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Revisada por: Sagitário♐

Última Atualização: 9/1/26
NYX • ANOS ANTES.

Cassian havia levado um chute doloroso na altura de sua panturrilha, o que deveria ter rendido uma reprimenda e um aviso de castigo para o garoto de 8 anos, se este não tivesse usado a oportunidade de distração para correr o mais rápido que conseguia para longe daquele maldito lugar. Azriel, que a tudo apenas observava, pareceu tentar conter um sorriso torto, observando com divertimento o General Comandante da Corte Noturna ser reduzido a uma série de palavrões desconexos e olhos lacrimejados pelo golpe que havia recebido do sobrinho. O quase sorriso, todavia, desapareceu do rosto do Mestre dos Espiões da Corte Noturna quando os olhos registraram o menino projetando-se para fora das portas duplas do Salão do Trono da Cidade Escavada.
Nyx ouviu os gritos de tio Azriel e tio Cassian, comandando para que ele retornasse para a sala do trono imediatamente. Percebeu quando a voz suave de sua mãe acariciou sua mente, questionando o que diabos ele estava fazendo e para que ouvisse seus tios. Nyx sentiu um arrepio de medo genuíno quando ouviu o eco distante da voz de seu pai, comandando para que ele voltasse para a sala do trono imediatamente e que quando chegassem em casa teriam uma conversa séria sobre seu comportamento.
Sabia o que aquilo significava; sabia que Rhysand estaria furioso com sua atitude, sabia que o Grão Senhor da Corte Noturna estaria determinado a puni-lo da maneira correta para que Nyx nunca mais tentasse fazer outra “gracinha” igual àquela. Sabia que ficaria sentado por horas ouvindo seu pai discursar sobre como as ações de Nyx refletiam a Corte Noturna, e como ele havia sido irresponsável pelo o que havia feito, sabia que Rhysand diria como Nyx havia deixado sua mãe aterrorizada e como isso era ruim, apenas ruim de ser feito, porque quando você se importava com alguém, você nunca o machucava. Você considerava suas atitudes e como elas poderiam afetar aqueles que você amava. Sabia que estaria de castigo por tempo indefinido, e que tio Cassian iria o fazer limpar as espadas do Acampamento Illyriano pelo resto do verão, sem direito a reclamação.
Nyx sabia porque simplesmente não era a primeira vez que ele tentava escapar de uma daquelas reuniões insuportáveis. Mas era a primeira vez que ele conseguia escapar de seus tios.
Era a primeira vez que ele conseguia fazer o que queria sem ter que agir como algum tipo de marionete de seus pais, e parecer como a criança perfeita que a tudo aquilo observava, quando todos os outros estavam se divertindo. Nyx não tinha ideia do que havia assombrado seus pais tanto, mas era simplesmente insuportável como eles ficavam terrivelmente super protetores quando se tratava dele. Nyx queria ter a liberdade de se divertir, de procurar as outras crianças da Corte do Pesadelos e… apenas ser uma criança. Brincar com elas. Até mesmo fazer algumas piadas pela maneira esquisita que se comportavam. Nyx queria se divertir também, e não apenas assistir a todos ao seu redor, tendo um momento incrível enquanto ele assistia a tudo sentado ao longe apenas observando.
Foi por isso que o garoto, usando toda sua concentração, havia criado um escudo em sua mente. Ainda estava aprendendo a fazer, mas Nyx não conseguiu conter uma ponta de satisfação quando conseguiu bloquear seu pai de sua mente. O sorriso torto surgiu por seus lábios, os olhos cintilando com satisfação, obrigando-se a correr mais rápido dessa vez. Atrás de si, ele podia ouvir tio Cassian praguejar, tentando alcançá-lo, e em algum lugar entre os corredores escavados e cuidadosamente esculpidos pelas paredes das montanhas, Nyx podia ver as sombras de tio Azriel espiralar, tentando alcançá-lo. Uma delas quase envolveu o pulso do menino.
Nyx lançou um olhar por sobre seu nome, fechou o rostinho deslumbrante que era uma mistura perfeita de seus pais, grunhindo baixo com a visão de tio Cassian esticando os braços para conseguir alcançá-lo. Os dedos longos e calejados do General contorcendo-se quase como garras ao tentar alcançar o colarinho do menino. Tio Azriel havia levantado voo e pousado do outro lado do corredor, tentando bloquear a fuga de Nyx. Mas ele ainda era filho de Feyre Archeron, e sua teimosia e instinto sempre falariam mais alto. Ele prendeu a respiração, os olhos azuis desviaram-se de tio Azriel, buscando alguma coisa, uma janela, uma portinhola secreta, qualquer coisa que ele poderia usar para escapar de seus captores.
E então ele encontrou.
Escavado de forma irregular e mais como se fosse um túnel para animais de estimação, Nyx deparou-se com o que parecia ser um buraco na parede da montanha, rumando em direção aos andares inferiores da Cidade Escavada. Sabia que outros membros da corte viviam ali, membros estes que não eram assim tão gentis quanto os da Corte de seu pai. Rhysand havia sido cauteloso e bem preciso ao informar a Nyx o que ele deveria preparar-se para deparar-se; por isso Nyx deveria ser tão cuidadoso ali. Por isso que deveria ficar perto de tio Cassian e tio Azriel para não se envolver em nenhum perigo.
Mas Nyx não sentia medo daquele lugar, na verdade, o garoto sentia uma curiosidade mórbida. Queria explorar, descobrir mais sobre aquela misteriosa corte que todos pareciam temer por sua crueldade. Então, sem pensar muito, o garoto fez a primeira coisa que lhe ocorreu. Tentando encolher ao máximo que conseguia suas asas, o menino se lançou para frente, fingindo que iria virar em direção às portas duplas entreabertas a esquerda e seguir para o Salão de Máscaras, dando a tio Cassian e tio Azriel a falsa impressão de que ele seguiria pela esquerda, quando na verdade, ele se lançou para frente, deslizando como uma serpente “pegajosa” pelo piso de pedra negra polida, refletindo como um espelho não apenas as tochas, mas o sorriso incandescente de Nyx, quando o garoto passou por entre as pernas de tio Azriel.
As sombras que sempre acompanhavam o Mestre dos Espiões acariciaram vagamente os tornozelos de Nyx, mas já era tarde demais para alcançá-lo, porque o menino havia acabado de deslizar buraco a dentro. Uma gargalhada alta, misturada entre genuína satisfação por ter escapado do alcance de seus tios, e uma ponta de pânico crescente quando ele percebeu que o túnel que havia adentrado era mais apertado e íngreme do que ele havia imaginado. Nyx fechou os olhos, sentindo as paredes do túnel arranharem de leve suas asas, e o atrito do chão abaixo de si desgastar o couro de seu uniforme em miniatura illyriano —— presente de tio Cassian no último Solstício, quando Nyx finalmente havia convencido seu pai a permiti-lo aprender a voar com tio Azriel.
O túnel terminou mais rápido do que Nyx esperava, e antes que pudesse perceber alguma coisa um gritinho estrangulado ecoou e a queda do teto de Nyx foi amortecida por uma série de braços e pernas ossudos, além de uma cabeça dura. Nyx piscou, tentando se livrar da poeira que havia acumulando-se em si, tossindo e ainda rindo quando seus olhos azuis, incandescentes, piscaram, percebendo tardiamente a figura que havia amortecido sua queda.
O chorinho baixo, meio fungado, escapava em tosses irregulares, como se estivesse tentando ocultar sua própria dor e parecer mais forte do que era. Olhos grandes e expressivos estavam marejados enquanto bracinhos ossudos empurravam Nyx para longe de si. Nyx abriu um sorriso largo, rolando para longe da outra criança, desabando no chão com as pernas abertas, as asas agitando-se atrás de si, e os pés balançando de uma lado para o outro ao ver, pela primeira vez, uma criança ali.
Era pequeno em comparação a Nyx, bem menor, e parecia um tanto quanto frágil. Olhos grandes e expressivos, em um rosto sujo por fuligem, cinzas e alguma coisa mais escura que lembrava a sangue seco que Nyx via no Acampamento Illyriano. O rostinho, embora delicado, e com bochechas surpreendentemente gorduchas, era polvilhado por sardas delicadas, cintilavam como pequenas estrelas, realmente cintilando pela pele delicada e empalidecida da criança.
Nyx inclinou a cabeça para o lado, observando-a atentamente, fascinado, era como se ele estivesse olhando diretamente para o céu noturno de sua casa, mas cravejado na pele daquela criança esquisita. Os cabelos da criança eram curtinhos, e espetados para cima, engraçados, de certa forma, as mechas eram escuras como a noite, e grudentas, bem sujas mesmo, mas as raízes cresciam em outra tonalidade, mais claras, como se o tom escuro do cabelo da criança não fosse realmente o tom verdadeiro de seus cabelos. Usava roupas velhas e desgastadas, havia mais buracos nas mangas do que tecido, e tinha um curativo em seu nariz como se tivesse machucado antes da queda de Nyx.
Pela estatura, e expressão bicuda, Nyx assumiu que a criança deveria ser alguns anos mais nova que ele, talvez com no máximo 6 anos, talvez 5. Era fofa, de certa forma, se você estreitasse muito os olhos e tentasse ignorar a sujeira que a envolvia, e era sem sombra de dúvidas, uma menina. O que era estranho, porque Nyx percebeu que ela estava vestida como um menino. Ao menos, de acordo com o que tia Mor havia lhe dito que meninos usavam na Corte dos Pesadelos. Até onde Nyx sabia, meninas sempre usavam vestidos ali, e não… trapos velhos do que um dia foram uma túnica e calças. Seja qual for a motivação da menina, Nyx não se importava nem um pouco, estava mais curioso com as sardas estelares da garotinha, seu dedo coçando-se para tocá-la. E ele o teria feito, se ela não estivesse ainda fungando, os lábios transformados em um bico grande e irritado, as sobrancelhas unidas, nem um pouco contente com a presença de Nyx ali.
Por um longo momento, ele e a garotinha apenas se encararam. Ele, com um sorriso largo, repleto de expectativa, e a garotinha à beira das lágrimas, se esforçando com todo seu tamanho compacto para não chorar, tentando parecer intimidadora com todos os seus 6 anos. Ele achou graça; supôs que se ele quisesse poderia erguê-la sobre sua cabeça e não sentiria peso algum. Ele apertou os lábios em uma linha fina, percebendo, pela primeira vez, com uma ponta de desconforto que ela era diferente das outras crianças de Velaris, mesmo Emhyr, que era magricelo, ainda assim parecia ter mais carne dentro de si do que ela. Ele se questionou o que diabos poderia ter acontecido para que ela ficasse daquela forma.
Nyx estava prestes a perguntar a ela porque ela era daquele jeito, em toda sua inocência e confusão infantil, quando um grito furioso partiu da entrada do corredor largo que estavam. Primeiro ele havia achado que tio Cassian e tio Azriel finalmente havia o encontrado e ele estaria mesmo encrencado agora, mas então, os olhos azuis do garoto se fixaram na presença austera e ameaçadora de soldados illyrianos que não pertenciam ao seu pai. Nyx engoliu em seco, arregalando os olhos, e por uma fração de segundos, congelou no lugar, aterrorizado.
Então uma mão pequenininha enroscou-se em seu pulso, puxando-o de supetão com uma força bem maior do que aparentava, e Nyx encarou a nuca da garotinha, correndo como um ratinho pelos corredores, o mais rápido que conseguia, arrastando-o junto. Ele não precisou de maior incentivo. Sua respiração queimou por sua garganta, escapando por entre seus lábios secos em arfares irregulares e altos, os olhos arregalados voltavam-se ritmadamente para trás, tentando visualizar mais onde os guardas estavam, do que para onde a menina estava o levando.
As luzes das velas que se refletiam no chão escuro de pedra polida, e pareciam-se com estrelas cintilando em meio ao céu escuro noturno, tremeluziam, instáveis, acompanhando a agitação no ar deixado para trás de si das duas crianças desesperadas. Os guardas os seguiam como cães infernais, dispostos a conseguir seus ossos de gratificação. E a mão da garotinha, enroscada firmemente no pulso de Nyx, tremia. Foi quando o menino teve uma ideia.
Se brilhante ou apenas burra, pouco ele poderia saber qualificá-la, mas com os poucos recursos e com o desespero, o menino fez o que achou que conseguiria no momento. Lançou-se para frente, abraçando a garotinha, apertado, e ouvindo-a gritar como um ratinho preso em uma ratoeira, e então saltou janela afora. Lembrou-se de tio Azriel, das palavras dele ao tentar ensinar-lhe a voar. De como haveria um momento em sua vida que ele não teria escolha se não o fizesse, e por um breve momento, Nyx considerou se não seria este. Suas asas se esticaram, estendendo-se em todo seu tamanho infantil, e ele obrigou-se a agitá-las, tentando conseguir estabilizar e voar com a garotinha de volta para o salão do trono… onde quer que isso fosse…
Mas Nyx calculou muito, muito mal.
Mesmo que ela fosse raquítica e pequena, Nyx ainda era apenas um garoto de 8 anos.
O tempo pareceu desacelerar ao redor das duas crianças, estagnado e prolongando-se à sua frente, consciente de tudo o que acontecia ao seu redor. Ele bateu suas asas com mais força, os membros fazendo um ruído alto ao esticarem-se ao seu máximo e tentarem puxar o menino e a menina para cima. Deslizaram suspensos o ar, os dedos dele fincando-se no corpinho ossudo da garotinha, tentando não a derrubar no breu que se abria abaixo de si ao mais profundo da Cidade Escavada. Por um breve momento, ele teve certeza que conseguia alcançar a outra balaustrada, o mármore a poucos centímetros de acariciar a ponta de seus dedos, se ele somente esticasse um pouco mais, ele conseguiria.
As pernas dele enroscaram-se com mais força ao redor da garotinha, tentando não a derrubar na bocarra escura e desprovida de quaisquer traços de luz, que se abria abaixo de si, em um precipício amedrontador. Sussurrou para si mesmo, em quase um mantra, para não olhar para baixo, que ele só precisava se esticar um pouco mais. Mas então, a garotinha escorregou de seu aperto, e o grito assustado dela, em queda livre, o fez entrar em pânico.
Ele se esqueceu de como bater suas asas corretamente, uma acertando dolorosamente a balaustrada do corredor, enquanto ele tentava se esticar ao máximo que seu corpo pequeno permitia para alcançar a menina. E antes que ele percebesse, Nyx também estava caindo. O grito dos dois pareceu ecoar pela montanha inteira, reverberando pelas paredes alongadas e esculpidas da Cidade Escavada, vibrando pelos entalhes de madeira e armaduras que envolviam os guardas que perseguiram a menina —— e por tabela, o menino também. Alcançando os ouvidos de seus pais com um arrepio gélido e assustador, capaz de corroer os músculos e transformá-los em pedras sólidas presas no lugar, capaz de arrepiar os pelos de suas nucas e dar-lhes a certeza de que: não havia como sobreviver a uma queda como aquela.
No desespero, Nyx lutou para continuar estável no ar, esticando-se ao máximo que conseguia para alcançar a garotinha. Os olhos grandes e expressivos dela estavam fixos no rosto dele, tingidos com um terror profundo, de revirar o estômago e assombrar aqueles que o vislumbravam —— e era culpa de Nyx; inteiramente culpa dele.
Então os dedos dele conseguem envolver o pulso franzino dela, as unhas fincando-se dolorosamente na pele frágil do membro, sequer percebidas. O peso da menina o puxou para baixo, e Nyx gritou entre dentes cerrados, usando suas duas mãos para segurar o pulso dela com toda a força que ele tinha em seu corpo de 8 anos. Lágrimas escapavam de seu rostinho distorcido entre pânico, medo e desespero, sequer percebidas, pingando pesadamente no couro de suas roupas elegantes e especialmente escolhidas por sua mãe para aquele maldito evento, umedecendo o tecido, deixando para trás um rastro molhado em sua pele manchada pela sujeita das paredes da montanha, salgando seus lábios.
Suas asas agitaram-se com mais e mais força, tentando ganhar altitude enquanto ele agarrava-se à garotinha, determinado a não a soltar. Custasse o que custasse, ele não iria a soltar, não importava o que ele precisava fazer, ele não iria soltar ela, não podia, se ela morresse, não seria culpa dele?...
Crack.
Nyx arregalou os olhos, congelando no lugar, o horror tingindo sua expressão quando, em surpresa ao ruído que ecoou abaixo de si, ele soltou a mão dela. Os olhos azuis, embaçados pelas próprias lágrimas, levaram alguns segundos para registrarem a maneira com que a mãozinha da garotinha estava retorcida, apontando para um ângulo antinatural, enrijecido, e com um osso pálido e fantasmagórico projetando-se para fora. Em seu desespero em tentar segurá-la, Nyx havia falhado em perceber que a pressão que estava fazendo naquele único ponto e o próprio peso dos dois sendo puxados para baixo, havia obliterado os ossos frágeis da mão da menina.
Os olhos das duas crianças se encontraram, compartilhando aquele momento de completo terror. E então, a escuridão os engoliu.

•••


Nyx não tinha ideia por quanto tempo ele havia caído, apenas que seu único guia no breu que os consumia eram as sardas estelares da garotinha.
Os pequenos pontilhados de luzes que se iluminavam pela pele dela, como estrelinhas desenhadas delicadamente em sua pele, estavam próximas ao seu toque, mas não o suficiente para que ele conseguisse alcançar, por mais que tentasse. Então, houve o impacto.
Ele o sentiu primeiro. Seu corpo foi bruscamente lançado para a direita, uma corrente de ar adjacente e forte o empurrou para fora de seu curso, suas asas se agitaram, descoordenadas tentando recuperar seu próprio equilíbrio apenas para atingirem algo que lembrava a uma parede, dolorosamente estático e firme. Um grito de medo e dor escapou pelos lábios do herdeiro da Corte Noturna. A dor explodiu por seus olhos, criando uma galeria de pontos luminosos por trás de suas pálpebras, explodindo como estrelas e pairando brevemente à frente de si.
O impacto reverberou pelos músculos do menino e chegou aos seus ossos, e as lágrimas aumentaram, escorrendo com maior frequência e intensidade. Pontos distintos onde a parede havia acertado sua asa, estavam ardendo, a dor aguda espalhando-se acompanhada pela sensação desconfortável de algo cálido, encorpado e líquido escorrendo da ponta de suas asas para suas costas.
Algo gélido, pegajoso e fedendo a uma mistura profusa de enxofre, ferrugem e escuridão, enroscou-se ao redor do tronco do menino, puxando-o para mais perto de si. Patas afiadas e finas, como as de um inseto, fincavam-se pelas roupas elegantes dele. O cheiro pungente e esquisito, quase adocicado das pontas das patas, queimaram a pele do menino, e o deixaram zonzo. Mesmo no escuro, Nyx sentiu-se como se estivesse afundando, mais e mais, naquele oceano escuro e gélido de escuridão, a pressão das paredes, o gelo da corrente de ar, a sensação de estar, primeiro flutuando, e então, desaparecendo dentro de sua própria consciência.
Nyx recobrou sua consciência alguns minutos depois, ao sentir uma mão pequena empurrar seu ombro esquerdo com força o suficiente para fazer com que os ferimentos espalhados em suas asas e seu tronco latejarem dolorosamente. Um grunhido baixo, e um ofego escaparam por entre os lábios do menino que abriu os olhos, mas não viu nada. Piscou várias vezes, até que conseguisse encontrar algo para focar seu olhar, engolindo em seco e sentando-se de supetão. Tudo ao seu redor pareceu girar, desorientado, mesmo estando no escuro. Ele fechou os olhos com força, e então piscou, uma, duas, três vezes, tentando fazer com que sua visão se ajustasse à escuridão que envolvia tudo ao redor, mas teve pouco sucesso com isso. Mesmo que seus olhos se adaptassem, o breu que os consumia parecia maior, consumindo toda a luz que se arriscava a ser acesa ali. Toda luz, com exceção das sardas estelares da garotinha.
Quando os olhos azuis de Nyx encontraram-se com aquele mapa pontilhado de pequenas estrelinhas na pele da menina, ele ofegou. Não soube dizer ao certo o que tomou conta de seu ser: se havia sido o alívio pela visão de que ela ainda estava ali, que não havia morrido, ou se havia sido o afago de conforto em sua consciência ao perceber que não havia sido sua culpa. Ou talvez, ainda, tivesse sido a certeza crua de que ele não estava sozinho naquele lugar assustador. Fosse onde quer que eles tivessem acabado de cair na Cidade Escavada, ele não estava sozinho completamente. E antes que pudesse se impedir, o menino avançou, cegamente, na direção da garotinha, abraçando-a com força.
A garotinha grunhiu, provavelmente com dor, tremendo e tentando afastá-lo para longe, mas Nyx não se importou, porque ela estava ali. Porque ela era real e estava ali com ele. Eles estavam juntos naquele lugar terrível. Ela e ele, contra o que quer que viesse. E mesmo que o menino quisesse apenas chorar e gritar por seus pais, mesmo que Nyx estivesse tentando desesperadamente encontrar uma maneira de desfazer o escudo mental que havia criado e implorar para que seu pai viesse resgatá-lo, ele sabia que seria mais assustador se ele estivesse sozinho. Mas ele não estava, e pela mãe, Nyx nunca havia sentido tamanha felicidade em seu pequeno coração.
—— Me solta! —— ela rosnou baixinho, uma mão empurrando Nyx para trás, e o garoto obedeceu, caindo sentado novamente no chão pedregoso e molhado. Um riso baixinho, uma mistura de medo, alívio e incerteza escapando dos lábios de Nyx.
O menino franziu o cenho, sem conseguir ocultar sua surpresa, e agradecendo profundamente por estarem na escuridão porque ele não queria ofender a garotinha, mas, ao mesmo tempo, sem conseguir conter-se.
—— Você sabe falar?
Nyx não conseguia enxergá-la na escuridão, mas tinha quase certeza que os olhos grandes e expressivos dela estavam fixos no rosto dele com exasperação. Por alguns instantes, a menina ficou em completo silêncio.
—— O que? O que foi que eu disse? Dá para sentir que você tá me encarando… eu acho… consegue enxergar alguma coisa aqui? —— Nyx resmungou, um pouco mais defensivo, unindo as sobrancelhas e guiando-se apenas pelas sardas brilhantes da menina. Ela ainda assim não respondeu, e Nyx sentiu um pequeno incômodo de irritação começar a aflorar em seu peito, quer dizer, ela iria mesmo lhe dar um tratamento de silêncio assim, do nada? No meio de uma escuridão daquela? Que bobona…
—— Não muito —— respondeu a garotinha por fim, sua voz um fio baixo e rouco. Nyx estreitou os olhos, unindo suas sobrancelhas. Ela falava mais devagar, como se não tivesse prática em pronunciar as palavras que queria usar ou como se simplesmente não estivesse acostumada a conversar. Nyx achou estranho, mas considerou melhor não comentar. —— Silhuetas só.
Ele tentou conter um tremor que percorreu por seu corpo, engolindo em seco ao registrar as palavras da garotinha: silhuetas só. O que aquilo queria dizer? Que eles estavam cercados por objetos ali? Como se estivessem em um corredor? Ou havia outras… coisas por ali? Ele prendeu sua respiração, trincando os dentes, mesmo que estes estivessem batendo uns contra os outros, com o tremor que se apossava de seu corpo. A memória vívida de seu pai lhe dizendo com um tom sério de que a Corte dos Pesadelos possuía um motivo para ser considerada perigosa, o fez ter vontade de chorar baixinho, e implorar por sua mãe. Ao em vez disso, Nyx fez a única coisa que podia, agarrou a barra da blusa da garotinha com força, determinado a não a deixar ir, desesperado para não ficar sozinho, no escuro.
Considerou o quão irônico aquilo poderia soar para si mesmo: o herdeiro da Corte Noturna, com medo do escuro. Mas não era só isso. Era a estranha movimentação desigual das correntes de ar, que deveriam ser gélidas, mas pareciam ter uma pequena secundária, cálida e pulsante que os envolvia de forma desorientadora, hora presente, hora distante. Era a sensação de estar sendo observado por algo em meio às sombras, e não ter a mínima pista de onde estaria; não poder enxergar aquela criatura. Era a sensação desesperadora de perceber-se completamente vulnerável, desorientado, à mercê de quaisquer fossem os monstros que rondavam aquele lugar. Era o medo de estar perdido para sempre. E as lágrimas, mais uma vez acumularam-se em seus olhos, obstruindo sua garganta como se ele estivesse engasgado. O tremor agora, completamente esquecido, embora presente, ao levantar-se e tentar acompanhar a garotinha.
Ela havia agarrado a frente da roupa dele, e os dois estavam praticamente pressionados um contra o outro, cambaleando juntos, tremendo, e cegamente seguindo para onde quer que a garotinha estivesse enxergando. Ofegos eram sufocados pelo menino, que não queria parecer covarde, mas que estava aterrorizado com a situação. Quando ele inclinou sua cabeça para trás, tentando enxergar os corredores onde ele supunha que seus tios ainda deveriam estar verificando em desespero, Nyx deparou-se apenas com a completa escuridão.
Seu estômago se contorceu e contraiu, a bile amarga e pungente subiu para sua língua, a saliva de repente parecia mais espessa e desconfortável em sua boca, como se não coubesse mais em sua boca, e ele estivesse desesperado para expeli-la onde quer que fosse. E então, o menino não consegue conter-se, projetando-se para frente, Nyx colocou para fora tudo o que havia comido aquela manhã, assustando a garotinha que o sacode um pouco sussurrando entre dentes:
—— Fica quieto! Tem algo…
Antes que a garotinha pudesse terminar sua frase, os dois escutaram um ruído desconhecido e atemorizante. Era como um pequeno arranhar sobre as pedras, vindo de algo afiado, não alto o suficiente para fazer com que seus ouvidos sangrarem, mas o suficiente para se fazer presente. Um sibilo, seguido do arrastar de um corpo pesado, se movendo no topo da cabeça deles. E então, uma das velas dispostas naquele lugar se acende abruptamente.
A luz ofuscou os dois. Nyx grunhiu, cobrindo seu rosto instintivamente, e a menina soluçou, cobrindo o rosto com sua mão boa caminhando cegamente para trás. Acabou por tropeçar no pé de Nyx, e desabar no chão com um baque alto. Nyx, que ainda estava agarrado à barra da túnica puída da menina, desabou ao lado dela, grunhido abaixo.
—— A gente vai morrer? —— Nyx sussurrou para a garotinha, aterrorizado, mas para seu completo desespero, ela não respondeu, apenas se encolheu contra ele, tremendo. Levou alguns minutos até que os olhos dos dois se adaptassem, o de Nyx se ajustou mais rápido do que o da menina, o que era estranho e curioso ao mesmo tempo.
Ele engoliu em seco, colocando-se de pé, instintivamente ajudando a garotinha a se levantar, finalmente compreendendo com uma ponta de surpresa e medo onde estavam. Um túnel, espaçoso e alto, que parecia ter sido cravado na pedra escura das montanhas. Estalactites e estalagmites se espalhavam, tanto pelo tento quando pelo chão, mas algumas pareciam quebradas. Arcos esbranquiçados se abriam um pouco mais à frente, em um formato estranho, formando um semicírculo. E então, permeando toda a estrutura das paredes, haviam buracos semelhantes ao que Nyx havia usado para fugir de tio Azriel e tio Cassian, mas estranhamente, com uma largura bem maior do que ele havia esperado ver.
Inspirou fundo, sentindo novamente aquele cheiro horrível de enxofre, ferrugem e algo sombrio, perigoso, algo que só poderia pertencer a pesadelos. E por baixo de tudo aquilo, novamente, aquele cheiro doce enjoativo que parecia escorrer de determinados pontos da parede. Nyx franziu o cenho, olhando para a garotinha, buscando com seus olhos azuis alguma coisa que indicasse que ela também estava reconhecendo aquele cheiro esquisito, mas ela estava congelada no lugar, o rostinho empalidecido, os olhos quase esbugalhados, e a pele empalidecida.
—— O que foi? —— Nyx questionou meio desconfiado, meio assustado.
Ela olhou para Nyx, os olhos cheios de lágrimas, como se tivesse acabado de perceber que estava vivendo um pesadelo, e não apenas sonhando. Nyx teve quase certeza que havia sentido o cheiro de urina vindo da garotinha, mas para ser sincero, ele não a julgaria, não quando as palavras que ela sussurrou pareciam significar algo muito pior e assustador do que ele jamais seria capaz de compreender.
—— É o Poço. —— O dedinho trêmulo dela apontou na direção do corredor que desaparecia à frente, inclinado para baixo, para mais fundo da montanha. Nyx engoliu em seco seguindo com o olhar para onde a garotinha apontava, unindo as sobrancelhas.
—— O que é o Poço? —— Nyx ecoou confuso, sabia que deveria ser algo ruim, pela profundidade e aparência, lembrava a uma prisão, mas muito mais assustadora e perigosa do que ele supunha que poderia ser baseada nas histórias que tia Amren contava-lhe durante os jantares. Porque ali, todas as celas estavam abertas. Nyx prendeu a respiração, sentindo as lágrimas voltarem a marejar seus olhos, agora pingando, pesadas sobre o tecido de suas roupas, sujas e queimadas devido à queda, tremendo no lugar.
NYX! AONDE VOCÊ…!
Ele piscou pego desprevenido com o eco retumbante da voz de seu pai, misturando-se atrapalhada, com o desespero de sua mãe, pulsando, vividamente, em sua mente. O escudo mental teria desaparecido? Será que havia sido a queda? Nyx sentiu seu corpo quase amolecer com o alívio que o inundou. Seu coração se acelerou, e o menino estava realmente chorando, quando chamou pelos pais, quando implorou pela mãe em sua mente.
Ele se voltou para a garotinha, trêmula e terrivelmente silenciosa ao seu lado, quase congelada no lugar, olhos arregalados fixos na entrada do corredor escuro que levava para mais abaixo da Cidade Escavada, pronto para assegurá-la que logo seus pais iriam estar ali para resgatá-los, que não demoraria muito para que todo aquele pesadelo acabasse, mas quaisquer que fosse as palavras que Nyx estava desesperadamente tentando formular, nunca deixaram sua boca, porque, seguindo o olhar da garotinha, Nyx deparou-se com o monstro que os observava.
Instintivamente, Nyx agarrou a garotinha, quase a esmagando com o abraço que lhe deu. Deveria ter ouvido algum grito de dor da menina, ele podia sentir o osso exposto de sua mãozinha pressionado contra suas costelas, dolorosamente, podia sentir como ela estava tremendo, ou como sequer parecia estar respirando direito. Seus dedos fincaram-se nos músculos magros, provavelmente deixando marcas para trás, mas a garotinha não fez nada. Estava paralisada encarando fixamente a criatura que se movia com um raspar de ossos arrepiantes.
Não era nada que Nyx havia visto em toda sua vida. Não era nada que ele havia lido escondido na biblioteca na Casa do Vento de sua tia Nesta, tampouco algo parecido com as ilustrações perturbadoras que tia Amren tinha em seu apartamento. O monstro que se apresentava para as duas crianças, cambaleando do final do corredor para a entrada onde eles estavam, era humanoide. Arrastava-se de maneira pesada, como se seus músculos e ossos expostos fossem feitos de puro metal maciço, o elmo que tinha preso em sua cabeça, possuía chifres curvilíneos, em uma espiral, enterrando-se na parte de trás de sua mandíbula, quebrando-a e fazendo-a pender para a esquerda, torta, de onde um incor escuro como tinta escorria por entre os dentes apodrecidos da criatura. Sua pele parecia estar deteriorada pela putrefação, revelando partes dos ossos de seu crânio, onde o elmo partia-se com o golpe que deveria ter levado, que o matou. Pedaços de seu corpo deteriorado desabavam no chão, a cada passo que era dado em direção às duas crianças. Preso através de seu peito largo estava um arco imponente e grande, quebrado, e na altura de seus quadris havia uma aljava de flechas de freixo obscurecidas, tanto pelo icor que escorria da criatura quase como suor, como pela deterioração do tempo.
A criatura era alta, larga, com pedaços de seu corpo faltando revelava ossos esbranquiçados, mas ainda assim largos como galhos de árvore. Os olhos cintilavam, um completamente obscurecido pelo mesmo icor que escorria de seus ferimentos grotescos abertos, e o outro, leitoso, deteriorado pela morte que lhe infestou, mas sem devorá-lo por completo, ainda se moviam, e estavam fixos nas duas crianças. Estalos de juntas e ossos rangendo ao deslizar contra os mesmos ecoou baixo pelo corredor do Poço. A armadura que se assemelhava com seu esqueleto, escura como a noite, e com peças faltando, onde expunha ossos de verdade da criatura, tilintavam, a cada movimento, mais próximo de Nyx e da garotinha, as velas precárias que se espalhavam pelo corredor, tremeluziam, frágeis em um prenúncio de que quaisquer movimentos bruscos acabariam por apagá-las.
Nyx apertou com mais força os ombrinhos ossudos da garotinha sem perceber, suas unhas cortando e deixando para trás, meia luas sangrentas, na pele da menina. Os olhos azuis, arregalados do menino, registraram o movimento brusco e descoordenado da criatura, ao retirar seu arco quebrado de seus ombros. Um sibilo áspero com as lâminas afiadas arranhando pedras até saírem faíscas, ecoou pelo corredor inteiro, e Nyx fechou os olhos com força, sufocando um soluço de seu choro. O ruído, o inspirar da criatura, fez os ouvidos do garoto pulsarem, e por um breve momento, tornarem-se abafados. Ainda assim, ele podia entender cada uma das palavras que a criatura tentava sibilar na direção deles.
—— Finalmente… —— sibilou a criatura, sua voz ecoando áspera e grave, reverberando pelas paredes com pequenos tremores, carregada por ecos e distorções mais graves, como se possuísse mais de uma voz, rastejando-se para fora de sua boca apodrecida e dilacerada, pingando incor escuro e pungente, como espectros. —— Os Grãos Senhores nos honram novamente… —— A criatura deixou que sua língua projetasse para fora, salivando pelo queixo quebrado, e Nyx teria vomitado outra vez, se a garotinha não estivesse o puxando para trás, bem, mas bem devagarzinho. A criatura ergueu seu arco e flecha quebrado, apontando diretamente na direção da cabeça de Nyx, sibilando com uma satisfação perversa. —— A Caçada Selvagem agradece.
Então a criatura soltou a flecha que riscou o ar na direção das duas crianças.



Nyx fechou os olhos, esperando pelo impacto da flecha, sentindo o corpinho da garotinha se jogar contra o seu, puxando-o para a direita, chocando-se contra a parede. Mas o impacto da flecha nunca chegou.
Por uma fração de segundos, tudo pareceu estático, congelado ao redor deles. O tempo desacelerou ao seu redor, acompanhado com o eco distante, porém, presente de sua própria respiração, escapando em rápidos e fortes, quase estrangulados arfares. Sua pulsação ecoava alta por seus ouvidos martelando contra suas veias, arrastando-se como agulhas afiadas, fincando-se por seu corpo, gélida e precisa, por seu corpo. Ele abriu seus olhos, segundos depois, prendendo sua respiração quando voltou seu rosto na direção da garotinha. A princípio, ele não registrou o que havia acontecido. Os olhos azuis do menino se fixaram no rostinho horrorizado da menina, os olhos arregalados em choque, os lábios entreabertos em um grito mudo, mas então Nyx seguiu o olhar dela para seu braço quebrado.
Não havia mais nada ali.
Onde outrora a mãozinha dela estava quebrada, pendendo para trás de forma antinatural, com o osso pálido projetando-se para fora, e até mesmo sangrando copiosamente, causada pela tentativa de Nyx de segurá-la e evitar a queda no Poço, agora o membro faltava-lhe. Em seu lugar, não havia mais nada, apenas uma extremidade residual ensanguentada, expelindo para fora de acordo com a pulsação acelerada da menina, formando uma poça de sangue no chão poroso e irregular que se estendia abaixo de si. O ferimento era profundo, e sério, a mão retorcida da garotinha jazia um pouco mais atrás no chão, e a flecha que havia arrancando-a havia enterrando-se na parede um pouco mais atrás de si, onde a cabeça de Nyx deveria ter estado.
A flecha deveria tê-lo acertado, deveria tê-lo matado, mas acertou em seu lugar. Ela havia colocando-se na frente dele, havia o protegido. E a percepção disso era assustadora e, ao mesmo tempo, havia despedaçado algo dentro do peito do menino. Teria chorado pelo peso da culpa que recaiu em seus ombros, sufocante e pegajosa, grudando-se a figura do menino como veneno, podia ter de soluçar, desolado, pela tristeza que havia recaído sobre si, enroscando-se como tentáculos ao redor de seu pequeno coração e o apertando, como se estivesse à beira de o espremer. Se não tivesse fugido aquela noite…
O ruído da criatura ecoou atrás de si, mais próximo, despertando-o do torpor de sua própria culpa e desalento. Outra flecha risco ou ar tremeluzente daqueles corredores de prisões, apagando em sua trajetória ao menos uma das velas que iluminavam o caminho, acertando com força a ponta superior das asas fechadas do menino, fincando-se ali. Nyx sequer a percebeu; sequer registrou a dor, ou a maneira com que seu sangue escorreu por entre os veios de suas asas, não percebeu a maneira com que o veneno se espalhou por sua corrente sanguínea. Aterrorizado, o foco de Nyx estava fixo na garotinha. Antes que ela desmaiasse no chão, ele a agarrou com força, tentando correr, enquanto a arrastava.
Nyx correu cegamente pelos corredores. Cambaleou e rolou degraus abaixo, escorregou com a água que cobria as pedras irregulares dos degraus, chocou-se contra aberturas curvas das pedras escuras maciças que se abriam como portais por entre as celas e prisões que existiam abaixo da Cidade Escavada. Seus dedos apertaram-se no corpo da garotinha, os braços tremendo com o esforço de carregá-la e arrastá-la pelo caminho, soluçando entre arfares e lágrimas. Os olhos azuis do menino voltando-se por momentos por sobre seu ombro esquerdo, tentando localizar a onde a criatura encontrava-se e o quão perto de alcançá-lo poderia estar. Virou para a direita e então esquerda, e então, direita, direita, esquerda e direita novamente, deparando-se com uma bifurcação.
Tremendo, Nyx olhou para a garotinha desacordada, a quem se agarrava, percebendo com horror como ela havia empalidecido durante toda aquela correria desenfreada. O coração de Nyx se apertou ainda mais, tremendo, sem ter ideia do que poderia ter acontecido com ela, e temeroso de verificar —— e se ela tivesse morrido? E se tivesse parado de respirar e ele sequer tivesse percebido? E se ela já estivesse…?
—— Por favor… —— o menino soluçou baixinho, uma oração que se esvaia em meio a escuridão que os consumia. —— Eu não sei pra onde ir… —— confessou assustado.
Mas não houve resposta da garotinha.
Nyx tremeu, fechando os olhos e se abaixando para colocá-lo no chão quando o ruído de asinhas batendo agitadamente, como pequenos besouros chamou sua atenção. Um pouco mais a frente, no túnel que abria-se a sua esquerda, o menino viu algo pontilhando o teto alto e escuro, iluminando precariamente pelo o que parecia ser pequenas pixies com dentinhos afiados e olhos grandes como os orbes de vidro que ele usava para brincar com Emhyr e as outras crianças em Velaris. Eram completamente brancos, leitosos, como se não possuíssem pupilas o que evidenciava que eram cegas. Espalhavam-se sobre o teto alto e curvado do poço como pequenas estrelas cadentes, riscando o ar ao seu redor, agitadas, dando pequenas investidas ao sentir o menor movimento pelo caminho ou nos menores ruídos. Nyx tremeu encarando o rosto da garotinha em seus braços e então as pixies, obrigando-se a inspirar fundo, uma, duas, três vezes. Então ele correu com toda a força que ainda restava em seu corpinho de 8 anos.
Correu o mais rápido que conseguia, ouvindo o chiado e zumbidos que escapavam das pequenas criaturas, vendo-as riscar a escuridão que os engolia, mergulhando com dentinhos afiados e prontos para mordê-lo conforme Nyx adentrava mais e mais na escuridão profunda que os cercavam. Dentinhos afiados se curvaram ao redor do ombro do menino, na ponta de sua orelha esquerda, no couro cabeludo, nas asas, fincando-se como pequenas agulhas afiadas, a dor aguda forte o suficiente para o fazer estremecer e se encolher, até mesmo se debater cegamente, mas não parar de correr. Arrancavam pequenos pedaços, formavam um enxame ao redor de Nyx, mas não tocavam a garotinha.
Ele não a soltou.
Não ousou, igualmente, olhar para o rosto dela, temendo o que encontraria ali se o fizesse —— se as pixies estavam o atacando, mas não a menina, isso só poderia significar que ela… que ela não estava mais…?
Os olhos azuis arregalados disparando ansiosamente pelo espaço, observando o corredor virar bruscamente para a direita e então, o ar deixou os pulmões de Nyx. O arfar genuíno de surpresa e terror escapou por entre os lábios ressecados do menino, quase o fazendo engasgar-se com suas próprias lágrimas. O túnel finalmente abria-se para uma galeria massiva no coração da montanha que a Cidade Escavada havia sido esculpida. Era grandioso, uma bocarra escura e curvada, que se abria mais a frente em uma conjunção de túneis, como, a muito, houvesse existido alguma criatura viva, que sozinha, escavou a pedra maciça a sua forma, criando padrões serpenteantes por entre o lugar, deixando para trás os ossos curvados do que viria a ser costelas massivas, como se estes fossem pilares esbranquiçados, contrastando contra as paredes escuras. Um pouco mais a frente, por entre declives e buracos que se abriam no terreno, o menino podia ver com clareza o que parecia ser um riacho que nascia por entre as fissuras e chão. Nyx não saberia dizer o quão fundo era, mas ele podia ver que a água se alastrava bem mais a frente, desaparecendo com a escuridão do restante do caminho. A corrente de vento, vindo do topo de sua cabeça, parecia surgir a sua direita, bem acima de onde estavam, e seguir para onde o riacho ia.
Uma ponta de esperança quase surgiu na mente do menino, ao considerar que: onde havia entrada de ar, haveria uma saída. Ele engoliu em seco, se ele pudesse ao menos encontrar uma forma de alcançá-la. Ele assentiu para si mesmo, arrastando a garotinha mole em seus braços e então repousando-a com cuidado no chão, o enxame de pixies espiralando e debatendo-se contra as paredes, seguindo o cheiro do sangue de ambos que agora misturavam-se na poeira e água parada dos dois.
Ele havia acreditado que se derrubasse ela no chão, com só um pouquinho mais de força, ela iria acordar. Abriria seus olhos e iria gritar com ele; uma parte esperançosa do menino, até mesmo queria que ela o fizesse, mas quando Nyx a repousou no chão, perto do banco de pedras molhadas ao lado do riacho, não houve reação alguma. Ele engoliu em seco, tentando sufocar o próprio choro, esticando a mão direita, os dedos trêmulos, hesitando tocá-la. Os dedos pairavam sobre o rostinho imóvel dela, observando as sardas que envolviam as maçãs do rosto, a ponta de seu nariz e mesmo o queixo dela, que cintilavam como pequenas estrelas e constelações únicas em sua pele, oscilavam agora, o brilho tornando-se menor, como se estivesse, aos poucos, desaparecendo. Nyx trincou os dentes com força, seu rosto se crispou, o peso da culpa era quase enlouquecedor, as lágrimas acumulando-se e escorrendo por seu rostinho manchado, criando caminhos limpos por sua pele, enquanto ele hesitava, congelado pela ideia de tocá-la. Os soluços que escapavam por entre seus lábios, agora se tornavam mais altos, desolados.
O que ele tinha feito? Por que havia fugido? Se ele tivesse apenas ficado ao lado de tio Azriel e tio Cassian… se ele não tivesse sido tão bobo… tão estúpido… por quê?... Por que ele só não havia escutado seus pais e esperado…?
—— Por favor, acorda… —— Nyx sussurrou, sem saber para o que estava implorando. Se para os céus, ou para a própria garotinha, se para a escuridão ou sua própria consciência, mas o fazia mesmo assim. A voz escapando estrangulada por entre os soluços baixinhos. A pele dela estava fria quando as pontas dos dedos dele a tocou. Empurrou com cuidado o rostinho da garotinha, sentindo o desespero dentro de si, o medo e a culpa aumentarem mais e mais. —— Por favor, por favor, não me deixe aqui sozinho… eu não quero ficar… por favor… —— Nyx chorou baixinho, sem conseguir conter-se mais.
O menino se afastou dela, arrastando-se para trás até sentir suas costas se chocarem contra o pilar de osso. Encolheu-se até que virasse uma bolinha: joelhos pressionados contra o próprio peito, os braços envolvendo sua cabeça, apertado, os olhos fechados com força, a testa repousando sobre seus joelhos. Os soluços de seu choro se tornaram mais altos, sua pulsação martelando contra seu próprio ouvido enquanto ele chorava copiosamente, desolado, assustado, e… sozinho.
Percebeu que ele nunca tinha tido medo da Cidade Escavada. Percebeu que, embora as histórias de tia Mor fossem propositais para assombrá-lo e mantê-lo alerta, ele até gostava. Gostava da ideia de lutar contra monstros e a glória que acompanhava as batalhas. Percebeu que não era os ruídos esquisitos que ele ouvia dentro da floresta, ou até mesmo no fim da biblioteca que o perturbava. Não eram as sombras que acompanhavam tio Azriel, e tampouco o olhar silencioso e reprovador de seu pai.
Nyx percebeu, com horror agarrando-se em suas entranhas, transformando-se em vinhas repletas de espinhos afiados e cravando-se mais e mais fundo no coração do menino, que, na verdade, seu maior medo estava diante de si. Era aquele; estava completamente sozinho. Perdido. Sem ideia de como voltar para casa, se um dia sequer voltaria. Sem mais ninguém ao seu lado para ajudá-lo. E esta percepção do menino apenas aumentou seu choro convulsivo.
Por favor, papai! Por favor! Por favor… me encontre… me encontre de novo… não me deixe aqui…
Mas não houve resposta de seu pai, ou sua mãe. Não houve reconhecimento de ambos quando o menino tentou alcançá-los com sua mente. Houve apenas silêncio. Desconexo, distante, e doloroso. Então algo aconteceu; dos fragmentos estilhaçados em seu peito, da desolação e tristeza profunda que consumia sua pequena e jovem alma, o menino sentiu algo estranho o envolver. Algo que o fez pausar por uma fração de segundos. Ele sentiu paz.
Abaixou os braços de sua cabeça, repousando-os sobre o topo de seus joelhos. Pequenos cortes e arranhões se espalhavam na pele do menino, que não estava acostumado com a visão de mordidas e rasgos mais largos do que escalar os muros do Acampamento Illyriano poderiam deixar. Os ferimentos que tinha agora eram mais profundos, ardiam e sangravam. Nyx repousou o queixo sobre suas mãos no topo de seus joelhos, observando as sardas da garotinha se escurecerem, com uma ponta de conforto distante.
Ele não ficaria sozinho por muito tempo. Quando o enxame de pixies os alcançasse, elas provavelmente iriam devorá-lo. Nyx se encolheu, imaginando a dor que iria sentir, mas também, quando acabassem, não haveria mais nada certo? Sentiu-se culpado por seu pai e sua mãe, eles ficariam furiosos com Nyx, e uma parte de si queria apenas pedir desculpas para eles. Mas logo tudo teria acabado. Talvez a garotinha até mesmo esperasse por ele do Outro Lado. Talvez eles pudessem ser amigos lá também; talvez Nyx pudesse pedir desculpas por ter a arrastado para aquela confusão, certamente, sentia-se suficientemente culpado.
Mas quando o enxame de pixies os alcançou, elas dispararam primeiro na direção da garotinha.
Ele se encolheu, as unhas cravando-se em sua própria pele, fundo, observando o enxame fincar suas presas pequenas mas afiadas na pele dela. Nyx teria chorado, se ainda restassem lágrimas em seu rostinho, ao em vez disso, ele apenas assistiu, em silêncio, no escuro, o enxame de pixies banquetear-se com o corpo da garotinha. Até que uma gritou.
O ruído era fino o suficiente para machucar os ouvidos, mas havia desespero ali também. Pungente, arrepiante, como se algo estivesse machucando a pequena pixie de dentro para fora. Então, mais gritinhos se seguiram em uma cacofonia desesperada. Nyx tentou tapar com suas mãos seus ouvidos, se encolhendo com a dor afiada que percorreu seu crânio. O menino se encolheu com a dor. Os olhos, semicerrados, capturaram parcialmente o pandemônio desperto que afligira as pixies. Nyx viu por entre os cílios grossos algumas pixies se contorcer, tentando escapar, antes de suas luzes tremeluzirem, e então… virarem pó.
Observou com as sobrancelhas unidas, pego desprevenido, observando em choque, e então, com uma confusão admirada, quando a luz que outrora pertencia às pequenas pixies, deslizaram pelo ar, desaparecendo pela pele da garotinha, iluminando suas veias, parecendo oscilar e pulsar ao guiar-se para o peito dela. Ele assistiu fascinado e estranhamente assustado, sem conseguir entender como aquilo era possível, quando as sardas que permeavam o rostinho da menina voltaram a se ascender. Nyx franziu o cenho, surpreso, e saltando para trás, quando a menina arfou alto abrindo os olhos.
Talvez pela correria, ou talvez pelo medo, o menino não tinha se dado ao trabalho de vê-la propriamente, na verdade, percebeu apenas o que era difícil não perceber. Mas agora, deparado com o silêncio sepulcral daquela galeria abaixo da Cidade Escavada, com apenas pequenos pontos de luzes precários que ofereciam silhuetas e não clareza a sua visão, ele pode finalmente ver a cor dos olhos dela. E eram lindos. A primeira vista pareciam ser de um tom prateado bem claro, quase como gelo, mas então, ele percebeu, não era prateado, mas sim, esbranquiçado. Brilhavam como estrelas, assim como as sardas que ela tinha em seu rosto, iluminando os cílios curvados dela. Eram igualmente brancos, e pareciam brilhar tanto quanto o resto. Pequenas sardas que se espalhavam pelos braços dela, pontilhadas como minúsculas estrelas, a faziam parecer como…
Como se fosse uma.
Nyx prendeu a respiração, imóvel, observando-a a garotinha se colocar sentada, piscando confusa, e ofegante, olhando ao seu redor, antes de voltar sua atenção para o bracinho esquerdo. Ainda lhe faltava a mão e boa parte do antebraço, mas o ferimento havia ao menos parado de sangrar, uma camada estranha de energia e carne envolvida no membro mutilado, impedindo-o de esvair-se em sangue. Ele a viu mover o braço para cima e para baixo, como se estivesse registrando a falta do membro, antes de suas sobrancelhas se uniram, entristecidas. Os lábios dele se partiram, as palavras presas em sua língua, quando houve um pequeno tremor ao redor, e então as velas se acenderam outra vez, iluminando a galeria que eles se encontravam. Iluminando o caminho que o riacho deveria os levar. As palavras morreram nos lábios de Nyx.
Levou alguns longos minutos de completa estupefação e admiração contida para que o menino, enfim, percebesse que, na verdade, o Poço estava reconhecendo ela, não ele. Nyx pouco havia tido tempo para pensar desde que ambos haviam caído. Haviam corrido em desalento, desesperados para sobreviver do segundo em que ele esbarrou com ela no corredor abaixo da sala do Trono. Todavia, era apenas agora que o menino percebia que ela não era normal. Que se aquele lugar, como ela havia chamado, o Poço a reconheceu, era porque ela era um deles…
A garganta dele se apertou, um nó sufocante formando-se ao perceber, tardiamente, que estava condenado desde o começo. Que a garotinha deveria tê-lo condenado desde o começo. Ele exalou a respiração que prendia por entre seus dentes, um pequeno sibilo baixo que não passou despercebido dos olhos estelares da menina. Queimaram, primeiro em surpresa e até mesmo alívio, e então, mágoa. Algo no rosto de Nyx deveria ter exposto o que ele estava sentindo para ela, porque ela se encolheu como se ele tivesse acabado de a acertar.
—— Você… —— Nyx sussurrou assustado e com uma ponta de ressentimento, quase traído ao encarar os olhos estelares da menina. —— Você é como eles… —— arriscou-se a dizer, com raiva da menina, e, ao mesmo tempo, assustado com o que ela poderia acabar fazendo com ele. E se decidisse o matar? Pior e se decidisse o manter ali, como prisioneiro também? Ele queria só encontrar alguém para brincar, ou talvez, tentar pregar alguma peça em tio Cassian, já que era sempre mais fácil conseguir fazer alguma pegadinha com tio Cassian do que com tio Azriel, mas… agora?
Agora o menino percebia com profunda tristeza que talvez nunca mais fosse ver ninguém que amava.
Nem a tia Nestha, com as caixinhas de músicas mágicas e os elogios de que ele era um bom dançarino. Ou tia Elain, com os bolinhos de blueberries que Nyx sempre encontrava uma maneira de roubar sem que sua mãe ficasse sabendo. As aulas de história com tia Amren, e etiqueta com tia Mor, e como as duas pareciam se frustrar rapidamente com Nyx quando ele ativava o “modo Rhys” de ser —— algo que vinha acontecendo com mais frequência conforme os anos se passavam. Ou os dias inteiros em que ele passava tentando imitar tio Azriel, seus trejeitos e postura, tentando adquirir aquele tom pausado e reservado com que seu tio falava com ele, esgueirando-se pelas sombras, tentando assustar Nuala ou Cerridwen, antes de correr por sua vida e com uma risada borbulhando seu peito. Até mesmo de Gwyn ele sentiria falta, dos jogos de palavras com a sacerdotisa que sempre acabava com uma competição escalando para uma guerra de cócegas.
Não teria mais guerra de qualquer coisa que encontrasse pelo caminho —— comida, tinta, neve, até pedaços de lama e grama —— com tio Cassian no quintal, e tampouco esgueirar-se no meio da noite para o quarto de seus pais e pedir para dormir ali, abraçado com sua mãe, e ouvindo distante a voz de seu pai murmurar aquela familiar canção de ninar. Muito menos, haveria implorar para seu pai o levar junto nas reuniões da Corte, para deixá-lo usar suas espadas e facas, tentando mostrar o quão grande e adulto ele já era.
O quão parecido ele era de seu pai, ansioso para ver aquele brilho orgulhoso em seu olhar, para o ouvir mesmo que fosse só um “meu garoto” do mais velho. Não haveria mais correr pelas ruas de Velaris com Emhyr e Mav, os dois meninos com idade próxima de Nyx que lhe faziam companhia sempre que sua mãe lhe permitia brincar na rua —— ou quando Nyx categoricamente escapava de casa para ir explorar a cidade sozinho. Não haveria chutar bolas cegamente e acertar vidros sem querer. Não haveria disputas para ver quem chegava primeiro na loja de tia Emerie, ou quem poderia enfiar mais bolinhos de blueberries na boca sem se engasgar. Não haveria disputas ou apostas sobre quem conseguiria irritar a prima de Nyx, Aurora, até que ela saísse correndo, chorando, e gritando pela mãe. Ou as desculpas baixinhas que sempre se seguiram, com os risos sufocados quando tia Nestha viesse censurá-los por atormentar sua filha.
Até Basilius, o austero e severo Capitão que ficava de olho em Nyx no Acampamento Illyriano quando seu pai ou o tio Cassian precisava resolver assuntos de adultos, faria falta. Ele percebeu com tristeza e resignação, sentiria falta dos gritos, das correções de sua postura e especialmente, da liberdade de poder acordar um outro dia exasperado por levantar cedo, e por ter que ir para o acampamento outra vez.
Estava tudo perdido, como a si mesmo. E em troca do que?
—— Por que mentiu para mim? —— Nyx sussurrou, sua voz baixinha, e ecoando com o peso do sentimento de traição que empestava seu pequeno peito. A garotinha franziu o cenho, defensiva, se encolhendo um pouco mais contra si, encarando-o irritadiça.
—— Não menti! —— ela sussurrou de volta, encarando-o com irritação, e ao mesmo tempo, um medo enraizado que não parecia ter sido despertado por Nyx, apenas lembrado. Um medo que não pertencia aos ecos das criaturas que se espalhavam ali embaixo, nem a escuridão que os envolvia densa como um manto, tampouco pelos ferimentos que agora ambos exibiam e carregariam pelo resto de suas vidas a vir. Era algo mais profundo que isso, algo que ele não conseguia compreender, mas que partia dele. De dentro dele. A garotinha fungou baixinho, como se estivesse se esforçando muito para não chorar, abraçando seus joelhos com um pouco mais de força. —— Eu nem te conheço…
O comentário dela doeu.
Ela falava como se eles não fossem amigos, mas verdade seja dita, com tudo o que eles estavam passando, juntos, desde a escapada de Nyx da sala do trono, ela havia sido sua única companhia. Eles estavam juntos ali, para o que desse e viesse, para o bem ou para o mal, Nyx estava feliz em acreditar que ela seria sua amiga, que eles já eram mais amigos do que ele era até mesmo com Emhyr, e, todavia, ela falava como se ele fosse apenas um estranho. E a pior parte disso?
Ela estava certa. De certa forma, Nyx era só um estranho para ela, mesmo que ele não quisesse ser…
—— Você me olha como eles —— ela lamentou, melancólica e acusatória. Os olhos, aqueles olhos expressivos e estelares pareciam envergonhados, abaixaram-se do rosto de Nyx para encarar os pezinhos sujos. Foi somente naquele momento que Nyx percebeu: ela estava descalça, os pezinhos sujos de fuligem, poeira, e agora escoriações causadas pela corrida e queda, pareciam pequenos e maltratados, até mesmo queimados. Ele sentiu algo em seu peito doer, mas igualmente sentiu algo em sua mente se erguer, pegou-se de repente, defensivo, pronto para retorquir as palavras dela, antes mesmo que ela prosseguisse com sua fala. —— Você acha que eu sou um monstro também, não é?
—— Mas você é —— ele sussurrou de volta, desviando o olhar da garotinha, sentindo-se culpado pela admissão, mas sem conseguir conter-se. Não gostava do jeito que ela falava com ele, como se ele fosse alguém ruim…
Ele esperou que ela gritasse com ele. Esperou ouvi-la defender-se, que lhe dissesse que era mentira, que Nyx era um grande mentiroso, e que não sabia nada sobre ela. Ele podia quase sentir os pensamentos dela, tão transparentes e sinceros, pulsando por sua cabeça, e ele não precisaria usar seus poderes para sequer lê-los. Ela era transparente como água.
Mas ela não disse nada.
Ele havia magoado ela, percebeu com surpresa e culpa. Ele ponderou, unindo suas sobrancelhas, introspectivo por uma fração de segundos, considerando suas palavras. Elas eram verdadeiras, aquela garotinha era um monstro e isso era explícito. Que tipo de criatura era capaz de absorver luz daquela forma? Que tipo de criatura seria mantida naquele lugar horrível se não fosse puramente por ser um monstro ruim? Ela só podia ser um monstro, ele não estava errado em sua conclusão! Todavia, ele imaginou como as suas palavras deveriam ter soado aos ouvidos dela.
E se a situação fosse inversa, e ele tivesse ouvido chamá-lo de monstro… Nyx encolheu-se contra si, seus ombros pesando com a culpa, e projetando-se para frente, em uma silenciosa derrota. O menino enterrou o queixo em suas mãos, hesitando por um momento antes de voltar a encará-la, sem ter certeza do que encontraria em seu rosto. Não o surpreendeu quando se deparou com uma profunda tristeza, que fazia os olhos brilhantes dela, ofuscados. E no fundo de tudo, havia dor. Uma dor que Nyx supôs que não viria de seus machucados.
O menino queria se desculpar. Queria retirar suas palavras e assegurar a ela que ele não a via como um monstro, havia dito aquelas palavras porque queria magoar ela, porque ela o magoou quando havia dito que ele a encarava como os outros da Corte dos Pesadelos. Seu pai sempre havia dito que a Corte dos Pesadelos era composta por pessoas ruins, dizer a Nyx que ele era como eles, significava claramente que ele era ruim também. Ele estaria mentindo, todavia, se o fizesse. Porque, querendo ou não, ela era e sempre seria um monstro.
—— Como sabia que aqui era o Poço? —— Nyx questionou, tão baixinho que por um momento ele achou que ela não havia escutado sua pergunta, e que ele teria que repeti-la. Então, após alguns longos minutos em silêncio, ele imaginou se ela sequer se daria ao trabalho de responder. Era provável que não, depois do que ele havia dito, ele não a culparia se ela não quisesse mais falar com ele… ainda assim, o silêncio o irritou.
Ela deu de ombros, ainda sem encará-lo, parecendo ainda tão envergonhada e cabisbaixa que antes. A culpa arranhou a consciência dele, mas ele a silenciou tentando focar apenas nas palavras dela. Precisava de informações para saber o que deveria fazer daqui para frente. Como sobreviver naquele lugar.
—— Quando a senhorita Lyra não precisa mais de mim, eles me mandam para cá —— a garotinha disse com um tom de voz simples, baixinho. Os olhos estelares dela se fixam no riacho a um pouco mais longe de onde eles estão, balançando-se um pouco para frente e para trás, seja por ansiedade ou medo, Nyx não era capaz de compreender.
Ele repassou o nome em sua mente. Lyra… lhe era familiar, como o de um desconhecido o seria. Não era que ele pudesse dar um rosto para o nome, ou tampouco fosse completamente desconhecido, ele já havia ouvido o nome ser mencionado em um ou outro jantar quando o Círculo Íntimo de seu pai estavam reunidos para o jantar. Ouvira que era mimada, e que era muito bonita, não tão bonita como Aurora, mas bonita como uma Grã Feérica. Ouvira também o lamento de alguém vindo da corte que havia desejado que ela fosse, na verdade, um macho, e assim, teriam um herdeiro digno para o trono. Sabia que os comentários afiados não deixavam seu pai feliz, mas se tivesse que apontar quem poderia ser a menina e o que significava, Nyx não o poderia fazer, por mais que tentasse.
—— Quem é Lyra? —— Nyx ecoou inclinando a cabeça para o lado, observando-a em um silêncio cauteloso, não menos curioso.
Ela deu de ombros, voltando a encará-lo com olhos grandes e expressivos. Ela inclinou a cabeça um pouco para o lado, repousando-a em seu bracinho direito, e então bocejou.
—— Ela é a neta do Lorde Thanatos —— a garotinha resmungou como se a informação fosse algo óbvio, embora não o fosse, ao menos não para Nyx. É claro que ele conseguia colocar as peças nos lugares certos para compreender a quem se tratava e de quem ela se referia, mas igualmente não deixava de ser confuso. A garotinha se ajeitou no chão, parecendo ter tornado seu propósito agora, enterrar seus pezinhos descalços no amontoado de cascalho que se formava ali. —— Ela não gosta de bonecas. Diz que são feias e para crianças. Então o avô dela me levou para ela.
O silêncio sepulcral se estendeu por um longo momento enquanto Nyx franzia o cenho confuso. Levou para Lyra? Como assim? Porque a garotinha falava como se ela fosse uma… coisa de Lyra? Uma boneca viva, talvez? Nyx sentiu sua cabeça girar um pouco mais, desconfortável, sem conseguir compreender como era possível aquilo acontecer.
—— Então quer dizer que você… —— Nyx começou a dizer, categoricamente e com cuidado, franzindo o cenho um pouco mais, confuso. —— Você é amiga dela?
A garotinha pareceu pausar por um momento, encarando Nyx com confusão.
—— O que é… amigo? —— A pergunta que escapou dos lábios da menina era inocentes, confusa com a palavra desconhecida e Nyx emudeceu. Observou-a encará-lo a espera de uma resposta, os olhos brilhando com uma curiosidade inocente, parecendo tentar calcular o que diabos ele estava se referindo. O que poderia vir a ser. Nyx abriu sua boca para respondê-la, mas sua voz não saiu.
Tentou encontrar suas palavras, tentou encontrar uma forma de explicar para ela o que era um amigo: uma parte da sua alma que te completava e que não te abandonaria, não importava o quão difícil ou ruim as coisas poderiam se tornar? Alguém que havia nascido de outra pessoa, mas que você sabia que era seu irmão? Como ele poderia explicar para ela o que era um amigo, se nem mesmo ele era capaz de compreender a dimensão da palavra ainda.
O que quer que o menino estivesse prestes a falar, foi interrompido pelo eco de uma voz familiar, chamando por seu nome. Nyx se tensionou no mesmo segundo, colocando-se de pé, e lançando um olhar ao redor ansioso.
—— Nyx! —— Feyre o chamou de algum lugar da escuridão, o tom desesperado e preocupado, e o alívio inundou o peito do menino. Ele abriu um sorriso largo, imediatamente colocando-se a correr, tentando encontrar de onde o som havia partido. Podia ouvir, meio aparte, o barulho dos pezinhos da garotinha seguindo-o, podia ouvi-la dizer alguma coisa, mas estava concentrado. Precisava encontrar sua mãe. Precisava… —— Nyx, filho aonde você está!?
O sorriso de Nyx desapareceu lentamente de seu rosto cansado e assustado, ao perceber que a voz adquiriu um tom sibilante ao final de sua fala. Não vinha dos túneis e tampouco das aberturas de ar ao topo abobado do teto daquela galeria, não, ela vinha de cima da cabeça dele. O grito morreu na garganta do menino, quando ele inclinou sua cabeça para trás, os olhos azuis seguindo os veios e irregularidades das paredes até repousarem no que parecia ser um corpo grande e molenga enroscado entre as estalactites do teto.
—— Não reage! —— a garotinha gritou, e então se silenciou abruptamente quando a criatura avançou na direção dela. Nyx congelou no lugar, tentando manter sua expressão neutra, prendendo sua respiração por instinto.
A criatura tinha um cheiro horrível, uma mistura profunda de ferrugem, escuridão e algo podre, intragável, como enxofre, mas por baixo disso havia um aroma estranho, que se destacava, um aroma doce, enjoativo, fazia com que seu estômago se contraísse, a bile subiu por sua garganta, sufocante e o fazendo engasgar-se, enjoativo o suficiente para fazer com que ele ficasse zonzo, mal respirando direito. Mas o que era assombroso era a visão desta. Possuía um corpo largo, pesado, e repleto de dobras tal como um inseto, rastejava-se pelas paredes, mesmo que suas patas afiadas e finas, como ponta de flechas, se ficassem com força contra o chão, arrastando o corpo pesado e espaçoso até estar contorcido, parado a poucos centímetros do rosto da garotinha. E ao centro, onde deveria ficar sua bocarra ameaçadora, encontrava-se na verdade um rosto.
Nyx não ousou se mexer, mantendo sua expressão neutra, tentando imitar a garotinha, os olhos azuis dele encontraram-se com o rosto que a criatura usava naquele momento. Um Grão Feérico, macho, com cabelos longos e de aparência macia, de pele pálida como neve e olhos escuros como a escuridão que os cercava, talvez mais. Possuía uma cicatriz que atravessava seu rosto inteiro e foi somente naquele momento, ao ver aquela cicatriz que um arrepio gélido percorreu a espinha do menino. Seu estômago contraiu, e um aperto envolveu seu peito, e ele achou que iria vomitar, embora estivesse esforçando-se para manter seus olhos fechados. Era o monstro que havia os perseguido mais cedo. O rosto vivo da criatura agora pertencia a esta, moldado da forma que assim desejava, e Nyx teve a terrível sensação de que se expressasse qualquer coisa, por menor que fosse, aquele monstro iria, não apenas matá-lo, como roubaria seu rosto para si. Quando o medo se tornou demais, Nyx fechou os olhos com força.
—— Estrelinha solitária… arrrrrrhhh… quanto tempo… hsssssss…. levaria para se…. Apagar —— cantarolou a criatura com uma voz áspera, um ruído aterrorizante que lembrava as garras afiadas sendo fincadas contra as paredes de pedras e violentamente puxadas para baixo, arranhando o ar ao seu redor, e fazendo seus ouvidos doerem. Ele mordeu sua língua tentando silenciar quaisquer ruídos que ele pudesse fazer; o sangue percorreu pelo interior de sua boca, adentrando por sua garganta e escorrendo pelos cantos, vagarosamente, encorpado e denso. —— Não há… nada… eerhh… que possa… amaaaaarrrr… você…
Nyx abriu os olhos virando-se para a criatura, irritado.
—— Não fale assim! —— Nyx advertiu, impulsivo, e arrependeu-se no mesmo segundo, porque em um piscar, a criatura estava a frente de seu rosto.
Um sorriso vagaroso surgiu no rosto roubado da criatura, a cabeça inclinando-se para a esquerda, os olhos fixos nos de Nyx, sem desviar, sem sequer piscar, o manto escuro de seus cabelos acariciando o ar como se não possuíssem gravidade alguma. Uma mãozinha pequena, trêmula e gelada envolveu a direita de Nyx, os dedinhos, ainda que pegajosos pela poeira e sujeira, deslizando firmemente pelos dedos dele, entrelaçando em um aperto surpreendentemente forte. Algo no peito dele se apertou, e então se aqueceu. Nyx não voltou seu rosto na direção da garotinha, mesmo se desejasse, não poderia, estava travado no lugar, preso no poder do que quer aquela criatura composta de pesadelos e escuridão possuía.
—— Defende-a… como se fosse sua... rrrhhh… amiga… —— sibilou a criatura com um ruído alto e estridente. Nyx sentiu o impulso de fazer uma careta, de se encolher, fechar os olhos e tentar desaparecer com as sombras, mas manteve-se firme, sustentando o olhar do monstro à sua frente. O tremor aumentou por seu corpo, vibrando por sua pele com espasmos irregulares. Manteve sua expressão vazia, seus olhos fixos nos da criatura, tentando se forçar a ser corajoso, tentando forçar-se a ser como seu pai… —— E ela nem é… hssss... uma de... vocêssss…
—— Não me importo —— Nyx disse com convicção, talvez mais convicção do que sentia, mas não havia mentido. Os olhos percorreram os poços escuros dos que a criatura vestia, e com uma ponta de horror, observou-a trocar de resto lentamente para o de uma fêmea, linda, de cabelos ruivos longos, pele repleta de sardas e olhos verdes como grama. Tinha um rosto gentil, suave, quase reconfortante, e lembrava, estranhamente, a garotinha atrás de si… como…?
O rosto da criatura terminou de girar em 360 graus e então voltou a se inclinar na direção de Nyx, o hálito putrefato da criatura aumentando a náusea que o garoto sentia.
—— Um herdeiro… —— a criatura sibilou, o sorriso largo. —— Hssssss…. Há escuridão…. dentro de você… Nyyyx… há… morteee… e culpa… e raiva… muita raivarrrhhh… augh que criatura… fascinante… você.. ééée…
Nyx estava prestes a questionar a criatura o que diabos aquilo significava quando a voz baixa da menina ecoou:
—— Pode dizer para onde é a saída daqui? —— Ela pediu, atrás de Nyx, hesitando. A cabeça da criatura girou novamente, daquela forma quase mecânica e antinatural, projetando-se sobre Nyx e inclinando-se na direção da menina.
—— Posso… hhsss… mas com… uma… condição… —— a criatura sibilou, um estalo esquisito e ruidoso escapando pela maneira com que alongava as palavras. Nyx engoliu em seco, esforçando-se para manter sua expressão vazia. Ele não se moveu, não porque não queria, mas porque estava considerando o que diabos a criatura poderia querer deles. Seu pai havia dito a um tempo atrás que Nyx deveria ser cuidadoso, deveria escolher suas palavras da forma correta e com cuidado, deveria estar atento, pois haviam truques escondidos em todas as barganhas oferecidas, mesmo aquelas de bom grado. Palavras tinha mais poder do que ele imaginava, dizia Rhysand, e ele deveria ser cuidadoso com o que prometia. —— Um de… vocêsss… precisa ficar… aquiii…
Por um longo momento, os dois ficaram em silêncio. Nyx em choque, a garotinha perturbadoramente calma, e então, para o horror de Nyx, os dedinhos que se enroscavam com os seus, apertado em um suporte silencioso, se puxam, gentilmente, para baixo, desfazendo o aperto, mesmo que ele tivesse tentado agarrar-se a mão da menina, ele ainda sentiu quando esta desapareceu. E tudo pareceu ficar mais frio ao seu redor.
—— Eu fico. —— Nyx voltou-se na direção dela, em choque, mas ela parecia resignada em sua escolha, encarando o olhar sufocante da criatura, começando a sorrir.




NYX • ANOS ANTES

Ele agiu impulsivamente, da única forma que conseguiu pensar no momento.
Antes que a garotinha pudesse esboçar qualquer reação para a criatura, antes que o monstro pudesse roubar o rostinho dela e transformá-la no que quer que fosse aquela coisa murmurando sobre a Caçada Selvagem, Nyx se lançou para frente, empurrando-a em direção ao chão. Ela poderia ter um aperto forte, mas ainda era franzina, bem mais franzina do que Nyx, e ele desconfiava que quaisquer fossem as habilidades dela, ela nunca havia treinado no acampamento illyriano como ele. Não tinha chance de debater-se ou escapar de um ato dele, então, ele deveria ter calculado muito mal a força que havia projetado quando a empurrou para trás, porque ela voou para trás, chocando-se contra uma das estalactites. Nyx teria gritado pelo nome dela, se o soubesse, mas com a atenção do monstro em si agora, e a adrenalina pulsando por seu corpo, o garotinho não teve outra escolha senão correr o mais rápido que conseguia.
A garotinha, por sua vez, piscou algumas vezes desorientada, tossindo com força e, franzindo o cenho, buscou com olhos assustados pela figura de Nyx. O grito que rompeu pela garganta da menina, foi abafado com o choque do corpo pesado e molenga da criatura, ao lançar-se em direção ao menino. Chocou-se outra vez contra o chão, mas desta, não sentiu dor. Ofegou, trêmula, cobrindo o rostinho por instinto, tentando gritar por ele, mas ela não sabia o nome dele, não sabia como formular a frase, como expeli-la, então tudo o que escapou de sua garganta foi um gorgolejo sufocado, esquisito. Mas chamou a atenção de Nyx, ao menos.
—— Não vou sair daqui! —— Nyx bradou, firme, determinado. A garotinha pareceu surpresa, mas algo no rostinho dela pareceu iluminar pela primeira vez; menos assustado, mais receptivo, até mesmo cálido. Nyx teria aberto um sorriso largo, sincero, pela primeira vez sentindo alívio, se não fosse pela criatura. —— Não sem você! —— Prometeu Nyx, antes de se jogar para frente, rolando até a margem do riacho gélido que se alastrava pelos túneis a dentro. Sentiu a água encharcar seus pés e joelhos, sentiu o tecido de couro de suas roupas como as de tio Cassian, grudassem contra sua pele, soltando pequenos estalidos de absorção conforme o garoto se debatia para se levantar.
Por muito pouco, a criatura não arrancou, com as patas finas e afiadas de inseto, a cabeça de Nyx; o movimento cortou o ar, o peso e a velocidade do gesto que foi feito, ecoou como um zunido quase metálico pelos ouvidos. O grito nunca escapou de sua garganta. Tateou cegamente pelo chão em busca de alguma coisa que pudesse usar para se proteger da criatura, quando seus dedos encontraram apenas os pequenos cascalhos que se espalhavam pelo chão umedecido, Nyx entrou em pânico. Buscou alguma coisa para tentar se defender, mas não encontrou nada. Grunhiu baixo, lembrando-se da flecha de freixo enterrada em sua asa, e com um grito baixo, a arrancou. A dor o cegou por um momento, e Nyx teve vontade de encolher-se em uma bolinha, chorando com as ondas de dor que se espalhavam pelos nervos e os músculos de suas asas, mas a adrenalina havia o deixado no limite, e antes que ele pudesse sequer registrar o que deveria fazer, uma pedra do tamanho de uma mão atingiu com violência a cabeça da criatura.
Um rosnado ensandecido ecoou pelo espaço. Fez o chão vibrar com as ondas sonoras, percorrendo pelo chão e vibrando abaixo das mãos espalmadas de Nyx, enquanto a criatura corpulenta se dobrou para trás, debatendo-se brevemente, antes de voltar-se na direção da garotinha. Nyx exalou bruscamente, a lufada de ar escapando de sua garganta mais áspera do que de fato deveria ser, fez os músculos arderem, como se fogo estivesse tocando-lhe os músculos. Os olhos do menino se arregalaram um pouco mais, os lábios se entreabrindo em choque, ao observá-la virar-se com um movimento brusco, e cambaleante, correr em direção a entrada do corredor que eles haviam vindo.
Nyx exalou, por um segundo surpreendendo-se com o quão corajosa ela poderia ser; sentiu uma pequena pontada de inveja, mesmo que não desejasse admitir para si mesmo, com o tempo de reação dela, pela maneira com que ela havia conseguido reagir e tentar ajudá-lo sem hesitar quando ele havia congelado por alguns minutos, cedendo ao choque ou por puro e intrínseco medo. Piscou algumas vezes, tentando se obrigar a focar na situação em mãos, prendendo a respiração com um pequeno ofego, antes de olhar para suas mãos, buscando alguma coisa que pudesse ajudá-lo.
Encontrou um galho entortado, ainda levemente molhado pela a água do riacho, tentando manter suas mãos estáveis enquanto hiperventilou baixinho, os olhos buscando rapidamente por alguma linha, ou qualquer coisa que estivesse disponível a seu alcance tentando lembrar das palavras de tio Cassian e especialmente das palavras de sua mãe para construir um arco de improviso. Nyx arrancou um pedaço de sua túnica, levando a faixa em direção aos dentes e então, usando toda sua força, a cortou até a metade, sem romper a fibra ao final, antes de amarrar cada extremidade em uma ponta, tentando lembrar-se de tudo o que sua mãe havia lhe ensinado sobre arcos. Sua respiração estava tão irregular, escapando tão rápido por entre seus dentes, que Nyx estava começando a sentir vertigem, à beira de vomitar. O tremor não ajudava em nada o menino com a tarefa em mãos, nem os guinchos assombrosos da criatura que caçava a garotinha.
Não teve tempo para verificar se o arco improvisado estava suficientemente seguro e iria funcionar, não quando a garotinha deixara escapar um dos gritos mais terríveis que Nyx havia escutado. Não era desespero, era puro terror. Prendeu a flecha que havia se fincado em sua asa, os olhos azuis arregalados buscando por um breve momento pela criatura, piscando seguidas vezes, desesperado para limpar as lágrimas que se acumulavam ao redor de seus olhos, antes de inspirar o mais fundo que conseguia. Tentou concentrar-se em obrigar-se a parar de tremer, prendeu a respiração, mirando na parte de trás da cabeça da criatura, e então exalando, Nyx soltou a flecha.
O galho partiu em sua mão, fazendo-o quase projetar-se para frente, tropeçando em seus próprios pés, mas a flecha ainda assim disparou. Rápida. Certeiro. Enterrou-se na parte de trás da cabeça da criatura. Um grito alto rompeu da garganta da criatura, uma mistura esquisita de gorgolejo e rosnado animalesco. Mas não a matou.
A criatura se dobrou pela metade com um grito ensurdecedor, a nuca encostou na parte de trás do corpo, antes de girar em 360º até que a cabeça estivesse no mesmo nível e no mesmo sentido que a dele. Nyx imediatamente obrigou-se a manter seu rosto neutro quando os olhos monstruosos da criatura repousaram nos seus, dando um e mais um passo para trás antes de disparar a correr outra vez quando a criatura avançou.
Mais uma vez, a garotinha arremessou uma pedra pesada na direção do monstro, e Nyx ouviu o sonoro crack de quando uma das patas do monstro se partiu. Com o coração martelando em sua caixa torácica, Nyx entendeu, um tanto tardiamente, a ideia da menina. Lançou-se para frente, rolando por seu ombro esquerdo, escondendo-se por trás de uma larga estalagmite. Agarrou a pedra mais afiada que encontrou no chão, e então, arremessou de volta, tentando acertar a cabeça da criatura novamente, acertou a carapaça, mas foi o suficiente para atrair a atenção da criatura outra vez. Nyx voltou a se esconder contra o estalagmite, buscando pela próxima pedra que encontrasse pelo caminho para arremessar, torcendo para que a garotinha continuasse com aquela dança, tentando imaginar uma maneira de livrar-se da criatura. Talvez, se eles continuassem naquele ritmo, Nyx e a garotinha poderiam cansar a criatura e ganhar tempo o suficiente para escapar daquele lugar. Era arriscado, era puro desespero, ainda assim, a única escolha que eles tinham.
Um grito estrangulado escapou da garotinha, mas Nyx ouviu, ainda assim, o eco da pedra atingindo a criatura. Nyx exalou, aliviado, o princípio de seu sorriso começando a aumentar enquanto ele comemorava baixinho. Isso!, queria ter dito para a menina, ciente de que ela concordaria com a esperança que voltava a surgir em seus olhos azuis. O rosnado animalesco gutural da criatura fez o chão tremer outra vez. Contou até dez, tateando cegamente o chão até que conseguiu encontrar o que parecia ser uma ponta das estalagmites que se espalhavam pelo terreno, e então, tomou o máximo de coragem que possuía em seu corpo, antes de projetar-se para frente, correndo o mais rápido que conseguia.
Podia sentir que sua energia estava acabando. Podia sentir o peso de seus próprios músculos, tremendo por baixo de sua pele, tensionando-se e relaxando, trêmulos pela exaustão. A dor amortecida pela adrenalina, começava a tornar-se muito mais intensa do que a o hormônio era capaz de amortecer. Seus pulmões queimavam em seu peito, o ato de respirar estava começando a machucá-lo, a barriga doía. Água e suor misturavam-se, fazendo o tecido de suas roupas grudarem em sua pele, quase como uma segunda, desconfortáveis, sujas e a essa altura, fedendo de forma pungente. Seus cabelos estavam encharcados, grudando em suas têmporas, e pescoço, gotículas de suor escorrendo ao redor de sua face, pingando de sua mandíbula e ponta do nariz. Mas ele não parou.
Nyx continuou a correr, tentando tomar o máximo de velocidade que seu corpo de 8 anos lhe permitisse. Tentando lembrar-se de tudo o que tio Cassian já havia lhe dito em seus primeiros treinamentos. Não era convencido, tampouco egocêntrico, sabia que não tinha muita chance; estava agindo pelo puro instinto, pelo puro desespero de conseguir um pouco mais de tempo para eles. Era a necessidade de escapar dali, de encontrar uma saída e implorar para que seus pais o perdoassem por sua estupidez em tentar aventurar-se pela Corte dos Pesadelos, por ter se feito convenientemente ignorante aos avisos que lhe foram dados. Eles só precisavam aguentar um pouco mais. Só um pouco mais…
A criatura preparou-se para avançar na direção da garotinha. Nyx saltou pedra por pedra, forçando suas asas a se moverem, ignorando a dor lacerante que percorreu a asa ferida, tentando se obrigar a voar mais uma vez, mesmo que fosse somente aquela chance. Trincou os dentes com força, tentando mirar no pescoço esticado da criatura, antes de arremessar a arma improvisada com toda força que conseguia. Com a asa ferida, Nyx mal consegue fazer muito se não pairar brevemente no ar, antes de se chocar violentamente no chão, rolando algumas vezes, e tossindo com força ao sentir a dor do impacto se espalhar pelos músculos exaustos.
Ele errou miseravelmente.
A criatura teria arrancado a cabeça da garotinha se algo não tivesse surgido atrás dela, em um disparo prateado que havia se enterrado com violência no pescoço do monstro, rompendo-o pela metade, e fazendo parte da cabeça da criatura pender para a direita, inerte. Um grito gutural, misturando fúria e dor, e então, Nyx, tentando se colocar sentado, com a cabeça latejando e os pulmões queimando em seu peito, assistiu a menina agarrar com sua única mão boa, a outra metade gorgolejante da criatura, e então empurrá-la na direção de onde o disparo havia vindo. Nyx prendeu a cabeça quando os olhos da criatura repousaram no rosto retorcido do Arqueiro que havia tentado os matar quando caíram no Poço.
A criatura se contorceu, parecendo absorver o rosto do morto-vivo. O monstro desabou em seus joelhos, parecendo estar prestes a vomitar, quando o poder da criatura atraiu os músculos de seu rosto, rompendo e rasgando o restante da carne, pele e músculos que ainda restavam no crânio do monstro, atraindo como se fosse algum tipo de imã, uma polaridade oposta muito mais forte do que o monstro possuía. O corpo se curvou para frente, as mãos esqueléticas agarraram o chão com violência, como se estivesse tentando manter-se fixo no lugar, mesmo que estivesse sendo atraído para aquele ponto central. Então, havia acabado.
Quando o monstro estava com apenas seu crânio exposto, icor escuro como piche pingando pelo corpo corroído, formando uma poça por seus joelhos dobrados e mãos, a criatura finalmente desabou no chão, em espasmos intensos. A garotinha soltou a cabeça da criatura, desabando no chão abruptamente, antes de voltar seus olhos na direção de Nyx.
Por uma fração de segundos, as duas crianças apenas se encararam. Os refletindo as mesmas emoções: medo, exaustão, desespero e, ao mesmo tempo, aquela pequena fagulha, efêmera e delicada de esperança que se arriscava a florescer mesmo em um momento tão incerto. Então, para a surpresa de Nyx, a menininha se levantou rapidamente, como um ratinho, correndo em sua direção. Ajudou Nyx a colocar-se de pé, segurando-o com toda sua força, que não parecia ser assim muita, mas já era apoio o suficiente para que Nyx pudesse se mover.
—— Pensei que tinha morrido —— confessou ela, baixinho, sem certeza, os olhos não encontravam os dele, mas sim, permaneciam fixos no monstro. O morto-vivo parecia estar preso em uma tormenta, murmurando alguma coisa inteligível abaixo de sua respiração escassa e irregular, ruidosa. Nyx tremeu, mas não afastou a menina.
—— Eu também. —— Os olhos azuis dele observaram por um momento o rosto da menina, a maneira com que as sardas dela brilhavam suavemente por baixo de sua pele, sua intensidade oscilando como se fosse viva também. Nyx sentiu vontade de esticar sua mão e tocá-las, fosse pela curiosidade ou estranheza, era algo que ele nunca havia visto em toda sua vida, como podia que ela…? —— Como a gente saí daqui agora? —— Nyx obrigou-se a encarar o morto-vivo, assim como a garotinha o fazia.
A menina pareceu hesitar por um breve momento, antes de soltar o braço de Nyx. Ele tencionou a mandíbula, tentando não cambalear para trás, seguindo com a linha de seu olhar para onde o dedinho machucado dela apontava a garganta do morto-vivo.
—— Não tem como sair daqui sem que algum Lorde comande —— a menina sussurrou, mas então o brilho prateado capturou a atenção de Nyx. O menino piscou algumas vezes, tentando focar sua visão exausta, unindo as sobrancelhas ao perceber algo incomum cravado na pele da criatura. Como se tivesse sido derretida por algum calor extremo, junto a pele da criatura, fosse magia ou o que quer que aquilo fosse, encontrava-se uma chave. Enroscava-se como uma série de vinhas entre si, distorcida, e enferrujada pela a passagem de tempo, formando três dentes tortos e afiados, em pontos diferentes o que evidenciava uma complexidade demasiada para a tranca. Nyx não fazia ideia do porquê precisariam de algo tão difícil de ser imitado, mas certamente, não lhe assegurou de nada, pelo contrário. O que mais havia ali que deveria ficar ali? —— Ele tem a chave. Posso pedir…
—— Não. —— A menina franziu o rosto, encarando-o como ele fosse apenas um grande idiota sem habilidade para pensar direito, e Nyx teria ficado ofendido, se já não estivesse obrigando-se a mover-se. —— Tenho outra ideia. —— mentiu Nyx, e algo no rosto da garotinha pareceu se torcer, mas Nyx não soube dizer ao certo o que poderia ter sido.
Nyx a ignorou completamente, cambaleando e mancando um pouco, enquanto retirava da garganta da criatura que roubava rostos a flecha que ali jazia, soltando um chiado baixo quando o sangue composto de veneno queimou superficialmente sua mão esquerda, os dedos do menino fechando-se com mais força no freixo encantado, sentindo o peso do objeto e o poder ancestral que ali parecia pulsar suavemente. Podia sentir o pequeno tremor que pulsava pela flecha, podia ouvir aquele pequeno chiado e estalido de energia, e Nyx uniu as sobrancelhas, voltando os olhos na direção da menina. Ela estava encolhida, uma mão ainda lhe faltava, e os olhos arregalados, não se desviavam do morto-vivo, mas não era a menina em si que havia atraído sua atenção naquele momento, mas a forma com que a flecha parecia repelir sua presença. Estranho…
Nyx se obrigou a se aproximar da criatura moribunda, trincando os dentes com mais força, o suficiente para sentir o incômodo começar a se formar ao redor de suas têmporas. Engoliu em seco, sentindo o rosto agora com cavidades onde deveriam haver olhos e nariz, e arcada dentária exposta acompanhava seus movimentos.
Sabia que o morto-vivo não poderia vê-lo, mas poderia senti-lo ainda assim, se ainda lhe restava alguma coisa. E para o completo assombro do menino, ainda havia algo ali.
—— Freixo não funciona… criança —— cuspiu o morto-vivo, e Nyx se encolheu, colocando-se de cócoras na frente da criatura. Ele congelou no lugar, prendendo sua respiração, tentando manter sua mão firme na flecha. Não seria atacado, ele podia sentir que o monstro em si estava à beira de sua morte, sequer parecia ter forças para falar. Era questão de tempo, ainda assim, o instinto sempre falaria mais alto do que qualquer racionalidade. —— Não sou… parasita… —— Cuspiu, e as sobrancelhas de Nyx se tensionaram ainda mais, sem conseguir compreender direito o que diabos aquela criatura estava falando. O rosto esquelético voltou-se então para a garotinha, a alguns passos atrás, tentando segurar, em um ato falho, as duas mãos juntas. —— Um sai… outro fica… escolha…
—— Não. Ou nós dois vamos, ou nós dois ficamos —— Nyx disse, teimoso. A garotinha assentiu, em concordância. Pareceu perceber tardiamente o que havia acabado de fazer, porque alguns segundos depois havia dito um pouco mais alto do que um sussurro um: “isso”, para o morto-vivo que soltou um riso frio, desprovido de quaisquer tipos de emoção.
—— Essas são as regras… —— é tudo o que a criatura rosnou voltando o esquelético para Nyx, como se pudesse vê-lo. O menino supriu um chiado entre dentes, estendendo a flecha de freixo, fincando-a na carne do morto-vivo. Olhou assustado para aquele crânio vazio, com icor escorrendo pelos ossos expostos, pingando lentamente pela mandíbula esbranquiçada. Não havia dor ali, percebeu, mas o gesto, não havia sido bem-vindo igualmente, porque o monstro se inclinou mais na direção de Nyx, ficando a centímetros de seu rosto. Nyx continuou a empurrar a flecha contra a carne deteriorada do monstro, tentando escavar a chave para fora. —— Só posso libertar um de vocês, o outro, tomará meu lugar.
Nyx encarou a garotinha surpreso, observando o semblante dela ficar confuso.
—— Aqui? No Poço?
A voz do monstro pareceu se suavizar quando se referiu a menina, para a surpresa de Nyx. Não se permitiu demorar em tal detalhe, empurrando com mais força a flecha, sentindo o pedaço de metal começar a descolar da pele derretida da criatura.
—— No exército dos Tylwyth Tegs. —— Nyx estreitou os olhos, confuso com a palavra desconhecida, tentando pensar se tia Amren já teria dito tal coisa algum dia, se já havia ouvido, ainda que por acaso, entre as conversas baixas e sussurradas que os adultos tinham entre si quando não queriam que Nyx soubesse de algo. Não conseguia lembrar-se de nada. —— Na Caçada.
—— O que são…? —— a garotinha começou a questionar, confusa, quando o ruído alto reverberou pelo local, fazendo o chão tremer e o ar ficar momentaneamente envolto por vibrações que abafaram suas vozes.
Nyx projetou-se para frente acidentalmente, conseguindo colocar a pressão necessária para empurrar parte da chave para fora do morto-vivo quando o eco de portas pesadas sendo abertas reverberou de algum lugar dentro do corredor que Nyx e a garotinha haviam escapado. Distraiu-se, não com aquele ruído em questão, mas o que se seguiu após, um grito, alto, desesperado e terrivelmente familiar. Seu coração acelerou de imediato ao ouvir aquela voz, alívio espalhou-se por suas veias amortecidas pela exaustão e o cansaço, e lágrimas quase transbordaram outra vez pelo rosto do menino, acompanhado pelo suspiro que parecia ter o libertado do peso e da culpa profunda que carregava.
—— NYX! —— A voz de tio Cassian ficou mais próxima.
—— Aqui! —— bradou o menino, colocando-se de pé em um movimento rápido, tentando encontrar com a linha de seu olhar onde a figura do tio se projetaria. Talvez esse tenha sido seu erro. Este pequeno momento de mera distração, de esperança e até mesmo felicidade que havia o amortecido para realidade ao redor; para a maneira com que a garotinha havia se encolhido ainda mais, aterrorizada, como havia agarrado a frente de suas roupas puídas, como os olhos marejados, arregalados se fixaram na entrada do corredor, como ela havia soluçado baixinho um desolado “não”.
O que ocorreu em seguida foi muito rápido para que Nyx compreendesse completamente, viera perceber o quadro geral muito tempo depois, quando já estava a salvo em seu quarto, abaixo de suas cobertas, desejando poder desaparecer. A voz de Nyx havia, de fato, atraído a atenção que ele desejava, porque não demorou muito para que tio Cassian o chamasse outra vez, então foi tio Az, e Nyx estava cambaleando em direção a entrada do túnel, acreditando que a garotinha o tinha seguido. Mas a garotinha havia avançado na direção da chave.
Tropeçou em seus próprios pés, arrancando com um soluço baixinho a chave do peito do morto-vivo que gargalhou alto, sua voz ruidosa e assustadora enviando uma onda de arrepios e tremores pela pele do menino. Um grunhido baixo escapou da garganta da garotinha que desabou no chão brevemente, antes de se levantar, ofegante, olhos arregalados fixos em Nyx, que parou de correr e a encarou de volta. Horror tingiu o semblante de Nyx quando os olhos azuis dele repousaram na única mão boa dela envolver apertando a chave que o morto-vivo oferecia.
Nyx a encarou, incrédulo, sem entender a princípio antes que finalmente percebesse a traição ocorrida. A garotinha, apertou a chave contra o peito, ofegante, as lágrimas caindo por seu rostinho, balançando a cabeça de forma negativa, enquanto dava um passo para trás, e então, outro, e mais um. Dor o envolveu em um casulo sufocante, abafou tudo ao seu redor, misturando-se com algo estranho, algo que ele nunca havia sentido em toda sua vida… fúria. Nyx deu um passo na direção da garotinha, e então mais um, e então mais um, começando a obrigar-se a correr, mesmo que cambaleando, tentando alcançá-la. Mas a garotinha era mais rápida.
Nyx esticou seu braço tentando alcançá-la, mas seus dedos apenas tocaram o vazio quando a garotinha se tornou pura poeira a sua frente, desaparecendo completamente. Seus joelhos cederam, por fim, o fazendo se chocar contra o chão abruptamente, um grito estrangulado de “não” sendo bruscamente interrompido quando o rosto do menino atingiu os cascalhos. Tudo pareceu girar quando a onda da magia ancestral reverberou pelo espaço, pulsando ao redor do garoto, envolvendo-o antes de atacar suas mãos.
O soluço misturando-se entre as lágrimas e a desolação por começar a perceber que, àquela que ele havia achado que poderia vir a ser sua amiga havia o traído tão facilmente, havia o deixado para trás, tornou-se um grunhido de dor trêmulo. Seus olhos embaçados registraram parcialmente como o icor do morto-vivo pareceu pulsar, deslizando como algo vivo e pegajoso pelos cascalhos, até enroscar-se em suas mãos. O icor escuro como a noite pareceu infiltrar-se por baixo de sua pele, queimando e derretendo como lava, deformando-a. A dor foi tamanha que o cegou, e então, o deixou inconsciente.
Quando despertou, sob o toque de tio Azriel, as pontas de seus dedos, as palmas de suas mãos estavam completamente obscurecidas, e os cascalhos ao redor, onde repousava, abaixo de seu toque, não passava de cinzas, o cheiro intenso de enxofre e decadência preso em sua garganta. Não conseguiu responder as perguntas de tio Azriel, e se encolheu assustado do toque de tio Cassian, os olhos fixos em suas mãos, e na maneira com que o icor havia espalhando-se por entre suas veias, fazendo-as ficar visíveis por baixo de sua pele, como se esta fosse apenas um fino pedaço de papel empalidecido. E abaixo do interior de seu pulso esquerdo, Nyx podia ver a runa antiga, inquestionável, ligando-o ao que o morto-vivo outrora pertencera.
A Caçada Selvagem.
Nota da Autora: salto temporal de 15 anos no próximo capítulo.




NYX • OUTRO LADO.

O grande salão abria-se à sua frente de maneira ordenada e com ângulos precisos.
Paredes altas de mármore escuro como a noite se estendiam pelo salão de forma quase infinitas. Se ele inclinou sua cabeça para trás, sabia que não conseguiria ver onde estava o teto; tinha a estranha sensação de que estava envolto pelos céus, pela noite e as estrelas que pontilhavam os horizontes todos os dias. Mesmo o chão parecia um espelho refletindo-os, levemente embaçados, com a fina camada de água estagnada, estranhamente mais cálida do que deveria. Ao centro de tudo, havia apenas uma mesa de pedra, lisa e polida, cinzenta, carregando tomos e antigos escritos, além de um globo de metal vazado com pequenas esferas girando umas ao redor das outras. Inúmeras esferas que pareciam se projetar infinitamente, dependendo da forma que se observava-as, como dois espelhos colocados diante de si mesmos.
O barulho de seus passos eram abafados pela água estagnada, que, por sua vez, adentrava pelas costuras de suas botas escuras de combate, e umedecia seus pés; os ferimentos recentes que ele havia adquirido apenas pelo despeito de sentir alguma coisa, mesmo que fosse somente dor, deveriam ter latejando com o toque da água, mas tampouco o fizera, amortecidos para aquela realidade.
A capa escura que o envolvia, pesava um pouco mais com as pontas umedecidas sendo arrastadas atrás de si. Por instinto ele ajeitou, mais uma vez, as luvas que envolviam suas mãos. O material pesado e espesso, feito sob medida por um dos mais confiáveis ajudantes de Thesan, da Corte Crepuscular, o impedia de destruir acidentalmente qualquer coisa que o tocasse, mas havia tornado-se um refúgio, quase uma necessidade impulsiva enraizada em seu subconsciente, verificá-la, mesmo dentro de um sonho, se ainda estava presa. Se porventura não tivesse se permitido distrair e condenado mais alguém…
Aproximou-se a passos vagarosos em direção ao globo, estreitando os olhos. Sabia que nada naquele lugar era de fato o que parecia ser. Sabia que eram ilusões e peripécias daqueles que se auto intitulavam como Tylwyth Tegs; monstros daquele mundo, seres zombeteiros e sombrios que se escondiam por entre as sombras e dentro da escuridão, que se deleitavam com peripécias cruéis e distorções, que viviam por acordos distorcidos e palavras repletas de subterfúgios e lacunas. Se ele e seu povo eram faes, os Tylwyth Tegs, certamente, eram seus ancestrais —— ou seus futuros. Era o que esperava do Outro Lado. Eram a contraparte da Mãe, ou até mesmo, algo parecido com a Mãe. Monstros, todos eles, mas não menos poderosos do que aquele que carregava o nome de seu líder.
Arwan. O guardião do Outro Lado, o líder da Caçada Selvagem, o monstro que agora o encarava com curiosidade.
Havia o conhecido duas semanas após o incidente no Poço, surpreendeu-se ao deparar-se com a criatura. Era perceptível que não pertencia nem a um, nem a outro mundo, era algo preso entre as linhas de vida e morte, transitava-as como se não passasse de uma pequena travessia, um mero caminhar de um lado para o outro, e ficara confuso quando se deparou com Nyx. Na época, um mero menino de 8 anos, Nyx não havia compreendido tal comportamento, na verdade, até ofendido poderia dizer que havia ficado, mas conforme foi crescendo, e seu tempo entre aquelas duas realidades tornou-se um hábito e não mais uma novidade, percebeu que a surpresa de Arwan se dava simplesmente porque não era quem ele esperava encontrar. Mais um dos amargos lembretes de que deveria ter sido aquela maldita garota a estar presa ali, e não ele.
Ela, traiçoeira como os seus, que havia escapado e desaparecido sem rastros, que ali deveria ter se condenado, não ele. Aquele era o destino dela, não dele; como a distorção poderia ter-se feito com tamanha facilidade ao imputar tal punição nele, e deixá-la livre? Como aquilo poderia ser justo?
Encontrá-la havia tornando-se, ainda que por um breve período efêmero de tempo, sua obsessão pessoal. Havia feito de tudo para a localizar e a fazer pagar pelo o que tinha feito com ele; por tê-lo condenado. Eventualmente havia acabado por desistir. Como poderia encontrar alguém que parecia ter desaparecido completamente? Alguém que havia se tornado algum tipo de fantasma, obscurecido em seus passos, apenas uma memória vã ao fundo de sua mente? Então ele conheceu Lyra, a neta de Thanatos. Uma vez descrita como uma criatura vil, sem compaixão e cruel como todos na Corte dos Pesadelos, ela não havia sido cruel com ele. Doce e gentil, e realmente atraente, tudo o que ele não havia se permitido acreditar por uma mentira vil contada por um monstro a muito tempo. Provou-se que era isso que a garota havia sido, uma mentira. Não havia apenas aquecido sua cama, mas seu coração, sua alma, se é que ainda possuía uma, mas Nyx jamais poderia ter alguém de fato em sua vida, poderia? Não quando era um vassalo, um servo daquele tipo de monstro.
Era uma figura sombria, geralmente obscurecida pelas sombras que se projetavam naquele reino; criavam ângulos afiados em seu rosto com traços finos e elegantes. Ainda assim, deslumbrante de uma maneira que Nyx jamais seria capaz de descrever com exatidão. Uma beleza tão profunda que o fazia repudiar por instinto. Todos eles eram deslumbrantes, belos como chamas, e tão mortais quanto.
Os seus também era igualmente bonitos, Nyx sabia disso, mas havia uma diferença entre os seus e aquelas… coisas. Não havia perigo dentro de si, não havia perigo dentro dos seus. Aquelas criaturas? Eram uma mistura traiçoeira de beleza e letalidade que colocaria até o mais inexperiente guerreiro em guarda.
Tinha os cabelos grisalhos, cuidadosamente alinhados, revelando algumas mechas escuras que pareciam oscilar as vezes, um fio ou outro, alterava-se para cintilar como fios de luzes. Como se a energia que existia dentro dele, tivesse uma pequena ponta encapsulada naquele fio, movendo-se para cima e para baixo, livremente. Seus traços angulosos e austeros revelavam olhos prateados intensos, como lâminas afiadas, tão claro que às vezes Nyx questionava se não era apenas um truque de luz para ocultar a energia que existia ali. Lábios finos e maçãs do rosto altas e angulosas, unidas com uma mandíbula afiada e quadrada, terminavam a composição de uma figura intimidadora.
—— Bem? —— Arwan disse com um tom de voz baixo, gutural, que reverberou pelo espaço como uma onda de ecos. Nyx tencionou sua mandíbula, por instinto, lançando um breve olhar ao redor do escritório, tentando se certificar de que não havia acabado de cair em uma das inúmeras armadilhas que aquelas criaturas costumavam a fazer, antes de voltar sua atenção para o mais velho. Puxou deliberadamente o capuz que cobria sua cabeça, passando as mãos enluvadas por entre as mechas escuras desalinhadas, tentando organizá-las rapidamente, antes de se aproximar um pouco mais.
Ter uma audiência com Arwan era sempre como jogar uma moeda no ar, havia apenas dois desfechos, um positivo, ou um negativo, mas entre aquela fração de segundos que a moeda havia pairado pelo ar, girando, abria-se um leque de inúmeras probabilidades e resultados.
—— O que você quer, filho de Archeron? —— apertou Arwan parecendo impaciente. Nyx tencionou com mais força sua mandíbula, estreitando os olhos, mas ainda assim não respondeu, os olhos moveram-se brevemente acompanhando o movimento da criatura, cauteloso, tentando encontrar as palavras necessárias, as palavras certas para lidar com ele.
—— O que o faz pensar que desejo algo, senhor? —— Nyx respondeu por fim, tentando reproduzir ao máximo que podia a voz aveludada e convidativa que seu pai costumava usar nas reuniões entre as Cortes. Não era assim tão simples, uma vez que eram exímios mentirosos, Arwan podia ver a mentira e falsa cortesia como um vidro em Nyx. Portanto, concentrou-se ao máximo em tudo o que poderia ser positivo, naquela parte de sua mente que havia se convencido de que as coisas eram como eram, e que não havia nada a ser feito, na parte de sua mente que havia aceitado aquela injustiça, mesmo que o restante o implorasse para lutar, para encontrar uma maneira de fugir dali. —— Não posso simplesmente saudá-lo?
Arwan parou de caminhar, oscilando de um lado para o outro por um momento, antes de um sorriso afiado surgir por entre seus lábios finos. Era uma visão que costumava impressionar, e, ao mesmo tempo, aterrorizar. Era raro vê-lo sorrir, portanto, conseguir o feito era o suficiente digno de nota e parabenização pelos outros Caçadores; nunca era algo bom tê-lo sorrindo.
—— Claro que pode —— Arwan murmurou, parando a frente de sua mesa, os olhos prateados desviaram-se do rosto de Nyx para focalizar nos papeis que se espalhavam sobre a pedra lisa e moldada a seu desejo. Dedos longos, ossudos e obscurecidos da mesma forma que os de Nyx repousaram sobre o material, puxando um ou outro papel ao lê-lo com desinteresse. —— Mas você nunca vem me visitar se não para pedir por algo, filho de Archeron. Não posso evitar de contemplar o que deseja agora? Mais tempo? Roupas novas? Acesso algum segredo? Sabe o preço para isso, não tem porque fingirmos que isso é algo que jamais será.
Nyx sentiu uma pequena pontada em seu orgulho com o comentário, mas não disse nada. Os olhos fixaram-se brevemente na mesa à sua frente, nas folhas, unindo as sobrancelhas. Encantamentos, em sua maioria, todos escritos em uma língua antiga e arcaica que apenas tia Amren e seu pai conheciam com profundidade, uma língua que Nyx havia se obrigado a aprender. Uniu as sobrancelhas, observando pequenas pontuações desconexas: algo sobre uma prisão dentro de um lago, algo sobre um deles, um deus da morte, ainda aprisionado à beira de um lado tentando libertar-se e então, para sua completa surpresa, algo sobre a Corte Invernal. Os olhos azuis de Nyx voltaram a fixar-se no rosto de Arwan, analisando-o por um longo tempo, antes de arriscar-se a dizer algo.
—— A próxima incursão será na Corte Invernal? —— perguntou, direto, e arrependeu-se no mesmo segundo. Se havia algo que Nyx havia aprendido muito cedo desde que havia caído naquele contrato traiçoeiro era que ele não deveria questionar as motivações ou os interesses de Arwan para fazer o que desejava.
Os olhos de Arwan se estreitaram, analisando-o por um tempo com igual intensidade, observando os mínimos detalhes, inquisidor, antes de voltar a mexer nos papeis espalhados por sua mesa.
—— A sua tarefa é apenas seguir as ordens do meu arauto, filho de Archeron —— retorquiu Arwan, sua voz era afiada, mais um golpe no ego de Nyx, mas soava desinteressada ao em vez de irritadiça. Essa era a pior parte de Arwan, o desinteresse. Se Nyx pudesse engajá-lo em alguma coisa, por menor que fosse, se pudesse despertar ao menos seu interesse ainda que mínimo por alguns breves segundos, então, talvez, apenas talvez, ele pudesse encontrar as respostas necessárias para livrar-se daquele acordo e daquelas criaturas. Mas Arwan era tão velho quanto a própria morte, e tão desinteressado quanto um deus diante de sua criação. —— O que o faz pensar que tem direito a ter acesso aos meus planos e ao que deixo de fazer?
Nyx engoliu em seco, tentando conter a frustração e a raiva que acalentou suas veias, que as incendiou por uma fração de segundos, antes de obrigar-se a desviar os olhos do semblante quase divertido da criatura. Ainda estava tentando compreender onde colocar aquela emoção, ainda estava tentando compreender como entendê-la e onde colocá-la. Não era ruim, mas igualmente não era boa, apenas desconfortável. Havia um desejo de agradá-lo que havia nascido por pura esperança infantil e desabrochado em algo mais perigoso, fácil de enganar-se. Quase afeto… um desejo de receber a aprovação daquela criatura milenar que o observava com desinteresse, e, ao mesmo tempo, curiosidade. Analisava suas reações com cuidado, e parecia saber exatamente o que se passava em sua mente, mesmo que esta criatura não pudesse ler sua mente.
Um olhar de simpatia atravessou o semblante da criatura, um olhar que Nyx julgou que deveria existir nos olhos de seu pai, e todavia, encontrava-o no rosto daquele ser estranho e distante, naquele Tylwyth Teg que conhecia apenas os prazeres oferecidos da crueldade, do sangue e da escuridão; naquele ser vil, e não nos olhos de seu pai.
Nyx havia perdido muito mais do que apenas sua liberdade na noite que caiu naquele poço. Na noite em que conheceu aquela maldita garota.
—— Arrogância, talvez —— Nyx respondeu por fim, com um suspiro pesado. Não ergueu seu olhar, pelo contrário, permitiu-se encarar o globo vazado, onde os globos menores cuidadosamente pintados giravam ao redor de si. Astronomia nunca havia sido seu forte, Nyx havia desenvolvido uma apreciação maior a livros sobre combate, sobre estratégia e história, havia tornado-se um excelente guerreiro illyriano com a ajuda de tio Azriel, era Aurora quem tinha afinidade com aquele tipo de coisa. Era Aurora a sonhadora que olhava para os céus, e os admirava, especialmente durante a Queda das Estrelas. Nyx apenas os observava sob os céus, durante aquele dia em específico, acompanhado pelo povo de Arwan. —— Peço desculpas, não foi minha intenção ofendê-lo.
Arwan soltou um riso baixo, seco e desprovido de emoções, mas não era exatamente ameaçador, era apenas… superficial de certa forma. Sentiu Arwan se mover pela sua direita como uma sombra, o cheiro pungente era silvestre, uma mistura difusa de terra molhada, frutas e algo mais profundo, dentro da floresta, algo que lembrava a sangue, e a morte, metálico.
—— Os seus sempre se portaram com tanta pompa e etiquetas, querem provar-se civilizados. Sempre me fizeram contemplar, se existe a necessidade de afirmar algo, sequer o são? —— Arwan comentou a ninguém em particular, e Nyx trincou os dentes. Seu impulso era discordar, defender-se, mas havia convivido a tempo o suficiente naquele lugar para saber que era feito apenas com o propósito de conseguir uma reação, e naquele mundo, reações poderiam ser algo perigoso a exibir. —— É o que nos liga, sabia? Os seus, e os meus, a selvageria, a perversidade dentro de si. —— Pausou por um momento, atraindo os olhos azuis de Nyx para seu semblante austero e distante, fazendo-o unir as sobrancelhas, consciente demais da proximidade que Arwan estava de si. —— Tudo o que pedi a você foi apenas um dia, Nyx Archeron. —— A mandíbula de Nyx se trincou a mandíbula com mais força, um pequeno músculo saltando, acentuando os ângulos de seu rosto. —— Não pode oferecer-me nem mesmo isso?
Engoliu em seco.
—— Foi ousadia minha considerar pedir algo ao senhor —— Nyx obrigou-se a responder, o mais polido e educado que conseguia, seus olhos azuis queimando frustração e raiva, desviaram-se para a mesa a sua frente, tentando obrigar-se a relaxar na presença de Arwan para não atrair a atenção errada, e falhando miseravelmente.
A mão, ossuda e com unhas mais longas do que a de um guerreiro mortal deveriam ter repousado sobre o ombro esquerdo de Nyx. Era estranho, uma criatura como ele, quase um espectro, ter um aperto tão reconfortante, tão seguro. As pontas das unhas enroscaram-se nas tramas da capa de Nyx, rasgando-a brevemente, quando Arwan ofereceu um aperto compreensivo, quase paternal.
—— Não se preocupe em se desculpar, garoto —— Arwan disse com um tom de voz mais gentil do que Nyx estava acostumado a ouvir. Observou com uma ponta de irritação que uma criatura como aquela, um monstro que se ocultava por entre as sombras e parecia preso entre duas realidades completamente distintas, era capaz de demonstrar uma gentileza e compreensão que nem mesmo seu pai parecia. Não depois do Poço. —— Tive um como você há muito, muito tempo. —— Arwan murmurou com desinteresse antes de soltar o ombro de Nyx e indicar com a cabeça para que o seguisse.
Os passos eram abafados pela água que envolvia o chão, mas o cheiro de incenso e comida fresca foi o que convenceu Nyx a segui-lo. Conhecia aquela regra, jamais comer da comida de um estranho ou de alguém que não se confia, haviam pequenos truques e feitiços que poderiam prender alguém ali, sua mãe o alertara dos antigos costumes humanos. Mesmo que não fosse esperado que alguém como Nyx o tomasse, não lhe doeria ao menos manter tal coisa ao fundo de sua mente quando se deparava com um lugar desconhecido.
—— Curioso quanto, pedia por tudo. Foi tomado de mim, de certa forma, antes que pudesse oferecer um pedaço de pão ou uma história de dormir. Suponho que seja assim que seus pais se sintam com relação a você? É por isso que deseja o dia da Queda das Estrelas, para comparecer ao evento deles?
Nyx não respondeu. Estava surpreso demais com a quantidade de informações que Arwan poderia saber mesmo estando naquele limbo esquisito e silencioso. Um tremor envolveu seu corpo, deslizando por sua espinha como pequenas ondas de choque gélidas. Obrigou-se a manter sua expressão firme, distante, impenetrável, mas algo em seus olhos deveria ter escapado, porque Arwan havia soltado um riso baixo, seco, entretido. Este era o perigo de ter a atenção de uma criatura como Arwan voltada para si: a certeza de que seria nada mais do que um brinquedo em suas mãos, e a iminente desgraça que o acompanharia. Nenhum deles, os Tylwyth Tegs eram conhecidos por devolver seus brinquedos vivos no mínimo.
—— Se mandar Lyall e os outros, certamente encontrariam sua… criança perdida. —— Nyx contornou a situação, fingindo que não possuía interesse no assunto, ao voltar sua atenção brevemente para o semblante distante da entidade ancestral a sua esquerda, antes de focar na curva que o corredor fazia, ao inclinar-se para baixo da terra, como um dos túneis da Corte do Pesadelos, mas com mais vinhas e terra do que pedra esculpida.
Seu estômago se contraiu, e Nyx fechou os olhos por um momento, tentando afastar de sua mente a memória, ainda vivida de sua mente. Sua garganta se apertou, de repente, parecendo sensível demais até mesmo para engolir sua saliva e suas mãos, mesmo envoltas pelas luvas, pareceram estar congelando. Obrigou-se a continuar andando, mantendo os olhos fixos no chão, obrigou-se a não pensar em como a escuridão estava os engolindo, ou como o ar parecia começar a ficar levemente rarefeito ao seu redor, como as correntes de ar tendia a ser mais frias abaixo da terra do que em sua superfície, especialmente durante a primavera e o tempo estava úmido. Obrigou-se a focar no barulho suave da sola de suas botas de combate, e não na maneira com que seu coração martelava, intensa e irregular, contra seu peito, fazendo-o doer.
Não fazia ideia de que poderia se sentir daquela forma, mas uma das consequências da queda, e da maldição que carregava, era a sensação inescapável de vertigem que o sufocava na maioria das vezes, quando se aproximava de algum lugar fechado ou escuro.
—— Aprecio seu interesse, Nyx Archeron, mas não é por falta de conhecimento que me impeça de localizar e trazer minha criança de volta para casa —— informou Arwan calmamente, até mesmo de forma mais fria do que usava com Nyx por vezes. —— Sei onde está, o que está fazendo, mas como deve ter percebido tudo o que vive aqui, e existe aqui, precisa de consentimento para o fazer. Ninguém chega em minhas terras contra sua vontade, e isso inclui você.
Nyx trincou os dentes com força, sem conter um sorriso irônico, sarcástico com o comentário. Era ridículo a ideia de que havia livre arbítrio ali, Nyx não queria ter aceito aquele acordo, e todavia, lá estava ele, sem ter para onde ir ou fugir. Ele estava fadado àquele destino, a um destino que não lhe pertencia, puramente porque estava no lugar errado, na hora errada, acompanhado da pessoa errada. Não haveria como alterar tal fato, era o que era. A distorção nas palavras de Arwan era um claro demonstrativo da natureza dos Tylwyth Tegs… manipuladores, fariam você acreditar que a escolha havia sido sua, e não deles. Uma maneira de afagar seus egos, talvez, ou, então, apenas uma maneira de acalentar o peso da culpa. Nyx considerou as palavras do mais velho por um longo tempo, seus olhos, tempestuosos fixaram-se no reflexo distorcido que a água que envolvia o mármore escuro reproduzia.
De certa forma, quando olhando daquela maneira, os dois eram até mesmo parecidos. Veja, ele era a cópia escarrada e cuspida de seu pai, Feyre sempre pareceu orgulhosa disso embora a cor de sua pele e os olhos fossem mais próximos dos da mãe. Mesmo Nyx precisava admitir que era uma cópia de seu pai, não apenas pela aparência, mas pelo temperamento teimoso e a tendência em usar políticas a seu favor. Ocultava o que precisava ser ocultado para manter a segurança, e fazia o que precisava ser feito para manter o equilíbrio e aqueles dois mundos separados. E se tivesse sido egoísta ao escolher Lyra como sua parceira, então poderiam culpá-lo? Quando a história de como Rhysand havia “roubado” sua mãe de Tamlin ainda era lembrada? Nyx não compreendia ao certo a extensão dos problemas que Feyre havia passado na Corte Primaveril, apenas sabia o que os pais haviam contado: Feyre não estava bem, Tamlin não era uma boa pessoa, Rhysand a salvou, o que contam sobre Rhysand tê-la roubado era mentira, Feyre já iria abandoná-lo semanas antes, Rhysand foi apenas o cataclisma da situação.
Mas se Nyx havia aprendido algo, ao menos, com sua queda no Poço era que os traidores não sentiam culpa. Justificavam suas ações por desculpas esfarrapadas, racionalidades efêmeras e sem fundamento, apenas para fazerem-se menos culpados do que de fato eram. Se aquela maldita garota tivesse se sentido no mínimo um pouco culpada por ter deixado-o para trás, não teria ela voltado? Não teria tentado consertar as coisas? Os traidores não se culpavam, nem seus pais o faziam. Culpavam a vítima porque era mais fácil acalentar seus egos.
Manteve seu olhar fixo no final do corredor estreito que o guiava. Quando este abriu-se novamente, em uma entrada concavada no chão, adornada por raízes que se enroscavam formando um portal que cheirava a floresta, percebeu que ao centro de tudo havia uma mesa elegante, coberta por tecidos finos feitos de teia de aranha, tão delicados quanto papel, e tão maleável quanto seda, brancos como a neve sobre a mesa de mogno esculpida como vinhas. Havia um verdadeiro banquete, característico daquele povo tão familiar e tão estrangeiro quanto.
Carnes, em sua maioria, cruas repousavam sobre travessas feitas de ouro ou cobre, que lembravam o trabalho delicado de uma folha, taças alongadas de um vidro fino fundidas com os mais variados tipos de cristais exóticos, se espalhavam com água e mesmo um vinho escuro, adocicado e atrativo. Flores das mais variadas formas e cores eram servidas com caldas de açúcar ou algo salgado. Mesmo larvas e insetos permaneceram expostos sobre uma tigela de vidro, revirando-se e até mesmo desabando na mesa, arrastando para longe de onde ocorreria sua morte. O cheiro variado era rico e terrivelmente familiar, o fez lembrar de casa, das festas de aniversário, das celebrações e até mesmo dos convites para visitar outras Cortes em assuntos formais quando seu pai lhe permitia acompanhar.
Era um truque, uma ilusão, uma falsa gentileza que o prenderia mais ainda ali.
—— Não pode simplesmente convencê-lo a vir? É o pai, não é? Filhos obedecem a seus pais, independentemente do que lhe digam. —— A amargura em sua voz havia soado mais afiada do que desejava, exposto mais do que desejava, mas Arwan não pareceu se importar. Indicou com o queixo na direção da cadeira ao lado da dele, em uma oferta silenciosa de apaziguamento. Nyx não disse nada, apenas se sentou ao lado em silêncio, alçando uma das flores silvestres cristalizadas em açúcar, esmagando-a, distraído, transformando-a em pó.
—— Se acaso seu pai o convocasse agora, iria até ele? —— Nyx apenas assentiu com um suspiro pesado, observando a coloração levemente avermelhada da flor manchar as pontas de suas luvas. —— Você o conhece, criança Archeron, talvez seja por isso que a necessidade de lealdade se faça presente. Você o ama. —— Arwan suspirou pesado, deixando-se recostar contra sua cadeira. Alçou uma taça de vidro com vinho escuro e pungente, mas não a tomou, apenas a observou com uma expressão distante, quase pesarosa. —— A minha não. Nem me conhece, nem me ama. Sou apenas um fantasma, um prisioneiro em um domo de vidro espelhado, capaz de observar a tudo, mas sem jamais tocar. É por isso que escolhi você, Nyx. É por isso que sabia que viria, eventualmente, ser útil a mim.
Nyx congelou no lugar. Não se atreveu a olhar de volta para Arwan, mas podia sentir os olhos prateados fixos em seu rosto, analisando minuciosamente até mesmo a mínima reação, sua respiração se tornou mais lenta, tentando controlá-la mordeu o interior de suas bochechas com força, os dentes fincaram-se na carne, sentindo o gosto metálico não demorar muito para tingir sua língua, e escorrer por sua garganta. Sua expressão, treinada para permanecer neutra, permaneceu distante.
—— Você me escolheu? —— Ecoou Nyx, tentando compreender o que aquelas palavras poderiam significar: Arwan era o líder dos Tylwyth Tegs, era seu Rei de certa forma, suas palavras poderiam ser dúbias e apresentava-se com amplo espaço de interpretação. Ele poderia estar falando daquele maldito dia no Poço, quando a garotinha havia o deixado para trás, e o condenado àquela existência miserável, quando ela desapareceu a sua frente como se fosse apenas poeira, sabe-se lá para onde quer que tenha ido. Como poderia apenas estar falando do lugar em que Nyx estava sentado, na cadeira que usava ao lado de Arwan. Com um Tylwyth Teg nunca havia certeza.
—— Passado, presente e futuro, neste lugar, é uma coisa só, criança —— Arwan explicou calmamente, repousando sua taça de vinho ao lado de seu prato, e então gesticulou para o salão grande e imponente, feito de raízes, trepadeiras, e troncos ancestrais de árvores exóticas. Ao em vez de um lustre feito de diamantes, o lustre era composto por flores fantásticas, cintilando com um brilho azulado, como se possuíssem luz própria, pulsando suavemente com magia. Seu pólen espiralava pelo ar, cintilando em dourado como ouro puro, carregando o aroma primaveril. —— O tempo acontece em paralelo, junto. Está aceitando o acordo, ao mesmo tempo que vejo a razão pela qual o encontrei. Irá trazer minha criança de volta, em breve, mas para isso, preciso que fique longe da Corte Invernal. Preciso que encontre um dos meus irmãos, também aprisionado.
Nyx uniu as sobrancelhas absorvendo as palavras de Arwan.
—— Quem? —— Foi só o que conseguiu dizer, em uma voz fina e irregular. Deixou seus braços repousarem sobre seu colo, sentindo sua pulsação aumentar e a sensação de ter gelo correndo por suas veias se tornar quase sufocante.
—— Koschei. —— Nyx engoliu em seco, tencionando sua mandíbula e voltar seu olhar na direção de Arwan. —— Pergunte aos seus pais, eles o conhecem. Preciso que o encontre, que o prepare para o que está por vir. —— Arwan inclinou-se para frente, sustentando o olhar de Nyx, parecendo buscar quaisquer traços de desconfiança ou resistência no olhar de Nyx. —— Quero que diga a ele, que na próxima Queda das Estrelas, ele será livre mais uma vez. E você, Nyx Archeron, será o responsável por libertá-lo.

•••


NYX • MONTANHAS ILLYRIANAS

Voltar a si o fez sentir como se tivesse acabado de romper uma barreira invisível de água. Seus pulmões inflaram com o ar que lhe invadiu o peito, queimando por suas narinas e garganta, obrigando-o a tossir enquanto afogava-se com a própria saliva. Debateu-se contra o chão, sentindo os braços mantê-lo preso contra o chão, grunhindo baixo, e ofegante. Havia despertado de um pesadelo, mas a sensação de que parte de si ainda estava lá, era gritante, quase o sufocava. Fazia sua cabeça girar e seu estômago revirar.
Fechou os olhos embaçados outra vez, soltando um chiado por entre os dentes, e quando abriu os olhos outra vez, deparou-se com o rosto de Emhyr a poucos centímetros de distância do seu, parecendo alerta e preocupado ao mesmo tempo. Olhos castanhos claros quase dourados cintilando em uma emergência silenciosa. Nyx piscou algumas vezes, tentando afastar as lágrimas que embaçavam seus olhos e então ele encarou o melhor amigo com uma ponta de ceticismo.
—— Se você planeja me beijar, me avisa dessa vez —— Nyx retorquiu, usando de seu sarcasmo e ironia para desviar a atenção do melhor amigo da tempestade que se formava por trás de seus olhos azuis. É claro que Emhyr não comprou suas palavras. O illyriano endireitou-se, ainda sentado sobre o peito de Nyx, ainda com a faca abaixo de sua garganta. Nyx abriu um sorriso torto, preguiçoso. —— Oh, que isso, Ems? Eu achei que a gente tinha algo! Eu já ia contar para os nossos pais sobre a gente!
Emhyr cuspiu, apenas pelo gesto rebelde antes de se levantar de cima de Nyx e estender-lhe a mão. Nyx hesitou por um segundo, verificando se estava com as luvas no lugar e que não havia nenhum corte ali que pudesse acidentalmente o fazer tocar na pele de seu melhor amigo —— mesmo a ideia de acidentalmente machucá-lo era o suficiente para fazer seu estômago se contrair e revirar ——, antes de aceitar a mão estendida. Os dedos de Nyx se enroscaram com o antebraço forte e suado de Emhyr, sentindo a maneira com que os músculos do melhor amigo se tencionaram abaixo de seu aperto. Não era algo que Nyx poderia dizer que o culpava por fazer, na verdade, até compreendia a tensão e o medo de tocar em sua pele ainda que acidentalmente, mas não deixava de ser um golpe cruel e baixo para si mesmo. Nem seu melhor amigo confiava nele o suficiente —— com razão.
—— Tsc, para de falar merda, cara. Até parece que eu vou querer beijar a mesma boca que chupa a boceta da Lyra —— retorquiu Emhyr com um tom até mesmo divertido, lançando um olhar fingidamente exasperado para Nyx, mas, no fundo, podia ouvir a conotação por trás daquelas palavras. Emhyr realmente detestava Lyra, realmente tinha nojo de Lyra.
—— Oi, olha como fala dela, cara —— advertiu Nyx com um tom de voz cauteloso. Não queria brigar com Emhyr especialmente não com a única pessoa que ainda se dava ao trabalho de ficar perto dele sem que o fizesse sentir alguma coisa tóxica e monstruosa. Ainda assim, não iria aceitar que ele falasse daquela forma de Lyra. Se não pelos seus próprios sentimentos, pelo respeito em geral.
—— Foi só uma piada, Nyx, não precisa bancar o cavaleiro solitário…
—— Não soou como uma piada, Ems.
Emhyr suspirou frustrado, jogando as mãos para o ar, caminhando em direção ao banco de madeira do lado de fora do ringue, e Nyx saltou com elegância acompanhando-o com passos mais vagarosos e cautelosos. O vento gélido era um alívio para sua pele suada, mesmo que fizesse o tecido de sua blusa, agora suja pelo treinamento constante com Emhyr, grudasse nos músculos de seu corpo como uma segunda pele, desconfortável. Nyx levou a mão direita em direção ao seu pescoço, desfazendo o nó ali, e abrindo a gola de sua blusa, antes de massagear seu pescoço.
—— Olha, desculpa, eu não quis ofender nem você, nem Lyra —— admitiu Emhyr com um grunhido baixo, deixando-se sentar no banco de madeira, ouvindo aparte o ruído que o objeto fez sob o peso do homem, e então alçou a garrafa de água, terminando-a em três goles, antes de arremessá-la na direção de Nyx. Nyx soltou um riso baixo, quase discreto demais para perceber, desviando do objeto, antes de lançar um olhar fingidamente irritado para Emhyr. —— É tudo isso, sabe, cara? Quer dizer, sei que nunca tive chance com a sua prima, e sei que ela merece bem melhor do que eu, convenhamos, mas o principezinho congelado da Invernal? É sério?
Nyx cruzou os braços por sobre seu peito, unindo as sobrancelhas, e suspirando pesado. Naquele aspecto, sentia pena de Emhyr. Emhyr era uma criatura de poder, nascida e forjada para guerra, era exatamente o filho que tio Cassian desejaria ter tido se tia Nestha não tivesse parido três meninas com suas personalidades e opiniões fortes.
Veja, não era que Cassian não amasse as filhas, mas temia muito mais por elas do que o faria se fosse um menino. Para crianças illyrianas a mudança era longa e o risco alto, especialmente quando você era uma garota. Sua esposa poderia ser uma Valquíria, e ao menos duas de suas filhas poderiam ser guerreiras ávidas e elegantes, mas isso não alterava o fato de que muitos, especialmente da Corte dos Pesadelos, as veriam como ameaça. Emhyr havia sido praticamente adotado por tio Cassian quando tinha 13 anos. Virou um membro contínuo, e era normalmente o responsável por proteger e ficar de olho nas mais novas, mas Aurora? Bem, Aurora fazia o que queria, quando queria e com quem queria.
Entendia que Emhyr havia se apaixonado por sua prima —— mesmo que não conseguisse entender o porquê, Aurora cutucava o nariz quando era pequena e então o culpava pôr fazê-lo, e a pior parte era que todo mundo acreditava, como que aquilo iria ser atraente para alguém? ——, mas entendia igualmente que a lealdade de Emhyr era muito maior e muito mais profunda com tio Cassian para sequer ousar tentar algo com Rorie. E agora ela estava noiva do herdeiro da Corte Invernal…
—— Ah, não sei, cara, dizem que ele é bem atraente, cabelo branco igual neve, e maneiras encantadoras. O cara tem carisma, parece, talvez seja a dela —— Nyx provocou com um sorriso divertido, tentando animar, em vão, o humor de Emhyr. Emhyr lançou um olhar exasperado, nem um pouco feliz. Nyx ofereceu ao melhor amigo um sorriso amarelo, passando as mãos pelos cabelos suados, tentando afastá-los de suas têmporas e maçãs do rosto. —— Sinceramente, eu prefiro você.
Emhyr ignorou o comentário de Nyx, apoiando os dois cotovelos sobre seus joelhos dobrados e encarando as mãos calejadas pelo treinamento.
—— Precisava ser alguém tão diferente de… de mim…? —— sussurrou Emhyr baixinho, e Nyx exalou lentamente, caminhando em direção ao banco que Emhyr estava sentado, e se sentou ao seu lado, deixando suas costas repousarem contra o tronco da árvore torta, apoiando a parte de trás de sua cabeça contra a superfície áspera e torta, fechando os olhos por um momento e apenas aproveitando o silêncio e calmaria que envolviam o acampamento illyriano a noite.
Poucos eram os guerreiros que ficavam até tarde para treinar, a maioria ou tentaria escapar das barracas para ir ao centro da cidade e conseguir a sorte com alguma garçonete atraente de um pub, ou estariam em suas camas, batendo uma, para variar. Talvez Nyx tivesse seguindo os passos de seu nome, e sua apreciação à noite começasse a se tornar patológica. Quando abriu os olhos outra vez, seus olhos azuis se fixaram no manto escuro que cobriam os céus, as estrelas marcantes e vividas cintilando pelo horizonte o fazendo lembrar-se, mesmo contragosto, de olhos verdes intensos, arregalados, e um rostinho assustado. Odiou-se por não conseguir olhar as estrelas e pensar em outra coisa, qualquer coisa, mesmo Lyra seria uma boa escolha; só conseguia pensar na menina.
Questionar-se o que diabos teria acontecido com ela, para onde havia ido, e se um dia ele conseguiria encontrá-la outra vez. Se um dia conseguisse fazê-la pagar pelo o que havia feito com ele, por tê-lo condenado. A mãe sabia o quanto ele desejava o fazer. Feyre dizia que o melhor a ser feito era enterrar o passado e perdoar-se para seguir em frente em paz; não era um trabalho fácil, na verdade, pesava mais do que recompensava, mas era libertador. Nyx não conseguia acreditar na mãe, não conseguia acreditar em suas palavras, porque não era assim tão simples. A menina havia destruído sua vida inteira, e Nyx não sabia sequer o nome dela.
—— Ela não te amaria, Ems —— Nyx quebrou o silêncio que havia se formado entre os dois melhores amigos. Emhyr engoliu em seco, deixando um riso embargado escapar de sua garganta. Nyx encarou o rosto do melhor amigo com um aperto no coração. Desejou poder puxá-lo para um abraço apertado, consolá-lo com o toque que ansiava e dizer a ele que tudo ficaria bem, mas não poderia, não sem arriscar, mesmo em um momento de distração, feri-lo. Ele já havia ferido gente o suficiente para que não desejasse arriscar. Então apenas o encarou, saudosista pelo o que jamais poderia oferecer a ninguém, e, ao mesmo tempo, compreendendo aquele sentimento de rejeição que Emhyr sentia. —— Não como você gostaria que ela o fizesse. Se Skad é tão diferente de você, e é quem capturou a atenção dela, então significa que ela jamais o amaria da mesma forma que você se acabassem juntos. Não ter o afeto de Aurora é tão ruim assim? Eu sei que ela é bonita e charmosa e tudo mais que vocês parecem resmungar por aí, mas sinceramente, se você chutar uma árvore, caem cinco iguais a ela. É tão ruim que não seja Aurora?
Emhyr tensionou a mandíbula, lançando um olhar cansado para Nyx. Os dois homens se encararam com sinceridade e vulnerabilidade, o porto seguro um do outro.
—— Não sei se é sobre Aurora, cara, talvez… —— Ele pausou por um momento, calculando suas palavras. Nyx não disse nada, não o apertou, nem o pediu para parar, apenas esperou que ele tomasse seu tempo, para que estivesse pronto e seguro para dizer o que quer que desejava. Sem julgamentos. Sem piadas. Apenas ouvindo-o. —— Acho que começou com ela, mas, é mais do que isso, sabe? Quer dizer, por que eu nunca sou sequer uma opção? Você teve sorte, é filho das pessoas mais fodas que já andaram nessa merda de terra, mas eu? O que tenho a oferecer, hm? Posso ter o respeito do General, mas para qualquer um, sempre serei apenas um segundo pensamento, uma presença conveniente. É isso que frustra, sabe? Queria que alguém me escolhesse, Nyx, que alguém… sei lá, cara, me visse de verdade.
—— Você é a primeira opção. Para mim —— Nyx retorquiu unindo as sobrancelhas, encarando Emhyr com um pouco mais de intensidade do que deveria, incomodado com as palavras que o melhor amigo havia usado. Ficou surpreso por não ter percebido que ele se sentia daquela maneira antes. A quanto tempo Emhyr carregava aquele fardo sozinho? E porque diabos nunca havia dito nada para Nyx?
Emhyr bufou, um sorriso torto começando a surgir por seu rosto, outrora rígido.
—— Como se isso fosse algo positivo —— murmurou Emhyr com uma risada rouca. Nyx bufou, empurrando-o com o ombro para o lado, antes de cruzar os braços sobre o peito, e encarar sem enxergar o ringue agora vazio. Parcialmente ali, parcialmente na mesa de Arwan, ouvindo suas palavras, pulsando por seus ouvidos, em um loop quase irritante. O que havia na Invernal que ele não poderia encontrar? —— Você é o mesmo idiota que se envolveu com Lyra sabendo a merda que faria de tudo. Seu gosto pessoal é tão deplorável quanto suas habilidades de combate corpo a corpo. Quase me ofende saber que sou sua primeira opção.
Nyx estalou os lábios, lançando um olhar irritado para Emhyr.
—— Que merda, o que todo mundo tem contra a Lyra? Só porque alguma merda inventou que ela não era uma boa pessoa, não a torna imediatamente uma criminosa! —— Tentou defender, mas um olhar de Emhyr foi o suficiente para quebrar sua defesa e o fazer revirar os olhos, em rendição. —— Ela é horrível, eu sei, porra, minha mãe me faz lembrar disso todos os dias, mas ela não é horrível comigo.
—— E por que você acha isso? —— Emhyr retorquiu sarcástico, e Nyx o encarou irritado.
—— Não, não começa —— avisou Nyx, colocando-se de pé, começando a ficar agitado. Não queria ter aquela discussão, não naquela noite, não com Emhyr, não quando estava tão cansado e com tantas coisas para pensar.
—— Cara, até você já deve ter percebido a intenção dela —— Emhyr retorquiu preocupado, os olhos dourados fixos no semblante irritado de Nyx. Por um momento, Emhyr abriu os lábios para continuar sua acusação, mas então, pareceu enxergar algo no semblante tempestuoso de Nyx que o fez pausar. Emhyr deixou-se recostar contra o tronco de árvore, unindo as sobrancelhas, em descrenças. —— Puta merda, você sabe, não sabe? As reais intenções dela? Que ela só está te usando não é? —— Quando Nyx não respondeu, apenas encarou Emhyr em silêncio, o outro rapaz soltou um riso desprovido de humor, repleto de descrença. —— Porra, Nyx… tem algo de errado contigo, cara, é sério, isso não é normal.
Nyx não respondeu, não havia como responder, era verdade e os dois sabiam. Nyx estava com Lyra porque era o que acreditava que merecia —— uma mentirosa que estava o usando apenas para conseguir o trono da Corte Noturna para a familiar de Keir ——, acreditava que não havia mais nada para si que não fosse aquilo, e ele havia tornado-se exímio em mentir para si mesmo, em criar histórias e justificativas que a tornavam mais doce e amável apesar de seus interesses naquele… o que quer que fosse que os dois tivessem.
Engoliu em seco, voltando seu olhar na direção da entrada do acampamento onde três figuras encapuzadas se aproximavam. Reconheceu tio Azriel de longe, ele estava sempre acompanhado por suas sombras, Nyx podia ouvi-las cochichar ao fundo de sua mente, agitando-se como gatinhos manhosos, desesperados por atenção quando ele estava perto. Ao centro estava tio Cassian com sua expressão incomodada, discutindo entre sussurros alguma coisa ao lado da jovem de cabelos escuros e cor parecida com a de tio Cassian, mas traços e postura elegantes como as de tia Nestha. Os cabelos trançados pendiam por seu ombro esquerdo, com uma joia que lembrava uma coroa elegante e delicada presa em sua testa com o que parecia ser um cristal delicado, roxo ao centro cintilando elegantemente. Um presente, Nyx percebeu, do noivo dela. O vestido roxo escuro adornava sua silhueta, de forma elegante, acentuando o decote generoso e os seios avantajados. Carregava Ataraxia em suas costas, mais como um gesto simbólico, uma lembrança a todos de quem ela era e de onde ela vinha, do que qualquer outra coisa.
Nyx bufou suavemente, sentindo um quase sorriso surgir por seus lábios, entristecido. Ela estava tão bonita aquela noite, nem parecia a garotinha rechonchuda de mão pesada e irritante que o seguia pelos corredores, disputando corrida ou o culpando por absolutamente tudo. Era uma gracinha, naquela época, com dentes faltando e bochechas grandes como a de um pequeno esquilo, ainda tinha, mas agora em um rosto angular e elegante. Ela havia crescido tanto, era uma mulher agora, linda e decidida, com a mandíbula teimosa como a da mãe, e o olhar espertalhão do pai.
Pela primeira vez, em muito tempo, Nyx se permitiu sentir o desconforto da perda; ela não estava morrendo, sabia que a situação poderia ser sempre pior, mas ela estava indo embora de certa forma, mesmo que ainda vivesse na Corte Noturna —— o que Nyx duvidava muito que fosse o caso —— seria em uma outra casa, em um outro lugar, a sua maneira. Não teria mais gritos irritados por ele ter apagado a luz, ou tentativas falhas de acertá-lo com travesseiros ou sapatos por ter simplesmente invadido o quarto dela, desalinhado tudo, e saindo como se nada tivesse acontecido. Não haveria conversas em plena madrugada sobre a vida e o que desejavam para si mesmos, nem conselhos idiotas. Percebeu com surpresa que ela faria muita falta. Mais falta do que jamais havia imaginado que poderia sentir.
Os olhos azuis dele se voltaram para os de Emhyr observando o semblante do melhor amigo suavizar, embora ainda houvesse a dor familiar da rejeição pela situação. Apertou os lábios, a memória vívida da voz de Arwan ainda presente em sua mente, fazendo-o sentir aquele desconforto sufocante, como se estivesse sendo vigiado, como se olhos estivessem acompanhando até mesmo os mínimos gestos e ações. Trincou os dentes com força, considerando a possibilidade. Sabia que o deus da morte estaria o assistindo, de onde quer que estivesse, mesmo que preso naquele limbo entre os dois lados da existência: vida e morte, ainda estaria analisando e acompanhando seus movimentos. Havia sido claro em suas palavras, queria que Nyx fosse atrás de Koschei, não da Corte Invernal, o que quer que estivesse na Corte Invernal pertencia a Lyall, o Arauto de Arwan, descobrir, não Nyx. Mas isso não significava que Nyx não poderia assistir…
Arwan havia lhe dito que não queria contar seus planos para a Corte Invernal, havia lhe dito para ficar longe da Corte, mas não da cidade. Nyx só precisava manter-se longe do castelo, e não precisaria de muito, haviam sempre tavernas por lá com hidromel e outras comidas típicas que aquelas criaturas feitas de gelo costumavam apreciar. Vinho quente, sopas, e algo com enguias. Ele só precisava se manter longe da Corte de Kallias e Arwan não poderia acusá-lo de desrespeitar sua ordem. E Nyx descobriria, afinal, o que diabos havia ali que tinha conquistado tamanho interesse da criatura.
Um mínimo sorriso começou a surgir por seus lábios; e ele poderia ajudar Emhyr ao menos com algo: chutar a canela do principezinho de gelo, e ter certeza que o coração do melhor amigo não se partiria ainda mais ao ver Aurora sorrir para outro como ele muito provavelmente sempre havia desejado que ela o fizesse consigo. Ou seja lá o que isso signifique —— Nyx nunca havia tido problemas em conseguir o que queria, não entendia muito bem o que era a ideia de correr atrás de alguém.
—— Troca comigo —— Nyx quebrou o silêncio subitamente, ciente do que estava fazendo, e das consequências que isso poderia lhe trazer, mas bem, quando dentro do fogo… os olhos azuis cintilaram com uma mistura de algo traiçoeiro e intenso, profundo o suficiente para que Emhyr pudesse, com muita facilidade, ver as engrenagens da mente de Nyx girando. Emhyr apertou os lábios, encarando-o desconfiado, mas Nyx parecia irredutível, com um último olhar na direção de onde Tio Azriel e Aurora haviam saltado de seus cavalos, Nyx sustentou o olhar de Emhyr com intensidade, convindo as palavras silenciosas que ele não diria alto, não agora sob o alcance dos ouvidos de Aurora. —— Vai no meu lugar na missão com tio Cassian nas Montanhas, e eu vou no seu com tio Azriel, para a Invernal.
Emhyr hesitou, um olhar tentativo fixando-se brevemente no semblante impaciente de Aurora, antes de focar no rosto do melhor amigo. Nyx estendeu sua mão na direção de Emhyr, suprindo um sorriso satisfeito em seu rosto, quando o melhor amigo aceitou o gesto, colocando-se de pé novamente.
—— É melhor você trazer para mim muita bebida —— Foi só o que Emhyr disse em concordância. Nyx traria a lua e as estrelas para Emhyr se ele conseguisse descobrir o que diabos Arwan, o líder da Caçada Selvagem estava escondendo na Corte Invernal. E ele iria descobrir.





SKAD • CORTE INVERNAL

O peso do pingente em suas mãos parecia maior do que ele desejava que o fosse, e uma parte de si, continha com muita dificuldade o desejo de simplesmente estender a ela. Dizer-lhe em um sussurro “tome-o, é teu” com a esperança que ela compreendesse as palavras por trás de seu gesto, com a esperança que ela o aceitasse, e tornasse sua.
Quantas vezes ele não havia fantasiado com algo assim, no segredo da noite, e na privacidade de seus aposentos longe de todos? Quantas vezes havia fantasiado o rosto dela, a maneira com que ela sorriria para ele? Como o tocaria ou amaria? E uma parte de Skad tinha quase certeza que ela o faria. Uma parte dele tinha quase certeza que se ele tivesse tido coragem o suficiente para dizer exatamente como se sentia, talvez, ela o olhasse diferente do que o fazia agora, com aquela expressão serena e afeto platônico. As mãos dele envolveram com mais força o pingente, sentindo algo em sua garganta arder. Ele detestava aquele olhar. Detestava a maneira com que ela podia simplesmente enxergar nele um bom amigo e não… não o que ele queria que ela visse também.
E agora, marchava como um condenado, em direção à Fronteiras da Corte Invernal para conhecer sua futura esposa. Supunha-se que deveria estar feliz ao menos, não precisaria se preocupar com o futuro e teria uma aliança com uma das Cortes mais poderosas de toda Prythian. Até mesmo havia ouvido que sua futura esposa era na verdade deslumbrante em beleza. Como ele poderia se opor-se a isso, certo? Embora beleza não fosse tudo, não ajudava, afinal? Mas o que sua mente havia resignando-se a aceitar, e o que seu coração dolorosamente ansiava, eram dois extremos opostos determinados a dilacerá-lo.
Skad soltou um chiado entre seus dentes, impaciente. Puxou abruptamente as rédeas de seu cavalo, ignorando o grunhido, parte soluço exasperado, que Lumia soltou em resposta com a movimentação brusca de seu gêmeo, ele saltou em direção ao chão. Indicou com uma expressão neutra para os guardas prosseguirem, apenas murmurando que desejava andar. Sua irmã gêmea, é claro, não pareceu convencida com a súbita vontade de andar que Skad havia tido, pelo contrário, por um segundo, os olhos azuis como os de Kallias, o pai deles, pareceu enxergar a alma de Skad, inquisidores e repletos de um aviso silencioso. Não se atreva, seu olhar parecia querer dizer, mas Skad se atrevia, e muito.
Estreitou os olhos sustentando o olhar da irmã, observando o trenó deslizando por entre a neve e levá-la consigo, desaparecendo dentro do túnel de árvores altas e verdes escuras, pontilhadas pelos flocos de neve que desabaram do céu, suave e espectral. O olhar foi quebrado pelas costas do trenó de madeira branco, com as inscrições e runas que representavam a família do Grão Senhor Invernal. Skad havia passado tempo o suficiente estudando-as e decorando-as para lembrar-se de olhos fechados o que diziam. Porque estas pesavam em seus ombros, tencionou a mandíbula por um momento, seu olhar repousando na trilha que se abria por entre as árvores, antes de piscar, afastando tais pensamentos de sua mente.
Permitiu-se caminhar com propósito por entre a neve, até que ela estivesse ao seu lado.
—— Está com aquela expressão de novo —— Skad murmurou, inclinando-se à direita dela, com um tom forçado de divertimento, embora seu hálito cálido tivesse tocado a parte de trás da orelha dela, afastando alguns fios de cabelo que repousavam, soltos e selvagens, no ombro direito, ela não pareceu surpresa, só era muito sensível, especialmente na região do pescoço, então ele sufocou um riso quando ela tremeu.
Ela cheirava a flores selvagens, canela e alguma outra coisa que ele nunca soubera dizer com exatidão o que era, mas que era único dela; cheirava muito bem. Ele a viu mover sua mandíbula, tentando ignorar o comentário dele com uma expressão neutra e falsamente tranquila. Mas eram seus olhos que o mantinham cativo; tempestuosos e tão… vivos.
—— Isso tudo é porque teve que deixar Boreas para trás? —— Skad especulou, dando um passo mais para a direita, e então caminhando ao lado dela.
Skad não conteve um sorriso satisfeito ao observá-la revirar os olhos, esforçando-se para não o encarar. Mesmo que ela estivesse com uma expressão neutra, seus olhos sempre a traiam, seus batimentos sempre aceleravam, e seu cheiro sempre expunha o que ela sentia. Estava irritada com o comentário dele, isso era perceptível, mas igualmente, parecia incomodada com algo a mais, algo que havia a deixado melancólica, até mesmo preocupada. Skad uniu suas sobrancelhas, questionando-se internamente o que poderia tê-la deixado assim tão incomodada, e então, uma parte traidora dentro de seu peito, ousou encher-se de esperança, talvez, ele tivesse a julgado mal, talvez o seu incômodo fosse sobre outra coisa, poderia ser, não poderia? Ela poderia estar…
—— Está com ciúmes, ? —— Skad disse tentando ocultar um sorriso torto, voltando a linha de seu olhar na direção dela, e finalmente, ele tinha sua atenção para si.
o encarou, estupefata, mas nada disse. E isso apenas aumentou as esperanças de Skad. Seria possível então? Seria possível que se ele lhe confessasse exatamente para quem ele havia imaginado entregar aquele colar com a kryovélia, ele ouviria e veria espelhado no rosto dela o que tinha fantasiado por tanto tempo em silêncio? Pela mãe, que a resposta fosse sim, porque se fosse um não, algo dentro de si se partiria permanentemente…
—— Dizem que Aurora precede seu nome —— respondeu devagar, pronunciando as palavras com calma e uma serenidade que não chegava a seus olhos. Skad sentiu seu coração pesar, seu sorriso diminuindo, ao desviar seu olhar para o caminho. —— Que é uma das mais belas de Prythian, de fato. Mas o que eu soube? É que ela atira facas melhor do que Shadowsinger.
Aquela informação era nova para Skad, mas igualmente, não havia o interessado. Skad queria saber o que estava pensando, sentia-se enciumada por ele, se seu coração gritava o desconforto de perdê-lo para alguém formidável como Aurora, como ele sentiria se a situação fosse inversa. Se a situação fosse contrária, não teria ele lutado por ela? Não teria obliterado quem quer que ousasse reivindicá-la? Skad engoliu em seco, unindo as sobrancelhas em uma expressão tensa, o pensamento de outro tomando-a em seus braços, amando-a da forma que ele sabia que poderia oferecer a ela… era o suficiente para criar uma tempestade em seu peito, e enchê-lo de uma fúria gélida.
—— Não ouviu o que eu disse, não é?
A voz de despertou Skad de sua espiral hipotética enfurecida com o potencial futuro parceiro de que ele sabia que não existia. Ou, bem, se existia, que fosse ele e mais ninguém…
Skad piscou, pigarreando para clarear sua garganta, tentando afastar seus pensamentos ao voltar seu olhar na direção dela, tentando manter uma postura calma e desinteressada.
—— Ouvi. —— ergueu uma sobrancelha, questionando silenciosamente a afirmação de Skad; ele apertou os lábios desviando os olhos quase imediatamente do rosto dela, de repente parecendo ter desenvolvido um terrível interesse pela trilha irregular e coberta por neve e galhos secos. —— Estava falando sobre os atributos notórios da minha noiva. Eu estava ouvindo, viu? Ouvi tudo o que disse. —— Defendeu-se porcamente Skad. Fez uma careta consigo mesmo, considerando bater sua cabeça na primeira árvore que encontrasse por seu caminho, o pinheiro a sua direita parecia um belo espécime para bater sua cabeça até que esta rachasse, certamente Lumia iria adorar assistir a cena.
não respondeu, apenas ficou em silêncio ao seu lado.
Skad tentou convencer-se de que não estava curioso para ver a expressão dela, tentou acreditar que poderia simplesmente continuar o caminho com seu ato desinteressado e distraído, mas antes que percebesse seus olhos já havia se desviado para o rosto dela outra vez. havia aberto um sorriso, aquele sorriso que iluminava seu rosto inteiro, fazia as sardas cintilarem suavemente como estrelas por sua pele delicada, e expunha os dois caninos um pouco maiores que os outros dentes dela. Ele o fazia lembrar-se de um filhote de felino que sua irmã um dia insistiu em trazer para casa, para o terror de sua mãe; pequeno em estatura, e falsamente convincente em seu papel de fofo, mas que poderia ameaçar até mesmo a mais furiosa de suas renas. O animalzinho acabou fugindo, para o coração partido de Lumia, mas ainda estava ali, isso queria dizer algo, certo? Pela mãe, que significasse algo.
—— Eu estava dizendo que —— repetiu, empurrando gentilmente o braço de Skad com o corpo, fazendo-o sorrir com o gesto, antes de observá-la alçar-se graciosamente por entre os galhos dos pinheiros, ágil e mais rápida, com a graciosidade de um felino. Era tão precisa como uma bailarina, elegante e silenciosa, caminhando por entre os galhos como se não tivesse peso algum, deixando para trás apenas um rastro suave de neve caindo das folhagens, pairando pelo ar como poeira, branca e distinta. Girava distraidamente por entre os dedos aquele colar esquisito que sempre usava: era uma chave, retorcida e com diferentes dentes tortos que não pareciam formar um padrão para abrir algo, enferrujada, que não servia para nada, aparentemente. —— Uma vez que você esteja casado, vivendo o melhor de sua vida, desfrutando de todos os deleites que a Corte Noturna pode lhe oferecer… —— pontuou com um olhar divertido, significativo na direção de Skad, mas ele ignorou ao que ela provavelmente se referia. Não pela gentileza e respeito sobre tal situação, mas porque não queria discutir sua potencial vida sexual com uma esposa que se tornaria sua obrigação. —— Pedi autorização para o Grão Senhor para enviar Boreas de volta para as muralhas e o velho urso? Tá animado para ir para casa, tanto que não para de falar nisso, aquele ingrato.
O sorriso doce nos lábios dela era informação o suficiente para o fazer compreender de imediato que nenhuma de suas palavras realmente possuíam o significado que tinham. tinha aquele jeito esquisito de demonstrar afeto. Na maior parte do tempo ela era o completo oposto de Lumia, sempre educada, gentil e até mesmo prestativa, mesmo com aqueles que lhe lançavam olhares debochados ou desconfiados por ser uma mera forasteira, mas então, quando ela gostava de alguém, e havia intimidade o suficiente, costumava a usar xingamentos como elogios, a distorcer significado de palavras ruins as tornando boa: ingrato era apenas uma maneira afetuosa dela se referir a Boreas, assim como idiota era para referir-se a ele. Não havia intenção alguma ali. Quando dizia “te odeio” estava dizendo, na verdade “te amo” e Skad percebeu que havia algo naquilo que não queria viver sem. Não conseguia.
—— E, finalmente recebi uma resposta da Corte Diurna ontem à tarde, enquanto você e Lumia estavam caçando perto das fronteiras sul. O Grão Senhor Helion aceitou me receber por um tempo lá, para continuar a pesquisa. Disse que tem muito interesse nas minhas habilidades especiais. —— abriu um sorriso largo, rindo baixinho com o flerte dúbio, Skad não precisava ler a mente dela para saber o que estava pensando. Deveria ter acreditado que o Grão Senhor fizera o flerte por mero gracejo, coisa boba, Skad não tinha assim tanta certeza, não quando ela parecia uma estrela presa em corpo feérico.
Ainda assim, a notícia roubou o ar de seu peito. Primeiro, pela surpresa de suas palavras. e Boreas eram inseparáveis, desde que ela havia aparecido perdida no meio da floresta ao Leste, próximo da enseada congelada, os dois estavam juntos, ela e o Urso Polar Ancestral, de uma forma esquisita que quase ninguém, nem mesmo Kallias poderia explicar ou começar a entender a dimensão daquela conexão. Em toda a existência daquela Corte, era conhecido que os Ursos Polares que guardavam as fronteiras e florestas nunca foram presenças amistosas, especialmente com forasteiros, eram poucos aqueles com quem os Ursos se permitiam conectar, ainda mais poucos eram aqueles que exibiam o laço entre as criaturas ancestrais.
Boreas tinha este mesmo laço com , uma completa forasteira; a princípio algo inusitado e que denotava preocupação de todos os membros da Corte, mas que havia tornado-se uma excelente arma e possibilidade de compreensão quando a jovem se mostrou mais do que aberta a explicar o que se passava na mente do animal. Ela o compreendia como mais ninguém, e o velho urso parecia mais do que satisfeito de mantê-la por perto. Mas então, um gosto amargo tingiu sua língua, a ideia de que Helion havia finalmente aceitado o pedido deles para continuar sua pesquisa em uma das bibliotecas do Grão Senhor da Diurna, tendo o auxílio de toda sua sabedoria e anos de experiência como o Quebrador de Feitiços, iluminou o semblante normalmente gélido de Skad e o fez sorrir genuinamente para , sentindo aquele calor gostoso e doloroso se espalhar por seu peito.
Eles haviam conseguido —— ela havia conseguido, mas considerava as vitórias dela, dele também. Mas então ele percebeu a diferença em sua fala, pequena e simples, mas que ainda assim o atingiu como uma facada precisa bem ao centro de seu peito. Ela não estava contando com ele. Uma vez que você esteja casado, ela havia dito.
Skad sentiu algo dentro de seu peito se fraturar, rachar, seu sorriso diminuiu quando ele parou de andar, e voltou-se completamente na direção dela. Sua respiração baixa, controlada agora, esvaindo-se como uma pequena névoa esbranquiçada por entre seus lábios e nariz, obrigando-o piscar algumas vezes para afastá-la de seus olhos. Tentou, quase desesperadamente, manter sua expressão contida e calma, mas a sensação dolorosa instalada em seu peito era o suficiente para distraí-lo de todo o resto.
—— Mas… —— Skad começou a dizer, sua voz falhando ao final, o fazendo trincar os dentes com força, e praguejar pela vulnerabilidade irritante que havia acabado deixando expor sem querer antes de pigarrear. Clareou sua garganta, encarando-a agora com uma expressão firme, quase irritadiça. —— Achei que fosse nossa pesquisa, ? Quando se tornou só sua? —— Skad retorquiu por fim, sentindo a raiva misturar-se com a urgência, criando um monstro que começava a arranhar suas entranhas. Os olhos queimaram o rosto de , buscando alguma coisa, qualquer coisa que lhe oferecesse o mínimo que fosse de certeza, mas… não havia nada, e isso era o que mais o desesperava.
—— Sempre foi só minha, Skad —— retorquiu com aquele tom maldito, baixo e cauteloso que ela só usava quando alguém ultrapassava seus limites.
Não era que ela ficasse subitamente ríspida e grossa, era apenas uma defesa que assumia sua voz, como se ela estivesse começando a vestir as armaduras que ao longo dos anos foi desfazendo-se, como se ela estivesse começando a analisar aos poucos até a menor das palavras que lhe eram ditas e que dizia, até que tudo o que restasse fosse apenas murmúrios baixos de concordância e silêncio de sua parte. Ela não era confrontacional, era por isso que Lumia sempre levava a melhor quando discutia com ela; era por isso que alguns guerreiros a tinham como alvo permanente, nunca respondia na mesma moeda, no máximo apenas se silenciava e evitava pessoas como um cervo, capturado em flagrante, mas Skad nunca havia imaginado que ela consideraria fazer aquilo com ele.
A rachadura em seu peito pareceu aumentar, junto do desespero. Ela apertou os lábios cheios, engolindo em seco, lançou um olhar intenso na direção do caminho que o trenó com Lumia e sua mãe havia partido, desaparecido a essa altura já distante o suficiente para os obrigar a andar mais rápido se desejassem chegar a tempo para aquele maldito encontro —— Skad não queria. Então, ela voltou a encará-lo, se inclinou para frente, com um olhar gentil, mas ainda assim melancólico.
Skad não se moveu um centímetro, sentindo o cheiro dela pairar ao seu redor, sentindo o calor de sua pele, convidativo, a tão poucos centímetros de distância, sentindo as lufadas suaves de sua respiração chocarem-se contra seu rosto, cálidas e familiares como a suas próprias. Desejou poder vencer aqueles centímetros. Desejou simplesmente beijá-la até que tudo desaparecesse e somente ela estivesse à sua frente. A mãe sabia o quanto ele o queria fazer, mas não poderia, não sem saber o que diabos ela sentia por ele, não sem ter certeza que ela realmente o amava como ele o fazia.
—— É meu fardo para carregar —— ela sussurrou com pesar em sua voz. Skad trincou os dentes com um pouco mais de força, inclinando sua cabeça para trás, sem mover um músculo, apenas angulando sua cabeça para observá-la atentamente. —— Só cabe a mim resolver isso. Fui eu quem causou todo este problema em primeiro lugar, e… —— Ela pausou suspirando pesado, as sobrancelhas angulosas se uniram, e os cantos dos lábios se curvaram para baixo, entristecidos. —— Está ficando insuportável, sabe? Quanto mais os dias passam, mais tenho a certeza de que, em algum lugar de Prythian, existe um garotinho que está sofrendo, por minha culpa… preciso entender como tudo isso funciona, e… consertar o erro que cometi. Eu preciso fazer isso, Skad, mais ninguém. Então, por mais que ame o fato de você ter embarcado nesta loucura, quando a pessoa mais sábia teria apenas me dito para sair da biblioteca antes que amassasse as páginas, não posso guiá-lo comigo para um caminho que não tenho certeza que possui retorno, entende isso?
Era doloroso quando ela era doce daquela forma. Quando expunha suas intenções tão claramente como vidro. Era doloroso vê-la dizer aquelas palavras com tanta gratidão e até mesmo afeto, mas sem ser da forma que ele desejava que fosse. Era doloroso porque ele não conseguia ressentir-se dela, por mais que tentasse —— e ele sabia que ela o entenderia mesmo se ele se ressentisse dela, o aceitaria independentemente do que tivesse a oferecer. Ela nunca pedia, apenas aceitava o que lhe era entregue, sem nunca reclamar.
Não havia ajudado em nada que um dos poucos raios de sol que iluminavam os dias sempre cinzentos e obscurecidos pelos céus fechados, tivessem tocando-a como uma carícia. O peito dele doeu outra vez, seu coração pareceu se contrair ficando do tamanho de uma noz, e tudo o que ele pode fazer foi admirá-la em completo silêncio. Admirar a curva dos lábios dela, a pele de aparência macia e convidativa, tão próxima de si, e ainda assim, tão longe de seu alcance, foi contemplar a maneira com que a íris dela parecia ficar mais clara sob o toque do sol, a cor mais viva, enquanto as pequenas sardas que pontilhavam seu nariz e maçãs do rosto, cintilavam como pequenas estrelas. Alguns fios de seu cabelo pareciam cintilar da mesma forma, como se fossem feitos de pura energia, lhe davam aquele ar etéreo, como se fosse uma estrela que tivesse tomado forma. Um pedido que Skad havia feito a muito tempo que havia se tornado real.
Ele poderia beijá-la se quisesse. Ela estava próxima o suficiente para que ele pudesse sentir o calor de sua respiração contra a dele. Ele poderia beijá-la e pela mãe, como ele queria, mas não o fez. Não podia, não sem ter a certeza de que seus sentimentos eram retornados em igual mesura. Todavia, não conseguiu resistir ao impulso de tocá-la.
Observou-a arregalar os olhos, parecendo surpresa e até mesmo sem jeito quando as pontas dos dedos de Skad, gélidos pelo inverno e por ser quem era, tocou a pele dela. Era de fato macia sob o toque, delicada, permitiu-se traçar, gentilmente a curvatura de sua maçã do rosto, sentindo o calor da pele dela percorrer por seu corpo, derretendo o que ainda estava congelado, e acendendo uma chama no que já havia se aquecido. Seu polegar deslizou suavemente pelo canto do lábio dela, admirando o que tinha em mãos, antes de segurar, gentilmente, seu queixo, obrigando-a a encará-lo.
—— Promete que irá me escrever? —— Skad pediu com uma voz apertada, os olhos cintilando com emoções não dita, seu pomo de adão contraindo-se ao engolir em seco, ainda assim, forçou um sorriso divertido para ela, tentando demonstrar o suporte que ele sempre havia encontrado naqueles olhos verdes tão genuínos e gentis. —— Todos os dias, sobre tudo, mesmo que seja sobre algo bobo, como o quanto você vai sentir falta de mim para iluminar seus dias. —— Tentou fazer piada, mas sentiu que começaria a chorar se a ouvisse rir. Não podia deixá-la ir, não queria deixá-la ir nem mesmo para alguns metros de distância de si, mas que outra escolha teria? Não podia implorar para que ela ficasse, para que ela o aceitasse, não quando havia uma noiva o esperando a pouco mais de um quilômetro de distância, não quando ele tinha o dever de seguir os acordos que seu pai fizera para assegurar a proteção e prosperidade de sua Corte.
Sabia que poderia implorar para seu pai reconsiderar. Sabia que tinha escolha naquele casamento arranjado, mas precisava que ela retribuísse o que ele sentia. Precisava que ela o amasse da mesma forma que ele a amava; Skad tinha quase certeza de que isto era a única coisa que ela jamais poderia fazer.
—— Palavra de caçadora —— ela prometeu, endireitando-se e escapando de seu toque. O coração de Skad finalmente se quebrou, a rachadura rompeu o que ainda mantinha unido, observando-a sorrir daquela forma doce ao erguer sua mão solenemente. Sufocou um soluço embargado, obrigando-se a sorrir para ela, os olhos brilhando com as lágrimas que não escorreram por seu rosto.
—— Que idiota, você nunca foi uma caçadora, —— retorquiu e ela riu. Skad pigarreou, virando seu rosto na direção da trilha, sem conseguir mais olhar para o rosto dela, com a certeza de que estragaria tudo se ele a olhasse outra vez. Iria pedir para ela não ir, iria confessar-lhe o que sentia, iria implorar para que ela viesse com ele, não conseguiria se perdoar, porque sabia que ela também não o faria. —— Você deveria ir encontrar Boreas no Selkie’s Tail —— Skad forçou um sorriso tranquilo, endireitando-se, e ajustando suas roupas, tentando ter certeza que continuava impecável para apresentar-se formalmente a sua futura esposa, mesmo que, internamente, uma parte de si estivesse desaparecendo, tomado por .
—— Tem certeza? —— questionou unindo as sobrancelhas e inclinando a cabeça para o lado, observando Skad como um maldito gatinho. Skad praguejou mentalmente, teria que criar resistência, teria que aprender a viver sem o que desejava, por mais doloroso que fosse. Skad assentiu, ainda evitando o olhar para o rosto dela, focou então, na chave que repousava por entre seus seios, o objeto metálico enferrujado deveria ter deixado manchas avermelhadas na pele macia, mas não o fazia, era curioso como se portava, tão curioso quanto as insígnias que a envolviam.
—— É apenas burocracia e sei o quanto você odeia tudo isso. Te encontrarei depois, no lugar de sempre, se ainda estiver sóbria —— Skad disse forçando um sorriso torto, e lançando um olhar breve na direção de , sentindo uma pequena ponta de satisfação de ver que ao menos, uma vez, algo que ele havia dito havia a feito corar; não era o que desejava, não era a reação que havia fantasiado tanto, por tanto tempo encontrar, mas teria que bastar, pelo menos por hora. —— Ei, , toma cuidado, ok? —— Skad disse de supetão, antes que pudesse se impedir, seus olhos encontrando-se com os dela, quando ela fez menção de correr por entre as árvores de volta para onde o velho Urso Polar que lhe era companheiro deveria estar se afogando em hidromel em sua forma humanoide. Os olhos de cintilaram com algo profundo, por um momento, parecendo um espelho, Skad viu algo familiar ali, aquela expressão grata e levemente surpresa que ela exibia como se a ideia de que alguém poderia estar preocupado com ela fosse estrangeiro, e algo mais cálido, algo que fez o coração de Skad martelar com força contra sua caixa torácica, fez sua garganta ficar seca e as palmas de suas mãos suarem frio. Algo que criou inúmeras borboletas em seu estômago, e o fez sorrir sem sequer perceber que o fazia. —— Disseram que vai haver uma tempestade mais tarde, então, tome cuidado, a última coisa que você vai querer é virar um cubo de gelo, de novo.
—— Foi uma vez! E você deu a ideia! —— Ela retorquiu irritadiça, bochechas coradas e olhos brilhantes como um incêndio que poderia consumi-lo, mas Skad apenas a observou, perdido em seu saudosismo e o desejo de poder acompanhá-la com a certeza de que não poderia. O sorriso desapareceu junto com ela.

•••


NYX • CORTE INVERNAL

—— Como você sabe? —— Nyx insistiu, mais para antagonizar Aurora do que por outra coisa. Com o canto do olho, viu tio Azriel revirar os olhos, começando a perder a paciência com os dois como sempre acontecia quando Nyx tirava o dia para implicar com Aurora até que esta começasse a chorar. Podia ver, igualmente, o pequeno sorriso de canto que tio Azriel estava lutando para esconder.
Aurora bufou, irritada, cruzando os braços por sobre os seios, e erguendo o queixo de forma desafiadora, marchando mais pesado sobre a neve macia. Nyx abriu um sorriso largo, enfiando suas mãos enluvadas dentro dos bolsos de sua jaqueta, e a seguiu quase saltitando como uma gazela.
—— Você tem prova? Não, não tem. Relatos não são provas, são especulações, Rorie. E se ele for careca, hm? —— Nyx provocou, seu sorriso aumentando gradativamente enquanto as bochechas de Aurora enrubesceu com a frustração crescente. Ah, ele ia levar um chute na virilha, mas valia a pena, além disso, era uma forma educada e gentil de conseguir vingar a honra de Emhyr, sem ter que, bem, necessariamente, vingar a honra de Emhyr. Se o fizesse de fato então entraria em um loop pessoal de vingar a honra de Aurora e então a de Emhyr e ele não tinha muita certeza como conseguiria lutar consigo mesmo. Havia tentado uma vez com um espelho, sua mãe o censurou e Nyx prometeu nunca mais tentar algo parecido.
—— Por que você veio mesmo? Não tinha nada melhor para fazer ao em vez de estar aqui? —— Aurora retorquiu entre dentes, tentando manter a compostura, mantendo seus olhos castanhos fixos na trilha a sua frente, mas parecendo tão irritada quanto Nyx estava divertindo-se. —— Se continuar respirando no meu ouvido, eu juro Nyx, eu vou enfiar a Ataraxia no seu c…
Nyx a interrompeu com um ofego exagerado.
—— Pela mãe, você usa essa boca para beijar a sua mãe? —— Provocou Nyx, e se arrependeu imediatamente quando Aurora, finalmente cedeu ao seu lado Nestha de ser e chutou com mais força do que era necessário sua virilha. Nyx grunhiu alto, sentindo a dor explodir por entre suas pernas e por trás de seus olhos, suas pernas cederam ao seu peso, e sua respiração foi roubada. Desabou no chão, tentando inspirar por seu nariz e soltar por sua boca o ar, grunhindo baixo. —— Golpe… baixo, Rorie… —— ele praguejou, e lançou um olhar irritado na direção de tio Azriel, que, convenientemente estava admirando o topo das árvores coberto com neve e os corvos que repousava nos galhos como se estes carregassem o segredo do universo.
Nyx fechou os olhos se encolhendo um pouco, irritado. Sentiu a mão de Aurora repousar em seu ombro, tentando ajudá-lo a colocar-se de pé de novo com um olhar quase apologético. Nyx negou com a cabeça, endireitando-se, ainda com a respiração entrecortada e com a virilha latejando, não de uma boa forma.
—— Tudo bem, tudo bem, eu mereci… desculpa… mas sério, Rorie, por que diabos continuar com isso? Você sabe que se não quiser seguir em frente com essa merda de teatro, uma palavra e eu, o seu pai, tio Az, pela mãe, até Emhyr vem correndo te proteger deles. Por que está tão determinada assim a seguir com isso? Acha mesmo que vai ser feliz com… Skad ou Skid, como é a porra do nome dele mesmo?
Aurora lançou-lhe um olhar frustrado, exalando baixo. Uma lufada de fumaça esbranquiçada se projetou à frente de seu rosto corado, enquanto os dedos dela fincavam-se no braço esquerdo dele. Por instinto, Nyx sentiu aquele familiar repuxo para afastá-la, temendo que ela pudesse se machucar, ainda que acidentalmente ao tocá-lo, precisou lembrar-se de que ela não estava segurando sua mão para acalmar-se. Voltou a enfiá-las dentro dos bolsos de sua jaqueta, determinado a não as deixar nem um pouco próximas de Aurora.
—— Porque o seu pai disse que precisava de mim —— Aurora retorquiu com um tom de voz baixo. A expressão de Nyx se tornou um pouco mais sombria, sentindo o peso daquelas palavras, e das não ditas, em seus ombros. Não conseguiu encarar Aurora, trincou os dentes, a mandíbula tensionando-se com força o suficiente para fazer com que um pequeno músculo em sua mandíbula saltasse. Sua respiração tornou-se superficial, e a dor em sua virilha tornou-se esquecida, em segundo plano. Uniu as sobrancelhas, mantendo o olhar fixo no caminho de pedras cobertos por uma grossa camada de neve a sua frente. —— Seu pai precisa de um herdeiro, Nyx, e se você não pode ser, então eu, de bom grado serei para o meu Grão Senhor.
Nyx teve vontade de gritar com Aurora, mas conteve-se. Não era culpa dela que Nyx estivesse na situação que se encontrava, era apenas dele, e da maldita garota que havia o traído e desaparecido no vazio. Todavia não doía menos.
—— Olha, eu sei que você deve estar com raiva de mim por causa de… Emhyr… —— Aurora começou a dizer, hesitante. Lançou um olhar breve na direção de tio Azriel, os dois observaram como as sombras do Shadowsinger se recolheram ao redor da figura obscura que era seu tio contra a alvura da neve. —— Mas já perdi as contas de quantas vezes deixei claro que jamais teria alguma coisa com ele. Tentei ser educada e manter uma distância cordial, mas se ele escolheu alimentar sentimentos que não eram recíprocos então não cabe a ele, e muito menos você, me censurar por não demonstrar simpatia agora!
Nyx a encarou, estupefato.
—— Não a estou censurando por não retribuir os sentimentos do meu melhor amigo, Aurora! Pela mãe, que tipo de pessoa você acha que sou? —— A indignação fez com que seu tom de voz se tornasse um pouco mais alto do que o normal, a voz normalmente baixa e arrastada, agora vibrava contra sua traqueia. Ele a fuzilou com o olhar, e Aurora apertou os lábios, lançando um olhar em forma de aviso na direção de Nyx, tentando convir que eles não deveriam chamar a atenção de tio Azriel, mas Nyx tinha quase certeza de que as sombras dele estavam contado tudo de qualquer forma. —— Estou a censurando por aceitar ser tratada como uma vaca em benefício de um acordo! —— Sussurrou Nyx entre dentes, a fuzilando com os olhos, impaciente, antes de puxar seu braço do toque dela, e continuar a marchar.
Estreitou os olhos, observando as costas de tio Azriel, as espadas presas ali, e as asas cuidadosamente protegidas do frio. Arrependeu-se de não ter feito o mesmo com as suas, chamavam mais atenção do que deveria, e desde que aquela maldita flecha havia atravessado o músculo de uma delas, recolhê-las havia se tornado um processo doloroso demais para que Nyx o fizesse se não tivesse uma boa recompensa. Que incrível, deficiente e quebrado, não era atoa que seu pai tivesse acabado por escolher Aurora como a futura herdeira da Corte Noturna e não a ele. Quando Nyx passou a ter ciúmes de Aurora? Quando seu pai havia deixado de amá-lo?
—— Acha que eu estou fazendo isso somente para agradar seu pai? —— ralhou entre dentes Aurora parecendo genuinamente ofendida. Nyx não poderia se importar menos com os sentimentos dela. Se queria agir como uma garota durona, então lidaria com aquela situação como tal. Por via das dúvidas manteve seus olhos fixos nas pedras cobertas pela neve do caminho que levava ao ponto de encontro com a família de Kallias. —— Você é… —— Aurora cuspiu irritada, forçou um sorriso tranquilo para os olhos desconfiados de tio Azriel, negando com a cabeça como se tentasse convir que estava tudo bem. A expressão sombria e tensa de Nyx revelou muito mais para o espião do que o sorriso composto por Aurora. Quando Azriel havia voltado seu rosto para o caminho outra vez, Aurora se aproximou de Nyx, pisando duro. —— É um completo bastardo quando quer, sabia? Acho que seu tempo com Lyra finalmente está dando frutos!
Nyx abriu um sorriso irônico. Pronto! Toda vez que alguém desejava discutir com ele, sempre, sem falhas, traria o nome de Lyra como se fosse uma carta especial a ser usada contra ele.
—— Estou dizendo o que vejo, se não consegue aceitar sinceridade, está mesmo pronta para sequer se apresentar para a Corte Invernal? —— Retorquiu Nyx, afiado. Algo no rosto de Aurora, a maneira com que ela se encolheu um pouco, a forma com que os olhos castanhos cintilavam por uma fração de segundos com as lágrimas contidas o fez pausar. Sentiu-se um merda, no mesmo segundo ciente de que havia dito demais. Ele apertou os lábios outra vez, unindo as sobrancelhas. Seu pomo de adão se moveu algumas vezes quando ele engoliu em seco, buscou por palavras adequadas para dizer a ela, mas não as encontrou, então apenas sussurrou: —— Desculpa, Rorie, eu me excedi.
—— Tudo o que seu pai tem feito é tentar te alcançar, Nyx, mas se você continua empurrando todos para longe, não reclame quando estiver realmente sozinho, terá merecido. —— Nyx não ousou responder a Aurora, sabia que não tinha direito. Deixou seus olhos caírem no chão, ouvindo-a agitar as saias e apertar seu passo, caminhando agora na frente de tio Azriel.
Podia sentir a atenção do espião de seu pai, e talvez a única pessoa que o compreendia melhor do que ninguém, o encarou em silêncio, respeitando seu tempo, sem pressioná-lo. Nyx não teve coragem de encará-lo, não quando Aurora estava correta em suas palavras. Ele estava afastando todos, estava os puxando para longe porque sabia o que iria acontecer se os deixassem perto.
Arwan era um monstro, mas um monstro inteligente, desde o primeiro dia que Nyx havia atravessado aquele limbo, havia percebido que nada, nem ninguém que amasse estaria seguro se os mantivesse por perto. Ainda assim, não apagava todo o ressentimento e frustração que o consumia lentamente, como veneno, corrosivo, destruindo-o de dentro para fora; seu pai estava tentando alcançá-lo? Ao colocar Aurora como sua herdeira? Sem nem mesmo considerar conversar com ele?
Rhysand era gentil e caloroso com todos do Círculo Íntimo, mas havia limites, e Nyx havia ultrapassado todos quando havia cometido o terrível erro de cair no Poço. Havia provado a Rhysand que a criação dele era falha e não perfeita como esperava. Deixou sua respiração esvair-se por entre seus lábios, voltando a encarar o rosto sério, mas compassivo de seu tio, sentindo como se a gola de suas roupas estivesse começando a incomodar.
—— Eu encontro vocês quando a reunião terminar, certo? —— Foi tudo o que disse, ouvindo o tio começar a abrir a boca para chamá-lo de volta, mas ignorando completamente, focando em seu caminho, tentando relembrar qual as vielas e ruas ele deveria virar para chegar até o maldito pub que um dos illyrianos do acampamento havia dito que visitara. Não poderia participar daquela reunião mesmo se desejasse, não com Arwan o observando do limbo, mas poderia muito bem passar algumas horas bebendo até que as palavras de Aurora se tornassem fáceis de se digerir. Então pelas próximas horas andou sem um rumo exato, tentando lembrar do nome das ruas ou pontos de referência.
O vilarejo era diferente de Velaris, parecia mais rústico, algumas partes construídas sobre palafitas por onde riachos congelados se moviam entre si, as estruturas de pedra se restringiam apenas as ruas e muradas, as casas eram feitas de madeira e materiais mais quentes, guirlandas com ervas enfeitavam algumas portas, outras casas tinham suas entradas pintadas com cores vivas e pulsantes, vermelhas, amarelas, mesmo azuis e esverdeadas. As poucas flores, ainda que secas, permaneciam expostas em vasos elegantes parecendo ter sido feitas de cristal misturado com gelo. Esculturas de gelo envolviam o centro de uma praça, onde crianças brincavam de jogar bolas de neve.
Aquele povo era diferente, a seu modo, elegantes e tão friamente belos como neve, misturavam-se com criaturas das montanhas, e seres que viviam dentro de blocos de neve, gnomos com pele azuis, e até mesmo algumas pixies que pareciam ser feitas de neve pura. Dentes afiados, olhos observadores, um silêncio elegante pungente. Nyx sentiu imediatamente um forasteiro ali, destacava-se como um dedão podre, e recebia olhares curiosos o suficiente para obrigá-lo a ocultar suas asas.
A dor fantasma o atingiu, quase o fazendo escorar-se contra um muro de pedra viscoso com limo e neve, e fechar os olhos até que passasse, mas obrigou-se a continuar andando, tentando puxar ao fundo de sua mente a sensação desconfortável que pulsava em suas costas. Já estava nevando, suavemente, quando soltou um suspiro em forma de alívio vendo o letreiro grande, cuidadosamente desenhados com uma caligrafia cheia de arabescos e detalhes florais os dizeres: “Selkie’s Tail” com o desenho de uma calda torta na lateral. Ao menos havia encontrado o local.
Lançou um olhar ao redor, mais por costume do que por qualquer outra coisa, antes de empurrar a porta dupla, quase abrindo um sorriso divertido quando viu um dos clientes, visivelmente bêbados ser praticamente arremessado para fora por uma criatura alta e larga. Era diferente de tudo o que Nyx já havia visto até o momento. Usava um colete de pelo pesado, branco como a neve, e os cabelos desalinhados eram igualmente brancos. Tatuagens que se pareciam com runas espalhavam-se por seus dois braços, e duas faixas emolduravam seu rosto quadrado e anguloso, começavam abaixo de seus olhos e terminavam em seu peito, grossas e de um tom azul escuro pungente. As narinas infladas pareceram farejar Nyx por um momento, lançando um olhar irritado na direção do homem, antes de uma voz ao fundo do bar parecer o chamar.
—— Boreas! —— Gritou a atendente do bar, uma mulher bonita, com cabelos loiros pálidos, quase brancos, olhos prateados e a pele pálida como a leve, erguendo um copo absurdamente largo de bebida. Nyx bufou, lançando um olhar na direção do humanoide alto, tão alto que parecia ter no mínimo dois metros de altura, e pela largura deveria pesar muito mais do que se assumia.
Nyx ajustou o colarinho de sua blusa antes de caminhar em direção a um canto mais escondido, escuro do balcão, oferecendo um sorriso charmoso para a mesma mulher que havia chamado pelo brutamonte gigante e musculoso, o tal Boreas, pedindo apenas a bebida da casa, tentando lembrar-se o que haviam lhe dito para tomar, mas sem ter paciência de revisar sua memória toda.
Exalou baixo, batucando ansiosamente contra o balcão de mogno, inspirando fundo, sentindo aquela mistura de cheiros familiares de um pub: suor, álcool, mesmo excitação de alguns machos e fêmeas já perdidos em seus próprios interesses ou demônios. E então, por baixo de tudo aquilo um cheiro pareceu se destacar, estranhamente familiar embora ele não pudesse saber de onde reconhecia.
Nyx uniu as sobrancelhas, franzindo o cenho, deixando seus olhos vagarem pelo espaço, percorrendo os pilares de madeira esculpidos artesanalmente com símbolos da Corte Invernal e ursos polares no meio de um ataque, dentes afiados expostos, o teto em formato de V expondo pequenas lanternas feitas de papel tingidos por uma tinta azulada que fazia o espaço adquirir uma tonalidade esverdeada, quase lembrando a uma floresta, sem neve. Os pequenos enfeites de cristal que simulavam os distintos e únicos flocos de neve giravam criando pequenos reflexos brilhosos conforme as luzes das lanternas os tocavam.
Não havia nada ali que remetesse a flores silvestres, e no entanto, o cheiro pungente e estranhamente bom invadia-lhe o nariz com um soco. Nyx se ajustou em seu banco, apoiando os dois cotovelos sobre o balcão, e sorrindo em agradecimento para a atendente, antes de concentrar-se na bebida à sua frente. Deixou sua mente vagar, por um momento até que algo capturou sua atenção. Boreas, o brutamonte gigante ranzinza e ameaçador, estava rindo, divertido. Nyx uniu as sobrancelhas, estupefatos, sentindo um pequeno sorriso depreciativo e irônico surgir por seus lábios, mas que diabos… os olhos dele então encontraram-se com uma figura bem menor do que Boreas, com as mãos na cintura, e expressão frustrada.
Nyx conteve o impulso de revirar os olhos. É claro que seria uma mulher.
—— Se eu soubesse que você iria tomar meu dinheiro inteiro só em bebida, eu pelo menos teria pedido para colocarem na porcaria da sua conta —— resmungou a mulher baixinho, sua voz era suave, soava como uma brisa, calorosa, mas não pegajosa. Nyx estreitou os olhos, porque tinha a sensação de que já havia a ouvido antes. Ajustou-se outra vez em seu banco, tentando encarar a cena que ocorria do outro lado do balcão, onde o brutamontes gigantes com as marcas e runas espalhadas pelo corpo, se debruçava em seu copo largo com bebida, era confrontado pela mulher mais baixa e mais irritadiça que ele.
O contraste entre os dois era nítido: ela deveria ter no máximo altura o suficiente para bater no abdômen do brutamontes gigantes, o que deveria fazer mais ou menos bater na altura do ombro dele em comparação. Parecia ser do tipo que se passava despercebida, ou ao menos tentava não ser percebida, pelas roupas que usava, embora o tecido lembrasse vagamente o que ele vira uma vez um dos representantes de Kallias usar; azul escuro, quase preto adoravam as curvas dela.
Nyx tentou manter seu olhar fixo nas costas delas, mas precisava admitir que ela tinha uma bela bunda, acompanhada de pernas grossas —— tentou muito não imaginar como seria a sensação de tê-las enroscadas em sua cabeça, ainda que por uma fração de segundos. Se Emhyr estivesse ali, teria o acertado com um tapa pela objetificação, e Nyx não teria reclamado do jeito, seria merecido; ainda assim, não conseguiu evitar. Do capuz erguido feito de pele de corsa, ele podia ver uma trança longa e bem feita pender pelo ombro direito dela, grossa, chegava na altura de seus quadris. Alguns fios mais claros que os outros como se luz percorresse os fios inteiros. Nyx congelou no lugar estreitando os olhos — como se luz percorresse o fio? Algo pareceu acender em alerta com aquela informação, antes que ele pudesse se conter já estava de pé.
—— Você paga a bebida, eu me comporto, garotinha, viu? A combinação perfeita —— Boreas murmurou com uma ponta de afeto e um senso de humor questionável, lançando um olhar para a mulher que pareceu apenas suspirar pesado, exasperada.
—— Só… —— Ela suspirou pesado, jogando as mãos para o ar, para o completo divertimento do brutamontes gigante. —— Só termina essa, e me encontra do lado de fora. —— Boreas grunhiu alguma concordância falsa, e ela se virou brevemente para apontar na direção da atendente. —— Se ele pedir outra, você manda ele ir embora, é sério, Crystal! Ele já bebeu o suficiente. —— E então, virou-se para marchar em direção da porta dupla.
—— Continua assim e eu vou comer você —— ameaçou Boreas, mas sem ameaça alguma em seu tom de voz. Foi recebido por um dedo do meio bem petulante da mulher, o que o fez gargalhar alto, o ruído ecoando como um estrondo pelo pub enquanto o brutamonte gigante desabava de sua cadeira com a crise de riso.
Nyx pouco se importou, manteve o olhar fixo nas costas da mulher, empurrando pessoas para fora de seu caminho, sentindo a tensão aumentar a cada segundo que se aproximava dela. Não podia perdê-la! Não agora! Não quando…
A porta se fechou atrás de si, o vento invernal atingiu suas bochechas fazendo-as arder, enrubescendo pelas temperaturas mais baixas conforme a noite começava a cair. O vento soprou seus cabelos em direção aos seus olhos, enquanto eles buscavam pela a figura da mulher quase vidrados. Os lábios se partiram, não para chamá-la, mas pela tensão, sua respiração, entrecortada e tensa escapando em pequenos arfares baixos, silenciosos, por entre seus dentes. Sua garganta estava seca, um tremor se espalhou por suas mãos, enquanto a adrenalina percorria como uma corrente elétrica por seu sangue. Seu coração martelava em seu peito como se estivesse correndo a muito tempo sem parar. Algo amargo atingiu sua boca, algo pungente e distante, o gosto da bile o fazendo querer cuspir, mas obrigou-se a engolir novamente. Sua garganta latejou. Então seus olhos a encontraram, preguiçosamente sentada sobre a balaustrada de uma ponte de frente para a lateral do pub quando a viela estreita terminava na entrada de outra praça.
As mãos repousavam sobre a superfície irregular e porosa das pedras abaixo de si, segurando-se ali, enquanto o rosto se inclinava um pouco por sobre seu ombro direito, encarando o riacho que corria abaixo. A respiração dele acelerou, mais rápida, mais superficial, a raiva começou a pulsar por sua corrente sanguínea, ecoando levemente por seus ouvidos.
Ela estava de frente para ele. E ele podia ver tudo, como havia mudado da criatura raquítica que era: tinha músculos agora, suaves sob a pele delicada, mas ainda presentes, preenchiam as roupas com mais segurança do que os trapos que uma vez usava. Sua roupa estava limpa e bem ajustada, acentuando a curvatura da cintura, abraçando seus seios apertado, criando um desenho até mesmo atraente, onde uma corrente delicada e fina, feita de cobre, repousava, desaparecendo dentro do decote da blusa escura franzida.
Mas os olhos de Nyx estavam fixos nas sardas dela, em como estas brilhavam como pequenas estrelas sob a pele macia e delicada, na maneira com que o rosto dela havia se desenvolvido, mais firme embora ainda tivessem o mesmo formato que ele recordava. A mandíbula mais acentuada, as bochechas mais carnudas, os olhos mais atentos, ainda eram melancólicos. Ela havia mudado completamente da imagem que ele tinha em sua memória de quem havia sido, da garotinha raquítica que havia destruído sua vida para a jovem mulher atraente e deslumbrante, confiante o suficiente em sua pele para não se importar com um estranho aproximando de onde estava, enquanto admirava o riacho, perdida em seus pensamentos enquanto a neve espiralava ao seu redor como uma pintura.
Uma onda de adrenalina percorreu o corpo inteiro dele, quando ela ergueu os olhos do riacho e o encarou. Tudo pareceu desacelerar até desaparecer ao seu redor, tudo o que importava era ela, ali, naquele momento. O único ponto central de sua vida, tudo o que ele havia desejado poder encontrar outra vez, e destruir.
Suas sobrancelhas delicadas se uniram, o rosto se tensionou, deveria ter percebido que havia algo de errado pela maneira com que Nyx a encarava, vidrado, fixos nela. Pela primeira vez, não se preocupou com suas mãos, agora fechadas em punhos trêmulos, se coçavam para agarrá-la. Nada fez, apenas parou na frente dela, a alguns passos de distância, sem desviar os olhos da garota que havia o traído.
—— Posso ajudá-lo? —— questionou ela, cautelosa, parecendo confusa. Um arrepio percorreu o corpo dele ao ouvir o som daquela voz suave, doce voltada para si. Os céus sabiam o quanto ele havia odiado aquela sensação.
Nyx abriu, com um exalo descrente, um sorriso desprovido de emoções. Seus olhos azuis se iluminaram com pura fúria.




• CORTE INVERNAL

Estreitando os olhos, ela saltou de onde estava sentada, ajustando o casaco em seu corpo. Tensionou a mandíbula com força, um pequeno músculo saltando em seu rosto delicado pela força que fizera, os olhos verdes, intensos, desviando-se por uma fração de segundos na direção da entrada do bar antes de voltar a fixar-se na figura obscura e sombria do desconhecido a sua frente.
Inspirou com cuidado, bem fundo, tentando controlar o pânico que começava a aumentar em seu peito ao analisá-lo com cuidado. Merda, merda… as asas escuras atrás de suas costas, o tom da pele, ainda que de algum modo empalidecido como se estivesse doente, os cabelos escuros como a noite; um illyriano.
exalou por entre os dentes cerrados, um quase sibilo escapando por seus lábios ao levar sua mão esquerda em direção a sua lombar, os dedos biônicos da prótese que usava no lugar que faltava o antebraço e a mão enroscando-se contra o cabo da faca que mantinha escondida atrás de si. Os olhos dele queimavam com uma mistura de emoções difíceis de serem lidas, mas ela conhecia bem o suficiente aquele tipo de criatura para saber que eles desconheciam qualquer outra coisa que não fosse violência e morte. Eram criaturas cruéis, viscerais e implacáveis.
E este não excedia a regra, pelo contrário.
O silêncio que pairou entre os dois precedia a violência iminente. Vibrava por sua pele como estática pura, pequenos choques percorrendo os músculos tensionados em um aviso gritante e vermelho do perigo que encontrava-se. Ela deu um passo para trás instintivamente quando ele deu um em sua direção. Ergueu o queixo, não por petulância, mas sim por um aviso silencioso, os olhos fixos nos azuis, tentando barganhar aquela situação. Tentou lembrar-se do rosto dele, de alguma forma, ele parecia perturbadoramente familiar. Havia algo na mandíbula bem pronunciada, naquela beleza quase etérea e marcante, algo na postura imponente quase de um comandante, os ombros eretos e tensos, as asas escuras atrás de si contorcendo-se brevemente, por instinto, evidenciando o que parecia ser uma falha —— um buraco ——, que lhe soava estranhamente familiar. Mas então, todos da Cidade dos Pesadelos eram parecidos. Cruéis, monstros vis e violentos. Não possuíam misericórdia nem mesmo pelos seus.
se questionou se ele estava ali para arrastá-la de volta ao poço. Ao buraco escuro ao que era mantida quando estavam entretidos demais com qualquer outra merda para precisarem de sua presença —— quando caçá-la em meio a Floresta havia tornado-se entediante, quando quebrar seus ossos, um por um, apenas pelo prazer de ouvi-la gritar, não mais os entretia. Seu coração martelou contra seu peito, quase doloroso, acertando com força e impassividade sua caixa torácica, expandindo-se em demasia e falhando, irregular com a onda gélida de pânico que percorria suas veias.
—— Pense bem no que irá fazer, Illyriano —— avisou com um tom de voz baixo, afiado, sua respiração escapando por entre os dentes cerrados em lufadas pesadas e irregulares de ar, condensando a frente de seu rosto e espalhando-se por seus olhos como uma fumaça. Mechas de seus cabelos, presos na trança, escaparam, enroscando-se por seu rosto, enquanto ela dava mais um passo para trás por instinto.
Algo no rosto dele pareceu se tornar ainda mais sombrio, uma promessa silenciosa de violência. Percebeu de imediato que ele não estava ali apenas para uma conversa, nem ela seria misericordiosa a indulgir tal coisa. Ergueu o braço direito, a palma aberta, em um gesto silencioso de “apaziguamento”.
—— Última chance. Dê o fora daqui, e não volte. Vou fingir que nunca o vi, saia antes que você acabe incitando uma guerra entre nossas cortes. Você não quer isso, quer?
Os olhos azuis do homem cintilavam com algo perigoso, quase cruel. Puro desprezo, e algo mais, algo sombrio e sufocante que ela não gostou nada de ter visto ali.
—— Você… —— ele cuspiu, parecendo vibrar com sua própria fúria. estreitou os olhos, prendendo a respiração ao dar mais um passo para trás, seu pé direito deslizando pelas pedras congeladas, quase roubando-lhe o equilíbrio por uma fração de segundos. A voz dele parecia soar distorcida, como um pesadelo, acompanhada por ecos irregulares em tons mais baixos e arrastados que o dele, alguns mais altos e afiados. exalou, sentindo um tremor percorrer por todo seu corpo, uma onda gélida de medo percorreu por suas veias, fazendo suas entranhas se contorcerem, e sua garganta ficar terrivelmente seca.
Sua respiração se acelerou, os olhos levemente marejados queimando com o frio e o próprio medo. Os lábios se entreabriram em uma mistura de choque e tensão.
—— Você se atreve… —— ele sibilou entredentes, suas palavras escorrendo com o ódio mal contido, os olhos queimando o rosto dela com intensidade. Poder emanava dele. Ela podia sentir a energia correndo por sua pele como uma névoa escura, putrefata e profunda de pura destruição. Morte, em carne e osso, à sua frente. —— Você se atreve a me ameaçar? —— Sibilou ele dando mais um passo em sua direção.
quase sorriu, não por achar graça em suas palavras, mas pela descarga elétrica que percorreu por sua espinha, o alerta gritante, vermelho como sangue sob a palidez ofuscante da neve, pulsando, vivido em sua mente, tornando-se agora incapaz de ser ignorado. Era um ruído baixo, meio arfado, repleto de descrença ao encará-lo com uma ponta de frustração. Ele deu outro passo na direção dela, e desta vez, ela tomou em suas mãos a faca, os dedos mecânicos da prótese que envolvia o que restara de seu braço esquerdo, girando o objeto com habilidade antes de empunhá-lo, a lâmina apontada para a garganta dele. Sua respiração tornou-se mais pesada, irregular, tensa, escapando por entre seus lábios entreabertos como lufadas de fumaça esbranquiçadas, irregular.
Sentiu seu coração martelar com força contra seu peito, um tremor percorreu seus músculos tensionados, e ela prendeu a respiração para manter o antebraço estável. Seus olhos verdes permaneceram fixos no rosto do desconhecido. Havia algo de estranho nele, algo corrompido e defasado. Não apenas perigoso em essência, mas violento como uma tormenta. Crescia ao seu redor como uma energia ruim, pesada, que rastejava pela pele dela como vermes, uma criatura consumida por algo vil, ruim e profundo; era quente, mas seu toque gélido, o suficiente para fazer com que seu sangue corresse como lascas afiadas de gelo, para que uma onda elétrica permeada por medo e tensão ajustasse em sua coluna.
Sua pulsação martelou contra seu ouvido, o gosto ácido da bile misturando-se com algo metálico, quase ferroso. Havia algo muito errado dele, algo que o fazia colocar-se em um limbo entre este e outra coisa completa. Sombras pareciam projetar-se por seus ombros e mãos fechadas em punhos firmes. As luvas grossas e de um material flexível, porém escuro como a noite, tremiam, mal contendo sua própria fúria. estreitou os olhos, tentando colocar um nome ao rosto.
Pensou em shadowsinger, um dos braços direito de Rhysand, e talvez um dos homens mais perigosos que já haviam pisado por aquelas terras; as sombras conversavam com ele, lhe contavam tudo, eram suas amigas. Isso o tornava mortal, mas até onde ela sabia, e isso era muito pouco, Azriel não possuía filhos. Não possuía herdeiros, e aquilo que parecia pairar ao redor dele, como sombras, não pareciam ser apenas sombras.
Ela engoliu em seco, piscando algumas vezes, sentindo algo estranho dentro de si o rejeitar, como as polaridades semelhantes de ímãs. Uma força invisível que parecia empurrá-la para longe. O tremor em sua mão pareceu aumentar, mas a peça biônica que substituiu sua mão esquerda permaneceu estável.
viu quando os olhos dele repousaram na peça, e algo que misturava crueldade e surpresa surgiu por seu semblante austero e ameaçador. Os olhos azuis repousaram nos mecanismos dourados que estalavam suavemente a cada mísero movimento de , antes de voltar sua linha de olhar para seu rosto, mais uma vez.
—— É você que coloca-se como ameaça, illyriano —— disse baixinho, erguendo o queixo, não por petulância, mas por mero impulso de ser diplomática, determinada a não desviar os olhos dos dele. Uniu as sobrancelhas, e então, apertou os lábios quando algo pareceu cruzar os olhos dele.
Ela deu mais um passo instintivo para trás, respirando pesado, a neve que pairava ao redor de ambos agitando-se com o vento. A tempestade que Skad previu, pensou ela desviando os olhos por uma fração de segundos do rosto de seu inimigo em potencial para encarar os céus obscurecidos pelas nuvens de um cinzento profundo e pesadas, antes de voltar a encará-lo.
—— Acha mesmo que não tomaria como ameaça um desconhecido invadindo meu espaço, agindo de forma errática, colocando-se como um problema iminente em meio a um local público sendo um estrangeiro? —— questionou com um tom de voz exasperado, mas percebeu rapidamente de que embora a lógica nas ações dele fossem falhas, não era porque ele fosse estúpido, mas porque simplesmente não parecia se importar.
Sentiu seu estômago se contrair outra vez, o espasmo se misturando com o tremor enquanto exalava por entre os dentes com um pouco mais de força. Piscou algumas vezes, tentando afastar os flocos de neve que pairavam ao seu redor, e agora se acumulavam em seus cílios, grudavam em sua pele como um alívio vago e distante ao derreter lentamente, escorrendo pela lateral de seu pescoço e rosto.
Ele pausou por um breve momento, o que outrora parecia sombras dançando ao seu redor, eram, na verdade, algo pior, percebeu com uma ponta de horror. A princípio transmutou-se em formas abstratas, quase pulsando em um ritmo particular e único, envolvendo os braços e os ombros dele, mas agora obscureciam os olhos do desconhecido. Tingiam-o com um preto profundo que corrompia como um todo suas órbitas; sentiu seus lábios se partirem, a mistura de medo e choque nítidas por seu rosto, transparentes como um vidro. Não eram sombras, percebeu tardiamente, eram pedaços de seus próprios braços, desintegrados de si mesmo, reduzidos a cinzas.
—— Não se lembra de mim? —— questionou por fim, e franziu o cenho um pouco mais, dando outro passo para trás, e então mais um, sentindo as solas de suas botas gastas deslizarem pelas pedras cobertas pela neve. Ela lançou um olhar ao seu redor, tensionando a mandíbula. Por um segundo, os olhos verdes registraram os olhares que começavam a voltar-se em sua direção, analisando os dois; curiosos resmungavam entre si como sempre, lançando olhares céticos na direção de , e tensos na direção do desconhecido. Mas não demorou para tornar-se mais tenso, preocupados, eles podiam sentir a violência que pulsava pelo homem a sua frente como uma sombra pesada, projetando-se sobre todos de forma sufocante. Implacável em sua fúria; além da diplomacia e até mesmo racionalidade.
Quem diabos era ele, afinal? Pensou ela assustada.
—— Eu deveria? —— A honestidade em sua voz foi gritante, e pairou entre os dois como um corpo putrefato boiando em meio a imensidão de água. Feio, cheirando mal, e impossível de não ser percebido.
Os olhos completamente obscurecidos dele pareceram apenas acender-se com ainda mais raiva, e tremeu. Os olhos agitados iam para o homem, e então a entrada do bar onde Boreas estava, ciente de que, a essa altura o Urso Polar já deveria tê-la sentido através de sua conexão, ciente de que o desastre realmente aconteceria se ele saísse pela porta.
Boreas era uma criatura antiga, de sabedoria e conhecimentos imensuráveis. Já existia antes das Cortes serem formadas, já protegia as fronteiras e vivia sob suas próprias regras antes disso, e continuaria a existir naquele lugar sagrado até mesmo muito tempo depois. Mas ele ainda era apenas um Urso Polar disfarçado sob forma humanóide para encaixar-se sem atrair tamanha atenção. sabia o quanto o mestre e velho amigo poderia incomodar-se com o disfarce, dizia-lhe que o fazia para que já não chamasse mais tanta atenção como quando pequena, para que não fosse tratada com estrangeira em um lugar que não parecia hesitar em buscar motivos para isolá-la mais ainda; mas odiava aquela forma. Era limitadora, sufocante e desconfortável. Se Boreas sentisse o perigo, ele viria até ela como sempre fizera, mas viria em forma de Urso. Um Urso Polar Gigante solto em pleno vilarejo tomado por uma fúria cega para defender-lhe seu território? Não sobraria nem mesmo uma alma viva ali, inocente ou não, o fim era certo. Isso significava que as guerreiras de Vivianne viriam, significava que ele seria executado, e a ideia foi o suficiente para a deixar em completo desespero. Não podia perder Boreas. Não Boreas.
Um riso gélido, furioso partiu do illyriano a sua frente, e piscou voltando seu olhar para ele. Grunhiu baixinho, dando alguns passos para trás, à sua esquerda, a neve levantando-se e arrastando-se com suas botas com a força que ela obrigou-se a movimentar-se quando percebeu que ele havia se aproximado demais. Manteve a faca empunhada, firme, apontada para o pescoço dele. Ela viu a maneira com que os olhos dele se acenderam com fúria mal contida ao absorver as palavras dela. Viu como sua frustração pareceu aumentar a seu limite com incredulidade e desprezo, com a percepção do que ela havia dito: não o conhecia. Não tinha ideia de quem ele era. Via como era apresentado agora: um desconhecido, desesperado para iniciar uma guerra que sequer tinha consciência de que faria.
—— Quem é você? —— ela questionou baixo, um sussurro quase inaudível, mas genuíno, permeado por medo e choque, tentando encaixar o rosto dele em alguma lacuna de seu passado. Tentando reconhecê-lo. Ela piscou, algo pesado se formando por seu tronco, corroendo seu peito como uma avalanche desenfreada, soterrando todo o resto para aquele único ponto focal em sua frente.
Sua garganta pareceu ficar ainda mais seca do que outrora, raspando com a velocidade que sua respiração escapava por entre suas narinas e dentes, a pressão em seu peito espalhou-se por seus olhos, embaçando-os levemente quando ela finalmente conseguiu colocar o rosto dele em uma das lacunas de sua mente; um corpinho pequeno, aterrorizado, com olhos esperançosos, segurando sua mão com força enquanto corriam pela escuridão do Poço. Ela arfou, piscando algumas vezes, tentando clarear sua visão ao encará-lo, em choque.
—— Não, não pode ser você, ele era só… —— balbuciou tentando dar mais um passo para trás, mas percebeu-se congelada no lugar.
Seu choque foi gradativamente substituído pela sensação sufocante de culpa e frustração quando ele soltou um riso; era uma risada cruel, baixa, controlada, que percorreu por sua pele como um arrepio nauseante, um aviso silencioso do perigo que ela estava. O garotinho que ela havia deixado para trás, em meio ao completo pânico de ser capturada pelos guardas de Lorde Thanatos, o menino que atormentava seus pesadelos mais profundos mesmo após tantos anos, havia se tornado uma criatura de imensurável poder, mas não menos monstruosa do que o guerreiro caído da Caçada Selvagem.
Os olhos verdes dela se encontraram com os completamente tingidos de preto dele, tentando buscar alguma coisa, qualquer coisa do que poderia ter restado do garotinho gentil que havia oferecido sua amizade tantos anos atrás. Mas não achou nada; o que quer que ele tenha sido, e o que quer que ele tenha se tornado, eram duas coisas completamente diferentes, monstruosas demais para restar algo bom ali.
—— Você não tem ideia de quanto tempo eu esperei por isso —— ele rosnou entre dentes, o sorriso largo, amargo e afiado como navalhas. encolheu-se instintivamente, o tremor finalmente alcançou sua mão, mesmo biônica e projetada para se manter estável. Os dedos metálicos pareceram contorcer-se, reconhecendo os estímulos contraditórios que recebia. O impulso de lutar e o de correr a travavam no lugar sem saber ao certo o que fazer. Ele avançou na direção dela, passos comedidos e elegantes, como um fauno em território familiar, e não o estrangeiro que portava-se alguns minutos atrás.
trincou os dentes com força, erguendo o queixo de maneira desafiadora, tentando manter a faca estável apontada para o pescoço dele, mas as lágrimas que queimaram por trás de seus olhos verdes evidenciavam diferente história: evidenciaram medo. Puro medo, dele. E ele parecia estar adorando a sensação.
—— Ver o horror em sua expressão ao reconhecer-me um pouco antes de eu finalmente te matar —— ele cuspiu, e tencionou sua mandíbula com força.
A culpa venenosa e pungente que a corroía poderia ter causado-lhe uma letargia gritante, poderia ter congelado seus músculos e retardado suas reações, mas seu instinto de sobrevivência sempre falaria mais alto.
—— Se o fizer, irá construir não apenas a vala em que deitará, mas a de muitos outros inocentes aqui, é o que você quer? —— avisou, uma última vez, tentando manter sua voz estável, mas a maneira com que havia escapado de sua garganta, em meio a um arfar sem ar, trêmula ao seu final, irregular e terrivelmente vulnerável, não parecia tê-lo convencido de que aquilo era uma péssima ideia, parecia apenas tê-lo incentivado mais.
—— Posso viver com isso —— cuspiu ele, arrancando as luvas de suas mãos. Antes que ela pudesse responder-lhe algo, avançou em sua direção, implacável.
soltou um grunhido alto, cortando o ar a frente da garganta dele, antes de se lançar para a esquerda, rolando por sobre seu ombro, e girando a tempo de lançar a faca de sua mão biônica para a mão de carne, e agarrar, agora com a mão livre, o pulso dele. Os olhos verdes dela se arregalaram um pouco mais, uma mistura de surpresa e tensão surgindo por seu corpo quando observou o metal deliberadamente ser envolto por aquela camada estranha de cinzas, antes de parecer ser corroído, bem lentamente, enferrujando o metal, desgastando-o. Não doía, pois Sagan, o assistente de Thesan da Corte Crepuscular, havia tomado cuidado o suficiente para não ligar suas terminações nervosas com o objeto, apenas os impulsos musculares e dos neurônios para que lhe fosse garantido o movimento, mas observar o metal lentamente enferrujar-se apenas com o toque dele, foi o suficiente para fazê-la perceber que, o que quer que ele tenha sido no passado, o garotinho que ela erroneamente havia deixado para trás quando entrou em pânico com a possibilidade de ser morta por aqueles que a mantinham cativa, havia desaparecido. Completamente.
O que estava a sua frente era um monstro, corroído por seu próprio ressentimento e fúria desenfreada. Um monstro que corroía e apenas tomava; e como tal ela iria o parar. Se não por si mesma, com a certeza de que ele não iria destruir a Corte que havia a acolhido e oferecido uma casa. Se não por ela, por seu Grão Senhor, por Boreas… por Skad.
trincou os dentes com um arfar baixo, dando alguns passos para trás, tentando colocar distância entre ela e o illyriano, antes de chutar com força a lateral do joelho dele. Ouviu-o gritar com o choque do golpe, mas não deixou-se parar, usando como apoio o joelho dobrado dele, apoiou o seu pé esquerdo, usando-o como alavanca para alçar-se para cima, passando as pernas ao redor do pescoço dele, travando-as ali com força. Sentiu quando as mãos dele agarraram suas roupas, tentando puxá-la para longe de si, tentando arremessá-la de volta ao chão. Gritou entre dentes, quando tentou fincar a faca dela no pescoço dele, mas ele a impediu, redirecionando-a e fazendo-a fincar a faca em sua coxa. A dor explodiu por trás de seus olhos, e o aperto de suas pernas ao redor do pescoço dele afrouxou o suficiente para que ele conseguisse agarrar o colarinho de sua jaqueta.
tateou seu sinto arrancando um fio resistente de lá, apesar de fino, e então enroscou no pescoço dele com força. Não teve tempo para fazer nada se não agarrar as duas pontas do fio com força, quando ele finalmente consegue arremessá-la na direção do chão. Um grito abafado escapou do fundo de sua garganta quando seu corpo se chocou com violência contra o chão. O ar foi brutalmente roubado de seus pulmões, a dor a cegou por um breve momento, e tudo o que ela conseguiu fazer foi tossir convulsivamente. Suas costas doeram profundamente, imobilizando-a em seus movimentos, ao tentar rolar para o lado, colocando-se de barriga para baixo, piscando algumas vezes sentindo-se desorientada, os cantos de seus olhos obscurecendo-se por um momento, ao passo que seus ouvidos pareceram ficar abafados, martelando apenas sua pulsação de forma contínua.
Enroscou a linha em seus dedos, enrolando-a, tentando criar tensão o suficiente para puxá-la em sua direção antes que ele a alcançasse, mas não foi rápido o suficiente. Com um agitar de suas asas largas e escuras, levemente curvadas como as de um morcego, ele alçou voo o suficiente para deslizar pelo chão antes de agarrá-la pelo pescoço e então jogá-la novamente contra a parede mais próxima. tentou agarrar-se ao punho dele, sentindo os dedos ásperos e calejados fincaram-se contra a pele de seu pescoço, um ardor desconfortável se espalhou por sua pele, as unhas fincaram-se na carne do pulso dele, arrancando sangue, tentando chutá-lo desesperada para se libertar, antes que ele a arremessasse para trás outra vez.
gritou quando a dor se espalhou por seu corpo inteiro. O choque reverberou por suas costas ao acertar a parede de pedras envolta por neve e limo. As pedras da parede se desfizeram, caindo sobre o corpo dela quando ela desabou outra vez no chão, cobriram-na como uma coberta insuportável e dolorosa, acompanhados pela neve pesada que se projeta sobre ela como um manto. Por um momento tudo o que ela conseguiu fazer foi gemer de dor, tateando cegamente o chão. Os músculos estavam trêmulos, espasmódicos, ao tentar rastejar para fora da pilha de pedras. Sangue quente e pegajoso, escorria por suas têmporas e seu ombro esquerdo, acumulando-se em suas roupas, a dor em sua coxa ardente como brasas pressionadas com metal sob sua pele. Tossiu algumas vezes, as lágrimas escorrendo por seu rosto não porque estava realmente chorando, mas porque havia se acumulado em seus olhos com o impacto violento.
Cuspiu o sangue que acumulava-se em sua boca, a tatuagem que a ligava com Boreas pareceu queimar, intensamente, em um aviso silencioso de que seu parceiro já sabia o que estava acontecendo, e que não demoraria a projetar-se porta afora do pub e instaurar sua fúria destrutiva. À distância, ela pôde ouvir o rugido vindo do Urso Polar, o que apenas aumentou a urgência em seus movimentos. Rastejando-se para fora da pilha de destroços e neve, aproveitou a momentânea distração do illyriano, para girar o pulso que ainda agarrava-se a corda, soltando um grunhido entre dentes, trêmula, ao rolar para frente, e então passar a corda ao redor de sua cintura, prendendo seu braço atrás de suas costas, firme, antes de pisar com força na corda tensionada, finalmente conseguindo o efeito desejado: sufocá-lo.
Mechas de seus cabelos escapavam de sua trança, pendendo à frente de seu rosto, emoldurando-o em meio ao sangue que agora escorria por sua pele, tingindo-a de vermelho e pingando ritmadamente sobre as roupas bem feitas da guarda da Corte Invernal, a respiração pesada e dolorosa, expandia seu peito com força e então o contraía, o tremor visível, enquanto ela enrolava um pouco mais a corda ao redor de seu pulso, caminhando mais um passo para frente ao ver o illyriano desabar no chão com força. Ele levou suas duas mãos em direção a corda presa em seu pescoço, agora, sufocando-o, os dedos tingidos pelas cinzas que pulsavam ao seu redor como sombras abstratas, enroscaram-se contra a linha, apertado o suficiente para tentar arrebentá-la, mas sua expressão torna-se ainda mais sombria quando percebeu com surpresa que não podia quebrá-la, quando não podia quebrá-la. A prata fundida nas cordas queimaram as mãos de , mas ela não as soltou, os olhos fixos no illyriano com intensidade, sangue escorrendo por entre seus lábios e a lateral de sua têmpora.
O grito que rompeu da garganta dele foi uma mistura de rugido selvagem quase como uma criatura selvagem ao se deparar com uma armadilha, ao mesmo tempo permeada por fúria pura. sustentou o olhar dele com impassividade, fria como a neve que envolvia seus pés, sangue escorria por entre seus dentes, pingando ritmadamente contra a frente de sua roupa, escorrendo por entre sua clavícula e desaparecendo para dentro de seu decote. Sua respiração irregular e pesada, escapando como lufadas por entre seus dentes, o tremor presente em sua pele. O queixo erguido desafiadoramente, observando-o subjugado no chão, sustentando os olhos completamente obscurecidos do illyriano com uma determinação contida.
—— Não posso mudar o passado —— ela cuspiu as palavras, sangue escorrendo pelos cantos de seus lábios, as mechas revoltas, agitadas pelo vento gélido, pendendo por sobre seus olhos e grudando contra a lateral de seu pescoço. As sobrancelhas unidas, as sardas cintilando suavemente com aquele brilho etéreo como estrelas por sua pele, intensificando as íris verdes de seus olhos. —— Mas isso aqui é entre você e eu, mais ninguém. —— Puxou com um pouco mais de força a corda, fazendo-o erguer seu queixo bruscamente para cima. —— Desiste. —— comandou ela com uma ponta de urgência.
O illyriano soltou um riso cruel, frio como lascas de gelo que percorriam por sua corrente sanguínea, os dentes brancos impecáveis expostos de maneira ameaçadora. percebeu, em meio a violência que a cercava como um manto sufocante de que, apesar de tudo, o illyriano era deslumbrante —— inegável, até. Os cabelos escuros como a noite, desalinhados pelo vento, pendiam por seu rosto de traços elegantes e finos, angulosos, emoldurando sua face com elegância. Alto e imponente, com algo de majestoso nele, algo que informava, ainda que silenciosamente, que ele não fazia ideia do que era servir alguém —— ou do medo de ter sua vida reduzida a uma mera compreensão de objeto sobre si. Algo que a fez perceber que ele nunca havia tido que lutar para ser livre; ele nasceu assim, o via como direito, não uma dádiva.
O ressentimento começou a aflorar por seu peito, venenoso, pungente, espiralava por seu corpo como ondas atingindo a beira-mar, poderiam ser lentas, poderiam demorar um pouco, mas eram presentes, constantes. Ele era lindo, mesmo entre os faes, era sem sombra de dúvidas digno de um rei, os lábios cheios e curvados naquele sorriso selvagem, cruel e desprovido de alma. Ombros largos e corpo atlético, evidenciando sua familiaridade com batalhas. E tudo o que ela conseguiu sentir foi o absoluto e mais profundo nojo por quem ele era. Pelo o que ele era.
Aquele illyriano era igual a todos os outros: poderia ser belo a princípio, mas os olhos obscurecidos e desprovidos de alma lhe revelavam tudo o que precisava saber. Ele era um monstro, igual a todos os outros da raça. O rugido voraz de Boreas ecoou à sua direita, o corpo pesado chocando-se contra o chão enquanto disparava de forma desenfreada em direção onde os dois estavam. não precisou olhar na direção de onde o barulho vinha, para saber que ele havia se transformado. Os gritos assustados dos moradores do vilarejo, o eco de casas sendo obliteradas pelos caminhos, das patas pesadas de Boreas chocando-se contra o chão eram o suficiente para que ela soubesse que ele estaria ali em cinco, quatro, três…
O rugido alto, de ensurdecer qualquer um, ecoou atrás de si, o hálito cálido e fétido da criatura, uma mistura de álcool, sangue e carne crua espalhou-se por suas costas, invadindo suas narinas com o ar gélido que pairava ao seu redor, aquecendo de sua cabeça até os pés. O eco reverberou pelo espaço enquanto o Urso Polar ergueu-se atrás de .
O sorriso do illyriano pareceu desaparecer gradativamente, ao passo que o de surgiu. Havia uma ponta sombria de satisfação em observar o rosto cruelmente belo dele se contorcer com uma tensão outrora inexistente ao compreender o motivo da presença de Bóreas atrás dela. torceu o pulso mais uma vez, puxando com mais força a corda, os dentes trincados com força, os olhos queimando o rosto dele com intensidade. Ela observou quando as órbitas dos olhos dele aos poucos começaram a esbranquiçar novamente, revelando por trás daquele brilho escuro profundo as íris azuis intensas outra vez. Mas ele não estava feliz, pelo contrário, a fúria que envolvia seus traços finos e elegantes parecia apenas mais pungente, mais tátil. percebeu de imediato que nunca haveria uma trégua ali; ele era seu inimigo, e não pararia até que conseguisse matá-la. Então que ela o fizesse primeiro.
—— Eu avisei —— ela disse, severa, contida como uma brisa antes da tempestade se aproximar. Bóreas grunhiu baixo, o eco de seu rosnado reverberando como vibrações ao redor dela, familiar como sua própria respiração. Sentiu quando o Urso Polar arreganhou ainda mais os dentes, caminhando em direção do illyriano. não fez menção em comandar o Urso Polar a parar, não fez menção de soltar o illyriano, apenas o observou, severa, impassível como o gelo que congelava o rio agitado abaixo. O chão pareceu tremer a cada passo de Bóreas.
Então um risco metálico cortou o ar, seguido pelo riso nasalado do illyriano. sentiu quando a adaga rompeu sua corda, libertando o illyriano de sua armadilha, e a fazendo dar um passo para trás, cambaleando. Boreas rugiu alto, virando a cabeçorra na direção de onde a adaga havia partido, os dentes arreganhados se fechando com uma mordida violenta no ar. Mas o outro illyriano, este coberto por sombras de fato, foi mais rápido, e já havia deslizado pelas pedras cobertas de neve, girando a espada no ar em um arco elegante antes de cortar a pata direita de Boreas. O rugido de dor do Urso Polar foi ensurdecedor, e sentiu, como se fosse em si mesma, o corte. Sua pele se rompeu, o sangue encharcou seu antebraço pingando ritmadamente contra as pedras. Foi tomada por uma fúria cega, uma violência primal e selvagem que era residual de Boreas e sua natureza.
Shadowsinger.
Os olhos dourados de Azriel, o braço direito de Rhysand, fixaram-se no rosto de com uma mistura de frieza contida e brutalidade premeditada, mas por uma fração de segundos, ela percebeu uma mistura de surpresa e até mesmo cautela. Não importava. Lançou-se contra ele como quem lançava-se ao fogo cegamente, determinada a ser queimada. Um zunido metálico ecoou muito perto de sua orelha esquerda, antes de atingir a murada de pedras da ponte. lançou-se contra o chão, girando para a direita, usando seu pé como uma alavanca para jogar neve ao ar, propositalmente tentando cegar Azriel, enquanto arrancava com um grito selvagem a faca entalhada em sua coxa. Girou-a no ar antes de acertar em cheio a parte de trás dos joelhos de Azriel.
Shadowsinger grunhiu alto, girando a espada novamente em um arco, cambaleando para a esquerda, mais surpreso pelo ataque que havia conseguido deferir-lhe do que pela dor que se espalhou pelo membro machucado. Boreas rugiu outra vez, avançando na direção de Azriel. Os dentes grandes e afiados expostos, mordem desta vez, a espada, tentando quebrá-la ao meio. Mas Azriel, mais uma vez, foi mais rápido. Girou o pulso forçando a espada a ser disposta horizontalmente e então puxou com violência para a esquerda, cortando a lateral da boca e bochecha de Boreas. gritou com a dor lancinante que percorreu por seu rosto, o corte abrindo-se, em igualmente, no canto de sua boca, enquanto braços fortes e firmes enroscavam-se como serpentes traiçoeiras em seu tronco, imobilizando-a.
O illyriano, o garotinho que ela havia deixado para trás em meio a seu pânico a tantos anos, agora a tinha presa em seus braços. A pressão em seu pescoço era dolorosa enquanto ele arfava entredentes contra a lateral de seu ouvido direito. Dedos fincados na pele de sua mandíbula, dolorosamente, seu sangue encharcando as mãos dele, escorrendo pelo antebraço do illyariano, enquanto ele puxava sua cabeça para trás com força.
—— Agora você paga pelo o que roubou de mim… —— rosnou o illyriano.
o encarou com o canto dos olhos, queimando, a fúria contida ali, enquanto engasgou-se com o sangue que esvaía-se do novo ferimento. Boreas rugiu com mais raiva, preparando-se para avançar na direção de Shadowsinger, no momento em que uma voz terrivelmente familiar, e imponente retumbou pelo caos causado pelo illyriano, e por Azriel Shadowsinger, o braço direito de Rhysand, o Grão Senhor da Corte Noturna.
—— Já basta! —— A voz frustrada, imponente de Kallias reverberou pelo espaço. O Grão Senhor da Corte Invernal saltou elegantemente no chão enquanto a neve que espiralava ao seu redor finalmente se dissipou. Os olhos azuis cristalinos, intensos, focaram imediatamente no rosto de , um comando silencioso passando-se pela expressão impassível e implacável de seu grão senhor que a fez quase rugir com frustração. Sabia que esta não era sua reação, mas a de Boreas, a frustração e a necessidade de seguir um comando de uma criatura como Kallias sendo um animal selvagem como era. Mas ainda assim, trincou os dentes, erguendo deliberadamente para o alto, em rendição, mesmo que seu orgulho ferido a impossibilitasse de aceitar tal coisa, mas o illyriano não a soltou. Shadowsinger estreitou os olhos, ainda com o olhar fixo em Boreas, o Urso Polar estava com os pêlos esbranquiçados eriçados, grunhindo, e com os músculos gigantes tremendo, visivelmente furiosos. —— Chame-o de volta, . Agora. —— Kallias comandou sem deixar espaço para argumentação para .
Ela, resignada, voltou a linha de seu olhar para o Urso Polar. Com os braços do illyriano ainda presos em seu pescoço, assentiu em silêncio em um comando para Boreas voltar a sua forma humanoide. Boreas, é claro, resistiu àquela ordem, não era ele que seguia as ordens, era que o fazia, mas quando os braços do illyriano apertaram-se mais ao redor do pescoço de , fazendo-a engasgar-se com o sangue de seu novo ferimento, o Urso Polar Gigante grunhiu selvagem, mantendo os olhos no illyriano atrás de , retornando a sua forma humanoide de dois metros e meio. Os olhos prateados de Boreas fixaram-se como adagas no semblante do illyriano, sem mover-se. Kallias, todavia, voltou sua atenção para Shadowsinger, impassível, uma expressão que deixava claro que aquele incidente não lhe passaria despercebido, ou sem consequências.
—— Peça ao seu sobrinho para que a solte, Shadowsinger —— Kallias pediu, mas a frieza que pairava em sua voz não era similar a de um pedido, mas sim um aviso silencioso. Um comando que pareceu fazer Shadowsinger, mesmo com todo o seu orgulho illyriano, pausar. Aquilo havia acabado de se tornar um incidente diplomático sério, do que apenas uma briga de rua entre dois desconhecidos. —— Não terei membros da minha corte ameaçados pelos seus, por mais que os considere aliados, lembre-se que o meu respeito se restringe ao que vocês oferecem em retorno. Não lhes devo nada, portanto não faça uma dívida inconsequente.
Azriel tensionou a mandíbula com um estalo, um músculo projetando-se pela lateral da mandíbula bem marcada, ao voltar o rosto bonito na direção de seu sobrinho. Os olhos dourados repousaram no rosto de por um momento, e então, suas sobrancelhas grossas se ergueram brevemente, uma mistura de desconfiança e surpresa surgiram por seu semblante ao perceber o corte que se abria no canto da boca da jovem. viu quando ele lançou um olhar breve na direção de Boreas, e então novamente para o rosto de , parecendo compreender ainda que superficialmente, o não dito ali. Algo pareceu cruzar seu semblante, algo que parecia ser calculado e deliberado, quase estratégico; se questionou se ele estaria anotando-a como uma potencial ameaça para a Corte Noturna. Ela teria rido, amarga, se o antebraço do sobrinho de Azriel não estivesse esmagando-lhe a traqueia.
—— Nyx, solte-a —— Azriel comandou, a voz baixa, mas severa. estreitou os olhos ao ouvir o nome. Nyx? Como em Nyx, o filho dos Grãos Senhores da Corte Noturna? O gosto metálico do sangue que invadia-lhe a língua pareceu se misturar com o amargor pungente da bile de seu estômago, sentindo sua saliva acumular-se em sua boca, ao passo que a náusea se tornava mais intensa. O garotinho no poço, o illyriano que agora a tentava matar… era Nyx Archeron. O filho de Feyre Archeron, talvez uma das mulheres, se não a feérica mais poderosa que já havia andado por Prythian. A Grã Senhora Feita.
Mas Nyx, por sua vez, não a soltou. Suas unhas fincaram-se com mais força contra a pele delicada de sua mandíbula, as unhas cortando o tecido delicado, marcando-a com meia luas, ao caminhar para trás, arrastando-a consigo. Azriel pareceu ficar surpreso com a reação do sobrinho, e sentiu o desprezo borbulhar por seu peito —— por que diabos Azriel Shadowsinger, o braço direito de Rhysand, ficaria surpreso com aquilo? Mentir e deliberar não eram seus moldes? Crueldade e violência não eram parte de seu sangue maldito? Eles não eram os monstros que escondiam-se nas sombras dos pesadelos apenas à espera do momento certo para atacar? Parecia adequado.
—— Ela é minha —— retorquiu Nyx, a voz entre dentes, sibilada, acompanhada por aquele eco provindo das profundezas dos pesadelos que os assombravam, projetando-a em diferentes tons, como se gritos de condenados o acompanhassem como um lembrete de seu eco, de quem era, e do poder que possuía. Morte encarnada, igual ao pai. sentiu vontade de rir, de desespero talvez, ou de pura frustração. Ela tentou se debater contra o aperto de Nyx, mas os braços dele ao seu redor eram como barras de ferro puro, não a permitiam fazer nada, sequer respirar. Seus pés escorregaram contra a superfície lisa das pedras envoltas pela neve e lama, quase desabando contra Nyx quando ele a empurrou junto consigo.
—— Não foi um pedido, Nyx —— Azriel retorquiu, mais severo desta vez, mas Nyx soltou um riso nasalado, desafiador.
encarou Boreas em silêncio, erguendo seu queixo como quem tentava inspirar o máximo de oxigênio que poderia, sentindo a pressão dolorosa em seu peito aumentar gradativamente, os cantos de seus olhos obscurecendo-se com a brutalidade imposta. assentiu para Bóreas, que pareceu trincar os dentes com um grunhido, controlando seu temperamento para não avançar e arrastá-la para longe dali —— sabia que ouviria um belo sermão se sobrevivesse a isso, uma parte de si mesma estava até mesmo tentada a não sobreviver para não ter que ouvi-lo, mas que escolha tinha? Que escolha possuía o restante quando Nyx, o herdeiro da Corte Noturna, parecia determinado em matá-la? O que quer que ela fizesse, acabaria com ela, de joelhos, a frente do maldito Grão Senhor e da Grã Senhora da Corte Noturna, a espera de sua sentença de morte.
Trincando os dentes com um grunhido, agarrou os braços de Nyx com força, seu antebraço biônico estalou alto ao travar no membro, antes de usar toda a força de seu corpo para lançar-se para a esquerda. O movimento pareceu pegar Nyx de surpresa, ainda focado na discussão com seu tio, que não lhe deu tempo o suficiente de reação. alavancou sua perna esquerda contra a murada da ponte, usando todo seu peso, e o de Nyx para empurrar a si mesma, e a ele, para fora da ponte, em direção ao rio congelado. Ouviu quando seu Grão Senhor chamou por seu nome, uma advertência nítida em seu tom de voz, mas já era tarde demais.
Nyx não a soltou, mas engasgou-se com o movimento inesperado. A queda se abriu abaixo deles, e ela ouviu quando ele agitou suas asas. Mas já era tarde demais. Usou seu peso e o dele para empurrá-lo para baixo, conectando seus dentes com toda força contra o antebraço dele, obrigando-o a soltá-la com um grito, quando os dois se chocaram com força contra a corrente gélida e sufocante do rio torrencial.
Então, havia apenas sangue por todo lugar, em tudo.




NYX • CORTE INVERNAL

Água invadiu-lhe os pulmões com violência. O gosto amargo e pungente misturava-se com pinhos, lama e algo barroso, selvagem, e lhe tomou a boca e a garganta com intensidade, frio o suficiente para fazer com que seus ossos latejassem. Irrompeu por sua traqueia e o asfixiou com impetuosidade, seu corpo latejando, dolorido, com a força que acertou as correntes agitadas do rio. Tentou lutar contra elas; tentou resistir, os punhos fechados acertando erroneamente a pressão diminuta das correntes, tentando nadar de volta à superfície, mas não importava o quanto ele tentasse resistir, nada parecia oferecer-lhe o suficiente para o fazer.
Por um breve momento, tudo pareceu perder completamente a importância. Dor se espalhou por suas têmporas, a pressão terrível, assemelhava-se com um torniquete ao redor de sua cabeça, sendo girado por uma mão invisível até seu ponto de ruptura. Espalhava-se por seu corpo em pontos inconvenientes, sentia-os em seu peito, seu coração martelando dolorosamente contra sua caixa torácica. Bolhas escapavam, agitadas, por entre seus dentes quando o grito que tentou soltar, provenientes pelo desespero e a ansiedade inerente de estar afundando, se tornou demasiada.
Seu corpo se contraiu, involuntariamente, tentando expelir a água com toda a força que conseguia, mas estava cercado, não tinha para onde ir. Não tinha como lutar com a brutalidade e a implacabilidade do rio congelado. Seu instinto estava começando a dominá-lo, nublava seus pensamentos, distorcia sua visão embaçada pela sujeira que flutuava ao seu redor, obstruía por suas veias o fogo de seu próprio ódio e ressentimento pelas lascas de gelos aterrorizantes de perceber-se diante da morte mais uma vez.
Tentou lembrar-se das palavras gentis de Rhysand quando era pequeno, como o pai tinha tido paciência quando Nyx estava aterrorizado de entrar na água. Na época ele tinha apenas 6 anos, e, embora tia Amren tivesse recebido um diamante de sangue do Grão Senhor Tarquin, Varian ainda havia os convidado para algumas festanças tradicionais da Corte Estival. Lembrava-se de ter ficado tão animado quando o pai apareceu em seu quarto no meio da manhã, prometendo-lhe um mundo de explorações e diversões, que não teve problema algum de levantar aos tropeços da cama e preparar ele mesmo sua malinha para a viagem.
Havia colocado tudo o que acreditava que precisava: seus dois brinquedos favoritos, o Senhor Fedido, o ursinho de pelúcia que tia Elain havia lhe costurado com esmero e cuidado, a essa altura já puído e desgastado pelos anos que havia dormido agarrado ao ursinho, com um olho de botão faltando, e o máximo de comida que ele conseguiu roubar da cozinha, porque tinha total intenção de seguir as sugestões de tio Cassian e tentar alimentar as criaturas locais. É claro que, enquanto o pai caia em uma gargalhada alta, rica em júbilo, mesmo com sua mãe acertando um tapa alto no ombro dele, Nyx foi obrigado a se desfazer da maioria das coisas pois “não deveriam levar mais do que apenas umas mudas de roupas e proteção solar”. Nyx ficou bicudo, é claro, mas a exasperação infantil tratou logo de sumir quando viu a vastidão do oceano nas praias da Corte Estival. O sol escaldante estava alto, e Nyx deparou-se com aquela imensidão azulada de tirar o fôlego.
E então, quando o encanto pela areia, com os grãos desaparecendo por entre seus dedinhos como mágica, acompanhados pela brisa suave de veraneio, grudando em sua pele suada mesmo depois de se esfregar todo para livrar de seu toque, se desfez, Nyx se percebeu aterrorizado pela imensidão azul. Era muito azul, muito grande, de uma maneira que sua cabecinha infantil não poderia sequer calcular dimensão. Quando viu tio Cassian se lançar por entre as ondas, desejara fazer o mesmo, mas correu em disparada, aterrorizado, em direção ao pai no segundo que a água tocara seu pé. Tivera medo, ainda que infundado, de que assim que colocasse seu pé na água, o oceano o puxaria para baixo, arrastá-lo-ia para suas profundezas sem hesitação e ele estaria completamente perdido.
Levou consideráveis incentivos de seu pai para que Nyx se aproximasse da água, e então, começasse a dar seus primeiros golpes contra a água até que rompesse a superfície. Lembrava-se de que as mãos do pai estavam sempre perto de si, apoiando e auxiliando a voltar para superfície quando passava mais tempo do que deveria na água, mas então, em algum momento, elas sumiram também. E embora pânico tivesse abrangido e distorcido sua realidade por uma fração de segundo, o pai estava com um sorriso largo, orgulhoso, quando ele quebrou a superfície da água, ofegante. Ao final do dia, Nyx estava exausto, dormindo confortável nos braços do pai enquanto eles retornavam para o palácio de Tarquin.
Depois disso, Nyx havia praticamente desenvolvido guelras: usava qualquer desculpa para jogar-se ao primeiro riacho que encontrasse pelo caminho a fim de apavorar Aurora ou no muito, ganhar vantagem nas brincadeiras com Emhyr e Mav. Sua mãe costumava brigar com ele, censurando-o por estragar roupas usáveis ou por sua imprudência ao jogar-se na água em pleno inverno apenas para atormentar as pessoas ao seu redor com suas mãos geladas, mas então, ele caiu no poço, e Feyre de repente passara a convidá-lo para nadar, para fazer qualquer coisa que não fosse ficar enfurnado dentro da sala de treinamento que outrora tio Cassian havia usado para treinar tia Nestha, ou vagando pelos corredores como um espectro ressentido, tentando encontrar desculpas para ficar sozinho, no escuro, distante de todos.
Agora, a memória mostrava-se defasada e distante o suficiente para ser apenas um borrão. O pânico que se alojava em seu peito, misturava-se com a pressão da contrição de sua respiração, e tudo o que ele conseguia lembrar era das palavras gentis de seu pai, incentivando-o a mover-se, a confiar que seu corpo o traria para a superfície mesmo que sua mente não conseguisse confiar em tal coisa. Em algum momento, começou a engasgar-se, a dor era tamanha que os cantos de seus olhos começaram a se obscurecer, e Nyx tivera certeza de que a maldita desgraçada mulher o lançara para a morte iminente. Nyx havia amado nadar um dia, mas nadar naquele lugar era pura tortura. O gelo deslocava-se ao seu redor, parecendo fincar-se em seus músculos, e sua pele, os dedos latejavam, espasmódicos, começando a perder a sensibilidade. Tudo doía como se estivesse sendo queimado vivo, não importava o quanto tentasse debater ou se livrar, não conseguia. E algo estava o puxando para baixo.
O brilho dos raios finais do sol já estavam distantes o suficiente para que sua visão, comprometida pela asfixia e o frio que o envolvia, não mais o percebessem. Teria aberto um sorriso amargo, com a ironia da situação se pudesse mover seus músculos congelados, mas estava paralisado. A dor a essa altura o suficiente para enlouquecer, intensa, terrível demais para oferecer-lhe a chance de fazer qualquer coisa senão senti-la. Os olhos azuis intensos capturaram o movimento de algo à sua esquerda, mas com sua visão periférica obstruída pouco pudera fazer senão aceitar o próprio destino. Algo se enroscou com força ao redor de seu calcanhar direito, puxando-o para baixo. E então lá estava ela.
Um ponto de luz tremeluzente entre as águas gélidas e negras que os envolviam, como a merda de uma estrela nadando com habilidade, como se tivesse se acostumado com as baixas temperaturas. A mão biônica era um risco por entre as águas com o brilho acobreado quase dourado da Corte Crepuscular, mas foi o brilho pálido da faca presa entre seus dentes que o fez tentar se debater. Ela estava vindo para matá-lo. E nem por isso parecia menos deslumbrante. Os fios de cabelos que se misturavam com aqueles fios estranhos que eram pura luz cintilavam ao redor de sua cabeça como um manto, quase inexistente, flutuando ao redor de seu rosto machucado como uma auréola, fazia adquirir uma nota quase espectral. Um espectro dentro de um lago, deslumbrante em toda sua etérea forma, e assustadora por quem era. Os olhos estelares pareciam pulsar com luz, talvez a única coisa que iluminava a escuridão que os consumia pelas periferias de suas presenças. Nyx tentou mover-se, lutou contra a água e com o que quer que se enroscava em seu tornozelo puxando-o para baixo. Mas era tarde demais, ela já estava em cima dele.
Dor pungente espalhou-se por seu peito como ondas elétricas, chocando-se entre os músculos como a quebra do mar. A água invadiu-lhe os pulmões antes que pudesse sequer lutar para manter os lábios fechados, as narinas imóveis. Tentou debater-se e sentiu quando seu pé se fincou dolorosamente contra o tronco dela. Sentiu quando a empurrou para longe e não pôde ocultar o prazer que o gesto lhe enviou; se iria morrer congelado ali, então faria questão de levá-la junto. Era o que ela lhe devia, sua vida, pela vida que ela roubara dele. Por condená-lo aquela mísera ridicularizada existência! Mas então sentiu a lâmina quente da faca dela atingir sua panturrilha. O corte não foi profundo, mas foi rápido o suficiente para livrar sua perna do que quer que o puxava para baixo. Confusão tomou seu semblante austero, quando sentiu-a agarrar a frente da camisa, arrastando-se para cima até ficar à frente dele.
E então foi como voltar a ser criança. Aterrorizado, perdido em meio a escuridão do poço com apenas as sardas reluzentes dela como companhia. Como guia.
Nyx odiou a sensação. Odiou como os olhos dela se suavizaram por um momento, não com respeito ou docilidade, tampouco reconhecimento, mas uma estranha compreensão sobre ele, como se ela pudesse sentir o que ele sentia. O medo. A dor. A fúria. Como se tudo isso estivesse entregue a ela em uma bandeja a seu dispor para se deleitar. Nyx quis gritar, mas podia sentir sua cabeça pesar, a escuridão consumindo-o por completo enquanto ficava cada vez mais e mais pesado. Sua mente cada vez mais e mais leve. Estava morrendo, podia sentir em seus ossos, quanto tempo teria se não mais segundos, e a pior parte? Morreria encarando-a. A maldita garota que havia o condenado aquela existência miserável, que não pagaria pelo o que havia feito, que tão prontamente havia deixado-o para trás quando ele estivera determinado a lutar por ela; por eles. Quando ele pensou que ela seria sua amiga naquele lugar assombroso. Agarrou o colarinho da roupa dela, puxando-a consigo, determinado a não a soltar, determinado, se fosse mesmo morrer ali, a levá-la junto consigo.
Se não pudesse vingar-se em vida, então o faria em morte. Passaria o resto de quaisquer pós-vida assombrando-a, perseguindo-a, atormentando-a da forma que pudesse; nunca seria paga tamanha dívida, todavia.
Ela tentou se soltar de seu aperto, é claro, mas então, para o completo horror de Nyx, ela se inclinou em sua direção, mais rápido do que ele poderia ter empurrado-a para longe, ou sequer conseguiria o fazer. As unhas dela se fincaram em sua pele, as mãos se fechando em punhos à frente da camisa dele quando os lábios dela, surpreendentemente macios e mais quentes do que qualquer outra coisa que pudesse os envolver ali, se chocaram contra o seus.
Nyx teria gritado, teria a mordido e empurrado para longe com a completa audácia que ela tivera. E embora uma parte de si estivesse em completa cólera, sentindo profundo nojo do toque, o choque foi tamanho que pouco ele pudera fazer além de encará-la, horrorizado. Tentou empurrá-la, tentou chutá-la e afastá-la, surpreso demais com tamanha audácia para sequer entender que merda ela estava fazendo. Mas mais horrorizado do que ter os lábios macios dela pressionados com força contra o seu, foi quando ele a sentiu soprar. De repente a pressão em seu peito parecia aliviar quando o oxigênio invadiu-lhe a garganta, a dor pareceu diminuir e o aperto em sua cabeça causado pela mistura de frio e a asfixia diminuiu. Não era o suficiente para aliviar a pressão de seus pulmões, mas foi o suficiente para aliviar, ainda que minimamente, a dor que o envolvia em profunda letargia.
Olhos azuis intensos como o oceano à noite fixaram-se em completo horror, desconfiança no rosto dela, quando ela o empurrou para trás. Podia sentir o gosto que os lábios dela tinham: frutas silvestres, não era nada do que ele esperava que fosse, e desejou praguejar por sentir tão pungente em sua boca, pela maneira com que o próprio corpo o traíra reconhecendo como algo bom.
Viu unir as sobrancelhas, parecendo determinada e furiosa ao mesmo tempo. Os olhos estelares fixos no rosto dele por um momento, antes de enroscar em seu pulso aquela maldita corda. Nyx tentou se desvencilhar mas ela acertou com força, mesmo dentro d’água o queixo dele, quase o nocauteando, conseguindo prender o pulso dele com a linha e então com um movimento bem mais potente do que deveria ter sido, especialmente abaixo de águas tão frígidas quanto aquelas, arremessou o objeto que mantinha a linha presa para longe em direção da superfície.
Nyx sentiu quando o objeto se enroscou em algo sólido, puxando-o um pouco para cima. Nyx piscou, com uma mistura de choque e surpresa, voltando seu olhar na direção de , observando-a debater-se contra a correnteza, e falhar miseravelmente ao ser arrastada para alguns metros de distância de onde estava. Horror gritante pintou seu semblante outrora austero ao perceber o que ela havia feito: tinha lhe dado um apoio, uma maneira para voltar à superfície. Sua inimiga mortal, sua nêmesis, a maldita traidora que havia por tanto tempo jurado que encontraria e mataria lentamente, que prometera a si mesmo que faria pagar havia acabado de salvar sua vida. E isso, talvez, tivesse sido a pior coisa que poderia lhe acontecer.
Não esperou para verificar para onde poderia ter sido arrastada pela correnteza. Enroscou seu punho mais um pouco na corda, e, usando-a como seu apoio, tentou obrigar a si mesmo a nadar de volta para a superfície. Podia sentir o peso de seu próprio corpo puxando-o para baixo, podia sentir a dor lancinante em suas asas sensíveis, sendo congeladas pela água, latejarem como se pequenas adagas estivessem sendo fincadas continuamente contra sua pele. Sentiu a dor familiar e pressão no peito aumentar conforme aproximava-se da superfície. A cabeça latejando pareceu receber um estalo doloroso e sua visão ficou completamente embaçada antes de obscurecer-se por completo.
Então ele quebrou a superfície.
O arfar que escapou por entre seus lábios assemelhou-se a um grito engasgado, aterrorizado. Tossiu de imediato, seus pulmões e abdômen desesperados para expelir a água da correnteza violenta que o prendia no lugar. Os olhos ainda estavam embaçados, distorcidos e obscurecidos pela falta de oxigênio e o afogamento. Tudo doía, mesmo as pontas de seus dedos. O tremor envolveu seu corpo quase espasmódico, perceptível, seus dentes batiam contra si mesmos, cortando os cantos da língua e da parte interna da bochecha. Mas tudo o que lhe importava no momento era inspirar o máximo de ar que pudesse. O cheiro pungente do solo invernal da floresta o atingiu como um soco no rosto, terra molhada misturava-se com o aroma metálico do inverno, acompanhado pelo vento dilacerante gélido. Seus pulmões se expandiam e se contraíam com força, rápidos. Água escapava por entre seus lábios, enquanto convulsionava. Usando o apoio da corda de , que havia se enroscado contra um galho grosso de um pinheiro próximo da margem do rio congelado agitado que agora abria-se em um lago consideravelmente largo e menos agitado, Nyx tentou se arrastar na direção da margem.
Levou mais tempo do que gostaria de admitir, e afundara mais duas vezes, quase afogando-se ao longo do caminho, antes de finalmente conseguir desabar contra os cascalhos congelados da margem do rio transformado em lago congelado. Os cascalhos eram esbranquiçados, misturavam-se com vidro marinho, e gelo puro, arredondado nas pontas, e fincando-se abaixo das palmas de suas mãos como pequenos pedregulhos, largos demais para se esvair facilmente por entre seus dedos, como a areia fofa e cálida da Corte Estival, mas não grande o suficiente para que não lhe arranhar a pele. Nyx tossiu, gotículas de água do rio deslizando por entre os cantos dos lábios enquanto arrastava-se mais e mais para longe de sua margem, deixando-se afundar, mesmo de barriga para baixo com o rosto contra um banco de neve pálido, fechando os olhos ao tentar normalizar sua respiração.
Foi somente quando sua respiração se normalizou, e a adrenalina da queda misturada com o afogamento diminuiu, que ele percebeu que estava tremendo. Os músculos doloridos, sua garganta ardia, e os ouvidos pareciam estar com água. Fez uma careta, tentando colocar-se sentado em seus calcanhares, balançando a cabeça. Os cabelos molhados grudavam ao redor de suas têmporas, e pescoço, desalinhados, o vento gélido criando pequenos cristais de gelo nas mechas fazendo-as pesarem contra sua pele que parecia extremamente fria, e, ao mesmo tempo, queimando. Nyx piscou algumas vezes, tentando livrar-se do acúmulo de água que se juntava ao redor de seus cílios, grudando uns nos outros, como se fossem pontas de estrelas, antes de seus olhos azuis intensos voltarem-se para a margem. Fez menção de se levantar, mas foi rapidamente lembrado da maldita corda que envolvia seu punho quando puxou o braço na direção da faca solitária —— a faca de —— vagando pela margem do rio transformado em lago.
Grunhiu entre dentes, voltando seu olhar para a corda fina, porém resistente que o prendia no lugar. Ele observou o objeto, era tão fino que parecia ter sido feito de teia de aranha. Um amontoado delas entrelaçadas minuciosamente até formar um padrão resistente e enviesado de corda fina. Nyx levou o objeto em direção aos lábios, tentando controlar o tremor espasmódico para cortar o objeto, mas falhou miseravelmente quando percebeu que, embora de aparência delicada, até mesmo erroneamente frágil, a linha era resistente. Mais resistente do que a merda do fio da lâmina dela. Mais resistente que os próprios dentes dele.
Nyx praguejou baixo, seu hálito condensando-se com o ar gélido noturno, espalhando a frente de seu rosto com lufadas de ar branco antes de tocar a merda da linha. Sentiu o familiar formigamento atingir seus dedos quando seu toque, sem a proteção da luva, repousou sobre os entremeios do fio. A princípio sentiu a corda se tensionar, mas então, com a familiaridade de sua própria respiração irregular, ele observou o objeto se desfazer em cinzas com apenas seu toque. Trincou os dentes, sentindo o familiar sentimento de raiva que costumava a seguir sempre que precisava usar aquela habilidade, adquirida não por seus pais, mas após seu acordo com a Caçada Selvagem.
Com os pulsos livres, Nyx voltou a empurrar a luva para baixo cobrindo sua mão, antes de cambalear em direção à onde a faca dela encontrava-se. Tomou-lhe sem muita cerimônia, analisando-a por uma fração de segundos. Parecia meio entortada, a lâmina meio cega, mas funcionava. Ofegou, os olhos azuis intensos observando o território desconhecido, questionando-se internamente o quão longe do vilarejo ele poderia ter caído. O rio era revolto, e arrastava tudo o que estava dentro dele para aquele lago, era de se assumir que ao menos Kallias, ou o monstro que acompanhava a maldita garota.
Lembrou-se vagamente da mãe contando-lhe histórias de dormir sobre a Corte Invernal, Aurora que sempre havia sido fascinada por neve gostava de ouvi-las, Nyx, na maior parte do tempo ficava encarando a mãe com um rostinho franzido e terrivelmente entediado, o que levava Feyre a rir suavemente e prometer-lhe contar alguma das legendárias guerras de bola de neve que seu pai tinha com os tios desde que eram pequenos em retorno. Tentou buscar ao fundo de sua mente que tipo de criaturas poderia haver naquele lugar.
Bóreas, havia chamado a criatura, o Urso Polar Gigante que havia assumido forma humanoide com apenas um pedido dela. Embora estivesse tremendo, os lábios levemente arroxeados pelo quase afogamento e o frio que estava cravado profundamente em seus ossos, a raiva foi o suficiente para aquecê-lo.
Sua respiração escapava com arfares bruscos e roucos, por entre suas narinas ardentes e sua garganta dolorida. Os olhos azuis intensos, como o oceano à noite, refletindo o céu estrelado, buscou com intensidade pela margem quase vidrado, tentando encontrar qualquer coisa que pudesse o levar até ela outra vez. Sentiu uma mistura de fúria contida, medo e até mesmo satisfação ao considerar que talvez ela tivesse se afogado. Talvez estivesse no fundo do lago uma hora dessas, morta, como bem lhe serviria. Mas a ideia de que estava morta, era tão insuportável quanto a ideia de que ela havia o salvado. Não interessava o que ela pensava que havia feito, não importava se havia tentado o salvar depois de lançar os dois naquele maldito rio congelado, não mudava nada. Ela não iria morrer, porque ele não deixaria. Se alguém fosse responsável por sua morte, seria ele, e somente ele. Mesmo que Nyx tivesse que rastejar até o lar de Arwan outra vez e arrastá-la até aquela merda de mundo outra vez, mesmo que ele tivesse que mergulhar naquele maldito lago e arrastá-la para fora pelos cabelos, ele faria.
Por que a vida dela pertencia a ele, e ninguém mais. Nem mesmo a morte ficaria em seu caminho.
Nyx grunhiu entre dentes, arrancando o casaco de suas costas, suas asas projetando-se um pouco para frente, dolorosas e bem mais sensíveis do que gostaria, a ponta que faltava da flechada que levara quando era pequeno parecia latejar em ritmo com sua pulsação acelerada. Os músculos delas pareciam estar letargia dos, amortecidos pelo gelo da água, mas mesmo assim ele obrigou-se a chacoalhá-las, estendendo-as algumas vezes antes de disparar pela margem, tomando impulso e saltando no ar. Agitou as asas algumas vezes, conseguindo posteriormente estabilizar-se no ar enquanto o vento da tempestade criava uma resistência invisível ao seu redor. Com o coração e a pulsação martelando contra sua pele, ele pairou sobre o lago, buscando como um animal por alguma indicação de onde poderia estar. Se tivesse que mergulhar outra vez no lago, o faria, mas levando em consideração que o sol já havia desaparecido e as primeiras estrelas começavam a despontar, não demoraria muito para que tudo estivesse escuro demais para localizar, mesmo ela. O maldito monstro que parecia ser feito de poeira e luz estelar. Vento gélido agitou as mechas de seus cabelos, alguns fios adentrando em seus olhos, ou grudando na lateral de seus lábios entreabertos. A respiração pesada, marcada pelo subir e descer de seu peito largo, escapava trêmula, pulsando como fumaça ao redor de seu rosto. O nariz queimava, assim como os músculos gélidos. O tremor presente como uma sombra da qual não conseguia livrar-se.
E a superfície do lago permaneceu tão escura quanto os céus começavam a se tornar.
Nyx trincou os dentes com força, deslizando pelos ares com mais força do que necessário, tentando cortar a resistência da tempestade de neve que tomava mais e mais intensidade com o passar do tempo. Flocos de neve agitavam-se ao seu redor, alguns grudando em sua pele e derretendo até que as gotas de água tivesse umedecido ainda mais suas roupas, outros apenas atrapalhavam sua visão ao agitar-se de um lado para o outro como mariposas sem luz alguma, desnorteadas. Frustração começou a amontoar-se em seu peito, aquecendo-o do frio e do vento constante. Então, seus olhos repousaram, alguns consideráveis metros de onde ele havia conseguido arrastar-se para a margem, a figura dela, curvada, de quatro, arrastando-se e sendo levada pela correnteza, tentando agarrar-se a qualquer coisa que não fosse puxá-la de volta para a água.
Aquele brilho esquisito que parecia pairar por suas sardas estelares, como se fossem uma constelação própria parecia ter se espalhado não apenas pelos fios de seu cabelo, mas igualmente por suas veias, tornando-se incandescente mesmo abaixo de sua pele. Os olhos nunca pareceram pontos focais de luz maiores do que naquele momento. Algo na garganta de Nyx pareceu se apertar, obrigando-o a engolir em seco por mais que estivesse doendo pela friagem que havia tomado até agora. Sua mente pareceu oscilar entre o presente e o passado, e por uma fração de segundos, Nyx foi transportado para a escuridão do Poço, para o desespero e o medo, o completo desnorteio, para o pequeno foco de luz que a garotinha era guiando-o em direção a sua própria condenação. Algo em seu peito pareceu agitar-se, enterrado sob inúmeras camadas revoltas de cólera e fúria mal contida, e ele detestou o sentimento. Desconsiderou-o com finalidade, concentrando-se em apenas alcançá-la. Após tantos anos, não seria agora que ela escaparia.
Suas botas, escorregadias pelos cristais de gelo que haviam se formado devido ao vento e a água que o encharcou deslizaram pelos cascalhos, quase desequilibrando-o quando Nyx cambaleou em direção a ela. parecia ainda estar letárgica, tentáculos soltos e sangrentos pareciam estar enrolados em suas pernas, sem que ela sequer percebesse. Nyx tampouco importou-se, simplesmente avançou em direção a ela, acertando-a com uma joelhada no rosto e ouvindo-a gritar com a dor. Sentiu uma pequena ponta de satisfação ao sentir os ossos dela conectarem-se com os de seu joelho, mas essa satisfação morreu prematuramente quando ela rolou para a esquerda, deslizando pela margem do lago para colocar-se atrás dele e acertá-lo com violência na parte de trás de seu joelho. Nyx sentiu seu corpo se projetar para frente, a dor explodindo por trás de sua cabeça latejante, a perna cedendo ao próprio peso. Lançou a faca no ar, de uma mão para outra no segundo que sentiu o braço dela envolver em um aperto sufocante o pescoço dele, e com um grito estrangulado, selvagem, Nyx fincou a lâmina no antebraço dela, rasgando uma bela linha em sua carne que a fez gritar de dor, e cambalear para trás.
Abriu suas asas com força, usando a extensão delas para empurrar para trás, vendo-a cambalear, seus pés desastrados em meio a margem úmida do lago, escorregando, sem muito equilíbrio, tanto pela exaustão causada pela queda e o afogamento, quanto pelos cristais de gelo causados pela tempestade. Usou isso como sua vantagem. Nyx desviou de um cruzado por fora preciso, atingindo com força a costela dela, ouvindo-a ofegar, pega de surpresa, antes de agarrar o cabelo dela com uma mão, os dedos enroscando-se nas mechas molhadas com força, puxando a cabeça dela para trás, enquanto com a mão livre ele repousava a faca na altura da costela dela, no ponto exato que tio Cassian havia lhe ensinado que permitiria atravessar a caixa torácica de maneira limpa até atingir coração e pulmão. Ela tentou arranhá-lo com as unhas, mas ele a prensou contra o tronco largo de uma árvore, com força o suficiente para deixá-la desnorteada. Seus olhos queimaram o rosto dela, a maneira com que ofegava, e engasgava-se ainda com a água, exausta e ao mesmo tempo queimando como a porra de uma estrela.
—— Valeu a pena? —— vociferou Nyx, os olhos queimando com a cólera e a fúria contida de anos, concentrada e temperada pelo ressentimento montante que a essa altura tornara-se inescapável. E, por baixo de tudo aquilo, a dor de um ferimento que nunca havia cicatrizado; infestara-se com o desprezo e o ódio, a traição profunda que deveria ter tornado-se uma cicatriz, havia inflamado e infeccionou, e a essa altura corroeu tudo o que restara dentro de si. Dolorosa presença ocultada apenas pelo ímpeto de sua raiva e o desejo por retribuição, nunca checada.
Agarrou com mais força os cabelos dela, usando o joelho para prendê-la no lugar, sentindo a fragilidade de seus ossos abaixo de seu joelho. Uma mistura de prazer perverso e satisfação, com fúria o atingiu ao perceber que ele poderia quebrá-la com a facilidade semelhante de um galho. Para quem ela era, sua fragilidade, pela primeira vez, tornava-se insuportavelmente atraente para ele.
—— Me diga! —— comandou ele, perdido em sua própria fúria e desprezo por ela. Pressionou com mais força a faca contra as costelas dela, vendo-a grunhir, tentando se soltar de seu toque, debatendo-se mesmo que não pudesse livrar-se dele. —— Quando me deixou para trás, quando escolheu fugir como a covarde que é, valeu a pena? Valeu a pena ter me sacrificado? Ter me traído?!
—— O que espera ouvir? —— ela cuspiu entre os dentes, a respiração irregular atingindo o rosto de Nyx como lufadas cálidas que cheirava uma mistura de flores e frutas silvestres. Convenceu-se que o estremecer que atingiu seu corpo provinha do nojo que sentia por ela, da doença que era, um monstro existente que há muito saíra impune de seus pecados, e nada mais. Nada mais. —— Quer que eu minta? —— Nyx a fuzilou com o olhar, pressionando com mais força a faca contra as costelas dela, sentiu-a encolher-se com a dor quando o metal transpassou o tecido e fincou-se na pele. —— Valeu cada segundo! —— Ela cuspiu com selvageria, e por um segundo, mesmo contra gosto, Nyx a encarou, chocado.
Por uma fração de segundos a mão que empunhava o punho da faca pareceu afrouxar, quase deixando-a escapar por uma fração de segundo, ao absorver suas palavras. Seus olhos azuis intensos quase refletiram uma dor profunda, inconveniente ao compreender as palavras dela.
Valeu cada segundo, ela disse, e em seu tom de voz ríspido não havia traço algum de arrependimento. O semblante de Nyx rapidamente tornou-se sombrio e intenso. Ela não se arrependia; uma parte vã de si, uma desesperada por motivos que ele sequer poderia dizer que compreendia havia acreditado que ela carregaria aquela culpa como uma condenada. Uma parte de si queria acreditar que a culpa iria a corroer de dentro para fora, que seria um peso que ela teria que conviver todos os dias, e a ideia de que isso seria apenas o começo de sua punição lhe agradava tanto quanto a ideia de matá-la. Uma parte de si queria acreditar que ela estava em miséria tanto quanto havia o deixado em miséria. Mas… ela não se arrependia.
Nyx frustrou-se consigo mesmo ao perceber que a admissão dela havia lhe doído mais do que qualquer outra coisa que ela pudesse ter dito. Havia acertado em cheio na ferida moribunda e infeccionada de anos atrás ainda tão dolorosa e tão pungente quanto fora aberto no dia que ela o deixou para trás. No dia que ela o condenou.
Piscou algumas vezes, tentando livrar-se da sensação dolorosa que se enredou por seu coração, ou o que havia sobrado de tal coisa, apertando-o como vinhas sufocantes espinhentas. Seus dedos se fecharam com mais força contra o punho da faca, assim como ao redor do pescoço dela. Seus olhos queimaram o rosto delicado, de sardas cintilantes como pequenas constelações traçadas em sua pele.
—— Então confirma que não passa da merda de um verme nojento, huh? Condena a vida de inocentes para que a sua seja poupada —— Nyx grunhiu entre dentes, abrindo um sorriso cruel, quase satisfeito quando a viu se encolher com a acusação.
Os olhos estelares dela cintilavam com um acúmulo do que ele presumiu ser lágrimas, mas percebeu rapidamente que ela não iria chorar a sua frente, não iria o fazer na frente dele. Algo sombrio, perverso pareceu apertar-se em seu peito, incentivando-o a obrigá-la a derramar aquelas malditas lágrimas. Algo perverso o acalentou ao vê-la se encolher, ao perceber que havia conseguido atingi-la em um ponto dolorido.
—— Você não é um monstro, , você é um verme —— ele cuspiu as palavras, um sorriso satisfeito espalhando-se por seus lábios ao vê-la unir as sobrancelhas e prender a respiração quando ele pressionou com mais força a faca na pele dela.
—— Porque o verdadeiro monstro é você! —— ela rosnou com uma voz sufocada, entrecortada, e surpreendentemente, vulnerável. Havia uma boa camada de fúria nas palavras sussurradas, quase sufocadas pelo aperto dele em sua garganta, mas o tremor que ele percebeu ao fim de sua fala quase o fez ficar satisfeito. Quase.
—— Foi você que me criou, devia estar orgulhosa —— ele cuspiu de volta, severo. Interrompeu-a antes que pudesse argumentar alguma coisa, antes que pudesse justificar. Ele não queria justificativas, ele queria vingança. Queria que ela sentisse a mesma dor que ele havia sentido, queria que ela passasse por tudo o que ele havia passado. Queria que ela fosse corroída pela dor e que lhe suplicasse aos prantos por misericórdia, mas, acima de tudo, Nyx queria olhar no fundo de seus olhos estelares atormentados, registrar cada mínima alteração de sua expressão quando ele lhe negasse perdão. Quando ele a condenasse a morte ciente de que não havia nada nesse mundo ou do Outro Lado que ela pudesse fazer que pagaria por tê-lo traído, por tê-lo condenado àquela vida miserável. Por o fazer tornar-se um pária mesmo na família de seu pai, por torná-lo um monstro, vil e tóxico que sequer poderia tocar com as pontas dos dedos quem amava. Sempre faminto por algo que nunca teria. E a culpa era dela.
Inteiramente e somente dela.
—— Eu criei você? —— ela ecoa com desprezo em uma risada embargada desacreditada, a fúria pareceu aumentar em seu corpo, em sua mente, e Nyx fez uma careta, tentando conter o impulso de acabar com aquela merda de confronto, de matá-la de uma vez por todas. —— Você é o que é, illyriano. —— Ela cuspiu as palavras como se fosse uma maldição, e Nyx trincou os dentes.
Era apenas metade da metade de um illyriano, seu avô era um Grão Feérico e sua avó era uma Illyriana, seu pai era um mestiço que se casara com uma humana feita feérica, se fosse fazer uma contagem realista, apenas 40% de si mesmo era illyriano de fato. No entanto, ela o colocava naquela caixa sem problema algum.
Durante toda sua infância, recebera olhares enviesados de todos que caminhavam pela Corte Noturna. Mesmo com a presença de seus pais, mesmo com seus feitos, nada parecia apagar para Keir e seus seguidores que Nyx era um mestiço de sangue outrora humano. Uma criatura, um monstro que deveria ser domado e comandado; mesmo Lyra o encarava com aqueles olhos escuros com uma ponta de desgosto quando ele fingia não estar olhando para ela. Mas a ideia de que , logo ela parecia desprezá-lo por ser quem era, o teria feito rir com escárnio e fúria, se não estivesse tomado pelo desejo de finalizar aquele trabalho.
—— De todas as criaturas que já conheci, você, illyriano é a que mais desprezo. Se transvestem de civilizados para ocultar a monstruosidade que permeia por baixo da pele. São pesadelos não por poder, mas por crueldade! Eu não criei o monstro que você é, você já era assim, agora usa-me como desculpa para que não se sinta culpado das merdas que faz. Mas eu vejo você, Nyx —— ela rosnou entre dentes e arfares. Nyx sentiu algo ao fundo de seu estômago se contorcer. Tomou cuidado para que não atingisse sua expressão, para que não revelasse mais do que deveria, mas suas palavras atingiram em cheio um ponto dolorido que ele não percebia que existia. —— E não precisou da ajuda de ninguém para se tornar isso. Se não há amor em sua vida, é porque merece.
Algo na mente de Nyx estalou. Foi movido pela cólera, não pela racionalidade, mas sim pela dor e o desejo profundo de retribuição. Fincou fundo a faca entre as costelas dela, girando o cabo para alcançar o coração.
Sentiu o sangue cálido e viscoso dela escorrer por sua mão, seu pulso, deslizando pelo antebraço, encharcando o tecido da manga de sua armadura, fazendo-a grudar contra a pele. Nyx assistiu, a respiração presa em sua garganta ao admirar a maneira com que o rosto dela se contorceu com a dor pungente, a viu trincar os dentes com força para conter um grito de dor, enquanto os olhos quase se fechavam. E então o sangue escorreu por entre seus lábios. A primeira vista, apenas um filete de sangue, mas então, conforme ela engasgava, mais e mais escorreu por seus lábios, pingando de seu queixo, marcando a pele de seu peito com aquele tom vivo de vermelho. Nyx cambaleou para trás, ofegante.
Estava tremendo, e não tinha certeza se o fazia apenas pelo frio que o envolvia. Observou-a cair de joelhos, uma mão enroscando-se contra a faca presa em seu flanco, o cheiro metálico era forte ao se espalhar pelo ar. Os olhos arregalados não perderam nada, nem o momento que ela escorregou no próprio sangue e desabou com o rosto no chão da floresta. Sua pulsação estava tão alta que tudo pareceu desaparecer ao seu redor. Um prazer perverso parecia ter se apoderado do seu peito, mas havia uma nota de desconforto crescente. Algo que ele não esperava sentir ao observá-la agonizar e engasgar-se com o próprio sangue. O desespero na maneira com que ela ofegava, tentando rastejar para longe dele. Na maneira com que os olhos se moviam agitados, cientes de que não havia ninguém para salvá-la. Por tanto tempo ele havia planejado e sonhado com aquele momento, com o momento em que ele teria a vingança que desejava, com a sensação libertadora de finalmente finalizar aquela merda de situação de uma vez por todas, mas…
Além da perversa alegria que sentia, perigosa e sombria, cruel até mesmo, uma parte de si sentiu-se ainda mais pesada. Como se tivesse cometido um erro sem sequer perceber; mas ele não se deixou abalar com isso. Não importava se ele havia cometido um erro, ela havia o feito primeiro. Ela o levara até aquele momento, sua morte era sua punição e nada mais. E, ainda assim, Nyx não se conteve quando a viu tremer. Ele ainda assim colocou-se de joelhos, sentado na parte de trás de seus calcanhares, agarrando-a pelos ombros, e virando-a de barriga para cima. Merda… a faca havia sido fincada muito fundo. Cobria quase todo o tronco dela com a mancha vermelha, o sangue deslizava ao redor do pescoço, formando uma poça no chão ao seu redor.
Merda, merda, que porra ele estava fazendo? Ela estava morrendo, era o que desejara desde o começo. Tê-la morta. Fazê-la sofrer; tentou convencer-se que se esticou o braço agora, se tentou verificar se havia alguma maneira de estancar o sangue que se esvaía por seu corpo como água, o fizera porque percebera que ela ainda não havia sofrido o suficiente. Porque ela merecia mais do que uma morte rápida.
Mesmo quando suas mãos tremeram, ele praguejou entre dentes, culpando o frio. Seus dedos tocaram fantasmagoricamente o cabo da faca, considerando a arrancá-la, seus olhos azuis intensos, como a tormenta de um oceano à noite, fixaram-se nos dela, observando-os revirar em suas órbitas, se por dor ou fraqueza, pouco poderia saber dizer. Algo pareceu apertar-se dentro de si, estranho, desconhecido, como se um amontoado de linha tivesse prendido-o no lugar e agora se desfazia. Era a ausência dos fios que parecia perturbadora.
Mas então ele ouviu um grunhido alto vindo do centro da floresta. E então, mais um, e antes que pudesse se dar conta, criaturas congeladas, com a pele putrefata esquelética, revelando pedaços de carne morta, vermes pingando como sangue de seus crânios e ossos expostos, parecendo serem feitas do mais puro gelo, se arrastaram das profundezas das árvores em direção a ele. Percebeu com uma ponta de surpresa e até mesmo irritação que os monstros não vieram por ele, mas sim, foram atraídos por ela. O sangue dela atraiu aquelas criaturas. Nyx trincou os dentes com força sem conseguir mover-se de cima de , congelado no lugar, tanto pelo vento severo da tempestade que os envolvia, quanto pela visão dos monstros que se arrastavam em sua direção.

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SKAD • CORTE INVERNAL

Aurora era tudo o que havia lhe dito que ela seria, e talvez, até mais.
Não mentira sobre sua beleza, de fato, era facilmente a mulher mais bela de toda Prythian e uma parte egoísta de si mesma, uma parte que não se orgulhava nem um pouco de ter dado ouvidos ainda que por mera fração de segundos, sentiu-se ao menos satisfeito com o prospecto em mão. Mesmo que não pudesse amá-la, ter uma esposa tão bela quanto Aurora deveria de ser fácil aos olhos; talvez pudesse enganar-se para tanto.
Mas Aurora era mais do que só sua aparência física: ela era inteligente, com um humor mordaz e perspicaz, não hesitava em dizer o que pensava, e embora estivesse coberta por pudores e cordialidades, havia um escárnio na maneira com que se deferia a tradição que certamente havia encantado Skad. Fizera-o sorrir de imediato. Tinha um olhar intenso e atento, os olhos escuros como piche, lábios rosados, curvados em um sorriso capaz de incendiar uma floresta inteira ou ao menos o bloco congelado que era seu coração, e uma voz suave, gostosa de ouvir.
Percebeu que não teria muitas dificuldades de ouvi-la, ela poderia reclamar de qualquer coisa que não o incomodaria. Algo surpreendente, levando em consideração que, sendo o Herdeiro da Corte Invernal aquele tipo de reação não condizia consigo mesmo ou a tradição de seu povo. Eram mais fechados, distantes, até mesmo frios, seu pai murmurava que eram dos velhos tempos, dos anos em que um mal chamado por Amarantha que havia os tornado daquela forma, desconfiados e observadores, propensos a fecharem-se antes que pudessem abrir-se para desconhecidos. Não eram calorosos para se ter por perto, se porventura devido ao ambiente que eram criados ou apenas a natureza de sua magia, pouco poderia dizer. Mas sentiu aquela estranha quentura surgir por seu peito ao observá-la.
Aurora era uma pessoa fácil de amar.
Talvez em um futuro um pouco distante, Skad percebeu, ele viesse a amá-la. Talvez não inteiramente, talvez não da forma que ela merecia, mas certamente poderia ver-se permitindo a amá-la… como uma amiga, uma parceira. Mas enquanto a ouvia detalhar a viagem, e questioná-lo sobre seu dia, enquanto ele murmurava com um tom suave, gentil até sobre o tempo perdido na biblioteca, e na pesquisa que ele, e estavam determinados a encontrar solução, Skad sentiu uma ponta profunda de culpa. Sentiu-se um belo mentiroso, e o peso em seus ombros pareceu triplicar. Sob os olhares acusatórios de Lumia, Skad sentiu vontade de ajoelhar-se à frente de Aurora e confessar-lhe que não poderia seguir com aquilo. Considerou as palavras sentiu-as, amargas em sua língua, tentando forçar-se a expeli-las para fora, mesmo que soubesse que não deveria.
Lumia sabia que ele queria fazer, porque não tardou a juntar-se na conversa, oferecendo pequenos conselhos e ofertas para Aurora com um tom ácido enviesado, convidando-a para patinar no gelo ou cavalgar pelos jardins do palácio, lançando olhares afiados na direção de Skad.
Skad forçou um sorriso gentil tentando tranquilizar Aurora, e um olhar tão afiado quanto para Lumia, chegando à terrível conclusão que: embora Aurora fosse fácil de amar, não era quem ele queria.
Em sua mente, sua decisão estava tomada, e ele iria até o fim com ela. Desde pequeno orgulhava-se de ser justo e leal a seus propósitos, ele não hesitava em fazer o que era preciso, mas quão tolo acreditou que seu coração, traidor por si só, poderia ser dominado por sua mente, se ao olhar para Aurora, buscara não a verdade dela, mas pequenos reflexos, pequenos lampejos de ali. As duas eram teimosas, embora em medidas diferentes; Aurora era teimosa como uma porta, mas tinha opinião. era teimosa como um gato, mas tão flexível quanto, se insistia em algo, o fazia de certo, mas o ouvia. Considerava sua opinião tanto quanto. As duas pareciam ter uma pequena propensão para o desastre: mas Aurora era tão graciosa quanto uma dançarina, e … bem, ela havia caído em um dos bebedouros com água e grama seca das renas de Vivianne simplesmente porque estava distraída tentando decifrar um mapa —— um mapa que ele havia adulterado e desenhado para que ela não conseguisse resolver e tivesse que pedir sua ajuda com o enigma. As duas tinham opiniões fortes, mas Aurora era politizada, enquanto tinha uma perspectiva de honra e ética estranhamente pessoal. As duas eram curiosas, mas enquanto Aurora parecia não se importar com perigos, era cautelosa, como se sua curiosidade se misturasse com algum medo profundo que ele nunca havia compreendido direito de onde vinha.
Ele sabia que ela gritava à noite. Sabia que tinham noites em que os pesadelos eram tão fortes que ela escolhia simplesmente vagar pelas ruas sem destino próprio, ou esgueirar-se pelas paredes de vidro do palácio até a biblioteca. Por vezes ele havia a seguido em segredo, apenas para se certificar de que ela não se envolveria em problemas e acordado ao lado dela em algum canto confortável, porque ele havia pegado no sono, fazendo-a flagrá-lo em cheio. Mas enquanto Aurora era como um raio de sol, tão ofuscante quanto, era como a lua, ou uma estrela, fugaz momentaneamente mas denotada de uma melancolia profunda. Uma melancolia que espelhava a dele.
—— Aurora, preciso contar uma coisa. Na verdade, preciso pedir-lhe algo, talvez não seja o que queira ouvir, e entenderei se me ressentir por isso. Não tenho sido honesto com você, mesmo que toda esta… situação possa ser apenas um contrato —— Skad começou a dizer gentilmente, segurando o cotovelo de Aurora e puxando-a para um pequeno espaço mais discreto e longínquo dos olhares exasperados de Lumia e da expressão divertida de Vivianne.
Aurora estreitou os olhos, parecendo tentar esforçar-se para manter sua expressão neutra, apenas observadora enquanto Skad engolia em seco. Ele tensionou a mandíbula, assentindo, mais para si mesmo do que para a atual herdeira da Corte Noturna quando se pronunciou:
—— Preciso confessar que não posso retribuir sentimentos… —— sua fala foi interrompida com uma alta comoção na entrada do jardim.
Lumia arregalou os olhos, Vivianne, sua mãe, pareceu se tensionar no mesmo segundo, quando membros da guarda se aproximaram em disparada. Ivar, o General da Corte Invernal, com seus cabelos trançados cuidadosamente em pequenas tranças que se uniam em uma grande só, com as laterais raspadas de sua cabeça e tatuadas, tinha um semblante severo, buscando com o olhar o rosto de seu Grão Senhor. Quando não encontrou, imediatamente focalizou em Skad, que já estava movendo-se em sua direção, o braço esquerdo estendido na direção de onde a mãe, a irmã e a futura esposa encontrava-se, instintivamente protetor. Não precisou perguntar nada há Ivar, pois o General já gritava com intensidade e até mesmo tensão em sua voz, a urgência palpável:
—— Draugrs, senhor! A leste daqui! —— Skad tensionou sua mandíbula no mesmo segundo. As criaturas costumavam tentar atravessar pelo norte das muralhas. Não sabiam de onde vinham, ou o que os criava, sabiam que era algum tipo de doença, que corroía apenas os corpos de membros daquela terra e não estrangeiros, como uma espécie de fungo. Mesmo mortos, eram reanimados, segundo atrás apenas de um único desejo, sangue. Como estavam mortos, precisavam de algo quente para continuar movendo-se. Normalmente os Ursos Polares nas fronteiras tomavam conta desse problema, mas fazia já alguns meses que algo havia acontecido, que os estavam fazendo migrar para aquele canto de seu território.
Skad não precisou ouvir mais. Lançando um olhar severo na direção de Lumia, disse com um tom de ordem que havia aprendido a imitar ao observar incansavelmente seu pai em trabalho diário como Grão Senhor.
—— Volte para o palácio agora, proteja Aurora! —— Lumia pareceu ficar ofendida com tamanha ousadia de Skad de comandá-la a fazer algo, mas o olhar que Skad lhe ofereceu foi o suficiente para obrigá-la ao menos engolir seu próprio orgulho. Sabia que a irmã iria fazer um belo de um discurso sobre sua postura e lembrá-lo que, embora herdeiro, ele não era o Grão Senhor, e que a próxima vez que ele tentasse comandar algo, acabaria com um sapato enfiado bem no meio…
Ivar arremessou uma espada que Skad pegou no ar, subindo em uma das renas antes de unir as sobrancelhas, voltando seus olhos cristalinos na direção do velho guerreiro.
—— Bóreas e …? —— começou a perguntar, e foi recebido com um olhar estranho vindo de Ivar.
Os lábios do General da Corte Invernal se retorceram em uma careta que parecia meio desgostosa, meio incomodada. Skad sentiu algo gélido percorrer por suas veias, a adrenalina pareceu pulsar ao ritmo de seu coração, mas ainda assim aguardou pela resposta. Até onde sabia, Bóreas costumava a cuidar daquelas criaturas quando estava de folga, tinha a tendência a ir junto sempre que o urso esquecia de proibi-la de segui-lo, supôs com uma ponta no estômago que ela deveria estar perto do problema, para variar, mas algo na maneira com que o semblante do General obscureceu, Skad sabia que a notícia não era boa.
—— Houve um incidente, senhor, no centro do vilarejo, contarei ao longo do caminho. —— Foi tudo o que o General disse antes de agitar as pernas comandando para que a rena saísse em disparada. Skad uniu as sobrancelhas, suas mãos apertando com mais força a espada, considerando suas palavras. Um incidente? Com ?
Que merda poderia ter acontecido?




SKAD • ANOS ANTES.

Skad apoiou-se contra a balaustrada feita de mármore branco, fria como neve, de uma das sacadas que envolviam o grande salão principal da sala de reuniões da Corte Invernal. Estreitou os olhos, escorando o queixo na palma de sua mão direita, observando com certa curiosidade o pai resmungar palavras severas com mais dois guardas. Estavam discutindo algo com teor sério, talvez, até mesmo preocupante, Kallias parecia realmente incomodado com algo, o tom de voz baixo e comedido tinha aquela conotação frígida e pouco emocional, permeada por racionalização mordaz que fazia Skad se lembrar de uma tempestade de neve aproximando-se.
Era o momento em que tudo parecia ficar silencioso, quando as nuvens sempre cinzentas que envolviam os horizontes dos vilarejos e cidades entremeios de montanhas obscureciam-se ainda mais, projetando-se como sombras sobre os prédios e casebres, podia sentir a temperatura diminuindo, o ar agitando-se com uma estática crescente acompanhando pelos uivos das ventanias que arrastavam tudo em seu caminho. Nunca era algo bom quando seu pai estava com aquele tipo de humor. Sua voz erguia-se, pungente, e colorida pelo sotaque familiar, nortenho que eles haviam adquirido graças à convivência com a mãe e a família de sua mãe, severa pelas paredes de vidro e gelo do salão principal.
Os olhos azuis claros, gélidos, como um lago congelado, do rapaz desviaram-se da urgência crescente presente na voz de seu pai, para repousarem na figura diminuta do outro lado do salão, paciente, esperando por sua condenação. Não parecia arisca como quando a encontraram na floresta mais cedo, sequer ressentida embora o rosto exibisse certo desapontamento, um pesar velado e disfarçado de neutralidade, agora, apenas mantinha os olhos fixos no chão, com os lábios apertados em uma linha rígida. Os dedos esguios, calejados e levemente tortos, se contorciam arrancando as peles pequenas que se formavam ao redor de suas unhas, filetes de sangue escorrendo por entre os cantos sem pingar no chão pálido.
Era uma figura curiosa, parecia apenas dois anos mais nova que ele, então deveria ter no máximo 12 anos, talvez menos. Os ombros ossudos eram curvados para frente, como se estivesse tentando se fazer despercebida, e os cabelos, embora na altura de suas costas, pareciam uma bagunça completa de fios desalinhados. Provavelmente nunca havia os penteado, mas igualmente não havia como saber, as mechas destacavam-se com fios que cintilavam, mesmo de dia, como fios de luz pura. Enroscavam-se com outras mechas, torcendo-se e tecendo em tranças que mais se pareciam com nós. Sardas decoravam seu rosto delicado, como um mapa de estrelas sob a pele, cintilando e oscilando a cada inspiração que tomava, assim como as íris de seus olhos, pareciam misturar-se, formando uma faixa de luz pura cintilando em meio às sombras que projetavam-se em seu rosto. Seu braço esquerdo faltava-lhe, em seu lugar havia apenas uma cicatriz grotesca de onde o osso deveria ter partido-se, envolto por uma faixa desgastada e suja do que outrora deveria ter sido suas roupas.
Vestia-se modestamente, com roupas finas que não deveriam sequer protegê-la do frio. A túnica estava desgastada, suja, com manchas de sangue seco e lama, suas mangas haviam sido arrancadas, revelando os braços esguios agora cobertos por um emaranhado de marcas profusas, de um azul escuro pungente, como o oceano à noite, formando símbolos e escrituras antigas demais para que Skad conseguisse compreender com clareza —— sabia, todavia, que sua avó materna o tinha em livros em sua cabana nas florestas congeladas, em livros e até mesmo esculpidas na madeira. Eram símbolos de proteção, que contavam a história de conexão, uma ligação voluntária entre a magia antiga e a garota. Algo ancestral. Faziam as algemas de gelo envolviam seus pulsos e queimavam sua pele, prendendo os braços a frente de seu corpo, reluzirem instáveis sob o toque. Como se estivesse esforçando-se muito para manter-se atrelado à pele dela, quando algo dentro da garota parecia rejeitá-lo.
Skad uniu as sobrancelhas, incomodado. Por que diabos ela não reclamava? O gelo claramente estava queimando-lhe a pele, já estava começando a ficar arroxeada nas laterais onde o gelo tocava, por que diabos ela simplesmente não gritava? Skad havia esgueirado-se pelas portas e corredores da Corte vezes o suficiente para ter presenciado e ouvido muitos prisioneiros e invasores das fronteiras com a Corte Outonal ou até mesmo forasteiros e mercenários que se esgueirava pelas Montanhas implorar por misericórdia no segundo que as algemas queimavam seus pulsos. Sabia como gelo poderia ser doloroso, um veneno lento e eficaz, enlouquecedor o suficiente para fazer homens maiores que ela chorarem em silêncio, e, todavia…
Como ela, que parecia tão nova e frágil, poderia ter se acostumado com a dor dessa forma?
Skad não conseguiu conter uma ponta de inveja da garota; ele queria ser assim também. Intocado pela dor, implacável e até mesmo estoico. Estava tentando faz alguns anos já, durante os treinos, adquirir a postura de Kallias em combate, elegante como uma tempestade, perigoso como um lago congelado, mas ainda assim, falhava miseravelmente. Seu temperamento, ainda que contido acabava rendendo-lhe frustrações o suficiente para pequenas explosões e birras marrentas ao perceber que as coisas não haviam seguido com o que ele havia planejado.
Kallias soltou um chiado entre dentes, comandando os dois guardas a se silenciar, e então, de supetão, voltou-se na direção de onde Skad escondia-se, tentando vislumbrar o que transcorria na sala de reuniões. Skad praguejou por baixo de sua respiração, se lançando no chão antes que o olhar severo de seu pai pudesse repousar em seu rosto, ali, e rastejando pelo chão, tentou seguir para a próxima sacada, agarrando-se por pequenos veios e lacunas que se abria entre uma sacada e a outra, sem ser notado pelo pai.
Trincando os dentes com força, Skad conteve um grunhido de dor ao desabar no chão, de forma brusca e dolorosa, esparramado sobre alguma coisa cheia de pernas e braços. Um pé atingiu sua mandíbula, o fazendo sufocar um grito, tentando desviar de um braço, acabou acertando uma cabeça bem dura —— e provavelmente vazia graças ao som oco que fizera quando as duas testas se conectaram. Skad arregalou os olhos, tampando a boca de Lumia antes que a irmã pudesse pensar em gritar; para o completo desespero do rapaz, Lumia, sendo reativa como sempre, optou por fincar-lhe os dentes em sua mão com força o suficiente para o fazer ver estrelas. Skad prendeu a respiração, batendo na cabeça de Lumia até que ela o soltasse, antes de rolar para a esquerda, colocando distância entre si e a irmã com irritação.
Piscou algumas vezes, tentando afastar as lágrimas de seus olhos marejados, mantendo sua mão presa contra o peito ao encarar irritado a irmã.
—— Que ‘cê tá fazendo aqui? —— Apesar de ser uma pergunta, o tom de acusação a tornou em uma afirmação irritadiça. Lumia abriu a boca para responder-lhe, mas tamanho era seu enfadamento que a garota apenas agarrou a primeira coisa que encontrou pelo caminho, uma almofada, e o acertou com força. Skad grunhiu baixo, nocauteado de volta no chão, e então, antes que ele pudesse impedir-se, Lumia já havia jogado a almofada sobre sua cabeça, e se sentando em cima da almofada, tentando sufocá-lo. Skad tentou empurrar a irmã para longe de si, mas já era tarde demais, agora ele estava fadado a ser o assento de Lumia mesmo a contra gosto. A pressão do corpo da garota em sua cabeça, o suficiente para ser desconfortável, mas não o suficiente para machucá-lo de fato.
—— Você atrapalhou todo o meu jogo, idiota! —— Lumia retorquiu exasperada, inclinando-se para frente, e começando a recolher as cartas do baralho com um bico, e as sobrancelhas unidas.
Skad grunhiu algo inteligível e então, usando toda a força em seu braço, empurrou a irmã de cima de si, fazendo-a cair de cara no chão. Lumia soltou um gritinho baixo, e Skad sufocou um riso. Empurrou para longe a almofada, e então se sentou, balançando a cabeça, tentando livrar-se do torpor breve de ser “esmagado” por Lumia. Passou as mãos pelos cabelos, antes de dar a língua para a irmã, ainda mantendo-se agachado, ao aproximar-se da balaustrada novamente, tentando espiar por entre os vãos a prisioneira de seu pai.
—— Escolhe uma carta —— Lumia comandou com seu tom imperioso insuportável, após quase dez minutos embaralhando o objeto. Skad bufou, tentando não revirar os olhos, mas então voltou-se brevemente na direção da irmã com exasperação. Por um segundo, sentiu-se tentado em congelá-la. Não seria a primeira vez, nem a última que ele faria. Sabia que seu pai ficaria furioso com ele se tentasse o fazer de novo, mesmo que Lumia não fosse sofrer nenhum dano permanente, uma vez que, como herdeiros de Kallias, a magia do gelo fluía por suas veias, criando certa resistência, ainda seria um grande desrespeito. Mas então, com um suspiro pesado, ele deixou-se observar as costas das cartas viradas para baixo.
Eram exemplos parecidos com o que sua avó materna possuía; cartas de um material grosso que lembrava um pouco placas de metal embora ainda fossem feitas de papel resistente, com delicados entalhes em dourado que pareciam reluzir holograficamente, como pérolas, embora fossem na verdade gelo encantado. Os lábios de Skad se curvaram para baixo, em exasperação. Ele detestava aquele jogo de adivinhação. Sua mãe gostava de jogar quando haviam tempestades rigorosas a se aproximar, e a avó materna deles sempre lia suas sortes em seus aniversários. A avó nunca errava, e sua mãe era bem precisa na leitura, embora falasse das coisas em enigmas demais para Skad se preocupar em entendê-las, mas Lumia era terrível naquele jogo. Uma vez Skad retirou uma carta com o desenho de um esqueleto sentado sobre um trono, e com chifres de carneiros retorcidos, segurando uma taça e com várias jóias dispostas em sua outra mão esquelética, chamavam-no de “O Monstro”, o que deveria ser uma coisa ruim, Lumia havia dito que a carta o representava, porque Skad era tão feio quanto a carta. Mas se porventura fosse o necessário para a fazê-la se calar, então talvez…
—— Anda logo, idiota, só pega uma —— Lumia praguejou, e Skad soltou um chiado entre dentes, tentando silenciá-la, ameaçando acertá-la com um tapa, antes de voltar o olhar na direção de onde o pai dispensava os guardas e voltava-se para a prisioneira. Skad uniu as sobrancelhas, sem ter certeza do que havia acontecido. Kallias não parecia estar nem um pouco feliz, mas igualmente não era ameaçador. Mas a garota o encarava como se estivesse prestes a fugir. Encolheu-se quando seu pai deu um passo em sua direção. —— As cartas dizem que ela vai morrer —— Lumia sussurrou no ouvido de Skad, com um sorrisinho satisfeito.
Skad bufou, empurrando Lumia para o lado, detestando o cheiro de chocolate quente que o hálito da irmã possuía, antes de fuzilá-la com o olhar. Não respondeu a sua fala, apenas tomou uma carta do baralho estendido dela, e então girou por entre seus dedos. Franziu o cenho, incomodado ao observar o esqueleto que apareceu em seu verso: amarrado por uma corda grossa, em torno de um tronco, preso de ponta cabeça. O Enforcado. Skad estendeu a carta para Lumia, confuso.
—— O que significa? —— indagou Skad com indiferença, imaginando o que Lumia iria inventar daquela vez. Não era porque a mãe deles era boa em precognição e adivinhação que fazia Lumia automaticamente boa nisso. Ela não era. Lumia abriu a boca para responder-lhe algo, mas então, a fechou abruptamente, empinando o nariz com superioridade.
—— Que você é muito feio —— Lumia retorquiu, afiada, tomando a carta da mão de Skad, antes de se ajustar ao lado dele e projetar-se para frente. Os olhos de imediato encontraram a garota do outro lado do salão, encolhida. Lumia pareceu fazer uma careta, se de desgosto ou pesar não soube ao certo dizer, mas não era acusatório, igualmente, não era amigável. Skad não poderia deixar de considerar que compartilhava, porventura, do mesmo sentimento. Mas ao menos, nele, havia certa curiosidade. —— Estão dizendo que é melhor executá-la, que é perigosa. Se isso acontecer, vou pedir para o papai me deixar congelá-la. Vai doer menos, acho…
Skad lançou um olhar de soslaio para Lumia, antes de apertar os lábios, dando de ombros, indiferente.
—— Achei que só estivesse jogando cartas.
—— Eu estava! —— Lumia respondeu defensivamente, antes de revirar os olhos, escorando o rosto contra os vãos da balaustrada, assistindo o pai interrogar a prisioneira. —— Mas não dá para evitar de ouvir, dá? O papai tá bem bravo, e a mamãe não está nem um pouco feliz. Por que um Urso Polar criaria um laço com ela? Ela nem parece ser grande coisa…
Skad uniu as sobrancelhas, considerando as palavras de Lumia.
—— Parece com uma estrela —— murmurou em um tom de voz baixo, mais para si mesmo do que para Lumia ouvir, sentindo um certo incômodo começar a espalhar-se por seu peito. Se era bom ou ruim, não saberia dizer ao certo, mas assemelhava-se muito com uma coçeira: começara pequeno, quase imperceptível, mas estava crescendo.
—— Acha que o Urso se conectou com ela apenas para comê-la? —— Lumia interrompeu os pensamentos de Skad com uma voz um pouco mais animada do que deveria, Skad piscou e então encarou a irmã como se ela fosse uma criatura fora de sua compreensão, e, de certa forma, talvez ela realmente o fosse. Lumia retornou o olhar, julgando Skad silenciosamente. —— Não me encara assim. —— Retorquiu, defensiva de novo, e Skad franziu o cenho, seu olhar tornando-se menos acusatório e mais irritado. —— Assim também não! —— Lumia empurrou o rosto de Skad para longe, antes de voltar sua atenção para Kallias. Skad ignorou o impulso de responder a Lumia, voltando sua atenção para o pai, analisando-o com cautela.
Era difícil ler Kallias quando ele estava naquele estado de espírito. Movia-se como um predador caminhando sem deixar marcas sob a neve, os olhos azuis gélidos, como os de Skad permaneceram fixos no rosto da prisioneira, analisando-a com cuidado, enquanto questionava-lhe coisas chaves: de onde era? Como conseguiu atravessar a fronteira? Quem eram seus pais? A quanto tempo estava ali? Como ela havia criado um laço com um dos Ursos? Que tipo de magia possuía? O que queria com sua Corte? Mas para sua completa estupefação, a pequena estrela nada respondia; Skad percebeu, tardiamente, que não era por petulância que seu silêncio se estendia, era por inabilidade. Passara tanto tempo vagando sozinha pelas florestas congeladas, ao lado apenas do Urso Polar, que deveria ter se esquecido como agir entre feéricos outra vez. Skad observou-a gaguejar e engasgar-se com suas palavras, encolhendo-se e tentando se afastar de Kallias, caminhando cegamente em direção a uma parede até que estivesse encurralada; presa pela fúria gélida de seu pai.
—— Ela não fala —— pontuou Lumia com uma excelente capacidade de observação para o óbvio. Então com um sorriso divertido, os olhos de Lumia cintilavam como os de um gato, voltando-se para Skad. —— Acha que o Urso comeu a língua dela? Eles meio que gostam de músculos, ouvi Wren dizer que nas patrulhas que o pai dela faz pelas fronteiras, eles sempre acham os ossos e peles para trás, mas nunca os músculos!
—— E como é que eu vou saber, Lumia? —— grunhiu Skad irritado com as perguntas redundantes de Lumia e o interesse crescente no Urso Polar que a garota havia formado o laço. Skad pensou em acrescentar que se ela continuasse falando sobre o Urso, Skad lhe daria como alimento para a criatura, mas não conseguiu proferir as palavras a tempo quando a criatura atravessou a porta com passos pesados, parecendo perturbada.
Skad trincou os dentes colocando-se de pé no mesmo segundo. Tateou cegamente por sua espada, e percebeu tardiamente que havia deixado-a com Ivar na sala de treinamento, então fez o que lhe passou na cabeça, agarrou o candelabro de prata e gelo maciço, enfeitiçado, com as velas tremeluzentes, e então lançou-se em direção ao chão, para a surpresa da prisioneira, e a irritação de seu pai que já deveria ter percebido sua presença clandestina ali. Skad tencionou a mandíbula com força, ignorando o olhar severo que recebeu de Kallias, mantendo o olhar fixo na forma humanoide do Urso Polar.
Era muito mais alto do que ele; quase dois metros de altura, projetava sombras mesmo em Kallias, como uma muralha pesada de músculos e pelagem esbranquiçada. Os braços grossos pareciam ter o tamanho da cabeça de Skad, talvez maiores, cravados com cicatrizes e marcas, a tinta parecida com a que a garota tinha em seus braços, mas a diferença era que, no Urso humanoide, as marcas cintilavam como se estivessem vivas, permeadas por energia misturadas com gelo. Enquanto a garota parecia uma estrela humanoide, o urso, parecia uma criatura saída das profundezas de um pesadelo. Olhos completamente obscurecidos de um preto pungente, caninos afiados e maiores que os de um feérico, e orelhas sensíveis, que pareciam mover-se a cada mísero ruído.
Skad ignorou o tremor que percorreu por seu corpo, quebrando o candelabro com um ruído alto metálico, deixando as velas e seus apoios desabarem no chão de mármore branco com um tilintar alto, antes de voltar a ponta afiada da arma improvisada para o pescoço da criatura. Devido ao tamanho do humanoide, tudo o que Skad conseguiu fazer, foi apoiar a ponta contra a costela do monstro. Apertou com mais força o candelabro, sentindo o metal e o gelo queimar de leve as palmas de suas mãos, a pressão ameaçando cortar-lhe a pele, enquanto os nós de seus dedos tornavam-se esbranquiçados. Engoliu em seco, obrigando-se a concentrar-se em sua respiração, como Ivar havia lhe ensinado: olhos no inimigo, controle sua respiração, velocidade e precisão eram a chave contra qualquer inimigo.
A criatura sequer pareceu oferecer-lhe reconhecimento.
—— Recomendo que escolha bem suas próximas ações, Grão-Senhor, passar pelos seus não foi assim tão difícil —— rosnou a criatura entre os dentes cerrados, caninos afiados projetando-se, maiores do que o normal ao dar um passo na direção de Kallias. Skad prendeu a respiração, sentindo o tremor envolver seu corpo, mesmo que pudesse sentir medo da criatura, obrigou-se a apontar a ponta afiada do candelabro contra o pescoço do Urso Polar mais uma vez, tentando ao menos alcançar o pescoço da criatura. Desta vez, o Urso Polar em forma humanoide pareceu percebê-lo ali, e Skad acreditou que ter sua atenção, ainda que breve, era pior do que não ser percebido.
Kallias ponderou as palavras do Urso Polar por um breve momento, os olhos frígidos voltando-se para a garota encolhida contra a parede, antes de voltar para a criatura outra vez.
—— Diga-me, então, por quê ela? —— Embora polida e educada, a voz de Kallias ocultou uma severidade contrastante com o tom. Um comando silencioso, que não deixava aberto margens para negociações, implacável, como o frio invernal.
—— Diga ao seu filhote que abaixe o candelabro e direi —— a criatura negociou, e Kallias assentiu, voltando seu olhar para Skad com uma ordem silenciosa. Skad hesitou, não por desconfiança, mas por incerteza. Sabia que o pai era poderoso, e que não haviam inimigos o suficiente que poderiam enfrentar a fúria de Kallias, mas eles nunca haviam enfrentado diretamente um Urso Polar. As hordas de Ursos costumavam a vagar, solitários ou com seus filhotes pelas fronteiras, e as muralhas para além de seus territórios, eles eram como os sentinelas da Corte Invernal, seus guardas silenciosos e nunca vistos por membros do vilarejo, mas agora, de frente para um deles, era assustador o poder que parecia emanar de sua forma humanoide. Skad considerou como seria tê-lo
Abaixou, devagar, o candelabro, e foi somente quando deu uns passos para trás que Skad percebeu que a garota o encarava. Um par de olhos estelares fixos em seu rosto com o que parecia ser uma mistura de medo e curiosidade; Skad apertou os lábios, incomodado. Não havia gostado do jeito que ela havia o encarado, como se, de alguma forma, estivesse vendo algo que ele não queria que ela visse. Mas ainda assim, sem mesmo entender o porquê, não conseguiu desviar o olhar. Era como se ela tivesse o feito refém, prendido-o no lugar. Um transe insuportável, uma luz após um dia nublado.

•••


—— Ninguém sabe —— Skad murmurou com um tom de voz divertido, empurrando para fora de seu caminho um galho cheio de espinhos e folhagem coberta por neve, mantendo-o afastado até que ela tivesse passado a sua frente. Tentou sufocar um riso com os olhos arregalados que mantinha em seu semblante, agarrar-se a todas suas palavras.
Era doce, de certa forma, como sua curiosidade às vezes a tornava inocente para confiar no que quer que lhe era dito. O fazia sentir-se estranhamente importante, como se tudo o que falasse realmente tivesse um peso real para , quando para ninguém mais não possuía, mas ela igualmente não era idiota, e havia aprendido a ver quando ele estava tentando mentir apenas para aproveitar-se de sua inocência com relação aquela Corte. Lumia havia a ensinado a identificar as mentiras, contando-lhe as coisas mais absurdas, e o cinismo proveniente de uma vida inteira havia se tornado um amálgama de incredulidade e curiosidade estranhamente convidativa. O perfume de flores silvestres e até mesmo canela parecia acompanhá-la quando ela passou por Skad, um aroma que aqueceu seu corpo, e o fez controlar-se para não se inclinar na direção dela, tentando sentir um pouco mais de seu perfume. Skad piscou algumas vezes, tentando clarear seus próprios pensamentos, antes de seguir atrás dela, pelo caminho estreito e irregular da floresta congelada.
—— Tudo o que a gente sabe —— Skad voltou a dizer, sem conter um sorriso torto, até mesmo charmoso, estendendo os braços em paralelo de seu corpo ao saltar por entre as pedras grossas do declive, para a parte mais baixa e então se voltar para trás, na direção dela, estendendo os dois braços em sua direção para ajudá-la caso necessário; não aceitaria, era teimosa, mesmo que quebrasse algum osso, recusaria a ajuda. —— É que são criaturas que estão em um limbo, nem mortas, nem vivas, algum tipo de feitiço antigo…
Skad se interrompeu abruptamente, dando um passo para frente quando ela escorregou. Segurou-a pela cintura, antes que ela acabasse estatelada no chão coberto por cascalhos e pedras irregulares afiadas. praguejou entre dentes, os dedos cortados de onde havia agarrado-se as pedras, antes de Skad ajudá-la a firmar-se em seus pés. Assim, tão perto de si, Skad sentiu sua garganta ficar seca, áspera; sua respiração se perdeu em algum lugar de sua traqueia e seus dedos, instintivos, fincaram-se um pouco mais contra a pele macia, coberta pelo tecido grosso do corselete de couro que revestia o tronco dela, por proteção. As pontas enroscaram-se contra os nós que envolviam a lateral da peça de roupa, sentindo por baixo do tecido resistente, a túnica mais fina, azul escura, que ela sempre usava. O material parecia queimar em suas mãos, o impulso de desfazer os nós mais alto do que a coerência. Por uma fração de segundos, Skad apenas conseguiu encará-la, as palavras fugiram de sua mente, seu olhar se perdeu nas íris com tons oscilantes que pareciam brilhar, não prateados, mas feitos de luz, como poeira estelar dos olhos dela, no calor que seu corpo parecia exalar —— em comparação aos de sua espécie, sempre havia sido mais quente. Skad pigarreou, limpando sua garganta, e então, afastou um pequeno punhado de neve que acumulou-se na lateral da orelha dela, tentando sufocar um riso baixo quando o movimento reflexivo dela se pôs em ação, fazendo a ponta de sua orelha mover-se um pouco.
Deu um passo para trás, obrigando-se a soltá-la.
—— Está mentindo, posso ver que está se segurando para não rir —— apontou o indicador na direção do rosto de Skad, que não conseguiu conter um sorriso torto. Em outra ocasião, ele teria mordido o dedo acusador apenas pela petulância, mas agora, subitamente consciente de que estava sozinho com ela, no meio da floresta, sem olhares sobre si, Skad temeu o fazer e acabar implodindo. —— Provavelmente mentiu esse tempo todo apenas para conseguir rir de mim.
Skad negou com a cabeça efusivamente.
—— Você convive demais com Boreas para o seu próprio bem, já está falando igual a ele, toda cínica e desacreditada. Se não a conhecesse, diria que já tem 200 anos —— Skad provocou com um sorriso divertido, voltando a caminhar, desta vez, atrás dela, observando a maneira com que os pés dela eram descuidados com as pedras e os vãos, mas que, de alguma forma, conseguiam encontrar exatamente onde as raízes das árvores se projetavam para cima. Era curioso, de certa forma, a familiaridade que ela tinha com o selvagem, quando tantos deles, especialmente na Corte de seu pai, parecia ter um apreço demasiado com civilidade. De alguma forma, o fez concluir que talvez ela tivesse nascido para o selvagem.
—— Talvez eu tenha, como você poderia saber? —— retrucou e Skad riu baixinho, abaixando-se por um momento para pegar um amontoado de neve, então, o mais silencioso que conseguia, caminhou para perto de e enfiou o amontoado de neve bem em suas costas. soltou um gritinho esganiçado, saltando no lugar com os olhos arregalados, debatendo-se para se livrar da neve dentro de suas roupas, antes de voltar o olhar furioso na direção de Skad. —— Não teve graça, idiota! —— Skad não conseguiu conter o riso pela maneira com que ela havia soado, como uma garotinha frustrada.
—— Viu? Você não é assim tão velha, grita pior do que uma garotinha —— Skad pontuou e abriu a boca para respondê-lo, mas então a fechou. Estreitou os olhos, sem dizer nada, mas ainda assim o seguiu pelo próximo declive, saltando de pedra em pedra, até que ambos estivessem agora de frente para uma trilha de barro misturada com neve, com laterais altas como um rio que a muito havia secado. —— E teve sim. —— Skad desviou, elegante como um fauno, de uma bola de neve que lhe arremessou, antes de girar em seus calcanhares, observando-a de frente ao andar de costas. —— Fui sincero, sabe? Não estou mentindo. Embora seja uma lenda, as criaturas realmente existem. Eu as vi uma vez quando era pequeno, eram aterrorizantes.
lançou um olhar na direção de Skad, antes de voltar sua atenção para o chão, chutando um cascalho para fora do caminho. As botas de ambos chapinhando pelo solo macio envolto de lama e neve. O vento soprou, uma brisa suave envolvendo os dois, fazendo suas mãos ficarem frias e seus narizes arderem.
—— Sei, sei, e eu sou uma Grã-Senhora —— ela resmungou sarcástica. Skad revirou os olhos, dando de ombros, antes de girar em seus calcanhares outra vez, virando para a direita.
—— Se você diz —— ele retrucou, e então suspirou pesado, deixando sua cabeça pender para trás. Observou os flocos de neve que pairavam pelo ar como pequenos vagalumes. Grudavam em superfícies, derretiam sob o toque de suas peles, ele projetou sua língua para fora, sentindo o floco derreter em sua língua, o gosto açucarado distante lembrando-o vagamente de quando era pequeno e corria pelas trilhas da floresta, para o terror de sua mãe. —— Baba Yaga diz que antigamente, haviam outros nessas terras, um pouco como nós, mas… diferentes, selvagens talvez —— Skad explicou, enfiando as duas mãos nos bolsos e então parando de andar para esperar alcançá-lo. Estava corada, frustrada, e visivelmente desconfortável com a neve que deveria ter derretido abaixo de suas roupas; parecia dolorosamente adorável, e pela primeira vez, desde que a conhecera, Skad sentiu aquele estranho impulso de simplesmente beijá-la. Desviou o olhar, por instinto, para o pescoço dela, observando a pequena corrente que repousava sobre seu colo. —— Os Ursos se lembram deles, ouvi dizer, os reconheciam como parte de si, não mestres, não senhores, e tampouco servos, mas irmãos —— Skad uniu as sobrancelhas, voltando a andar, desta vez ao lado de , os dois viraram para a esquerda, saltando por um declive, e então, caminhando com cuidado sobre um tronco de árvore morto caído pelo chão, ao qual cogumelos incandescentes de um azul claro que brilhava mesmo na sombra, se projetava para cima, o pó suave que soltavam, a cada esbarrar de suas botas, fazia com que o cheiro distante de carne assada, subisse para suas narinas. —— O líder deles atravessava os mundos, como se fosse só uma viagem daqui para ali, recolhia estrelas como se fossem flores, usava uma máscara branca para esconder o rosto, uma coroa que parecia com uma galhada de cervo.
bufou, com um pequeno sorriso surgindo por seus lábios.
—— Soa como um perfeito pesadelo. —— Skad lançou um olhar na direção dela, mas não discordou.
—— Acho que foram —— ele confirmou contemplativo, ainda sem encarar o rosto dela, os olhos repousados em seu colo, para onde a corrente delicada desaparecia em seu decote. Havia visto uma única vez o final daquele corrente, enroscada por entre pequenas argolas de metal e teria de aranha mantendo-a resistente no lugar, havia a ponta de uma flecha. Era retorcida, o material desgastado com o tempo e até mesmo enferrujado, algo escuro parecia permanentemente preso no objeto, o que o fez contemplar quantos anos aqui poderia ter tido. Mas então, seus olhos, traidores como sempre, desviaram-se do objeto para a pele macia abaixo que repousavam ali. Skad obrigou-se a desviar os olhos imediatamente, mordendo o interior de suas bochechas, lutando contra o rubor que surgiu ali. —— Cruéis, selvagens, não podiam mentir, ferro queimava a pele, mas possuíam poderes absurdos. Deuses antigos, implacáveis, disse Baba Yaga, o líder deles possuía essa horda de soldados pessoais. Baba Yaga disse para mim uma vez, que eram um número pequeno, apenas 12 deles realmente contava, mas foram milhares um dia. Tão grandes como as estrelas nos céus. Não sei o que aconteceu, assume-se, ao menos pelos livros, que eles foram exterminados, que nossos ancestrais os viram pelo mal que eram, os expulsaram das terras e os dizimaram por completo.
bufou baixinho, lançando um breve olhar na direção de Skad, antes de unir as sobrancelhas.
—— Suponha-se que eu acredite… —— ela começou a dizer hesitantemente, e Skad tentou não sorrir com a pequena esperança que pairou na voz dela. Ele poderia dizer a ela que conseguia trazer a lua e as estrelas para que ela usasse como jóias e talvez, ela acreditasse nisso; o problema era que Skad percebia-se, mais e mais, inclinado a realmente tentar fazê-lo. Inclinado a vagar por anos em busca de uma única estrela se isso a fizesse sorrir. O quão idiota estava tornando-se? E porque ele não conseguia impedir-se? —— A terra não era deles, antes? Quer dizer… se visse as pessoas que amo sendo mortas por estrangeiros, eu também ficaria furiosa… —— ela começou a dizer, contemplativa.
Skad uniu as sobrancelhas, lançando-lhe um olhar.
—— Mesmo se não fossem boas criaturas? Mesmo que fossem monstros que precisavam ser detidos?
suspirou pesado, sem encarar Skad. Saltou uma raiz com facilidade, antes de estender os braços em paralelo e atravessar um pequeno córrego transportando lascas de gelo em direção do deságue em um lago congelado um pouco mais ao sudoeste de onde estavam.
—— Você não pode culpar um animal ferido por morder sua mão depois de você o machucar —— ela murmurou, e Skad bufou, apertando os lábios. Sabia que ela estava certa, mas não era muito fã quando ela tornava-se aquela criatura silenciosa e contemplativa; parecia que ela se perdia em si mesma, que seguia por um caminho que Skad não podia acompanhar, um caminho que visivelmente a machucava.
—— Fala como se tivesse experiência.
—— Se como você diz, essas criaturas são realmente reais, o que duvido muito, o que significa? Eles são… —— ela desconversou. Skad estreitou os olhos, observando-a em silêncio por um momento. O incômodo pareceu espalhar-se por seu peito como veneno, ardendo em suas veias, mesmo que ele não soubesse dizer ao certo porque o fazia. Não era a relutância dela de contar-lhe o que quer que se passava em sua mente, era a culpa na voz que o perturbava. O que ela poderia estar escondendo? —— Não sei, soa como se fossem mortos-vivos. Mas isso é impossível.
Skad bufou, uma lufada de ar branco escapando por entre seus lábios, ao manter seus olhos fixos no tronco da árvore, seco e morto, que lhes servia como ponte de um lado para o outro. Pequenos estalidos da madeira ecoaram por seus ouvidos enquanto o rapaz atravessou, um pé à frente do outro, com a elegância de um fauno. Os olhos azuis gélidos como lagos congelados, fixando-se brevemente no caminho de cascalhos, lama e neve que abria-se em direção a trilha que levava ao pé da montanha. Árvores começavam a desaparecer agora, revelando mais campinas descampadas, pedras maiores afundadas na terra, e neve se estendia empalidecida sobre as planícies límpidas como um manto profuso. Guiavam-nas em direção a uma pequena cabana, feita de madeira maciça, cordas enegrecidas pelo tempo e desgaste, lama, musgo e pinhos.
—— Baba Yaga disse que eles eram criaturas amaldiçoadas, que essa terra, viva como é, os amaldiçoou rejeitando-os. Disse que era por isso que, mesmo com corações parados permanentemente, ainda vagam por aí, atraído pelo cheiro do sangue dos seus, esfomeados por carne —— Skad murmurou, saltando com graça do tronco, e então parando ao lado de . A jovem parecia estar um pouco mais alerta do que deveria, e Skad sentiu-se culpado por deixá-la em tal estado. Gostava sim de assustá-la, de provocá-la e fazê-la ficar com aquela expressão adorável que tinha quando estava irritada, mas não queria, de certa forma, a fazê-la temer aquele lugar. Não queria que ela temesse sua casa. Umedecer os lábios ressecados pelo vento invernal com a língua, antes de empurrar o ombro dela com o seu, oferecendo um sorriso tranquilizador. —— Eles não são um problema, a maioria deles, os Draugrs acabavam virando comida de Urso Polar, os poucos que escapam deles, e consegue se arrastar um pouco mais pelas floresta, costumam morrer congelados pelos rios. Sei que há alguns que ainda vagam Sob a Montanha, provavelmente presos dentro de pântanos ou coisa do tipo. Não fui lá para verificar, meu pai diz, que se ainda vagam por lá, provavelmente é sob a água, o que significa que estão dormentes.
—— Se estão dormentes —— murmurou, e Skad quase sorriu da expressão incomodada dela. —— significa que podem acordar.
Skad riu baixo, o som suave como o tilintar das folhas congeladas sob o toque do vento.
—— É apenas uma história boba, , uma forma de explicar porque Draugrs existem. Se for perguntar para Ivar, ele vai dizer que são só idiotas que tentaram invadir nosso território e que o gelo os amaldiçoou para viverem o fracasso por toda a eternidade —— Skad tentou tranquilizá-la, mas o cenho franzido de não sumiu. Ele apertou os lábios em uma linha, sentindo o impulso de passar o polegar no cenho franzido, até que este tivesse desaparecido. Ele exalou baixo, para si mesmo, contendo-se.
—— É por isso que vem aqui? Para ouvir histórias? —— murmurou por fim, acompanhando-o pela trilha íngreme agora de pedras e neve que se formavam ao pé da montanha. Skad considerou as palavras dela, estendendo sua mão para ajudá-la a subir a primeira pedra. Seus dedos enroscaram-se contra a pele macia do antebraço dela, sentindo os inúmeros relevos de cicatrizes que ela possuía espalhados pelo corpo. Skad já as havia visto, apenas as dos braços, mas ainda assim, não era uma visão confortável, e ele sempre havia se coçado para questioná-la como as havia adquirido, mas nunca havia lhe dado uma oportunidade.
—— Baba Yaga é uma bruxa, uma sacerdotisa se quiser chamar assim, é uma Vidente —— Skad explicou, voltando a caminhar. Apoiou as duas mãos contra uma pedra e então puxou-se para cima com um grunhido baixo, antes de sentar na superfície lisa e gélida da pedra, voltando a encarar um pouco abaixo de si. —— Faz parte da tradição. Antes de qualquer aniversário, alguns de nós gostam de vir aqui para questioná-la sobre algo. Temos um desejo, independentemente do que seja, às vezes, ela o realiza. Há sempre um preço para se pagar, mas não dá para dizer que importa muito, quando a recompensa é bem melhor.
apoiou os braços sobre a pedra ao lado de Skad, tentando alçar-se para cima, mas a falta de uma mão, a fez escorregar, caindo com um estrondo suave contra o chão. Skad abriu um sorriso largo, imaginou qual seria a reação dela, quando no próximo Solstício de Inverno, daqui a uma semana, ela descobrisse que ele havia conseguido uma prótese para auxiliá-la com o membro faltante. Era um segredo que vinha mantendo de todos, mesmo Lumia, mas podia imaginar que ao menos valeria a pena a surpresa.
—— Tá bem aí? —— Skad sorriu.
lançou-lhe um olhar, colocando-se de pé, limpando a parte traseira de suas calças.
—— Nem uma palavra —— ela ameaçou, antes de estender a mão na direção de Skad com uma expressão de poucos amigos, um pedido silencioso pairando por seu semblante defensivo. —— Por que então me trouxe aqui?
Skad, desta vez, não respondeu. Não queria que ela soubesse que, mais e mais ele começava a acreditar que ela era o segredo de sua sorte.

•••

BABA YAGA • CORTE INVERNAL

As chamas que crepitavam entre as lenhas levemente umedecidas pela tempestade que agora assolava as montanhas, ecoaram abaixo da estrutura de grade de ferro que suportava o bule feito de metal, de forma suave. Labaredas revoltas, protegidas do vento frio que soprava do lado de fora com veemente uivos, tocavam o metal, manchando-o, obscurecendo-o a cada crepitar um pouco mais ousado. O chiado da pressão interna que o bule começava a acumular, ecoou pela cabana, mas nada fez a criatura. Permaneceu sentada, onde estava, os dedos longos e tortos, com unhas afiadas e amareladas, revelavam a transição perturbadora de suas pontas completamente obscurecidas pela decomposição para o amarelado do envelhecimento. Os olhos, queimados, para serem mantidos fechados, oscilavam com o movimento inquieto por baixo das pálpebras, embora seu rosto permanecesse neutro, desprovido de emoções. O aroma carregado de ervas e sangue que encontrava nas paredes da cabana, agora era carregado por uma nota de inverno, e algo mais. Flores e frutas silvestres, terra molhada e algo selvagem.
Passos suaves, abafados e cuidadosos ecoaram pela cabana silenciosa, acompanhando o rangido suave da cadeira de balanço feita de madeira esculpida. De onde tocavam, um pequeno amontoado de flores e relva se projetavam, antes de apodrecerem no passo seguinte, deixando marcas por onde arrastava-se. Os chifres, retorcidos, como a galhada de um cervo, enroscaram-se contra as contas presas em forma de cortina entre os cômodos, tilintando com o movimento inesperado, arranhando a madeira das paredes, quebrando-as e fazendo-as desabar ao chão como uma chuva audível. As flechas presas na aljava em suas costas tilintavam suavemente quando uma foi puxada, e enroscada no arco feito de cedro e um metal escuro, preto, como a própria noite. Olhos intensos, cintilando com o mesmo brilho que as estrelas, desviaram-se do chão para focar na criatura sentada pacificamente na cadeira de balanço, trançando as teias de aranha com pétalas de begônias.
—— Chegou cedo, irmão, está de certo ansioso, huh? —— a risada rouca, baixa da criatura ecoou pelo espaço como unhas raspando em uma pedra. Ruído perturbador, afiado, evidenciava a falta de uso da boca apodrecida, escura como a noite, e dos dentes afiados como agulhas pequenas. Inúmeros deles surgiram quando a criatura abriu um sorriso largo, satisfeito, sem virar seu rosto na direção do invasor. —— Ou distorceu a verdade para que seu senhor não percebesse que está aqui? Servo safadinho, safadinho —— a risada rouca pulsou como eletricidade pelo espaço, afiado, perigoso.
O invasor não respondeu, apenas empunhou a flecha com mais precisão. Puxou a corda para trás, as penas na ponta da flecha, misturadas com os amuletos ancestrais da magia que pulsava, viva e indomada por baixo daquelas terras, arranhando a lateral de sua bochecha, deixando pequenas marcas sob a pele coberta por sardas brilhantes, feitas por luz. Cintilavam contra a pele como um mar de estrelas minúsculas, oscilando conforme a magia percorria seu corpo.
—— O que quer hoje? Uma profecia? Uma mentira? Diga-me, Lyall, se vã esperança ainda persiste, a coroa dos tolos pesa sob sua cabeça? —— a criatura soltou um riso nasalado, cheio de dentes, traiçoeira. Os cabelos esbranquiçados, quebradiços e longos, farfalhar como palha velha, e debaixo do manto esbranquiçado, víboras, agitaram-se, deslizando por sua nuca, entrelaçando-se por seus braços. —— Tsc, tsc, apontando sua flecha contra mim a que espera resultado? —— a criatura enrolou os fios em seus dedos putrefatos vagarosamente, a carne desprovida de sangue, parecendo amassar como papel onde a pressão do fio fazia-se. —— Não tenho alma, caçador, para que a tome, não tenho consciência para que a prenda. Se busca uma barganha, até posso oferecer-lhe, sabe o meu preço.
Mais uma vez, não houve resposta do invasor. Os olhos estelares fixaram-se, firmes, no semblante da criatura, imóvel. Por trás do osso que o crânio preso em sua face, os olhos queimaram com intensidade. Moveu o braço para a direita, abruptamente, soltando a flecha no segundo que a cobra lançou-se em sua direção; presas afiadas escorrendo veneno, desabou, contorcendo-se contra o chão. Não morreu, não sangrou, se algo que fizera, foi desfazer-se em um limbo entre cinzas e vermes, debatendo-se sem parar. Agonizando permanentemente. Nem viva, nem morta.
—— Servo espertinho —— riu a criatura, outra vez, cortando o fio entrelaçado de teias com suas unhas afiadas. Inclinou-se para frente, agora com o rosto retorcido e brutalizado voltada para o invasor. —— A flecha não muda o curso do rio, mas tem minha atenção por tentar. Diga logo, trouxe o que peço?
Houve um silêncio sepulcral que se estendeu sobre o ombro das duas criaturas, ao encararem-se. Estendeu-se como garras afiadas, espiralando por cada centímetro de madeira que envolvia a cabana. Acompanhado do vento, as chamas se apagaram, o único ruído presente, o do bule. O invasor lançou um olhar breve na direção de onde o objeto de metal estava, os pedaços de ossos, e órgãos espalhados em amarrações específicas, e com marcas talhadas. Escritos antigos, magia profunda, relatavam uma porta. Tencionando a mandíbula com um estalo, rígido como uma estátua, alçou da lateral do cinto, o órgão ainda pulsante, espasmódico entre suas garras, sangue escorria, deslizando por seu antebraço estendido, pingando, ritmadamente contra a madeira abaixo de seus pés, inundando-lhe a mão. Estendeu na direção da velha, como uma oferenda silenciosa.
—— Do General Noturno —— a voz abafada do invasor reverberou pelas paredes da cabana, baixa e arrastada, perigosa, um sotaque estranho pungente tornava as palavras mais arrastada, ou, talvez, fosse apenas a máscara que a abafava. Derrubou o coração pulsante nas mãos da criatura, que o recebeu como a quem ganhava tamanha preciosidade imensurável. O sorriso alargou-se, rasgando a pele ao redor de sua boca putrefata, exibindo mais uma camada de dentes afiados como agulhas, próximo de suas orelhas pontudas.
—— E o que você deseja, meu senhor? —— indagou a velha feiticeira.







EMHYR • CORTE NOTURNA

Suor, cálido e pegajoso, escorreu pela lateral de seu rosto, deslizando pela pele retalhada, misturando-se com o sangue de seus ferimentos abertos. O sal no líquido tornou a machucar a pele sensível, os ferimentos abertos retumbando em ritmo similar ao de seu coração, irregular, doloroso, vagarosamente pingando de seu queixo, da ponta de seu nariz, tornando a manchar o chão abaixo de si. Contorcia-se ao deslizar por entre os entremeios do assoalho de madeira, criando padrões abstratos; nem espesso como sangue, nem invisível com a água de seu suor. Emhyr tampouco parecia registrar qualquer coisa que não fosse a memória vivida, entalhada em sua mente de poucas horas atrás.
Em seu peito, vazio causticante, formava-se como um devaneio; hora real, hora distante, surrealista demais para que compreendesse de certo a extensão do problema que havia acabado de presenciar. Seu coração parecia estar inchado, martelando contra a caixa torácica, violentamente, uma presa enjaulada sem escapatória. Os músculos, doloridos, tremiam, espasmódicos, congelados no momento. As mãos agarravam seus cabelos com tamanha firmeza que empalidecia seus nós dos dedos, a respiração soava pesada para o próprio ouvido, os olhos permaneciam fixos no vazio. Tremores aumentaram, mas sua mente ainda estava presa nas Montanhas Illyrianas. Abafado, como se de repente, debaixo d’água, Emhyr podia ouvir o eco silencioso de botas contra o assoalho, movendo-se em sua direção. Sua traqueia contraiu-se, como se um nó começasse a se formar ali, crescendo exponencialmente. Já não mais sentia quando as pesadas lágrimas que inundavam seus olhos, caíram de sua face.
Não ouviu nada, não percebeu ninguém. Tudo o que conseguia pensar, naquele momento, era na figura aterrorizante que projetou-se para fora das árvores; precipitou-se para frente, o tronco alongado, espasmódico, a cabeça estalando com cada movimento, como galhos sendo quebrados no mínimo peso colocado, empunhando chifres como os de um certo. Cheirava a flores silvestres e petrichor, e quando seus pés, descalços, encobertos pelo o que parecia ser lama e sangue, talvez até mesmo uma mistura de piche, tocavam o chão, não importava sob superfície que fosse, flores silvestres e relva pareciam nascer, desabrochando por entre os dedos de seus pés, as garras afiadas como as de lobos enterrando-se com mais força sob o solo abaixo de si, para que, imediatamente morressem no segundo seguinte em que seus pés deixassem de tocar a terra abaixo. As flores se entortaram, a relva murchou até que estivesse completamente apodrecida; apenas uma mancha que marcara sua presença ali. Mas a parte mais aterrorizante era o rosto da criatura: por baixo do crânio que adornava a parte superior de sua face, exposto e esbranquiçado, haviam olhos pálidos intensos, a tonalidade cinza era substituída por um brilho intenso, uma luz que parecia ser culminada de dentro de si, escapando por seus poros como energia pura. Uma estrela, queimando dentro de seu corpo, contida, mas não menos mortal. Os cabelos, longos e esvoaçantes, pendiam por suas costas até a altura de sua cintura, com fios de luz enroscando-se por entre as mechas, contas antigas e enferrujadas permaneciam presas em pequenas tranças que enroscavam-se por entre as orelhas pontudas e pelos chifres. Uma aljava pesada pendia por seu ombro esquerdo, e a mão direita, cujas garras permaneciam retorcidas, enroscava-se em um arco longo e escuro, como se o material usado para sua criação tivesse sido a própria escuridão.
Lembraram vagamente ao mármore que permeava as paredes da Cidade Escavada; o lar dos pesadelos. Ainda que fosse algo impossível, Emhyr havia considerado, por uma fração de segundos, movido pelo desespero enlouquecido da morte iminente projetando-se à sua frente, que talvez, algo pior tivesse ocultado debaixo das montanhas. Que talvez aquele monstro que havia surgido por entre as árvores tivesse muito mais relação com os monstros que vagavam Sob a Montanha e por entre as Montanhas Illyrianas, em algum ponto abaixo da terra, do que qualquer criatura natural daquelas terras. Mas quaisquer que fossem seus pensamentos, estes desapareceram por completo quando a criatura gritou. Ruído visceral escapara de sua garganta, não como um brado de guerra, mas como o agonizar de um espectro. Reverberou por seus ossos, como um toque fantasma, enredou-se, afiado tal qual espinhos em sua pele, penetrando-a e deformando-a, fizera os músculos se contrair como ferro, a dor espalhar-se, amortecida, com a promessa silenciosa que apenas sangue e violência eram capazes de compreender. Presas afiadas projetavam-se para fora de seus lábios retorcidos e ressecados, como um monstro aprisionado em um corpo humanoide pronto para ser libertado; levara a mão em direção ao rosto, puxou a corda do arco para trás, a madeira de freixo empalidecida, cintilando sob a penumbra da luz noturna, voltada em direção aos dois Illyrianos.
Não houve tempo para reagir. Quando Emhyr de fato percebeu a ponta afiada de ferro do objeto voltado em sua direção, pouco pudera fazer se não recepcionar o golpe com violência. A flecha atravessou o ar com um zunido alto, um flash de colorações abstratas que não tardou a enterrar-se com violência na falange da asa esquerda de Emhyr. O golpe rasgara a membrana sensível de sua asa, criando um buraco. O rapaz desabou com violência no chão, o grito abafado pelo chamado de Cassian. O pai gritara por seu nome, com um rugido visceral, antes de alçar sua espada. Girou-a no ar com um arco elegante, preciso, deixando-se pousar com força contra o solo irregular, seus sifões acionados. Emhyr, por sua vez, atingiu com violência o chão; rolou por um pequeno desfiladeiro entre as árvores e pedregulhos soltos que compunham o solo estéril das montanhas, antes de chocar-se contra um tronco morto. A princípio apenas desorientação lhe fez companhia.
Dor espalhou-se de forma letárgica, pulsando por seu corpo, amortecendo o que ainda estava em funcionamento. Sangue escorreu por entre as membranas e ossos de sua asa ferida, os músculos tremeram, contraindo-se, esticando sob a pele por instinto, tentando encontrar uma forma de normalizar-se, ao menos estabilizar-se, com o equilíbrio prejudicado, mas de nada adiantou. Sentiu como se parte de suas asas estivessem em chamas, enquanto pedregulhos do solo estéril das montanhas fincavam-se em sua pele, cortando-a, superficialmente o rosto, grudando ao uniforme. Piscou algumas vezes, tentando recobrar seu foco, mas seus olhos estavam enevoados. Obrigou-se a colocar-se de pé alçando as duas espadas curvas que tinha presas em suas costas, a tempo de observar seu pai ser bloqueado pela criatura. O tempo pareceu desacelerar ao redor de si, estendendo-se como uma malha flexível igualmente grossa, pairando sobre seus ombros como chumbo, empurrando-o para baixo em queda livre. Um estalo ecoou por seu ouvido esquerdo, e então, de repente, parecia estar debaixo d’água; o som parecia chegar atrasado, abafado em seus ouvidos, desconexo, acompanhados apenas pelo martelar frenético de sua pulsação, sua carótida latejava contra a pele de seu pescoço, mais acentuado do que deveria, sentiu os cascalhos presos em sua pele, deslocando-se e desabando ao chão ao seu redor, o calor do sangue escorrendo pela lateral de seu rosto, empapando seus cabelos, grudando-os contra a pele umedecida pelo ar gélido das montanhas; podia sentir o cheiro pungente e metálico do próprio sangue, mesmo o sabor amargo e levemente árido da terra que lhe invadira os lábios. Um tremor percorreu seu corpo, o coração martelando, intenso contra seu peito, pareceu congelar no lugar quando seus olhos encontraram-se brevemente com a criatura. Um grito irrompeu por seu peito, o desespero para alcançar o pai, tornou-o errático.
Foi o pior erro que poderia ter cometido.
De repente as lições do pai, dos tios, e de inúmeros outros mestres na arte de combate que havia passado tempo ensinando-lhe as táticas, corrigindo sua postura, ensinando-o a como estudar os golpes e como impedi-los de feri-lo seriamente, assegurando-se da efetividade em combate que Emhyr passara anos treinando e melhorando para ter, foi completamente abandonada. Esquecida, como poeira arrastada ao vento. Nunca estivera sequer ali. Do buraco que jazia ao centro de seu peito, formou-se a tempestade que engoliu quaisquer resquícios de racionalidade. Desabrochou com o desespero latente, a necessidade de alcançar Cassian antes que a criatura pudesse encontrar um ponto fraco para destruí-lo; não percebeu o quão mais lento era, o quão mais despreparado e vulnerável encontrava-se. Não percebeu sequer como o movimento que fizera, avançando para alcançar o pai havia o tirado do foco instintivo com o combate em mãos. O foco de Cassian desapareceu, permeado pelo medo e a preocupação, desvirtuou-se da criatura que avançava em sua direção, para voltar-se na direção do filho adotivo.
O grito borbulhou por seu peito projetando-se por sua garganta, mas nunca deixou seus lábios. A criatura acertou um golpe preciso na altura do peito de Cassian, lançando-o para trás com violência. Emhyr gritou, o rosnado enfurecido, quase enlouquecido, errático pelo medo e a ameaça iminente, reverberou por sua garganta, como o bradar de uma guerra, cortante, ao girar sua espada e desenhar um arco pelo ar, tentando acertar de forma precisa o braço do monstro. Mas Emhyr era mais lento. A criatura com chifres de cervo, lançou-se graciosamente para a esquerda, girando como uma brisa suave de inverno, carregada pelo aroma de terra molhada e floresta, desviando do golpe de Emhyr, ao mesmo tempo que retirava outra flecha de sua aljava, preparando-se para enrosca-la em seu arco.
A espada de Emhyr atravessou o braço da criatura com um choque metálico que reverberou pelo espaço. Um grito animalesco, monstruoso escapou por entre os dentes cerrados da criatura e com um espasmo muscular, lançou a cabeça para a esquerda, tentando acertar Emhyr. As galhadas, afiadas, cortaram-lhe o rosto, fincaram-se em seu flanco direito, profundo o suficiente para arrancar sangue, mas não o suficiente para matá-lo, de fato. Arrastou-se para trás, tentando soltar-se da carne que estava presa, aumentando o ferimento, e fazendo Emhyr ser cegado pela dor lancinante que percorreu seu corpo.
Emhyr agarrou com força a ossada, tentando empurrá-la para trás. Agitou as asas, os cascalhos da terra estéril abaixo de si agitaram-se com a deslocação abrupta de vento, tentando alçar-se um pouco para cima, antes chutar o peito da criatura com toda a força que tinha. Emhyr desabou no chão com um grunhido de dor, enquanto o monstro cambaleou para trás. Os olhos fissurados em Emhyr; uma promessa violenta pairando por eles. Emhyr lançou-se para a esquerda, tentando obrigar-se a ficar de pé, com tempo o suficiente para apenas bloquear uma nova investida da criatura. Emhyr usou seu antebraço esquerdo, no momento que a criatura tentou fincar uma de suas flechas no olho do illyriano. A madeira de freixo queimou a pele do jovem, o sangue escorreu por entre os músculos tensionados revestidos por sua armadura, a dor explodiu por sua mente amortecendo tudo. Mas foi os olhos da criatura que o fizera pausar.
Lembravam os de Nyx.
Escuros como a noite, obscurecendo toda a órbita até que apenas restasse-lhe um buraco vazio encarando-o de volta. Eram os mesmos olhos que Nyx tinha na noite em que ele havia matado Mav, quando o tocara por instinto e o menino desapareceu como poeira; quando os dois perceberam o que Nyx havia se tornado. O mesmo semblante pétreo e violento, silencioso como o de um predador. Emhyr havia engolido em seco, em choque com a percepção que apresentava-se agora, questionando-se o que diabos eles haviam encontrado, quando, sem mesmo perceber, deixou sua guarda baixar. Choque foi tamanho que Emhyr não percebeu que o pai estava em cima da criatura até tê-lo visto enterrar a espada no peito do monstro com galhadas. Cassian rugiu alguma coisa que Emhyr não conseguiu entender na hora, mas que, agora, percebera o que era: “corra”; o pai chutou-o com a perna esquerda, tentando lançá-lo para longe do confronto, quando a criatura voltou-se novamente para Cassian.
Emhyr tropeçou em suas pernas, desabando bruscamente contra o chão, o grito, preso na garganta, morreu abruptamente quando os olhos registraram as garras do monstro fincarem-se no rosto de Cassian. Cassian rugiu outra vez, como um animal selvagem enlouquecido pelo próprio instinto, mas o que aconteceu depois foi apenas um borrão inteligível de movimentos. Cassian decepou a mandíbula da criatura, que desabou no chão em uma poça sangrenta, nojenta, chutou o abdômen do monstro que cambaleou um pouco para trás, arrancando por consequência a espada enterrada no peito, e então, girou preparando-se para cortar-se o tronco ao meio. A mão da criatura enterrou-se no peito de Cassian.
Por um momento Emhyr teve certeza de que aquele seria o fim. O choque transcrito em sua face pareceu apenas empalidecer ainda mais sob a penumbra da lua, os olhos arregalados fixos na cena, ao tentar forçar-se a mover outra vez; Emhyr estava congelado. A princípio, Cassian não pareceu perceber o ferimento, tentando manter o aperto na base da espada, ainda girando-a na direção da criatura, mas então, suas mãos fraquejaram. O tilintar da lâmina atingindo o chão havia sido alto, perigosamente perturbador quando atingiu os ouvidos de Emhyr que a tudo apenas assistiu. As garras da criatura envolveram o coração de Cassian, o olhar mortal fixo no semblante contorcido pela dor e pelo choque do General da Corte Noturna. Presas afiadas projetavam-se para fora de seu crânio agora pela metade, como um monstro aprisionado em um corpo humanoide cuja nem mesmo morte parecia aceitar de fato. Então, com um puxão abrupto, arrasou do peito de Cassian, seu coração.
Emhyr gritou, ou ao menos, tivera a sensação de que havia gritado, mas não sentiu nada, não ouviu nada. Tudo pareceu estar amortecido, envolto por uma penumbra sufocante focalizada apenas no corpo do pai desabando para trás. Não houve sangue, todavia, o buraco que abriu-se no peito de Cassian era apenas um amontoado de sombras que corroía a armadura, a pele abaixo do tecido protetor de seu pai, como uma mancha profunda; nas mãos do monstro, o coração de seu pai, ainda batia.
—— Am fear a bhios air dheireadh beiridh a’ bhiast air¹ —— a criatura havia rosnado, o sussurro do monstro ecoou pelos ouvidos de Emhyr mesmo após ter percebido-se de volta em casa. Mesmo naquele maldito quarto apertado, sufocante.
Cassian não havia tido sequer uma chance.
Ainda mais nojento era a percepção de que Emhyr havia cometido o maior erro de sua vida ao perder o controle de si. Sentiu a inutilidade de todos aqueles anos, treinando, preparando-se para enfrentar um inimigo invisível, cultivando a frieza que lhe fora ensinada durante um combate havia sido completamente esquecida no momento em que Emhyr viu o pai tornar-se alvo. Isso havia lhe custado tudo. Emhyr ainda não havia falado com Nestha; não tinha coragem de encarar a mulher que havia o aceitado em sua mesa, tratando-o como filho e um dos seus e contar a ela que se Cassian agora estava em algum tipo de estado entre a vida e a morte, com tia Amren analisando o ferimento ao ponto da exaustão, era culpa inteiramente dele. Como poderia encarar a mãe e pedir-lhe perdão? Emhyr sabia que o laço de parceria tendia a criar uma conexão para além da compreensão comum, eram como uma alma dividida em dois corpos; não era apenas para reprodução. Sabia que ela provavelmente deveria ter sentido algo no momento que a criatura arrancou o coração do pai, sabia que aquilo a assombraria pelo resto da vida; certamente assombraria a dele. A única coisa que ele conseguiu fazer foi arrastar-se até seu quarto, e lutar contra as lágrimas, tentando compreender a extensão do problema em que eles se encontravam agora.
O que era aquela criatura, e qual sua conexão com Nyx? Nyx havia se tornado como eles? Demoraria mais quanto tempo até que fosse a mesma coisa? E o que quisera dizer para Emhyr? Um arrepio percorreu por sua coluna, enviando uma onda nauseante de adrenalina e terror por baixo da pele ferida do illyriano.
—— Não precisa falar se não conseguir —— a voz de Rhysand alcançou seus ouvidos mais gentil do que jamais lembrara de ter ouvido. Emhyr não respondeu, mas as lágrimas que acumularam-se em seus olhos, ameaçavam escorrer por sua face, queimaram, presas, em sua garganta, como se de repente, vinhas que ameaçavam sufocá-lo, amortecidas demais para percepção imediata; desistente demais para importar-se. Os passos do tio ecoaram pelo quarto, vago e distante, mesmo para os ouvidos de Emhyr que não moveu um músculo sequer para encará-lo. A vergonha era mais forte do que o desespero pelo consolo oferecido. —— Mas estou aqui, caso queira. Quando quiser falar.
Emhyr fez uma careta, engasgando-se com sua própria respiração. Fechou os olhos, escolhendo ocultar qualquer visão que pudesse ter a encarar o tio. Rhysand, exalou baixo, parando ao lado de Emhyr, e então sentando-se ali. Por um longo momento, o silêncio se estendeu ao redor deles, permeado apenas pelo pequeno tilintar distante dos galhos batendo contra o vidro da janela de seu quarto. Sentiu a mão cálida de seu tio repousar em seu ombro esquerdo, uma pequena pressão que pareceu apenas aumentar o peso que o puxava para baixo, que o sufocava tão facilmente.
—— É minha… —— Emhyr soluçou após um longo momento em silêncio. Engasgou-se com o peso das palavras, soluçou alto, tremeu sob o frio do vazio que agora o consumia, encolheu-se como quem desejava apenas desaparecer. Pesado manto era a culpa que tão deliberadamente vestiu. As lágrimas escorreram por sua face, esvaindo-se com mais fluidez do que suas palavras. —— É minha… culpa… se…
Rhysand não respondeu de imediato, parecendo estar escolhendo as palavras certas, mas quando o fez, encarava diretamente o rosto de Emhyr, buscando seu olhar.
—— Acredita mesmo que possuí culpa nisso? —— Rhysand questionou com um tom categórico, cauteloso demais para ser reconfortante, cínico demais para lhe revelar o que de fato estava pensando. Então, com um suspiro pesado, Rhysand soltou o ombro de Emhyr, se permitindo recostar-se contra a lateral da cama que outrora pertencera a Emhyr. —— Sempre achei estranho como vocês dois se parecem, mas sendo quem somos não posso dizer que é uma surpresa. Às vezes, nós mesmos encontramos nossas famílias, nossas peças complementares —— Rhysand resmungou com um tom de voz baixo, grave, parecendo perdido entre seus próprios pensamentos e uma tentativa envergonhada de consolar o rapaz inconsolável. Emhyr engoliu em seco, obrigando-se a controlar o choro, tentando parecer tão imponente quanto via o pai e os tios apresentarem-se, tentando dominar a dor e a culpa que o sufocavam, antes de lançar um olhar de soslaio para o tio, incapaz de dizer alguma coisa. —— Você já era filho deles antes mesmo de o encontrarmos, porquê escolher justamente agora carregar a culpa de algo que Cassian teria feito, com ou sem você lá? Se é para punir a si mesmo, Emhyr, do que isso irá ajudá-lo?
Emhyr não respondeu, apenas encarou o tio por um momento.
Rhysand sempre havia sido considerado um dos machos mais bonitos de Prythian. Emhyr costumava a fazer piada e debochar de Nyx por isso, porque ambos eram parecidos e apelidar Nyx nunca fora algo difícil —— especialmente quando Nyx ficava com raiva, o apelido acabava por gerar ainda mais rápido. Mas agora, parecia estranhamente mais velho, mais cansado. Linhas se formavam nos cantos de seus olhos e sobre o cenho, Emhyr se questionou se era de tanto franzi-lo com preocupação pelo filho pródigo que havia ficado assim. Os cantos dos lábios pareciam ter uma propensão para repuxarem para baixo e os olhos violetas pareciam estar sempre cobertos com uma sombra; algo o assombrava, algo que ninguém parecia saber se não tia Feyre. Emhyr perguntou se o que diabos seria, e se isso ainda era sobre Nyx, ou se havia se tornado algo mais.
—— Você não estava lá… você não viu… —— Emhyr tentou argumentar, justificar seu próprio desprezo por si mesmo, a própria vergonha de uma forma que o fizesse compreender sua indignidade, mas Rhysand apenas o silenciou com um olhar. Emhyr moveu sua mandíbula, tentando engolir seus argumentos. Uniu as sobrancelhas e voltou a encarar suas mãos com uma ponta de temerosidade que não lhe era característica desde que havia se tornado um rapaz. —— O que diabos era aquilo, tio?
Rhysand não respondeu. Emhyr percebeu de imediato que Rhysand sabia exatamente o que aquela criatura era, mas não lhe contaria. Ao menos, não ainda.
—— Meu pai… ele vai…? —— Emhyr forçou-se a perguntar, sentindo seu coração ficar do tamanho de uma nós, contraído e dolorido, enquanto por um momento, prendia a respiração, esperando pela resposta. Os olhos queimaram com um desespero crescente, permeado pela culpa e desalento. —— Aurora já sabe…?
—— Não sabemos, eu sinto muito, Emhyr —— Rhysand respondeu com um tom de voz mais baixo, cauteloso, encarando Emhyr por um longo momento antes de suspirar pesado. —— Amren acabou de enviar uma mensagem para Azriel, irá pedir para que retornem assim que conseguirem, um assunto urgente. Uma vez que todos estiverem aqui, nós iremos encontrar uma solução para esse problema, isso eu posso prometer a você, mas por hora, Nestha gostaria que você fosse ficar com ela, quer ter certeza de que você está seguro também…
—— Temos problemas, Rhysand! —— A voz de Amren interrompeu Rhysand abruptamente. Ecoou baixa, mas ainda assim comandou atenção, como sempre. Os olhos prateados da feérica pequena desviaram-se por um momento, repousando em Emhyr, e o rapaz sentiu-se envergonhado pelo estado que encontrava-se; o rosto manchado pelas lágrimas e a culpa, o corpo encurvado como uma criança em desalento, quando a verões já era um adulto, altivo e capaz. Agradeceu mentalmente por Amren ao menos não encará-lo como se ele fosse um coitado, por ela não tentar consolá-lo, não sentia-se mais digno de tal dádiva; havia ainda assim compreensão nos olhos da fêmea, mas não era envolto por auto indulgência ou pesar, era o olhar de um comandante ao reconhecer a quebra de seu guerreiro, mas que ainda assim comandava a força necessária para continuar seguindo em frente. Desejou sair como uma tempestade para fora de seu quarto, mas conteve-se; não por seu ego fragmentado, por sua culpa e pesar, mas pela maneira com que Amren havia desviado os olhos, encarando Rhysand diretamente.
Emhyr nunca havia entendido com exatidão como funcionavam os poderes de Daemati do tio, sabia que ele, Feyre e mesmo Nyx os possuíam. Uma habilidade perigosa e poderosa que poderia quebrar alguém completamente se eles assim desejassem, é claro, exigia prática, mas a ideia de uma comunicação vinda inteiramente de sua mente, era suficientemente desconfortável para Emhyr sentir-se estranhamente vulnerável. Viu Amren estreitar os olhos, em silêncio, e o rosto de Rhysand contorcer-se; onde outrora havia aquela compreensão e gentileza quase ensaiada para consolar Emhyr, agora havia o princípio de uma fúria cálida e perigosa. Era como observar uma pequena fagulha começando a incendiar a lenha, ainda era pequena, mas não demoraria muito para que se tornasse um fogaréu. A sombra que projetava-se nos olhos violetas do tio pareceram aumentar, a mandíbula dele se tensionou com um estalo.
—— Tragam-no para casa, agora! —— praguejou Rhysand de súbito, e Emhyr não teve que se esforçar muito para adivinhar a quem seu tio referia-se. Nyx, é claro. Quem mais poderia ser? O tom de Rhysand assumia aquele tom de frustração, permeado por dor, culpa e preocupação profunda sempre que se referia ao filho, e somente quando era algo sobre o filho. Emhyr sentiu a tensão voltar a espalhar-se por seu corpo, colocando-se de pé em um momento. As sobrancelhas unidas, indo para o tio e então para Amren e então de volta para o tio.
—— O que aconteceu? O que Nyx fez dessa vez? —— Perguntou Emhyr com um pequeno pesar em sua consciência. Fizera tudo tão errado assim? Quando Nyx havia pedido para trocar de lugar na incursão, Emhyr havia acreditado que o fizera apenas pelo despeito de ficar longe da família ou de ter que elaborar o que realmente estava se passando em sua mente com Cassian. De todos ali, era Cassian quem sempre conseguia quebrar Nyx, mesmo que precisasse usar força bruta para isso, Emhyr não havia pensado que poderia ter algo por trás. Mas então, lembrou-se da expressão do melhor amigo, a maneira com que seu rosto pareceu perder-se em pensamentos e então, subitamente iluminou-se com aquela ideia. Pela mãe, o que ele havia feito? Se algo tivesse acontecido, se Aurora estivesse em perigo… —— Responda! —— Apertou Emhyr, quase desesperado, sem ocultar a impaciência que começava a crescer em seu peito.
—— Houve um incidente na Corte Invernal —— foi Amren quem disse, sua voz mais fria e irritadiça do que Emhyr já havia a visto expressar. Aquilo não era bom. Nem um pouco bom. Emhyr uniu as sobrancelhas, questionando-se o quão idiota poderia ter sido por confiar em Nyx, o quão estúpido era por ter aceitado a troca; teria ele condenado não apenas o pai, mas igualmente a jovem que…? —— Nyx pode ter acabado de começar uma guerra entre nossas cortes.

•••

NYXCORTE INVERNAL

Nyx ofegou. Os dedos apertaram-se com um pouco mais de força ao redor da frente da roupa umedecida e manchada de sangue de ; olhos arregalados, voltavam-se na direção das criaturas que projetavam-se por entre a árvores congeladas, arrastando-se como espectros, aproximando-se mais e mais de onde estava, para então fixar no rosto empalidecido da jovem. Em algum momento, ela havia parado de responder, sequer parecia estar respirando; isso piorou tudo. Ele sabia que deveria estar satisfeito, e uma parte de si gritava para que ele simplesmente a deixasse para trás. Gritava para que corresse para longe, seguiria pela margem do lago até conseguir encontrar um espaço para limpar o sangue de suas mãos, de suas roupas, e então, deveria seguir de volta para casa. Poderia criar uma desculpa qualquer, justificar sua ausência, poderia dizer a tio Azriel que ele havia se perdido da garota, que depois que havia caído na água foram separados pela brutalidade da correnteza e pouco poderia saber o que havia acontecido com ela. Poderia encontrar uma forma convincente para manter sua palavra, projetar falsas provas, poderia até mesmo usar de seus poderes como Daemati para distorcer memórias se fosse necessário. Nyx podia escapar daquilo ileso, e talvez, o tivesse feito; era nada mais do que um verme, a precursora da maldição que havia o aprisionado naquela forma, que havia o feito perder tudo e condenado a lidar com monstros que os cercavam pelas sombras. Ela merecia a morte! Merecia morrer e ainda não pagaria sequer por metade de tudo que havia lhe feito passar.
Ele a queria morta. A quisera morta por tanto tempo que a memória havia tornado-se difusa e distante, um sopro invisível por trás da mente em tormento. Mas ele não era um assassino. Não sem uma razão, não sem uma motivação, não sem ser a última escolha, o último recurso. Ele nunca havia matado de fato alguém; lutara, é claro, e até mesmo caçara criaturas ao lado dos membros da Caçada Selvagem de Arwan, mas ele nunca havia assistido a efemeridade da vida de um desconhecido lentamente desaparecer de seus olhos, nunca havia visto de perto a palidez grotesca da pele começar a aumentar, e nunca havia sido banhado em tanto sangue. Sequer pudera imaginar que alguém do tamanho dela, de sua forma, poderia ter tanto sangue assim.
Talvez, percebeu com uma ponta de assombro, ele não a quisesse matar; talvez, ele desejasse que fosse morta, mas que seu sangue não lhe manchasse as mãos. Ou talvez, fosse aquele maldito impulso doloroso que espalhava-se agora por seu peito, como uma linha sendo tensionada ao ponto de ruptura. Enroscava-se ao redor de seu coração, esmagando-lhe, como se estivesse sendo arrastado para longe, e de alguma forma, podia senti-lo preso a ela; dourado, desvanecendo. E Nyx odiou o sentimento, a conexão, mas mais do que isso, desesperou-se por perdê-la. Porque em algum momento, a corda se partiu, e tudo o que ele sentiu foi apenas um vazio desesperador consumindo o que restara de sua alma. Seu coração martelou de forma furiosa contra seu peito, os dedos, trêmulos agarraram a frente da blusa dela, rasgando para expor o tronco, com um único propósito de fechar o ferimento. Seus ouvidos pareciam amortecidos ao som de seu próprio pulsar, e sua respiração, errática, o fizera engasgar-se, ainda tentando compreender a dimensão do que havia feito.
Fuja, praguejava para si mesmo, fuja antes que descubram, antes que a encontrem. Destrua o corpo, finja que ela se afogou e que as criaturas daquele lugar a devoraram; não conseguia. Em um gesto desesperado, levou o punho da camisa em direção a boca, ignorando o gosto pungente do sangue dela quando sua língua quase tocou o tecido, a repulsa imediata amortecida pelo senso de urgência. Fincou os dentes no material e o rasgou com um puxar de sua cabeça; não percebeu o erro que havia cometido até que seus dedos enroscaram-se no tecido, desesperado para enrolá-lo e usá-lo como um curativo improvisado que obrigaria o sangue estancar pela pressão. Uma fração de segundos foi o que bastou para que o tecido se desfizesse em poeira; quando Nyx estendeu o tecido na direção do ferimento, já havia desaparecido por completo. Nyx grunhiu entre dentes, percebendo tardiamente que não conseguia tocar em nada sem que o desintegrasse. Sua pulsação aumentou drasticamente, o martelar tornou-se visceral, espalhando-se como ondas de choque, contínuo por seu corpo, enquanto a urgência lentamente transformava-se em uma contrição em seu peito.
A respiração tornou-se mais irregular, a garganta parecia ficar mais e mais seca, a cada vez que sua respiração escapava por entre seus lábios entreabertos, audível, uma lufada de ar áspero que mal poderia controlar velocidade. Os olhos lacrimejavam com a fumaça esbranquiçada que seu hálito tornava-se, a pele ardia com o vento gélido que o tocava. A pressão esmagadora em seu peito pareceu aumentar, dolorosa, visceral, projetava-se sobre si como um amontoado de pedras, esmagando-o contra o chão; voltou-se ao redor, buscando por pedras, algo que pudesse dar início a um fogaréu, ainda que fosse apenas para manter a criaturas que se aproximava-se de onde estavam, mas os dedos mal tocavam nas pedras, nos galhos, nos filetes de grama congelado, e tudo tornava-se cinzas. Seu estômago contorceu-se ao perceber que não poderia tocar em nada. Voltou a linha de seu olhar na direção do rosto empalidecido da jovem, e por impulso tocou na face dela, esperando que esta dissolvesse-se nas cinzas como Mav havia feito a muito tempo atrás.
Uma onda elétrica percorreu por seu braço como estática, pareceu queimar estalando sob a pele, arrepiando os pelos de seus braços. Seu fôlego lhe foi tomado, os olhos, arregalados, permaneceram fixos no rosto dela, ao perceber tardiamente, que nada havia acontecido. Algo sombrio cruzou por sua face, uma fúria mal contida causada pela injustiça de toda a situação e ao mesmo tempo, o amargor pungente da percepção do que apresentava-se à sua frente; suas entranhas contorcer-se com o peso da cólera crescente. Ele podia tocá-la; sua maldição não tinha sequer efeito nela. As pontas dos dedos encontraram com a pele macia de seu rosto, sentindo o calor que esvaia-se, rapidamente, de seu corpo. Pressionou com força os dedos contra a pele dela, sem conseguir conter o impulso. Por tantos anos, sentiu-se preso a um limbo de desespero e frustração, desejando poder ser capaz de tocar alguém, de sentir o contato da pele de outra pessoa, de outra coisa, um objeto que fosse, com as pontas dos dedos; desejava ao menos poder segurar um talher sem que este se desfizesse em cinzas. Há tanto tempo que convivia com aquela maldição, que, havia deixado de lembrar-se da sensação das coisas: como era tocar o tecido de linho das túnicas e do couro dos uniformes illyrianos, a sensação fria do metal abaixo de sua pele, a sensação do vento passando por entre seus dedos sem que o tecido das luvas atrapalhasse ou causasse desconforto. Pela mãe, a sensação de poder tocar a pele de alguém, de sentir a maciez e o relevo de pequenas cicatrizes, qualquer coisa. E o quão irônico era, que, no fim, a única pessoa que sua maldição não possuía efeito algum, era justamente naquela que ele desejava profundamente que o tivesse.
Suas unhas fincaram-se ao redor do rosto dela, sentindo a pele macia e delicada ceder um pouco com o movimento, e Nyx sentiu vontade de gritar. Pela primeira vez, em muito tempo, seus olhos queimaram com lágrimas duramente contidas. Não choraria, não conseguia, mas não doía menos. Porque de todos, tinha que ser ela… um grunhido partiu alto das criaturas, violento, retumbando pelo o zunido do vento invernal, capturando a atenção dele outra vez. Amálgama amargo, vil escapou de seus lábios entreabertos em algo que nem era um rosnado, nem um soluço, permeado pela frustração, acompanhado pela respiração irregular, escapando em lufadas fortes e rápidas demais enquanto o cerébro tentava decodificar tamanha revelação —— tamanha traição conferira o universo a ele. Soltou-a como um desavisado que ousara tocar em uma chama por curiosidade apenas para, no tardar de seu gesto impulsivo, perceber-lhe a queimadura que espalhava-se em sua pele. Algo dentro de seu peito, podre e viscoso, fugitivo perverso, pareceu apertar-se, doloroso. Os olhos, marejados, queimaram com frustração e fúria as feições pálidas da jovem que ele havia acabado de tomar a vida.
As palavras que queria permitir-lhe rasgar a garganta não saíram, mas continuavam a repetir-se em sua mente como um mantra permeado por desalento: não era justo, não era justo que ela fosse sua exceção. Por que ela? Por que a garota que havia lhe roubado tudo? Por que não qualquer um? Por que ele estava condenado aquilo.
Dedos esqueléticos, encurvados e gélidos como a neve abaixo de seus joelhos agarraram-lhe os ombros, puxando-o com força para trás, rasgando a fina membrana de suas asas já defeituosas. Nyx voltou a si como quem quebrava a superfície d’água após muito tempo submerso. O ar que invadiu-lhe os pulmões fora doloroso, lhe rasgou, comandando a entrada, mas foi o suficiente para ao menos tirá-lo daquele torpor sufocante. A neve agitou-se ao seu redor, flocos que pairavam pelo ar, carregados pelo vento, pareceram espiralar desnorteados, instinto cegou-lhe por uma fração de segundos, e seus dedos fincaram-se na carne apodrecida, sentindo-a desfazer-se sob seu toque, enquanto um gorgolejo meio gritado, meio rosnado, escapava da boca da criatura. Seus olhos azuis fixaram-se no monstro, finalmente tendo uma clara visão do que o sangue de havia atraído.
Monstros curvados, parcialmente congelados, parcialmente feitos de ossos. Alguns tinham as cabeças decepadas, pendiam para o lado ou para frente, desabaram no chão, esquecidas, rolando pela neve com ruídos molhados, nauseantes. Outros possuíam cascos, asas quebradas, garras ameaçadoras tal qual predadores, presas que se contorciam para fora de seus crânios, sobressalentes, e mesmo flores e espinhos nascendo por baixo da pele como uma potente infecção, enroscando-se a carne frígida, morta, em um emaranhado de nós impossíveis congelados. Pareciam respirar como as criaturas, como se fosse uma única coisa. Um único ser. Olhos leitosos, vagos e vidrados, moviam-se cegamente pela beira do lago, reconhecendo-o como a ameaça que era, algo ruim, mas hesitando ao repousar em . Nyx arregalou os olhos, prendendo a respiração, os dentes, forçados a trincar, pareciam mesmo assim tremer com o profundo alarde que tornava refém, rangendo. Poeira da criatura que havia desfeito-se pareceu grudar em sua pele molhada, como uma fina camada sobreposta aos flocos que derretiam-se com a temperatura de sua pele, os cabelos, igualmente agitados pelo vento, desfaziam-se em mechas, algumas grudando pela lateral de seu rosto, fazendo os cortes e arranhões latejarem com maior intensidade, congelando o sangue que decorava as pontas de seus dedos.
As criaturas não haviam atacado como ele havia esperado que o fizessem. Não haviam deleitado-se com o banquete proporcionado, sequer arranhado; elas, como um único sopro, colocaram-se de joelhos ao vê-la. Como suas servas. Foi somente então que Nyx começou a compreender algo que a muito viera lutava para tentar ignorar. Seus olhos moveram-se entre as criaturas que avançavam em sua direção, garras afiadas tentando cortar-lhe a garganta, rasgar-lhe a carne, puni-lo da forma que bem compreendiam, para a jovem imóvel que largara no chão. Reconheciam-na como um deles, porventura, a viam como uma extensão de si; senão muito, talvez apenas um espectro do que outrora fora. Ela não era como Nyx. Não era uma Grã-Feérica como Mav supôs acalentado pela quietude das sombras da biblioteca da Casa do Vento; ela era uma outra coisa. Nyx sempre soubera que havia algo de errado, que ela deveria ser algum tipo de monstro ocultado por um rosto pequeno, franzino e assustado; a vira desaparecer e retornar como uma fagulha de luz. Ela era luz. Não uma grã-feérica, nem mesmo ninfa poderia ser considerada, ela sempre havia sido aquela coisa, a confirmação nauseante dos monstros que rastejavam do Outro Lado.
Ela realmente era uma deles. Uma Tylwyth Teg.
E aquela terra sabia.
—— Bem? Suponho que finalmente finalizou seu espetáculo? —— a voz calma, coesa, enviou uma onda gélida de medo pela espinha de Nyx. Ele congelou no lugar, encarando com os olhos arregalados as criaturas mortas vivas, observando-as pararem, inclinando seus rostos distorcidos e brutalizados para vislumbrar algo que encontrava-se atrás dele. Um arrepio gélido percorreu por sua pele, eriçando os pelos de seu corpo, enviando uma onda de pura eletricidade por sua corrente sanguínea, seu coração pareceu contorcer-se dentro da caixa torácica, martelando-a com violência. Embora indiferente, havia uma conotação ameaçadora por baixo da seda das palavras que Arwan havia usado. Nyx engoliu em seco, um estalo percorrendo seus ouvidos abafados, o ar gélido pareceu corroer-lhe um pouco mais, roubando-lhe a voz. Prendeu a respiração, ao passo que o tremor aumentou por seu corpo. Fechou suas mãos em punhos firmes, que tampouco fizeram algo para ocultar seu nervosismo. Os passos espectrais da criatura não possuíam eco sobre o solo coberto pela neve, mas o cheiro pungente de petrichor, flores silvestres e algo primal, inteiramente e unicamente daquelas criaturas, agora era carregado com algo mais metálico, profuso: sangue. Nyx obrigou-se a voltar o pescoço rígido para acompanhar com o olhar o rei dos Tylwyth Tegs. Não havia quaisquer traços de pacifismo nos olhos de Arwan, mas seu rosto permaneceu pétreo, impossível de ser decifrado; ocultado por trás de uma máscara acobreada no formato de um crânio pela metade, sem mandíbula e arcada dentária inferior, com dois chifres de carneiro perigosamente afiados, Arwan não usava as roupas que Nyx havia acostumado-se a ver; vestia-se para a Caçada. —— É ao menos digno de apreço a vergonha que estampa seu rosto pela traição que cometeu, filho de Archeron, mas ofende-me em demasia por acreditar que você poderia enganar-me. Não achou mesmo que você conseguiria tal feito, achou?
Nyx estreitou os olhos, encarando a criatura com uma ponta de confusão e tensão. Tentou forçar as palavras para fora de seus lábios, mas não o poderia fazer mesmo se tentasse. Sua garganta parecia inchada, impossibilitando sequer a absorção de oxigênio, a boca estava seca, e o sangue de pareceu ser tudo o que sua mente percebia. Trincou os dentes com força, tentando obrigar-se a dar um passo para trás, mas cometeu o erro de acreditar que conseguira escapar de Arwan. O líder da Caçada Selvagem não era uma criatura da qual poderia escapar-se, e se estava ali para acertar as contas, se estava ali para comandar respostas pela maldita monstruosidade que Nyx havia matado, então o faria, e não haveria lugar algum, fosse em Prythian, ou para além do continente que Nyx poderia ir, que Arwan, o rei dos Tylwyth Tegs não o encontraria. Deu mais um passo para trás, e desta vez, quando as solas cobertas pela neve de seus sapatos chocaram-se no chão, repousara sobre o mármore escuro, liso da sala do trono de Arwan; havia atravessado, sem mesmo perceber que o fizera para o Outro Lado.
—— Não comandei-lhe para que seguisse apenas as ordens de meu Arauto, filho de Archeron? —— Arwan questionou, calmamente, mas o tom de voz comedido e sereno era nada senão ameaçador.
Nyx obrigou-se a dar mais um passo para trás, de repente, percebendo-se perigosamente vulnerável. Os ângulos afiados do rosto do rei dos Tylwyth Tegs, encobertos pelas sombras que o grande salão encurvado de seu trono esculpido em uma árvore viva, o acentuava ainda mais, agora como navalhas. A beleza repugnante parecia distorcer-se ao crepitar de uma fúria permeada pela satisfação que a criatura parecia exibir conforme a lateral esquerda de seu rosto desfazia-se. Desmanchava-se abaixo da máscara em formato de crânio anômalo, revelando o osso de seu crânio putrefato e com buracos de onde vermes deslizavam pelos tendões mortos. Um de seus olhos permaneceu com aquele tom prateado perturbador, como a luz de uma estrela, queimando em intensidade, já o outro, pareceu dissolver-se em apenas um buraco, vazio. Não haviam nervos expostos ali, não havia nada se não um profundo abismo pintado como piche pela órbita inteira; tal qual apto a engolir Nyx se ele não fosse cuidadoso. O olhar do caçador. Um estalo quase similar ao de madeira ecoou quando a criatura ergueu, desafiadoramente, o queixo, silenciosamente desafiando Nyx a dizer alguma coisa.
—— Por que achou que ao trapacear conseguiria ocultar seus passos de mim, filho de Archeron? —— Arwan quase pareceu sorrir com o tom traiçoeiro que pulsou por sua voz, a cabeça inclinou-se para o lado, novamente, com aquele estalo similar a madeira ecoando outra vez. —— Se eu enxergo tudo?
Nyx trincou os dentes com força, lançando um olhar ao seu redor, buscando por uma maneira de escapar daquele maldito buraco de terra, escapar das mãos de Arwan, mas não encontrou nada. Os olhos azuis queimaram o rosto da criatura, dando mais um passo para trás, tentando espelhar os movimentos da criatura, mas enquanto Arwan era como um fauno, familiarizado por seu próprio território, Nyx sentiu-se novamente como apenas um garoto, de oito anos, aterrorizado, envolto pela completa escuridão do Poço, sem ideia de como escapar daquele maldito destino que parecia apenas puxá-lo mais e mais em direção a sua morte iminente.
—— Se enxerga a tudo —— Nyx obrigou-se a cuspir as palavras, mesmo que sua voz tivesse soado estranhamente mais vulnerável, permeada por um tremor crescente, carregado pelo peso de suas ações precipitadas e pelo ressentimento com seu próprio destino. —— Porque não me impediu?
—— Porque o faria? Se era exatamente o que desejava que você fizesse? —— Arwan resmungou indiferente, frio como a neve que outrora envolvia sua pele. Nyx piscou, pego desprevenido com as palavras da criatura, e em sua confusão, o sorriso que espalhou-se no semblante pétreo de Arwan era nada senão cruel. Afiado, as presas um pouco maiores do que o normal projetando-se pelos lábios ressecados completamente exposta pela lateral de seu rosto dissolvido. —— Não julgue-me pela previsibilidade de seus atos, estes são teus pecados, não meus —— Arwan pontuou, dando um passo para a direita, e então mais um. Esticou o braço esquerdo para frente, deixando a lâmina escura como a noite deslizar pelos músculos apodrecidos e atrofiados da lateral de seu corpo que estava morta e desfazendo-se até que apenas os tendões apodrecidos e ossos estivessem expostos. Nyx ofegou baixo, arregalando os olhos com a lenta compreensão da confirmação de Arwan. —— Mas devo agradecer-lhe por isso, deu-me exatamente o que esperava que faria. Cumpriu seu papel perfeitamente, filho de Archeron.
Então ele percebeu, os papeis dispostos sobre a mesa, a indicação direta para a Corte Invernal, o aviso para que não seguisse para lá. Sua garganta dolorida parecia perigosamente árida, como um deserto, o ar escapou de seus lábios, áspero e forçado, ao cambalear um pouco para trás. Ao mesmo tempo que vejo a razão pela qual o encontrei. Irá trazer minha criança de volta, em breve, mas para isso, preciso que fique longe da Corte Invernal. Arwan sempre soube que Nyx não aceitaria ouvir um não, sempre soube que, refém de sua própria curiosidade, encontraria uma brecha no comando para ir exatamente onde havia lhe sido comandado não ir. O tremor em seu corpo pareceu aumentar, o gelo que corroía suas veias pareceu mais pungente, mais grosso, transportando-se como lascas grossas, sufocantes. A percepção de seu próprio temperamento e de seus erros atingindo-o com a iminente certeza de que, o que quer que ele havia acabado de fazer, cego por seu próprio desejo de retribuição e por fazer pagar por tê-lo aprisionado… Nyx exalou, levando sua mão esquerda em direção ao próprio colarinho, tentando arrancá-lo de seu pescoço, ao encarar Arwan com horror, as peças naquele maldito tabuleiro começando a fazer mais e mais sentido.
—— O prisioneiro… —— Nyx exalou, os olhos azuis cintilando com uma intensidade quase febril ao voltar-se para o rei dos Tylwyth Tegs, seus pensamentos pareciam estar acelerados demais para acompanhar com cuidado, mas ele podia sentir o exato momento que tudo havia se encaixado. Um riso desacreditado, permeado pela ferida terrível e infeccionada de seu próprio ressentimento pairou, aberto e ainda sangrando por seu peito, ao dar mais um passo para trás. Trincou os dentes com força, como se isso pudesse o impedir de rosnar ou gritar, não pela fúria que outrora o alimentara, mas pelo desespero; pela percepção nauseante de que, dentro daquele jogo, Nyx havia sido nada, senão apenas um peão. Uma peça facilmente descartável naquele maldito jogo. Seus olhos moveram-se agitados, tentando compreender, com uma perspectiva para além da que reduzira com seu ódio e ressentimento, o que tudo aquilo significava. E então, abaixo de tudo, havia o cheiro pungente metálico do sangue de que parecia agora persegui-lo como um espectro; cruel, visceral, real demais para que ele conseguisse escapar intacto de sua própria culpa. Nyx pensou nela; nos olhos estelares, na maneira com que as sardas que pontilhavam sua face delicada sempre lhe lembraram as constelações, na forma com que ele vira aquela luz desaparecer apenas para voltar quando as pixies tentaram atacá-la. Por muito tempo, Nyx acreditou que ela deveria ter assumido a posição que ele fora obrigado a ocupar, por tanto tempo, Nyx havia a culpado por algo que, agora, começava a perceber, havia sido fabricado inteiramente por Arwan. —— Era você não era? —— O sorriso frio de Arwan se expandiu um pouco mais, inclinando sua cabeça para frente, em uma quase mensura, e Nyx sentiu algo em seu estômago se contorcer. O gosto amargo da bile pungente, espalhou-se por sua língua seca, ao cambalear mais uma vez para trás, uma raiz da árvore que formava o trono do Tylwyth Teg quase o fazendo tropeçar. Nyx negou com a cabeça, desacreditado, tentando apegar-se à única certeza que lhe restava, precisava acreditar que não era o que lhe era confirmado, porque, se o fosse, então ele teria acabado de fazer uma grande merda.
O mundo pareceu estremecer quando ele deu mais um passo para trás, tentando escapar das garras de Arwan, seus pés afundaram não no mármore escuro de sua sala do trono, mas na neve fofa e macia da Corte Invernal. O cheiro putrefato das criaturas que os cercava, o aroma do sangue de agora completamente imóvel. As lágrimas que queimavam ao fundo dos olhos de Nyx, outrora oriundas de sua fúria e ressentimento, agora eram permeadas pelo desalento e desesperança. Pensou na garotinha que havia sido, nos olhos arregalados e assustados, nas cicatrizes que espalhavam-se pelo corpo, e sentiu o ressentimento borbulhar em seu peito, mas era mais que isso, era a terrível percepção do que ele não havia considerado até o momento.
Por que achou que ao trapacear conseguiria ocultar seus passos de mim, filho de Archeron? Se eu enxergo tudo? Disse Arwan, e Nyx percebeu o quão estuído havia sido. Seus olhos azuis, febris encontraram-se não com o olho prateado, esquisito de Arwan, mas com o vazio, tingido completamente de preto que costumava a refletir seu próprio rosto por vezes durante a Caçada. Nyx lembrou do rosto retorcido da criatura que havia encontrado no Poço com , no vazio daqueles malditos olhos leitosos, em como arrastava-se, observou as criaturas congeladas, mortas vivas que moveram-se até onde ele havia deixado o corpo de , como pairavam ao redor dela, com veemência quase ensaiada. Moviam-se como se fizessem parte de um único comando, um cérebro compartilhado; uma colmeia. Eram apenas extensões de Arwan. Ele sempre esteve lá, em todo lugar, sempre havia sido ele.
Arwan era a morte. E sua criança roubada.
—— Era ela, não é? —— A voz de Nyx escapou entrecortada, permeada pela frustração do engano, o desalento do erro. Oscilou entre os dois mundos, hora na Corte Invernal, hora de volta a sala do trono de Arwan, e sequer poderia fazer algo para impedir. Tudo pareceu começar a girar mais rápido do que sua mente poderia acompanhar; única coisa fixa, em seu mundo, agora, era Arwan, e a lâmina afiada da espada que empunhava. Um riso sufocado, engasgado, quase escapou pela garganta do herdeiro da Corte Noturna. —— é sua criança perdida, não é? Você disse que eu a traria de volta, por quê não agiu antes? Por quê queria que eu a matasse?
Arwan estreitou os olhos, observando o semblante de Nyx, inexpressivo.
—— Você já deve ter percebido a resposta para essa pergunta —— Arwan respondeu vagarosamente, frio e distante. —— Sou a morte, filho de Archeron. E não digo isso metaforicamente, ou retoricamente, ou poeticamente, ou teoricamente, ou qualquer outra forma sofisticada² de dizer. Sou o que sou, comando o que pertence por direito a mim. Nada mais, nada menos. —— Nyx trincou os dentes com força, tentando evitar que estes se chocassem um contra o outro quando o tremor em seu corpo aumentou. —— Não posso tocar os vivos, mais do que posso mudar meu desígnio. Se quero minha filha ao meu alcance, preciso que sua alma pertença a mim, e você, Nyx Archeron, entregou-me com perfeição.
Então este era o propósito de Arwan? Durante aquele tempo todo? Era apenas para isso que estava guiando Nyx? Uma lufada de ar escapou por entre os dentes cerrados de Nyx, um exalar que quase soou como um sibilo.
—— Não pode manter a alma de alguém por muito tempo, cedo ou mais tarde terá que atravessá-la, então estará longe de seu alcance —— Nyx rosnou entre dentes, tentando enxergar a última peça naquele tabuleiro ainda oculta para si, mas não tardou a aparecer quando Nyx lembrou-se exatamente o que ele era, e a maldição que carregava. A Caçada Selvagem buscava pelas almas, errantes e pela morte, guiava-os para o outro lado. A única constância ali, os únicos que atravessavam entre os mundos: eram eles. Com uma sensação sufocante, Nyx exalou mais uma vez, um riso descrente ao entender, tardiamente, qual havia sido seu papel naquele maldito teatro todo: não apenas o responsável por matar a criança que pertencia a Arwan, Nyx era o peso sob o lugar, o ocupante ao espaço vazio que pertenceria a . —— Qual é seu movimento agora?
Então era isso? Estava fadado a este destino desde o início? Quando caíra no Poço junto com , era ele quem deveria ter saído ou ele era só um meio para o resultado do que Arwan queria? Sempre acabaria daquela mesma forma? Nyx afastando-se no momento que retirava a maldita chave do pescoço do caçador? Deu mais um passo para trás, homem e Morte circulando como dois gatos a espera do primeiro golpe. Observando ao outro como um reflexo de si mesmos.
—— Agora, troco a sua vida pela dela —— Arwan disse com um tom de voz prático, preciso, empunhando a espada, e então voltando-a na direção de Nyx. O herdeiro da Corte Noturna, trincou os dentes, parcialmente paralizado pelo próprio medo, parcialmente desesperado para encontrar uma maneira de escapar daquele pesadelo, uma forma de escapar do alcance de Arwan, mesmo que fosse apenas uma vã esperança fadada ao fracasso. —— Não se preocupe, filho de Archeron, irei oferecer-lhe uma morte rápida, como forma de agradecimento.

¹ a frase “Am fear a bhios air dheireadh beiridh a' bhiast air” é um ditado gaélico popular que se traduz para o inglês grosseiro como “Him that’s last the beast will catch” que traduzindo para o literal ficaria algo como “aquele que fica por último a fera pega”, um ditado popular equivalente aqui é o “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.
² frase retirada do filme: Gato de Botas: O Último Pedido.



Continua...


Nota da autora: ainda sobre a frase que o Lyall diz, ela é uma premonição ruim, ou seja, tem conotação ameaçadora ao ser dita. Agora, vou segurar sua mão quando digo isso: se prepara, daqui para frente, é só para trás. Prometo que no fim ofereço abraços quentinhos. I pra Bleme, MULHER QUE CE TÁ FAZENDO AQUI?! KSKSSKSKSK meu deus, vou me enfiar num buraco de vergonha KSKSKSSKS não era pra você tá lendo o que escrevo! O esquema é o contrário!

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