Eu era uma péssima mentirosa. Percebi isso no instante em que abri os olhos e vi a luz da manhã atravessar as frestas da janela. Ou seja, eu havia dormido.
A sensação de estar flutuando ainda me acompanhava, mas agora não vinha de nenhum poder descontrolado. Era só o conforto daquela cama, coisa rara para mim. Normalmente, o mais perto que chegava disso eram colchões gastos de motéis baratos, com lençóis que cheiravam a desinfetante e pouco mais.
Espreguicei-me devagar, até que uma fisgada me lembrou do ferimento no braço. Olhei rapidamente por cima, o curativo já estava gasto, mas a dor tinha diminuído. Logo seria preciso trocá-lo.
Calcei os tênis e deixei o quarto.
O apartamento estava mergulhado em silêncio. Ainda assim, eu sabia que ele estava ali. Se eu era um fantasma, ele era como uma sombra. Discreto demais, os passos inaudíveis, como se tivesse sido treinado a se apagar.
— Bom dia — murmurei, sem jeito, ao encontrá-lo sentado na bancada da cozinha, de frente para a porta, como se tivesse esperado por mim. — Posso usar o banheiro?
Ele apenas assentiu, levando sua xícara aos lábios.
Agradeci e tratei de não me demorar. Quando voltei, alguns minutos depois, encontrei uma xícara e um prato postos diante de mim. Era óbvio que ele os havia colocado ali para que eu me juntasse a ele. Um gesto pequeno, mas que quase me arrancou um sorriso.
— Você não comeu nada ontem — disse ele quando me sentei. — Imaginei que estivesse com fome.
No mesmo instante, meu estômago roncou alto, me traindo.
— Viu só? Sempre certo — murmurou, como se tentasse fazer graça. Mas o cenho franzido, eterno, fazia com que sua voz soasse mais como uma sentença do que como uma piada.
A primeira mordida no pão me fez lembrar de quanto tempo fazia desde que eu comia de verdade. Engoli devagar, tentando disfarçar a fome, mas não havia como enganar o som do estômago ou a forma desesperada como mastigava.
Ele observava em silêncio. Como sempre fazia. A essa altura, eu já começava a me acostumar.
— Não parece acostumada com isso — comentou, como se tivesse lido meus pensamentos.
— Com o quê? — ergui os olhos, desconfiada.
— Com alguém cuidando de você.
Quase engasguei. Baixei o olhar, fingindo me concentrar no café fumegante.
— Não preciso que ninguém cuide de mim. – Respondi com medo que minha voz falhasse.
Ele arqueou uma sobrancelha, cético.
— Não foi o que pareceu ontem à noite, quando mal conseguia ficar de pé.
Engoli em seco, mais pelas palavras do que pelo pão. Queria responder, mas algo em sua voz, firme, quase dura, e ainda assim sem julgamento, me fez calar.
— Você sempre foi assim? — Perguntou de repente.
— Assim como? — Encarei-o de volta e ele não pareceu se intimidar nenhum pouco.
— Como se estivesse pronta para fugir a qualquer segundo.
A pergunta caiu entre nós como uma pedra no fundo de um lago. O silêncio que se seguiu só fez ecoar a estranheza daquela cozinha iluminada, onde duas pessoas que não confiavam uma na outra dividiam um café da manhã quase íntimo.
— Você fala como se fizesse diferente de mim — falei e, dessa vez, sem olhá-lo, pois, temia a minha própria reação ao ver a sua.
Ele me encarou por longos segundos, e por um instante tive a impressão de que sorriria. Mas não sorriu. Apenas voltou a beber seu café, como se a conversa tivesse terminado.
Ainda assim, eu sabia: nada, absolutamente nada, passava despercebido por ele. E isso era um problema que eu teria que lidar daqui pra frente ou, pelo menos, até que nossos caminhos finalmente se repartissem e cada um seguisse o seu rumo. Mas, por enquanto, ele parecia cada vez menos disposto a isso.
— Hoje vamos visitar a região onde aconteceu o ataque — ele falou, mudando de assunto. — Quero que converse com as pessoas que foram atacadas e sobreviveram para ver o que descobrimos.
— Eu? — Apontei para mim mesma. — Mas você já não investigou lá? Porque temos que ir de novo?
— Você também foi atacada. As pessoas vão se sentir mais à vontade em saber que podem conversar com alguém que passou pela mesma situação — disse como se fosse óbvio e eu o encarei com uma das sobrancelhas arqueadas.
— E isso não tem nada a haver com o fato de que você tem uma postura extremamente assustadora, não é?
— Você me acha assustador? — Um meio sorriso surgiu em seus lábios e eu me arrependi no mesmo instante de ter dito isso.
— É, eu meio que te apelidei de homem assustador para mim mesma — admiti encolhendo os ombros e, pela primeira vez, ouvi o som da sua risada.
A risada dele ecoou pela cozinha, curta, mas sincera, quase como se tivesse sido arrancada de uma parte dele que raramente mostrava. Eu arregalei os olhos, surpresa por ter provocado alguma reação assim.
— Homem assustador, hein? — repetiu, balançando a cabeça e ainda sorrindo. — Não posso dizer que estou ofendido.
Engoli em seco e desviei o olhar, sentindo meu rosto aquecer. Havia algo curioso e desarmante na maneira como ele ria, como se aquele momento de leveza fosse completamente fora de lugar no contexto de tudo o que vivíamos.
— Bucky — ele falou.
— O que? — O encarei sem compreender.
— Pode me chamar de Bucky — falou e eu senti como se uma grande parede tivesse sido derrubada entre nós dois.
— Eu sou... — Engoli a saliva que se acumulou em minha boca antes de continuar. — Sou Tess.
Ele assentiu, como se me cumprimentasse com a cabeça e eu soltei o ar lentamente, me sentindo um pouco mais leve com ele. Bucky soava muito melhor do que homem assustador.
— Ok, Tess — falou devagar o meu apelido e eu gostei mais do que deveria. — Vamos assim que terminar o seu café da manhã.
Respirei fundo, tentando organizar minhas próprias emoções antes de encarar o que estava por vir. O bairro ainda carregava os ecos do ataque, e eu sabia que o que encontrássemos lá poderia mudar tudo. Mas, por algum motivo, não conseguia evitar sentir uma ponta de confiança naquele homem assustador, ou, melhor dizendo, naquele Bucky, que, de forma inesperada, parecia decidido a me proteger.
Não tardei em terminar o café, embora pudesse ficar ali por mais tempo, recuperando o que havia perdido. Mas a impaciência de Bucky era clara, como se gritasse em silêncio: “Vamos lá, não temos tempo!”
— Aqui — disse ele, me entregando um capacete assim que saímos do apartamento.
— Você tem uma moto? — perguntei, surpresa. — Por que não usou ontem? Estava a pé.
— Minha casa não era longe — deu de ombros. — Caminhar é mais silencioso que o ronco do motor.
— Então você é do tipo furtivo — murmurei, observando o meio sorriso que surgia em seus lábios. Ele não respondeu, mas a confirmação veio na expressão.
Uma pontada de hesitação me atingiu. Subir na garupa significava proximidade física, contato que ainda me deixava nervosa. Respirei fundo, tentando controlar minhas emoções.
— Vamos? — Ele chamou, impaciente.
Suspirei e coloquei o capacete antes de me acomodar atrás dele. Sem esperar, Bucky acelerou, e o vento me lançou contra seu corpo.
— Jesus Cristo! — Ofeguei, agarrando-me a ele.
Sua risada abafada pelo vento me alcançou, um som que, de alguma forma, me tranquilizou.
— Você está me esquentando demais, Ghost — disse ele. Arregalei os olhos, sentindo o calor subir dos braços às mãos, até a ponta dos dedos. Vergonha misturada ao medo me dominava, mas não afastei minhas mãos.
Ele não falou nada e seguiu, e eu percebi que talvez não estivesse tão ruim assim.
Em pouco tempo, Bucky desacelerou e entrou em uma rua do Brooklyn. A destruição à frente era evidente: casas e estabelecimentos arruinados, poucos civis se escondendo atrás dos escombros.
— Meu Deus — murmurei, aterrorizada.
— Chegamos — anunciou ele, desligando a moto. Pisei no chão, tentando controlar o calor nos braços e me preparar para o que estava por vir.
Bucky tomou a dianteira, como se já soubesse exatamente o caminho. Segui em silêncio, evitando olhar ao redor. Eu não queria ver a destruição, tampouco descobrir como reagiria se encarasse mais uma cena de horror. Uma explosão a mais, outra vida despedaçada... nada disso era necessário para o que restava daquela comunidade.
— O nome dela é Judy — disse Bucky de repente, parando diante de uma das poucas casas intactas da rua. — Estava brincando com as crianças quando tudo aconteceu. Conseguiu se esconder e saiu ilesa. O irmão dela, Josiah, bem... — a pausa dele já dizia tudo. — Não teve a mesma sorte.
Engoli em seco, tentando afastar as imagens que minha mente insistia em criar. Mas era inútil.
Bucky tocou a campainha. O silêncio que se seguiu foi pesado, até que uma voz cortou do outro lado da porta, carregada de rancor:
— Escute aqui, Soldado Invernal, nós não queremos mais papo com gente da sua laia!
A porta se abriu e revelou uma mulher baixa, de olhos cansados e rosto marcado pela amargura.
— Com licença, Hellen — disse Bucky, e pela primeira vez ouvi sua voz suavizar, quase suplicante. Pisquei, surpresa com a mudança de tom. — Eu trouxe Tess. Ela também foi atacada. Talvez Judy possa falar com ela.
Hellen desviou os olhos para mim, me avaliando dos pés à cabeça. Seu olhar se fixou no machucado do meu braço. Tentei sorrir, um gesto pequeno, forçado, quase um pedido mudo de confiança.
— Vocês têm dez minutos — disse ela, seca. Bucky assentiu de imediato. — Se ela não abrir a boca, quero os dois fora daqui. E não voltem nunca mais.
Ela abriu espaço e, sem alternativas, seguimos para dentro.
— Ela está no quarto — informou Hellen, seca. Bucky caminhou como se já conhecesse a casa, e eu apenas o segui em silêncio.
E então a vi. Uma garotinha que não deveria ter mais do que oito anos. Roupas delicadas, típicas de uma criança que ainda deveria brincar de bonecas, mas seus olhos me causavam estranheza. Seus olhos estavam fixos em um ponto da parede, completamente vazios, como se tivessem sido roubados de qualquer brilho infantil.
— Oi, Judy — Bucky pigarreou antes de se abaixar ao lado dela. Sua voz soava calma, paciente, quase paternal. — Sou eu, Bucky. Lembra que eu estive aqui ontem, pra gente conversar?
Nenhuma resposta.
— Eu trouxe uma amiga — acrescentou, lançando-me um olhar de soslaio ao dizer “amiga”. Não soube reagir, fiz uma careta desajeitada, sem decidir se sorria ou se estranhava o rótulo. — O nome dela é Tess. Ela também viu aquela coisa.
Silêncio absoluto.
O ar começou a pesar. Judy permanecia imóvel, perdida em seu próprio mundo, e cada segundo de silêncio parecia apertar ainda mais meu peito. Na porta, Hellen observava como uma sentinela: braços cruzados, olhos de gavião, pronta para nos expulsar ao menor sinal de erro. A ansiedade queimava dentro do meu estômago, como se me empurrasse a agir.
— Oi, Judy — arrisquei, tentando quebrar a barreira entre nós. Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria. — Eu... eu queria falar com você.
Bucky se ergueu devagar, me dando espaço. Agora era comigo.v
Me ajoelhei diante dela, sentindo o chão frio contra meus joelhos. Por um instante, não soube o que dizer. Como se fala com alguém que parece ter perdido toda a cor da própria alma?
— Eu... também fiquei com muito medo — murmurei, sem coragem de encará-la diretamente. — Não sabia pra onde correr, nem o que fazer. Achei que ia... — engoli em seco, as palavras presas no nó da garganta. — Achei que não ia conseguir.
Judy não se mexeu. Seus olhos continuavam fixos na parede, como se nada do que eu dissesse pudesse alcançá-la. Ainda assim, senti que precisava continuar.
— Eu também me escondi — acrescentei, baixando a voz como se estivesse contando um segredo só nosso. — E, quando acabou, eu queria que alguém tivesse me dito que estava tudo bem... mesmo que não estivesse.
O silêncio pesava, mas notei algo sutil, os dedos dela, tão pequenos, se contraíram levemente sobre o vestido. Quase imperceptível, mas suficiente para me fazer acreditar que minha voz estava atravessando aquela barreira.
— Você não precisa falar comigo agora, Judy — continuei, devagar. — Mas eu estou aqui. Eu entendo como dói.
De canto de olho, vi Hellen endireitar a postura na porta, surpresa. Bucky, por sua vez, apenas observava em silêncio, como se soubesse que aquele momento não era dele, mas meu.
E, então, Judy piscou. Um movimento simples, mas diferente do vazio estático de antes. Por um segundo, seus olhos se moveram da parede para o chão, como se reconhecessem minha presença.
Meu coração disparou. Pequeno demais para os outros notarem, mas enorme para mim.
— É isso... — sussurrei, quase para mim mesma. — Você não está sozinha, Judy.
A observei por mais alguns segundos, mas nada saiu de sua boca. Suspirei pesado, me dando por derrotada naquela batalha.
— Ele levou Josiah.
Parei no meio do movimento de me levantar. Precisei de um milésimo de segundo para entender o que estava acontecendo. Era Judy. E ela estava falando comigo.
— Como é, Judy? — Instiguei, a voz mais baixa do que eu pretendia.
Foi então que ela virou o rosto. Seus olhos enormes encontraram os meus, e todo o pavor que guardava pareceu se derramar sobre mim.
— Ele levou Josiah com ele. — A voz falhou e os olhos se encheram de lágrimas.
— Como ele levou? — Perguntei com cuidado, mas antes que a resposta viesse, Hellen entrou às pressas no quarto, colocando-se entre nós duas.
— Já chega! — A mãe exclamou, com o tom afiado. — Se vieram aqui pra fazer minha filha reviver esse inferno, podem ir embora!
— Hellen, nós só queremos... — Bucky tentou intervir.
— Não, ele levou a alma do Josiah! — Judy interrompeu de repente, a voz clara e cortante. O silêncio caiu como um peso sobre o quarto.
— Não, querida... — Hellen tentou segurar as lágrimas, passando a mão trêmula pelos cabelos da filha. — Josiah foi morar com o papai do céu, e...
— Não! Eu vi! — Judy se desvencilhou do toque da mãe, levantando-se num pulo e correndo até mim. Segurou minhas mãos com força, e os dedos frágeis pareciam arder contra minha pele. — Você precisa ajudar a liberar a alma dele!
— Judy, eu... — Minha voz morreu antes de se formar por completo. Eu não sabia o que responder.
— Ele pegou você também. Ele queria a sua alma. — Seus olhos grudaram nos meus, implorando que eu acreditasse. — É isso que ele quer. Eu ouvi ele dizer!
Engoli em seco, sentindo o pânico se instalar em meu peito.
— Judy... — Bucky se juntou a nós, pousando a mão humana sobre a dela e apoiando a de metal em minhas costas. O frio do toque me atravessou num arrepio. — O que ele disse?
— Que precisava da energia dele... que ele era especial. — Apesar de responder a Bucky, Judy não desviava de mim. — Então... — sua voz quebrou em soluços — ele soltou uma garra... e enfiou na boca dele.
— Ah, meu Deus! — Hellen deixou escapar, levando as mãos ao rosto enquanto lágrimas de puro pavor deslizavam por sua pele.
Eu mesma só percebi que chorava quando o gosto salgado se misturou à minha boca.
— Saiu uma coisa dele... de Josiah. — Judy tremia, mas não parava. — Era como se o monstro estivesse sugando ele. Eu sei... eu sei que era a alma dele!
Aquelas palavras... aquela descrição grotesca... Não eram apenas da lembrança de Judy. Era como se o eco daquela noite maldita me atingisse de novo, cortando minha respiração, trazendo à tona o frio que ainda não havia abandonado meu corpo desde que o vi pela primeira vez.
A garra. O rasgo em minha pele. Eu não havia tido nada sugado, pois meu poder explodiu antes que ele conseguisse. Mas e... E se ele tivesse conseguido? O que essa criatura queria de mim?
Meus dedos começaram a tremer dentro das mãos pequenas de Judy, mas ela os segurava com tanta força, como se soubesse que estávamos presas ao mesmo fio invisível, o mesmo destino que nos ligava ao monstro.
— É isso que ele quer... — Sussurrou ela, mais para mim do que para qualquer outra pessoa no quarto.
— Chega! — A voz de Hellen cortou o ar como uma lâmina. Ela puxou a filha com força, afastando-a de mim, e depois respirou fundo, tentando manter uma calma que claramente não existia. — Basta. Não vou permitir que vocês alimentem ainda mais esses delírios!
— Hellen... — Bucky começou, mas ela levantou a mão, firme.
— Não. — Sua voz era quase um choro. — Não aqui, não na frente dela.
Por um instante, pensei que fosse nos expulsar de vez. Mas, em vez disso, Hellen inspirou fundo, fechou os olhos e apontou para a porta.
— Vamos conversar lá fora. Agora.
Olhei para Judy, que ainda chorava, mas seus olhos suplicantes permaneciam fixos em mim. Era como se ela estivesse tentando me passar um segredo que nem a própria mãe podia ouvir.
Bucky tocou meu ombro, sinalizando para irmos. Eu engoli em seco, me obrigando a soltar as mãos dela. O frio imediato da ausência me percorreu os braços.
Saímos em silêncio, e quando a porta se fechou atrás de nós, a sensação de peso não diminuiu.
— O que essa coisa quer? — Hellen perguntou de maneira exasperada. — Ele levou meu filho. Matou meu filho. E deixou minha filha nesse estado.
— Nós estamos tentando descobrir — ponderou Bucky, a voz baixa, mas carregada de gravidade. Seu olhar se manteve em mim, como se buscasse antecipar cada passo que eu estava prestes a dar.
— Vocês já enterraram o corpo? — Pedi, me sentindo a pessoa mais sem sentimentos do mundo por conta disso.
— O quê? — Hellen piscou, desnorteada, e Bucky franziu o cenho, tentando encontrar o fio que ligaria nossos pensamentos. — Não... Os médicos legistas não liberaram o corpo ainda, estão analisando.
— Ele fez isso comigo — falei, puxando o curativo, e Hellen levou a mão à boca em pavor. — Bucky me ajudou a fazer um curativo, mas eu estava com o braço apodrecendo. Talvez... talvez a gente encontre algum sinal no corpo de Josiah que possa nos ajudar a entender como essa coisa funciona.
Foi como se eu tivesse arrancado o último fôlego de esperança dela. A mulher explodiu em lágrimas, o corpo inteiro tremendo, e se jogou contra mim, buscando um afago. Eu a segurei firme, deixando que desabasse. Ela precisava disso.
— Ele levou o meu menino... — Chorava copiosamente, e agora eu começava a chorar junto. — O meu doce Josiah... Ele levou.
Eu a apertei com mais força e fechei os olhos, temendo fazer as luzes piscarem como havia acontecido na casa de Bucky. E, ainda assim, senti um leve tremor nas lâmpadas acima de nós.
Bucky, a poucos passos, mantinha a mão metálica cerrada ao lado do corpo, tenso, os olhos fixos em mim, pronto para intervir caso algo saísse do meu controle.
— Nós vamos descobrir o que é isso e o que ele quer — falei com firmeza, e Hellen foi me soltando aos poucos. — Eu prometo.
Seus olhos brilhavam pelo acúmulo de lágrimas. E então, por um instante, o corredor pareceu escurecer, como se a própria casa tivesse ouvido a promessa.
— Ok, eu quero os dois fora da minha casa, agora — disse ela fungando, voltando a sua postura dura e defensiva. — Só voltem aqui quando acabarem com essa coisa. Se não, não quero mais que pisem na rua. Não queremos mais sofrer com isso.
Assenti a olhando no fundo dos olhos, tentando transparecer o máximo de confiança que eu tinha, embora tudo dentro de mim parecesse ruir em medo e ansiedade. Bucky, por outro lado, concordou, afirmando que logo voltaríamos com boas notícias.
E então, sem demora, nós dois saímos como fora o pedido.
Uma sensação de vazio tomou conta de mim no momento em que começamos a caminhar em direção a sua moto. O que aconteceria a partir de agora?
— Onde você mora? — Perguntou Bucky e eu pisquei, me sentindo desnorteada.
— O que? — Balancei a cabeça, tentando me concentrar na conversa. — Eu... Eu não tenho casa, na verdade.
Encolhi os ombros conforme eu falava e senti Bucky ficar ainda mais tenso, se é que isso era possível.
— Mas pode me deixar por aqui, eu procuro um lugar pra ficar e... — comecei falar, mas fui logo interrompida.
— Nosso trabalho juntos ainda não acabou, Tess — trincou o maxilar e apoiou as mãos na cintura, como se pensasse no que íamos fazer. — Sei que o combinado era cada um ir para seu lado, mas a coisa ainda está por aí e provavelmente vai voltar pra te pegar.
— E o que sugere? — Questionei coçando a parte de trás da cabeça.
— Posso ceder minha casa enquanto caçamos a coisa – me encarou profundamente e um arrepio percorreu pela minha espinha. — Mas com uma condição.
— Qual?
— Que você vai me prometer que não vai mais ficar flutuando por aí enquanto dorme.
A seriedade no olhar dele quase me fez rir, mas a verdade é que aquela condição era menos sobre mim e mais sobre o medo dele.
Suspirei, me dando por vencida. — Prometo.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti que não estava sozinha.