Capítulo 42
Seu olhar estava baixo, diferente de Joe que olhava diversas vezes para as portas de vidro da entrada, esperando que Daniel magicamente aparecesse pela porta. Na televisão, imagens do Speed Fest que aconteceu mais cedo no centro da cidade, passava em repetição.
O olhar de se ergueu para a porta do centro cirúrgico, mas nada. Nenhuma notícia de Michelle, Jason ou Grace. Ela suspirou, sentindo os ombros doerem de tensão. Já tinha perdido a contagem de quantos minutos estava ali.
- Cheguei! Cheguei! – e Joe viraram o rosto para a porta, vendo Daniel entrar com o macacão da Red Bull Racing, um capacete na mão, além dos cabelos baixos e o suor escorrendo pela testa.
- Daniel! – disse em um tom aliviado, já Joe disse em tom de surpresa, por ele chegar naquele estado.
pulou nos braços do amigo, ignorando o corpo suado do amigo e respirou aliviada. Daniel apertou-a com o braço livre, dando um beijo nos cabelos da amiga. Eles trocaram um olhar, deixando sorrisos no rosto.
- Senti saudades! – As vozes falaram juntas e eles riram, se abraçando mais uma vez.
- Você está nojento! – disse.
- Desculpe, acabou atrasando, eu pedi para me trazerem aqui o mais rápido que consegui. – Daniel colocou o capacete e o headrest em uma das poltronas da sala de espera e foi até o pai.
- Oi, filhão! Está um arraso! – Joe falou sarcasticamente enquanto abraçava o filho.
- Desculpe, sei que não é a melhor forma, mas... – Ele suspirou, sendo apertado pelos braços do filho.
- A gente perdoa dessa vez. – Eles riram. – Parabéns pelo campeonato, filho!
- Ah, cara! Obrigado! – Danny disse, rindo nervoso. – Terceiro lugar. O pessoal tá muito feliz.
- Nós estamos muito felizes por você! – Joe deu uns tapinhas em seus ombros.
- Parabéns, Danny! – sorriu, suspirando. Tirando a vitória no Canadá, não viu muitas coisas, mas soube que ele competiu de igual para igual com Vettel em várias corridas, o ultrapassou e ainda conseguiu ficar em terceiro lugar no campeonato geral, somente atrás de Hamilton e Rosberg.
- Valeu, gente! Foi um bom ano! – Ele suspirou aliviado.
- Como está Jules? – perguntou, pegando o garoto desprevenido. – Eu vi...
- Ah! – Ele deixou os ombros caírem. podia não lembrar das suas conquistas, mas guardava muito bem as tragédias.
- Daniel...
- ... – Ele disse no mesmo tom. – Não começa.
- Eu não fiz nada! Isso é culpa interna! – Daniel jogou a cabeça para trás. Demorou o quê? Cinco minutos?
- Você não pode pegar leve, não?
- Não! – Ela disse séria e o tom de voz começou a aumentar. – Seu amigo sofreu um acidente, 254G, está em coma! Você acha que eu vou “pegar leve”? – Ela passou as mãos na cabeça. – É loucura!
- Foi um acidente, ! Como você mesma disse! Não é algo que acontece com frequência.
- Não, mas podia ser você! Imagina se fosse você? Como você acha que eu ficaria? – A voz de aumentava.
- Gente! Gente! Não é hora para isso! – Joe apoiou a mão nos braços dos dois.
- Nunca é hora para isso. – Daniel disse.
- Ah, então eu não deveria me preocupar? – falou. – Deveria ficar confortável por ele arriscar a vida dele toda semana?
- Ah, meu Deus! – Daniel jogou a cabeça para trás, se sentando na primeira poltrona que viu.
- Depois vocês conversam sobre isso, pode ser? – Joe disse e andou até a outra poltrona, cruzando os braços.
O silêncio reinou na sala de espera de novo, os dois mais novos se sentaram rabugentos e foi a vez de Joe voltar a andar pela sala de espera. Devido a diabetes de Mi, sabiam que a gravidez teria um risco no final, mas parecia que eles estavam esperando há uma semana.
Daniel apoiou o braço no apoio da poltrona e pegou a mão de , fazendo-a virar o rosto para ele. Eles trocaram um curto sorriso e apoiou a cabeça em seu ombro.
- Senti saudades! – Ela disse e Danny sorriu.
- Eu também, Wandinha. – Ele disse suspirando.
- Parabéns pelo campeonato.
- Obrigado! – Ele sorriu.
Do lado de dentro do centro cirúrgico, Grace andava pelo local com lágrimas nos olhos e um largo sorriso nos lábios. Era avó! Seu netinho nasceu e era um meninão saudável! Ela passou pelas portas de vidro e se levantou em um pulo.
- Nasceu! – Grace disse.
- A-a-a-ah! – correu abraçá-la, fazendo Daniel e Joe terem a mesma reação.
- Como ele é?
- Ele está bem?
- E a Mi?
- É saudável? – Os três desembestaram a perguntar coisas para ela, fazendo a mais velha rir, limpando as lágrimas.
- Ele é lindo, perfeito, três quilos e 600, 52 centímetros... É um meninão! – Ela suspirou.
- Ah, mãe! Graças a Deus! – Daniel suspirou. – E a Mi como está?
- Ela está bem, cansada... Ele fez sua irmã cansar, viu?! – Eles riram. – O que você está fazendo de macacão?
- Longa história! – Daniel abanou a mão.
- A gente pode ver eles?
- Claro! Claro! – Grace disse. – Venham! – Ela disse e a abraçou de lado quando os quatro passaram pela porta. – Silêncio...
Eles caminharam cerca de 20 passos até chegarem na porta. Uma plaquinha azul com um ursinho e o nome Isaac a decorava. fez um bico antes mesmo da porta se abrir. A primeira coisa que viram foi Jason sentado ao lado da maca e o mesmo pediu silêncio com o indicador na boca. Michelle dormia.
- O-o-oi! – entrou animada, dando um abraço no cunhado, apertando-o fortemente. – Parabéns!
Daniel foi rapidamente em direção ao berço aos pés da cama da mãe. Estava calor em Perth, mas o bebê estava enrolado em uma manta branca, com uma touquinha azul e dormia calmamente. As lágrimas imediatamente foram aos olhos de Daniel, e ele fez uma careta para tentar sugá-las de volta para dentro.
- Pode chorar! – Jason disse e Daniel riu, abraçando o verdadeiro cunhado.
- Parabéns! – Daniel disse e foi a vez de Joe e seguirem até o bebê.
- E aí, vovô? – Jason disse, fazendo Joe rir e negar com a cabeça.
O bico e cara de choro de era o mesmo que Daniel. Ela se inclinou para o bebê, tocando com as costas do indicador a bochecha gorda do menino e sentiu as lágrimas deslizarem pela sua bochecha.
- Oi, meu lindo! É a madrinha! – Ela disse fracamente, a voz quase faltando pelo tom baixo.
- Ele é lindo! – Daniel disse, passando as mãos nos olhos.
- É parte de vocês! – Jason disse, dando um tapinha nas costas do cunhado.
- A gente vai cuidar muito bem dele. – disse, dando espaço para Joe babar no neto.
- Eu sei! – Jason disse.
- A gente sabe! – Eles viraram para Michelle que havia falado, se espreguiçando um pouco após a rápida soneca.
- Ah, Mi! Ele é lindo! – foi até ela, abraçando-a com mais cuidado, devido aos aparelhos que estavam conectados a ela.
- Ah, mana! – Daniel foi em seguida e Joe deu um beijo na testa da filha.
- Como você está, meu anjo? – Joe perguntou.
- Cansada! – Ela disse rindo, alargando o sorriso de outros.
- Imagino! – acariciou o cabelo suado dela. – Mas valeu à pena...
- Cada minuto! – Michelle sorriu. – Ele é perfeito!
- Ele é lindo demais! – suspirou.
- Presente de Natal veio mais cedo, hein?! – Jason brincou.
- É o melhor presente de todos. – Daniel riu. – Eu estou feliz por vocês!
- Obrigado, mano! – Jason sorriu e um choro fino distraiu os cinco.
- Agora o trabalho de verdade começa, hein?! – Foi a vez de Joe brincar.
- Agora vai! – Mi riu. – Quer pegá-lo? – Ela ofereceu.
- Sim! – falou prontamente, seguindo para perto do berço.
- Deixa que eu te ajudo. – Jason disse, tirando Isaac do berço devagar e ajeitou-o em seu colo antes de segurá-lo com todo cuidado do mundo.
- Oi, meu lindão! Aqui é a madrinha! – disse, quase tocando seu nariz no do bebê.
- E eu sou o padrinho mais lindão ainda! – Daniel disse atrás de , fazendo-a revirar os olhos.
- Vamos cuidar de você, meu amor. – suspirou. – Para sempre.
Los Angeles, Estados Unidos – 2016
- Já imaginou ver algo assim? – Tom perguntou, me fazendo rir.
- Nem a pau! – Falei rindo, colocando a mão acima dos olhos. – Ele sempre foi medroso.
- Existem tubarões em Los Angeles? – Tom perguntou e somente arqueei os ombros.
- Não sei, mas não sou eu quem vou falar para ele. – Tom riu alto ao meu lado.
Me ajeitei em cima da toalha e puxei minha bolsa para checar o horário no celular e já estava perto das cinco da tarde. Ele não iria aguentar o som do Chance the Reaper mais tarde. Confesso que nem eu estava com muito saco para esse show, mas o que a gente não faz para agradar ao Daniel, né?!
Eu estou me sentindo igual quando fazia minhas revisões na Michelin, exausta. Parece que uma chave é ligada no fim do ano e o cansaço simplesmente aparece. Ao menos só faltavam duas corridas, a premiação da FIA e depois poderia desmaiar na minha cama em Perth novamente. Mais um mês. Era tudo que eu precisava.
Talvez eu possa dizer que a temporada da Fórmula Um é mais pesada que a minha era. A mudança extrema de fuso-horário desgastava muito. Quando eles planejavam meu calendário, eles tentavam manter próximo, evitando mudanças bruscas de fuso-horário, agora aqui? Não tem condições.
Ao menos estávamos vindo de uma leva mais calma. Estados Unidos, México e o próximo vai ser Brasil. Depois temos uns 10 dias até Abu Dhabi, mas aí já estaremos mais perto de Perth. Apesar que a premiação é na Áustria, se eu não me engano. Com Maria como assistente, eu não precisava me preocupar com mais nada. Eu só seguia!
- Ei, baby! Não vai entrar mesmo? – Ergui o rosto quando Danny apareceu cobrindo o Sol.
- Não dá, baby! – Falei rindo.
- Ah, verdade! O mar vermelho. – Ele disse e revirei os olhos, esticando a toalha ao meu lado para ele.
- Como estava a água?
- Bom, bem quentinha! – Ele disse, esfregando a toalha em seu rosto e cabelos.
- Não lembrou dos tubarões? – Brinquei e ele abaixou a toalha só para mostrar a língua.
- Tonta! – Ele disse, me fazendo sorrir. – Preparada para o show hoje? – Suspirei.
- Ah, baby... – Tombei a cabeça para trás.
- Não começa! – Ele disse, se jogando ao meu lado, fazendo alguns respingos de água caírem em mim. – Você vai!
- Ah, baby! – Suspirei. – Você tem os caras! Vocês podem beber, ficar doidos, sem que eu encha o saco de vocês!
- Mas você lá... É a diversão...
- Caham! – Blake falou e Danny lhe deu um tapão na nuca, fazendo estalar alto.
- É sério, baby! Não fique chateado. Só tentem maneirar na bebida. – Pedi e ele ponderou com a cabeça.
- E você vai estar pronta para o Brasil? – Ele perguntou e ri fracamente.
- Claro! Calor, coxinhas, caipirinhas... – Falei sorrindo. – Pronta para renovar minha marquinha de biquini.
- Acho que o hotel tem piscina... – Ele disse e ri, virando o rosto para o pôr-do-sol e suspirei.
- Eu quero ir para casa, baby... – Virei para ele novamente.
- Só mais alguns dias, meu amor. – Ele disse e assenti com a cabeça
- Só mais alguns dias... – Suspirei, sentindo-o beijar meu ombro.
Daniel
- Imagina que o clima não está muito bom, né?! – Ele disse e ponderei com a cabeça.
- Eu não sei, cara. Você deu tudo que podia dar por esse esporte, você teve sua cota de injustiças... Mas o que prefere? Ficar em casa ou queimar mais um pouco de pneu e ganhar mais dinheiro? – Perguntei, ponderando com a cabeça.
- Pensando nesse caso, sim, mas... – Ele indicou com a cabeça o longe e virei o rosto, vendo sentada em uma mureta, comendo pipoca de um saquinho, claramente me esperando. – Ir para casa e ficar com quem se ama? – Ri fracamente.
- Amo isso, mas voltar para casa ainda é minha coisa favorita. – sorriu para gente, se levantando da mureta.
- Aproveite, cara. – Ele deu dois tapinhas em meus ombros e ri fracamente.
- Oi, .
- Oi, Felipe! – Ela acenou para ele quando ele foi para o outro lado com a assessora da Williams.
- Ei, baby! – Falei e ela sorriu, se inclinando em minha direção e trocamos um rápido beijo.
- Oi, baby! – Ela sorriu risonha.
- Você parece feliz. – Falei, ouvindo-a rir.
- Eu realmente gosto desse país! – Ela disse rindo. – Mas estamos cada vez mais perto de irmos para casa. – Ela me esticou a pipoca e eu ri.
- Só mais duas, baby. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
- Vamos sair daqui? – Indiquei os fotógrafos à nossa volta e ela seguiu ao meu lado, caminhando pelo paddock.
- Sabe, eu gostei desse paddock... – Ela disse. – É fechado, os fãs parecem ter mais acesso a vocês, o que é bom para eles... Mas esse corredor de vento! – Rimos juntos.
- A desvantagem de Interlagos é essa. Quase sempre está nublado... A ideia do paddock fechado em cima é boa, mas essa corrente que forma...
- Vamos te encontrar um casaco mais quente, que tal? – Falei, passando o braço em seus ombros.
- Eu aceito um café também. – Ela disse.
- Pipoca com café? – Peguei o saquinho de sua mão, fazendo-a rir. – O que aconteceu com Addams?
- Está se tornando mais leve, mor... – Ela sorriu para mim.
- Não dá para correr sempre, né?! – Falei e ela riu.
- Nem ser chata sempre. – Dei um beijo em sua testa, sorrindo.
- Você não é chata, baby....
- Quando falamos de comida, eu sou sim... – Deixei-a entrar na minha frente quando entramos no motorhome da Red Bull e tudo estava mais quente ali dentro.
- Ainda bem que é você quem está dizendo. – Dei de ombros, amassando o saco de pipoca e ela caminhou até o balcão.
- E aí, cara? – Virei para o lado, vendo Michael.
- Ei, perdido aqui? – Ele riu.
- Fugindo do frio como quase todo mundo. – Ri com ele.
- É, diz isso para friorenta ali! – Indiquei na ponta dos pés apoiada no balcão e ele riu.
- Ela está contando os dias para ir embora. – Ele disse.
- Nem fala! Até eu já estou contando os dias... – Estralei o pescoço.
- Vamos manter firme, cara. Ainda temos duas corridas. – Ele disse e ri fracamente.
- Vamos lá! – Suspirei e vi se juntar à roda com um copinho de café fumegante.
- Café? – Rimos.
- Eu vou pegar um também. – Falei.
- Por que estão rindo? – Ela perguntou e dei um beijo em sua testa.
- Só feliz por você, baby. – Falei e ela franziu a testa, rindo sozinha.
- Podia ser pior... – Michael disse ao meu lado, dando de ombros.
- Ele nunca vai bem no Brasil, eu chequei! – Falei, andando para perto do bar e peguei meu copo com suco de laranja, terminando com um gole.
- Bom, ainda dá para fazer algo... Que tal suas tranças para amanhã? – Nigel falou, passando por nós e ri fracamente.
- Que tal não? – Brinquei, vendo-o rir.
- parou de apoiar a causa! – Christian falou ao passar por dentro e ri.
- Não parei de apoiar a causa, aceito mais vitórias... – Falei, indicando com a mão. – Mas também sei que todos já estão cansados.
- Nem fala! – Adrian passou suspirando e ponderei com a cabeça.
- Viu?! Mais gente quer ir para casa... – Dei de ombros.
- Eu quero voltar para Déborah! – Michael disse, pegando a garrafa de água de Danny e seguiu Christian e Adrian.
- Bom... Eu vou também! – O segui, andando a passos mais lentos, saindo no paddock.
O caos pós-classificatória estava instaurado, pilotos andavam para todos os lados com seus assessores e os fotógrafos e repórteres andando muito rápido atrás dele. Eu já estava acostumada com essa atenção desnecessária perto de mim, eles eram invasivos, mas não inconvenientes. Eu dava um sorriso e costumava manter a boca ocupada para não terem eles lendo meus lábios.
Me aproximei da área da imprensa, vendo Daniel falando todo animado com alguém e dei um sorriso para alguns repórteres ali em volta e fingi ter algo muito importante para ver no meu celular. Acabou que tinha uma mensagem de Grace falando que estava sem sono e que acabou vendo o treino completo. Era quatro horas em Perth, tia Grace precisava de horários melhores.
“Vá dormir! É uma ordem!” – Enviei, rindo fracamente.
- Quem dormir? – Dei um pulo, virando rapidamente.
- Ai, Daniel! – Bati em seu ombro com o celular, ouvindo-o rir. – Idiota! – Falei.
- Sempre! – Ele disse, me segurando pela cintura e apoiei uma mão em seu ombro enquanto a outra guardava o celular no bolso. – Quem era?
- Sua mãe! Ela está acordada agora. – Falei.
- Ah, dona Grace! – Ele disse e senti alguns flashes em meu rosto.
- Precisamos voltar! Eu preciso voltar a cuidar da dieta da sua mãe. – Falei e ele riu.
- Ela vai adorar isso. Você torna fácil fazer dieta. – Ele disse, me fazendo sorrir.
- Mas, ei, como está? – Empurrei-o de leve.
- Bem, a diferença é de menos de um segundo, o pessoal atrás está mais lento... Vamos ver o que vai acontecer... – Ele deu de ombros.
- Vamos ver o que vai acontecer, baby. – Falei e ele deu um beijo em minha bochecha.
- Vamos para a reunião da engenharia? – Ele perguntou e assenti com a cabeça.
- Vamos! Cadê o Max?
- Evitando vomitar... – Me assustei, vendo Max do nosso lado.
- Quanto tempo está aí? – Perguntei.
- Desde vocês falaram da mãe do Daniel. – Ele disse, colocando o canudo na boca e neguei com a cabeça.
- Deus! Hoje vocês tiraram o dia para me assustar! – Ergui as mãos, seguindo para o motorhome da Red Bull e ouvi os dois virem rindo atrás de mim.
Daniel
O dia amanheceu feio e entre rápidas paradas, a chuva se manteve firme o dia todo. O paddock é fechado, então formava um corredor de vento que deixava tudo mais frio, inclusive a friorenta da que ficou trancada no motorhome o dia inteiro, só saiu quando Massa deu uma passada lá com Felipinho.
Outro também que estava um caco. A incerteza da Williams em mantê-lo ou não falava alto, então hoje era como uma despedida para ele. Uma despedida no seu país, e talvez uma na Fórmula Um em Abu Dhabi na próxima corrida.
Eu não deveria me preocupar com isso, mas fico projetando isso em mim, imaginando no fim da minha carreira, ou em uma possível baixa, ou talvez até demissão.
Estou em um ótimo momento agora, mas pode ser diferente amanhã. São poucos pilotos que conseguiram se manter firmes por diversos anos, ou anos sequenciais. Tinha sempre uma quebra. Eu não sou tão egocêntrico em achar que não vou ter o mesmo problema.
Espero que não, mas não sabemos o dia de amanhã!
- Bora, ! – Falei em um tom mais alto ao abrir a porta, fazendo-a pular.
- Ai, Danny!
- Dormiu de novo?
- Para, eu estou cansada! – Ela se sentou desanimada, puxando os tênis para perto.
- Eu tenho ouvido essa frase com frequência. – Falei, entrando na minha sala e fechei a porta.
- Porque eu ainda estou cansada. – Ela disse rindo, calçando um pé de cada vez.
- Precisamos planejar nossas férias. – Falei e ela franziu a testa. – O quê? Que cara é essa!
- Que férias, baby! Eu quero dormir por seis meses inteiros, depois eu penso no que eu vou fazer! – Ela negou a cabeça, tirando o lacinho bagunçado de seus cabelos.
- Bem, eu não tenho essa liberdade, mas deveríamos fazer algo juntos...
- Vamos, a mesma coisa que fazemos todos os anos...
- Tentar conquistar o mundo? – A interrompi e ela revirou os olhos.
- Idiota! – Sorri, fazendo-a rir comigo.
- Não! Ficar em Perth, na fazenda, cuidando dos animais, colhendo frutas e vendo você fazer qualquer idiotice como quebrar a mão, torcer o joelho e...
- Ei, estou ficando velho. Não dá para pagar para ver.
- Ainda bem que só você está ficando velho! – Ela refez o rabo de cavalo, me fazendo rir. – Eu estou novinha.
- Relaxa, logo as costas começam a doer. – Ela ponderou com a cabeça.
- Já doem!
- Viu?! – Rimos juntos.
- Pronto para vencer mais uma? – Ela perguntou, apoiando os braços em meus ombros.
- Eu ia gostar muito, mas eu não tenho tanta sorte no Brasil...
- Às vezes consegue mudar...
- Às vezes... Mas não sei se te informaram, mas eu vou largar em sexto e está chovendo canivete lá fora... – Falei e ela fez um bico com uma careta.
- Você toma cuidado, ok?! – Ela fechou o velcro do meu macacão.
- Tenho certeza de que você não vai precisar se preocupar, baby. Se não cancelarem, vai ser uma corrida atrás do Safety Car... – Ela suspirou, ponderando com a cabeça.
- Não sei o que é pior...
- Isso! Isso definitivamente é pior. – Rimos e ela aproximou os braços, me abraçando fortemente.
- Vamos acabar o dia logo e dormir em uma cama quentinha.
- De preferência com você pelada. – Falei e ela deu um beliscão nas minhas contas. – Ai!
- Chato! – Ela disse, me fazendo rir.
- Vamos! – Indiquei e ela pegou o casaco, colocando-o e fechando até em cima.
Ela veio ao meu lado e abri a porta, ouvindo a chuva forte bater na cobertura do paddock, além de várias pessoas correndo, pois mesmo assim a água entrava, formando pequenas cachoeiras e poças. Passei o braço pelos ombros de e seguimos a passos rápidos para o paddock, entrando apressados na garagem da Red Bull por trás. Ela passou as mãos nos braços e eu sacudi o cabelo para tirar o molhado.
- Boa sorte, ok?! – Ela disse novamente e assenti com a cabeça.
- Pode deixar, baby. – Trocamos um rápido beijo e segui para minhas preparações, enquanto ela foi para perto de Michael e Maria.
A corrida foi um tremendo tédio! Com todas as letras!
A chuva realmente não dava folga, nem parecia as vezes que eu vim para o Brasil, um sol de rachar e tudo que eu mais queria era uma bebida bem gelada e sombra. Agora eu queria um banho quente e a cama do hotel com um edredom bem grosso em cima.
Mas apesar do tédio, meus nervos ficaram ligados o tempo inteiro. Era o tipo de corrida que podia dar tudo errado, e eu não estava com vontade de passar a noite no hospital por causa de um tornozelo quebrado, muito menos algo pior.
Interlagos não costuma ter muitas voltas, pois o circuito é extenso, mas nunca vi uma corrida durar tanto, acho que foram umas três horas, sem exageros.
Quando conseguiram largar, depois de uma longa espera para ver se a chuva daria alguma trégua, o restante foi daquele jeito.
Logo no começo, na volta 11, Seb derrapou. Isso foi ótimo para que Danny o ultrapassasse, mas isso não durou muito. Logo na volta 14, Ericson rodou perto da entrada do pit stop, causando uma pequena batida e isso trouxe o Safety Car para a pista.
Isso ficou rolando por um bom tempo, umas seis voltas. Nesse meio tempo, Danny foi investigado por ter entrado no pit quando estava fechado, mas acabou não dando nada.
Tivemos uma nova largada, mas só serviu para que Kimi batesse na reta do grid ao completar uma volta. A bandeira vermelha foi sacudida e tudo parou. Os pilotos pararam, desceram, entraram, relaxaram, e foi aquela lentidão para voltar. Acho que cerca de 15 minutos.
Eles insistiram em largar novamente, mas atrás do Safety Car, da vigésima volta, eles ficaram até a trigésima segunda. Brincar com o fliperama de Danny quando criança era mais legal.
O Safety Car saiu na pista e deu para eles finalmente correrem, a água esguichava muito forte, então as ultrapassagens eram escassas. Confesso que fico com muita dó dos fãs lá fora, mesmo com as arquibancadas cobertas, a chuva de vento molhava qualquer um.
Na volta 44, Danny fez a volta mais rápido, já na 46, ele e Hulkenberg começaram a brigar por posição. Danny ultrapassava, Hulkemberg o ultrapassava e por aí vai.
Quando tudo estava se encaminhando para o fim, a pior coisa que poderia acontecer: Massa bateu.
Danny tinha me contado sobre os boatos dele continuar na Williams, mas até agora nada da equipe, então ele estava se preparando para se aposentar. Em teoria, hoje era sua última corrida em casa, e acaba desse jeito. Realmente não era para ser.
O acidente não foi grave, ele saiu rapidamente do carro, e, enquanto o Safety Car avançava, Massa seguiu a pé de volta para o grid, sendo ovacionado pelos fãs brasileiros. Foi bonito de ver e emocionante. No final ele encontrou Raffa e Felipinho, deixando-o mais emotivo assim.
Só me distraí quatro voltas depois quando Daniel fez um pit no final, mas a corrida já estava decidida e o Safety Car ainda estava na pista.
Foram liberar só na volta 56, quase que por pouco tempo, porque Alonso deu uma rodada feia, mas conseguiu recuperar. A corrida e a chuva finalizaram com Hamilton em primeiro, Rosberg em segundo, mantendo a briga pelo campeonato aberta entre os pilotos da Mercedes, e Max em terceiro. Danny finalizou em oitavo, dois abaixo do que tinha largado.
Não era perfeito, sua posição em terceiro estava garantida, e eu só conseguia pensar em uma coisa: agora falta só uma corrida!
Aleluia!
- De novo?! – Ele perguntou animado, fazendo-a rir, tombando a cabeça no banco do sofá, já que estava sentada no tapete branco.
- Pensando, Daniel? – Me distraí com Massa, pegando a taça na mesa e dando um gole do vinho branco.
- Sempre, Felipe! – Falei rindo.
- Muito mudou desde o começo do ano, não?! – Suspirei.
- Muito! – Dei um sorriso. – Nunca imaginei que eu e fôssemos estar desse jeito, muito menos pensando no futuro.
- E quais são os planos? – Ele perguntou.
- Nas férias ou...
- Tudo! – Ele disse rindo.
- que abrir o restaurante dela... – Me distraí com a risada de Felipinho. – Ela disse que vai estudar esse próximo ano, começar a planejar... – Falei. – Muitos cursos são na França e Itália, ela quer manter o padrão Le Cordon Bleu, então vai ser fácil combinar de ela vir em alguma corrida, eu ir encontrá-la em alguma folga... E sempre temos Mônaco. – Falei.
- E sua família?
- Ah, eles vão adorar! Ela vai ficar mais com eles, tenho certeza. Tem o nosso sobrinho também... – Ponderei com a cabeça.
- Vai ser fácil. – Felipe disse. – E quando vem um mini Daniel? – Rimos juntos.
- Ah, cara! Espera um pouco. – Rimos juntos. – Ela quer... – Falei. – E eu pretendo realizar os sonhos dela, mas... Acho que temos que conquistar algumas coisas ainda. Ela quer o restaurante dela, ela merece isso.
- E tenho certeza de que vai ser incrível, aquela comida no GP do Japão... Cara! – Rimos juntos. – Estava muito bom!
- Ela é boa! – Falei rindo. – Na minha aposentadoria, sabemos que eu não vou manter a boa forma! – Rimos.
- Até parece! Vai precisar nos manter em forma. – falou, me fazendo rir. – Eu já engordo só de olhar, você precisa se manter em forma, para me manter em forma. – Sorri.
- Ah, olha onde eu fui me meter! – Brinquei, vendo-a sorrir.
- Quem quer banana caramelizada com sorvete? – Raffa voltou da cozinha.
- EU! – Felipinho pulou do sofá, depois pulou , correndo para mesa novamente.
- Eu ainda me atrevo a servir coisas com a aqui! – Raffa disse e fui até , esticando as mãos para ela.
- Coisas caseiras sempre serão as melhores, Raffa, confie em mim! – Puxei-a para cima, fazendo rir.
- AH, não! Não vou concordar com essa. – Raffa disse e me aproximei com da mesa. – Eu não suspiro com minha comida do dia a dia, ok?! – riu.
- Eu concordo com isso! – Felipe disse, nos fazendo rir.
- Ok, ok, ok! – ergueu as mãos. – Mas eu tenho uma boa explicação para isso.
- Ok, diga! – Raffa disse, servindo os pratos e Felipe a ajudava colocando uma bola de sorvete.
- Comer sua própria comida é enjoativa. – Ela disse.
- Disse a mulher que ficou cinco anos só comendo fora nas três principais refeições do dia. – Falei e ela me deu uma cotovelada.
- É diferente, ok?! Eu cozinho bem, tenho minhas técnicas e tudo mais, mas eu não como pasta caseira com ragu de costela todos os dias. – Ela disse.
- A gente não vai comer isso todo dia? Droga! Fui tapeado! – Brinquei e ela riu, tombando a cabeça no meu ombro.
- Não, baby. Não! – Sorrimos e dei um beijo em sua cabeça. – Às vezes você só quer um miojo ou misto quente e é isso aí. – Ela disse sorrindo.
- Aposto que o seu miojo é melhor do que o meu. – Raffa entregou nossos pratos e colheres.
- Talvez... – Ela brincou. – Mas o trivial se torna chato, isso é fato. É que quando eu realmente cozinho, estou em Perth, com minha família, ou algum momento especial... Então acaba sendo tudo diferente. – Ela deu de ombros.
- E com o restaurante? Vai ser todo dia.
- Eu penso muito sobre isso. – Ela falou. – Vai chegar um momento em que eu provavelmente vou odiar cozinhar, mas vai ser um trabalho que eu vou ter que fazer. – Ela disse, colocando uma colherada na boca e foquei no meu antes que o sorvete derretesse. – Por isso eu pretendo montar uma equipe muito boa, em que se eu precisar dar uma folga, não afete a qualidade do restaurante em si.
- Senão você surta. – Felipe disse.
- Basicamente. – Ela disse rindo – Ainda não decidi detalhes, mas gostaria que ficasse aberto a partir do almoço até o jantar, são umas 12, 14 horas de serviço, isso sem contar toda preparação prévia, então é algo como 18 horas de trabalho.
- Uau...
- É impossível trabalhar sete dias da semana, 18 horas por dia. Não quero ter meu primeiro burnout antes dos 30. – Rimos juntos. – Então uma equipe boa, é primordial. E pessoas com vontade de aprender. O melhor é trazer jovens com vontade de aprender e trabalhar...
- Depois tudo flui sozinho. – Felipe falou.
- Exatamente! – disse.
- Eu disse que ela está preparada! – Falei com Felipe, ouvindo-o rir.
- Ter um restaurante para é como muitas meninas planejam o casamento. – riu.
- Provavelmente é! – Ela disse rindo. – Eu nunca pensei muito no meu casamento.
- Ainda bem que não precisa pensar por um tempo. – Falei.
- Idiota! – Ela disse rindo, me dando um tapinha no peito.
- Vamos chegar lá! Daqui uns 20 anos. – Falei e negou com a cabeça, fazendo Raffa e Felipe rirem.
- Pior de tudo, é que eu estou acostumada com isso há 24 anos! – Ela disse rindo. – E ele ainda me tira do sério. – Enchi a boca de sorvete, fazendo-a rir.
- E não vou mudar pelos próximos 50 anos! – Falei.
- Bem, ainda há esperança, se estivermos vivos aos 77 anos, podemos ter uma maturidade tardia. – Ela disse. – A esperança é a última que morre.
- E você realmente tem? – Perguntei.
- Nunca! – Ela disse rindo.
- Bom! – Sorrimos e dei um beijo gelado em sua bochecha.
- Ah, Danny! – Ela disse rindo.