Codificada por: Sol ☀️
Finalizada: 28/05/2026.Foi quando o catamarã vindo do continente atracou logo ao lado, despejando uma quantidade previsível de turistas queimados de sol. Mas um deles chamou sua atenção. Não pelo visual, mas pelo quase desastre.
O cara era alto, tinha os cabelos castanhos bagunçados pelo vento marinho e tentava equilibrar, ao mesmo tempo, uma mala de rodinhas que nitidamente não foi feita para andar na areia e uma capa rígida de guitarra que ele segurava como se fosse um recém-nascido.
Ao tentar dar o passo do barco para a madeira molhada do cais, a rodinha da mala travou. Ele deu uma escorregada nem um pouco elegante, os braços girando no ar como moinhos de vento.
— Cuidado! — Solene gritou, instintivamente dando um passo à frente.
Com um baque surdo, o homem desabou de joelhos no cais. A mala rolou de lado, mas a guitarra permaneceu intacta, erguida para o alto como um troféu salvo do naufrágio. Ele soltou um gemido dolorido, mas logo olhou para o instrumento com alívio.
— Ela está viva — ele anunciou para ninguém em especial, com um sotaque britânico carregado, a voz rouca e surpreendentemente bem-humorada para quem quase quebrou a cara. — Meu pescoço também está intacto, Graças a Deus.
Solene caminhou até ele, parando com as mãos nos quadris, uma sobrancelha arqueada e um sorriso divertido brincando nos lábios.
— É bom saber que a madeira está inteira. O seu joelho eu já não tenho tanta certeza.
Danny Jones ergueu os olhos, piscando contra a claridade forte do Caribe. A primeira coisa que viu foi aquela mulher de sorriso franco, pele dourada pelo sol e um olhar que parecia ler toda a sua falta de jeito em um segundo. Ele soltou uma risada, estendendo a mão livre para ela enquanto ainda estava ajoelhado.
— Danny. E, honestamente? Acho que o cais sofreu mais danos do que eu.
Solene segurou a mão dele, puxando-o para cima com mais força do que ele esperava de alguém tão esguia.
— Solene. E um conselho para os seus próximos cinco minutos na ilha, Danny: largue a mala. Ninguém usa rodinhas na areia por aqui. É uma batalha perdida.
Danny olhou para a mala de grife capotada, depois para os próprios pés calçando tênis que já pareciam quentes demais para os trinta e cinco graus de Saint Marina. Ele passou a mão pelo cabelo, rindo de si mesmo.
— Notei isso um pouco tarde. Eu achei que "resort ecológico" fosse só um codinome chique para ar-condicionado potente e calçadas de mármore.
— Você errou feio — Solene rebateu, pegando a alça da mala dele antes que ele protestasse e começando a puxá-la pela parte funcional, mostrando o caminho. — Aqui o luxo é a água quente funcionar depois das oito da noite. Vamos, inglês. Antes que você derreta no meu cais.
Danny pegou sua guitarra, apressando o passo para acompanhar o ritmo confiante dela, sentindo que aquelas férias seriam tudo, menos tediosas.
O caminho até a única pousada da vila não era longo, mas a combinação de areia fofa, calor úmido e o sotaque confuso de Danny fez parecer uma pequena expedição. Ele carregava a guitarra como um escudo, enquanto Solene puxava a mala dele com uma facilidade que claramente feria o orgulho do músico britânico.
— Sabe, eu sou perfeitamente capaz de carregar as minhas próprias coisas — Danny disse, passando o braço livre pela testa para limpar o suor. — Em Londres, eu vou à academia. Às vezes.
— Claro que é capaz, inglês — Solene riu, sem diminuir o passo. O cabelo cacheado dela balançava conforme ela andava, imune ao mormaço que parecia estar derretendo Danny. — Mas se eu deixar você puxar isso, vamos levar três dias para chegar. E eu tenho mais o que fazer do que assistir a um astro do pop rock ter uma insolação na minha frente.
Danny parou de andar por um segundo, os olhos azuis arregalados em uma mistura de surpresa e diversão.
— Espera aí. — Ele ergueu a mão. — Você sabe quem eu sou?
Solene parou também, ela virou-se para ele, apoiando as duas mãos na alça da mala de rodinhas, e o encarou de cima a baixo com um sorriso desafiador.
— Você achou mesmo que o seu disfarce de "turista comum com uma mala de grife e uma case de guitarra" estava funcionando? — Ela soltou uma risada. — Minha prima mora em Boston e é obcecada pelo McFly desde os quinze anos. Eu reconheceria esses dentes tortos e esse cabelo bagunçado em qualquer lugar, Jones.
Danny soltou uma gargalhada alta, genuína, que espantou um bando de gaivotas que descansava perto dali. Ele adorou a falta de cerimônia dela. Em Londres ou nos palcos do mundo inteiro, as pessoas costumavam pisar em ovos perto dele, ou gritar até perder o fôlego. Solene só achava a situação toda engraçada.
— Justo. Muito justo — ele assentiu, dando dois passos rápidos para alcançá-la. — Mas, para o seu governo, meus dentes são charmosos. É uma marca registrada.
— Se você diz... — ela piscou para ele, retomando a caminhada. — Mas aqui em Saint Marina, ninguém liga para quantas vezes você tocou na Wembley Arena, Danny. Se você não souber negociar com o dono do bar ou se perder a hora do último barco, vai dormir na praia.
— Parece perfeito para mim — ele garantiu, e pela primeira vez em meses, estava sendo cem por cento sincero. Ele olhou para o mar turquesa e depois para o perfil bem-humorado de Solene. — Eu vim para cá justamente para esquecer os prazos, as redes sociais e as músicas que a gravadora quer que eu escreva. Quero só... ver o que acontece.
Solene diminuiu o ritmo, olhando para ele com uma seriedade leve, mas profunda.
— Então vamos fazer um trato, inglês. Haja sem mentiras e sem frescura. Você finge que é só um cara normal que não sabe andar na areia fofa, e eu finjo que acredito. Combinado?
Danny sorriu, sentindo uma faísca muito clara acender no peito.
A química entre eles foi instantânea.
— Combinado.
A Pousada de Saint Marina não tinha recepção com ar-condicionado, carpete ou homens de terno carregando as malas ou falando ao telefone. Era uma estrutura de dois andares de madeira pintada de um azul-piscina já descascado pelo sol e pelo sal, espremida entre uma fileira de coqueiros tortos e um pequeno restaurante que exalava um aroma forte de alho e peixe frito.
Solene empurrou a porta de tela contra mosquitos, que rangeu alto, e deixou a mala de Danny bater contra o chão de cimento queimado do saguão. Atrás do balcão de madeira rústica, um ventilador de teto de três pás girava em um ritmo tão lento que parecia estar prestes a desistir de funcionar.
— Tia Rosa! — Solene chamou, batendo a palma da mão no balcão. — O inglês chegou. E ele trouxe bagagem suficiente para passar um ano, embora só vá ficar por duas semanas.
Uma mulher de meia-idade, com um lenço colorido amarrado na cabeça e um sorriso imenso que mostrava um dente de ouro na lateral, surgiu de uma porta nos fundos. Ela limpou as mãos em um pano de prato e olhou para Danny com curiosidade, sem nenhuma timidez.
— Graças a Deus. Achei que o barco tivesse afundado com ele — Rosa falou, pegando uma chave pesada de metal pendurada em um quadro na parede. Ela olhou para os cabelos bagunçados de Danny e para o case da guitarra. — Você toca?
— Um pouco — Danny respondeu humilde, oferecendo um sorriso meio sem jeito enquanto tentava recuperar o fôlego. O suor colava a camiseta cinza nas suas costas. — Oi. Sou o Danny.
— Ele é famoso no resto do mundo, tia. Não cutuca muito senão ele chora — Solene provocou, empurrando a chave na mão de Danny. — Quarto número quatro. No andar de cima. E boa sorte com a pressão da água hoje.
Danny pegou a chave, sentindo o metal quente contra a palma da mão. Ele olhou para a escada de madeira que subia na lateral do prédio, depois para Solene.
— Você não vem me mostrar o palácio? Vai me abandonar com essa mala?
Solene cruzou os braços, encostando as costas no balcão de recepção. Havia um brilho divertido nos olhos escuros dela, uma avaliação constante que fazia Danny se sentir completamente exposto, mas de um jeito estranhamente bom.
— O trato era até a pousada, Jones. Daqui para a frente, você é um homem crescido. Mas... — Ela olhou para o topo da escada e depois para o estado deplorável do suor dele. — Eu quero ver a sua cara quando abrir a porta. Vou subir só para garantir que você não quebre nenhum móvel.
O quarto número quatro era exatamente o que Danny precisava, embora estivesse longe do que seus empresários costumavam reservar para ele. As paredes eram de alvenaria pintadas de branco, com uma única cama de casal coberta por um lençol limpo de algodão fino, uma cômoda de madeira escura e uma janela grande, sem vidro, apenas com venezianas de madeira abertas para o oceano. O som das ondas ali dentro era alto, quase como se o mar estivesse quebrando no canto do quarto.
Danny largou a guitarra com cuidado extremo, encostando-a na parede e desabou na cama. O colchão era firme, e o vento que entrava pela janela trouxe um alívio imediato para a pele quente.
— Deus abençoe o vento de Saint Marina — ele murmurou, fechando os olhos por três segundos antes de se sentar e encarar Solene, que havia ficado parada na porta, observando-o com os braços cruzados. — Então, é isso? Sem televisão? Sem frigobar?
— Se você quiser uma cerveja gelada, tem que descer até o bar do Pepe, na praia. E a televisão da ilha só pega dois canais, ambos em espanhol e imagem analógica. — Solene caminhou até a janela, apoiando as mãos no parapeito e olhando para o horizonte dourado. — É muito horrível para os seus padrões de astro do rock?
Danny levantou-se e caminhou até o lado dela. Ele era consideravelmente mais alto, e a proximidade permitiu que ele sentisse o cheiro atraente dela de óleo de coco natural e a maresia pura que parecia impregnada na pele de todos ali.
— Sendo bem sincero? — Ele olhou para o perfil dela, o sol de fim de tarde desenhando uma linha dourada no maxilar firme de Solene. — É o melhor quarto que eu já vi em toda a minha vida. Em Londres, os hotéis são cinzas. As janelas não abrem por causa do sistema de ar-condicionado. Você acorda e não sabe se são oito da manhã ou oito da noite. Aqui... Aqui tem vida.
Solene virou o rosto para ele, pega de surpresa pela falta de ironia na voz dele. A maioria dos turistas ricos que vinha para o lado menos explorado da ilha reclamava do calor, dos mosquitos ou da falta de gelo picado nos drinks. Danny parecia genuinamente aliviado por estar ali.
— Você estava mesmo sufocando lá do outro lado do mundo, não é? — A voz dela baixou para um tom mais suave, desprovido do deboche de antes.
Danny soltou o ar devagar, os ombros caindo.
— Mais do que eu gostaria de admitir. — Ele suspirou cansado. — Escrever música virou um trabalho de escritório. "Faça um refrão que viralize no TikTok", "escreva algo parecido com o último hit". Eu quase me esqueci como era o som de uma guitarra acústica sem ter dez produtores mexendo nos botões.
Solene estudou o rosto dele por um momento, os dentes levemente desalinhados que ela tinha mencionado no caminho, os olhos azuis que pareciam realmente cansados, mas intensamente vivos agora. Ela estendeu a mão e deu um tapinha firme, quase rude, no ombro dele, quebrando o clima sério com a facilidade de sempre.
— Então desfaz essa mala, toma um banho frio e me encontra no bar do Pepe daqui a uma hora. Se você for legal, eu te ensino a beber rum de verdade, e não essa água com açúcar que vocês tomam na Europa.
— É um encontro, Solene? — Danny sorriu de canto, as covinhas aparecendo.
— É apenas uma questão de caridade, Jones — ela rebateu, já se virando em direção à porta. — Não se atrase. O Pepe fecha o bar quando fica com sono, e ele é um homem muito preguiçoso.
A porta de tela bateu atrás dela, e Danny ficou parado sozinho no quarto, ouvindo o som do mar e sentindo o que não sentia há muito tempo: que a música em sua cabeça estava começando a fazer sentido de novo.
A água saía em um filete grosso, morna pelo calor que o encanamento de PVC absorvia do sol o dia todo, mas foi o suficiente para tirar de Danny a craca salgada do oceano e o cansaço acumulado de quase treze horas de voo. Ele se vestiu com uma camiseta preta larga, bermuda de sarja clara e calçou um par de chinelos que comprou no aeroporto, tentando desesperadamente se adaptar ao solo instável de Saint Marina.
Quando desceu os degraus de madeira da pousada, a noite já tinha caído de estalo, como costumava acontecer no Caribe. O céu não ficava cinza; passava direto de um dourado incandescente para um azul-marinho profundo, salpicado por tantas estrelas que Danny teve que parar no último degrau por alguns segundos apenas para olhar para cima. Em Londres, o céu noturno era um teto opaco de fumaça e poluição luminosa. Ali, parecia que alguém tinha rasgado o tecido do universo.
“Deus realmente é o maior Artista” ele pensou.
O bar do Pepe ficava a menos de cinquenta metros, literalmente enterrado na areia, era pouco mais que uma cabana de palha sustentada por troncos de madeira, iluminada por um varal de lâmpadas amarelas emaranhadas que piscavam de vez em quando. O som que vinha de lá não era o reggae turístico clichê, mas um ritmo percussivo rápido, tocado em caixas de plástico e violões de náilon por três caras sentados nos fundos.
Solene estava encostada no balcão, conversando em um espanhol rápido e gesticulado com um homem gordo de cabelos brancos e avental sujo — presumivelmente o tal Pepe. Ela tinha trocado o vestido por uma regata branca simples e um short jeans desfiado. O cabelo cacheado estava preso no alto da cabeça, deixando o pescoço longo e bonito à mostra.
Danny caminhou pela areia, os chinelos afundando a cada passo, fazendo mais barulho do que pretendia. Solene virou o rosto ao ouvi-lo chegar e abriu um sorriso largo.
— Olha só, ele sobreviveu à pressão da água — ela bateu palminhas, empurrando um copo baixo de vidro grosso na direção dele assim que Danny se aproximou. — E nem precisou de uma equipe de resgate.
— Quase morri afogado com o filete de água, confesso — Danny brincou, sentando-se em um dos caixotes de madeira que serviam de banqueta. Ele olhou para o líquido escuro no copo. — O que é isso?
— Rum da casa. O Pepe destila isso nos fundos da oficina dele. Se você sobreviver ao primeiro gole, se torna oficialmente cidadão temporário da ilha.
Danny pegou o copo, desconfiado.
Ele estava acostumado com os coquetéis doces e cheios de fita que serviam nas festas de lançamento em West End, sempre decorados com folhas de hortelã e fatias de limão perfeitamente cortadas. Aquilo ali parecia puro combustível de foguete. Ele olhou para Solene, que o encarava com expectativa divertida, e deu um gole generoso.
O líquido desceu queimando; não era uma queimação ruim, mas um calor intenso que começou na língua, passou pela garganta e pareceu explodir direto no estômago, deixando um retrogosto forte de melaço e madeira queimada. Danny tossiu uma vez, os olhos lacrimejando levemente, o que fez Solene e Pepe caírem na gargalhada.
— Ô cacete! — Danny conseguiu dizer, a voz uma oitava mais grave. Ele limpou a boca com as costas da mão, rindo junto. — Isso não é rum, é um teste de masculinidade.
— É rum de verdade, inglês — Solene rebateu, pegando o próprio copo e dando um gole longo, sem nem piscar. — Viu? Sem frescura. Foi pra isso que você veio, não foi? Para sentir as coisas de verdade?
Danny assentiu, o calor do álcool já relaxando os músculos do seu pescoço. Ele apoiou os cotovelos no balcão de madeira rústica, olhando para ela de lado. A iluminação amarela do varal de lâmpadas criava sombras bonitas nas curvas do rosto de Solene.
— É. Exatamente para isso — ele confirmou, a voz voltando ao tom normal, mais suave. — Sabe o que é mais estranho? Ninguém aqui parece se importar com o fato de eu estar aqui. No aeroporto do continente, duas garotas quase derrubaram a barreira de segurança. Aqui, o Pepe só me olhou como se eu fosse mais um cara que vai gastar dinheiro no bar dele.
— E você é — Solene afirmou com uma franqueza impressionante, mas sem nenhuma maldade. Ela virou o corpo para ficar de frente para ele, os olhos escuros brilhando fixos nos dele. — Danny, as pessoas aqui têm problemas reais. O motor do barco que quebra, a temporada de furacões que destrói o teto das casas, a energia que acaba no meio da noite. — Ela mexeu no próprio copo. — A gente não tem tempo pra se importar com quem está nas paradas de sucesso da Europa. Pra nós, você é só o Danny. Um cara meio desajeitado, que não sabe carregar uma mala na areia e que parece precisar desesperadamente de um amigo.
O comentário atingiu Danny direto no peito, mas não doeu; foi como um choque de realidade que ele não sabia que precisava. Ninguém falava com ele daquele jeito há anos. No mundo do McFly, ele era o Danny Jones, o guitarrista, compositor, o cara que precisava estar sempre sorrindo, sempre pronto para a próxima foto, sempre entregando o próximo hit.
Ali, Solene tinha desarmado toda a persona dele em duas frases.
— Você é sempre tão sincera assim? — ele perguntou, um sorriso de canto surgindo nos lábios.
— A vida é curta demais para mentir, Jones. Especialmente aqui — ela se inclinou um pouco mais perto, o cheiro de coco e maresia invadindo o espaço dele de novo. — Você vai ficar aqui por duas semanas. Depois volta para o seu mundo de arenas lotadas e pessoas gritando seu nome. Eu fico aqui, essa é a minha vida. Por que eu perderia tempo fingindo ser alguém que não sou, ou tratando você como se fosse um deus? Você sangra, você sua, e você quase quebrou a cara no meu cais. Somos iguais.
Danny olhou para ela, sentindo uma admiração profunda crescer no peito, a química pairando entre eles não era baseada em mistério ou tensão; era a eletricidade pura de duas pessoas que se enxergavam de verdade.
— Eu gosto disso — Danny admitiu, levantando o copo de rum em um brinde silencioso. — Gosto muito. Então, sem mentiras.
— Sem mentiras — ela repetiu, brindando o copo dela contra o dele com um estalo. — Agora, me conta, inglês... É verdade que você sabe tocar aquele violão ali no canto ou é só para impressionar as garotas nas praias da Europa?
Danny olhou para o violão de náilon velho, com o tampo riscado e uma corda visivelmente amarrada de um jeito improvisado, encostado perto dos percussionistas nos fundos do bar.
Suas mãos começaram a coçar imediatamente.
— Me dá mais meio copo desse veneno do Pepe e eu te mostro o que um garoto de Bolton sabe fazer com seis cordas velhas — ele desafiou, suas covinhas ganhando mais evidência.
Pepe soltou uma risada ruidosa, batendo com a garrafa de vidro escuro no balcão e enchendo o copo de Danny até a borda. Solene apenas estendeu o braço, pegou o copo e o entregou a ele, os olhos semicerrados em um desafio silencioso. Danny não hesitou. Virou metade do líquido de uma vez, sentindo o peito queimar com força total, e piscou para ela antes de se levantar do caixote.
Os três músicos locais nos fundos do bar pararam de tocar quando viram o homem branco, alto e de cabelos bagunçados se aproximar. O que segurava o violão velho, um senhor de pele marcada pelo sol chamado Juan, olhou para Danny com uma mistura de curiosidade e ceticismo.
— ¿Quieres tocar, inglês? — Juan perguntou, a voz melodiosa, estendendo o instrumento. — Yeah. Please. Gracias — Danny respondeu com seu espanhol meia-boca, pegando o violão pelo braço.
O instrumento era leve demais, parecia um brinquedo, e o acabamento em verniz estava descascando nas bordas. Quando Danny passou o polegar pelas cordas, o som saiu opaco, completamente desafinado. Ele se sentou em uma cadeira de plástico vazia, girou o corpo na direção do balcão onde Solene o assistia com os braços cruzados, ele ajustou o brinco na orelha, puxando pela memória a afinação que usava quando moleque em Bolton.
Os percussionistas trocaram olhares bem-humorados, esperando o fiasco do turista.
Danny limpou a garganta.
Ele não tentou tocar nenhum hit de sua banda; aquela estrutura pop redonda não faria sentido ali. Em vez disso, seus dedos longos atacaram as cordas com uma batida percussiva e pesada, usando a palma da mão para abafar o som no tampo de madeira, criando um groove de blues misturado com folk animado. A corda de náilon mais grave vibrou com força, ganhando corpo no ambiente aberto.
Juan ergueu as sobrancelhas, reconhecendo que o cara britânico tinha ritmo.
Danny fechou os olhos e começou a cantar.
Sua voz, naturalmente rouca e potente, cortou o som da arrebentação das ondas; não era o canto polido de estúdio; era natural, vibrante, rasgado pelo rum de Pepe. Ele improvisou uma melodia em cima de uma progressão de acordes aberta, deixando o ritmo guiar seus dedos.
Em questão de segundos, o homem que tocava o bongo de plástico começou a acompanhar a batida de Danny, encaixando um contratempo caribenho perfeito sob o folk britânico. Juan começou a estalar os dedos, sorrindo de orelha a orelha.
No balcão, Solene sentiu um arrepio sutil subir pelos braços.
Ela já tinha visto vídeos dele no palco, pulando com a inseparável guitarra elétrica diante de sessenta mil pessoas, mas vê-lo ali, sob as luzes amarelas de um varal de lâmpadas, extraindo alma daquele pedaço de madeira velho e quebrado era diferente e hipnotizante. Ele não estava se apresentando para um público, ele estava conversando com a ilha através das cordas.
Danny abriu os olhos no meio de um refrão improvisado e mirou direto em Solene. Ele sustentou o olhar, as covinhas aparecendo de leve enquanto mudava o tom da música, deixando-a mais calorosa, mais síncope. Solene não desviou o olhar. Ela começou a balançar os ombros no ritmo da música, um sorriso genuíno e aberto iluminando seu rosto.
Quando a música terminou com um acorde aberto e vibrante que ecoou até a praia, Pepe bateu com uma palma pesada no balcão, e os três músicos locais começaram a rir e a dar tapinhas nas costas de Danny.
— ¡Buenísimo, inglês! ¡Buenísimo! — Juan exclamou, pegando o violão de volta com um respeito totalmente novo.
Danny se levantou, agradecendo com acenos de cabeça, o rosto brilhando de suor e adrenalina. Ele caminhou de volta para o balcão do bar, os chinelos arrastando na areia, e desabou no caixote de madeira ao lado de Solene, suas mãos ainda tremiam de leve pela descarga de energia.
— E aí? — ele perguntou, arfando um pouco, pegando o copo de rum para apagar a sede. — Passei no teste ou vou ter que dormir na praia?
Solene o encarou por um longo momento.
A diversão irônica ainda estava lá, mas havia uma camada nova de admiração nos olhos dela que ela não fez questão nenhuma de esconder; se inclinou para perto dele, apoiando o queixo na mão.
— Você é exibido, Jones. Muito exibido.
— É o meu trabalho — ele riu, dando um gole no rum.
— Não, o que você faz no palco é trabalho. O que você acabou de fazer ali... — Solene apontou com a cabeça para os músicos, que já retomavam o próprio ritmo, agora inspirados pela energia que Danny tinha deixado. — Aquilo foi sensacional. Você se transforma quando toca, sabia? Deixa de ser o britânico rockstar que tropeça nas malas e vira... outra coisa.
Danny olhou para o copo de vidro grosso, tocando a borda com o polegar, o pensamento de sua rotina em Londres veio à mente trazendo as cobranças da gravadora, os prazos contratuais, as obrigações de sua agenda, tudo parecia ter ficado do outro lado do oceano.
— Eu não me sentia assim há uns cinco anos, Solene — ele confessou, olhando nos olhos dela com aquela sinceridade absoluta que os dois tinham acordado minutos antes. — Sem fones de ouvido, sem cliques de metrônomo no meu ouvido, sem um diretor de vídeo me dizendo para onde olhar. Só a madeira, as cordas e alguém assistindo.
Solene estendeu a mão e, de um jeito surpreendentemente terno, tocou o antebraço dele. A pele dela estava quente, e o toque causou uma faísca imediata entre os dois.
— Então aproveita, Danny. — Seu tom era acolhedor e suave, então ela sorriu e mudou a expressão. — Porque amanhã cedo eu vou quebrar as suas pernas na lancha. Vou te levar para o lado norte da ilha e você vai ter que me ajudar a carregar as caixas de peixe se quiser comer.
Danny soltou uma gargalhada alta, deixando a cabeça pender para trás. Ele olhou para ela, o coração batendo rápido, e soube naquele instante que as duas semanas em Saint Marina mudariam sua vida para sempre.
— Eu mudo o meu nome se eu não carregar mais caixas do que você, Solene Morales.
— É uma aposta, inglês? — ela semicerrou os olhos, o sorriso desafiador voltando com força total.
— É uma promessa.

