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LongficÓrbita Criativa

Summer Notes

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1: SAINT MARINA


O motor de popa da lancha velha de Solene deu um último engasgo antes de morrer por completo, bem na beirada do cais flutuante de Saint Marina. Ela limpou o suor da testa com as costas da mão, praguejando baixinho contra a mecânica da ilha, e amarrou a corda grossa no píer com a agilidade de quem fazia aquilo desde que aprendeu a andar.

Foi quando o catamarã vindo do continente atracou logo ao lado, despejando uma quantidade previsível de turistas queimados de sol. Mas um deles chamou sua atenção. Não pelo visual, mas pelo quase desastre.

O cara era alto, tinha os cabelos castanhos bagunçados pelo vento marinho e tentava equilibrar, ao mesmo tempo, uma mala de rodinhas que nitidamente não foi feita para andar na areia e uma capa rígida de guitarra que ele segurava como se fosse um recém-nascido.

Ao tentar dar o passo do barco para a madeira molhada do cais, a rodinha da mala travou. Ele deu uma escorregada nem um pouco elegante, os braços girando no ar como moinhos de vento.

— Cuidado! — Solene gritou, instintivamente dando um passo à frente.

Com um baque surdo, o homem desabou de joelhos no cais. A mala rolou de lado, mas a guitarra permaneceu intacta, erguida para o alto como um troféu salvo do naufrágio. Ele soltou um gemido dolorido, mas logo olhou para o instrumento com alívio.

— Ela está viva — ele anunciou para ninguém em especial, com um sotaque britânico carregado, a voz rouca e surpreendentemente bem-humorada para quem quase quebrou a cara. — Meu pescoço também está intacto, Graças a Deus.

Solene caminhou até ele, parando com as mãos nos quadris, uma sobrancelha arqueada e um sorriso divertido brincando nos lábios.

— É bom saber que a madeira está inteira. O seu joelho eu já não tenho tanta certeza.

Danny Jones ergueu os olhos, piscando contra a claridade forte do Caribe. A primeira coisa que viu foi aquela mulher de sorriso franco, pele dourada pelo sol e um olhar que parecia ler toda a sua falta de jeito em um segundo. Ele soltou uma risada, estendendo a mão livre para ela enquanto ainda estava ajoelhado.

— Danny. E, honestamente? Acho que o cais sofreu mais danos do que eu.

Solene segurou a mão dele, puxando-o para cima com mais força do que ele esperava de alguém tão esguia.

— Solene. E um conselho para os seus próximos cinco minutos na ilha, Danny: largue a mala. Ninguém usa rodinhas na areia por aqui. É uma batalha perdida.

Danny olhou para a mala de grife capotada, depois para os próprios pés calçando tênis que já pareciam quentes demais para os trinta e cinco graus de Saint Marina. Ele passou a mão pelo cabelo, rindo de si mesmo.

— Notei isso um pouco tarde. Eu achei que "resort ecológico" fosse só um codinome chique para ar-condicionado potente e calçadas de mármore.

— Você errou feio — Solene rebateu, pegando a alça da mala dele antes que ele protestasse e começando a puxá-la pela parte funcional, mostrando o caminho. — Aqui o luxo é a água quente funcionar depois das oito da noite. Vamos, inglês. Antes que você derreta no meu cais.

Danny pegou sua guitarra, apressando o passo para acompanhar o ritmo confiante dela, sentindo que aquelas férias seriam tudo, menos tediosas.

☀️🏝️🌊🎸🎶


O caminho até a única pousada da vila não era longo, mas a combinação de areia fofa, calor úmido e o sotaque confuso de Danny fez parecer uma pequena expedição. Ele carregava a guitarra como um escudo, enquanto Solene puxava a mala dele com uma facilidade que claramente feria o orgulho do músico britânico.

— Sabe, eu sou perfeitamente capaz de carregar as minhas próprias coisas — Danny disse, passando o braço livre pela testa para limpar o suor. — Em Londres, eu vou à academia. Às vezes.

— Claro que é capaz, inglês — Solene riu, sem diminuir o passo. O cabelo cacheado dela balançava conforme ela andava, imune ao mormaço que parecia estar derretendo Danny. — Mas se eu deixar você puxar isso, vamos levar três dias para chegar. E eu tenho mais o que fazer do que assistir a um astro do pop rock ter uma insolação na minha frente.

Danny parou de andar por um segundo, os olhos azuis arregalados em uma mistura de surpresa e diversão.

— Espera aí. — Ele ergueu a mão. — Você sabe quem eu sou?

Solene parou também, ela virou-se para ele, apoiando as duas mãos na alça da mala de rodinhas, e o encarou de cima a baixo com um sorriso desafiador.

— Você achou mesmo que o seu disfarce de "turista comum com uma mala de grife e uma case de guitarra" estava funcionando? — Ela soltou uma risada. — Minha prima mora em Boston e é obcecada pelo McFly desde os quinze anos. Eu reconheceria esses dentes tortos e esse cabelo bagunçado em qualquer lugar, Jones.

Danny soltou uma gargalhada alta, genuína, que espantou um bando de gaivotas que descansava perto dali. Ele adorou a falta de cerimônia dela. Em Londres ou nos palcos do mundo inteiro, as pessoas costumavam pisar em ovos perto dele, ou gritar até perder o fôlego. Solene só achava a situação toda engraçada.

— Justo. Muito justo — ele assentiu, dando dois passos rápidos para alcançá-la. — Mas, para o seu governo, meus dentes são charmosos. É uma marca registrada.

— Se você diz... — ela piscou para ele, retomando a caminhada. — Mas aqui em Saint Marina, ninguém liga para quantas vezes você tocou na Wembley Arena, Danny. Se você não souber negociar com o dono do bar ou se perder a hora do último barco, vai dormir na praia.

— Parece perfeito para mim — ele garantiu, e pela primeira vez em meses, estava sendo cem por cento sincero. Ele olhou para o mar turquesa e depois para o perfil bem-humorado de Solene. — Eu vim para cá justamente para esquecer os prazos, as redes sociais e as músicas que a gravadora quer que eu escreva. Quero só... ver o que acontece.

Solene diminuiu o ritmo, olhando para ele com uma seriedade leve, mas profunda.

— Então vamos fazer um trato, inglês. Haja sem mentiras e sem frescura. Você finge que é só um cara normal que não sabe andar na areia fofa, e eu finjo que acredito. Combinado?

Danny sorriu, sentindo uma faísca muito clara acender no peito.

A química entre eles foi instantânea.

— Combinado.

☀️🏝️🌊🎸🎶


A Pousada de Saint Marina não tinha recepção com ar-condicionado, carpete ou homens de terno carregando as malas ou falando ao telefone. Era uma estrutura de dois andares de madeira pintada de um azul-piscina já descascado pelo sol e pelo sal, espremida entre uma fileira de coqueiros tortos e um pequeno restaurante que exalava um aroma forte de alho e peixe frito.

Solene empurrou a porta de tela contra mosquitos, que rangeu alto, e deixou a mala de Danny bater contra o chão de cimento queimado do saguão. Atrás do balcão de madeira rústica, um ventilador de teto de três pás girava em um ritmo tão lento que parecia estar prestes a desistir de funcionar.

— Tia Rosa! — Solene chamou, batendo a palma da mão no balcão. — O inglês chegou. E ele trouxe bagagem suficiente para passar um ano, embora só vá ficar por duas semanas.

Uma mulher de meia-idade, com um lenço colorido amarrado na cabeça e um sorriso imenso que mostrava um dente de ouro na lateral, surgiu de uma porta nos fundos. Ela limpou as mãos em um pano de prato e olhou para Danny com curiosidade, sem nenhuma timidez.

— Graças a Deus. Achei que o barco tivesse afundado com ele — Rosa falou, pegando uma chave pesada de metal pendurada em um quadro na parede. Ela olhou para os cabelos bagunçados de Danny e para o case da guitarra. — Você toca?

— Um pouco — Danny respondeu humilde, oferecendo um sorriso meio sem jeito enquanto tentava recuperar o fôlego. O suor colava a camiseta cinza nas suas costas. — Oi. Sou o Danny.

— Ele é famoso no resto do mundo, tia. Não cutuca muito senão ele chora — Solene provocou, empurrando a chave na mão de Danny. — Quarto número quatro. No andar de cima. E boa sorte com a pressão da água hoje.

Danny pegou a chave, sentindo o metal quente contra a palma da mão. Ele olhou para a escada de madeira que subia na lateral do prédio, depois para Solene.

— Você não vem me mostrar o palácio? Vai me abandonar com essa mala?

Solene cruzou os braços, encostando as costas no balcão de recepção. Havia um brilho divertido nos olhos escuros dela, uma avaliação constante que fazia Danny se sentir completamente exposto, mas de um jeito estranhamente bom.

— O trato era até a pousada, Jones. Daqui para a frente, você é um homem crescido. Mas... — Ela olhou para o topo da escada e depois para o estado deplorável do suor dele. — Eu quero ver a sua cara quando abrir a porta. Vou subir só para garantir que você não quebre nenhum móvel.

O quarto número quatro era exatamente o que Danny precisava, embora estivesse longe do que seus empresários costumavam reservar para ele. As paredes eram de alvenaria pintadas de branco, com uma única cama de casal coberta por um lençol limpo de algodão fino, uma cômoda de madeira escura e uma janela grande, sem vidro, apenas com venezianas de madeira abertas para o oceano. O som das ondas ali dentro era alto, quase como se o mar estivesse quebrando no canto do quarto.

Danny largou a guitarra com cuidado extremo, encostando-a na parede e desabou na cama. O colchão era firme, e o vento que entrava pela janela trouxe um alívio imediato para a pele quente.

— Deus abençoe o vento de Saint Marina — ele murmurou, fechando os olhos por três segundos antes de se sentar e encarar Solene, que havia ficado parada na porta, observando-o com os braços cruzados. — Então, é isso? Sem televisão? Sem frigobar?

— Se você quiser uma cerveja gelada, tem que descer até o bar do Pepe, na praia. E a televisão da ilha só pega dois canais, ambos em espanhol e imagem analógica. — Solene caminhou até a janela, apoiando as mãos no parapeito e olhando para o horizonte dourado. — É muito horrível para os seus padrões de astro do rock?

Danny levantou-se e caminhou até o lado dela. Ele era consideravelmente mais alto, e a proximidade permitiu que ele sentisse o cheiro atraente dela de óleo de coco natural e a maresia pura que parecia impregnada na pele de todos ali.

— Sendo bem sincero? — Ele olhou para o perfil dela, o sol de fim de tarde desenhando uma linha dourada no maxilar firme de Solene. — É o melhor quarto que eu já vi em toda a minha vida. Em Londres, os hotéis são cinzas. As janelas não abrem por causa do sistema de ar-condicionado. Você acorda e não sabe se são oito da manhã ou oito da noite. Aqui... Aqui tem vida.

Solene virou o rosto para ele, pega de surpresa pela falta de ironia na voz dele. A maioria dos turistas ricos que vinha para o lado menos explorado da ilha reclamava do calor, dos mosquitos ou da falta de gelo picado nos drinks. Danny parecia genuinamente aliviado por estar ali.

— Você estava mesmo sufocando lá do outro lado do mundo, não é? — A voz dela baixou para um tom mais suave, desprovido do deboche de antes.

Danny soltou o ar devagar, os ombros caindo.

— Mais do que eu gostaria de admitir. — Ele suspirou cansado. — Escrever música virou um trabalho de escritório. "Faça um refrão que viralize no TikTok", "escreva algo parecido com o último hit". Eu quase me esqueci como era o som de uma guitarra acústica sem ter dez produtores mexendo nos botões.

Solene estudou o rosto dele por um momento, os dentes levemente desalinhados que ela tinha mencionado no caminho, os olhos azuis que pareciam realmente cansados, mas intensamente vivos agora. Ela estendeu a mão e deu um tapinha firme, quase rude, no ombro dele, quebrando o clima sério com a facilidade de sempre.

— Então desfaz essa mala, toma um banho frio e me encontra no bar do Pepe daqui a uma hora. Se você for legal, eu te ensino a beber rum de verdade, e não essa água com açúcar que vocês tomam na Europa.

— É um encontro, Solene? — Danny sorriu de canto, as covinhas aparecendo.

— É apenas uma questão de caridade, Jones — ela rebateu, já se virando em direção à porta. — Não se atrase. O Pepe fecha o bar quando fica com sono, e ele é um homem muito preguiçoso.

A porta de tela bateu atrás dela, e Danny ficou parado sozinho no quarto, ouvindo o som do mar e sentindo o que não sentia há muito tempo: que a música em sua cabeça estava começando a fazer sentido de novo.

☀️🏝️🌊🎸🎶

2: VENENO DO PEPE

O chuveiro do quarto número quatro não tinha meio-termo.

A água saía em um filete grosso, morna pelo calor que o encanamento de PVC absorvia do sol o dia todo, mas foi o suficiente para tirar de Danny a craca salgada do oceano e o cansaço acumulado de quase treze horas de voo. Ele se vestiu com uma camiseta preta larga, bermuda de sarja clara e calçou um par de chinelos que comprou no aeroporto, tentando desesperadamente se adaptar ao solo instável de Saint Marina.

Quando desceu os degraus de madeira da pousada, a noite já tinha caído de estalo, como costumava acontecer no Caribe. O céu não ficava cinza; passava direto de um dourado incandescente para um azul-marinho profundo, salpicado por tantas estrelas que Danny teve que parar no último degrau por alguns segundos apenas para olhar para cima. Em Londres, o céu noturno era um teto opaco de fumaça e poluição luminosa. Ali, parecia que alguém tinha rasgado o tecido do universo.

“Deus realmente é o maior Artista” ele pensou.

O bar do Pepe ficava a menos de cinquenta metros, literalmente enterrado na areia, era pouco mais que uma cabana de palha sustentada por troncos de madeira, iluminada por um varal de lâmpadas amarelas emaranhadas que piscavam de vez em quando. O som que vinha de lá não era o reggae turístico clichê, mas um ritmo percussivo rápido, tocado em caixas de plástico e violões de náilon por três caras sentados nos fundos.

Solene estava encostada no balcão, conversando em um espanhol rápido e gesticulado com um homem gordo de cabelos brancos e avental sujo — presumivelmente o tal Pepe. Ela tinha trocado o vestido por uma regata branca simples e um short jeans desfiado. O cabelo cacheado estava preso no alto da cabeça, deixando o pescoço longo e bonito à mostra.

Danny caminhou pela areia, os chinelos afundando a cada passo, fazendo mais barulho do que pretendia. Solene virou o rosto ao ouvi-lo chegar e abriu um sorriso largo.

— Olha só, ele sobreviveu à pressão da água — ela bateu palminhas, empurrando um copo baixo de vidro grosso na direção dele assim que Danny se aproximou. — E nem precisou de uma equipe de resgate.

— Quase morri afogado com o filete de água, confesso — Danny brincou, sentando-se em um dos caixotes de madeira que serviam de banqueta. Ele olhou para o líquido escuro no copo. — O que é isso?

— Rum da casa. O Pepe destila isso nos fundos da oficina dele. Se você sobreviver ao primeiro gole, se torna oficialmente cidadão temporário da ilha.

Danny pegou o copo, desconfiado.

Ele estava acostumado com os coquetéis doces e cheios de fita que serviam nas festas de lançamento em West End, sempre decorados com folhas de hortelã e fatias de limão perfeitamente cortadas. Aquilo ali parecia puro combustível de foguete. Ele olhou para Solene, que o encarava com expectativa divertida, e deu um gole generoso.

O líquido desceu queimando; não era uma queimação ruim, mas um calor intenso que começou na língua, passou pela garganta e pareceu explodir direto no estômago, deixando um retrogosto forte de melaço e madeira queimada. Danny tossiu uma vez, os olhos lacrimejando levemente, o que fez Solene e Pepe caírem na gargalhada.

— Ô cacete! — Danny conseguiu dizer, a voz uma oitava mais grave. Ele limpou a boca com as costas da mão, rindo junto. — Isso não é rum, é um teste de masculinidade.

— É rum de verdade, inglês — Solene rebateu, pegando o próprio copo e dando um gole longo, sem nem piscar. — Viu? Sem frescura. Foi pra isso que você veio, não foi? Para sentir as coisas de verdade?

Danny assentiu, o calor do álcool já relaxando os músculos do seu pescoço. Ele apoiou os cotovelos no balcão de madeira rústica, olhando para ela de lado. A iluminação amarela do varal de lâmpadas criava sombras bonitas nas curvas do rosto de Solene.

— É. Exatamente para isso — ele confirmou, a voz voltando ao tom normal, mais suave. — Sabe o que é mais estranho? Ninguém aqui parece se importar com o fato de eu estar aqui. No aeroporto do continente, duas garotas quase derrubaram a barreira de segurança. Aqui, o Pepe só me olhou como se eu fosse mais um cara que vai gastar dinheiro no bar dele.

— E você é — Solene afirmou com uma franqueza impressionante, mas sem nenhuma maldade. Ela virou o corpo para ficar de frente para ele, os olhos escuros brilhando fixos nos dele. — Danny, as pessoas aqui têm problemas reais. O motor do barco que quebra, a temporada de furacões que destrói o teto das casas, a energia que acaba no meio da noite. — Ela mexeu no próprio copo. — A gente não tem tempo pra se importar com quem está nas paradas de sucesso da Europa. Pra nós, você é só o Danny. Um cara meio desajeitado, que não sabe carregar uma mala na areia e que parece precisar desesperadamente de um amigo.

O comentário atingiu Danny direto no peito, mas não doeu; foi como um choque de realidade que ele não sabia que precisava. Ninguém falava com ele daquele jeito há anos. No mundo do McFly, ele era o Danny Jones, o guitarrista, compositor, o cara que precisava estar sempre sorrindo, sempre pronto para a próxima foto, sempre entregando o próximo hit.

Ali, Solene tinha desarmado toda a persona dele em duas frases.

— Você é sempre tão sincera assim? — ele perguntou, um sorriso de canto surgindo nos lábios.

— A vida é curta demais para mentir, Jones. Especialmente aqui — ela se inclinou um pouco mais perto, o cheiro de coco e maresia invadindo o espaço dele de novo. — Você vai ficar aqui por duas semanas. Depois volta para o seu mundo de arenas lotadas e pessoas gritando seu nome. Eu fico aqui, essa é a minha vida. Por que eu perderia tempo fingindo ser alguém que não sou, ou tratando você como se fosse um deus? Você sangra, você sua, e você quase quebrou a cara no meu cais. Somos iguais.

Danny olhou para ela, sentindo uma admiração profunda crescer no peito, a química pairando entre eles não era baseada em mistério ou tensão; era a eletricidade pura de duas pessoas que se enxergavam de verdade.

— Eu gosto disso — Danny admitiu, levantando o copo de rum em um brinde silencioso. — Gosto muito. Então, sem mentiras.

— Sem mentiras — ela repetiu, brindando o copo dela contra o dele com um estalo. — Agora, me conta, inglês... É verdade que você sabe tocar aquele violão ali no canto ou é só para impressionar as garotas nas praias da Europa?

Danny olhou para o violão de náilon velho, com o tampo riscado e uma corda visivelmente amarrada de um jeito improvisado, encostado perto dos percussionistas nos fundos do bar.

Suas mãos começaram a coçar imediatamente.

— Me dá mais meio copo desse veneno do Pepe e eu te mostro o que um garoto de Bolton sabe fazer com seis cordas velhas — ele desafiou, suas covinhas ganhando mais evidência.

Pepe soltou uma risada ruidosa, batendo com a garrafa de vidro escuro no balcão e enchendo o copo de Danny até a borda. Solene apenas estendeu o braço, pegou o copo e o entregou a ele, os olhos semicerrados em um desafio silencioso. Danny não hesitou. Virou metade do líquido de uma vez, sentindo o peito queimar com força total, e piscou para ela antes de se levantar do caixote.

Os três músicos locais nos fundos do bar pararam de tocar quando viram o homem branco, alto e de cabelos bagunçados se aproximar. O que segurava o violão velho, um senhor de pele marcada pelo sol chamado Juan, olhou para Danny com uma mistura de curiosidade e ceticismo.

¿Quieres tocar, inglês? — Juan perguntou, a voz melodiosa, estendendo o instrumento. — Yeah. Please. Gracias — Danny respondeu com seu espanhol meia-boca, pegando o violão pelo braço.

O instrumento era leve demais, parecia um brinquedo, e o acabamento em verniz estava descascando nas bordas. Quando Danny passou o polegar pelas cordas, o som saiu opaco, completamente desafinado. Ele se sentou em uma cadeira de plástico vazia, girou o corpo na direção do balcão onde Solene o assistia com os braços cruzados, ele ajustou o brinco na orelha, puxando pela memória a afinação que usava quando moleque em Bolton.

Os percussionistas trocaram olhares bem-humorados, esperando o fiasco do turista.

Danny limpou a garganta.

Ele não tentou tocar nenhum hit de sua banda; aquela estrutura pop redonda não faria sentido ali. Em vez disso, seus dedos longos atacaram as cordas com uma batida percussiva e pesada, usando a palma da mão para abafar o som no tampo de madeira, criando um groove de blues misturado com folk animado. A corda de náilon mais grave vibrou com força, ganhando corpo no ambiente aberto.

Juan ergueu as sobrancelhas, reconhecendo que o cara britânico tinha ritmo.

Danny fechou os olhos e começou a cantar.

Sua voz, naturalmente rouca e potente, cortou o som da arrebentação das ondas; não era o canto polido de estúdio; era natural, vibrante, rasgado pelo rum de Pepe. Ele improvisou uma melodia em cima de uma progressão de acordes aberta, deixando o ritmo guiar seus dedos.

Em questão de segundos, o homem que tocava o bongo de plástico começou a acompanhar a batida de Danny, encaixando um contratempo caribenho perfeito sob o folk britânico. Juan começou a estalar os dedos, sorrindo de orelha a orelha.

No balcão, Solene sentiu um arrepio sutil subir pelos braços.

Ela já tinha visto vídeos dele no palco, pulando com a inseparável guitarra elétrica diante de sessenta mil pessoas, mas vê-lo ali, sob as luzes amarelas de um varal de lâmpadas, extraindo alma daquele pedaço de madeira velho e quebrado era diferente e hipnotizante. Ele não estava se apresentando para um público, ele estava conversando com a ilha através das cordas.

Danny abriu os olhos no meio de um refrão improvisado e mirou direto em Solene. Ele sustentou o olhar, as covinhas aparecendo de leve enquanto mudava o tom da música, deixando-a mais calorosa, mais síncope. Solene não desviou o olhar. Ela começou a balançar os ombros no ritmo da música, um sorriso genuíno e aberto iluminando seu rosto.

Quando a música terminou com um acorde aberto e vibrante que ecoou até a praia, Pepe bateu com uma palma pesada no balcão, e os três músicos locais começaram a rir e a dar tapinhas nas costas de Danny.

¡Buenísimo, inglês! ¡Buenísimo! — Juan exclamou, pegando o violão de volta com um respeito totalmente novo.

Danny se levantou, agradecendo com acenos de cabeça, o rosto brilhando de suor e adrenalina. Ele caminhou de volta para o balcão do bar, os chinelos arrastando na areia, e desabou no caixote de madeira ao lado de Solene, suas mãos ainda tremiam de leve pela descarga de energia.

— E aí? — ele perguntou, arfando um pouco, pegando o copo de rum para apagar a sede. — Passei no teste ou vou ter que dormir na praia?

Solene o encarou por um longo momento.

A diversão irônica ainda estava lá, mas havia uma camada nova de admiração nos olhos dela que ela não fez questão nenhuma de esconder; se inclinou para perto dele, apoiando o queixo na mão.

— Você é exibido, Jones. Muito exibido.

— É o meu trabalho — ele riu, dando um gole no rum.

— Não, o que você faz no palco é trabalho. O que você acabou de fazer ali... — Solene apontou com a cabeça para os músicos, que já retomavam o próprio ritmo, agora inspirados pela energia que Danny tinha deixado. — Aquilo foi sensacional. Você se transforma quando toca, sabia? Deixa de ser o britânico rockstar que tropeça nas malas e vira... outra coisa.

Danny olhou para o copo de vidro grosso, tocando a borda com o polegar, o pensamento de sua rotina em Londres veio à mente trazendo as cobranças da gravadora, os prazos contratuais, as obrigações de sua agenda, tudo parecia ter ficado do outro lado do oceano.

— Eu não me sentia assim há uns cinco anos, Solene — ele confessou, olhando nos olhos dela com aquela sinceridade absoluta que os dois tinham acordado minutos antes. — Sem fones de ouvido, sem cliques de metrônomo no meu ouvido, sem um diretor de vídeo me dizendo para onde olhar. Só a madeira, as cordas e alguém assistindo.

Solene estendeu a mão e, de um jeito surpreendentemente terno, tocou o antebraço dele. A pele dela estava quente, e o toque causou uma faísca imediata entre os dois.

— Então aproveita, Danny. — Seu tom era acolhedor e suave, então ela sorriu e mudou a expressão. — Porque amanhã cedo eu vou quebrar as suas pernas na lancha. Vou te levar para o lado norte da ilha e você vai ter que me ajudar a carregar as caixas de peixe se quiser comer.

Danny soltou uma gargalhada alta, deixando a cabeça pender para trás. Ele olhou para ela, o coração batendo rápido, e soube naquele instante que as duas semanas em Saint Marina mudariam sua vida para sempre.

— Eu mudo o meu nome se eu não carregar mais caixas do que você, Solene Morales.

— É uma aposta, inglês? — ela semicerrou os olhos, o sorriso desafiador voltando com força total.

— É uma promessa.

3: ENSEADA DAS TARTARUGAS

Se o rum do Pepe era um teste de masculinidade, o amanhecer em Saint Marina era um teste de pura sobrevivência.

Danny acordou antes do despertador do celular, não por disciplina, mas porque um bando de pássaros barulhentos decidiram fazer uma assembléia bem na palmeira em frente à sua janela.

Ele abriu minimamente apenas um olho, rolou na cama, sentindo a cabeça latejar levemente, trazendo uma lembrança “carinhosa” da destilação clandestina da noite anterior. Quando abriu os olhos de verdade, a luz do sol já entrava pelas venezianas, cortando o quarto em fatias quentes pelas frestas. Ele bufou, sentou-se na beirada da cama e passou as mãos pelo rosto.

— Seis da manhã. Bloody hell, Jones... O que você foi inventar? — resmungou para si mesmo.

Dez minutos depois, ele desceu as escadas da pousada vestindo uma regata velha da sua banda que tinha trazido para usar de pijama, shorts d'água e os infames chinelos. Quando pisou na areia da praia, encontrou Solene. Ela parecia um anúncio vivo de saúde e disposição. Estava de pé no cais, prendendo os longos cabelos cacheados em um coque alto enquanto usava o pé para empurrar uma caixa de plástico vazia para dentro da lancha.

Ela olhou sobre o ombro e soltou um assobio longo quando o viu se aproximar com os olhos semicerrados contra a claridade.

— Olha só quem apareceu. Achei que o veneno do Pepe tinha te derrubado. — Sorriu, movendo o pescoço. — Quer dormir mais um pouco?

— Eu sou um homem de palavra, Solene — Danny fungou o ar praieiro da manhã, a voz ainda meio rouca de sono. Ele subiu no cais flutuante, que balançou sob seus pés, fazendo-o se segurar no poste de amarração em um reflexo rápido. — E para o seu governo, eu me sinto ótimo. Só preciso de três litros de café preto.

Solene soltou uma risada que Danny já estava começando a acreditar que era o som mais bonito daquela ilha. Ela pegou uma garrafa térmica escura que estava no chão do barco e estendeu para ele.

— Bebe. É café com especiarias, o Pepe que faz. Ele sabia que você ia precisar.

Danny aceitou a garrafa com rapidez, preenchendo a tampinha que servia de copo. O líquido era forte, doce e tinha um toque picante de canela e gengibre que foi o suficiente para dar um susto em seu sistema central. Ele soltou um suspiro de alívio.

— Certo. Estou vivo. Onde estão os peixes? — olhou de um lado para o outro, procurando.

Solene sorriu.

— Primeiro, a gente tem que chegar até o barco do meu tio no norte da ilha — ela explicou, pulando para dentro da lancha com uma agilidade invejável. — Sobe aí, inglês. E segura em alguma coisa.

Danny pulou para o barco, desajeitado como sempre, quase caindo em cima das caixas de plástico. Ele se acomodou no banco de metal da frente, enquanto Solene assumia o controle do motor de popa. Ela puxou a corda do motor uma vez. O mecanismo deu um engasgo e morreu. Ela puxou a segunda vez, com mais força, e apenas um som do motor raspando ecoou pela praia vazia.

Solene soltou uma sequência de palavrões em espanhol que Danny não entendeu, mas o tom não deixava dúvidas sobre o significado. Ela bateu com a palma da mão com força na carcaça de plástico do motor.

— Vamos, sua lata de lixo velha! No pases pena delante del turista hoy!

Ela grunhiu frustrada.

— Quer que eu tente? — Danny ofereceu, levantando-se. — Eu mexia muito em cortador de grama com o meu pai em Bolton. Basicamente a mesma tecnologia, só que sem a parte da água.

Solene arqueou uma sobrancelha, duvidando, mas deu um passo para o lado, cruzando os braços.

— Vai em frente, Rockstar. Mostra o que você sabe fazer além de cantar.

Danny foi para a popa da lancha.

Ele avaliou o motor por três segundos, mexeu em uma pequena alavanca do afogador que parecia solta e olhou para Solene com um sorriso confiante.

— Assiste e aprende, Solene.

Ele juntou as mãos, estralando os dedos, depois segurou a manopla da corda, firmou o pé na borda do barco e puxou com bastante força.

No impulso a corda simplesmente arrebentou na mão dele, o impacto o mandou direto para trás.

Danny voou de costas, os braços abertos, caindo com um baque no meio das caixas plásticas vazias, com um pedaço de corda de náilon firmemente seguro na mão direita.

Por dois segundos houve apenas o som das ondas.

Então, uma explosão de risadas.

Solene dobrou o corpo ao meio de tanto rir. Ela sentou no banco do piloto, apontando para ele, as lágrimas já rolando pelo rosto dourado. A risada dela primeiro saiu muda, só uma tremedeira nos ombros, aos poucos veio mais alta, escandalosa e deliciosamente contagiante. Danny ficou deitado ali, olhando para o céu azul, piscando chocado, antes de começar a rir de si mesmo.

— Você... você sabotou essa corda! — ele acusou, sentando-se e jogando o pedaço de náilon nela. — Isso foi um golpe!

— Eu juro por Deus que não foi! — ela conseguiu dizer, limpando os olhos, ainda arfando de tanto rir. — "Assiste e aprende, Solene!" Meu Deus, Danny! Você é o pior marujo que já pisou no Caribe! O motor é velho, mas você conseguiu arrancar a alma dele! — balançou o pedaço da corda.

— Eu sou um homem forte, o que eu posso fazer? — Ele rebateu, levantando-se e limpando a poeira invisível do shorts d'água, fingindo uma dignidade que já tinha ido embora há muito tempo. — A gravidade neste hemisfério é diferente.

Solene respirou fundo, tentando se acalmar, mas toda vez que olhava para a cara de tacho dele, dava mais uma risadinha. Ela se levantou, caminhou até ele e, de um jeito muito natural, segurou seu rosto com as duas mãos. As palmas dela estavam um pouco frias por causa do vento da manhã, e o contato fez o coração de Danny dar uma batida fora do ritmo.

Gracias por isso, Jones — ela agradeceu, os olhos escuros brilhando de uma forma genuína e terna a poucos centímetros dos dele. — Eu não ria assim há meses. De verdade.

Danny congelou por um segundo, os olhos descendo involuntariamente para os lábios dela antes de voltarem para os olhos. A sinceridade dela era tão desarmadora que ele esqueceu completamente a piada.

— Quando você quiser, Solene — ele respondeu, num tom mais baixo. — Eu estou aqui para o seu entretenimento.

Eles ficaram ali, muito próximos, o balanço sutil do barco na água ditava um ritmo próprio entre os dois. Uma conexão intensa pairava sobre eles, faiscando no ar da manhã, clara como o sol que começava a queimar a pele.

Solene quebrou o contato visual primeiro, dando um tapinha leve na bochecha dele antes de soltá-lo, embora um sorriso suave permanecesse em seus lábios.

— Certo. Já que o mecânico de Bolton quebrou o meu barco, vamos ter que ir a pé até a enseada do norte pela trilha da mata. E você vai carregar a mochila de gelo. Considera isso a sua multa por vandalismo.

— Tá certinha — Danny sorriu, as covinhas aparecendo enquanto ele pegava a mochila pesada. — Mas a aposta das caixas de peixe ainda está de pé. Eu só mudei o meio de transporte.

☀️🏝️🌊🎸🎶

Danny nunca imaginou que se embrenharia no meio de uma mata tropical daquele jeito. Foi uma mudança de cenário bem brusca. Ele tinha virado restaurante de mosquitos, havia muita planta esquisita, folhas com muito lodo e flores silvestres que ele não saberia identificar nem se sua vida dependesse disso.

E, falando em sobrevivência, a mochila de gelo em suas costas estava começando a cobrar o seu preço.

— Solene — ele chamou com a voz mais arfada do que ele gostaria admitir. — Eu não quero ser o turista reclamão, juro. Mas o gelo está derretendo, o que significa que a minha bunda está completamente encharcada de água congelada, enquanto o resto do meu corpo está operando na temperatura de um forno de pizza.

O sol estava, literalmente de rachar, o que era um crime terrível para a pele de um britânico acostumado com o sol frio de Londres.

Solene, que caminhava alguns passos à frente como se fosse uma criatura da floresta, desviando de raízes expostas e cipós sem sequer olhar para baixo, parou e virou-se. Ela olhou para a enorme mancha escura que se espalhava pelos shorts d’água dele e levou a mão à boca, tentando, sem sucesso, não rir.

— É para manter o seu centro térmico equilibrado — ela zombou, estendendo a mão para ajudá-lo a passar por cima de um tronco caído. — Além disso, se o gelo está derretendo, significa que estamos demorando demais. Apura esas piernas, chico. Estamos quase no topo da colina.

Danny segurou a mão dela para se equilibrar; sua pele agora estava quente, um contraste firme com os dedos dele que agora estavam meio dormentes pelo peso do gelo. Ele saltou o tronco, caindo um pouco desajeitado na lama, e não soltou a mão dela imediatamente. Ficou parado, recuperando o fôlego, olhando para ela de cima.

— Você faz isso de propósito, não faz? — ele perguntou, um sorriso de canto meio cansado. — Está me colocando nessas situações humilhantes só para ver se eu vou quebrar e ligar para o meu empresário implorando por um jatinho particular, não é?

— Talvez um pouco — Solene admitiu, os olhos escuros brilhando com a franqueza cortante que ele estava aprendendo a adorar. Ela deu um passo para trás, deslizando os dedos para fora da mão dele devagar, mas sem pressa. — Mas a verdade é que eu quero ver quem você é quando não tem ninguém batendo palmas, Danny. É fácil ser legal quando se está cercado de luxo. Na lama é que a gente descobre o que é de verdade.

— E o que você descobriu sobre mim até agora? — Ele arqueou as sobrancelhas, genuinamente curioso.

Solene o avaliou por alguns longos segundos, o vento sutil da mata moveu alguns fios de cabelo que tinham escapado do coque dela.

— Que você reclama bastante, mas não para de andar — respondeu, séria, antes de abrir um sorriso caloroso. — E que você tem um coração bom, Jones. Dá para ver nos seus olhos. Você está assustado com a ilha, mas está tentando. Eu respeito isso. Agora vem. Olha para a frente.

Eles deram mais alguns passos e a vegetação subitamente se abriu.

Danny prendeu a respiração.

Eles estavam em um penhasco alto, na ponta norte da ilha. Dali de cima, o mar caribenho não era apenas azul, era uma pintura em degradê que ia do turquesa mais claro, quase branco perto da areia lá embaixo, até um azul-índigo profundo onde o horizonte tocava o céu. Três barcos de pesca de madeira flutuavam na enseada calma, parecendo miniaturas flutuando no ar de tão límpida que era a água.

Os sons ali eram diferentes.

Não era o barulho caótico do bar do Pepe, nem o silêncio abafado da mata. Era o vento forte batendo contra as rochas e o canto rítmico de milhares de cigarras escondidas nas árvores ao redor.

Danny tirou a mochila pesada das costas, deixando-a cair na grama com um suspiro. Ele caminhou até a borda do mirante natural, deixando o vento secar o suor na sua testa e a água fria nas suas costas.

— Caramba... — ele sussurrou. — Isso aqui é inacreditável.

— É a Enseada das Cigarras — Solene disse, parando ao lado dele, os braços cruzados contra o vento que agitava sua regata branca. — Meu tio e os outros pescadores trazem o barco para cá porque o recife protege a água das correntes fortes. É o lugar mais calmo de Saint Marina. Quando a minha cabeça está cheia de problemas, é para cá que eu venho.

Ele olhou de soslaio para ela, a linha do perfil de Solene contra a imensidão do oceano parecia perfeita demais para ser real. Ele enfiou as mãos nos bolsos, ouvindo o ritmo das cigarras de repente começar a se encaixar na sua cabeça como uma marcação de metrônomo natural. Um compasso de quatro por quatro, perfeitamente composto.

— Sabe o que estou sentindo olhando para isso? — Danny indagou, sua voz quase sumindo contra o barulho do vento.

— O que?

— Que eu passei os últimos anos correndo em uma esteira e não saí do lugar, escrevendo músicas para preencher planilhas — ele confessou, olhando de volta para o mar. — Quando você está em uma banda grande, todo mundo quer um pedaço de você. O fotógrafo quer a sua cara, o rádio quer o seu refrão, os fãs querem a sua atenção. Você acaba virando uma propriedade pública. Mas aqui, olhando para esse azul que não acaba mais, eu me sinto assustadoramente pequeno. E isso é a coisa mais libertadora do mundo.

Solene virou o rosto para ele. Não havia deboche em seu sorriso, apenas uma empatia profunda. Ela se aproximou, deixando seu ombro tocar o dele de leve, um ponto de apoio no meio daquela imensidade toda.

— Você não é pequeno, Jones — ela disse baixinho. — Você só desligou o barulho da sua cabeça. O que sobrou é quem você realmente é.

Danny engoliu um nó sutil garganta abaixo. Ele olhou para ela, e a distância entre os dois pareceu encolher até sumir. A sinceridade dela o desmontava por completo. Ele estendeu a mão, o polegar tocando de leve a linha do maxilar dela, sentindo a pele quente e macia. Solene inclinou o rosto de leve contra o toque dele, os olhos fixos nos dele.

— Acho que estou começando a entender o ritmo desse lugar — ele murmurou, sua voz rouca.

— É mesmo? — ela sussurrou, um meio sorriso surgindo, os lábios a centímetros dos dele. — E qual é o ritmo, Jones?

— Sincero pra caramba — ele respondeu, pouco antes de quebrar o espaço restante.

Danny tomou os lábios dela no topo do penhasco, sob o sol quente e o som frenético das cigarras na mata. O beijo era calmo, mas intenso, cheio do desejo que vinha acumulando desde o momento em que ele caiu de joelhos no cais flutuante. Solene envolveu seu pescoço com os braços, puxando-o para mais perto, e Danny esqueceu completamente o gelo derretendo, Londres, a banda, e os prazos. Naquele segundo, o universo inteiro se resumia ao gosto e calor nos lábios dela.

Quando se afastaram, Solene estava com as bochechas levemente coradas e um brilho arteiro nos olhos. Ela limpou o canto da boca com o polegar, soltando uma risada, tentando recuperar a pose de durona.

— Certo... — ela aclarou a garganta, pegando a mochila de gelo do chão antes que ele pudesse reagir. — Isso não estava no cronograma de entrega dos peixes. Vamos descer, Chico. O meu tio é um homem velho, mas se ele notar que o gelo virou água porque a gente estava aos beijos no penhasco, ele joga você para os tubarões.

Danny gargalhou alto, sentindo o peito leve como não sentia há anos. Ele a seguiu pela descida da trilha em direção à praia da enseada, os dedos da mão esquerda batucando inconscientemente na própria coxa o ritmo das cigarras, enquanto sua mente já começava a rascunhar os primeiros versos de algo que ecoava no ar.

4: ESCAMAS, SUOR E BLECAUTE

A descida do penhasco até a praia da Enseada das Tartarugas revelou um cenário muito menos bucólico e muito mais focado no trabalho duro. O chão de areia branca estava coberto por redes de pesca de náilon verde-oliva estendidas, salpicadas de algas secas e conchas partidas. Perto da água, três barcos de madeira balançavam pesadamente. O mais imponente deles pertencia a Antonio, tio de Solene, um homem cuja pele escura e bilhante parecia ter sido esculpida pelo próprio vento salgado do Caribe. Ele tinha linhas profundas ao redor dos olhos e braços que pareciam feitos de corda torcida.

Antonio olhou para Danny descendo a trilha, notou os shorts d'água ensopados de água de gelo na parte de trás e soltou um grunhido que poderia significar qualquer coisa entre "o que é isso?" e "estou velho demais para turistas".

Este es el inglés? — Antonio perguntou a Solene, sem tirar o cachimbo apagado da boca.

El mesmo, tío — Solene respondeu, largando a mochila que carregava na areia. — Ele quebrou a corda do motor da minha lancha com as próprias mãos. Veio pagar a dívida ajudando com a carga.

Antonio mediu Danny de cima a baixo.

Danny, sentindo a pressão do julgamento de gerações de pescadores caribenhos sobre seus ombros, estufou o peito e estendeu a mão cheia de calos de cordas de guitarra.

Hola, señor. I can help. Mucho help — Danny arriscou, sorrindo com suas covinhas. Antonio olhou para a mão de Danny, deu um tapinha desdenhoso nela e apontou para o porão do barco de madeira.

Menos habla, mais força, chico. Vamos.

O trabalho que se seguiu foi o oposto de qualquer que ele pudesse ter imaginado.

Danny passou as duas horas seguintes curvado dentro de um barco que tinha o cheiro forte de entranhas de peixe, separando pargos vermelhos e garoupas enormes das redes e jogando-os nas caixas plásticas. Os peixes estavam frios, cobertos por uma gosma escorregadia que tornava quase impossível mantê-los seguros nas mãos.

Em certo momento, uma garoupa particularmente grande e ainda viva deu uma rabanada violenta bem na cara dele. O peixe escorregou por seus braços, bateu em seu peito e despencou de volta no fundo do barco, deixando um rastro de escamas brilhantes na regata preta.

— Inferno! — Danny berrou, pulando para trás, batendo a cabeça no teto baixo do convés. — Ele tentou me morder! Eu juro por Deus, Solene, esse bicho tentou tirar um pedaço de mim!

Do cais de pedra, onde estava organizando as caixas de gelo, Solene quase caiu para trás de tanto rir. Ela apoiou as mãos nos joelhos, o cabelo cacheado balançando, completamente entregue ao espetáculo.

— É só um peixe, Jones! Ele está morto, só não sabe disso ainda! Pega o bicho antes que ele estrague!

— Ele não está morto, ele fingiu que está! — Danny rebateu, mas havia um sorriso gigante em seu rosto.

Ele se agachou novamente, limpou o suor salgado que ardia em seus olhos com o antebraço sujo de escamas e, com um movimento rápido e surpreendentemente firme, agarrou o peixe pela cauda e pelas guelras, erguendo-o no ar como um troféu de caça antes de jogá-lo na caixa correta.

Antonio, que assistia a tudo de canto de olho enquanto fumava, soltou um estalo com a língua e assentiu uma única vez com a cabeça. Era o equivalente caribenho a uma ovação de pé no Royal Albert Hall. Solene piscou para Danny de longe, um olhar que misturava orgulho e a conexão calma que estava crescendo entre eles em uma velocidade assustadora.

Por volta das duas da tarde, o sol estava no topo do céu, transformando a areia em uma chapa quente, o ar “ondulando” ao redor. Os pescadores fizeram uma pausa sob a sombra de uma enorme amendoeira na beira da praia. Antonio acendeu uma pequena fogueira improvisada com pedaços de madeira seca e colocou três pargos limpos para grelhar direto nas brasas, temperados apenas com sal grosso e limão espremido na hora.

Danny estava sentado em um tronco de árvore caído, os braços e as pernas arranhados pela trilha e sujos de sal, o topo dos ombros já ostentando um tom perigosamente rosado, cortesia de sua genética do norte da Inglaterra. Mas ele nunca tinha se sentido tão vivo.

Comer o peixe com as mãos, direto da folha de bananeira que servia de prato, parecia o maior banquete de sua vida.

— Você está muito vermelho, Jones — Solene avisou, sentando-se ao lado dele no tronco, dividindo um pedaço generoso de pão de coco. — Amanhã você vai estar descascando igual a uma cobra.

— Eu tô ótimo — ele disse num tom cômico, mastigando o peixe fresco. — Honestamente? Esse é o melhor dia das minhas férias em anos. Sem brincadeira.

— Você é louco — ela riu, mas havia uma suavidade nova na forma como ela encostou o ombro no dele. — Passar o dia carregando peixe morto, cheirando a vísceras e tomando picada de borrachudo no meio do mato. Isso são férias para você?

Danny engoliu o alimento e virou o rosto para ela. A proximidade física deles ali, sob a sombra da árvore com os pescadores conversando baixo em espanhol ao fundo, parecia a coisa mais natural do mundo.

— Em Londres, Solene, as pessoas passam o dia inteiro tentando parecer importantes — ele começou, seu tom de voz sincero e calmo. — Elas usam roupas caras para ir a lugares onde não querem ir, para falar com pessoas de quem não gostam. Aqui eu sou só o cara que tomou uma rabanada de uma garoupa e que está com as costas queimadas. Ninguém quer nada de mim além do meu esforço para carregar uma caixa. Você não tem ideia do alívio que isso traz para a minha cabeça.

Solene olhou para ele, os olhos escuros fixos nos dele.

Ela estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, limpou uma escama de peixe seca que tinha ficado presa perto da têmpora dele. O toque foi leve, mas sutil.

— Eu entendo — ela falou. — Mas não se acostuma muito, Jones. A lancha tem que ser consertada, e você é o único mecânico meia-boca que eu conheço.

Danny sorriu, as covinhas surgindo, e segurou a mão dela que ainda estava perto de seu rosto. Ele entrelaçou seus dedos nos dela.

— Eu não vou a lugar nenhum, Morales. Pelo menos não pelas próximas duas semanas.

O retorno para a vila aconteceu no final da tarde, a bordo do barco maior de Antonio, a lancha de Solene ficou rebocada na traseira. Quando finalmente pisaram no cais de Saint Marina, o céu estava pintado em uma mistura de roxo e laranja que Danny já estava começando a esperar como um presente diário da ilha.

Exaustos, cheirando a mar e a trabalho, eles caminharam lado a lado até a pousada. Danny subiu para o quarto, tomou outro banho frio, que dessa vez ardeu consideravelmente nas suas costas queimadas de sol, ao sair passou uma pomada para queimadura nos ombros e nas costas do jeito que deu e vestiu uma camiseta de algodão ultra leve para não sofrer tanto com o atrito.

Ele pegou seu violão acústico e o caderno de couro.

Em vez de ficar no quarto, desceu e sentou-se na varanda térrea da pousada, em uma cadeira de balanço de vime que dava de frente para o mar. A vila estava calma. A maioria das pessoas estava jantando ou recolhida. O único som era o constante quebrar das ondas na areia e o início do canto das cigarras na mata atrás da propriedade.

Danny apoiou o violão no colo. Seus dedos, ainda levemente doloridos do trabalho com as redes, tocaram uma sequência de acordes. Não eram os acordes pesados do blues que tinha tocado no bar do Pepe, nem a estrutura pop rápida do McFly. Era uma melodia sutil, em Sol maior, que parecia imitar o balanço do barco de Antonio na água da enseada.

Ele testou uma transição para um acorde menor, deixando a nota ecoar no ar quente da noite. Ele pegou a caneta e abriu o caderno na página onde tinha escrito S.N pela manhã. Abaixo do pseudo título, ele escreveu a primeira linha, inspirado direto da conversa que tiveram no topo do penhasco:

"Eu quis fugir do mundo, do ruído, da dor. Mas teu jeito tão vivo me chamou pelo nome a vida…"


Escreveria frases soltas, como de costume, até conectá-las. A porta de tela da pousada rangeu, Solene saiu, vestindo um short confortável e uma camiseta larga, segurando duas fatias de melancia fresca. Ela parou ao ouvir a melodia, observando o perfil de Danny sob a luz da lua que começava a subir no horizonte.

— Essa é nova? — ela perguntou, caminhando até ele e estendendo uma das fatias.

Danny parou de tocar, aceitando a fruta com um sorriso.

— É. Acho que a ilha está começando a me dizer o que escrever. Ou talvez seja você.

Solene sentou-se no chão, apoiando as costas contra a pilastra de madeira, bem ao lado da cadeira de balanço dele. Ela deu uma mordida na melancia, olhou para as estrelas e depois para ele.

— Então é melhor que o refrão seja muito bom, eu não aceito música ruim com minhas raízes envolvidas.

— Pode deixar, chefe — Danny riu, ajustando o violão e voltando a dedilhar a mesma melodia, deixando que o som se misturasse perfeitamente com o barulho do mar e com a respiração calma de Solene ao seu lado.

☀️🏝️🌊🎸🎶

O som do violão de Danny ainda flutuava no ar morno quando, com um estalo seco vindo do poste na esquina, toda a iluminação da pousada e da rua sumiu. As poucas lâmpadas amarelas da vila se apagaram de uma vez, mergulhando Saint Marina em uma escuridão quase absoluta. O ventilador interno parou, e o único brilho restante veio do céu, onde a lua cheia e o tapete de estrelas pareciam ter dobrado de intensidade para compensar a perda da eletricidade.

Danny parou os dedos nas cordas, piscando no escuro.

— Ora, que ótimo. Eu quebrei o motor do barco de manhã e agora consegui derrubar a rede elétrica da ilha inteira à noite. Eu sou uma arma de destruição em massa, Solene.

A risada dela veio logo ao lado, um som suave no escuro.

— Não seja tão convencido, Jones. Isso acontece pelo menos duas vezes por semana aqui. O gerador principal do continente deve ter superaquecido de novo. Fica quieto aí, não se mexe senão você vai derrubar o violão. Vou buscar uma vela com a tia Rosa.

Danny ouviu o som dos chinelos dela se afastando pela madeira da varanda e a porta batendo. Ele encostou a cabeça na cadeira de balanço, olhando para cima. Sem a luz artificial, o céu caribenho era tridimensional. Ele conseguia ver a Via Láctea como uma faixa clara de poeira cósmica cruzando o infinito. Era assustador, hipnotizante e majestoso ao mesmo tempo.

Ele nunca veria aquele espetáculo divino no céu poluído de Londres.

Alguns minutos depois, um brilho alaranjado e trêmulo surgiu na porta. Solene voltou carregando um pires de cerâmica com uma vela grossa acesa, cuja chama dançava levemente com a brisa do mar. Ela colocou o pires no chão, entre a cadeira de Danny e o espaço onde ela estava sentada. A luz da vela esculpiu o rosto dela com tons quentes, destacando o brilho nos seus olhos escuros.

— Pronto — ela disse, sentando-se de pernas cruzadas no chão, encostando as costas na pilastra novamente. — Sobreviveu ao escuro?

— Eu estava quase sendo engolido por um monstro marinho invisível, mas a sua vela me salvou — ele brincou, ajustando o violão no colo. A luz da chama refletia no verniz gasto do instrumento. — Está mais quente aqui fora agora, não está?

— Sem os ventiladores, o ar fica parado por um tempo até o vento da meia-noite entrar — ela deu uma mordida no pedaço de melancia que ainda segurava, o suco brilhando em seus lábios sob a luz da vela. — Mas é bom. Obriga as pessoas a desacelerarem. Em Londres, o que vocês fazem quando falta luz?

— Entramos em pânico coletivo — Danny riu, dando de ombros. — Todo mundo puxa o celular, começa a tuitar sobre o apocalipse e reclama que a internet móvel ficou lenta. Ninguém simplesmente senta na varanda com uma vela e come melancia.

— Vocês são muito estranhos — ela balançou a cabeça, divertida, então olhou para as mãos dele sobre as cordas. — Vai, continua tocando aquela melodia. Eu gostei do começo.

Danny hesitou por um segundo.

Ele olhou para a página aberta do seu caderno no chão, a luz da vela mal dava para ler o que ele tinha escrito, mas ele não precisava ler. Os versos estavam se formando na sua mente, empurrados pela presença dela.

Ele voltou a dedilhar os mesmos acordes em Sol maior. A melodia era suave, mas Danny sentia que faltava algo. Era uma estrutura muito folk, muito "estúdio de Londres". Faltava a pulsação da ilha, o balanço que ele tinha sentido no barco e no bar do Pepe.

Solene ficou escutando por um tempo.

Ela terminou a fruta, limpou as mãos em um pano que trouxera e começou a acompanhar o som. Mas ela não cantou. Ela estendeu a mão e começou a batucar levemente com a ponta dos dedos na lateral da cadeira de balanço que ele ocupava.

Era um ritmo tipicamente caribenho, que quebrava o tempo reto que Danny estava tocando.

— O que você está fazendo? — ele perguntou parando os dedos, olhando para ela com um sorriso intrigado.

— Estou consertando a sua música, Jones — ela piscou, continuando o batuque na madeira. — Você está tocando como se estivesse andando na chuva de casaco pesado. Deixa o ritmo respirar. Tenta encaixar os acordes no meu tempo.

Danny aceitou o desafio, competitivo do jeito que era.

Ele esperou o próximo toque dos dedos dela na madeira e atacou as cordas exatamente no contratempo. O efeito foi imediato. A melodia, que antes parecia um lamento melancólico do norte da Europa, subitamente ganhou calor, ganhou um balanço sutil que parecia imitar o movimento das ondas contra os pilares do cais.

— Sim! — Danny exclamou, os olhos brilhando. As covinhas apareceram perigosas na luz da vela. — É isso! Caramba, Solene, isso é genial.

Ele continuou tocando, deixando a batida dela guiar o toque do seu polegar nas cordas graves. Ele limpou a garganta e, deixando a voz rouca sair bem baixinho, quase em um sussurro para não quebrar o silêncio da vila sem luz, cantou os primeiros versos que dançavam na sua cabeça:

“Your laugh was like the summer in the afternoon light (seu sorriso era como o verão sob a luz da tarde). Your skin felt like a sun that would never say goodbye (Sua pele era como um sol que nunca se despediria). And I, so used to walking in the shadows and the quiet got lost in your footsteps right at the edge of life (E eu, tão acostumado a caminhar nas sombras e no silêncio, me perdi nos seus passos bem na beira da vida).”

Ele mudou para o acorde menor que tinha descoberto antes, mas agora com o balanço que ela ditava, e olhou direto nos olhos de Solene.

“Your kiss tasted like fruit and a storm rolling in (Seu beijo tinha gosto de fruta e de uma tempestade se aproximando), and the fear I used to carry turned to longing in the wind… (e o medo que eu costumava carregar virou saudade no vento…)”

Danny parou de cantar, deixando o último acorde vibrar até sumir no ar da noite. O batuque de Solene na madeira diminuiu até parar também.

Havia um silêncio denso entre os dois agora, quebrado apenas pela chama da vela que crepitava de leve entre eles. Solene olhava para ele com uma intensidade que Danny nunca tinha visto em ninguém. Não era o olhar de uma fã deslumbrada, nem o de alguém analisando um produto musical. Era o olhar de alguém que tinha sido tocada no fundo da alma.

— Você escreveu isso agora? — ela perguntou, sua voz um pouco mais baixa.

— Uma parte na colina, vendo você olhar para o mar — Danny confessou, colocando o violão de lado no chão, com cuidado, e se inclinando na direção dela. — E o resto agora, vendo você consertar o meu ritmo. Você é a minha inspiração aqui, Solene. E eu não estou brincando.

Solene engoliu em seco.

A franqueza dele a atingiu de um jeito que a assustou sutilmente, porque ela sabia, melhor do que ninguém, que o tempo deles tinha um prazo de validade rígido. Em poucos dias, os aviões voariam, as agendas se abririam e aquele homem estaria de volta ao topo do mundo, enquanto ela estaria limpando peixe no norte da ilha. Mas ali, sob a luz daquela mísera vela, o futuro parecia uma mentira.

O presente era a única verdade que importava.

Ela estendeu a mão, tocando o joelho dele, e subiu os dedos devagar pelo braço de Danny até alcançar a nuca dele, puxando-o para baixo.

— Por Deus, você fala demais, Jones — ela sussurrou, a milímetros da boca dele.

— É o meu trabalho — ele respondeu, com o mesmo sussurro, antes de cobrir os lábios dela com os seus.

O movimento dos lábios não tinha a urgência da novidade, mas tinha uma profundidade da entrega que vinha da sinceridade absoluta que tinham prometido um ao outro desde o início. Danny puxou-a para o seu colo, sentindo o calor do corpo dela contra o seu, o cheiro de coco e pele limpa preenchendo todos os seus sentidos. Naquela noite, Saint Marina podia estar completamente sem luz, mas para Danny, o mundo nunca tinha estado tão perfeitamente iluminado.
Continua…
Nota da autora
Boa leitura a todos! Beijão 💛


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