Codificada por: Sol ☀️
Finalizada: 11/05/2026.Impecável nos gestos, elegante até nos silêncios, dono de um charme que parecia ensaiado (embora não fosse). Havia nele uma leveza quase irritante. O problema – ou talvez o detalhe mais honesto sobre ele – era que essa perfeição vinha com uma ressalva: Benedict também era um libertino.
E não daqueles discretos, que escondem os próprios excessos. Benedict simplesmente não fingia. Ignorava convenções com uma facilidade desconcertante, como se regras sociais fossem apenas sugestões vagas e não códigos rígidos que todos os outros seguiam com precisão quase obsessiva.
A alta sociedade já havia passado da fase do escândalo; agora, limitava-se a aceitar que ele simplesmente… não jogava pelas mesmas regras.
Benedict levou a caneca de cerveja aos lábios, inclinando-a devagar até o último gole. Ele soltou um suspiro satisfeito, não exatamente com a bebida, mas com o estado confortável de despreocupação que ela trazia.
Era ali que ele vivia melhor: naquele meio-termo entre a lucidez e o descaso.
Seus olhos vagaram pelo ambiente, absorvendo a cena em fragmentos: mãos que se encontravam sem hesitação, risadas altas demais, corpos próximos demais, gente que não parecia se importar com quem estava olhando ou com o que pensariam depois.
Se sua mãe o visse ali, provavelmente teria um colapso imediato.
O lugar era quase uma afronta viva àquilo que a sociedade respeitável fingia não enxergar: classes misturadas sem cerimônia, convenções ignoradas sem culpa, desejos que não se davam ao trabalho de se disfarçar.
Benedict achava tudo aquilo… deliciosamente libertador.
Do outro lado da taverna, em meio ao movimento desordenado de corpos e ao som alto das risadas, estava ela.
Os cabelos – que ele só conhecia presos com um rigor quase severo – agora caíam soltos pelos ombros, acompanhando cada movimento com leveza. O rosto, sempre contido, quase apagado pela discrição, estava diferente… aberto, iluminado por um sorriso despreocupado.
Ela girava entre duas garotas, entregue ao ritmo da música de um jeito solto, sem cautela, como se o mundo ali não exigisse nada dela.
Benedict piscou mais de uma vez, num reflexo inútil, como se pudesse rearranjar o que via. Era ela. A criada de sua mãe. A mesma que mantinha os olhos baixos, as mãos sempre ocupadas, a presença calculadamente discreta – quase apagada nos corredores da casa – agora ria sem reservas, rodopiava, tocava… e se deixava tocar, sem um vestígio sequer de hesitação.
O impacto o atingiu primeiro, seco e imediato. O fascínio veio logo em seguida.
Ela riu de algo que uma das garotas disse, inclinando a cabeça para trás, despreocupada, sem qualquer esforço em parecer contida. Como se, ali, não houvesse motivo algum para se esconder.
Benedict pousou a bebida, incapaz de desviar o olhar da cena exuberante do outro lado do salão. A criada, que antes parecera tão tímida e cautelosa, agora irradiava exuberância enquanto dançava sem restrição nenhuma.
Havia nela a mesma faísca inquieta, a mesma recusa silenciosa em se dobrar completamente às regras. Perigosamente próxima de ser… como ele.
Ela girou mais uma vez, rindo de algo soprado junto ao ouvido e então, como se um fio invisível a puxasse de volta, ergueu o olhar e o encontrou. Seu sorriso vacilou. Não chegou a morrer, mas se transformou em algo mais contido, como se lembrasse, de repente, de quem ela deveria ser.
Benedict não desviou. Com uma lentidão quase deliberada, ergueu a garrafa em sua direção, um gesto pequeno, carregado de intenção. Não um brinde exatamente, mais um reconhecimento silencioso, como quem levanta uma bandeira em território neutro.
Ela, porém, não retribuiu. Continuou o olhando, imóvel por um segundo a mais até que mãos alheias a puxaram de volta, risos a envolveram outra vez, e o momento se partiu.
Ainda assim, por um segundo, ela olhou por cima do ombro. Depois, desapareceu. E quando Benedict tentou encontrá-la de novo – no emaranhado de corpos, na música alta, nas luzes instáveis que distorciam tudo – ela já tinha sumido, como se nunca tivesse estado ali.
Nos dias que se seguiram, Benedict passou a circular com suspeita frequência pelos corredores menos nobres da casa. Sempre com o caderno de esboços debaixo do braço. Sempre com alguma desculpa artística na ponta da língua.
À primeira vista, nada parecia fora do comum. Benedict sempre fora… estranhamente exótico e interessado em coisas incomuns. Um dia obcecado por luz e sombra, no outro decidido a capturar a expressão exata de um desconhecido qualquer. Ninguém estranharia vê-lo vagando sem rumo definido, como se estivesse apenas seguindo o próprio impulso criativo.
Benedict estava diante de uma das janelas do corredor de serviço, o caderno aberto nas mãos, embora não estivesse realmente vendo o que desenhava. O rapaz estava prestes a desistir – ou, no mínimo, admitir para si mesmo que aquilo começava a se tornar ridículo – quando ouviu passos.
E lá estava ela.
Os passos medidos, a coluna ereta, os olhos fixos no chão: um corpo treinado para ocupar o mínimo possível. Benedict esperou, encostado na parede. Ela levantou os olhos no instante exato em que passou por ele.
Se até então Benedict ainda se permitia duvidar – da própria memória, do que julgara ter visto naquela noite na taverna –, qualquer incerteza se dissolveu naquele instante. Ele reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, sob qualquer circunstância.
– Pensei que tivesse sido um delírio. – Disse, por fim, rompendo o silêncio entre os dois. Ela não respondeu de imediato. Apenas o encarou. – Vinho ruim, luz fraca, aquela música... – Ele continuou, o tom leve, mas preciso. – Tudo parecia conspirar para uma alucinação.
Ela o observava agora com uma expressão que ele não conseguia decifrar completamente – uma mistura de curiosidade e cautela – ponderando cada reação possível antes de escolher a sua.
– Perdão, senhor. Receio não saber do que está falando. – Ela disse naquele tom que a criadagem aperfeiçoava após anos de prática, o tom que dizia “estou aqui para servir e não tenho opinião própria, por favor, me deixe em paz”.
Os olhos dela fugiram para o chão. Uma simulação tão convincente de submissão que qualquer outro teria acreditado. Qualquer outro senhor, em qualquer outro corredor, em qualquer outro dia.
Benedict sorriu de lado.
“Uma mentirosa”, pensou, enquanto a observava, os braços cruzados sobre o peito, a cabeça levemente inclinada. “E não qualquer uma. Uma mentirosa convicta.”
– Não? – Murmurou, o tom baixo, íntimo demais para o ambiente em que estavam. – Que pena. Porque eu, ao contrário da senhorita, tenho certeza do que vi.
Ela não desviou o olhar dessa vez. Os olhos dela encontraram os dele com uma franqueza que nenhuma criada ousaria ter e ali, naquele breve instante, Benedict viu um lampejo da mulher da taverna.
– O senhor deve estar me confundindo com outra pessoa.
A resposta veio rápida demais, ensaiada demais. Benedict deixou escapar um sopro de riso, baixo, quase indulgente.
– Será?
– Eu preciso deste emprego.
As palavras mudaram tudo. Por um instante, o jogo perdeu a graça. Benedict inclinou a cabeça, negando devagar e gentil.
– Não contei a ninguém. Nem pretendo.
Então se afastou, um passo lateral, abrindo espaço com a mão num gesto despreocupado, como se aquela conversa tivesse sido casual. Como se ele não tivesse acabado de encurralá-la de uma forma que não envolvia paredes.
Mas, antes que ela pudesse seguir para algum mundo onde ele não alcançava, ele falou de novo: – Me convide para dançar na próxima vez. Ou eu tomo a liberdade de fazer isso.
Durante três dias, ele percorreu tavernas. Não todas, apenas as que podia alcançar a pé, as que não exigiam justificativas, nem olhares curiosos.
Benedict Bridgerton não era um homem que contava dias. Sua vida sempre se movera num fluxo fácil entre obrigações e prazeres, sem a necessidade de marcar o tempo. Mas agora… Agora ele se pegava medindo horas. Chegando cedo demais. Permanecendo tempo demais. E esperando pela visão quase arrebatadora da criada.
O lugar, naquela noite, parecia conspirar contra ele. Benedict avançava, abrindo caminho entre corpos e sombras, como se estivesse sendo puxado por algo que não sabia nomear. Seus olhos percorriam a multidão com uma urgência pouco elegante, quase indigna. Paravam, prendiam, julgavam e descartavam.
Não era ela.
Nunca era.
Até que, enfim, era.
Ele não pensou. Os pés se moveram antes da mente, cortando o salão com uma determinação que não sabia que possuía.
Ela estava junto à mesa de refrescos, de costas para ele, o corpo levemente inclinado enquanto alcançava uma caneca. Os cabelos caíam soltos outra vez e aquilo, mais do que qualquer outra coisa, o atingiu.
– Você me deve uma dança.
Ela se virou, com um sorriso, que morreu no instante em que o reconheceu.
– Senhor Bridgerton.
– Eu esperei. – Ele disse, com um sorriso enviesado, quase insolente na leveza. – Esperei pelo seu convite, mas como ele não veio… achei melhor resolver o assunto por conta própria.
O olhar dela varreu o salão num movimento rápido, instintivo, avaliando distâncias, calculando rotas de fuga. Deu um passo à frente.
– Por que está fazendo isso? – A pergunta veio mais baixa, mais direta, e Benedict sentiu o peso dela antes de compreendê-la completamente.
– Fazendo o quê? – Ele devolveu, com uma leveza estudada, mas os olhos atentos demais para sustentar a inocência. – Querendo uma dança?
Quando finalmente falou, a voz dela saiu tão baixa que ele precisou inclinar-se para ouvir.
– Eu sou a criada da sua mãe… senhor.
– Curioso… – Disse, observando-a com atenção tranquila – porque estou olhando para você agora e… parece pertencer apenas a si mesma. Então… vamos tentar de novo. – Ele estendeu a mão, sem formalidade. – Você me deve uma dança.
O canto dos lábios dela vacilou, não chegou a ser um sorriso, foi só um impulso, um reflexo traído antes de ser contido.
Mas ele viu.
– Uma dança. – Ele repetiu, mais baixo.
Ela não respondeu. Seus olhos caíram para a mão estendida por um instante e em vez de aceitar ou recusar, levou a caneca aos lábios. Não foi um gesto delicado. Virou o restante do conteúdo de uma vez, como se precisasse daquilo.
O gesto foi tão brusco que uma gota remanescente escorreu pelo canto dos lábios dela e ela limpou com o dorso da mão, sem pudor, sem o menor traço da criada educada que ele conhecia dos corredores.
Benedict prendeu a respiração.
Ali. Ali estava ela.
– O senhor – Ela apontou a caneca vazia na direção dele, como se fosse uma arma. – por acaso sabe alguma coisa sobre danças que existem fora do mundinho de Mayfair?
O mundinho saiu cuspido, quase com desdém. E Benedict, em vez de se ofender, sentiu o sangue aquecer.
– Depende. Estamos falando de danças… ou de tudo o que acontece depois delas?
Os olhos dela permaneceram nele, firmes, avaliando, tentando entender se ele era apenas mais um homem entediado brincando de atravessar limites… ou algo mais perigoso.
– Estou falando de gente que não precisa ensaiar cada passo antes de existir. – Retrucou, seca. – De música que não pede permissão.
Aquilo o fez soltar um sopro breve de riso, mais genuíno dessa vez.
– Então não. – Respondeu, sem hesitar. – Não sei nada sobre isso.
Quando ela o puxou pelo braço, girando-o no próprio eixo, o resto do salão se apagou sem esforço. Tornou-se ruído dissolvido em um fundo que já não competia pela atenção dele.
– Não é tão diferente assim. – Benedict soltou uma respiração curta entre uma volta e outra, como se ainda estivesse se ajustando àquilo.
– É diferente de Mayfair.
– De que forma? – Ele arqueou uma sobrancelha, o divertimento claro, quase provocador. – A música? A multidão? Ou o fato de não haver uma dúzia de acompanhantes vigiando cada passo seu?
– Tudo isso. Principalmente o fato de que você, senhor Bridgerton, está dançando com a empregada da sua mãe.
Aquilo o fez soltar um riso baixo, mas, antes que pudesse responder, uma gargalhada explodiu ao lado.
Mãos surgiram de todos os lados, e a roda de amigas a tomou de volta sem cerimônia. Foi puxada, envolvida, e, num instante, já estava no centro outra vez, engolida pelo movimento, pela música, pelo calor vivo daquele círculo.
Benedict ficou onde estava, observando-a. Ele a viu com o corpo entregue a um ritmo que não se ensinava, não se ensaiava, não se continha. Aquilo não era dança como ele conhecia.
Ela girou de novo e os olhos da mulher encontraram os dele através do caos.
O sorriso dela vacilou e depois se alargou. Era um sorriso diferente agora. Um sorriso que, sem som, gritava: “estou dançando para você, Benedict Bridgerton”.
Benedict prendeu a respiração. Os dedos se moveram no ar antes que ele pudesse impedir, quase um espasmo de artista, como se tentassem desenhar o contorno invisível dela.
Ele sentiu a necessidade como uma coceira sob a pele. Não de olhar – isso ele já fazia desde o instante em que ela atravessara a porta da taverna –, mas de fixar. De transformar aquele momento em algo que não pudesse escapar. Em algo que sobrevivesse a ela, à música, à noite inteira. Algo que continuasse existindo mesmo depois que ela fosse embora.
“Se eu tivesse meu caderno aqui… você seria a única coisa que eu desenharia pelo resto da vida.”, pensou, uma constatação inevitável.
Risos surgiam altos, desapareciam, voltavam em outro canto. Nada ali obedecia a forma alguma e era isso que o prendia. Ninguém observava de verdade. Ninguém julgava. Ninguém se importava. E, por isso, tudo parecia mais real.
Tão real quanto ela.
Do outro lado do salão, dançando como se pertencesse àquele lugar mais do que qualquer outra pessoa. E ele a observava desde o início da noite.
A cadeira onde se instalara lhe dava visão perfeita. E, entre um gole e outro, seus olhos sempre voltavam para ela e encontravam os dela. Uma vez. Depois outra. E depois tantas que ele deixou de contar.
Benedict franziu o cenho por um instante, como se aquilo fosse, de alguma forma, ofensivo. Quando havia terminado a última cerveja? Quando pedira outra? A noite já não seguia uma ordem lógica.
O rapaz ao seu lado – quem era mesmo? – completou seu copo vazio com uma intimidade descuidada. Benedict não fazia ideia de onde o conhecia, nem de quanto tempo já estavam ali. Também não percebeu exatamente quando o toque começou. Em outra noite qualquer, teria rido. Teria se virado. Teria aceitado, sem esforço, o convite silencioso que vinha naquele gesto.
Mas não agora. Porque, pela primeira vez naquela noite – talvez em muito tempo – havia algo que ele queria mais do que um corpo qualquer em uma noite qualquer.
Do outro lado da sala, porém, ela estava. E estava perto demais de alguém.
Não era nenhuma das amigas com quem dançara a noite inteira, essa era outra. Uma figura que ele não reconhecia, alguém que se insinuava no espaço dela com a familiaridade de quem já fora convidada.
Benedict sentiu algo se contrair no peito: a constatação súbita de que ele não era o único a vê-la. De que, em algum momento daquela noite, outros olhos também haviam se fixado nela. Outras mãos talvez já tivessem calculado a distância até a curva de sua cintura.
Benedict reagiu sem pensar. A mão encontrou o pulso do outro homem e o afastou.
– Não esta noite. – Murmurou.
O homem o encarou – surpresa e desafio misturados no brilho dos olhos –, mas Benedict já não prestava atenção. O olhar dele tinha atravessado o salão, puxado por outra presença.
Imóvel em meio ao movimento, deslocada de tudo ao redor, ela virou o rosto por cima do ombro – rápido, intencional – e o encontrou com a precisão de quem não erra.
Foi o suficiente para Benedict se levantar e segui-la.
O ar frio o atingiu como um murro assim que cruzou a porta. À frente, o beco se abria em sombra, recortado pela luz vacilante de uma lanterna presa à parede de pedra.
Ela estava encostada à parede. As bochechas coradas (talvez pelo calor, pela dança, pela cerveja…), os cabelos soltos, desalinhados, caindo pelos ombros nus onde o vestido escorregara ligeiramente, como se também tivesse desistido de se manter no lugar.
Ele não pensou. Benedict encurtou a distância em dois passos largos, suas mãos encontrando o rosto dela antes que a consciência pudesse intervir, e a beijou.
Os lábios dele encontraram os dela com a urgência de quem guardou a noite inteira o que não devia guardar. Havia cerveja no hálito dele, havia calor na boca dela, havia o som abafado de um copo que caiu no chão, ou talvez tenha sido ela que se recostou contra a parede de pedra, ou talvez tenha sido ele que a empurrou, ou talvez os dois tenham se movido juntos.
– Você é absolutamente fascinante. – Murmurou contra os lábios dela. Ele inclinou levemente a cabeça, estudando-a com uma atenção que beirava o indecente. – Qual é o seu nome?
– …Mary.
– Apenas Mary?
– Sr. Bridgerton. Olhe para mim. Estou em um beco escuro, beijando um cavalheiro... – Ela sorriu de lado, recebendo os lábios dele no canto de sua boca. – Sou a criada da sua mãe...Você realmente acha que eu tenho um sobrenome?
Sem família para reivindicá-la. Sem nome que abrisse portas ou sustentasse reputações. Nada que a prendesse ao mundo dele – ou que a protegesse dele.
– Mary. Apenas Mary.
– Apenas Mary. – Ela confirmou, com um sorriso menor, quase tímido. – Estamos longe dos olhos da alta sociedade, Sr. Bridgerton.
Ela se afastou dele, caminhando até um barril encostado na parede. Sentou-se sem pressa, ajeitando as saias com uma naturalidade que só deixava mais claro o quanto não se sentia intimidada.
Os dedos dela se fecharam nos cabelos dele, firmes, enquanto a outra mão descia com prática, abrindo os botões do colete como quem já conhecia bem aquele gesto. Quantas vezes? Com quantos outros? O pensamento passou – rápido, incômodo – mas não se fixou. Não ali. Não agora. Tudo o que Benedict conseguia sentir era o quanto aquilo o prendia.
– Creio… que você está acostumado a ser o dono da história, Sr. Bridgerton.
– Talvez. – A mão dele apertou a cintura dela, puxando-a um pouco mais para perto. – Mas não esta noite. Esta noite, eu sou seu.
Ele a beijou como se fosse a última coisa que faria.
E, por um instante, Benedict quis – com uma intensidade quase dolorosa – que ela se lembrasse daquele beijo. Não dos outros. Daquele.
A respiração de Mary vacilou quando os dedos dele roçaram a bainha de sua roupa íntima, mas ela não o afastou. Pelo contrário, moveu-se levemente sobre o barril, como se abrisse espaço, como se dissesse sem palavras.
A mão dele deslizou sob o tecido e era ali que a consciência deveria voltar, entretanto, Mary não parecia interessada em nada disso.
Ela só o queria.
E, Deus o ajude, Benedict também não tinha intenção de parar.
A luz veio primeiro, insistente, atravessando as pálpebras fechadas até se fixar atrás dos olhos, latejando.
Ergueu-se no colchão – o movimento fez tudo girar – e passou os olhos ainda turvos pelo espaço. Levou a mão ao rosto, pressionou as têmporas, como se pudesse forçar as memórias a se organizarem em algo coerente. O teto era baixo, cortado por vigas de madeira expostas. As paredes nuas – sem papel, sem quadros, sem qualquer traço de cuidado – não pertenciam a nada que ele reconhecesse como seu. Um quarto alugado.
Então ele a viu. Mary estava no chão. Os lençóis – que deveriam estar na cama – cobriam seus ombros nus de forma descuidada, subindo e descendo ao ritmo tranquilo do sono. Os cabelos escuros, soltos, espalhavam-se pelas tábuas como tinta derramada.
Apesar da dor na cabeça, do estômago revirado, de todas as perguntas que se acumulavam na mente como nuvens antes da tempestade, um sorriso começou a se espalhar por seu rosto. O que acontecera naquela noite? Que tipo de urgência – de desespero, de fome – fizera com que a cama não fosse suficiente? Que tipo de entrega a deixara ali, encolhida nas tábuas duras, como se o corpo já não tivesse forças para ir além?
Então, ainda no silêncio, os olhos dela se abriram. E o encontraram.
– Bom dia. – Ela murmurou.
– Bom dia. – O olhar dele deslizou para baixo. Os lençóis que cobriam o corpo dela mal faziam o trabalho a que se propunham. Ela piscou, seus olhos também caíram no peito dela. Marcas deixadas por dentes, lábios e língua, como se algum bastardo possessivo a tivesse atacado na noite anterior. Ele esperava que o bastardo fosse ele. – Por que você está no chão?
– Eu… não sei. – Ela respondeu, depois de um segundo de reflexão.
A gargalhada escapou dele primeiro, inesperada. Um instante depois, ela o acompanhou e, quando perceberam, já estavam rindo juntos.
A risada morreu na garganta de Benedict quando uma possibilidade terrível se instalou em sua mente como uma faca. E se ela acordasse se sentindo usada? Violada? E se, na luz fria da manhã, tudo o que parecera tão bom na noite anterior se transformasse em arrependimento e nojo?
Ele se ajoelhou ao lado da cama, passando a mão pelo chão até encontrar a própria camisa. Estendeu-a para ela sem dizer nada. Mary pegou a peça e a vestiu devagar.
– Você… – Ele respirou fundo, como se precisasse disso para continuar. – Você se lembra?
Ela interrompeu o gesto e ergueu os olhos, encontrando os dele com facilidade.
– Eu me lembro.
– A gente… – Ele hesitou, engolindo seco. – A gente discutiu?
Ela inclinou levemente a cabeça, observando-o como se a resposta fosse óbvia demais para precisar de esforço.
– Tenho quase certeza de que foi o contrário.
– Certo – Murmurou, sem saber muito bem o que fazer com isso. – Bem…
Obrigado pela noite? Parecia inapropriado, mesmo para eles. Desculpe? Pior. Desculpe sugeria que ele se arrependia e ele não tinha certeza se arrependia.
– Sr. Bridgerton. – Ela estava de pé agora, a camisa dele abotoada até o meio, as mangas compridas demais cobrindo os dedos. – Estou demitida?
– Não! – Ele se aproximou, as mãos erguidas como se fosse acalmá-la (embora ela estivesse perfeitamente calma). – Mary, você não está demitida. Eu não faria isso com você. Olha… minha mãe não precisa saber disso.
Mary o observou em silêncio por um instante. Depois, sem pressa, terminou de abotoar a camisa. Como se aquilo – ela vestindo a roupa dele num quarto alugado, na manhã seguinte a uma noite que nenhum dos dois conseguia nomear – fosse perfeitamente normal.
– Eu vou… – Ela apontou para a porta, sinalizando que iria embora.
– Espera!
Benedict não sabia o que dizer. Nem o que fazer. Mas deixá-la atravessar aquela porta sem uma palavra… isso não era uma opção.
Ele se moveu por impulso. Os lençóis ficaram para trás, e só então, com o toque do ar frio da manhã em cada centímetro da pele, percebeu que estava completamente nu.
O olhar de Mary desceu sem pressa. Sem disfarce algum, sem o desvio rápido e ensaiado que as mulheres da sociedade dominavam tão bem.
– Isso foi… – Ele começou, odiando a instabilidade na própria voz. – Foi bom para você?
– Sim. – A resposta veio firme. Mas o olhar dela ainda não tinha voltado ao rosto dele, sem qualquer tentativa de fingir que não estava olhando.
Aquilo o pegou desprevenido. Não havia timidez. Nem constrangimento. Nada da contenção que ele esperaria – que qualquer homem esperaria – naquela situação.
Antes que pudesse pensar – antes que pudesse se lembrar de que estava nu, antes que pudesse considerar se aquilo era uma péssima ideia – a pergunta escapou: – Você quer fazer de novo?
– Serei demitida depois disso? – Ela ergueu o olhar para ele.
A pergunta estava ali, não dita: eu vou perder o meu emprego se transar com você uma segunda vez?
– Não. Nunca por isso.
Mary sustentou o olhar dele por um segundo. Depois, com uma lentidão que beirava a provocação, levou a mão ao primeiro botão da camisa e começou a desabotoar.
Benedict caiu no colchão com um grunhido, os cotovelos mal tendo tempo de se apoiar antes que Mary estivesse em cima dele. Ele já dormira com inúmeras mulheres. Cortesãs experientes que sabiam exatamente quais cordas puxar. Esposas entediadas da alta sociedade que usavam o sexo como vingança contra maridos ausentes. Aventureiras ocasionais que desapareciam antes do amanhecer, deixando apenas o cheiro de perfume estrangeiro nos travesseiros.
Nenhuma delas jamais o olhara daquele jeito.
Benedict deveria ter voltado para seus aposentos de solteiro há dias.
Ficar na casa dos Bridgerton estava sendo uma tortura silenciosa. Cada corredor era uma armadilha. Cada porta que se abria podia conter ela. E, no entanto, Mary era quase rara de ver. Os criados tinham seus horários, seus territórios, suas rotas, que raramente cruzavam as dos membros da família.
Por isso, quando a encontrou na companhia da Sra. Wilson, não hesitou.
A governanta estava dando instruções sobre a arrumação da mesa de jantar. Mary ouvia com a cabeça inclinada, as mãos ocupadas em um pedaço de linho que ela dobrava e desdobrava com uma precisão que beirava a obsessão.
– Mary… – A voz saiu mais áspera do que ele pretendia. Pigarreou de novo, tentando soar casual, tentando lembrar como um cavalheiro se dirigia a uma criada na frente de sua superiora. – Minha… irmã… Eloise… precisa de você em suas instalações.
– Mas eu acabei… – Ela franziu o cenho, a frase morreu em seus lábios quando a Sra. Wilson pigarreou. Não precisava de palavras. O significado era claro: você não responde a um membro da família dessa forma. Você obedece. – Sim, senhor.
Ela sentiu que ele a acompanhava antes de ouvi-lo. Apressou o passo, dobrou um corredor, subiu mais alguns degraus. Ele a alcançou antes que ela pudesse chegar ao andar de cima. Puxou-a para dentro de um vestiário estreito, uma porta que ele abriu com a outra mão sem nem olhar. E então os tapas começaram.
Pequenos punhos fechados atingiram seus ombros com uma fúria que ele não esperava.
– Que diabos você está fazendo?! – A voz dela era um sussurro furioso, seus punhos continuavam batendo, apenas pela necessidade de atingir alguma coisa. – Você não pode simplesmente me arrastar para dentro de armários como se eu fosse uma… uma…
– Mary. – Ele sorriu. Não conseguiu evitar.
Ele havia prometido segredo. Havia jurado, nu diante dela em um quarto de taverna, que ninguém descobriria. E, no entanto, lá estava ele, arrastando-a para salas vazias como um tolo desesperado porque não suportava a ideia de passar mais um dia sem tocá-la.
– Benedict. Me deixe sair ou eu…
– O quê?
Os olhos dela vacilaram – não por hesitação, mas por escolha – descendo até os lábios dele. Um movimento breve, rápido demais para ser inocente.
– Eu não vou… – Ela começou, interrompendo a própria frase, como se ponderasse… ou como se apreciasse o efeito que causava. – …permitir que você me beije de novo. – E, fixando os olhos nos dele, ela completou em um sussurro: – E não estou falando da minha boca.
O cérebro dele levou um segundo – apenas um – para processar o que ela disse. Para conectar as palavras ao significado.
Para lembrar.
As coxas nuas de Mary espalhadas sobre os ombros dele. Os dedos dela emaranhados no cabelo dele com tanta força que ele sentiu o puxão no dia seguinte. Ele a venerara como um homem faminto. Benedict lembrou de como ele implorou para prová-la e ela o deixara. De bom grado, com a cabeça jogada para trás e os lábios entreabertos e aquele sorriso malicioso que o enlouquecia.
O sangue correu para lugares que não deveria estar correndo em um armário escuro, no meio do dia, com a irmã dele esperando por sedas no andar de cima.
– Tudo bem. Saia daqui.
Ela mordeu o lábio, segurando o sorriso como quem guarda um segredo. Então passou por ele, o ombro roçando o peito dele num contato totalmente proposital. Já na soleira, a um passo de sair, de voltar para o mundo onde ele não a alcançava, ela olhou por cima do ombro.
– Senhor.
A mandíbula de Benedict se fechou com força, o incômodo físico acompanhando o que a palavra provocava. Um lembrete claro – cruel, até – de que aquilo não mudava nada. De que ele não era exceção. De que existiam regras… e que nem mesmo ele podia fingir que não existiam.
Benedict já estava sentado há mais de uma hora, o uísque baixando devagar entre os dedos, a embriaguez se acumulando. Ele começava a pensar que seria mais um fracasso, mais uma noite em que voltaria para casa com o gosto amargo de não a ter encontrado.
Então a porta se abriu e ele a viu. Mary não estava sozinha. Vinha acompanhada da mesma dama elegante das noites anteriores. A mesma que, na última vez, tentara beijá-la. E, pelo jeito como os ombros das duas se roçavam ao caminhar, pelo jeito como Mary ria de algo sussurrado em seu ouvido, pelo jeito como a dama elegante inclinava a cabeça, parecia que, naquela noite, ela finalmente havia conseguido cair nas graças de Mary.
Ele as viu pedir bebidas. Viu a outra se inclinar, sussurrar algo no ouvido de Mary – e viu Mary rir.
Depois disso, tudo se perdeu.
Ele não lembrava de ter se levantado. Nem de cruzar o salão. Nem de dizer uma única palavra, só percebeu quando já estava perto demais.
Em algum ponto da noite – impossível dizer quando, impossível dizer como – deu por si ali, encurralado entre os corpos das duas.
Ele sabia que era puramente físico. A dama sem nome se fora. Usufruíra da companhia deles da forma mais devassa – os toques, os beijos, a intimidade que não significava nada – e partira sem olhar para trás. Escapuliu depois de um tempo – sorrindo, satisfeita, sem dúvida indo encontrar outro amante para a noite.
Mas Mary ficou.
Dessa vez sem uma terceira companhia, eles fizeram de novo. E de novo.
E quando Benedict finalmente a teve a sós novamente, eles transaram até o amanhecer. Até que as coxas dele queimassem de tanto sustentá-la e seus lábios estivessem em carne viva de tanto conter os gemidos nos corredores.
Na manhã seguinte, Benedict despertou envolto nos lençóis de Mary.
A luz filtrava-se pela janela manchada em tons pálidos, desenhando linhas suaves pelo quarto quando ele se apoiou no cotovelo e se inclinou para observá-la. Havia algo diferente ou talvez apenas mais nítido. Detalhes que ele não se lembrava de ter notado antes. As sardas, por exemplo. Pequenas, espalhadas pelo rosto, reveladas agora pela claridade da manhã. Sempre estiveram ali?
– Pare de encarar. – Ela murmurou com a voz ainda carregada de sono, passando a perna por cima da cintura dele com naturalidade.
– Eu não estava... – Começou ele, no reflexo automático de negar. Mas interrompeu-se. – …Você vai voltar para Aubrey Hall hoje?
– Não sei. – Respondeu, sem sequer abrir os olhos. – Você vai?
A resposta correta era evidente. O herdeiro Bridgerton já deveria estar a caminho. Havia deveres, expectativas… um mundo inteiro à espera do seu retorno.
– …Ainda não. – Disse por fim, em voz baixa. – Você quer que eu fique?
– Você quer ficar? – Mary subiu a mão devagar pelo pescoço dele, os dedos deslizando com uma intimidade despreocupada.
Claro. Ela não seria a primeira a ceder.
A mão dele encontrou a nuca dela, os dedos se perdendo nos fios desalinhados enquanto o polegar roçava sua têmpora. Ele estudou o rosto dela outra vez.
– Já lhe disseram o quanto você é linda?
– Você disse. Várias vezes ontem à noite. – Ela deixou escapar uma risada suave.
– Você é linda. – Repetiu, mais baixo.
Benedict levou o polegar até o rosto dela, contornando lentamente a maçã do rosto, como se precisasse ter certeza de que ela estava ali. Mary revirou os olhos, mas não se afastou. Permaneceu ali, permitindo o toque.
– Benedict… – O polegar dela roçou a barba por fazer em seu queixo, num gesto íntimo demais para o que eram. – Você não precisa ficar. Está tudo bem.
– Não diga isso como se fosse simples.
Mary sustentou o olhar dele por um instante. Havia algo ali que não estava na noite anterior. Não era só desejo. Era… insistência. Confusão, talvez. Ou algo mais perigoso.
– E não é? – Ela murmurou suavemente. Benedict franziu levemente a testa, como se não gostasse do rumo da conversa. Como se recusasse aceitá-la daquela forma. Ela suspirou, sentando-se, deixando os lençóis caírem sobre o colo. – Você é um Bridgerton e eu sou sua empregada. E…
– Eu não quero parar de te ver. Isso é errado?
– Você sabe onde me encontrar. – Ela suspirou, forçando um sorriso. – Se quiser algumas noites divertidas.
– …É só isso que eu sou para você? – A voz dele vacilou no fim, traindo-o.
Ele odiava aquilo – a exposição, a vulnerabilidade crua – mas nunca soubera ser diferente. Nunca soubera fingir menos do que sentia.
– É tudo o que você pode ser, Benedict.
Ele soltou o ar de uma vez, curto, como se o golpe tivesse vindo de dentro. Passou a mão pelo rosto, numa tentativa inútil de reorganizar o que já não se sustentava.
Então se sentou. Sem dizer nada, puxou Mary consigo, trazendo-a para perto e a envolveu com os braços. Mary enrijeceu por um instante, surpresa pelo gesto, mas, aos poucos, cedeu. O corpo relaxou contra o dele, encaixando-se com uma naturalidade silenciosa, como se reconhecesse aquele lugar antes mesmo de querer admitir.
Ficaram assim por um momento. Presos naquele intervalo frágil entre o que queriam e o que sabiam.
– Você não pode ficar. – Ela murmurou contra o ombro dele.
– Eu sei.
– Você vai embora.
– Eu sei.
– E isso não vai dar certo.
– Eu sei.
– Então por que ainda está me abraçando? – Perguntou ela, quase sem força.
– …Porque ainda posso.
Não era uma resposta elaborada e nem precisava ser.
E eles permaneceram assim, por alguns segundos roubados do inevitável.
