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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 12/12/2025

sempre soube que precisaria lutar para conquistar seu espaço. Desde pequena, sonhava em escrever reportagens impactantes, investigar e se tornar um nome conhecido no meio, mas sabia que o caminho até lá seria árduo e que, antes de ser levada a sério como jornalista, precisaria começar pelo entretenimento. Era ali que estava agora, na linha de frente de uma das revistas mais influentes do país, tentando provar seu valor. A oportunidade que lhe foi dada era grande, maior do que qualquer coisa que esperava em tão pouco tempo. Estava prestes a cobrir sua primeira grande entrevista, não com qualquer celebridade, mas com , o ator do momento. Para muitos, isso poderia ser um sonho, mas, para , era um teste. O momento definitivo em que ela mostraria que era capaz de ir além de matérias rasas sobre tendências passageiras e fofocas descartáveis. Queria que seu nome fosse lembrado, e essa entrevista era sua melhor chance de alcançar isso.

Havia apenas um pequeno problema: não era um entrevistado fácil.

Diferente de outros atores que aproveitavam a fama para se promover, ele parecia se esforçar ao máximo para se manter distante dos holofotes quando não estava trabalhando. Era um mistério ambulante, e talvez fosse exatamente isso que fazia o público se interessar tanto por ele. Ninguém sabia muito sobre sua vida fora das telas. Rumores circulavam, claro. Alguns diziam que ele já havia se envolvido com uma das suas colegas de elenco, outros que tinha uma obsessão por colecionar roteiros antigos, mas ninguém realmente sabia a verdade. Ele evitava falar sobre sua vida pessoal e raramente concedia entrevistas, mas, ainda assim, sua carreira não parava de crescer com filmes de grande bilheteria e uma série de sucesso que conquistou fãs ao redor do mundo. Seu nome estava em listas de apostas para grandes premiações e as marcas mais luxuosas disputavam contratos publicitários com ele. Mas, ironicamente, quanto mais ele crescia, mais inacessível parecia se tornar.
sabia que arrancar algo genuíno dele seria um desafio e tanto, mas, se havia algo que a definia, era sua determinação. Ela havia batalhado demais para deixar aquela oportunidade escapar por conta de um ator que se recusava a falar.

Não. Ela encontraria um jeito. poderia ser um obstáculo difícil, mas nunca recuava diante de um desafio.

Respirou fundo enquanto se olhava no espelho do camarim. O blazer estava alinhado, o cabelo impecável e a maquiagem sutil, mas profissional. Ela precisava parecer confiante, mesmo que seu coração estivesse batendo mais rápido do que gostaria de admitir. Essa entrevista poderia mudar sua carreira, e ela não deixaria nervosismo algum atrapalhar.
? Está tudo pronto. — Uma mulher da equipe foi chamá-la e ela assentiu, ajeitou a postura, pegou o bloquinho com as perguntas e saiu da sala, seus saltos ecoando pelo corredor.
A equipe da revista já havia preparado o ambiente da entrevista em uma sala privada do hotel onde estava hospedado, um local luxuoso e discreto, longe do caos da mídia. Enquanto caminhava até a sala, percebeu um movimento no outro extremo do corredor. estava fazendo o mesmo caminho, vindo de outro camarim, com uma postura relaxada, como se não preferisse estar em qualquer outro lugar. Ele usava um conjunto preto elegante, o cabelo levemente bagunçado de um jeito que parecia acidentalmente perfeito. engoliu seco e continuou andando, mantendo o olhar à frente. Mas, no instante em que se aproximaram, ergueu os olhos e a encarou, demorando um segundo a mais do que o necessário. Seus olhos percorreram-na de cima a baixo de maneira discreta, mas não despercebida. Ela era bonita, mais do que ele imaginava.
— Oi. — Ele disse, com um aceno curto de cabeça.
— Oi. Pronta quando você estiver. — Ela respondeu, com um tom calmo, e ele assentiu com um sorriso e estendeu a mão em um gesto educado, sinalizando para que ela entrasse na sala antes dele. Enquanto passava, sentiu o olhar dele acompanhar seus movimentos por um breve instante.
A sala de entrevistas era sofisticada e bem iluminada, decorada de forma minimalista, com uma mesa redonda no centro e duas poltronas confortáveis dispostas frente a frente, posicionadas diante das câmeras. Quando se sentaram, desviou o olhar discretamente para o movimento das pernas de enquanto ela ajeitava a saia do vestido. Foi rápido, quase imperceptível, mas seus olhos retornaram imediatamente para o rosto dela, assumindo uma expressão neutra.
— Obrigada por estar aqui hoje, . — Ela disse, oferecendo um sorriso profissional, e ele retribuiu com um aceno discreto. — Posso te chamar de , não é?
— Claro. — Ele sorriu, se recostando na poltrona. — Obrigado pelo convite.
Alguém da equipe sinalizou que era hora de começar a entrevista e se ajeitou na cadeira antes de iniciar:
— Bom, vamos começar… — disse, tentando soar confiante. — Você tem estado em ascensão nos últimos anos, com papéis de destaque tanto no cinema quanto na televisão. Como tem sido lidar com essa mudança na sua carreira?
ponderou por um momento antes de responder, seu tom de voz calmo, sem pressa.
— É interessante… passei anos fazendo papéis pequenos, então ver esse crescimento acontecer de forma tão rápida foi algo inesperado. Acho que ainda estou me acostumando.
assentiu, passando para a próxima pergunta:
— E essa transição de papéis menores para protagonistas mudou sua perspectiva sobre a indústria? Você sente que há mais pressão agora?
desviou o olhar por um segundo, como se escolhesse as palavras com cuidado.
— Com certeza há mais expectativa… — ele admitiu. — Mas eu tento focar no trabalho, no que realmente importa. O resto é só… ruído.
percebeu que ele evitava se aprofundar demais. Suas respostas eram calculadas, o suficiente para parecer educado, mas sem revelar muito. Ela teria que ser mais estratégica se quisesse algo além de frases ensaiadas. Então sorriu, inclinando-se um pouco mais.
— Bem, se você pudesse escolher um projeto ideal para o futuro, sem se preocupar com expectativa ou pressão… o que seria?
ergueu uma sobrancelha levemente, como se a pergunta o pegasse desprevenido. Pela primeira vez, um pequeno brilho de curiosidade cruzou seu olhar.
— Essa é uma boa pergunta… — ele fez uma pausa, como se refletisse. — Sempre quis fazer um musical.
piscou, surpresa. De todas as respostas que esperava, essa definitivamente não estava na lista.
— Um musical? — Repetiu, tentando esconder a curiosidade genuína.
deu de ombros, um pequeno sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Sim. Mas algo clássico, sabe? Tipo Cantando na Chuva. Algo que realmente exigisse mais do que atuação, algo desafiador.
— Uau, não esperava por essa. — falou surpresa, enquanto rabiscava algo no bloquinho em sua mão.
— A maioria das pessoas não espera. — Ele disse, os olhos fixos nos movimentos dela.
Conforme a entrevista avançava, a jornalista tentou tocar em um assunto mais pessoal, perguntando sobre como ele lidava com a fama na vida privada. Foi nesse momento que a expressão de mudou. Sua postura relaxada ficou rígida por um instante, e sua resposta veio mais curta do que as anteriores:
— Eu separo bem as coisas. Minha vida pessoal é minha. — Seu tom foi neutro, mas havia um traço de impaciência escondido ali.
percebeu a barreira se erguendo novamente. A forma como ele se fechou indicava claramente que não queria seguir por aquele caminho. Então, optou por recuar:
— Entendo. Deve ser desafiador equilibrar essas duas partes da sua vida… mas, falando em desafios, seus últimos papéis exigiram bastante fisicamente. Como foi o processo de preparação para eles? — Ela mudou de assunto de forma natural, sem demonstrar hesitação.
relaxou minimamente, seu olhar se suavizando. Ele pareceu considerar a nova pergunta antes de responder, e, dessa vez, sua resposta veio com mais fluidez. percebeu, pela primeira vez, que ele a observava com mais atenção. Seu olhar vagava para seus lábios sempre que ela falava, e, em um momento, enquanto ela tomava um gole de água e arrumava uma mecha de cabelo atrás da orelha, os olhos dele a seguiram com atenção demais para ser casual. Era sutil, mas notou – assim como notou o quão marcante ele era de perto: os olhos claros, a linha do maxilar definida, a forma como ele parecia estar sempre ciente de tudo ao seu redor. Quando a entrevista finalmente chegou ao fim, estendeu a mão para ele, profissionalmente, e a apertou, demorando um pouco mais do que o necessário para soltá-la. Seus olhos encontraram os dela por um instante mais longo, e havia algo ali. Um resquício de curiosidade, talvez até um desafio silencioso.
— Foi uma boa entrevista… — ele disse, e não soube dizer se havia um tom irônico ou genuíno na afirmação, até ele continuar: — Você fez boas perguntas. Não esperava isso. — Sua voz era baixa, mas havia um traço de sinceridade ali.
ergueu uma sobrancelha, surpresa com o elogio inesperado.
— Obrigada… eu acho. — Ela cruzou os braços, avaliando-o. — E o que esperava? Perguntas genéricas sobre como foi trabalhar no filme?
soltou um breve sorriso, quase imperceptível.
— Algo assim. — Ela percebeu que ele realmente não estava acostumado com entrevistas que fugiam do óbvio. E, de alguma forma, isso a fez se sentir satisfeita. Mas antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, ele mencionou casualmente: — Vai estar na pré-estreia do filme, certo? Imagino que a revista vá cobrir o evento.
— Ainda não sei. Devo receber o convite com a equipe da revista. — respondeu, notando o olhar dele permanecer sobre ela por um instante a mais do que o necessário.
assentiu lentamente, parecendo ponderar algo. Então, com um último olhar curioso, ele se afastou.
— Então, se você for, nos vemos lá.
permaneceu parada por alguns segundos depois que ele saiu. Foi então que o diretor da revista apareceu na porta da sala, animado:
, foi ótimo. Vai ser um sucesso! — Ele disse, abrindo um sorriso largo. — E sabe do melhor? gostou de você.
— É mesmo? — Ela perguntou, surpresa, ainda se recuperando da intensidade da entrevista.
— Sim. E por isso você está garantida para cobrir o evento de pré-estreia do novo filme dele. Vai com uma pequena equipe nossa. Aproveita essa chance, . Se ganhar a confiança dele, quem sabe conseguimos uma próxima entrevista… mais íntima, entende? As fãs dele iriam à loucura com detalhes da vida pessoal.
assentiu, mas algo nela se incomodava com aquela ideia. Não era do tipo que gostava de forçar relações só para conseguir pautas. Ainda assim, aceitou. Estava genuinamente curiosa para ver como se comportava diante de uma multidão, cercado por flashes e olhares. Talvez ali, fora da sala de entrevistas, ela conseguisse entendê-lo um pouco melhor.

sabia que a pré-estreia do novo filme de seria um grande evento. Uma noite repleta de estrelas de Hollywood, jornalistas e fotógrafos disputando o melhor ângulo. Ela vestiu um elegante vestido preto de fenda lateral, que se ajustava perfeitamente ao corpo sem ser excessivamente chamativo. O cabelo solto em ondas naturais e a maquiagem equilibrada, realçando seus olhos sem exagero. Queria se destacar, mas sem parecer que estava tentando demais. O salão da pré-estreia estava iluminado por flashes e preenchido por conversas elegantes e taças de champanhe. entrou com sua equipe, os olhos atentos ao ambiente luxuoso, decorado com tons dourados e pôsteres enormes do filme. Mas sua atenção se desviou completamente ao avistar . Ele estava do outro lado do salão, conversando com dois colegas de elenco e um produtor. Vestia um terno escuro, perfeitamente alinhado, com a gravata frouxa e o olhar levemente distraído, até avistar . Havia algo nos olhos dele, um reconhecimento silencioso, como se estivesse surpreso por vê-la ali.
era indiscutivelmente bonito. O terno escuro bem ajustado, os cabelos levemente bagunçados, a expressão séria, mas com aquele ar de mistério que fazia qualquer um querer desvendar seus pensamentos. Ele a observou de cima a baixo, discretamente, mas sem conseguir esconder o súbito brilho nos olhos. O vestido. A forma como ela caminhava. A expressão concentrada e serena. Mesmo cercada pelos outros jornalistas, era como se só ela estivesse ali.
. — Chamou o produtor ao seu lado.
Ele piscou, quebrando o transe, e forçou um sorriso, assentindo. Murmurou algo rápido e educado antes de se afastar discretamente do grupo, indo em direção a jornalista, os olhos fixos nela por tempo suficiente para causar um leve arrepio na espinha.
. — Ele disse seu nome de forma baixa, mas audível, antes de estender a mão para ela, que retribuiu o gesto, mas, em vez de um simples aperto de mão, tocou sua cintura de leve ao puxá-la para um meio abraço, típico de eventos assim. — Você veio mesmo. — Ele comentou, olhando-a de cima a baixo sem qualquer disfarce.
— Era meu trabalho, lembra? — Ela sorriu de lado, tentando manter a compostura.
retribuiu o sorriso e, ainda com a mão na cintura dela, virou-se para cumprimentar os outros membros da equipe. Enquanto a equipe conversava com ele, desviou o olhar discretamente, observando-o com mais atenção. O jeito como se movia, como parecia perfeitamente à vontade naquele ambiente, mas sempre com um ar levemente distante, como se não estivesse inteiramente presente.
Em pouco tempo, foram chamados para algumas fotos promocionais. não tinha certeza de quem havia sugerido, mas de repente estava posando ao lado dele. Primeiro ao lado dos colegas. Depois, só os dois. O fotógrafo os posicionou próximos demais, talvez propositalmente. O ombro de encostava no dela, e suas mãos estavam tão próximas que seus dedos quase se tocaram. Então, com um gesto suave (quase distraído, quase não), ele posicionou a mão na cintura de , como se aquilo fosse parte da pose.

Mas não foi só isso.

Os dedos dele se ajustaram levemente sobre a curva da cintura dela, apertando com firmeza contida. Não forte, mas suficiente para que o toque fosse sentido. tentou se concentrar na câmera, mas sua respiração falhou por um instante, surpreendida pela intensidade súbita de um gesto tão sutil. O corpo dela respondeu com um arrepio involuntário, e ela se obrigou a manter o rosto voltado para a câmera, como se não tivesse sentido nada.

Mas percebeu. E então, com uma naturalidade calculada, deixou escapar um leve sorriso no canto dos lábios.

Após as fotos, ela se afastou para pegar mais uma taça de champanhe (a terceira da noite) e observou de longe quando foi cercado por alguns colegas. Um grupo animado, rindo alto. Entre eles, . já a tinha visto antes, em entrevistas e no tapete vermelho. A atriz tinha uma beleza marcante, uma presença encantadora, e agora, ao lado de , ela parecia confortável demais. tocou o braço de ao rir de algo que ele dissera e ele retribuiu o gesto com um sorriso. sentiu algo estranho se formar no estômago. Curiosidade talvez. E o champanhe definitivamente não estava ajudando a manter a cabeça fria. Ela desviou o olhar e tentou rir de algo que um dos companheiros da equipe comentou, enquanto, do outro lado do salão, voltou a lançar um olhar em sua direção. Longo. Cauteloso. Como se estivesse tentando adivinhar o que ela estava pensando.

Eles estavam se observando demais. Sentindo demais. E era só o começo da noite.

Conforme o evento avançava, notou que parecia cada vez mais inquieto. Ele cumprimentava os convidados, posava para fotos, conversava com os colegas de elenco, mas havia algo nele – um desconforto sutil, quase imperceptível, mas que ela conseguiu captar. E então, de repente, ele se afastou. Ela o viu sair discretamente por uma das portas laterais do salão de festas e não parecia querer ser seguido. Mas algo nela não conseguiu ignorar o impulso – provavelmente apenas curiosidade, interesse jornalístico, profissionalismo. Com um “já volto” rápido para a equipe da revista, deslizou para fora do salão também, os saltos ecoando mais suave no piso do corredor. Quando o encontrou do lado de fora, estava encostado contra a mureta do terraço, olhando para a cidade iluminada à noite. A brisa noturna bagunçava seus cabelos, e ele parecia aliviado por finalmente ter um momento de paz.
— Se estava tentando fugir da sua própria festa, você está indo bem. — comentou ao se aproximar.
virou a cabeça em sua direção, surpreso por um instante, mas logo um sorriso discreto surgiu em seu rosto, os olhos demorando mais tempo do que o necessário no vestido dela, como se ainda não estivesse convencido de que ela era real ali na frente dele.
— Só precisava de um tempo. — Ele cruzou os braços, inclinando-se contra a mureta. — Mas e você? Perdeu-se no caminho ou veio me vigiar?
riu, parando ao lado dele.
— Achei que você poderia estar precisando de companhia. Além disso, você é a única pessoa que conheço aqui.
Ele arqueou uma sobrancelha, a sombra de um sorriso brincando nos lábios.
— E os outros? Aqueles com quem você chegou… sua equipe?
suspirou, olhando brevemente para o salão iluminado atrás de si, antes de voltar os olhos para .
— Não sou muito próxima deles. Na verdade, me senti meio deslocada. — Ela hesitou por um segundo e, antes que ele dissesse algo, acrescentou com um meio sorriso: — Embora parte da culpa seja minha. Fiquei um pouco… distraída.
— Distraída? — Os olhos dele se estreitaram, curioso, e ela cruzou os braços, desafiadora, mas o sorriso ainda nos lábios.
— Com o ambiente. Com a tensão. Com você.
soltou uma risada baixa, um som breve, mas real.
— É mesmo? — Ele deu um passo mais perto, o olhar deslizando pelo rosto dela. — Então acho que estamos quites.
— Ótimo. Nada como uma distração recíproca.
Ele a observou por um momento, como se estivesse tentando decifrá-la. Então, sua expressão mudou sutilmente, seus olhos escurecendo um pouco.
— Seu vestido é bonito. — A frase veio sem aviso, e o tom de voz dele era mais baixo, quase rouco.
— Você está me elogiando, ? — arqueou uma sobrancelha e inclinou a cabeça, um leve sorriso nos lábios.
— Só estou constatando um fato. — Ele desviou o olhar para a vista novamente. — Mas acho que já sabia disso quando escolheu ele.
— Talvez eu só tenha bom gosto.
a encarou de novo, e dessa vez não havia brincadeira em seu olhar. Apenas algo intenso, algo que fazia sentir um calor inesperado se espalhar pelo corpo. Foi aí que ele ergueu a mão, roçando os dedos na linha do maxilar dela, e deixou que o silêncio falasse por eles por um momento. E então, como se algo invisível os puxasse um para o outro, se moveu. Ele inclinou o rosto na direção dela, e , sem nem perceber, fez o mesmo. O ar parecia mais denso ao redor deles, e quando os lábios de finalmente roçaram nos dela, foi como se uma linha tivesse sido cruzada.
O beijo começou hesitante, como se ambos ainda estivessem decidindo se deviam continuar. Mas a hesitação durou apenas um segundo antes de aprofundar o contato, segurando sua cintura com mais firmeza, puxando-a para mais perto – e ela sentiu a respiração falhar, os joelhos fraquejarem. Quando ele percebeu, sorriu contra os lábios dela e, num impulso, a virou e a prensou contra a parede mais próxima, fazendo soltar um pequeno suspiro surpreso. Ela sentiu o frio da parede contrastando com o calor do corpo dele, e aquilo só intensificou tudo. a beijava com uma mistura de urgência e provocação, como se estivesse testando seus limites, vendo até onde poderia levá-la antes que um deles puxasse o freio. Suas mãos deslizaram pela lateral do corpo dela, pressionando sua pele com um leve desespero contido. deslizou as mãos pelos ombros dele, sentindo a tensão de seus músculos sob o tecido do terno, e se permitiu ceder. A respiração se misturava, os corações batiam acelerados, e cada toque parecia incendiar ainda mais a atmosfera carregada ao redor deles.
Foi quem afastou o rosto primeiro, ainda ofegante, o olhar fixo no dela. mal conseguia pensar, o coração batendo descompassado no peito, os lábios ainda formigando. Ela sentia as pernas trêmulas e o corpo pressionado contra a parede como se ainda sentisse as mãos dele ali. Ele ergueu uma sobrancelha, com aquele sorriso torto voltando devagar.
— Isso… definitivamente vai dar problema. — Murmurou, a voz rouca, quase íntima demais para o lugar onde estavam.
soltou uma risada curta, ainda sem conseguir acreditar no que tinha acabado de acontecer. Passou os dedos nos próprios cabelos, tentando se recompor, sem muito sucesso.
— Provavelmente. — Ela ergueu o olhar para ele, com um sorriso de canto. — Mas valeu a pena?
Os olhos de correram por cada centímetro do rosto dela, como se quisesse memorizar tudo. O batom escuro agora estava borrado nos cantos dos lábios inchados dela, um pouco manchado também nos próprios lábios e no queixo dele. Alguns fios do cabelo de estavam bagunçados. As bochechas estavam coradas, os olhos brilhando com algo entre surpresa e desejo. Ele parecia fascinado, quase hipnotizado, e deu um passo à frente, levantando a mão como se fosse afastar um fio de cabelo do rosto dela… ou talvez tocá-la de novo. Seus olhos desceram para os lábios dela mais uma vez, e por um instante, ficou claro que ele a beijaria de novo.

E foi exatamente nesse instante que um flash os cegou.

se afastou num sobressalto, piscando rápido enquanto seus olhos tentavam se ajustar à luz. virou o rosto, mas era tarde demais. Uma silhueta se afastava discretamente com uma câmera pendurada no pescoço – que havia capturado exatamente o que não deveria ter sido visto.

O sangue de gelou.

— Merda. — Sussurrou , a mandíbula travada, e eles se entreolharam, os dois ainda respirando fundo, o calor do beijo agora misturado à adrenalina do susto. — A gente tem que sair daqui. — Ele disse, pegando a mão dela com firmeza.

E, naquele instante, eles souberam que tinham um problema.



apertou os olhos ao encarar a luz do celular. Ainda era cedo - cedo demais para o mundo estar desabando na palma da sua mão. Deslizou o dedo pela tela e as notificações começaram a pipocar, uma atrás da outra. Mensagens de colegas de trabalho e da própria família, além de menções em redes sociais com manchetes sensacionalistas, acompanhadas da foto que já estava viralizando:

Novo casal em Hollywood?

é flagrado aos beijos com jornalista misteriosa em pré-estreia!

Quem é a mulher que roubou um beijo do astro da vez?


A imagem era ligeiramente desfocada, mas nítida o suficiente para mostrar os dois encostados na parede, os rostos próximos demais para negar qualquer coisa. tinha uma das mãos na bochecha dela - exatamente como estava segundos antes do flash. O rosto dele manchado de batom. O dela, de olhos fechados, completamente entregue.

Perfeito. Caos completo.

— Merda… — murmurou, jogando o corpo de volta no colchão.
A cabeça latejava, mas não por causa do champanhe da noite anterior, e sim a consciência pesando, o caos se instalando. Ela lembrou dos olhares de , da respiração presa quando os lábios se tocaram, da mão dele apertando sua cintura como se aquilo fosse inevitável. Tinham voltado para o evento como dois estranhos bem treinados. Sorrisos comedidos, olhares rápidos, nenhuma palavra trocada. Mas agora… tudo isso estava em todos os lugares. O celular vibrou novamente. Era Lisa, sua melhor amiga. Pela vigésima vez. finalmente atendeu.
— Pelo amor de Deus, ! — Disparou, sem nem esperar um oi. — Você sabe que seu rosto tá no TMZ? No TMZ, mulher! Com o ! Beijando! Você tá viva?
— Infelizmente. — resmungou, sentando na cama e esfregando os olhos.
— Você tem que me contar todos os detalhes disso, tipo, agora!
— Sinceramente, eu acho que a última coisa que eu queira falar nesse momento é sobre isso. — Bufou, largando o corpo contra a cabeceira da cama. Queria rir da ironia, mas o pânico ainda estava agarrado ao peito. Só então algo passou por sua mente: — Será que o meu chefe já viu? — Perguntou, temendo a resposta.
— O editor-chefe, o vice, a estagiária do café, até o zelador devem ter visto. Teu nome tá viralizando. E sabe o pior?
— O quê?
— Tá todo mundo achando que vocês têm um caso secreto.
ficou em silêncio por alguns segundos. Um caso secreto com ? Justo ela, que mal conseguia uma entrevista informal com o cara dias atrás.
— E ele? Se pronunciou?
— Ainda não. Só silêncio do lado dele. O que só piora as coisas, né?
sentiu um aperto no peito. Talvez ele estivesse tentando apagar o incêndio do lado de lá. Talvez se arrependesse. Talvez nunca mais quisesse falar com ela. Se despediu de Lisa, jogou o celular na cama e afundou o rosto no travesseiro, soltando um gemido abafado de frustração. O que deveria ter sido um trabalho impecável - sua primeira grande cobertura - agora virava um escândalo pessoal e profissional. O gosto da noite anterior ainda estava presente, não só na boca, mas no corpo todo. As mãos dele pelo seu corpo. O jeito como ele a olhou antes de beijá-la. Ela gemeu novamente, dessa vez por vergonha. O celular vibrou mais uma vez. Uma nova mensagem apareceu na tela, agora do editor da revista:

Simon: Venha para cá o quanto antes!

encarou a mensagem por alguns segundos antes de soltar um suspiro longo. A dor de cabeça parecia latejar com mais força, como se quisesse lembrá-la de cada segundo da noite anterior. Passou a mão no rosto, praguejando em voz baixa enquanto se levantava da cama. O que exatamente diria a ele? “Desculpa, beijei a estrela da matéria e fui pega no flagra por um paparazzi sorrateiro”? Ela se olhou no espelho pela terceira vez, ajustando os fios de cabelo que insistiam em cair sobre a testa. Tinha passado um corretivo rápido nas olheiras e escolhido uma roupa que não chamasse atenção - ou pelo menos tentasse desviar o foco do escândalo do momento. Mas a verdade é que, não importava o que vestisse, ela sabia que estava prestes a caminhar direto para o olho do furacão.
O caminho até a agência pareceu mais longo do que o normal. E, ao chegar no prédio, as coisas só pioraram. Alguns olhares se voltaram imediatamente para ela assim que passou pela recepção. Olhares cúmplices, mal disfarçados. Uma funcionária chegou a comentar algo com a colega ao lado e as duas riram em seguida, antes de fingirem um súbito interesse no próprio computador. respirou fundo. Subiu pelo elevador como quem encarava um tribunal. Ao sair no andar da redação, os sussurros aumentaram. Ninguém dizia seu nome em voz alta, mas era como se ela o ouvisse a cada passo.
— A jornalista misteriosa.
— A sortuda do .
— Ela beijou o cara e ainda está com o emprego?
Ela seguiu firme até a porta da sala de Simon, parando de frente para a secretária, que arregalou os olhos ao vê-la.
— Ele já está te esperando. — Disse, um tanto engasgada, com um sorrisinho contido. — Eles, aliás.
— Eles? — franziu o cenho, o estômago se revirando.
Sem resposta, a secretária apenas apontou com a cabeça para a porta, como se dissesse “vai logo, coragem”. respirou fundo uma última vez antes de girar a maçaneta. Assim que a porta se abriu, o tempo pareceu parar por um segundo. Simon estava em pé atrás da mesa, os olhos fixos nela com uma expressão dura. Ao lado dele, um homem bem vestido - que ela logo reconheceu como o agente de - consultava algo no celular. E sentado na poltrona, como se fosse absolutamente normal estar ali, ele:

.

Seus olhos encontraram os dela imediatamente. E, embora sua expressão estivesse neutra, havia algo em seu olhar que a fez prender a respiração por um instante. Simon deu um passo à frente, a voz cortante:
. Que bom que nos deu o prazer da sua presença.
— Simon, eu sei como isso parece, mas… — Ela começou, erguendo as mãos, tentando manter o tom calmo.
— Você foi à festa como a representante da revista, como a jornalista escalada para cobrir o evento! — Simon a interrompeu com a voz elevando-se de imediato, o rosto ruborizado de raiva. — E sabe o que você entregou? Uma performance digna de reality show barato!
deu um passo à frente, o peito subindo e descendo mais rápido.
— Você acha que eu planejei aquilo? Que foi algum tipo de armação?
— Eu acho que foi uma completa falta de profissionalismo! — Ele rebateu, cortante.
Antes que a discussão escalasse ainda mais, Bob, o agente de , ergueu uma mão no ar.
— Ok, chega. Vamos todos sentar, por favor. — Sua voz era firme, com a autoridade de quem lidava com incêndios como aquele toda semana. — Simon, eu entendo sua frustração. Mas o que aconteceu… aconteceu. E agora precisamos olhar pra frente. — sentou-se com relutância, cruzando os braços. permaneceu calado, observando tudo com uma expressão difícil de decifrar. — A imagem dos dois está em jogo agora. — Continuou, ajustando os punhos da camisa. — tem contratos milionários prestes a serem fechados, você tem uma reputação a manter, Simon. E, , bem… a última coisa que você precisa é ser associada a esse tipo de escândalo.
— Que tipo de escândalo? Ser beijada por um homem? Ou ser fotografada por um idiota atrás de uma pilastra?
Bob ignorou o comentário.
— O que quero dizer é: o dano já foi feito. Mas temos uma saída. Uma que pode, com sorte, transformar isso em narrativa positiva. Uma história bonita, controlada, que a imprensa vai adorar. — Ele fez uma breve pausa antes de soltar, como se fosse óbvio: — Um namoro falso entre vocês dois.
A reação de foi imediata. Ela se levantou num salto, como se tivesse levado um choque.
— O quê? — Seus olhos se voltaram para , incrédulos. — Você sabia disso? Aceitou isso? Não vai falar nada?
sustentou o olhar dela por um momento, os olhos sérios. Abriu a boca como se fosse responder, mas Bob foi mais rápido.
— Ele concordou, sim. Com tudo. Justamente porque é o melhor caminho pra evitar que isso prejudique ainda mais vocês dois.
soltou uma risada sarcástica, cruzando os braços.
— Ah, claro. O galã de Hollywood arruma uma desculpa perfeita. E eu? Viro a piada do momento. A jornalista oportunista. Aquela que dorme com o entrevistado.
Bob tentou manter a calma.
— Ninguém está dizendo isso. Mas com a narrativa certa, podemos fazer esse burburinho trabalhar a favor de vocês. Um romance improvável. Uma conexão espontânea. E depois, um término amigável e maduro. Todos saem bem na foto.
— Você tá me ouvindo? — o interrompeu, a voz carregada de ironia. — Você tá me pedindo pra virar parte do circo da mídia porque a porcaria de uma foto foi tirada?
— Estou tentando salvar sua carreira. — Bob rebateu, mais ríspido agora.
Simon, que até então tinha ficado calado, bufou e soltou:
— A verdade é que, se você tivesse se comportado como uma profissional, não estaríamos nessa situação. Jornalista que se preza não se deixa levar por um rostinho bonito. Muito menos se joga nos braços do entrevistado como uma…
Ele não completou. Porque, naquele instante, a voz de cortou o ambiente como uma navalha.
— Cuidado com o que vai dizer. — estava de pé agora, o olhar fixo em Simon, os ombros tensos. A voz veio baixa, mas cheia de firmeza. — Eu não vou deixar você falar dela assim. — Simon pareceu engasgar com a própria indignação, mas o ator não recuou. Olhou para por um segundo antes de voltar-se ao editor. — Ela estava fazendo o trabalho dela, muito bem, por sinal. E tudo o que aconteceu foi tão inesperado pra ela quanto pra mim. A culpa não é só dela, e definitivamente não é o que você está insinuando.
O silêncio que se seguiu era denso. não sabia o que sentia - choque, alívio, raiva, talvez um pouco dos três. Mas ver se posicionar daquela forma a pegou desprevenida. Agora foi a vez de Bob suspirar pesadamente, massageando as têmporas.
— Ok. Vamos todos respirar um pouco. E tentar resolver isso de maneira racional. Porque a imprensa não vai esperar a poeira baixar.
ainda estava de pé, os olhos passando de Simon para , depois para Bob. A proposta pairou no ar como fumaça densa: irreal, absurda e perigosamente tentadora.
— Eu… preciso pensar. — Disse por fim, a voz mais baixa, mas firme.
Bob assentiu, mesmo com alguma pressa visível no rosto.
— Claro. Pense. Mas não leve muito tempo, . A imprensa já está criando as próprias versões da história, e quanto mais demorarmos pra reagir, mais difícil vai ser controlar os danos. — Ela não respondeu, apenas desviou o olhar, tentando acalmar a tempestade que girava na própria cabeça. Bob bateu palmas uma vez, com certa impaciência. — Certo. Por enquanto, nós três vamos sair da sala. Quando tiver tomado a decisão, ela vem falar com a gente.
Simon bufou alto, se levantando.
— Isso é um completo absurdo. — Resmungou, ajeitando o paletó e já caminhando para a porta. — Jornalista agora virou figurante de novela. É o fim da credibilidade.
hesitou. Permaneceu parado por um segundo, encarando como se ainda quisesse dizer alguma coisa. Quando finalmente se virou para seguir Simon, ele se aproximou brevemente de Bob e murmurou, com a voz baixa:
— Posso conversar com ela? Sozinho?
Bob suspirou, sem disfarçar o cansaço.
— Não agora, . Deixa ela respirar. Vai ser melhor pra todos se ela tiver um tempo sozinha pra pensar com clareza.
assentiu devagar, embora contrariado, e seguiu para fora da sala. A porta se fechou atrás deles com um clique abafado. Ela passou as mãos pelo rosto, como se pudesse apagar tudo o que tinha acabado de ouvir. Um namoro falso. Um plano de mídia. Uma narrativa ensaiada para salvar reputações. E . Tão calado. Tão difícil de decifrar. O silêncio da sala era cruel. Cada frase dita minutos antes ecoava como um martelo dentro da cabeça dela - especialmente as vindas de Simon. odiava admitir, mas uma parte do que ele disse estava certa. Ela não havia sido profissional. Não como deveria. Se preparou durante anos para chegar ali. Se esforçou para mostrar que era mais que uma jornalista com sorte ou uma jovem bonita tentando espaço num mar de egos masculinos. E no entanto, bastou um beijo. Um momento. Uma fração de descuido. Agora tudo estava em jogo. Ela sentiu o estômago revirar.

Será que ele vai me demitir?

Será que meu nome vai virar chacota nas reuniões de pauta?


Apertou os olhos com força, como se isso fosse fazer os pensamentos sumirem. Mas só havia uma saída agora: escolher. E se tinha uma chance - mínima que fosse - de salvar o que construiu… ela precisava tentar. Respirou fundo. Duas vezes. Então, com a decisão firmada no peito, cruzou a sala e abriu a porta. O barulho fez os três se virarem de imediato. Simon estava do lado esquerdo do corredor, batendo o pé, o olhar impaciente e julgador. estava encostado na parede oposta, os braços cruzados, mas o corpo tenso. Ao lado dele, Bob murmurava algo rápido demais, provavelmente tentando instruí-lo, mas parou no mesmo segundo em que a viu surgir.

Três olhares diferentes. Três reações distintas.

Simon a encarava como quem dizia “demorou demais”. Bob arqueou uma sobrancelha, avaliando, como se quisesse prever a resposta dela antes mesmo que dissesse algo. E … a olhava como se ela fosse feita de vidro. sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que devia. Então se virou para Bob, mantendo a postura erguida, mas com o coração despencando no peito.
— Eu topo. — Disse, com a voz firme, apesar da tensão. — Mas quero saber mais detalhes antes de entrar de cabeça nisso.
Bob abriu um pequeno sorriso, surpreso, mas satisfeito.
— Claro! Vamos conversar os próximos passos.
Simon bufou, jogando as mãos para o alto, como se lavasse as próprias.
— Ótimo. Que o circo comece, então.
não o olhou. Não agora. Se ela queria manter a própria dignidade, teria que começar pela postura. Só então, por um segundo, voltou a fitar , que a observava como se houvesse algo preso na garganta. Como se quisesse dizer o que não conseguiu lá dentro. Mas não disse nada.
— Eu acho melhor conversar com ela em particular. — Disse Bob, olhando para Simon como quem já tivesse ganhado a batalha. — De preferência em um local menos… jornalístico.
Simon hesitou por um segundo. Ainda parecia contrariado, mas no fundo, aliviado por alguém ter assumido o controle da situação.
— Façam o que quiserem. Desde que ela não arraste mais o nome da revista junto. — Virou de costas, já voltando para sua sala.
quis responder, dizer que ele não precisava ser tão babaca. Mas guardou o orgulho no bolso. Não agora. Em silêncio, seguiu ao lado de Bob e , sentindo os olhares curiosos de todo o escritório sobre eles, como se ela tivesse acabado de sair da capa de um escândalo, o que, no fundo, era verdade. Ninguém disse nada, mas os olhos diziam tudo. Perguntas, julgamentos, até mesmo inveja. Novo casal em Hollywood. Aquilo ultrapassava o ridículo. O carro estava estacionado na frente do prédio. Bob tomou o volante sem cerimônia, foi direto para o banco do passageiro, e entrou atrás, sentindo como se aquele SUV tivesse se transformado numa sala de interrogatório móvel. O silêncio dentro do carro era sufocante. Bob falava ao telefone, respondendo com a voz apressada de um agente em crise. continuava em silêncio, o rosto virado para a janela, como se qualquer conversa fosse proibida ali. E mordia o lábio com força, alternando entre o celular vibrando no bolso e o olhar fixo na nuca dele. Ela odiava aquele silêncio. O jeito como ele simplesmente não olhava para trás. O jeito como parecia que tudo aquilo era só mais um script.

É sério que ele não vai dizer nada? Nem uma palavra? Nem perguntar se eu tô bem?

Mas ela também não disse nada. Quando chegaram ao prédio de Bob, subiram direto para a sala, espaçosa e luxuosa demais para alguém que lidava com crise o tempo todo. Ele indicou com um gesto para que os dois se sentassem no sofá - um de cada lado, claro - e fechou a porta atrás de si, agora com a concentração voltada completamente para eles.
— Certo… — disse, apoiando as mãos na mesa e olhando de um para o outro. — A primeira coisa que vocês precisam entender é: agora não existe mais “você” e “ele”. Existe um casal. Um relacionamento. Uma história. — cruzou os braços, tensa. continuava mudo, mas atento. — Ou seja, o que aconteceu ontem à noite não pode ser um escorregão. Precisa parecer intencional. Planejado. O público vai aceitar melhor se parecer que vocês já estavam juntos há algum tempo e só agora decidiram se assumir.
ergueu uma sobrancelha, incrédula.
— Quer dizer que eu vou ter que fingir que estou com ele há semanas?
— Isso mesmo. — Bob respondeu, sem nem piscar. — E vamos precisar criar uma narrativa pra isso. Vocês se conheceram antes da entrevista, tiveram um encontro discreto no lançamento de um outro filme, se apaixonaram, mas quiseram manter em segredo até agora. Bla bla bla, aquela história que todo mundo adora acreditar.
— E vamos ter que fazer aparições públicas? — perguntou, já sentindo a dor de cabeça recomeçar.
— Tudo. Tapetes vermelhos, eventos, jantares com amigos dele, fotos exclusivas, viagens talvez. Vamos vender um romance. E precisa ser crível. Química, trocas de olhares, mãos dadas. Os dois vão dar entrevistas juntos falando da “conexão imediata” que sentiram. E vão parecer felizes. Apaixonados.
— Isso é loucura. — Ela murmurou, mais para si mesma.
— Não é. É Hollywood. — Bob respondeu, já abrindo o notebook. — E, honestamente, é a única saída que vocês têm agora. A imagem de fica protegida, a sua carreira não afunda, e todos saem ganhando.
olhou de canto para , que ainda não dizia nada. Apenas a observava agora, sério.
— E se alguém descobrir? Se alguém perceber que é tudo falso?
— Não vão. Não se vocês fizerem direito. E eu vou garantir que façam.
A mulher soltou o ar, tensa, mas se manteve firme.
— E se eu não quiser?
— Tem essa opção. — Bob respondeu, cruzando os braços. — Mas você vai ter que lidar com as consequências praticamente sozinha e com o seu nome associado a isso por anos. Pode tentar reconstruir sua carreira, sim, mas não vai ser rápido. E nem justo. Ou… — gesticulou, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Vocês fingem um relacionamento por alguns meses, deixam o tempo passar, e depois anunciam o término com um comunicado bonito dizendo que continuam amigos. Todo mundo segue em frente. Fim da história.
— E o Simon? — Ela perguntou, a voz falha. — Ele vai aceitar isso?
— Simon está furioso, mas ele não vai ter escolha. Enquanto a narrativa pública estiver funcionando e a matéria render acesso, nós vamos ter uma margem de segurança. Ele não vai querer ser o cara que demitiu a jornalista envolvida num romance com uma estrela de Hollywood. Isso nos dá tempo pra contornar a raiva dele e garantir que ele não enterre sua carreira por capricho. Mas, se você recusar… aí sim ele vai fazer de tudo pra enterrar você.
— Vocês… pensaram nisso também?
Bob deu de ombros, como se fosse óbvio.
— Não estamos aqui só pra salvar o . Estamos tentando salvar os dois. Essa é a melhor jogada agora.
encarou o chão por um instante, processando tudo. Aquilo ainda parecia absurdo, forçado. Mas não era só sobre um escândalo ou uma fofoca barata. Era sobre a carreira que ela tinha lutado tanto para construir. Sobre o quanto ela tinha se esforçado para chegar ali. E agora tudo estava suspenso por um fio invisível, que, de alguma forma estranha, eles estavam tentando manter de pé. olhou para de novo. E dessa vez, finalmente, ele falou:
— Eu também não queria isso… — a voz era baixa, mas firme. — Mas… eu tô tentando ajudar, de verdade.
Ela manteve o olhar nele por um segundo. Depois virou para Bob. A cabeça gritava que aquilo era uma loucura, mas o medo de perder tudo falava mais alto.
— Qual seria o primeiro passo?
Bob abriu uma pasta sobre a mesa, puxando uma folha impressa com uma linha do tempo, como se aquilo fosse só mais uma reunião comum de planejamento.
— A primeira coisa que vamos fazer é controlar a narrativa. — Começou, colocando os papéis entre e . — Vamos dizer que vocês já estavam se conhecendo antes da primeira entrevista. Algo discreto. Químicas aconteceram, afinidades apareceram. A ideia é que ninguém force o termo “romance de bastidores”, mas que a linha entre trabalho e vida pessoal tenha ficado… borrada. Natural, entende?”
Ela cruzou os braços, mordendo o lábio inferior para não explodir.
— Natural. — Repetiu com sarcasmo.
— Depois disso, vocês vão precisar ser vistos juntos. Algumas aparições estratégicas. Cafés em Los Angeles, jantares reservados, talvez um show. O suficiente pra alimentar o interesse da imprensa, sem parecer uma encenação.
— Então encenar sem parecer que estamos encenando. Ótimo.
— Redes sociais: nada muito direto. Uma foto aqui, outra ali. Stories com ângulos sutis, comentários engraçadinhos. Quero que pareça casual, como se vocês estivessem tentando manter em segredo, mas não estivessem mais conseguindo esconder.
esfregou as mãos, desconfortável, enquanto apenas observava, sentindo o estômago revirar.
— E… entrevistas juntos? — Perguntou, seca.
— Uma, talvez duas. Uma para a sua revista, claro. — Ele apontou para , como se isso fosse um bônus. — Vai ser o suficiente para reforçar a história. Depois disso, eventos, tipo festas, premiações… vocês vão sorrir, trocar olhares, talvez uma mão no braço… e quando o público começar a se acostumar, vocês anunciam um término amigável, com muito respeito mútuo. — Bob ergueu os olhos para os dois. — Tudo bem roteirizado, tudo pensado… e quanto mais natural parecerem, mais rápido isso acaba.
ficou em silêncio por alguns segundos. A cabeça girando, os músculos tensionados. também não disse nada. Apenas olhava pra frente, como se processasse tudo lentamente. Ela respirou fundo, ergueu os olhos e assentiu, devagar.
— Tudo bem.
Bob deu um leve aceno de aprovação e, pela primeira vez, pareceu relaxar um pouco.
— Ótimo. Vocês vão começar amanhã. Jantar reservado, pouca luz, lugar “casualmente” frequentado por celebridades. , seu estilista já foi avisado. … bom, espero que tenha algo que pareça casualmente elegante.
Ela revirou os olhos, mas não respondeu.
— E agora? — Perguntou, de pé, pronta para ir embora dali.
Bob cruzou os braços outra vez, olhando entre os dois.
— Agora vocês se conhecem melhor. Afinal, vão ter que convencer o mundo de que estão apaixonados.
olhou para , que finalmente se virou para ela, o olhar mais suave agora.
— Posso te dar uma carona? — Ele perguntou, num tom baixo.
A jornalista hesitou por um segundo, os olhos vasculhando os dele. Talvez fosse loucura, mas, depois do dia que teve, a ideia de um silêncio desconfortável dentro de um carro com parecia menos desgastante do que ouvir as vozes na própria cabeça. Então assentiu, sem dizer nada. O carro já os esperava do lado de fora do prédio. Bob havia providenciado tudo, claro. O ator abriu a porta do passageiro para ela, mas apenas arqueou uma sobrancelha e deu a volta, entrando no banco de trás. Ele soltou um riso abafado, balançando a cabeça, e entrou na frente. O silêncio durou exatos três minutos, até ele quebrar com um suspiro.
— Sobre tudo isso… o namoro falso… eu sinto muito por ter te envolvido nisso. Sei que você não pediu pra nada disso acontecer.
apoiou a cabeça no encosto, olhando para a rua passar pela janela.
— Não precisa fingir que foi você quem causou tudo isso. Nós dois fizemos aquilo. O beijo, a exposição… a merda toda.
não rebateu. Apenas assentiu, mantendo os olhos na estrada.
— Ainda assim… não era justo você pagar o preço sozinha. Eu devia ter dito alguma coisa antes.
— Mas você disse, né? — Ela murmurou, depois de alguns segundos. — Lá com o Simon. Obrigada por aquilo.
lançou um olhar breve pelo retrovisor, tentando captar a expressão em seu rosto.
— Ele passou dos limites.
— É… — respondeu, umedecendo os lábios. — Mas algumas das coisas que ele disse estavam certas.
— Tipo?
Ela hesitou. O nó na garganta era difícil de engolir.
— Eu não fui profissional. Coloquei tudo a perder por um momento de… sei lá. Impulso, idiotice.
ficou em silêncio por um tempo, os dedos batendo ritmadamente no volante.
— Ou talvez só por ser humana. — A resposta veio baixa. — O que já é um crime suficiente nesse meio.
Ela soltou um riso seco.
— Engraçado ouvir isso de você.
— Por quê?
— Porque você parece bom demais em se blindar. Em não se deixar afetar.
soltou uma risada breve, sem humor.
— Isso é o que eu deixo parecer. — O silêncio voltou, denso, mas menos cortante, até ele o romper de novo. — E você… sempre quis ser jornalista?
franziu o cenho, surpresa.
— De verdade?0
— É, de verdade. Quero saber quem é você além da mulher que me entrevistou… e me beijou em frente a uma câmera.
— Isso vai virar piada interna agora? — Bufou, cruzando os braços.
— Talvez. — Ele respondeu com um sorriso de canto. — Vai depender do seu senso de humor.
Ela hesitou por alguns segundos, então suspirou:
— Sim, sempre quis ser jornalista. Desde criança. Meus pais achavam que eu ia acabar escrevendo livros ou colunas de moda, mas eu gostava mesmo era de investigar. Fuçar. Ouvir histórias. Ter acesso onde ninguém tinha.
— E conseguiu. Tá dentro.
— Quase isso… eu tenho que começar de algum lugar, não é? Surgiu essa oportunidade na Autumm Magazine e eu não pude recusar.
— Já é mais do que muita gente.
— É. Só não achei que meu primeiro furo de sucesso viria com uma etiqueta de “namorada de ator famoso”.
soltou um riso fraco.
— Vai render ótimos bastidores pro livro da sua biografia, pelo menos.
Ela o olhou pelo espelho, tentando esconder o sorriso involuntário. Continuaram conversando por mais alguns minutos, até o carro parar em frente ao seu prédio. O silêncio voltou, mas, dessa vez, tinha um gosto diferente. Algo entre tensão e curiosidade. desligou o motor, mas permaneceu ali, de lado, olhando para pelo banco da frente. Ela estava com a mão na maçaneta, mas não se mexeu.
— Vai conseguir fingir que gosta de mim? — Ele perguntou, com um sorriso enviesado.
A jornalista o olhou nos olhos, sem desviar.
— Se você não atrapalhar, acho que consigo.
inclinou ligeiramente o corpo, sem sair do banco, a voz mais baixa agora:
— Vai fingir tão bem quanto beijou naquela noite?
piscou devagar. O ar pareceu parar por um segundo. O interior do carro parecia menor, quente demais. Ela não respondeu de imediato. A tensão entre os dois era quase física, como se um fio invisível os conectasse, esticado ao limite. Seus olhos se prenderam aos dele por tempo demais. Mas então abriu a porta com um clique seco.
— Descobre na próxima vez que me beijar. Até amanhã, . — Disse, sem olhar para trás, antes de sair do carro e bater a porta.
ficou ali, parado, ainda virado para o banco de trás, com um meio sorriso se formando no rosto. Um que tentou esconder, mas não conseguiu evitar. Talvez esse namoro falso fosse mais complicado do que ele imaginava.



estava em casa, mas não conseguia relaxar. Sentada no sofá, com os joelhos dobrados e uma xícara de café quase intocada entre as mãos, encarava um ponto fixo na parede como se fosse ali que estivessem as respostas que precisava.

“Vai fingir tão bem quanto beijou naquela noite?”

A frase se repetia como um eco incômodo, sarcástico e provocante, mas havia algo mais ali, escondido por trás do tom debochado de .

Um interesse genuíno? Uma lembrança viva? Uma vontade?

Ela bufou e apoiou a cabeça no encosto, os olhos fechados.

Ele tinha gostado?

Odiava estar pensando nisso. Não devia, na verdade. Tinha coisas muito mais importantes em jogo, tipo sua carreira inteira, por exemplo. Ainda assim, era essa frase que não parava de se repetir na cabeça dela e o jeito como ele a olhou. Apertou os olhos, frustrada com os próprios pensamentos, até três batidas secas na porta chamarem sua atenção. Assim que abriu, deu de cara com Lisa – a melhor amiga, o furacão de energia e curiosidade – parada ali, com um pacote de cookies numa mão e uma garrafa de vinho na outra.
— Eu trouxe apoio emocional… e carboidratos… e álcool. — Sorriu, empurrando a porta com o quadril para entrar. — Porque se eu tivesse sido vista beijando o , eu também ia precisar dos três.
soltou um suspiro, entre um riso e um gemido de desespero, enquanto fechava a porta atrás dela.
— Claro que você pode entrar… só promete que não vai me fazer mais perguntas do que meu editor?
— Prometo nada. — Lisa jogou a bolsa no sofá. — Só se você me prometer uma coisa primeiro.
— O quê?
— Me contar se ele beija tão bem quanto parece. — jogou uma almofada na amiga, que segurou no ar, rindo. — A agressão confirma. — Ela se jogou no sofá, abrindo o pacote de cookies. — Agora desembucha, vai. Você tá com uma cara de quem acabou de aceitar um pacto com o diabo.
afundou no sofá ao lado dela, passando a mão pelo rosto.
— Porque foi mais ou menos isso mesmo.
— O quê? — Lisa arregalou os olhos. — Não me diga que você e o … estão mesmo juntos?
— Estamos, mas não de verdade.
— Como assim?
— Namoro falso, com contrato verbal, estratégia de marketing e direito a aparição pública.
— Você tá brincando.
— Queria estar. A gente teve uma reunião com o Simon e o Bob, o agente do , e ele veio com esse plano mirabolante pra “salvar” a nossa reputação.
— E o Simon?
— Ele me destruiu. Disse que eu fiz a revista parecer um escândalo barato, que ninguém ia me levar a sério depois disso… — fez uma pausa, sentindo a garganta apertar. — … e que eu parecia uma jornalista qualquer que dormiu com o entrevistado pra conseguir destaque.
Lisa arregalou os olhos, indignada.
— Ele disse isso? Em voz alta?
— Disse, com todas as letras. E, se não fosse o Bob interrompendo, eu acho que teria sido demitida ali mesmo.
— Esse cara devia ser processado.
— Pois é, mas o Bob foi meio esperto… prometeu que ia “controlar os danos”.
— Então você vai ter que… fingir que está apaixonada por quanto tempo?
— Alguns meses, até a poeira baixar… até parecer convincente.
— E vai ter que beijar ele na frente das câmeras? Quer dizer, oficialmente?
desviou o olhar, o rosto pegando fogo.
— Sim, beijos, fotos, aparições… provavelmente entrevistas conjuntas. Vamos até “revelar” que já estávamos juntos desde antes da primeira entrevista.
— Isso tá parecendo roteiro de série.
— Pois é. Só faltou alguém gritar “corta” quando saímos da sala.
Lisa ficou em silêncio por um momento antes de dizer:
— E… como você tá com isso tudo?
hesitou, o silêncio na sala se tornando pesado por alguns segundos.
— Me sentindo uma fraude. Parte de mim pensa que talvez eu mereça o que o Simon disse, que eu fui irresponsável e coloquei tudo a perder por causa de um beijo. Mas, outra parte… sabe que ele exagerou, foi machista e que, de alguma forma, eu ainda tô tentando proteger o que eu construí, nem que seja mentindo.
A amiga se aproximou, tocando em seu braço com cuidado.
— Você não é uma fraude. Você é humana. E essa história toda? Não é só sobre salvar a imagem dele. Eles sabem que você tem talento, se não nem teriam se importado. Isso tudo é sujo, mas… talvez você consiga sair por cima. Talvez até melhor do que entrou.
— Tomara.
Lisa sorriu e se levantou num salto.
— Vamos fazer o seguinte: vinho, cookies e uma lista de prós e contras sobre namorar , mesmo que seja de mentirinha. Porque, se você vai viver um romance fake, vai ter que entrar no personagem.
riu, finalmente relaxando um pouco, e observou a amiga pegar um bloquinho e uma caneta, como se estivesse se preparando para uma entrevista.
— Você é um gênio do caos.
— Sempre. Para começar, senhorita , a pergunta mais importante… ele beija bem mesmo ou aquela cena foi atuação pura?
pegou a taça de vinho com um olhar misterioso.
— Só vou dizer que… se for tudo fingimento, ele merece um Oscar.
— Puta merda.
As duas riram alto, o som ecoando pela sala como um pequeno alívio depois de um dia pesado.

No dia seguinte, o despertador tocou mais cedo do que gostaria, mas não teve coragem de apertar o “adiar”. Pela primeira vez em dias, teria um compromisso fora da rotina de trabalho – e não era qualquer compromisso. Ela se sentou na cama e respirou fundo.

Primeiro encontro de mentira com um astro de cinema. Nada demais.

Foi até a cozinha ainda de pijama, preparando café e tentando ignorar o buraco no estômago. Estava nervosa, ansiosa, curiosa… e talvez um pouco irritada por estar sentindo tudo aquilo. Enquanto mordia uma torrada distraída, ouviu alguém bater na porta e, quando abriu, deu de cara com o porteiro do prédio segurando uma caixa elegante e uma sacola de tecido.
— Para a senhorita . — Disse, com um sorriso cúmplice. — Foi entregue há pouco.
agradeceu, pegou os pacotes e fechou a porta com a testa franzida. Sobre a caixa, havia um envelope com seu nome escrito à mão. Ela abriu o bilhete primeiro, o coração batendo mais rápido do que gostaria:

,

Sei que você é perfeitamente capaz de escolher a própria roupa, mas digamos que essa ocasião exija algo especial. Escolhi uma roupa que combina com a imagem do casal “apaixonado e discretamente glamouroso” que eles querem vender – e, honestamente, só consegui imaginar você usando isso.

Espero que goste. Ou que, pelo menos, não odeie.

.


abriu a caixa com cuidado, revelando um vestido de seda na cor vinho, justo no corpo mas com um caimento leve. Era ousado, mas elegante. Uma fenda lateral discreta, um decote que flertava com o limite da sensualidade sem parecer forçado. Exatamente o tipo de roupa que fazia alguém parecer inacessível e desejada ao mesmo tempo. Na sacola, um par de saltos pretos e delicados, e um brinco pequeno brilhante. Ela levou tudo até o espelho e segurou o vestido na frente do corpo, ainda em silêncio.
— O desgraçado tem bom gosto… — murmurou, contrariada.
E tinha. A roupa parecia ter sido feita sob medida para ela. Pegou o bilhete de novo, relendo a última frase com atenção, e revirou os olhos, balançando a cabeça, mas não conseguiu evitar o sorriso que ameaçou crescer em seu rosto.

— Me lembra por que você aceitou isso mesmo? — Lisa perguntou, jogada na cama de , segurando uma taça de vinho como se fosse parte do figurino.
— Porque estou completamente desequilibrada, aparentemente. — Respondeu do banheiro, onde finalizava a maquiagem.
— … e porque ele é gostoso, vamos ser sinceras. — A amiga completou, mas arregalou os olhos ao vê-la surgir na porta, vestida com o vestido vinho, os cabelos soltos em ondas suaves e um brilho nos olhos que nem ela sabia explicar. — Uau.
— Sério?
— Sério. Se ele não estiver apaixonado ainda, vai ficar hoje. — riu, nervosa, enquanto passava um último toque de perfume atrás das orelhas, o coração batendo rápido demais. Odiava admitir o quanto aquilo a afetava… o quanto ele a afetava. — E você sabe que esse vestido não foi só pra impressionar os fotógrafos, né? Ele te mandou isso porque queria te ver assim. — Ela mordeu o lábio inferior, fingindo ignorar o comentário, mas a verdade era que aquilo tinha atravessado sua armadura com precisão cirúrgica. Antes que pudesse responder, o interfone tocou, fazendo-a congelar por um segundo. Lisa deu um gole dramático no vinho antes de se levantar animada. — Vai lá, o seu “namorado” está te esperando, Cinderela.
pegou a bolsa com as mãos trêmulas, deu uma última olhada no espelho, respirou fundo e desceu. Lá fora, estava encostado em um carro discreto, com as mãos no bolso do paletó escuro, o cabelo perfeitamente bagunçado e a camisa meio aberta no colarinho. Quando a viu, seus olhos percorreram cada centímetro do vestido, lentamente, sem vergonha alguma.
— Você chegou atrasado. — disse, se aproximando.
— Estava tentando parecer misterioso. Mas você… — parou por um segundo, os olhos cravados nela. — … você acabou de redefinir o conceito de “perigo público”.
Ela arqueou uma sobrancelha, segurando um sorriso.
— Como assim?
— Eu só tô preocupado com os danos colaterais. Pessoas tropeçando, câmeras tremendo… — ela riu e, por um momento, os dois ficaram em silêncio, apenas se olhando. — Vamos? — Abriu a porta do carro e entrou, sentindo o coração ainda mais acelerado. Quando ele entrou no carro e o motor ligou, a tensão se acomodou entre os dois como um terceiro passageiro, mas dessa vez havia uma intimidade diferente ali. — Você tá bem?
— Tô. Um pouco nervosa, talvez. Nunca fui boa em eventos chiques e sorrisos ensaiados.
— Vai se sair bem. Eles vão te amar, talvez até mais do que a mim… — disse, dando uma olhada rápida de lado. — E eu vou tentar não ficar com ciúmes.
Ela soltou uma risada curta, surpresa com o tom provocador.
— A gente só tá fingindo, lembra?
— Claro, mas posso fingir ciúmes também. Sou ótimo fingindo.
o olhou, tentando decifrar até onde ia a brincadeira.

O restaurante era exatamente o que ela esperava de um encontro com um ator de Hollywood: luz baixa, velas em cada mesa, garçons que falavam em sussurros e uma seleção musical que parecia ter sido escolhida a dedo para acender algo no ar. entrou ao seu lado como se aquele lugar fosse uma extensão da casa dele. Os funcionários sorriram largamente e um deles os conduziu até uma mesa no canto, ligeiramente afastada, com vista para a varanda interna.
— Então… isso é casual pra você? — perguntou, sentando-se.
— É o mais casual que o Bob conseguiu reservar sem parecer armado. — Ele respondeu, puxando a cadeira para ela antes de sentar do outro lado.
notou os olhares de canto vindo de duas mesas próximas. O tipo de atenção silenciosa, quase educada, mas ainda assim, interessada demais. Então, se inclinou para frente, apoiando os braços na mesa.
— É agora que a gente finge que tá apaixonado?
— Eu não vou precisar fingir tanto quanto imaginei. — Ela sentiu a espinha gelar – não pela frase em si, mas pelo olhar com que ele a acompanhava. O garçom chegou com duas taças de vinho branco e aceitou a dela, tentando manter a respiração regular. — Se alguém tirar uma foto, temos que parecer confortáveis.
— Isso aqui é confortável pra você?
— Você tá incomodada?
— Não, mas… é estranho.
— Pra mim também. — Ele apoiou um braço no encosto da cadeira, girando um pouco o corpo pra ela. — Só quero que saiba que, se quiser sair disso a qualquer momento, é só dizer.
assentiu, mas não respondeu. Um silêncio confortável se instalou por alguns segundos, até que os pratos chegaram. Eles comeram aos poucos, entre perguntas sobre filmes, revistas de fofoca e a vida fora disso.
— Você realmente odeia dar entrevistas? — Ela perguntou, depois de alguns goles.
— Não, eu só… odeio perguntas que fingem ser curiosidade, mas são armadilhas.
— E acha que eu sou uma armadilha?
— Não, eu realmente acho que você é um perigo real… e, pior, autêntico.
Ela mordeu o lábio, segurando um sorriso. Debaixo da mesa, os pés deles se tocaram, mas nenhum dos dois se afastou.
— Isso foi uma cantada?
— Uma constatação.
se recostou na cadeira, ergueu a taça e disse, como se estivesse brindando:
— Ótimo, porque uma cantada vinda de você agora deixaria tudo muito mais complicado.
— Ah, então não estamos complicados ainda?
— Eu diria que ainda estamos no nível “encenação elegante”.
Ele deu uma risada baixa, olhando pro vinho, depois de volta pra ela.
— Isso tá começando a parecer uma péssima ideia muito boa.
— Ou uma boa ideia muito perigosa. — respondeu com um sorriso pequeno.
O clima entre eles estava tão denso que bastaria um toque a mais, uma palavra, ou um gesto, e tudo desabaria. Ele olhou para o relógio.
— Acho que aguentamos mais uns dez minutos sem nos beijar. O Bob vai ficar orgulhoso.
— Você fala como se fosse difícil se controlar.
— Você fala como se não fosse. — Ela não respondeu e o silêncio, mais uma vez, disse muito mais do que qualquer resposta. O prato principal já havia sido retirado e o vinho seguia descendo com mais facilidade do que deveria. apoiou o queixo na mão, os olhos fixos nela, como se estivesse absorvendo cada microexpressão. — Parece surpresa.
— Por quê?
— Porque algo me diz que você não esperava que eu fosse… — ele buscou a palavra certa — … normal.
girou a taça entre os dedos, pensativa.
— Você não é exatamente o pôster do cara “normal”, mas confesso que achei que seria mais arrogante.
— E você? — Ele ergueu a sobrancelha. — Eu achei que fosse mais… durona.
— Não sou?
— É, mas também é… — fez uma pausa, observando o jeito como ela escondia o sorriso, sem perceber. — … tipo uma tempestade prestes a acontecer.
— Isso também é uma cantada?
— É um aviso… tempestades me atraem.
desviou o olhar, engolindo o sorriso que insistia em escapar.
— E o que mais te atrai, ?
Ele se inclinou um pouco, com os cotovelos apoiados na mesa.
— Pessoas que não se encantam fácil, que não tentam me agradar… que me desafiam.
Ela cruzou as pernas debaixo da mesa, o salto tocando levemente o tornozelo dele – de propósito.
— E jornalistas que você mal conhece entram nessa lista?
— Só uma até agora… — a voz dele abaixou de tom. — … mas tô tentando descobrir se ela vale o risco.
encarou-o por um segundo longo, deixando o ar entre eles ficar mais espesso, e se levantou.
— Vamos? — Perguntou, segurando a bolsa com elegância.
a seguiu de imediato, como se não tivesse mais interesse no restaurante, no vinho, nas celebridades ao redor. O carro dele os esperava do lado de fora. Durante o caminho, não disseram muita coisa, mas havia algo nas entrelinhas – no silêncio confortável, no jeito como os ombros se encostavam de leve no banco traseiro. O carro desacelerou na frente do prédio e se inclinou pra frente, falando com o motorista:
— Espera aqui. Eu vou acompanhá-la até lá em cima.
ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Enquanto atravessavam o saguão em silêncio, os olhos dele não deixaram os dela por muito tempo. O vinho ainda dançava em suas cabeças, aquecendo os corpos, as palavras e até os sorrisos mais sutis. Quando entraram no elevador, encostou na lateral, os ombros quase tocando os dela, e a distância entre os dois pareceu menor do que realmente era.
— Então… você realmente respondeu numa coletiva que só fica nu se o roteiro exigir ou se a entrevista for boa o suficiente? — Ela perguntou, mordendo o lábio para conter o riso.
— Eu disse. — Ele confirmou, com um meio sorriso. — Tinha dormido duas horas na noite anterior e a pergunta era idiota. Apenas dei a resposta que mereciam.
— Meu Deus… você é um perigo, .
— Você ainda não viu a metade, . — Respondeu com a voz baixa e arrastada, os olhos fixos nos dela.
desviou o olhar por um segundo, mas não conseguiu disfarçar o rubor que subiu pelas bochechas. O elevador chegou ao andar, eles caminharam em silêncio até a porta e ela girou a chave, mas, antes de entrar, virou-se para , que estava parado no batente, mas deu um passo à frente, suficiente para que ficassem perigosamente próximos. Ele levantou a mão, lentamente, como se fosse afastar uma mecha de cabelo do rosto dela, mas parou no meio do caminho.
— Eu ia… — começou, a voz rouca.
— Eu sei… — ela respondeu, quase sem ar.
E foi nesse exato momento que…
— ALICE? — A voz de Lisa explodiu de dentro do apartamento, abafada por uma risada histérica em seguida. — Eu já tava achando que você tinha ido parar num motel de mentira com seu namorado de mentira depois de não responder…
arregalou os olhos, um sorriso divertido surgindo nos lábios, e se virou imediatamente, interrompendo a amiga.
— Lis, você não ia pra casa?
— E perder as novidades em primeira mão? Claro que… — ela apareceu ao lado deles de moletom, cabelo preso em um coque alto e um pote de sorvete na mão, só então percebendo a presença de . — Ai… meu… Deus. — Apontou com a colher para ele. — Você é real…
fechou os olhos, envergonhada, e riu, baixo, se afastando um passo.
— Até onde eu sei, sim.
, essa é a Lisa.
— Melhor amiga “verdadeira”, e pode me considerar sua cunhada “falsa”. — Murmurou, com um sorriso, e estendeu a mão para , que cumprimentou.
— Acho que você já deve saber quem eu sou, então, prazer.
Os três ficaram parados, meio sem saber o que fazer, até Lisa quebrar o silêncio, se afastando:
— Mas, por favor, não deixem minha presença atrapalhar…
— Tchau, Lis… — empurrou a porta mais um pouco, tentando impedir que Lisa falasse qualquer outra coisa. — Obrigada por me acompanhar.
— Imagina… acho que sua amiga tem o timing perfeito.
— Ela tem. — respondeu, tentando recuperar a compostura.
Os dois sorriram e, por um momento, ele apenas a observou. O jeito como ela desviava o olhar, o sorriso nos lábios, o corpo encostado na porta. Era quase cruel ter que ir embora.
— Boa noite, tempestade. — Disse finalmente, recuando devagar até o elevador.
Assim que a porta se fechou, Lisa correu até a amiga, largando o pote de sorvete.
— Você vai me contar tudo, agora.
não respondeu de imediato. Ficou ali, encostada na madeira da porta, tentando entender o que diabos tinha acabado de acontecer.
— Eu… acho que tô ferrada. — Disse, por fim, deixando os saltos perto da porta, atravessando a sala descalça e jogando a bolsa no sofá com um suspiro, enquanto Lisa a seguia com os olhos arregalados.
— Tá legal, me dá uma timeline, me dá nomes, me dá… tudo.
Ela riu, sentando-se ao lado dela com as pernas dobradas.
— Calma, Lis, a gente só jantou.
— “Só jantou”? Não me venha com eufemismos! Você saiu daqui com um vestido que poderia facilmente estar numa passarela de Cannes. Ele te buscou de carro, com motorista e tudo. É, eu vi tudo pela janela.
revirou os olhos, tentando não sorrir.
— Ele foi gentil, educado… me escutou de verdade. E tem um senso de humor muito perigoso.
— Você riu?
— Várias vezes.
— E você encostou?
— Talvez, acidentalmente. Uma ou duas… sete vezes.
— E ele te olhou como quem quer tirar o vestido com o poder da mente?
riu, se jogando pra trás no sofá.
— Lis!
— EU SABIA. — Ela bateu palmas. — E aquela cena ali na porta? — Perguntou, já voltando ao tom conspiratório. — Ele tentou entrar, né?
mordeu o lábio, lembrando da tensão no corredor há minutos atrás.
— Acho que sim… só que você apareceu com o seu pote de sorvete, como se fosse uma aparição do além.
— Eu sou o caos e a proteção ao mesmo tempo, querida… de nada.
Continuaram conversando e rindo muito até acabarem adormecendo no sofá, cada uma com uma coberta torta sobre o corpo.

O sol entrava preguiçoso pela janela. ainda estava enrolada na manta do sofá quando o celular vibrou pela oitava vez em dois minutos. E, ao pegar o aparelho, viu as notificações que pipocavam:

“Novo Casal? e jornalista aparecem em jantar íntimo em West Side.”

“Quem é a mulher que fez sorrir durante toda a noite?”

“O sorrindo pra ela me destruiu. Não sabia que eu shippava esse casal até agora.”

Simon: , que diabos foi isso?
Simon: Você acabou de humanizar o . Parabéns!!!
Simon: O jantar rendeu mais do que cinco anos de entrevista.
Simon: A foto dele te olhando no carro parece coisa de roteiro da Netflix.
Simon: Quero essa matéria logo.
Simon: E, pela primeira vez, não quero que seja só profissional.


se sentou devagar, os olhos arregalados.
— Lis…
— Hum?
— A gente viralizou…
— Como assim “a gente”? — Perguntou, ainda de olhos fechados.
Ela virou o celular na cara da amiga, mostrando uma foto que algum paparazzi claramente havia tirado de longe: abrindo a porta do carro, o olhar cravado nela, como se ninguém mais existisse, e ela descendo sorrindo.
— MEU DEUS! — Lisa se levantou em um pulo. — Isso é um pôster de comédia romântica.
— E o Simon me elogiou.
— O mesmo Simon que falou que você não se comportou como uma profissional?
— Esse mesmo.
As duas se encararam.
— Amiga, eu te conheço… não começa a gostar dele, por favor. — Lisa quase suplicou, como se já previsse o futuro.
suspirou, encostando a cabeça no sofá.
— Eu não vou, Lis… não posso. — Garantiu, apesar de parte dela não estar com tanta certeza assim.


Continua...


Nota da autora: Queria agradecer pela indicação ao Constelações de Ouro. Eu amo essa fic e é muito bom saber que ela foi reconhecida. Esse cap tá recheado de mimos do “casal do momento”, principalmente a cena do jantar 👀, mas felicidade de pobre dura pouco… espero que gostem. 💜

🪐

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