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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 11/02/2025

Kim Namjoon


— Eu não quero ser pai.
Digo após virar a terceira ou quarta dose, afundando no encosto do bar de madeira, olhando para o teto como se ali estivesse alguma resposta divina. Erin soltou uma espécie de risada ou suspiro. Não soube identificar, mas, provavelmente, porque a frase caiu na mesa com o peso de um segredo antigo, feio, daqueles que a gente guarda no fundo da alma e finge que esqueceu. Mas nunca esquece. Só aprende a conviver.
O copo escorregava um pouco na minha mão — suado, morno, o gelo derretendo tão devagar quanto a paciência que eu ainda insistia em ter comigo mesmo. Erin falava havia mais de meia hora. Sobre a vida, sobre a pauta da semana, sobre alguma coisa envolvendo política, as malditas guerras e cafés artesanais. Eu não tinha certeza, porque Erin é uma espécie de raio em forma de pessoa. Fala sobre três assuntos ao mesmo tempo, muda de tema no meio da frase e espera que o mundo acompanhe o ritmo.
Eu não acompanho. Nunca acompanhei e não seria naquele maldito momento que eu iria ser capaz disso. Na verdade, tudo o que eu conseguia fazer era encarar o fundo âmbar do meu uísque como se houvesse alguma solução ali. E, talvez houvesse, mas eu precisaria de muito mais do que quatro doses para descobrir.
Esse uísque é um desgraçado.
Respiro fundo. Não pelo álcool, mas pelo que vem depois na minha cabeça. No fim das contas, tudo volta pra esse pensamento abstrato e maldito de “continuação”.
Porque o problema é que existe essa ideia fodida de que todo homem minimamente decente deveria querer deixar um legado. Ter um filho. Alguém que carregue seu sobrenome, seu tique nervoso, a forma exata como você dobra a manga da camisa. Alguém que te chame de pai com a mesma reverência com que você aprendeu a chamar o seu, mesmo que, no meu caso, o respeito venha embrulhado num ressentimento mal digerido.
Mas eu não quero. Simples.
Eu não quero que ninguém cresça carregando o peso da minha apatia, da minha frustração cuidadosamente embalada em sorrisos públicos, nem da minha insônia que já virou mobília. Não quero um filho que me olhe como olho pro meu pai — com admiração, sim, mas também com a suspeita amarga de que ele teria sido mais feliz se nunca tivesse me tido.
— Eu não quero estar aqui. — Erin pegou a garrafa da minha frente, deu um gole direto do gargalo e fez uma careta. — Mas, desde que os primeiros humanos tiveram que decidir entre fugir ou enfrentar o tal tigre-dente-de-sabre, a gente sempre teve que se virar mesmo sem querer. Então, convenhamos, ficar aqui reclamando não vai nos proteger do próximo problema.
Revirei os olhos e peguei a garrafa de volta, me servindo de mais uma dose e sentindo a cabeça dar os primeiros indícios de tensão pela conversa que viria a seguir.
— Você não entende — murmurei, só porque era mais fácil afastá-la do que deixá-la entrar na bagunça fodida da minha mente.
— Porra, Namjoon. Eu compreendo muito mais do que você imagina. — Ela se inclinou, os braços batendo na mesa de madeira que rangeu sob o peso. — Mas o que eu nunca vou entender é por que diabos você ainda tá se afogando nesse casamento morto, se destruindo aos poucos como se fosse obrigação.
Suspirei. Tomei mais um gole só pra não precisar responder. O álcool queimou na garganta, como uma punição pequena e merecida.
— Porque é cômodo — falei baixo, quase engolindo as palavras quando percebi que ela me olhava, de fato, esperando mais uma resposta. — Porque é mais fácil fingir que sou um homem decente do que admitir que sou um covarde.
Erin riu. Um riso seco, sem humor, como quem assiste alguém se afogar devagar.
— Parabéns. Falou igualzinho ao seu pai. — Os olhos dela brilharam com uma raiva contida, dolorida. — É cômodo, né? Pra eles, claro. Pra sociedade, pra família perfeita. Um médico rico, inteligente, bonito desse jeito, qualquer um diria que você venceu na vida.
Ela respirou fundo, a voz embargando no final.
— Mas pra mim, que sou sua amiga e te vi crescer… ver um homem incrível como você se afundar assim é praticamente assistir uma morte em câmera lenta.
Minha amiga me olhou quase em uma espécie de escavação com os olhos, tentando encontrar algum traço daquele Namjoon que um dia teve coragem. O cara que falava o que sentia mesmo sabendo que ia machucar. Que não abaixava a cabeça. Que ainda acreditava que amor bastava.
A verdade é que já existiu amor. Entre mim e Emma, minha esposa que, agora, era só mais uma desconhecida. Um sentimento tímido, sim, mas teve. Houve um tempo em que ríamos das mesmas piadas ruins, dividíamos o controle remoto e fazíamos planos pra um futuro que, hoje, parece ter derretido nas chuvas incessantes de Seul. Teve um tempo em que ela me olhava como se eu fosse tudo o que ela queria. E eu juro por Deus, eu devolvia o olhar.
Mas um dia, a vida ficou exaustiva demais, ela parou de voltar pra casa cheirando a lavanda e começou a voltar com o perfume de outro homem. Sutil, mas lá. Uma notificação silenciosa de que o tal nós já não existia.
Quando descobri, não gritei. Nem chorei. Só fiquei ali, olhando pro espelho tempo demais, tentando entender em que curva exatamente eu me transformei nesse cara. Esse que aceita traição com a mesma apatia de quem aceita o trânsito das seis da tarde. Irritado, mas acostumado.
Pensei em sair. Escrevi até uma carta ridícula. Mas aí, óbvio que Emma deu um show de arrependimento e meus pais apareceram com os discursos: tradição, aparência, “fases difíceis”. E aquele clássico de sempre, que escuto desde meus quinze anos: “Seja homem, Namjoon.”
Seja homem.
Ah, vá se foder.
Como se ser homem fosse morrer por dentro e continuar apertando a mão dos tios na ceia de Natal.
Ironia das ironias? Eu sou psiquiatra. A porra de um especialista em comportamento humano. Passo meus dias ouvindo gente falando sobre traumas, sobre o peso de se perder tentando agradar os outros, sobre a importância de dizer não. Falo tudo isso com propriedade, com firmeza, com convicção, diariamente. E toda vez que alguém me agradece, sorrio. E toda vez que eu sorrio, uma parte de mim morre. Porque sou a merda do exemplo que mando todo mundo evitar.
E agora, a cereja do bolo:
Meus pais acham que um bebê vai salvar tudo. Que um filho vai costurar as bordas desse casamento fodido e remendar a minha identidade rasgada.
— Quem sabe se vocês tiverem um bebê, as coisas melhoram.
É isso. Querem apagar traição, indiferença, noites frias e silêncios com fralda e papinha. Querem que eu sorria pra um berço enquanto desmorono em silêncio.
Às vezes, tenho vontade de gritar. De jogar o vinho na parede branca e gritar que não, caralho, eu não quero isso. Que não tem milagre capaz de transformar dois estranhos num casal só porque colocaram um nome num bebê inocente, que não pediu para vir ao mundo.
Mas eu não grito. Nunca grito.
— Me diz, Namjoon... o que você tá fazendo da sua vida além de fingir que tá tudo bem?
Fiquei em silêncio, ao ouvir a voz afiada de Erin. Encarei ela e, depois, o copo vazio. Suspirei e chamei o garçom.
— Mais uma garrafa de Bourbon.
— Tem preferência?
— Tennessee Whiskey. — Encostei as costas na cadeira, exausto. — Porque, no fim das contas, é o único remédio que eu ainda reconheço.





#Paladar áspero. Como café velho ou verdade dita tarde demais. Presença marcante de silêncio desconfortável, ressaca emocional e o leve torpor de uma cama compartilhada por conveniência. Persistência de arrependimento no fundo da língua. Corpo pesado, quase intolerável. Final seco, sem promessas de melhora. Talvez.


Kim Namjoon


Despertei com a porra de uma britadeira. De novo. Automaticamente, joguei a coberta grossa por cima da minha cabeça, mesmo sabendo que, não, aquilo não iria ajudar em nada. E foi exatamente isso. Virei para o lado, quando o som irritante ultrapassou a barreira que, inutilmente, eu tentei fazer. Não que eu estivesse dormindo de verdade. Na verdade, faz semanas que o sono vem e vai em uma espécie de limbo irritante. Eu até tô tomando as merdas dos remédios. Prescritos por mim mesmo, claro.
Talvez o problema nem seja a falta do sono.
Talvez seja outra coisa que ainda nem consigo nomear: essa vida mal remendada que eu carrego, cheia de decisões que não foram minhas, costurada com silêncios e obrigações. Fica impossível descansar quando até o travesseiro lembra que eu não queria estar aqui.
A parte que deveria ser engraçada se tornou pura ironia. Um psiquiatra com insônia crônica, que vive aconselhando os outros a descansarem, mas não consegue fechar o olho nem com ajuda farmacológica. Não sei como, mas meu cérebro simplesmente desenvolveu a habilidade invejável de resistir até aos benzodiazepínicos e transforma qualquer comprimido em mais uma espécie de balinha mentolada.
Suspirei fundo, tentando segurar a vontade de socar a cara do vizinho na mesma intensidade da porra do barulho que rasgava o quarto. O infeliz parecia decidido a destruir e reconstruir o mundo inteiro bem debaixo da minha janela. Às sete e quinze da manhã. Em plena segunda-feira. E, claro, o universo deu aquele jeitinho de sincronizar o caos da minha cabeça com o do vadio desempregado que, provavelmente, não vê sexo desde 2017 e resolveu inaugurar uma obra eterna do nada.
Pisquei algumas vezes, esperando que a claridade suave do quarto aliviasse o torpor, e foi só então que percebi Emma ao meu lado. Dormia tranquila, alheia ao caos, como se aquele som insuportável fosse a trilha relaxante de um spa mal localizado. O lençol cobria apenas metade do corpo, deixando a cena com aquela estética propositalmente espontânea, digna de um filme independente que força a naturalidade.
O cabelo loiro se espalhava pelo travesseiro, a pele impecável, e o rosto ainda era o mesmo que já fez tanta gente virar o pescoço na rua. Emma era linda. Sempre foi. De um jeito clássico e, como diz a mãe dela, intocável — feita para capas de revista ou para ser observada em silêncio atrás de um vidro de museu.
E, ainda assim, tudo nela me parecia distante. De um jeito frio, impessoal. Eu não sentia mais nada. Nenhum arrepio, nenhum calor. Só um vazio incômodo, disfarçado de rotina. Estar perto de Emma, agora, era quase como entrar num quarto sem janelas: uma claustrofobia emocional que não vinha dela, mas da história que se arrastava entre nós. Do desgaste, da bagunça que deixamos acumular até pesar entre esses malditos lençóis.
Olhei para ela de novo, e meu estômago deu um nó. Havia tanta distância que, por um segundo, quase ri da ironia de ainda dividirmos a mesma cama.
— Puta que pariu, Kim Namjoon — murmurei baixinho para mim mesmo, bagunçando os cabelos com força, enquanto a vontade de assassinar meu vizinho crescia a cada batida daquela britadeira. O desgraçado parecia ter sincronizado o som com a minha ressaca física e moral, que, aparentemente, chegou antes do que eu tinha pretendido.
Eu sabia que não deveria ter aceitado o convite da Erin.
Mas ela insistiu, como sempre.
"Só um drink, sem compromissos. Eu pago."
"Você precisa relaxar."
"Um homem casado e infeliz merece, no mínimo, um copo de uísque."
Foram as últimas mensagens que vi antes de sair do consultório às pressas, com uma sede que arranhava a garganta e queimava por dentro. Um copo virou dois. Dois viraram três e, agora, o quarto gira devagar, impregnado com o cheiro ácido de álcool. A luz da manhã começa a atravessar as cortinas, cortando meus olhos como lâminas finas. Sento na beira da cama, de calção e corpo pesado, enquanto a alma parece escorrer pelo chão, desejando trocar de lugar com qualquer maldita planta ornamental que não precise lidar com ressaca, pressão familiar e noites sem dormir.
Levantei da cama sem dizer nada e comecei a andar pelos cômodos, feito um fantasma familiarizado com cada canto. Eu odiava esse lugar. Sim, é escroto odiar sua própria casa, principalmente quando ela é grande, bonita e, tecnicamente, um privilégio. Mas, eu odiava o silêncio que parecia aumentar dentro dela, como se tivesse sido projetada para me lembrar o tempo todo do quanto eu estava sozinho, mesmo quando não estava. Na verdade, isso é uma herança dos meus avós, passada para o primeiro neto homem, como manda a tradição — que ninguém questiona na família. Meus pais ficaram orgulhosos; eu fiquei com um espaço enorme que nunca consegui chamar de meu. Casas grandes carregam histórias, mas também ampliam silêncios. Quanto mais espaço você tem, mais percebe o vazio que anda com você de cômodo em cômodo.
O cheiro do café tomou a cozinha assim que a máquina começou a funcionar, denso e quente, abraçando o ar gelado da manhã. Por um instante, me senti quase humano. O vapor subia preguiçoso, embaçando o vidro da janela, enquanto o tilintar da colher batendo na xícara se misturava ao barulho distante da rua. Entre o aroma amargo da cafeína e a luz pálida entrando pelas frestas da cortina, havia um fiapo de paz.
Durou exatamente cinco segundos.
A britadeira urrou como um animal possuído, e senti a vibração atravessar o chão, as paredes, o meu corpo inteiro. Fechei os olhos, respirei fundo, e o mundo pareceu tremer junto com o meu estômago embrulhado. Quando percebi, a xícara já tinha escorregado dos meus dedos.
O estilhaço do vidro contra o chão foi o toque final na sinfonia de um começo de dia miserável.
Fiquei parado por alguns segundos, encarando os cacos espalhados pelo chão. Não sabia dizer o que doía mais: o barulho insuportável lá fora, a minha própria distração ou a constatação de que até a porra do café tinha me abandonado.
Passei as mãos pelo rosto, sentindo o cansaço pesar nos ossos. Segunda-feira, sete e meia da manhã, e eu já estava exausto de mim mesmo.
Me agachei quase no automático, recolhendo os pedaços com as mãos, sem luvas, sem cuidado. Um dos cacos cortou meu dedo, abrindo um fio de sangue discreto, e eu nem pisquei. Só fiquei olhando aquela gota vermelha se misturar ao café derramado, como se fizesse parte da decoração infeliz da minha manhã.
— Namjoon?
A voz rouca de Emma cortou o silêncio da cozinha, quase um sussurro que tentava soar carinhoso. Merda. Por que ela já estava de pé?
Não respondi. Continuei juntando os cacos no pano de prato, como se aquele gesto pudesse me salvar do que viria a seguir.
Ela se aproximou devagar, e pude ouvir o arrastar dos pés descalços no piso frio, o tecido do robe deslizando nas pernas.
— Quebrou uma xícara? — perguntou, a voz agora mais desperta, mas ainda cautelosa.
— Uhum — respondi seco, sem olhar.
Ela se agachou ao meu lado, mas não tocou em nada, só observava, provavelmente, buscando um sinal ou qualquer coisa que eu não estava disposto a dar.
— Quer ajuda?
— Não. Já terminei aqui — disse, ainda sem a encarar.
Levantei com o pano sujo de café e sangue nas mãos e joguei no lixo. Eu pigarreei e ela suspirou, longo e profundo. Era a maldita pausa dramática que sempre vinha antes da conversa que eu não queria ter e que ela, com certeza, já tinha ensaiado mentalmente, enquanto eu ainda estava no bar afundando minha sanidade numa garrafa de bourbon com a minha amiga.
— Onde você estava ontem?
A pergunta veio baixa, mas afiada.
Me encostei na bancada da cozinha, esfregando o rosto como se aquilo fosse capaz de apagar a noite anterior. A barba por fazer arranhava a palma da minha mão e o gosto do uísque ainda grudava na minha garganta como mágoa mal digerida. O cheiro da bebida estava impregnado em mim. No casaco largado na poltrona, no meu cabelo, na minha pele. Um lembrete de que fugir nunca foi solução, só adiamento.
E ela também sentia. Claro que sentia.
Emma sempre percebe as coisas. Só finge que não.
— Com a Erin — respondi curto, honesto.
Ela suspirou, ajeitou os cabelos loiros, desalinhados.
— Até tarde? — provocou, sem precisar esperar resposta.
— A gente conversou. Eu precisava.
Ela riu, mas não foi um riso de verdade.
— Claro, mas eu estava aqui a noite toda. Te esperando. — Cruzou os braços, enquanto eu pegava uma nova xícara. — Comigo você só aparece pra dormir, com cheiro de bar e cara de quem já desistiu de viver aqui.
Fiquei calado. O que dizer? Que ela estava errada? Não estava.
— Não me sinto à vontade para conversar com você sobre tudo, Emma. — Fui brutalmente honesto, e vi a faísca de dor e raiva acender no olhar dela.
Enchi a caneca até a borda, sem açúcar. O amargor era o mínimo que eu merecia. A dor latejava na cabeça, o estômago se contorcia. E ela ainda ali, me olhando, esperando algo que eu não sabia se podia oferecer.
— Isso é ridículo — disse, ajeitando o cabelo, impaciente. — Você consegue fazer tudo com a Erin. Passar a noite fora, abrir sua vida para ela. Mas não consegue olhar para mim e dizer o que sente?
— Erin não me cobra nada que eu não sou. Ela é minha amiga desde criança — respondi rápido, antes de pensar demais. — Ela me escuta. Sem tentar consertar. Às vezes, é só isso que eu preciso.
Engoli o café em um gole que queimou a garganta.
— Às vezes sinto que somos inimigos, Namjoon.
— Não sei o que somos, mas acho que não somos inimigos — murmurei, fixando o olhar na caneca como se fosse uma boia num mar revoltado. — Emma, olha... eu só tô tentando sobreviver à minha segunda-feira de manhã. Só isso, tá?
— Com ressaca.
— Com ressaca — repeti, rindo sem humor. — E com a cabeça explodindo de tudo que eu não sei resolver.
Ela deu um passo. Depois, outro. Parou perto demais.
— Você não me toca há meses, Namjoon. Mal me olha. E quando fala, parece que está conversando com um colega de plantão, não com a mulher que escolheu pra casar. — Engoli em seco, tentando lembrar quando escolhi alguma coisa na vida. — Como diabos vamos ter um filho nessa situação?
O gosto do café virou ferrugem na minha boca.
— A gente se escolheu por conveniência, Emma. Vamos parar de mentir sobre isso e, pelo amor de Deus, não comece com essa conversa de filho agora.
— Não era conveniência quando você dizia que poderíamos fazer isso dar certo.
— Você me traiu e quer falar em conveniência? — respondi, e o silêncio que caiu depois foi tão pesado que até a britadeira lá fora pareceu parar de martelar por um instante. — Acho melhor encerrar esse assunto aqui.
— Por que insiste nessa merda, Namjoon? Foi um erro ridículo, impensado, e eu já pedi desculpas! — ela explodiu, e minha cabeça latejou com a intensidade da voz dela.
Respirei fundo. Não para me acalmar — isso exigiria energia que eu não tinha — mas porque precisava de ar. O ambiente estava saturado demais.
— Porque quando alguém quebra algo que você ama, Emma, não dá pra só dizer foi mal e esperar que tudo se cole de novo — murmurei, encarando o fundo da caneca. Tinha mais coragem ali do que em mim.
Ela passou a mão nos cabelos, andando de um lado pro outro na cozinha, com os passos impacientes de quem está prestes a bater em alguma coisa.
— Eu já disse que foi só a porra de um beijo — ela cuspiu a frase, como se minimizar aquilo fosse algum tipo de trégua.
Ri. Não porque achei engraçado, mas porque, depois de tudo, aquilo era só triste. Tão pequeno. Tão previsível.
— Sinceramente? — Franzi o cenho, completamente exausto — Você acha mesmo que, depois de toda a merda, eu me importo? Se foi beijo, se foi sexo, se foi, sei lá, um ménage?
Ela me lançou um olhar duro. Eu encarei de volta, sem recuar.
Por alguns segundos, a gente só ficou ali. Dois estranhos no palco montado pelos nossos pais, pelas expectativas de uma vida perfeita e por todas as merdas que engolimos pra manter as aparências.
Emma amarrou os cabelos em um coque e me direcionou um olhar frio, cortante e decepcionado.
— A merda do seu rancor te engole cada vez mais. Um dia você vai perceber que o problema não sou eu. É você. Sempre foi.
A loira piscou algumas vezes. Provavelmente, tentando decidir se pegava os cacos de vidro do lixo e jogava em mim ou se apenas ia embora. No fim, escolheu o caminho mais silencioso. Pegou o celular da bancada, ajeitou o robe no corpo e saiu do cômodo sem dizer mais nada.
O som da porta do quarto se fechando ainda ecoava quando eu me recostei na pia, segurando a maldita xícara com as duas mãos. O café já estava frio, mas eu ainda sentia o gosto do amargor escorrendo pela garganta.
Talvez eu devesse me sentir culpado. Ou pelo menos envergonhado. Mas tudo o que senti foi um vazio. Um alívio morno. Como quando um médico te diz que a dor no peito não é um infarto, só ansiedade mesmo. E isso era quase pior.
.

O chuveiro desabou sobre mim como uma tempestade morna, lavando o suor e a ressaca, mas incapaz de arrancar a bagunça que carregava dentro do peito. A água escorria pelos meus ombros, pesando e, ao mesmo tempo, tentando levar embora a noite anterior, o cheiro de álcool, o gosto amargo da pequena discussão com Emma que ainda grudava na minha mente. Era estranho como uma ducha pode ser ao mesmo tempo um alívio e uma piada. Revigorante por fora, inútil por dentro.
O vapor tomou conta do banheiro do quarto de hóspedes, engolindo as paredes. A luz difusa transformava tudo em um cenário enevoado, e o espelho embaçado refletia uma sombra de mim mesmo. Esfreguei um pedaço limpo do vidro com a mão molhada e me encarei, como se encontrasse um estranho. Kim Namjoon. Psiquiatra. Marido de fachada. Homem à beira de ser pai — e de explodir. Olhos fundos, ombros curvados, barba por fazer. Um retrato cansado que nem a porra de um filtro caro conseguiria salvar.
Sequei o rosto com a toalha até a pele arder, tentando esfregar junto o peso da semana (mesmo que ainda fosse segunda), do casamento, da vida. Vesti a camiseta social branca, amarrotada, mas apresentável; depois a calça preta que já carregava marcas invisíveis de todas as horas em que me sentei para ouvir histórias que soavam perigosamente familiares. Por fim, os sapatos engraxados da pressa da noite anterior. Firmes no pé, prontos para outro dia fingindo estabilidade.
O uniforme perfeito para diagnosticar traumas alheios, ouvir confissões sobre pais ausentes e crises existenciais — e, com sorte, não desabar no processo. Se existisse um dress code oficial para médicos emocionalmente instáveis fingindo normalidade, eu seria capa da Vogue Clínica.
O relógio na parede zombava de mim: dez minutos para o plantão.
Passei pela cozinha antes de sair. O cheiro amargo do café ainda pairava no ar, misturado ao eco do meu fracasso matinal. Peguei as chaves, o celular e a pasta com os prontuários — ferramentas do meu trabalho, a única coisa que, por ora, fazia sentido.
— Sinto que tô esquecendo alguma coisa… — murmurei para mim mesmo, olhando em volta.
Nada. Só o vazio habitual.
Balancei a cabeça e abri a porta. Um último olhar para o lugar que nunca foi lar, antes que o som da obra lá fora retomasse o martelar insistente, ainda em perfeita sincronia com a minha própria cabeça.
Suspirei. O plantão me esperava. Comecei a treinar o sorriso falso para atender os pacientes daquelas manhãs. Porque eu precisava estar pronto para ouvir a dor dos outros, mesmo sem conseguir curar a minha própria.

.

O hospital tinha aquele cheiro clássico de cloro misturado com café requentado e cansaço humano. Eu mal passei da porta e já senti o ar-condicionado me bater na cara como um lembrete de que o mundo real era feito de turnos, corredores frios e tentativas desesperadas de manter a sanidade.
— Meu Deus do céu… — A voz de Hoseok veio antes mesmo do meu crachá apitar na catraca. — O que aconteceu com a sua cara, Namjoon? Dormiu ou brigou com um urso?
— Passei a noite com ele, na verdade — resmunguei, largando a mochila na cadeira da recepção e massageando a têmpora. — Só que o urso é loiro, fala, usa perfume caro e decidiu discutir a relação às sete da manhã.
Yoongi, encostado na parede com a expressão de quem já desistiu da humanidade, ergueu uma sobrancelha.
— Aparentemente, o urso não gosta de dividir você com o whisky.
— Ah, claro — Hoseok riu, dando uma tapinha nas minhas costas. — Tá explicado esse ar de alma penada. Bebedeira com a Erin, né?
— Ela pagou. Eu só fui pela economia. — Franzi o cenho. — Como vocês sabem?
— Ela postou uma foto de vocês com uma garrafa de bourbon. — Hoseok inclinou a cabeça, sorrindo debochado. — Espero que tenha escovado os dentes antes de atender paciente.
Eles riram, mas não era piada. Ou talvez fosse. A essa altura, de fato, minha vida parecia um stand-up muito ruim.
Suspirei, olhando para o corte no meu dedo e depois para o metal dourado no meu anelar. Em um gesto automático, deslizei a aliança e guardei-a no fundo da mochila, dentro da caixinha do crachá. Já tinha repetido essa coreografia tantas vezes que nem precisava pensar. Tirar o anel não aliviava o peso que vinha junto, mas pelo menos dava a ilusão de controle.
— Você é um cachorro mesmo, Kim Namjoon — Yoongi riu, apoiando-se na maca, o sorriso carregado de cinismo. — Escondendo a aliança agora?
Revirei os olhos, sem muita energia pra devolver no mesmo tom.
— Não tô escondendo. Só não gosto de usar no plantão.
— Claro. Porque o Dr. Namjoon é sempre super higiênico, não é mesmo? — Hoseok soltou aquela risada escandalosa de sempre, do tipo que vira manchete em ambiente silencioso. — Espertinho.
— Se vocês me derem licença, seus idiotas — murmurei, batendo de leve no ombro dos dois ao passar —, tenho uma fila de prontuários e uma vontade enorme de sumir da face da Terra. Mas, por enquanto, só vou pra sala de atendimento.
— A gente se vê por aí, romântico frustrado — Yoongi disse, mal disfarçando o deboche.
Levantei o dedo do meio por cima do ombro sem nem olhar pra trás.
O plantão começou como sempre: chamados, prontuários, pacientes que falavam mais do que deixavam a gente falar, outros que não diziam nada e deixavam a dor pingar nos olhos. O tempo passou meio líquido, escorrendo entre uma conversa protocolar e outra. O tipo de dia que só existe pra te empurrar mais um centímetro pro fundo do poço.
A sala estava fria como sempre. Ar-condicionado num nível que beirava o punitivo. A mesa arrumada, os papéis empilhados com perfeição e a caneca de café vazia do lado direito — meu ritual meticulosamente inútil.
Chamei o próximo nome da lista.
— Seo Minjae.
A porta se abriu devagar, como se o próprio paciente hesitasse em entrar. Era um homem magro, de rosto vincado e olhar perdido. Trazia nos ombros algo que eu já tinha aprendido a reconhecer: o tipo de peso que não se compartilha com ninguém sem que doa. Muito.
Sentou-se diante de mim com um suspiro cansado. Aquele suspiro que parecia ter décadas.
— Disseram que você é bom em fazer a gente falar — ele começou, os olhos sem foco fixo.
— Eu tento fazer as perguntas certas — comentei, com um meio sorriso diante do elogio inesperado, enquanto trancava a porta. — Mas quando não sei o que perguntar, só abro espaço. Pode falar o que quiser.
Ele assentiu, devagar, com aquele olhar de quem já conhece o diagnóstico antes mesmo da consulta começar.
— Qual silêncio tá gritando mais alto aí dentro agora? — perguntei, sentando na poltrona e apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu era professor de literatura. Trinta anos ensinando os outros a sentir. A interpretar. Metáforas, poesia, dor, alegria alheia. — Deu uma pausa. — Mas ninguém ensina a gente o que fazer com a própria.
A frase me atingiu como uma lâmina.
— E agora? — perguntei.
— Agora eu olho pra minha casa vazia e penso que até o silêncio me abandonou.
Eu poderia ter dito algo. Qualquer coisa. Uma frase terapêutica, acolhedora, tirada do arsenal de clichês bem-intencionados. Mas fiquei calado.
Ele olhou pra mim.
— Minha esposa morreu há três meses. Meus filhos moram longe. E eu... — os olhos desceram para a palma da mão — …fico me perguntando se é normal ter tanto espaço por dentro.
Espaço por dentro.
Anotei algo na ficha só para disfarçar o impacto.
— Ninguém nos ensina a existir quando nossa função acaba — ele continuou. — Passei a vida sendo marido, pai, professor. Agora sou um homem com tempo demais... e ninguém pra dividi-lo. Minhas noites são um inferno.
Fechei os olhos por um breve segundo. O suficiente pra sentir a pontada inevitável da identificação.
Quantas vezes eu mesmo acordei com a sensação de que existia só no piloto automático? Que a versão de mim que cumpria obrigações estava inteira, mas o resto era só fumaça?
— A ausência tem som, Seo Minjae. A gente só precisa aprender a escutar sem se culpar por ainda estar vivo.
O silêncio dele agora era outro. Um silêncio que não pesava mais tanto. Quase... respeitoso.
— Você ainda é um homem com tempo — continuei, mais baixo —, mas não é um homem vazio. Tá doendo porque havia amor. Tá doendo porque teve história. E se tem algo que a dor diz pra gente... é que ainda tem vida aí dentro. Mesmo que pequena. Mesmo que confusa.
Ele assentiu, lentamente. Um gesto quase imperceptível, mas que dizia tudo.
— E se hoje for só sobre continuar respirando — completei —, então que seja. Às vezes, existir já é revolucionário.
Ele mexeu no anel de casamento que ainda usava — um hábito tão automático quanto trágico. O metal girando no dedo como se estivesse tentando apagar o tempo. Fiquei olhando por um segundo a mais do que deveria.
Engraçado. Ele perdeu a esposa e ainda segura o anel como se fosse a última coisa que o mantém de pé. Eu, que ainda tenho uma, mal consigo mantê-lo no dedo por mais de duas horas.
— Às vezes eu acho que, se eu parar de lembrar dela... é como se ela morresse de novo.
Assenti devagar, deixando espaço pro silêncio fazer o que só ele sabe fazer. Depois, me inclinei um pouco pra frente, repousando os antebraços sobre os joelhos.
— Ela não morreu nas suas lembranças, Seo. Morreu no tempo. Mas não em você. E amar alguém que já foi embora é, talvez, uma das formas mais bonitas de coragem que existem.
— Coragem? — ele riu, mas foi um riso úmido. — Isso parece só fraqueza fantasiada de saudade.
— É que a gente aprendeu errado o que é força. Força, às vezes, é só seguir lavando a caneca do outro. Mesmo depois que ele já não volta mais pra casa.
Os olhos dele brilharam. E por um instante, não havia idade entre nós dois. Nem paredes de profissão. Só dois homens, tentando não desmoronar no meio da manhã de uma segunda qualquer.
— No fim, viver é isso, Seo Minjae… — falei baixo, quase para mim mesmo. — Seguir em frente mesmo quando ninguém mais cruza a porta. Continuar existindo, mesmo quando o mundo já foi embora.
Receitei uns remédios básicos para ajudá-lo no sono, algo leve, só o suficiente pra diminuir o volume da mente dele nas madrugadas. Às vezes, o maior alívio que posso oferecer como psiquiatra não está nas palavras que digo, mas no silêncio que proporciono — aquele que vem depois de semanas de insônia, quando o corpo enfim afunda no colchão e a mente não luta mais com os próprios fantasmas.
Preenchi a ficha devagar, como se pudesse, com minha letra inclinada, acalmar as bordas rasgadas da dor que ele carregava. E, por um segundo, me perguntei quantas pessoas andavam por aí, funcionando no piloto automático, apenas porque tinham aprendido a calar suas dores com rotina e remédios.
— Você acha que um dia eu paro de doer?
A resposta saiu sem que eu precisasse pensar muito.
— Ninguém para de doer. A dor muda. Ela não some, mas aprende a doer baixinho. E um dia, você vai acordar, respirar fundo e perceber que lembrar dela não machuca, só aperta um pouco — Suspirei. — É um processo, Minjae. Até a dor mais intensa é apenas uma visitante. Ela nunca fica para sempre.
Ele se levantou, agradeceu em silêncio e saiu. E então o relógio apitou o fim da sessão.

.

O café da máquina do hospital era horrível. Um atentado contra qualquer paladar com um mínimo de dignidade. Mas pior que isso, só a insistência do Hoseok em tentar convencer a gente de que sabia cozinhar.
— Se você dissesse que fez seu clássico lámen, eu acreditava. Mas risoto de camarão? — Yoongi arqueou a sobrancelha, cético, apoiado na bancada da sala de descanso como quem já ouvira essa mentira antes.
— Meu risoto já ganhou elogios, tá? — Hoseok rebateu, ofendido na medida exata de quem leva suas habilidades culinárias a sério demais. — Minha mãe chorou comendo.
— Talvez fosse intoxicação alimentar — murmurei, levando o copo descartável à boca. O café queimou minha língua e minhas escolhas de vida ao mesmo tempo.
Rimos. Da piada, da exaustão do plantão e de nós mesmos.
Mas, como se o universo entendesse que aquele momento era só mais uma perda de tempo, completamente inútil e improdutiva, o pager apitou. Aquela vibração seca no cinto que trazia o mundo de volta com o peso de um soco.

“EMERGÊNCIA — PACIENTE COM TRAUMA EM ESCADA / QUEDA — POSSÍVEL CRISE PSIQUIÁTRICA ”

— Estava tranquilo demais pra ser verdade — Hoseok resmungou, jogando o copo descartável no lixo.
Nossos olhares se encontraram. E, em segundos, o humor sumiu. O riso morreu. O instinto médico tomou as rédeas. Saímos da sala apressados, cada passo ecoando no corredor branco.
Ainda sentia o gosto amargo do café quando empurrei as portas da emergência.
O mundo virou barulho. Enfermeiros correndo, vozes sobrepostas, termos técnicos cuspidos no ar. Mas, quando cheguei perto da maca, tudo desacelerou.
Foi quando eu a vi.
O cabelo castanho claro, desgrenhado e colado à testa suada. Respiração curta, trêmula. As mãos agarradas ao lençol como se fossem a última corda antes do naufrágio.
— Nome da paciente? — perguntei, pegando o prontuário. Hoseok já estava avaliando os sinais vitais.
. Vinte e nove anos. Queda de escada durante aparente crise de ansiedade. Pressão instável. Arranhões nos braços e na lateral da costela. Desorientada, mas consciente.
.
Aproximei-me devagar. Ela virou o rosto em minha direção, os olhos arregalados, cheios de medo e vergonha, como se esperasse ser julgada antes de ser salva.
? — chamei, voz baixa, firme. — Eu sou o Dr. Kim Namjoon. Você tá segura agora. Tudo bem?
Ela não respondeu. Só piscou algumas vezes, tentando entender se aquilo era real. Se a dor era real. Se ela ainda estava ali.
Havia algo no olhar dela. Uma espécie de vazio pulsando e eu já tinha visto aquilo antes.
No espelho.




#Aroma indefinido. Algo entre perfume doce esquecido em um lenço e o cheiro de hospital que gruda na pele. Há algo queimando, mas você ainda não sabe o quê. Os sentidos ficam em alerta. O coração desacelera. A mente acelera. Um encontro entre o estranho e o familiar.

Kim Namjoon


Entrei na sala de emergência quase como um furacão, ouvindo os sapatos batendo no chão, enquanto o barulho do “bip” irritante do pager ainda ressonava na minha cabeça, que aos poucos começava a sentir pontadas, demonstrando que o restante do dia seria mais pesado do que eu imaginava.
Na verdade, é praticamente impossível que um dia que começa uma merda termine com flores, paz de espírito e fadas.
O cheiro do hospital sempre foi o mais próximo que já cheguei de um tapa na cara: álcool, antisséptico e o vago desespero humano impregnado em um ar-condicionado.
Ser médico nunca foi uma escolha.
Foi mais uma dessas decisões que chegam prontas pra você, embrulhadas em expectativas alheias e seladas com um “é pro seu bem”. Eu queria fazer música. Rap. Como todos os adolescentes idiotas da minha época, incluindo meus colegas de trabalho, Jung Hoseok e Min Yoongi. Mas, eu, em específico, queria passar meus dias entre partituras tortas, café amargo e o silêncio confortável de um estúdio bagunçado porque aquilo, de alguma forma, fazia sentido pra mim. Sempre gostei de arte, de poesia, da ideia de criar alguma coisa que não envolvesse sangue, ataduras ou pacientes perguntando se vão morrer. Mas meus pais achavam que sensibilidade era uma falha de fábrica. Que amar música era bonito como hobby, mas inútil como profissão. E quando você tem 17 anos e tudo em você ainda está sendo montado — identidade, coragem, espinha dorsal —, você acredita. Você cede. Então eu entrei em medicina, na Universidade de Seul.
E o pior é que eu fui bom nisso. Ridiculamente bom.
Só que existe uma diferença entre ser bom em algo e pertencer àquilo. Eu ainda não tinha certeza se algum dia faria parte desse mundo de diagnósticos, emergências e gente se equilibrando no fio da própria sobrevivência. Ser bom não significa que aquilo foi feito pra você. Às vezes, a gente só aprende a funcionar dentro do que nos deram e esquece que, em algum momento, merecia escolher.
Mas mesmo em dias assim — como esse, em que o ar parece denso demais pra respirar —, às vezes eu entrava numa sala e tinha a sensação de que, talvez, fazer isso salvasse alguém. Nem que fosse só por algumas horas. Talvez eu nunca conserte quem chega até mim. Mas, em alguns momentos, eu posso ser o alívio que impede de quebrar de vez.
O quarto estava com aroma de limpeza, de coisa estéril, de tudo que, teoricamente, deveria trazer ordem. No centro de toda aquela assepsia estava minha nova paciente: uma mulher com rosto de garota claramente desmoronando por dentro.
Sentada na cama alta, ela parecia pequena demais para o mundo ao redor. O rosto úmido de suor, os cabelos grudados na testa e os olhos arregalados, presos entre o medo e o desamparo. Um filete de sangue riscava a testa, o tornozelo inchado denunciava o impacto, e os dedos tremiam, instáveis, enquanto algo dentro dela ainda despencava em silêncio.
— Preciso dos dados certinhos pra solicitar os exames, certo? — Hoseok disse enquanto avaliava o pulso da garota que tremia sob os lençóis. — Vamos precisar de um raio-x do tornozelo e do braço. E parece que você bateu a cabeça… — Ele lançou um olhar ao corte na testa dela, onde o sangue escorria devagar. — Talvez uma tomografia seja interessante também. Aliás… como você caiu da escada?
A pergunta ficou suspensa no ar, pesada, errada.
Nesse momento, Yoongi entrou, com uma prancheta na mão e a energia de quem definitivamente queria estar em qualquer lugar, menos ali. Olhou para a paciente, depois pro monitor, e de novo pra ela.
— Não precisa de tomografia, Hoseok — disse num tom morno, quase entediado. — Ela tá viva, orientada, respondendo a estímulos e bem…
A frase morreu no meio do caminho.
Foi ali que percebemos. O peito dela subia e descia em desespero, os olhos arregalados, as mãos agarrando o lençol como se fosse uma boia. . não estava ferida.
Ela estava em pânico.
.… — chamei, aproximando-me devagar, baixando a voz num instinto automático.
Ela não respondeu. Apenas me olhou — ou tentou. O olhar meio desfocado parecia preso entre o agora e algum passado fodido, quebrado, ao qual eu ainda não tinha acesso. As pálpebras piscavam rápido demais, e os ombros subiam e desciam num compasso torto, quase uma coreografia involuntária da própria ansiedade.
Então veio o primeiro soluço. Baixo, curto. E depois outro. E outro. Cada um parecia rasgar o peito dela por dentro, irregular, desesperado, como se o corpo tentasse chorar e respirar ao mesmo tempo e falhasse nos dois. O som era estranho. Quase infantil. E completamente deslocado daquela sala fria de hospital.
— Você consegue respirar comigo? — perguntei, ajoelhando-me ao lado da cama. Senti o olhar de alerta de Hoseok por cima da prancheta, mas não tirei os olhos dela. — Respira comigo, .. Só isso. Um… dois… três…
Eu tentei dar o ritmo, lento, seguro, mas ela não acompanhava.
O ar entrava e saía da garganta em soluços fragmentados, arranhando os ouvidos. Os dedos que antes só tremiam agora se fecharam com força no lençol, esticando o tecido branco até quase arrancar as costuras. A cena inteira parecia prestes a se partir ao meio.
— Yoongi, me ajuda aqui. Ela tá hiperventilando. Pode desmaiar a qualquer segundo.
— Já tô vendo isso, gênio — ele respondeu, se aproximando com uma máscara de oxigênio que pegou de algum canto enquanto eu tentava manter a calma, pelo menos por fora.
— Não. — Foi tudo o que ela disse, num sussurro engasgado, afastando a máscara com uma das mãos. Os olhos arregalados, o corpo cada vez mais tenso. — Eu não quero. Eu preciso voltar.
., você precisa respirar. É só oxigênio, vai te ajudar — insisti, sem mover a mão até ela aceitar. Mas ela balançou a cabeça, os olhos já sem foco, a respiração presa no peito como um grito engavetado.
Não sei que diabos deu em mim, mas me senti um completo idiota porque, sem pensar, quebrei minha própria regra. Em um gesto automático, quase instintivo, segurei a mão dela. Simples assim.
Foi irracional, fora do meu protocolo pessoal. Eu não era o tipo de médico que tocava pacientes. Nunca fui. Preferia a distância segura do diagnóstico, das palavras medidas, da caneta que escreve em prontuários e cria uma barreira invisível entre a dor do outro e a minha. O toque sempre pareceu perigoso. Próximo demais. Humano demais.
Mas ali, naquele instante, ela não era só uma paciente. Era uma versão fraturada de algo que eu já tinha visto várias vezes. No reflexo turvo do espelho de um banheiro de algum bar, no fundo de um copo de uísque numa manhã qualquer em que viver doía mais que o normal. E, por algum motivo que eu ainda não entendia, segurar a mão dela pareceu menos invasivo do que deixá-la sozinha naquela espiral.
— Você tá segura. Tá ouvindo? — murmurei, baixando o tom como quem fala com alguém à beira de um precipício. — Olha pra mim. Eu tô aqui.
Ela olhou. Por um segundo, olhou mesmo. Foi breve, quase inexistente, mas naquele instante tudo parou. Só havia o som do monitor, das nossas respirações desalinhadas, e dos soluços que ainda tentavam sobreviver.
E então o corpo dela cedeu no desmaio que eu já havia previsto.
— Merda — sussurrei, segurando-a no reflexo.
Segurei o peso dela antes que tombasse de lado. E foi nesse movimento, ao ajeitá-la na cama de novo, que franzi o cenho ao observá-la mais de perto.
Existiam diversas manchas.
Roxos antigos no braço, no quadril. Um hematoma ainda naquela fase nojenta entre o roxo e o amarelo no abdômen. Não eram marcas de uma queda. Não daquelas que estudei e conheço. Já tratei gente que caiu de três andares, de escada de ferro, de telhado podre em zona rural. E nenhuma daquelas pancadas vinha com essa assinatura: repetida, estratégica, silenciosa. Aquilo tinha outra origem. E não era o chão.
— Preciso que anotem tudo — disse baixo, mas firme, enquanto ajeitava a coberta sobre ela. — Tudo. Hematomas, localização, tempo estimado de formação. Isso aqui não é só trauma físico.
Yoongi e Hoseok se entreolharam, sérios pela primeira vez no plantão. E me afastei, sentindo o estômago revirar.
Dei um passo para trás, ajeitando o jaleco. O pager ainda estava preso na cintura. O barulho lá fora continuava: passos, conversas apressadas, chamadas de emergência. O mundo seguia normal. Mas tudo parecia abafado em comparação ao que tinha acabado de acontecer ali.
— Eu acho que essa paciente tem uma longa história pra contar. — Hoseok suspirou, após aplicar uma medicação no soro da garota adormecida.
— O que será que aconteceu com ela? — Yoongi a observou de cenho franzido.
— É o que vamos descobrir muito em breve. Pelo menos, é o que eu espero.
Suspirei, fitando cada detalhe do rosto sereno da garota.
Eu não sabia quem era . .. Mas alguma coisa nela já estava me sacudindo por dentro. E eu odeio quando isso acontece.
Porque senti que, pela primeira vez em muito tempo, era como se eu estivesse acordado.

.

O plantão passou como todos os outros: um borrão de vozes das enfermeiras insuportáveis que, infelizmente, sempre estavam no meu plantão, pedidos de exames, café morno e conversas truncadas demais para formar memórias completas.
Minha mãe sempre me dizia que quando a gente faz um trabalho corrido demais, nem sente o tempo passar. O problema é que ela nunca falou nada sobre o corpo pedir arrego no meio desse processo fodido. Nunca falou que o tempo podia passar, sim, mas feito um trator por cima de você.
Nunca me acostumei com a loucura e o cansaço dos dias. Só fui aprendendo a engolir um depois do outro. Exatamente como um comprimido sem água, com pressa, sem pensar e torcendo para o gosto passar logo.
Apaguei em algum canto da sala de descanso, com uma ficha escorregando do colo e a cabeça afundada num travesseiro que já devia ter sido cremado por motivos sanitários. O jaleco amassado servia de coberta improvisada, e meu corpo todo parecia ter sido atropelado por um caminhão de 24 toneladas.
O toque abafado do celular começou perto da minha orelha. Irritante, insistente, sem nenhuma consideração pelo fato de que eu estava morto por dentro. Levei alguns segundos pra entender o que estava acontecendo, até alcançar o aparelho com a coordenação de um idoso de 98 anos e checar o visor. 5:07 da manhã. Respirei fundo, esfreguei os olhos e só consegui pensar: caralho, não era um pesadelo. Ainda era hoje. Ainda era esse plantão.
E, pra mim, o pior de tudo: Emma estava ligando.
Namjoon?
A voz da Emma entrou seca, direta, como sempre. E como sempre, antes do bom dia.
— Oi — respondi com a língua grudada no céu da boca e o cérebro ainda nos estágios finais do coma induzido pelo cansaço.
Só pra avisar que meus pais remarcaram o jantar. Hoje à noite. Com os diretores da clínica de reprodução. Seus pais vão também. Precisamos estar apresentáveis.
Meu olho esquerdo começou a pulsar antes mesmo da irritação se instalar de verdade.
— Emma... você tem noção da hora?
Você sabe que eles gostam de resolver cedo — ela retrucou, tentando uma justificativa válida pra acordar alguém antes do nascer do sol pra falar sobre um evento social que parecia mais um teatro de marionetes ricos. — E achei que você ia gostar de saber com antecedência.
— Nossa, super gentil da sua parte. Obrigado pelo aviso de última hora. Sério — cuspi, a voz embebida em veneno, sono e ódio. — Mas eu já tenho compromisso hoje.
Pausa. Silêncio. Daqueles que antecedem uma bomba.
Como assim?
Fechei os olhos. Respirei fundo. E fui um baita filho da puta, porque menti com uma naturalidade assustadora.
— Precisei trocar o plantão com o Hoseok. Emergência. Ele tinha um negócio com a irmã.
Mais um silêncio. Longo, denso, carregado.
Você tá inventando isso só pra fugir, né?
Ela me conhecia. Esse era o mal. E, talvez, um dos motivos pelos quais eu não aguentava mais nem ouvir a voz dela.
— Não tô inventando. — Fiz uma tossida dramática, pra fingir veracidade. — O hospital tá uma zona. Você sabe como é. Meu pai também sabe. Ele vai entender.
Ah, claro — ela rebateu, seca. — Sempre vira uma zona quando envolve a sua família.
Não estava errada. De jeito nenhum.
Você sabe o quanto esse jantar é importante — ela continuou, agora com a voz subindo uma oitava, vestida de decepção. — Você sabe o quanto os nossos pais estão apostando nisso. Não custa nada fazer a porra de um esforço, Namjoon.
— Eu tô me esforçando, Emma. Mais do que você imagina. Mas o meu pai me ensinou a colocar o trabalho em primeiro lugar, lembra? Repete isso pra ele no meio do jantar, entre uma taça de vinho e outra. Boa sorte.
E desliguei. Antes que a lucidez voltasse e me fizesse engolir mais uma porra de compromisso que, na minha visão, não passava de uma apresentação de circo.
Suspirei e baguncei meus cabelos, arrepiando com a possibilidade de um jantar com dois magnatas que tratam embriões como ativos da bolsa e acham que fertilidade é sinônimo de status.
Eu precisava da porra de um cigarro.
Levantei devagar, sentindo os músculos reclamarem do pouco tempo de descanso, do café ruim, da vida mal vivida. Caminhei pelo corredor ainda escuro do hospital, onde só o zumbido das luzes frias e o eco dos meus próprios passos me faziam companhia.
Fumar é um hábito ridículo, eu sei. Passo os dias cuspindo sermões sobre saúde, jurando que emoções não resolvidas se enraízam em doenças, repetindo que falar dói menos do que se calar. Mas, na hora em que a porra toda pesa, a única válvula de escape que encontro é exatamente aquilo que condeno: o cigarro entre os dedos.
Me enfiar na escada de emergência virou, na verdade, uma espécie de liturgia. O concreto úmido, o cheiro azedo de desinfetante barato, a lâmpada piscando como se tivesse epilepsia… tudo ali já sabia de mim. Já me viu ajoelhado em silêncio, já me engoliu em crises que não couberam na enfermaria, já me guardou melhor que qualquer confessionário.
As paredes carregavam minhas cinzas. O corrimão, uma pequena lixeira clandestina de bitucas que eu deixava como oferenda.
Era grotesco, mas era meu.
A ironia sempre foi essa: fumar era o único jeito de lembrar que eu tinha pulmões. Ali, naquela poeira fria, eu respirava de verdade.
Quando percebi, já estava virando à esquerda, passando pela máquina de bebidas inútil, pela plaquinha torta da ala de observação, com aquele bip insistente de algum monitor vazando pelo corredor. Mas, quando dei por mim, não estava descendo a escada de emergência. Meus pés, ingratos e ridículos, mudaram de ideia sem me consultar.
Sala 05.
Alguma coisa ali — estranha, incômoda, inevitável — me puxava pra fora de mim mesmo. Como se eu tivesse sido programado pra chegar exatamente naquele ponto. Colisão, fuga ou recomeço… eu não sabia.
Talvez a nicotina pudesse esperar. Eu tinha jurado que não. Que precisava dela mais do que qualquer coisa. Já sentia o gosto metálico na boca só de imaginar o isqueiro acendendo, o pulmão queimando, a fumaça fazendo o trabalho sujo de me acalmar, mas minha personalidade curiosa, e irritante, decidiu sabotar a rota. Meus pés não obedeceram.
E, pela primeira vez em muito tempo, não foi o cigarro que me venceu, mas uma garota que eu só sabia o nome. . ..
A luz do corredor do quarto dela parecia mais forte do que eu lembrava, ou talvez fosse só o contraste com a penumbra daquele lugar. Entrei devagar, sem bater, sem chamar. Parte porque não queria acordá-la. Parte porque não fazia ideia do que diria se ela estivesse acordada.
E, para minha falta de sorte, ela estava desperta. Pensei em dar meia-volta, mas o corpo não obedeceu. A verdade é que sim: eu estava curioso pra caralho. E havia também aquela sensação insuportável de gravidade. Um fio invisível preso entre meus pulmões e aquele quarto.
Deixei que me puxasse.
Ela estava sentada na maca, os joelhos encolhidos contra o peito, os braços ao redor deles, como quem tenta se proteger de um mundo que não para de girar rápido demais. O rosto voltado para a janela embaçada pela madrugada, os olhos fixos no céu que começava a clarear devagar.
Não me viu de imediato. E, por um instante, eu não fiz questão. Fiquei ali, imóvel, apenas observando. Porque havia algo nela que me paralisou mais do que qualquer coisa poderia.
— Veio conferir se eu ainda tô viva? — A voz dela cortou o ar sem pedir licença. Doce e baixa, mas com a aspereza de algo que já ardeu demais, com a típica ironia escondida, queimando bonito.
— Parte do protocolo — respondi, encostando na parede, tentando parecer mais médico do que um homem normal. E falhando miseravelmente.
Ela soltou um riso curto, quase engasgado. E nele tinha uma dor antiga, daquelas que já aprenderam a morar dentro da garganta. Como se rir fosse um ato que sempre doía antes mesmo de nascer.
— Achei que protocolo envolvia mais gente de branco invadindo sem bater.
— Também. Mas eu quebro algumas regras. Poucas. Só as que valem a pena.
A madrugada se infiltrava pelas persianas, arranhando o chão com faixas de luz pálida. O silêncio no quarto não era clínico. Tinha peso de humano, de íntimo. Quase confessional. — Tá vendo aquele pedaço de céu? — ela perguntou, inclinando o queixo levemente, os olhos ainda cravados na janela embaçada. — Deveria clarear logo. Mas continua cinza. Sempre cinza.
Dei um passo. Depois outro. E mais um. Até o som da minha respiração se misturar com a dela.
— O que você tem contra o cinza, . .?
Ela sorriu. Um meio sorriso cansado, como aqueles que morrem antes de chegar nos olhos.
— O problema não é o cinza. O problema é que ele parece definitivo. Eu quase nunca tenho tempo de olhar pro céu, mas quando olho, tá assim. Com essa cor morta, exausta… como se tivesse desistido de ser azul só porque eu resolvi ver.
Fiquei em silêncio. Porque, como psiquiatra, eu sabia: aquilo não era só uma frase jogada ao vento. Era um pedido. Um grito abafado dentro de um corpo tentando parecer inteiro. Ela disfarçava bem, com palavras bonitas e sarcasmo na medida. Mas eu reconhecia o peso. Porque já tinha carregado ele também.
Porque ainda carrego.
Só então olhei pra ela de verdade. Não como paciente. Mas como alguém tentando decifrar o que, no meio de tudo, ainda a mantinha de pé. A linha do nariz, o contorno da mandíbula, a boca levemente rachada pelo ressecamento e, talvez, pela desidratação diagnosticada nos exames. Os olhos afundados demais pra idade que tinha. E neles, aquele brilho estranho — meio opaco, meio persistente — que a dor deixa quando fica tempo demais.
O rosto era bonito. Mas de um jeito esgotado. Desenhado com delicadeza e castigado por uma tempestade que, talvez, nunca deu trégua.
E foi isso que me incomodou: o contraste. O absurdo de alguém assim, tão bonito, estar tão quebrada. Tão apagada.
— Talvez o azul esteja só esperando. Escondido. Pra ver quem ainda tem coragem de procurar.
Ela virou o rosto, devagar. E quando os olhos dela encontraram os meus, alguma coisa dentro de mim deu um passo em falso.
— E se a gente parar de procurar?
— Então vira fumaça. A gente. O céu. Tudo. E viver no piloto automático é o jeito mais cruel de desistir de si mesmo.
Ela piscou devagar, e eu vi os olhos marejando aos poucos, cada lágrima surgindo com uma lentidão quase cruel.
— Tem dias em que tudo o que eu consigo fazer é respirar. Fingir que tá tudo certo, enquanto o peito para devagar. E o pior é que parece normal. E eu não aceito que nasci pra isso: aguentar, sorrir, calar.
Eu podia fingir que não entendi. Podia vestir o jaleco mental, recorrer a Freud, me esconder atrás de teorias e diagnósticos. Mas entendi. Entendi mais do que queria. Mais do que estava disposto a admitir.
., se a gente para de procurar o azul, não é ele que morre. É a gente. Em silêncio. Sem nem perceber. Ele sempre está lá, talvez em tons diferentes. Mais escuros, mais claros, mas sempre lá.
Ela abaixou o olhar. As mãos se fecharam sobre o lençol, esmagando os joelhos até os nós dos dedos ficarem pálidos. Um segundo de hesitação. Depois, os olhos de volta em mim. Diretos. Crus. Quase desafiadores.
E foi nesse instante que uma ideia ridícula, absurda e perigosa se instalou na minha mente e, pior, se recusou a sair.
— Vem. — estendi a mão. — Vamos abrir essa janela.
Ela me encarou incrédula, como se eu tivesse acabado de propor um salto no escuro. E, sinceramente, não a culpei. Nem eu mesmo me reconheci.
Não era médico o que eu estava sendo ali. Não era profissional. Não era nada que se aprendesse em livro ou protocolo. Era só um instinto estúpido, primitivo, de querer puxar alguém de volta pra superfície.
Caralho. De novo.
Me enfiando onde não devo. Sentindo o que não posso. Quebrando regras que eu mesmo inventei pra não me despedaçar junto.
E eu me odeio por isso. Pela fragilidade absurda que tenho diante de uma alma trincada. Pela vontade irracional de costurar, no toque, rachaduras que só o tempo ousaria cicatrizar.
Mas a verdade é que aquela janela não era só dela. Era minha também.
Por um instante, achei que ela fosse recusar. Mas então, com dedos vacilantes, ela agarrou os meus. E, merda, foi como segurar uma memória que eu nem sabia que tinha perdido. Algo quente, familiar, que me pegou de jeito e me desmontou sem pedir licença.
A trava rangeu, o vidro cedeu, e a brisa entrou pedindo desculpa pela demora. Fria. Mas viva.
Ela fechou os olhos. Deixou o vento tocar o rosto. E, por um segundo, parecia inteira. Não curada. Mas presente. Ali.
— Abre os olhos — murmurei, apontando o horizonte. — Azul.
O céu, enfim, se deixava ver. Primeiro tímido, quase escondido atrás do cinza. Depois, insistente, rasgando a madrugada em tons que não pediam permissão.
Ela abriu os olhos devagar, e eu acompanhei o movimento dela, quase acreditando na prova de que ainda era possível acreditar em recomeços.
Ela olhou pro céu. Depois pra mim. Depois pro meu crachá.
— Você é psiquiatra, certo?
Assenti, franzindo o cenho.
— Então me responde. — A voz dela saiu baixa, mas firme, como uma lâmina. — Como é que alguém aprende a chamar de lar um lugar que sempre doeu?
Fiquei parado. Vazio. A pergunta me atravessou com uma precisão filha da puta, porque não tinha resposta. Não a que ela queria ouvir. Não a que eu queria dar. Porque, no fundo, era a mesma pergunta que eu engolia todos os dias, sem coragem de soltar. E talvez por isso, pela primeira vez em muito tempo, eu também levantei os olhos e olhei pro céu e vi o azul. Mas vi com raiva. Com medo. Com esperança. Tudo ao mesmo tempo, tudo errado, tudo embolado. Como ela. Como eu.
Suspirei fundo e, de longe, avistei uma pequena fumaça saindo da chaminé de uma casa qualquer e, naquele momento, uma chave virou na minha mente.
Era aquilo que a gente era. Uma fumaça, flutuando pelos cantos do peito, se agarrando às paredes da mente, lembrando que ainda existimos apesar de tudo.
E no meio desse vapor, a gente respirava. Tímido, vacilante, às vezes engasgando. Mas respirava. Não havia cura completa, nem céu completamente azul. Só havia o esforço de permanecer, de abrir os olhos e encarar o mundo queimada após queimada.
A fumaça era nosso espelho — transparente e opaca ao mesmo tempo. Mostrava o que sobrou, o que doeu e ainda dói, e ainda assim, nos lembrava que ainda podia haver algo por respirar.
O eco de um incêndio que já queimou tudo o que podia e agora tenta, aos trancos, lembrar como é que se respira sem doer.
Olhei pra ela.
— Eu não sei — confessei, a voz mais baixa do que eu pretendia. Suspirei, pesado, sentindo a estranheza de me ouvir tão nu, tão sem resposta. Não parecia eu. Mas, ainda assim, as palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las: — Mas, acho que podemos descobrir juntos.



#Paladar amadeirado, denso, com a textura de memórias que rangem como piso velho. Notas secas de promessas guardadas em barris, envelhecendo até virarem silêncio. Persistência de vazio na boca, com a leve impressão de sangue e madeira crua. Corpo robusto, difícil de engolir, impregnado de saudade e rancor. Final longo, resinoso, feito eco de um amor que apodreceu devagar.

Flashback


— Um homem não foge quando as coisas ficam difíceis, Namjoon. E essa não é a primeira vez que eu te digo isso. — A voz grave do pai cortou o ar, tão firme quanto o estalar da lenha na lareira.
Kim Joon-woo nunca precisou levantar a mão para ser temido. Bastava o modo como endireitava a postura com o olhar pesado que fazia o mundo inteiro parecer pequeno demais diante dele.
— Você fez a porra de um voto, Namjoon. Até que a morte os separe, lembra?
O som daquelas palavras parecia vibrar nas paredes. O mesmo tipo de eco que Namjoon ouvira a vida inteira. Elas não vinham de um homem, mas de uma doutrina. Uma regra antiga, passada de pai pra filho como um fardo.
O mais novo manteve os olhos fixos no copo de uísque sobre a mesa, observando o brilho âmbar tremer sob a luz. Pensou que era isso o que restava de si: uma superfície calma, prestes a se quebrar.
O cheiro do charuto clássico o envolvia como fumaça velha, misturando memórias e sufoco. Estava cansado. Cansado de lutar, de fingir que ainda existia algo para salvar.
— Não dá mais, pai. — A voz saiu baixa, quase um sussurro. — Eu não amo mais a Emma. Talvez nunca tenha amado.
O pai riu — um som áspero, sem humor.
— Amor? — cuspiu a palavra como se ela tivesse gosto de veneno. — Amor é uma ilusão, meu filho. Casamento é compromisso. Você acha que eu e sua mãe vivemos quarenta anos juntos porque éramos apaixonados o tempo todo? Não. A gente aguentou. Eu aguentei, porque é isso que homens de verdade fazem.
Namjoon ergueu o olhar, e por um instante achou que pudesse ver, ali, no reflexo frio do pai, o que seria dele daqui a vinte anos. O mesmo terno, o mesmo silêncio, a mesma infelicidade bem engomada.
— E se eu não quiser aguentar? — perguntou entre os dentes, apavorado com a ideia de que aquele seria o próprio futuro. — E se eu não quiser viver uma vida inteira infeliz, como vocês? Isso não me torna menos homem.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase físico. Praticamente cortante.
O pai se inclinou na poltrona, fitando o filho com os olhos duros como pedra.
— Talvez não. — A voz dele era uma lâmina fria. — Mas aí você se torna mais fraco do que eu pensava.
Namjoon sentiu o estômago se contrair. Não pelo insulto, mas pela familiaridade. Era sempre isso: a medida do valor sendo a capacidade de suportar.
O relógio da parede marcou os segundos, impiedoso.
— Sabe o que você precisa? — disse Kim Joon-woo, enfim. — Um filho.
Namjoon piscou, confuso.
— O quê?
— Um filho vai botar juízo na sua cabeça. Vai te dar um motivo pra ser homem de verdade. Ter responsabilidades. — O tom era definitivo, mais sentença do que conselho. — Você e Emma precisam de um filho. É isso que vai salvar esse casamento.
Namjoon deu uma risada curta, sem ar. E, por um instante, entendeu. O pai não queria salvá-lo. Queria apenas garantir que o ciclo continuasse e isso fez com que o gosto amargo queimasse na própria garganta antes mesmo de o uísque tocar seus lábios.


Kim Namjoon


— Por favor, Hoseok, me salva só dessa vez. — Apoiei as mãos no balcão da enfermaria como se fosse uma confissão. — Só hoje. Eu deixo você cobrir o meu próximo plantão. Eu faço o que você quiser! Prometo que até busco o Mickey no pet shop e pago o banho premium com hidratação de pelo. Mas, pelo amor de Deus, me deixa pegar seu plantão hoje.
Hoseok nem ergueu os olhos do prontuário que preenchia, a caneta rabiscando com a precisão de um cirurgião e a paciência de um monge budista prestes a dar uma voadora em mim.
Ok. Eu sei que pedir sempre é uma ideia de merda. Sei disso antes mesmo de abrir a boca, mas o desespero é um bicho burro e insistente quando se trata de um desses caras que dizem ser meus amigos.
— De novo, Namjoon? — A voz dele soou tão calma que chegou a dar medo. — Você tem noção de quantas vezes eu já troquei plantão com você nesse semestre?
— É uma emergência — retruquei rápido demais.
— Emergência é quando alguém chega aqui com um pulmão perfurado, não quando você quer fugir de um jantar com a esposa de mentirinha. — Hoseok soltou um suspiro tão pesado que parecia ter sido arrancado do fundo da alma. — Cara… isso já tá virando piada.
— Eu queria que fosse um jantar, mas é uma armadilha psicológica montada pelos meus pais e pelos pais dela, com vinho caro e discurso sobre “a importância de construir uma família sólida” —disparei, as palavras saindo em uma torrente. — Eles querem me ver preso naquela cadeira, sorrindo feito um idiota, enquanto brindam com os donos da maldita clínica de reprodução que planejam que eu goze na porra de um pote.
— Caralho… — Hoseok passou a mão no rosto, tentando não rir. — Você precisa de terapia.
— Não, eu preciso que você deixe eu pegar seu plantão.
O bip irritante do monitor cardíaco no leito 3 interrompeu o diálogo por um segundo. Hoseok olhou para o aparelho, olhou de volta para mim e suspirou.
— Não, Namjoon. Eu já cobri merda demais pra você. Se eu trocar mais um, vou ser enterrado vivo pelos outros residentes. Fala com o Yoongi.
— Yoongi vai me mandar enfiar o plantão você sabe onde.
— E talvez seja exatamente o que você merece ouvir.
— Filho da puta. — Murmuro, mas ele finge que não ouviu.
Suspirei alto, pensando na merda que eu poderia inventar para que Yoongi me ajudasse. Porque, honestamente, se eu falasse a verdade — “quero fugir de um jantar onde meus pais e os dela vão brindar sobre o neto que ainda nem existe enquanto me chamam de incapaz de gerar um filho via sexo” — ele só levantaria uma sobrancelha e me mandaria à merda, provavelmente com razão.
Eu preciso de um plano. Um golpe baixo, se for preciso.
O caminho do corredor até a sala de descanso parecia mais longo do que o normal. Ou, talvez, fosse só a minha vontade de chegar em qualquer outro lugar. O chão refletia a luz fria, impiedosa, e o ar cheirava a desinfetante e o cansaço mórbido típico de profissionais da saúde. O latejar na cabeça avisava que meu corpo estava à beira do colapso, tentando me impedir de repetir o mesmo teatro de sempre.
O estresse deixava tudo meio turvo: as vozes que vinham das salas, o brilho estéril das lâmpadas, o zumbido constante das máquinas. E, mesmo assim, eu conseguia prever o roteiro inteiro daquela provável noite desgraçada: as frases ensaiadas, os olhares carregados de pena e o brinde hipócrita ao neto que ainda nem existe. E não existirá.
Hoseok está certo.
Isso já tá virando uma grande piada.

Como esperado, Yoongi estava lá. Sentado na poltrona de couro, de jaleco, com a expressão habitual de quem já desistiu da humanidade antes das sete da manhã. O som das páginas digitais do tablet era o único sinal de vida no ambiente.
Ele levantou os olhos quando me ouviu entrar, e por um instante eu pensei em voltar. Talvez, fingir que tinha esquecido alguma coisa no corredor ou qualquer desculpa pra não começar essa conversa.
Mas era tarde demais.
— Bom dia, hyung.
Yoongi franziu a testa automaticamente, como se eu tivesse acabado de anunciar que ia doar meus órgãos pra caridade. Largou o tablet no sofá e me encarou como quem avalia um suspeito de homicídio e, honestamente, eu não tinha certeza se estava tão errado assim.
— O que foi agora, Namjoon? — perguntou, seco. — Você nunca dá bom dia pra ninguém.
— Que mentira. Eu sou um médico e, além: sou psiquiatra. Educação faz parte do meu trabalho.
Ele arqueou a sobrancelha, completamente desconfiado e eu senti um calafrio na espinha.
— Tá, talvez não tão educado. — Levantei as mãos em rendição. — Mas hoje eu vim em paz. Na verdade, vim fazer uma oferta.
— Oferta? — Yoongi cruzou os braços, o jaleco amassado no cotovelo, e soltou um suspiro de tédio. — Se for pra você pegar meu plantão, pode ir economizando a saliva.
— Escuta primeiro. — Sentei-me na beirada da mesa exatamente como um vendedor de carros usados prestes a enganar um cliente. — Tem um show hoje. Daquela banda de rock que você adora e eu consegui dois ingressos premium. Pista. Bar aberto e, melhor ainda: cerveja alemã inclusa. Uma noite perfeita pra um médico sobrecarregado esquecer da existência de pacientes, chefes e plantões.
Talvez essa tenha sido a maior mentira que eu já contei em toda a minha vida. Eu sabia que ia ter a porra de um show, porque a Erin comentou no dia que estávamos no bar, mas, obviamente, não tinha ingresso nenhum. Zero. Nada além de um sorriso idiota na cara e uma voz convincente — pelo menos eu esperava que fosse convincente o bastante pra não levar uma seringa no olho.
Yoongi arqueou uma sobrancelha, e eu vi o brilho de interesse ali. Um pontinho. Era a minha brecha.
— Show? — ele repetiu, desconfiado. — Você tá tentando me comprar com música?
— Não é compra, é altruísmo. Eu me preocupo com a sua saúde mental, hyung. Você claramente precisa de uma noite de rock, álcool barato e uma chance de esquecer que o hospital existe.
Ele bufou, cruzando os braços.
— E por que eu deveria acreditar nisso?
— Porque eu tô desesperado, e você gosta de ver as pessoas rastejando. — Dei de ombros. — Então aqui estou eu: rastejando, implorando, e me humilhando como uma vadia.
Yoongi soltou uma risada curta, seca, quase imperceptível.
— Você é ridículo. — Balançou a cabeça. — Esquece, Kim Namjoon. Eu não posso passar meu plantão. Tenho que acompanhar a . Ela está em observação na ala de trauma desde ontem. E, infelizmente, essa bomba é minha. Não dá para jogar nas mãos de qualquer um.
Eu quase suspirei fundo, perdendo as esperanças.
— Cara, eu não sou qualquer um.— Apoiei as mãos no balcão, me inclinando pra frente. — Eu também sou médico. Posso lidar com a . E se precisar de algo mais sério, eu mesmo faço o encaminhamento. Tá tudo sob controle.
Yoongi me lançou aquele olhar de quem já viu merda demais nessa vida pra cair fácil em papo furado.
— Então, você conseguiu dois ingressos premium? — A voz dele era carregada de suspeita, e eu senti o suor frio escorrer pela nuca.
Não, porra, eu não consegui.
— Consegui — respondi rápido demais. Merda. Rápido demais sempre soa como mentira. — Quer dizer... claro que consegui. Foi difícil, mas, bem, eu sou um cara de contatos.
Ele estreitou os olhos. A tensão no ar era tão densa que eu quase podia ver o letreiro neon piscando “você tá fodido” atrás dele.
— Por que eu acho que isso é conversa fiada?
— Porque você tem problemas de confiança. Freud chamaria isso de projeção: você desconfia dos outros porque, no fundo, não confia em si mesmo. — Tentei sorrir, mas provavelmente parecia mais um criminoso psicopata do que um amigo sincero. — Relaxa, Min Yoongi. Você vai se divertir mais do que nas suas noites ouvindo Aerosmith no fone enquanto afoga os sentimentos num pote de macarrão instantâneo.
— Tá. — Ele finalmente falou, com a voz baixa e letal. — Eu pego seu plantão. Mas se eu descobrir que você tá inventando essa merda toda, Namjoon…
— Relaxa — interrompi, erguendo as mãos num gesto de paz. — Não tem mentira aqui.
— …eu te faço engolir um bisturi inteiro.
— Justo.
Assim que ele voltou os olhos pro tablet, eu saí da sala tentando não parecer um condenado no corredor da morte. Meu estômago já dava voltas porque, agora, além de lidar com o caos interno da minha vida de merda e cuidar de , eu tinha uma missão impossível: conseguir esses malditos ingressos antes que o Yoongi descobrisse que eu tinha vendido a alma dele para o diabo sem contrato.
.

O cheiro de café queimado era o mesmo de sempre. Forte demais para ser bom, fraco demais para salvar um espírito impuro como o meu. Apoiei as duas mãos na bancada da copa, observando o líquido escuro preencher o copo de isopor juntamente com o vapor e tentando convencer meu cérebro a sair do piloto automático.
“Tem dias que tudo o que eu consigo fazer é respirar. Fingir que tá tudo certo, enquanto o peito implode devagar. E o pior é que parece normal. Como se eu tivesse nascido pra isso. Pra aguentar, sorrir e calar.”
A memória veio como um soco no estômago.
Eu não queria lembrar. Não agora, não dela e nem do meu fracasso como profissional que deveria, no mínimo, manter uma distância respeitável.
Eu sou um maldito idiota. Aquilo não deveria ter acontecido. Não devia ter me deixado aproximar tanto. Não devia ter olhado demais, nem visto além da paciente.
Porque agora, cada vez que fechava os olhos, a imagem dela vinha de novo: frágil, mas com aquele brilho nos olhos que me ferrava por dentro, porque era exatamente o que eu via em mim todos os dias.
Mas era tarde demais.
Sacudi a cabeça, tentando espantar a lembrança.
Foco, Namjoon.
Não era hora de pensar nisso. Era hora de sobreviver. De cavar na memória as aulas de trauma da faculdade e fazer todo o trabalho sujo que eu mesmo tinha arranjado. Café em uma mão, prontuário na outra. Mais um plantão e, se o universo tivesse um pingo de compaixão, talvez eu saísse vivo.
Tá, mas aproveita por mim, ok? — A voz dela veio antes mesmo de eu entrar na sala. — Eu juro que eu ia, mas… eu tô presa nesse hospital idiota com soro no braço, então vocês vão ter que gritar por mim.
Empurrei a porta do quarto dela com o ombro enquanto rabiscava uma anotação. Eu parei na entrada, o prontuário na mão, só o bastante pra ouvir a risada baixa dela enquanto falava com alguém do outro lado da linha.
Claro que eu queria ver eles ao vivo. É minha banda preferida, amiga. Mas a vida acontece, né? — Ela suspirou, aquela voz suave misturada com um tom de frustração contida. — Depois a gente marca outro show, tá? Vai lá e me manda vídeos.
Fingi estar completamente focado no prontuário dela, enquanto me aproximava da cama.
— Oi, . — Minha voz saiu surpreendentemente calma. Talvez porque eu estivesse suando frio por dentro. — Estou só checando as anotações aqui… você vai precisar fazer mais alguns exames antes da gente decidir sobre a internação, beleza?
Ela levantou os olhos pra mim, e eu quase podia jurar que me analisou como quem estuda um inseto curioso.
— Ótimo. Porque eu adoro ser um experimento ambulante. — Ela sorriu, mas era aquele sorriso cínico que eu já tinha visto antes em pacientes cansados de hospital. —E, não, eu não posso ficar internada.
— Como assim, não pode? — Levantei uma sobrancelha, apoiando o prontuário no braço. — Você está em um hospital, . Não é tipo um drive-thru onde você escolhe se quer levar o lanche ou não.
— Eu sei exatamente onde estou, doutor. — O tom dela pingava sarcasmo. — Mas acontece que eu tinha planos para hoje à noite. Planos que não incluíam ficar presa aqui com gente estranha me espetando com agulhas e me dizendo para beber mais água a cada cinco minutos. Sério, se eu ficar internada, eu vou fugir.
— Eu também tenho planos para hoje à noite. — Cruzei os braços, tentando manter a calma que eu claramente não sentia. — E eles estão resumidos em fazer sua suplementação vitamínica, analisar os seus exames de sangue e, se você insistir nessa teimosia, te amarrar na cama com soro na veia.
— Você não entende. — Ela faz um biquinho irritado, desviando o olhar. — É um show importante para mim. White Cherry Riot é a banda que fez parte de toda a minha adolescência. Esperei anos para ver esses filhos da mãe ao vivo e agora… — gesticula em volta, indignada. — Olha onde eu tô.
E a porra de uma luz surgiu na minha cabeça.
White Cherry Riot.
É essa a banda. A mesma que a Erin comentou no bar. A mesma que inventei pra convencer o Yoongi a pegar meu plantão. Suspirei lentamente, sentindo um alívio tomar conta de todo o meu ser. Eu quase escuto sinos tocando dentro da minha mente. Era algum tipo de iluminação divina.
vai me salvar e nem sabe.
Fiz um esforço hercúleo para não sorrir como um psicopata na frente dela. Me forcei a parecer apenas o médico profissional, frio, imparcial, o que era difícil pra cacete, considerando que a solução pro meu problema estava ali, sentada numa cama de hospital com um soro na veia, com raiva e cheia de hematomas.
— Então quer dizer que você tem ingresso pra esse show? — perguntei, fingindo um tom casual.
Ela estreitou os olhos.
Tinha. — A palavra saiu quase como um lamento. — Eu ganhei dois ingressos premium no meu trabalho de uma amiga. Mas, olha só, agora eles vão ficar mofando na minha bolsa.
Dois ingressos premium.
Era oficial: o universo decidiu ser legal comigo por cinco segundos depois de passar meses me ferrando.
— Que pena, hein? — Forcei uma careta empática, apoiando o prontuário no braço. — Tipo… uma baita coincidência eu gostar dessa banda também.
— Você? Gostar de White Cherry Riot? — Ela arqueou uma sobrancelha, claramente duvidando. — Você é psiquiatra. Aposto que você escuta barulho de chuva no Spotify.
— Eu sou eclético. — Dei de ombros, tentando manter o sorriso que ameaçava escapar. — Na verdade, tava pensando que é triste esses ingressos ficarem parados. Talvez… eu pudesse dar uma utilidade pra eles.
Ela me olhou como quem observa um criminoso tentando ser carismático no tribunal.
— Espera aí… — Estreitou os olhos, cruzando os braços com uma lentidão quase ameaçadora. — Você está interessado nesses ingressos?
— Não interessado, só… — Inclinei a cabeça, tentando parecer relaxado, mas por dentro eu já tava numa reunião de emergência com meu cérebro. Mantenha a calma, Namjoon. Seja convincente. — Eu odeio desperdício, sabe? E se eles vão ficar parados mesmo, seria bom usá-los.
— Uhum. — O tom dela pingava sarcasmo. — E o que, exatamente, o Doutor Trabalho-24-Horas-Por-Dia quer fazer com ingressos premium de uma banda que, eu tenho absoluta certeza, provavelmente nem sabia que existia?
Droga. Eu precisava ser mais convincente.
— Bom, talvez eu seja mais interessante do que você pensa. — Tentei sorrir. Péssima ideia. Me senti um vendedor de carro usado tentando empurrar um fusca 98 batido.
— Ou talvez você seja só muito, mas muito suspeito. — Ela inclinou o queixo, os olhos brilhando com malícia. — Aposto que tem alguma coisa aí.
— Não tem nada. — Ergui as mãos em rendição. — Quer dizer, além de eu tentar te impedir de morrer de desidratação e garantir que seus amigos curtam o show sem você.
Ela soltou uma risada baixa, sacudindo a cabeça.
— Isso é surreal. Você quer os meus ingressos e ainda, quer que eu confie que não vai me deixar aqui presa eternamente nesse quarto de hospital?
— Correção: eu quero te manter viva e fazer um bom uso desses ingressos. Todo mundo ganha.
— Ah, então é chantagem mesmo. — Ela arregalou os olhos fingindo indignação, mas eu vi o canto da boca dela tremer.
— Não. — Inclinei-me, apoiando o prontuário na cama. — É negociação estratégica.
— Isso soa exatamente como alguém que sabe que tá perdendo a discussão.
— Isso soa como alguém que não quer admitir que precisa da minha boa vontade.
Ela bufou, os braços ainda cruzados, mas dava pra ver que estava tentando conter o riso.
— Você é o pior médico da história.
— E ainda assim, o único que pode te dar alta mais rápido.
— Filho da mãe. — Ela revirou os olhos, abriu a bolsa com uma violência teatral e puxou dois envelopes. Atirou-os na minha direção como se fossem armas de destruição em massa. — Toma, Doutor Chantagem. Que esses ingressos te façam feliz e me façam livre com urgência.
Peguei os envelopes com um cuidado exagerado, como se fossem bilhetes dourados pro paraíso.
— Você acabou de salvar minha noite.
— E você acabou de vender sua alma. — rebateu, já se jogando de volta no travesseiro. — Espero que valha a pena.
Saí do quarto dela com os dois envelopes premium na mão, e a primeira coisa que pensei foi: “Parabéns, Kim Namjoon. Você é oficialmente um palhaço.”
Porque, claro, eu consegui o que queria. Os ingressos. O passe livre pra fugir do jantar onde meus pais e os dela iam brindar com vinho chileno enquanto decidiam quantos filhos a Emma ia me dar. Eu devia estar feliz. Aliviado, até.
Mas tudo o que eu sentia era aquele peso escroto no peito, como se eu tivesse engolido uma pedra e ela tivesse se alojado bem entre as costelas.
Você é um profissional, lembra?
Profissional não faz chantagem com paciente. Profissional não sorri de canto de boca quando a paciente o chama de “filho da mãe” e joga os ingressos na mesa com a força de quem quer arrancar a alma de alguém.
E ainda assim, aqui estou eu, sorrindo feito um idiota.
Olhei para os envelopes na mão. A banda tinha um nome estampado em vermelho. White Cherry Riot. Eu nem gostava tanto de rock, mas agora aqueles dois malditos ingressos tinham virado minha salvação.
Solto um suspiro longo e sigo pelo corredor, ignorando o rangido irritante da sola do meu sapato contra o piso encerado.
É só trabalho. É o que eu repito sempre que algo ameaça sair do controle. Pacientes não são histórias, não são rostos que ficam. São casos. Protocolos. Alta ou internação.
Eu sou bom nisso. Em manter distância.
Então por que, caralho, fica cada vez mais difícil não pensar nela? Não na como paciente, mas na que olhou pela janela, encontrou o céu azul e riu fraco — tudo isso por causa de uma frase decorada, aprendida em algum livro que dizia como confortar sem se envolver.
Balancei a cabeça, tentando expulsar a imagem. Respirei fundo, ajustei o jaleco nos ombros e comecei a caminhar pelos corredores do hospital até a copa, onde o Yoongi provavelmente estava jurando minha morte pela quinta vez no dia.
E como eu esperava, ele estava encostado no balcão da copa com a mesma cara de tédio homicida de sempre, mexendo o café como se o líquido tivesse pessoalmente ofendido ele.
— Então? — disse sem olhar pra mim. — Cadê a prova?
— Prova de quê? — perguntei, mesmo sabendo exatamente do que ele estava falando.
— Dos ingressos, idiota. — Agora ele me olhou, olhos semicerrados. — Você jurou que já tinha conseguido. Se eu larguei meu plantão pra te salvar de mais uma tortura familiar, é bom que isso não tenha sido só papo furado.
Suspirei, enfiando a mão no bolso do jaleco com naturalidade. Os malditos envelopes premium estavam lá, queimando como ferro quente contra minha coxa.
— Eu falei que tinha, hyung. — Joguei os ingressos no balcão com um estalo, tentando parecer blasé. — Alguma vez eu falhei com você?
— Perdi as contas, seu imbecil. — Yoongi ergueu uma sobrancelha, mas pegou os envelopes como se estivesse recebendo as tábuas da lei diretamente de Deus.
— Ok, mas dessa vez não. — Cruzei os braços, forçando um meio sorriso. — Premium. Pista. Bar aberto. Do jeito que você gosta e do jeito que eu prometi.
Por dentro, eu só conseguia ouvir minha consciência gritando “você é um lixo, Kim Namjoon” em looping.
— Caralho… — Yoongi analisou os ingressos com um respeito quase religioso. — Eu não sei como você consegue essas merdas. Você é um psicopata social ou tem pacto com o diabo?
Pacto com uma paciente, mas tudo bem.
— Um pouco dos dois. — Dei de ombros, mesmo sentindo o estômago revirar.
— Você é perigoso, isso sim. — Ele guardou os ingressos no bolso com um sorriso satisfeito. — Mas, beleza. Eu te entrego o meu plantão. Aproveita sua noite de fuga conjugal.
— Obrigado. — Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
Yoongi já estava saindo da copa quando jogou por cima do ombro:
— Só não esquece: eu estou fazendo isso porque sou seu amigo. E porque você acabou de garantir um passe direto pro inferno.
Fiquei ali, parado, encarando a máquina de café como se ela pudesse absolver meus pecados.
Inferno? Eu já tava com o nome na lista VIP. Mas, pelo menos, eu não iria para o jantar. E, honestamente, o inferno parecia um lugar bem mais atraente do que qualquer mesa decorada com sorrisos falsos e expectativas alheias.
.

O hospital estava estranhamente silencioso àquela hora da noite. Segunda-feira sempre tinha esse clima meio denso, quase podre, como se o fim de semana tivesse deixado um rastro de caos e todo mundo estivesse tentando fingir que ainda havia ordem no mundo.
E, por algum motivo masoquista, as segundas à noite eram meus plantões preferidos.
Talvez porque não tinha tanta gente nos corredores. Não tinha sorrisos forçados de famílias em visita, nem o burburinho irritante de médicos novos tentando impressionar. Só o som das máquinas, o ar condicionado chiando e o relógio marcando as horas de um jeito cruel.
Era um silêncio cheio. Daquele tipo que você sente vibrar no peito.
E eu gosto disso.
Ou, pelo menos, sempre achei que gostasse. Porque a solidão parece mais segura do que lidar com perguntas sobre como eu estou ou com olhares de pena diante das minhas ressacas quase cotidianas. É mais fácil lidar com corredores vazios do que com pessoas tentando me consertar.
Suspirei fundo, olhando o relógio de pulso até que o vibrar do celular no bolso do jaleco me tirou a concentração. Peguei sem muito interesse, esperando alguma notificação inútil, mas o nome que piscava na tela gelou o estômago.
Pai.
“Já marquei para a próxima semana. O médico da clínica foi claro: quanto antes iniciarmos o processo, melhor. Fugir não vai resolver nada, Namjoon. Não vou prolongar mais essa situação.”

Soltei um riso seco que mais parecia um engasgo, observando como a maldita mensagem parecia queimar na tela, nos meus olhos, na minha alma.
— Eu preciso de ar. Porra, preciso muito.
Fechei os olhos com força, tentando controlar o nó que subia na garganta. Um nó feito de raiva, cansaço e de uma coisa mais perigosa que eu não queria nomear.
Joguei o celular sobre a mesa com força o bastante pra chamar a atenção se alguém estivesse por perto. Por sorte, não havia ninguém. Só eu e o gosto seco do carvalho grudado na minha boca.
Levantei da cadeira com um impulso brusco, o jaleco quase escorregando do ombro, e caminhei em direção à saída do hospital com passos pesados demais pra hora da noite.
O ar nos corredores parecia mais pesado a cada passo, como se até as paredes soubessem o que se passava na minha cabeça. Eu não sabia se sentia raiva, cansaço ou aquela vontade estúpida de chorar que vinha quando eu menos esperava.
A mão fechou com força no maço de cigarros amassado dentro do bolso. Não era um hábito — nunca foi. Mas, naquela noite, eu precisava de qualquer coisa que me lembrasse que ainda existia alguma sensação além da porra do peso no peito.
Empurrei a porta de emergência com mais força do que o necessário, deixando o ar frio da noite me atingir como um soco. A área externa estava deserta, iluminada só por um poste enferrujado que lançava uma luz amarela e feia sobre o chão rachado.
A chama do isqueiro tremeu quando acendi o cigarro. Traguei com força, quase com raiva, e o gosto amargo queimou minha garganta. Péssimo.
Talvez fosse isso que eu necessitava: um instante de silêncio interno, mesmo que custasse a nicotina impregnada na roupa.
O estalo leve de passos na pedra me tirou do transe.
— Então é assim que você mantém o título de médico do ano? — A voz feminina cortou o ar frio, firme e levemente debochada. — Matando os próprios pulmões?
.
Quase deixei o cigarro cair no reflexo. Soltei-o como se fosse um crime, esmagando a ponta incandescente no chão com a sola do sapato.
Merda. Por que eu estava agindo como um adolescente flagrado em festa?
Ela estava ali, na penumbra da noite, a luz do poste jogando sombras duras no rosto dela. Um brilho estranho no olhar que eu não consegui interpretar — se era desafio, se era sarcasmo, se era só cansaço.
— Não são só os pulmões.
Respondi, sentindo uma maldita lágrima cair sem avisos.
— Tem jeitos de continuar vivo que são quase uma forma de morrer.
Por um segundo, o gosto amargo do carvalho na minha boca perdeu o sentido.
Eu me peguei tentando decidir se aquilo era uma alucinação causada pelo alcatrão do maldito cigarro, ou se o cansaço da vida tinha me deixado vendo coisas.
respira fundo antes de responder.
— Mas também tem jeitos de continuar vivo que não doem o tempo todo. A gente só esquece disso quando tá cansado demais. Você me disse isso em outras palavras hoje, Doutor Chantagem. Ou você não lembra do azul?
Algo aperta no peito, depois afrouxa, como um músculo que eu nem sabia que estava tenso. E, no fundo, a única certeza era que eu não fazia a menor ideia do que aquilo significava.


Continua...


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: : Oi, meus amores. Antes de qualquer coisa, eu preciso pedir desculpa pela ausência. A faculdade tomou mais de mim do que eu imaginava, e junto com isso veio um bloqueio criativo daqueles que te engolem vivo. Mas, espero que em 2026 tenhamos boas histórias para contar e muitos surtos com a escrita, porque só vale a pena assim, né? rsrsrs
Agora eu estou de volta, com Maelie, com Namjoon, e com essa fanfic que ainda tem muito a dizer. Obrigada por ficarem, por voltarem, por sentirem comigo.
Espero que gostem.
Com carinho,
@dearvray. 💜

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