#Paladar áspero. Como café velho ou verdade dita tarde demais. Presença marcante de silêncio desconfortável, ressaca emocional e o leve torpor de uma cama compartilhada por conveniência. Persistência de arrependimento no fundo da língua. Corpo pesado, quase intolerável. Final seco, sem promessas de melhora. Talvez.
Kim Namjoon
Despertei com a porra de uma britadeira. De novo. Automaticamente, joguei a coberta grossa por cima da minha cabeça, mesmo sabendo que, não, aquilo não iria ajudar em nada. E foi exatamente isso. Virei para o lado, quando o som irritante ultrapassou a barreira que, inutilmente, eu tentei fazer. Não que eu estivesse dormindo de verdade. Na verdade, faz semanas que o sono vem e vai em uma espécie de limbo irritante. Eu até tô tomando as merdas dos remédios. Prescritos por mim mesmo, claro.
Talvez o problema nem seja a falta do sono.
Talvez seja outra coisa que ainda nem consigo nomear: essa vida mal remendada que eu carrego, cheia de decisões que não foram minhas, costurada com silêncios e obrigações. Fica impossível descansar quando até o travesseiro lembra que eu não queria estar aqui.
A parte que deveria ser engraçada se tornou pura ironia. Um psiquiatra com insônia crônica, que vive aconselhando os outros a descansarem, mas não consegue fechar o olho nem com ajuda farmacológica. Não sei como, mas meu cérebro simplesmente desenvolveu a habilidade invejável de resistir até aos benzodiazepínicos e transforma qualquer comprimido em mais uma espécie de balinha mentolada.
Suspirei fundo, tentando segurar a vontade de socar a cara do vizinho na mesma intensidade da porra do barulho que rasgava o quarto. O infeliz parecia decidido a destruir e reconstruir o mundo inteiro bem debaixo da minha janela. Às sete e quinze da manhã. Em plena segunda-feira. E, claro, o universo deu aquele jeitinho de sincronizar o caos da minha cabeça com o do vadio desempregado que, provavelmente, não vê sexo desde 2017 e resolveu inaugurar uma obra eterna do nada.
Pisquei algumas vezes, esperando que a claridade suave do quarto aliviasse o torpor, e foi só então que percebi Emma ao meu lado. Dormia tranquila, alheia ao caos, como se aquele som insuportável fosse a trilha relaxante de um spa mal localizado. O lençol cobria apenas metade do corpo, deixando a cena com aquela estética propositalmente espontânea, digna de um filme independente que força a naturalidade.
O cabelo loiro se espalhava pelo travesseiro, a pele impecável, e o rosto ainda era o mesmo que já fez tanta gente virar o pescoço na rua. Emma era linda. Sempre foi. De um jeito clássico e, como diz a mãe dela, intocável — feita para capas de revista ou para ser observada em silêncio atrás de um vidro de museu.
E, ainda assim, tudo nela me parecia distante. De um jeito frio, impessoal. Eu não sentia mais nada. Nenhum arrepio, nenhum calor. Só um vazio incômodo, disfarçado de rotina. Estar perto de Emma, agora, era quase como entrar num quarto sem janelas: uma claustrofobia emocional que não vinha dela, mas da história que se arrastava entre nós. Do desgaste, da bagunça que deixamos acumular até pesar entre esses malditos lençóis.
Olhei para ela de novo, e meu estômago deu um nó. Havia tanta distância que, por um segundo, quase ri da ironia de ainda dividirmos a mesma cama.
— Puta que pariu, Kim Namjoon — murmurei baixinho para mim mesmo, bagunçando os cabelos com força, enquanto a vontade de assassinar meu vizinho crescia a cada batida daquela britadeira. O desgraçado parecia ter sincronizado o som com a minha ressaca física e moral, que, aparentemente, chegou antes do que eu tinha pretendido.
Eu sabia que não deveria ter aceitado o convite da Erin.
Mas ela insistiu, como sempre.
"Só um drink, sem compromissos. Eu pago."
"Você precisa relaxar."
"Um homem casado e infeliz merece, no mínimo, um copo de uísque."
Foram as últimas mensagens que vi antes de sair do consultório às pressas, com uma sede que arranhava a garganta e queimava por dentro. Um copo virou dois. Dois viraram três e, agora, o quarto gira devagar, impregnado com o cheiro ácido de álcool. A luz da manhã começa a atravessar as cortinas, cortando meus olhos como lâminas finas. Sento na beira da cama, de calção e corpo pesado, enquanto a alma parece escorrer pelo chão, desejando trocar de lugar com qualquer maldita planta ornamental que não precise lidar com ressaca, pressão familiar e noites sem dormir.
Levantei da cama sem dizer nada e comecei a andar pelos cômodos, feito um fantasma familiarizado com cada canto. Eu odiava esse lugar. Sim, é escroto odiar sua própria casa, principalmente quando ela é grande, bonita e, tecnicamente, um privilégio. Mas, eu odiava o silêncio que parecia aumentar dentro dela, como se tivesse sido projetada para me lembrar o tempo todo do quanto eu estava sozinho, mesmo quando não estava. Na verdade, isso é uma herança dos meus avós, passada para o primeiro neto homem, como manda a tradição — que ninguém questiona na família. Meus pais ficaram orgulhosos; eu fiquei com um espaço enorme que nunca consegui chamar de meu. Casas grandes carregam histórias, mas também ampliam silêncios. Quanto mais espaço você tem, mais percebe o vazio que anda com você de cômodo em cômodo.
O cheiro do café tomou a cozinha assim que a máquina começou a funcionar, denso e quente, abraçando o ar gelado da manhã. Por um instante, me senti quase humano. O vapor subia preguiçoso, embaçando o vidro da janela, enquanto o tilintar da colher batendo na xícara se misturava ao barulho distante da rua. Entre o aroma amargo da cafeína e a luz pálida entrando pelas frestas da cortina, havia um fiapo de paz.
Durou exatamente cinco segundos.
A britadeira urrou como um animal possuído, e senti a vibração atravessar o chão, as paredes, o meu corpo inteiro. Fechei os olhos, respirei fundo, e o mundo pareceu tremer junto com o meu estômago embrulhado. Quando percebi, a xícara já tinha escorregado dos meus dedos.
O estilhaço do vidro contra o chão foi o toque final na sinfonia de um começo de dia miserável.
Fiquei parado por alguns segundos, encarando os cacos espalhados pelo chão. Não sabia dizer o que doía mais: o barulho insuportável lá fora, a minha própria distração ou a constatação de que até a porra do café tinha me abandonado.
Passei as mãos pelo rosto, sentindo o cansaço pesar nos ossos. Segunda-feira, sete e meia da manhã, e eu já estava exausto de mim mesmo.
Me agachei quase no automático, recolhendo os pedaços com as mãos, sem luvas, sem cuidado. Um dos cacos cortou meu dedo, abrindo um fio de sangue discreto, e eu nem pisquei. Só fiquei olhando aquela gota vermelha se misturar ao café derramado, como se fizesse parte da decoração infeliz da minha manhã.
— Namjoon?
A voz rouca de Emma cortou o silêncio da cozinha, quase um sussurro que tentava soar carinhoso. Merda. Por que ela já estava de pé?
Não respondi. Continuei juntando os cacos no pano de prato, como se aquele gesto pudesse me salvar do que viria a seguir.
Ela se aproximou devagar, e pude ouvir o arrastar dos pés descalços no piso frio, o tecido do robe deslizando nas pernas.
— Quebrou uma xícara? — perguntou, a voz agora mais desperta, mas ainda cautelosa.
— Uhum — respondi seco, sem olhar.
Ela se agachou ao meu lado, mas não tocou em nada, só observava, provavelmente, buscando um sinal ou qualquer coisa que eu não estava disposto a dar.
— Quer ajuda?
— Não. Já terminei aqui — disse, ainda sem a encarar.
Levantei com o pano sujo de café e sangue nas mãos e joguei no lixo. Eu pigarreei e ela suspirou, longo e profundo. Era a maldita pausa dramática que sempre vinha antes da conversa que eu não queria ter e que ela, com certeza, já tinha ensaiado mentalmente, enquanto eu ainda estava no bar afundando minha sanidade numa garrafa de bourbon com a minha amiga.
— Onde você estava ontem?
A pergunta veio baixa, mas afiada.
Me encostei na bancada da cozinha, esfregando o rosto como se aquilo fosse capaz de apagar a noite anterior. A barba por fazer arranhava a palma da minha mão e o gosto do uísque ainda grudava na minha garganta como mágoa mal digerida. O cheiro da bebida estava impregnado em mim. No casaco largado na poltrona, no meu cabelo, na minha pele. Um lembrete de que fugir nunca foi solução, só adiamento.
E ela também sentia. Claro que sentia.
Emma sempre percebe as coisas. Só finge que não.
— Com a Erin — respondi curto, honesto.
Ela suspirou, ajeitou os cabelos loiros, desalinhados.
— Até tarde? — provocou, sem precisar esperar resposta.
— A gente conversou. Eu precisava.
Ela riu, mas não foi um riso de verdade.
— Claro, mas eu estava aqui a noite toda. Te esperando. — Cruzou os braços, enquanto eu pegava uma nova xícara. — Comigo você só aparece pra dormir, com cheiro de bar e cara de quem já desistiu de viver aqui.
Fiquei calado. O que dizer? Que ela estava errada? Não estava.
— Não me sinto à vontade para conversar com você sobre tudo, Emma. — Fui brutalmente honesto, e vi a faísca de dor e raiva acender no olhar dela.
Enchi a caneca até a borda, sem açúcar. O amargor era o mínimo que eu merecia. A dor latejava na cabeça, o estômago se contorcia. E ela ainda ali, me olhando, esperando algo que eu não sabia se podia oferecer.
— Isso é ridículo — disse, ajeitando o cabelo, impaciente. — Você consegue fazer tudo com a Erin. Passar a noite fora, abrir sua vida para ela. Mas não consegue olhar para mim e dizer o que sente?
— Erin não me cobra nada que eu não sou. Ela é minha amiga desde criança — respondi rápido, antes de pensar demais. — Ela me escuta. Sem tentar consertar. Às vezes, é só isso que eu preciso.
Engoli o café em um gole que queimou a garganta.
— Às vezes sinto que somos inimigos, Namjoon.
— Não sei o que somos, mas acho que não somos inimigos — murmurei, fixando o olhar na caneca como se fosse uma boia num mar revoltado. — Emma, olha... eu só tô tentando sobreviver à minha segunda-feira de manhã. Só isso, tá?
— Com ressaca.
— Com ressaca — repeti, rindo sem humor. — E com a cabeça explodindo de tudo que eu não sei resolver.
Ela deu um passo. Depois, outro. Parou perto demais.
— Você não me toca há meses, Namjoon. Mal me olha. E quando fala, parece que está conversando com um colega de plantão, não com a mulher que escolheu pra casar. — Engoli em seco, tentando lembrar quando escolhi alguma coisa na vida. — Como diabos vamos ter um filho nessa situação?
O gosto do café virou ferrugem na minha boca.
— A gente se escolheu por conveniência, Emma. Vamos parar de mentir sobre isso e, pelo amor de Deus, não comece com essa conversa de filho agora.
— Não era conveniência quando você dizia que poderíamos fazer isso dar certo.
— Você me traiu e quer falar em conveniência? — respondi, e o silêncio que caiu depois foi tão pesado que até a britadeira lá fora pareceu parar de martelar por um instante. — Acho melhor encerrar esse assunto aqui.
— Por que insiste nessa merda, Namjoon? Foi um erro ridículo, impensado, e eu já pedi desculpas! — ela explodiu, e minha cabeça latejou com a intensidade da voz dela.
Respirei fundo. Não para me acalmar — isso exigiria energia que eu não tinha — mas porque precisava de ar. O ambiente estava saturado demais.
— Porque quando alguém quebra algo que você ama, Emma, não dá pra só dizer foi mal e esperar que tudo se cole de novo — murmurei, encarando o fundo da caneca. Tinha mais coragem ali do que em mim.
Ela passou a mão nos cabelos, andando de um lado pro outro na cozinha, com os passos impacientes de quem está prestes a bater em alguma coisa.
— Eu já disse que foi só a porra de um beijo — ela cuspiu a frase, como se minimizar aquilo fosse algum tipo de trégua.
Ri. Não porque achei engraçado, mas porque, depois de tudo, aquilo era só triste. Tão pequeno. Tão previsível.
— Sinceramente? — Franzi o cenho, completamente exausto — Você acha mesmo que, depois de toda a merda, eu me importo? Se foi beijo, se foi sexo, se foi, sei lá, um ménage?
Ela me lançou um olhar duro. Eu encarei de volta, sem recuar.
Por alguns segundos, a gente só ficou ali. Dois estranhos no palco montado pelos nossos pais, pelas expectativas de uma vida perfeita e por todas as merdas que engolimos pra manter as aparências.
Emma amarrou os cabelos em um coque e me direcionou um olhar frio, cortante e decepcionado.
— A merda do seu rancor te engole cada vez mais. Um dia você vai perceber que o problema não sou eu. É você. Sempre foi.
A loira piscou algumas vezes. Provavelmente, tentando decidir se pegava os cacos de vidro do lixo e jogava em mim ou se apenas ia embora. No fim, escolheu o caminho mais silencioso. Pegou o celular da bancada, ajeitou o robe no corpo e saiu do cômodo sem dizer mais nada.
O som da porta do quarto se fechando ainda ecoava quando eu me recostei na pia, segurando a maldita xícara com as duas mãos. O café já estava frio, mas eu ainda sentia o gosto do amargor escorrendo pela garganta.
Talvez eu devesse me sentir culpado. Ou pelo menos envergonhado. Mas tudo o que senti foi um vazio. Um alívio morno. Como quando um médico te diz que a dor no peito não é um infarto, só ansiedade mesmo. E isso era quase pior.
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O chuveiro desabou sobre mim como uma tempestade morna, lavando o suor e a ressaca, mas incapaz de arrancar a bagunça que carregava dentro do peito. A água escorria pelos meus ombros, pesando e, ao mesmo tempo, tentando levar embora a noite anterior, o cheiro de álcool, o gosto amargo da pequena discussão com Emma que ainda grudava na minha mente. Era estranho como uma ducha pode ser ao mesmo tempo um alívio e uma piada. Revigorante por fora, inútil por dentro.
O vapor tomou conta do banheiro do quarto de hóspedes, engolindo as paredes. A luz difusa transformava tudo em um cenário enevoado, e o espelho embaçado refletia uma sombra de mim mesmo. Esfreguei um pedaço limpo do vidro com a mão molhada e me encarei, como se encontrasse um estranho. Kim Namjoon. Psiquiatra. Marido de fachada. Homem à beira de ser pai — e de explodir. Olhos fundos, ombros curvados, barba por fazer. Um retrato cansado que nem a porra de um filtro caro conseguiria salvar.
Sequei o rosto com a toalha até a pele arder, tentando esfregar junto o peso da semana (mesmo que ainda fosse segunda), do casamento, da vida. Vesti a camiseta social branca, amarrotada, mas apresentável; depois a calça preta que já carregava marcas invisíveis de todas as horas em que me sentei para ouvir histórias que soavam perigosamente familiares. Por fim, os sapatos engraxados da pressa da noite anterior. Firmes no pé, prontos para outro dia fingindo estabilidade.
O uniforme perfeito para diagnosticar traumas alheios, ouvir confissões sobre pais ausentes e crises existenciais — e, com sorte, não desabar no processo. Se existisse um dress code oficial para médicos emocionalmente instáveis fingindo normalidade, eu seria capa da Vogue Clínica.
O relógio na parede zombava de mim: dez minutos para o plantão.
Passei pela cozinha antes de sair. O cheiro amargo do café ainda pairava no ar, misturado ao eco do meu fracasso matinal. Peguei as chaves, o celular e a pasta com os prontuários — ferramentas do meu trabalho, a única coisa que, por ora, fazia sentido.
— Sinto que tô esquecendo alguma coisa… — murmurei para mim mesmo, olhando em volta.
Nada. Só o vazio habitual.
Balancei a cabeça e abri a porta. Um último olhar para o lugar que nunca foi lar, antes que o som da obra lá fora retomasse o martelar insistente, ainda em perfeita sincronia com a minha própria cabeça.
Suspirei. O plantão me esperava. Comecei a treinar o sorriso falso para atender os pacientes daquelas manhãs. Porque eu precisava estar pronto para ouvir a dor dos outros, mesmo sem conseguir curar a minha própria.
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O hospital tinha aquele cheiro clássico de cloro misturado com café requentado e cansaço humano. Eu mal passei da porta e já senti o ar-condicionado me bater na cara como um lembrete de que o mundo real era feito de turnos, corredores frios e tentativas desesperadas de manter a sanidade.
— Meu Deus do céu… — A voz de Hoseok veio antes mesmo do meu crachá apitar na catraca. — O que aconteceu com a sua cara, Namjoon? Dormiu ou brigou com um urso?
— Passei a noite com ele, na verdade — resmunguei, largando a mochila na cadeira da recepção e massageando a têmpora. — Só que o urso é loiro, fala, usa perfume caro e decidiu discutir a relação às sete da manhã.
Yoongi, encostado na parede com a expressão de quem já desistiu da humanidade, ergueu uma sobrancelha.
— Aparentemente, o urso não gosta de dividir você com o whisky.
— Ah, claro — Hoseok riu, dando uma tapinha nas minhas costas. — Tá explicado esse ar de alma penada. Bebedeira com a Erin, né?
— Ela pagou. Eu só fui pela economia. — Franzi o cenho. — Como vocês sabem?
— Ela postou uma foto de vocês com uma garrafa de bourbon. — Hoseok inclinou a cabeça, sorrindo debochado. — Espero que tenha escovado os dentes antes de atender paciente.
Eles riram, mas não era piada. Ou talvez fosse. A essa altura, de fato, minha vida parecia um stand-up muito ruim.
Suspirei, olhando para o corte no meu dedo e depois para o metal dourado no meu anelar. Em um gesto automático, deslizei a aliança e guardei-a no fundo da mochila, dentro da caixinha do crachá. Já tinha repetido essa coreografia tantas vezes que nem precisava pensar. Tirar o anel não aliviava o peso que vinha junto, mas pelo menos dava a ilusão de controle.
— Você é um cachorro mesmo, Kim Namjoon — Yoongi riu, apoiando-se na maca, o sorriso carregado de cinismo. — Escondendo a aliança agora?
Revirei os olhos, sem muita energia pra devolver no mesmo tom.
— Não tô escondendo. Só não gosto de usar no plantão.
— Claro. Porque o Dr. Namjoon é sempre super higiênico, não é mesmo? — Hoseok soltou aquela risada escandalosa de sempre, do tipo que vira manchete em ambiente silencioso. — Espertinho.
— Se vocês me derem licença, seus idiotas — murmurei, batendo de leve no ombro dos dois ao passar —, tenho uma fila de prontuários e uma vontade enorme de sumir da face da Terra. Mas, por enquanto, só vou pra sala de atendimento.
— A gente se vê por aí, romântico frustrado — Yoongi disse, mal disfarçando o deboche.
Levantei o dedo do meio por cima do ombro sem nem olhar pra trás.
O plantão começou como sempre: chamados, prontuários, pacientes que falavam mais do que deixavam a gente falar, outros que não diziam nada e deixavam a dor pingar nos olhos. O tempo passou meio líquido, escorrendo entre uma conversa protocolar e outra. O tipo de dia que só existe pra te empurrar mais um centímetro pro fundo do poço.
A sala estava fria como sempre. Ar-condicionado num nível que beirava o punitivo. A mesa arrumada, os papéis empilhados com perfeição e a caneca de café vazia do lado direito — meu ritual meticulosamente inútil.
Chamei o próximo nome da lista.
— Seo Minjae.
A porta se abriu devagar, como se o próprio paciente hesitasse em entrar. Era um homem magro, de rosto vincado e olhar perdido. Trazia nos ombros algo que eu já tinha aprendido a reconhecer: o tipo de peso que não se compartilha com ninguém sem que doa. Muito.
Sentou-se diante de mim com um suspiro cansado. Aquele suspiro que parecia ter décadas.
— Disseram que você é bom em fazer a gente falar — ele começou, os olhos sem foco fixo.
— Eu tento fazer as perguntas certas — comentei, com um meio sorriso diante do elogio inesperado, enquanto trancava a porta. — Mas quando não sei o que perguntar, só abro espaço. Pode falar o que quiser.
Ele assentiu, devagar, com aquele olhar de quem já conhece o diagnóstico antes mesmo da consulta começar.
— Qual silêncio tá gritando mais alto aí dentro agora? — perguntei, sentando na poltrona e apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu era professor de literatura. Trinta anos ensinando os outros a sentir. A interpretar. Metáforas, poesia, dor, alegria alheia. — Deu uma pausa. — Mas ninguém ensina a gente o que fazer com a própria.
A frase me atingiu como uma lâmina.
— E agora? — perguntei.
— Agora eu olho pra minha casa vazia e penso que até o silêncio me abandonou.
Eu poderia ter dito algo. Qualquer coisa. Uma frase terapêutica, acolhedora, tirada do arsenal de clichês bem-intencionados. Mas fiquei calado.
Ele olhou pra mim.
— Minha esposa morreu há três meses. Meus filhos moram longe. E eu... — os olhos desceram para a palma da mão — …fico me perguntando se é normal ter tanto espaço por dentro.
Espaço por dentro.
Anotei algo na ficha só para disfarçar o impacto.
— Ninguém nos ensina a existir quando nossa função acaba — ele continuou. — Passei a vida sendo marido, pai, professor. Agora sou só um homem com tempo demais... e ninguém pra dividi-lo. Minhas noites são um inferno.
Fechei os olhos por um breve segundo. O suficiente pra sentir a pontada inevitável da identificação.
Quantas vezes eu mesmo acordei com a sensação de que existia só no piloto automático? Que a versão de mim que cumpria obrigações estava inteira, mas o resto era só fumaça?
— A ausência tem som, Seo Minjae. A gente só precisa aprender a escutar sem se culpar por ainda estar vivo.
O silêncio dele agora era outro. Um silêncio que não pesava mais tanto. Quase... respeitoso.
— Você ainda é um homem com tempo — continuei, mais baixo —, mas não é um homem vazio. Tá doendo porque havia amor. Tá doendo porque teve história. E se tem algo que a dor diz pra gente... é que ainda tem vida aí dentro. Mesmo que pequena. Mesmo que confusa.
Ele assentiu, lentamente. Um gesto quase imperceptível, mas que dizia tudo.
— E se hoje for só sobre continuar respirando — completei —, então que seja. Às vezes, existir já é revolucionário.
Ele mexeu no anel de casamento que ainda usava — um hábito tão automático quanto trágico. O metal girando no dedo como se estivesse tentando apagar o tempo. Fiquei olhando por um segundo a mais do que deveria.
Engraçado. Ele perdeu a esposa e ainda segura o anel como se fosse a última coisa que o mantém de pé. Eu, que ainda tenho uma, mal consigo mantê-lo no dedo por mais de duas horas.
— Às vezes eu acho que, se eu parar de lembrar dela... é como se ela morresse de novo.
Assenti devagar, deixando espaço pro silêncio fazer o que só ele sabe fazer. Depois, me inclinei um pouco pra frente, repousando os antebraços sobre os joelhos.
— Ela não morreu nas suas lembranças, Seo. Morreu no tempo. Mas não em você. E amar alguém que já foi embora é, talvez, uma das formas mais bonitas de coragem que existem.
— Coragem? — ele riu, mas foi um riso úmido. — Isso parece só fraqueza fantasiada de saudade.
— É que a gente aprendeu errado o que é força. Força, às vezes, é só seguir lavando a caneca do outro. Mesmo depois que ele já não volta mais pra casa.
Os olhos dele brilharam. E por um instante, não havia idade entre nós dois. Nem paredes de profissão. Só dois homens, tentando não desmoronar no meio da manhã de uma segunda qualquer.
— No fim, viver é isso, Seo Minjae… — falei baixo, quase para mim mesmo. — Seguir em frente mesmo quando ninguém mais cruza a porta. Continuar existindo, mesmo quando o mundo já foi embora.
Receitei uns remédios básicos para ajudá-lo no sono, algo leve, só o suficiente pra diminuir o volume da mente dele nas madrugadas. Às vezes, o maior alívio que posso oferecer como psiquiatra não está nas palavras que digo, mas no silêncio que proporciono — aquele que vem depois de semanas de insônia, quando o corpo enfim afunda no colchão e a mente não luta mais com os próprios fantasmas.
Preenchi a ficha devagar, como se pudesse, com minha letra inclinada, acalmar as bordas rasgadas da dor que ele carregava. E, por um segundo, me perguntei quantas pessoas andavam por aí, funcionando no piloto automático, apenas porque tinham aprendido a calar suas dores com rotina e remédios.
— Você acha que um dia eu paro de doer?
A resposta saiu sem que eu precisasse pensar muito.
— Ninguém para de doer. A dor muda. Ela não some, mas aprende a doer baixinho. E um dia, você vai acordar, respirar fundo e perceber que lembrar dela não machuca, só aperta um pouco — Suspirei. — É um processo, Minjae. Até a dor mais intensa é apenas uma visitante. Ela nunca fica para sempre.
Ele se levantou, agradeceu em silêncio e saiu. E então o relógio apitou o fim da sessão.
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O café da máquina do hospital era horrível. Um atentado contra qualquer paladar com um mínimo de dignidade. Mas pior que isso, só a insistência do Hoseok em tentar convencer a gente de que sabia cozinhar.
— Se você dissesse que fez seu clássico lámen, eu acreditava. Mas risoto de camarão? — Yoongi arqueou a sobrancelha, cético, apoiado na bancada da sala de descanso como quem já ouvira essa mentira antes.
— Meu risoto já ganhou elogios, tá? — Hoseok rebateu, ofendido na medida exata de quem leva suas habilidades culinárias a sério demais. — Minha mãe chorou comendo.
— Talvez fosse intoxicação alimentar — murmurei, levando o copo descartável à boca. O café queimou minha língua e minhas escolhas de vida ao mesmo tempo.
Rimos. Da piada, da exaustão do plantão e de nós mesmos.
Mas, como se o universo entendesse que aquele momento era só mais uma perda de tempo, completamente inútil e improdutiva, o pager apitou. Aquela vibração seca no cinto que trazia o mundo de volta com o peso de um soco.
“EMERGÊNCIA — PACIENTE COM TRAUMA EM ESCADA / QUEDA — POSSÍVEL CRISE PSIQUIÁTRICA ”
— Estava tranquilo demais pra ser verdade — Hoseok resmungou, jogando o copo descartável no lixo.
Nossos olhares se encontraram. E, em segundos, o humor sumiu. O riso morreu. O instinto médico tomou as rédeas. Saímos da sala apressados, cada passo ecoando no corredor branco.
Ainda sentia o gosto amargo do café quando empurrei as portas da emergência.
O mundo virou barulho. Enfermeiros correndo, vozes sobrepostas, termos técnicos cuspidos no ar. Mas, quando cheguei perto da maca, tudo desacelerou.
Foi quando eu a vi.
O cabelo castanho claro, desgrenhado e colado à testa suada. Respiração curta, trêmula. As mãos agarradas ao lençol como se fossem a última corda antes do naufrágio.
— Nome da paciente? — perguntei, pegando o prontuário. Hoseok já estava avaliando os sinais vitais.
— . Vinte e nove anos. Queda de escada durante aparente crise de ansiedade. Pressão instável. Arranhões nos braços e na lateral da costela. Desorientada, mas consciente.
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Aproximei-me devagar. Ela virou o rosto em minha direção, os olhos arregalados, cheios de medo e vergonha, como se esperasse ser julgada antes de ser salva.
— ? — chamei, voz baixa, firme. — Eu sou o Dr. Kim Namjoon. Você tá segura agora. Tudo bem?
Ela não respondeu. Só piscou algumas vezes, tentando entender se aquilo era real. Se a dor era real. Se ela ainda estava ali.
Havia algo no olhar dela. Uma espécie de vazio pulsando e eu já tinha visto aquilo antes.
No espelho.