Daisy
O ar estava quente e abafado, como todas as noites das férias que estava passando na casa dos Heyward-Di Laurentis. Aquele período quente de verão no Caribe era algo característico de lá, que transmitia uma calmaria sem tamanho, mesmo depois que o sol desaparecia atrás do horizonte.
A umidade fazia alguns fios do meu cabelo grudarem na nuca, enquanto a brisa vinda do mar chegava fraca, insuficiente para aliviar a temperatura alta. Ainda assim, ela trazia consigo o cheiro característico da maresia e areia molhada, misturado ao perfume adocicado das flores espalhadas pelo jardim da casa. Ao longe, o som contínuo das ondas quebrando contra a costa se misturava a uma música baixa que tocava em algum lugar distante da propriedade, tornando-se quase que inaudível.
Confesso que aquilo já era familiar, confortável, como Londres também já foi um dia para mim — mas sem o céu cinza, com o clima majoritariamente deprimente e uma mãe narcisista.
Ali eu me sentia realmente viva. Afinal, conhecia aquela casa quase tão bem quanto conhecia a minha própria. Passava boa parte das minhas férias na borda clara da piscina iluminada pela lua, observando as pequenas luzes espalhadas pelo jardim, que desenhavam sombras suaves sobre o chão de pedra. Conhecia o barulho dos insetos escondidos entre as plantas tropicais e a forma como tudo parecia mais lento ali, como se o tempo parasse conosco.
E claro, também conhecia muito bem Dean Di Laurentis.
Conhecia aquele sorriso convencido que surgia quando ele sabia que estava sendo irritante de propósito; conhecia a maneira que seus olhos se estreitavam quando estava prestes a dizer alguma coisa idiota; conhecia seu jeito despreocupado nas férias, como se nunca tivesse se preocupado de verdade com absolutamente nada na vida, longe do hóquei e das suas verdadeiras “responsabilidades”.
Naquele momento, ele estava dentro da piscina, mergulhado até os ombros, com gotas escorrendo pelos cabelos loiros bagunçados e uma dose de rum disposta em uma taça de cristal entre os dedos. E, além de tudo, estava sorrindo para mim com aquele jeito sapeca, irritante e absurdamente bonito ao mesmo tempo.
Já não era a primeira vez que ele me olhava daquela forma. E das outras vezes, acabávamos sem roupa e no quarto dele. Não que eu me orgulhasse daquilo, pois me sentia péssima em “mentir” para Summer. Não exatamente mentir, talvez omitir; mas ela era minha melhor amiga, eu contava tudo para ela desde sempre.
Exceto pela parte que estava transando com o irmão dela todos os dias das nossas férias enquanto ela dormia.
— Você está me olhando de um jeito estranho — ele murmurou, levando a bebida aos lábios.
Observei seus olhos sobre a borda do copo por alguns segundos, sustentando o olhar, dando de ombros.
— Talvez.
Dean arqueou uma sobrancelha lentamente. Eu não estava exatamente bêbada; quer dizer, não o suficiente para esquecer meu nome ou tropeçar nas próprias pernas. Mas estava leve, um tanto quanto alegre — como na maioria dos dias que passava ali. Aquele tipo de estado perigoso em que tudo parece engraçado e qualquer ideia ruim parece aceitável.
A deliciosa ideia de transar com ele de novo.
Summer, nosso raio de sol ambulante, já estava dormindo há horas após todos os drinks que tomamos à tarde. Provavelmente esparramada na cama, abraçada em algum travesseiro, depois de gastar energia suficiente durante o dia inteiro. Enquanto isso, os pais de Dean estavam ocupados demais vivendo a própria versão de férias românticas pela ilha, desaparecendo por horas e nos deixando praticamente sozinhos naquela casa enorme.
Então ali éramos apenas nós dois. Eu e aquele loiro absurdamente convencido — e gostoso.
— Você faz isso às vezes.
— Fazer o quê? — franzi a testa.
Ele inclinou a cabeça de leve, analisando meu rosto. Dean se aproximou mais, apoiando os braços nas minhas coxas e o queixo em suas mãos.
— Fica me encarando com esses olhos azuis estranhos.
Soltei uma risada baixa, balançando a cabeça. Filho da puta. Ele sabia exatamente o que estava fazendo.
Era estranho ficar desarmada perto de alguém. Eu tinha passado anos aprendendo a mascarar certas versões de mim dependendo da situação; aprendi a esconder o que pensava, o que sentia, o que doía. Aquela armadura tinha se tornado quase automática com o tempo. Mas Dean e Summer… Eles conheciam coisas que ninguém mais conhecia. Conheciam minhas manias, silêncios, surtos, e principalmente minhas fugas. Conheciam a versão de mim que existia por baixo de tudo aquilo.
E talvez fosse por isso que eu estava ignorando as ligações da minha mãe fazia dias. Talvez fosse por isso que eu estivesse tentando esquecer o semestre que se iniciaria na Briar, esquecer as preocupações, esquecer tudo. Só queria continuar ali, beber vinho e rum roubado das adegas dos meus pseudo-tios e fingir, por mais alguns dias, que a vida era simples.
Então Dean se aproximou mais.
O loiro se levantou, já que estava anteriormente encolhido, enquanto avançou devagar entre as pequenas ondas que seu próprio corpo criava na piscina. A água escorreu pelos ombros dele, descendo pelo pescoço lentamente, ao passo que seus dedos tocaram minha cintura devagar, leve o suficiente para eu não entender imediatamente, porém firme o bastante para fazer meu coração tropeçar.
E então, Di Laurentis se levantou um pouco mais, aproximando o rosto do meu. Seus olhos encontraram os meus por alguns segundos longos demais. E mais uma vez, me beijou.
Puxei os cabelos molhados de Dean entre os dedos, sentindo os fios escorregarem pela minha mão enquanto o ósculo se aprofundava devagar, quase naturalmente. Soltei um gemido baixo contra seus lábios, mais por falta de ar do que por intenção, e imediatamente senti a mão dele apertar minha cintura um pouco mais forte.
Droga.
Dean não fazia ideia do quanto aquilo era perigoso, do quanto eu queria aquilo, aquela válvula de escape sensacional. Uma parte extremamente irresponsável de mim queria abandonar qualquer pensamento racional e esquecer completamente todos os limites que havia colocado em nossa relação. Porque, porra, era Dean, meu melhor amigo. E existiam coisas que simplesmente não podiam ser desfeitas — e nós havíamos cruzado aquela linha há muito tempo.
O gosto suave de rum ainda permanecia nos lábios dele, misturado ao gosto doce da bebida que eu tinha tomado antes. A água fria da piscina contrastava com o calor absurdo que parecia consumir minha pele por dentro, e eu mal percebia as gotas escorrendo pela minha perna ou o tecido do short grudando no meu corpo.
Tudo ao redor parecia distante. A música emanava baixinho, ao passo que o barulho das ondas estava longe. Existiam apenas seus lábios, sua mão na minha cintura e a sensação absurda de proximidade.
Porém alguma coisa ficou estranha. Demorei alguns segundos para perceber. Não foi como um choque ou uma interrupção brusca, algo imediato. Foi uma sensação sutil, quase imperceptível, como se algo não estivesse certo.
A mão na minha cintura pareceu maior e mais firme. Os dedos pressionavam minha pele de um jeito diferente, com uma segurança que eu conhecia, mas que não pertencia a Dean. E graças ao efeito da bebida, meu cérebro demorou alguns segundos para acompanhar. O perfume também mudou. Não era mais o cheiro fresco que Dean costumava usar, misturado com água da piscina e álcool. Era algo mais intenso e principalmente quente, como madeira; algo masculino demais, familiar demais.
Por fim, quando abri os olhos, meu estômago afundou. Foi aquilo que fez meu coração praticamente parar antes de voltar a bater rápido demais, porque não era Dean.
Era Logan. A porra do John Logan.
Por alguns segundos, meu cérebro simplesmente se recusou a processar a informação. Eu fiquei parada, olhando para ele como se estivesse encarando uma alucinação criada pelo excesso de álcool. Mas Logan continuava ali, como se fosse certo. Estava próximo demais, com os olhos castanhos e amendoados presos aos meus.
Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados, molhados, enquanto algumas gotas estavam escorrendo pela lateral do rosto, ao passo que Logan mantinha aquele olhar intenso em mim. Como se tivesse esperado aquele momento há muito tempo.
Meu coração começou a bater tão forte que achei que ele podia ouvir. E então aquele maldito sorriso apareceu, lento e presunçoso. Aquele sorriso irritante que fazia minha vontade de beijá-lo competir diretamente com a vontade de socar a cara dele. John, por sua vez, se aproximou alguns centímetros. O suficiente para eu sentir sua respiração bater contra minha pele, quente e sensual.
— O que foi? — murmurou, a voz baixa e rouca. Os olhos dele desceram para minha boca antes de voltarem para os meus. — Você queria isso tanto quanto eu.
A vibração insistente do celular sobre a escrivaninha arrancou meus olhos da página aberta à minha frente. Ou melhor, arrancou meus olhos do nada, porque eu já não estava lendo havia vários minutos, pois aquele maldito sonho havia me tirado do eixo. Acabei acordando de madrugada e não consegui pregar os olhos desde então.
Levantei a cabeça devagar, piscando algumas vezes enquanto tentava afastar aquela sensação estranha que parecia presa ao meu cérebro. O quarto estava silencioso demais; a luz suave atravessava parcialmente as cortinas, desenhando faixas douradas sobre a cama e sobre os livros espalhados pelo chão.
Meu coração ainda estava acelerado de uma forma irritante, como se meu corpo tivesse disposto a me trair. Passei uma mão pelo rosto lentamente e afundei a cabeça no travesseiro por alguns segundos.
Porra. Por que meu cérebro faria uma coisa dessas comigo? Sabe, de todos os rostos possíveis, de todas as pessoas possíveis, não era a face de John Logan que eu esperava ver naquela lembrança. A recordação daquele sorriso arrogante atravessou minha mente quase instantaneamente e eu fechei os olhos com força.
Eu, absolutamente, me recusava a pensar sobre isso. A vibração, no entanto, aconteceu outra vez, me tirando do transe. Soltei o ar pelo nariz antes de me inclinar para frente e pegar o celular sobre a escrivaninha. Com isso, meu corpo congelou por uma fração de segundo.
Mãe.
Fiquei olhando o nome na tela acesa como se tivesse aparecido ali por engano. Em Londres ainda era começo da noite, então aquele, definitivamente, não era um bom sinal. Afinal, eu conhecia aquilo, conhecia exatamente o modus operandi da minha mãe. Parecia cuidadoso e amoroso no começo, mas ela não me pouparia de tecer suas longas críticas.
Mesmo assim, passei o polegar pela tela, à contragosto.
— Oi, mãe.
Por alguns segundos ouvi apenas a respiração dela do outro lado:
— .
A voz saiu tão controlada que quase parecia ensaiada. E como sempre, . Não , não filha. Sem carinho, apenas ríspida, como sempre.
— Aconteceu alguma coisa?
— Seu pai melhorou.
Meu corpo enrijeceu automaticamente. Afinal, meu pai era sempre um tópico delicado em nossos assuntos. George fazia uma ponte entre nós, e com ele doente, a relação com a minha mãe só piorava.
— Melhorou quanto?
— O suficiente para voltar a trabalhar parcialmente.
— Certo.
Ficamos em silêncio de novo, de uma forma desconfortável, como se ela estivesse me analisando. Mesmo com a constatação, estava feliz por saber que meu pai estava melhorando gradativamente. Todos sabiam o quanto ele prezava pelo trabalho como advogado.
— E Dean? — perguntou, cortando os meus pensamentos.
Meu estômago apertou. Pelo sonho, pela lembrança quente — agora substituída por Logan, tão gostoso quanto dean naquela noite —, pela incerteza da minha relação com Di Laurentis e pela invasão de privacidade que minha mãe achava de bom tom fazer.
— O que tem ele?
— Vocês voltaram a se falar?
Meu olhar foi parar na janela. Lá fora, alguns estudantes atravessavam o campus, rindo de alguma coisa. E eu sabia que aquilo somado à minhas bochechas ruborizadas, significava que eu estava com vergonha — e altamente curiosa para saber como minha mãe sabia daquilo.
— Nós estamos bem. — Aquilo era mentira, mas ela não precisava saber.
Uma mentira tão descarada que quase consegui sentir o gosto amargo na boca.
— E? — Ela indagou. Murmurei algo quase em uníssono, mas sem responder seu questionamento. Sem paciência do outro lado da linha, ela voltou a dizer: — , você sabe exatamente o que quero dizer.
— Eu já disse que estamos bem. — Minha voz saiu simples, curta e direta, porém mamãe me conhecia.
Infelizmente, me conhecia.
— Você continua fugindo de perguntas simples, .
Soltei uma risada baixa, sem humor algum.
— E você continua fazendo perguntas em que as respostas não são da sua conta. — Resmunguei, já puta de vida. — Preciso desligar.
— Desligar?
— Tenho plantão na biblioteca.
Ouvi uma respiração curta atravessar a ligação, seguida de uma risada que conhecia perfeitamente. Aquele era o som que vinha antes da crítica, antes de um golpe cruel e calculado. Antes dela encontrar exatamente o lugar certo para apertar.
— , você não precisa continuar fingindo que trabalha para provar algo às pessoas.
Meus dedos pararam sobre a página do livro.
— Desculpe?
— Eu e seu pai sempre sustentamos e sustentaremos você. Não precisa transformar tudo numa competição por independência para chamar a atenção.
Alguma coisa dentro de mim esfriou, porque ela tinha feito aquilo de novo e reduzido a uma birra. E o pior, a troco de absolutamente nada.
— Tenho que ir.
— !
Meu maxilar travou instantaneamente, afinal só ela me chamava assim, e só ela conseguia transformar meu nome em um maldito aviso. Por isso, não hesitei em desligar na cara dela e silenciar suas ligações. Joguei o celular sobre a cama como se ele tivesse me ferido. Fiquei olhando para a tela apagada por alguns segundos, imóvel.
Engraçado como minha mãe conseguia fazer aquilo. Ela nem precisava levantar a voz; não precisava gritar, não precisava discutir ou dizer coisas cruéis diretamente. Ela simplesmente encontrava uma maneira de fazer com que eu me sentisse pequena, como se tudo que eu fazia fosse uma tentativa patética de provar alguma coisa. Como se eu fosse uma criança fazendo birra.
Passei as mãos pelo rosto devagar, apertando os olhos com força. Meu dia estava oficialmente uma merda.
Três batidas rápidas na porta, no entanto, interromperam meus pensamentos.
— ? Você tá viva aí dentro?
Era Olivia. Soltei o ar pelo nariz antes de me levantar da cama e ir em direção a porta, um pouco a contragosto.
— Depende — respondi, com a voz abafada enquanto atravessava o quarto. — Qual a urgência?
— Abre a porta primeiro.
Girei a maçaneta e encontrei Olivia parada do lado de fora usando uma calça de moletom larga, os cabelos presos em um coque bagunçado e um copo de café nas mãos. Ela me observou por dois segundos, estreitando os olhos.
— Você esqueceu? — perguntou, incrédula.
Pisquei algumas vezes, sem entender do que caralhos Olívia estava falando.
— Esqueci o quê?
— , eu literalmente te convidei ontem!
Fiquei olhando para ela por alguns segundos, enquanto minha memória resolveu colaborar aos poucos. Treino de hóquei. E então, meu corpo congelou por uma fração de segundo, porque aquilo significava jogadores de hóquei. E havia um certo jogador que eu estava evitando desde o meu último sonho.
Na verdade dois, sendo bem honesta.
Imediatamente, meu cérebro — aquele filho da puta traidor —, decidiu me presentear com a lembrança do sonho da madrugada. Com aqueles olhos castanhos presos nos meus, a mão na minha cintura, a voz rouca perto demais, me dizendo: “Você queria isso tanto quanto eu.”
Cruzei os braços, impaciente.
— Acho que vou passar.
Olivia arqueou uma sobrancelha.
— Você vai passar? — ela riu com escárnio. — Você tem cinco minutos para se arrumar, , e isso não tem discussão.
Queria discutir com aquela pentelha irritante, mas não estava disposta a me abrir. Por alguns segundos fiquei quieta. A ligação da minha mãe ainda parecia presa dentro do peito, pesada e irritante, como algo difícil de engolir. Não queria pensar nela, ou em Dean, e definitivamente não queria pensar no motivo ridículo de estar evitando uma pista de gelo inteira. Afinal, seria absolutamente insano evitar alguém por causa de um sonho idiota.
Olivia se aproximou novamente, acenando uma das mãos.
— Ei. Você tá bem? Eu só queria que você se divertisse…
Meu olhar caiu por alguns segundos, apenas para que eu concordasse e dissesse que iria com elas. E talvez fosse justamente por não estar bem que aceitei. Talvez porque ficar sozinha significasse pensar demais, e a ideia de pensar parecia uma ideia terrível naquele momento. E também, Olívia sempre era doce, gentil e preocupada comigo.
— Tudo bem, eu vou com vocês. Mas não se acostuma.
— Claro.
Vi que Olívia ficou animada e fui procurar algo para me vestir de forma casual. Mesmo desejando evitar John depois daquele sonho, qualquer coisa era válida naquele momento para fugir dos meus problemas — e quem sabe, arrumar outros pelo andar da carruagem.
John Logan
Eu deveria estar prestando atenção no treino. Tecnicamente, eu estava, mas não de verdade como sempre fazia. Afinal, meu corpo reagia de forma automática a cada passe, a cada comando do treinador ou grito de Garrett, a cada mudança brusca de direção sobre o gelo. Anos de prática fazia aquilo parecer natural, quase instintivo. Eu sabia exatamente onde precisava estar, quando acelerar ou recuar, quando arriscar uma jogada. Mas, por mais que meu corpo estivesse presente, minha mente havia desenvolvido um hábito irritante nos últimos minutos.
Toda vez que meu olhar escapava por um segundo da movimentação da equipe e encontrava as arquibancadas, eu acabava procurando a mesma figura — e consequentemente encontrando tão linda quanto antes. Não que fosse muito difícil reconhecer a cabeleira ruiva sentada entre Olivia e Jules, como se aquele fosse o lugar mais normal do mundo para ela estar. Suas pernas estavam elegantemente cruzadas, os cabelos ruivos caíam em ondas suaves sobre os ombros até a cintura e a expressão tranquila de quem observava tudo sem realmente se deixar envolver. Como se fosse completamente indiferente ao fato de que eu quase tinha atravessado metade da pista minutos antes para marcar um gol.
E talvez fosse exatamente isso que me deixava tão incomodado. Aquela sensação de indiferença, a facilidade absurda que tinha de parecer inalcançável e impassível a qualquer investida minha. Mesmo que eu estivesse dando o meu melhor ali, jogando como um maníaco e afiado pra caralho.
Sabia que Garrett provavelmente iria me infernizar por causa daquilo depois. Na verdade, não apenas Garrett, todos eles, porque eu estava jogando de forma diferente e qualquer um que me conhecesse minimamente seria capaz de perceber. Eu estava patinando como um idiota extremamente motivado à impressionar uma garota que fingia não estar impressionada. Mas, ainda assim, um grande idiota. Porque como se não bastasse o segundo fora, eu ainda me via incapaz de não tentar mais uma vez.
Talvez eu fosse um pouco insistente, mas eu preferi me denominar como um homem determinado a alcançar os objetivos. Aquela era a primeira vez em meses que uma mulher estava me fazendo pastar por um simples número de telefone — mesmo depois de ter me beijado tão gostoso naquele dia. Não é como se as garotas oferecessem qualquer objeção a mim, sabia que era um cara tranquilo, não invasivo e além de tudo, sedutor. Mas a necessidade que eu sentia de beijar aqueles lábios novamente beirava ao ridículo.
E o que mais ela quisesse fazer comigo.
O som agudo do apito atravessou o rinque, encerrando oficialmente o treino. Aos poucos, os jogadores começaram a deixar o gelo, conversando entre si enquanto recolhiam equipamentos e seguiam para os vestiário. Eu passei uma das mãos pelos cabelos úmidos, tentando recuperar alguma aparência de normalidade, e ergui os olhos mais uma vez para as arquibancadas. Quando desviei o olhar, notei que Garrett me olhava feio de longe e eu sabia que teríamos de conversar depois.
Estava evitando Graham há algumas semanas e mesmo com ele focado naquela baboseira romântica, sabia que em algum momento ele notaria meu afastamento. E quando percebi o seu olhar sobre o meu, soube que iríamos dialogar sobre aquilo em algum momento. Mas definitivamente não agora, em vista que ainda estava lá.
Ótimo.
Não demorei muito para organizar as coisas e me deixar minimamente apresentável. Antes que pudesse pensar demais ou inventar alguma desculpa para não ir até ela, comecei a caminhar naquela direção.
Minha irmã foi a primeira a me notar, ao passo que seu rosto imediatamente se iluminou em um sorriso enorme. Um tipo de sorriso específico em Jules que, em noventa por cento das situações, significava problemas. Contudo, ignorei completamente, porque meus olhos já tinham encontrado os de , azuis e curiosos como sempre.
— Você veio.
As palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse pensar em algo melhor. Realmente era uma fala brilhante para se ter na frente das duas maiores fofoqueiras daquele campus. Depois de alguns dias imaginando conversas possíveis, aquilo foi o melhor que consegui formular. Afinal, estava realmente impressionado com a presença dela, ao passo que inclinou levemente a cabeça, sem perder a calma característica que parecia acompanhá-la o tempo inteiro.
— Me convidaram.
É claro que aquela seria a resposta, porque jamais facilitaria qualquer coisa — até mesmo a abertura para um simples diálogo. Ela nunca parecia disposta a entregar mais do que queria. E, por algum motivo, isso era o que me motivava a querer continuar tentando. E talvez porque eu fosse um teimoso do caralho desacostumado a não ter uma garota quando queria. Flertar com o inalcançável era quase que um hobby nos últimos meses. Primeiro Hannah, agora .
O canto da minha sobrancelha se ergueu sozinho.
— Claro que convidaram.
Jules observou a troca de olhares entre nós, alternando o olhar curioso entre e posteriormente à mim. Percebi o exato momento em que algo começou a se encaixar dentro da cabeça dela, pois sua expressão mudara lentamente, como alguém que finalmente encontrava a peça que faltava em um quebra-cabeça particularmente difícil. E automaticamente meu estômago afundou, porque eu conhecia aquele olhar — e sabia exatamente o que estava prestes a acontecer.
— Espera… — ela apontou para nós dois. — Então vocês já se conhecem?
Ao lado dela, Olivia soltou uma gargalhada extremamente satisfeita, como se já tivesse deduzido a história inteira. Ela enfatizou o já, finalmente entendendo o porquê eu havia perguntado sobre dias atrás.
— Então tem alguma coisa acontecendo aqui. — Jules deduziu, cruzando os braços.
A essa altura do campeonato, eu já me enxergava sendo exposto no próximo post do Instagram de fofocas de Jules. E , por sua vez, ficou instantaneamente corada, o que não era costumeiro da garota.
— Não tem — respondeu quase que imediatamente, cruzando os braços e olhando na direção da minha irmã com os olhos afiados.
Eu não contribuí em absolutamente nada para minha própria defesa. Principalmente porque estava ocupado demais observando e, aparentemente, aquilo serviu apenas para confirmar todas as suspeitas delas. Jules abriu um sorriso vitorioso, colocando uma mecha do cabelo loiro e repicado atrás da orelha.
— Vamos deixar vocês dois então. — Jules proferiu quase que com graça, dando de ombros.
virou-se rapidamente para ela e depois para Olivia, parecendo levemente ofendida pela constatação da minha irmã.
— O quê?
— Estou com sede. — Jules Logan deu de ombros.
— Você acabou de tomar um café. — Olivia tentou intervir, mas Jules não deu bola.
Jules apenas riu com graça, pegando sua bolsa e a de Olívia. Olivia, em retrospecto, apenas sorriu, sem demonstrar o menor traço de arrependimento por ter me jogado na fogueira com aquela risada estridente. E com isso, poucos segundos depois, ela e Jules estavam se afastando pelo corredor das arquibancadas, abandonando completamente qualquer tentativa de sutileza.
E, de repente, eu estava sozinho com , o que poderia ser um sonho, exceto pelo fato dela ser a garota mais difícil que eu já tinha conhecido até o momento. A ruiva também se levantou em retrospecto, um pouco sem graça aparentemente, já que suas expressões faciais costumavam ser indecifráveis — exceto pelo rubor sutil em suas bochechas. Ela ajustou a bolsa no ombro e lançou um olhar rápido para a saída.
— Acho que também vou embora.
Não, nem pensar. Meu cérebro entrou em estado de alerta imediato, porque aquela conversa não podia acabar ali. Não da forma imbecil que eu reagi na frente dela mais uma vez.
— Espera.
parou, virando-se lentamente na minha direção, com uma sobrancelha arqueada. Um olhar presunçoso, que parecia dizer que ela já sabia exatamente o que eu pretendia pedir. Quis rir de nervosismo, afinal, estava agindo de forma completamente patética e confusa por absolutamente nada. Era absolutamente ridículo, eu jogava diante de arenas lotadas, diante de milhares de pessoas gritavam meu nome — às vezes em xingamentos — durante as partidas, mas estava nervoso em pedir o número de uma garota.
Por alguma razão absurda, aquilo parecia muito mais intimidador. Talvez fosse a conversa com Tucker ontem, ou a constatação que estava agindo de forma prudente e idiota. De qualquer forma, não podia deixar aquilo me intimidar na frente dela e parecer ainda mais idiota.
— Me dá seu número.
Ela me observou em silêncio durante alguns longos segundos. Tempo suficiente para me deixar questionando todas as minhas decisões de vida. Aqueles olhos azuis impossíveis analisavam cada detalhe da minha expressão, piscando devagar com uma graciosidade que não pertencia à mesma mulher que havia me beijado há algumas noites. Sua feição transmitia algo perigosamente próximo de satisfação, como se ela soubesse exatamente o efeito que causava.
— Você é sempre insistente assim, John?
Sorri de soslaio, porque, naquele ponto, não fazia mais sentido fingir.
— Só com quem se faz de difícil pra mim. E eu gosto de desafios.
A risada dela foi baixa e suave, mas pelo menos não beirou ao silêncio anterior. Quase que dando-se por vencida, ela abriu a bolsa e retirou um pequeno bloco de post-its cor-de-rosa, seguida por uma caneta vermelho sangue assim como a cor de suas longas unhas. Então começou a escrever, de forma lenta, com movimento parecendo minuciosamente calculado para testar minha paciência. E eu tinha absoluta certeza de que ela estava fazendo aquilo de propósito.
E a pior parte era que estava funcionando.
Quando finalmente terminou, arrancou o papel do bloco e o estendeu na minha direção. Peguei o post-it, satisfeito, ato que fizera nossos dedos se tocaram por apenas um instante. O contato fora breve, pequeno, mas nitidamente causou algo nela, que desviou o olhar. Seus olhos encontraram os meus imediatamente; estavam calmos, firmes, confiantes, como se ela mantivesse o controle absoluto de toda a situação.
Talvez mantivesse mesmo. Afinal, aquela fora a primeira vez que eu estava me esforçando mais pelo número de uma mulher do que para beijá-la.
Olhei para o número escrito com a caneta colorida, com a caligrafia perfeita e arredondada, além de um pequeno coração em cima do I. Aquilo era terrivelmente fofo até para ela e não pude evitar de olhá-la com graça:
— Achei que você fosse me fazer sofrer mais.
— Bom, acho que eu fiz o suficiente. — riu, dando de ombros.
— Isso é bem masoquista da sua parte.
Soltei uma risada que foi acompanhada por ela. , entretanto, começou a se afastar em passos tranquilos, sem parecer ter nenhuma pressa. Como se não tivesse acabado de bagunçar completamente meus pensamentos — mais uma vez.
— Boa noite, Logan.
— Boa noite, .
Ela continuou caminhando pelo corredor sem olhar para trás. A calça jeans marcava o corpo dela perfeitamente, da mesma forma que a baby tee vinho que utilizava. Quando ela estava sentada, não consegui reparar o quanto ela estava gostosa como reparei naquele momento. Mordi o lábio de forma impaciente até que ela finalmente não estivesse mais visível aos meus olhos, permanecendo parado ali por alguns segundos. Porque, por alguma razão que eu não conseguia explicar, a forma que ela parecia indiferente, estava me cativando.
Talvez porque eu soubesse que aquela sensação estranha não tinha mais nada a ver com curiosidade. Talvez porque eu estivesse cansado de mentir para mim mesmo em relação a absolutamente tudo. Ou talvez porque, no instante em que ela desapareceu de vista, uma verdade finalmente se tornou impossível de ignorar: durante semanas eu tinha insistido em acreditar que ainda estava preso ao passado. Mas agora não era Hannah Wells que me deixava confuso e pensativo.
Era .
ꕤ
Eu cheguei em casa mais silencioso do que o normal, empurrando a porta com cuidado para ela não bater no batente. Não foi algo planejado; virou um hábito recente. Talvez porque ultimamente eu andasse com a cabeça cheia demais, ou porque eu estava cansado de ser alvo das piadas idiotas do Dean no segundo em que colocasse os pés dentro da casa; ou talvez porque eu simplesmente estivesse sorrindo feito um idiota e não queria explicar isso a absolutamente ninguém.
A imagem dela voltou à minha cabeça no mesmo instante. . O jeito que ela me olhou dias atrás depois daquele beijo, com um certo choque no rosto, depois com irritação. Aquele momento em que inocentemente acreditei que ela estava disposta a me beijar de novo. E desde então, eu estava tentando convencê-la a sair comigo. Tentando. E fracassando miseravelmente, mas como me considero um homem perseverante, eu continuava insistindo. Porque tinha alguma coisa nela que me fazia querer ficar por perto, que me fazia sorrir sozinho igual um completo imbecil.
Foi quando ouvi vozes vindas da cozinha. Diminuí o passo automaticamente, ao passo que reconheci como sendo de Dean e Garrett. Pensei em entrar normalmente, mas quando percebi o tom da conversa, parei. Não porque o tom parecia diferente, porém eu fiquei curioso. Portanto, fiquei parado perto da entrada, ainda escondido pelo corredor.
— … E então, nas férias de verão ela sumiu. — Dean pronunciou enquanto bebida algo, provavelmente cerveja.
— Sumiu? — Garrett rebateu, quase que imediatamente. — Como assim?
Franzi a testa. Ela? Dean gesticulou, claramente frustrado, o que não era muito costumeiro. Ele geralmente costumava magoar as mulheres e não ao contrário.
— Simplesmente pegou as coisas dela sem avisar e foi embora. — Dean continuou, ainda com um tom irritadiço. — Não falou comigo nem com a Summer. E você conhece minha irmã, ela nunca fica puta com ninguém.
Meu sorriso desapareceu aos poucos, só não sabia exatamente o porquê. Talvez porque eu nunca tivesse ouvido Dean falar daquele jeito sobre alguém. Di Laurentis era irritante, arrogante e fazia piadas sobre literalmente tudo. Mesmo quando estava preocupado, normalmente escondia atrás de sarcasmo. Mas aquilo parecia genuíno e me deixou curioso.
— Talvez estivesse ocupada. — Garrett brincou, claramente em um tom sarcástico.
— Durante quase um semestre? — Dean rebateu quase que imediatamente.
Graham riu mais uma vez:
— Tem gente que é ruim de responder mensagem.
— Garrett, ela não respondeu nenhuma das minhas mensagens ou ligações. Por isso eu fiquei preocupado.
As sobrancelhas franziram ainda mais. Preocupado. A palavra ficou martelando na minha cabeça, porque Dean preocupado — não com sentimentos, talvez com orgasmos — era bastante incomum. Que porra era aquela?
— Isso é meio desesperado, até para você. — Garrett brincou com ele.
— Vai se foder.
Garrett continou rindo, mas Dean não. E foi aí que um desconforto estranho começou a se instalar no meu peito, lento e ncômodo. Porque automaticamente eu me lembrei da biblioteca dias atrás, em que eu vi ele conversando de uma forma não muito amigável com . A tensão entre os dois era tão absurda que dava para sentir no ar.
No dia, não pensei em algo específico para aquele evento, apenas que Dean tivesse sido um babaca com ela, o que, sinceramente, não seria novidade. Mas agora, uma pequena peça parecia ter acabado de se encaixar e eu não gostei nem um pouco da sensação.
— Eu achei que tinha acontecido alguma coisa. E aí, quando as aulas voltaram, ela apareceu como se nada tivesse acontecido, na festa dias atrás. — Dean retomou a fala.
— E foi por isso que vocês brigaram no meio da biblioteca? — Garrett indagou.
Touché. Então era de que eles estavam falando.
— O talento dela em me tirar do sério é impressionante.
Garrett gargalhou, mas eu continuei parado, sem entrar no cômodo ou fazer barulho, com uma sensação cada vez pior se espalhando dentro do peito. Porque, de repente, várias coisas começaram a parecer estranhas. Eles tinham algum tipo de passado e uma intimidade que não era comum dele conceder a qualquer mulher. E por alguma razão, eu não gostei nem um pouco do jeito que meu estômago se contorceu ao perceber aquilo.
— E o que ela disse? — Garrett voltou a indagar, agora beberixando algo.
Dean ficou alguns segundos em silêncio antes de respondê-lo:
— Nada.
— Como assim nada?
— Ela só falou que não devia satisfação pra ninguém e me mandou cuidar da minha própria vida.
— Caralho! — Graham gargalhou.
— Pois é.
Eu fiquei parado por mais alguns segundos, olhando para o nada, com a mão ainda segurando a alça da mochila. E pela primeira vez desde que tinha beijado , uma pergunta atravessou minha cabeça de forma clara: que caralhos tinha acontecido entre ela e Dean?
Eu estava tão focado na conversa dos dois que praticamente esqueci do resto da porra do mundo ao meu redor. Dean parecia genuinamente irritado enquanto falava, passando a mão pelos cabelos loiros num gesto impaciente, enquanto Garrett tinha aquela expressão divertida de quem estava claramente se segurando para não rir da cara dele. Mas eu já nem estava olhando para os dois direito, pois estava preso na garota.
.
Estava intrigado na forma como Dean tinha falado o nome dela, com uma preocupação estranha: da discussão na biblioteca; na maneira como ela simplesmente parecia gostar de parecer inacessível e inalcançável. Que tipo de garota fazia isso? E por que diabos eu me importava?
Uma mão bateu com força no meu ombro, me tirando dos devaneios com um pulo, que consequentemente atraiu a atenção de Dean e Garrett, que cessaram o assunto quase que instantaneamente.
— Caralho!
Ouvi uma gargalhada gostosa imediatamente atrás de mim.
— Meu Deus, Logan! — Hannah ria tanto que precisou segurar meu braço para não perder o equilíbrio. — Você quase teve um ataque cardíaco.
Levei a mão ao peito dramaticamente. Ela continuava sorrindo enquanto balançava a cabeça, aqueles olhos brilhando de diversão. Hannah tinha essa energia leve que parecia ocupar espaço sem esforço nenhum. Era impossível alguém ficar de mau humor perto dela. Ainda assim, meu coração demorou alguns segundos para desacelerar. Não pela porra do susto. Pela interrupção. Olhei por cima do ombro dela quase imediatamente, ao passo que Garrett abriu um sorriso enorme assim que a viu.
— Wellsy.
Ele puxou Hannah para perto, passando um braço pela cintura dela, e ela se encaixou ao lado dele naturalmente, como se aquele lugar tivesse sido feito exatamente para ela. Dean soltou o ar pelo nariz, apoiando os cotovelos nos joelhos e sentando-se.
E foi isso. O assunto morreu tão rápido que quase me deu vontade de perguntar: "Espera, e a ?", mas isso seria estranho pra caralho. Por que eu perguntaria? Eu nem conhecia ela direito. Nem tinha conversado com ela por mais de alguns minutos, nem sabia por que estava tão interessado.
Mesmo assim, encostei as costas no sofá e olhei distraidamente para o outro lado da sala.
— Vou pro quarto — murmurei para ninguém em particular.
Subi as escadas sem dizer muita coisa, nem sequer precisei inventar desculpa. Garrett estava ocupado com Hannah, Dean parecia perdido nos próprios pensamentos e ninguém prestou atenção quando me levantei do sofá e enfiei as mãos nos bolsos da calça. Recebi alguns sons distraídos em resposta, ao passo que já estava andando pelo corredor.
O silêncio do andar de cima era estranho depois do barulho da sala. Fechei a porta atrás de mim, joguei as chaves sobre a escrivaninha e me joguei na cama, afundando no colchão enquanto encarava o teto. Fiquei alguns segundos ali. Minha cabeça ainda estava presa naquela conversa, naquele olhar azul meio indiferente, a sobrancelha arqueada, a expressão de quem estava levemente entediada enquanto destruía alguém sem elevar a voz.
Passei a mão pelo rosto. Porra. Sentei na cama num movimento brusco, refletindo sobre o quanto aquilo era ridículo. Peguei o celular no criado-mudo. Abri as mensagens. Fiquei encarando a tela por alguns segundos. O contato não estava salvo. Só o número. Sem nome. Sem foto. Só uma sequência de números que ela tinha me dado. Meu polegar ficou parado sobre o teclado.
"Oi." Apaguei, porque parecia patético. "Ei. Tá ocupada?" Mandei antes de pensar muito. Dessa vez larguei o celular no colchão e fiquei encarando o teto outra vez.
Mas em resposta, houve apenas silêncio. Mais alguns minutos passaram. Nada. Suspirei irritado; não porque ela não respondeu, mas porque eu estava percebendo que estava esperando uma resposta. Peguei o celular outra vez e fiquei olhando a conversa. Duas mensagens enviadas e nenhuma resposta.
E com isso, uma ideia estúpida atravessou minha cabeça. Antes que eu pudesse pensar melhor, apertei o ícone de ligação. Levei o celular até a orelha, em que o aparelho chamou por menos de dois segundos. Então uma voz automática entrou na linha: "O número que você ligou não existe ou não está disponível no momento." Franzi a testa lentamente, afastando o aparelho do ouvido.
Olhei o número na tela. Olhei de novo. E fiquei alguns segundos em silêncio. Depois soltei uma risada curta, completamente sem acreditar.
A filha da puta tinha me dado um número falso.