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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 20/07/2025

Verão de 1996

— Vamos, querida, ou vamos perder o voo. — A voz doce da mulher mais velha soou, com cuidado.
A pequena menina estava com seus braços ao redor do pescoço do amigo, o abraçando, e molhava sua camisa com as lágrimas que desciam intensamente de seus olhos. Seu peito se sacudiu num soluço inconformado. Por que ela tinha que se despedir dele? Aquilo não era justo.
— Por favor, mamãe, só mais um pouco — ela respondeu, com a voz fraquinha e embargada.
— Tudo bem, meu amor. Eu e seu pai estaremos esperando lá fora. Mas não demore, precisamos chegar cedo ao aeroporto. — A mulher lembrou, então sorriu para o garoto ainda abraçado à filha e se despediu rapidamente, porque sabia que para ele nada mais importava.
Foi esperar a filha do lado de fora da casa, junto ao marido, que trazia uma feição quase arrependida no rosto. No entanto, a mudança era necessária. Não podia recusar uma oportunidade como a que ele havia recebido, e a esposa não ofereceu objeções quando o homem mostrou o que aquilo significaria em suas vidas.
— Ela vai ficar bem, querida. — Tentou confortá-la.
— Ela é jovem demais para já sofrer desse jeito — a esposa argumentou, incomodada com toda aquela situação.
— Justamente por ser jovem, tudo vai passar. Você vai ver. — Ele tocou o rosto da mulher e sorriu fraco.
Dentro da casa, as duas crianças ainda se abraçavam e deixavam que toda a dor da despedida se esvaísse em lágrimas.
— Não acredito que você vai mesmo embora, minha menina — o garoto disse, cabisbaixo, a voz infantil entrecortada pelo choro.
— Eu não quero ir, meu príncipe. — Ela apertou os lábios para não soluçar mais alto.
— E eu não quero que você vá. Acha que se nós sairmos pelos fundos, e você se esconder no meu porão, eles acabam deixando você ficar? — A apertou mais contra seu corpo, então ouviu a risada melodiosa dela ecoar baixinho.
Doía demais pensar que teria que continuar sua vida sem ele. Não achava que conseguiria, mesmo sendo um toco de gente, como seus pais diziam. Ele também estava aos pedaços, não suportava a ideia de vê-la partir daquele jeito. Era tudo o que ele tinha.
— Promete uma coisa? — Se desvencilhou um pouco dele para encará-lo nos olhos.
— O quê? — O garoto sabia que não importava o pedido dela, ele aceitaria sem pestanejar.
— Que você vai me esperar. Porque um dia eu vou voltar, príncipe. — A certeza estava explícita nas palavras dela, e ele não duvidou. Jamais quebrariam uma promessa.
— Prometo, minha menina. Nem que eu tenha que esperar para sempre... E aí, quando você voltar, nós vamos nos casar. Você... você quer se casar comigo, não quer? — Enxugou mais algumas lágrimas que caíam pelas bochechas dela e viu um sorriso lindo se formar em seus lábios.
— É claro que eu quero. Sim, nós vamos nos casar. — Ela riu baixinho. A sementinha de esperança esquentou seu corpo gelado pela falta que já sentia dele. — Eu... Eu nunca vou te esquecer. — Tocou o rosto dele com sua mãozinha e ajeitou seus cabelos com cuidado. O garoto fechou os olhos por alguns segundos, apreciou o carinho dela e sorriu ao ouvir sua resposta.
— Nem eu. — Aproximou seu rosto do dela e beijou sua bochecha com carinho. — Eu amo você.
— Também amo você — a menina respondeu, doce.
Eram apenas duas crianças, mas suas palavras eram verdadeiras. Se amavam de forma pura, inocente. Para o amor não havia barreiras, nem mesmo para crianças de tão pouca idade.
— Tome. — Ela se afastou um pouquinho mais, tirou o colar que carregava em seu pescoço e o entregou para o garoto. Era uma corrente simples, de ouro, com um pingente de flecha, mas representava a admiração que a menina sempre teve por heroínas. Dizia que ela mesma seria uma um dia.
— Não vou pegar seu colar — o garoto recusou, surpreso com a atitude dela. Aquele era um dos objetos favoritos da menina, e ela o carregava onde fosse. Não era certo aceitá-lo.
— Por favor, príncipe. É só para ter certeza de que não vai se esquecer de mim — ela insistiu, com os olhos brilhantes de lágrimas novamente, e ele hesitou mais uma vez. — Por favor. — Então ele assentiu, fez um sim com a cabeça e pegou o colar de suas mãos.
— Como se eu precisasse disso. — Ela sorriu. — Mas vou ficar com ele, e, toda vez que sentir sua falta, vou ficar horas e horas olhando para essa corrente. — Fechou os dedos em volta do objeto. Então decidiu colocá-lo no próprio pescoço, e a menina ficou surpresa com seu ato. — Vou carregar você comigo para onde eu for.
— Promete que vai fazer isso mesmo? — ela pediu, ainda sem acreditar no que ele havia feito.
— Prometo, mas só se você também me prometer uma coisa. — Remexeu seus bolsos e tirou de lá o que procurava. — Que toda vez que olhar para isso — entregou-lhe um medalhão de bronze que tinha ganhado de seu pai —, vai se lembrar de mim, e também vai carregá-lo para onde for. — Mordeu o canto da boca e engoliu em seco, enquanto aguardava a resposta dela.
— Eu prometo. — Ela apertou seus dedos em volta do medalhão e sorriu novamente, se aproximou e beijou a bochecha dele, como o garoto havia feito minutos antes.
Então, mais uma vez, eles se abraçaram e permaneceram assim por mais algum tempo, até ouvirem uma buzina vinda do carro dos pais dela. Era chegada a hora.
— Adeus, meu príncipe. — Ela se desvencilhou dele e se dirigiu até a porta.
— Adeus, minha menina. — O garoto lhe lançou um sorriso triste e a acompanhou até o lado de fora da casa, onde a mãe da menina aguardava para trancar a porta.
A criança então seguiu até o carro, deixando o menino para trás, e acenou tristemente quando o carro entrou em movimento e partiu logo em seguida.
Naquele dia, promessas haviam sido feitas. Um pacto selado. E, por mais que o tempo se encarregasse de fazê-los esquecerem, um dia o destino estaria ali para trazer à tona as lembranças. Tudo no momento certo.


Continua...


Nota da autora: Essa fic é bem antiga, e eu resolvi tirar ela da gaveta. É bem fora da minha zona de conforto, então a opinião de vocês é muito importante.
Espero que gostem e comentem muitooo.
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno. ♥

🪐



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