Prólogo
— Tem certeza de que o lugar é esse? — conseguiu ver pelo retrovisor a careta de quando o veículo se aproximou do grande galpão.
— Onde você queria que fosse, princesinha? Em uma mansão de luxo? — Callum resmungou, do banco do carona, e recebeu um tapa nos ombros como resposta.
— Ah, cala a boca! — revirou os olhos. Já estava irritada o suficiente por saber que precisariam entrar naquele lugar.
— Sabe que isso fugiria totalmente dos clichês dos lugares abandonados? — Elias entrou na onda, porém havia uma certa sinceridade em sua observação.
— É claro, porque nós temos cachê de sobra para alugar um set chique. — Morgan Davis, ao lado de , imitou o gesto dela de revirar os olhos.
— Nunca se sabe, ué? Nenhuma das grandes franquias começou com alto orçamento. Até parece que nunca estudaram sobre isso. — , por fim, estacionou próximo à porta.
A van parou em um tranco seco e, por alguns segundos, ninguém moveu um músculo, estavam imersos demais observando o galpão, que se erguia diante deles como se fosse um gigante de ferro adormecido, com as paredes cobertas de ferrugem e janelas estilhaçadas.
O vento atravessou as frestas e as portas de metal rangeram num som grave, o que causou arrepios nas espinhas de alguns ali presentes.
— Credo. Esse lugar tá fedendo a ferrugem e mofo. — Juniper fez uma careta e foi a primeira a descer devagar. Ela apertou a bolsa contra o peito, como se esperasse que alguém fosse sair correndo de dentro do local para levá-la dela.
— Ah, qual é, Juni? Vai ser divertido! — Griffin pulou para fora logo em seguida, tropeçou no degrau e quase foi ao chão, o que arrancou uma gargalhada de Callum.
— Porra, Griffin! Você é um perigo até fora de cena. — Jasper também riu, enquanto o ajudava a se equilibrar.
deu uma boa olhada em volta e tentou não pensar no quão isolado aquele local parecia, então foi ajudar os outros a descarregar as caixas de equipamentos. Como parte do elenco e estrela principal do filme, não era bem sua obrigação, porém todos ali eram amigos e faziam questão de se ajudarem.
Seraphine, a maquiadora, examinou o entorno com um olhar curioso quando adentraram o galpão.
— Nossa, a iluminação natural vai ser um lixo, mas nada que algumas lâmpadas não resolvam. — Encolheu os ombros e se sobressaltou com um barulho súbito, vindo de um dos cantos do local.
— Tá vendo? — Callum abriu os braços de forma teatral. — Eu disse que esse lugar é perfeito. Já tem até o som ambiente: vento, janelas trincadas, portas rangendo e, provavelmente, uns ratinhos.
se encolheu.
— Se eu ver um rato, juro que vou embora e vocês nunca mais vão me ver!
— Fica tranquila, . Não acho que algum rato vai aguentar essa sua cara de nojo — Elias retrucou, só para provocar, e recebeu um tapa no ombro.
— Você é ridículo. Já te falaram isso?
— Calma, crianças. Vou ter que colocar os dois de castigo, um em cada ponta do galpão? — Morgan alfinetou. — Temos muito trabalho pela frente para os dois ficarem nessa implicância.
segurou a resposta porque, instantes depois, também adentrou o ambiente e observou em volta com uma expressão satisfeita.
— Esse cenário é incrível e vai dar muita credibilidade ao curta. A plateia vai engolir cada segundo.
Acompanhando suas palavras, a equipe deu mais uma olhada em volta e, mesmo que a maioria concordasse, nem todos estavam felizes.
As portas se abriram com dificuldade, e o metal rangeu alto demais para o gosto de cada um ali presente.
O interior do galpão conseguia ser mais sombrio e sinistro do que o lado de fora. Havia poeira acumulada no chão, marcas de ferrugem escorriam pelas paredes como se fossem cicatrizes, e o cheiro de umidade estava impregnado no ar, sem falar em uns respingos estranhos em alguns pontos, e eles evitaram pensar que era sangue, ou algo do gênero.
— Sério, gente… Quem em sã consciência realmente acha que esse é o cenário ideal para passar horas e horas? — olhou para dentro com relutância.
— Estus desesperados para ganhar um festival — respondeu, como se fosse óbvio, e ela mordeu a língua porque detestava aquele ar presunçoso.
Callum e Elias soltaram risadas nervosas e foram ajudar Jasper com as câmeras.
Juniper organizava a mesa de maquiagem, quando um frio que não vinha só das correntes de vento cruzou o espaço, era como se alcançasse seus ossos, e a mulher parou por alguns segundos para abraçar os braços e os acariciar rapidamente para tentar esquentá-los.
O silêncio entre uma risada ou outra de repente parecia pesado demais, e algo formigava em sua nuca, como se não estivessem sozinhos.
De repente, a maquiadora entrou em estado de alerta.
— Vocês ouviram isso?
Todos pararam para encará-la e tentar identificar do que falava.
Então o soou ecoou mais uma vez.
Metálico.
Profundo.
Algo havia se movido no corredor escuro ao fundo, ela tinha certeza.
— Deve… deve ter sido o vento. — Morgan tentou, incerta.
— E desde quando o vento faz som de passos? — Juniper sussurrou, quase chorosa.
De repente, as lâmpadas penduradas no teto começaram a balançar e emitiram um rangido suave. Uma delas se apagou, num estalo, e metade do galpão foi lançado na penumbra.
franziu o cenho.
— Essa porra de instação elétrica.
forçou um sorriso e engoliu o suspiro que queria soltar, numa tentativa de disfarçar o incômodo.
— Relaxa, gente. Não tem nada mais clichê do que luz piscando, não é? Aposto que tem algum pássaro preso aqui dentro.
E, como num roteiro ensaiado, de repente a ave saiu dos fundos do galpão e cruzou toda a extensão do local, então pousou em uma das janelas quebradas.
Era um corvo.
Todos se entreolharam por alguns segundos, então caíram na risada. A tensão ainda estava presente ali, e, enquanto voltavam ao trabalho, ninguém quis comentar a sensação constante de que alguém parecia observá-los.
Enquanto descarregavam as caixas para começar a arrumar o cenário, uma corrente de ar gelado passou entre eles, o que fez as páginas do roteiro escrito por se agitarem no chão. Uma folha se desprendeu, deslizou até o corredor escuro, parou ali, bem na entrada, e ficou presa sob um dos fios estendidos das câmeras.
Griffin, que se afastou até o local para ajudar a instalar o equipamento, se abaixou para pegá-la, e quando se ergueu novamente, jurou ver algo: uma silhueta imóvel, meio perdida nas sombras.
Sacudiu os ombros.
Piscou.
E nada.
Sumiu.
Balançou a cabeça em negação e pigarreou baixo.
— Tudo bem, Griff? — se aproximou e o olhou curiosa.
— Aham. De boa! Vou ajudar o pessoal com a montagem. — Usou um tom mais firme do que sentia.
— Tá, mas não esquece que você tem que passar pela Juni também. Quando menos tempo a gente passar nesse lugar, melhor.
Griffin assentiu e, curioso, trouxe a folha para mais perto.
Era a capa do roteiro.
Letras garrafais estampavam nela o título do curta:
STABBED.
E logo abaixo, como se fosse uma assinatura do roteirista, havia uma impressão digital vermelha.
Por um instante, ele achou que fosse tinta, talvez algum teste de efeito de sangue, mas a cor…
A cor era densa demais.
Griffin limpou o polegar na calça, e o som das vozes ecoou ao longe, de repente abafado pelo vazio do galpão. O vento uivava pelas frestas e soprava as cortinas rasgadas como véus negros.
A capa se moveu sozinha, deslizou alguns centímetros dos dedos dele, como se alguém tivesse a tocado. O movimento foi lento, deliberado, quase cuidadoso.
O jovem riu de si mesmo.
— E eu nem tô chapado ainda. Deve ser o vento. — Sacudiu a cabeça em negação.
Então ouviu um estalo.
Baixo. Metálico. Como uma lâmina arranhando a parede.
Griffin virou o rosto em direção ao corredor escuro, mas não viu nada além dela. A penumbra se movia, dançava no ritmo da luz que tremeluzia sobre os cabos.
— ? — ele chamou, incerto.
Nenhuma resposta.
O eco devolveu seu nome, prolongado, distorcido.
… …
Griffin deu um passo para trás, com o coração acelerado. No silêncio que se seguiu, ele jurou ouvir uma respiração.
Lenta.
Pesada.
Atrás dele.
Virou-se num sobressalto… Nada.
Só a capa, novamente caída, repousava no chão.
Mas agora a impressão digital havia se espalhado em uma linha torta e atravessava o título como um corte fresco.
STABBED.
E, nas sombras ao fundo, algo respirou de volta.
— Onde você queria que fosse, princesinha? Em uma mansão de luxo? — Callum resmungou, do banco do carona, e recebeu um tapa nos ombros como resposta.
— Ah, cala a boca! — revirou os olhos. Já estava irritada o suficiente por saber que precisariam entrar naquele lugar.
— Sabe que isso fugiria totalmente dos clichês dos lugares abandonados? — Elias entrou na onda, porém havia uma certa sinceridade em sua observação.
— É claro, porque nós temos cachê de sobra para alugar um set chique. — Morgan Davis, ao lado de , imitou o gesto dela de revirar os olhos.
— Nunca se sabe, ué? Nenhuma das grandes franquias começou com alto orçamento. Até parece que nunca estudaram sobre isso. — , por fim, estacionou próximo à porta.
A van parou em um tranco seco e, por alguns segundos, ninguém moveu um músculo, estavam imersos demais observando o galpão, que se erguia diante deles como se fosse um gigante de ferro adormecido, com as paredes cobertas de ferrugem e janelas estilhaçadas.
O vento atravessou as frestas e as portas de metal rangeram num som grave, o que causou arrepios nas espinhas de alguns ali presentes.
— Credo. Esse lugar tá fedendo a ferrugem e mofo. — Juniper fez uma careta e foi a primeira a descer devagar. Ela apertou a bolsa contra o peito, como se esperasse que alguém fosse sair correndo de dentro do local para levá-la dela.
— Ah, qual é, Juni? Vai ser divertido! — Griffin pulou para fora logo em seguida, tropeçou no degrau e quase foi ao chão, o que arrancou uma gargalhada de Callum.
— Porra, Griffin! Você é um perigo até fora de cena. — Jasper também riu, enquanto o ajudava a se equilibrar.
deu uma boa olhada em volta e tentou não pensar no quão isolado aquele local parecia, então foi ajudar os outros a descarregar as caixas de equipamentos. Como parte do elenco e estrela principal do filme, não era bem sua obrigação, porém todos ali eram amigos e faziam questão de se ajudarem.
Seraphine, a maquiadora, examinou o entorno com um olhar curioso quando adentraram o galpão.
— Nossa, a iluminação natural vai ser um lixo, mas nada que algumas lâmpadas não resolvam. — Encolheu os ombros e se sobressaltou com um barulho súbito, vindo de um dos cantos do local.
— Tá vendo? — Callum abriu os braços de forma teatral. — Eu disse que esse lugar é perfeito. Já tem até o som ambiente: vento, janelas trincadas, portas rangendo e, provavelmente, uns ratinhos.
se encolheu.
— Se eu ver um rato, juro que vou embora e vocês nunca mais vão me ver!
— Fica tranquila, . Não acho que algum rato vai aguentar essa sua cara de nojo — Elias retrucou, só para provocar, e recebeu um tapa no ombro.
— Você é ridículo. Já te falaram isso?
— Calma, crianças. Vou ter que colocar os dois de castigo, um em cada ponta do galpão? — Morgan alfinetou. — Temos muito trabalho pela frente para os dois ficarem nessa implicância.
segurou a resposta porque, instantes depois, também adentrou o ambiente e observou em volta com uma expressão satisfeita.
— Esse cenário é incrível e vai dar muita credibilidade ao curta. A plateia vai engolir cada segundo.
Acompanhando suas palavras, a equipe deu mais uma olhada em volta e, mesmo que a maioria concordasse, nem todos estavam felizes.
As portas se abriram com dificuldade, e o metal rangeu alto demais para o gosto de cada um ali presente.
O interior do galpão conseguia ser mais sombrio e sinistro do que o lado de fora. Havia poeira acumulada no chão, marcas de ferrugem escorriam pelas paredes como se fossem cicatrizes, e o cheiro de umidade estava impregnado no ar, sem falar em uns respingos estranhos em alguns pontos, e eles evitaram pensar que era sangue, ou algo do gênero.
— Sério, gente… Quem em sã consciência realmente acha que esse é o cenário ideal para passar horas e horas? — olhou para dentro com relutância.
— Estus desesperados para ganhar um festival — respondeu, como se fosse óbvio, e ela mordeu a língua porque detestava aquele ar presunçoso.
Callum e Elias soltaram risadas nervosas e foram ajudar Jasper com as câmeras.
Juniper organizava a mesa de maquiagem, quando um frio que não vinha só das correntes de vento cruzou o espaço, era como se alcançasse seus ossos, e a mulher parou por alguns segundos para abraçar os braços e os acariciar rapidamente para tentar esquentá-los.
O silêncio entre uma risada ou outra de repente parecia pesado demais, e algo formigava em sua nuca, como se não estivessem sozinhos.
De repente, a maquiadora entrou em estado de alerta.
— Vocês ouviram isso?
Todos pararam para encará-la e tentar identificar do que falava.
Então o soou ecoou mais uma vez.
Metálico.
Profundo.
Algo havia se movido no corredor escuro ao fundo, ela tinha certeza.
— Deve… deve ter sido o vento. — Morgan tentou, incerta.
— E desde quando o vento faz som de passos? — Juniper sussurrou, quase chorosa.
De repente, as lâmpadas penduradas no teto começaram a balançar e emitiram um rangido suave. Uma delas se apagou, num estalo, e metade do galpão foi lançado na penumbra.
franziu o cenho.
— Essa porra de instação elétrica.
forçou um sorriso e engoliu o suspiro que queria soltar, numa tentativa de disfarçar o incômodo.
— Relaxa, gente. Não tem nada mais clichê do que luz piscando, não é? Aposto que tem algum pássaro preso aqui dentro.
E, como num roteiro ensaiado, de repente a ave saiu dos fundos do galpão e cruzou toda a extensão do local, então pousou em uma das janelas quebradas.
Era um corvo.
Todos se entreolharam por alguns segundos, então caíram na risada. A tensão ainda estava presente ali, e, enquanto voltavam ao trabalho, ninguém quis comentar a sensação constante de que alguém parecia observá-los.
Enquanto descarregavam as caixas para começar a arrumar o cenário, uma corrente de ar gelado passou entre eles, o que fez as páginas do roteiro escrito por se agitarem no chão. Uma folha se desprendeu, deslizou até o corredor escuro, parou ali, bem na entrada, e ficou presa sob um dos fios estendidos das câmeras.
Griffin, que se afastou até o local para ajudar a instalar o equipamento, se abaixou para pegá-la, e quando se ergueu novamente, jurou ver algo: uma silhueta imóvel, meio perdida nas sombras.
Sacudiu os ombros.
Piscou.
E nada.
Sumiu.
Balançou a cabeça em negação e pigarreou baixo.
— Tudo bem, Griff? — se aproximou e o olhou curiosa.
— Aham. De boa! Vou ajudar o pessoal com a montagem. — Usou um tom mais firme do que sentia.
— Tá, mas não esquece que você tem que passar pela Juni também. Quando menos tempo a gente passar nesse lugar, melhor.
Griffin assentiu e, curioso, trouxe a folha para mais perto.
Era a capa do roteiro.
Letras garrafais estampavam nela o título do curta:
STABBED.
E logo abaixo, como se fosse uma assinatura do roteirista, havia uma impressão digital vermelha.
Por um instante, ele achou que fosse tinta, talvez algum teste de efeito de sangue, mas a cor…
A cor era densa demais.
Griffin limpou o polegar na calça, e o som das vozes ecoou ao longe, de repente abafado pelo vazio do galpão. O vento uivava pelas frestas e soprava as cortinas rasgadas como véus negros.
A capa se moveu sozinha, deslizou alguns centímetros dos dedos dele, como se alguém tivesse a tocado. O movimento foi lento, deliberado, quase cuidadoso.
O jovem riu de si mesmo.
— E eu nem tô chapado ainda. Deve ser o vento. — Sacudiu a cabeça em negação.
Então ouviu um estalo.
Baixo. Metálico. Como uma lâmina arranhando a parede.
Griffin virou o rosto em direção ao corredor escuro, mas não viu nada além dela. A penumbra se movia, dançava no ritmo da luz que tremeluzia sobre os cabos.
— ? — ele chamou, incerto.
Nenhuma resposta.
O eco devolveu seu nome, prolongado, distorcido.
… …
Griffin deu um passo para trás, com o coração acelerado. No silêncio que se seguiu, ele jurou ouvir uma respiração.
Lenta.
Pesada.
Atrás dele.
Virou-se num sobressalto… Nada.
Só a capa, novamente caída, repousava no chão.
Mas agora a impressão digital havia se espalhado em uma linha torta e atravessava o título como um corte fresco.
STABBED.
E, nas sombras ao fundo, algo respirou de volta.