritível de nerd gostoso que não sabe muito bem que é gostoso, mas quando descobre faz o seu mundo ficar de ponta cabeça. Aquelas bochechas coradas só me davam mais certeza disso e me deixavam irreversivelmente curiosa para saber até onde Remus iria com aquele personagem de garoto encabulado.
— Posso pensar em algumas possibilidades. — Sirius sorriu ladino. Sirius, por outro lado, sabia que era gostoso e gostava de deixar aquilo bem claro, um destruidor de corações. Eu teria que cuidar da minha irmã, ela estava encrencada. Notei que Sirius era muito parecido comigo logo de início, por isso não senti uma atração imediata.
— Eu duvido que qualquer coisa que venha de vocês seja o suficiente para me fazer esquecer essa história de apelidos tão misteriosos.
Sirius se levantou em um impulso, como se tivesse sido muito ofendido.
— Nunca duvide de mim, gatinha — ele disse, puxando a minha mão, me fazendo levantar também. Girou minha mão, me fazendo girar como se estivéssemos dançando e me empurrou com delicadeza, fazendo com que eu sentasse ao lado de Remus. Ele se sentou graciosamente ao lado da minha irmã, que estava tão vermelha quanto seus cabelos flamejantes.
— Sutil como uma pena, Black — falei, o fazendo sorrir em minha direção.
— Me desculpe por isso — Remus disse baixinho em minha direção.
— Está tudo bem, Re... — O cheiro que exalava de Remus era, no mínimo, peculiar.
Era delicioso, saboroso, um cheiro que me enchia de lembranças, um cheiro que me trazia uma memória olfativa nítida do meu lar, que me deixou tonta e perdida por meio segundo.
— Remus. — Ele soou ligeiramente magoado por eu não terminar a frase, como se não lembrasse o seu nome.
— Não, eu... Eu sei o seu nome — falei, balançado a cabeça, tentando afastar o sentimento que o seu cheiro me causava. — Eu só me distraí com uma coisa...
— Chega mais meus amigos, a festa vai começar! — James voltou com uma garrafa de whisky de fogo em uma das mãos e um pacote de salgadinhos na outra.
Afastei meus pensamentos intrusivos que queriam enfiar meu nariz no pescoço de Remus e bati palmas com a volta de James. Que os Deuses me ajudem, se sóbria eu já quero agarrar o garoto, imagina quando começar a beber.





— Qual o jogo que vamos jogar? — Sirius perguntou, observando James colocar a garrafa no móvel ao lado do sofá.
— Eu iria sugerir um strip poker, mas acho que vou ser linchado. Alguma sugestão, meninas? — perguntou James, em um tom divertido.
— Eu até aceitaria um strip poker, mas ficaria injusto sendo que nós estamos de vestido, não é? — respondeu, piscando para James, e ele sorriu sacana.
— Do que é que você está rindo, Pontas? Já esqueceu da Lily, é? — Sirius perguntou, dando um sorriso maroto, jogando os cabelos para trás.
— Nunca — James respondeu com simplicidade.
— Lily é sua namorada? — perguntei realmente interessada. Ver alguém como James namorando parecia difícil de visualizar, ele era bonito, mas... Era difícil de ser levado a sério.
— Bem que ele queria — Remus respondeu, engatando em uma gargalhada que fez Sirius rir junto e James fechar a cara.
— Não, mas esse ano ela vai ser! Talvez vocês consigam me ajudar, o que acham? Estou precisando de uma ajudinha feminina, esses idiotas não sabem lidar com garotas — James disse, rolando os olhos dramaticamente para cima.
Sirius abriu a boca indignado, como se dizer que ele não sabe lidar com garotas fosse um ultraje, mas, antes que ele pudesse se defender, eu me solidarizei com James:
— É claro que podemos ajudar, como ela é?
James suspirou alto e um sorriso tomou conta do seu rosto de modo apaixonado.
— Não, não, você não vai falar da Lily agora, estamos de férias! — Remus interrompeu, antes que ele começasse a falar. — Desculpe, , mas Pontas é proibido de falar da Lily nas férias. É um combinado nosso.
Fiquei impressionada com a facilidade que ele havia decorado que eu era . Por mais que eu e fôssemos diferentes, ainda éramos gêmeas afinal.
— Quando combinamos isso que eu não lembro? — James indagou, de sobrancelhas franzidas.
— Eu estou combinando com você agora — Remus disse, me fazendo soltar uma risada.
— Bom, ela é ruiva e bonita como você. É inteligente e bondosa... — James foi enumerando com os dedos, ignorando o amigo, como se uma brecha para falar de Lily fosse o que ele estivesse esperando o dia inteiro.
— Você já chamou ela para sair? — perguntou, erguendo as sobrancelhas.
— Ele chama ela para sair em toda oportunidade que tem — Sirius respondeu por ele.
— Talvez o problema esteja aí. — Minha irmã ergueu as sobrancelhas.
— Como assim?
— Nenhuma mulher gosta de um cara pegajoso demais — disse ela, como se fosse óbvio.
— O que a minha irmã está querendo dizer é que ela provavelmente está se sentindo sufocada. Não nos entenda mal, é muito melhor você estar dando atenção demais do que de menos. Mas como vocês não têm nada ainda, é bom deixar ela em uma posição confortável. — Tentei ser mais agradável do que minha irmã.
— É, Pontas, deixe a garota em uma posição confortável — Sirius repetiu minha frase de maneira maliciosa, e mostrou o dedo do meio para ele.
— Ok, em Hogwarts nós vamos falar mais sobre isso — disse Remus, tentando cortar o assunto que eu mesma havia trazido para a roda contra a sua vontade. — Agora eu estou mais interessado em o que nós vamos jogar.
Olhei para e seu olhar caiu sobre o meu, nós tínhamos o costume de brincar de “Quatro mentiras e uma verdade”, porque era um jeito de falar a verdade sem parecer tão absurda, porém não parecia ser o momento para aquilo, com três garotos que tínhamos acabado de conhecer... Parecia meio arriscado. E, apenas com o olhar, percebi que ela pensava o mesmo. Então fomos para a opção mais óbvia.
— Eu nunca...? — sugeriu, como se tivesse feito uma varredura em minha mente e eu sorri cúmplice. Aquele era um jogo de conhecer as pessoas também.
Estávamos em posição de desvantagem, porém, em contrapartida, éramos gêmeas e nos conhecíamos melhor do que ninguém. Eles eram melhores amigos, ok, mas não tinham a conexão que nós tínhamos.
Sirius imediatamente escorregou para o chão, tentando criar uma rodinha mais íntima e fechada, e nós seguimos o seu movimento, fechando a rodinha. Fiquei entre Sirius e Remus, ficou entre Remus e James. Retirei meus sapatos e estiquei minhas pernas, espreguiçando meus pés amassados de unhas renda, dobrei minhas pernas em forma de borboleta e senti minhas bochechas esquentarem novamente quando notei que todos os meus movimentos eram observados por Sirius, que tinha sempre um sorrisinho ladino nos lábios.
James conjurou copinhos de shot para cada um e os encheu com whisky de fogo.
— Primeiro as damas — disse, olhando para mim e depois para minha irmã.
— Eu nunca estudei em Hogwarts — disse, sem muita enrolação, olhou para mim e piscou.
Os três beberam sem dar um pio, mas era nítido que uma guerra silenciosa havia sido iniciada.
Indo em sentido horário, era a vez de James.
— Eu nunca tive uma irmã gêmea — disse ele, de maneira previsível. pegou seu shot e o esticou até mim, brindamos debochadas antes de virarmos a bebida que desceu queimando em minha garganta. Fiz uma careta quando terminei de engolir, e bebeu como se aquilo fosse água. O copo encheu-se sozinho.
— Eu nunca usei salto alto — Sirius disse, depois de pensar por alguns segundos.
Eu e bebemos novamente. Era minha vez e eu não queria usar a carta da Grifinória já, iria guardar para um momento mais certeiro, por isso soltei a seguinte frase:
— Eu nunca usei uma capa da invisibilidade.
Os três beberam em silêncio.
— Eu nunca fui a uma festa de puros-sangues — Remus disse, recebendo um olhar mortal de Sirius. Opa, uma rachadura na armadura dos melhores amigos.
Eu, e Sirius bebemos.
— Eu nunca usei apelidos idiotas com meus amigos — disse, dando um sorriso ladino.
— Ei! Não são apelidos idiotas! — James se queixou, e minha irmã retrucou:
— Tem razão, vocês são idiotas.
Remus riu enquanto bebia, e Sirius estava com as sobrancelhas enrugadas. Ele era o competitivo da brincadeira, anotado.
— Eu nunca fugi de uma festa — James disse, recebendo um tapa na nuca de Sirius, que tomava o quarto shot seguido.
— Vocês são os piores nesse jogo — resmungou indignado, respirando fundo. — Eu nunca fui monitor.
Sirius disse, olhando para Remus, que bebeu sozinho, e eu olhei para , sabendo que tínhamos vencido aquela brincadeira. Ela mordeu o lábio, cúmplice.
— Eu nunca me apaixonei à primeira vista. — Aquilo era para atingir James pessoalmente e colher alguns frutos dos outros dois.
Os três beberam em silêncio. Engoli seco, sentindo um par de olhos em cima de mim, mas não ousei olhar para Sirius Black naquele momento, tenho certeza de que me arrependeria. Em vez disso, consegui notar as bochechas de Remus extremamente vermelhas, enquanto ele girava o copo nas mãos.
— Eu nunca gostei de uma garota ruiva. — Assim como nós, Remus estava tentando derrubar os amigos. Eu só não sabia dizer se era alguma brincadeira interna deles, se era para ficar do nosso lado, ou se era fingimento... De uma coisa eu tinha certeza: não era sem querer.
— Aluado, você está morto.
Remus mandou um beijinho no ar para Sirius. Ele estava mais leve e solto, perdendo ligeiramente aquele ar de garoto certinho.
Sirius bebeu junto com James, e eu não sentia mais minhas bochechas esquentarem de vergonha, sabendo que elas estavam permanentemente vermelhas por conta da bebida. Eu não era iludida de achar que Sirius estava bebendo aquele shot por mim, mas não posso negar que um friozinho na barriga me fez imaginar que sim.
— Eu nunca fui da Grifinória. — usou a minha cartada final para desestabilizar Sirius, que bufou fortemente.

James fez a garrafa se encher três vezes antes de desistirmos de jogar aquilo. Estávamos todos alterados, quando Sirius pôs a garrafa vazia no centro da rodinha e girou, mesmo que ninguém tivesse concordado em jogar aquilo.
— Verdade ou consequência — disse, encarando minha irmã com um sorriso absurdamente delicioso nos lábios.
— Verdade.
— Achei que você era mais corajosa. — Cutucou e ela sorriu.
— Eu sou corajosa, só quero ver se você é esperto. — Piscou.
— Eu amo vocês duas, é sério — James disse divertido, os cabelos estavam mais bagunçados do que nunca e os óculos em seu rosto estavam tortos.
— Vocês foram expulsas da sua antiga escola? — Sirius perguntou com a sagacidade que eu imaginava que ele tinha. Refiz nossa conversa e nossas brincadeiras até aqui, tentando entender em qual momento ele tinha pescado aquela informação, e, sinceramente, não consegui encontrar.
Talvez ele tivesse ouvido algo lá no baile, antes de ir até a sacada.
me olhou e conversamos com os olhares por um segundo. Aquela, com certeza, não era uma informação que queríamos compartilhar com os primeiros estranhos que conhecemos e que inclusive estudavam em nossa nova escola.
— Sim — ela disse, por fim, baixando a cabeça.
— O que aconteceu?! — Remus perguntou, vendo que minha irmã ficou incomodada com a resposta. Apoiou a mão em seu ombro e ela o sacodiu para que se afastasse.
Apenas eu notei o olhar fulminante que o garoto deu a Sirius.
— Vamos contar no dia em que vocês resolverem nos contar o motivo desses apelidos idiotas. — Minha irmã levantou o rosto depois de um longo suspiro.
— Justo.
Notei uma ruguinha de preocupação entre as sobrancelhas de Sirius, que sumiu quando minha irmã levou a mão até a garrafa vazia no centro da roda. Remus estava com as pernas dobradas contra o peito, James estava deitado no chão com as pernas sobre o sofá, e Sirius estava sentado com as pernas esticadas, em seu colo estavam meus pés, que, em algum momento da noite, ele pescou para o seu colo e não devolveu mais.
A garrafa parou em James.
— Consequência — ele respondeu imediatamente. Era nítido que ele achava o fato de desafiar minha irmã mais emocionante do que ela o desafiar. Pobrezinho, mal sabia que era uma megera desalmada.
— Quero que você beije .
James se sentou em um pulo.
! — Me senti traída. Estávamos indo tão bem no outro jogo, mas, antes que eu pudesse continuar meu discurso de humilhação para aquilo não acontecer, notei os olhos dela me indicando algo: Sirius. Suas mãos, que estavam soltas e leves sobre meus tornozelos, agora apertavam suas próprias coxas com força, os olhos negros haviam tomado um tom mais sombrio e ele fitava James com intensidade. Entendi o que ela havia feito. Ela queria vingança, queria testar a febre de Sirius, queria testar a amizade deles. Como eu disse... minha irmã era uma megera desalmada, e eu não podia reclamar: James era engraçado, divertido, eu não podia mentir, era bonito para caramba, e o melhor, estava apaixonado por outra garota, então aquele beijo não significaria nada para ele. E quem eu estava querendo enganar? Eu gostava da ideia de Sirius sentir alguma coisa.
— Um beijo de verdade, nada daquela baboseira falsa.
— Não precisa pedir duas vezes, gatinha — James exclamou animado. Notei Remus cochichando algo no ouvido de minha irmã e podia jurar que vi suas bochechas corando. Minha irmã de bochechas coradas?
Retirei meus pés do colo de Sirius com delicadeza e me ajoelhei no chão. James engatinhou até mim, fazendo um charme ridículo digno de um bêbado sem noção, e eu caí na gargalhada antes mesmo dele encostar em mim.
— Por favor, fique brava com a sua irmã. Sou apenas um fantoche naquelas garras manipuladoras — disse, quando estava de frente para mim, tão perto que eu podia sentir o cheiro do seu perfume.
— Está tudo bem, Potter — respondi, ainda rindo, ao mesmo tempo em que tirei seus óculos e coloquei em meu rosto. — Assim você pode fingir que eu sou a Lily, que tal?
— Pelas barbas, você é perfeita. Quer ser minha amiga para sempre? — James perguntou, segurando meu rosto com as duas mãos, dando um sorriso que duvido que Lily conseguiria resistir, eu mesma estava tendo problemas sérios ali.
— Vamos ser amigos para sempre, Pontas — brinquei com o seu apelido, e ele puxou meu rosto, unindo nossos lábios.
Nossas línguas se misturaram com uma facilidade de muitas doses de bebida alcoólica, seus dedos penetraram as raízes do meu cabelo trançado e ele guiou nossas bocas de um lado para o outro de maneira leve. Eu sentia os olhares sobre nós, mas não tive coragem de abrir os olhos. Fico me perguntando se James manteve os dele abertos, talvez ver meus cabelos vermelhos o ajudasse a fazer aquilo com mais tranquilidade. Sua boca tinha gosto de álcool e praticamente se anulava com o gosto da minha. Ele beijava bem e tinha cara de quem beijava o suficiente para saber o que estava fazendo. Quando ele separou nossas bocas, depositou um selinho molhado em meus lábios para selar o tratado de amizade que fazia parte do nosso novo acordo.
Ele se afastou um pouco e pegou os óculos de volta, um sorriso ligeiramente descrente rondava seu rosto e um silêncio ensurdecedor estava à nossa volta.
— Isso foi... Intenso. — Remus quebrou-o, fazendo dar uma risadinha. Olhei minha irmã e ela estava com um sorriso vitorioso no rosto, olhando na direção de Sirius, que percebi estar olhando para a direção oposta quando voltei a me sentar.
James ainda estava sorrindo quando girou a garrafa.
— Verdade ou consequência? — perguntou para mim.
— Verdade. Não vou te dar a chance de pedir mais um beijo e se apaixonar por mim.
— Eu sei que devia ter perguntado isso antes, mas vocês têm namorados?
Soltei uma risada.
— Não, James, nem eu nem minha irmã temos namorados.
— Mas... Como? O que vocês têm de errado? — perguntou ele, pouco convencido de que era verdade.
— Estamos envolvidas com magia negra — respondeu rindo e aquilo me incomodou um pouco, porque uma pontinha daquilo era verdade.
— Sonserina. — Sirius finalmente deu o ar da vossa graça, dando uma tossida falsa que nos fez rir.
— É, sinto decepcionar vocês, meninos, mas tem muita chance de irmos para essa casa — disse .
— Você consegue manter a sua palavra de amizade com uma sonserina, James?



— É claro, mas vou ter que fingir que te odeio na frente do colégio inteiro, se você não se importar. — James Potter sabia ser galante quando queria, e eu já tinha me arrependido ligeiramente de enfiar minha irmãzinha nas garras dele, sendo que as presas de Sirius já estavam suficientemente fincadas nela. sempre foi assim, a maioria dos garotos beijavam seus pés e ela era inocente o suficiente para não perceber e tratá-los como amigos até ser tarde demais.
Comigo era diferente, os garotos tinham medo de mim, e eu acabava gostando de bancar a doida às vezes por puro entretenimento. Foi uma dessas vezes que nos fez ser expulsas de Durmstrang. E confesso que gostava da atenção que Lupin estava me dando naquela noite, porque ele ainda não conhecia minha personalidade ou meus segredos e não iria se afastar até que conhecesse. Duvido muito que sejamos amigos em Hogwarts.
girou a garrafa, que parou em Sirius.
— Verdade ou consequência, Black.
— Verdade.
— Achei que você era mais corajoso — falei, brincando, o fazendo mostrar o dedo do meio para mim.
— Hmm. — pôs o dedo indicador no queixo, como se pensasse em algo realmente mirabolante.
Enquanto minha irmã pensava em alguma maneira de flertar com Sirius Black, eu sentia o olhar disfarçado de Remus sobre mim. Trocamos algumas brincadeiras durante a noite inteira, Remus sempre tentando destruir a camada grossa de ego que Sirius tinha, me dando dicas e fofocando algum detalhe em meu ouvido. Não posso negar que estava gostando de trocar aqueles olhares furtivos, principalmente porque Remus me parecia o tipo de pessoa que não sabia que era bonito o suficiente para deixar alguém doido. E eu estava ficando doida.
O seu cheiro me fazia perder as palavras, então eu meio que só sorria e acenava com a cabeça quando ele falava comigo, como se eu fosse a porra de uma pré-adolescente que acabou de conhecer a mais nova paixonite.
As suas cicatrizes deixavam seu rosto harmonioso e fascinante, e eu tinha que me forçar a olhar para outros lugares de vez em quando para não parecer uma doida. E ali estava o seu olhar de novo, disfarçado, silencioso ao mesmo tempo em que eu fingia que prestava a atenção em .
— Você se arrependeu de ter nos convidado para vir aqui?
O olhar de Sirius era divertido, seus olhos negros correram sobre o meu rosto e depois seguiram para a minha irmã. Um sorriso galanteador surgiu em seus lábios e ele levou a mão ao cabelo para responder:
— Nunca me arrependeria de trazer mulheres bonitas à minha casa.
— Mesmo que não se “dê bem” com nenhuma delas? — perguntei, rebatendo sua resposta idiota.
— Fico um pouco ofendido com o que você pensa de mim, Princesa .
— Penso que você é um encrenqueiro, meu bem.
— Não somos todos? — perguntou ele, brincando com o tecido do vestido de que estava próximo dele. — Vocês estão aqui fugindo de uma festa chique, cheia de gente rica, para ficar bebendo e fumando com dois traidores do sangue e um mestiço. Quem são as verdadeiras encrenqueiras, hein, ?
— Vocês são as encrenqueiras mais legais que a gente já conheceu. — James sorriu com seus olhos adoráveis.
— Mesmo se a gente for da Sonserina? — brincou, fazendo os três sorrirem.
— Desde que vocês não se misturem muito com eles — disse Remus de maneira tranquila, como se realmente fosse um crime ser daquele grupo.
tem cara de quem vai fazer amizade com o ranhoso. — Black deu um sorriso cúmplice com seus amigos, que só disfarçaram olhando cada um para um canto.
— Quem?
— Um cara que é apaixonado pela Lily. — James sorriu ladino, como se estivesse feliz por roubar o lugar do garoto no coração dela.
— Ele é namorado dela? — perguntou , ligeiramente preocupada.
— Lily e Snape eram amigos — Remus sussurrou em meu ouvido, a conversa entre eles continuou, mas eu desliguei minha mente, prestando apenas a atenção na voz dele ao pé do meu ouvido.
— Snape é esse ranhoso? — sussurrei de volta, e ele balançou a cabeça.
— James morre de ciúmes dele — confessou Remus baixinho novamente.
— E por que eles não são mais amigos?
— Essa é uma história para ser contada quando eu não estiver ligeiramente bêbado. — Seu sorriso me amoleceu a ponto de eu me sentir líquida.
— Ligeiramente?! — quase gritei. — Gente, Remus está ligeiramente bêbado.
— Ahh, não! — James reclamou. — Almofadinhas, faça alguma coisa!
Sirius girou a garrafa com pressa. Ela estacionou no vão entre eu e James e no vão entre Sirius e .
— Eu assumo daqui. — Peguei a garrafa, me levantando, e estiquei a mão para minha irmã se levantar também. — Desafio final, já é quase meia noite e temos que voltar logo para o baile.
Os três rostos me olhavam: Sirius com seu olhar que podia cortar couro de dragão, James com seu olhar atento de um bom jogador de quadribol que eu imaginava que ele seria, e Remus com seu olhar intenso de uma pessoa em constante vigilância.
Pop quiz. Quem retirar as roupas primeiro, ganha um beijo de nós duas. Quem ficar em último, vai ter que terminar a garrafa. — Chacoalhei a garrafa, olhando para James, que, com um toque rápido da varinha, fez a bebida brotar até metade da garrafa novamente.
Senti a mão de apertar a minha em um sinal claro de “O que você está fazendo?!” e eu correspondi o seu apertão querendo dizer “Só me acompanha”. Ela entenderia, ela sempre entendia.
Os três estavam extasiados demais para entender o que eu realmente tinha proposto. James tinha um sorriso tão grande no rosto que eu podia jurar que Lily era o último pensamento em sua mente. O olhar de Sirius tinha escurecido, e Remus parecia disposto a ganhar apenas para nos livrar daquela brincadeira estúpida.
— No três? — perguntei abusada, e os três se prepararam, estalando pescoços, alongando dedos, e as unhas de fincaram em minha mão com força. — Um, dois... Três!
Em toda a minha vida, eu nunca tinha visto três garotos tão desesperados na minha vida. Suéteres voaram, camisas desabotoaram-se com tanta velocidade que eu não conseguia parar de rir, e , ao meu lado, parecia tão entretida com a situação que a sua boca abriu e ela não conseguia fechar.
Esse era o tipo de merda que eu fazia: três desconhecidos estavam se despindo na nossa frente, bêbados, desesperados e pouco se importando de ficar nus. Quando eles estavam desafivelando as calças, apertei a mão de minha irmã três vezes, ela me olhou e eu movi a sobrancelha. Indiquei as roupas deles com os olhos, e seu olhar de iluminou com a minha maldade refletida na sua ingenuidade.
Eu já esperava que Sirius fosse ser o primeiro a se despir, e me surpreendi com Remus não sendo o último. Eles mantiveram as cuecas, mas não tive tempo de analisar seus corpos despidos, já que joguei a garrafa para cima e berrei:
— Agora, !
Minha irmã correu para juntar o monte de roupas na frente de James, enquanto ele se jogava no chão para juntar a garrafa, que parecia voar em câmera lenta. Juntei o monte de roupas de Remus e Sirius em um único movimento e esbarrei nos ombros deles, correndo para a porta da cozinha. vinha logo atrás de mim.
— Corre, ! — A gargalhada alta de minha irmã ecoou na rua vazia, ao mesmo tempo em que ouvimos um burburinho de vozes masculinas na sala que deixamos para trás.

Corremos um quarteirão inteiro entre risadas altas e sons de pés descalços batendo no chão molhado de orvalho daquela noite fresca de verão.
— Vocês vão pagar por isso! — A voz de Sirius era desesperada e divertida ao mesmo tempo.
Entramos na floresta que cortamos caminho para ir até a casa de James. Ali, tivemos que diminuir a velocidade para desviar das árvores.
— Espera, — chamei-a, me escondendo atrás de uma árvore grossa. — Vamos mesclar as roupas e nos separar. Vai, me dá um pouco da sua e eu te dou um pouco da minha.
Trocamos algumas peças de roupas e voltamos a correr, dessa vez ela indo para um lado e eu para outro, mas ambas mantendo a direção da mansão como destino final.
— Merda, merda, merda! — Não consegui reconhecer a voz, mas soltei uma risada quando percebi a clareira do jardim logo à frente.
Cheguei lá e parei de correr, esperando me alcançar. Ouvi um gritinho dela e um barulho de queda, logo depois risadas misturadas.
— Vocês são piores do que diabretes! — A voz de James soou entre as árvores e pude vê-lo chegando até a clareira, enfiando sua calça de qualquer maneira, aos tropeços.
Fui dando passos para trás, ainda recuperando o fôlego da corrida.
Remus saiu logo depois, vestindo seu colete de lã sem a camisa por baixo. Seu peito subia e descia com força, porém seu rosto estampava um sorriso admirado. Sua cabeça balançava em negação, como se ele ainda não acreditasse no que estava acontecendo. Suas pernas estavam de fora e acabei perdendo tempo demais olhando-as. Minha atenção só foi retirada dali quando Sirius surgiu na clareira, acompanhado de . Ele a cutucava nas costas como se estivesse usando-a de refém com uma varinha imaginária.
tinha um sorriso cúmplice que se completava ao meu, seus cabelos estavam desgrenhados do mesmo jeito que os meus deviam estar. Sirius tinha os cabelos longos colando no pescoço, estava de calça e com o colete aberto, deixando seu peitoral de fora. Ele tinha uma beleza clássica que não me atraía, sempre gostei mais dos desajustados, dos que eram problema, dos que vinham acompanhados de algo que eu não deveria sentir atração. Alguém como Remus e os mistérios que circundavam sua cicatriz, seu olhar cansado e o seu cheiro peculiarmente familiar.
— Princesa , preciso da minha camisa e da minha gravata, não quero me enfiar em mais problemas com a minha família, já tenho o suficiente — disse Sirius com certa cautela, enquanto eu ainda dava passos cegos para trás. Minha respiração já estava voltando ao normal.
— E o que eu ganho com isso?
— Uma amizade estranha e duradoura com os caras mais populares da sua nova escola — respondeu ele, sem pestanejar.
— E o que mais?
— Todos os doces da melhor loja do povoado de Hogsmeade.
— Hm... Interessante... Mais alguma oferta?
Ele pensou por alguns segundos.
— Eu te conto tudo que você quiser saber sobre nós.
Notei os olhos arregalados de Remus se voltarem para ele e bingo! Era daquilo que eu precisava. Me aproximei dele com a mão direita esticada para fecharmos um trato formalmente.
— Achei que você iria querer fechar esse trato com um beijo, já que eu ganhei o pop quiz. — Ele piscou para mim, apertando minha mão com força.
— Nem em seus sonhos, gatinho.
Joguei as roupas deles no chão e estiquei minha mão para minha irmã, que enlaçou o braço no meu.
— Até mais, perdedores. Foi um grande desprazer fazer negócios com vocês — falei, fazendo uma reverência exagerada, arrancando sorrisinhos diferentes no rosto de cada um. Eles estavam catando suas roupas do chão.
— Até mais, garotos, nos vemos em Hogwarts. — foi simpática e abanou a mão com simpatia.
— Até mais, lindas donzelas. — James Potter fez uma continência.
— Donzelas, Pontas? Elas roubaram nossas roupas! — Sirius exclamou, falsamente irritado.
— Esse foi o ápice das suas férias, Black, admite. — Pisquei para ele, que suspirou derrotado, abotoando sua camisa branca amarrotada.
— Até mais, gêmeas Stark — Remus disse finalmente, fechando o botão da sua calça. — Pontas, vamos dar um fora daqui antes que alguém nos veja.
— Tchau, diabretes.





— Este é Rubeus Hagrid, o guarda-caças e protetor das terras de Hogwarts. — Dumbledore em pessoa nos apresentou, já que meu pai fez questão de deixar bem claro o quanto éramos do mais finíssimo sangue nortenho de toda a Europa. — Vocês podem confiar a vida de vocês a ele, e, com isso, digo que suas lobas gigantes estarão em boas mãos. Hagrid, essas são as alunas que lhe falei, e Stark.
— É um prazer, Sr. Hagrid! — foi amistosa, esticando sua mão até ele. Hagrid se assustou com a empolgação de minha irmã, mas levou sua enorme mão ao encontro dela. — Sou e essa é minha irmã, .
Ele era enorme, muito alto e peludo, mas com olhos tão bondosos que podiam fazer até eu mesma amolecer. Estiquei minha mão até ele também.
— Oh, que aperto de mão forte dessa aqui — disse, sorrindo, balançando minha mão com simpatia.
— É você que vai cuidar das nossas meninas? — perguntei quando soltamos nossas mãos.
Hagrid corou sobre a barba espessa. Sua roupagem me lembrava muito as peças de frio do Norte, coisas feitas de pele, couro trabalhado e muito pelo para o frio intenso. Dava para ver que ele mesmo fazia a maioria, penso que pela dificuldade de encontrar roupas do seu próprio tamanho.
Algo em Hagrid me fazia confiar nele, algo selvagem que me lembrava de mim mesma.
— Sim, sim. — Pigarreou. — Se acharem que sou digno de uma função como esta, seria um prazer... Senhoritas.
— Por favor, aqui somos alunas — corrigiu-o. Ele provavelmente havia recebido a informação de que éramos algum tipo de realeza.
Dumbledore nos observava com certo sorriso no rosto.
— Certo, vou lá para dentro, tenho uma multidão de alunos para receber. Hagrid, assim que fizerem as devidas apresentações aqui, por favor, sigam para o salão principal imediatamente.
— Sim sr., diretor Dumbledore.
Com o diretor longe, os olhos de Hagrid partiram para as jaulas tampadas por uma manta grossa.
Eu odiava trazê-las daquele modo, como se fossem animais selvagens e perigosos (elas eram), porém era a maneira mais simples e segura de fazê-las serem transportadas com conforto.
Retiramos as mantas com a ajuda de Hagrid e notamos que ele puxou o ar com a boca e trancou, não sei dizer se tinha se assustado, se iria sair correndo, ou desmaiar.
— Essas são Silver Springs e Rhiannon. — Ambos os animais ergueram as orelhas com atenção, estavam sentadas e atentas a qualquer detalhe.
Silver era a minha, tinha olhos e uma pelagem cinzenta, com exceção do pescoço e das patas que eram brancos como a neve.
Rhiannon era a loba de , tinha a pelagem marrom-avermelhada e olhos tão azuis que pareciam de mentira.
Hagrid parecia sem ar. Os olhos marejaram.
— São a coisa mais linda que já vi na vida. — Sua voz era embargada de emoção.
me olhou sem entender.
— Você gostou?!
— Se eu gostei?? — Ele pareceu ofendido. — Eu amei! São lindas, graciosas, animais extraordinários.
Abrimos os cadeados com um toque de varinha e entramos nas jaulas.
Acariciei Silver nas orelhas e beijei seu focinho, tocamos testa com testa e senti seu coração bater em sintonia com o meu. Éramos conectadas, uma conexão tão forte quanto a minha e de , algo que só podia ser explicado com magia antiga.
— Entre, Hagrid. Deixe que elas o cheirem — chamei-o com a mão.
Hagrid não hesitou, estava ansioso para entrar.
— Silver Springs, esse é o Hagrid. Ele será o seu novo cuidador. Coloque a mão próxima do focinho dela, mas não a toque ainda. Ela quer te sentir primeiro, quer te conhecer. Vai conhecer a sua alma pelo cheiro. Se ela ver que você merece, terá uma amiga para a vida toda, Hagrid.
Ele fez o que eu pedi, e Silver não deu nem duas farejadas antes de decidir lamber a ponta dos seus dedos.
Agora sim eu confiava em Hagrid.
Ele me observou, ainda um pouco temeroso.
— Pode acariciar, ela gostou de você. — Assim que terminei a frase, Hagrid se ajoelhou na frente dela, e, com suas mãozonas, acariciou o pelo espesso do pescoço alvo de Silver.
— Você é uma boa garota, não é? — Seu vozeirão ficava dissonante com aquelas palavras tão carinhosas. Na outra jaula, sorria abraçando Rhiannon, a loba nos olhava como se Hagrid fosse doido.
— Esplêndido! — Hagrid exclamou, quando se levantou do chão. — Agora vou conhecer a senhorita Rhiannon, com licença.
Enquanto ele ia para a outra jaula, chamei Silver para fora. Estávamos na orla da floresta, próximos da cabana de Hagrid. A brisa que batia ali fazia os galhos das árvores próximas farfalharem, dava para ouvir o vozerio das pessoas dentro do castelo, pareciam estar cantando o hino da escola. Eu e Silver observamos Hagrid fazer amizade com Rhiannon e, depois que tudo aconteceu, resolvemos dar algumas instruções.
— Elas entendem tudo que você fala, então pode dar instruções claras e objetivas.
— Elas caçam por conta própria, e se na floresta não tiver alimento que faça parte da dieta delas, nós saberemos.
— Se houver algo que elas não podem caçar na floresta, lembre-se de alertá-las.
— Se elas estiverem sentindo algum tipo de dor física, nós saberemos.
— Elas gostam de carinho, dê o quanto quiser, mas não mime demais, tem que ser duro às vezes.
— Não hesite em nos chamar se achar que há algo de errado, Hagrid, esses animais são extremamente importantes para nós e nossa família. Se eles adoecerem, nós podemos adoecer junto.
Ele ouvia tudo com atenção e cuidado, vez ou outra trocando olhares com as duas. Por fim, ele pôs ambas dentro do seu casebre, emocionado demais ao ver dois lobos daquele tamanho em seu lar, e indicou que tínhamos que comparecer à cerimônia.
Os animais se aninharam na frente da lareira sem muita preocupação, ocupando quase o chão da sala inteiro, e elas nem estavam na fase adulta ainda. Hagrid cairia para trás quando soubesse disso.
Meu coração parecia tranquilo deixando-as daquele jeito, eu sabia que Hagrid não faria mal a elas, pois nem que quisesse conseguiria, eram animais fantasticamente velozes e com pouquíssima paciência, e mesmo que ele quisesse utilizar magia nelas, nem tudo funcionava.
Magia negra têm seus privilégios.

Dentro do salão estava quente e aconchegante, Hagrid abriu as portas com força, fazendo quase todas as cabeças virarem para nós. O lugar era enorme e havia tantos pescoços curiosos olhando que não conseguimos identificar nossos colegas que fizemos amizade durante o verão. Bom, pelo menos eu não consegui.
Ergui o queixo como fazia para me apresentar em qualquer lugar em que o nome dos Stark’s poderia ser algo importante e aguardei as instruções seguintes.
— Ah, sim! — Dumbledore exclamou, quando colocou os olhos em nós. — Obrigado, obrigado, Hagrid.
O diretor ergueu as mãos, pedindo silêncio aos alunos que balburdiavam alto, tentando entender quem eram as meninas metidas que entraram atrasadas e eram velhas demais para estar entrando em uma escola agora.
— Peço encarecidamente que sejam gentis com as mais novas alunas de Hogwarts, que foram transferidas de Durmstrang. Que sua estadia e seus estudos aqui sejam pertinentes, interessantes e aventureiros como as grandes escolas do Norte. — Ele bateu uma palma que assustou ao meu lado. — Agora, iremos fazer a seleção das suas casas rapidamente. Quando seu nome for chamado, sentem no banco de madeira.
Uma mulher pegou um chapéu mal-acabado sobre o banco de madeira e pegou um pedaço de pergaminho.
Lyanna Arya Stark. — Sua voz era tão dura quanto as suas feições.
Senti minhas bochechas arderem ao ouvir meu nome completo ser chamado dessa maneira. Já conseguia ouvir as piadinhas sendo criadas na cabeça dos Marotos, principalmente agora que estavam em seu habitat natural.
Quando me sentei, consegui finalmente ver a multidão de pessoas que me encaravam, e na mesa do lado esquerdo vi mãos acenando discretamente, e lá estava o cabelo bagunçado de James, o cabelo longo de Sirius e o cabelo cor de palha do garoto com um cheiro indiscutivelmente familiar, Remus. Ao lado deles, um garoto mais baixinho com bochechas rosadas fazia parte do grupo, dando um tchauzinho mais envergonhado.
Senti o chapéu sequer encostar no topo de minha cabeça e uma voz anunciou com clareza: SONSERINA!
A mesa decorada com verde e prata comemorou com empolgação, e eu sorri instintivamente, descendo do banco e indo na direção da mesa, porém parei no meio do caminho para ver a seleção de minha irmã.
Catelyn Sansa Stark.
Minha irmã estava vermelha quando se sentou no banco. O chapéu pousou em sua cabeça e pareceu conversar com ela por tempo o suficiente para que eu ficasse sem graça parada no meio do caminho, a esperando.
— Melhor que seja... — O chapéu fez um suspense. — LUFA-LUFA!
O quê?!
Merda.
Isso não estava nos meus planos, eu não queria me separar de . Não agora.
Aquilo ia contra tudo que eu estava planejando.
A mesa ao lado da mesa dos Marotos explodiu em vivas, e quando desceu do banco, ela veio até mim e me abraçou em despedida.
— Acho que a gente se vê amanhã...
— Isso é ridículo — resmunguei, virando os olhos para cima.
— É por expressões assim que você vai para a Sonserina. — Riu ela, se afastando na direção de sua nova casa. Fiz o mesmo, indo até a mesa verde.

O jantar foi silencioso de minha parte, já que eu estava sentada junto com as crianças do primeiro ano que haviam acabado de ser selecionadas para a Sonserina. Porém, assim que me levantei para ir ao dormitório, fui surpreendida por uma garota da minha idade com um broche de monitora em seu peito.
— Olá, eu sou Aimeé Davenport, tudo bem? Seja bem-vinda à Sonserina. — Aimeé tinha cabelos negros lisos e brilhantes, uma franja cobria sua testa e seus olhos eram verdes. — , certo?
, por favor.
— Então, , eu tenho que levar as crianças para o dormitório, mas posso te apresentar ao meu grupo de amigos se não quiser se sentir muito excluída. Imagino como deve ter sido esquisito iniciar em outra escola assim sem conhecer ninguém.
— É, e confesso que nem passou pela minha cabeça que minha irmã não viria para cá comigo.
— É difícil acontecer com gêmeos, mas não é impossível. — Ela sorriu, mostrando os dentes da frente levemente separados, que davam um charme incrível ao seu rosto. Eu já tinha gostado dela quase que imediatamente. — Agora... Uma puro-sangue lufana, isso sim é novidade.
— É muito incomum?
— Acho que nunca aconteceu, mas posso estar mentindo, teríamos que investigar mais a fundo para ter certeza. Vem! — Ela puxou minha mão, me guiando entre as pessoas que estavam se levantando para seguir seu rumo.
Havia um grupinho mais separado com três pessoas conversando animadamente sobre algo que eu não consegui identificar.
— Gente, essa é a . — Eles pararam de conversar e me olharam de cima a baixo. Não me senti intimidada, me senti poderosa. — Esses são Ramona, Alexander e June.
Eles acenaram meio sem jeito, e dei meu melhor sorriso.
— É um prazer, pessoal.
— Vou lá levar as crianças, mostrem o principal para ela — Aimeé disse, se afastando.
— Por que você não veio no Expresso de Hogwarts? — perguntou June.
— Meus pais tinham alguns assuntos da nossa transferência para tratar com Dumbledore, aproveitamos para vir com eles — expliquei. — Por quê? Vocês já sabiam da nossa vinda?
— Todo mundo sabe, vocês são tipo... da realeza — Alexander disse, contendo um pouco a animação.
— Nós não...
— Não interessa, garota, os boatos já se espalharam... Tem gente aqui que morreria para ter sido convidado para o jantar dos Lestrange, sabe?
Então aquele jantar estúpido era motivo para ter status nesse lugar? Mas que besteira!
Lembrar de Sirius fugindo e nos levando junto me fez pensar que ele podia ser realmente diferente de um jeito bom.
— Eu... Nem sei o que dizer disso. — Soltei uma risada sincera, e eles me olharam como se eu fosse louca.
— Não precisa dizer nada, gatinha, a realeza vai falar por você — ele respondeu, piscando.
Argh, aquilo me deu náuseas. Eles me guiaram pelos corredores, mostrando alguns pontos importantes de referência, como banheiros, salas de aulas, lugares bons para dar uns amassos e até uma varanda com uma vista legal do lago.
Chegando às masmorras, as meninas seguiram comigo até os dormitórios, onde meu malão estava separado em uma cama confortável.
— Não liga para o Alex, ele normalmente é legal, mas sabe ser um pouco babaca quando fala com garotas bonitas — Ramona disse, abrindo seu malão. Alex não tinha me atraído de maneira alguma, era o tipo valentão idiota dos quais eu dava soco na cara se me importunasse demais. Ele tinha os cabelos loiros e ligeiramente compridos que caíam sobre seus olhos, que eram verdes.
— Mas vocês são bonitas, por que ele não...?
— Você é carne fresca, querida — June explicou. Eu sabia disso, mas não queria soar rude como se eu me achasse mais bonita do que elas.
June tinha cabelos castanhos ondulados e mechas rosa pintadas nas laterais. Os olhos eram negros como ônix.
Ramona era negra e tinha belos cabelos crespos muito cheios, em um tom lindo de castanho claro. Os olhos tinham uma cor âmbar de dar inveja.
Eu era só uma loira sem sal perto delas, por mais que eu soubesse que era, sim, bonita.
— Os garotos adoram uma carne fresca, então se prepara, Alex é o menor dos seus problemas. — Ramona sorriu, pendurando um pôster na sua parede.
— Acho bom avisar também que os Sonserinos têm uma fama meio feia de que somos nojentos e esnobes, mas não se preocupa, é mais fama do que qualquer coisa. Tem umas pessoas aqui que dá para evitar, mas, num geral, somos legais.
— Quem eu deveria evitar? — perguntei interessada.
— Bellatrix Black — as duas falaram juntas.



Depois do jantar, fui apresentada aos monitores super gentis da Lufa-lufa. Todos estavam animadíssimos com a minha chegada, quase como se eu fosse uma celebridade, ou algo assim.
As crianças me olhavam admiradas, e os mais velhos com uma curiosidade acima da média.
— Oi, eu sou a Pepper e esse é o Tobias. Você é Stark, certo?
— Isso, isso! É um prazer. — Estiquei minha mão para apertar as mãos deles.
Pepper era baixinha e sorridente, seus cabelos eram castanhos curtos e cheios de camadas ondulantes, Tobias era alto e magro, os cabelos eram raspados baixinhos e negros. Ele era bonito. Tinha maçãs do rosto marcantes e um nariz imponente.
— Olha só, temos que levar as crianças para os dormitórios, você quer nos acompanhar? — perguntou ele sem jeito, engolindo em seco e colocando um cabelo imaginário atrás da orelha, como se aquele penteado fosse novo e ele não estivesse acostumado com ele.
— Claro! Seria uma honra! — falei animada, e ambos sorriram.
Acompanhei eles enquanto uniam as crianças em um círculo pequeno.
— Alunos novos, por favor, nos acompanhem — Pepper disse com simpatia, e eu realmente a acompanhei.
— Então, está surpresa por ter ficado separada da sua irmã? — perguntou ela. Eu estava no meio dos dois, enquanto eles guiavam o grupo.
— Na verdade, não. Eu e somos um pouco diferentes mesmo — respondi com tranquilidade. — Não entendam mal, sei a reputação que os Sonserinos têm, mas ela é legal, prometo.
— Não leve isso tão a sério, tenho amigos sonserinos também... Só estamos achando estranho você ser puro-sangue e ter vindo para a Lufa-lufa, isso sim é incomum. Normalmente os puro-sangue têm passagem só de ida para lá — Tobias explicou, cutucando uma criança que estava distraída com os quadros se movimentando.
— Isso é tão incomum assim?
— Acho que é a primeira vez que acontece — Pepper concluiu incerta.
— O chapéu-seletor realmente demorou um pouco, ele estava falando muito comigo. Por fim ele disse que meu coração doce era a minha primeira qualidade — falei, sorrindo, e ambos sorriram em retribuição.
— É, você seria trucidada na Sonserina — Pepper brincou.
— Sua irmã tem esse coração doce também? — indagou Tobias.
— Oh, não. Não mesmo, é durona e tem o coração blindado.
Então, cortando nossa conversa, uma voz soou:
— Olha só se não é a diabrete mais linda do reino das terras do Norte?
Virei meu pescoço e notei James Potter sorrindo para mim. Olhando-o daquele jeito dava para ver que eles tinham um quê meio rebelde, meio improvável e inegavelmente popular. James tinha os braços cruzados sobre o peito feito um segurança, o menor deles e um pouco mais gordinho estava ao lado de James, tentando imitar sua pose, Remus estava com as costas na parede e as mãos no bolso, e Sirius estava encostado com o ombro na parede e os braços cruzados, um sorrisinho malvado no rosto.
Ouvi Tobias bufando atrás de mim e abri um sorriso, indo até eles. Abracei James primeiro, ele me ergueu e me tirou do chão.
— Por um momento, achei que minha melhor amiga das férias de verão não viesse para Hogwarts. Procuramos vocês no trem — ele disse, me pondo no chão.
— Nós tivemos alguns imprevistos, tivemos que vir com nossos pais — me expliquei, enquanto seguia para abraçar Remus. Ele retribuiu.
— Tentamos encontrar sua irmã no caminho, mas ela já tinha entrado no dormitório da Sonserina — disse ele, ligeiramente cabisbaixo.
Eu gostava de Remus tendo esse pequeno crush em minha irmã, mas ela iria devorá-lo vivo.
— Que pena, ela ia gostar de ver vocês. Oi! Prazer, eu sou a — falei, conhecendo finalmente o último membro dos Marotos. O abracei com a mesma empolgação que abracei os outros e suas bochechas estavam vermelhas quando o soltei.
— S-sou Peter. — Foi só o que ele conseguiu dizer, antes de Sirius me puxar para a sua hora do abraço. Seus braços me envolveram e um sorriso ladino surgiu em seus lábios quando ele se afastou para olhar meu rosto e depois depositar um beijo em minha bochecha.
— Você ainda está me devendo uma depois de ter roubado minhas roupas, não acha, Srta. Stark?
Soltei uma gargalhada, o empurrando para trás, me soltando de seus braços quentes e sedutores que podiam me deixar tonta.
— Não acho nada, Black. Acho que você já devia ter esquecido essa história.
— Esquecer? Jamais! — Seu sorriso devia ser proibido, devia dar cadeia. — Nunca vou esquecer da garota que se aproveitou de um momento de vulnerabilidade meu e tirou vantagem.
— Você vai sobreviver a isto, Black. Te fez mais forte, tenho certeza. — Dei dois tapinhas em seu rosto e me afastei, me aproximando de Tobias e Pepper, que ainda me esperavam.
— Quando vamos te ver de novo? — James perguntou, pondo as mãos sobre o coração e apertando como se meu afastamento causasse dor física.
— Nossa primeira aula amanhã é com a Grifinória — Pepper respondeu com simpatia, e James acenou com afinco.
— Amanhã você vai conhecer o amor da minha vida e me ajudar a conquistá-la, combinado, Stark? — perguntou ele, e soltei uma risada lembrando da sua história com Lilly. Percebi Sirius e Remus atrás dele fingindo que iam vomitar. Notei também que Remus era o pior monitor da história, vendo o crachá reluzente em seu peito.
— Combinado, Potter. Remus, você não tinha algumas crianças para levar aos dormitórios, não? — perguntei, o vendo parar de fingir vômito e endireitar a postura.
— Minhas crianças estão bem guardadas, . A Grifinória está munida com bons monitores, não se preocupe.
— Tome cuidado com a língua, Remus. Minha irmã não vai gostar de saber que você está falando mal da minha casa por aí. — Pisquei para ele, que murchou e ficou vermelho na hora.
— Sua irmã foi para a Sonserina, como previmos. Falar mal das Casas alheias vai virar o hobbie número 1 dela. — Sirius cutucou, cruzando os braços em desafio.
— E vocês estão com ciúmes que vão ter que dividir a atenção dela, é isso? — debochei, agarrando os braços dos meus novos companheiros de casa e dei as costas para os Marotos. — Até amanhã, otários!
— Até mais, minha ruiva preferida. — Acho que foi James que berrou.
— Isso é mentira, Potter! — rebati e ouvi suas risadas.

No dia seguinte, Tobias nos esperava sentado em uma poltrona do salão comunal, que era claro e arejado, cheio de plantas e flores espalhadas por todos os cantos. Conversei com Pepper até anoitecer, acompanhada de Louisa, Quinn e Marjorie, e Tobias foi elogiado por todas elas. Me contaram que ele era gentil, bondoso e tinha namorado uma garota da Corvinal, mas que não tinha durado muito tempo. Pepper insistiu que ele tinha gostado de mim, mas eu nem daria bola para aquilo, levando em conta que eu estava ali havia literalmente um dia.
Seguimos para o desjejum, me despedi de minhas novas colegas e fui encontrar na mesa da Sonserina. Eu não queria dar a chance de ela vir até ali, queria ver como os seus colegas da Sonserina reagiriam com uma lufana se aproximando.
estava com os cabelos longos soltos, a franja presa por um arquinho preto liso, o rosto pálido estava com leves olheiras de quem dormiu pouco a noite (provavelmente de tanto conversar com as novas colegas, assim como eu) e ainda assim estava radiante.
— Bom dia, gêmea Stark — brincou ela, sorrindo para mim, abrindo espaço ao seu lado para eu me sentar.
— Bom dia, gêmea Stark — falei, me sentando.
— Gente, essa daqui é minha irmã, . , esses são Aimeé, Alex, June e Ramona.
Acenei para todos e pude jurar que alguns olhos ficaram presos tempo demais em minha gravata amarela.
Conversamos por alguns minutos apenas para saber como foi o primeiro dia uma da outra, vimos nossos horários e teríamos aulas juntas naquele mesmo dia.
Assim, me despedi de todos e voltei para a mesa da Lufa-lufa.

Na primeira aula, me sentei com Tobias em uma mesa dupla. Em nossa frente estavam Pepper e Quinn, e as carteiras de trás estavam vagas.
Diferente de minha irmã, a parte de cima do meu cabelo estava presa com uma presilha de prata forjada com um desenho de lobo muito parecido com o meu pingente do pescoço, minha franja estava um pouco mais curta do que de costume e acabou escapando para frente, mas aquilo dava um toque bonito ao penteado.
— Tem algum motivo especial para os acessórios de lobo? — Tobias puxou assunto comigo, apoiando o rosto na mão como se estivesse meio entediado.
Ele era definitivamente fofo. Agora com a luz do sol entrando pela janela ao nosso lado, eu podia avaliar seu rosto com mais calma. Seus olhos eram claros e a sua boca era carnuda e tinha um tom naturalmente vermelho. Seu nariz tinha um calombinho que deixava seu perfil rústico e atraente.
— É o animal que representa a minha casa. As famílias antigas do Norte sempre têm um animal para representar suas casas, era uma maneira fácil de identificar uma bandeira em batalha, ou saber a localidade em que se estava — expliquei com tranquilidade, vendo seus olhos passearem por meu rosto enquanto eu falava. — É basicamente tudo herança.
— Puta merda, e você ainda diz que não é da realeza.
Senti meu rosto esquentar.
— De qualquer maneira, quem vai levar o legado de príncipe é meu irmão mais velho.
— Isso não te faz menos princesa.
Dei de ombros, dando um pequeno sorrisinho.
— Isso te incomoda?
— Nem um pouco. — Notei suas bochechas ganhando um tom ligeiramente avermelhado.
Nesse momento, uma balburdia se iniciou no corredor que dava para a sala de aula, e eu imediatamente imaginei que os Marotos estavam por perto. Não sei dizer se eu gostava daquele estardalhaço que aparentemente sempre vinha junto deles, ainda estava decidindo.
Não olhei para a porta quando eles passaram, mas posso jurar que senti o olhar dos quatro sobre mim. Percebi a presença sendo preenchida nas carteiras atrás de mim e ao meu lado também. Que os deuses tenham misericórdia.
— Oi, melhor amiga. — Ouvi o sussurro de James atrás de mim.
— Não consegue ficar longe, hein, Potter? — perguntei, sem olhar para trás.
Ouvi sua risadinha.
— Tenho uma queda por ruivas. Não consigo evitar. — Rolei os olhos ouvindo suas palavras e notei que Tobias pegou o livro da matéria para fingir que não estava ligando para aquele intrometido que havia estragado nossa conversa.
— Não consegue pegar uma, quem dirá a outra — provoquei, pensando no que minha irmã diria para deixá-los sem palavras. Eu chamava de OQMIF: O que minha irmã faria?
— Uma eu já peguei.
— Engraçado, não lembro disso. A única coisa que eu lembro dessa noite era você e seus amigos correndo pelados atrás de nós — falei, e ouvi outra risadinha atrás de mim. Espiei ao meu lado e vi Remus sentado com Peter, então concluí que a risadinha era de Sirius.
— Vale ressaltar que isso vai ter volta. — A voz de Sirius surgiu em meu outro ouvido, entre mim e Tobias, e suspirei alto.
— Estou tremendo de medo — retruquei, e notei um pequeno sorrisinho nos lábios de Tobias, que ouvia a conversa por tabela. Pigarreei. — Tobias, você sabe me dizer qual página do livro?
Peguei meu livro e coloquei em cima da mesa.
— Merda, peguei o livro errado.
— Geralmente tem alguns exemplares reserva no armário no fundo da sala. Quer que eu pegue pra você? — perguntou ele com educação.
— Não precisa, eu pego.
Me levantei, finalmente vendo os pares de olhos castanhos me acompanhando enquanto eu me levantava, James me lançou um sorriso completo com seus dentes bonitos, e Sirius me olhou com uma carranca intensa que me arrancou arrepios sinceros. Não sei o que aquele garoto tinha, mas exalava feito um perfume poderoso, uma aura de tudo misturado ao mesmo tempo, a aura de um malandro. Dei um tapinha na testa de James quando passei e ele suspirou alto.
— Assim eu apaixono, princesa.
— Cala a boca, Potter.
Fui até o armário velho que tinha lá atrás, a porta rangeu quando abri e realmente tinham alguns exemplares velhos e desfiados por ali, peguei um e quando fechei a porta, Sirius estava em pé ao meu lado, apoiando o ombro no armário, confiando demais na estrutura daquele móvel antigo.
— Algum problema, querido? — perguntei, depois de me recuperar. Seus olhos não eram castanhos, eram negros e pareciam queimar minha alma.
— Que nada, só vim ver se você precisava de ajuda. — Pelos Deuses! Será que os homens dessa escola acham que mulheres não sabem fazer nada?
— Estou bem, obrigada.
Ele sorriu, merda. Tinha esquecido o poder que o seu sorriso tinha.
— Outch. — Fingiu ser atingido no coração. — Achei que a afiada era só a sua irmã.
— Sei ser bem afiada quando quero.
— Estou notando, algum motivo especial?
— Quatro garotos metidos que chegam fazendo bagunça desde o segundo em que acordaram.
— Eu avisei que éramos populares. — Deu de ombros, o sorrisinho torto ainda rondando em seus lábios.
— Entendo. Acho que já tenho rótulos suficientes.
— Infelizmente isso não será negociável, vocês fizeram suas propostas na última vez que nos vimos e uma das opções era uma amizade longa e duradoura conosco.
— Ah, sim, e quando vai chegar a parte dos doces? — Ergui as sobrancelhas em desafio. Se ele estava achando que iria me conquistar e ficar se gabando pela escola toda, estava muito enganado. Bom... Pelo menos não na primeira semana.
— Qual doce você quer, princesa? — Ele não se deu por vencido tão fácil.
— Marshmellows de animais, só os azuis.
— Seu pedido é uma ordem. — Fez uma reverência exagerada.
— Sequilhos de abóbora também são bem-vindos.
— Sim, senhorita. — Sirius piscou para mim, e voltou ao leu lugar com um sorrisinho esperto no rosto.
Argh, eu estava muito ferrada.





— Oi, Hagrid, como foi ontem? — Eu e tínhamos um período livre de tarde e resolvemos ir até a sua cabana. Ele estava com as calças dobradas até os joelhos, catando algo no lago negro.
tinha me dito que viu sereianos dentro do lago pela janela do seu dormitório e aquilo me encantou, sempre tive muita curiosidade com criaturas mágicas diferentes, já que viemos de um local majoritariamente trouxa, era difícil ver criaturas mágicas com frequência, com exceção das nossas lobas e elfos domésticos.
— Garotas! — Ele deu um sobressalto, as mãos cheias de sanguessugas escorregando pelos dedos.
Se empertigou, tentando se ajeitar, sem saber se soltava os animais ou se limpava as mãos no colete.
— Pode ficar aí, Hagrid, só viemos dar um oi! — ergueu as mãos, sorrindo. Era tranquilizador ver minha irmã tão feliz.
— Ah, sim. Oi! Ontem foi tudo muito tranquilo, são animais extraordinários as suas lobinhas.
— Elas são lobas gigantes, Hagrid! — exclamei, rindo da maneira que ele falava, como se nossas “lobinhas” fossem cachorrinhas de colo.
— Elas já são adultas? — perguntou ele, colocando as sanguessugas em um balde que boiava perfeitamente equilibrado sobre a água.
— Ainda não.
— Pelas barbas, elas ficarão ainda mais lindas quando estiverem adultas!
— Com certeza, você conversou com elas? Falou das criaturas que elas não podem comer? — perguntei, o vendo mergulhar as mãos na água mais uma vez.
— Falei, sim. Passeei com elas hoje de manhã, mostrei uma caverna confortável que elas podem ficar, apresentei aos Centauros, mostrei os unicórnios e todos os tipos de árvores perigosas... Elas vão ficar muito bem. — Suas mãos voltaram com mais sanguessugas, que ele arrancava da pele quando elas grudavam e lavava na água antes de pôr no balde. — Quando tiverem outra aula livre, me mandem uma coruja e podemos ir juntos, vou mostrar onde elas estão ficando e vocês podem ir visitá-las sempre que quiserem.
— Nós podemos entrar livremente na Floresta... Proibida? — sabia que não, mas também sabia que aquele nome era tão sugestivo quanto dizer “Seja bem-vindo sempre que quiser”.
— Não, mas todos os alunos encrenqueiros entram. — Seu sorriso era divertido.
— Está insinuando que somos encrenqueiras, Hagrid? — perguntei, abrindo a boca de maneira fingida.
— Acreditem, meninas, sei que são princesas, mas a cara de vocês não engana ninguém.
Eu e minha irmã demos uma risada conjunta.
— Só a é encrenqueira, Hagrid. Eu sou boazinha, prometo! — falei, ainda rindo, o fazendo soltar uma risada também.
— Vou fingir que acredito, garotas... Vocês não deviam estar na aula?
— Temos uma hora livre, viemos ver como você estava, mas agora já vamos indo.
— Tudo bem. Se precisarem de algo, sabem onde me encontrar!


— Você já encontrou os Marotos? — perguntei, trançando seus cabelos sentada nos degraus da escadaria central, enquanto ela estava um degrau abaixo, analisando nossos horários no pedaço de pergaminho que nos deram.
— Não, você já?
— Minha primeira aula foi com eles, você não tem nenhuma aula com a Grifinória hoje?
Ela analisou os horários.
— Não tenho certeza, mas acho que Poções vai ser com eles, levando em consideração os nossos horários.
— Boa sorte — desejei de boa-fé, a fazendo virar o rosto em minha direção, os olhos brilhando em curiosidade. — Ah... você sabe, aqueles garotos sabem ser...
— Chatos, metidos, convencidos?
— É, era isso mesmo que eu ia dizer. — Senti minhas bochechas esquentarem.
Catelyn Sansa Stark.
Soltei uma risada que ecoou pelo corredor quase vazio.
— O quê? — Eu adorava fazer isso com ela. sabia tudo, entendia tudo que passava em minha cabeça e mesmo assim eu me divertia fingindo que conseguia enganá-la.
— Para de se fazer de sonsa, . Você está caidinha pelo garoto Black.
— Deixa de ser besta, . Eu mal conheço ele! — Terminei sua trança e prendi com o prendedor de lobo que estava em meu cabelo. Roubei seu arquinho, o pondo em minha cabeça.
— Hmmm. — sabia que o silêncio era o meu maior inimigo nesses casos.
— Quero dizer, não vou negar que ele tem um certo charme, mas...
me interrompeu, soltando uma risada gostosa.
— É claro que ele tem um charme, maninha. Ele tem esse charme com todas. Por favor, toma cuidado com ele, tá bem?
— Sei me cuidar. E você, vai com calma com o Lupin. Não precisa devorar ele vivo no primeiro dia, viu? — Me levantei, vendo meus colegas de turma se aproximando de nós duas.
deu um sorriso maldoso.
— Tá bom, mãe.



A sala de Poções estava preparada diferente das outras, carteiras em duplas viradas na direção da mesa do professor em um semicírculo. Aimeé sentou-se com Ramona, e June sentou-se com Alex. Ao lado deles, havia uma mesa com um garoto sentado sozinho.
— Posso me sentar aqui?
Ele não respondeu, só acenou levemente com a cabeça. Era pálido, tinha um nariz pontudo e cara de poucos amigos, os cabelos eram negros e escorridos pelo rosto, compridos como o de Sirius Black, mas nem de longe eram descolados e glamurosos como o dele.
— Sou Stark — me apresentei, esticando a mão até ele, que olhou minha mão pairando no ar, pensou por um instante antes de finalmente ceder, apertando sua mão fria na minha.
— Severus Snape — disse ele com rapidez e voltou a sua atenção ao livro de poções que já estava aberto em sua mesa, pondo o seu braço na frente como se, além de não querer conversa comigo, não quisesse que eu visse o que rabiscava. Seu nome não me era estranho e eu tinha que decorá-lo para perguntar para mais tarde.
— Lá vem a horda de palhaços. — Alex se debruçou sobre a mesa, fingindo que não via Snape entre mim e ele, só para murmurar para mim. Segui seu olhar até a porta e vi os Marotos entrando.
James tinha um sorriso nos lábios enquanto respondia algo que Sirius havia dito, nenhum deles tinha me visto ali. Atrás deles, Remus procurava algo na bolsa que carregava os livros, os cabelos estavam ligeiramente mais longos do que eu me lembrava e, ao seu lado, um garoto adorável de bochechas rosadas acompanhava o sorriso de James como se ele tivesse ouvido alguma piada muito engraçada também.
— Os Marotos? — murmurei de volta, e seu olhar voltou-se para mim. Severus afastou o tronco da mesa, trazendo seu livro com ele para o colo, se recostando na cadeira, dando espaço para que eu e Alex conversássemos, desde que não o atrapalhasse.
— Já conhece eles?
— Conheci nas férias e...
— PRINCESA! — A voz de James ecoou pela sala de aula, Alex revirou os olhos para cima antes de voltar à sua posição original. Ele atravessou a sala de maneira estabanada até mim, enquanto eu me levantava, seus braços me erguendo do chão.
— Caramba, achei que não fosse te ver hoje! — Seu sorriso era galanteador e fisicamente impossível de não retribuir.
— Não é como se você fosse morrer.
— De saudades? Com toda a certeza!
— Acho que você está me confundindo, benzinho — respondi quando ele me pôs no chão, e segui para o próximo da fila, que era o garoto mais baixo que parecia estar feliz só de estar ali participando da conversa.
— Uau! — Pude ouvir ele sussurrar quando o abracei, e ouvi risadas de James e Sirius. — Sou Peter, princesa .
— Não me chame assim só porque seus amigos idiotas fazem.
Ele sacudiu a cabeça meio desnorteado enquanto olhava meu rosto de maneira realmente encantada, as bochechas ficando púrpura.
— Princesa. — Sirius fez uma pequena reverência quando chegou a sua vez de me cumprimentar.
— Black — respondi, fazendo o mesmo. — Preciso de um favorzinho de melhor amigo — sussurrei em seu ouvido quando nos abraçamos.
— Mas já?!
— Preciso de um contrabandista confiável de cigarros.
— A nicotina vai te matar, princesa. — Seus olhos negros sorriram maliciosos para mim, e eu empurrei seu ombro em resposta. — Vou ver o que consigo.
— Obrigada, lembre que minha irmãzinha sempre me escuta e talvez isso te dê a motivação necessária. — Pisquei em sua direção, e ele segurou um sorriso.
E então, ali estava o motivo das minhas noites mal dormidas, o protagonista de meus pesadelos, Remus Lupin.
Os deuses são testemunha da beleza dessa criatura. Ele deu um sorriso tímido ao vir até mim e seus braços me envolveram pela cintura, enquanto seu cheiro me enlaçava feito uma presa, um coelhinho fugindo de um lobo.
— Aqui está o meu maroto favorito — brinquei, falando a verdade apenas para ver como James reagiria, enquanto separávamos o abraço, meu corpo sentindo uma dor física, enquanto ele se afastava com seus olhos doces e um sorriso bonito em seu rosto.
— Ei! — James rebateu.
— Apenas verdades, Potter. Ele é quietinho, não fica se aproveitando de irmãs alheias por aí, é monitor... — A cada palavra que saía de minha boca, mais o rosto de Remus ficava vermelho e mais a boca de James abria de indignação.
Antes que James pudesse responder à altura, professor Slughorn entrou na sala com um sorriso no rosto.
— Vamos, vamos. Sentem-se que hoje teremos uma poção ótima pra aprender.
— Vem sentar com a gente, princesa. — James deu uma olhada para Severus com a sobrancelha franzida, como se reprovasse o local que eu tinha escolhido.
— Tô de boa, Potter. Vá pra lá. Vocês só vão me atrapalhar.
— Caramba, garota. Tinha esquecido como você é má.
— Você está muito acostumado com a — falei, mandando um beijinho pra ele enquanto voltava a me sentar ao lado de Severus.
— Não me admira que você foi pra Sonserina e ela pra Lufa-lufa — respondeu ele alto o suficiente para que eu ainda o ouvisse do outro lado da sala.
— Ficou magoado porque te rejeitei, baby? — Pisquei e alguns alunos fizeram um coro de “uuuuh”. James fechou a cara, enquanto os demais Marotos riam.
O professor pediu silêncio e começou a falar sobre a Poção Wiggenweld.
— Você devia ter ido pra lá, se é tão amiga deles — Severus falou baixinho, sem levantar a cabeça.
— Quero aprender alguma coisa, e isso não vai acontecer com aqueles quatro falando no meu ouvido.
— Então você é amiga deles mesmo?
— Acho que sim, nos conhecemos há pouco tempo — falei, abrindo o livro de poções na página indicada pelo professor. Notei que ele ficou quieto. — Por quê? Algum problema?
— Sim. Por favor, não fale comigo.
Ele que puxou assunto comigo!
Mais um homem misterioso na minha vida, não! Deuses antigos e novos, por favor, me faça ser menos curiosa e mais focada nos meus estudos. Obrigada.
— Foi você que falou comigo!
— Eu sei, peço desculpas. Não irá se repetir.
— Você tem algum problema com eles, é isso?
Severus não me respondeu, conjurou um caldeirão à sua frente e começou a fazer suas coisas.
Pelo canto dos olhos, vi Remus indo até o armário velho nos fundos da sala e corri até ele disfarçadamente.
— Qual é o problema de vocês com o Severus?
Ele se assustou comigo ali. Seus olhos percorreram meu rosto e desceram por meu ombro onde minha trança descia.
— É complicado. — Voltou sua atenção para o armário, onde ele pegava colheres de cobre para mexer o caldeirão. — Ele falou alguma coisa?
— Só disse que se eu era amiga de vocês, não era para eu falar com ele.
— Bom, isso resume bastante as coisas. Quer uma colher?
— Não quero as coisas resumidas, quero saber qual é o problema de verdade, dele ou de vocês.
— Nós não somos flor que se cheire, . E Snape também não é. Com o tempo, você vai saber qual flor é menos fedorenta e vai decidir qual você quer cheirar.
— E se eu não gostar de flores?
— Você vai ser mais feliz assim. Mas só pra você saber, Lily era melhor amiga dele e agora não fala mais com ele. Talvez você possa ver com ela qual é o problema de verdade.
— Quem é Lily?
Remus sorriu. Eu podia me derreter ali mesmo, uma poça de insignificância perto dele.
— Por Merlin, você é péssima com nomes. — Me entregou uma colher de cabo longo. — Lily é a garota que James está apaixonado. E Snape, nós falamos sobre ele no dia em que nos conhecemos. Tenta lembrar um pouquinho. E eu sou Remus, não sei se você está lembrada — brincou ele, mantendo o sorriso no rosto.
Desde o dia em que o conheci, minha cabeça vem zanzando de maneira estranha. Era recorrente o sonho em que eu estava perdida em uma floresta com Silver Springs e Remus aparecia com o rosto machucado, a linda pele arranhada e as roupas rasgadas. Eu nunca me esqueceria daquele nome, não levando em consideração toda a trajetória que minha família tinha com lobos e lobisomens.
— Achei que o seu nome fosse Aluado. — Devolvi um sorriso que fez o dele se abrir mais ainda.
— É, esse também serve.
— Alunos, aí no fundo. Venham, estou mostrando uma parte importante aqui — o professor falou em alto e bom som, e todas as cabeças se viraram para nós.
Voltei ao meu lugar, conjurei meu caldeirão sobre a mesa e me virei para Snape.
— Estou decidida a desvendar os mistérios que rondam você e os Marotos. Seria mais fácil se você me falasse o seu lado e me desse a possibilidade de ver os dois lados da briga.
— Não. — Sua voz era suave e calma.
— Eles te chamaram de alguma coisa...?
Não sei explicar o motivo, mas Severus me despertava curiosidade, havia alguma coisa naquela casca misteriosa e silenciosa que me fazia querer saber mais. O fato de os Marotos não gostarem dele só me deixava mais doente, como se o fato de poder haver algum motivo sombrio me despertasse ainda mais curiosidade. Ele era tão calmo e brando, era difícil imaginar ele fazendo mal a alguém.
— Por favor, princesa. Pare. Não tenho amigos e não quero amigos.
— Não me chame de princesa.
— Perfeito, não te chamo de princesa e você para de falar comigo. Não é um ótimo trato?
Bufei irritada e antes de virar o rosto, mesmo que por um segundo, pude notar um pequeno sorriso surgindo em seus lábios, que logo foram comprimidos em uma linha reta.

No fim da aula, enquanto eu juntava minhas coisas e observava Severus sair da sala tão rápido quanto o próprio professor, notei que todos os Marotos estavam em volta da minha mesa.
Aquilo parecia um círculo de problemas. Já não bastava ser conhecida pela escola toda como sendo da realeza, os garotos populares ainda ficavam zanzando em volta de mim feito abelhas, e eu não era uma a porra de uma margarida.
— O que vocês querem agora?
— Vamos dar uma festinha de boas-vindas hoje — James disse, cruzando os braços. — Coisa fina, pra pouca gente.
O olhei de cima a baixo com cara de poucos amigos.
— Vocês... fazendo festa pra pouca gente? Tão querendo enganar quem?
Remus sorriu de novo, sabendo que eu estava certa, e Peter, que ainda me olhava admirado, abriu a boca como se eu tivesse adivinhado a fórmula para a poção do morto-vivo.
— Gostaríamos que convidasse a sua irmã.
— Vocês gostariam, ou você gostaria? — respondi afiada e um sorriso malicioso surgiu em seu rosto bonito.
— Você decide.
O ignorei.
— Precisa levar alguma coisa?
— Apenas a sua presença ilustre, sua irmã e suas amigas gatinhas da sonserina também são bem-vindas.
— Onde e quando?
— Às dez. Na frente do retrato de esqueleto de unicórnio, no terceiro andar.
— Nós literalmente chegamos ontem aqui. Não sei onde fica isso.
— A gente busca vocês, não é, Aluado? — Sirius passou o braço pelo pescoço do amigo até então calado.
— Claro. — Ele sorriu sem graça ao responder.
— Ótimo. Até logo então.
— Ei, ei, calma, princesa. — Sirius segurou meu braço delicadamente. — Estamos indo a Hogsmeade. Quer alguma coisa da Dedos de Mel?
Uni as sobrancelhas, olhando cada rostinho bonito que me encarava. Eu conhecia a loja, era uma franquia grande.
— Como vocês vão para lá?
— Infelizmente, não podemos contar — Peter respondeu. Pela primeira vez, consegui ouvir sua voz de verdade, porém ele fraquejou quando o observei de cima a baixo. Eu sabia ser bem assustadora quando queria. — ... A-ainda. — Completou ele, gaguejando.
— Entendi. Estou gostando de você, Peter. Acho que é o mais confiável desse grupinho apocalíptico...
— É sério?! — perguntou ele animado, os olhos brilhando de excitação.
— Não ouve nada que ela diz, Rabicho. Essa mulher é... perigosa — Remus disse, por fim, passando o braço pelo ombro do amigo e o afastando de mim, como se quisesse protegê-lo. Eu gostava de Remus mostrando o seu lado engraçadinho, não sei se isso era muito bom.
Soltei uma risada forçada, uma risada de “bruxa má” como diriam os trouxas.
— Ah, não Remus! Ficou com ciúmes porque está perdendo o primeiro lugar? — Fiz um biquinho e seus olhos se prenderam em meus lábios por alguns segundos antes de sorrir.
— É, acho que sim.
— Que merda, isso me deixa em quê? Terceiro lugar?! — James perguntou indignado, me fazendo rir.
— Você e Sirius estão empatados em último lugar. Um porque beijou a minha irmã, e o outro porque quer beijar.
— Foi você que pediu! — James argumentou, soltando uma risada.
— E você podia ter dito não. — Ergui as sobrancelhas, cruzando os braços, e James bufou, fingindo indignação.
— Não vou lutar por um lugar melhor contigo, o meu primeiro lugar é no coração da sua irmã — Sirius disse de maneira galanteadora, me fazendo girar os olhos nas órbitas enquanto seguia para a porta, os deixando para trás.
— Me poupe, Black. Minha irmã não vai cair nesse papinho de pobre apaixonado. Conhecemos gente da sua laia lá em Durmstrang.
Saí pelo corredor, subindo as escadas e ouvi passos vindo atrás de mim.
Nem mesmo o Senhor da Luz podia me fazer ficar em paz com esses garotos atrás de mim.
— Sua irmã pediu marshmallows de animais — Sirius disse quando eles se aproximaram.
— Azuis com formato de lobo vão te dar pontos extra — respondi com calma, abraçando meu livro de poções sobre o peito.
— E o que te faz dar pontos extra? — insistiu ele, e eu estava torcendo para que ele estivesse fazendo aquela pergunta pelo amigo.
— Pirulitos cherry-bomb. — Apertei o passo, querendo me livrar deles. — Até mais, otários.



Dei uma última olhada no espelho, checando meu look. Uma blusa amarela soltinha com decote ciganinha e manga 3/4 e uma saia jeans com um cinto preto largo, minhas pernas compridas estavam à mostra e nos pés um all star amarelo que combinava com a blusa.
— Vocês têm certeza de que não querem ir? — perguntei à Marjorie e Louisa, que estavam deitadas na cama, lendo revistas de fofoca juntas.
— Ah, sim. Festas dos marotos não são muito a nossa praia — Marge respondeu.
— Vai lá e se diverte bastante. Amanhã queremos saber as fofocas. — Lou piscou para mim.
— Tudo bem, até mais.
Saí pela tampa do barril no horário combinado com minha irmã e dei de cara com dois Marotos do lado de fora me esperando.
Remus usava uma camiseta de botões creme com uma jaqueta jeans por cima, calça jeans de lavagem clara e um all star branco malcuidado nos pés. Estava lindo, minha irmã morreria quando o visse, do mesmo jeito que eu estava ao ver Sirius Black com sua blusa branca, uma jaqueta de couro por cima, calça jeans rasgada nos joelhos e uma bota preta de couro surrado.
O charme que exalava daquele homem era digno de estrelas de Hollywood, um talento nato.
— Princesa. — Sirius fez uma reverência exagerada, me arrancando um sorriso.
— Almofadinhas — falei, lhe dando um beijinho no rosto quando ele se aproximou. Era óbvio que seu perfume era ótimo e o calor da sua mão em minha lombar fez minhas pernas amolecerem. Mas mantive a compostura, indo até Remus e lhe cumprimentando também.
— Achei que iriam buscar primeiro — comentei.
— A sala comunal dela é perto de onde a festa está acontecendo. É caminho — Remus explicou quando começamos a andar. Subimos dois lances de escada.
— Entendi, então vocês já estavam na festa? Saíram só por nossa causa?
— É, na verdade todo mundo chegou meio cedo, acho que estavam ansiosos por uma festa de boas-vindas. Todo ano tem — Sirius explicou.
— Legal. E quando acontece a próxima?
— Acho que no Halloween. A não ser que alguém faça alguma festa de aniversário antes... Quando é o aniversário de vocês? — perguntou Sirius ao meu lado, com mais de uma cabeça de altura da minha. E olha que eu e somos conhecidas por sermos altas em nossa família.
— Ah, já passou. É em julho, durante as férias. — Dei de ombros.
— Que pena, menos um dia de festas clandestinas — Remus comentou do meu outro lado, com as mãos no bolso da calça.
— Ou um motivo pra nos vermos durante as férias. — O sorriso de Sirius era ladino.
— Você acha que estaremos nos falando até as férias do ano que vem?
Eu tinha a impressão de que aqueles garotos eram populares demais para nosso próprio bem, e que logo eles iriam enjoar de nós, o calor da novidade se dissipando feito a fumaça de uma fogueira recém apagada. Todo aquele joguinho era fogo de palha, e a partir do momento em que eles pudessem nos riscar da sua lista, eles partiriam para outra.
Por isso era tão importante que eu e não nos deixássemos levar por um romancezinho de escola, já tínhamos passado por isso antes. Mas isso não nos impedia de nos divertir um pouco, afinal, aqueles garotos eram divertidos na dose certa. Talvez não tão certa assim, o suficiente para nos fazer perder um tempinho.
— Mas que audácia, Stark! Não esperava isso vindo de você. — Ele fingiu estar surpreso, pondo as mãos sobre a boca.
— Ah, qual é, Sirius... Vocês só estão dando bola pra gente porque somos carne nova no pedaço.
— Esse seu pensamento me magoa — disse ele, parando na frente de uma parede lisa.
— Bom, em julho do ano que vem a gente vê como isso vai estar — respondi, parando também, esperando que em algum lugar por ali devia ser a porta da sala comunal da sonserina.
— Vou te dizer como vamos estar em julho do ano que vem: você vai nos convidar para o seu aniversário e vai me apresentar para a sua família como seu namorado. Eles vão ficar felizes pra caralho, já que eu sou de linhagem nobre, e a gente vai ter que dedicar toda a nossa simpatia pra fazer eles esquecerem que Remus vai estar lá também, namorando a sua irmã.
Remus tapava o rosto, não com vergonha, mas com uma cara de “pelo amor de Merlin, só cala essa boca”. Eu não consegui segurar um sorriso que escapou com toda aquela idiotice.
— Ah, é? E quem vai lidar com meu irmão mais velho primeiro? Porque Bram não dá bola pra linhagens de sangue puro, ele só quer ver as irmãs mais novas com caras legais — falei, colocando as mãos para trás, vendo Sirius abrir um sorriso enorme.
— Nós somos caras legais — respondeu com simplicidade.
— Sério? Eu só vejo quatro caras que acham que são donos da escola.
— Você está errada, princesa.
— Só falta você mijar em mim pra marcar território, Sirius.
Sirius abriu a boca para responder, mas fomos interrompidos por uma enorme estátua de cobra que surgiu do chão e abriu uma passagem de porta. Minha irmã saiu de lá belíssima e com cara de poucos amigos. Ela usava um vestido preto básico, meias arrastão e coturnos, os cabelos soltos e naturais como os meus, levemente ondulados.
Quase pude ouvir o cérebro de Remus pegando no tranco, as engrenagens tentando funcionar, enquanto minha irmã vinha me abraçar primeiro.
— Quem vai mijar em quem? — perguntou ela, indo cumprimentar Sirius.
— Ninguém vai mijar em ninguém, parece conversa de louco — respondeu ele, tentando se livrar das garras de minha irmã.
— Depois eu te coloco por dentro do assunto, , mas, pra encurtar... Sirius acha que seremos amigos até o nosso aniversário ano que vem.
Enquanto eu falava, minha irmã segurava o rosto de Remus e tascava um beijo em sua bochecha, de modo que, quando se afastou, além do garoto estar completamente desnorteado, ainda havia a marca dos lábios dela em um formato perfeito de beijo. Parecia ter sido desenhado.
Sirius se aproximou de mim e baixou a boca até meu ouvido.
— Isso sim é mijar pra marcar território — sussurrou.
— Essa é a minha irmã. Diz pro seu amigo que o baque é forte — respondi, e ele sorriu, afastando o rosto, balançando a cabeça.
— Sirius acha que seremos amigos até ano que vem? Esse charminho deles vai passar quando a poeira baixar... Quando a gente deixar de ser novidade e as pessoas perceberem que não somos da realeza porra nenhuma, essa palhaçada vai acabar.
Eu sabia que também pensava assim, o que era meio óbvio levando em consideração a popularidade deles naquela escola. Já tínhamos passado por isso antes, amizades vem e vão, alguns são para sempre. É claro que mantínhamos contato com algumas amigas já de Durmstrang, mas essa situação era bem diferente. Não queria ser preconceituosa, mas, por se tratar de meninos, era, sim, algo difícil de acreditar.
— Vocês duas são osso duro de roer. — Sirius bufou. — Aluado, me ajuda aqui.
— Ah, cara. Acho que falar não vai adiantar muito. É melhor a gente só provar que mantemos nossa palavra... Sei lá.
Remus era pacífico e tranquilo, às vezes mostrava alguma parte de si que me fazia entender o motivo dele fazer parte daquele grupo, mas, na maioria das vezes, ele era só um cara legal.

A festa estava realmente animada. Havia música, pessoas dançando, uma mesa de bebidas e quitutes, e muita fumaça.
— Vem, quero te mostrar uma coisa antes de você fugir de mim — Sirius falou perto de meu ouvido por causa da música, segurou minha mão e puxou, contornando os seres dançantes ali perto. Me levou até a mesa de comidas, pegou um pote grande tampado e me entregou.
— Não acredito! Que rápido. — Soltei uma risada enquanto abria a tampa, vendo uma quantidade exorbitante de marshmellows azuis em formato de lobinhos muito fofos.
Peguei dois e enfiei na boca ao mesmo tempo, o recheio de mirtilo fez meus olhos girarem de prazer. Sirius riu da minha cara, então peguei um e levei até a sua boca, ele engoliu seco antes de aceitar.
Mastigou olhando em meus olhos, tão profundamente que me fez tremer na base, seus olhos negros me desmantelando em pedaços.
— Ok. Não é tão ruim quanto eu pensei.
— Você pensou que fosse ruim?!
— Eu ainda acho que são ruins, só não tanto quanto eu pensei. — Ele sorriu, se encolhendo quando viu minha mão voando ao seu encontro.
— São ótimos, viu? Você está proibido de comer do meu pote. Sai.
— Não, não seja tão má! Mais um, vai. Pelo trabalho que deu pra ficar catando os lobinhos azuis.
Soltei uma risada alta.
— Você falando desse jeito, até acredito que não usou magia para separar!
— Eu tive o trabalho de dizer accio! — Sorriu novamente, se encolhendo de outro tapa.
— Pode ir enganar outra hoje, Black. A minha cota de mentiras já excedeu com você me falando besteiras esse tempo todo.
— Você não me dá uma abertura, hein? — Fez um biquinho falso.
— Sem abertura você já faz isso, imagine se eu facilitar as coisas!
Ele sorriu, roubando mais um marshmellow do meu pote.
— Quer beber alguma coisa?
— Eu não sou muito fã de bebida alcoólica. Mas se você conseguir uma coisa mais leve pra mim, eu agradeceria.
— Um refrigerante?
— Não, Black. Uma coisa bem levinha, que vai me deixar muito calma e dançante — falei, unindo meu indicador e o polegar em um movimento de pinça e levei aos lábios, como se estivesse segurando uma pontinha muito pequena e puxando ar.
— Caralho, Stark. — Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. Perdeu a fala por um segundo, desnorteado, olhando para os lados. — Porra, deixa comigo.
Saiu correndo feito um louco, e quando ele finalmente saiu do meu campo de visão, vi Pepper e Tobias acenando para mim. Fui até meus novos amigos ainda abraçada em meu balde de marshmellows.



Assim que colocamos os pés dentro da sala, Sirius puxou minha irmã para o lado onde havia comida e imediatamente me vi preocupada, esticando o pescoço para tentar acompanhá-los.
— Ei, relaxa. Sirius é um cara legal, ele não vai fazer nenhuma merda, eu prometo. — Remus segurou meu braço para se aproximar.
— Se alguma coisa acontecer com ela, eu mato vocês quatro.
— Nada vai acontecer, vai ter que descontar sua raiva em outra coisa — disse ele de maneira serena, acenando para um James realmente animado que se aproximava.
— Gêmea má! — Me abraçou com vontade, os olhos brilhantes por trás dos óculos de grau charmoso que ele usava, os cabelos tão bagunçados que parecia um ninho de pelúcios, mas combinava tão bem com sua personalidade caótica que não parecia estranho.
— Meu maroto menos preferido! — Ele fez uma careta quando se afastou.
— Isso machuca, sabia? Sorte sua que você é gata.
— É, você não é nada mal também.
Ele sorriu convencido.
— É você que vai me ajudar com a Lily?
— Não, é a minha irmã. Ela com certeza é mais jeitosa do que eu.
— Você está tentando se escapar de mim? — perguntou James, com os olhos semicerrados, pondo a mão sobre o queixo.
— Com toda a certeza. Só quero beber um whisky de fogo e relaxar um pouco, e você quer que eu banque o cupido com uma garota que eu nunca nem vi?
— Ela estava na sala de aula hoje. — James girou os olhos pra cima, enquanto Remus sorria do drama do amigo.
— E por que não me mostrou ela lá? — Pus a mão em minha cintura, unindo as sobrancelhas.
— Porque hoje era sobre você, princesa. — Piscou, tentando ser galanteador. Bufei.
— Estava tentando me usar pra fazer ciúmes por tabela?
— Lily não sente ciúmes do James, só sente asco e repulsa — Remus disse, rindo, e James empurrou o amigo, o fazendo se desequilibrar o suficiente para que ele visse a marca de beijo em sua bochecha.
— O que é isso?? Eu também quero! — perguntou, segurando Remus pelo queixo, me mostrando o desenho perfeito de minha boca gravado ali.
Soltei uma risada e o rosto de Remus ganhou um tom avermelhado adorável.
— Me traz uma bebida e você ganha um desses também.
James não contou tempo, saiu correndo pelo salão.
— Quer que eu tire? — indiquei a marca de batom.
Remus pareceu pensar por um segundo.
— Não, gosto que as pessoas pensem que eu tenho alguma chance.
Querido, você tem todas as chances do mundo, será que vou ter que escrever isso na testa?
Eu não entendia muito bem qual era o negócio de Remus, ele era claramente um cara bonito, era popular, mas não era babaca como os amigos, era monitor e divertido. O que o fazia pensar que era pior do que os outros? O que o fazia pensar que sua presença não era válida como a dos outros?
— Você tem tanta chance quanto qualquer um, Aluado. Vem, vamos tirar isso pra não parecer que estou marcando território. — Levei minha mão até o seu rosto. Eu podia tirar com magia, mas queria uma desculpa para tocá-lo. Assim, me aproximei dele e espalhei a marca com o dedão enquanto analisava cada detalhe do seu rosto, a coloração avermelhada das suas cicatrizes, os cílios longos, a barba feita que arranhava minha mão, os lábios vermelhos, o maldito cheiro que me despertava sentimentos impossíveis de decifrar. Havia algo ali, uma tensão, uma fagulha, algo que era difícil de ignorar.
— Tenho algo pra você. — Ele estava tão perto de mim que nem precisava falar mais alto.
Dei um passo para trás quando a marca estava suficientemente espalhada. Remus pôs a mão no bolso e retirou um pirulito em forma de cereja.
— Mentira! — Peguei o pirulito da sua mão e retirei a embalagem, fazendo com que o doce soltasse uma leve fumaça, como se o cabinho da cereja fosse um pavio, e o coloquei na boca, sentindo as pequenas explosões estalarem em minha língua. — Obrigada, Aluado! Merda, fazia tempo que eu não comia um desses.
Ele sorriu satisfeito e retirou um para si, enquanto James se aproximava equilibrando três copos muito cheios. Tomei meu copo inteiro em um único movimento e roubei o copo de James.
— Baixa aqui — falei e ele abaixou o rosto. Tasquei um beijo em sua bochecha, deixando uma marca similar à marca de Remus. — Você não vai falar com essa garota hoje. Não vai nem olhar na direção dela. E vai arranjar uma garota bonita pra beijar. Combinado?
Ele me olhou com as sobrancelhas franzidas, a confusão nítida em seu rosto bonito.
— Dá um tempo pra ela sentir falta, perceber que perdeu algo importante, que você amadureceu.
Remus soltou uma gargalhada ao meu lado.
— James não amadureceu, . — As risadas preenchiam cada espaço entre as palavras.
— Azar o dele, ela vai pensar que sim. Potter, nem uma espiadinha, nem uma piscadinha, nada. Não estou falando pra ignorar, mas mostra que ela não te afeta mais, que você finalmente aceitou que ela não quer nada com você, entendeu?
— Tá bem. Consigo fazer isso. — Ele parecia estar fazendo anotações mentais sobre aquilo.



Tobias estava lindo usando uma camisa preta de botões, um cinto com spikes, calça jeans dobrada e um nike branco de cano alto nos pés. Ele sorriu quando me aproximei e deu um beijinho em minha bochecha.
Pepper estava gatíssima também, usava um vestido estilo jardineira vermelho com uma blusa branca por baixo que combinava perfeitamente com suas botas também brancas.
— Pelos deuses, como eu fui parar com os amigos mais gatos dessa escola? — Segurei a sua mão e fiz ela dar uma voltinha, suas bochechas ficando levemente coradas.
Coloquei meu balde de marshmellows sobre a mesa e engatamos uma conversa sobre as pessoas que estavam na festa, Pepper e Tobias me colocando por dentro de todas as fofocas. Em certo ponto, minha irmã se aproximou e a apresentei a eles, e assim continuamos durante um bom tempo, minha irmã e meus novos amigos colocando os assuntos em dia, Pepper me mostrou a ex de Tobias e, em troca, ele me mostrou todos os carinhas que Pepper já tinha ficado.
Até o momento em que Sirius se aproximou com o meu pedido, um baseado perfeitamente bolado e intocado, como se ele tivesse ido atrás da erva e feito aquilo só porque eu pedi.
— Princesa — disse ele, levando o cigarro até minha boca e fazendo uma cabaninha enquanto conjurava uma chama na ponta de sua varinha. Traguei forte.
— Black — respondi com a voz afetada, a fumaça ainda presa em minha garganta. Seus olhos brilharam em minha direção, depois ele percebeu que estava sendo mal-educado e se virou para meus amigos.
Peppermint, Toby.
Em um primeiro momento, eu não sabia dizer se eram apelidos carinhosos ou irritantes, mas ambos tiveram reações positivas, mesmo que eu tivesse minha desconfiança de que Tobias não gostasse tanto assim de Sirius. A convivência parecia ser sustentável.
— Cigarros são proibidos, mas uma ervinha é bem servida? — perguntou ele em meu ouvido, um sorriso ladino em seu rosto.
Soprei a fumaça em seu rosto antes de responder, e aquilo o fez alargar ainda mais o sorriso.
— Pra sua informação, isso aqui é usado em poções, é plantado na estufa da escola, até os trouxas usam de forma medicinal.
— Puts, você é uma lufana mesmo, não tem como negar — brincou ele. — Pra sua informação, em Hogwarts não tem isso plantado nas estufas.
— Não?!
— Não, tive que obter de maneira ilegal, assim como a maioria das coisas que eu forneço com tanta facilidade. — Passou as mãos no cabelo, o jogando para trás, indicando o balde no centro da mesa. Ele pareceu se lembrar de algo e entregou uma carteira de cigarros à minha irmã.
Passei o baseado para Tobias. Ele tragou e passou para Pepper, e assim o grupo inteiro foi dando um trago.
— Isso seria romântico se você não fizesse pra todas.
— Não faço pra todas, princesa.
— Só para as bobas que caem no seu papinho? — Dei um sorriso charmoso e notei seus olhos presos por tempo demais em minha boca. Ele foi distraído por , que lhe passava o baseado. Aceitou.
— Você tem que parar de achar que eu sou esse tipo de cara. — O baseado de movia conforme ele falava, preso em seus lábios.
— O tipo que dá em cima de todas, ou o tipo que acha que é santo, mas não é?
Assim que ele tragou, peguei o baseado da sua boca e levei até a minha, enquanto ele acompanhava tudo com os olhos e soltava mais um sorriso frouxo.
— Você me machuca, princesa — disse, enquanto a fumaça fugia entre as palavras, fechando os olhos e pondo as mãos sobre o peito.
— É isso que a Casa Stark faz, Black. — Dei dois tapinhas em seu rosto antes de tragar mais uma vez. — É bom você já aprender, antes que seja tarde demais.
— Porra, assim você não está me ajudando.
— Como é? — Soltei a fumaça antes de passar para Tobias, que estava em uma conversa animada com Pepper, e Remus, que havia se aproximado da rodinha também. Pude notar de longe James se agarrando com uma garota de cabelos negros no fundo da sala, definitivamente não era a Lily.
— Tudo que você faz me deixa curioso, princesa. Vai ser difícil não ficar interessado.
Aquilo mexeu comigo e ele percebeu, mesmo assim, fiz questão de não baixar a guarda.
— Acho que você já se enfia em problemas demais, Almofadinhas.
— Acho que eu sei a quantidade de problemas que eu consigo enfrentar, .
Achava que não sabia, mas não queria responder isso a ele. Por esse motivo, eu apenas dei de ombros.
— Boa sorte, então — falei ao mesmo tempo em que uma música conhecida começou a tocar.
Apontei para na mesma hora em que ela apontou para mim.
SON OF A GUN — falamos ao mesmo tempo e caímos na risada, puxando minha mão para a pista de dança, fomos no ritmo da música, passo a passo, devagar.

You walked into the party
(Você entrou na festa)
Like you were walking onto a yacht
(Como quem entra em um iate)
Your hat strategically dipped below one eye
(Seu chapéu estrategicamente inclinado cobrindo um dos olhos)
Your scarf it was apricot
(Seu cachecol era da cor de damasco)

Pepper se juntou a nós, dando risada, e apenas os três garotos ficaram na nossa mesa, cada um observando uma garota. Não era loucura minha, Tobias olhava Pepper com um entusiasmo acima da média, batendo palmas no ritmo da música.
Remus parecia avoado, perdido em pensamentos, enquanto minha irmã dançava segurando minha mão, eu a fazendo girar, e ela fazendo o mesmo comigo.

You had one eye in the mirror
(Você tinha um olho no espelho)
As you watched yourself gavotte
(Enquanto assistia a si mesmo dançando)
And all the girls dreamed
(E todas as garotas sonhavam)
That they'd be your partner
(Que seriam sua parceira)
They'd be your partner and
(Seriam sua parceira e)

Não tive como não olhar Sirius na próxima parte da música, seus olhos negros me queimando com tanta intensidade que eu ficava sem ar, mas eu apenas ria, porque estava leve e calma depois de fumar.

You're so vain
(Você é tão egocêntrico)
You probably think this song is about you
(Provavelmente acha que essa música é sobre você)
You're so vain
(Você é tão egocêntrico)
I bet you think this song is about you
(Aposto que você acha que essa música é sobre você)
Don't you? Don't you?
(Não acha? Não acha?)



A festa terminou logo depois das três da manhã, as pessoas tinham que ir saindo em pequenos grupos para despistar os professores, que faziam guarda junto ao zelador chato e sua gata. Por fim, minha irmã saiu com os seus colegas da Lufa-lufa, que me prometeram que cuidariam dela, Sirius Black indo junto e me dando uma piscadinha ridícula quando saiu.
Fiquei para trás com James, Peter e Remus. Não vi Peter a festa toda, mas não sabia dizer se era pela sua altura, ou se ele estava trabalhando para manter a festa organizada, enquanto os três idiotas curtiam. De qualquer maneira, fomos os últimos a sair.
A entrada da sala comunal da Sonserina era muito perto dali. Quando chegamos, James puxou Peter disfarçadamente para longe, me fazendo rir, enquanto Remus parecia querer cavar um buraco no chão para se enfiar dentro.
— Me desculpa pelos meus amigos. Eu juro que eles são legais, só precisam de um pouquinho de noção às vezes — disse ele, dando um sorriso enquanto coçava a nuca sem realmente saber o que dizer.
— Você não precisa se desculpar cada vez que seus amigos fazem uma besteira, Aluado.
— Eu sei, mas às vezes eu me sinto na obrigação. — Ele sorriu, lambendo os lábios no processo.
Eu queria beijar Remus Lupin. Isso era um fato.
Eu não queria me envolver com ninguém, mas era difícil negar a mim mesma que não existia nada entre nós, não quando ele me visitava em sonhos e meu corpo parecia querer derreter cada vez que ele sorria para mim. Eu não estava sendo ingênua, só queria beijá-lo. Sentir seus lábios nos meus.
E sabia que ele também queria, havia muita química rolando ali para ser desperdiçada desse jeito. Por esse motivo, dei um passo em sua direção, enquanto seus olhos mediam meus passos. Ele não era idiota, entenderia os sinais.
Não me decepcionei quando vi suas mãos seguindo na direção de minha cintura, causando um frio tão intenso em minha barriga que me fez sorrir. Seu olhar desceu lentamente pelo meu rosto, encontrando minha boca, e ele deu mais um passo em minha direção, fazendo o espaço entre nós ficar mínimo. Levei uma de minhas mãos em sua nuca, mergulhando meus dedos em seus cabelos, o fazendo piscar devagar e aproximar os lábios dos meus. Porém, antes que o beijo acontecesse, senti seu tronco se afastando. Suas mãos que antes puxavam minha cintura de maneira firme, agora estavam pousadas nas laterais, me empurrando levemente para trás.
— Que merda. Desculpa. — Sua respiração era pesada, quente. — Me desculpa, . Não posso fazer isso.
Aquilo desmoronou tudo que havia sido construído dentro de mim.
— Isso o quê? Me beijar? — Minha mão escorregou de sua nuca e dei um passo para trás.
— Me envolver, isso não é certo com você.
— Do que é que você está falando, Remus? — Minha voz saiu degolada, falhando como se uma rachadura tivesse aparecido por minha casca dura e resistente. Eu sabia que não devia ter baixado a guarda, mesmo pensando que Remus fosse um cara mais doce e menos idiota do que os seus amigos.
— Acho melhor sermos só amigos. Eu não quero... não quero te machucar.
— Acho que é meio tarde pra isso — respondi, empurrando a porta que havia se solidificado quando me aproximei. — Boa noite.





Eu odiava voar de vassoura. Era algo que meu corpo não estava programado para ser feito, eu era desengonçada e beirava o ridículo me assistir tentando fazer o mínimo nas aulas de voo. Pra fechar com chave de ouro, não havia ninguém da minha idade naquela aula, apenas os primeiranistas faziam aula de voo. Bom, aparentemente primeiranistas e eu, a burra que não sabia se equilibrar sobre a porcaria de um cabo de vassoura.
era graciosa sobre uma vassoura, fazia manobras, piruetas e tirava sarro da minha cara, me chamava de madame ou princesinha do papai cada vez que aquele assunto vinha à tona.
Na nossa antiga escola, eu consegui me escapar de fazer a prova final, agraciada pelo meu belo sobrenome e provavelmente um belo saco de belos galeões reluzentes de meu pai. Aqui em Hogwarts, eu não queria ser conhecida como a filhinha do papai que podia passar em qualquer matéria só porque tinha dinheiro.
Não.
Eu ia fazer do jeito certo. Ia fazer aulas de voo e mostrar que tinha o mínimo necessário para voar em uma vassoura.
— Você não é meio grande para estar fazendo aulas de voo?
Pelos sete infernos.
A última pessoa que eu queria ver ali era James Potter e seu sorriso idiota. Não era possível, parecia que ele estava em todos os lugares. Por mais que eu e tentássemos fugir dos marotos, eles pareciam saber exatamente onde nós estávamos.
Para a sorte de , depois do clima estranho que houve entre ela e Remus no dia da festa, os garotos deram o devido espaço para ela. Em contrapartida, eu era o foco de todo e qualquer maroto.
— Cala a boca, James, por favor — falei, sentindo minha perna vacilar e eu escorregar para o outro lado da vassoura que estava praticando. Por sorte, para não ser uma humilhação tão grande, os alunos do primeiro ano já tinham sido dispensados, e a professora me deixou sozinha praticando.
— É uma curiosidade genuína — defendeu-se ele, erguendo as mãos em rendição.
— Eu sou péssima, reprovei em Durmstrang.
— É sério? — Ele se esforçava para não rir, mas o canto dos lábios tremia.
— Sim, Potter. Agora, se me dá licença.
— Não, não, olha, posso te dar umas aulas particulares, se você quiser, eu sou muito bom nisso.
— Em voar de vassoura? — Ergui as sobrancelhas. Seu sorriso malicioso se abriu.
— Em outras coisas também.
Bufei em resposta, dando as costas para ele, indo guardar minha vassoura, já que eu tinha certeza de que ele não me deixaria praticar em paz.
— Ah, princesa, eu estava brincando! Vem cá. — Ele puxou meu braço de volta. — Me dá essa vassoura.
Ele arrancou a vassoura da minha mão de maneira cômica. Passou uma perna por cima e segurou firme o cabo.
— Pés firmes no chão. Mãos firmes no cabo. Você não pode pensar que isso aqui é um utensílio de varrer o chão, entende? — disse ele de maneira séria. — A vassoura é uma extensão do seu corpo, é o que te liberta das amarras do chão.
Com um simples impulso do chão, ele ficou sobrevoando ao meu lado, o corpo flutuando a um palmo do chão.
— Olha minhas mãos. Tá vendo que eu não estou quebrando os dedos de tanto sufocar a vassoura? É só pra me equilibrar e dizer pra onde eu quero ir. — Ele inclinou o corpo um pouquinho para a esquerda, e a vassoura obedeceu a sua trajetória, dando um giro completo, sem subir ou descer.
Eu observava qualquer detalhe, qualquer coisa que pudesse me ajudar a não reprovar naquela matéria estúpida.
— Você já voou com outra pessoa? — perguntou ele, esticando a mão para mim. — Vou baixinho, prometo. Essa vassoura nem é feita pra suportar dois, mas aguenta o tranco em uma emergência.
— Não é uma emergência — afirmei decidida, observando sua mão esticada enquanto encolhia as minhas junto ao meu corpo.
— Claro que é. Imagina as pessoas ficarem sabendo que a princesa do sexto ano não sabe voar!
Eu já tinha desistido de pedir que não me chamassem de princesa.
— Você é péssimo, Potter.
— Eu estou te ajudando! Caramba, como é difícil ser amigo desse pessoal da realeza — disse ele, fazendo sinal com a mão para que eu o acompanhasse. — Vem logo.
Finalmente cedi, segurando sua mão.
— Passa a perna por cima, isso, com calma. Agora segura na minha cintura, e nada de mão boba, senão eu vou me apaixonar.
Dei um tapa em suas costas, e ele se inclinou levemente para frente, fazendo a vassoura subir devagar.
— Tá vendo como ela está firme? Como o meu corpo não escorrega para nenhum dos lados?
— Sim — respondi com minha voz falhando um pouco. Meu coração queria sair pela boca.
— É só a confiança na vassoura. Você está escorregando porque não entende que a vassoura faz parte de você. Segura firme.
Ele sobrevoou o jardim da frente, que estava vazio, depois seguiu para o campo de quadribol, sempre em uma altura baixa e velocidade aceitável.
— Vou ter que subir um pouquinho — me avisou, inclinando o corpo para frente novamente, fazendo a vassoura pegar altura para passar por cima das arquibancadas.
Não sei como aquela vassoura velha aguentou o tranco, mas, em seguida, James estava descendo com graciosidade no gramado verdinho do campo de quadribol. Parou com a delicadeza de uma pluma e encostou os pés no chão sem nenhum tranco. Ele não estava mentindo, ele realmente era muito bom naquilo.
Notei que, no outro lado do campo, várias pessoas com vestes vermelhas estavam unidas com vassouras em mãos.
— Tenho treino de quadribol agora, o primeiro do ano. Estou atrasado... Por que será? — Desceu da vassoura e deu um sorriso enorme, me entregando a vassoura velha.
— Não faço ideia — brinquei, devolvendo seu sorriso. — Obrigada, Pontas.
— Na verdade, eu preciso de um favorzinho seu — disse ele, coçando a nuca e dando um sorriso amarelo em resposta.
— Claro.
— Você não quer tentar conversar um pouquinho com a Lily? Medir a febre, ver se ela está interessada em alguém. Estou ficando doido... eu gostava de importunar ela, mas sua irmã disse pra eu ignorar ela, e eu...
— Tudo bem, vou ver o que eu consigo fazer por você.
— É sério? Sem nenhuma resposta engraçadinha na ponta da língua? — Ele ergueu as sobrancelhas surpreso.
— Eu estou curiosa pra conhecer essa garota — confessei, e ele sorriu.
— Acho que vocês vão se dar bem.

*


— O que diabos você está fazendo na biblioteca, ?
Ela uniu as sobrancelhas, me olhando de cima a baixo. Eu tinha dois horários vagos antes da última aula de feitiços.
— Estudando?
— Você? Estudando? Tá querendo enganar alguém? Paquerar? — Segui ela de volta à mesa e vi um garoto da nossa idade com a roupa da sonserina de cabeça baixa sobre seu livro.
— Que mané paquerar, . Deixa de ser besta. — Com a voz de se aproximando, ele ergueu um pouco a cabeça para ver quem se aproximava junto. Seus olhos castanhos rondaram meu rosto por um instante e ele logo voltou a baixar a cabeça.
— Esse é o meu amigo Severus Snape, — ela apresentou, jogando os livros sobre a mesa.
— Não somos amigos. — A voz aveludada dele ressonou calmamente.
Esse nome me lembrava algo, eu já tinha ouvido antes.
— Ele ainda está em estado de negação, mas eu sento com ele em todas as aulas, então... — brincou ela, me fazendo rir, porque era bem óbvio que Severus não dava a mínima. — Estamos fazendo o trabalho de Trato das Criaturas Mágicas juntos. Se isso não significa criar um laço importante de amizade, não sei o que significa!
— Oi, Severus, eu sou a , mas pode me chamar de . Me desculpa pela minha irmã, ela tem caraminholas que não respondem bem.
— Que ótimo, mais uma gêmea Stark. São quantas de vocês mesmo? — resmungou ele.
— Só duas, prometo. E, pro seu azar, eu sou a mais chata — comentou sorrindo, o fazendo girar os olhos nas órbitas.
Soltei uma risadinha, vendo erguer os ombros como se dissesse “ainda tem muito trabalho pela frente, mas vai valer a pena”.
Esse nome... Snape!
— Você é o amigo da Lily!
O rosto dele finalmente ganhou cor, o sangue subindo pelo pescoço e chegando até as bochechas.
— Não — respondeu ele com calma. As narinas infladas denunciavam que aquela calma não era o que ele sentia por dentro. — Não somos mais amigos.
— Por que não? — sentou-se ao seu lado. Ele suspirou, provavelmente pensando se valia a pena falar algo para qualquer uma de nós.
— Eu... Eu não quero falar sobre isso. — Deu uma olhada significativa para mim, como se eu fosse a intrusa, e ele já confiasse o suficiente em minha irmã.
— Vou deixar vocês mais à vontade. — Me afastei, finalmente indo atrás do que eu queria: encontrar Lily Evans.
Era uma coincidência que minha irmã estivesse conversando exatamente com a pessoa que tem ciúmes de James por tentar roubar a Lily dele?
Não é coincidência, é o imã dos Stark’s trazendo tudo que há de mais errado para perto de nós. Toda e qualquer confusão num raio de milhas sempre dava um jeito de chegar até nós.
Um castigo merecido depois de ser responsável por tantas mortes e magia negra do passado.
Avistei um grupinho pequeno de meninas da Grifinória, e uma delas tinha o cabelo ruivo como o meu. Elas estavam entre duas estantes, rindo abertamente. Fui até a estante próxima daquela em que elas estavam e comecei a olhar os livros distraidamente, a seção era de poções.
— Está procurando o livro pra aula do Slughorn? — uma das meninas perguntou quando me viu tirando um livro da estante, conferindo título semi-apagado.
— É... Algo sobre foco, eu acho...
— É isso mesmo, acho que você pode pegar esse. — Dessa vez foi Lily que se ofereceu, indo até a estante que eu estava e pegando um livro com a capa verde muito surrada.
— Pode confiar, Lily é a queridinha de Slughorn. — A terceira garota sorriu, me confirmando de uma vez que aquela era a Lily.
Elas estavam sendo... gentis?
— Ah, que legal. Eu nunca fui muito boa com poções. Feitiços são mais a minha área — falei, tentando ser simpática também.
— Ele com certeza vai te querer para o clubinho dele, é só esperar pra ver.
— Mesmo que eu seja péssima? — perguntei, dando uma risadinha, e elas me acompanharam.
— Acho que sim, você e a sua irmã são basicamente celebridades aqui — Lily disse, não de maneira debochada, ela estava falando sério.
— Pelos deuses, isso tem que parar! — falei de maneira leve também, e as três riram. — Mas obrigada pela dica, meninas, foi muito gentil da parte de vocês. — Indiquei o livro em minhas mãos e segui para uma mesa. Eu nem queria fazer a tarefa de poções agora, mas podia unir o útil ao agradável. Porém, ao me afastar, notei que elas cochicharam entre si.
— Espera, é... você quer sentar com a gente? Estamos fazendo a tarefa de poções também... — Lily disse, e eu parei para analisar ela por um momento antes de responder.
Ela era linda, uma florzinha delicada perto de mim ou . Era baixinha, os cabelos volumosos e lisos batendo quase na cintura, o rosto tinha mais sardas do que o meu, seu sorriso era incrível e os olhos, verdes como esmeraldas, eram tão lindos quanto todo o conjunto.
— Claro! — Devolvi seu sorriso.
— Você é ou ? — perguntou a amiga com cabelos castanhos. — Desculpe perguntar, ainda não tive tempo de decorar.
— Eu sou , mas pode me chamar de .
— Sou Mirian, essas são Margo e Lily. — Mirian era a morena, e Margo tinha o cabelo cor de palha.
Nos sentamos em uma mesa, e elas se debruçaram para conversarmos em um tom mais baixo.
— Então, , qual é a de vocês com os Marotos? Todo mundo está comentando! Estamos curiosas... — Margo perguntou de uma vez, me explicando o motivo daquela simpatia toda para cima de mim. Elas estavam curiosas, será que Lily também estava curiosa? Será que essa curiosidade era só por causa de James, ou todas elas tinham uma quedinha por algum deles?
— Ah, não é nada demais. Nos conhecemos em um baile de puros-sangues que nossos pais participam e... foi uma noite estranha.
— Baile puros-sangues?! Que... — Lily engoliu seco.
— Bizarro? Nojento? Totalmente repugnante? Concordo — falei rapidamente, e ela ficou aliviada.
— É... Desculpa.
— Enfim, nos conhecemos lá e, sei lá, a gente se deu bem logo de cara.
— James estava lá? — Lily perguntou, e notei as amigas se entreolhando com um sorrisinho.
— Não, só Sirius. Ele avisou minha irmã e eu que ia fugir com os amigos e nós fomos juntos. Assim nós conhecemos James e Remus — expliquei de maneira neutra. Não era um segredo e muito menos algo errado.
— E já rolou alguma coisa entre vocês? — Mirian perguntou animada. Eu sentia uma pontinha de maldade em querer saber fofocas quentinhas, mas já tinha percebido que a curiosidade maior delas era sobre James.
— Não, mas... teria algum problema se tivesse rolado? Não quero ser fura olho de ninguém! — falei rapidamente, querendo mostrar que não queria problemas.
— Não, não. Bom, você já deve saber que eles são meio mulherengos, né? Não custa avisar.
— Ah, sim. Mas não é como se fôssemos casar com algum deles, né? Às vezes dar uns beijinhos não mata ninguém — comentei, dando de ombros, e elas sorriram.
— Tá vendo, Lily? Dar uns beijinhos não mata ninguém... — Margo comentou, dando um empurrãozinho no ombro da ruiva.
— Lily já ficou com algum deles? — perguntei, fazendo a cara mais inocente que consegui. Eu era boa nisso, não.
— Bem que ele queria! — Miriam exclamou animada.
— James — Lily explicou baixinho. — Ele vivia em cima de mim, não me deixava nem respirar!
— Ohh, entendi! Ele é bem gatinho, se me permite dizer. E você não tem interesse nele? Tipo... nenhum? — Tentei soar curiosa, talvez curiosa o suficiente para que ela pensasse que eu dizia “se você não quer, eu quero”.
— Ah, não, ele é... muito imaturo.
— Ele é divertido e é bem atencioso também. Hoje ele me ajudou com uma tarefa antes do treino de quadribol. Achei bem fofo da parte dele.
Eu queria que Lily achasse que eu estava interessada nele, talvez aquilo despertasse um sentimento de “puxa vida, olha o que eu estou perdendo!”. O tiro podia sair pela culatra e ela entender que talvez finalmente ele tinha partido para outra, mas acho que valia o chute, até para que eu pudesse visualizar melhor esse relacionamento deles.
— Então você... gosta dele? — Era nítido que as palavras estavam sendo medidas ali.
E agora? Eu falava a verdade, ou mentia? Eu já tinha mentido para ela uma vez, não queria que a nossa conversa fosse completamente a base de mentiras.
— Ah, não, não, não. Somos amigos, acho que o meu lance com James é meio... platônico.
Notei que as três meninas estavam meio apreensivas com o que eu responderia naquele momento, e também percebi que o alívio foi geral, quase como se a opinião ali fosse unânime: Lily não quer ficar com James, mas também não queremos que ele fique com qualquer outra garota, porque gostamos da atenção que recebemos por isso.
Talvez eu estivesse lendo de maneira errada, mas realmente me parecia isso.

*


Tobias e Pepper me esperavam na sala de Feitiços. Estavam sentados juntos, então tive que sentar em uma mesa sozinha. Eles conversavam sobre a primeira ida à Hogsmeade que aconteceria no fim de semana, numerando cada loja que eles queriam ir.
— A gente precisa ir à Zonko’s! — Pepper exclamou animada para mim. Tobias fez uma careta.
— Tem tantos lugares mais interessantes... — resmungou ele, me fazendo sorrir.
— Tipo quais? — perguntei genuinamente curiosa.
— Tipo a loja de criaturas mágicas, ou a loja de poções do Senhor...
— Não! Aquela loja fedorenta de novo, não! Pelas barbas de Merlin, Tob!
Tobias soltou uma gargalhada gostosa.
— Não tem nada de fedorento lá. Você é muito dramática.
— Eu quase vomitei da última vez que fomos lá. Lembra da poção que você comprou? Só de lembrar do jeito já me sobe um asco.
— Era uma ótima poção para se livrar das lesmas que você trouxe para a estufa.
Eles continuaram debatendo, enquanto ouvi uma cadeira ser arrastada ao meu lado.
— Boa tarde, princesa.
— Boa tarde, Almofadinhas. Quando é mesmo que você vai me contar um pouco mais sobre esses apelidinhos bobos?
Ele não estava esperando aquilo, e, na verdade, nem eu estava. O assunto simplesmente pulou em minha mente quando vi seu sorriso presunçoso.
Seus olhos vagaram por meu rosto como sempre faziam, como se ele quisesse gravar cada pequeno detalhe ali. Ele lambeu os lábios antes de continuar.
— Acho que podemos esperar um pouco para essa revelação. Não sei se você está preparada para algo assim.
— Você quer dizer que precisa saber se confia em mim ou não? — Dei um sorriso torto, e ele ergueu as sobrancelhas.
— Bom, eu não queria colocar desse jeito, mas se você diz...
— Está tudo bem, Black, não vou te forçar a nada que você não estiver confortável em dizer, não sou esse tipo de pessoa.
— Eu já teria contado se fosse um segredo meu. — Suas mãos tamborilavam a mesa no ritmo de uma música que eu não conhecia.
— É um segredo dos Marotos então? — Eu estava disposta aceitar qualquer coisa que ele me admitisse apenas pela diversão.
— Sim, talvez mais de um do que de todos.
Estreitei os olhos, o analisando, e um sorriso surgiu em seus lábios.
— Um segredo de um que todos guardam?
— Não, um segredo de todos, mas com um sendo mais... importante.
— Uuuh, gostei disso, me deixou aberta a várias suposições — falei esfregando as mãos maliciosamente. — Espero fielmente, Black, que um dia eu seja digna de conhecer os segredos dos Marotos.
— Você já é, eu posso sentir. Tem alguma coisa com você e a sua irmã que me diz isso, eu só preciso confirmar que meus amigos também sentem o mesmo.
— Nossa, uma grande honra para nós, humildes garotas novatas.
Ele virou os olhos para cima, mas deu um sorriso antes do professor chegar.



Fui até a escadaria da Ala Sul, a escadaria velha que levava até a casa de Hagrid, passando por cima do rio que desembocava no lago negro.
Aquela escadaria era o meu lugar preferido até o momento em Hogwarts, sempre haviam corujas empoleiradas no parapeito e a vista dos dois lados era incrível.
Lá de cima, eu podia ver Hagrid entrando na Floresta Proibida, podia ver os tentáculos da lula gigante se espreguiçando sobre o último sol do dia e, infelizmente, podia ver uma dupla de jovens que eu não queria encontrar agora vindo exatamente aonde eu estava no momento.
Sirius e Remus subiram a escadaria conversando sobre algo que parecia deixar Remus desconfortável, ele argumentava com Black usando as mãos, e realmente não parecia que eles sabiam que eu estava ali. Quase tive vontade de correr, indo me esconder perto da cabana de Hagrid, mas já estavam perto o suficiente para perceber minha fuga. Talvez se eu fosse andando despretensiosamente, eles não me notassem. Eu estava fazendo um ótimo trabalho em fugir dos Marotos desde a festa, era a última a entrar na sala de aula e a primeira a sair, sentar ao lado de Severus me ajudava muito, e, mesmo já tendo encontrado James, Peter e Sirius fora do horário das aulas, era perceptível que Remus estava me evitando também.
Dei as costas a eles com calma e apressei o passo sem querer chamar muito a atenção. Eu não sabia o quanto era reconhecível de costas, então era uma chance de 50/50.
— Será que dá pra parar com esse vitimismo, Aluado?
— Você não falou isso.
Era fácil reconhecê-los pela voz.
— Tudo bem então, não é vitimismo, é autossabotagem — Sirius rebateu, e eu estava em dúvidas entre andar mais rápido, ou continuar do jeito que estava e ouvir mais da conversa.
— Cala a boca, cara, só... cala a boca, por favor. O que nós estamos fazendo aqui, afinal? — Suspirou Remus. Pude notar que a voz deles ficou mais baixa e parecia que eles estavam parando de andar e eu estava me afastando sozinha.
— Eu... espera. Princesa ? — a voz de Sirius me chamou, e parei de andar. Eu sabia que tentar fugir sendo reconhecida seria ridículo demais. — Estava fugindo de nós, princesa?
— Claro que não, eu estava... indo visitar Hagrid.
— Sei... bom, da próxima vez que for fugir, deixe de lado os utensílios de lobo. — Ele sorriu, apontando para a parte de trás toda própria cabeça, indicando a presilha que prendia a lateral de meu cabelo.
Remus olhava para a paisagem, as mãos para trás, o rosto corado.
— Claro, obrigada pela dica. Bom, ahn, vou continuar minha... — Indiquei a direção da cabana de Hagrid. Eu não queria insistir tanto assim no assunto “Hagrid”, pois não queria que surgissem perguntas sobre, mas eu precisava me afastar daqueles dois. Meu rosto ardia ao ver Remus assim tão perto, principalmente quando nada havia mudado em relação aos sonhos constantes.
Eu só queria evitá-lo até o ano que vem e nunca mais ter que sentir seu cheiro delicioso, ou a porcaria do fantasma de suas mãos em minha cintura.
— Claro, claro. Na verdade, Remus estava agora mesmo me falando que tinha que falar com Hagrid sobre... o Salgueiro Lutador.
Sobre o Salgueiro Lutador? Era a mentira mais descarada que eu já tinha ouvido, pior ainda do que a minha, já que eu podia, sim, ter assuntos para falar com Hagrid, enquanto aqueles idiotas ali não tinham nada.
— Olha só, que coincidência, vocês dois estão indo para a mesma direção, falar com a mesma pessoa... Quais eram as chances? — Black disse, um sorriso malicioso ainda no rosto quando começou a dar passos para trás.
Era óbvio que aquilo não foi combinado, levando em consideração a cara de Remus para Sirius, mas ele não se comoveu, deu as costas para nós e ainda fez questão de dar uma certa corridinha para não ter perigo de o amigo ir atrás dele.
— Você não precisa me acompanhar — falei de maneira meio ríspida, enquanto seu rosto saía da direção de Sirius e se voltava para mim.
Os olhos cansados terminavam de me confirmar que ele não fazia ideia de que Black faria aquilo conosco, o cenho franzido se dissipou quando seus olhos encontraram os meus.
— Me desculpe, .
— Está tudo bem, já me acostumei com os seus amigos.
— Eu quis dizer... por aquele dia. — Seus olhos mantiveram a conexão com os meus, intensos demais para o meu próprio bem.
— Não precisa se desculpar, Lupin. Eu sei que sou meio intensa às vezes. — Dei de ombros, desviando o olhar.
— Não, por favor, não faz isso. Não teve nada a ver com você — disse ele rapidamente.
— Ah, não? Porque pra mim pareceu que...
— O problema sou eu, . Eu sou a porra de um problema ambulante, não de uma maneira divertida e audaciosa como você e a sua irmã se consideram um problema. Eu sou um de verdade e eu não posso correr o risco de te meter nisso. — Era exatamente o tipo de coisa que eu devia me afastar. Estava tão preocupada com e Sirius que não olhei onde eu mesma estava me enfiando. Me deixei levar por seus olhos bondosos.
— Acho que posso escolher sozinha quais problemas são relevantes para mim. — Mesmo assim, meu corpo me dizia o contrário, o imã dentro de mim querendo me puxar para perto dele de qualquer jeito.
Ele passou os dentes pelos lábios de maneira irritada.
— Isso não é discutível — respondeu entredentes. Era a primeira vez que eu o via daquele jeito, e confesso que me deixava meio abalada.
— Com licença? Eu não tenho voto de escolha? — perguntei, e ele baixou os olhos, suspirando. Era nítido que eu estava o encurralando, e aquilo não fazia sentido, não tinha por que eu estar me humilhando daquele jeito por... o quê? Um beijo na boca?
— Quer saber? Você está certo, Remus. — Ergui as mãos em redenção. — Você não quer se envolver comigo, não está interessado e está sendo sincero. Tudo bem... Agora, se você me dá licença, eu vou... — Não terminei a frase, só dei as costas para ele e continuei minha caminhada, só que, dessa vez, fui na direção do castelo, por onde Sirius tinha ido há alguns minutos.
Não olhei para trás, não esperei que ele viesse atrás de mim ou falasse algo. Eu só precisava me afastar, respirar ar puro (algo que eu tinha ido lá na escadaria para fazer) e fugir dessa realidade onde o único cara que me interessei em meses... Ah, foda-se, até parece que vou morrer por causa de um idiota desses.
Só preciso beijar uma boca e isso já era.

*


— Eu tô bem, só preciso beijar alguém!
— É... sei. Como você acabou tão caidinha por alguém em tão pouco tempo? — me perguntou, unindo as sobrancelhas. Estávamos no jardim aberto, eu estava sentada em um banco, e ela deitada com a cabeça sobre minhas pernas. O céu era estrelado, e estávamos praticamente sozinhas lá, já que a maioria dos alunos estava no salão principal jantando.
Não tinha motivos para mentir para ela.
— Não sei, ele tem alguma coisa que me puxa feito um imã.
— Ele nem combina contigo direito, é muito quietinho, e te confesso que achei que você ia fazê-lo sofrer e não o contrário. — Eu sabia que ela estava falando aquilo só para me agradar, mas eu entendia o que ela queria dizer, meu tipo era mais fortão, meio babaca.
— Os quietinhos são os piores, mamãe sempre falou isso.
— Verdade.
— Você vai ficar bem? — Ela levantou o tronco, se sentando virada para mim, com uma perna em cada lado do banco.
— Por favor, . Dá um tempo.
— É que eu nunca te vi assim, principalmente com um cara que mal conhece.
— E você nunca mais vai ver, tô blindada. — Remus Lupin tinha me abalado de um modo esquisito. estava certa, eu nunca tinha ficado daquele jeito com alguém que tinha acabado de conhecer, era esquisito e meio surreal. Por sorte, minha irmã estava do meu lado sem julgamentos.
— Tudo bem, então vamos encontrar uma boca para você beijar. — Ela se levantou e me puxou pelas mãos. — Aquele carinha da biblioteca? Não serve?
— Severus? Se eu chegar meu rosto perto do dele, é capaz de ele usar uma das maldições imperdoáveis em mim.
— E isso não te faz querer ainda mais? — Ela me observou boquiaberta. — Você está realmente mudada.
— Cala a boca. — Dei uma risada enquanto entrávamos no castelo. — Eu gosto dele, mas ele definitivamente não gosta de mim. Ele me atura, porque sabe que serei mais chata se ele não aturar.
— Minhas princesas favoritas! — a voz de James ressonou animada.
Argh. Eu não estava com paciência para James e seu grupinho agora.
— Como é que vocês sempre sabem onde encontrar a gente?! — perguntei irritada, vendo os sorrisos de James, Peter e Sirius se alargarem e Remus pôr as mãos no bolso da calça, olhando para o chão. — Parece que estão em todo lugar.
— É um dom — James explicou, erguendo os ombros.
— Bom, então peguem esse dom e enfiem no... — pôs a mão sobre a minha boca, dando um sorriso amarelo.
— Alguém está irritada — Sirius comentou, ainda com seu sorrisinho malicioso idiota.
— Estou muito irritada, Black. Porque não consigo ter um minuto de paz nessa escola — respondi quando minha irmã tirou a mão. Remus parecia pronto para fugir.
— Tem certeza de que é por causa disso, gatinha?
— Sirius Black, eu fui expulsa de Durmstrang porque não tenho autocontrole. Por favor, não seja o idiota que vai testar meus limites aqui também.
! — me repreendeu.
— Calma, princesa, viemos em sinal de paz. — James tentou me apaziguar. — Viemos convidar vocês para irem junto com a gente para Hogsmeade no fim de semana.
— Podemos mostrar as lojas mais legais lá, tomar umas cervejas amanteigadas e podemos mostrar pra vocês que somos bons garotos. — Os olhos escuros de Sirius vagaram de mim para minha irmã, um brilho diferente corria por seu rosto quando ela correspondeu o seu olhar a altura.
— Obrigada pelo convite, meninos, é muito gentil da parte de vocês, mas eu e estávamos agora mesmo conversando sobre como seria melhor se nos afastássemos um pouco, sabe?
tentou ser simpática, mas era nítido que o clima ficou ligeiramente denso.
— O quê? Por quê? — Peter perguntou, finalmente falando algo.
— Porque temos que seguir nosso próprio caminho por aqui, fofinho. E por mais bonitos, charmosos e misteriosos que vocês sejam, nós já temos problemas de sobra. — Minha irmã continuou, com uma simpatia acima da média.
Uma ruguinha surgiu entre as sobrancelhas de Sirius e um olhar desapontado fez James ficar mais bonito do que de costume. Evitei olhar para Peter ou Remus, porque eles eram o meu elo fraco daquela amizade.
engatou o braço no meu e tomou a frente, nos afastando deles.
— A gente se vê, otários — disse ainda de maneira simpática, o que só fazia eles ficarem mais confusos ainda.
— Achei que você tinha conversado com ela, Aluado! — James exclamou atrás de nós, a voz em um tom mais baixo, mas não o suficiente para que não ouvíssemos.
— Eu conversei! — se defendeu.
— Vai resolver isso agora, porra! — a voz de Sirius soou irritada e nós só continuamos andando, segurando o sorriso cúmplice.

*


— Não desse jeito, caramba! — Severus Snape já estava começando a baixar os muros em sua volta quando estava comigo e isso, meus amigos, eu chamo de progresso. — Eu disse fatias pequenas, lâminas, está vendo? Isso parece uma lâmina pra você?
Era verdade que ele ainda me tratava como a escória da sociedade, cuspindo reclamações e suspiros indignados, mas agora ele pelo menos não fingia que não me via ao seu lado.
A minha fatia de chifre de unicórnio tinha a grossura de um dedo.
— No livro diz... — Tentei argumentar.
— Esquece o livro, Stark. Te falei para fazer o que eu digo — respondeu ele, retirando a faca da minha mão. Cortou uma fatia tão fina que quase parecia translúcida. — Olha só, não é tão difícil, é?
— Não. Cortar chifre de unicórnio é fichinha, te ouvir é que é difícil — bufei irritada, pondo o material em meu caldeirão, que tinha uma água rala esverdeada, enquanto o caldeirão dele tinha um líquido belíssimo de tom esmeralda. — Como você ficou tão bom nisso? Seus pais te ensinaram?
— Aprendi sozinho.
— Seus pais não são bruxos?
Ele me olhou como se aquela pergunta o ofendesse. Narinas infladas, olhar superior, cenho franzido. E então eu percebi, Severus Snape tinha um charme, algo naquele olhar superior. Me mergulhando em minha própria insignificância, me fazia admirá-lo. Era estranho, era assustador.
— Sou mestiço.
Slughorn se aproximou de nossa mesa, observando nossas poções com entusiasmo.
— A sua está perfeita, Sr. Snape. Algo que eu já esperava vindo de você. Nem precisei lembrá-lo da pitada de verrugas. — Seus olhos passaram da poção dele para a minha. A decepção estampada em seu rosto. — Você e a sua irmã não são muito fãs de poções, não é mesmo, Srta. Stark?
— Infelizmente, nós duas temos pouca aptidão nessa matéria, mas confesso que estou me sentindo muito mais confiante com um professor como o senhor. — Puxei seu saco na cara dura, tentando ser um pouco mais como minha irmã. Seu sorriso se espalhou pelo rosto e as bochechas ganharam um tom rosado.
— Ah, bom, faço o que é preciso.
— Estou aprendendo muito, senhor. — Dei meu melhor sorriso. — Logo estarei fazendo poções tão boas quanto as do meu colega.
Snape se engasgou ao meu lado.
— Que ótimo. Adoraria te ver no meu clube, sabe? Você e sua irmã são peças raras em nossas terras.
— Seria uma honra.
— Ótimo, então não esqueça as verrugas, e, no fim da aula, me leve um frasco identificado.
Assim que o professor se afastou, ouvi a voz de Snape ao meu lado:
— Três verrugas. Nem uma a mais e nem uma a menos.
Fiz o que ele disse e minha poção começou a encorpar, ganhando um tom de verde mais bonito.
Enquanto eu terminava minha poção aos comandos de Severus ao meu lado, um aviãozinho de papel pousou tranquilamente sobre a minha mesa.

“Podemos conversar depois da aula? R.L.”

É oficial.
Eu nunca vou ter paz nessa escola enquanto esses garotos existirem.
Mas não posso negar que senti meu estômago embrulhar de ansiedade. Não deixei meu rosto transparecer nada e rabisquei um “não” sem muita enrolação.

“Por favorzinho?”

Foi difícil manter o rosto sério, mas acho que fiz um bom trabalho.
— Sua poção vai desandar, Stark. — A voz de Serevus, limpa e serena, me fez acordar.
Rabisquei um “Ok” mais desajeitado do que a primeira resposta e voltei minha atenção para a poção. Percebi uma certa comoção nas mesas do lado oposto da sala, mas não dei o braço a torcer de olhar para lá.
Minha poção ficou aceitável.
Não estava bonita como a de Snape. Segundo ele, aquela poção definitivamente não ia me levar para o clubinho do professor, mas podia me salvar de uma reprovação, e eu estava bem feliz com esse resultado.
Snape saiu correndo depois da aula, como sempre fazia, enquanto eu limpava minha mesa com toda a paciência do mundo, esperando todos os alunos saírem da sala.
— Princesa. — James passou por mim com um sorriso cheio de segundas intenções.
Peter abanou a mão para mim, e Sirius apenas deu um sinal com a cabeça.
Remus guardava seu material na mesma velocidade que eu. Sentei-me na mesa, o esperando terminar. Estava calor, eu usava a camisa de botão com a gravata meio solta no colarinho, uma saia de pregas muito brega e meias de cano baixo. Remus estava com a camisa por fora da calça, as mangas dobradas até a metade do antebraço e a gravata tão folgada quanto a minha.
A situação era tão esquisita que me fazia querer sair correndo dali. Eu quase podia sentir que Remus estava tão esquisito quanto toda essa situação. E, mesmo assim, eu me sentia na obrigação de ouvir o que ele tinha a dizer, já que eu sabia que os amigos tinham exigido a ele que fizesse aquela conversa comigo.
— Desculpa te fazer esperar. — Ele se aproximou de mim, os olhos subindo por minhas pernas antes de parar em meu rosto.
— Você já percebeu que sempre começa as conversas pedindo desculpas?
— É da minha natureza. Às vezes eu sinto que tudo que há de errado na vida dos outros é minha culpa. — Ele deu um pequeno sorriso, um bem tímido.
— Vitimismo ou autossabotagem? — perguntei, lembrando da conversa que ele teve com Sirius ontem.
Seus olhos se arregalaram como se ele não esperasse que eu ouvisse aquilo, ou estava surpreso pela incrível coincidência de eu parafrasear o amigo.
— Você ouviu?
Resolvi me fazer de idiota.
— Ouvi o quê?
Ele balançou a cabeça, querendo focar no que realmente importava.
— Não importa. Princesa, eu quis te chamar aqui pra conversar sobre... tudo. Eu sinto que você não entendeu o que eu quis dizer, e eu só queria esclarecer as coisas.
Eu apenas balancei a cabeça em concordância, vendo seu rosto se iluminar de esperança. Deuses novos e antigos, me ajudem.
— Eu estou interessado em você, Stark. Estou interessado desde que te vi descendo aquela maldita escada naquele vestido que provavelmente era mais caro do que a casa dos meus pais. — Meu peito batia tão forte que eu estava ficando sem ar. — Por favor, não pense que eu estou te dando um fora, ou que eu estou te diminuindo de alguma maneira, porque eu não estou.
Abri a boca para reclamar, mas ele não me deu espaço.
— Mas eu preciso que você entenda, Stark, que eu não posso me envolver com ninguém, que eu tenho um problema que não pode ser resolvido, e que vai ser muito mais fácil para nós dois se formos apenas amigos, porque essa situação já está confusa o suficiente sem a gente se envolver, e vai ficar muito pior quando e se você descobrir o que está realmente acontecendo.
— Por que você não me fala que problema é esse e eu te digo se ele pode ou não ser resolvido?
— Não pode ser resolvido, acredite em mim. — Sua voz era suplicante, quase dolorosa. Baixei a cabeça, porque eu precisava pensar sem seus olhos castanhos me devorando. — E então? Amigos?
Remus não estava me ajudando quando pôs o dedo em meu queixo e levantou meu rosto para encará-lo mais uma vez. Como eu diria sim para isso? Eu tinha capacidade cognitiva para ficar ao lado desse garoto sem me apaixonar? Ser sua amiga sem querer algo mais?
Eu me sentia uma idiota, uma garotinha boba e apaixonada que não sabia diferenciar as coisas.
Bom, se ele realmente queria me provar que podíamos ser só amigos, que ele realmente queria só meu amigo, acho que era hora de colocar todo o poder de Stark à prova.
Sem dar tempo para que ele reagisse a qualquer coisa, levei minha mão até a sua gravata e a puxei em minha direção. E assim, sem aviso prévio, levei uma de minhas mãos em sua nuca e uni nossos lábios. Enfiando meus dedos em seus cabelos enquanto dava uma volta com minha mão em sua gravata, abri um pouco a boca, aprofundando um beijo que Remus não hesitou em acompanhar.
Um líquido quente surgia em meu ventre e se espalhava por todo o corpo, ao mesmo tempo em que eu sentia as mãos febris dele em meu corpo, uma delas em minhas costas e a outra em minha coxa descoberta. Remus Lupin era inacreditável, uma fagulha de calor em meu corpo de alma fria, me puxando para perto de si, enquanto sua língua pedia passagem em minha boca, posicionando seu corpo entre minhas pernas. Seu tronco se inclinava para frente em busca de mais contato, enquanto meu corpo automaticamente se inclinava para trás, transformando aquilo em uma brincadeira deliciosa de medir quem queria mais aquilo. Maldito seja, Remus Lupin. Maldito seja o garoto que queria me colocar para escanteio, achando que lidar com Stark era fácil.
O beijo foi ganhando intensidade, cada toque fazendo nossos corpos tremerem em êxtase, como se tudo ali estivesse na dose certa. As línguas se tocando, as mãos apertando, as respirações se misturando. O gosto da sua boca era indescritível, nada no mundo podia explicar as sensações que meu corpo sentia em contato com o seu.
Mordisquei seu lábio inferior, sentindo sua mão apertar minha coxa em resposta e a outra me puxar para a frente. Sua respiração pesada me provava que ele não estava mentindo. Seu corpo reagia do mesmo jeito que o meu, transbordando um magnetismo inegável. Agarrei os cabelos da sua nuca com força e ouvi um suspiro delicioso escapar por seus lábios. Puxei sua cabeça para trás, afastando nossos rostos. Seus olhos estavam ligeiramente perdidos, os lábios entreabertos e vermelhos. Sua respiração era pesada, quase fazia meus olhos revirarem de prazer. Seu rosto era divino.
— Amigos — falei, minha voz era um sussurro tão perdido quanto ele próprio. Como se nenhum de nós soubesse o que tinha nos atingido. Criei forças para escapar de suas mãos, peguei minha bolsa e fui até a porta da sala. Dei uma última olhadela por cima do ombro e vi um Remus com as duas mãos apoiadas sobre a mesa, as costas subindo e descendo com força, recuperando a respiração. Sorri comigo mesma e saí satisfeita da sala.


Continua...


Nota da autora: Eu AMO que os Marotos ACHAM que estão comandando a situação, enquanto as gêmeas Stark estão com eles nas palmas das mãos.

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