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Revisada por: Sagitário♐

Última Atualização: 13/9/25
No obscuro véu do destino, uma profecia ancestral ecoa,
Da união proibida entre o oculto e o desconhecido brota,
Uma criança concebida sob o véu da magia obscura,
Nascida do amor proibido, marcada pela sina sinistra.

Sob a luz pálida da lua, ela crescerá cintilante,
O coração pulsante de trevas, destinada à perdição,
Ao atingir a maioridade, seu destino será selado,
Como uma marionete das sombras, seu caminho traçado.

Uma amante das trevas, seu coração pertencerá ao além,
Em seus lábios, o beijo da morte, em suas veias, o veneno do além,
Ela se entregará aquele que anda a noite, senhor das noites sem fim,
E juntos, erguerão o trono dos mortos vivos, destinados ao abismo.

A humanidade se curvará diante de sua sombra impiedosa,
Escravizada pela fome voraz dos filhos da noite tenebrosa,
Sob o reinado dos noturnos, o mundo conhecerá o medo,
E a profecia sombria se cumprirá, selando o destino sem remédio.




EM ALGUM LUGAR NA REGIÃO DA NORUEGA, DOIS ANOS ATRÁS...


O vento gelado soprava pelas estreitas ruas da cidade norueguesa de Yurdisvik, trazendo consigo o aroma fresco do mar e o eco distante dos fiordes. As casas de madeira, pintadas em tons de azul e verde, se erguiam em meio à paisagem rústica envolta por montanhas majestosas, suas janelas adornadas com cortinas de renda que tremulavam suavemente com a brisa gelada do Ártico.
Era uma cidade encantadora, mas também misteriosa, onde as sombras pareciam dançar nas vielas estreitas e os segredos se escondiam nas paredes de pedra.
No coração de Yurdisvik, situava-se um pequeno café de aspecto antiquado, com mesas de madeira escura e cadeiras de ferro forjado. O aroma do café recém-torrado pairava no ar, misturando-se com o cheiro adocicado de bolos caseiros.
Era ali que Igor Montgomery, um homem de olhos verdes que pareciam brilhar com a intensidade de uma floresta em chamas, com porte físico robusto, moldado pela disciplina militar, e sua pele escura contrastava com o branco imaculado da neve que cobria as ruas lá fora.
O homem se encontrava sentado, imerso em seus próprios pensamentos ocultos sob uma máscara de calma aparente.
À sua frente, sobre a mesa de madeira desgastada, repousava um antigo livro pequeno, suas páginas amareladas pelo tempo e sua capa adornada com símbolos complexos, porém, repleto de palavras antigas e enigmas obscuros; um tesouro esquecido pelos séculos que guardava os segredos do destino. Igor observava o livro com uma expressão séria, como se buscasse decifrar seus segredos ocultos.
Com um movimento rápido e preciso, ele ativou o comunicador preso discretamente à sua orelha, murmurando baixinho:
Agente Ártemis... — A voz suave, mas carregada de autoridade. — Atualização de status do mensageiro do ninho.
Seus olhos varreram furtivamente o ambiente, procurando pelo mensageiro que deveria se aproximar. A tensão estava presente em cada músculo de seu corpo, pois sabia que os membros daquele ninho eram astutos e qualquer movimento em falso poderia comprometer sua missão.
Ele permaneceu alerta, seus sentidos aguçados como as presas de um lobo na escuridão da noite.
Uma voz sussurrou em seu ouvido através do comunicador:
O mensageiro está a caminho. Está vindo do Norte. Mantenha-se alerta, agente Apolo. Eles são perspicazes, e seu líder não hesitará em impedir a aproximação se suspeitar que você não está sozinho.
O coração de Igor acelerou enquanto ele aguardava, seus sentidos aguçados e sua mente alerta para qualquer sinal de perigo iminente. A atmosfera ao seu redor era carregada de suspense, como se o próprio ar estivesse impregnado com o segredo que ele buscava desvendar.
Ergueu-se da cadeira com uma graça felina, seus músculos tensos e prontos para o que estava por vir.
Igor observava atentamente os frequentadores do café, cada movimento, cada gesto, em busca de qualquer sinal do mensageiro que se aproximava.
E então, ele o viu.
O homem se aproximou com uma elegância natural, sua figura alta e esbelta cortando o ar gélido como uma lâmina afiada. Seus cabelos escuros estavam meticulosamente arrumados, contrastando com a palidez de sua pele e o brilho penetrante de seus olhos azuis gelados, que pareciam penetrar a alma de quem cruzasse seu caminho, emanando uma aura de mistério e alto perigo. Ele vestia um sobretudo cinza impecável e roupas de grife que exalavam sofisticação e poder.
O mensageiro se aproximou de Igor com a elegância de um predador, estendendo a mão como um gesto de cumprimento. Igor capturou o olhar do homem, reconhecendo nele a determinação e a sagacidade próprias dos membros de um ninho poderoso.
Uma frase sussurrada escapou dos lábios do mensageiro:
A escuridão será subjugada pela luz.
Igor apertou a mão do mensageiro, correspondendo ao cumprimento de maneira firme e discreta. Ambos se sentaram, os olhares se cruzando em um jogo de intenções ocultas. O mensageiro exibia um posicionamento refinado, uma leve sedução em seus gestos calculados, que contrastava com a firmeza implacável de Igor.
Igor, não deixando de notar a aura intrigante que envolvia o mensageiro, iniciou:
— Você não me parece ser apenas um mensageiro comum do ninho. — observou ele, seu tom carregado de curiosidade.
O mensageiro riu, desviando elegantemente o olhar para o livro de capa surrada sobre a mesa, o reconhecendo.
— Este livro é considerado uma bíblia de esperança para algumas criaturas — explicou ele, sua voz suave como seda, o dedo pálido apontando de maneira elegante para o objeto em cima da mesa de madeira. — Presságios de um futuro em que essas criaturas não precisam mais se esconder em sociedades ocultas, reprimindo suas culturas e desejos.
Igor ponderou as palavras do mensageiro, sua expressão séria revelando as profundezas de suas preocupações.
— Existem razões para que os humanos comuns vivam sem conhecimento real do Mundo das Sombras — argumentou ele, franzindo o cenho. — Poderia haver caos desproporcional para ambos os mundos. Claro, que, como se já não houvesse caos desproporcional mesmo sem essa revelação.
O mensageiro pareceu concordar, mantendo o ar misterioso que o envolvia. Ele então perguntou sobre o item requisitado, desviando habilmente a conversa para o assunto em questão.
Com um gesto rápido, Igor retirou um pequeno frasco escuro do bolso e o colocou sobre a mesa.
— Dentro deste frasco está um pouco do sangue do indivíduo que estamos investigando há anos — revelou ele, seu olhar fixo no mensageiro.
Os olhos do mensageiro se fixaram no frasco, e por um instante, uma sombra de vermelho parecia dançar em suas írises azuis gélidas. Era como se o próprio sangue corresse por suas veias, despertando uma sede ancestral.
Quando o homem se aproximou para pegar o frasco, Igor o deteve com um gesto firme.
— É crucial confirmar se este sangue possui propriedades mágicas — exigiu. — Além disso, é importante saber quando poderei me encontrar com o líder do ninho.
O mensageiro desviou o olhar do frasco para Igor, sua expressão assumindo um tom sombrio e sério. Então, com um sorriso enigmático, ele se levantou da cadeira e fez uma leve reverência.
— Você está olhando para ele — declarou com uma voz carregada de autoridade. — Sou Brunno Warrant, líder do ninho de vampiros de Yurdisvik.
O momento de revelação trouxe consigo uma atmosfera carregada de tensão e horror. Enquanto Brunno se identificava como líder do ninho, Igor sentiu-se mergulhado em um abismo de incertezas. Ele se viu obrigado a reconsiderar cada movimento, cada palavra trocada naquele café sombrio.
Quando Brunno se sentou novamente à mesa, Igor não pôde deixar de notar a elegância calculada em seus gestos.
— Peço humildes desculpas por tê-lo enganado, com um disfarce tão... dissimulado. — Sorriu de maneira comedida, uma leve faísca cintilando em seus olhos azuis. — Porém, me intriga os propósitos de uma repentina aliança entre a sua organização, que... diga-se de passagem, nos últimos tempos, vem se preocupando mais em julgar e caçar meus semelhantes, ao contrário de propor uma aliança.
Igor deixou de lado a pose firme e riu com a afirmação de Brunno, uma risada que continha vestígios de nervosismo.
— Há rumores de que você é o único vampiro capaz de detectar magia adormecida em sangue — respondeu, buscando manter a compostura. — Por isso, a colaboração de seu ninho foi solicitada, pois você é o único a nos dar a prova cabal.
Brunno retribuiu o riso, seus olhos brilhando com interesse, e concordou com a cabeça confirmando a habilidade.
Ele pegou o frasco com o sangue e o abriu, inalando o líquido com um movimento circular. Então, sem hesitar, levou o frasco até os lábios e ingeriu o conteúdo, seus olhos se acendendo em um azul mais brilhante e suas presas surgindo como facas afiadas capazes de cortar até um fio de luz.
Enquanto observava o ato, Igor sentiu uma pontada de desconfiança e temor. Os olhos de Brunno haviam piscado com um leve traço avermelhado antes de ele beber o líquido, no momento em que primeiro avistou o frasco instantes atrás. Mas a sensação foi momentaneamente dissipada quando Brunno fechou os olhos e pareceu apreciar o sabor do sangue.
Brunno balançou a cabeça de um lado para o outro, se deleitando com o sabor do líquido. Seus olhos se fecharam por um instante antes de ele soltar uma risada, surpreendendo Igor.
— Esse é o sangue de um rapaz que estamos investigando há tanto tempo — comentou Igor, sua voz cautelosa.
Brunno riu e cruzou as pernas elegantemente, suas presas ainda à mostra, Igor sentiu-se novamente alerta.
— Este sangue não possui propriedades de magia adormecida — revelou o vampiro em tom sombrio, seus olhos azuis sendo tingidos por traços de vermelho. — Entretanto, existem outras particularidades essenciais que merecem ser levadas em conta, não apenas pela Organização Venator, como claro... por mim.
Igor sentiu um arrepio percorrer sua espinha enquanto observava Brunno.
— O que seria? — perguntou, sua voz como um sussurro carregado de tensão, seus dedos formigavam e suas panturrilhas queimavam.
Brunno riu novamente, um som que ecoava como o chiar de uma criatura das sombras.
— Este sangue pertence a um garoto — anunciou ele, sua voz reverberando com uma intensidade sinistra. — E por ironia do destino, é seu irmão adotivo, Alexander.
O choque se espalhou pelo rosto de Igor enquanto ele processava a revelação. Não havia como ele saber essa informação, a menos que tenha descoberto somente através de algumas gotas de sangue. A sua mente girou com pensamentos tumultuados.
Brunno se aproximou, seus olhos cintilando de um jeito predatório e seu sorriso se alargando com malícia.
— Seu irmão é o alvo desse espetáculo para verem se de fato é a tal criança profetizada a trazer a destruição do mundo humano e do mundo das sombras — confirmou o vampiro a pergunta silenciosa de Igor, suas presas reluzindo à luz fraca do café. — E é por isso que você está aqui. Para protegê-lo.
Igor se contorceu na cadeira, seu coração batendo com uma intensidade frenética, tentando se libertar da sensação de sufocamento que o envolvia. Ele tossiu, sentindo o ar rarefeito em seus pulmões, suas veias queimando como fogo.
— E qual o seu interesse com ele ser ou não a criança da profecia? — perguntou Igor, sua voz um sussurro fraco.
Brunno se aproximou ainda mais, seus olhos vermelhos encarando os de Igor com uma intensidade hipnótica. Um sorriso malicioso brincava em seus lábios enquanto ele respondia:
— Você me entregou a única peça que faltava para colocar em prática o fim da humanidade.
Igor tentou tocar seu comunicador para emitir um alerta vermelho para Agente Ártemis, mas uma súbita síncope o acometeu. Lutando contra as amarras invisíveis que o prendiam à cadeira, sua mente gritando por liberdade.
Brunno se afastou, seu olhar fixo em Igor.
— Você não tem escolha, meu caro. — Sua voz, um sussurro venenoso que adentrou as profundezas de sua mente.
Igor se contorceu, tentando se libertar, mas seus músculos estavam rígidos como pedra. Brunno se afastou, sorrindo de forma sinistra, seus olhos agora totalmente vermelhos.
— Então vamos começar com algo fácil... Seu irmão prefere homens ou mulheres? — indagou debochadamente, enquanto o corpo de Igor, contra sua vontade, levantava-se e seguia o vampiro para fora do café, como um servo obediente diante de seu mestre sombrio.




O sol nascente pintava o céu da Louisiana com tons dourados e rosados, enquanto os primeiros raios da manhã se infiltravam pelas frestas das cortinas do quarto de Alexander Montgomery. Após dois longos anos na França, ele despertou naquele ambiente familiar, em sua casa em Blue Lagoon. O cheiro da terra molhada e doce do Sul inundava o ar, trazendo consigo uma sensação de nostalgia misturada com um toque de culpa e luto.
Seus olhos azuis, com delicados toques esverdeados, abriram-se lentamente para o quarto familiar, absorvendo cada detalhe como se fosse a primeira vez. As prateleiras repletas de livros antigos e novos, testemunhas silenciosas de seus devaneios e aventuras literárias. Os tons claros das paredes, que refletiam uma serenidade há muito perdida em meio à agitação do mundo. Os quadros contemplativos que adornavam as paredes, capturando momentos efêmeros de beleza e melancolia. E, é claro, o enorme espelho que ocupava uma parede inteira, onde Alex costumava admirar sua própria vaidade, o reflexo imperfeito de sua alma inquieta.
A cama macia, com lençóis brancos como nuvens, era um convite ao descanso após a longa jornada de volta. Mas Alex não podia se dar ao luxo de se entregar ao sono. Ele se ergueu da cama com uma graciosidade quase etérea, seus cabelos loiros dourados caindo em ondas suaves até os ombros. Seu rosto, angelical e marcado pela juventude de seus dezoito anos, contrastava com a magreza de seu corpo, uma visão do pecado envolta em uma aura de inocência.
Diante do espelho, Alex avaliou seu estado físico com uma mistura de nostalgia e autocrítica. Seus olhos azuis refletiam a profundeza de suas próprias dúvidas e arrependimentos, enquanto seus lábios finos pressionavam-se em uma linha tensa. Ele sabia que seu retorno a Blue Lagoon não seria fácil, que o peso de suas escolhas passadas ainda o assombrariam como uma sombra indelével.
Com um suspiro resignado, Alex afastou-se do espelho e dirigiu-se à escrivaninha minimalista que ficava de frente para a janela. Ele se sentou em sua cadeira de madeira desgastada pelo tempo, sentindo o calor do sol acariciar sua pele através do vidro. Era um dia como tantos outros na cidade à beira do rio, mas para Alex, era o começo de uma jornada de redescoberta e perdão, uma chance de reconciliar-se consigo mesmo e com aqueles que deixou para trás.
Em cima da escrivaninha, um porta-retratos chamou a atenção de Alex. Nele, uma imagem congelada no tempo capturava um momento de felicidade: era como se o sorriso radiante de seu pai, John Montgomery, pudesse iluminar até mesmo as sombras mais escuras de sua memória. John era um homem negro de meia-idade, com o porte de um soldado e as cicatrizes de um guerreiro. Suas feições lembravam muito as de seu irmão Igor, mas as marcas em seu rosto contavam histórias que iam além de uma vida de disciplina puramente militar. Ao lado dele, Arya, a mãe de Alex, irradiava uma beleza etérea, com seus cabelos ruivos flamejantes e uma pele leitosa com um leve bronzeado. Seu sorriso era como o sol, capaz de aquecer até mesmo os dias mais frios.
Na foto, John abraçava Arya com ternura, seu olhar transbordando de amor e devoção. Abaixo do casal, Alex montava nas costas de Igor, os dois irmãos sorrindo para a câmera como se não houvesse preocupações no mundo. Era uma imagem de harmonia e felicidade, um lembrete de um tempo que parecia tão distante agora.
O momento de contemplação foi interrompido por batidas suaves na porta do quarto de Alex. Ele chamou para entrar, e a porta se abriu revelando Arya, sua mãe. Ela era uma visão de beleza cansada, seus olhos carregando o peso de uma dor oculta, mas seu sorriso era gentil e acolhedor.
— Pode entrar! — ele chamou suavemente, e a porta se abriu para revelar sua mãe, Arya. Seus olhos fadigados, mas ainda brilhantes, encontraram os de seu filho com uma mistura de amor e tristeza.
— Alex... — ela murmurou, cruzando o espaço entre eles para abraçá-lo com força. O cheiro familiar de sua mãe envolveu Alex, trazendo uma sensação reconfortante de lar. — Senti tanto a sua falta, querido.
O coração de Alex se aqueceu com o amor materno quando os lábios de sua mãe tocaram sua testa, sendo uma emoção que ele não sentia há muito tempo.
— Eu também senti sua falta, mamãe — admitiu, os olhos marejados de emoção. — E de casa.
Arya afastou-se observando o filho com um misto de orgulho e surpresa, segurando o rosto de Alex entre as mãos.
— Você está tão bonito, meu filho — disse com um sorriso triste. — Morar com a vovó fez bem para você.
Alex corou ligeiramente diante do elogio, seus olhos azuis brilhando com gratidão e sua timidez secreta vindo à tona.
— Não, mamãe, quem ficou mais linda foi você! — ele respondeu sinceramente. — Só estou feliz por estar de volta
Um sorriso triste cruzou o rosto de Arya enquanto ela acariciava a bochecha de Alex.
— Venha, querido... — ela disse gentilmente. — Vamos tomar café juntos. Temos muito o que conversar.
Alexander foi até a cama, sentindo o tecido macio do suéter deslizar por seus braços. Era reconfortante vestir algo familiar em um momento de retorno à sua antiga casa. Ele seguiu sua mãe para fora do quarto, deixando para trás a foto que havia despertado tantas lembranças.
A casa dos Montgomery era uma mistura de amor e tradição, com uma arquitetura clássica e delicada que refletia a influência da família na sociedade de Blue Lagoon. Eles eram um dos nomes fundadores da cidade, e a casa, com suas colunas imponentes e jardins bem cuidados, era um símbolo de prestígio e poder.
Para Alexander, no entanto, ser parte de uma família importante trazia um fardo adicional. Como adotado, ele sempre se sentira um pouco fora do lugar, colocado em um pedestal angelical perante sua família. Seu pai, John, o idolatrava, assim como sua avó e sua mãe, Arya, que o superprotegia e mimava. Mas era seu irmão, Igor, quem o mantinha ancorado à realidade.
Igor sempre fora realista com o irmão mais novo, explicando-lhe como o mundo podia ser cruel e brutal. Ele o ensinara a enfrentar os desafios com coragem e determinação, mas também lhe mostrara o valor da compaixão e do amor. Apesar de suas diferenças, Igor era a âncora de Alex, uma presença constante em um mundo cheio de incertezas.
Ao chegarem à porta do quarto de Igor, Alex sentiu um aperto no peito. Ele hesitou por um momento antes de abrir a porta e entrar. O quarto de seu irmão era uma extensão de sua personalidade pragmática e realista. As paredes eram pintadas em tons monocromáticos, sem muitas decorações além de um pôster da banda The Fray e um violão no canto da parede.
Mas o que chamou a atenção de Alex foi um detalhe que ele nunca havia percebido antes: um enorme quadro coberto com um lençol branco, apoiado em um cavalete de madeira. Ele olhou para a mãe em busca de uma explicação.
Arya entrou no quarto junto com ele, observando o quadro com um olhar triste.
— Seu irmão decidiu pintar um presente para o seu aniversário de dezoito anos — explicou ela. — Mas ele nunca teve a chance de terminar.
Alex olhou para o quadro coberto, sentindo uma mistura de emoções. Ele sabia o quanto significava para Igor criar algo tão pessoal e significativo. Era um lembrete doloroso da passagem do tempo e das oportunidades perdidas.
Arya tocou carinhosamente o ombro do garoto, trazendo-o de volta à realidade.
— Vamos, meu amor... — disse ela com suavidade. — Vamos tomar o café da manhã e conversar um pouco.
Alex assentiu e seguiu sua mãe para fora do quarto. Eles caminharam pelos corredores da casa, um lugar que exalava uma mistura de amor e tradição. As paredes eram adornadas com retratos de família e obras de arte escolhidas com cuidado, cada peça contando uma parte da história dos Montgomery. As colunas imponentes e os tetos altos davam à casa um ar de grandeza, enquanto os móveis elegantes, mas confortáveis, revelavam um ambiente acolhedor. O jardim, visível pelas amplas janelas, era meticulosamente cuidado, um símbolo do prestígio e poder da família na sociedade de Blue Lagoon.
Enquanto desciam a escadaria principal, Alex passava os dedos pelas grades de madeira polida, sentindo a textura familiar sob suas mãos. Ele lembrou-se de descer aquelas mesmas escadas correndo quando criança, com Igor sempre um passo à frente, rindo e desafiando-o a acompanhá-lo. A nostalgia misturava-se com uma sensação de perda e luto, como se parte de sua infância tivesse ficado para trás de forma irrevogável.
Ao chegarem à cozinha, um cômodo amplo e iluminado, Arya começou a preparar o café da manhã. A mesa de madeira maciça no centro da cozinha estava já posta com uma toalha de linho branco e louças finas, prontas para uma refeição em família. Alex sentou-se em uma das cadeiras, observando a mãe com carinho enquanto ela se movia com graça e eficiência, preparando café e pães frescos.
— Então, querido... — começou Arya, tentando puxar conversa. — Como foi seu tempo na França com sua avó?
Alex suspirou ruindo levemente e começou a contar.
— Ela contratou dezenas de professores para mim. Desde tutores de francês para melhorar minha fluência, até professores de defesa pessoal e esgrima. Foi... meio intenso, mas aprendi muito. Até que eu levo jeito com a espada.
Arya franziu o cenho, demonstrando um leve desconforto com a atitude da sogra.
— Sua avó sempre teve uma maneira muito... particular de fazer as coisas — disse ela, tentando desconversar sobre os treinamentos. — E quando foi que você decidiu se tornar modelo?
Alex ficou um pouco tímido com a pergunta, desviando o olhar.
— A vida de garotinho rico e mimado bancado pela avó me fez desejar fazer mais com o meu tempo lá. Um dia, meu professor de francês me chamou de garçon photogénique e disse que eu deveria tentar modelar. Acabei me interessando pela fotografia e, bem... foi assim que começou.
Arya riu suavemente, aproximando-se da mesa com uma bandeja de pães frescos.
— Fiquei surpresa ao receber aqueles envelopes pardos com as fotos do estúdio. Você realmente leva jeito para isso.
Alex sorriu, apreciando o momento de leveza entre eles.
— Foi uma experiência interessante, mamãe. Mas estar de volta aqui, com você e o papai, isso é o que realmente importa para mim.
Arya olhou para o filho com ternura, sentindo uma onda de amor e proteção.
— Eu também estou feliz que você esteja de volta, querido. Sei que temos muito a conversar e a reconstruir, mas estamos juntos nisso.
Enquanto tomavam o café da manhã, Alex sentia-se reconectando lentamente com seu lar. Cada palavra trocada, cada lembrança compartilhada, era um passo em direção à cura e ao entendimento. A casa dos Montgomery, com toda sua imponência e história, voltava a ser um símbolo de amor e união, um lugar onde ele poderia encontrar um novo começo.
A manhã em Blue Lagoon estava especialmente calma. A luz do sol filtrava-se pelas cortinas da cozinha, criando padrões dançantes no chão de madeira polida. Alex e Arya estavam à mesa, rindo e compartilhando histórias. O som do riso deles ecoava pela casa, um som há muito perdido, mas finalmente reencontrado.
— E... ele sabia que era você o tempo todo? — Arya perguntou entre risos, referindo-se a uma das histórias engraçadas que Alex estava contando sobre suas travessuras na França.
— Sim, no final, ele percebeu — Alex respondeu, também rindo. — Foi hilário!
Então, Arya, com um sorriso matreiro, mudou de assunto, indagando casualmente:
— E... ele sabe que você está de volta?
A pergunta foi um balde de água fria. O sorriso de Alex desapareceu, e ele ficou imóvel, os olhos fixos em algum ponto invisível. O nome não precisava ser mencionado. Ambos sabiam de quem estavam falando.
— Não, ele não sabe — Alex respondeu finalmente, com a voz mais baixa. — Fred não sabe que voltei da França.
Arya, tentando compreender o filho, assentiu lentamente.
— Eu entendo, querido. Mas acho que você deveria ter contado. Ele, mais que qualquer um, sentiu a sua falta.
Alex fechou os olhos por um momento, tentando conter as emoções que ameaçavam transbordar.
— Nós deixamos de ser velhos amigos quando aquela noite aconteceu, mãe. Fred já é bem grandinho e sabe superar as coisas.
Antes que Arya pudesse responder, a porta da cozinha se abriu, e John Montgomery entrou. Ele era um homem de meia-idade, de porte militar, com cicatrizes que contavam histórias de uma vida de disciplina e batalhas. Seus olhos verdes, tão parecidos com os de Igor, se arregalaram ao ver Alex.
— Alex! — John exclamou, correndo para o filho e o agarrando em um abraço protetor e paternal. — Meu garoto, como eu senti a sua falta!
Alex sentiu-se seguro nos braços do pai, como há muito não se sentia.
— Eu também senti sua falta, pai.
A conversa entre pai e filho fluiu naturalmente, como se tentassem compensar o tempo perdido. John olhava para o filho com orgulho, notando como ele havia crescido e mudado.
— Como foi morar com sua avó na França? — John perguntou, curioso.
Antes que Alex pudesse responder, Arya interveio.
— A matriarca Montgomery criou uma rotina de treinamentos intensa para ele — disse ela, com um tom levemente crítico.
— Ah, minha mãe nunca muda. Treinamentos intensos, hein? — John trocou um olhar cúmplice com a esposa, tentando disfarçar a surpresa de maneira suspeita. Ele riu, tentando aliviar a tensão. — Eu lembro da minha infância com muitas aulas de filosofia, latim e piano. Minhas articulações doem só de lembrar os acordes de alguma sinfonia de Bach.
Alex riu junto com o pai, sentindo um calor familiar que aquecia seu coração. A nostalgia permeava o ar, e apesar das distâncias emocionais que ainda existiam entre eles, havia uma conexão inegável, uma ligação que os mantinha unidos como família.
A conversa continuou fluindo entre memórias do passado e planos para o futuro. Cada palavra dita, cada olhar trocado, era um passo na direção de curar as feridas do passado e reconstruir os laços que o tempo e a dor haviam tentado desfazer. A casa dos Montgomery, com toda a sua imponência e história, continuava sendo um refúgio de amor e proteção, um lugar onde Alex podia começar a encontrar a si mesmo novamente.

A noite caía sobre Blue Lagoon, cobrindo a cidade com uma manta de estrelas e um brilho suave de luzes urbanas. Após uma tarde cheia de risos e memórias com seus pais, Alexander subiu as escadas em direção ao seu quarto. O reencontro familiar havia aquecido seu coração, mas a sensação de nostalgia ainda pairava no ar. Ele se jogou na cama, sentindo o conforto familiar de seu refúgio pessoal.
Seu celular emitiu um som de notificação, e ele pegou o aparelho, observando a tela se acender. Havia dezenas de notificações de suas redes sociais e mensagens privadas. Um grupo de mensagens chamou sua atenção: "Me & My Girlies", onde ele estava junto com suas amigas Barbara, Claire e Clara. No momento, Clara não estava falando com ele, o que adicionava uma camada de tristeza às suas lembranças.
Alexander riu ao ver a quantidade de notificações e abriu o grupo de mensagens. A conversa estava agitada, com Barbara e Claire tentando marcar um encontro com ele.

Me & My Girlies

Barbara:

Gente, o Alex voltou da França! 😍✨
14:35
Claire:
Sério? Que incrível!
Precisamos marcar algo! 🎉
14:37
Barbara:
Sim!
O que acha de amanhã à tarde?
Pode, Alex?
14:40
Claire:
Ótima ideia!
Amanhã eu tô livre depois das 16h.
15:01
Barbara:
Alex? Tá aí?
21:15
Claire:
Acho que ele deve estar ocupado com a família, né?
Vamos esperar um pouco mais.
22:03
Barbara:
Gente, eu mal posso esperar para vê-lo!
Tanta coisa pra contar! 💖
22:15
Claire:
Vamos fazer uma surpresa se ele não responder até amanhã?
22:30
Barbara:
Sim!!! Vamos nos encontrar na praça e esperar ele lá.
22:35

Alex:
Oi meninas! Estou aqui!
Sim, voltei hoje e passei o dia com meus pais.
Vamos nos encontrar amanhã, sim!
16h na praça, então?
22:40



Barbara:
Aeeee!!! Até amanhã, Alex!
Sentimos muito a sua falta! 🥰
22:42
Claire:
Até amanhã, Alex!
Não vemos a hora de te abraçar!

Alex sorriu, sentindo um calor no coração ao ler as mensagens das amigas. Era reconfortante saber que ele ainda era querido e lembrado. No entanto, uma notificação de mensagem privada chamou sua atenção. Ele viu uma mensagem de Claire e outra de um número desconhecido. Decidiu abrir a mensagem de Claire primeiro.

Claire (Visto por último às 22:45)

Oi Alex, só queria dizer que estou muito feliz que você voltou.
Sei que as coisas foram difíceis antes de você ir, mas quero que saiba que estou aqui para você, não importa o que aconteça. 💖

Alex sorriu novamente, sentindo uma mistura de gratidão e saudade. Claire sempre fora uma amiga leal e carinhosa. Ele então abriu a mensagem do número desconhecido, curioso para ver quem poderia ser.

Número Desconhecido (Visto por último às 21:30)

Olá, Alex. Bem-vindo de volta a Blue Lagoon.
Temos muito o que conversar.
Encontro você amanhã no cemitério às 19h.

Uma sensação de desconforto percorreu Alex ao ler a mensagem enigmática. Quem poderia ser? E o que queriam conversar com ele? Ele não reconhecia o número e não havia assinatura.
Deixando o mistério de lado por um momento, Alex decidiu focar na parte positiva de sua volta. Ele finalmente iria rever suas amigas queridas e, quem sabe, tentar reconstruir algumas partes de sua vida que foram deixadas para trás. Com esses pensamentos, ele colocou o celular na mesa de cabeceira e se deitou, deixando o cansaço do dia tomar conta de seu corpo. Fechou os olhos, esperando que o sono trouxesse sonhos melhores e menos complexos do que a realidade que enfrentava.
🦇




Blue Lagoon, Louisiana
Fevereiro de 1890.


A cidade, com suas ruas de paralelepípedos e arquitetura charmosa, era um símbolo de prosperidade e tradição. Naquela noite, o ar estava impregnado com a expectativa e a alegria de um baile em homenagem aos fundadores da cidade. As mansões iluminadas lançavam sombras dançantes nas calçadas, e os salões ressoavam com risos e música.
Dentro da mansão Montgomery, o salão principal estava repleto de figuras elegantes. Homens em smokings impecáveis e mulheres com vestidos luxuosos rodopiavam pelo salão, suas risadas e conversas misturando-se à música suave da orquestra. As luzes dos candelabros refletiam-se nas joias, criando um ambiente de brilho e sofisticação.
A chegada de Mattew Warrant, um jovem de aparência marcante e intrigante, foi um evento que causou murmúrios entre os convidados. Fazia décadas desde que a família Warrant havia deixado Blue Lagoon, e o retorno de um dos seus membros provocava curiosidade e um certo desconforto.
Mattew foi anunciado pelo mestre de cerimônias com uma voz solene:
— Senhoras e senhores, tenho o prazer de anunciar a chegada de Mattew Warrant.
Todos os olhares se voltaram para a entrada, onde Mattew fez sua aparição. Ele era uma figura impressionante, trajando um terno negro perfeitamente ajustado. Sua pele branca e pálida contrastava com os cabelos castanhos bem penteados. Seus olhos verdes, semelhantes a esmeraldas, brilhavam com uma intensidade que parecia atravessar as almas daqueles que ousavam encará-lo. Ele nunca sorria, sempre mantendo uma expressão séria e um ar de mistério.
Mattew adentrou o salão com uma postura ereta e confiante. Ele pegou uma taça de vinho de um garçom que passava e começou a circular pelo baile, seus passos lentos e deliberados. Ele observava os convidados com um olhar atento, como se procurasse algo ou alguém.
Os murmúrios aumentaram à medida que ele passava. As conversas variavam entre sussurros curiosos e comentários discretos.
— É ele mesmo? — uma mulher cochichou para sua amiga. — O filho do Warrant assassinado?
— Dizem que sim. A família deixou a cidade logo após a morte do patriarca. Um mistério nunca resolvido.
Mattew ignorava os cochichos, concentrando-se em sua própria busca. Aproximou-se de um grupo de senhores discutindo sobre negócios locais. Um deles, visivelmente mais velho e com uma bengala ornamentada, virou-se para Mattew com um sorriso falso.
— Mattew Warrant, não é? Faz muito tempo desde que vimos um Warrant em Blue Lagoon.
— De fato — respondeu Mattew com uma voz profunda e calma. — Estou aqui para honrar a memória da minha família.
O velho senhor arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Memória... sim, a memória de seu pai é uma sombra que paira sobre esta cidade.
— Mais uma razão para estar aqui — replicou Mattew, seus olhos verdes fixos nos do velho. — Para dissipar sombras e trazer à luz o que precisa ser revelado.
Os olhos do velho se estreitaram, mas ele não respondeu. Mattew deu um leve aceno de cabeça e continuou seu caminho, seus passos ecoando suavemente no piso de mármore.
Enquanto Mattew se movia pelo salão, ele não podia deixar de notar a reação das pessoas. Algumas o evitavam, outras o observavam com uma curiosidade mal disfarçada. Poucos ousavam se aproximar. Era como se ele carregasse uma aura de mistério e perigo, um lembrete vivo de eventos sombrios do passado.
Parou perto de uma janela grande que dava para o jardim iluminado pela lua. Observou o reflexo na taça de vinho, pensando nas décadas que havia passado desde sua transformação. A vida que conhecia antes havia desaparecido, substituída por uma existência solitária e cheia de segredos.
Uma jovem, corajosa ou talvez apenas curiosa, aproximou-se dele. Tinha cabelos loiros encaracolados e olhos azuis que brilhavam com uma mistura de timidez e determinação.
— Senhor Warrant, é uma honra conhecê-lo. Eu sou Elizabeth Montgomery — disse ela, estendendo a mão com um sorriso genuíno.
Mattew pegou a mão dela delicadamente, inclinando-se ligeiramente em um gesto de respeito.
— O prazer é meu, senhorita Montgomery.
— Sinto muito pela perda de sua família. Espero que Blue Lagoon possa ser novamente um lugar de conforto para você.
Mattew soltou a mão dela e deu um leve sorriso, que mais parecia um fantasma de emoção.
— Agradeço suas palavras. O tempo dirá.
Elizabeth hesitou, mas antes que pudesse dizer mais, Mattew se afastou, perdido em seus próprios pensamentos. A presença de Elizabeth o fez lembrar que, mesmo em meio à escuridão e ao luto, havia pequenos lampejos de humanidade que ele ainda podia reconhecer.
O baile continuou, mas para Mattew Warrant, aquela noite era mais do que uma celebração. Era um retorno às raízes, uma oportunidade de confrontar fantasmas do passado e talvez, apenas talvez, encontrar um caminho de redenção em meio à culpa e ao luto que o acompanhavam por tantos anos.

Elysium
Cidade-Sede do Conselho das Sombras
Dias Atuais.


A lua cheia iluminava a cidade mágica de Elysium, oculta dos olhos dos humanos comuns. Localizada num véu mágico próximo à Itália e França, Elysium era um refúgio seguro para todas as criaturas sobrenaturais. Vampiros, lobisomens, bruxas, fadas e até wendigos coexistiam num equilíbrio fino. A cidade misturava o encanto da magia com toques modernos, onde carruagens encantadas passavam por ruas pavimentadas e iluminadas por lamparinas que flutuavam no ar.
Mattew caminhava pelas ruas de Elysium, seu casaco negro esvoaçando levemente com o vento. Seus passos firmes e silenciosos, um reflexo da urgência que sentia. Ele estava se dirigindo à sede do Conselho das Sombras, o centro do poder no mundo sobrenatural.
O prédio do Conselho era uma magnífica obra de arte, combinando a arquitetura gótica com elementos renascentistas. Torres altas e janelas de vitrais coloridos se erguiam contra o céu noturno, dando ao edifício um ar ao mesmo tempo majestoso e intimidante.
Ao atravessar os grandes portões de ferro, Mattew adentrou o salão principal. O interior era ainda mais impressionante, com pilares altos esculpidos em detalhes intrincados e candelabros de cristal que lançavam um brilho suave sobre o mármore negro do chão. No centro do salão, três tronos imponentes destacavam-se, simbolizando o poder e a autoridade do Conselho das Sombras.
Sentada no trono à esquerda estava Francesca Warrant, a irmã gêmea de Mattew. Seus cabelos castanhos caíam em ondas suaves, e seus olhos esmeralda brilhavam com uma mistura de doçura e perigo. Francesca possuía um estilo meigo e dócil, mas qualquer um que subestimasse sua capacidade descobriria rapidamente o quão fatal ela poderia ser.
No trono central estava Lucien Warrant, o mais modificado dos irmãos. Sua pele esbranquiçada como mármore, olhos de cor violeta e cabelos platinados davam-lhe uma aparência etérea. Lucien era comedido, sério e elegante, exalando uma aura de ameaça constante.
Skyler Warrant, o mais jovem dos irmãos, ocupava o trono à direita. Transformado aos 10 anos, ele mantinha uma aparência angelical e infantil. Seus cabelos pretos e olhos azuis contrastavam com a crueldade e sadismo que ele frequentemente demonstrava. Skyler era uma presença perturbadora, a mistura perfeita de inocência aparente e brutalidade pura.
Mattew aproximou-se dos tronos, curvando-se levemente em respeito.
— Francesca, Lucien, Skyler... — saudou ele com um aceno de cabeça.
Francesca foi a primeira a falar, seu sorriso suave contrastando com a intensidade de seu olhar.
— Mattew, é bom vê-lo.
Lucien, com seu olhar penetrante, observava Mattew atentamente.
— Mattew, sua presença aqui significa que algo importante aconteceu. Fale.
Skyler, com um sorriso malicioso, não perdeu a oportunidade de provocar.
— Ah, o grande caçador de Brunno retorna. Não ficou com sede dessa vez, Mattew?
Mattew ignorou a provocação de Skyler, concentrando-se em Lucien.
— Brunno se movimentou novamente. Desta vez, parece ter encontrado um forte candidato para a realização da profecia.
Os olhos de Lucien estreitaram-se, demonstrando preocupação.
— Por que demorou tanto para reportar essa informação?
Mattew respirou fundo antes de responder.
— Ao seguir o rastro de Brunno, encontrei uma de suas aberrações. Era meio vampiro, meio bruxo, com o poder de fogo. Tive que exterminá-lo, o que me atrasou.
Skyler bufou irritado.
— Um híbrido atrapalhou nossos planos de capturar Brunno? Espero que não tenha perdido o rastro dele.
— Deixe Mattew terminar. — Francesca levantou a mão, interrompendo Skyler. — O que mais descobriu?
Mattew continuou.
— O híbrido tentou me atrasar, mas consegui retornar ao antigo ninho de Brunno na Noruega. Lá, descobri que ele pegou um refém da Organização Venator. Esse refém tem ligação com o novo alvo de Brunno e sabe para onde ambos foram.
Lucien inclinou-se para frente, a tensão evidente em seu rosto.
— E para onde Brunno está se dirigindo?
Mattew olhou diretamente para Lucien, sua expressão sombria.
— Brunno está retornando ao lar de nossa família ancestral, Blue Lagoon.

Blue Lagoon, Louisiana
Dias atuais...


O começo da tarde em Blue Lagoon estava ensolarado, com um céu azul sem nuvens e o calor suave típico da Louisiana envolvendo a cidade. Alexander caminhava pelas ruas de paralelepípedo em direção à famosa Praça dos Fundadores, o coração da cidade. As árvores frondosas ladeavam o caminho, suas sombras desenhando padrões no chão, enquanto o som distante de pássaros completava o cenário tranquilo. O aroma das flores que circundavam a praça chegava até ele, e Alex sentia-se em casa, envolvido por uma nostalgia profunda que lhe trazia à mente memórias de sua infância.
A Praça dos Fundadores era o orgulho de Blue Lagoon. O local combinava o charme de uma praça interiorana com o luxo e o cuidado que somente uma cidade fundada por famílias poderosas poderia manter. No centro, erguiam-se estátuas dos quatro fundadores da cidade: Winston Warrant, Evelyn Montgomery, Mark Spier e Holanda Avery. Suas figuras de bronze brilhavam ao sol, eternamente imóveis, mas com uma imponência que parecia dar vida ao passado glorioso de Blue Lagoon.
Alexander parou diante das estátuas, admirando-as como sempre fazia. A de Winston Warrant era a que mais lhe chamava atenção, talvez pela sua expressão austera, como se o fundador estivesse constantemente analisando tudo à sua volta. Ele suspirou, perdido em pensamentos. Blue Lagoon sempre o deixava dividido entre o orgulho de pertencer a algo tão grandioso e o peso que essa história trazia consigo.
De repente, Alex sentiu uma presença. Ele olhou para trás e deparou-se com um gato preto de olhos amarelos intensos. O susto inicial logo foi substituído por alívio, e ele riu baixinho.
— Ah, é só você, amiguinho. — disse ele, ajoelhando-se para acariciar o gato.
O felino ronronou em resposta, esfregando a cabeça na mão de Alex, que sentiu a maciez do pelo do animal. Por um momento, tudo parecia calmo, mas então Alex teve novamente a sensação de estar sendo observado. Seu coração acelerou, e ele virou-se abruptamente.
— Boo! — gritaram duas vozes em uníssono.
Barbara e Claire estavam ali, rindo ao ver a expressão assustada no rosto de Alex. Ele deu um passo para trás, respirando fundo para recuperar o fôlego, enquanto suas amigas gargalhavam, visivelmente satisfeitas com o pequeno susto.
— Vocês quase me mataram de susto! — disse Alex, rindo enquanto a adrenalina ainda corria por suas veias.
O gato, no entanto, reagiu de forma diferente. Seus pelos se arrepiaram, e ele emitiu um miado agressivo, seus olhos amarelos fixos nas duas garotas. Barbara e Claire recuaram um pouco, claramente assustadas com a atitude do animal.
— Ei, calma, gatinho! — disse Alex, agachando-se novamente para acariciar o gato, que logo se acalmou com o toque familiar de suas mãos.
— Desde quando você anda com gatos assustadores por aí? — perguntou Barbara, ainda olhando desconfiada para o animal.
Barbara era o que muitos chamariam de "a garota perfeita". Seus cabelos loiros e lisos caiam em cascata sobre seus ombros, sempre bem penteados e com um brilho que parecia digno de um comercial de shampoo. Seus olhos eram claros e penetrantes, e seu corpo, magro e esguio, vestia roupas das últimas coleções de grifes caras, sempre impecáveis. Mas ela não era apenas um rostinho bonito; Barbara era uma das alunas mais inteligentes de Blue Lagoon. Nas férias, enquanto muitos passavam o tempo na praia ou se divertindo, ela viajava para acampamentos de verão com foco em ciências e química. Seu fascínio pelo funcionamento das coisas, especialmente pela composição molecular, a destacava em todas as disciplinas de ciências.
— Eu não encontrei o gato, ele me encontrou! — respondeu Alex com um sorriso, continuando a fazer carinho no felino, que agora parecia bem mais relaxado. — Ele só apareceu quando eu estava olhando as estátuas.
— Hmm, gatos misteriosos não são um bom sinal, segundo a minha avó — brincou Claire, ajustando seus óculos com um gesto delicado.
Claire era um contraste interessante a Barbara. Seus cabelos castanhos eram mais curtos, quase sempre presos em um rabo de cavalo, e seus olhos escuros e profundos davam a ela um ar inteligente e introspectivo. Usava óculos de grau com uma armação elegante, que delineava perfeitamente seus lábios finos e realçava sua beleza clássica. Apesar de sua aparência de "nerd", Claire era, na verdade, a capitã das líderes de torcida do time local, os Blue Lagoon Stingers, algo que poucos associavam com seu jeito reservado e intelectual. Ela era doce e encantadora, mas quando se tratava de liderar as garotas no campo, seu lado determinado e enérgico se revelava.
— Vocês estão exagerando! Ele é só um gato — disse Alex, rindo e levantando-se novamente. — E, além disso, ele me escolheu. Isso deve significar alguma coisa, não?
Barbara olhou para Claire com uma sobrancelha arqueada, claramente cética, mas então deu de ombros, voltando a atenção para Alex.
— Bem, desde que esse gato não resolva atacar de novo, estamos bem. Agora, onde você esteve se escondendo? Nós estávamos morrendo de saudade! — exclamou Barbara, aproximando-se para abraçá-lo.
Claire sorriu e se aproximou também, abraçando o amigo logo depois. Alexander sentiu-se envolvido pelo calor de suas melhores amigas, como se as preocupações que tinha em relação ao passado e às responsabilidades familiares pudessem esperar. A Praça dos Fundadores continuava a ser o centro daquela pequena cidade, um símbolo de tradição, história e amizade — exatamente o que ele precisava naquele momento.
— Sabe, é bom estar de volta. Acho que finalmente posso dizer que estou em casa — disse ele, com um sorriso suave, enquanto acariciava o gato que se mantinha quieto ao seu lado.
A Praça dos Fundadores, com suas estátuas imponentes e flores coloridas, era testemunha silenciosa de mais um reencontro entre aqueles que compartilhavam a história de Blue Lagoon, agora prontos para escreverem juntos um novo capítulo.
A tarde em Blue Lagoon seguia com uma brisa leve, carregando o calor do verão em ondas suaves enquanto Alexander, Barbara e Claire caminhavam em direção à sorveteria mais famosa da cidade. O céu, tingido por um azul sem nuvens, refletia a calma do lugar, mas os risos e conversas animadas entre eles traziam vida às ruas da cidadezinha. As fachadas dos prédios, com suas varandas em ferro forjado e janelas altas, lembravam Nova Orleans, porém, com um toque único de Blue Lagoon.
Eles se aproximaram da sorveteria, um charmoso edifício em tons pastéis, com janelas amplas e cortinas brancas que balançavam suavemente com a brisa. O letreiro da loja, em um tom de rosa suave, anunciava “Doce Encanto”, e o aroma de waffles frescos se misturava com o de sorvete caseiro, criando uma atmosfera acolhedora. O ambiente interior era ainda mais convidativo, decorado com cores suaves, mesas em azul-claro e verde-menta, e cadeiras estofadas que davam ao local um ar retrô. O balcão, repleto de potes de vidro com doces coloridos, adicionava um toque lúdico, como se fossem crianças entrando em uma loja de guloseimas.
— Aqui está exatamente como me lembrava! — comentou Alex com um sorriso, sentindo-se em casa mais uma vez enquanto eles se acomodavam numa das mesas próximas à janela. — É bom ver que algumas coisas nunca mudam.
Barbara e Claire riram, e enquanto esperavam o pedido, a conversa logo virou para o tempo que Alex passara fora.
— E então? Como foi a vida na França? — perguntou Barbara, inclinando-se para ele, curiosa. — Aposto que viveu grandes aventuras!
Alex riu, balançando a cabeça.
— Aventura? — ele repetiu, ainda rindo. — Passei mais tempo em salas de treinamento e com professores de idiomas do que qualquer outra coisa. Não foi nem de perto o que vocês devem estar imaginando.
Claire riu, pegando sua colher e mexendo distraidamente no sorvete de baunilha que acabara de chegar.
— Não acredito! — disse Barbara, puxando o celular da bolsa e deslizando a tela. — Então como você explica isso? — Ela mostrou a Alex uma foto de paparazzi tirada durante seu tempo na França. Ele aparecia ao lado de outro rapaz, ambos rindo e andando juntos por uma rua parisiense.
Alex riu ao ver a foto, mas logo explicou.
— Ele? Ah, isso não foi nada. — Ele balançou a cabeça. — Era só um dos fotógrafos do ensaio que eu fiz. Acabamos nos tornando amigos, e ele me acompanhou durante um tempo, só isso.
Barbara, porém, pareceu um pouco frustrada, cruzando os braços.
— Antes da viagem, você sabia como se divertir, Alex. Sabia causar. — Ela lhe lançou um olhar sugestivo, como se quisesse que ele voltasse a ser aquela versão despreocupada de si mesmo.
Claire, percebendo o tom mais sério na conversa, interveio rapidamente.
— É fácil causar quando você tem um irmão influente para te tirar de qualquer confusão... — comentou ela, com um tom mais leve, mas direto. — Ele fazia o que queria, com quem queria, sem se preocupar com as consequências.
Barbara virou-se para Claire, claramente discordando.
— Eu nunca gostei muito desse Alex sem limites, mas não posso negar que ele era mais... livre. Agora parece que ele está mais conservador, mais preso a... alguma coisa. — Ela olhou para Alex, quase esperando que ele retrucasse.
Alex abriu a boca para responder, mas Barbara levantou a mão, interrompendo-o.
— Vou retocar minha maquiagem — disse ela, levantando-se de maneira brusca e caminhando em direção ao banheiro.
Claire suspirou, lançando um olhar de desculpas a Alex.
— Desculpa. Barbara não está sendo muito justa. Clara passou um bom tempo envenenando a cabeça dela enquanto você estava fora. Você sabe como elas são próximas.
Alex deu de ombros, tentando parecer despreocupado, mas o peso das palavras de Barbara ainda ecoava dentro dele.
— Deixa para lá. — disse ele, com um meio sorriso. — Eu sabia que seria uma questão de tempo até que ela percebesse. O desaparecimento do Igor me fez repensar muitas coisas. Tenho tentado ser alguém melhor, sabe? Guardar meu lado sombrio... por enquanto.
Claire olhou para o amigo, refletindo sobre o que ele disse, antes de mudar de assunto.
— E você e o Fred? Já se viram desde que voltou?
Alex balançou a cabeça.
— Não, e eu quero que continue assim. As coisas entre nós... bom, não terminaram muito bem.
Claire pareceu surpresa com a resposta, mas continuou.
— Alex, muita coisa mudou enquanto você esteve fora. Fred não é mais só aquele repetente de ano... Ele virou líder da equipe de natação. E pra piorar, está namorando a garota mais famosa da escola.
— Quem? — Alex perguntou, curioso.
— Barbara... — disse Claire, casualmente, como se não fosse um grande segredo.
Alex quase se engasgou com seu sorvete, rindo de surpresa.
— Sério? Ela não mencionou nada!
Claire deu de ombros.
— Segundo ela, o Fred pediu para não contar. Porque, você sabe, vocês dois não se falam mais.
Antes que Alex pudesse responder, Barbara voltou à mesa, sorrindo.
— Perdi algo interessante? — perguntou ela, sentando-se novamente.
— Ah, só estava parabenizando você pelo namoro. — respondeu Alex, ainda rindo da novidade.
Barbara sorriu, um pouco tímida.
— Não disse nada porque o Fred pediu. Ele acha que vocês não estão se falando...
Alex assentiu.
— Bem, ele está certo. Nossa última conversa não foi das melhores.
— Vocês são tão infantis! — retrucou Barbara, cruzando os braços. — Precisam resolver isso logo.
— Eu vou pensar no caso. — respondeu Alex, dando um sorriso de canto. Mas algo chamou sua atenção do outro lado da rua.
Pela janela da sorveteria, ele viu uma figura misteriosa, envolta em uma espécie de névoa. O coração de Alex acelerou, e ele estreitou os olhos, tentando focar melhor. A pessoa estava parada, observando-os.
— Alex? — Claire chamou, notando a distração dele.
Ele olhou rapidamente para a amiga, mas quando voltou seu olhar para fora, a figura já havia desaparecido. O vazio deixado pelo desaparecimento criou uma tensão silenciosa no ar, e Alex sentiu uma pontada de preocupação, algo que ele não conseguia explicar.
— O que foi? — perguntou Barbara, notando o súbito silêncio dele.
— Nada... — respondeu Alex, ainda um pouco abalado. — Acho que vi alguém.

A conversa continuou, mas o desconforto de Alex permaneceu, como se algo sombrio estivesse prestes a acontecer em Blue Lagoon.




A noite em Blue Lagoon estava fervendo, e o Bronze, a casa noturna mais famosa entre os jovens da cidade, era o epicentro daquele turbilhão de energia. O prédio tinha uma estética única, uma mistura intrigante de estilos industriais, artísticos e modernos. Os muros de tijolos expostos contrastavam com neons brilhantes, e as luminárias de ferro forjado pendiam do teto, projetando sombras sobre os corpos em movimento. O som pesado da música pulsava, reverberando nas paredes e no chão, fundindo-se com os batimentos cardíacos de quem estivesse ali dentro.
Ao entrar no Bronze, a sensação de euforia era imediata, um arrepio que subia pela espinha causado pela dança de luzes e pelo calor dos corpos que se espremiam na pista de dança. O ar estava carregado de perfume, álcool e luxúria. Jovens se movimentavam em sincronia, amontoados, seus corpos colados, trocando olhares, toques, beijos e, sem dúvida, segredos. A energia era inebriante, quase palpável.
No centro de tudo, estava Alexander. Ele se movia como um predador, com uma graça indiscutível que hipnotizava todos ao seu redor. Seus olhos azuis, realçados por um delineado preciso que os tornava perigosamente felinos, varriam o ambiente, absorvendo a atenção sem nem precisar tentar. As luzes piscavam em um ritmo frenético, e a forma como os flashes de neon dançavam sobre seu corpo apenas acentuava sua presença. Sua pele, levemente suada pelo calor da pista, brilhava sob as luzes.
Alexander estava vestindo uma calça de couro preta, justa ao ponto de quase parecer pintada em seu corpo, moldando suas pernas e destacando seus quadris. O cropped que ele usava era curto, com a frase provocativa “Sex is a Bitch!” escrita em letras prateadas e brilhantes. O tecido parava logo abaixo de seu peito, deixando à mostra seu abdômen esculpido — não exageradamente definido, mas o suficiente para atrair olhares. Correntes prateadas pendiam de sua calça, balançando suavemente a cada movimento, e uma jaqueta de couro pendia de seus ombros, completando o visual com um toque de despreocupada rebeldia. Em seu pescoço, uma gargantilha de couro preto ajustada, adicionando um toque sutil de subversão.
Ele se movia com uma habilidade quase sobrenatural, sua dança era pura eletricidade. Os corpos ao redor se aproximavam dele como se fossem atraídos por algum tipo de magnetismo. Mãos desconhecidas se aventuravam por sua cintura, dedos deslizavam por sua pele, agarrando-se a ele como se quisessem roubar um pedaço de sua energia. Ele não se importava, apenas deixava-se levar. Era como se o ritmo da música estivesse fundido a cada célula de seu corpo, controlando seus movimentos com precisão e graça.
As palavras obscenas sussurradas em seu ouvido, incompreensíveis devido à música alta e ao frenesim, chegavam até ele como uma brisa quente, um misto de tentação e provocação. Ele apenas sorria de canto, continuando sua dança, ignorando o que ou quem estava ao seu redor. Não importava. Naquele momento, Alexander era o centro do universo, e cada batida da música era uma extensão de sua própria alma.
Seus cabelos estavam ligeiramente desarrumados, caindo de forma provocante sobre sua testa. Seus lábios, cobertos por um brilho rosado, refletiam a luz suave do local, convidativos e sedutores. De vez em quando, ele mordia levemente o lábio inferior, um gesto involuntário que atraía olhares ainda mais intensos. O ambiente ao seu redor parecia derreter-se na intensidade de seus movimentos, criando uma aura quase mística, onde o desejo e a atração comandavam.
Ele não falava, não precisava. Seu corpo falava por si, e cada olhar que ele trocava com alguém na multidão era suficiente para transmitir tudo o que as palavras não conseguiam. A música mudava de faixa, o ritmo se tornava mais lento, mas isso não o impedia de continuar. Alexander deixou-se levar, deslizando pelas batidas lentas com a mesma fluidez e confiança, enquanto os corpos ao redor continuavam a buscar o dele.
Em algum momento, ele sentiu uma presença mais intensa se aproximar. Não eram apenas mãos anônimas dessa vez, mas uma presença que parecia carregar um peso, uma força que ele não havia sentido antes. Ele se virou, seus olhos brilhantes capturando a luz fraca do local enquanto ele tentava identificar quem ou o que estava ali. Uma figura nas sombras, talvez, observava-o, mas em meio à dança e ao calor, era difícil distinguir. Ele suspirou, deixando o momento de tensão passar, enquanto voltava ao ritmo hipnotizante da música e da dança, a adrenalina ainda correndo por suas veias.
Naquele instante, Alexander era pura liberdade, sem limites, sem amarras.
Tudo ao redor era uma tempestade de som e luz, mas Alexander sabia que precisava sair. A música, os corpos suados e os olhares provocativos começaram a perder seu apelo à medida que a exaustão tomava conta. Ele deslizou para fora da pista de dança, passando pelas mesas cheias de jovens conversando animadamente e pelo balcão onde o bartender atendia pedidos freneticamente. Ao empurrar as portas duplas de vidro, o ar fresco da noite o envolveu como um alívio.
Do lado de fora, o céu da Louisiana estava encoberto por nuvens pesadas, e o aroma de terra úmida misturava-se ao leve cheiro de cigarro que vinha da área de fumantes do estabelecimento. Ele tirou o celular do bolso para verificar a hora: 2:03 da manhã. O brilho da tela iluminou brevemente seu rosto, destacando a tensão que se formava em sua expressão. Um leve suspiro escapou enquanto a ansiedade o invadia.
Seus pais. Eles provavelmente já tinham percebido sua ausência, e, embora soubesse que isso não era novidade, a ideia de um confronto ao chegar em casa o deixou inquieto.
Antes de partir, seus olhos vagaram pela rua deserta. Blue Lagoon tinha uma beleza peculiar à noite, mesmo em áreas mais agitadas como aquela. As lanternas de ferro forjado derramavam uma luz quente sobre as calçadas de tijolos, e as sombras das árvores balançavam suavemente ao vento. Ele se permitiu respirar fundo, tentando acalmar o turbilhão em sua mente.
Foi nesse momento que uma lembrança emergiu, nítida como se estivesse acontecendo ali, naquele instante. O Bronze ainda era o ponto de encontro favorito de Alexander e seus amigos antes de sua viagem para a França. Naquela época, ele, Fred, Barbara, Claire e Clara costumavam estender as noites de diversão ao se aventurarem pela trilha da floresta, que começava atrás da boate. Fred, sempre ousado, liderava o grupo, enquanto Clara protestava nervosamente sobre os perigos de andar na floresta à noite. Barbara ria, zombando da cautela da amiga, e Claire mantinha um sorriso tranquilizador que parecia dizer "estamos bem". Alexander se lembrava de rir junto com eles, sentindo-se invencível na companhia daqueles que o conheciam melhor.
A trilha levava diretamente ao antigo cemitério de Blue Lagoon, um local que, apesar de seu potencial para ser assustador, era uma das áreas mais serenas da cidade. Era ali que o grupo se sentava por horas, conversando, compartilhando segredos e sonhos enquanto as estrelas brilhavam acima. Ele sentiu um sorriso surgir em seus lábios enquanto essa lembrança o preenchia de uma nostalgia agridoce.
"A trilha..." ele murmurou para si mesmo.
Fazia anos que não passava por ali. Talvez fosse mais seguro pegar o caminho pela estrada, mas algo na ideia de revisitar aquele atalho o atraía. Ele guardou o telefone no bolso, ajustou o cropped e começou a caminhar em direção à entrada da trilha.
A entrada da trilha ficava atrás do Bronze, escondida por arbustos densos e uma pequena cerca que não fazia mais do que demarcar o terreno. Alexander empurrou os galhos para o lado, seus dedos tocando a madeira áspera da cerca enquanto ele a escalava com facilidade. O som abafado da música do clube começou a desaparecer, substituído pelo som rítmico dos grilos e o farfalhar das folhas. A floresta parecia viva, e cada passo de Alexander sobre a terra úmida fazia um leve estalo que ecoava na escuridão.
O ar estava mais frio ali, carregado com a umidade que subia do solo. As árvores, altas e antigas, pareciam se inclinar sobre ele, como guardiãs silenciosas daquele caminho. Apesar do silêncio quase absoluto, havia algo de inquietante no ambiente. Os olhos de Alexander se moviam de um lado para o outro, captando cada sombra que parecia dançar nas bordas de sua visão periférica.
Ele caminhava devagar, absorvendo os detalhes que o cercavam. O lugar parecia o mesmo, mas havia algo diferente naquela noite, algo que ele não conseguia definir.
"É só sua mente pregando peças!" ele disse a si mesmo, tentando afastar o leve arrepio que subia por sua espinha.
Enquanto avançava pela trilha, a sensação de ser observado começou a surgir. Era sutil no início, quase imperceptível, mas logo se tornou impossível de ignorar. Alexander parou abruptamente, girando nos calcanhares para olhar para trás. Não havia nada além de escuridão e árvores imóveis. Ele riu nervosamente, sacudindo a cabeça.
— Paranoia — murmurou, mas seus pés começaram a se mover um pouco mais rápido.
A lembrança de seus amigos, de suas risadas e conversas, parecia cada vez mais distante. A floresta agora estava carregada de tensão, e cada ruído parecia amplificado. O som de um galho se partindo à distância fez seu coração acelerar. Ele parou novamente, desta vez segurando a respiração, tentando ouvir melhor.
Nada.
Quando ele voltou a caminhar, seus passos eram mais rápidos, quase apressados. Ele estava ciente de cada som ao seu redor, de cada sombra que parecia se esticar e se contrair com a luz escassa da lua que mal atravessava as copas das árvores.
De repente, ele ouviu...
Passos. Não os seus, mas de alguém mais. Eles estavam longe, mas o suficiente para que ele os distinguisse do som ambiente. O coração de Alexander começou a martelar no peito. Ele não estava mais sozinho naquela trilha.
A adrenalina começou a correr em suas veias, e ele olhou para trás novamente. Nada. Ainda assim, os passos continuavam, agora mais próximos. Ele tentou se convencer de que era apenas outro jovem saindo do Bronze, talvez tomando o mesmo atalho que ele, mas a sensação de perigo não o deixava.
Alexander começou a andar mais rápido, quase correndo agora. A trilha parecia interminável, e o som dos passos atrás dele continuava. Quando ele finalmente avistou a saída para o cemitério, sentiu um alívio momentâneo, mas algo o fez parar. Ele se virou uma última vez, seus olhos fixando-se na escuridão da trilha.
Uma sombra se movia ali, grande e indefinida, como se fosse parte da floresta.
— Quem está aí? — ele perguntou, sua voz firme, mas carregada de cautela.
Não houve resposta. Apenas silêncio.
A sombra parou, e por um momento, Alexander sentiu como se o tempo tivesse congelado. Então, ela se moveu novamente, desaparecendo na escuridão da floresta. Alexander respirou fundo, tentando recuperar a calma. Ele sabia que precisava continuar, mas a sensação de que algo estava errado permanecia com ele enquanto ele atravessava os portões do cemitério.
A tensão no ar era quase insuportável, e ele sabia que aquela noite estava longe de terminar.
A lua cheia espiava por entre as copas das árvores, iluminando de forma intermitente o caminho sinuoso do cemitério de Blue Lagoon. Alexander atravessou os portões de ferro enferrujado com o coração ainda acelerado, a lembrança dos passos na floresta fresca em sua mente. O lugar, que um dia fora cenário de noites tranquilas com os amigos, agora parecia mais ameaçador. O ar tinha um peso quase tangível, e o som de seus próprios passos ecoava entre as lápides cobertas de musgo.
Ele enfiou as mãos nos bolsos, tentando disfarçar a inquietação. "É só um cemitério!" disse a si mesmo, olhando ao redor. As estátuas de anjos com rostos serenos e asas abertas, as cruzes de pedra e as catacumbas antigas contavam histórias de séculos passados. A melancolia do lugar costumava ser reconfortante, mas naquela noite, cada sombra parecia mais profunda, cada som mais agudo.
Ao longe, ele ouviu vozes. Eram abafadas, quase como sussurros. Por um momento, pensou estar imaginando coisas, mas então uma risada alta cortou o ar, carregada de uma energia despretensiosa e juvenil. A tensão em seus ombros diminuiu.
"Talvez sejam só outros jovens?" pensou. A ideia de não estar completamente sozinho trouxe um leve alívio.
Conforme se aproximava do som das vozes, Alexander viu a familiar estátua do Arcanjo Miguel se erguendo diante dele. Ela era imponente, com quase três metros de altura, esculpida em mármore branco agora manchado pelo tempo. O arcanjo segurava uma espada apontada para baixo, simbolizando vitória sobre o mal. Era ali que ele e seus amigos costumavam se reunir, sentados na base da estátua, compartilhando confidências e risadas. Mas naquela noite, o lugar não estava vazio.
Quatro rapazes ocupavam o espaço, suas risadas ecoando pelo cemitério. Dois estavam encostados na estátua e os outros sentados em sua base, com latas de cerveja em mãos e uma caixa de som portátil tocando música alta e vibrante, em total contraste com a serenidade do ambiente. Alexander parou ao avistá-los, o instinto lhe dizendo para evitar o grupo. Eles eram mais velhos, provavelmente universitários, e o ar de desdém e confiança que emanavam não parecia convidativo.
Decidido a não chamar atenção, Alexander desviou o olhar e continuou andando mantendo o passo firme, mas sem pressa que pudesse parecer suspeita. Ele ouviu o som metálico de latinhas sendo jogadas ao chão e sentiu o coração apertar.
"Ignore, apenas siga em frente!" repetiu para si mesmo.
Mas então, uma voz carregada de sarcasmo cortou o ar:
— Ei, garoto! Pra onde tá indo com tanta pressa? — O tom era brincalhão, mas havia algo nele que fez a espinha de Alexander gelar.
Ele se virou ligeiramente para olhar, percebendo que dois dos rapazes agora estavam de pé, observando-o com sorrisos que não eram exatamente amigáveis. Ambos usavam jaquetas de universidade, típicas de membros de times esportivos, com as iniciais bordadas em dourado. Eles eram altos, com uma postura que exalava um misto de poder e desprezo.
— Só queremos conversar! — gritou outro, enquanto dava alguns passos em sua direção.
Alexander não respondeu. Ele focou os olhos no caminho à frente e acelerou o passo. Podia ouvir o som das latas chutadas para longe e o riso abafado dos outros dois rapazes que ainda estavam junto à estátua. O desconforto crescia a cada segundo, especialmente quando ouviu um dos dois que o seguiam gritar novamente:
— Ei, não precisa correr, garoto. A gente não morde... muito.
Os passos atrás dele ficaram mais rápidos. Alexander sentiu a adrenalina disparar em seu corpo. Ele sabia que estava sendo seguido e que ignorar os rapazes não seria o suficiente para se livrar deles. A cada vez que um deles chamava por ele, o tom soava mais próximo, mais provocativo.
— Vamos lá, cara! Devagar aí! — insistiu um deles, rindo.
Alexander lutou contra o impulso de correr. Sabia que, se o fizesse, poderia parecer ainda mais vulnerável, mas sua mente gritava para que se afastasse dali o mais rápido possível. Ele olhou rapidamente por cima do ombro e viu os dois rapazes seguindo-o com passos longos e despreocupados, como se estivessem brincando com ele.
Mas onde infernos estavam os outros dois?
Essa pergunta o atormentava. Não fazia ideia de para onde os outros dois rapazes tinham ido, e a possibilidade de serem uma ameaça invisível o deixava ainda mais nervoso. Ele respirou fundo, tentando manter a calma, mas sentiu o pânico crescendo.
O cemitério, que antes parecia um refúgio, agora parecia um labirinto sem saída. Cada lápide era uma barreira, cada estátua, uma sombra ameaçadora. Ele sabia que precisava encontrar uma maneira de sair dali, e rápido.
"Se eu conseguir chegar ao portão sul, estarei na rua principal", pensou.
Mas o portão sul ainda estava a alguns distantes metros de distância, e os passos dos rapazes agora eram quase sincronizados com os seus.
— Qual é, só queremos conversar! — gritou um deles novamente, sua voz agora mais séria, com um toque de impaciência.
Alexander sabia que, naquele momento, suas opções estavam se esgotando.
— Cara, você anda rápido, hein? — um deles zombou, com um tom de provocação que o fez encolher por dentro.
— Dá pra ir mais devagar? — resmungou o outro, o tom de voz carregado de irritação controlada. — Olha pra gente, não somos uma ameaça. Só queremos conversar.
Alexander ignorou, o coração disparado e a respiração ofegante. Ele sabia que não era seguro parar ou responder. Aquilo não era uma simples brincadeira; a tensão crescente no ar o denunciava.
Quando achou que poderia ganhar alguma distância, cometeu o erro de olhar para trás novamente, na esperança de calcular o espaço entre ele e os perseguidores.
Foi uma decisão que logo lamentaria.
Ao girar o rosto para frente, viu as figuras dos outros dois rapazes surgindo de um ângulo cego, bloqueando completamente o caminho à frente. Eles apareceram de repente, como se o tivessem esperado o tempo todo, sorrindo de maneira inquietante. Suas sombras se alongavam sob o luar, criando a ilusão de predadores preparados para o ataque.
Antes que pudesse reagir, Alexander sentiu mãos firmes agarrando seus braços, uma pela esquerda e outra pela direita. Os dois que estavam atrás o haviam alcançado, prendendo-o no lugar.
— Ei, calma aí, docinho! — disse um deles com um sorriso forçado. — A gente só quer conversar, não precisa entrar em pânico.
Alexander tentou se soltar, mas a força combinada dos dois era esmagadora. Ele se debateu, o pânico crescendo, mas era como lutar contra grandes correntes de ferro.
— Olha só o que temos aqui, galera... — comentou um dos rapazes segurando-o pelo braço esquerdo, seu olhar descendo para as roupas. — Parece que alguém saiu do Bronze querendo chamar atenção.
Os outros riram em uníssono, suas vozes soando como um coro de chacais.
O rapaz continuou:
— Sério, cara, que calça é essa? Isso aí tá colado na sua pele ou o quê? — Ele estalou a língua em falso desagrado. — Bem justinho, hein? Mostrando cada detalhe.
Alexander se sentiu exposto, o rosto queimando de vergonha e raiva. Sua calça de couro preta estava justa, quase como uma segunda pele, moldando suas pernas e destacando seus quadris de maneira provocativa. O cropped que usava, com a frase brilhante “Sex is a Bitch!”, deixava seu abdômen parcialmente à mostra, revelando uma definição leve, mas atraente. Era um visual que ele usava para se sentir confiante, mas naquele momento parecia um alvo para o escárnio cruel dos rapazes.
Outro rapaz, que até então estava quieto, aproximou-se lentamente.
Ele era mais alto, com cabelos bagunçados e olhos que cintilavam à luz da lua. Com um sorriso perigoso, ergueu a mão e acariciou o rosto de Alexander, que virou o rosto instintivamente, tentando escapar do toque.
— Calma, calma... — ele murmurou, a voz baixa e perigosa. — Não precisa ficar assim. Só tô admirando sua pele. — Seus dedos roçaram a bochecha do garoto vulnerável, que se encolheu ao toque gélido e invasivo. — Tão macia. Tão branquinha. E esses olhos... Azuis como gelo.
Alexander engoliu em seco, tentando controlar o desespero que ameaçava transbordar. O toque o enojava, mas ele sabia que qualquer movimento brusco só pioraria a situação.
O rapaz mais impaciente do grupo, que parecia ser o líder, finalmente interveio. Ele tinha uma postura rígida, e seus olhos fixos em Alexander emanavam impaciência e um certo prazer sádico.
— Para de enrolar, — ele rosnou, segurando o rosto de Alexander com força, obrigando-o a encarar seus olhos. — Não se faça de difícil. Não estamos pedindo, garoto.
Alexander tentou se soltar mais uma vez, mas o rapaz apertou sua mandíbula, tornando o movimento impossível. O líder olhou para os outros e deu um sorriso perverso antes de dar a ordem:
— Levem ele mais pra dentro. Não queremos que o nosso novo brinquedinho fuja, não é?
Os outros riram, e os dois que seguravam Alexander começaram a arrastá-lo com força. Ele lutou, mas não adiantava. Estava cercado, preso, e suas chances de escapar diminuíam a cada passo que davam para longe da saída.
A lua cheia continuava brilhando no céu, testemunha silenciosa do cerco que se fechava ao redor de Alexander no coração do cemitério.
A paisagem desolada do cemitério era ainda mais sinistra naquela área inexplorada. A lua cheia filtrava-se por entre galhos retorcidos de árvores antigas, iluminando de forma inquietante as estátuas góticas e as catacumbas sombrias. O ar estava impregnado com o cheiro de terra revirada e vegetação úmida, um lembrete de que a morte rondava cada centímetro daquele lugar.
Alexander foi arrastado até uma cova aberta cercada por túmulos recentes. O solo solto ao redor sugeria que alguém havia sido enterrado ali há poucos dias. Ele foi jogado brutalmente ao chão, caindo com força sobre o gramado úmido. Instintivamente, começou a se arrastar para longe, a terra fria grudando em suas mãos e joelhos.
Os quatro rapazes pararam a alguns metros dele, trocando olhares cúmplices e sorrindo com um prazer sádico. Seus olhos brilhavam com um misto de excitação e perigo, transformando a noite em um espetáculo de tensão sufocante.
— E então, o que vamos fazer pra nos divertir? — perguntou um deles, inclinando a cabeça para o lado, como um animal estudando sua presa.
— O que quisermos... — respondeu outro, soltando uma risada baixa. — Afinal, estamos diante do garoto mais soltinho da cidade.
A gargalhada deles ecoou entre os túmulos, amplificando o desconforto que apertava o peito de Alexander. Ele se levantou lentamente, mantendo os olhos nos agressores, a mente girando em busca de uma saída.
— Ei, reconheci ele assim que o vi — disse o terceiro, apontando para Alex com desdém. — Esse aí é o irmão bastardo do queridinho do reitor da universidade, aquele tal Igor Montgomery que desapareceu. Sempre se gabando de como virou uma figura de respeito.
— Que piada! — murmurou outro, balançando a cabeça. — Porque todo mundo sabe que o bastardo aqui é famoso por outros motivos. Aposto que metade dos caras da universidade já ouviu falar dele... ou esteve com ele.
O comentário provocou risadas ainda mais altas. O segundo rapaz continuou, com um sorriso de escárnio:
— O meu primo, Isaac, vivia se gabando do desgraçado. Disse que o garoto aqui é fogoso pra caramba. Sempre aceitou tudo. Ao contrário das garotas das fraternidades, que adoram fazer charme.
A humilhação subiu como fogo pelo corpo de Alexander. Ele apertou os punhos, o coração disparado, mas com uma determinação começando a se formar em meio ao medo.
O líder do grupo, o mais impaciente, deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma mistura de desprezo e excitação.
— Então é isso... — ele decretou, olhando para os amigos. — Já que Isaac fez tanta propaganda, eu vou ser o primeiro a provar.
Alexander ergueu-se de uma vez, a postura firme e defensiva. Ele podia sentir o pânico fervendo em suas veias, mas sua mente se agarrou a uma memória específica: um ensinamento de um de seus tutores na França.
"A melhor defesa é o ataque. Nunca espere que eles façam o primeiro movimento se puder evitá-lo."
— Não encostem em mim — Alexander disse, a voz tremendo, mas cheia de uma firmeza inesperada.
Os rapazes pararam por um momento, surpresos com a reação. O líder riu, zombando do tom desafiador.
— Ah, docinho, é um contra quatro. Vai fazer o quê? Dançar pra gente?
Sem aviso, ele avançou.
Alexander recuou apenas um passo antes de explodir em ação, movendo-se rápido como uma serpente. O treinamento básico que aprendera na França guiou seus movimentos. Ele se abaixou e girou o corpo, usando o peso e o impulso do agressor contra ele.
O rapaz tropeçou, perdendo o equilíbrio, e Alexander o derrubou com um golpe seco no ombro. O agressor caiu a alguns metros de distância, batendo o rosto no chão.
Os outros três ficaram estáticos por um momento, seus sorrisos desvanecendo-se em expressões de surpresa e raiva. Alexander se reposicionou rapidamente, assumindo novamente a pose de ataque. Seus olhos azuis brilhavam com uma determinação feroz, os punhos cerrados e prontos para reagir ao próximo movimento.
— Quem é o próximo? — Alexander perguntou, sua voz baixa e carregada de desafio.
O silêncio que se seguiu foi interrompido pelo som de grilos distantes e o farfalhar das folhas ao vento. Mas ele sabia que a luta estava longe de terminar.
Aquele canto esquecido do cemitério, envolto em sombras de árvores centenárias, tornava-se o palco de uma luta desigual, cada ruído amplificado pelo silêncio opressivo ao redor.
Alexander mantinha sua posição defensiva, os músculos tensos, o coração batendo com tanta força que parecia que podia explodir. Os olhos azuis dele faiscavam, desafiando os três rapazes que o encaravam com desprezo renovado. O primeiro rapaz ainda estava no chão, gemendo de dor enquanto limpava a terra do rosto.
Um segundo rapaz avançou, murmurando algo entre os dentes, um som mais selvagem do que articulado. Alex reagiu rapidamente, girando o corpo e levantando o joelho em um movimento que atingiu o estômago do agressor com força suficiente para arrancar o ar de seus pulmões. O rapaz dobrou-se ao meio, caindo de joelhos enquanto emitia um gemido de dor.
O som dos outros dois correndo ecoou como trovões no silêncio. Mal tendo tempo de se virar antes que o terceiro rapaz o acertasse com um empurrão violento, desequilibrando-o. Ele caiu sobre uma lápide gasta, sentindo a pedra fria e áspera contra as costas. Antes que pudesse reagir, o quarto rapaz estava sobre ele, agarrando seus braços enquanto o terceiro desferia um soco brutal em seu abdômen.
O impacto arrancou-lhe o fôlego, e uma dor aguda irradiou por todo o seu corpo. Outro soco veio, desta vez em seu rosto. Ele sentiu o gosto metálico do sangue encher sua boca, enquanto sua visão tremulava por um instante.
— Segurem ele! — gritou o líder, que agora se levantava, a expressão distorcida pela raiva e pela humilhação.
Os dois que estavam sobre Alexander o puxaram para cima, torcendo seus braços para trás com força suficiente para fazer seus ombros arderem. Ele tentou lutar, chutando e se contorcendo, mas os dois o seguravam com brutalidade implacável.
O líder se aproximou lentamente, limpando o sangue que escorria de um corte no lábio inferior. Seus olhos brilhavam com uma mistura de fúria e um prazer sádico. Ele ergueu a mão, gesticulando para que os outros colocassem Alexander de joelhos.
— Vamos ver o quão corajoso você é agora, seu merda... — disse ele, a voz baixa, mas carregada de um tom ameaçador que fez os pelos da nuca de Alexander se arrepiarem.
Os rapazes obedeceram, empurrando Alexander para baixo até que seus joelhos tocassem a terra úmida. Ele sentiu o frio penetrar suas roupas, a sujeira grudando em sua pele, mas manteve a cabeça erguida, recusando-se a mostrar submissão.
— Você devia saber seu lugar — continuou o líder, inclinando-se para encará-lo diretamente. — Mas, sabe, talvez seja bom você aprender essa lição do jeito mais difícil.
Alexander cuspiu sangue no chão, a respiração pesada e irregular, mas seus olhos não vacilaram. Ele sabia que precisava manter a calma, mesmo com o medo crescente apertando seu peito. A ameaça implícita naquelas palavras pairava no ar como uma lâmina prestes a cair.
Os outros três rapazes riam ao redor, como hienas esperando para se banquetear com o terror de sua presa. O líder estalou os dedos, e o som seco ecoou, cortando o silêncio.
— Segurem ele firme! — ordenou, enquanto o suspense no ar se tornava quase insuportável.
O cenário ao redor parecia ainda mais sombrio agora. As sombras das árvores pareciam se alongar, como se o próprio ambiente estivesse conspirando contra Alexander. Seu coração batia tão alto que mal conseguia ouvir os sons ao redor, mas sua mente estava afiada, buscando desesperadamente uma maneira de escapar daquela situação.
Seus joelhos estavam afundados na terra úmida, as mãos dos agressores apertando-o com força suficiente para marcar sua pele. O cheiro de terra recém-remexida e flores murchas enchia o ar, misturando-se com a sensação de sangue seco em seus lábios.
— Segurem ele firme, droga! — o líder dos rapazes repetiu, a voz carregada de uma malícia gélida. Ele se abaixou, aproximando-se de Alexander como um predador saboreando o momento antes do ataque final.
Alexander fechou os olhos com força, o corpo enrijecido de puro medo. O som de um zíper sendo aberto cortou o silêncio, e seu coração quase parou. Uma onda de pânico absoluto percorreu seu corpo. Ele tentou se soltar, mas o peso das mãos que o seguravam era insuportável.
E então, como se a noite tivesse decidido intervir, um som ecoou na distância. Era leve no início, quase imperceptível, mas o suficiente para fazer os agressores hesitarem.
— O que foi isso? — um deles perguntou, a voz tensa.
O líder parou, erguendo o rosto na direção do som. Uma expressão de irritação cruzou seu rosto antes de ele estalar os dedos para dois dos rapazes.
— Vão ver o que é, porra! — ordenou, apontando na direção de onde o ruído viera.
Os dois obedeceram, resmungando algo enquanto se afastavam. O som de seus passos sobre folhas secas foi desaparecendo na escuridão, deixando Alexander sob a guarda de apenas um dos rapazes. O líder permanecia à frente, os olhos fixos em Alexander como se estivesse avaliando sua próxima jogada.
Por um breve momento, tudo ficou quieto novamente, o silêncio apenas quebrado pela respiração pesada de Alexander e pelo ocasional farfalhar das árvores ao vento.
Mas então vieram... os gritos.
Eles começaram como murmúrios distantes, quase confusos, antes de se transformarem em gritos de puro desespero. Eram vozes masculinas, cheias de súplica e terror, ecoando pelo cemitério como fantasmas clamando por ajuda.
O rapaz que segurava Alexander congelou, suas mãos relaxando por reflexo. Ele virou o rosto na direção dos gritos, seus olhos arregalados.
— O que diabos...? — murmurou, mas antes que pudesse terminar a frase, outro grito cortou o ar, ainda mais próximo.
Aproveitando o momento, Alexander tentou se levantar, mas uma mão firme o empurrou de volta. Desta vez, não foi com força — era o peso de alguém que já não tinha mais a mesma convicção.
— Joga ele na cova! — o líder rosnou, a voz carregada de irritação.
Ele parecia menos preocupado com os gritos do que os outros, mas seus olhos também traíam um leve traço de incerteza.
Alexander tentou resistir, mas o rapaz que o segurava o empurrou com força. Ele tropeçou para trás, o chão parecendo desaparecer sob seus pés enquanto caía na cova recém-aberta. A terra cedeu sob ele, cobrindo suas mãos e roupas enquanto ele aterrissava com um baque surdo.
Lá de dentro, o mundo parecia ainda mais opressor. Alexander podia ouvir os gritos com mais clareza agora, misturados com o som de algo — ou alguém — se movendo rapidamente pela área.
O líder deu um passo para trás, o corpo tenso enquanto olhava ao redor.
— Que merda tá acontecendo? — ele sibilou, olhando para o único rapaz que restava com ele.
Antes que pudesse obter uma resposta, outro grito — desta vez mais próximo e cheio de puro terror — cortou o ar.
Alexander, encolhido no fundo da cova, tentou estabilizar sua respiração. Ele podia ouvir o coração martelando em seus ouvidos, cada batida ecoando como um tambor. Ele apertou os olhos, tentando ignorar o medo sufocante que ameaçava consumi-lo.
Então, silêncio.
Um silêncio tão absoluto que parecia antinatural.
O líder olhou em volta, as mãos tremendo ligeiramente. Ele abriu a boca para dizer algo, mas não teve tempo. Um som pesado, como um corpo caindo, ecoou do outro lado da cova.
Alexander abriu os olhos. Tudo o que conseguia ver era a borda da cova acima, mas o silêncio seguinte foi mais assustador do que qualquer som que ele já havia ouvido.
Algo — ou alguém — estava ali, na escuridão, e ele sabia que o verdadeiro perigo ainda estava por vir.
Alexander abriu os olhos, o coração martelando no peito como se quisesse escapar dali. A escuridão da cova era opressora, mas foi o movimento na borda que o congelou de medo. Antes que pudesse reagir, algo — ou melhor, alguém — desceu desajeitadamente, caindo ao seu lado com um baque seco.
Era o líder dos rapazes.
Alexander tentou rastejar para longe, mas o rapaz foi mais rápido, agarrando-o pelas costas com uma força que parecia motivada pelo puro desespero. Em um movimento rápido, o rapaz sacou um canivete do bolso e pressionou a lâmina gelada contra o pescoço de Alexander.
— Não se mexe, seu merdinha! — ele rosnou, a voz rouca e cheia de ódio.
Alexander sentiu o fio da lâmina contra sua pele, afiada o suficiente para cortar ao menor movimento errado. O cheiro metálico de sangue misturado com terra úmida invadiu suas narinas. Ele fechou os olhos com força, tentando controlar a respiração trêmula.
— Por favor... por favor, me deixa ir... — ele implorou, a voz embargada.
O líder riu, mas era um som quebrado, sem qualquer traço de humor.
— Isso é culpa sua, sabia? — ele cuspiu, pressionando o canivete com mais força. — Se você não tivesse se feito de difícil, dado o que a gente queria... meus amigos estariam vivos agora!
As palavras cortaram Alexander mais fundo do que o canivete poderia. Ele se engasgou, entre o medo e a incredulidade.
— Você... você não pode estar falando sério... — murmurou, a voz trêmula.
O líder o sacudiu como se fosse um boneco de pano, aproximando o rosto suado e cheio de fúria do dele.
— Não tá acreditando em mim? — ele gritou, os olhos arregalados, quase alucinados. — Você os matou! Cada um deles!
Alexander começou a rir, mas era um riso descontrolado, quase histérico, nascido de puro desespero. Ele sabia que estava à mercê de alguém que havia cruzado a linha entre a razão e a loucura. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a temperatura ao seu redor pareceu cair de repente.
Um silêncio absoluto tomou conta do ambiente, como se o próprio cemitério tivesse prendido a respiração.
Alexander sentiu primeiro o cheiro: algo metálico e pútrido, como sangue misturado com carne apodrecida. Então ele viu.
Uma sombra se materializou na borda da cova, alta e inumana, com proporções que pareciam erradas de alguma forma. Dois olhos brilhantes, como brasas, queimavam na escuridão, fixando-se neles com uma intensidade que fez Alexander tremer.
Na mão direita da figura sombria, algo balançava de forma grotesca. A luz fraca da lua revelou o que era: a cabeça decapitada de um dos rapazes que havia atacado Alexander.
O líder soltou um grito sufocado, seu corpo paralisado de terror.
— O que... o que é isso? — ele sussurrou, a voz agora um sussurro rouco.
Alexander não respondeu. Ele não conseguia. Cada fibra de seu ser estava congelada, dividida entre o pavor absoluto e a estranha certeza de que aquela coisa estava ali por ele.
A figura desceu na cova com um movimento quase sobrenatural, silencioso e gracioso como um predador. Os olhos vermelhos nunca deixaram Alexander, e, por um momento, ele sentiu que o tempo havia parado.
O líder, percebendo o perigo iminente, soltou Alexander e levantou o canivete como um escudo inútil.
— Fica longe! — ele gritou, recuando até ser pressionado contra a parede da cova. — Fica longe de mim!
A criatura inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse estudando o rapaz. Então, em um movimento rápido e brutal, ela se lançou sobre ele.
Os gritos do líder ecoaram pelo cemitério, mas Alexander mal os registrou. Ele estava encolhido no canto oposto da cova, os olhos arregalados enquanto observava a cena. O sangue escorria pela terra, encharcando o solo com um brilho escuro e viscoso.
Quando o silêncio finalmente voltou, Alexander não conseguiu se mexer. Ele sabia que a criatura ainda estava ali, e que, desta vez, ela olhava diretamente para ele.


A luz branca envolvia Alexander como uma neblina ofuscante, tão intensa que era impossível discernir onde terminava o brilho e começava o mundo ao seu redor. Ele piscou, tentando focar sua visão, mas tudo parecia um borrão. Fragmentos de vozes cortavam o silêncio, palavras que ecoavam distantes e distorcidas:
— Hemorragia estabilizada...
— Possíveis traumas psicológicos...
— Monitorar...

Os sons se misturavam em uma cacofonia indistinta.
Então, vieram os flashes.
Alexander viu as mãos firmes dos rapazes o agarrando, arrastando seu corpo sobre a terra úmida do cemitério. Ouviu o som das latas de cerveja sendo chutadas para longe. Um sorriso cruel e as palavras que ainda ecoavam em sua mente:
O irmão bastardo do queridinho da universidade...
Ele se engasgou em sua própria respiração enquanto mais flashes o atingiam. O líder dos rapazes, o canivete brilhando à luz pálida da lua. As estátuas sombrias ao redor, como guardiãs silenciosas de um destino cruel.
Mais vozes surgiram ao seu redor, agora mais próximas, carregadas de urgência. Ele viu os rostos de dezenas de pessoas, mas estavam distorcidos, nublados, como se fossem figuras em um sonho.
— Fique com a gente, Alexander!
De repente, o rosto de sua mãe emergiu entre os borrões. Os olhos dela estavam cheios de desespero, enquanto os lábios tremiam em palavras inaudíveis. Seu pai estava logo atrás, o semblante rígido, mas os olhos traíam uma dor profunda.
Mais flashes.
A criatura.
Os olhos vermelhos intensos, brilhando com uma fome que transcendia o físico. As sombras ondulantes que se estendiam ao seu redor como um manto vivo. Os gritos dos rapazes se transformando em súplicas e, então, em silêncio absoluto.
Alexander abriu os olhos de repente, puxando o ar como se tivesse emergido de um mergulho profundo. Ele estava em um quarto branco, o aroma estéril de antisséptico invadindo suas narinas. O bip constante de monitores cardíacos era um lembrete insistente de onde ele estava.
Um hospital.
Ele tentou se sentar, mas seu corpo protestou, um misto de dor e fraqueza. Quando olhou para o lado, o terror voltou a envolvê-lo como uma maré negra.
Ali, diante de sua cama, estava a criatura.
A sombra imensa parecia mais sólida agora, como se o quarto não fosse capaz de contê-la completamente. Os olhos vermelhos o encaravam, brilhantes e hipnotizantes, como duas brasas vivas em um rosto sem contornos.
Alexander abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu. A criatura inclinou a cabeça para o lado, como se o estudasse. Então, um grunhido profundo reverberou pelo quarto, mas não pelo ar. Ele sentiu o som dentro de sua cabeça, como uma vibração que o deixava tonto.
— Prometido...
A voz gutural ecoou em sua mente, carregada de algo que misturava desejo, posse e uma ameaça latente.
Ele se desesperou, virando rapidamente para o lado e apertando o botão de emergência preso à lateral da cama. Seus dedos tremiam enquanto apertava repetidamente, o coração martelando em seu peito.
O som de passos veio quase instantaneamente, e a porta do quarto se abriu.
— Alexander?
Alexander virou o rosto, esperando ver médicos ou enfermeiros. Mas quem entrou no quarto não era uma figura em jaleco branco.
Era um homem alto, esbelto e incrivelmente belo. A luz fraca do quarto hospitalar acentuava os traços perfeitos de seu rosto: a pele alva e sedosa parecia quase brilhar, enquanto os olhos azuis profundos fixaram-se nele com uma intensidade desconcertante. Os cabelos pretos estavam impecavelmente cortados, caindo levemente sobre a testa de um jeito que parecia ao mesmo tempo casual e meticulosamente planejado.
Ele vestia uma jaqueta de couro marrom que moldava seus ombros largos e uma camisa preta justa que acentuava a musculatura definida. Quando ele deu mais um passo para dentro, Alexander pôde sentir um aroma sutil de tabaco e algo amadeirado, um cheiro que parecia combinar perfeitamente com a presença quase predatória do homem.
— Brunno Warrant, detetive provisório. Sou o novo responsável pelas investigações policiais em Blue Lagoon.
A voz dele era baixa e suave, mas tinha uma firmeza que carregava autoridade. Ele se aproximou, parando ao lado da cama de Alexander e olhando diretamente para ele.
— Você parece ter passado por muita coisa, garoto. Preciso de algumas respostas... se estiver em condições de falar.
Alexander olhou de Brunno para a criatura, mas esta havia desaparecido, como se nunca tivesse estado ali. Seu corpo inteiro tremia, mas ele conseguiu balbuciar:
— E-eu... o que você está fazendo aqui?
Brunno ergueu uma sobrancelha, um leve sorriso curvando os lábios.
— A pergunta certa é: o que aconteceu com você, Alexander? E, talvez mais importante... por que sinto que sua figura é o ponto central de tudo?




A luz tênue que se infiltrava pelas persianas semiabertas iluminava o quarto de hospital, criando padrões irregulares no teto e nas paredes brancas. Alexander estava sentado na cama, ainda um tanto zonzo, a cabeça latejando como um tambor distante. À sua frente, Brunno Warrant permanecia de pé, sua presença dominando o pequeno espaço.
Alexander reparou mais no homem agora que a adrenalina começava a diminuir. O detetive era uma visão impressionante: os ombros largos e a postura elegante transmitiam uma confiança que parecia quase sobrenatural. A jaqueta de couro marrom, ajustada perfeitamente, movia-se com ele como uma extensão natural de seu corpo, e os olhos azuis... aqueles olhos, brilhando como safiras sob a luz difusa, estavam fixos nele de uma maneira que fez Alexander engolir em seco.
Brunno inclinou levemente a cabeça, a expressão no rosto uma combinação desconcertante de seriedade e interesse.
— Vou perguntar novamente, Alexander. O que aconteceu na noite em que você foi atacado? Preciso saber cada detalhe.
Alexander piscou, confuso. “Na noite passada?!”, ele pensou, mas antes que pudesse dizer algo, a dúvida o atingiu como um golpe: Foi mesmo na noite passada?
Tudo parecia embaralhado em sua mente, como um quebra-cabeça com peças faltando.
— E-eu... foi ontem à noite, não foi? — ele perguntou, hesitante, olhando para Brunno em busca de confirmação.
O detetive não respondeu de imediato. Sua expressão permaneceu impassível, mas havia algo na intensidade de seu olhar que fez Alexander desviar o rosto, desconfortável.
— Continue — Brunno disse finalmente, sua voz grave, mas sem pressa.
Alexander respirou fundo, tentando organizar os pensamentos enquanto as memórias se formavam, fragmentadas, como cacos de vidro.
— Eu tinha ido ao Bronze... sabe, aquela boate na rua principal. — Ele fez uma pausa, reparando na leve inclinação da cabeça de Brunno, indicando que ele estava ouvindo atentamente. — Eu... perdi a noção do tempo. Quando percebi, já era tarde, e decidi cortar caminho para casa.
Ele parou de falar quando uma pontada aguda atravessou sua cabeça. Sua mão instintivamente foi até a têmpora, os dedos pressionando o local na tentativa de aliviar a dor.
— Está tudo bem? — Brunno perguntou, sua voz agora carregada com um tom mais suave.
Antes que Alexander pudesse responder, Brunno deu dois passos até a mesa ao lado da cama, onde havia um jarro de água e alguns copos descartáveis. A maneira como ele se movia chamou a atenção de Alexander: cada passo era calculado, gracioso, quase como se ele estivesse dançando. Havia algo magnético na fluidez de seus movimentos, algo que Alexander não conseguia ignorar.
Brunno encheu um copo com água e o entregou a ele, aproximando-se o suficiente para que Alexander pudesse sentir o leve aroma de madeira e tabaco que emanava de sua jaqueta.
— Aqui, beba. Vai ajudar.
Alexander pegou o copo com mãos trêmulas, surpreso pela gentileza inesperada. Ele murmurou um agradecimento e levou o copo aos lábios, bebendo um gole hesitante.
Enquanto bebia, Brunno caminhou até a poltrona ao lado da cama e se sentou com a mesma graça fluida. Ele cruzou as pernas, apoiando um braço no encosto da cadeira e inclinando o corpo levemente para a frente. Seus olhos, tão azuis quanto intensos, fixaram-se novamente em Alexander.
— Você decidiu cortar caminho pela trilha do cemitério. — Não era uma pergunta; era uma afirmação. — E foi no cemitério que você encontrou o grupo de rapazes da Whitmore University. Estou certo?
Alexander engoliu em seco, sentindo uma nova onda de tensão percorrer seu corpo. Ele assentiu lentamente, os dedos apertando o copo descartável com força.
— Sim — ele respondeu, a voz quase um sussurro. — Eu... os vi lá.
Brunno inclinou-se um pouco mais para frente, seus olhos nunca deixando os de Alexander.
— Preciso que você me conte exatamente o que aconteceu quando você os encontrou. Cada detalhe. Não importa o quão pequeno pareça.
Alexander desviou o olhar, encarando o chão enquanto tentava reunir coragem para reviver as memórias. Ele sabia que a verdade precisava ser dita, mas algo na intensidade com que Brunno o observava tornava tudo mais difícil.
— Eles estavam... bêbados. Pelo menos pareciam estar. Me cercaram e começaram a dizer coisas. — Ele engoliu em seco, as palavras saindo com dificuldade. — Eu tentei sair, mas... eles me agarraram. E então...
Ele parou, a dor de cabeça voltando com força total.
Brunno não o apressou. Ele esperou em silêncio, seu olhar penetrante deixando claro que estava absorvendo cada palavra.
— Eu não consigo lembrar de tudo — Alexander admitiu, a voz trêmula. — Mas... algo aconteceu. Algo terrível.
Os olhos de Brunno brilharam por um breve momento, como se ele soubesse exatamente do que Alexander estava falando, mas não quis revelar.
— Está bem. Vamos com calma. Você está seguro agora, Alexander. Isso é o que importa.
O tom reconfortante de Brunno deveria ter aliviado Alexander, mas a sensação de que o detetive sabia mais do que estava revelando deixou um nó em seu estômago. Ele olhou para o homem à sua frente e sentiu um misto de alívio e apreensão, como se estivesse diante de alguém que poderia tanto salvá-lo quanto destruí-lo.
O silêncio pairava no quarto, quebrado apenas pelo som rítmico do monitor cardíaco ao lado da cama de Alexander. Brunno permaneceu sentado na poltrona, seu olhar fixo no jovem à sua frente, que segurava o copo de água com mãos trêmulas. A luz amarelada do abajur criava sombras alongadas no rosto do detetive, destacando os traços fortes e a intensidade nos olhos azuis.
— Alexander, você consegue se lembrar de mais alguma coisa a partir do momento em que eles o agarraram? — Brunno perguntou, sua voz calma, mas carregada de expectativa.
Alexander franziu a testa, os dedos apertando o copo com mais força. A pergunta parecia abrir um buraco em sua mente, puxando lembranças que ele preferia deixar enterradas. Mas, enquanto a dor de cabeça pulsava em sua têmpora, um fragmento de memória surgiu, vívido e repentino como um relâmpago.
Ele viu o líder dos rapazes, um sorriso cruel emoldurado por olhos cheios de malícia. Ouviu o som abafado de passos na terra do cemitério, misturado com sua própria respiração acelerada. Então, uma explosão de adrenalina o tomou, e ele se viu golpeando o rapaz com toda a força que tinha, acertando-o no rosto.
— Eu... eu o agredi — Alexander sussurrou, os olhos arregalados enquanto revivia o momento.
Brunno inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, analisando cada expressão no rosto de Alexander.
— Como exatamente isso aconteceu? — ele perguntou, o tom cuidadosamente neutro, mas os olhos traindo sua curiosidade.
— Como assim? — Alexander piscou, confuso com a pergunta. — Ele... ele estava perto demais, e eu só... reagi.
Brunno estreitou os olhos, inclinando a cabeça ligeiramente.
— Você reagiu ou tomou a iniciativa? Você o agrediu para se defender ou porque queria machucá-lo?
A pergunta atingiu Alexander como um golpe. Ele abriu a boca para responder, mas as palavras não vieram. A linha entre ataque e defesa parecia borrada em sua memória, e a insistência de Brunno apenas aumentava sua confusão.
— Eu... não sei. Foi tudo tão rápido... — ele gaguejou, desviando o olhar.
Antes que Brunno pudesse pressioná-lo mais, o som abrupto da porta do quarto se abrindo interrompeu a conversa. Alexander virou a cabeça para ver seu pai, John Montgomery, entrando no quarto com passos firmes e uma expressão carregada de preocupação e irritação.
— Com licença. Quem é você? — John perguntou, sua voz cortante enquanto seus olhos avaliavam Brunno de cima a baixo.
Brunno levantou-se lentamente, sua postura ainda descontraída, mas a intensidade em seus olhos não diminuiu. Ele estendeu a mão em direção a John, um leve sorriso nos lábios.
— Detetive Brunno Warrant. Estou investigando o caso do ataque ao seu filho.
John ignorou a mão por um momento, seus olhos movendo-se rapidamente entre Brunno e Alexander antes de finalmente aceitar o aperto de mão.
— Entendo. Bem... detetive, com todo respeito, acho que qualquer outra pergunta deve ser feita na presença de um advogado. — A força no aperto indicava que ele não estava disposto a recuar.
A hostilidade na voz de John era evidente, e Brunno arqueou uma sobrancelha, surpreso, mas não perdeu a compostura. Ele soltou a mão de John e deu um passo para trás, mantendo o tom cordial.
— Mas é claro. Estou apenas tentando entender o que aconteceu para garantir que os responsáveis sejam encontrados.
John cruzou os braços, a expressão endurecida.
— Tenho certeza de que podemos colaborar quando estivermos devidamente representados. Agora, se me permite, gostaria de conversar com meu filho em particular.
Brunno olhou para Alexander por um momento, seus olhos azuis suavizando ligeiramente. Ele assentiu para o jovem antes de pegar um pequeno bloco de notas no bolso interno da jaqueta de couro e anotar algo.
— Aqui está meu contato direto, caso precise de algo ou lembre-se de mais detalhes.
Ele colocou o papel sobre a mesa ao lado da cama, dirigindo-se novamente a John.
— Senhor Montgomery, espero que possamos trabalhar juntos para resolver isso. Quero apenas o melhor para o seu filho.
John manteve a expressão fechada, não respondendo, enquanto Brunno se dirigia à porta.
— Cuide-se, Alexander. — O detetive fez uma última pausa antes de sair, olhando para o garoto encamado. — Lembre-se: a verdade é sempre sua melhor defesa.
Com isso, Brunno saiu do quarto, deixando pai e filho sozinhos.
John fechou a porta com força, soltando um suspiro pesado antes de se virar para Alexander.
— Você está bem, filho? Ele fez alguma pergunta fora de linha?
Alexander balançou a cabeça, ainda processando a interação. A presença de Brunno parecia ter deixado uma marca nele, algo que ele não conseguia definir, mas que pesava em sua mente.
— Não... ele foi muito gentil... só queria saber o que aconteceu.
John assentiu, mas a preocupação ainda estava clara em seus olhos. Ele se aproximou e colocou a mão no ombro de Alexander, o peso do gesto carregando tanto proteção quanto uma necessidade de controle.
— Eu não vou deixar ninguém o pressionar, entendeu? Vamos cuidar disso do jeito certo. Você não precisa enfrentar isso sozinho.
Alexander assentiu, mas enquanto ouvia as palavras tranquilizadoras do pai, sua mente voltava repetidamente à figura de Brunno Warrant e às perguntas que ele deixara sem resposta.

Residência dos Avery
Blue Lagoon, Louisiana.


A mansão dos Avery era um testemunho do tempo, uma joia arquitetônica que resistia ao peso dos séculos na cidade de Blue Lagoon. Erguida no coração de uma propriedade cercada por carvalhos centenários e arbustos de magnólias em flor, a casa parecia respirar história. O casarão tinha um charme peculiar: suas colunas de estilo grego ladeavam uma entrada imponente, com uma porta de madeira maciça adornada por entalhes intricados, que, ao observador atento, poderiam parecer runas ou símbolos arcanos.
As janelas altas, com venezianas brancas descascadas pelo tempo, davam à residência uma aparência ao mesmo tempo acolhedora e misteriosa. O telhado de ardósia negra parecia absorver o luar, refletindo-o de forma fantasmagórica nas noites claras. A varanda envolvente, com cadeiras de balanço antigas e samambaias penduradas em ganchos de ferro, era o lugar onde gerações da família Avery haviam compartilhado histórias e segredos.
Embora a casa exalasse tranquilidade, havia algo nos corredores e salas que parecia sussurrar histórias não contadas. Os retratos dos ancestrais pendurados nas paredes pareciam seguir os visitantes com os olhos, e o som de passos ecoava de forma diferente em cada cômodo, como se o tempo se dobrasse ali.
Mas, enquanto o resto da casa era uma mistura de elegância e mistério, o porão era um mundo à parte.
A entrada para o porão ficava escondida atrás de uma porta de madeira rústica, com dobradiças que rangiam como se estivessem guardando um segredo. Ao descer os degraus estreitos, iluminados por uma fraca luz amarelada, o ar parecia mudar. Tornava-se mais denso, mais carregado, como se estivesse impregnado de histórias antigas e energia acumulada.
O espaço era amplo, mas cada centímetro era ocupado por itens que transformavam o porão em uma espécie de santuário místico. As prateleiras eram abarrotadas de amuletos pendurados em cordões, pedras polidas que reluziam à luz de candelabros de ferro e frascos de vidro contendo líquidos estranhos, ervas submersas ou pequenos objetos indistinguíveis. Ervas secas, como arruda, alecrim e sálvia, pendiam do teto, exalando um aroma terroso e forte.
No canto esquerdo, um caldeirão grande repousava sobre um suporte de ferro, com marcas de queimaduras indicando que já havia sido usado inúmeras vezes. Potes de cerâmica pintados à mão estavam espalhados pelo chão, com inscrições em uma língua que parecia antiga demais para ser decifrada.
O centro do porão, no entanto, era a peça central. No chão de madeira desgastada, um enorme círculo de giz branco havia sido traçado com precisão obsessiva. No interior do círculo, um pentagrama dominava o espaço, cada linha perfeitamente reta. Em cada ponta do pentagrama, uma vela brilhava com uma chama tranquila, mas intensa, cada uma em uma cor diferente: azul, branco, laranja, marrom e verde-claro. As cores pareciam vibrar, como se fossem mais do que simples velas — como se carregassem os elementos que representavam: água, terra, fogo, ar e espírito.
Ao redor do círculo, estavam espalhados livros de capa dura e aparência desgastada, suas páginas amareladas cobertas de anotações em caligrafia minuciosa. Alguns estavam abertos, exibindo diagramas e símbolos que pareciam pertencer a um mundo completamente diferente.
No centro de tudo isso estava Wanda Avery.
Wanda, agora uma mulher idosa de aparência frágil, era um contraste gritante com a energia vibrante do porão. Seus cabelos brancos, longos e soltos, brilhavam à luz das velas, e seus olhos castanho-claros tinham um brilho intenso, quase sobrenatural. Ela vestia um vestido longo de linho, bordado com símbolos que combinavam com os que estavam no círculo à sua frente.
Apesar de seu corpo estar curvado pelo tempo, seus movimentos eram precisos enquanto ajustava algo dentro do círculo. Suas mãos, cobertas de rugas e marcas de uma vida longa e trabalhosa, ainda eram firmes. Ela murmurava palavras baixas, um idioma que soava tanto como uma oração quanto como um comando.
A porta do porão rangeu, e Wanda ergueu a cabeça. Sua neta, Claire Avery, desceu os degraus apressadamente, o som de seus sapatos quebrando o silêncio carregado. Claire hesitou ao chegar ao pé da escada, os olhos arregalados ao ver o círculo e sua avó no centro.
— Vovó? O que está fazendo? — Claire perguntou, a voz trêmula.
Wanda ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Há algo errado, Claire. Algo despertou. Eu preciso... precisamos proteger nossa família.
Claire franziu a testa, aproximando-se lentamente.
— Do que está falando? Não há nada errado. Você está apenas...
— Louca? Senil? Como dizem todos por aí? — Wanda interrompeu, sua voz firme como um trovão. — Deixe que pensem o que quiserem, mas algo obscuro chegou a Blue Lagoon. Eu senti isso. E você deveria sentir também. Está no sangue, minha querida. Está no sangue!
Claire recuou um passo, incerta. Wanda nunca havia falado tão abertamente sobre as crenças que mantinha ocultas por anos.
— O que a senhora quer dizer com algo obscuro?
Wanda suspirou, olhando para as velas que tremulavam levemente.
— Eu não sei exatamente. Mas o ar mudou. A terra está inquieta. E, esta noite, os espíritos falaram comigo. Algo está vindo. E não será facilmente contido.
Claire permaneceu em silêncio, os olhos fixos no pentagrama, onde as velas pareciam brilhar mais intensamente a cada segundo.
— Agora, vá buscar os amuletos da prateleira ao lado da escada. Vou precisar de sua ajuda, mesmo que você não acredite em nada disso. Ainda somos Avery, e isso significa algo.
Enquanto Claire hesitava, um som distante ecoou pela casa, algo que parecia uma batida leve, mas constante.
Wanda ergueu a cabeça, os olhos brilhando.
— Tarde demais. Ele já está aqui...

A luz âmbar do sol penetrava pelas janelas com vidros de chumbo, lançando reflexos fantasmagóricos pelas paredes decoradas com molduras douradas e retratos ancestrais. No ar, um silêncio preenchido por murmúrios de um passado que nunca se afastava completamente.
Claire Avery subia as escadas do porão com uma caixinha de madeira trancada, os amuletos da avó chacoalhando lá dentro. Seu coração batia forte, uma mistura de descrença e preocupação com as palavras de Wanda. Apesar de cética quanto às crenças místicas da avó, Claire não podia negar que algo naqueles últimos dias parecia... diferente.
Ela estava prestes a devolver os amuletos ao lugar indicado por Wanda quando a campainha ecoou pela casa. O som cortou o silêncio, reverberando pelas paredes como um sinal de alerta.
— Vovó, alguém está na porta! — Claire anunciou, inclinando-se para a entrada do porão.
— Não abra se não for necessário! Cuidado com quem você deixa entrar, minha menina. — A voz de Wanda veio carregada de uma seriedade que arrepiou Claire.
Claire hesitou por um momento, mas o som da campainha insistente a fez avançar pelo corredor. Suas mãos passaram levemente pelos móveis antigos enquanto caminhava, uma tentativa inconsciente de se ancorar à realidade. Ela abriu a porta devagar, e o que viu fez seu coração disparar.
Na soleira, um homem alto e imponentemente belo a observava com um sorriso gentil e um olhar que parecia penetrar suas defesas. Ele usava uma jaqueta de couro marrom que moldava seus ombros largos e uma camisa escura que contrastava com sua pele pálida e impecável. Os cabelos negros, penteados para trás com uma elegância descuidada, davam-lhe um ar irresistível de sofisticação.
Mas foram os olhos que mais a impactaram. Após retirar os óculos de sol, ele revelou íris de um azul tão vívido que pareciam conter o próprio céu.
Claire sentiu o rosto corar. Um calor inesperado subiu por seu pescoço, enquanto ela tentava se recompor.
— Boa tarde. Posso ajudar? — Sua voz saiu mais baixa do que ela pretendia.
O homem inclinou a cabeça de maneira quase reverente, seu sorriso ampliando-se apenas o suficiente para revelar uma leve covinha na bochecha direita.
— Boa tarde. Meu nome é Brunno Warrant. Sou o novo detetive da cidade. — Sua voz era grave, mas incrivelmente suave, carregada de um charme quase hipnótico. Ele ergueu um distintivo de prata polido, que brilhou à luz do entardecer. — Estou investigando o ataque a Alexander Montgomery.
As palavras pareceram ecoar na mente de Claire, que imediatamente sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ela piscou, confusa, incapaz de esconder o susto em seu olhar.
— Alexander? Ataque? O que aconteceu? Ele está bem? — A voz dela tornou-se ansiosa, carregada de preocupação.
Brunno levantou uma das mãos, um gesto de calma.
— Sim, ele está bem. Está em recuperação. — Ele hesitou por um momento, os olhos estudando o rosto de Claire antes de continuar. — A família decidiu manter o incidente fora da mídia. Por isso ninguém soube. Estamos conduzindo a investigação de forma discreta, dado que Alexander é filho de um dos fundadores da cidade.
Claire levou uma das mãos ao peito, tentando controlar a respiração. O ataque a Alexander era algo que ela jamais esperava ouvir, ainda mais da boca de um estranho.
— Eu... não fazia ideia. Alexander é meu melhor amigo. Como ele está agora?
Brunno inclinou levemente a cabeça, com uma expressão de genuína compaixão.
— Melhor do que se poderia esperar, dado o que aconteceu. Mas estou aqui para tentar entender mais sobre a figura de Alexander. Se puder me ajudar com algumas informações...
Claire hesitou por um momento, mas então deu um passo para o lado, abrindo espaço para que ele entrasse. No entanto, não pronunciou uma palavra de convite, e sua expressão era uma mistura de confusão e desconforto.
Brunno parou no limiar da porta. Seus olhos se voltaram para a soleira com uma intensidade que Claire não conseguiu ignorar. Ele ergueu o olhar para ela novamente, o sorriso agora ligeiramente constrangido.
— Agradeço, mas não vou demorar. Prefiro não incomodar sua tarde mais do que o necessário. Posso fazer as perguntas aqui mesmo, se não se importar.
Claire franziu o cenho, mas acenou em concordância, cruzando os braços enquanto tentava recuperar a compostura.
— Claro. O que quer saber?
Brunno ajustou a postura, guardando os óculos de sol no bolso da jaqueta. Seu tom manteve-se cordial, mas havia algo em seus olhos que parecia observar muito mais do que ela estava disposta a revelar.
— Você notou algo estranho no comportamento de Alexander nos últimos dias? Algo que pudesse indicar que ele estava com medo ou desconfiado de alguém?
Claire balançou a cabeça, ainda tentando processar a presença esmagadora do homem à sua frente.
— Não... quero dizer, não que eu tenha percebido. Ele estava normal. Bem, mais ou menos. Ele mencionou algo sobre uma festa no Bronze uns dias atrás, mas não entrou em detalhes e eu acabei não podendo ir com ele. Por que está perguntando isso?
Brunno inclinou levemente a cabeça, como se estivesse calculando cuidadosamente suas palavras.
— Estamos tentando estabelecer uma linha do tempo precisa. Qualquer detalhe, por menor que pareça, pode ser útil. Alexander mencionou com quem estaria ou quando voltaria para casa?
Claire abriu a boca para responder, mas foi interrompida por uma voz firme e conhecida que ecoou pelo corredor:
— Claire, quem está na porta?
Wanda surgiu ao fundo, com os olhos atentos. Embora mais velha e aparentemente frágil, havia algo em sua postura que parecia dominadora, como se ela tivesse total controle da situação.
Brunno virou-se para encará-la, um brilho momentâneo de surpresa passando por seus olhos antes de ele recuperar o sorriso cordial.
— Sou Brunno Warrant, detetive encarregado do caso Montgomery. Estou apenas fazendo algumas perguntas.
Os olhos de Wanda estreitaram-se, e um silêncio carregado pairou no ar.
Claire não conseguiu evitar sentir que algo invisível havia acabado de acontecer entre sua avó e o detetive.
A tensão pairava no ar como uma tempestade prestes a se formar. A brisa que serpenteava pela entrada da mansão Avery carregava um perfume sutil de jasmim e musgo, mas parecia incapaz de dissipar o peso do momento. Claire ficou estática por um instante, tentando interpretar o que acabara de acontecer entre sua avó e o detetive.
Wanda Avery, de postura ereta apesar dos anos visíveis em seu rosto, deu um passo à frente, posicionando-se parcialmente entre Claire e Brunno. Seus olhos claros, outrora calorosos, agora eram frios e calculistas, como se tentassem penetrar as intenções do homem à sua frente.
— Claire, para o quarto. Agora. — Sua voz era um comando, não um pedido.
— Mas, vovó... — Claire começou, confusa, olhando de Brunno para Wanda.
— Agora! — repetiu Wanda, cortando-a com um tom que não admitia questionamentos.
Claire hesitou, mordendo o lábio inferior. Seu olhar pousou novamente em Brunno, que permanecia sereno, como se estivesse assistindo a tudo com um misto de curiosidade e diversão contida. Ele notou a expressão relutante de Claire e lhe ofereceu outro sorriso, um gesto cordial que parecia dizer que estava tudo sob controle.
— Obrigado pelas respostas, senhorita Avery. Foram muito úteis.
Claire piscou, sentindo uma mistura de desconforto e algo que não conseguia identificar, talvez fosse a intensidade enigmática do detetive, ou o fato de que sua avó parecia reconhecer algo que ela não via. Sem mais protestos, ela acenou com a cabeça e começou a subir as escadas, lançando um último olhar para trás antes de desaparecer no corredor superior.
Assim que Claire saiu de vista, o sorriso de Brunno desfez-se, substituído por uma expressão neutra, mas os olhos — aqueles olhos penetrantes e azul-gelo — mantinham-se atentos em Wanda.
— Então, estamos sozinhos... velha. — Ele quebrou o silêncio, cruzando as mãos atrás das costas em um gesto de aparente descontração.
Wanda não respondeu de imediato. Ela permaneceu imóvel, os dedos ossudos segurando firmemente a moldura da porta, como se buscasse apoio físico para o turbilhão mental que claramente a acometia. Quando finalmente falou, sua voz era mais baixa, mas cada palavra era carregada de uma intensidade que fazia o ambiente parecer encolher ao seu redor.
— Eu sei o que você é.
Brunno ergueu uma sobrancelha, fingindo surpresa, mas um leve sorriso curvou seus lábios novamente. Ele inclinou a cabeça, estudando a mulher como se ela fosse um quebra-cabeça que ele estava ansioso para montar.
— O que eu sou? Que acusação interessante de se fazer a um detetive.
Wanda deu um passo à frente, deixando a porta aberta atrás de si.
A tarde se fora rapidamente, como mágica.
O crepúsculo, antes uma moldura pitoresca, agora parecia mais sombrio, como se a própria noite estivesse esperando para ver o desenrolar daquele encontro.
— Poupe-me do seu jogo. Não tenho tempo para enigmas, e certamente muito menos para mentiras. — Ela estreitou os olhos, avaliando cada movimento dele. — Você não está aqui apenas para investigar Alexander Montgomery. Sua presença é um presságio, e eu sinto isso em cada fibra do meu ser.
Brunno inclinou-se ligeiramente, como se estivesse genuinamente interessado nas palavras dela.
— Presságio, velha? Você me vê como um mau agouro? Estou aqui apenas para cumprir meu dever como detetive. Alexander sofreu um ataque, e é meu trabalho garantir que os responsáveis sejam encontrados.
Wanda soltou uma risada seca, sem humor, que ecoou pelo corredor.
— Palavras bonitas, mas vazias. Não se trata apenas de Alexander, não é? Você está em Blue Lagoon por algum motivo, algo mais... antigo e mais sombrio do que qualquer ataque a um garoto, mas, ele também é de seu interesse.
O sorriso de Brunno desapareceu completamente agora. Ele deu um passo à frente, batendo contra a soleira da porta sem hesitação, como se uma barreira invisível o impedisse. O movimento fez Wanda recuar instintivamente, mas ela rapidamente firmou a postura, não deixando que ele visse qualquer fraqueza.
— Com todo o respeito... senhora Avery, talvez seja a senhora quem está vendo sombras onde não existem. Mas eu estou curioso... O que exatamente você pensa que eu sou?
Wanda permaneceu em silêncio por um longo momento, os olhos fixos nos dele. Então, ela ergueu a mão direita, mostrando um pequeno medalhão de prata que estava pendurado em seu pescoço.
— Você sabe o que isso significa, não sabe?
Brunno abaixou o olhar para o medalhão. Seus olhos brilharam brevemente em um tom claro avermelhado, mas ele não disse nada.
— Achei que sim. Agora, me diga a verdade. Por que está aqui? Por que Blue Lagoon?
Por um momento, parecia que Brunno responderia. Seus lábios se moveram, mas então ele parou, como se reconsiderasse. Finalmente, ele recuou, voltando a exibir aquele sorriso educado e vazio de significado.
— Boa noite, senhora Avery. Tenho certeza de que teremos muitas oportunidades para conversar novamente.
Com isso, ele virou-se e saiu pela porta, desaparecendo na noite precoce que surgira, sem olhar para trás. Wanda ficou ali, imóvel, o medalhão ainda em sua mão. Quando finalmente fechou a porta, o som reverberou pela mansão como o eco de um destino que ela não poderia evitar.

A noite no hospital estava quieta, mas não silenciosa. O zumbido baixo dos monitores cardíacos e o som abafado de passos no corredor criavam um pano de fundo constante, enquanto a luz fluorescente fria iluminava o quarto onde Alexander Montgomery estava deitado. Ele encarava o teto, o olhar perdido, como se tentasse fugir do constrangimento pesado que pairava no ar.
Sentado em uma poltrona ao lado da cama, John Montgomery cruzava os braços, o semblante carregado de preocupação e exasperação. Apesar de sua postura rígida, era evidente que ele lutava contra a tensão que o consumia. A presença o detetive havia sido um alívio momentâneo, mas agora, pai e filho estavam sozinhos e o silêncio era... opressor.
Alexander tentou desviar o olhar, mas a sensação de ser analisado por John era quase palpável. Ele sabia o que estava por vir, sentia o peso das palavras prestes a sair da boca do pai antes mesmo de ouvi-las.
— Então... é isso? — John finalmente quebrou o silêncio, a voz firme como um golpe. Ele se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando diretamente para o filho. — Você achou que era uma boa ideia sair do Bronze, sozinho, de madrugada, e ainda cortar caminho pelo cemitério? Em que porra de mundo isso parece uma decisão racional, Alex?
Alexander fechou os olhos por um momento, como se quisesse se esconder da acusação, mas não havia refúgio. Ele abriu a boca para responder, mas John levantou a mão, interrompendo-o antes que qualquer palavra saísse.
— Não. Não quero ouvir desculpas. Estou cansado delas.
Alexander se sentou lentamente na cama, o lençol branco deslizando para seu colo. Ele sentiu o peito apertar, mas manteve a calma, tentando evitar que a conversa desmoronasse ainda mais.
— Pai, eu não... Eu só queria chegar em casa rápido. Foi um erro, eu sei disso agora.
John bufou, balançando a cabeça em descrença.
— Um erro? Isso é o que você chama? Alex, você tem ideia do que poderia ter acontecido? Do que poderia ter sido?
Alexander mordeu o lábio inferior, mas não respondeu. John continuou, a voz ficando mais grave.
— Por anos, Igor acobertou você. Ele mentiu por você, deu desculpas, e sabe por quê? Porque ele achava que estava protegendo você. Que estava te dando tempo para viver e no final de tudo, crescer e se tornar alguém responsável. Mas Igor não está mais aqui, Alex. Ele não pode salvar você agora.
O nome de Igor foi como um soco no estômago para Alexander. Ele sentiu o corpo enrijecer, os punhos se fechando automaticamente. Igor havia sido mais do que um irmão; ele havia sido seu melhor amigo, um protetor, alguém que Alexander confiava mais do que qualquer outra pessoa. Mas Igor estava desaparecido e muito provavelmente morto, e a lembrança era uma ferida que ainda doía.
— Eu não sou mais aquele garoto — Alexander murmurou, a voz carregada de emoção.
John ergueu uma sobrancelha, o olhar firme.
— Não? Porque tudo o que vejo é o mesmo garoto imprudente que age sem pensar nas consequências. O mesmo garoto que acha que o mundo gira ao redor dele e que tudo vai se resolver magicamente. Só que agora você está sozinho nisso, Alex. Igor não está aqui para te salvar, e eu não vou ficar limpando suas bagunças para sempre.
Alexander sentiu as palavras doerem mais do que qualquer golpe que havia recebido naquela noite no cemitério. Ele queria retrucar, queria gritar, mas a verdade era que havia algo no tom do pai que o paralisava. Uma decepção tão profunda que ele não conseguia ignorar.
— O senhor acha que eu não sei disso? Você acha que eu não sinto isso todos os dias? — ele finalmente falou, a voz falhando no final. — Desde que voltei da França, tudo o que você faz é me olhar como se eu fosse um fardo, mesmo que tenha mascarado tudo numa falsa tentativa de parecer saudoso com a minha volta. Como se eu tivesse perdido o direito de ser seu filho. Eu sei que cometi erros, mas você não confia mais em mim. Nem tenta!
John se recostou na poltrona, cruzando os braços novamente. Sua expressão suavizou-se por um breve momento, mas ele logo endureceu novamente.
— Você mudou, Alex. Desde que voltou, você é um estranho para mim. E talvez isso seja culpa minha. Talvez eu tenha falhado em te ensinar a ser responsável, mas isso não muda o fato de que eu não posso confiar em você completamente. Não ainda.
As palavras eram como gelo, penetrando fundo no coração de Alexander. Ele desviou o olhar, encarando a janela. A luz da lua refletia nas folhas do carvalho lá fora, um contraste cruel com o peso sufocante dentro do quarto.
— Você está dizendo que nunca vai confiar em mim de novo? — ele perguntou, finalmente voltando a olhar para o pai.
John suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Eu quero confiar em você, Alex. Mas você precisa me dar motivos. Precisa me mostrar que aprendeu alguma coisa. Que você entende que suas ações têm consequências, não só para você, mas para todos ao seu redor.
O silêncio se instalou novamente, mais pesado do que antes. Alexander sentiu a garganta apertar, mas manteve o olhar fixo no pai, determinado a não deixar que as lágrimas caíssem.
— Eu vou provar para você — ele disse, a voz baixa, mas firme. — Eu vou provar que posso ser alguém em quem você pode confiar. Alguém que você pode se orgulhar.
John estudou o filho por um longo momento antes de finalmente se levantar da poltrona. Ele caminhou até a porta, parando antes de sair.
— Eu espero que sim, Alex. Porque se você não fizer isso por você mesmo, pelo menos faça pela memória de Igor. Ele acreditava em você. E eu quero acreditar também.
Sem esperar resposta, John virou-se e caminhou até a porta. Ele segurou a maçaneta por um momento, como se hesitasse em sair, mas então abriu a porta e deu de cara com Arya Montgomery.
Sua esposa estava ali, imóvel, com a mão na maçaneta e uma expressão que misturava choque e tristeza. Seus cabelos ruivos estavam presos em um coque elegante, e os brincos de pérola refletiam a luz do corredor.
John piscou, surpreso, mas rapidamente recuperou a compostura.
— Arya... — Ele começou, mas ela ergueu uma mão, interrompendo-o.
— Eu ouvi tudo, John.
Seu tom era calmo, mas carregado de algo que fez John desviar o olhar por um breve instante. Arya passou por ele e entrou no quarto, caminhando até a cama onde Alexander ainda estava sentado, atordoado.
John ficou parado na porta por um momento, observando enquanto a esposa se sentava ao lado do filho, sua presença imediatamente preenchendo o espaço com uma calma que parecia ausente antes.
— Eu só quero que ele fique bem, Arya — John disse finalmente, antes de virar-se e caminhar pelo corredor, deixando mãe e filho sozinhos.



Reserva Natural Winterfield
Blue Lagoon, Louisiana.
Dois anos atrás...


A reserva parecia um mundo à parte naquela noite. A luz da lua cheia atravessava as copas das árvores altas, lançando sombras sinuosas sobre a vegetação densa. O ar estava úmido, carregado com o perfume de folhas molhadas e da terra fresca. No fundo de uma caminhonete estacionada em uma clareira quase invisível, Alexander estava deitado ao lado de Isaac Kingston.
Isaac respirava pesadamente, o peito largo subindo e descendo enquanto ele tentava processar o que acabara de acontecer. Ele passou a mão pelos cabelos castanhos desordenados, desviando os olhos para o céu estrelado, mas sua atenção logo foi capturada pela figura de Alexander ao seu lado.
Alexander parecia etéreo sob a luz prateada da lua. Seu cabelo loiro caía em ondas desarrumadas sobre os ombros, e sua pele parecia refletir a luz, tornando-o quase irreal. Havia algo em sua postura relaxada, na forma como ele olhava para o céu com um pequeno sorriso nos lábios, que fazia Isaac se sentir pequeno e ao mesmo tempo hipnotizado.
Isaac nunca tinha reparado tantos detalhes em alguém antes. Era um atleta, acostumado a aventuras rápidas, sem muito apego. Mas Alexander... Alexander era diferente. Ele não era apenas um corpo. Havia algo nele que fazia Isaac querer parar e admirar.
Os dedos de Isaac se moviam quase sem controle, traçando uma linha suave pelo braço de Alexander, sentindo a maciez da pele que parecia feita da seda mais fina. Ele nunca havia tocado alguém assim.
— Você está bem quieto — Alexander disse, virando o rosto para encará-lo. Sua voz era baixa, carregada de uma calma que Isaac invejava.
Isaac riu sem jeito.
— Eu só... estava pensando.
— Você... pensando? — Alex riu divertido. — Pensando em quê?
Os olhos de Alexander eram dois cristais azuis sob a luz, brilhantes e profundos, e Isaac sentiu como se estivesse afundando neles.
— Em você. Isso foi... diferente.
Alexander arqueou uma sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios.
— Diferente bom ou diferente ruim?
— Bom — Isaac respondeu rapidamente, um pouco mais alto do que pretendia. Ele limpou a garganta e tentou se recompor. — Quero dizer, muito bom.
O sorriso de Alexander se alargou, mas havia algo calculado nele, algo que Isaac não conseguia decifrar completamente. Ele parecia sempre no controle, como se estivesse três passos à frente de qualquer pessoa ao seu redor.
Isaac não podia evitar. Seus olhos vagavam pelo corpo de Alexander, que estava parcialmente coberto pelo lençol fino que tinham usado como improvisação. Os ombros definidos, as clavículas que pareciam ter sido esculpidas, o peito que subia e descia lentamente com a respiração. E aqueles lábios... aqueles lábios que agora estavam pressionados em um sorriso provocador.
— Você está me olhando como se eu fosse um prêmio... — Alexander comentou, mas havia um tom de diversão em sua voz.
— Talvez você seja — Isaac respondeu sem pensar, e Alexander soltou uma risada baixa, quase musical.
— Não sabia que você era do tipo que se declara a alguém.
— Eu não sou. — Isaac franziu a testa. — Mas com você... é diferente.
Alexander se inclinou levemente, apoiando-se no cotovelo. A luz da lua dançava sobre os contornos de seu rosto, e Isaac prendeu a respiração.
— Diferente como?
— Como se... — Isaac hesitou, passando a mão pelo rosto.
Ele não sabia colocar em palavras.
Alexander Montgomery era uma força da natureza, algo que ele nunca conseguiria controlar ou entender totalmente. Como se o loiro de olhos azuis fosse uma obra de arte viva, e ele, um mero espectador sortudo.
Alexander parecia apreciar o embaraço de Isaac. Ele se inclinou mais perto, tão perto que Isaac podia sentir a respiração quente contra seu rosto.
— Você realmente não sabe o que dizer, não é?
Isaac balançou a cabeça, sentindo o calor subir em seu rosto.
Alexander sorriu, mas dessa vez havia algo mais suave nele, algo quase genuíno. Ele levantou a mão e passou os dedos pelos cabelos bagunçados de Isaac, um gesto inesperadamente terno.
— Por um lado, você é exatamente o que eu esperava: o atleta popular, cheio de si, confiante não só nas palavras, mas em outras coisas também. — Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos de Isaac. — Mas por outro... Você parece tão perdido.
Isaac não sabia como responder a isso. Ele nunca se sentira tão vulnerável, tão exposto. Mas ao mesmo tempo, havia algo libertador em estar assim diante de Alexander, como se ele não precisasse fingir ser outra coisa.
Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas olhando um para o outro. O som distante de grilos e o farfalhar das folhas preenchiam o espaço entre eles.
— Eu nunca trouxe ninguém aqui antes — Isaac admitiu finalmente, sua voz quase um sussurro.
Alexander levantou uma sobrancelha.
— Não me diga que essa é a sua primeira vez em uma clareira secreta.
Isaac riu, balançando a cabeça.
— Não. Eu quis dizer... nunca trouxe ninguém que realmente me fizesse querer ficar depois.
Alexander ficou em silêncio por um momento, como se estivesse processando as palavras. Então, ele sorriu novamente, mas dessa vez havia algo mais gentil, mais sincero.
— Você é cheio de surpresas, Isaac.
Isaac sorriu de volta, sentindo algo inusitado dentro de si – algo que ele não conseguia nomear, mas que sabia ser importante.
O canto dos pássaros começava a se mesclar ao suave farfalhar das folhas, enquanto o céu no horizonte adquiria tons de laranja e rosa, sinalizando que o dia logo nasceria. O clima úmido e morno da Louisiana criava uma leve névoa ao redor da clareira, tornando a cena quase onírica.
Isaac estava sentado na borda da caminhonete, as pernas balançando do lado de fora, enquanto olhava fixamente para Alexander, que permanecia deitado no fundo da carroceria, os braços cruzados atrás da cabeça. O loiro parecia alheio ao desconforto que começava a crescer no peito de Isaac. Sua postura relaxada e o sorriso preguiçoso que curvava seus lábios davam a entender que ele estava perfeitamente à vontade, como se não houvesse mais ninguém ali além de si mesmo.
Isaac desviou os olhos por um momento, respirando fundo. Ele nunca tinha se sentido tão confuso – ou tão atraído – por alguém. Alexander era tudo o que ele nunca soubera que queria: desafiador, encantador, misterioso. As últimas semanas haviam sido intensas, cheias de encontros secretos como aquele, e cada vez mais Isaac sentia que algo estava mudando dentro dele. Ele não queria mais que aquilo fosse apenas um jogo.
— Alex, eu estava pensando... em tudo isso.
Alexander desviou os olhos do horizonte e olhou para Isaac com um arqueamento de sobrancelha, o sorriso brincando em seus lábios.
— Ah, tudo isso? Quer dizer, as noites quentes e os lugares escondidos? Eu admito, tem sido divertido.
— Divertido? — Isaac inclinou-se para mais perto, tentando decifrar a reação de Alexander. — A gente está saindo há semanas. E não é só... bom, você sabe. Não é só sexo.
De onde estava, podia observar o outro em detalhes: os cabelos dourados bagunçados, o brilho sutil de suor na pele pálida e os olhos azuis que pareciam guardar segredos demais.
— Isaac, eu pensei que a gente tivesse entendido isso desde o começo. — Ele cruzou os braços, apoiando-se contra a lateral da caminhonete. — Não estou procurando algo sério.
A expressão de Isaac endureceu, seus olhos se estreitaram enquanto um músculo em sua mandíbula se contraiu.
— Como assim? Você não sente nada por mim?
Alexander inclinou a cabeça, seu sorriso permanecendo firme, mas havia uma sombra de algo em seus olhos, seria... irritação? Desinteresse? Isaac não conseguia dizer.
— Sinto prazer, Isaac. E só. Achei que estivesse claro desde o início.
As palavras atingiram Isaac como um golpe. Ele franziu a testa, seu peito se apertando.
— O que isso tudo foi para você?! — indagou Isaac. — Pra mim foi diferente de tudo o que já senti!
Alexander suspirou, sentando-se. O lençol escorregou de seus ombros, revelando mais de sua pele impecável sob a luz crescente do amanhecer.
— Para mim, foi exatamente o que eu esperava que fosse.
Isaac riu, mas era um som seco, quase incrédulo. Ele balançou a cabeça, e sua postura começou a mudar. A frustração e o ressentimento ferviam sob a superfície, transbordando em seus movimentos tensos.
— Você está brincando comigo, Alex? Depois de tudo isso?
Alexander continuou calmo, mas havia um brilho afiado e cínico em seus olhos.
— Depois de tudo isso o quê? Algumas noites de diversão? Isaac, não foi você quem disse que não gostava de se apegar? Que tudo era só um jogo?
Isaac se inclinou para mais perto, e a tensão entre eles se tornou palpável. Ele segurou o braço de Alexander, não com força, mas com firmeza suficiente para deixar claro que não ia aceitar ser descartado tão facilmente.
— E você realmente não sentiu nada? — ele murmurou, a voz baixa, perigosa. — Nada?!
Alexander o encarou, os olhos azuis brilhando com algo que Isaac não conseguiu identificar.
— Já disse. Prazer. Isso é tudo o que sinto com você, Isaac.
A resposta fez algo estalar dentro de Isaac. Ele agarrou o jovem de olhos azuis pelo pescoço, seus dedos se apertando ao redor da pele pálida. Não era suficiente para machucar, mas o gesto estava carregado de ameaça.
— Você acha que pode me tratar assim? Como a porra de um brinquedo descartável?! — Isaac perguntou, a voz rouca e repleta de raiva contida.
Alexander, no entanto, não pareceu intimidado. Pelo contrário, ele sorriu, um sorriso perverso e satisfeito que só enfureceu mais Isaac. A satisfação em sua expressão dando lugar a uma frieza calculada.
— Aí está você! — Alexander murmurou, a voz sedosamente venenosa. — Finalmente mostrando quem você realmente é. Violento, possessivo... Que interessante.
Isaac recuou por um momento, mas antes que pudesse falar algo, Alexander inclinou-se, seu sorriso voltando a ser provocador.
— Do que você está falando? — Isaac perguntou, os olhos fixos nos de Alexander.
— Achei que fosse questão de tempo até você se revelar. — Alexander inclinou a cabeça, os lábios ainda curvados em um sorriso. — Caras como você sempre acham que podem ter tudo o que querem, e quando não o tem, ficam bravinhos não é?
Isaac apertou mais os dedos em torno do pescoço de Alexander, mas o loiro não desviou o olhar. Ele parecia quase... excitado.
— Você acha que me conhece tão bem? — Isaac sibilou furioso.
— Bem o suficiente para saber que você é um mentiroso. — Alexander respondeu calmamente. — O que você achou que eu faria se descobrisse sobre Clara?
O nome pareceu atingir Isaac como um golpe. Ele congelou, a expressão de raiva sendo substituída por surpresa e, depois, por algo mais próximo do pânico.
— O quê...?
Alexander riu, um som baixo e venenoso.
— Você achou que eu não descobriria? Clara é minha melhor amiga, Isaac. Você realmente achou que podia brincar com ela e comigo ao mesmo tempo? Que feio...
Isaac ficou sem palavras, e sua mão deslizou do pescoço de Alexander. Ele foi um pouco para trás, como se tivesse sido exposto.
— Eu... não foi...
— Poupe suas desculpas — Alexander cortou, sua voz fria agora, mas ainda carregada de um controle assustador. — Eu sabia desde o começo. Só estava esperando para ver até onde você iria.
Isaac sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ele nunca tinha se sentido tão impotente, tão derrotado.
Alexander se levantou, pegando suas roupas no fundo da caminhonete. Ele se vestiu com uma calma irritante, como se nada tivesse acontecido.
— Você é previsível, Isaac. E previsível é tão... — Ele parou, olhando para Isaac com um sorriso cruel. — Entediante.
Isaac ficou imóvel enquanto Alexander pegava suas roupas e se vestia. A tensão no ar era quase palpável, mas desta vez, era diferente. Não era apenas desejo ou atração era algo mais sombrio, mais perigoso.
Alexander olhou para trás uma última vez, o sorriso ainda nos lábios, mas seus olhos brilhavam com algo afiado.
— Isso é tudo o que você é, Isaac — Alexander disse, sua voz baixa, mas cortante. — Uma fachada. Um jogo. E a diferença entre Clara e eu... é que eu só brinquei, porque era divertido.
E com isso, ele desapareceu pela trilha, deixando Isaac sozinho, engolido pela mistura de humilhação e algo que ele ainda não conseguia nomear.
O sol finalmente nasceu sobre a reserva, mas nada poderia iluminar o que havia acabado de se revelar naquela clareira secreta.

Blue Lagoon, Louisiana.
Dias atuais... Alguns dias depois...


Numa mesa de canto no Bronze, cercados por copos de milkshake, refrigerantes e pratos quase vazios de batatas fritas, Barbara, Fred, Claire, Isaac e Clara formavam uma cena peculiar. De longe, poderiam ser confundidos com amigos inseparáveis, mas a proximidade escondia rachaduras que estavam prestes a se abrir.
Barbara, com seu cabelo loiro impecavelmente arrumado e um sorriso tão brilhante quanto uma lâmpada de camarim, sentava-se ao lado de Fred, o rapaz que parecia ter saído direto de uma propaganda de perfume. Eles eram o casal perfeito, tão harmoniosos que chegavam a ser intimidantes. Fred estava casualmente encostado na cadeira, com um braço jogado ao redor do encosto da de Barbara, e os dois compartilhavam olhares cúmplices que poderiam derreter gelo.
— Eu ainda não acredito que vocês venceram o concurso de ciências! — comentou Claire, mexendo preguiçosamente no canudo do seu refrigerante. — Vocês são tipo... Barbie e Ken na vida real.
— Exagero seu, Claire — respondeu Barbara, corando levemente, mas claramente apreciando o elogio. Ela apertou o braço de Fred com um sorriso satisfeito. — Mas, obrigada.
Isaac bufou de leve, sentado à frente de Fred, enquanto Clara, ao seu lado, revirava os olhos de maneira teatral.
— O que foi? — perguntou Barbara, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— Nada, só acho engraçado vocês sempre ganharem tudo — respondeu Clara, com um sorriso azedo que contradizia o tom "casual" de sua voz.
— Talvez porque a gente pratique... — retrucou Fred, sem esconder o tom defensivo.
— Claro, claro, prática. — Clara deu um gole no seu drink, os olhos brilhando com algo próximo a sarcasmo.
Isaac, ao seu lado, parecia alheio à troca de farpas. Ele encarava o copo à sua frente, girando-o lentamente com os dedos. Havia algo diferente nele naquela noite, uma calma inquietante, como se ele estivesse longe dali, preso em algum pensamento que ninguém conseguia alcançar.
Claire, sentada entre os dois casais, claramente se sentia deslocada. Ela olhou de Barbara para Clara, como uma mediadora prestes a intervir, mas foi Barbara quem mudou o rumo da conversa.
— A propósito, Claire, aquele detetive foi até a sua casa, não foi?
A pergunta veio casualmente, mas o efeito foi imediato. Claire se engasgou levemente com seu refrigerante, os olhos arregalados. Clara quase derrubou o copo que segurava, enquanto Fred se inclinava para frente, interessado. Isaac, no entanto, permaneceu inexpressivo, os olhos ainda fixos no copo à sua frente.
— Foi sim — respondeu Claire, com um tom cauteloso. — Ele fez algumas perguntas... sobre o Alex.
— Alex? — A voz de Fred soou mais alta do que ele pretendia. Ele trocou um olhar rápido com Clara, que parecia tão surpresa quanto ele.
Barbara inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa, claramente interessada no rumo da conversa.
— E o que ele queria saber?
Claire hesitou, como se avaliasse o que deveria ou não dizer.
— Coisas básicas. Onde ele estava, o que ele fazia antes de... bem, antes do ataque.
Clara estreitou os olhos.
— Ataque?! De que porra vocês estão falando?
Claire deu de ombros, tentando parecer indiferente, mas a tensão em seu rosto era óbvia.
— Sei lá, Clara. Ele não entrou em detalhes. Só perguntou coisas gerais, como se estivesse tentando entender quem era o Alex.
— Por que diabos um detetive estaria interessado no Alex? — perguntou Fred, sua voz carregada de descrença.
— Talvez porque ele voltou da França a umas semanas e foi atacado por quatro caras alguns dias atrás... — respondeu Claire, casualmente, como se estivesse comentando o tempo.
A declaração pairou no ar como um trovão abafado. Clara ficou boquiaberta, enquanto Fred piscava, confuso. Isaac finalmente levantou os olhos do copo, sua expressão ainda impenetrável.
— Voltou? — Clara quase gritou. — E vocês duas sabiam dessa merda?!
Barbara trocou um olhar rápido com Claire, como se esperasse alguma confirmação antes de continuar.
— Pensei que vocês soubessem.
— Não! — exclamou Fred, incrédulo. — Como diabos íamos saber que o Alex voltou de Paris?!
Claire deu um pequeno sorriso, quase tímido.
— Acho que ele não queria que as pessoas soubessem. Ele passou esses últimos dias do retorno tentando se reconectar com a cidade e tudo a volta dele.
Clara riu, mas era um som vazio, sem humor.
— Isso é tão típico dele...
Isaac permaneceu calado, mas havia algo em sua postura que indicava que ele estava processando as informações. Seus dedos agora batiam levemente contra a mesa, um movimento quase imperceptível, mas que Clara percebeu.
— E você? — Clara perguntou, virando-se para ele. — Você sabia disso?
Isaac a encarou por um momento, seus olhos tão frios quanto um rio congelado.
— O que importa?
— Como assim "o que importa"? — Clara rebateu, sua voz subindo uma oitava. — Estamos falando sobre o Alex!
— Exatamente. O Alex. — Isaac deu de ombros, voltando a encarar o copo. — Nada do que esse filho da puta faz é surpreendente.
O silêncio que se seguiu foi carregado. Clara o encarou, como se esperasse que ele dissesse algo mais, mas Isaac não ofereceu nada.
Barbara, sempre atenta, tentou aliviar a tensão.
— Bom, não é como se fosse um grande segredo, certo?
Fred olhou para ela como se ela tivesse acabado de sugerir algo absurdo.
— Barbara, isso não é só uma viagem de férias. Estamos falando de Alex desaparecendo por dois anos e voltando como se nada tivesse acontecido.
— Talvez ele tivesse os motivos dele — respondeu Barbara, com um tom defensivo. — E ele não desapareceu... ele até modelou lá na França!
Clara bufou, cruzando os braços.
— Claro, porque o Alex sempre tem uma boa explicação para tudo!
A tensão pairava sobre a mesa como uma tempestade prestes a eclodir. Isaac permaneceu em silêncio, mas sua mente estava a mil.
Fred inclinou-se para frente, os olhos cravados em Claire. Barbara, ao seu lado, mantinha a expressão calma, mas havia uma tensão evidente em seus ombros. Clara e Isaac, sentados do outro lado da mesa, observavam o desenrolar da conversa com expressões diferentes: Clara parecia intrigada, enquanto Isaac permanecia estoicamente desinteressado.
— Espera aí, volta um pouco... — começou Fred, cruzando os braços. Sua voz soou mais alta do que ele pretendia novamente, atraindo olhares breves de um casal sentado na mesa ao lado. — O que você quis dizer com "ataque ao Alex"?
Claire hesitou por um momento, mexendo no anel de prata que girava no dedo. Ela sabia que, ao compartilhar aquela informação, poderia abrir um buraco ainda maior no frágil equilíbrio do grupo, mas havia algo no olhar de Fred que a fez ceder.
— Foi alguns dias atrás... — ela começou, com a voz cuidadosa, como se escolhesse as palavras a dedo. — O Alex foi encontrado no cemitério um pouco mais distante da trilha que a gente pegava quando saíamos tarde do Bronze, desacordado... cheio de hematomas e sabe-se lá Deus o que mais.
Barbara arregalou os olhos.
— Meu Deus... O detetive não falou isso para mim! O que ele estava fazendo lá?
Claire deu de ombros, olhando hipnotizada para a mesa como se o padrão da madeira pudesse lhe oferecer respostas.
— Ninguém sabe. O coveiro que o encontrou disse que parecia um abuso, mas a família do Alex manteve tudo fora da mídia. Eles conseguiram abafar a situação, e ele foi internado no hospital até ontem à noite.
— Ele já saiu? — perguntou Barbara, alarmada.
Claire assentiu.
— Sim. Parece que está bem agora, pelo menos fisicamente. Mas, ainda não quer receber visitas.
Clara bufou, balançando a cabeça.
— Isso é tão típico dos Montgomery! Sempre escondendo qualquer coisa que possa arranhar a imagem perfeita que eles adoram exibir.
— Ou o Alex mesmo — Isaac disse, com um sorriso enviesado. Ele se recostou na cadeira, parecendo à vontade demais para o tom da conversa. — Ele sempre soube usar o nome da família pra sair de qualquer situação. Ou usava o Igor.
— O que você quer dizer com isso? — Barbara perguntou, a voz afiada.
Isaac deu de ombros, sem tirar o sorriso do rosto.
— Estou dizendo que o Alex sempre foi um mestre em manipular as pessoas ao redor. Ele joga com o status da família, usa quem quer que esteja disponível... O irmão mais velho desaparecido, por exemplo... Quantas vezes ele não usou o coitado como uma espécie de guarda-costas?
O nome de Igor pairou no ar como um fantasma, carregado de implicações que ninguém parecia disposto a explorar, pelo menos não naquele momento. Barbara franziu o cenho, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Fred se levantou abruptamente, empurrando a cadeira para trás com um som agudo que cortou o ar.
— Repete isso! — ele disse, caminhando até Isaac com passos decididos.
Isaac ergueu uma sobrancelha, sem se mexer.
— O quê?
— Repete o que você disse. — Fred agarrou a gola da camisa de Isaac, puxando-o para perto. A tensão na mesa explodiu como um raio em uma noite de tempestade.
Clara soltou uma risada curta, claramente se divertindo com a cena.
— Finalmente, algo interessante.
— Fred, para com isso! — Barbara exclamou, tentando puxá-lo pelo braço, mas ele não cedeu.
Isaac continuava impassível, mesmo com Fred a centímetros do seu rosto. Ele parecia mais intrigado do que assustado.
— Não preciso repetir nada — respondeu Isaac, calmamente. — Todo mundo aqui sabe que é verdade.
— Você não sabe de nada sobre o Alex! — retrucou Fred, com os dentes cerrados. Sua voz era baixa, mas carregada de ameaça. — Então, cala a boca antes de falar besteira.
Clara, ainda com um sorriso nos lábios, inclinou-se na mesa.
— Sabe, Fred, acho que o Isaac está mais certo do que você gostaria de admitir.
Fred lançou um olhar furioso para Clara, mas antes que pudesse dizer algo, Barbara interveio, colocando-se entre os dois.
— Fred, chega! — Ela empurrou seu peito, forçando-o a soltar Isaac. — Não vai resolver nada assim.
Fred soltou Isaac com um empurrão, fazendo-o cambalear levemente na cadeira. Isaac ajeitou a camisa com calma, como se nada tivesse acontecido, mas havia um brilho de provocação nos seus olhos.
— Parece que a Barbie perdeu o controle do Ken! — ele murmurou, baixo o suficiente para que só Clara ouvisse.
— Vocês dois são impossíveis! — disse Barbara, exasperada.
Fred passou as mãos pelo cabelo, visivelmente tentando se recompor, mas seu olhar ainda queimava de raiva. Ele voltou para o lado de Barbara, mas não conseguiu se sentar.
— Isso foi desnecessário, Isaac. Fala sério — disse Claire, finalmente, com a voz séria.
— Foi mesmo? — retrucou Isaac, sem desviar o olhar de Fred. — Só estou dizendo o que ninguém mais tem coragem de dizer.
Clara levantou o copo como se brindasse, um sorriso debochado no rosto.
— E é por isso eu te amo!
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas carregado de uma energia que ameaçava explodir a qualquer momento. A conversa tinha se transformado em algo muito mais profundo do que simples palavras. Cada olhar, cada gesto, carregava significados não ditos, como se todos naquela mesa estivessem presos a uma rede invisível de segredos e ressentimentos.

A lua pendia alta no céu, refletindo sua luz prateada nas águas tranquilas dos canais de Blue Lagoon. A cidade, com sua arquitetura que mesclava o charme colonial francês com toques de modernidade discreta, parecia uma pintura em tons pastel. As ruas, geralmente cheias de música e vida, estavam quase desertas àquela hora, exceto por Fred, que caminhava com passos firmes e decididos.
Após deixar Barbara e Claire em casa, sua mente estava inundada por um turbilhão de pensamentos. O nome de Alex pairava como uma sombra, e a ideia de confrontá-lo parecia inevitável. Havia algo que precisava ser resolvido, algo que ele não conseguia mais ignorar.
E Alex já havia fugido tempo o suficiente.
Fred finalmente chegou à propriedade dos Montgomery. A mansão era um reflexo perfeito da grandiosidade da família: imponente, com colunas brancas e janelas altas que se erguiam como olhos atentos na noite. O jardim frontal estava meticulosamente cuidado, com magnólias que exalavam um perfume doce e denso, misturando-se ao ar quente e úmido da Louisiana.
Sem hesitar, Fred subiu os degraus da varanda e tocou a campainha. O som ecoou pela casa, carregado de uma estranha melodia que parecia zombar de sua ansiedade. Ele esperou, os punhos cerrados ao lado do corpo.
A porta se abriu, revelando Arya Montgomery. Sua expressão de surpresa foi rapidamente substituída por um sorriso doce, quase caloroso. Ela estava vestida de maneira simples, mas elegante, com um vestido leve que acentuava sua graça natural. Seus olhos, no entanto, não conseguiam esconder o cansaço e a preocupação que carregava.
— Fred? — ela perguntou, a voz suave. — O que o traz aqui a essa hora?
Fred deu um passo à frente, inclinando a cabeça em um gesto educado.
— Boa noite, Arya. — Sua voz era firme, mas sem a usual cordialidade que costumava exibir. — Alex está em casa?
Arya piscou, claramente pega de surpresa pela pergunta direta. Ela engoliu em seco, desviando o olhar por um breve momento antes de responder.
— Está... sim, ele está em casa. — Ela hesitou, abrindo a porta um pouco mais. — Você pode subir, se quiser.
Fred assentiu, entrando no hall sem mais palavras. O interior da mansão era ainda mais impressionante à noite, com as luzes douradas criando sombras suaves nas paredes decoradas com quadros antigos. O cheiro de madeira polida e velas aromáticas enchia o ar, dando ao ambiente uma sensação de luxo atemporal.
Ele começou a se dirigir às escadas, mas a voz de Arya o deteve.
— Fred.
Ele parou, virando-se para encará-la.
— Seja cuidadoso, por favor. — A expressão dela era séria, quase suplicante. — O Alex... ele está fragilizado.
Por um momento, Fred hesitou. Havia algo na voz dela que o fez questionar sua decisão, mas ele rapidamente descartou aquele pensamento. Ele precisava confrontá-lo. Não podia permitir que isso o detivesse.
— Eu entendi. — Ele respondeu, breve, antes de subir as escadas com passos determinados.
No andar de cima, o silêncio era quase palpável. O corredor estava iluminado apenas pela luz suave que escapava por debaixo de algumas portas. A atmosfera parecia pesada, como se as paredes guardassem segredos que nunca seriam ditos em voz alta.
Fred parou em frente à porta do quarto de Alex. Por um momento, ele considerou bater, mas decidiu que não precisava de permissão. Ele girou a maçaneta e entrou.
Alex estava sentado na cama, com o olhar perdido em um livro aberto que repousava sobre suas pernas. Ele parecia pálido, mais magro do que Fred se lembrava, e havia um curativo discreto em sua testa. Quando Fred entrou, Alex levantou os olhos, claramente surpreso.
— Fred? O que você está fazendo aqui?
A tensão no ar era quase sufocante. Fred fechou a porta atrás de si, cruzando os braços enquanto encarava Alex.
— Nós precisamos conversar.

Sentado na beira da cama, ele folheava um livro, mas as palavras impressas não conseguiam prender sua atenção. Sua mente vagava para lugares que ele preferia esquecer, para memórias que pareciam ainda mais pesadas desde que voltara do hospital. O ataque havia deixado cicatrizes não apenas em seu corpo, mas também em sua alma.
O som da maçaneta girando o tirou abruptamente de seus pensamentos. Ele ergueu os olhos, surpreso, quando a porta se abriu sem aviso.
Fred estava ali.
O rapaz parado no limiar do quarto parecia uma figura saída de um sonho, ou talvez de um pesadelo. Alto, com a pele que refletia o brilho quente da luz amarelada do quarto, ele exalava uma confiança e uma força quase intimidantes. Seus olhos verdes – verdes como as folhas úmidas das magnólias que cercavam a propriedade – pareciam perfurar Alexander, e o contraste entre eles e a pele escura de Fred o tornava ainda mais marcante. Seus ombros largos preenchiam a entrada do quarto, e Alexander, por um momento, sentiu como se o ar tivesse sido sugado do ambiente.
Fred era um pedaço do passado que ele não sabia se queria revisitar. Amigo de infância, companheiro de tantas aventuras, mas também a lembrança de uma época em que as coisas eram mais simples – e de sentimentos que nunca tiveram nome.
— Fred? — Alexander conseguiu dizer, a voz vacilante. Ele se levantou lentamente, ainda segurando o livro nas mãos. — O que você está fazendo aqui?
Fred não respondeu imediatamente. Ele fechou a porta atrás de si com um movimento deliberado, o clique ecoando como um som de sentença. Seus olhos não desviavam dos de Alexander, e havia algo no olhar dele que fazia o coração do rapaz bater mais rápido – fosse por medo ou algo mais, Alexander não sabia dizer.
— Nós precisamos conversar.
O tom de Fred era firme, sem espaço para discussão. Alexander engoliu em seco, dando um passo hesitante na direção dele.
— Conversar sobre o quê? Fred, o que está acontecendo?
Antes que pudesse processar a situação, Fred atravessou o quarto com passos longos e decididos. Alexander mal teve tempo de reagir antes de sentir as mãos fortes do outro segurando seus ombros, e então os lábios de Fred estavam sobre os seus.
O beijo foi tão inesperado quanto intenso. Fred o beijava com uma mistura de raiva, paixão e algo que parecia profundamente reprimido, como se todos os anos de silêncio entre eles estivessem desabando naquele momento. Alexander sentiu a pressão dos lábios quentes contra os seus, e sua mente ficou em branco. Por um instante, ele congelou, incapaz de reagir, enquanto as mãos de Fred deslizavam para sua cintura, puxando-o mais perto.
O mundo ao redor parecia desaparecer. Tudo o que ele conseguia sentir era o peso do corpo de Fred contra o seu, o calor que irradiava dele, o gosto agridoce daquele beijo inesperado.
Fred não deu espaço para recuos. Ele o empurrou suavemente até que suas costas tocaram a parede mais próxima, o beijo se aprofundando com uma intensidade que Alexander nunca havia experimentado antes. Era como se Fred estivesse tentando dizer tudo o que nunca foi dito, despejando emoções em cada movimento.
Foi então que Alexander finalmente recobrou os sentidos. Uma onda de adrenalina percorreu seu corpo, e ele empurrou Fred com todas as forças que conseguiu reunir. Quando o outro deu um passo para trás, surpreso, Alexander levantou a mão e desferiu um tapa que ecoou pelo quarto.
Fred tocou a lateral do rosto, onde os dedos de Alexander haviam deixado um leve ardor. Seus olhos verdes se estreitaram, e por um momento, nenhum dos dois disse nada. O silêncio entre eles era denso, quase insuportável, carregado de emoções conflitantes.
— Que diabos foi isso, Fred? — Alexander finalmente conseguiu dizer, a voz tremendo. Ele respirava pesado, as mãos cerradas ao lado do corpo.
Fred permaneceu onde estava, a expressão no rosto oscilando entre culpa e desafio.
— Você sabe muito bem o que foi isso, Lex.
O uso do apelido – algo que Fred não dizia desde que eram adolescentes – fez o coração de Alexander apertar. Ele balançou a cabeça, tentando afastar o turbilhão de emoções que ameaçava dominá-lo.
— Não, Fred. Eu não sei. — Ele apontou para a porta, os olhos azuis brilhando com algo entre raiva e mágoa. — E agora, eu quero que você saia!
O som da porta fechando atrás de Fred ecoou pelo quarto, deixando Alexander com a sensação de que as paredes estavam se fechando ao seu redor. Ele tentou desviar o olhar, mas os olhos verdes de Fred estavam fixos nele, queimando como brasas vivas, carregados de mágoa, desejo e algo mais que Alex não queria nomear.
Fred deu um passo à frente, mas Alex levantou a mão, como se o gesto pudesse deter o avanço.
— Eu disse para você ir embora — disse Alex, a voz falhando no final. Ele virou o rosto, olhando pela janela que dava para os canais serenos de Blue Lagoon. Lá fora, o mundo parecia imperturbável. Lá dentro, sua mente era um furacão.
Fred não se mexeu. Ele ficou ali, imóvel, os punhos cerrados ao lado do corpo. Sua postura era rígida, mas seu rosto revelava um conflito interno quase palpável.
— Eu não vou a lugar nenhum, Alex. Não até você me ouvir.
Alex apertou os olhos, lutando contra as lágrimas que ameaçavam cair. Ele odiava a maneira como Fred sempre conseguia desarmá-lo. Desde que eram crianças, Fred tinha esse poder sobre ele, como se pudesse enxergar diretamente suas vulnerabilidades, despindo-o de todas as máscaras que ele tentava usar.
— Ouvir o quê, Fred? — Ele girou para encará-lo, os olhos azuis brilhando com uma mistura de raiva e desespero. — O que mais você pode dizer?
Fred deu um passo à frente, sua voz baixa, mas carregada de intensidade.
— Eu quero saber por que você foi embora, Alex. Porque você foi para a França sem dizer uma palavra. Principalmente depois do que aconteceu entre nós.
A menção do passado fez Alexander estremecer. Ele balançou a cabeça rapidamente, como se o simples gesto pudesse apagar as memórias que voltavam como um maremoto.
— Isso não importa mais.
Fred riu, mas o som era amargo, quase cruel.
— Não importa mais?! — ele repetiu, a incredulidade escorrendo de cada palavra. — Você acha que pode apagar o que aconteceu como se fosse nada?
Alex deu um passo à frente, a raiva queimando em seu peito, engolindo a culpa e o medo que sempre o perseguiam.
— Sim, Fred! Porque aquilo nunca deveria ter acontecido! — Ele gritou, os punhos cerrados ao lado do corpo. — Você deveria ter esquecido!
Fred o encarou por um momento, a mandíbula tensa, antes de dar uma risada curta e descrente.
— Esquecer? Alex, você acha que eu poderia esquecer aquela noite? Aquilo... — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado, embora sua voz ainda carregasse uma nota de indignação. — Aquilo não foi um erro para mim.
Alexander cambaleou um passo para trás, como se as palavras tivessem um peso físico. Ele levou as mãos ao rosto, cobrindo-o enquanto balançava a cabeça freneticamente.
— Cala a boca, Fred. Por favor, cala a boca!
Fred deu mais um passo à frente, a voz suavizando, mas ainda firme.
— Por que isso te machuca tanto, Alex? Por que é tão difícil para você admitir o que aconteceu?
As lágrimas finalmente escaparam, correndo pelo rosto de Alexander. Ele deixou as mãos caírem ao lado do corpo, encarando Fred com uma expressão que era uma mistura de tristeza e desespero.
— Porque foi um erro, Fred! Um erro que eu comecei.
Fred piscou, surpreso. Ele abriu a boca para responder, mas Alex continuou, a voz quebrada.
— A culpa não é sua. Nunca foi sua. Você... você só seguiu o que eu fiz.
Fred ficou em silêncio, sua expressão suavizando ao perceber a profundidade da dor de Alex.
— Lex...
— Não, Fred — Alex o interrompeu, balançando a cabeça. — Eu fui embora porque sabia que você nunca esqueceria. Porque sabia que você nunca me perdoaria por começar algo que não deveria ter existido.
Fred deu mais um passo, mas parou, hesitando. Ele estendeu uma mão na direção de Alex, mas a deixou cair antes de tocá-lo.
— Eu não posso te perdoar porque eu não vejo isso como algo que precisa de perdão, Alex.
As palavras de Fred eram calmas, mas carregavam um peso que fez Alexander desabar. Ele caiu de joelhos, cobrindo o rosto novamente, enquanto soluços escapavam de sua garganta.
Fred se ajoelhou ao lado dele, mas não o tocou. Ele ficou ali, observando o amigo – o homem que ele amava – despedaçar-se diante dele, sem saber como juntar os pedaços.
O silêncio no quarto parecia pesado, tão denso que quase sufocava.
Sentado no chão do quarto, Alexander tremia. As lágrimas deslizavam por seu rosto, quentes e incessantes, enquanto soluços desordenados escapavam de sua garganta. Ele havia tentado guardar aquele sentimento, aquela memória sufocante, mas agora tudo havia desmoronado.
Fred estava ao seu lado, ajoelhado. Ele observava Alex em silêncio, como se qualquer palavra fosse arriscar quebrar algo ainda mais dentro dele. Mas Fred não conseguia disfarçar a dor em seus olhos verdes. Era como se cada lágrima de Alex fosse uma facada em seu peito.
Finalmente, Alexander levantou o olhar. Seus olhos azuis estavam avermelhados, turvados pela emoção, mas havia algo afiado em seu tom quando ele perguntou:
— Por que você não pode simplesmente esquecer? — Sua voz saiu em um sussurro desesperado, quase implorando. — Por que, Fred? Por que você não pode apagar isso da sua mente e seguir em frente?
Fred respirou fundo, desviando o olhar por um breve momento. Ele passou uma mão pelo rosto, como se precisasse de tempo para encontrar as palavras certas. Quando falou, sua voz era baixa, mas carregada de emoção.
— Porque eu não quero esquecer, Alex. — Ele fez uma pausa, encarando o outro de frente, como se quisesse se certificar de que cada palavra seria ouvida. — Aquela noite... foi algo que eu sonhei por tanto tempo. Por tanto tempo, Alex.
Alexander o encarou, os lábios entreabertos. Havia incredulidade em seus olhos, misturada com algo mais que ele não conseguia nomear.
— Você... sonhou com isso? — Ele perguntou, a voz embargada.
Fred assentiu, os olhos nunca deixando os de Alex.
— Desde o momento em que entendi o que eu sentia por você, Alex, eu soube o quanto era perigoso. — Ele fez uma pausa, como se as palavras fossem difíceis de dizer. — Mas eu te desejei mesmo assim. Não só de maneira física, mas tudo. Sua risada, suas manias, a maneira como você sempre diz meu nome. Eu queria tudo isso, mesmo sabendo que era um sentimento que eu não deveria ter.
Alexander balançou a cabeça lentamente, como se as palavras de Fred fossem demais para processar. Ele se levantou do chão de repente, afastando-se como se precisasse de espaço para respirar.
— Não diga isso... — murmurou, quase inaudível. — Não diga isso, Fred.
Fred não se moveu. Ele permaneceu ajoelhado, observando Alexander com uma intensidade que parecia preencher o quarto.
— Por que não? — Perguntou Fred, sua voz agora um pouco mais firme. — Você também sentiu, Alex. Você sabe que sentiu o mesmo.
Essas palavras foram como um gatilho. Alexander girou para encará-lo, sua expressão subitamente carregada de raiva.
— Eu odeio tudo daquela noite! — ele gritou, sua voz ecoando pelo quarto. — Você ouviu bem, Fred? Eu odeio aquela noite! Eu me odeio por ter... — Ele parou, engasgando com as palavras, antes de gritar. — Por ter transado com você!
Fred pareceu congelar. Por um momento, ele ficou imóvel, como se o golpe das palavras o tivesse paralisado. Ele piscou lentamente, o choque evidente em seu rosto.
— Você se odeia... por isso? — Ele perguntou, a voz quase um sussurro. — Alex, por quê?
Alexander passou as mãos pelo cabelo, tentando desesperadamente conter a onda de emoções que ameaçava sufocá-lo.
— Porque não deveria ter acontecido! — Ele gritou, sua voz quase quebrando. — Eu não estava pensando direito. Eu tinha acabado de receber a notícia de que Igor desapareceu no exterior! Eu estava confuso, desesperado... e você... você estava ali...
Fred se levantou lentamente, seus olhos brilhando com uma mistura de dor e determinação.
— E por que isso foi tão errado assim, Alex? — Ele deu um passo na direção do outro. — Por que amar alguém... fazer amor com alguém... seria errado?
Alexander estremeceu. As palavras de Fred pareciam cortá-lo como facas, atingindo diretamente as partes de si mesmo que ele havia enterrado tão profundamente. Ele balançou a cabeça, como se quisesse apagar tudo.
— Porque não foi amor! — ele gritou, a voz carregada de desespero. — Foi um erro, Fred! Um erro que eu cometi, e você não deveria ter seguido.
Fred balançou a cabeça, rindo amargamente.
— Você pode continuar dizendo isso, Alex, mas não muda o que eu sinto.
O silêncio se instalou, e então Fred deu o golpe final:
Eu te amo, Alex.
As palavras caíram no ar como uma bomba, deixando Alexander completamente sem chão. Ele olhou para Fred, os olhos arregalados, como se não pudesse acreditar no que tinha acabado de ouvir.
Alexander piscou, atônito, os olhos brilhando com um misto de raiva e incredulidade. Ele balançou a cabeça lentamente, recuando alguns passos como se precisasse de distância para processar.
— Você… me ama? — ele repetiu, a voz baixa e embargada, mas carregada de incredulidade. — Como você pode dizer isso, Fred? Como você pode falar isso enquanto está com Barbara?!
A menção ao nome dela pareceu fazer Fred endurecer. Seu maxilar se contraiu, mas ele manteve os olhos fixos nos de Alexander.
— Eu estou com ela, sim — Fred respondeu, com um tom mais suave do que Alex esperava. — Mas eu não a amo.
Essas palavras foram como um tapa para Alexander. Ele sentiu o ar ser arrancado de seus pulmões, sua mente girando com uma confusão caótica de pensamentos e emoções. Ele levou as mãos à cabeça, os dedos cravando no couro cabeludo, tentando encontrar alguma âncora naquele turbilhão.
— Você não… a ama? — ele repetiu, sua voz falhando. — Então por que diabos você está com ela, Fred? Por que você… — A respiração de Alex começou a acelerar, os soluços que antes eram contidos agora se transformando em algo mais descontrolado.
Fred percebeu. Ele deu um passo à frente, a preocupação evidente no rosto, mas Alexander levantou uma mão, como se o mandasse parar.
— Não… fica longe de mim, Fred! — Alexander disse, sua voz ofegante, as palavras entrecortadas pela falta de ar. — Você… você sequer pensa em como isso pode afetar Barbara? Ela é a pessoa mais inocente nessa bagunça toda! Você não vê como isso é injusto com ela?
Fred ficou imóvel por um momento, os olhos verdes brilhando com algo que parecia um misto de culpa e determinação.
— Eu sei que não é justo — Fred admitiu, sua voz mais baixa agora. — Eu sei, Alex. Mas… esses sentimentos que eu tenho por você… eles são mais antigos do que minha relação com a Barbara. Eles sempre estiveram aqui.
Alexander riu, mas não havia humor em sua risada. Era amarga, carregada de dor e frustração.
— Isso não torna isso menos errado, Fred! — ele gritou, sua voz ecoando pelo quarto. — Você entrou nesse relacionamento sem amar ela. Você escolheu ficar com ela mesmo sabendo disso.
Fred apertou os lábios, como se estivesse reunindo coragem para dizer algo. Quando finalmente falou, sua voz era quase cortante.
— E você, Alex? Por que foi embora sem sequer me enfrentar? — Fred deu um passo à frente, e Alex sentiu a intensidade no olhar do outro como uma pressão física. — Você fugiu porque sente o mesmo que eu, não é?
Essas palavras atingiram Alexander como um soco no estômago. Ele recuou, os olhos arregalados, mas incapaz de negar de imediato. A verdade, aquela verdade que ele lutava tanto para esconder até de si mesmo, estava ali, nua e crua, exposta por Fred. Mas, não como o próprio Fred acreditava.
— Isso não é… — Alex tentou falar, mas sua voz falhou. Ele engoliu em seco, desviando o olhar, mas Fred não o deixou escapar tão facilmente.
— Não minta pra mim, Alex. — Fred deu mais um passo à frente, a intensidade em sua voz quase o prendendo no lugar. — Eu sei que você sente algo. Você pode odiar o que aconteceu, pode se odiar por isso, mas não pode negar o que está aqui. — Ele apontou para o próprio peito, o tom quase desesperado.
Alexander sentiu o coração disparar, como se estivesse tentando escapar de seu peito. Ele cerrou os punhos ao lado do corpo, os olhos marejados novamente.
— Eu não sei o que sinto, Fred! — ele gritou, a confusão transbordando em cada palavra. — Eu não sei mais o que é certo, o que é errado… tudo o que sei é que Barbara não merece isso. Ela não merece ser machucada por algo que nunca deveria ter acontecido entre nós.
Fred parou, como se estivesse processando as palavras de Alex. Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado, e então olhou para Alex com uma mistura de dor e desafio.
— E você acha que eu não sei disso? — Fred disse, a voz mais baixa agora, quase um sussurro. — Você acha que eu não sinto a culpa todos os dias? Mas isso não muda o que eu sinto, Alex. Não muda o que aconteceu entre nós.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Alexander desviou o olhar, as lágrimas escorrendo livremente agora. Ele sabia que Fred tinha razão. Mas aceitar isso significaria abrir portas que ele passou anos tentando manter fechadas.
Finalmente, Alex encontrou forças para falar, sua voz quase inaudível.
— Fred… só vai embora. Por favor.
Fred hesitou, mas o viu claramente. A muralha de Alex estava de volta, mais alta e impenetrável do que nunca. Ele suspirou, derrotado, e deu um passo para trás.
— Eu vou… por agora. Mas isso não acabou, Alex. — Ele lançou um último olhar, seus olhos verdes brilhando com algo que Alex não conseguiu identificar.
Quando Fred chegou à porta, ele se deparou com Arya, que estava parada no corredor. Ela o olhou de forma cortês, mas com uma certa preocupação em seus olhos. Fred fez uma leve reverência com a cabeça, tentando manter a compostura, mas seu rosto estava marcado pela dor. Ele saiu do quarto sem dizer mais nada, deixando o ambiente pesado e tenso.
Arya entrou no quarto em seguida, fechando a porta suavemente atrás de si. Quando viu Alexander sentado na cama, os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, ela foi até ele, seus braços acolhendo-o com cuidado.
— Oh, querido... — Ela disse suavemente, a voz cheia de compaixão.
— Você ouviu tudo? — Alexander perguntou, a voz ainda trêmula, o olhar fixo no chão.
Arya assentiu, os olhos mostrando empatia, mas também a firmeza de quem sabia o que era necessário.
— Sim, meu amor. Eu ouvi. E ainda bem que seu pai não estava em casa — ela disse, sentando-se ao lado dele, passando a mão pelos cabelos de Alexander com carinho. — Mas você fez a coisa certa, admitiu o que sentia, e isso já é um grande passo.
— Eu... — Alexander começou a falar, mas parou, sentindo uma dor profunda em seu peito. — Eu deveria ter enfrentado isso antes de ir para a França. Eu devia ter resolvido as coisas antes de fugir. Agora tudo está errado.
Ela suspirou, tomando as mãos dele nas suas.
— O importante é que você está enfrentando agora, querido. Você não pode mudar o que aconteceu, mas agora é o momento para Fred ser honesto com a Barbara. Ele vai ter que lidar com isso.
Alexander olhou para sua mãe, seu olhar cheio de desespero, mas também um pouco de alívio. Ela sempre soubera como acalmá-lo.
— Mas e quanto a mim, mãe? O que eu faço com tudo isso?
Arya sorriu suavemente, acariciando o rosto do filho.
— Você vai encontrar a resposta, Alex. Mas só depois de ser honesto com você mesmo. O resto vai seguir.
Nova Orleans, Louisiana.
Sede da Montgomery Tatical Solutions.


O dia se encerrava sob o horizonte dourado de Nova Orleans, mas dentro do imponente prédio de vidro e aço da Montgomery Tatical Solutions, o tempo parecia funcionar em uma realidade paralela. A empresa, conhecida publicamente como uma das maiores fornecedoras de segurança privada do país, ocultava algo muito mais profundo do que qualquer um poderia imaginar.
John Montgomery estava sentado em sua ampla e austera sala no último andar do edifício. As janelas panorâmicas refletiam a paisagem urbana, mas ele não prestava atenção. Seus olhos estavam fixos em um porta-retratos sobre sua mesa. A foto mostrava um raro momento de felicidade. Arya, sua esposa, envolvia-o com os braços, enquanto seus filhos, Igor e Alexander, riam juntos. Alex estava praticamente jogado sobre o irmão mais velho, que o segurava em um abraço protetor.
John suspirou, passando os dedos sobre a moldura. As coisas eram mais simples naquela época. Agora, a realidade era diferente. Seus pensamentos foram interrompidos pelo leve bip de seu interfone.
— Senhor Montgomery, está na hora. — A voz do assistente ecoou pela sala.
John se levantou, ajustou a lapela do terno escuro e caminhou para fora, percorrendo os corredores com passadas firmes. Funcionários armados o cumprimentavam com respeito, seus olhares disciplinados refletindo a natureza rigorosa da empresa. Ele acenava brevemente em resposta, mas seu foco estava em outro lugar. Quando chegou ao elevador privativo, digitou uma senha no painel de segurança e esperou. Um pequeno sinal sonoro confirmou a autenticação, e as portas se fecharam.
O elevador desceu. E continuou descendo. Muito além dos andares conhecidos do prédio.
Quando as portas se abriram, John foi recebido por um ambiente subterrâneo de alta tecnologia. Salas iluminadas por luzes frias se espalhavam em um labirinto organizado. Homens e mulheres de jaleco branco caminhavam apressados com pranchetas e tablets, enquanto pessoal militarizado vigiava corredores e acessos restritos. O cheiro de metal e desinfetante impregnava o ar, e um leve zunido dos computadores criava uma trilha sonora constante. O piso reluzente refletia as telas holográficas que piscavam nas paredes.
Mas foi o enorme símbolo na parede principal que capturou seu olhar.
O brasão da Organização Venandi.
Uma figura estilizada de um lobo, seus olhos feitos de um material preto brilhante que refletia a luz artificial. Suas mandíbulas abertas revelavam presas afiadas, e abaixo dele, a frase em latim: "Vigilamus Tenebris" — "Vigiamos nas Sombras".
John ficou observando o símbolo por alguns segundos. Não importava quantas vezes ele descesse até ali, sempre sentia um peso maior nos ombros. Havia segredos demais para serem carregados.
— Senhor Montgomery. — A voz cortante o fez desviar o olhar.
A Agente Ártemis se aproximava.
De traços asiáticos e pele pálida, Ártemis era um paradoxo vivo. Seu rosto delicado poderia pertencer a uma estátua de porcelana, mas seus olhos eram afiados como lâminas. Seu corpo esguio estava vestido com um uniforme militarizado preto impecável, e apesar da aparente fragilidade, qualquer um que a subestimasse descobriria o erro da pior maneira possível.
Ela estava sentada em uma cadeira de rodas de alta tecnologia, que emitia um leve zumbido a cada movimento. Era uma peça de engenharia sofisticada, ajustando-se a seus comandos com fluidez.
John assentiu para ela.
— Agente Ártemis. Você me chamou aqui com urgência. O que aconteceu?
Ela ergueu os olhos para ele, sua expressão era uma mistura de respeito e severidade. Então, com um tom de voz controlado, mas carregado de gravidade, ela pronunciou as palavras que fizeram um calafrio percorrer a espinha de John:
— O espécime recuperado da Noruega... acordou.
O silêncio entre eles foi esmagador.
John não piscou. Não se moveu. Mas algo dentro dele se contraiu.
— Isso não devia ser possível — ele finalmente disse, a voz baixa e contida.
— E ainda assim... aconteceu — Ártemis respondeu. — E precisamos agir agora.
John inspirou fundo, preparando-se mentalmente para o que estava por vir.
O inferno acabava de despertar.
John seguiu a Agente Ártemis pelos corredores da instalação subterrânea, os passos firmes ecoando no piso de metal reforçado. O som ritmado de seus passos ecoava no piso de aço reforçado, misturando-se aos ruídos baixos das telas holográficas e das vozes sussurradas dos agentes ao redor.
Eles passaram por uma vasta sala de monitoramento, onde um enorme painel interativo dominava uma parede inteira, exibindo um mapa-múndi em constante atualização. Ponto após ponto brilhava na superfície digital – marcas verdes e vermelhas piscando como estrelas distantes.
John não precisou perguntar o que significavam. Verde indicava manifestações sobrenaturais de natureza pacífica, anomalias controladas ou eventos sem risco à humanidade. Já o vermelho… o vermelho era guerra.
E o vermelho dominava.
A América do Norte e a Europa estavam salpicadas de ameaças sobrenaturais alarmantes, uma constelação de desastres aguardando para se desenrolar. Os dados se atualizavam em tempo real, cada pulso escarlate um novo problema a ser contido. John franziu a testa, sentindo um peso no peito. A frequência dos eventos aumentava. A natureza do que enfrentavam estava mudando.
Ártemis notou sua hesitação, mas não comentou.
Atravessaram o corredor, e novos cenários se desdobraram à frente. Pelas amplas janelas de vidro reforçado, John observou laboratórios onde equipes estudavam criaturas de diferentes naturezas.
No primeiro laboratório à esquerda, John teve um vislumbre de um vampiro bestial, sua pele lembrando os tons dourados das pinturas egípcias, os olhos escurecidos pelo ódio ancestral. A criatura se debatida contra as amarras metálicas enquanto cientistas anotavam dados freneticamente.
No segundo, John teve um vislumbre de um lobisomem dissecado sobre uma mesa cirúrgica. Seu peito estava aberto, expondo a musculatura anormalmente densa e o coração colossal. A equipe ao redor examinava seus órgãos e traçava análises bioquímicas, tentando entender melhor a fisiologia da criatura.
John não se deteve por muito tempo. Seu foco estava em algo mais urgente. Finalmente, pararam diante de uma porta de metal massivo, marcada por um aviso intimidador: SETOR DE SEGURANÇA MÁXIMA.
A Agente Ártemis digitou uma sequência código em um painel e a porta se abriu com um chiado pressurizado. O interior revelou um imenso laboratório de alta tecnologia, com equipamentos de ponta e uma equipe numerosa, ocupada com monitores, seringas de contenção e armas especializadas.
Antes de seguir adiante, John parou e olhou diretamente para Ártemis.
— Você assegura que ele nunca havia despertado?
A agente assentiu.
— Não completamente. Pequenos espasmos, murmúrios ininteligíveis, mas desta vez... desta vez ele está totalmente acordado. E mais do que isso, ele está lúcido. No entanto... — ela hesitou por um momento, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas, — o espécime não demonstra qualquer resquício de humanidade.
John fechou os olhos por um instante. A dor daquela informação cravou-se fundo. O peso do que estava prestes a enfrentar parecia esmagá-lo por dentro.
John prendeu a respiração.
— Ainda há tempo para mudar de ideia, senhor. — Ártemis cruzou os braços. — Eu posso lidar com o interrogatório.
Ele olhou para ela, surpreso. Era raro Ártemis demonstrar consideração.
— Não — respondeu, sua voz grave e irredutível. — Isso é algo que eu mesmo preciso fazer.
Ártemis assentiu e digitou outro código.
O paredão de vidro reforçado diante do painel de controle foi ativado, revelando, pela primeira vez, a cela do espécime.
E lá estava ele.
Igor Montgomery.
Ou o que restava dele.
Seu corpo ainda lembrava o homem que fora um dia, mas agora, sua presença era mais do que sobrenatural. Havia algo de bestial e hipnótico nele. A pele parecia impecável, bela de um jeito que não era humano, mas os olhos…
Os olhos eram um abismo escarlate.
Havia sangue seco ao redor de sua boca.
Ao redor dele, dezenas de bolsas de sangue vazias jaziam no chão da cela, rasgadas como papel fino.
Então ele sorriu.
Foi um sorriso que não carregava nada de humano, nada de fraterno.
Ele ergueu os olhos lentamente, seu olhar perfurando John através do vidro.
E então, com a voz suave e arrastada, carregada de uma ironia cruel, ele murmurou:
— Papai.
O som foi quase um sussurro. Mas atingiu John como uma lâmina atravessando sua alma.



Diante do espelho, Alexander se analisava com olhar crítico.
A camisa preta fina deslizava suavemente sobre sua pele, aberta até o meio do peito, revelando uma silhueta esguia. A calça de couro justa moldava suas pernas com perfeição, acentuando os contornos do corpo. Seus cabelos loiros, ligeiramente bagunçados, caíam sobre os olhos azulados que carregavam um cansaço inexplicável.
Ele inclinou a cabeça levemente, observando-se com mais atenção. Algo parecia diferente. Sua pele sempre fora pálida como porcelana, mas agora parecia quase translúcida, como se estivesse se tornando parte da própria escuridão ao redor. Seus ossos estavam mais evidentes, e havia uma leve sombra sob seus olhos, algo que não havia reparado antes.
A luz do quarto oscilou.
Alexander franziu a testa, sentindo uma presença estranha.
A temperatura no ambiente caiu sutilmente, e um arrepio percorreu sua espinha. A sensação de estar sendo observado era intensa, sufocante, como se algo estivesse escondido no canto do quarto, esperando pacientemente para ser notado.
Respirando fundo, ele ergueu o olhar no espelho, tentando ignorar a paranoia que começava a rastejar em sua mente.
Foi quando ele viu.
No reflexo, atrás dele, uma figura gigantesca emergiu da penumbra.
Era uma sombra viva, alta e disforme, quase fundida com a escuridão do ambiente. Seus contornos eram indefinidos, mas havia algo de inumano na maneira como se movia, como se deslizasse pelo ar ao invés de pisar no chão.
Então, os olhos se acenderam.
Duas orbes incandescentes de um vermelho intenso o encaravam no espelho. Eles eram vívidos, pulsantes, como brasas ardentes, cheias de uma inteligência antiga e predatória.
O tempo pareceu parar.
A respiração de Alexander ficou presa na garganta. Seu corpo se congelou no lugar, como se qualquer movimento errado pudesse desencadear algo irreversível.
E então, a voz gutural preencheu o ambiente.
Prometido...
A palavra reverberou dentro de sua mente, não apenas como um som, mas como um sussurro primitivo e possessivo que ecoou em sua alma.
Alexander cambaleou para trás, seu coração disparado como um tambor de guerra. Ele tentou se afastar do espelho, mas seus pés pareciam presos ao chão, como se a presença invisível estivesse exercendo algum tipo de domínio sobre ele.
Prometido...
A voz sibilante carregava um tom de desejo e certeza, como se não houvesse escapatória.
Em um impulso desesperado, ele caiu no chão, o impacto arrancando o ar de seus pulmões. Com as mãos trêmulas, ele se arrastou para trás, até sentir as costas pressionadas contra a parede fria do quarto.
Seus olhos estavam arregalados, seu corpo inteiro tomado pelo pânico puro e instintivo.
A sombra se aproximou no espelho, seus olhos vermelhos fixos nele.
Alexander fechou os olhos com força.
— Isso não é real. Isso não é real.
O silêncio preencheu o ambiente.
Apenas sua respiração ofegante ecoava pelo quarto.
Por um momento, tudo pareceu... vazio.
Ele esperou.
Um segundo.
Dois.
Três!
E então, ele abriu os olhos.
A sombra desaparecera.
No lugar onde a presença maligna estivera, um gato preto esguio agora o encarava do alto de sua cômoda.
Seus olhos âmbar brilhavam com astúcia, refletindo a luz fraca do ambiente. O animal tinha uma postura elegante e predatória, como se tivesse acabado de presenciar algo extremamente divertido.
Ele miou suavemente, quase como se estivesse zombando de Alexander.
O rapaz piscou algumas vezes, tentando processar o que acabara de acontecer. Seu coração ainda martelava contra o peito, mas agora o pavor começava a ser substituído por confusão e incredulidade.
Alexander o observou com atenção, ainda atordoado.
— Você tem alguma ideia do que acabou de acontecer aqui? — Alexander perguntou, ainda ofegante.
A presença do gato era absurda.
Alexander ainda respirava pesadamente, tentando estabilizar seu coração depois do que acabara de presenciar. Seus olhos azuis estavam fixos no pequeno animal, que continuava sentado como um rei entediado diante de um súdito desesperado.
— Você não deveria estar aqui. — Ele franziu a testa, ainda encostado na parede.
O gato apenas inclinou a cabeça para o lado, a cauda longa chicoteando o ar como se estivesse se divertindo às suas custas.
Alexander estreitou os olhos.
— Está me ouvindo? — Ele apontou para a porta do quarto. — Fora daqui!
O gato piscou lentamente.
Alexander rolou os olhos, exasperado.
— Ótimo! Um gato surdo.
O animal deu um salto ágil, pousando perigosamente perto de Alexander. Ele recuou instintivamente, mas o gato simplesmente passou por ele com elegância, esfregando-se de leve contra sua perna antes de subir para a cama.
— Você só pode estar brincando comigo...
O gato se acomodou entre os lençóis bagunçados, sem a menor intenção de ir embora.
— Sério?! — Alexander cruzou os braços. — Você invade meu quarto, me dá um susto dos infernos, e agora age como se fosse o dono do lugar?
O gato respondeu com um bocejo, exibindo seus dentes afiados e a língua rosada.
Alexander suspirou.
— Certo, faz o que quiser. Só não toque nas minhas roupas, porque eu juro por Deus...
Ele parou no meio da frase, percebendo a própria estupidez.
Ele estava discutindo com um gato.
— Eu preciso de café... — murmurou, coçando os olhos antes de se levantar.
Depois de se recompor no espelho e ignorar a presença não convidada do felino, Alexander pegou sua mochila e saiu do quarto, descendo as escadas de dois em dois degraus. O cheiro de café recém passado se espalhava pelo térreo da mansão, se misturando ao aroma de pão torrado e algo adocicado.
Na cozinha, Arya estava sentada no balcão, elegantemente vestida em um robe de seda vinho, a xícara de café entre as mãos bem cuidadas.
— Bom dia, dorminhoco — ela disse, sem desviar os olhos do jornal.
Alexander bufou e caminhou até a cafeteira, servindo-se de um pouco do líquido quente.
— Não estou com paciência para sarcasmo agora.
— Oh? — Arya ergueu uma sobrancelha, finalmente olhando para o filho. — A noite foi tão ruim assim?
Alexander hesitou por um segundo, antes de lembrar do gato misterioso.
— A propósito... — Ele olhou ao redor, como se procurasse algum sinal da criatura. — Nós adotamos um gato e você e o papai esqueceram de me contar?
Arya piscou, claramente confusa.
— Gato?
— Sim, um gato preto, olhos âmbar, atrevimento acima da média.
Ela inclinou a cabeça, avaliando o filho.
— Você tem certeza de que está bem, Alex?
Alexander estreitou os olhos. Ele estava louco.
— Então nós não temos um gato.
— Definitivamente, não temos um gato.
Alexander franziu o cenho, tomando um gole de café.
— Ótimo. Então tenho um gato fantasma no meu quarto.
Arya ignorou o comentário e inclinou-se sobre o balcão.
— E para onde você vai com tanta pressa?
Alexander checou o relógio de relance.
— Escola.
Arya sorriu, observando-o andar de um lado para o outro, aparentemente procurando algo.
— Certo, mas você sabe que não pode sair sem comer, certo?
— Uhum — ele resmungou, afastando pacotes de pão e potes de geleia até encontrar o que realmente queria: as chaves do carro esportivo de seu pai.
Arya riu baixinho.
— Seu pai vai te deixar careca se você bater esse carro até ele voltar de viagem.
Alexander girou as chaves entre os dedos e deu um sorriso presunçoso.
— Vou tentar manter o meu sedoso cabelo intacto.
Ele inclinou-se sobre o balcão, deixando um beijo rápido na bochecha da mãe.
— Até mais tarde, mãe.
— Se cuida, meu bem.
E com isso, Alexander saiu pela porta da cozinha.
Atrás dele, Arya permaneceu em silêncio, observando o filho desaparecer do outro lado da janela.
Então, olhou para o corredor que levava ao segundo andar.
Seu olhar se fixou no topo da escada, onde uma sombra felina se esgueirava silenciosamente antes de desaparecer completamente.

A Blue Lagoon High School era um mundo à parte, uma sociedade autossuficiente separada do restante da cidade, onde os adultos raramente interferiam. Era um microcosmo com suas próprias regras, suas hierarquias imutáveis e suas lendas não-oficiais, onde o poder não era determinado por influência política ou dinheiro, embora isso ajudasse, mas pela popularidade.
Os Populares dominavam os corredores e os gramados, sentindo-se como os deuses do Olimpo, enquanto os Esquisitos habitavam as sombras, os laboratórios e as arquibancadas vazias, como meros mortais ignorados. Entre esses dois extremos, havia os que flutuavam entre os grupos, sem pertencer de fato a nenhum deles.
Na entrada do prédio escolar, o trono da realeza estudantil ficava bem-posicionado, os degraus amplos da escadaria principal, onde apenas os mais notórios ousavam se reunir.
E ali estavam eles.
Barbara Queen, Fred Spier, Claire Avery, Clara Lewis e Isaac Kingston.
Barbara, como sempre, exalava uma presença impecável. Seu cabelo loiro-dourado caía em ondas perfeitamente estilizadas sobre os ombros, e suas roupas de grife combinavam com o brilho confiante de seus olhos. Ela era uma rainha de nascença e governava a escola como tal.
Fred, ao lado dela, tinha aquele ar despreocupado que fazia todos pensarem que ele estava sempre no controle, mesmo quando claramente não estava. Com sua beleza impecável e físico atlético, ele poderia ser um clichê de quarterback popular, se não fosse pelos olhos verdes, afiados e atentos demais.
Claire, sentada ao lado de Barbara, tinha uma elegância diferente. Filha de uma das famílias mais influentes da cidade, Claire carregava uma aura de mistério, como se estivesse sempre um passo à frente de todos.
Clara e Isaac, por outro lado, eram como fogo e gasolina. Onde Clara passava, havia caos. Onde Isaac sorria, havia perigo. Eles eram destrutivos por conta própria e ainda mais explosivos juntos.
Era uma manhã comum até que ele chegou.
O ronco de um motor esportivo cortou a tranquilidade da manhã.
O carro de última geração deslizou até o estacionamento com uma precisão cirúrgica, atraindo olhares de todos os presentes.
Quando a porta se abriu, Alexander Montgomery emergiu do interior do veículo como se fizesse parte de um espetáculo cuidadosamente ensaiado.
Seu cabelo loiro caía de maneira propositalmente bagunçada, e os óculos escuros que escondiam os olhos faziam com que seu rosto parecesse ainda mais esculpido. Ele vestia uma jaqueta preta sobre uma camisa levemente desabotoada e uma calça justa que acentuava suas longas pernas.
O silêncio que tomou conta do estacionamento durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para que ele sentisse todos os olhares queimando sobre si.
O filho pródigo retornara.
E não era um retorno bem-vindo.
Os cochichos começaram.
"Não acredito que ele voltou..."
"O que será que aconteceu na França?"
"Dizem que ele pagou para se livrarem do irmão..."
"Dizem que ele sumiu por um tempo..."
Alexander ignorou. Ele já esperava a recepção fria e... francamente?
Não dava a mínima.
Ele caminhou até os degraus onde seus amigos, ou algo próximo a isso (para alguns), o aguardavam.
Barbara foi a primeira a reagir. Seu sorriso perfeito e treinado surgiu no rosto antes que ela se levantasse para envolvê-lo em um abraço apertado.
— Alex! — Ela riu, apertando-o contra si. — Você realmente voltou.
Alexander soltou um riso nasalado, tirando os óculos de sol e encaixando-os no colarinho da camisa.
— Parece que sim.
Claire foi a próxima, puxando-o para outro abraço, menos efusivo que o de Barbara, mas igualmente caloroso.
— Sentimos sua falta.
Alexander inclinou a cabeça, desconfiado.
— Sério? Porque o clima de alguns parece dizer o contrário.
Barbara revirou os olhos.
— Não liga pra eles! Você sempre foi um imã para o drama.
Clara, que até então observava com puro desdém, cruzou os braços.
— Isso porque ele cria o drama.
Alexander deu-lhe um olhar preguiçoso, um sorriso irônico brincando nos lábios.
— Bom dia pra você também, Clara. Amarga já tão cedo?
Clara sorriu de forma nada amigável, mas não disse mais nada.
O silêncio desconfortável que seguiu foi interrompido por um ruído baixo, o som de um isqueiro sendo aberto.
Alexander virou o rosto na direção do som e encontrou Isaac Kingston encostado no corrimão, girando o isqueiro entre os dedos sem pressa.
Os olhos castanhos de Isaac o analisavam com algo entre desprezo e fascínio, um sorriso presunçoso nos lábios.
— Quem é vivo aparece...
Fred, parado ao lado de Isaac, não sorria.
Na verdade, ele o despia com os olhos de uma forma que era difícil de ignorar.
— Oi, Fred — disse sentindo sua voz fraquejar.
Fred não respondeu, apenas balançou a cabeça em cumprimento.
Alexander sustentou os olhares de ambos com calma ensaiada, mas sentiu a tensão vibrar como eletricidade no ar.
Fred e Isaac.
Dois problemas antigos.
E, de alguma forma, ele ainda não sabia qual deles o incomodava mais.
A manhã na Blue Lagoon High seguia como um teatro bem ensaiado, onde cada um dos estudantes sabia seu papel na hierarquia da escola. Mas Alex nunca foi muito bom em seguir roteiros.
Ele tentava se misturar. Tentava ignorar os olhares que se cravavam nele como farpas invisíveis. Tentava agir como se sua volta fosse apenas mais um dia comum.
Mas Blue Lagoon não esquecia.
E, definitivamente, não perdoava.
A primeira interrupção do dia aconteceu poucos minutos depois da chegada de Alex.
Ele estava encostado nos armários do corredor, conversando com Barbara e Claire, quando uma figura avançou entre os estudantes como um foguete guiado pelo ódio.
— FILHO DA PUTA!
Alexander mal teve tempo de reagir antes de ser empurrado contra os armários com força suficiente para fazer um estrondo ecoar pelo corredor.
Um grupo de alunos se reuniu ao redor, instintivamente atraído pelo sabor do escândalo.
Emily Parker, uma garota do time de líderes de torcida, estava parada à sua frente, os olhos furiosos brilhando com um misto de raiva e humilhação.
— Você tem noção do inferno que você causou na minha vida?! — Ela praticamente cuspiu as palavras, o indicador com uma unha bem-feita e perigosa perfurando o peito de Alexander.
Ele piscou algumas vezes confuso, tentando organizar a situação.
Emily Parker. Líder de torcida. Namorava um dos jogadores do time de futebol.
E aparentemente queria arrancar sua cabeça.
— Err… Oi? — Alexander murmurou gentil, piscando atordoado. — Posso ajudar...?
— Oi?! Posso ajudar?! — Emily riu sem humor. — Foi exatamente isso que você disse dois anos atrás antes de enfiar a língua na garganta do meu namorado!
O corredor inteiro prendeu a respiração.
Alexander arregalou os olhos.
Claire bufou ao lado dele.
Barbara rolou os olhos, já sentindo a dor de cabeça chegando.
E Clara? Bom... Clara riu. Alto.
— Isso aqui tá ficando cada vez melhor! — Clara praticamente aplaudiu, com um brilho maldoso no olhar.
Isaac, que até então só observava, soltou um assobio baixo, claramente apreciando o caos.
— Eu sou fã dele. Não tem nem um dia que voltou e já tá sendo acusado de adultério.
Barbara girou sobre os calcanhares e deu um tapa no ombro de Isaac, que riu ainda mais.
Alexander passou a língua pelos lábios, tentando se recompor.
— Emily... Isso foi há dois anos!
— E daí?! Você acha que as pessoas esquecem?! — Ela cruzou os braços, bufando. — Meu Deus, você sequer se lembra, né? Você saiu beijando meio mundo naquela época, nem sabe quantas relações destruiu!
Alexander ficou em silêncio por um momento.
Tecnicamente… ela não estava errada.
Mas também não estava certa.
— Olha, desculpa mesmo, tá? — Ele ergueu as mãos em sinal de paz. — Eu provavelmente estava bêbado ou chapado.
— Ah, claro! Você sempre tem uma desculpa, né?!
— Uma das melhores habilidades dele — disse Isaac divertido.
Emily grunhiu de frustração e se afastou com um olhar mortal.
— Fica longe dos nossos namorados, Montgomery.
— Com certeza!
Quando Emily finalmente se afastou, Alexander deixou escapar um suspiro longo e cansado.
Ele olhou para Claire e Barbara, esperando alguma palavra de consolo ou julgamento.
Barbara apenas suspirou e balançou a cabeça, como se já esperasse por aquilo.
— Você precisa de um time de relações públicas.
Claire, no entanto, bateu suavemente no peito de Alex.
— Você está bem, né?
Alexander só deu de ombros.
Ao lado, Clara ainda estava rindo, exasperada.
— Meu Deus, eu espero que tenham mais dessas no decorrer do dia!
Alexander se virou para ela, entediado.
— Engraçadíssima você, Clara. Um verdadeiro espetáculo do humor.
— Eu sei. — Riu. — Eu sou uma versão mais ácida da Ellen Degeneres sem toda a energia lésbica e o cancelamento por trás.
Se sobreviver à fúria de Emily Parker já havia sido um desafio, o refeitório da escola seria uma batalha ainda maior.
Quando o sinal tocou, o mar de estudantes fluiu pelos corredores em direção ao grande salão que servia como centro de alimentação e, mais importante, como palco para todo tipo de intriga social.
Alexander pegou sua bandeja e passou pelas opções de comida, optando por uma refeição vegana, tanto por gosto pessoal, quanto pelo fato de que, ultimamente, suas preferências alimentares estavam estranhamente limitadas.
Com a bandeja em mãos, ele começou a caminhada até a mesa dos seus amigos.
Foi então que ouviu os primeiros xingamentos.
— Bastardo de merda.
O corpo de Alexander ficou tenso por um segundo.
Mas ele continuou andando.
— Vadia de Luxo.
Seus dedos se apertaram ao redor da bandeja, mas seu rosto permaneceu impassível.
Ele passou por outra mesa e ouviu alguém sussurrar:
— Será que ele matou o próprio irmão?
Os cochichos eram veneno espalhado pelo ar.
Mas Alexander não reagiu.
Ele não podia reagir.
Segure firme.
Continue andando.

Ele estava quase chegando à mesa onde Barbara, Claire e os outros estavam sentados quando sentiu algo colidir com seu ombro.
Foi um esbarrão intencional forte o suficiente para derrubar sua bandeja.
O som da comida se espatifando no chão ecoou no refeitório.
Silêncio.
Os olhos azuis de Alexander se ergueram lentamente.
Do outro lado, um grupo de jogadores do time de futebol ria baixinho, satisfeitos com a cena.
Alexander respirou fundo.
Ele não diria nada.
Ele não faria nada.
Ele apenas se abaixou para recolher a bandeja do chão.
Mas então...
— Sério? Vegano, Montgomery? — Um dos jogadores zombou. — Que tipo de vegano é você? Afinal, você caia de boca em tudo que fosse pulsante...
As palavras cortaram como uma lâmina afiada.
A raiva subiu pela garganta de Alexander como fogo.
Ele levantou-se devagar, seus olhos fixos nos jogadores.
O refeitório prendeu a respiração.
E então, antes que qualquer coisa pudesse acontecer...
— Se afasta do meu amigo, babaca!
A voz de Barbara cortou o ar.
Ela estava de pé, olhando para os jogadores como se fossem insetos nojentos.
Ao lado dela, Claire também estava de pé, os braços cruzados, com uma expressão de desprezo absoluto.
Os jogadores hesitaram.
Por mais valentões que fossem, ninguém queria enfrentar Barbara Queen.
— Tanto drama por uma bandeja caída... — um deles murmurou, se afastando.
O silêncio se quebrou.
Alexander soltou um suspiro longo e olhou para Barbara quando a mesma se aproximou.
— Obrigada, rainha protetora dos indefesos.
— Não me agradeça. Eu só gosto de intimidar idiotas.
Ele sorriu de canto.
— Falo sério quando digo de arrumar uma equipe de controle de danos.
E, com isso, pegou outra bandeja e finalmente sentou-se com seus amigos, fingindo que tudo estava normal.
Mas a verdade?
Nada mais era normal em Blue Lagoon.
O fim do dia letivo na Blue Lagoon era uma orquestra desordenada de estudantes reunidos nos corredores. Alguns guardavam seus livros nos armários, enquanto outros se encostavam nas paredes, rindo e conversando. O clima caótico era a melodia final antes da libertação diária.
Alexander caminhava sozinho pelos corredores, distante dos amigos. Suas últimas aulas haviam sido em horários diferentes, o que significava que sairia antes deles. Não que ele se importasse.
Ele passou pelos grupos dispersos sem pressa, ignorando os olhares persistentes e os sussurros que, a essa altura, já se tornaram uma trilha sonora constante desde o seu retorno.
Quando alcançou seu armário, destrancou a porta e colocou alguns livros lá dentro, já se preparando para sair.
Foi então que algo inesperado aconteceu.
A porta do armário bateu violentamente, quase esmagando seus dedos.
O susto foi imediato.
Ele virou o rosto, pronto para xingar quem quer que fosse, mas se deparou com Trevor Harris.
Merda.
Capitão do time de futebol. Um metro e noventa de músculos bem trabalhados, mandíbula afiada, olhos cruéis e um sorriso convencido que poderia fazer qualquer um estremecer por razões boas ou ruins.
Ele tinha a aura de um predador.
E Alexander?
Bem, ele sabia muito bem o que acontecia quando um predador escolhia sua presa.
Afinal, ele foi um predador por muito tempo.
— Ora, ora… se não é o nosso príncipe exilado! — Trevor inclinou a cabeça, umedeceu os lábios e sorriu, inclinando-se levemente para mais perto de Alexander.
A voz era suave demais. Casual demais. Mas Alex conhecia aquele tom.
Aquilo não era um cumprimento.
Era uma armadilha.
O corredor parecia encolher ao redor deles.
Uma multidão rapidamente se formou, como sempre acontecia quando o caos ameaçava explodir.
— Me dá licença — Alex disse, tentando se afastar.
— Relaxa, cara. Só quero te dar as boas-vindas de volta. — Ele se aproximou ainda mais, e sua presença era opressiva. O cheiro de loção pós-barba misturado com suor invadiu o ar.
Alexander engoliu em seco.
De novo, não...
Ao redor deles, uma multidão começou a se formar.
Os jogadores do time de futebol estavam no centro da roda, como uma matilha esperando para ver o espetáculo. Isaac estava entre eles, recostado contra os armários, um cigarro apagado entre os dedos e olhos brilhando de diversão e luxúria.
Ele não faria nada para ajudar.
Ninguém faria.
Trevor sorriu ainda mais.
— Senti sua falta, sabia?
Alexander não queria estar ali.
Não queria aquele olhar nele.
Mas Trevor não se importava com o que ele queria.
Correção: ninguém se importava.
— Agora vai agir como se não lembrasse? — Trevor inclinou-se, os dedos fortes deslizando pela nuca de Alexander. O toque era quente, firme... nada gentil. — Vamos lá, Montgomery. Você era tão receptivo antigamente.
O corredor inteiro ficou em quieto.
Alexander prendeu a respiração.
E então...
Ele empurrou Trevor com força, usando o próprio peso dele contra ele.
O movimento foi rápido, inesperado.
Trevor cambaleou para trás, surpreso.
A multidão prendeu o fôlego.
Alexander limpou o pescoço como se quisesse apagar o toque do outro, e seu olhar azul-gelo se tornou afiado como navalhas.
— Não é não, Trevor.
Silêncio.
Os olhos de Trevor se tornaram sombrios.
Ele avançou.
— Então o antigo vadio do time agora quer se fazer de santo?
Alexander não recuou.
E então, algo dentro dele se quebrou.
Ele sorriu.
Não um sorriso amigável. Não um sorriso nervoso.
Mas um sorriso cruel e venenoso.
— Eu nunca fui santo, Harris. E nunca me fiz ou farei de inocente.
Ele cruzou os braços, inclinando-se levemente para o lado, a voz escorrendo veneno puro.
— Mas sabe o que mudou?
Trevor estreitou os olhos.
— A fase de me contentar com caras de baixo desempenho já passou.
O corredor explodiu.
“PUTA MERDA!”
“ELE ACABOU COM O TREVOR!”
Trevor ficou pálido. O time de futebol inteiro ficou em choque.
Isaac riu tanto que precisou apoiar-se contra os armários.
Trevor cerrou os punhos, o rosto vermelho de raiva.
— O que você disse?!
Alexander apenas arqueou uma sobrancelha.
— Eu falei grego?
Outro jogador do time, um brutamontes chamado Ryan, entrou na conversa, se sentindo ofendido no lugar de Trevor.
— Então quer dizer que você tá chamando a gente de brocha?
Alexander riu. Baixo e frio.
— Se a máscara serviu…
Ryan se lançou para cima dele.
Alexander sabia que não conseguiria reagir a tempo.
Ele fechou os olhos, esperando o impacto do soco.
Mas o soco nunca veio.
O silêncio repentino foi quase ensurdecedor.
Alexander abriu os olhos.
Ryan estava parado diante dele, o braço preso em um aperto firme.
Por alguém que Alexander nunca tinha visto antes.
Os cabelos castanhos estavam cortados de maneira rebelde, a pele pálida contrastava com os olhos verdes esmeralda, e a aparência era tão intensa, tão clássica, tão saído de um romance vitoriano, que Alexander sentiu algo estranho no peito.
O desconhecido não parecia impressionado.
Na verdade, ele parecia entediado.
Ele empurrou Ryan com força suficiente para mandá-lo cambaleando para trás, mas sem muito esforço.
Os olhos verdes se voltaram para Alex por um breve segundo.
Havia algo familiar naquele olhar.
Então, o rapaz se virou para a multidão e deu um sorriso sarcástico.
— Bom, isso foi mais intenso do que eu esperava para meu primeiro dia.
Alexander prendeu a respiração.
Primeiro dia?
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Claire e Barbara chegaram no meio da multidão, os rostos preocupados.
E então Fred apareceu também.
O olhar dele foi direto para Alex, e o rosto dele estava tomado por pura preocupação.
Clara, por outro lado, parecia genuinamente desapontada.
— Sério? Justo quando a coisa ia ficar interessante?
Alexander não disse nada.
Ele apenas olhou para o desconhecido de olhos esmeralda.
E pela primeira vez em muito tempo...
Ele sentiu seu rosto corar.

O silêncio pairou no ar como uma tempestade prestes a desabar.
Alexander ainda sentia o coração martelando no peito, seus olhos fixos no garoto de olhos esmeralda que, com uma facilidade desconcertante, havia parado um soco que teria o jogado no chão.
Ryan, ainda em choque por ter sido empurrado para trás sem esforço, ajustou a jaqueta, tentando recuperar a dignidade ferida.
— Quem diabos é você? — Trevor perguntou, sua voz carregada de irritação e desconfiança.
O garoto misterioso passou uma mão pelos cabelos castanhos rebeldes, como se aquilo não fosse nada demais. Seu olhar era frio, calculista, mas seu sorriso...
Seu sorriso parecia um desafio.
Ele olhou de relance para Alexander antes de responder:
— Mattew Warrant.
O nome fez algo tilintar na mente de Alexander.
Warrant.
O detetive que conhecera no hospital. Brunno Warrant.
Seus olhos se estreitaram ligeiramente, e a conexão foi instantânea.
Eles eram parentes.
Mas antes que pudesse dizer algo, Trevor riu baixo, debochado.
— Então temos um novato metido a herói.
Ryan cruzou os braços, seus músculos tensionados.
— Você não tem nada a ver com isso, cara. Melhor não se meter onde não foi chamado.
Mattew deu de ombros.
— Engraçado. Porque, pelo que eu vi, vocês estavam prestes a ser a atração principal de um vídeo de humilhação pública. — Ele inclinou a cabeça, a voz carregada de sarcasmo. — Sabe como é, todo mundo aqui tem um celular.
Os murmúrios na multidão aumentaram.
Alexander observou enquanto Trevor e Ryan trocavam olhares, claramente irritados.
Mas sabiam que qualquer deslize agora poderia acabar virando um escândalo viral.
— Tanto faz — Trevor rosnou, voltando sua atenção para Alex. — Isso não acabou, Montgomery.
E então, ele se afastou, seguido pelo time.
A multidão, sem mais o que assistir, começou a se dispersar.
Mas Claire e Barbara não saíram dali.
Elas correram até Alexander, as expressões carregadas de preocupação.
— Você tá bem? — Claire perguntou, examinando-o de cima a baixo.
— Já estive melhor — Alex murmurou, ainda sentindo a adrenalina no sangue. — Mas poderia ter sido pior.
Mattew ergueu uma sobrancelha e deu um passo mais perto.
— Nesse caso... de nada.
Alexander virou-se para ele, surpreso ao perceber que o garoto já estava muito próximo.
Próximo demais.
Mattew estendeu a mão para ele, um sorriso brincando nos lábios.
— Mattew Warrant, salvador dos indefesos.
Alexander arregalou os olhos por um segundo, pego de surpresa pela provocação.
Então, riu.
Baixo, quase involuntário.
— Alexander Montgomery — disse, aceitando o aperto de mão.
O contato foi breve, mas intenso o suficiente para enviar um arrepio pelo corpo de Alex.
— Mas, para constar, não sou indefeso.
Mattew manteve o olhar nele por um segundo a mais do que o necessário.
E, naquele instante, Alexander soube.
Ele sentiu.
Algo novo começava a surgir em seu corpo.
E pelo canto do olho, ele percebeu Claire e Barbara trocando olhares surpresos.
Mas nem todo mundo parecia satisfeito.
Clara e Isaac não disseram nada, simplesmente se viraram e saíram, claramente irritados.
E então, houve Fred.
O garoto surgiu do nada, parando perto demais de Alex e Mattew, seu olhar intenso e... territorial?
Havia algo errado nele.
Algo que Alexander não conseguia identificar.
Mas Claire percebeu.
Barbara também.
— Você pode se afastar agora. — Fred cruzou os braços. Seus olhos escuros estavam fixos em Mattew.
O silêncio que se seguiu foi... estranho.
Barbara franziu a testa.
— Fred, qual é o seu problema? Ele ajudou o Alex.
Fred não desviou o olhar de Mattew. Ignorando a namorada.
— E eu agradeço por isso. — Sua voz era firme, mas havia algo de hostil ali. — Mas tenho certeza de que o novato pode encontrar alguém na secretaria para apresentá-lo à escola e deixar o Alex em paz.
Mattew arqueou uma sobrancelha.
Alexander sentiu um incômodo estranho crescer dentro de si.
E então, percebeu Claire o observando.
O olhar dela não era acusatório.
Era analisador.
Ele respirou fundo e disse a primeira coisa que veio à mente:
— Eu posso apresentar a escola pra Mattew. Como agradecimento.
Silêncio.
Fred piscou. Surpreso.
Barbara e Claire ficaram boquiabertas.
E Mattew sorriu.
Não um sorriso qualquer.
Mas um sorriso cativante.
— Ah, isso parece interessante.
O olhar de Fred se fechou.
Alexander manteve o rosto impassível, mas sentiu o coração acelerar sem motivo algum.
Fred podia não ter dito nada...
Mas Alexander viu.
O olhar dele era possessivo.
E aquilo...
Aquilo só tornava tudo ainda mais perigoso.

Os corredores da escola estavam mais vazios agora que o tumulto ao redor da briga havia se dissipado. Alexander e Mattew caminhavam lado a lado, deixando para trás o grupo de amigos, a tensão com Fred e os olhares curiosos dos alunos que não sabiam quando parar de espiar.
O silêncio entre eles era... confortável.
Por mais que Alexander tentasse ignorar, ele estava ciente da presença de Mattew ao seu lado. O jeito como ele caminhava sem pressa, relaxado, mas atento a tudo ao seu redor.
Não era só o rosto bonito, os olhos esmeralda intensos ou o jeito misterioso. Havia algo mais nele, algo que deixava Alexander inquieto.
— Então... — Mattew quebrou o silêncio, sua voz calma, mas com uma pitada de diversão. — Sou só eu ou aquele cara, Fred, parecia um pouco... territorial?
Alexander bufou, revirando os olhos.
— Você não faz ideia.
Mattew arqueou uma sobrancelha, claramente interessado.
— Ele é seu ex ou algo assim?
Alexander parou no meio do corredor, olhando para ele como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais absurda do mundo.
— O quê?! Não!
Mattew sorriu.
— Jura? Porque parecia.
Alexander cruzou os braços, tentando ignorar o incômodo estranho que sentia sempre que Fred agia daquela forma.
— Tudo é mais... complicado do que isso.
— Ah, então é um drama? — Mattew sorriu de canto. — Eu gosto de dramas.
Alexander revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
Eles continuaram caminhando.
Passaram pelos corredores revestidos de armários azul-marinho e outros em vermelho, pelas salas de aula com carteiras desgastadas, pelo laboratório de química, onde o cheiro de produtos químicos impregnava o ar.
Na biblioteca, Alexander apontou para a sala envidraçada no segundo andar.
— Lá é onde os nerds se escondem.
Mattew olhou para cima, um brilho divertido no olhar.
— Deveria ser o lugar perfeito pra você, então.
Alexander parou e virou-se para ele, ofendido de brincadeira.
— Você me ofendeu de duas formas agora.
— Oh?
— Primeiro... eu não sou um nerd.
Mattew arqueou uma sobrancelha, claramente duvidando.
— Você parece um nerd.
— E segundo... — Alexander continuou ignorando a provocação. — Eu não me escondo.
Mattew sorriu, como se gostasse da resposta.
E por algum motivo... isso fez o coração de Alexander acelerar.
Depois de uma longa caminhada pelo campus, os dois chegaram ao campo de futebol americano, um dos lugares mais icônicos da Blue Lagoon High School.
O gramado verde se estendia como um mar esmeralda sob a luz alaranjada do final da tarde.
As arquibancadas de metal estavam vazias, exceto por algumas mochilas esquecidas.
Do lado oposto, a bandeira do time da escola, os Blue Lagoon Stingers, tremulava preguiçosamente ao vento, enquanto os postes de luz se erguiam como gigantes silenciosos ao redor do campo.
Mattew parou e olhou ao redor, inspirando o ar fresco.
— Você passa muito tempo aqui?
Alexander deu de ombros.
— Não mais. Mas costumava.
Mattew não perguntou o motivo.
Em vez disso, bateu no metal frio da arquibancada, indicando que queria se sentar.
Alexander hesitou por um segundo, mas logo subiu os degraus e sentou-se ao lado dele.
O vento soprava suavemente, e por um momento, não houve palavras, apenas o som distante da cidade e o farfalhar das folhas das árvores que cercavam o campus.
Então, Mattew quebrou o silêncio.
— Então... O que te trouxe de volta para Blue Lagoon?
Alexander soltou uma risada fraca.
— Você diz isso como se eu tivesse escolha.
Mattew inclinou a cabeça.
— Não teve? Pelo que falaram, você voltou por conta própria de onde quer que estivesse.
— Não exatamente. — Alexander passou uma mão pelos cabelos loiros, olhando para o horizonte. — Algumas coisas aconteceram. Eu precisei voltar.
Mattew não pressionou.
Havia algo nos olhos dele, como se entendesse o peso de histórias não ditas.
Então, ele respondeu:
— Eu também.
Alexander virou o rosto para ele, curioso.
— Blue Lagoon era um lar ancestral da minha família — Mattew disse, sua voz carregada de algo mais profundo. — Eu voltei pra me reconectar com partes perdidas da minha história.
Alexander franziu o cenho, intrigado.
— Você tá falando do... Brunno?
Mattew virou-se para ele tão rápido que Alexander soube que tinha dito algo importante.
— Você conhece o Brunno?
— Eu reconheci o sobrenome — Alexander explicou. — Ele é o novo detetive da delegacia local.
Mattew parecia absorver essa informação.
Seus olhos verdes brilharam com algo intenso.
— Então ele está aqui.
Alexander inclinou-se para trás, apoiando-se nos braços.
— Como você conhece ele? São irmãos, parentes...?
Mattew sorriu de leve, mas não respondeu.
O vento bagunçou os cabelos de ambos, e Alexander sentiu uma tensão estranha no ar.
Mas antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, Mattew virou-se para ele.
— E você? Como conhece Brunno?
Alexander hesitou por um segundo.
Então, respondeu:
— Ele está investigando um ataque que eu sofri.
Mattew franziu o cenho.
— Ataque?
Alexander sentiu um arrepio na espinha, lembrando-se da noite no cemitério.
— Algumas semanas atrás. Fui atacado no cemitério da cidade. Quase morri.
Mattew ficou em silêncio.
Mas algo em seu olhar mudou.
Não era apenas preocupação.
Era reconhecimento.
Como se ele soubesse mais do que deveria.
Alexander não soube dizer quanto tempo ficaram ali, apenas sentados, encarando um ao outro, sentindo o vento passar entre eles.
E então, Mattew sorriu de lado.
— Bom... Acho que sua vida é mais interessante do que eu imaginava.
Alexander riu, mas havia algo mais profundo por trás disso.
— Você não faz ideia.
Mattew o observou por mais um segundo, como se tentasse decifrá-lo.
E então, virou-se para o horizonte novamente, o olhar distante.
E Alexander soube.
Mattew Warrant era um mistério.
E ele queria muito saber como desvendá-lo.




O vento frio da Louisiana deslizou pela pele de Alexander enquanto ele descia os degraus da arquibancada ao lado de Mattew. A conversa que tiveram ali ainda reverberava dentro dele, cada palavra parecendo ter sido carregada de significados ocultos.
O céu, antes tingido em tons dourados, agora mergulhava no azul profundo da noite, e as luzes fracas dos postes ao redor do campus lançavam sombras longas sobre o campo de futebol.
A caminhada de volta foi silenciosa, mas não desconfortável.
Mattew não parecia ser do tipo que falava por falar, e Alexander estava ocupado demais tentando processar tudo o que sentia para querer quebrar o silêncio.
Por que aquele cara mexia tanto com ele?
Era irritante.
Era intrigante.
E, acima de tudo, era perigoso.
Alexander percebeu que estava observando Mattew pelo canto do olho, notando o jeito descontraído como ele caminhava, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro, os cabelos castanhos desalinhados pela brisa da noite.
Ele carregava uma confiança diferente. Não era forçada, não era exibida de forma agressiva.
Era o tipo de confiança de quem sabe que pode dominar um ambiente sem precisar dizer nada.
E Alexander não sabia se isso o irritava ou o atraía ainda mais.
Eles passaram pela lateral da escola, onde as janelas escuras refletiam a lua crescente. O estacionamento estava quase vazio agora, exceto pelo Dodge Charger preto de Alexander, que parecia aguardar seu dono sob a luz solitária de um poste.
Alexander sentiu uma pequena onda de alívio ao ver seu carro.
Porque, por mais que gostasse da companhia de Mattew, algo nele o deixava agitado de uma forma que ele não sabia nomear.
Quando finalmente pararam ao lado do veículo, Mattew deu um passo para trás, como se esperasse Alexander se despedir primeiro.
Mas Alex hesitou.
O que ele deveria dizer?
O que ele queria dizer?
— Bem... — Ele limpou a garganta, jogando as chaves do carro entre os dedos, distraído. — Acho que esse é o momento em que você desaparece misteriosamente na noite e eu me pergunto se você foi real ou só coisa da minha cabeça.
Mattew riu baixo, um som suave, rouco, e estranhamente viciante.
— Isso seria um final interessante. — Ele inclinou a cabeça para o lado, seus olhos verdes brilhando sob a luz fraca. — Mas, felizmente, sou bem real.
Alexander não tinha tanta certeza disso.
Mattew parecia sair de um livro antigo, de uma história esquecida, e a sensação de que ele não pertencia completamente àquele tempo ou àquela cidade só fazia crescer dentro de Alex.
Mas ele ignorou esse pensamento e, em vez disso, disse algo que vinha guardando desde o incidente mais cedo.
— Obrigado.
Os olhos de Mattew brilharam com um interesse súbito.
— Pelo quê?
Alexander desviou o olhar por um momento, não gostando de se sentir vulnerável, mas sabendo que precisava dizer aquilo.
— Por ter me ajudado hoje. — Ele mexeu distraidamente na manga da própria jaqueta, evitando encará-lo diretamente. — Não precisava ter se metido.
Mattew ficou em silêncio por um instante, analisando Alexander da mesma forma intensa de antes.
Então, um sorriso pequeno e perigosamente charmoso surgiu em seus lábios.
— Eu faria de novo.
Algo no peito de Alexander apertou.
Era a certeza na voz dele. A naturalidade com que disse aquilo.
Mattew não havia hesitado nem por um segundo.
Como se, a cena no corredor se repetisse cem vezes, ele sempre escolheria se meter no meio dela todas as cem vezes.
E Alexander não sabia lidar com esse tipo de resposta.
Ele sentiu o rosto ficar quente e amaldiçoou mentalmente sua própria reação.
— Você sempre foi tão... altruísta assim, ou isso é um caso especial?
Mattew riu de novo, um som que fez algo inquietante se revirar no estômago de Alex.
— Eu diria que sou um mistério.
— Isso é fato — Alexander murmurou, tentando disfarçar o impacto que aquelas palavras tinham sobre ele.
Ele destravou o carro e se preparou para entrar, mas hesitou antes de abrir a porta.
Mattew iria embora a pé?
Ele olhou para o garoto e se pegou hesitante novamente.
— Quer uma carona?
Mattew piscou, claramente surpreso com a oferta.
Mas então, balançou a cabeça.
— Vou caminhar um pouco. Gosto da noite.
Alexander franziu o cenho, intrigado.
— Caminhar? Essa cidade não é exatamente o lugar mais seguro pra isso.
Mattew sorriu de canto, um sorriso carregado de segredos.
— Eu sei me cuidar, Montgomery.
Alexander hesitou por mais um momento, analisando-o como se tentasse enxergar através da névoa de mistério que cercava Mattew.
Mas, eventualmente, decidiu não insistir.
— Certo. Seu velório, não o meu.
Ele abriu a porta do carro e quase entrou, mas um toque repentino em seu braço o fez parar.
Mattew.
A mão dele estava quente contra a pele coberta pela jaqueta, o toque firme, mas sem pressa.
— Alex.
O coração de Alexander perdeu um compasso.
Ele virou o rosto, encontrando os olhos esmeralda brilhando na escuridão, fixos nele de um jeito que fez seu corpo inteiro reagir.
Mattew não desviou o olhar.
— Eu vou te ver amanhã?
A pergunta era simples.
Mas o tom...
O tom fez algo dentro de Alex desmoronar e se reconstruir ao mesmo tempo.
Ele piscou, tentando esconder o impacto, e rapidamente recuperou sua fachada despreocupada, forçando um sorriso brincalhão.
— O que é isso, Warrant? Você virou meu guarda-costas agora?
Mattew sorriu de lado, e Alexander odiou o quanto gostou daquele sorriso nele.
— Talvez.
Alexander revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso genuíno que ameaçou escapar.
— Até amanhã, então.
Mattew apenas o observou.
Alexander entrou no carro e fechou a porta, sentindo sua pele formigar onde Mattew o havia tocado.
Ele ligou o motor, mas antes de acelerar, olhou pelo retrovisor.
Mattew ainda estava lá.
Parado sob a luz amarelada do poste, os olhos fixos nele, como se...
Como se Alex fosse algo importante.
Alexander sentiu algo estranho revirar em seu peito.
Ele engoliu seco e acelerou.
Mas no último segundo, olhou mais uma vez pelo espelho retrovisor.
Mattew ainda estava ali.
Observando.
E Alex soube.
Aquele garoto ia ser um problema.
Um problema dos grandes.

O vento da noite soprava forte quando Mattew finalmente saiu dos limites da Blue Lagoon High. O silêncio que antes parecia confortável agora pesava sobre ele, como se a cidade murmurasse segredos há muito esquecidos
Ele caminhou sem pressa, seu passo leve contrastando com o peso de suas memórias.
A cidade continuava a mesma... e, ao mesmo tempo, não.
As ruas de paralelepípedo brilhavam sob a luz dos postes antigos, as sacadas de ferro forjado dos casarões ainda resistiam ao tempo, testemunhas silenciosas de gerações que vieram e se foram. As fachadas coloniais, com suas janelas arqueadas e cores desgastadas, misturavam-se com estabelecimentos modernos que tentavam inutilmente apagar o passado.
Mas Blue Lagoon não esquecia.
E Mattew também não.
Cada esquina, cada beco iluminado pelo brilho pálido da lua carregava o fantasma de outra época. Uma época de cavalos e carruagens, de mulheres em vestidos rodados e homens com casacas pesadas, de lanternas a óleo iluminando a escuridão e dos ecos de uma guerra que dilacerou mais do que corpos.
Ele passou pela praça central, onde a fonte esculpida em mármore branco ainda jorrava sua água límpida, os anjos que a adornavam parecendo observá-lo com olhos vazios.
Quantas vezes ele e Brunno não correram por ali quando crianças?
Quantas vezes, na calada da noite, Lucien não os chamava para fugir da casa do pai e brincar sob a luz das estrelas?
Memórias.
Dolorosas.
Indestrutíveis.
Mattew não queria lembrar.
Mas Blue Lagoon não o deixava esquecer.
E então, ele a viu.
A propriedade Warrant.
A mansão se erguia no topo da colina, afastada do centro da cidade, sombria e imponente, como uma sentinela do tempo.
Antes, a propriedade era uma fazenda, uma das mais prósperas da região, cercada por campos de algodão e uma extensão interminável de terra que pertencia à família há séculos. Mas tudo mudou quando a Guerra Civil veio.
Tudo mudou quando o pai deles fez sua escolha.
Lucien ficou.
Brunno e Mattew foram mandados para a guerra.
O preço por herdar o império da família foi pago com o sangue dos irmãos mais novos.
Agora, os campos estavam vazios, engolidos pelo tempo, e a casa dos Warrant...
A casa era outra coisa.
A arquitetura era um híbrido entre o antigo e o moderno, um reflexo da própria família Warrant.
As colunas brancas da entrada, resquícios da antiga fazenda, ainda estavam de pé, mas eram agora cobertas por videiras negras que se enroscavam como sombras vivas.
A estrutura principal tinha grandes janelas de vidro escurecido, substituindo as pesadas venezianas de outrora.
Os telhados eram inclinados, pontiagudos, quase góticos, e as paredes de tijolos expostos misturavam o rústico ao sofisticado.
Cada reforma ao longo dos séculos não foi uma simples melhoria… foi uma tentativa de apagar o passado.
De apagar o legado do pai deles.
Mas algumas coisas nunca desapareciam completamente.
Mattew subiu os degraus de pedra com passos lentos, os olhos fixos na porta colossal de madeira escura, onde o brasão da família estava entalhado com perfeição quase cruel.
O brasão era uma intricada representação de um grifo segurando uma espada, as asas abertas como se desafiassem o próprio céu.
Abaixo dele, um escudo marcado por duas estrelas que representava os irmãos que lutaram na guerra: Brunno e Mattew.
E na base do escudo, um pergaminho esculpido trazia o lema da família:
"Do pó à guerra, da guerra à eternidade."

Mattew passou os dedos sobre a madeira, sentindo a textura do entalhe sob sua pele.
Eles tentaram apagar o pai.
Mas ele ainda estava ali.
Ele sempre estaria.
As luzes dentro da casa estavam acesas.
Alguém o esperava.
E Mattew sabia exatamente quem era.
Ele ergueu a mão para bater, mas antes que pudesse tocar a porta, ela se abriu sozinha, rangendo baixo.
E lá estava ele.
Brunno Warrant.
Seus olhos eram como espelhos, refletindo algo que Mattew preferia não ver.
O detetive trajava um sobretudo negro, o cabelo ligeiramente despenteado, e um sorriso torto que não era nada acolhedor.
Mas seu tom de voz...
Ah, seu tom de voz era o mesmo de sempre.
Ácido.
Irônico.
Sarcástico.
— Olá, irmão.
Mattew não respondeu de imediato.
Ele apenas encarou Brunno, sentindo o peso daquelas palavras carregadas de passado, ressentimento e um tipo de afeto disfuncional que apenas irmãos como eles poderiam entender.
A noite pareceu se tornar ainda mais densa ao redor deles.
E então, finalmente, Mattew deu um passo à frente.
Para dentro da casa.
Para dentro de tudo o que ele jurou que nunca mais voltaria a enfrentar.
Mas fantasmas do passado não desaparecem.
E naquela casa, os fantasmas usavam rostos que ele conhecia bem demais.
O ar dentro da mansão era espesso, carregado de histórias não ditas.
Mattew cruzou a soleira, e a primeira coisa que sentiu foi o cheiro de madeira antiga e lareira apagada. Um cheiro que deveria ser acolhedor, mas ali, na casa dos Warrant, era apenas um lembrete de que certas coisas jamais desaparecem por completo.
Brunno fechou a porta atrás dele sem pressa, como se desse a Mattew tempo para absorver tudo ao seu redor.
E havia muito para absorver.
A mansão Warrant era uma criatura viva.
Cada corredor estreito parecia se alongar quando você não estava olhando. As sombras dançavam nos cantos, como se sussurrassem segredos ao menor movimento de luz.
Os candelabros de ferro forjado pendiam do teto alto, projetando padrões elegantes e caóticos nas paredes. Os pisos de madeira escura rangiam como se lamentassem cada passo.
E então, havia as janelas.
Imensas.
De vidro escurecido, refletiam o interior da casa em vez do mundo lá fora. Como se a mansão se recusasse a deixar o passado escapar.
Mas o que mais prendia a atenção de Mattew era a sala principal.
O coração da casa.
E onde o fantasma de sua mãe ainda pairava.
A lareira dominava o ambiente.
Antiga. De pedra esculpida à mão, era a única peça da casa que nunca foi tocada por reformas ou destruições.
Não por respeito ao pai.
Mas por respeito a ela.
Mattew encarou as chamas crepitantes e pôde quase vê-la ali... sua mãe, sentada na poltrona de couro escuro, um livro em mãos, os lábios murmurando versos de Edgar Allan Poe ou Lord Byron.
Seu lugar ainda estava ali.
Vazio. Intocado.
Brunno passou ao lado dele e jogou-se em um dos sofás, um sorriso torto no rosto.
— Levou alguns séculos, mas você finalmente conseguiu me alcançar. — A voz dele escorreu pelo ambiente como veneno diluído em mel.
Mattew não respondeu.
Ele apenas continuou observando a lareira, sentindo a fúria silenciosa fervendo sob a pele.
Brunno riu baixinho, balançando a cabeça.
— Nada? Nenhuma resposta, nenhuma piada sarcástica? — Ele inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Estou desapontado.
Mattew continuou em silêncio.
Brunno suspirou dramaticamente e ergueu-se do sofá.
— Sabe... — Ele começou caminhando lentamente ao redor da sala. — Eu sempre me pergunto... se debaixo de toda essa madeira reformada, debaixo dessas paredes elegantes e móveis caros... ainda dá pra sentir o cheiro do sangue dele.
Mattew fechou os olhos por um segundo.
Brunno sorriu.
— Porque toda vez que eu penso nisso... eu sinto sede.
O estalo do maxilar de Mattew ecoou na sala quando ele virou o rosto, os olhos brilhando em puro ódio.
Brunno não parou.
— Você se lembra, não? O cheiro de ferro no ar. O sangue e as vísceras cobrindo o chão como se tivéssemos arrancado o próprio coração desta casa.
Mattew cerrou os punhos.
— Cale a boca.
Brunno ignorou.
— A maneira como ele implorou. Como ele chorou. Como ele rogou pelo falso deus no final.
— Cale. A. Boca.
— E o mais divertido de tudo... ela estava lá.
Mattew explodiu.
Em um piscar de olhos, ele avançou.
Agarrou Brunno pela gola do sobretudo e o jogou contra a parede, os quadros chacoalhando com a força do impacto.
Os olhos de Mattew não eram mais humanos.
— NÃO FALE O NOME IMUNDO DELA!
Brunno não recuou.
Seu sorriso não vacilou.
— O nome... dela?
Mattew rosnou.
Mas Brunno simplesmente inclinou a cabeça, os olhos cravados nos de seu irmão.
Ela nos criou, Mattew.
Silêncio.
A respiração de Mattew estava pesada. O fogo da lareira projetava sombras distorcidas no rosto de Brunno.
E foi ali, nos olhos dele, que Mattew viu.
A lembrança da noite em que se tornaram monstros.
A noite em que Lilith os transformou.
E naquele momento, ele soube.
Brunno nunca a esqueceu.
E talvez nunca tenha parado de segui-la.
Mattew soltou o irmão com brutalidade e virou-se de costas.
Não confiava em Brunno.
Nunca confiaria.
Mas precisava tentar parar ele.
E isso, mais do que qualquer coisa, o enojava.
A lareira continuava queimando atrás dele, as sombras dançando nas paredes.
Mattew fechou os olhos.
Ele tinha voltado para o inferno.
E não havia saída.
Tudo estava morto agora. Como eles.
— E então... — Brunno continuou esgueirando-se até uma das poltronas de couro, acomodando-se nela como um rei que acaba de tomar posse de um trono. — Como é ser o faz-tudo da família? Deve ser sufocante saber que, enquanto você brinca de Carmen Sandiego, nossos irmãos governam um reino que nem nos pertence. Um reino roubado.
Mattew apertou o maxilar, mas ainda se manteve calado.
Brunno riu, jogando a cabeça para trás, os cachos castanhos bagunçados se movendo junto.
— Não me diga que essa é sua resposta? Silêncio? — Ele inclinou o corpo para frente, os olhos azuis faiscando sob a luz bruxuleante da lareira. — Diga-me, Mattew, como é fingir que o mundo das sombras está melhor agora do que jamais esteve?
Mattew soltou um suspiro lento, finalmente erguendo o olhar para encará-lo.
— Não é fingimento. É um fato.
Brunno ergueu uma sobrancelha, fingindo ponderar.
— Ah, sim, claro. Um mundo "melhor" regido por leis falsas e moralidade patética. — Ele sorriu, perverso. — Nós poderíamos ter nos unido a Lilith. Mas vocês preferiram traí-la. Preferiram roubar o governo e impor suas pequenas regras de civilidade sobre algo que deveria ser puro instinto, pura selvageria.
Mattew não respondeu de imediato. Mas algo nele mudou. A sombra de uma emoção muito mais sombria passou por seu rosto, e Brunno percebeu.
As pequenas veias negras começaram a se desenhar sob a pele pálida de Mattew, finas fissuras que se espalhavam como rachaduras em porcelana. Seus olhos verdes ficaram mais profundos, escurecidos em torno da íris.
Brunno observou aquilo com fascinação.
— Veja só... — Ele murmurou, a língua passando lentamente pelos dentes. — O bom e velho Mattew se descontrolando. Isso me lembra de algo...
Ele se levantou, andando lentamente pelo cômodo, como se o provocasse com cada passo.
— Sabe, eu não canso de me divertir com isso! O conselho das sombras me caçou durante séculos e nunca, nunquinha mesmo, chegou perto de me ferir. — Ele fez uma pausa teatral, os olhos azuis brilhando de satisfação. — E tudo isso graças ao presente dela. Aos poderes que Lilith me deu.
Mattew franziu o cenho, as veias escuras se tornando mais evidentes em suas têmporas.
Aberração profana. — Ele cuspiu as palavras como se elas queimassem sua língua.
Brunno sorriu, malicioso.
— Ah, irmãozinho... — Ele se inclinou levemente para o lado, como se analisasse um quadro particularmente interessante. — Eu adoro quando você usa esses termos antiquados. Faz você parecer um velho padre desesperado para exorcizar algo que não entende.
Mattew cerrou os punhos, sentindo as unhas se alongarem, afiadas como lâminas.
Brunno notou e sorriu ainda mais.
— Mas sabe do que eu realmente gostei durante todos esses séculos? De te assistir perder. Repetidamente.
Mattew não respondeu, balançando a cabeça, tentando manter o controle.
— Felipa. — O nome veio como uma lâmina no escuro. — A bela imigrante italiana que você achou que era sua, mas que, na verdade, nutria um interesse bem maior por mim. E que delícia foi quando você me viu levando-a para a cama. O sangue imaculado escorrendo por entre suas pernas quando a fodi pela primeira vez.
Mattew piscou lentamente, suas mãos tremiam.
— Cinquenta anos depois... Edouard. — Brunno estalou a língua, balançando a cabeça. — O jovem cantor de ópera francês que você tentou proteger de mim. Mas não foi forte o suficiente. Eu o tornei meu. Acabou tendo que exterminá-lo com suas próprias mãos quando o conselho ordenou.
Mattew cerrou os dentes, seus olhos agora completamente tomados pela escuridão.
— E então, ah... a doce e inocente Daisy. — Brunno riu, meneando a cabeça como se relembrasse um velho amigo. — A pobre garotinha cega que você protegeu por anos, achando que eu a queria como arauto. Mas não, não... — Ele se aproximou, seu sorriso se tornando quase animalesco. — Eu apenas a matei. Porque foi divertido! E, claro... porque Lilith nunca aceitaria um arauto defeituoso.
O ar estalou entre eles.
Mattew não conseguiu segurar mais.
O grunhido que saiu de sua garganta foi baixo, gutural, um som primitivo que não pertencia a um homem, mas a algo muito mais antigo.
A transformação foi súbita.
A pele de Mattew tornou-se translúcida, cada veia negra pulsando sob a superfície como rachaduras em mármore polido. Seus olhos, antes verdes, agora eram um abismo escuro de íris completamente brancas. As unhas cresceram ainda mais, formando garras afiadas.
Brunno o observou com deleite.
— Aí está ele... — Ele sussurrou, os olhos brilhando em puro deleite. — Nosferatu.

O ataque veio sem aviso.
Mattew avançou com a força de um relâmpago, o impacto tão brutal que o som da madeira rachando foi abafado pelo baque de ambos os corpos colidindo. Ele agarrou Brunno pelo colarinho e os dois atravessaram a sala como uma tempestade viva.
A primeira parede se desfez em uma chuva de estilhaços.
O segundo cômodo — a antiga biblioteca — mal teve tempo de testemunhar a fúria antes que estantes inteiras se despedaçassem sob a batalha. Livros voaram como folhas secas, páginas rasgadas dançando pelo ar. Mattew enfiou as garras no peito do irmão, rasgando a camisa negra e perfurando a carne fria como lâminas.
Brunno gemeu.
Mas não foi um som de dor.
Foi de puro deleite.
— Isso… Isso é o que você sempre quis, não é? — Ele arquejou, as presas à mostra em um sorriso maníaco. — Finalmente me matar.
Mattew o jogou com força, atravessando uma estante que desmoronou em uma explosão de madeira e poeira antiga. Mas Brunno não caiu. No instante seguinte, ele estava sobre Mattew, dedos afundando na garganta do irmão.
O choque da luta fez os lustres tremerem. O piano no canto da sala rangeu quando um corpo foi lançado sobre ele, as teclas emitindo um som dissonante ao impacto.
Brunno, agora no topo, agarrou Mattew pelos cabelos e empurrou sua cabeça contra o chão de madeira rachada.
— Eu senti falta disso — ele murmurou, os olhos brilhando como fogo azul. — Do cheiro de sangue. Do calor da batalha.
Mattew rosnou.
Suas pernas dispararam, chutando Brunno com força suficiente para mandá-lo voando até a parede oposta. O impacto rachou o reboco, formando veios escuros ao redor da tapeçaria envelhecida.
Mattew ergueu-se lentamente, os músculos tensos, a respiração entrecortada.
— Eu vou arrancar sua cabeça.
Brunno apenas riu, cuspindo um filete de sangue escuro.
— Então tente.
Mattew disparou.
Eles colidiram mais uma vez, um borrão de sombras e garras afiadas. A luta os levou escadaria acima, os degraus de mármore rachando sob seus pés. Eles atravessaram o corredor como um furacão, derrubando mesas, quadros e espelhos que refletiam a selvageria do embate.
A segunda parede a ceder os jogou dentro do salão de jantar.
A imensa mesa de carvalho partiu-se ao meio quando Brunno caiu sobre ela, taças de cristal se estilhaçando ao seu redor. Mattew avançou, cravando os dedos na clavícula do irmão, empurrando-o contra a madeira quebrada.
— Fique. No. Chão.
— E perder a diversão? — Brunno cuspiu um riso, agarrando Mattew pelo pulso e girando.
Eles atravessaram outro móvel, o choque lançando uma onda de destroços pelo cômodo.
A luta era caos puro.
Gótica.
Poética.
Sangrenta.
Os dois vampiros eram criaturas saídas de uma era esquecida, desafiando as leis do mundo mortal.
Brunno se ergueu, o rosto manchado de sangue, mas os olhos brilhavam com um frenesi quase infantil.
— Você não entende, Mattew? Somos monstros!
Mattew limpou o sangue da boca, os olhos ainda mais escuros.
— Eu não sou como você.
Brunno riu, inclinando a cabeça como se avaliasse a mentira.
— Não? — Ele sibilou, lambendo o próprio sangue dos dedos. — Então me diga… Por que você ainda está lutando como se amasse isso?
O olhar de Mattew era frio como gelo.
— Porque eu vou te matar.
Os dois avançaram novamente.
Dessa vez, Mattew não segurou nada.
Seu punho acertou o rosto do irmão com uma força que rachou o chão sob eles. Um segundo golpe e Brunno foi jogado contra o bar de mogno, garrafas explodindo ao seu redor.
Ele cambaleou, sangue escorrendo pelo queixo.
Mas sorriu.
— Eu sabia. — Sua voz era quase um suspiro de êxtase. — Você ainda tem isso em você.
Mattew não hesitou.
Em um instante, ele estava sobre Brunno novamente, garras afiadas pressionadas contra a jugular do irmão. O chão tremia com cada impacto, os quadros pendurados nas paredes caindo um a um.
O teto começou a rachar.
A mansão Warrant gemia como um animal ferido.
As vigas rangiam, o piso de madeira rachado absorvia o sangue espesso que gotejava dos cortes abertos em seus habitantes. O lustre acima balançava perigosamente, cristais tilintando como sinos funerários. O ar era carregado com o cheiro de poeira antiga, vinho derramado e morte iminente.
Mattew pressionava as garras contra a jugular de Brunno, os músculos tensos, os olhos ardendo de ódio. Mas o sorriso do irmão nunca vacilou.
Foi então que aconteceu.
Os olhos azuis de Brunno – sempre desdenhosos, sempre frios – tremeram por um instante. Depois, como um rio contaminado por sangue, foram manchados por um vermelho intenso e profano.
Mattew sentiu o gelo na espinha antes mesmo de compreender o que estava vendo.
Aquele não era o vermelho comum dos vampiros excitados pela batalha ou sedentos por sangue. Não. Aquele era o carmesim antigo, o tom impuro dos que haviam aceitado os dons de Lilith. Uma aberração profana.
Brunno moveu-se tão rápido que Mattew nem teve tempo de reagir.
Num instante, era ele quem segurava a garganta do irmão. As garras se afundaram em sua pele, mas não perfuraram – apenas o mantiveram imóvel, como se estivesse brincando com uma presa.
Mattew arregalou os olhos.
Ele nunca fora fraco. Mas naquele momento, parecia.
Brunno sorriu. Seus caninos se alongaram, reluzindo sob a luz mortiça do salão devastado. O cheiro de sangue no ar pareceu excitá-lo ainda mais.
— Você sempre foi tão previsível, irmão — ele murmurou, aproximando os lábios do ouvido de Mattew. — Achou mesmo que teria alguma chance?
Mattew rugiu e tentou se soltar, mas Brunno o esmagou contra o chão. O impacto rachou a madeira embaixo deles.
— Você luta contra isso — Brunno continuou, a voz cheia de prazer. — Acha que se alimentar de animais vai te manter puro. Que pode sufocar o caçador faminto dentro de você.
Brunno cravou os dedos no maxilar do irmão e o forçou a encará-lo.
— Mas olhe para você agora.
Mattew arfava, o peito subindo e descendo de forma irregular. Havia algo errado. Seu corpo queimava. Seu coração, ou o que restava dele, pulsava dolorosamente.
Brunno sorriu mais largo.
— Você sente isso, não sente? A doença que te consome. — Sua voz era quase gentil, cruelmente doce. — A fome te corrói por dentro, Mattew. E sabe por quê?
Ele o levantou do chão apenas para arremessá-lo contra o bar destruído. O impacto fez mais garrafas explodirem em uma chuva de vidro e álcool.
— Porque você se nega a ser o que é.
Mattew tentou se levantar, mas seus membros estavam pesados, cada movimento um esforço.
— Você está se tornando um Nosferatu.
Brunno se aproximou lentamente, os pés descalços deslizando pelo sangue espalhado.
— Um vampiro no limite do descontrole. Perdendo sua beleza etérea. Substituindo-a pelo desespero da sede.
Mattew apertou os dentes.
— Cale. A. Boca.
Brunno riu.
— Você já sentiu, não sentiu? O espelho começando a te rejeitar. Sua pele ficando pálida demais, seus olhos afundando, suas presas se tornando grotescas.
Mattew avançou com um rugido, mas Brunno foi mais rápido.
Ele se desviou com a facilidade de quem já previa o golpe e, num piscar de olhos, torceu o braço do irmão para trás, o imobilizando.
— Você se tornou uma piada, Mattew — sussurrou, os lábios roçando a orelha dele. — Um príncipe da noite que tem medo da própria fome.
Então, sem aviso, ele o lançou contra a parede.
Dessa vez, Mattew não conseguiu reagir. O impacto abriu novas rachaduras no teto.
Brunno o observou escorregar para o chão, os olhos escarlates brilhando de prazer.
— Admita, irmão. Você nunca teve chance.
Mattew tentou se erguer, mas suas pernas falharam. A verdade estava ali, nua e cruel: Brunno sempre estivera além dele.
Brunno inclinou a cabeça, divertido, como um predador observando sua caça derrotada.
— Eu devia te matar agora.
Silêncio.
Apenas o tilintar distante de um lustre ainda balançando.
Então Brunno riu.
— Mas onde estaria a diversão nisso?
Ele se virou, os olhos já voltando ao azul pálido e cruel de sempre.
— Te ver definhar tentando me impedir será muito mais interessante.
Mattew ficou no chão, vendo o irmão se afastar, sentindo o peso de sua derrota.
Ele nunca teve chance.
E isso era o que mais doía.




Blue Lagoon era uma cidade onde o tempo parecia dançar entre o passado e o presente, onde a névoa pairava sobre as ruas de paralelepípedos e as fachadas coloniais refletiam a glória de um sul gótico, banhado em decadência e opulência.
Mas a residência dos Spier...
A residência dos Spier era um monumento à grandiosidade.
Localizada em uma região mais afastada da cidade, aninhada entre árvores centenárias e à beira da reserva florestal, a mansão não era apenas uma construção. Era uma extensão da própria paisagem, camuflada entre os troncos altos e o musgo que escorria pelas paredes de pedra como se a própria natureza a tivesse reivindicado. Seu exterior era uma fusão magistral de madeira envelhecida e amplas janelas de vidro, refletindo a luz dourada das lanternas antigas que iluminavam a entrada sinuosa.
A casa se erguia imponente, com varandas enlaçadas por colunas de ferro fundido, onde a vegetação subia como serpentes encantadas. Havia um charme indomável em cada detalhe – das molduras trabalhadas em carvalho negro até as portas de ferro ornamentadas com símbolos antigos, quase como runas esquecidas.
Ao atravessar o hall de entrada, a casa se desdobrava em um labirinto de cômodos grandiosos, repletos de relíquias e história. O piso de mármore negro refletia o brilho das luzes baixas, enquanto pesados lustres de cristal lançavam sombras alongadas pelas paredes decoradas com tapeçarias de épocas passadas.
A biblioteca era um templo do conhecimento, com estantes que se erguiam até o teto abobadado, escadas de madeira escura deslizando suavemente sobre trilhos de latão. Havia o cheiro de couro envelhecido e tinta desbotada, misturado ao aroma sutil de charutos que, em algum momento da história, haviam sido fumados ali.
A ala leste abrigava a galeria da família, um corredor extenso onde os retratos dos Spier pareciam vigiar cada visitante que ousava passar. Os olhos pintados pareciam vivos, penetrantes, carregados de segredos enterrados sob o peso dos séculos.
Mas era na ala oeste onde repousava o verdadeiro coração da casa.
Lá, os quartos se escondiam entre corredores sinuosos, cada um carregando uma identidade própria. O de George Spier, o patriarca, era o mais imponente – um refúgio de madeira escura e detalhes dourados, onde o aroma de velhas bebidas e o ranger discreto dos móveis conferiam um ar de poder inabalável.
E então havia ele...
Fred.
Seu quarto ficava no extremo da propriedade, afastado dos demais, como se precisasse de espaço para respirar. As paredes eram de um verde profundo, quase negro à meia-luz, e o teto abobadado era decorado com constelações entalhadas. Sobre a mesa de mogno, uma pilha de livros esquecidos repousava ao lado de um relógio antigo, seus ponteiros parados em uma hora desconhecida.
Mas Fred Spier não estava ali.
Não estava em lugar algum da casa.
A floresta ao redor da propriedade Spier era um labirinto de sombras e murmúrios noturnos. Os galhos se entrelaçavam como mãos esqueléticas, filtrando a luz da lua em feixes prateados que dançavam sobre o solo úmido. O cheiro de terra molhada e madeira antiga impregnava o ar, misturando-se ao distante eco dos pântanos que sussurravam segredos na brisa.
Ali, escondida nas profundezas da mata, repousava a clareira.
Era um lugar que não deveria existir.
O espaço aberto entre as árvores formava um círculo perfeito, como se a própria floresta temesse ultrapassar aquele limite invisível. O chão era coberto por uma relva densa, tão verde que parecia brilhar sob a luz da lua, e no centro da clareira, erguia-se um pilar de pedra esculpido na forma de um lobo em pose de guarda. O musgo subia por suas patas, e rachaduras profundas adornavam seu rosto feroz, mas seus olhos esculpidos ainda brilhavam com um brilho espectral.
Diante do pilar, dois homens carregavam um corpo desacordado.
Eles não falavam. Apenas caminhavam lentamente, como se estivessem cumprindo um ritual. Seus passos eram firmes, e a respiração pesada, misturando-se ao som distante das corujas escondidas entre os galhos.
O rapaz desacordado foi colocado contra a base do pilar, e as correntes foram afixadas a um par de algemas de ferro presas em seus pulsos. Os elos grossos refletiram a luz da lua, seus anéis antigos quase parecendo sussurrar histórias esquecidas.
Foi só então que George Spier se aproximou.
Mesmo sob a luz fria da noite, ele exalava poder.
Seus cabelos grisalhos estavam bem penteados, e sua postura ereta desafiava o peso dos anos. Apesar da idade avançada, seu corpo era forte, sua presença impiedosa. Vestia um casaco escuro, abotoado até o pescoço, e seus olhos, de um azul profundo, carregavam uma expressão impenetrável – um olhar de quem já havia visto demais.
Ele se ajoelhou lentamente diante do rapaz acorrentado.
E então, a lua iluminou seu rosto.
Fred.
Seu corpo estava coberto por uma fina camada de suor, os cabelos bagunçados grudando na testa. A respiração era irregular, como se seu próprio organismo estivesse lutando contra algo invisível. A camisa fina colava-se à pele úmida, revelando o contorno dos músculos tensos, estremecendo levemente.
George observou o neto por um longo momento, o olhar frio e calculista.
Então, sem pressa, ele se levantou.
— Começa esta noite — murmurou, sua voz soando quase profética na escuridão da floresta.
Os homens ao seu lado permaneceram imóveis, como estátuas.
Fred gemeu baixinho, a cabeça tombando para o lado.
Mas não havia escapatória.
Não daquela vez.
A floresta respirava ao seu redor.
O lobo de pedra observava.
E a lua, testemunha eterna da maldição dos Spier, brilhava acima deles.

O sol da Louisiana filtrava-se pelas amplas janelas da Blue Lagoon High School, lançando feixes dourados sobre o piso encerado dos corredores. A escola, uma construção antiga de tijolos avermelhados e colunas brancas, exalava um charme sulista que contrastava com a inquietação juvenil de seus alunos. O aroma da terra molhada após a garoa matinal misturava-se ao cheiro de café recém passado, carregado pelos professores que caminhavam apressados entre as salas de aula.
Na ala oeste, a turma de biologia avançada encontrava-se imersa em sua atividade prática.
Alexander estava sentado sozinho, diante do cadáver de um sapo, suas patas esticadas como se em um último espasmo. Ao redor, os demais alunos estavam emparelhados em duplas – Claire e Barbara na fileira logo atrás dele, Clara e Isaac à sua direita. Os murmúrios eram baixos, acompanhados pelo som metálico dos bisturis sendo manuseados.
— Os anfíbios... — começou o professor Maddox, ajustando os óculos sobre o nariz — são fascinantes porque servem como bioindicadores. A saúde deles reflete a saúde do nosso ambiente. Estudá-los não é apenas um exercício de dissecação, mas uma oportunidade de compreender melhor os impactos ambientais e, quem sabe, encontrar uma paixão que guie suas escolhas acadêmicas.
Ele fez uma pausa, observando a turma.
— Quem sabe entre vocês não há um futuro biólogo, médico ou pesquisador?
Alguns alunos trocaram olhares desinteressados. Outros continuaram observando o sapo como se esperassem que ele pulasse da mesa e encerrasse o tormento da aula.
Alexander segurava o bisturi entre os dedos, girando-o de forma distraída. Seu olhar vagava pela superfície brilhante da mesa, sem realmente se focar no cadáver à sua frente. Ele sentia a presença dos outros ao redor, mas sua mente estava em outro lugar.
Então, a porta se abriu com um rangido baixo.
Os olhares se voltaram na mesma direção.
Mattew.
Ele entrou com passos medidos, sua expressão neutra, mas algo nele parecia deslocado – talvez a palidez acentuada pela luz fria da sala, ou as olheiras que contrastavam com sua pele. Seus cabelos, levemente desalinhados, pareciam evidência de uma noite mal dormida.
O professor Maddox suspirou, empurrando os óculos para cima.
— Sr. Warrant, que bom que decidiu se juntar a nós.
O tom era levemente irônico, mas não severo.
— Desculpe o atraso, professor.
— Espero que não se repita. Pode se sentar. Como não há outro lugar disponível, ficará com Alexander.
O silêncio tomou conta da sala.
Mattew virou-se na direção de Alex. E então, os dois trocaram olhares.
Foi um sorriso breve. Mas carregado de algo indefinível.
O suficiente para que Claire e Barbara se entreolhassem, intrigadas.
Isaac, ao lado de Alex, permaneceu calado, mas seu olhar tinha um brilho enigmático, como se já soubesse a resposta para uma pergunta que ninguém ainda havia feito.
Mattew caminhou até a mesa de Alex e sentou-se ao seu lado, desajeitadamente.
— Oi...
Sua voz era suave, mas carregada de algo que Alex não conseguiu identificar de imediato.
— Oi.
O silêncio pairou entre eles por um segundo a mais do que o necessário.
Mattew então perguntou:
— Como foi sua noite?
Alexander piscou, ligeiramente surpreso pela pergunta.
— Dormi bem. E a sua?
Mattew hesitou.
Foi breve. Mas Alex notou.
— O fuso horário me atrapalhou um pouco.
Alex não respondeu de imediato. Observou o rosto de Mattew com atenção. Havia algo nele... algo que não combinava com o garoto que chegou em Blue Lagoon há poucos dias.
Mas antes que pudesse formular qualquer pensamento, o professor Maddox voltou a falar.
— Muito bem! Agora que temos todos aqui, continuem o trabalho. Quero que observem as estruturas internas do anfíbio e anotem suas observações.
Mattew pegou o bisturi, mas não parecia interessado no sapo.
Alexander, por outro lado, sentia o peso de uma presença nova e desconhecida ao seu lado.
E não sabia dizer por que, mas algo em Mattew o fazia sentir que nada mais em sua vida seria como antes.
O murmúrio constante da sala de aula envolvia Alexander e Mattew como um pano de fundo distante. O bisturi frio em sua mão parecia mais um objeto inerte do que uma ferramenta afiada, e o sapo diante deles era apenas um pretexto para o que realmente ocupava seus pensamentos.
Mattew movia os dedos sobre a mesa de aço inoxidável, seu olhar às vezes desviado para Alex de forma quase imperceptível. Mas Alex notava. Ele percebia o leve franzir das sobrancelhas do outro, a tensão discreta ao segurar o bisturi, como se fosse algo com o qual ele não quisesse lidar.
Alex pigarreou, tentando dissipar o silêncio estranho entre eles.
— Você parece cansado — comentou, sua voz baixa o suficiente para não atrair a atenção do professor. — Dormiu mal?
Mattew ergueu os olhos para ele, um brilho de surpresa passando rapidamente antes de se dissipar.
— Um pouco — respondeu, sua boca formando um quase sorriso. — Nada demais. Só preciso dormir mais cedo hoje, nada de passeios em campos de futebol.
Alex inclinou a cabeça ligeiramente, como se estudasse a resposta.
— Hmm.
O som foi mais um reflexo do que um julgamento, mas Mattew percebeu. Ele pareceu gostar da preocupação, mesmo que sua resposta fosse evasiva.
O professor Maddox passava entre as mesas, observando as dissecações. Alexander suspirou e se forçou a focar novamente no sapo.
— A propósito, me desculpe pelo atraso — Mattew disse, sua voz um pouco mais baixa.
Alex desviou o olhar do anfíbio para ele, franzindo o cenho.
— Não foi culpa sua. Eu nem sabia que você estaria nessa turma.
Mattew sorriu de lado, como se já esperasse essa resposta.
— Eu só... não queria que você se sentisse sozinho aqui — continuou, sua voz carregada de algo mais profundo. — Sei que essa cidade pode ser um lugar que tenta sufocar a gente, fazer com que a gente se oprima.
Alex sentiu um frio na espinha.
A forma como Mattew disse aquelas palavras, com uma convicção calma e ao mesmo tempo pesada, fez com que Alex sentisse que ele falava de algo muito mais profundo do que apenas a escola ou Blue Lagoon.
Ele segurou o bisturi novamente, dessa vez tentando cortar a pele do sapo com mais precisão.
Mas então, algo deu errado.
O bisturi deslizou de um jeito inesperado, saindo do curso que Alex pretendia. Ele não percebeu a falha até sentir um corte afiado abrir-se na lateral de sua palma.
Ele arfou em surpresa, sentindo a ardência espalhar-se rapidamente.
— Droga! — sussurrou, puxando a mão instintivamente para longe.
O sangue brotou de imediato, escorrendo quente por seus dedos e pingando na mesa prateada.
O tempo pareceu desacelerar.
O rosto de Mattew ficou imóvel. Seus olhos, antes carregados de um tom enigmático, agora estavam arregalados e escuros. Seu corpo enrijeceu, e seu olhar fixou-se na linha carmesim que escorria pela pele de Alex.
Ele não piscava.
— Mattew? — chamou Alex, sua voz carregada de estranheza ao perceber que o outro não reagia.
Nada.
Mattew não moveu um músculo.
O professor Maddox se aproximou.
— Alexander! Você se cortou?
Alex levantou a mão, mostrando o corte.
— Sim. Não foi nada demais.
Maddox suspirou e olhou ao redor.
— Mattew, por favor leve Alexander até a enfermaria.
Nenhuma resposta.
Alex virou-se para Mattew, esperando uma reação. Mas o outro ainda encarava o sangue em sua pele, como se estivesse hipnotizado.
O professor franziu a testa.
— Mattew?
Nada.
Foi Alex quem trouxe Mattew de volta.
Ele ergueu a outra mão, a que não estava machucada, e tocou de leve o ombro de Mattew.
O toque foi sutil, mas foi como um choque elétrico.
Mattew piscou rapidamente, recuando na cadeira como se tivesse sido arrancado de um transe. Seus olhos subiram para os de Alex, e ali havia algo diferente — um medo palpável, misturado a algo mais primitivo.
Alex engoliu em seco.
— Você está bem?
Mattew hesitou, então assentiu devagar.
— Sim, sim! Vamos.
Mas enquanto ele se levantava para guiá-lo até a enfermaria, Alex não pôde ignorar o fato de que, por um momento, Mattew parecia um predador diante de uma presa ferida.
Os corredores eram mais silenciosos do que o habitual enquanto Alexander e Mattew caminhavam lado a lado.
O corte em sua mão ardia levemente, mas Alex tentava ignorar a sensação. Ele olhou de relance para Mattew, que andava ligeiramente à frente, mantendo a cabeça baixa.
Desde o momento em que o sangue brotara de sua pele, algo havia mudado no jeito do outro garoto.
Seu corpo parecia tenso, como se estivesse segurando um impulso violento dentro de si.
Quando finalmente chegaram à enfermaria, a enfermeira, Sra. Holloway, levantou os olhos de um bloco de anotações e franziu a testa ao vê-los entrar.
— O que aconteceu?
— Me cortei na aula de biologia. — explicou Alex, erguendo a mão ensanguentada.
A enfermeira bufou, já se levantando para pegar o kit de primeiros socorros.
— E o professor deixou você vir sozinho?
Alex abriu a boca para responder, mas seu olhar foi atraído por Mattew, que permanecia parado próximo à porta, completamente imóvel.
Seus olhos estavam cravados na bandeja metálica sobre a mesa, onde uma pilha de gases e algodões sujos de sangue repousava, restos de algum outro aluno que passara pela enfermaria mais cedo.
Mattew não piscava.
Alex sentiu um arrepio.
— Mattew?
Nenhuma resposta.
— Pode se sentar aqui — disse a Sra. Holloway, gesticulando para Alex antes de lançar um olhar a Mattew. — Você também está ferido?
— O quê? — Mattew piscou, como se voltasse à realidade. — Ah... não. Apenas ele.
Sua voz soou estranhamente rouca, e Alex sentiu novamente aquela inquietação rastejar sob sua pele.
Ele se sentou, e a enfermeira começou a limpar o corte com delicadeza, derramando um antisséptico que ardeu contra a pele. Alex fez uma careta.
O cheiro do sangue fresco se espalhou pelo ambiente.
Mattew pareceu endurecer ao lado deles.
Ele estava tentando não respirar.
A enfermeira não percebeu, concentrada no ferimento.
Alex, porém, observou cada detalhe.
A maneira como Mattew mantinha os punhos cerrados, como se estivesse lutando contra algo dentro de si. O jeito que sua respiração era medida, cuidadosa, como se estivesse calculando cada fôlego.
— Isso vai precisar de alguns pontos — disse a Sra. Holloway, sem rodeios.
Alex suspirou, assentindo.
Enquanto a enfermeira pegava o material necessário, ele lançou um olhar rápido para Mattew.
— Você está bem?
Mattew demorou um segundo a mais para responder.
— Sim.
Alex arqueou uma sobrancelha.
— Não parece.
Mattew fechou os olhos por um instante, como se estivesse contando até dez.
— Só não gosto de hospitais.
A resposta veio rápido demais.
Alex inclinou a cabeça, sentindo que havia muito mais ali do que Mattew estava disposto a admitir.
A enfermeira começou a dar os pontos, e Mattew virou o rosto. Mas, mesmo sem olhar diretamente, sua mandíbula estava travada.
Quando o curativo foi colocado e o ferimento devidamente tratado, a enfermeira sorriu.
— Pronto, garoto. Nada de pressão nessa mão por um tempo, entendido?
Alex forçou um sorriso.
— Entendido.
A Sra. Holloway então pegou os algodões e gases sujos de sangue e os descartou, sem notar o olhar intenso de Mattew seguindo cada movimento.
Alex percebeu.
E não gostou do que viu.

Mattew não disse nada enquanto eles caminhavam pelos corredores de volta ao armário de Alex.
O burburinho da escola voltava ao normal, alunos indo e vindo conversando entre si, mas Alex se sentia isolado dentro da tensão invisível que pairava entre ele e Mattew.
Finalmente, ao chegar ao armário, Alex parou e se virou para o outro.
— Ok, agora você precisa me dizer o que está acontecendo.
Mattew desviou o olhar.
— Eu não sei do que você está falando.
— Não brinca comigo. Você ficou estranho desde que eu me cortei.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Mattew apertou os lábios, os olhos fugindo dos de Alex.
— Eu... preciso ir.
Alex franziu a testa.
— O quê? Espera...
— Eu preciso ir.
E antes que Alex pudesse insistir, Mattew simplesmente virou as costas e saiu andando pelo corredor, desaparecendo na multidão de alunos.
Sem mais explicações.
Sem sequer se despedir.
Alex ficou ali, parado, sentindo um peso no peito que ele não conseguia explicar.
Algo estava acontecendo.
E ele iria descobrir o que era.

O dia transcorreu sem grandes turbulências após o estranho episódio na enfermaria.
Alexander recebeu um pouco mais de atenção do que o normal — Barbara e Claire se certificaram de acompanhá-lo durante o almoço, e Clara, sempre espirituosa, fez algumas piadas sobre seu "sacrifício heroico" na aula de biologia.
— Eu só queria entender como você conseguiu ser a única pessoa a se machucar dissecando um sapo — brincou ela, roubando uma batata frita do prato de Alex.
— Talento — murmurou ele, girando o canudo no copo de refrigerante.
As garotas riram, e por um momento, Alex tentou se convencer de que tudo estava normal.
Que a forma como Mattew olhou para seu sangue não significava nada.
Que sua reação estranha e sua fuga repentina eram apenas coincidências.
Mas, no fundo, ele sabia que não eram.
Agora, o dia estava chegando ao fim, e o céu da Louisiana começava a se tingir de tons alaranjados, preparando-se para dar lugar ao azul profundo da noite.
Barbara e Claire precisavam ir embora, então Alex se despediu delas no portão da escola.
— Nos vemos amanhã! — disse Barbara, lançando-lhe um olhar ligeiramente avaliador.
Claire franziu os lábios.
— E nada de acidentes, ok?
— Vou tentar... — respondeu Alex com um pequeno sorriso.
Quando as duas desapareceram pela calçada, ele ficou parado ali por um momento, respirando fundo.
Ele não queria ir para casa ainda.
O silêncio da mansão dos seus pais seria insuportável.
Então, seguiu pelo caminho que levava ao campo de futebol nos arredores do campus escolar.

O campo se estendia diante dele, envolto pela luz dourada do pôr do sol. A arquibancada estava praticamente vazia, exceto por algumas mochilas largadas pelos jogadores do time, que ainda treinavam no gramado.
Alex se sentou em um dos bancos superiores, um pouco afastado.
Lá embaixo, os jogadores corriam, gritos e comandos ecoando pelo campo.
Foi então que ele o viu. Isaac.
Ele estava no centro da movimentação, trajando o uniforme preto e dourado do time da escola. Mesmo de longe, era impossível não notar sua presença.
Ele era um dos melhores jogadores do time: rápido, estratégico, e com um olhar sempre atento ao jogo.
Mas naquele momento, não era a bola que Isaac estava observando.
Era Alex.
Por um instante, Alex sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Isaac segurava a bola sob o braço, parado no meio do campo. Ele inclinou ligeiramente a cabeça, como se analisasse Alex à distância.
E então, ele sorriu.
Um sorriso enigmático, carregado de algo que Alex não conseguiu decifrar.
Ele desviou o olhar, tentando ignorar a sensação de que, mesmo em meio à multidão, era como se estivesse sozinho com Isaac naquele campo vazio.
E isso o deixava... desconfortável.
O tempo escorria preguiçoso enquanto Alexander se acomodava na arquibancada de madeira, retirando um livro da mochila.
A capa já estava gasta pelo uso, as páginas levemente amareladas, mas ele não se importava. Ele havia perdido a conta de quantas vezes já lera aquele livro.
“O Ladrão de Noites.”
Era um conto mítico que remontava aos séculos passados. Uma história sobre um ser condenado a vagar pela Terra, alimentando-se da vitalidade dos outros para sobreviver. Diferente dos vampiros tradicionais, o Ladrão de Noites não buscava sangue, mas sim a energia dos sonhos e desejos alheios.
Ele aparecia nos momentos de maior vulnerabilidade das pessoas – quando estavam prestes a dormir, quando estavam embriagados pelo desejo ou pelo medo. E, com um sussurro ao pé do ouvido, roubava tudo que fazia delas quem eram.
Algumas versões do mito diziam que ele era um castigo dos deuses, um mortal amaldiçoado por desafiar a própria natureza. Outras, que era um espírito ancestral, um guardião de segredos que nunca deveria ter sido revelado.
Alexander folheava as páginas, perdido na história, sem perceber o tempo passar.
A cada palavra, sentia um arrepio na espinha, como se alguém estivesse o observando.
Mas ignorou.
Até que uma voz rouca e divertida quebrou o silêncio.
— Tá tão interessante assim?
Alexander sobressaltou-se.
Levantou os olhos e viu Isaac sentando ao seu lado, perto demais.
O jogador largou a mochila no chão e inclinou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos, observando Alex com aquele sorriso despreocupado, mas perigosamente provocativo.
— Você anda sempre tão distraído assim ou é só quando eu estou por perto? — ele murmurou, a voz carregada de diversão e algo quase desafiador.
Alexander não respondeu de imediato.
Inspirou fundo, fechando o livro com um movimento brusco e o enfiando de volta na mochila.
Ele não estava com paciência para as investidas de Isaac.
— Você namora a Clara — disse, direto. — E, por sinal, fez ela me odiar.
Isaac riu baixo.
— Ah, Alex… no final das contas, todo mundo vai te odiar quando finalmente enxergarem quem você realmente é.
Alexander sentiu o sangue ferver.
Antes que pudesse se conter, ele se virou abruptamente, seu corpo reagindo antes da mente.
Agarrando a gola da camisa de Isaac, puxou-o para perto, os rostos a centímetros de distância.
— O que diabos você quer, Isaac?!
O jogador não pareceu surpreso com a reação de Alex.
Na verdade, parecia até divertido.
— Eu? Quero uma explicação.
— Explicação pelo quê?!
— Pelo fato de que você me ignorou.
Alexander franziu o cenho, confuso.
— Do que você está falando?
Isaac sorriu. Mas dessa vez, havia algo diferente no seu sorriso.
Algo sombrio.
Ele inclinou a cabeça para o lado e então murmurou:
— Você realmente não percebeu?
Silêncio.
Os olhos de Isaac brilharam com algo perigoso, e então ele riu de leve.
— Isso só torna tudo mais interessante.
Alexander continuava sem entender até que Isaac se inclinou ainda mais, sussurrando como se estivesse contando um segredo.
— Você não apareceu.
— O quê?
— No cemitério.
O estômago de Alex gelou.
Isaac deu um sorriso afiado.
— Surpresa!
Foi então que tudo fez sentido.
A mensagem anônima.
O encontro marcado no cemitério.
A sensação de que alguém estava sempre observando.
A verdade atingiu Alexander como um raio.
Isaac.
Ele era a pessoa misteriosa por trás das mensagens.
E agora, ele estava jogando com ele.
Alexander engoliu em seco.
O ar parecia ter ficado mais pesado, carregado de eletricidade, enquanto Alexander tentava processar a revelação.
Isaac.
Ele era a pessoa misteriosa por trás das mensagens.
Mas isso não explicava tudo.
Alexander estreitou os olhos, a raiva misturada ao medo borbulhando sob sua pele.
— Foi você quem armou aquele ataque no cemitério? — Sua voz saiu afiada, cortando o silêncio entre os dois. — Mandou aqueles caras atrás de mim como alguma vingança mesquinha?
Isaac ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa.
— Ataque? — ele repetiu, inclinando a cabeça para o lado. — Você acha que eu mandaria uns brutamontes idiotas atrás de você?
Alexander não comprou a falsa inocência.
Ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre os dois.
— Um deles fez questão de dizer seu nome, Isaac! — cuspiu as palavras, sentindo o sangue ferver. — Disse que você espalhou para todo mundo o quão vadia eu sou.
Isaac riu.
Riu.
Não havia remorso ou hesitação. Apenas diversão.
E então, antes que Alexander pudesse reagir, Isaac se moveu rápido demais, agarrando-o pelo pulso e o puxando bruscamente.
Alex tropeçou para trás e bateu contra a arquibancada com um baque surdo.
Isaac aproveitou a vantagem.
Apoiou uma das mãos na arquibancada, do lado da cabeça de Alex, e a outra segurou firme em sua cintura, mantendo-o preso contra a madeira gasta.
Seus corpos estavam colados.
Isaac estava por cima, prendendo Alex entre suas pernas.
— Eu menti, por acaso? — murmurou, a voz baixa, carregada de malícia.
Alexander tentou se soltar, mas Isaac não cedeu.
— Sobre o quê?
Os lábios de Isaac se curvaram em um sorriso perigoso.
— Sobre o que eu andei dizendo por aí...
Alex sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um medo primitivo e algo que se assemelhava a vergonha.
Isaac continuou arrastando as palavras como quem saboreava cada sílaba.
— Que quando você queria se divertir, não media esforços.
Os olhos dele brilharam com escárnio.
— Podia ser um cara comprometido do time de futebol… ou um estudante gostosinho da Whitmore. No final, você sempre conseguia o que queria, não é?
Alexander sentiu o estômago revirar.
Ele lutou contra o aperto de Isaac, tentando empurrá-lo para longe, mas o outro era mais forte.
— Eu mudei! — cuspiu.
Isaac soltou um riso sarcástico.
— Mudou? — Aproximou-se ainda mais, os lábios quase roçando a orelha de Alex. — Tudo isso não passa de uma fachada de bom moço.
Alexander cerrou os dentes, as mãos tremendo.
Mas Isaac não parou.
— E na primeira oportunidade… — A voz dele desceu para um tom quase sedutor — …você vai levar o novato para a sua cama.
Alexander o encarou, os olhos brilhando de fúria.
— Ou talvez… — Isaac continuou deslizando uma das mãos perigosamente para a coxa de Alex. — …vão se aventurar por aí, como a gente fazia.
Foi o estopim.
Alexander perdeu a paciência.
Com um grito de raiva, ele ergueu o punho e socou Isaac no rosto.
Uma dor lancinante explodiu por sua mão já machucada.
Ele urrou, sentindo a pele arder e algo estalar em seus dedos.
Mas Isaac mal se moveu.
Ele apenas passou a língua pelo canto da boca, onde um pequeno corte se abriu.
E então, seu olhar mudou.
— Você perdeu a noção do perigo, Alex?!
Antes que Alexander pudesse reagir, Isaac agarrou seu pescoço com força.
A mão dele apertou, os dedos pressionando a pele sensível.
Alexander engasgou, levando as mãos ao pulso de Isaac, tentando se soltar.
Mas não tinha força suficiente.
O ar começou a faltar.
O mundo pareceu girar por um instante.
E então...
— Solta ele.
A voz cortou o ar como uma lâmina.
Fria. Ameaçadora.
Isaac congelou.
Aos pés da arquibancada, uma figura surgiu, vestida de preto da cabeça aos pés.
Brunno.
Ele vestia um sobretudo de couro escuro, as roupas estilosas e perfeitamente ajustadas ao corpo. Seus olhos estavam cravados em Isaac, duros e predatórios.
— Ou você o solta agora… — Brunno deu um passo à frente, a presença dele carregada de um perigo quase palpável — …ou eu te levo direto para a delegacia por agressão.
Por um momento, tudo permaneceu em silêncio.
Alexander arfava, o peito subindo e descendo com dificuldade.
Isaac segurou seu pescoço por mais um segundo.
Então, soltou.
Os dedos se afastaram da pele de Alex, e ele cambaleou para trás, engolindo o ar como se tivesse acabado de emergir debaixo d’água.
Isaac o observou por um instante.
Depois, virou-se lentamente para Brunno.
O olhar que trocou com ele era perigoso.
— Isso não acabou.
E com isso, pegou sua mochila do chão e se afastou, passando por Brunno sem tirar os olhos dele.
Brunno ficou parado, observando-o se distanciar.
Somente quando Isaac desapareceu de vista, ele se voltou para Alexander.
— Você está bem?
Alexander mal conseguia responder.
O coração ainda martelava contra suas costelas.
O ar parecia denso ao redor deles, carregado de algo que Alexander não conseguia nomear.
Mas ele sabia de uma coisa.
Aquilo estava longe de terminar.

A silhueta de Isaac desapareceu na névoa dourada do entardecer, deixando para trás apenas a lembrança da violência sufocante.
Alexander ainda sentia o aperto fantasma em seu pescoço, a pele latejando onde os dedos de Isaac haviam pressionado. Seu peito subia e descia em respirações curtas e irregulares, e ele levou a mão trêmula até a garganta, como se pudesse apagar a sensação.
Brunno, parado a poucos passos dele, observava tudo em silêncio.
Foi só então que Alexander percebeu que suas mãos estavam tremendo.
O soco que ele dera em Isaac reabriu o ferimento, e o curativo em sua mão estava agora encharcado de sangue. Uma gota escarlate escorreu pelo seu pulso, tingindo sua pele clara.
Ele apertou os dedos ao redor do ferimento, tentando conter o sangramento, mas o gesto só fez a dor pulsar ainda mais forte.
— Me deixa ver.
A voz de Brunno veio firme, mas não agressiva.
Antes que Alexander pudesse protestar, Brunno segurou sua mão com firmeza, puxando-a suavemente para mais perto.
Alexander engoliu em seco.
O toque era frio.
Diferente do de Isaac, que queimava como brasa, o de Brunno era como uma brisa cortante em uma noite gelada.
Os dedos dele deslizaram sobre a pele manchada de sangue, avaliando o ferimento com um olhar afiado.
— Você tem o péssimo hábito de se machucar, não é? — murmurou, quase para si mesmo.
Alexander tentou soltar a mão, mas Brunno segurou firme.
E então, aconteceu.
Brunno afastou o curativo sujo e, por um instante, ficou imóvel.
Seu olhar escuro se fixou no sangue.
Seus dedos tocaram de leve a pele suja de vermelho, como se analisasse a textura.
Alexander viu quando ele levou o polegar sujo de sangue próximo ao nariz, inconscientemente inalando.
Os olhos dele brilharam por um instante.
Não com aquele azul frio e analítico de sempre.
Mas vermelhos.
Alexander piscou, seu coração martelando no peito.
Ele realmente viu isso?
A lembrança do olhar intenso de Mattew mais cedo veio como um raio.
Os curativos sujos.
Aquele jeito estranhamente fascinado.
— Brunno… — Sua voz saiu quase rouca, quebrada pela incerteza.
Brunno piscou algumas vezes.
O brilho vermelho desapareceu, deixando apenas o tom azul profundo de sempre.
Ele franziu a testa por um segundo, como se estivesse tentando entender por que Alexander o encarava com tamanha intensidade.
Então, soltou sua mão abruptamente.
Alexander puxou o braço para si, esfregando o pulso como se precisasse se certificar de que ainda estava inteiro.
Um silêncio pesado se instalou entre eles.
Foi Alexander quem decidiu quebrá-lo.
— Obrigado.
Brunno ergueu uma sobrancelha.
— Pelo quê?
— Por me livrar do Isaac.
Brunno deu de ombros, como se o episódio não fosse grande coisa.
Mas Alexander não se deixou enganar.
O olhar dele ainda estava carregado de algo que ele não sabia nomear.
E ele não pôde mais ignorar a sensação de que algo estava errado.
— Eu conheci Mattew hoje — comentou, tentando soar casual.
O nome pareceu prender a atenção de Brunno.
— É mesmo?
— Sim… — Alexander hesitou. — E ele agiu do mesmo jeito.
Brunno permaneceu em silêncio.
— Ele ficou estranhamente fascinado pelo meu sangue. Igual a você agora.
Brunno finalmente sorriu.
Mas não era um sorriso comum.
Era lento, enigmático.
E perigoso.
— É mesmo? — repetiu, com um tom divertido demais.
Seu coração ainda batia acelerado. Ele engoliu em seco antes de perguntar:
— Vocês têm algum tipo de fobia? Ou nojo de sangue?
A pergunta fez Brunno arquear uma sobrancelha, mas sua expressão permaneceu neutra, quase entediada.
— Isso é uma teoria médica? — Brunno rebateu, o tom levemente irônico.
Alexander cruzou os braços, franzindo a testa.
— Eu estou falando sério.
Brunno suspirou e então deu de ombros.
— Mattew sempre foi um garoto problemático. Desde criança. Ele adora chamar atenção.
Alexander sentiu que havia algo a mais na forma como Brunno falava do outro garoto, uma implicância oculta, talvez algo mais profundo.
Mas então, Brunno completou:
— E eu? Não sou como ele. Mattew não suporta ver sangue desde que perdemos nossos pais.
Alexander sentiu um peso frio se instalar no peito.
— Sinto muito.
Brunno apenas deu de ombros.
O movimento foi seco, indiferente, como se o luto fosse apenas uma sombra esquecida no passado.
— Acontece. — Foi tudo o que disse, encerrando o assunto sem dar espaço para mais perguntas.
Alexander sentiu que, se insistisse, apenas encontraria paredes.
Mas algo dentro dele lhe dizia que a história ia muito além daquela resposta curta.
Brunno então mudou completamente o rumo da conversa:
— Preciso que você me acompanhe até a delegacia.
Alexander piscou, confuso.
— O quê?
Brunno deslizou as mãos nos bolsos do casaco, observando a reação de Alexander com um olhar calculista.
— Os policiais encontraram os caras que te atacaram no cemitério. Você precisa fazer o reconhecimento.
O sangue de Alexander gelou.
De repente, o peso daquele dia inteiro desabou sobre ele.
A dor no pescoço. O ferimento na mão. O choque de ser atacado no cemitério.
Ele não estava pronto para encarar aqueles rostos novamente.
Brunno percebeu seu silêncio e estreitou os olhos.
— Eu estarei com você.
Alexander olhou para ele, tentando encontrar alguma firmeza naquelas palavras.
Havia algo na maneira como Brunno dizia isso…
Como se fosse uma ordem, mas ao mesmo tempo uma promessa.
Ele não o deixaria sozinho.
Alexander respirou fundo e assentiu lentamente.
— Tudo bem.
— Ótimo. Mas antes...
Brunno apontou para a mão de Alexander, agora ainda mais encharcada de sangue.
— Vamos dar um jeito nisso.




A delegacia de Blue Lagoon era uma construção antiga, que carregava nos tijolos desgastados as histórias de uma cidade repleta de segredos. Diferente das delegacias metropolitanas iluminadas e movimentadas, essa possuía um tom melancólico e quase esquecido, com uma fachada que misturava a elegância colonial de Nova Orleans com o peso da decadência do tempo.
Alexander sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao cruzar as portas de vidro, sentindo o cheiro forte de café requentado, papel e uma leve nota metálica que ele preferia não identificar.
O piso de madeira rangia sob seus pés enquanto ele e Brunno avançavam pelo saguão. As luzes fluorescentes piscavam sutilmente, lançando sombras instáveis pelas paredes cobertas de murais de procurados e casos arquivados.
Os poucos policiais presentes ergueram o olhar quando Brunno entrou, e Alexander percebeu que eles o cumprimentavam com um respeito silencioso. Não era um tratamento forçado ou meramente profissional—havia algo quase instintivo na maneira como acenavam para o detetive, como se Brunno tivesse uma presença que exigia atenção e deferência.
Brunno apenas respondeu com acenos sutis e continuou guiando Alexander pelos corredores estreitos.
O som de telefones tocando e dedos digitando nos teclados misturava-se a conversas abafadas, criando um ambiente de atividade contida. Mas, mesmo com o movimento, a delegacia parecia estranhamente vazia.
Alexander percebeu que ninguém estava detido nas celas visíveis pelo caminho. Um pensamento inquietante se formou em sua mente—onde estavam os rapazes que o atacaram?
Mas antes que pudesse verbalizar a pergunta, Brunno abriu a porta de uma sala no final do corredor.
— Entre.
Alexander hesitou por um segundo antes de obedecer.
A sala de Brunno era simples, mas havia algo nela que quebrava a frieza burocrática de um ambiente policial.
A escrivaninha de madeira escura estava organizada, com poucos papéis empilhados ao lado de um laptop e uma caneca preta com a inscrição “Trust No One” desbotada pelo tempo. Havia uma estante pequena ao fundo, repleta de arquivos misturados a livros de capa dura — títulos que iam desde clássicos policiais até algo que parecia literatura esotérica.
Uma jaqueta de couro estava jogada sobre uma poltrona de couro preto ao lado da janela, e um quadro de cortiça atrás da mesa exibia algumas fotos e anotações rabiscadas.
Alexander percebeu que uma delas era uma foto da entrada do cemitério.
A cena da noite do ataque voltou em sua mente, e sua respiração ficou levemente acelerada.
Brunno se encostou na mesa, cruzando os braços.
— Antes de falarmos sobre o reconhecimento, você está bem?
Alexander piscou algumas vezes, tentando processar a pergunta.
Depois de tudo que aconteceu, ele não tinha certeza.
Mas ao invés de admitir isso, apenas assentiu.
— Sim.
Brunno o observou por um longo momento antes de desviar o olhar para a mão enfaixada de Alexander.
— Espero que tenha uma boa memória, eu sei que tem sido difícil revisitar aquela noite. Porque antes de tudo, preciso que você descreva os rostos daqueles caras…
Alexander engoliu em seco.
Alexander inspirou fundo, mas o ar parecia pesado, como se a própria delegacia estivesse absorvendo sua ansiedade e devolvendo em forma de umidade e silêncio opressor. Ele olhou para Brunno, que agora estava recostado em sua cadeira, os olhos azuis profundos e enigmáticos, como se analisassem algo além do que ele dizia.
— Você realmente não lembra de mais nada? — A voz de Brunno era calma, mas carregava um peso implícito.
Alexander apertou os dedos ao redor do curativo em sua mão.
— São apenas flashes... — ele admitiu, desviando o olhar para a mesa. — Luzes, vozes distorcidas, a dor... Mas os rostos...
Brunno suspirou, esfregando o maxilar antes de se inclinar para frente, os antebraços apoiados na mesa.
— Certo. Vamos fazer isso direito.
Ele apontou para o telefone fixo da delegacia, um modelo antiquado, com fio espiralado e botões desgastados.
— Quero que ligue para seus pais.
A menção fez o estômago de Alexander revirar.
— Por quê?
— Os próximos passos vão exigir o acompanhamento de um familiar... ou um advogado.
O tom dele não dava espaço para discussão.
Alexander engoliu em seco e pegou o telefone, discando o número de sua casa. Seu pai estava em uma viagem de negócios, o que significava que sua mãe seria a única opção.
O telefone chamou três vezes antes de uma voz feminina atendeu.
— Alô?
— Mãe...
Houve um instante de silêncio antes da voz dela se tornar preocupada.
— Alex? O que houve?
Ele hesitou, trocando um olhar breve com Brunno antes de responder:
— Preciso que venha até a delegacia. Agora.
O tom de urgência em sua voz bastou para que Arya não fizesse perguntas.
— Estou a caminho.
Alexander desligou e ficou parado por um momento, tentando controlar a inquietação.
Brunno não disse nada. Apenas pegou um fichário sobre a mesa e começou a folhear documentos, a expressão ilegível.
Vinte minutos depois, Arya Montgomery entrou pela delegacia com um passo determinado, os olhos escuros varrendo o ambiente até pousarem em Alexander, mas o encontrando apenas na sala do detetive. Ele já estava de pé ao lado da mesa de Brunno, ansioso, e ao vê-la sentiu uma onda de alívio momentâneo.
— Meu Deus, Alex! — Ela se aproximou, segurando o rosto do filho entre as mãos antes de puxá-lo para um abraço. — O que está acontecendo? Você está bem?
— Eu estou bem, mãe.
Brunno se levantou e pigarreou suavemente.
— Senhora Montgomery.
Arya virou-se para ele, os olhos afiados, avaliando o detetive.
— Já nos conhecemos, não é?
— Sim, quando peguei o depoimento de Alex no hospital.
A voz dele era mais suave, quase doce. Diferente do tom profissional e meticuloso que usava com Alex.
— Agradeço por cuidar dele.
— É meu trabalho. — Brunno sorriu de forma educada, mas havia algo estranho nele. Algo que Alexander não conseguia definir.
— Vamos? — Ele gesticulou para que o acompanhassem pelo corredor. — Você só precisa se preocupar em reconhecer os rostos. Nada mais.
Arya segurou a mão do filho enquanto caminhavam, e Alexander percebeu que seus dedos estavam frios.
Ele tentava se concentrar no som dos sapatos ecoando pelo chão, na luz amarelada das lâmpadas... Mas seu cérebro insistia em voltar para um detalhe perturbador:
— Brunno... — Sua voz cortou o silêncio. — Quando chegamos aqui, eu não vi ninguém nas celas.
Brunno parou também.
Virou-se para Alexander, inclinando a cabeça levemente para o lado, como se estivesse avaliando suas palavras.
Então Alex viu a sombra de um sorriso nos lábios de Brunno.
Mas havia algo sutilmente errado naquele sorriso.
— Eu nunca te disse que eles foram presos.
Alexander sentiu um nó no estômago ao ver para onde Brunno estava olhando.
No final do corredor, havia uma porta metálica.
Sobre ela, uma única palavra gravada em letras frias e impessoais.
NECROTÉRIO.
Alexander sentiu o sangue congelar.

O cheiro no necrotério era uma mistura sufocante de produtos químicos, metal gelado e algo sutilmente orgânico, que se agarrava à garganta como uma sombra persistente. As luzes fluorescentes acima lançavam um brilho opaco sobre as superfícies de aço inoxidável, tornando o ambiente ainda mais asséptico e impessoal.
Alexander parou na entrada, os pés se recusando a avançar. Seu coração estava acelerado, o pulso ecoando em seus ouvidos. Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando seus olhos caíram sobre as macas metálicas enfileiradas, cada uma coberta por um lençol branco.
Eles estão ali.
A constatação caiu sobre ele como uma pedra no peito.
Os homens que me atacaram.
Ele sentiu Arya colocar a mão em seu ombro, apertando de leve em um gesto silencioso de apoio. Mas o frio não vinha apenas da sala. Ele vinha de dentro dele.
O som de passos ecoou pela sala. Um homem de meia-idade, vestindo um jaleco branco e luvas cirúrgicas, aproximou-se com um sorriso cansado. Ele tinha cabelos grisalhos bem cortados e óculos de aro fino equilibrados na ponta do nariz.
— Arya Montgomery. — Ele inclinou a cabeça, os olhos castanhos se iluminando com um misto de surpresa e pesar. — Bom vê-la de novo... embora fosse melhor em circunstâncias diferentes.
Arya apertou os lábios, seu rosto permanecendo impassível, mas seu olhar entregava algo próximo de reconhecimento.
— Doutor Hensley.
O homem assentiu e então olhou para Alexander.
— Este deve ser seu filho.
— Alexander — Brunno interveio antes que Arya precisasse responder. O detetive passou um olhar atento pelo legista antes de se virar para Alex.
O garoto estava pálido, a tensão enrijecendo seus ombros.
Brunno se aproximou, sua presença forte e firme.
— Respire fundo, Montgomery. — A voz dele era baixa e controlada, um tom que carregava segurança. Autoridade. — Você está seguro aqui. Eles não podem mais machucá-lo.
Alexander piscou algumas vezes, tentando focar na voz dele.
Seguro.
Essa palavra não parecia se encaixar. Como se algo ali dentro dissesse o contrário.
Mas Brunno o olhava com uma convicção tão firme que, por um segundo, Alexander quis acreditar.
Então, o Doutor Hensley limpou a garganta e caminhou até a fileira de macas.
— Imagino que queiram começar.
O silêncio do necrotério se desfez no instante em que o lençol branco deslizou para trás, revelando a visão grotesca e brutalizada do corpo diante deles.
Alexander prendeu a respiração.
Ele não esperava algo tão... violento.
O que jazia sobre a maca não era exatamente um corpo. Era o que restou de um.
A carne estava rasgada em lacerações fundas e irregulares. Ossos despontavam onde devia haver músculos e pele. O rosto do líder dos rapazes que o atacaram estava quase irreconhecível, marcado por mordidas profundas, como se tivesse sido estraçalhado por algo selvagem, algo faminto.
Alexander cambaleou um passo para trás.
E então, os flashes vieram.
Escuridão.
Sons de passos correndo no cemitério.
Uma respiração pesada atrás dele.
Olhos brilhantes na escuridão.
Um grito estridente, rasgado, interrompido por algo gorgolejante.
Sangue.
Muito sangue.
Alexander se engasgou com o ar ao ser arrancado da lembrança. Sua visão oscilava entre o necrotério e os flashes caóticos de sua memória, entre a sala iluminada e a escuridão úmida do cemitério.
Ele balançou a cabeça, tentando clarear a mente, mas o peso da revelação parecia apertar seu peito.
Eu vi isso.
Eu vi isso naquela noite.

Seu estômago revirou, e um arrepio gélido subiu por sua coluna.
— Isso já é o suficiente — Brunno interveio, sua voz baixa, mas firme. Ele trocou um olhar com o legista, que imediatamente cobriu o corpo novamente.
Alexander deu um passo vacilante para trás, sentindo o suor frio escorrer pela nuca.
Foi então que Arya Montgomery se aproximou do corpo, estudando-o com um olhar que misturava horror e precisão clínica.
Ela inspirou fundo e virou-se para Brunno.
— Isso não é um corpo. — Sua voz era afiada, controlada, mas carregada com algo próximo ao choque. — São pedaços!
Brunno franziu a testa, observando-a com atenção renovada.
— Ele foi mutilado — Arya continuou, os olhos escuros fixos no que estava diante dela. — Isso não foi um simples ataque. Isso foi... uma carnificina.
Brunno sustentou o olhar dela por alguns segundos, avaliando sua expressão.
Ela não estava assustada como alguém normal estaria.
Ela estava analisando.
O detetive inclinou levemente a cabeça.
Interessante.
O Doutor Hensley pigarreou, chamando a atenção de todos de volta para ele.
— O padrão das mordidas e os rasgos indicam o ataque de um animal grande e selvagem. — Ele ajustou os óculos, consultando algumas anotações antes de prosseguir. — Algo como um puma ou um lobo.
O sangue de Alexander gelou.
Um lobo...
Na Louisiana?
Os pulmões de Alexander pareciam incapazes de puxar o ar. A sala fechada, a luz fria e os odores químicos se tornaram opressores. Ele sentiu sua cabeça latejar, o coração disparado.
Ele precisava sair dali.
Agora.
Antes que alguém pudesse detê-lo, ele girou nos calcanhares e correu para a saída do necrotério.
— Alex! — A voz de Arya soou atrás dele, mas ele não parou.
Ele atravessou os corredores da delegacia com passos rápidos, ignorando os olhares dos policiais enquanto empurrava a porta da saída e emergia no ar úmido da noite de Blue Lagoon.
A brisa tocou sua pele quente, e apenas então ele percebeu o quanto estava tremendo.



A noite pairava sobre Blue Lagoon como um manto pesado, impregnada com o perfume doce e enjoativo das magnólias que se misturava ao cheiro úmido da terra recém-remexida. A lua, alta e solitária no céu, derramava sua luz prateada sobre as lápides e mausoléus que compunham o Cemitério de Saint Evangeline, um dos mais antigos da Louisiana.
Mattew Warrant caminhava sem rumo, os passos pesados sobre o cascalho, os ombros tensos como se carregassem um fardo invisível. Ele ainda sentia a presença de Alexander Montgomery cravada na pele, como um eco persistente que se recusava a desaparecer.
Por que ele me afeta desse jeito?
As palavras de Alex na arquibancada martelavam em sua mente, misturadas ao próprio descontrole que sentiu ao ver o sangue escorrendo da mão dele.
Aquele cheiro. Aquela visão.
Mattew cerrou os punhos e passou uma mão pelos cabelos bagunçados, tentando afastar os pensamentos intrusivos.
Ele precisava se recompor.
Sem perceber, seus passos o guiaram ao coração do cemitério—um lugar que ele conhecia bem demais.
Ali, entre estátuas de anjos decadentes e jazigos de famílias antigas, erguia-se a construção que atestava o peso de sua herança:
O Mausoléu dos Warrant.
Era uma estrutura imponente, com colunas gregas que sustentavam um frontão detalhado por inscrições em latim, entalhadas com precisão milimétrica no mármore negro. A entrada principal era adornada por uma porta de ferro forjado, cravejada com símbolos ancestrais e um brasão de família desgastado pelo tempo.
No centro do frontão, uma frase gravada há séculos parecia encará-lo como um aviso silencioso:
"Mors Vincit Omnia."
A Morte Vence Tudo.
As chamas trêmulas das lanternas de gás presas às laterais lançavam sombras dançantes sobre os relevos macabros de caveiras e guirlandas de flores murchas. A presença do mausoléu era como um espectro vivo no cemitério, um lembrete da grandeza e da tragédia que marcaram os Warrant desde a fundação de Blue Lagoon.
Mattew tocou a superfície fria do mármore, sentindo a pulsação acelerada sob os dedos. Esse lugar deveria trazer paz. Mas tudo o que trazia era um peso esmagador.
Ele fechou os olhos.
O passado dos Warrant sempre esteve envolto em mistério e segredos sombrios.
E, no fundo, Mattew sabia que também era parte disso.
Mattew deu alguns passos para trás, afastando-se da grandiosa estrutura e permitindo-se observá-la à distância. Era estranho como, mesmo depois de tanto tempo, aquele lugar ainda pesava sobre ele.
Era mais do que um túmulo para os mortos. Era um lembrete daquilo que ele jamais poderia ser novamente.
A ponta de seus dedos ainda carregava o frio do mármore, mas não era o frio da pedra que lhe causava calafrios, era o frio da lembrança.
O peso da imortalidade era um fardo que seus irmãos carregavam com orgulho. Mas Mattew? Ele nunca quis aquilo. Nunca quis perder sua humanidade.
E tudo isso por causa dele.
Brunno.
O nome ecoou em sua mente como um golpe seco no peito.
Ele foi o responsável.
O responsável por transformar ele e seus irmãos naquela maldição. Por tomá-los à força e jogá-los em um mundo de escuridão, sem direito a escolha.
E mesmo agora, séculos depois, Mattew ainda sentia o eco daquela noite maldita. O gosto do sangue. O calor da vida se esvaindo.
Ele fechou os olhos e respirou fundo, buscando um fio de controle. Mas antes que pudesse se afogar completamente naquela dor antiga, uma voz se ergueu no silêncio do cemitério:
— O martírio de um homem que carrega um fardo que nunca pediu.
Mattew virou-se bruscamente, seus olhos se fixando na silhueta que emergia das sombras entre os túmulos.
Wanda Avery.
A velha matriarca da família Avery estava ali, parada com sua postura elegante e olhar afiado como uma lâmina bem afiada. A avó de Claire tinha a presença de alguém que sabia mais do que deveria—de alguém que sempre soube.
Mattew estreitou os olhos, reconhecendo não apenas a mulher, mas o poder que ela exalava.
Ele sabia quem Wanda Avery era.
E, mais importante, sabia o que ela era.
— Sempre o mais diferente de seus irmãos, não é, Mattew? — Wanda continuou cruzando as mãos sobre a bengala de madeira esculpida, os olhos perspicazes analisando-o de cima a baixo.
O som de seu nome na boca dela fez um arrepio subir por sua espinha.
Mattew engoliu em seco.
Ele podia sentir.
Aquela mulher não estava ali por acaso. Ela nunca fazia nada por acaso.
Mattew hesitou por um instante antes de se aproximar. O vento frio do cemitério agitava os galhos das árvores retorcidas ao redor, lançando sombras distorcidas sobre as lápides antigas. O silêncio era quase opressor, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas secas sob seus pés.
Ele olhou nos olhos de Wanda Avery e, por um momento, se esqueceu do peso do tempo.
— Faz décadas, Wanda. — Sua voz saiu baixa, controlada, mas carregada de uma estranha nostalgia. — É um prazer vê-la novamente.
Wanda inclinou a cabeça levemente, um sorriso sutil brincando em seus lábios. Havia um brilho de reconhecimento e, ao mesmo tempo, algo mais profundo ali.
Ela ergueu uma das mãos finas e enrugadas e, sem pressa, acariciou o rosto de Mattew. O toque era surpreendentemente quente para alguém de sua idade. Um gesto de carinho. De velhos amigos.
— O tempo foi cruel com você, meu querido. — Sua voz era baixa, como um sussurro que carregava os ecos de memórias antigas.
Mattew piscou, confuso. Cruel? Não. O tempo havia sido uma maldição. Mas Wanda parecia enxergar algo além da imortalidade que lhe havia sido imposta.
— Você não mudou nada desde a última vez que nos vimos, Mattew. Eu, por outro lado… — Ela soltou um pequeno riso, quase amargo. — A última vez que cruzamos caminhos, eu acabara de assumir meu posto. O meu legado.
Mattew franziu a testa, analisando aquelas palavras.
— Seu posto… — ele repetiu, a mente girando para encaixar as peças. — Você se tornou a Guardiã.
Wanda assentiu, os olhos carregando uma melancolia silenciosa.
— O posto sempre passou de geração em geração dentro da minha família.
Mattew ponderou por um momento. Ele sabia que Blue Lagoon tinha seus segredos, e os Avery sempre estiveram no centro deles.
Mas então, algo lhe ocorreu.
Ele soube que Wanda havia se casado. Soube que ela teve uma filha.
E, pela lógica, essa filha deveria ter assumido o posto.
Seu olhar se estreitou.
— E sua filha? — Ele perguntou, a voz baixa, hesitante. — Por que ela não assumiu o legado?
Wanda desviou os olhos por um instante, e Mattew percebeu a dor cravada em suas expressões.
— Ela partiu cedo demais — a Guardiã disse, o pesar carregado em cada sílaba. — Pouco depois de dar à luz minha neta.
A revelação fez um calafrio percorrer a espinha de Mattew.
Claire.
A neta de Wanda.
O nome dela acendeu algo em sua mente, e com ele, vieram outras imagens.
Alexander.
Mattew ficou imóvel, seus pensamentos girando como uma tempestade silenciosa. Não podia ser coincidência. A aparição de Wanda Avery no cemitério não fora um simples acaso.
A velha matriarca manteve o olhar fixo nele, os olhos tão sábios e enigmáticos quanto sempre foram.
Então, ela sorriu.
Não era um sorriso comum. Era o sorriso de alguém que já sabia exatamente o que se passava na mente de Mattew antes mesmo que ele formulasse as palavras.
— Vejo que finalmente ligou os pontos, meu querido — ela disse, inclinando ligeiramente a cabeça.
Mattew umedeceu os lábios, sentindo o peso da revelação se abater sobre ele como um manto frio.
— Você não apareceu aqui por acaso — ele disse, e não era uma pergunta.
Wanda soltou um pequeno riso, o som ecoando de forma quase fantasmagórica pelo cemitério silencioso.
— Nada nessa cidade acontece por acaso, garoto — ela respondeu, sua voz carregada de um humor sombrio.
Mattew cruzou os braços, tentando manter o semblante neutro, mas sua mente estava a mil. Por que tudo estava girando em torno de Alexander?
E mais importante… por que agora?
Ele não conseguiu evitar a pergunta:
— O que esse garoto tem de tão especial?
Wanda ficou em silêncio por um momento, como se saboreasse a tensão no ar. Então, ela deu um passo mais perto e inclinou a cabeça para o lado.
— Você se lembra da profecia, Mattew?
O sangue dele gelou.
Havia muitas profecias sobre vampiros, mas só uma lhe vinha à mente no momento.
— Aquela que fala sobre a criança nascida do oculto… — ele murmurou, quase como se não quisesse dar voz à ideia que se formava em sua mente.
— A mesma — Wanda confirmou, os olhos cintilando com um brilho de conhecimento profundo.
Mattew franziu o cenho.
— Mas essa profecia é só um mito. Uma história contada para amedrontar os mais jovens.
— Ah, meu caro… — Wanda riu suavemente. — Quantas "histórias" você já não viu se tornarem realidade?
Mattew ficou em silêncio.
A profecia falava de uma criança concebida sob o véu do oculto, nascida através de magia negra, cujo destino era se unir a um ser das trevas e trazer destruição ao mundo.
Mas isso não fazia sentido. Alexander Montgomery era um garoto normal, comum.
Não era?
A risada baixa de Wanda quebrou seus pensamentos.
— Desde o momento em que ele e seu irmão nasceram, o destino de Alexander sempre esteve entrelaçado à escuridão.
Mattew estreitou os olhos, confuso.
— Irmão? — ele repetiu.
Ele havia investigado o suficiente para saber que Igor Montgomery estava desaparecido desde o encontro com Brunno na Noruega. Não havia registros de outro irmão.
Como poderia haver um outro irmão?
Wanda o olhou com paciência, como se esperasse por essa reação.
E então, como se estivesse mais uma vez lendo seus pensamentos, ela disse:
— Igor e Alexander são irmãos de coração.
Mattew sentiu um arrepio subir por sua espinha.
— De coração?
A velha matriarca assentiu lentamente.
— Alexander não é filho biológico dos Montgomery. — Sua voz era baixa, mas carregada de significado. — Ele foi adotado.
Mattew sentiu o mundo girar por um instante.
— E quem são os pais dele?
Wanda deu um passo à frente e pousou sua mão frágil sobre o peito de Mattew, como se para prepará-lo para a revelação que viria.
— A mãe dele foi uma sacerdotisa poderosa. Uma mulher que sucumbiu à atração do oculto, tendo sido abençoada por algo perverso.
Mattew não ousou piscar.
— Ela gerou duas crianças a partir de seu poder.
O silêncio caiu sobre os dois como um manto pesado.
Mattew sentiu cada peça do quebra-cabeça se encaixando, formando uma imagem que ele não queria aceitar.
O vento úmido de Blue Lagoon varreu o cemitério, agitando a folhagem retorcida das árvores e fazendo as velhas correntes dos portões chacoalharem num ranger sinistro. Mattew encarava Wanda Avery com uma intensidade gélida, os olhos escuros refletindo a incerteza que se instaurava em seu peito.
— Alexander tem poderes, não tem? — ele perguntou, a voz baixa e carregada de desconfiança. — Eles podem estar adormecidos, mas existem. É isso que Brunno viu nele.
Wanda suspirou pesadamente, seus dedos enrugados apertando com mais força a bengala esculpida.
— Brunno enxerga além do que nós conseguimos, Mattew. Ele não age por impulso. Ele planeja. Manipula. — A velha matriarca ergueu os olhos para o vampiro, sua expressão carregada de um peso que atravessava gerações. — Brunno é uma ameaça muito maior do que você, eu ou o Conselho já viram. E o seu propósito é claro: trazer Alexander para as trevas. De uma forma ou de outra.
A boca de Mattew se contraiu numa linha rígida.
— Então, ele está destinado a ser um arauto de Lilith?
Assim que Mattew pronunciou aquelas palavras, Wanda Avery paralisou.
Os olhos da mulher se perderam em um ponto fixo, e seu corpo inteiro começou a tremer.
— Wanda? — Mattew franziu a testa e segurou a idosa pelos ombros, mas ela não reagiu.
Era como se tivesse sido sugada para outra realidade. Uma visão.
O coração de Mattew martelou dentro do peito. Ele já tinha visto algo assim antes.
Os segundos pareceram uma eternidade até que Wanda inspirou profundamente, como alguém emergindo de um pesadelo. Suas mãos buscaram as vestes de Mattew com desespero, e seu olhar, antes afiado, agora estava tomado pelo terror.
— Lilith… — ela sussurrou. — Ela é o ser que batizará a criança que trará a destruição ao mundo.
Mattew não piscou.
— Brunno pretende entregá-lo a ela — Wanda continuou, sua voz trêmula. — O escolhido. Aquele que foi predestinado a se tornar o Príncipe das Sombras.
O silêncio caiu como um trovão.
A revelação foi um golpe tão forte que Mattew precisou de alguns segundos para processar.
Brunno estava preparando Alexander para Lilith.
A profecia não era um mito. Era real.
Wanda segurou os braços dele com força, as unhas fincando levemente sua pele.
— Você precisa manter Alexander longe de Brunno! — A urgência em sua voz era desesperadora. — Se ele consumar a transformação, o começo do fim do mundo será certo!
Mattew respirou fundo, tentando afastar a sensação de que tudo estava desmoronando a sua volta.
Ele precisava de respostas.
— E o irmão de Alexander? — ele indagou, o olhar sombrio. — Quem é ele? Quem foi a mãe deles?
Wanda o soltou lentamente e ajeitou o casaco de lã sobre os ombros, como se tentasse recuperar um pouco de sua compostura.
— O irmão de Alexander está protegido — ela disse, sua voz voltando ao tom habitual. — Os feiticeiros mais poderosos de Nova Orleans garantiram isso. Ele está seguro… com a própria família.
Mattew franziu o cenho.
— A própria família? — ele repetiu, seu tom carregado de suspeita.
Foi então que uma sombra passou pelos olhos de Wanda.
Mattew sentiu o peso da verdade pairando no ar, sentiu a resposta antes mesmo que Wanda a dissesse.
— A mãe de Alexander era uma Vassiliev — Wanda revelou.
O nome caiu sobre Mattew como um relâmpago.
Os Vassiliev.
Os feiticeiros mais antigos e poderosos que já existiram.
Um nome cruzou sua mente, um nome enterrado nos segredos do oculto.
— Ilyana Vassiliev — ele murmurou.
Wanda assentiu lentamente.
— Ela foi a sacerdotisa que gerou duas crianças através de sua magia — A idosa começou, sua voz tingida de uma tristeza ancestral. — Sem qualquer vínculo paterno de sangue. Apenas a pura magia para gerá-los.
O mundo de Mattew escureceu ao ouvir aquelas palavras.
— A primeira criança nasceu com os cabelos brancos como a luz mais pura — Wanda continuou. — Ela foi chamada de Quentin e possuía uma habilidade natural para a magia.
Mattew mal respirava.
— A segunda criança… — A voz de Wanda vacilou por um instante, como se cada palavra carregasse um peso incalculável. — Nasceu com o destino de destruir o mundo.
O ar ao redor de Mattew parecia congelar.
— Os Vassiliev foram forçados a matar essa criança… — Wanda disse. — Mas uma mulher se recusou a aceitar esse destino.
Mattew estreitou os olhos.
— Quem?
— Teresa. A irmã de Ilyana.
O nome soou distante para Mattew. Teresa Vassiliev. Uma bruxa que há muito tempo havia desaparecido das lendas e dos registros.
— Ela acreditava que o destino não era uma sentença inquebrável — Wanda continuou. — E decidiu dar à criança uma chance.
Mattew sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
Ele já sabia o que viria a seguir.
— Mas para isso… — Wanda apertou a bengala. — A criança precisaria crescer cercada por amor. Amor que os Vassiliev jamais lhe dariam.
Mattew piscou, sentindo a última peça se encaixar.
— Então ela o entregou a alguém. — Ele concluiu.
Wanda assentiu.
— A um amigo próximo — ela disse. — Um homem casado, que jurou proteger a criança a todo custo.
O peso daquela verdade foi esmagador.
O casal já tinha um filho. Eles decidiram dar à criança um novo nome, um novo começo.
Um nome que a afastasse do seu destino sombrio.
Mattew fechou os olhos. Ele sentiu a verdade se arrastar para dentro de sua alma, fria e inevitável.
Então, num sussurro que se dissolveu no vento do cemitério, ele completou a história:
— Alexander.
Wanda observou Mattew, seus olhos carregados de tristeza e urgência.
Agora, não havia mais dúvidas.
Alexander Montgomery não era apenas um garoto comum perdido entre forças sobrenaturais.
Ele era Maximilian Vassiliev.
E seu destino era destruir o mundo.


Continua...


Nota do autor: Revisitar The Darkness mais de onze anos após ter escrito seu primeiro rascunho é como abrir um baú antigo e reencontrar uma versão minha que ainda acreditava que tudo era possível, especialmente quando a caneta estava em minha mão (ou os dedos no teclado).
Essa história nasceu como uma fanfic, uma mistura apaixonada de The Vampire Diaries com Crepúsculo, dois universos que despertaram em mim, quando mais novo, o desejo de contar histórias sobrenaturais com emoção, intensidade e personagens imperfeitos. Eu não fazia ideia, na época, que esse impulso criativo me levaria a construir algo tão maior.
Com o tempo, The Darkness foi se transformando. As reescritas, os desvios de trama, as ideias ousadas e os personagens que se recusaram a ser apenas arquétipos... tudo isso deu cor própria à história. É verdade que, em alguns momentos, você ainda pode encontrar ecos das minhas influências iniciais — e eu as carrego com orgulho. Mas o que existe aqui agora é meu. Um mundo com sua própria mitologia, sua própria voz, suas próprias regras. Um universo compartilhado onde cada criatura, cada magia e cada sombra carrega um pedaço da minha alma.
Eu tomei liberdades. Reinventei lendas. Desafiei o que já estava escrito sobre vampiros, bruxas, lobisomens, caçadores e outros seres. E, talvez, essa seja a maior magia de todas: a liberdade de criar.
Se você chegou até aqui, obrigado. Obrigado por me acompanhar nessa jornada tão pessoal, tão antiga e tão nova ao mesmo tempo. Eu espero de coração que você sinta o que senti ao escrever: o frio na espinha, a empolgação, o encantamento e, acima de tudo, o amor por contar histórias.
Nos vemos nas próximas páginas.
Nas próximas sombras.

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