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Longfic

The Fix

por

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Prólogo
Daisy


A música fazia o chão inteiro da fraternidade vibrar. Não era apenas a música, mas as conversas e risadas que ecoavam pela casa. Haviam algumas luzes vermelhas atravessavam a fumaça artificial espalhada pela sala, muitas pessoas dançando juntas — um pouco apertadas graças ao espaço —, além de garrafas abertas em todas as superfícies possíveis, conjuntamente aos copos coloridos e garrafas de cerveja barata.
Era exatamente o tipo de caos que costumava amar. Não apenas pelo o que aquilo representava, mas pela liberdade que exalava. Fazia seis meses desde a última vez que havia estado ali. Seis meses desde Briar, do adeus à Olivia e da rotina das duas como melhores amigas. Seis meses desde o "término" desagradável com Dean Di Laurentis. Seis meses desde o adoecimento de seu pai, e consequentemente, desde a fatídica briga com sua mãe. E a única coisa que ela desejava, era que ele tivesse deixado toda aquela história para trás. Todo aquele drama.
não estava desacostumada a receber olhares, mas sabia que algumas pessoas haviam a reconhecido. Não era apenas o vestido dourado contrastando com a pele branca levemente bronzeada e os cabelos ruivos; era realmente um cochicho e burburinho costumeiro de quando algo poderia escalonar para uma fofoca. Mas não se fez necessário, em vista de que alguém esbarrou nela. Quando ela levantou o olhar para encarar, as palavras faltaram no loiro a sua frente:
— Foi mal, eu—
A voz morreu quase que imediatamente. Dean Di Laurentis congelou no meio da sala, encarando-a com uma expressão indecifrável. O copo de cerveja permaneceu na mão direito, mas ele pareceu apertá-lo. Os olhos claros ficaram arregalados, presos nela como se estivesse vendo uma assombração. E talvez estivesse mesmo. Porque tinha desaparecido sem olhar para trás no semestre anterior, depois de desistir do amor de verão que tivera com o loiro. E era notável o quanto aquilo o havia ferido.
Não era sobre o término. Dean não era um homem de namorar, de qualquer forma; mas era inegável que seu ego fora ferido por ela, uma pessoa que já conhecia e confiava há tantos anos. E talvez esse fosse o grande pilar dos problemas que ambos enfrentaram no relacionamento: eram muito parecidos. Incapazes de aprofundar-se sentimentalmente na vida um do outro, sem que houvesse manipulação ou vulnerabilidade envolvido. Mesmo que se conhecessem há muito tempo, não se permitiram aprofundar e mostrar suas vulnerabilidades.
?! — Dean finalmente soltou, incrédulo.
Ao redor deles, algumas conversas começaram a cessar discretamente. Porque, querendo ou não, as pessoas perceberam a tensão formando-se no ar. Até mesmo Beau, que estava ao lado do amigo, deu um passo para deixá-lo de frente à garota. Ele era o único que sabia absolutamente sobre tudo, afinal.
, por sua vez, abriu um sorriso pequeno e controlado. Não queria perder a classe em seu retorno, ou deixar explícito para todos sobre a tensão quase que palpável com o loiro. Aquela era uma história privada somente à eles.
— Oi, Dean.
Só isso. Mas foi o suficiente pra ele parecer perder completamente a linha de raciocínio. E então ela sentiu o olhar de forma intensa, quase que queimando sobre sua pele. Mas nenhuma outra palavra saiu dos lábios do loiro, que apenas saiu dali em completo silêncio.
Não foi o que ela esperava, mas não fora tão ruim quanto havia fantasiado. Sabia que acabaria deparando-se com ele em algum momento, principalmente tratando-se de uma festa. Só não imaginou que Dean realmente falaria com ela após... tudo.
— Ah, meu Deus. A vadia voltou!
Uma voz feminina e estridente se fez presente. Olivia Palmer recebeu sua amiga com pulinhos, animada ao ver em sua frente após tanto tempo. Ela praticamente se jogou em cima de em um abraço forte e carinhoso, ao passo que a ruiva riu pela primeira vez desde que adentrou por aquela porta.
De verdade dessa vez.
— Você 'tá bêbada, Palmer?
A menina dá uma gargalhada gostosa, como se fosse óbvio, em um tom de voz divertido:
— Bastante! Mas emocionalmente lúcida para receber minha melhor amiga.
Olivia segurou o rosto dela dramaticamente, arregalando os olhos. Espalmou cada uma das mãos sobre as suas bochechas antes de prosseguir, de forma levemente dramática.
— Olha pra você, ! Cabelo maior. Fez tatuagem. Parece que você aprontou nessa viagem!
— Talvez. — deu de ombros com uma risadinha.
— Gostosa. Respeito!
Ambas riram e se encaminharam até a cozinha, indo em direção às garrafas de cerveja. amava Olívia com todo seu coração, mas tópicos familiares ainda eram delicados para serem discutidos abertamente. Então a situação de seu regresso a casa fora classificado como um intercâmbio para estágio, e não para cuidar de seu pai adoentado e da sua família desfuncional.
Falar sobre George, seu pai, nunca fora difícil, mas sua mãe, Camila, era um tópico delicado. Aqueles semestre não fora um período nada fácil, mas foi muito importante para ela estar ao lado do pai naquele momento.
tomou um longo gole da cerveja amarga antes de prestar atenção nas perguntas incessantes da amiga, pois queria afastar-se dos devaneios:
— Você voltou pra ficar? Você sumiu, eu fiquei tão preocupada, não me respondeu... Você vai me contar tudo sobre o estágio, né? Sabe que estou curiosa...
O barulho da festa continuava ao redor delas. passou o dedo indicador ao redor do bocal da garrafa, sorrindo de forma involuntária:
— Sim e sim. Mas calma, Liv. Uma coisa de cada vez.
Olivia praticamente explodiu em felicidade, animada em ter sua melhor amiga de volta. Ela não parou de tagarelar, fazendo uma espécie de recap dos últimos meses para a amiga, incluindo fofocas, boatos e novidades. E apesar de tudo isso, ainda se sentia a mesma de antes.
Só não sabia que tudo estava prestes a mudar.
Capítulo I

O Beijo

John Logan


Abril

A música que emanava da república Phi Omega estava tão alta que fazia o chão vibrar sob meus tênis surrados. Ou talvez fosse só a grande quantidade de álcool começando a bater, revirando em meu estômago de forma nada confortável.
Haviam luzes vermelhas na sala principal que piscavam de forma rítmica sobre os corpos suados, copos coloridos e pessoas gritando a música em uníssono. Reconheci a canção como Party In The U.S.A., ao passo que a sala parecia cada vez mais cheia de gente e de vozes estridentes.
Dean já tinha desaparecido fazia pelo menos meia hora — provavelmente atrás de alguma garota disposta a transar com ele — e Tucker estava na cozinha discutindo com alguém sobre cerveja artesanal como se fosse um especialista. Aquilo era o normal entre nós e eu deveria estar me divertindo. Afinal, o semestre estava quase acabando e as fraternidades faziam festas infinitas nessa época, com garotas suficientes para preencher todos os dias da minha semana.
Era exatamente o tipo de vida universitária que qualquer cara sonhava ter. Então por que diabos eu continuava pensando em Hannah Wells?
Virei mais um gole da cerveja, puto, mas era inútil. O amargor da bebida parecia ter sido transferido para mim. E Hannah, por sua vez, ainda estava lá, em meus pensamentos, linda, ao lado do cara que eu era mais leal em toda minha existência.
Garrett.
A porra do meu melhor amigo Garrett Graham. Isso simplesmente piorava tudo, porque seria muito mais fácil lidar com essa merda se eu pudesse odiar o cara. Mas não dava, porque Graham é provavelmente o melhor ser humano que já conheci. Um bom amigo, bom jogador, absurdamente leal, fiel e completamente encantado por Hannah. O que transformou meus pensamentos em uma mistura nojenta de culpa e frustração.
Tomei outro gole longo de cerveja, me amaldiçoando por dentro. Passei tanto tempo em meus devaneios que a cerveja já estava quente dentro do copo.
Ótimo.
Mal humorado, ouvi algumas risadas perto de mim, mas mal prestei atenção no teor do assunto. Uma garota loira esbarrou no meu braço esquerdo e sorriu para mim daquele jeito presunçoso e calculado que normalmente funcionaria comigo, passando a mão pelo braço musculoso e pedindo “desculpas” com a voz fina e anasalada. Todavia, infelizmente para ela, minha cabeça estava exausta de tudo aquilo e eu não estava no clima.
Definitivamente não estava no clima.
Passei a mão pela nuca, ainda irritado comigo mesmo. A fumaça de gelo seco começou a me sufocar, então já sem paciência, atravessei a cozinha lotada e segui em direção aos fundos da casa, atravessando o corredor estreito. Ao passo que ia em direção à saída, o barulho diminuía gradativamente conforme fechei a porta dos fundos atrás de mim. Finalmente senti a porra do ar frio em meio ao silêncio que só a natureza poderia me proporcionar.
A área externa da Phi Omega era iluminada somente por algumas lâmpadas amareladas presas perto da varanda de qualquer. O céu azul estava escuro, bonito e estrelado, compondo uma típica noite primaveril.
O gramado verde estava completamente vazio, com cadeiras de praia largadas às traças, exceto por uma garota sentada na mureta baixa perto da cerca. Ela estava fumando um beck, presa demais em seus pensamentos para notar a minha presença repentina. Por um segundo ridiculamente longo, meu cérebro simplesmente parou. Talvez fosse pela beleza dela, ou pelo fato de estar completamente alheia à festa. Eu sinceramente não sabia, mas minha boca foi mais rápida que meu raciocínio lógico:
Caralho.
A palavra escapou da minha boca antes que eu percebesse. A garota virou a cabeça e ergueu os olhos imediatamente, como se tomasse um susto. E seus olhos eram lindos pra caralho; azuis e claros mesmo sob a luz baixa, atentos, avaliando minha existência inteira em menos de dois segundos. Os cabelos ruivos eram longos e estavam espalhados de forma perfeitamente alinhada por suas costas nuas, revelando as linhas finas de uma tatuagem que não identifiquei imediatamente do que se tratava.
E então, ela riu. Não de forma forçada, mas curta e surpresa, como se estivesse impressionada com a minha ousadia e o comentário ou até mesmo com a minha presença. Sua risada era gostosa, doce, mas extremamente elegante.
Uau. Isso que eu chamo de entrada triunfal.
Seu sotaque britânico deixou sua voz ainda mais sexy. Era fina e doce, o que me fez imaginar ela gemendo. Porra, eu parecia um imbecil com mulheres agora. Precisava me lembrar de nunca mais misturar tantas bebidas depois disso.
Eu sabia que deveria responder alguma coisa inteligente. Mas em vez disso, permaneci apenas olhando, porque ela era simplesmente absurda. Os cabelos ruivos iluminados estavam soltos em ondulações, ao passo que ela usava um top bege com uma saia jeans minúscula, que parecia ter metade do tamanho com ela sentada. Era exatamente o tipo de mulher que claramente sabia o efeito que causava sem precisar fazer esforço nenhum.
E não parecia fazer questão nenhuma de ser vista, o que era ultrajante.
Ela deu outra tragada no beck, como se estivesse relaxando. Piscou os olhos devagar enquanto o fazia, parecendo mais entretida naquilo do que na nossa conversa de fato.
— Vai continuar me encarando ou pretende formular uma frase inteira?
Isso me fez voltar para o próprio corpo. Soltei uma risada baixa pelo nariz, um pouco sem graça, passando a mão entre meus cabelos longos e colocando uma das mãos nos bolsos. Talvez ela tenha notado o tempo que despendi observando seu corpo perfeitamente delineado e sua expressão misteriosa.
— Desculpa, foi sem querer.
Ela tomou a cabeça para a direita, com graça, sorrindo para mim. Um sorriso lindo, mas ordinário. E extremamente perigoso.
— Desculpa pelo palavrão ou pela crise existencial?
— Ambos.
Ela sorriu de canto, mais uma vez. E como se não estivesse envolvido até o pescoço naquela conversa, dei alguns passos até a mureta, me aproximando dela o suficiente para sentir seu cheiro de baunilha que impregnou em minhas narinas. Provavelmente o cheiro mais doce e gostoso que já senti.
— Não sabia que a Phi Omega tinha convidados sofisticados assim — brinquei, tomando um gole da cerveja quente e me arrependendo instantaneamente por isso.
Talvez ela fosse caloura ou até mesmo intercambista. Mas eu tinha certeza absoluta que nunca a vi no campus, eu com certeza me lembraria se a visse em algum jogo ou algo assim. Talvez ela não fosse uma grande fã de hóquei, de qualquer forma. Porém, eu lembraria dela se tivesse a visto. A beleza dela beirava ao angelical e ela era extremamente sedutora e uma mulher assim não passava despercebida.
— Me impressiona um jogador de hóquei saber reconhecer sofisticação.
— Isso foi cruel. — Toco o peito dramaticamente, como se estivesse ofendido com suas palavras.
De qualquer forma, mesmo com a voz embolada pela cerveja, aquilo me deixou levemente excitado. Se ela sabia que eu jogava hóquei, sabia exatamente quem eu era. Ou tinha alguma ideia, ao menos.
— Você sobrevive. — A resposta vem imediatamente, de forma completamente natural.
Seu tom soava como se ela estivesse acostumada a conversar daquele jeito — rápido, afiado, sem querer agradar ninguém. Estava mais perto dela do que deveria, ao passo que o cheiro da fumaça misturou-se com perfume e alguma coisa doce que eu não consegui identificar de imediato. De forma gentil, ela ergueu o fino cigarro de maconha em minha direção, ficando de pé, brincando com ele entre os dedos finos e longos, com as unhas compridas e pintadas de vermelho sangue.
— Você quer?
Normalmente eu recusaria e tinha motivos plausíveis para isso. Treino, condicionamento, temporada próxima. Mas hoje, após aquele turbilhão de sentimentos? Eu apenas queria esquecer tudo que pensei acerca de Hannah e Garrett, nem que fosse por quinze minutos. Então peguei quase que sem hesitação.
O ato fizera nossos dedos se encostarem de forma rápida, proporcionando um pequeno contato entre nós. Aquilo causou-me um pequeno arrepio, mas não deixei que ficasse tão óbvio. Apenas dei uma tragada curta enquanto ela me observava, como se estivesse tentando descobrir alguma coisa. Seus olhos azuis eram profundos e pareciam curiosos, mesmo que seus lábios não comunicassem isso.
Ela era muito expressiva.
— Você parece tentar fugir de alguma coisa — ela comentou de forma vaga, praticamente dando de ombros.
Soltei a fumaça devagar, voltando meu olhar para ela. Talvez fosse minha postura, ou o jeito que estava avoado. Mas, de fato, aquilo era uma verdade.
— Você também. Afinal, por que estaria em uma festa sozinha se não por isso?
Os olhos dela mudaram por meio segundo, como se a resposta a incomodasse. Mesmo assim, ela me respondera:
— Justo.
Depois disso, um silêncio se fez presente. Não era desconfortável, apenas estranho. Como se eu conhecesse aquela garota há mais tempo do que deveria, com uma sensação de nostalgia que não deveria me invadir com aquela familiaridade.
Os passos e risadas ecoavam dentro da casa de forma distante, quase que irreais. Parecia que o nosso mundo havia se fechado apenas em nosso diálogo. Ela pegou o beck de volta, tragando e olhando para cima. A fumaça subiu devagar diante da luz levemente amarelada da varanda.
— Eu sou Logan, à propósito.
.
As respostas da ruiva variavam entre tons sucintos ou ácidos, o que me deixava bastante curioso. Ela parecia constantemente na defensiva, porém para sua sorte — ou azar —, a cerveja deixou-me mais falante do que o normal:
— Você é britânica.
— Isso te incomoda? — ela indagou quase que imediatamente.
Aproveitei para dar um pequeno trago no fino cigarro que estava em minhas mãos e soltei a fumaça:
— Sinceramente não. Só explica o sotaque e o ar de superioridade.
parecia incrédula com minha resposta, mas riu.
— Você é honesto. Isso é interessante. Ou talvez seja a cerveja quente que você está tentando beber há quase uma hora.
Além de ácida, ela era nitidamente observadora. Aqueles olhos azuis cristal eram um tanto quanto intimidantes.
— Você prefere os mentirosos, por acaso?
deu de ombros antes de pegar o cigarro de minhas mãos e responder-me:
— Prefiro pessoas que sabem exatamente o que querem.
— E você sabe o que quer?
— Na maior parte do tempo.
Aquela resposta me atingiu como um raio. Sinceramente, não sei se foi o efeito do álcool ou o cheiro doce inebriante que ela tinha, mas me coloquei à sua frente. Não o suficiente para deixá-la desconfortável, mas perto o suficiente para sentir sua respiração ofegante batendo contra meu peito.
— E agora… o que você quer?
não se afastou. Na verdade, ela soltou um pouco de fumaça perto de meu rosto e me respondeu com aquele tom petulante e convencido que eu percebi que ela usava:
— Agora, na verdade, eu estou fumando e tentando decidir se você é irritante pra caralho ou só convencido como a maioria dos atletas.
— Espero sinceramente estar indo bem nas duas opções. — comentei com graça.
riu com ironia. Apesar do tom de voz, era nítido que ela estava se divertindo com aquilo. E eu também. Certamente mais interessante do que levar uma garota para a cama sem sequer saber seu primeiro nome, como estava fazendo nos últimos tempos. Afinal, a tensão era perceptível, mas não de um jeito desesperado. Parecia me queimar aos ocos e a sensação era do caralho.
— Você sempre fala desse jeito convencido como se estivesse prestes a arruinar a vida de alguém?
— Acredite, Logan, não sou esse tipo de mulher. — deu de ombros, mexendo em seu cabelo ruivo. — Acho que apenas você esteja bêbado.
“Eu também”, pensei comigo mesmo, me amaldiçoando pelas minhas últimas atitudes. Sorri olhando para os meus pés, um pouco tímido com a constatação. Ela realmente era muito observadora.
— Você faz isso com frequência, né?
— O quê? — perguntei com curiosidade.
apagou o cigarro e jogou fora delicadamente no lixo ao lado antes de me responder. Apenas observei os seus atos em completo silêncio.
— Fica sozinho em festas fugindo de alguma coisa. Procurando algo para se distrair.
Ou eu era um péssimo “ator” ou ela era mesmo muito observadora. Nessa altura do campeonato, eu não sabia o porquê, mas fiquei ligeiramente tímido. Me senti patético de certa forma, não só porque ela era intimidadora; entretanto, era um sentimento complicado de digerir e ouvir de outra pessoa era extremamente desconfortável.
— Pelo jeito não está dando certo. — ela pegou o copo da minha mão, passando o dedo no bocal. — Então talvez você esteja usando o método errado.
— E qual seria o método certo? — franzi o cenho.
— Sexo casual costuma funcionar temporariamente pras pessoas daqui. Vocês americanos resolvem tudo com esportes violentos, guerras e sexo. Não que a última parte seja ruim.
A forma que ela foi direta me deixou quase que instantaneamente excitado. Não era minha intenção transar naquela noite, mas eu jamais negaria a oportunidade se a tivesse.
— Então você gosta de sexo sem complicação, ?
deu uma risadinha, dando de ombros. Agora o sangue resolveu se concentrar na parte sul do meu corpo. Não sei exatamente como aquele assunto escalonou tão rapidamente, porém eu não tinha interesse nenhum em pará-lo.
— E você, Logan? É do tipo que se apega? Ou sabe curtir?
— Não. Não me apego.
Cruzei os braços, passando a língua nos lábios. Meu Deus, nem eu acreditava nisso.
— Você é um péssimo mentiroso.
explodiu em uma gargalhada, me deixando profundamente ofendido com aquela constatação.
— Você me conhece há cinco minutos.
— E já sei que você pensa demais antes de responder certas coisas. Seu corpo fala por você.
Dei um passo à frente, de forma presunçosa, finalmente atraindo sua atenção. parou de gargalhar e pareceu engolir em seco, arfando de leve com a nossa recente aproximação.
— Talvez eu só esteja tentando parecer interessante. E você está gostando. — dei de ombros. — Tanto é que ainda está aqui, conversando comigo.
suspirou. Finalmente uma de minhas respostas conseguiu deixá-la calada. Não posso mentir, senti-me extremamente vitorioso com isso. E com ainda mais desejo de beijar aqueles lábios vermelhos.
— Então me diz uma coisa, . — o próximo passo foi o que mais nos aproximou. — Se você acredita tanto em sexo casual… O que exatamente impede você de ir embora comigo hoje?
Ela parecia interessada no rumo da conversa tanto quanto eu. , no entanto, pensou alguns segundos antes de me responder:
— Talvez o fato de que você ainda parece um homem confuso demais. Acho que com outra mulher na jogada.
— Você percebeu isso em cinco minutos?
Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha. Ela respirou fundo quando fiz isso, o que eu achei, de certa forma, divertido. E obviamente excitante.
— Digamos que você não é exatamente sutil quando bebe.
— Acho que perdi a vontade de ser sutil quando olhei pra você.
Ela sustentou o olhar dele por um instante, sorrindo de um jeito extremamente convencido. Ela olhou para os meus lábios e posteriormente para os meus olhos, curiosa.
— Você ‘tá muito confiante pra alguém alcoolizado e confuso.
— Eu definitivamente não estou confuso sobre o que quero fazer com você.
O ar entre nós ficou tão denso que quase tornou-se palpável. Um silêncio fez-se presente, ao passo que a ruiva passou a língua devagar pelo lábio inferior. Aquilo quase acaba com ele.
— E como isso termina? — ela pergunta.
Aproximei meu rosto do dela o suficiente para sentir o cheiro de maconha misturado ao perfume.
— Com você me mandando embora… Ou indo embora comigo.
Ela sustenta meu olhar, respirando fundo. E então murmura:
— Você é perigosamente convencido.
, entretanto, me encarou por mais um segundo. Só um. E foi o suficiente pra eu perceber exatamente o momento em que alguma coisa nela decide parar de lutar contra aquilo.
Dei um passo mais próximo à ela. E, caralho, ela é menor de perto. Eu já tinha percebido antes, mas agora, com ela parada quase colada em mim, isso fica ridiculamente evidente. O topo da cabeça dela bate perto do meu queixo, e quando ela ergue o rosto pra me olhar, alguma coisa animalesca desperta dentro de mim instantaneamente. Talvez fosse a quantidade de álcool ou o jeito como ela continua me encarando sem medo.
Talvez seja só ela.
Minha mão desliza até a cintura dela antes mesmo que eu pense direito. Sua pele estava quente, ao passo que soltou a respiração devagar pelo nariz quando nossos corpos se encostaram. Seus olhos azuis continuavam vidrados aos meus, como se estivesse me desafiando a perder o controle primeiro. Aquilo por si só era a porra de uma má ideia, porque eu já havia perdido a porra do autocontrole.
Ela ficou na ponta dos pés no instante em que eu abaixei a cabeça, e o primeiro toque da boca dela na minha quase arrancou um gemido da minha garganta.
Porra. O beijo começou lento só por alguns segundos, depois desandou completamente. Minha outra mão subiu para o maxilar dela, enquanto puxei-a para perto, sentindo o corpo pequeno prensado contra o meu. A boca dela tinha gosto de fumaça, álcool e alguma coisa perigosamente viciante que faz meu cérebro simplesmente apagar o resto da festa ao redor.
O mundo havia se tornado apenas eu e aquela ruiva gostosa para caralho.
A língua dela encostou na minha e eu senti meu corpo inteiro reagir imediatamente, quente, pesado e faminto. beija como se estivesse provocando uma briga, sem delicadeza excessiva ou hesitação. Cada vez que ela puxou meu lábio entre os dentes, senti o pouco de racionalidade que ainda tinha indo embora.
Minha mão apertou a cintura dela com força suficiente para arrancar um suspiro baixo da garganta dela e esse som quase acabou comigo ali mesmo. Caralho. Fazia meses que eu não queria alguém desse jeito tão intenso. Poderia transar com ela ali mesmo, e o pior, é que ela percebeu. Percebeu absolutamente tudo.
Porque quando o beijo fora interrompido por falta de ar, seus olhos dela estão escuros e satisfeitos, como se tivesse descoberto exatamente o efeito que causa em mim. E eu estava bêbado o suficiente pra não esconder. Encostei a boca perto do ouvido dela, sentindo o perfume de baunilha misturado com a fumaça do beck.
— Você vai pra minha cama hoje à noite. — murmuro rouco.
Não é exatamente uma pergunta, ou uma constatação arrogante. É a certeza impulsiva de homem alcoolizado e altamente presunçoso. Ela ficou imóvel por meio segundo, soltando uma risada baixa. E então, simplesmente se afastou.
Aquilo me gerou certa confusão. Talvez o beijo não tenha sido tão bom para ela quanto foi para mim. Mas a satisfação em seu rosto não dizia isso; e, ela olhando-me em silêncio, me deixava em um estado completo de aflição.
— Você acha que eu sou uma dessas maria-patins desesperadas para dar pra jogador de hóquei?
A provocação bateu direto no meu ego. O comentário presunçoso não foi em um tom de ofendê-la, embora tenha presumido que ela estivesse sentindo o mesmo. Eu e a porra da minha boca grande estragando tudo.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Não? — ela arqueou uma sobrancelha. — Porque soou exatamente assim.
— Eu só tô dizendo que quero você, . — Fiz uma pausa, dando um suspiro cansado. — Pra caralho.
O olhar dela desceu pra minha boca por um segundo rápido demais, depois subiu de novo em silêncio. Até me testando aquela garota conseguia me tirar do sério.
— Então vai precisar de mais do que conversa fiada pra me levar pra cama, John. — ela tocou meu ombro, ficando na ponta dos pés para alcançar a altura do meu ouvido. — Boa noite.
Capítulo II

A Biblioteca

John Logan


Eu era um imbecil. Era não, sou e aparentemente vou continuar sendo. Essa foi a única constatação que obtive essa manhã, porque quando abri os olhos, imediatamente me senti arrependido de todas as decisões que tomei na noite passada. Das coisas que falei, da bebedeira, da maconha e principalmente da péssima impressão que devo ter deixado sobre mim para . A autoconfiança que apenas uma dose exagerada de cerveja quente e um pouco de maconha podia proporcionar.
Minha cabeça parecia que explodiria. Eu definitivamente não queria mais beber, principalmente por ser uma questão tão profunda para mim. Depois que minha mãe voltou para a reabilitação, eu não costumava beber, pelo menos não de forma demasiada. Isso até aqueles malditos sentimentos passarem a me dominar, fazendo com que eu perdesse o controle do meu próprio corpo. De certa forma, era frustrante e me colocava em um dilema moral que meu cérebro se via incapaz de processar em um sábado tão cedo.
Tomei uma ducha preguiçosa antes de descer as escadas, colocando a primeira roupa que vi e arrumando os cabelos de qualquer jeito. Ao adentrar a cozinha, apenas meu amigo Tucker estava lá, reservando-se ao direito de me desejar apenas um bom dia e nada mais. Ele parecia excessivamente distante naquela manhã. Mesmo que estivesse franzindo a testa, era difícil decifrar sua expressão, devido aos cabelos cacheados soltos e a fixação que tinha em preparar o café. Havia uma barba nascendo em seu rosto — uma obsessão repentina dele sem motivo aparente — que não era costumeira do rapaz —, mas era um motivo divertido para perturbá-lo.
— Por que o silêncio? — perguntei, de forma curiosa.
Meu amigo, em retrospecto, virou o rosto na minha direção com um olhar azedo, então voltou a atenção para o bowls com os ovos e o fouet que mexia repetidamente.
— Ah, qual é, Tuck? É por causa da barba? Cara, essa é a primeira lição do Manual da barba, cara: se quiser virar um homem das cavernas, seus amigos vão tirar sarro de você. Fim de papo.
Dean havia despendido longos minutos na noite passada comparando ele ao Hugh Jackman, o que arrancou risadas de todos nós. Obviamente ele não estava nem um pouco satisfeito com isso, ou com qualquer outra coisa que fosse.
— Não é isso — ele murmurou, ainda impassível em se aprofundar.
Franzi a testa em retrospecto. Odiava conhecê-los bem demais.
— Mas você está chateado com alguma coisa. Eu te conheço.
Sua resposta à minha foi um longo silêncio desconfortável, mas para o desespero do meu amigo, eu sabia ser bastante insistente.
— Vamos lá, o que caralhos aconteceu com você?
Seus olhos irritados finalmente encontraram os meus, e por um segundo, eu me arrependi de ter perguntado. Pelo jeito, eu ainda estava sendo um completo imbecil.
— Comigo? Nada. E com você?
Tanta coisa que não sei nem por onde começar. Talvez fosse o fato de ter sido um imbecil com uma desconhecida tentando lidar com os meus próprios sentimentos, ou o fato que bebi tanto que uma crise existencial e moral me abateu pela manhã. Talvez fosse a preocupação com o hóquei, com o futuro da minha irmã Jules, minha mãe na reabilitação e obviamente meu pai e sua oficina. Haviam tantas coisas que estavam me sobrecarregando, que parecia que eu explodiria.
Devido ao meu silêncio em resposta ao seu questionamento, Tucker murmurou algo em voz baixa, um pouco mais irritadiço que o habitual. O ato fez com que eu saísse de meus próprios pensamentos para prestar atenção nele:
— Você tem que parar com essa merda, cara.
Fiquei confuso, porque, até onde sabia, tudo o que fiz nos últimos cinco minutos foi tentar interagir com ele de forma amigável — e sem tirar sarro da saga da barba. E na noite passada, pelo menos, ele estava bastante empolgado com a festa. Tucker percebera a confusão em meu rosto e esclareceu, ainda em um tom de voz sério:
— Você sabe, Logan, essa história com a Hannah.
Embora meus ombros tenham ficado tensos, tentei manter uma expressão vaga no rosto ao respondê-lo:
— Não faço ideia do que você tá falando.
Pois é, escolhi mentir mais uma vez. Que novidade. Parece que tudo o que fiz desde que cheguei à Briar é mentir: sobre conseguir jogar profissionalmente, sobre a situação da minha mãe e consequentemente da minha família, sobre o sentimento que nutria por Hannah — a namorada do amigo que mais honrava no mundo. Mentiras, mentiras e mais mentiras, porque, em todos esses casos, a verdade é um pé no saco, e a última coisa que quero é que meus amigos e a galera do time fiquem com pena de mim.
Ah, pobre John Logan.
Guarde essas desculpas para o G, porque do jeito que você não é discreto… — Tucker resmungou, fritando os ovos com uma agressividade totalmente desnecessária. — Na verdade, você tem muita sorte por ele estar distraído com toda aquela baboseira romântica, senão ia ter notado como você ‘ se comportando.
— E de que jeito eu tô me comportando?
Não consegui conter a irritação da voz ou a forma defensiva como minha mandíbula se fechou. Eu odiava a sensação de que Tuck sabia daqueles sentimentos tão confusos e difíceis de explicar. Odiava ainda mais que ele tenha tocado no assunto, depois de todo esse tempo. Por que não poderia simplesmente ignorar, assim como eu estava fazendo? A situação já era ruim o suficiente sem ninguém me dando bronca.
— É sério? Eu preciso mesmo recitar os detalhes do porquê você está se comportando como um idiota? — Tucker deixou o fouet de lado e cruzou os braços. — Talvez seja pelo fato que você sai da sala toda vez que eles aparecem ou quando se esconde no quarto quando ela passa a noite em casa e…
— ‘ legal, Tucker. Eu já entendi.
— …E isso sem falar na pegação e bebedeira desenfreada — resmungou Tucker mais uma vez. — Você sabe que não precisa disso. Pode, mas não precisa. Parece que quer provar algo a alguém. Por favor, John, estou te aconselhando como amigo.
Merda. Ele me chamou pelo primeiro nome. Tucker só me chamava de John quando estava irritado de verdade. Só que agora fora ele quem me deixara altamente irritado:
— E qual é o problema com isso, John? — Nós dois nos chamamos John, o que poderia ter deixado a situação cômica se eu não estivesse estressado.
Ele suspirou, exasperado.
— Até quando vai continuar fingindo que essas garotas todas são parte da experiência universitária? — Tucker balançou a cabeça, em seguida deixou escapar um suspiro e suavizou o tom de voz. — Você não vai esquecer a Hannah assim, cara. Pode dormir com cem mulheres hoje que não vai fazer diferença. Tem que aceitar que não vai rolar nada com ela e seguir em frente.
Eu sabia que Tucker tinha razão. Sabia muito bem que estava alimentando minha própria dor e depois fazendo sexo a torto e a direito só para me distrair. Também sabia muito bem que tinha que parar de beber até cair — pois a minha mente ainda estava me dando lição de moral. E precisava, urgentemente, abrir mão desse resquício de esperança de que algo aconteça e aceitar a realidade.
— E só para constar, você ‘tá parecendo um idiota. — ele finalmente disparou, finalmente me servindo os ovos mexidos aos quais passou tanto tempo despendendo o minucioso preparo em uma briga entre o bowl e a frigideira. — Ontem você passou dos limites.
Servi o café em uma xícara grande e respirei fundo para não iniciar uma discussão com o meu melhor amigo. As coisas já estavam difíceis demais para que suas constatações me deixassem pior comigo mesmo. Ele constatou que eu havia sido um idiota sem sequer ter dimensão do quão idiota fui.
Deixei que aquela tensão esvaísse de meu corpo enquanto era inundado pelas lembranças da noite anterior, agora mais coesas. O beijo, o flerte, o tanto que bebi nos jogos e o fora que eu levei. Caralho. Isso eu definitivamente tinha que esquecer. A forma como transformei algo simples numa proposta idiota porque era mais fácil agir como um babaca do que admitir que fiquei sem ar quando a vi.
— Preciso resolver uma coisa. — levantei de repente, deixando o prato e a xícara na pia.
Tucker arqueou uma sobrancelha. Talvez fosse porque não insisti em uma discussão mesmo com a voz áspera, ou porque eu tomei meu café em uma velocidade mais rápida que o normal. Mas o fato era que, pela primeira vez após uma conversa sentimental com John, senti vontade de focar em qualquer coisa que não fosse Wellsy.



Ligar para minha irmã, Jules, pareceu uma ideia ruim. E continuou parecendo uma péssima ideia quando ela atendeu com aquele tom de voz convencido dela:
— Posso saber o que você quer?
— Nossa. Que recepção calorosa, irmãzinha.
Jules Logan era o que chamávamos de rebelde sem causa. Os cabelos loiros e repicados e o estilo alternativo contrastavam diretamente com a personalidade que ela assumia no Instagram de fofocas da universidade. Uma espécie de Gossip Girl gótica ou sei lá, controlando aquele perfil chamado de Fifth Line.
— Bom, você só me liga quando precisa de alguma coisa, então…
Justo. Eu realmente precisava da ajuda dela com questões que apenas uma pessoa muito informada — ou fofoqueira — poderia saber.
— Você conhece uma garota chamada ?
O silêncio do outro lado durou alguns segundos. Talvez ela estivesse assimilando minha pergunta, pois apesar de viver minha vida como qualquer solteiro, não costumava consultá-la ou deixar muito em aberto o que fazia — ou com quem fazia. O problema é que a ruiva era uma incógnita; não deixou nem seu número para que eu ligasse. E provavelmente não queria me ver nem pintado de ouro.
Ah. ? Qual ?
— Uma ruiva.
Ouvi uma risadinha do outro lado, o que não me deixou nada satisfeito. Conhecendo a caçula, ela já estava tirando suas próprias conclusões conforme me ouvia falar.
— Bom, eu sei quem é, mas por que você quer saber?
Jules…
— John.
De novo John. Não que eu não gostasse de ser chamado pelo meu nome, mas já estava acostumado a ser apenas Logan. E de repente, todo mundo pareceu me repreender naquela manhã daquela forma.
— Só me responde, por favor.
Ela riu com certa satisfação. Eu conseguia até mesmo imaginar a expressão facial dela contra mim naquele momento, balançando os pés e arqueando a sobrancelha de forma altamente presunçosa.
é amiga da Olivia.
Ah, Olívia. Eu tinha certeza que ela e minha irmã tinham um caso, embora Jules não fosse discreta com muita coisa, de qualquer forma. Elas sempre estavam juntas, carinhosas, nos acompanhando no hóquei. Mas eu conhecia Jules muito bem para saber quando realmente gostava de alguém. Só nunca havia a confrontado sobre isso, pois era um cara muito discreto.
mora com Olivia, John. No dormitório de calouros. — Suspirei aliviado. Finalmente ela tinha respondido minha dúvida. — E você me deve explicações depois. Nada nessa vida é de graça,
— Não devo, não.
— Deve sim. — ouvi ela mexendo em alguma coisa ao fundo antes de me responder. — Mas vou te mandar o número do dormitório. Só não faça nada idiota, pois eu vou saber. E vou postar.
Desliguei antes que ela conseguisse arrancar mais alguma informação que não precisasse saber naquele momento. Jules prontamente enviou o número através do iMessage, fazendo-me guiar até o dormitório correspondente. Não estava nervoso, mas um pouco apreensivo graças a tudo que falei na noite anterior. Essa certa culpa somado ao que Tucker me disse mais cedo, estava matutando em meu cérebro.
Quando cheguei ao dormitório feminino, tão rápido quanto um raio, bati à porta de forma gentil, em que Olivia atendera quase que prontamente. Seu rosto parecia curioso, mas me reconheceu imediatamente — que não é exatamente reconfortante. Ela já me conhecia de outras situações, claro, mas não sabia se a havia contado para ela sobre a noite passada, o que resultaria em Jules saber e consequentemente todo o campus.
— Logan, oi. Tudo bem?
— Oi, Olívia.
Ela tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo e estava com um roupão felpudo e exagerado de oncinha. Assim como a minha irmã, Olívia também era uma figura alternativa — e bastante extravagante, eu diria. Mas ainda sim, muito bonita.
— Veio ver a ? — ela disse, direta, mas com graça.
Perfeito. Muito provavelmente havia contado sobre o quanto eu havia sido um idiota na noite anterior para ela, minha irmã e em breve o campus inteiro saberia da minha tentativa cafajeste.
— Relaxa. não me falou nada, foi a Jules. — Ela sorriu, dando de ombros, e eu fiquei mais aliviado. — Ela está trabalhando.
— Trabalhando?
— Sim. Na biblioteca.
Confesso que aquilo me surpreendeu. Eu não era um frequentador assíduo da biblioteca, exceto pelos períodos finais, quando tinha alguma nota baixa. Mas realmente não me lembrava de trabalhar lá.
— Obrigado, eu acho.
— Boa sorte.
Não gostei do tom dela, porém apenas agradeci e saí do dormitório, seguindo em direção a biblioteca. E o caminho até lá não foi fácil, com minha mente me martirizando e reafirmando que não era uma boa ideia. Talvez ela estivesse me achando um otário pelas minhas atitudes na noite passada — e com razão.
No entanto, meus pés eram bem mais rápidos que minha cabeça. Abri a porta da biblioteca com cautela, me certificando que ela estava quase vazia. Isso obviamente facilitou para que eu encontrasse , que estava atrás do balcão. E consequentemente me fez perceber que ela não estava sozinha.
Dean Di Laurentis, meu amigo, estava apoiado no balcão. Ele estava conversando com ela, de forma tensa, como se conhecessem de longa data. Eu automaticamente diminuí o passo; mas não sabia exatamente por quê. Talvez porque a cena me pegou de surpresa, ou porque não esperava aquela intimidade de Dean com ela especificamente — mesmo que de forma desconfortável. Mas obviamente me gerou estranheza, deixando-me levemente arrependido da sequência de decisões que tomei desde que acordei.
Aquele era um ótimo dia para ter ficado na cama, à propósito.
Eles pareciam discutir de forma sucinta. usava os cabelos ruivos e longos presos em um rabo de cavalo, com óculos de armação marrom à frente de seus olhos azuis como um cristal. Ela também vestia um avental escuro, com uma camisa preta de manga longa por baixo. Ela mantinha uma expressão não muito satisfeita no rosto antes de perceber a minha presença.
Caralho. Aquilo realmente me incomodou mais do que deveria.
E naquele momento, Dean também percebeu minha presença. Meu amigo ficou pálido quando notou que eu estava ali, ao passo que ela engoliu em seco. Apenas retribui com um aceno com a cabeça, extremamente sem graça. E em retrospecto, ele não demorou muito para ir embora, dando meia volta e saindo dali meio desconexo.
observou minha aproximação e eu percebi o desconforto iminente em sua face.
— Oi… Você veio devolver algum livro? — ela indagou, de forma extremamente cordial.
Ela era cômica, de certa forma. Educada de uma forma muito culta, mas extremamente ácida caso fosse necessária. Um equilíbrio dosado entre o polido e a sinceridade excessiva.
— Eu normalmente nem sei onde fica a biblioteca.
Ela riu. E, por algum motivo, aquilo melhorou meu humor, já que sua face se desfez daquela expressão incômoda de poucos minutos atrás.
— Então por que está aqui?
Eu apoiei os braços no balcão, atraindo sua atenção para os músculos evidentes. Ela desviou o olhar para os meus olhos novamente, parecendo curiosa.
— Porque preciso te pedir desculpas.
Ela inclinou a cabeça. Apertou os lábios deixando-os finos, umedecendo-os de forma levemente desconfortável, como se não esperasse exatamente aquilo.
— Não precisa pedir…
— Olha, eu preciso sim.
John…
Incrivelmente o som dela me chamando pelo primeiro nome quase me fez engasgar. Apenas Tucker o fazia quando estava bravo, ou Jules, então para mim era raro ver uma garota que não me denominasse pelo sobrenome.
— ..Não pela ideia. Pela forma que eu falei com você.
Agora ela parecia genuinamente curiosa. A nossa sorte era que a biblioteca estava praticamente vazia naquele momento, mas era nítido que ela queria rir. E talvez eu também, em vista que estava agindo de forma patética mais uma vez.
— Certo.
— Eu fui meio idiota.
— Meio? Você foi um completo idiota, Logan. Um idiota presunçoso.
Dou uma risada. Ainda não estava acostumado com aquele nível de sinceridade. E principalmente porque ela não demonstrava a menor intenção de facilitar para mim. A maioria das mulheres do campus — sobretudo as maria-patins, embora eu detestasse aquela denominação — gostava dos jogadores de hóquei e não poupavam simpatia e sensualidade para nós. Ela, por sua vez, parecia um tanto quanto desinteressada em me agradar. E, estranhamente, eu gostei disso.
— Então nós estamos bem?
— Eu nunca disse que estávamos mal.
Justo. O silêncio entre nós durou alguns segundos, ao passo que ela parecia se divertir com meu nervosismo.
— A verdade é que eu queria sair com você.
Ela me encarou sem responder imediatamente, o que me deixou me sentindo idiota. Ok, eu havia sido menos sutil na noite passada, mas quando entendi a personalidade de , entendi que com aquela abordagem ela não cederia nada além de desprezo. E seria uma oportunidade interessante para ela me conhecer e entender que não sou aquele completo imbecil alcoolizado da noite anterior.
— Sair? Comigo?
— Sim.
Ela arqueou as sobrancelhas, mexendo em uma pilha de livros na bancada a sua frente:
— Deixa eu ver se entendi: depois do fora de ontem, você ainda quer ir comigo em um encontro?
Tecnicamente não tinha sido um fora porque eu estava bêbado e havia me esquecido, então…
— Bom, não precisa jogar na minha cara de novo.
O sorriso dela aumentou. Ela balançou a cabeça em negação, antes de me dar as costas para voltar ao trabalho de bibliotecária.
— Vou pensar no seu caso, John Logan. Mas agora, tenho que trabalhar.

Daisy


— Então? — perguntou Olivia, jogando uma almofada no meu colo assim que entrei no dormitório.
Eu fiquei automaticamente confusa. Não era uma recepção costumeira de Oli, ela parecia mais animada que o normal. Ao contrário de mim, que estava drenada e exausta daquele dia.
Como se não bastasse a presença de Dean Di Laurentis querendo conversar de forma sentimental em pleno horário de trabalho, ainda tive de lidar com seu melhor amigo altamente presunçoso e metido me procurado — porque aparentemente o fora da noite anterior não havia sido esclarecedor o suficiente. De fato, John Logan era um homem lindo, alto, grande e atlético, e nosso beijo tinha sido fenomenal. Mas apenas isso. Eu jamais transaria com um cara naquele perfil de novo.
— Então o quê? — perguntei, deixando a minha bolsa cuidadosamente no cabideiro, retirando os sapatos.
— Não finja que não sabe exatamente do que eu estou falando.
— Você vai precisar ser mais específica se quiser alguma informação relevante, Liv.
Soltei os cabelos ruivos do rabo de cavalo e finalmente me sentei no sofá do nosso dormitório. Nosso “quarto” era definitivamente maior e privilegiado comparado aos demais espalhados pelo campus. E sinceramente eu dava graças a Deus por isso, já que Olívia era uma grande amante da anatomia feminina.
— De um certo jogador de hóquei, oras. Ele te procurou mais cedo e Jules e eu estamos muito curiosas para saber o porquê.
Suspirei, fechando os olhos em negação. Olívia não fazia ideia de todas aquelas informações e eu sinceramente estava incomodada pelo teor da conversa envolver tantas pessoas. Inclusive a irmã de Logan, o que piorava ainda mais a situação.
— Eu posso até te dizer, mas não tem muito para contar. E você precisa me prometer que não vai contar para a Jules.
! — Liv praticamente rosnou, revoltada. — Eu te odeio.
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de começar a falar. Expliquei absolutamente tudo, desde a primeira festa que revi Dean, até à noite passada, do momento que dividi um cigarro até o beijo. E consequentemente, das constatações presunçosas dele, que supôs baseado naquele ego gigante, que nós iríamos transar. O choque era nítido na face de Olívia, que parecia incrédula a cada palavra professada.
— E aí?
— E aí eu fui embora, Oli. E honestamente? Achei que nunca mais fosse vê-lo.
— Mas viu. E provavelmente vai ver muito mais porque ele é irmão da Jul, então… — Olivia se inclinou para frente imediatamente.
Ela e Jules estavam envolvidas até o pescoço, aquilo era evidente. Mas como ela ainda não havia compartilhado de forma direta, apenas observava a aproximação de ambas, o que era fofo, para ser sincera. Fazia um bom tempo que não a via com outras garotas ou garotos e ela parecia genuinamente feliz.
— Certo… Agora chegamos na parte interessante. — sorri de leve, sabendo que ela adoraria o que viria a seguir. — Dean foi atrás de mim na biblioteca hoje.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Dean Di Laurentis? Seu ex?
— O próprio. — assenti em um aceno. — E… Nós estávamos conversando quando Logan apareceu. Dean foi embora e Logan basicamente me pediu desculpas — falei depois de alguns segundos. — E por fim, ele me chamou para sair.
Olivia arregalou os olhos.
— E o que você respondeu?
— Que ia pensar.
Ela parecia um pouco intrigada com as informações que eu disparei, tentando assimilar tudo em sua cabeça de forma coesa. Aquilo quase me fez rir.
— Ele é amigo do Dean, você não acha que…
— Você sabe que eu não quero e nem vou sair com ninguém. E eu conheço Dean o suficiente para saber que ele não vai dar a mínima.
Aquilo era verdade. Dean e eu tínhamos uma história baseada mais em atração do que sentimento. Foi ótimo sair e transar com ele porque éramos amigos de infância, e consequentemente, eu já confiava nele com todas as minhas forças. Mas amá-lo? Apenas como amigo. E ele era um ótimo amigo, eu não podia reclamar. Nós só não éramos próximos como antes.
— Apesar de vocês dois não prestarem, não acho que vai ser tão simples assim. Vocês se pegaram escondido um bom tempo, sabe?
Olívia gostava muito da ideia de sermos um casal, o que sempre rejeitei fortemente. Dean não era meu tipo de cara, e na verdade, eu nem sabia qual era meu tipo. Mesmo aos dezenove anos, nunca apresentei nenhum namorado de forma oficial, longa e duradoura. E conhecendo o perfil da minha família, sabia que era melhor assim.
— Eu sei, mas… não quero falar sobre isso. Tenho alguns capítulos para escrever hoje.
— Então você não vem para a festa?
— Essa eu passo, Liv. Juízo.
Levantei-me do sofá, dando um beijo em sua bochecha e indo em direção ao meu quarto. Olívia disparou alguns resmungos pois queria companhia, mas eu estava definitivamente cansada e sem nenhum clima para festividades naquele dia.
Adentrei o cômodo e encostei a porta com delicadeza, me sentando na cama. Por mais que houvesse contado tudo em meio a algumas risadas e surpresas, o caos emocional daquele dia havia me drenado. Agarrei algumas das minhas pelúcias, suspirando fundo e enfiando a cara no travesseiro.
O beijo com John Logan foi delicioso. E era apenas aquilo que inundava a minha mente, um jogador de hóquei idiota. E como se não bastasse, ele parecia determinado em me fazer sair com ele. Porém, diante de tudo o que passei nos últimos meses, eu sabia que não era capaz de me envolver com ninguém, mesmo que fosse casual.
Ver meu pai passar por aquele tratamento agressivo e principalmente ver minha mãe daquela forma, me trouxe lembranças não tão doces de uma infância distante. Ela havia ficado abatida da mesma forma quando Spencer, meu irmão mais velho, fora acometido por um Linfoma de Hodgkin. Perder o filho fez Camila mudar de uma forma em que nunca mais fora feliz como antes. E ver meu pai doente agora, com certeza, também lhe trouxera recordações dolorosas daquele tempo.
Eu era muito pequena para me recordar, exceto pela relação dos meus pais com o luto. O silêncio que a casa tornou-se, a tristeza e a forma como minha mãe enrijecera. Nosso distanciamento tornou-se evidente desde essa fase e ainda se fazia presente nos dias atuais. Por isso, estava bastante surpresa quando vi seu nome na tela do meu celular, enquanto ele vibrava indicando uma ligação. Obviamente, não atendi. Estava exausta física e mentalmente para ouvir qualquer reclamação que fosse naquele momento. Ficaria em silêncio, quieta e cuidaria de mim naquela noite.
Exceto pelo grito de Olívia que ecoou na porta do quarto poucos segundos depois:
, a Jul perguntou se você quer ver um jogo de hóquei amanhã com a gente!
Suspirei, cansada. Observei minha amiga com a roupa mais minúscula que já vira em toda minha vida, esboçando um sorriso amarelo.
— Você sabe que eu não gosto de hóquei, Liv.
— Mas dos jogadores gostosos você gosta, né? Safada. — ela riu consigo mesma, como se a piada tivesse sido o auge do humor. — Juízo, . Estou de saída.
Capítulo III

O Treino

Daisy


O ar estava quente e abafado, como todas as noites das férias que estava passando na casa dos Heyward-Di Laurentis. Aquele período quente de verão no Caribe era algo característico de lá, que transmitia uma calmaria sem tamanho, mesmo depois que o sol desaparecia atrás do horizonte.
A umidade fazia alguns fios do meu cabelo grudarem na nuca, enquanto a brisa vinda do mar chegava fraca, insuficiente para aliviar a temperatura alta. Ainda assim, ela trazia consigo o cheiro característico da maresia e areia molhada, misturado ao perfume adocicado das flores espalhadas pelo jardim da casa. Ao longe, o som contínuo das ondas quebrando contra a costa se misturava a uma música baixa que tocava em algum lugar distante da propriedade, tornando-se quase que inaudível.
Confesso que aquilo já era familiar, confortável, como Londres também já foi um dia para mim — mas sem o céu cinza, com o clima majoritariamente deprimente e uma mãe narcisista.
Ali eu me sentia realmente viva. Afinal, conhecia aquela casa quase tão bem quanto conhecia a minha própria. Passava boa parte das minhas férias na borda clara da piscina iluminada pela lua, observando as pequenas luzes espalhadas pelo jardim, que desenhavam sombras suaves sobre o chão de pedra. Conhecia o barulho dos insetos escondidos entre as plantas tropicais e a forma como tudo parecia mais lento ali, como se o tempo parasse conosco.
E claro, também conhecia muito bem Dean Di Laurentis.
Conhecia aquele sorriso convencido que surgia quando ele sabia que estava sendo irritante de propósito; conhecia a maneira que seus olhos se estreitavam quando estava prestes a dizer alguma coisa idiota; conhecia seu jeito despreocupado nas férias, como se nunca tivesse se preocupado de verdade com absolutamente nada na vida, longe do hóquei e das suas verdadeiras “responsabilidades”.
Naquele momento, ele estava dentro da piscina, mergulhado até os ombros, com gotas escorrendo pelos cabelos loiros bagunçados e uma dose de rum disposta em uma taça de cristal entre os dedos. E, além de tudo, estava sorrindo para mim com aquele jeito sapeca, irritante e absurdamente bonito ao mesmo tempo.
Já não era a primeira vez que ele me olhava daquela forma. E das outras vezes, acabávamos sem roupa e no quarto dele. Não que eu me orgulhasse daquilo, pois me sentia péssima em “mentir” para Summer. Não exatamente mentir, talvez omitir; mas ela era minha melhor amiga, eu contava tudo para ela desde sempre.
Exceto pela parte que estava transando com o irmão dela todos os dias das nossas férias enquanto ela dormia.
— Você está me olhando de um jeito estranho — ele murmurou, levando a bebida aos lábios.
Observei seus olhos sobre a borda do copo por alguns segundos, sustentando o olhar, dando de ombros.
— Talvez.
Dean arqueou uma sobrancelha lentamente. Eu não estava exatamente bêbada; quer dizer, não o suficiente para esquecer meu nome ou tropeçar nas próprias pernas. Mas estava leve, um tanto quanto alegre — como na maioria dos dias que passava ali. Aquele tipo de estado perigoso em que tudo parece engraçado e qualquer ideia ruim parece aceitável.
A deliciosa ideia de transar com ele de novo.
Summer, nosso raio de sol ambulante, já estava dormindo há horas após todos os drinks que tomamos à tarde. Provavelmente esparramada na cama, abraçada em algum travesseiro, depois de gastar energia suficiente durante o dia inteiro. Enquanto isso, os pais de Dean estavam ocupados demais vivendo a própria versão de férias românticas pela ilha, desaparecendo por horas e nos deixando praticamente sozinhos naquela casa enorme.
Então ali éramos apenas nós dois. Eu e aquele loiro absurdamente convencido — e gostoso.
— Você faz isso às vezes.
— Fazer o quê? — franzi a testa.
Ele inclinou a cabeça de leve, analisando meu rosto. Dean se aproximou mais, apoiando os braços nas minhas coxas e o queixo em suas mãos.
— Fica me encarando com esses olhos azuis estranhos.
Soltei uma risada baixa, balançando a cabeça. Filho da puta. Ele sabia exatamente o que estava fazendo.
Era estranho ficar desarmada perto de alguém. Eu tinha passado anos aprendendo a mascarar certas versões de mim dependendo da situação; aprendi a esconder o que pensava, o que sentia, o que doía. Aquela armadura tinha se tornado quase automática com o tempo. Mas Dean e Summer… Eles conheciam coisas que ninguém mais conhecia. Conheciam minhas manias, silêncios, surtos, e principalmente minhas fugas. Conheciam a versão de mim que existia por baixo de tudo aquilo.
E talvez fosse por isso que eu estava ignorando as ligações da minha mãe fazia dias. Talvez fosse por isso que eu estivesse tentando esquecer o semestre que se iniciaria na Briar, esquecer as preocupações, esquecer tudo. Só queria continuar ali, beber vinho e rum roubado das adegas dos meus pseudo-tios e fingir, por mais alguns dias, que a vida era simples.
Então Dean se aproximou mais.
O loiro se levantou, já que estava anteriormente encolhido, enquanto avançou devagar entre as pequenas ondas que seu próprio corpo criava na piscina. A água escorreu pelos ombros dele, descendo pelo pescoço lentamente, ao passo que seus dedos tocaram minha cintura devagar, leve o suficiente para eu não entender imediatamente, porém firme o bastante para fazer meu coração tropeçar.
E então, Di Laurentis se levantou um pouco mais, aproximando o rosto do meu. Seus olhos encontraram os meus por alguns segundos longos demais. E mais uma vez, me beijou.
Puxei os cabelos molhados de Dean entre os dedos, sentindo os fios escorregarem pela minha mão enquanto o ósculo se aprofundava devagar, quase naturalmente. Soltei um gemido baixo contra seus lábios, mais por falta de ar do que por intenção, e imediatamente senti a mão dele apertar minha cintura um pouco mais forte.
Droga.
Dean não fazia ideia do quanto aquilo era perigoso, do quanto eu queria aquilo, aquela válvula de escape sensacional. Uma parte extremamente irresponsável de mim queria abandonar qualquer pensamento racional e esquecer completamente todos os limites que havia colocado em nossa relação. Porque, porra, era Dean, meu melhor amigo. E existiam coisas que simplesmente não podiam ser desfeitas — e nós havíamos cruzado aquela linha há muito tempo.
O gosto suave de rum ainda permanecia nos lábios dele, misturado ao gosto doce da bebida que eu tinha tomado antes. A água fria da piscina contrastava com o calor absurdo que parecia consumir minha pele por dentro, e eu mal percebia as gotas escorrendo pela minha perna ou o tecido do short grudando no meu corpo.
Tudo ao redor parecia distante. A música emanava baixinho, ao passo que o barulho das ondas estava longe. Existiam apenas seus lábios, sua mão na minha cintura e a sensação absurda de proximidade.
Porém alguma coisa ficou estranha. Demorei alguns segundos para perceber. Não foi como um choque ou uma interrupção brusca, algo imediato. Foi uma sensação sutil, quase imperceptível, como se algo não estivesse certo.
A mão na minha cintura pareceu maior e mais firme. Os dedos pressionavam minha pele de um jeito diferente, com uma segurança que eu conhecia, mas que não pertencia a Dean. E graças ao efeito da bebida, meu cérebro demorou alguns segundos para acompanhar. O perfume também mudou. Não era mais o cheiro fresco que Dean costumava usar, misturado com água da piscina e álcool. Era algo mais intenso e principalmente quente, como madeira; algo masculino demais, familiar demais.
Por fim, quando abri os olhos, meu estômago afundou. Foi aquilo que fez meu coração praticamente parar antes de voltar a bater rápido demais, porque não era Dean.
Era Logan. A porra do John Logan.
Por alguns segundos, meu cérebro simplesmente se recusou a processar a informação. Eu fiquei parada, olhando para ele como se estivesse encarando uma alucinação criada pelo excesso de álcool. Mas Logan continuava ali, como se fosse certo. Estava próximo demais, com os olhos castanhos e amendoados presos aos meus.
Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados, molhados, enquanto algumas gotas estavam escorrendo pela lateral do rosto, ao passo que Logan mantinha aquele olhar intenso em mim. Como se tivesse esperado aquele momento há muito tempo.
Meu coração começou a bater tão forte que achei que ele podia ouvir. E então aquele maldito sorriso apareceu, lento e presunçoso. Aquele sorriso irritante que fazia minha vontade de beijá-lo competir diretamente com a vontade de socar a cara dele. John, por sua vez, se aproximou alguns centímetros. O suficiente para eu sentir sua respiração bater contra minha pele, quente e sensual.
— O que foi? — murmurou, a voz baixa e rouca. Os olhos dele desceram para minha boca antes de voltarem para os meus. — Você queria isso tanto quanto eu.

A vibração insistente do celular sobre a escrivaninha arrancou meus olhos da página aberta à minha frente. Ou melhor, arrancou meus olhos do nada, porque eu já não estava lendo havia vários minutos, pois aquele maldito sonho havia me tirado do eixo. Acabei acordando de madrugada e não consegui pregar os olhos desde então.
Levantei a cabeça devagar, piscando algumas vezes enquanto tentava afastar aquela sensação estranha que parecia presa ao meu cérebro. O quarto estava silencioso demais; a luz suave atravessava parcialmente as cortinas, desenhando faixas douradas sobre a cama e sobre os livros espalhados pelo chão.
Meu coração ainda estava acelerado de uma forma irritante, como se meu corpo tivesse disposto a me trair. Passei uma mão pelo rosto lentamente e afundei a cabeça no travesseiro por alguns segundos.
Porra. Por que meu cérebro faria uma coisa dessas comigo? Sabe, de todos os rostos possíveis, de todas as pessoas possíveis, não era a face de John Logan que eu esperava ver naquela lembrança. A recordação daquele sorriso arrogante atravessou minha mente quase instantaneamente e eu fechei os olhos com força.
Eu, absolutamente, me recusava a pensar sobre isso. A vibração, no entanto, aconteceu outra vez, me tirando do transe. Soltei o ar pelo nariz antes de me inclinar para frente e pegar o celular sobre a escrivaninha. Com isso, meu corpo congelou por uma fração de segundo.
Mãe.
Fiquei olhando o nome na tela acesa como se tivesse aparecido ali por engano. Em Londres ainda era começo da noite, então aquele, definitivamente, não era um bom sinal. Afinal, eu conhecia aquilo, conhecia exatamente o modus operandi da minha mãe. Parecia cuidadoso e amoroso no começo, mas ela não me pouparia de tecer suas longas críticas.
Mesmo assim, passei o polegar pela tela, à contragosto.
— Oi, mãe.
Por alguns segundos ouvi apenas a respiração dela do outro lado:
.
A voz saiu tão controlada que quase parecia ensaiada. E como sempre, . Não , não filha. Sem carinho, apenas ríspida, como sempre.
— Aconteceu alguma coisa?
— Seu pai melhorou.
Meu corpo enrijeceu automaticamente. Afinal, meu pai era sempre um tópico delicado em nossos assuntos. George fazia uma ponte entre nós, e com ele doente, a relação com a minha mãe só piorava.
— Melhorou quanto?
— O suficiente para voltar a trabalhar parcialmente.
— Certo.
Ficamos em silêncio de novo, de uma forma desconfortável, como se ela estivesse me analisando. Mesmo com a constatação, estava feliz por saber que meu pai estava melhorando gradativamente. Todos sabiam o quanto ele prezava pelo trabalho como advogado.
— E Dean? — perguntou, cortando os meus pensamentos.
Meu estômago apertou. Pelo sonho, pela lembrança quente — agora substituída por Logan, tão gostoso quanto dean naquela noite —, pela incerteza da minha relação com Di Laurentis e pela invasão de privacidade que minha mãe achava de bom tom fazer.
— O que tem ele?
— Vocês voltaram a se falar?
Meu olhar foi parar na janela. Lá fora, alguns estudantes atravessavam o campus, rindo de alguma coisa. E eu sabia que aquilo somado à minhas bochechas ruborizadas, significava que eu estava com vergonha — e altamente curiosa para saber como minha mãe sabia daquilo.
— Nós estamos bem. — Aquilo era mentira, mas ela não precisava saber.
Uma mentira tão descarada que quase consegui sentir o gosto amargo na boca.
— E? — Ela indagou. Murmurei algo quase em uníssono, mas sem responder seu questionamento. Sem paciência do outro lado da linha, ela voltou a dizer: — , você sabe exatamente o que quero dizer.
— Eu já disse que estamos bem. — Minha voz saiu simples, curta e direta, porém mamãe me conhecia.
Infelizmente, me conhecia.
— Você continua fugindo de perguntas simples, .
Soltei uma risada baixa, sem humor algum.
— E você continua fazendo perguntas em que as respostas não são da sua conta. — Resmunguei, já puta de vida. — Preciso desligar.
— Desligar?
— Tenho plantão na biblioteca.
Ouvi uma respiração curta atravessar a ligação, seguida de uma risada que conhecia perfeitamente. Aquele era o som que vinha antes da crítica, antes de um golpe cruel e calculado. Antes dela encontrar exatamente o lugar certo para apertar.
, você não precisa continuar fingindo que trabalha para provar algo às pessoas.
Meus dedos pararam sobre a página do livro.
— Desculpe?
— Eu e seu pai sempre sustentamos e sustentaremos você. Não precisa transformar tudo numa competição por independência para chamar a atenção.
Alguma coisa dentro de mim esfriou, porque ela tinha feito aquilo de novo e reduzido a uma birra. E o pior, a troco de absolutamente nada.
— Tenho que ir.
!
Meu maxilar travou instantaneamente, afinal só ela me chamava assim, e só ela conseguia transformar meu nome em um maldito aviso. Por isso, não hesitei em desligar na cara dela e silenciar suas ligações. Joguei o celular sobre a cama como se ele tivesse me ferido. Fiquei olhando para a tela apagada por alguns segundos, imóvel.
Engraçado como minha mãe conseguia fazer aquilo. Ela nem precisava levantar a voz; não precisava gritar, não precisava discutir ou dizer coisas cruéis diretamente. Ela simplesmente encontrava uma maneira de fazer com que eu me sentisse pequena, como se tudo que eu fazia fosse uma tentativa patética de provar alguma coisa. Como se eu fosse uma criança fazendo birra.
Passei as mãos pelo rosto devagar, apertando os olhos com força. Meu dia estava oficialmente uma merda.
Três batidas rápidas na porta, no entanto, interromperam meus pensamentos.
? Você tá viva aí dentro?
Era Olivia. Soltei o ar pelo nariz antes de me levantar da cama e ir em direção a porta, um pouco a contragosto.
— Depende — respondi, com a voz abafada enquanto atravessava o quarto. — Qual a urgência?
— Abre a porta primeiro.
Girei a maçaneta e encontrei Olivia parada do lado de fora usando uma calça de moletom larga, os cabelos presos em um coque bagunçado e um copo de café nas mãos. Ela me observou por dois segundos, estreitando os olhos.
— Você esqueceu? — perguntou, incrédula.
Pisquei algumas vezes, sem entender do que caralhos Olívia estava falando.
— Esqueci o quê?
, eu literalmente te convidei ontem!
Fiquei olhando para ela por alguns segundos, enquanto minha memória resolveu colaborar aos poucos. Treino de hóquei. E então, meu corpo congelou por uma fração de segundo, porque aquilo significava jogadores de hóquei. E havia um certo jogador que eu estava evitando desde o meu último sonho.
Na verdade dois, sendo bem honesta.
Imediatamente, meu cérebro — aquele filho da puta traidor —, decidiu me presentear com a lembrança do sonho da madrugada. Com aqueles olhos castanhos presos nos meus, a mão na minha cintura, a voz rouca perto demais, me dizendo: “Você queria isso tanto quanto eu.”
Cruzei os braços, impaciente.
— Acho que vou passar.
Olivia arqueou uma sobrancelha.
— Você vai passar? — ela riu com escárnio. — Você tem cinco minutos para se arrumar, , e isso não tem discussão.
Queria discutir com aquela pentelha irritante, mas não estava disposta a me abrir. Por alguns segundos fiquei quieta. A ligação da minha mãe ainda parecia presa dentro do peito, pesada e irritante, como algo difícil de engolir. Não queria pensar nela, ou em Dean, e definitivamente não queria pensar no motivo ridículo de estar evitando uma pista de gelo inteira. Afinal, seria absolutamente insano evitar alguém por causa de um sonho idiota.
Olivia se aproximou novamente, acenando uma das mãos.
— Ei. Você tá bem? Eu só queria que você se divertisse…
Meu olhar caiu por alguns segundos, apenas para que eu concordasse e dissesse que iria com elas. E talvez fosse justamente por não estar bem que aceitei. Talvez porque ficar sozinha significasse pensar demais, e a ideia de pensar parecia uma ideia terrível naquele momento. E também, Olívia sempre era doce, gentil e preocupada comigo.
— Tudo bem, eu vou com vocês. Mas não se acostuma.
— Claro.
Vi que Olívia ficou animada e fui procurar algo para me vestir de forma casual. Mesmo desejando evitar John depois daquele sonho, qualquer coisa era válida naquele momento para fugir dos meus problemas — e quem sabe, arrumar outros pelo andar da carruagem.
John Logan


Eu deveria estar prestando atenção no treino. Tecnicamente, eu estava, mas não de verdade como sempre fazia. Afinal, meu corpo reagia de forma automática a cada passe, a cada comando do treinador ou grito de Garrett, a cada mudança brusca de direção sobre o gelo. Anos de prática fazia aquilo parecer natural, quase instintivo. Eu sabia exatamente onde precisava estar, quando acelerar ou recuar, quando arriscar uma jogada. Mas, por mais que meu corpo estivesse presente, minha mente havia desenvolvido um hábito irritante nos últimos minutos.
Toda vez que meu olhar escapava por um segundo da movimentação da equipe e encontrava as arquibancadas, eu acabava procurando a mesma figura — e consequentemente encontrando tão linda quanto antes. Não que fosse muito difícil reconhecer a cabeleira ruiva sentada entre Olivia e Jules, como se aquele fosse o lugar mais normal do mundo para ela estar. Suas pernas estavam elegantemente cruzadas, os cabelos ruivos caíam em ondas suaves sobre os ombros até a cintura e a expressão tranquila de quem observava tudo sem realmente se deixar envolver. Como se fosse completamente indiferente ao fato de que eu quase tinha atravessado metade da pista minutos antes para marcar um gol.
E talvez fosse exatamente isso que me deixava tão incomodado. Aquela sensação de indiferença, a facilidade absurda que tinha de parecer inalcançável e impassível a qualquer investida minha. Mesmo que eu estivesse dando o meu melhor ali, jogando como um maníaco e afiado pra caralho.
Sabia que Garrett provavelmente iria me infernizar por causa daquilo depois. Na verdade, não apenas Garrett, todos eles, porque eu estava jogando de forma diferente e qualquer um que me conhecesse minimamente seria capaz de perceber. Eu estava patinando como um idiota extremamente motivado à impressionar uma garota que fingia não estar impressionada. Mas, ainda assim, um grande idiota. Porque como se não bastasse o segundo fora, eu ainda me via incapaz de não tentar mais uma vez.
Talvez eu fosse um pouco insistente, mas eu preferi me denominar como um homem determinado a alcançar os objetivos. Aquela era a primeira vez em meses que uma mulher estava me fazendo pastar por um simples número de telefone — mesmo depois de ter me beijado tão gostoso naquele dia. Não é como se as garotas oferecessem qualquer objeção a mim, sabia que era um cara tranquilo, não invasivo e além de tudo, sedutor. Mas a necessidade que eu sentia de beijar aqueles lábios novamente beirava ao ridículo.
E o que mais ela quisesse fazer comigo.
O som agudo do apito atravessou o rinque, encerrando oficialmente o treino. Aos poucos, os jogadores começaram a deixar o gelo, conversando entre si enquanto recolhiam equipamentos e seguiam para os vestiário. Eu passei uma das mãos pelos cabelos úmidos, tentando recuperar alguma aparência de normalidade, e ergui os olhos mais uma vez para as arquibancadas. Quando desviei o olhar, notei que Garrett me olhava feio de longe e eu sabia que teríamos de conversar depois.
Estava evitando Graham há algumas semanas e mesmo com ele focado naquela baboseira romântica, sabia que em algum momento ele notaria meu afastamento. E quando percebi o seu olhar sobre o meu, soube que iríamos dialogar sobre aquilo em algum momento. Mas definitivamente não agora, em vista que ainda estava lá.
Ótimo.
Não demorei muito para organizar as coisas e me deixar minimamente apresentável. Antes que pudesse pensar demais ou inventar alguma desculpa para não ir até ela, comecei a caminhar naquela direção.
Minha irmã foi a primeira a me notar, ao passo que seu rosto imediatamente se iluminou em um sorriso enorme. Um tipo de sorriso específico em Jules que, em noventa por cento das situações, significava problemas. Contudo, ignorei completamente, porque meus olhos já tinham encontrado os de , azuis e curiosos como sempre.
Você veio.
As palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse pensar em algo melhor. Realmente era uma fala brilhante para se ter na frente das duas maiores fofoqueiras daquele campus. Depois de alguns dias imaginando conversas possíveis, aquilo foi o melhor que consegui formular. Afinal, estava realmente impressionado com a presença dela, ao passo que inclinou levemente a cabeça, sem perder a calma característica que parecia acompanhá-la o tempo inteiro.
— Me convidaram.
É claro que aquela seria a resposta, porque jamais facilitaria qualquer coisa — até mesmo a abertura para um simples diálogo. Ela nunca parecia disposta a entregar mais do que queria. E, por algum motivo, isso era o que me motivava a querer continuar tentando. E talvez porque eu fosse um teimoso do caralho desacostumado a não ter uma garota quando queria. Flertar com o inalcançável era quase que um hobby nos últimos meses. Primeiro Hannah, agora .
O canto da minha sobrancelha se ergueu sozinho.
— Claro que convidaram.
Jules observou a troca de olhares entre nós, alternando o olhar curioso entre e posteriormente à mim. Percebi o exato momento em que algo começou a se encaixar dentro da cabeça dela, pois sua expressão mudara lentamente, como alguém que finalmente encontrava a peça que faltava em um quebra-cabeça particularmente difícil. E automaticamente meu estômago afundou, porque eu conhecia aquele olhar — e sabia exatamente o que estava prestes a acontecer.
— Espera… — ela apontou para nós dois. — Então vocês se conhecem?
Ao lado dela, Olivia soltou uma gargalhada extremamente satisfeita, como se já tivesse deduzido a história inteira. Ela enfatizou o , finalmente entendendo o porquê eu havia perguntado sobre dias atrás.
— Então tem alguma coisa acontecendo aqui. — Jules deduziu, cruzando os braços.
A essa altura do campeonato, eu já me enxergava sendo exposto no próximo post do Instagram de fofocas de Jules. E , por sua vez, ficou instantaneamente corada, o que não era costumeiro da garota.
— Não tem — respondeu quase que imediatamente, cruzando os braços e olhando na direção da minha irmã com os olhos afiados.
Eu não contribuí em absolutamente nada para minha própria defesa. Principalmente porque estava ocupado demais observando e, aparentemente, aquilo serviu apenas para confirmar todas as suspeitas delas. Jules abriu um sorriso vitorioso, colocando uma mecha do cabelo loiro e repicado atrás da orelha.
— Vamos deixar vocês dois então. — Jules proferiu quase que com graça, dando de ombros.
virou-se rapidamente para ela e depois para Olivia, parecendo levemente ofendida pela constatação da minha irmã.
O quê?
— Estou com sede. — Jules Logan deu de ombros.
Você acabou de tomar um café. — Olivia tentou intervir, mas Jules não deu bola.
Jules apenas riu com graça, pegando sua bolsa e a de Olívia. Olivia, em retrospecto, apenas sorriu, sem demonstrar o menor traço de arrependimento por ter me jogado na fogueira com aquela risada estridente. E com isso, poucos segundos depois, ela e Jules estavam se afastando pelo corredor das arquibancadas, abandonando completamente qualquer tentativa de sutileza.
E, de repente, eu estava sozinho com , o que poderia ser um sonho, exceto pelo fato dela ser a garota mais difícil que eu já tinha conhecido até o momento. A ruiva também se levantou em retrospecto, um pouco sem graça aparentemente, já que suas expressões faciais costumavam ser indecifráveis — exceto pelo rubor sutil em suas bochechas. Ela ajustou a bolsa no ombro e lançou um olhar rápido para a saída.
— Acho que também vou embora.
Não, nem pensar. Meu cérebro entrou em estado de alerta imediato, porque aquela conversa não podia acabar ali. Não da forma imbecil que eu reagi na frente dela mais uma vez.
— Espera.
parou, virando-se lentamente na minha direção, com uma sobrancelha arqueada. Um olhar presunçoso, que parecia dizer que ela já sabia exatamente o que eu pretendia pedir. Quis rir de nervosismo, afinal, estava agindo de forma completamente patética e confusa por absolutamente nada. Era absolutamente ridículo, eu jogava diante de arenas lotadas, diante de milhares de pessoas gritavam meu nome — às vezes em xingamentos — durante as partidas, mas estava nervoso em pedir o número de uma garota.
Por alguma razão absurda, aquilo parecia muito mais intimidador. Talvez fosse a conversa com Tucker ontem, ou a constatação que estava agindo de forma prudente e idiota. De qualquer forma, não podia deixar aquilo me intimidar na frente dela e parecer ainda mais idiota.
— Me dá seu número.
Ela me observou em silêncio durante alguns longos segundos. Tempo suficiente para me deixar questionando todas as minhas decisões de vida. Aqueles olhos azuis impossíveis analisavam cada detalhe da minha expressão, piscando devagar com uma graciosidade que não pertencia à mesma mulher que havia me beijado há algumas noites. Sua feição transmitia algo perigosamente próximo de satisfação, como se ela soubesse exatamente o efeito que causava.
— Você é sempre insistente assim, John?
Sorri de soslaio, porque, naquele ponto, não fazia mais sentido fingir.
— Só com quem se faz de difícil pra mim. E eu gosto de desafios.
A risada dela foi baixa e suave, mas pelo menos não beirou ao silêncio anterior. Quase que dando-se por vencida, ela abriu a bolsa e retirou um pequeno bloco de post-its cor-de-rosa, seguida por uma caneta vermelho sangue assim como a cor de suas longas unhas. Então começou a escrever, de forma lenta, com movimento parecendo minuciosamente calculado para testar minha paciência. E eu tinha absoluta certeza de que ela estava fazendo aquilo de propósito.
E a pior parte era que estava funcionando.
Quando finalmente terminou, arrancou o papel do bloco e o estendeu na minha direção. Peguei o post-it, satisfeito, ato que fizera nossos dedos se tocaram por apenas um instante. O contato fora breve, pequeno, mas nitidamente causou algo nela, que desviou o olhar. Seus olhos encontraram os meus imediatamente; estavam calmos, firmes, confiantes, como se ela mantivesse o controle absoluto de toda a situação.
Talvez mantivesse mesmo. Afinal, aquela fora a primeira vez que eu estava me esforçando mais pelo número de uma mulher do que para beijá-la.
Olhei para o número escrito com a caneta colorida, com a caligrafia perfeita e arredondada, além de um pequeno coração em cima do I. Aquilo era terrivelmente fofo até para ela e não pude evitar de olhá-la com graça:
— Achei que você fosse me fazer sofrer mais.
— Bom, acho que eu fiz o suficiente. — riu, dando de ombros.
— Isso é bem masoquista da sua parte.
Soltei uma risada que foi acompanhada por ela. , entretanto, começou a se afastar em passos tranquilos, sem parecer ter nenhuma pressa. Como se não tivesse acabado de bagunçar completamente meus pensamentos — mais uma vez.
— Boa noite, Logan.
— Boa noite, .
Ela continuou caminhando pelo corredor sem olhar para trás. A calça jeans marcava o corpo dela perfeitamente, da mesma forma que a baby tee vinho que utilizava. Quando ela estava sentada, não consegui reparar o quanto ela estava gostosa como reparei naquele momento. Mordi o lábio de forma impaciente até que ela finalmente não estivesse mais visível aos meus olhos, permanecendo parado ali por alguns segundos. Porque, por alguma razão que eu não conseguia explicar, a forma que ela parecia indiferente, estava me cativando.
Talvez porque eu soubesse que aquela sensação estranha não tinha mais nada a ver com curiosidade. Talvez porque eu estivesse cansado de mentir para mim mesmo em relação a absolutamente tudo. Ou talvez porque, no instante em que ela desapareceu de vista, uma verdade finalmente se tornou impossível de ignorar: durante semanas eu tinha insistido em acreditar que ainda estava preso ao passado. Mas agora não era Hannah Wells que me deixava confuso e pensativo.
Era .


Eu cheguei em casa mais silencioso do que o normal, empurrando a porta com cuidado para ela não bater no batente. Não foi algo planejado; virou um hábito recente. Talvez porque ultimamente eu andasse com a cabeça cheia demais, ou porque eu estava cansado de ser alvo das piadas idiotas do Dean no segundo em que colocasse os pés dentro da casa; ou talvez porque eu simplesmente estivesse sorrindo feito um idiota e não queria explicar isso a absolutamente ninguém.
A imagem dela voltou à minha cabeça no mesmo instante. . O jeito que ela me olhou dias atrás depois daquele beijo, com um certo choque no rosto, depois com irritação. Aquele momento em que inocentemente acreditei que ela estava disposta a me beijar de novo. E desde então, eu estava tentando convencê-la a sair comigo. Tentando. E fracassando miseravelmente, mas como me considero um homem perseverante, eu continuava insistindo. Porque tinha alguma coisa nela que me fazia querer ficar por perto, que me fazia sorrir sozinho igual um completo imbecil.
Foi quando ouvi vozes vindas da cozinha. Diminuí o passo automaticamente, ao passo que reconheci como sendo de Dean e Garrett. Pensei em entrar normalmente, mas quando percebi o tom da conversa, parei. Não porque o tom parecia diferente, porém eu fiquei curioso. Portanto, fiquei parado perto da entrada, ainda escondido pelo corredor.
— … E então, nas férias de verão ela sumiu. — Dean pronunciou enquanto bebida algo, provavelmente cerveja.
— Sumiu? — Garrett rebateu, quase que imediatamente. — Como assim?
Franzi a testa. Ela? Dean gesticulou, claramente frustrado, o que não era muito costumeiro. Ele geralmente costumava magoar as mulheres e não ao contrário.
— Simplesmente pegou as coisas dela sem avisar e foi embora. — Dean continuou, ainda com um tom irritadiço. — Não falou comigo nem com a Summer. E você conhece minha irmã, ela nunca fica puta com ninguém.
Meu sorriso desapareceu aos poucos, só não sabia exatamente o porquê. Talvez porque eu nunca tivesse ouvido Dean falar daquele jeito sobre alguém. Di Laurentis era irritante, arrogante e fazia piadas sobre literalmente tudo. Mesmo quando estava preocupado, normalmente escondia atrás de sarcasmo. Mas aquilo parecia genuíno e me deixou curioso.
— Talvez estivesse ocupada. — Garrett brincou, claramente em um tom sarcástico.
— Durante quase um semestre? — Dean rebateu quase que imediatamente.
Graham riu mais uma vez:
— Tem gente que é ruim de responder mensagem.
— Garrett, ela não respondeu nenhuma das minhas mensagens ou ligações. Por isso eu fiquei preocupado.
As sobrancelhas franziram ainda mais. Preocupado. A palavra ficou martelando na minha cabeça, porque Dean preocupado — não com sentimentos, talvez com orgasmos — era bastante incomum. Que porra era aquela?
— Isso é meio desesperado, até para você. — Garrett brincou com ele.
— Vai se foder.
Garrett continou rindo, mas Dean não. E foi aí que um desconforto estranho começou a se instalar no meu peito, lento e ncômodo. Porque automaticamente eu me lembrei da biblioteca dias atrás, em que eu vi ele conversando de uma forma não muito amigável com . A tensão entre os dois era tão absurda que dava para sentir no ar.
No dia, não pensei em algo específico para aquele evento, apenas que Dean tivesse sido um babaca com ela, o que, sinceramente, não seria novidade. Mas agora, uma pequena peça parecia ter acabado de se encaixar e eu não gostei nem um pouco da sensação.
— Eu achei que tinha acontecido alguma coisa. E aí, quando as aulas voltaram, ela apareceu como se nada tivesse acontecido, na festa dias atrás. — Dean retomou a fala.
— E foi por isso que vocês brigaram no meio da biblioteca? — Garrett indagou.
Touché. Então era de que eles estavam falando.
— O talento dela em me tirar do sério é impressionante.
Garrett gargalhou, mas eu continuei parado, sem entrar no cômodo ou fazer barulho, com uma sensação cada vez pior se espalhando dentro do peito. Porque, de repente, várias coisas começaram a parecer estranhas. Eles tinham algum tipo de passado e uma intimidade que não era comum dele conceder a qualquer mulher. E por alguma razão, eu não gostei nem um pouco do jeito que meu estômago se contorceu ao perceber aquilo.
— E o que ela disse? — Garrett voltou a indagar, agora beberixando algo.
Dean ficou alguns segundos em silêncio antes de respondê-lo:
— Nada.
— Como assim nada?
— Ela só falou que não devia satisfação pra ninguém e me mandou cuidar da minha própria vida.
— Caralho! — Graham gargalhou.
— Pois é.
Eu fiquei parado por mais alguns segundos, olhando para o nada, com a mão ainda segurando a alça da mochila. E pela primeira vez desde que tinha beijado , uma pergunta atravessou minha cabeça de forma clara: que caralhos tinha acontecido entre ela e Dean?
Eu estava tão focado na conversa dos dois que praticamente esqueci do resto da porra do mundo ao meu redor. Dean parecia genuinamente irritado enquanto falava, passando a mão pelos cabelos loiros num gesto impaciente, enquanto Garrett tinha aquela expressão divertida de quem estava claramente se segurando para não rir da cara dele. Mas eu já nem estava olhando para os dois direito, pois estava preso na garota.
.
Estava intrigado na forma como Dean tinha falado o nome dela, com uma preocupação estranha: da discussão na biblioteca; na maneira como ela simplesmente parecia gostar de parecer inacessível e inalcançável. Que tipo de garota fazia isso? E por que diabos eu me importava?
Uma mão bateu com força no meu ombro, me tirando dos devaneios com um pulo, que consequentemente atraiu a atenção de Dean e Garrett, que cessaram o assunto quase que instantaneamente.
Caralho!
Ouvi uma gargalhada gostosa imediatamente atrás de mim.
— Meu Deus, Logan! — Hannah ria tanto que precisou segurar meu braço para não perder o equilíbrio. — Você quase teve um ataque cardíaco.
Levei a mão ao peito dramaticamente. Ela continuava sorrindo enquanto balançava a cabeça, aqueles olhos brilhando de diversão. Hannah tinha essa energia leve que parecia ocupar espaço sem esforço nenhum. Era impossível alguém ficar de mau humor perto dela. Ainda assim, meu coração demorou alguns segundos para desacelerar. Não pela porra do susto. Pela interrupção. Olhei por cima do ombro dela quase imediatamente, ao passo que Garrett abriu um sorriso enorme assim que a viu.
Wellsy.
Ele puxou Hannah para perto, passando um braço pela cintura dela, e ela se encaixou ao lado dele naturalmente, como se aquele lugar tivesse sido feito exatamente para ela. Dean soltou o ar pelo nariz, apoiando os cotovelos nos joelhos e sentando-se.
E foi isso. O assunto morreu tão rápido que quase me deu vontade de perguntar: "Espera, e a ?", mas isso seria estranho pra caralho. Por que eu perguntaria? Eu nem conhecia ela direito. Nem tinha conversado com ela por mais de alguns minutos, nem sabia por que estava tão interessado.
Mesmo assim, encostei as costas no sofá e olhei distraidamente para o outro lado da sala.
— Vou pro quarto — murmurei para ninguém em particular.
Subi as escadas sem dizer muita coisa, nem sequer precisei inventar desculpa. Garrett estava ocupado com Hannah, Dean parecia perdido nos próprios pensamentos e ninguém prestou atenção quando me levantei do sofá e enfiei as mãos nos bolsos da calça. Recebi alguns sons distraídos em resposta, ao passo que já estava andando pelo corredor.
O silêncio do andar de cima era estranho depois do barulho da sala. Fechei a porta atrás de mim, joguei as chaves sobre a escrivaninha e me joguei na cama, afundando no colchão enquanto encarava o teto. Fiquei alguns segundos ali. Minha cabeça ainda estava presa naquela conversa, naquele olhar azul meio indiferente, a sobrancelha arqueada, a expressão de quem estava levemente entediada enquanto destruía alguém sem elevar a voz.
Passei a mão pelo rosto. Porra. Sentei na cama num movimento brusco, refletindo sobre o quanto aquilo era ridículo. Peguei o celular no criado-mudo. Abri as mensagens. Fiquei encarando a tela por alguns segundos. O contato não estava salvo. Só o número. Sem nome. Sem foto. Só uma sequência de números que ela tinha me dado. Meu polegar ficou parado sobre o teclado.
"Oi." Apaguei, porque parecia patético. "Ei. Tá ocupada?" Mandei antes de pensar muito. Dessa vez larguei o celular no colchão e fiquei encarando o teto outra vez.
Mas em resposta, houve apenas silêncio. Mais alguns minutos passaram. Nada. Suspirei irritado; não porque ela não respondeu, mas porque eu estava percebendo que estava esperando uma resposta. Peguei o celular outra vez e fiquei olhando a conversa. Duas mensagens enviadas e nenhuma resposta.
E com isso, uma ideia estúpida atravessou minha cabeça. Antes que eu pudesse pensar melhor, apertei o ícone de ligação. Levei o celular até a orelha, em que o aparelho chamou por menos de dois segundos. Então uma voz automática entrou na linha: "O número que você ligou não existe ou não está disponível no momento." Franzi a testa lentamente, afastando o aparelho do ouvido.
Olhei o número na tela. Olhei de novo. E fiquei alguns segundos em silêncio. Depois soltei uma risada curta, completamente sem acreditar.
A filha da puta tinha me dado um número falso.
Continua… ou Fim
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