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Codificada por Lua ☾
Última atualização: 24/06/2026

Daisy


A música fazia o chão inteiro da fraternidade vibrar. Não era apenas a música, mas as conversas e risadas que ecoavam pela casa. Haviam algumas luzes vermelhas atravessavam a fumaça artificial espalhada pela sala, muitas pessoas dançando juntas — um pouco apertadas graças ao espaço —, além de garrafas abertas em todas as superfícies possíveis, conjuntamente aos copos coloridos e garrafas de cerveja barata.
Era exatamente o tipo de caos que costumava amar. Não apenas pelo o que aquilo representava, mas pela liberdade que exalava. Fazia seis meses desde a última vez que havia estado ali. Seis meses desde Briar, do adeus à Olivia e da rotina das duas como melhores amigas. Seis meses desde o "término" desagradável com Dean Di Laurentis. Seis meses desde o adoecimento de seu pai, e consequentemente, desde a fatídica briga com sua mãe. E a única coisa que ela desejava, era que ele tivesse deixado toda aquela história para trás. Todo aquele drama.
não estava desacostumada a receber olhares, mas sabia que algumas pessoas haviam a reconhecido. Não era apenas o vestido dourado contrastando com a pele branca levemente bronzeada e os cabelos ruivos; era realmente um cochicho e burburinho costumeiro de quando algo poderia escalonar para uma fofoca. Mas não se fez necessário, em vista de que alguém esbarrou nela. Quando ela levantou o olhar para encarar, as palavras faltaram no loiro a sua frente:
— Foi mal, eu—
A voz morreu quase que imediatamente. Dean Di Laurentis congelou no meio da sala, encarando-a com uma expressão indecifrável. O copo de cerveja permaneceu na mão direito, mas ele pareceu apertá-lo. Os olhos claros ficaram arregalados, presos nela como se estivesse vendo uma assombração. E talvez estivesse mesmo. Porque tinha desaparecido sem olhar para trás no semestre anterior, depois de desistir do amor de verão que tivera com o loiro. E era notável o quanto aquilo o havia ferido.
Não era sobre o término. Dean não era um homem de namorar, de qualquer forma; mas era inegável que seu ego fora ferido por ela, uma pessoa que já conhecia e confiava há tantos anos. E talvez esse fosse o grande pilar dos problemas que ambos enfrentaram no relacionamento: eram muito parecidos. Incapazes de aprofundar-se sentimentalmente na vida um do outro, sem que houvesse manipulação ou vulnerabilidade envolvido. Mesmo que se conhecessem há muito tempo, não se permitiram aprofundar e mostrar suas vulnerabilidades.
?! — Dean finalmente soltou, incrédulo.
Ao redor deles, algumas conversas começaram a cessar discretamente. Porque, querendo ou não, as pessoas perceberam a tensão formando-se no ar. Até mesmo Beau, que estava ao lado do amigo, deu um passo para deixá-lo de frente à garota. Ele era o único que sabia absolutamente sobre tudo, afinal.
, por sua vez, abriu um sorriso pequeno e controlado. Não queria perder a classe em seu retorno, ou deixar explícito para todos sobre a tensão quase que palpável com o loiro. Aquela era uma história privada somente à eles.
— Oi, Dean.
Só isso. Mas foi o suficiente pra ele parecer perder completamente a linha de raciocínio. E então ela sentiu o olhar de forma intensa, quase que queimando sobre sua pele. Mas nenhuma outra palavra saiu dos lábios do loiro, que apenas saiu dali em completo silêncio.
Não foi o que ela esperava, mas não fora tão ruim quanto havia fantasiado. Sabia que acabaria deparando-se com ele em algum momento, principalmente tratando-se de uma festa. Só não imaginou que Dean realmente falaria com ela após... tudo.
— Ah, meu Deus. A vadia voltou!
Uma voz feminina e estridente se fez presente. Olivia Palmer recebeu sua amiga com pulinhos, animada ao ver em sua frente após tanto tempo. Ela praticamente se jogou em cima de em um abraço forte e carinhoso, ao passo que a ruiva riu pela primeira vez desde que adentrou por aquela porta.
De verdade dessa vez.
— Você 'tá bêbada, Palmer?
A menina dá uma gargalhada gostosa, como se fosse óbvio, em um tom de voz divertido:
— Bastante! Mas emocionalmente lúcida para receber minha melhor amiga.
Olivia segurou o rosto dela dramaticamente, arregalando os olhos. Espalmou cada uma das mãos sobre as suas bochechas antes de prosseguir, de forma levemente dramática.
— Olha pra você, ! Cabelo maior. Fez tatuagem. Parece que você aprontou nessa viagem!
— Talvez. — deu de ombros com uma risadinha.
— Gostosa. Respeito!
Ambas riram e se encaminharam até a cozinha, indo em direção às garrafas de cerveja. amava Olívia com todo seu coração, mas tópicos familiares ainda eram delicados para serem discutidos abertamente. Então a situação de seu regresso a casa fora classificado como um intercâmbio para estágio, e não para cuidar de seu pai adoentado e da sua família desfuncional.
Falar sobre George, seu pai, nunca fora difícil, mas sua mãe, Camila, era um tópico delicado. Aqueles semestre não fora um período nada fácil, mas foi muito importante para ela estar ao lado do pai naquele momento.
tomou um longo gole da cerveja amarga antes de prestar atenção nas perguntas incessantes da amiga, pois queria afastar-se dos devaneios:
— Você voltou pra ficar? Você sumiu, eu fiquei tão preocupada, não me respondeu... Você vai me contar tudo sobre o estágio, né? Sabe que estou curiosa...
O barulho da festa continuava ao redor delas. passou o dedo indicador ao redor do bocal da garrafa, sorrindo de forma involuntária:
— Sim e sim. Mas calma, Liv. Uma coisa de cada vez.
Olivia praticamente explodiu em felicidade, animada em ter sua melhor amiga de volta. Ela não parou de tagarelar, fazendo uma espécie de recap dos últimos meses para a amiga, incluindo fofocas, boatos e novidades. E apesar de tudo isso, ainda se sentia a mesma de antes.
Só não sabia que tudo estava prestes a mudar.


John Logan


Abril

A música que emanava da república Phi Omega estava tão alta que fazia o chão vibrar sob meus tênis surrados. Ou talvez fosse só a grande quantidade de álcool começando a bater, revirando em meu estômago de forma nada confortável.
Haviam luzes vermelhas na sala principal que piscavam de forma rítmica sobre os corpos suados, copos coloridos e pessoas gritando a música em uníssono. Reconheci a canção como Party In The U.S.A., ao passo que a sala parecia cada vez mais cheia de gente e de vozes estridentes.
Dean já tinha desaparecido fazia pelo menos meia hora — provavelmente atrás de alguma garota disposta a transar com ele — e Tucker estava na cozinha discutindo com alguém sobre cerveja artesanal como se fosse um especialista. Aquilo era o normal entre nós e eu deveria estar me divertindo. Afinal, o semestre estava quase acabando e as fraternidades faziam festas infinitas nessa época, com garotas suficientes para preencher todos os dias da minha semana.
Era exatamente o tipo de vida universitária que qualquer cara sonhava ter. Então por que diabos eu continuava pensando em Hannah Wells?
Virei mais um gole da cerveja, puto, mas era inútil. O amargor da bebida parecia ter sido transferido para mim. E Hannah, por sua vez, ainda estava lá, em meus pensamentos, linda, ao lado do cara que eu era mais leal em toda minha existência.
Garrett.
A porra do meu melhor amigo Garrett Graham. Isso simplesmente piorava tudo, porque seria muito mais fácil lidar com essa merda se eu pudesse odiar o cara. Mas não dava, porque Graham é provavelmente o melhor ser humano que já conheci. Um bom amigo, bom jogador, absurdamente leal, fiel e completamente encantado por Hannah. O que transformou meus pensamentos em uma mistura nojenta de culpa e frustração.
Tomei outro gole longo de cerveja, me amaldiçoando por dentro. Passei tanto tempo em meus devaneios que a cerveja já estava quente dentro do copo.
Ótimo.
Mal humorado, ouvi algumas risadas perto de mim, mas mal prestei atenção no teor do assunto. Uma garota loira esbarrou no meu braço esquerdo e sorriu para mim daquele jeito presunçoso e calculado que normalmente funcionaria comigo, passando a mão pelo braço musculoso e pedindo “desculpas” com a voz fina e anasalada. Todavia, infelizmente para ela, minha cabeça estava exausta de tudo aquilo e eu não estava no clima.
Definitivamente não estava no clima.
Passei a mão pela nuca, ainda irritado comigo mesmo. A fumaça de gelo seco começou a me sufocar, então já sem paciência, atravessei a cozinha lotada e segui em direção aos fundos da casa, atravessando o corredor estreito. Ao passo que ia em direção à saída, o barulho diminuía gradativamente conforme fechei a porta dos fundos atrás de mim. Finalmente senti a porra do ar frio em meio ao silêncio que só a natureza poderia me proporcionar.
A área externa da Phi Omega era iluminada somente por algumas lâmpadas amareladas presas perto da varanda de qualquer. O céu azul estava escuro, bonito e estrelado, compondo uma típica noite primaveril.
O gramado verde estava completamente vazio, com cadeiras de praia largadas às traças, exceto por uma garota sentada na mureta baixa perto da cerca. Ela estava fumando um beck, presa demais em seus pensamentos para notar a minha presença repentina. Por um segundo ridiculamente longo, meu cérebro simplesmente parou. Talvez fosse pela beleza dela, ou pelo fato de estar completamente alheia à festa. Eu sinceramente não sabia, mas minha boca foi mais rápida que meu raciocínio lógico:
Caralho.
A palavra escapou da minha boca antes que eu percebesse. A garota virou a cabeça e ergueu os olhos imediatamente, como se tomasse um susto. E seus olhos eram lindos pra caralho; azuis e claros mesmo sob a luz baixa, atentos, avaliando minha existência inteira em menos de dois segundos. Os cabelos ruivos eram longos e estavam espalhados de forma perfeitamente alinhada por suas costas nuas, revelando as linhas finas de uma tatuagem que não identifiquei imediatamente do que se tratava.
E então, ela riu. Não de forma forçada, mas curta e surpresa, como se estivesse impressionada com a minha ousadia e o comentário ou até mesmo com a minha presença. Sua risada era gostosa, doce, mas extremamente elegante.
Uau. Isso que eu chamo de entrada triunfal.
Seu sotaque britânico deixou sua voz ainda mais sexy. Era fina e doce, o que me fez imaginar ela gemendo. Porra, eu parecia um imbecil com mulheres agora. Precisava me lembrar de nunca mais misturar tantas bebidas depois disso.
Eu sabia que deveria responder alguma coisa inteligente. Mas em vez disso, permaneci apenas olhando, porque ela era simplesmente absurda. Os cabelos ruivos iluminados estavam soltos em ondulações, ao passo que ela usava um top bege com uma saia jeans minúscula, que parecia ter metade do tamanho com ela sentada. Era exatamente o tipo de mulher que claramente sabia o efeito que causava sem precisar fazer esforço nenhum.
E não parecia fazer questão nenhuma de ser vista, o que era ultrajante.
Ela deu outra tragada no beck, como se estivesse relaxando. Piscou os olhos devagar enquanto o fazia, parecendo mais entretida naquilo do que na nossa conversa de fato.
— Vai continuar me encarando ou pretende formular uma frase inteira?
Isso me fez voltar para o próprio corpo. Soltei uma risada baixa pelo nariz, um pouco sem graça, passando a mão entre meus cabelos longos e colocando uma das mãos nos bolsos. Talvez ela tenha notado o tempo que despendi observando seu corpo perfeitamente delineado e sua expressão misteriosa.
— Desculpa, foi sem querer.
Ela tomou a cabeça para a direita, com graça, sorrindo para mim. Um sorriso lindo, mas ordinário. E extremamente perigoso.
— Desculpa pelo palavrão ou pela crise existencial?
— Ambos.
Ela sorriu de canto, mais uma vez. E como se não estivesse envolvido até o pescoço naquela conversa, dei alguns passos até a mureta, me aproximando dela o suficiente para sentir seu cheiro de baunilha que impregnou em minhas narinas. Provavelmente o cheiro mais doce e gostoso que já senti.
— Não sabia que a Phi Omega tinha convidados sofisticados assim — brinquei, tomando um gole da cerveja quente e me arrependendo instantaneamente por isso.
Talvez ela fosse caloura ou até mesmo intercambista. Mas eu tinha certeza absoluta que nunca a vi no campus, eu com certeza me lembraria se a visse em algum jogo ou algo assim. Talvez ela não fosse uma grande fã de hóquei, de qualquer forma. Porém, eu lembraria dela se tivesse a visto. A beleza dela beirava ao angelical e ela era extremamente sedutora e uma mulher assim não passava despercebida.
— Me impressiona um jogador de hóquei saber reconhecer sofisticação.
— Isso foi cruel. — Toco o peito dramaticamente, como se estivesse ofendido com suas palavras.
De qualquer forma, mesmo com a voz embolada pela cerveja, aquilo me deixou levemente excitado. Se ela sabia que eu jogava hóquei, sabia exatamente quem eu era. Ou tinha alguma ideia, ao menos.
— Você sobrevive. — A resposta vem imediatamente, de forma completamente natural.
Seu tom soava como se ela estivesse acostumada a conversar daquele jeito — rápido, afiado, sem querer agradar ninguém. Estava mais perto dela do que deveria, ao passo que o cheiro da fumaça misturou-se com perfume e alguma coisa doce que eu não consegui identificar de imediato. De forma gentil, ela ergueu o fino cigarro de maconha em minha direção, ficando de pé, brincando com ele entre os dedos finos e longos, com as unhas compridas e pintadas de vermelho sangue.
— Você quer?
Normalmente eu recusaria e tinha motivos plausíveis para isso. Treino, condicionamento, temporada próxima. Mas hoje, após aquele turbilhão de sentimentos? Eu apenas queria esquecer tudo que pensei acerca de Hannah e Garrett, nem que fosse por quinze minutos. Então peguei quase que sem hesitação.
O ato fizera nossos dedos se encostarem de forma rápida, proporcionando um pequeno contato entre nós. Aquilo causou-me um pequeno arrepio, mas não deixei que ficasse tão óbvio. Apenas dei uma tragada curta enquanto ela me observava, como se estivesse tentando descobrir alguma coisa. Seus olhos azuis eram profundos e pareciam curiosos, mesmo que seus lábios não comunicassem isso.
Ela era muito expressiva.
— Você parece tentar fugir de alguma coisa — ela comentou de forma vaga, praticamente dando de ombros.
Soltei a fumaça devagar, voltando meu olhar para ela. Talvez fosse minha postura, ou o jeito que estava avoado. Mas, de fato, aquilo era uma verdade.
— Você também. Afinal, por que estaria em uma festa sozinha se não por isso?
Os olhos dela mudaram por meio segundo, como se a resposta a incomodasse. Mesmo assim, ela me respondera:
— Justo.
Depois disso, um silêncio se fez presente. Não era desconfortável, apenas estranho. Como se eu conhecesse aquela garota há mais tempo do que deveria, com uma sensação de nostalgia que não deveria me invadir com aquela familiaridade.
Os passos e risadas ecoavam dentro da casa de forma distante, quase que irreais. Parecia que o nosso mundo havia se fechado apenas em nosso diálogo. Ela pegou o beck de volta, tragando e olhando para cima. A fumaça subiu devagar diante da luz levemente amarelada da varanda.
— Eu sou Logan, à propósito.
.
As respostas da ruiva variavam entre tons sucintos ou ácidos, o que me deixava bastante curioso. Ela parecia constantemente na defensiva, porém para sua sorte — ou azar —, a cerveja deixou-me mais falante do que o normal:
— Você é britânica.
— Isso te incomoda? — ela indagou quase que imediatamente.
Aproveitei para dar um pequeno trago no fino cigarro que estava em minhas mãos e soltei a fumaça:
— Sinceramente não. Só explica o sotaque e o ar de superioridade.
parecia incrédula com minha resposta, mas riu.
— Você é honesto. Isso é interessante. Ou talvez seja a cerveja quente que você está tentando beber há quase uma hora.
Além de ácida, ela era nitidamente observadora. Aqueles olhos azuis cristal eram um tanto quanto intimidantes.
— Você prefere os mentirosos, por acaso?
deu de ombros antes de pegar o cigarro de minhas mãos e responder-me:
— Prefiro pessoas que sabem exatamente o que querem.
— E você sabe o que quer?
— Na maior parte do tempo.
Aquela resposta me atingiu como um raio. Sinceramente, não sei se foi o efeito do álcool ou o cheiro doce inebriante que ela tinha, mas me coloquei à sua frente. Não o suficiente para deixá-la desconfortável, mas perto o suficiente para sentir sua respiração ofegante batendo contra meu peito.
— E agora… o que você quer?
não se afastou. Na verdade, ela soltou um pouco de fumaça perto de meu rosto e me respondeu com aquele tom petulante e convencido que eu percebi que ela usava:
— Agora, na verdade, eu estou fumando e tentando decidir se você é irritante pra caralho ou só convencido como a maioria dos atletas.
— Espero sinceramente estar indo bem nas duas opções. — comentei com graça.
riu com ironia. Apesar do tom de voz, era nítido que ela estava se divertindo com aquilo. E eu também. Certamente mais interessante do que levar uma garota para a cama sem sequer saber seu primeiro nome, como estava fazendo nos últimos tempos. Afinal, a tensão era perceptível, mas não de um jeito desesperado. Parecia me queimar aos ocos e a sensação era do caralho.
— Você sempre fala desse jeito convencido como se estivesse prestes a arruinar a vida de alguém?
— Acredite, Logan, não sou esse tipo de mulher. — deu de ombros, mexendo em seu cabelo ruivo. — Acho que apenas você esteja bêbado.
“Eu também”, pensei comigo mesmo, me amaldiçoando pelas minhas últimas atitudes. Sorri olhando para os meus pés, um pouco tímido com a constatação. Ela realmente era muito observadora.
— Você faz isso com frequência, né?
— O quê? — perguntei com curiosidade.
apagou o cigarro e jogou fora delicadamente no lixo ao lado antes de me responder. Apenas observei os seus atos em completo silêncio.
— Fica sozinho em festas fugindo de alguma coisa. Procurando algo para se distrair.
Ou eu era um péssimo “ator” ou ela era mesmo muito observadora. Nessa altura do campeonato, eu não sabia o porquê, mas fiquei ligeiramente tímido. Me senti patético de certa forma, não só porque ela era intimidadora; entretanto, era um sentimento complicado de digerir e ouvir de outra pessoa era extremamente desconfortável.
— Pelo jeito não está dando certo. — ela pegou o copo da minha mão, passando o dedo no bocal. — Então talvez você esteja usando o método errado.
— E qual seria o método certo? — franzi o cenho.
— Sexo casual costuma funcionar temporariamente pras pessoas daqui. Vocês americanos resolvem tudo com esportes violentos, guerras e sexo. Não que a última parte seja ruim.
A forma que ela foi direta me deixou quase que instantaneamente excitado. Não era minha intenção transar naquela noite, mas eu jamais negaria a oportunidade se a tivesse.
— Então você gosta de sexo sem complicação, ?
deu uma risadinha, dando de ombros. Agora o sangue resolveu se concentrar na parte sul do meu corpo. Não sei exatamente como aquele assunto escalonou tão rapidamente, porém eu não tinha interesse nenhum em pará-lo.
— E você, Logan? É do tipo que se apega? Ou sabe curtir?
— Não. Não me apego.
Cruzei os braços, passando a língua nos lábios. Meu Deus, nem eu acreditava nisso.
— Você é um péssimo mentiroso.
explodiu em uma gargalhada, me deixando profundamente ofendido com aquela constatação.
— Você me conhece há cinco minutos.
— E já sei que você pensa demais antes de responder certas coisas. Seu corpo fala por você.
Dei um passo à frente, de forma presunçosa, finalmente atraindo sua atenção. parou de gargalhar e pareceu engolir em seco, arfando de leve com a nossa recente aproximação.
— Talvez eu só esteja tentando parecer interessante. E você está gostando. — dei de ombros. — Tanto é que ainda está aqui, conversando comigo.
suspirou. Finalmente uma de minhas respostas conseguiu deixá-la calada. Não posso mentir, senti-me extremamente vitorioso com isso. E com ainda mais desejo de beijar aqueles lábios vermelhos.
— Então me diz uma coisa, . — o próximo passo foi o que mais nos aproximou. — Se você acredita tanto em sexo casual… O que exatamente impede você de ir embora comigo hoje?
Ela parecia interessada no rumo da conversa tanto quanto eu. , no entanto, pensou alguns segundos antes de me responder:
— Talvez o fato de que você ainda parece um homem confuso demais. Acho que com outra mulher na jogada.
— Você percebeu isso em cinco minutos?
Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha. Ela respirou fundo quando fiz isso, o que eu achei, de certa forma, divertido. E obviamente excitante.
— Digamos que você não é exatamente sutil quando bebe.
— Acho que perdi a vontade de ser sutil quando olhei pra você.
Ela sustentou o olhar dele por um instante, sorrindo de um jeito extremamente convencido. Ela olhou para os meus lábios e posteriormente para os meus olhos, curiosa.
— Você ‘tá muito confiante pra alguém alcoolizado e confuso.
— Eu definitivamente não estou confuso sobre o que quero fazer com você.
O ar entre nós ficou tão denso que quase tornou-se palpável. Um silêncio fez-se presente, ao passo que a ruiva passou a língua devagar pelo lábio inferior. Aquilo quase acaba com ele.
— E como isso termina? — ela pergunta.
Aproximei meu rosto do dela o suficiente para sentir o cheiro de maconha misturado ao perfume.
— Com você me mandando embora… Ou indo embora comigo.
Ela sustenta meu olhar, respirando fundo. E então murmura:
— Você é perigosamente convencido.
, entretanto, me encarou por mais um segundo. Só um. E foi o suficiente pra eu perceber exatamente o momento em que alguma coisa nela decide parar de lutar contra aquilo.
Dei um passo mais próximo à ela. E, caralho, ela é menor de perto. Eu já tinha percebido antes, mas agora, com ela parada quase colada em mim, isso fica ridiculamente evidente. O topo da cabeça dela bate perto do meu queixo, e quando ela ergue o rosto pra me olhar, alguma coisa animalesca desperta dentro de mim instantaneamente. Talvez fosse a quantidade de álcool ou o jeito como ela continua me encarando sem medo.
Talvez seja só ela.
Minha mão desliza até a cintura dela antes mesmo que eu pense direito. Sua pele estava quente, ao passo que soltou a respiração devagar pelo nariz quando nossos corpos se encostaram. Seus olhos azuis continuavam vidrados aos meus, como se estivesse me desafiando a perder o controle primeiro. Aquilo por si só era a porra de uma má ideia, porque eu já havia perdido a porra do autocontrole.
Ela ficou na ponta dos pés no instante em que eu abaixei a cabeça, e o primeiro toque da boca dela na minha quase arrancou um gemido da minha garganta.
Porra. O beijo começou lento só por alguns segundos, depois desandou completamente. Minha outra mão subiu para o maxilar dela, enquanto puxei-a para perto, sentindo o corpo pequeno prensado contra o meu. A boca dela tinha gosto de fumaça, álcool e alguma coisa perigosamente viciante que faz meu cérebro simplesmente apagar o resto da festa ao redor.
O mundo havia se tornado apenas eu e aquela ruiva gostosa para caralho.
A língua dela encostou na minha e eu senti meu corpo inteiro reagir imediatamente, quente, pesado e faminto. beija como se estivesse provocando uma briga, sem delicadeza excessiva ou hesitação. Cada vez que ela puxou meu lábio entre os dentes, senti o pouco de racionalidade que ainda tinha indo embora.
Minha mão apertou a cintura dela com força suficiente para arrancar um suspiro baixo da garganta dela e esse som quase acabou comigo ali mesmo. Caralho. Fazia meses que eu não queria alguém desse jeito tão intenso. Poderia transar com ela ali mesmo, e o pior, é que ela percebeu. Percebeu absolutamente tudo.
Porque quando o beijo fora interrompido por falta de ar, seus olhos dela estão escuros e satisfeitos, como se tivesse descoberto exatamente o efeito que causa em mim. E eu estava bêbado o suficiente pra não esconder. Encostei a boca perto do ouvido dela, sentindo o perfume de baunilha misturado com a fumaça do beck.
— Você vai pra minha cama hoje à noite. — murmuro rouco.
Não é exatamente uma pergunta, ou uma constatação arrogante. É a certeza impulsiva de homem alcoolizado e altamente presunçoso. Ela ficou imóvel por meio segundo, soltando uma risada baixa. E então, simplesmente se afastou.
Aquilo me gerou certa confusão. Talvez o beijo não tenha sido tão bom para ela quanto foi para mim. Mas a satisfação em seu rosto não dizia isso; e, ela olhando-me em silêncio, me deixava em um estado completo de aflição.
— Você acha que eu sou uma dessas maria-patins desesperadas para dar pra jogador de hóquei?
A provocação bateu direto no meu ego. O comentário presunçoso não foi em um tom de ofendê-la, embora tenha presumido que ela estivesse sentindo o mesmo. Eu e a porra da minha boca grande estragando tudo.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Não? — ela arqueou uma sobrancelha. — Porque soou exatamente assim.
— Eu só tô dizendo que quero você, . — Fiz uma pausa, dando um suspiro cansado. — Pra caralho.
O olhar dela desceu pra minha boca por um segundo rápido demais, depois subiu de novo em silêncio. Até me testando aquela garota conseguia me tirar do sério.
— Então vai precisar de mais do que conversa fiada pra me levar pra cama, John. — ela tocou meu ombro, ficando na ponta dos pés para alcançar a altura do meu ouvido. — Boa noite.


John Logan


John Logan

Eu era um imbecil. Era não, sou e aparentemente vou continuar sendo. Essa foi a única constatação que obtive essa manhã, porque quando abri os olhos, imediatamente me senti arrependido de todas as decisões que tomei na noite passada. Das coisas que falei, da bebedeira, da maconha e principalmente da péssima impressão que devo ter deixado sobre mim para . A autoconfiança que apenas uma dose exagerada de cerveja quente e um pouco de maconha podia proporcionar.
Minha cabeça parecia que explodiria. Eu definitivamente não queria mais beber, principalmente por ser uma questão tão profunda para mim. Depois que minha mãe voltou para a reabilitação, eu não costumava beber, pelo menos não de forma demasiada. Isso até aqueles malditos sentimentos passarem a me dominar, fazendo com que eu perdesse o controle do meu próprio corpo. De certa forma, era frustrante e me colocava em um dilema moral que meu cérebro se via incapaz de processar em um sábado tão cedo.
Tomei uma ducha preguiçosa antes de descer as escadas, colocando a primeira roupa que vi e arrumando os cabelos de qualquer jeito. Ao adentrar a cozinha, apenas meu amigo Tucker estava lá, reservando-se ao direito de me desejar apenas um bom dia e nada mais. Ele parecia excessivamente distante naquela manhã. Mesmo que estivesse franzindo a testa, era difícil decifrar sua expressão, devido aos cabelos cacheados soltos e a fixação que tinha em preparar o café. Havia uma barba nascendo em seu rosto — uma obsessão repentina dele sem motivo aparente — que não era costumeira do rapaz —, mas era um motivo divertido para perturbá-lo.
— Por que o silêncio? — perguntei, de forma curiosa.
Meu amigo, em retrospecto, virou o rosto na minha direção com um olhar azedo, então voltou a atenção para o bowls com os ovos e o fouet que mexia repetidamente.
— Ah, qual é, Tuck? É por causa da barba? Cara, essa é a primeira lição do Manual da barba, cara: se quiser virar um homem das cavernas, seus amigos vão tirar sarro de você. Fim de papo.
Dean havia despendido longos minutos na noite passada comparando ele ao Hugh Jackman, o que arrancou risadas de todos nós. Obviamente ele não estava nem um pouco satisfeito com isso, ou com qualquer outra coisa que fosse.
— Não é isso — ele murmurou, ainda impassível em se aprofundar.
Franzi a testa em retrospecto. Odiava conhecê-los bem demais.
— Mas você está chateado com alguma coisa. Eu te conheço.
Sua resposta à minha foi um longo silêncio desconfortável, mas para o desespero do meu amigo, eu sabia ser bastante insistente.
— Vamos lá, o que caralhos aconteceu com você?
Seus olhos irritados finalmente encontraram os meus, e por um segundo, eu me arrependi de ter perguntado. Pelo jeito, eu ainda estava sendo um completo imbecil.
— Comigo? Nada. E com você?
Tanta coisa que não sei nem por onde começar. Talvez fosse o fato de ter sido um imbecil com uma desconhecida tentando lidar com os meus próprios sentimentos, ou o fato que bebi tanto que uma crise existencial e moral me abateu pela manhã. Talvez fosse a preocupação com o hóquei, com o futuro da minha irmã Jules, minha mãe na reabilitação e obviamente meu pai e sua oficina. Haviam tantas coisas que estavam me sobrecarregando, que parecia que eu explodiria.
Devido ao meu silêncio em resposta ao seu questionamento, Tucker murmurou algo em voz baixa, um pouco mais irritadiço que o habitual. O ato fez com que eu saísse de meus próprios pensamentos para prestar atenção nele:
— Você tem que parar com essa merda, cara.
Fiquei confuso, porque, até onde sabia, tudo o que fiz nos últimos cinco minutos foi tentar interagir com ele de forma amigável — e sem tirar sarro da saga da barba. E na noite passada, pelo menos, ele estava bastante empolgado com a festa. Tucker percebera a confusão em meu rosto e esclareceu, ainda em um tom de voz sério:
— Você sabe, Logan, essa história com a Hannah.
Embora meus ombros tenham ficado tensos, tentei manter uma expressão vaga no rosto ao respondê-lo:
— Não faço ideia do que você tá falando.
Pois é, escolhi mentir mais uma vez. Que novidade. Parece que tudo o que fiz desde que cheguei à Briar é mentir: sobre conseguir jogar profissionalmente, sobre a situação da minha mãe e consequentemente da minha família, sobre o sentimento que nutria por Hannah — a namorada do amigo que mais honrava no mundo. Mentiras, mentiras e mais mentiras, porque, em todos esses casos, a verdade é um pé no saco, e a última coisa que quero é que meus amigos e a galera do time fiquem com pena de mim.
Ah, pobre John Logan.
Guarde essas desculpas para o G, porque do jeito que você não é discreto… — Tucker resmungou, fritando os ovos com uma agressividade totalmente desnecessária. — Na verdade, você tem muita sorte por ele estar distraído com toda aquela baboseira romântica, senão ia ter notado como você ‘ se comportando.
— E de que jeito eu tô me comportando?
Não consegui conter a irritação da voz ou a forma defensiva como minha mandíbula se fechou. Eu odiava a sensação de que Tuck sabia daqueles sentimentos tão confusos e difíceis de explicar. Odiava ainda mais que ele tenha tocado no assunto, depois de todo esse tempo. Por que não poderia simplesmente ignorar, assim como eu estava fazendo? A situação já era ruim o suficiente sem ninguém me dando bronca.
— É sério? Eu preciso mesmo recitar os detalhes do porquê você está se comportando como um idiota? — Tucker deixou o fouet de lado e cruzou os braços. — Talvez seja pelo fato que você sai da sala toda vez que eles aparecem ou quando se esconde no quarto quando ela passa a noite em casa e…
— ‘ legal, Tucker. Eu já entendi.
— …E isso sem falar na pegação e bebedeira desenfreada — resmungou Tucker mais uma vez. — Você sabe que não precisa disso. Pode, mas não precisa. Parece que quer provar algo a alguém. Por favor, John, estou te aconselhando como amigo.
Merda. Ele me chamou pelo primeiro nome. Tucker só me chamava de John quando estava irritado de verdade. Só que agora fora ele quem me deixara altamente irritado:
— E qual é o problema com isso, John? — Nós dois nos chamamos John, o que poderia ter deixado a situação cômica se eu não estivesse estressado.
Ele suspirou, exasperado.
— Até quando vai continuar fingindo que essas garotas todas são parte da experiência universitária? — Tucker balançou a cabeça, em seguida deixou escapar um suspiro e suavizou o tom de voz. — Você não vai esquecer a Hannah assim, cara. Pode dormir com cem mulheres hoje que não vai fazer diferença. Tem que aceitar que não vai rolar nada com ela e seguir em frente.
Eu sabia que Tucker tinha razão. Sabia muito bem que estava alimentando minha própria dor e depois fazendo sexo a torto e a direito só para me distrair. Também sabia muito bem que tinha que parar de beber até cair — pois a minha mente ainda estava me dando lição de moral. E precisava, urgentemente, abrir mão desse resquício de esperança de que algo aconteça e aceitar a realidade.
— E só para constar, você ‘tá parecendo um idiota. — ele finalmente disparou, finalmente me servindo os ovos mexidos aos quais passou tanto tempo despendendo o minucioso preparo em uma briga entre o bowl e a frigideira. — Ontem você passou dos limites.
Servi o café em uma xícara grande e respirei fundo para não iniciar uma discussão com o meu melhor amigo. As coisas já estavam difíceis demais para que suas constatações me deixassem pior comigo mesmo. Ele constatou que eu havia sido um idiota sem sequer ter dimensão do quão idiota fui.
Deixei que aquela tensão esvaísse de meu corpo enquanto era inundado pelas lembranças da noite anterior, agora mais coesas. O beijo, o flerte, o tanto que bebi nos jogos e o fora que eu levei. Caralho. Isso eu definitivamente tinha que esquecer. A forma como transformei algo simples numa proposta idiota porque era mais fácil agir como um babaca do que admitir que fiquei sem ar quando a vi.
— Preciso resolver uma coisa. — levantei de repente, deixando o prato e a xícara na pia.
Tucker arqueou uma sobrancelha. Talvez fosse porque não insisti em uma discussão mesmo com a voz áspera, ou porque eu tomei meu café em uma velocidade mais rápida que o normal. Mas o fato era que, pela primeira vez após uma conversa sentimental com John, senti vontade de focar em qualquer coisa que não fosse Wellsy.



Ligar para minha irmã, Jules, pareceu uma ideia ruim. E continuou parecendo uma péssima ideia quando ela atendeu com aquele tom de voz convencido dela:
— Posso saber o que você quer?
— Nossa. Que recepção calorosa, irmãzinha.
Jules Logan era o que chamávamos de rebelde sem causa. Os cabelos loiros e repicados e o estilo alternativo contrastavam diretamente com a personalidade que ela assumia no Instagram de fofocas da universidade. Uma espécie de Gossip Girl gótica ou sei lá, controlando aquele perfil chamado de Fifth Line.
— Bom, você só me liga quando precisa de alguma coisa, então…
Justo. Eu realmente precisava da ajuda dela com questões que apenas uma pessoa muito informada — ou fofoqueira — poderia saber.
— Você conhece uma garota chamada ?
O silêncio do outro lado durou alguns segundos. Talvez ela estivesse assimilando minha pergunta, pois apesar de viver minha vida como qualquer solteiro, não costumava consultá-la ou deixar muito em aberto o que fazia — ou com quem fazia. O problema é que a ruiva era uma incógnita; não deixou nem seu número para que eu ligasse. E provavelmente não queria me ver nem pintado de ouro.
Ah. ? Qual ?
— Uma ruiva.
Ouvi uma risadinha do outro lado, o que não me deixou nada satisfeito. Conhecendo a caçula, ela já estava tirando suas próprias conclusões conforme me ouvia falar.
— Bom, eu sei quem é, mas por que você quer saber?
Jules…
— John.
De novo John. Não que eu não gostasse de ser chamado pelo meu nome, mas já estava acostumado a ser apenas Logan. E de repente, todo mundo pareceu me repreender naquela manhã daquela forma.
— Só me responde, por favor.
Ela riu com certa satisfação. Eu conseguia até mesmo imaginar a expressão facial dela contra mim naquele momento, balançando os pés e arqueando a sobrancelha de forma altamente presunçosa.
é amiga da Olivia.
Ah, Olívia. Eu tinha certeza que ela e minha irmã tinham um caso, embora Jules não fosse discreta com muita coisa, de qualquer forma. Elas sempre estavam juntas, carinhosas, nos acompanhando no hóquei. Mas eu conhecia Jules muito bem para saber quando realmente gostava de alguém. Só nunca havia a confrontado sobre isso, pois era um cara muito discreto.
mora com Olivia, John. No dormitório de calouros. — Suspirei aliviado. Finalmente ela tinha respondido minha dúvida. — E você me deve explicações depois. Nada nessa vida é de graça,
— Não devo, não.
— Deve sim. — ouvi ela mexendo em alguma coisa ao fundo antes de me responder. — Mas vou te mandar o número do dormitório. Só não faça nada idiota, pois eu vou saber. E vou postar.
Desliguei antes que ela conseguisse arrancar mais alguma informação que não precisasse saber naquele momento. Jules prontamente enviou o número através do iMessage, fazendo-me guiar até o dormitório correspondente. Não estava nervoso, mas um pouco apreensivo graças a tudo que falei na noite anterior. Essa certa culpa somado ao que Tucker me disse mais cedo, estava matutando em meu cérebro.
Quando cheguei ao dormitório feminino, tão rápido quanto um raio, bati à porta de forma gentil, em que Olivia atendera quase que prontamente. Seu rosto parecia curioso, mas me reconheceu imediatamente — que não é exatamente reconfortante. Ela já me conhecia de outras situações, claro, mas não sabia se a havia contado para ela sobre a noite passada, o que resultaria em Jules saber e consequentemente todo o campus.
— Logan, oi. Tudo bem?
— Oi, Olívia.
Ela tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo e estava com um roupão felpudo e exagerado de oncinha. Assim como a minha irmã, Olívia também era uma figura alternativa — e bastante extravagante, eu diria. Mas ainda sim, muito bonita.
— Veio ver a ? — ela disse, direta, mas com graça.
Perfeito. Muito provavelmente havia contado sobre o quanto eu havia sido um idiota na noite anterior para ela, minha irmã e em breve o campus inteiro saberia da minha tentativa cafajeste.
— Relaxa. não me falou nada, foi a Jules. — Ela sorriu, dando de ombros, e eu fiquei mais aliviado. — Ela está trabalhando.
— Trabalhando?
— Sim. Na biblioteca.
Confesso que aquilo me surpreendeu. Eu não era um frequentador assíduo da biblioteca, exceto pelos períodos finais, quando tinha alguma nota baixa. Mas realmente não me lembrava de trabalhar lá.
— Obrigado, eu acho.
— Boa sorte.
Não gostei do tom dela, porém apenas agradeci e saí do dormitório, seguindo em direção a biblioteca. E o caminho até lá não foi fácil, com minha mente me martirizando e reafirmando que não era uma boa ideia. Talvez ela estivesse me achando um otário pelas minhas atitudes na noite passada — e com razão.
No entanto, meus pés eram bem mais rápidos que minha cabeça. Abri a porta da biblioteca com cautela, me certificando que ela estava quase vazia. Isso obviamente facilitou para que eu encontrasse , que estava atrás do balcão. E consequentemente me fez perceber que ela não estava sozinha.
Dean Di Laurentis, meu amigo, estava apoiado no balcão. Ele estava conversando com ela, de forma tensa, como se conhecessem de longa data. Eu automaticamente diminuí o passo; mas não sabia exatamente por quê. Talvez porque a cena me pegou de surpresa, ou porque não esperava aquela intimidade de Dean com ela especificamente — mesmo que de forma desconfortável. Mas obviamente me gerou estranheza, deixando-me levemente arrependido da sequência de decisões que tomei desde que acordei.
Aquele era um ótimo dia para ter ficado na cama, à propósito.
Eles pareciam discutir de forma sucinta. usava os cabelos ruivos e longos presos em um rabo de cavalo, com óculos de armação marrom à frente de seus olhos azuis como um cristal. Ela também vestia um avental escuro, com uma camisa preta de manga longa por baixo. Ela mantinha uma expressão não muito satisfeita no rosto antes de perceber a minha presença.
Caralho. Aquilo realmente me incomodou mais do que deveria.
E naquele momento, Dean também percebeu minha presença. Meu amigo ficou pálido quando notou que eu estava ali, ao passo que ela engoliu em seco. Apenas retribui com um aceno com a cabeça, extremamente sem graça. E em retrospecto, ele não demorou muito para ir embora, dando meia volta e saindo dali meio desconexo.
observou minha aproximação e eu percebi o desconforto iminente em sua face.
— Oi… Você veio devolver algum livro? — ela indagou, de forma extremamente cordial.
Ela era cômica, de certa forma. Educada de uma forma muito culta, mas extremamente ácida caso fosse necessária. Um equilíbrio dosado entre o polido e a sinceridade excessiva.
— Eu normalmente nem sei onde fica a biblioteca.
Ela riu. E, por algum motivo, aquilo melhorou meu humor, já que sua face se desfez daquela expressão incômoda de poucos minutos atrás.
— Então por que está aqui?
Eu apoiei os braços no balcão, atraindo sua atenção para os músculos evidentes. Ela desviou o olhar para os meus olhos novamente, parecendo curiosa.
— Porque preciso te pedir desculpas.
Ela inclinou a cabeça. Apertou os lábios deixando-os finos, umedecendo-os de forma levemente desconfortável, como se não esperasse exatamente aquilo.
— Não precisa pedir…
— Olha, eu preciso sim.
John…
Incrivelmente o som dela me chamando pelo primeiro nome quase me fez engasgar. Apenas Tucker o fazia quando estava bravo, ou Jules, então para mim era raro ver uma garota que não me denominasse pelo sobrenome.
— ..Não pela ideia. Pela forma que eu falei com você.
Agora ela parecia genuinamente curiosa. A nossa sorte era que a biblioteca estava praticamente vazia naquele momento, mas era nítido que ela queria rir. E talvez eu também, em vista que estava agindo de forma patética mais uma vez.
— Certo.
— Eu fui meio idiota.
— Meio? Você foi um completo idiota, Logan. Um idiota presunçoso.
Dou uma risada. Ainda não estava acostumado com aquele nível de sinceridade. E principalmente porque ela não demonstrava a menor intenção de facilitar para mim. A maioria das mulheres do campus — sobretudo as maria-patins, embora eu detestasse aquela denominação — gostava dos jogadores de hóquei e não poupavam simpatia e sensualidade para nós. Ela, por sua vez, parecia um tanto quanto desinteressada em me agradar. E, estranhamente, eu gostei disso.
— Então nós estamos bem?
— Eu nunca disse que estávamos mal.
Justo. O silêncio entre nós durou alguns segundos, ao passo que ela parecia se divertir com meu nervosismo.
— A verdade é que eu queria sair com você.
Ela me encarou sem responder imediatamente, o que me deixou me sentindo idiota. Ok, eu havia sido menos sutil na noite passada, mas quando entendi a personalidade de , entendi que com aquela abordagem ela não cederia nada além de desprezo. E seria uma oportunidade interessante para ela me conhecer e entender que não sou aquele completo imbecil alcoolizado da noite anterior.
— Sair? Comigo?
— Sim.
Ela arqueou as sobrancelhas, mexendo em uma pilha de livros na bancada a sua frente:
— Deixa eu ver se entendi: depois do fora de ontem, você ainda quer ir comigo em um encontro?
Tecnicamente não tinha sido um fora porque eu estava bêbado e havia me esquecido, então…
— Bom, não precisa jogar na minha cara de novo.
O sorriso dela aumentou. Ela balançou a cabeça em negação, antes de me dar as costas para voltar ao trabalho de bibliotecária.
— Vou pensar no seu caso, John Logan. Mas agora, tenho que trabalhar.

Daisy


— Então? — perguntou Olivia, jogando uma almofada no meu colo assim que entrei no dormitório.
Eu fiquei automaticamente confusa. Não era uma recepção costumeira de Oli, ela parecia mais animada que o normal. Ao contrário de mim, que estava drenada e exausta daquele dia.
Como se não bastasse a presença de Dean Di Laurentis querendo conversar de forma sentimental em pleno horário de trabalho, ainda tive de lidar com seu melhor amigo altamente presunçoso e metido me procurado — porque aparentemente o fora da noite anterior não havia sido esclarecedor o suficiente. De fato, John Logan era um homem lindo, alto, grande e atlético, e nosso beijo tinha sido fenomenal. Mas apenas isso. Eu jamais transaria com um cara naquele perfil de novo.
— Então o quê? — perguntei, deixando a minha bolsa cuidadosamente no cabideiro, retirando os sapatos.
— Não finja que não sabe exatamente do que eu estou falando.
— Você vai precisar ser mais específica se quiser alguma informação relevante, Liv.
Soltei os cabelos ruivos do rabo de cavalo e finalmente me sentei no sofá do nosso dormitório. Nosso “quarto” era definitivamente maior e privilegiado comparado aos demais espalhados pelo campus. E sinceramente eu dava graças a Deus por isso, já que Olívia era uma grande amante da anatomia feminina.
— De um certo jogador de hóquei, oras. Ele te procurou mais cedo e Jules e eu estamos muito curiosas para saber o porquê.
Suspirei, fechando os olhos em negação. Olívia não fazia ideia de todas aquelas informações e eu sinceramente estava incomodada pelo teor da conversa envolver tantas pessoas. Inclusive a irmã de Logan, o que piorava ainda mais a situação.
— Eu posso até te dizer, mas não tem muito para contar. E você precisa me prometer que não vai contar para a Jules.
! — Liv praticamente rosnou, revoltada. — Eu te odeio.
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de começar a falar. Expliquei absolutamente tudo, desde a primeira festa que revi Dean, até à noite passada, do momento que dividi um cigarro até o beijo. E consequentemente, das constatações presunçosas dele, que supôs baseado naquele ego gigante, que nós iríamos transar. O choque era nítido na face de Olívia, que parecia incrédula a cada palavra professada.
— E aí?
— E aí eu fui embora, Oli. E honestamente? Achei que nunca mais fosse vê-lo.
— Mas viu. E provavelmente vai ver muito mais porque ele é irmão da Jul, então… — Olivia se inclinou para frente imediatamente.
Ela e Jules estavam envolvidas até o pescoço, aquilo era evidente. Mas como ela ainda não havia compartilhado de forma direta, apenas observava a aproximação de ambas, o que era fofo, para ser sincera. Fazia um bom tempo que não a via com outras garotas ou garotos e ela parecia genuinamente feliz.
— Certo… Agora chegamos na parte interessante. — sorri de leve, sabendo que ela adoraria o que viria a seguir. — Dean foi atrás de mim na biblioteca hoje.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Dean Di Laurentis? Seu ex?
— O próprio. — assenti em um aceno. — E… Nós estávamos conversando quando Logan apareceu. Dean foi embora e Logan basicamente me pediu desculpas — falei depois de alguns segundos. — E por fim, ele me chamou para sair.
Olivia arregalou os olhos.
— E o que você respondeu?
— Que ia pensar.
Ela parecia um pouco intrigada com as informações que eu disparei, tentando assimilar tudo em sua cabeça de forma coesa. Aquilo quase me fez rir.
— Ele é amigo do Dean, você não acha que…
— Você sabe que eu não quero e nem vou sair com ninguém. E eu conheço Dean o suficiente para saber que ele não vai dar a mínima.
Aquilo era verdade. Dean e eu tínhamos uma história baseada mais em atração do que sentimento. Foi ótimo sair e transar com ele porque éramos amigos de infância, e consequentemente, eu já confiava nele com todas as minhas forças. Mas amá-lo? Apenas como amigo. E ele era um ótimo amigo, eu não podia reclamar. Nós só não éramos próximos como antes.
— Apesar de vocês dois não prestarem, não acho que vai ser tão simples assim. Vocês se pegaram escondido um bom tempo, sabe?
Olívia gostava muito da ideia de sermos um casal, o que sempre rejeitei fortemente. Dean não era meu tipo de cara, e na verdade, eu nem sabia qual era meu tipo. Mesmo aos dezenove anos, nunca apresentei nenhum namorado de forma oficial, longa e duradoura. E conhecendo o perfil da minha família, sabia que era melhor assim.
— Eu sei, mas… não quero falar sobre isso. Tenho alguns capítulos para escrever hoje.
— Então você não vem para a festa?
— Essa eu passo, Liv. Juízo.
Levantei-me do sofá, dando um beijo em sua bochecha e indo em direção ao meu quarto. Olívia disparou alguns resmungos pois queria companhia, mas eu estava definitivamente cansada e sem nenhum clima para festividades naquele dia.
Adentrei o cômodo e encostei a porta com delicadeza, me sentando na cama. Por mais que houvesse contado tudo em meio a algumas risadas e surpresas, o caos emocional daquele dia havia me drenado. Agarrei algumas das minhas pelúcias, suspirando fundo e enfiando a cara no travesseiro.
O beijo com John Logan foi delicioso. E era apenas aquilo que inundava a minha mente, um jogador de hóquei idiota. E como se não bastasse, ele parecia determinado em me fazer sair com ele. Porém, diante de tudo o que passei nos últimos meses, eu sabia que não era capaz de me envolver com ninguém, mesmo que fosse casual.
Ver meu pai passar por aquele tratamento agressivo e principalmente ver minha mãe daquela forma, me trouxe lembranças não tão doces de uma infância distante. Ela havia ficado abatida da mesma forma quando Spencer, meu irmão mais velho, fora acometido por um Linfoma de Hodgkin. Perder o filho fez Camila mudar de uma forma em que nunca mais fora feliz como antes. E ver meu pai doente agora, com certeza, também lhe trouxera recordações dolorosas daquele tempo.
Eu era muito pequena para me recordar, exceto pela relação dos meus pais com o luto. O silêncio que a casa tornou-se, a tristeza e a forma como minha mãe enrijecera. Nosso distanciamento tornou-se evidente desde essa fase e ainda se fazia presente nos dias atuais. Por isso, estava bastante surpresa quando vi seu nome na tela do meu celular, enquanto ele vibrava indicando uma ligação. Obviamente, não atendi. Estava exausta física e mentalmente para ouvir qualquer reclamação que fosse naquele momento. Ficaria em silêncio, quieta e cuidaria de mim naquela noite.
Exceto pelo grito de Olívia que ecoou na porta do quarto poucos segundos depois:
, a Jul perguntou se você quer ver um jogo de hóquei amanhã com a gente!
Suspirei, cansada. Observei minha amiga com a roupa mais minúscula que já vira em toda minha vida, esboçando um sorriso amarelo.
— Você sabe que eu não gosto de hóquei, Liv.
— Mas dos jogadores gostosos você gosta, né? Safada. — ela riu consigo mesma, como se a piada tivesse sido o auge do humor. — Juízo, . Estou de saída.




Continua...


Nota da autora: Sem nota.


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