1: SAINT MARINA
O motor de popa da lancha velha de Solene deu um último engasgo antes de morrer por completo, bem na beirada do cais flutuante de Saint Marina. Ela limpou o suor da testa com as costas da mão, praguejando baixinho contra a mecânica da ilha, e amarrou a corda grossa no píer com a agilidade de quem fazia aquilo desde que aprendeu a andar.
Foi quando o catamarã vindo do continente atracou logo ao lado, despejando uma quantidade previsível de turistas queimados de sol. Mas um deles chamou sua atenção. Não pelo visual, mas pelo quase desastre.
O cara era alto, tinha os cabelos castanhos bagunçados pelo vento marinho e tentava equilibrar, ao mesmo tempo, uma mala de rodinhas que nitidamente não foi feita para andar na areia e uma capa rígida de guitarra que ele segurava como se fosse um recém-nascido.
Ao tentar dar o passo do barco para a madeira molhada do cais, a rodinha da mala travou. Ele deu uma escorregada nem um pouco elegante, os braços girando no ar como moinhos de vento.
— Cuidado! — Solene gritou, instintivamente dando um passo à frente.
Com um baque surdo, o homem desabou de joelhos no cais. A mala rolou de lado, mas a guitarra permaneceu intacta, erguida para o alto como um troféu salvo do naufrágio. Ele soltou um gemido dolorido, mas logo olhou para o instrumento com alívio.
— Ela está viva — ele anunciou para ninguém em especial, com um sotaque britânico carregado, a voz rouca e surpreendentemente bem-humorada para quem quase quebrou a cara. — Meu pescoço também está intacto, Graças a Deus.
Solene caminhou até ele, parando com as mãos nos quadris, uma sobrancelha arqueada e um sorriso divertido brincando nos lábios.
— É bom saber que a madeira está inteira. O seu joelho eu já não tenho tanta certeza.
Danny Jones ergueu os olhos, piscando contra a claridade forte do Caribe. A primeira coisa que viu foi aquela mulher de sorriso franco, pele dourada pelo sol e um olhar que parecia ler toda a sua falta de jeito em um segundo. Ele soltou uma risada, estendendo a mão livre para ela enquanto ainda estava ajoelhado.
— Danny. E, honestamente? Acho que o cais sofreu mais danos do que eu.
Solene segurou a mão dele, puxando-o para cima com mais força do que ele esperava de alguém tão esguia.
— Solene. E um conselho para os seus próximos cinco minutos na ilha, Danny: largue a mala. Ninguém usa rodinhas na areia por aqui. É uma batalha perdida.
Danny olhou para a mala de grife capotada, depois para os próprios pés calçando tênis que já pareciam quentes demais para os trinta e cinco graus de Saint Marina. Ele passou a mão pelo cabelo, rindo de si mesmo.
— Notei isso um pouco tarde. Eu achei que "resort ecológico" fosse só um codinome chique para ar-condicionado potente e calçadas de mármore.
— Você errou feio — Solene rebateu, pegando a alça da mala dele antes que ele protestasse e começando a puxá-la pela parte funcional, mostrando o caminho. — Aqui o luxo é a água quente funcionar depois das oito da noite. Vamos, inglês. Antes que você derreta no meu cais.
Danny pegou sua guitarra, apressando o passo para acompanhar o ritmo confiante dela, sentindo que aquelas férias seriam tudo, menos tediosas.
O caminho até a única pousada da vila não era longo, mas a combinação de areia fofa, calor úmido e o sotaque confuso de Danny fez parecer uma pequena expedição. Ele carregava a guitarra como um escudo, enquanto Solene puxava a mala dele com uma facilidade que claramente feria o orgulho do músico britânico.
— Sabe, eu sou perfeitamente capaz de carregar as minhas próprias coisas — Danny disse, passando o braço livre pela testa para limpar o suor. — Em Londres, eu vou à academia. Às vezes.
— Claro que é capaz, inglês — Solene riu, sem diminuir o passo. O cabelo cacheado dela balançava conforme ela andava, imune ao mormaço que parecia estar derretendo Danny. — Mas se eu deixar você puxar isso, vamos levar três dias para chegar. E eu tenho mais o que fazer do que assistir a um astro do pop rock ter uma insolação na minha frente.
Danny parou de andar por um segundo, os olhos azuis arregalados em uma mistura de surpresa e diversão.
— Espera aí. — Ele ergueu a mão. — Você sabe quem eu sou?
Solene parou também, ela virou-se para ele, apoiando as duas mãos na alça da mala de rodinhas, e o encarou de cima a baixo com um sorriso desafiador.
— Você achou mesmo que o seu disfarce de "turista comum com uma mala de grife e uma case de guitarra" estava funcionando? — Ela soltou uma risada. — Minha prima mora em Boston e é obcecada pelo McFly desde os quinze anos. Eu reconheceria esses dentes tortos e esse cabelo bagunçado em qualquer lugar, Jones.
Danny soltou uma gargalhada alta, genuína, que espantou um bando de gaivotas que descansava perto dali. Ele adorou a falta de cerimônia dela. Em Londres ou nos palcos do mundo inteiro, as pessoas costumavam pisar em ovos perto dele, ou gritar até perder o fôlego. Solene só achava a situação toda engraçada.
— Justo. Muito justo — ele assentiu, dando dois passos rápidos para alcançá-la. — Mas, para o seu governo, meus dentes são charmosos. É uma marca registrada.
— Se você diz... — ela piscou para ele, retomando a caminhada. — Mas aqui em Saint Marina, ninguém liga para quantas vezes você tocou na Wembley Arena, Danny. Se você não souber negociar com o dono do bar ou se perder a hora do último barco, vai dormir na praia.
— Parece perfeito para mim — ele garantiu, e pela primeira vez em meses, estava sendo cem por cento sincero. Ele olhou para o mar turquesa e depois para o perfil bem-humorado de Solene. — Eu vim para cá justamente para esquecer os prazos, as redes sociais e as músicas que a gravadora quer que eu escreva. Quero só... ver o que acontece.
Solene diminuiu o ritmo, olhando para ele com uma seriedade leve, mas profunda.
— Então vamos fazer um trato, inglês. Haja sem mentiras e sem frescura. Você finge que é só um cara normal que não sabe andar na areia fofa, e eu finjo que acredito. Combinado?
Danny sorriu, sentindo uma faísca muito clara acender no peito.
A química entre eles foi instantânea.
— Combinado.
A Pousada de Saint Marina não tinha recepção com ar-condicionado, carpete ou homens de terno carregando as malas ou falando ao telefone. Era uma estrutura de dois andares de madeira pintada de um azul-piscina já descascado pelo sol e pelo sal, espremida entre uma fileira de coqueiros tortos e um pequeno restaurante que exalava um aroma forte de alho e peixe frito.
Solene empurrou a porta de tela contra mosquitos, que rangeu alto, e deixou a mala de Danny bater contra o chão de cimento queimado do saguão. Atrás do balcão de madeira rústica, um ventilador de teto de três pás girava em um ritmo tão lento que parecia estar prestes a desistir de funcionar.
— Tia Rosa! — Solene chamou, batendo a palma da mão no balcão. — O inglês chegou. E ele trouxe bagagem suficiente para passar um ano, embora só vá ficar por duas semanas.
Uma mulher de meia-idade, com um lenço colorido amarrado na cabeça e um sorriso imenso que mostrava um dente de ouro na lateral, surgiu de uma porta nos fundos. Ela limpou as mãos em um pano de prato e olhou para Danny com curiosidade, sem nenhuma timidez.
— Graças a Deus. Achei que o barco tivesse afundado com ele — Rosa falou, pegando uma chave pesada de metal pendurada em um quadro na parede. Ela olhou para os cabelos bagunçados de Danny e para o case da guitarra. — Você toca?
— Um pouco — Danny respondeu humilde, oferecendo um sorriso meio sem jeito enquanto tentava recuperar o fôlego. O suor colava a camiseta cinza nas suas costas. — Oi. Sou o Danny.
— Ele é famoso no resto do mundo, tia. Não cutuca muito senão ele chora — Solene provocou, empurrando a chave na mão de Danny. — Quarto número quatro. No andar de cima. E boa sorte com a pressão da água hoje.
Danny pegou a chave, sentindo o metal quente contra a palma da mão. Ele olhou para a escada de madeira que subia na lateral do prédio, depois para Solene.
— Você não vem me mostrar o palácio? Vai me abandonar com essa mala?
Solene cruzou os braços, encostando as costas no balcão de recepção. Havia um brilho divertido nos olhos escuros dela, uma avaliação constante que fazia Danny se sentir completamente exposto, mas de um jeito estranhamente bom.
— O trato era até a pousada, Jones. Daqui para a frente, você é um homem crescido. Mas... — Ela olhou para o topo da escada e depois para o estado deplorável do suor dele. — Eu quero ver a sua cara quando abrir a porta. Vou subir só para garantir que você não quebre nenhum móvel.
O quarto número quatro era exatamente o que Danny precisava, embora estivesse longe do que seus empresários costumavam reservar para ele. As paredes eram de alvenaria pintadas de branco, com uma única cama de casal coberta por um lençol limpo de algodão fino, uma cômoda de madeira escura e uma janela grande, sem vidro, apenas com venezianas de madeira abertas para o oceano. O som das ondas ali dentro era alto, quase como se o mar estivesse quebrando no canto do quarto.
Danny largou a guitarra com cuidado extremo, encostando-a na parede e desabou na cama. O colchão era firme, e o vento que entrava pela janela trouxe um alívio imediato para a pele quente.
— Deus abençoe o vento de Saint Marina — ele murmurou, fechando os olhos por três segundos antes de se sentar e encarar Solene, que havia ficado parada na porta, observando-o com os braços cruzados. — Então, é isso? Sem televisão? Sem frigobar?
— Se você quiser uma cerveja gelada, tem que descer até o bar do Pepe, na praia. E a televisão da ilha só pega dois canais, ambos em espanhol e imagem analógica. — Solene caminhou até a janela, apoiando as mãos no parapeito e olhando para o horizonte dourado. — É muito horrível para os seus padrões de astro do rock?
Danny levantou-se e caminhou até o lado dela. Ele era consideravelmente mais alto, e a proximidade permitiu que ele sentisse o cheiro atraente dela de óleo de coco natural e a maresia pura que parecia impregnada na pele de todos ali.
— Sendo bem sincero? — Ele olhou para o perfil dela, o sol de fim de tarde desenhando uma linha dourada no maxilar firme de Solene. — É o melhor quarto que eu já vi em toda a minha vida. Em Londres, os hotéis são cinzas. As janelas não abrem por causa do sistema de ar-condicionado. Você acorda e não sabe se são oito da manhã ou oito da noite. Aqui... Aqui tem vida.
Solene virou o rosto para ele, pega de surpresa pela falta de ironia na voz dele. A maioria dos turistas ricos que vinha para o lado menos explorado da ilha reclamava do calor, dos mosquitos ou da falta de gelo picado nos drinks. Danny parecia genuinamente aliviado por estar ali.
— Você estava mesmo sufocando lá do outro lado do mundo, não é? — A voz dela baixou para um tom mais suave, desprovido do deboche de antes.
Danny soltou o ar devagar, os ombros caindo.
— Mais do que eu gostaria de admitir. — Ele suspirou cansado. — Escrever música virou um trabalho de escritório. "Faça um refrão que viralize no TikTok", "escreva algo parecido com o último hit". Eu quase me esqueci como era o som de uma guitarra acústica sem ter dez produtores mexendo nos botões.
Solene estudou o rosto dele por um momento, os dentes levemente desalinhados que ela tinha mencionado no caminho, os olhos azuis que pareciam realmente cansados, mas intensamente vivos agora. Ela estendeu a mão e deu um tapinha firme, quase rude, no ombro dele, quebrando o clima sério com a facilidade de sempre.
— Então desfaz essa mala, toma um banho frio e me encontra no bar do Pepe daqui a uma hora. Se você for legal, eu te ensino a beber rum de verdade, e não essa água com açúcar que vocês tomam na Europa.
— É um encontro, Solene? — Danny sorriu de canto, as covinhas aparecendo.
— É apenas uma questão de caridade, Jones — ela rebateu, já se virando em direção à porta. — Não se atrase. O Pepe fecha o bar quando fica com sono, e ele é um homem muito preguiçoso.
A porta de tela bateu atrás dela, e Danny ficou parado sozinho no quarto, ouvindo o som do mar e sentindo o que não sentia há muito tempo: que a música em sua cabeça estava começando a fazer sentido de novo.