[1]
As pequenas vitórias
Eu não gosto de ninguém no recinto
E eu não quero mentir
Mas eu não quero te contar a verdade
“Stop The World I Wanna Get Off With You”
— Arctic Monkeys —
O príncipe Daemon Targaryen retornara da guerra em Stepstones há apenas algumas voltas de lua, mas já estava irremediavelmente entediado. O grande baile de máscaras da Fortaleza Vermelha, oferecido por seu irmão — o rei Viserys I — para celebrar a chegada do novo ano e fortalecer alianças, era o evento mais aguardado das Terras da Coroa. Nos últimos dias, a corte inteira não parava de falar nem por um segundo sobre a celebração. Gostando ou não, Daemon tivera que vestir sua linda máscara de dragão e preparar-se para uma noite de formalidades maçantes. Jamais ligara muito para a importância daquelas festividades. Os bailes eram sempre iguais: cheios de lordes, damas e cavaleiros chatos e enfadonhos; todos querendo puxar o saco do rei para obterem mais riquezas, títulos e terras.
Horas de baile, e Daemon ainda não havia se acostumado a estar usando aquela máscara. Ele já tinha entendido que a peça era bonita. Ouviu isso de todas as mais lindas moças com quem dançara. Mas o fato era que a máscara não o transformava em alguém incógnito, afinal, era só olhar para ele, suas roupas e seus cabelos, e o mistério acabaria. Todos sabiam quem ele era, e todos o rodeavam porque queriam estar com o príncipe. Por um momento, sentiu falta de sua guerra em Stepstones e a glória por ter matado pessoalmente o príncipe Craghas Drahar.
Seus olhos vagaram até a jovem princesa Rhaenyra, que dançava com um lorde qualquer que gostaria de se tornar seu futuro marido. Desde que seu irmão havia nomeado a filha Princesa de Pedra do Dragão, a herdeira do trono, todos queriam isso. Agora, no entanto, eles achavam que tudo o que a princesa podia buscar era um bom marido, pois enxergavam o que ela não queria enxergar: que, no futuro, proclamariam o filho de Alicent como herdeiro do Viserys porque, diferente dela, Aegon era um homem.
Futuras guerras por vir… Daemon suspirou e encheu sua taça de vinho. Assim que deu o primeiro gole, seu olhar capturou uma figura enigmática em um deslumbrante vestido preto. Quem é aquela mulher?, perguntou-se de imediato. Como ele poderia não tê-la visto mais cedo? Talvez devesse ter prestado mais atenção.
O olhar penetrante do príncipe Daemon não passou despercebido por , afinal, estava olhando para ele. Era difícil não encará-lo. O homem estava lindo demais em suas vestes chiques que misturavam o vermelho e preto da casa Targaryen. E, deuses, bem sabia como ele havia ficado ainda mais bonito com aquele cabelo curto. Ela percebera no mesmo dia que o príncipe retornara de Stepstones. Não se falava de outra coisa nas cozinhas do castelo, então ela se obrigara a espreitar os corredores até que pudesse vê-lo para checar se era mesmo tudo aquilo que estavam falando. E era. Era melhor ainda.
Assim que se recuperou do pequeno choque inicial, desviou o olhar e se aproximou de uma das mesas, em busca de algo para beber. Escolheu o dourado da Árvore, justamente por ser um dos mais caros. Aquela era a sua noite especial, uma noite que jamais se repetiria. Precisava aproveitá-la ao máximo. Era uma plebeia, afinal de contas. Uma plebeia com um trabalho relativamente bom, já que trabalhar na Fortaleza Vermelha não era para qualquer um, mesmo sendo uma criada de cozinha. Tinha que deleitar-se em sua noite de dama nobre até o último segundo, pois quando os sinos tocassem, anunciando a chegada do novo ano, toda a magia se minguaria como a lua no céu; mas diferente dela, não voltaria a crescer e brilhar. Não era assim que funcionava com os plebeus.
Um tanto afastado, o príncipe ainda observava a mulher misteriosa bebericar seu vinho. Era intrigante demais. Levou a mão para trás da cabeça, para esfregar seu cabelo, agora curto; um pequeno hábito que havia adquirido. Ele não tirou os olhos da moça. Não ousaria, não depois de vê-la devolvendo-lhe o olhar por um breve momento. Por que não a reconheço?, questionou-se, por que nada nela me dá uma dica de quem pode ser?
bebeu aquele doce, doce vinho. Doce como os sete céus. Deuses, pensou, empolgada, eu nem preciso de sete desejos esta noite. Ela segurou um sorriso divertido, afinal, pareceria uma maluca se fosse vista rindo sozinha pelos cantos. Ainda mais quando fingia ser uma rica lady de alguma casa nobre. Provou algumas iguarias e saboreou o máximo possível aquele fino vinho. Foi então que percebeu que o príncipe ainda tinha seus olhos de dragão sobre ela, descaradamente encarando-a. O quê? Ele acha que vou caminhar até ele só por estar me olhando? Só porque ele é um príncipe?, pensou consigo mesmo, divertindo-se mais do que deveria. Ele que espere sentado.
E lá ele se manteve, sentado e a observá-la enquanto ela apreciava um bom dourado da Árvore. Boa escolha, avaliou. Daemon não se importava pela mulher misteriosa ter notado o seu olhar predatório. Ele queria que fosse assim. Esforçou-se para evitar um sorrisinho de satisfação ao admirar a curva dos lábios da garota enquanto ela bebia, quase delicada demais. Maldita seja. Ela o levaria à loucura se continuasse ignorando-o daquele jeito. Desejava saber se a sete vezes maldita lady de fato o ignorava ou se o fazia apenas para provocá-lo. No entanto, não queria ceder em seu joguinho pessoal e ir até ela para perguntá-la ele mesmo. Qual será o seu próximo passo, misteriosa lady?
A pergunta interna do príncipe foi respondida de uma maneira enviesada quando outra pessoa inesperada se intrometeu em seu caminho. Um homem, um pouco mais alto que ela, galante. Suas roupas não indicavam a que casa nobre pertencia. Poderia ser um lorde, um cavaleiro, um filho qualquer de algum fidalgo. A máscara não os deixava saber. Daemon queria saber se era um pretendente ou apenas um admirador. também.
— Ah, olá, meu lorde — ela cumprimentou-o com polidez enquanto largava a taça, agora vazia, sobre a mesa. — Ou seria Sor?
Os olhos dela vagaram de forma discreta até Daemon Targaryen, apenas para checar se ele ainda a observava. Uma sensação estranha se apossou dela ao perceber que sim. São as pequenas vitórias, pensou.
— Seria Sor, sim, sou um cavaleiro ungido — respondeu o homem misterioso. — Posso ter a honra de tirá-la para dançar, minha lady?
sorriu. Fora tratada como uma nobre a noite inteira, e ainda não havia se acostumado. Nunca se acostumaria.
— Ora, mas é claro, meu bom Sor.
pousou sua mão sobre a dele e o seguiu para a pista. Daemon dardejou-os com o olhar. A garota se movia graciosamente. E era, de fato, uma ótima dançarina. Seus olhos seguiram cada movimento e cada curva do corpo dela como um predador que tinha sua presa escolhida há muito, muito tempo. O vinho até tornara-se esquecido em sua mão, tamanho era o empenho em focar em sua pequena lady misteriosa. E , gostando da atenção, lançara olhares furtivos ao príncipe por cima do ombro de seu ótimo companheiro de dança.
Quando a dança acabou, o cavaleiro misterioso a agradeceu e a elogiou. Cavalheiresco como deveria ser. E outro homem cruzou o caminho dela logo em seguida. Um homem não, um garoto, mais jovem do que ela própria. Ela aceitou a dança, claro, seria estranho se não aceitasse e, até aquele instante, não havia motivo para negar. Mas aquele não era um companheiro de dança muito bom. Devia ter faltado às aulas quando criança. Malditos lordezinhos, xingou mentalmente. Ela, sendo plebeia, jamais tivera aulas como os fidalgos, mas o garoto nem para aproveitar a oportunidade servia.
Além de pouco habilidoso, logo suas mãos começaram a vagar por onde não deveriam. Deu mais uma olhada para o rosto do garoto enquanto dançava. Deuses, mesmo com a máscara, ela conseguia reconhecê-lo como um daqueles garotos afortunados da corte… do tipo que colocava as mãos sujas nas criadas. sempre detestou esse tipo de pequenos lordes. Ainda assim, continuou sua dança. Era o que o costume dos nobres exigia.
Até Daemon, que permanecia sentado em seu canto, conseguia ver o modo como as mãos daquele garoto se moviam para onde não deveriam. Ele tentava tocá-la, senti-la. Era só olhar para o rosto da mulher misteriosa para ver que ela não estava gostando nem um pouquinho daquilo. Deuses, que garotinho imundo, irritou-se Daemon.
Pelos sete infernos, essa música não vai acabar nunca?, pensou consigo mesma. Ela não era do tipo que desejasse a morte de pessoas da classe dela, mas nesse momento queria muito que o cantor se engasgasse até a morte para que ela pudesse parar de dançar com o futuro lorde idiota. Aquela maldita dança era capaz de transformá-la na mais devota das mulheres. Se pudesse, ficaria de joelhos e faria uma prece aos sete deuses por um milagre dos sete céus para salvá-la. Talvez eu devesse usar um dos sete desejos da tradição.
Daemon também resmungava mentalmente sobre a duração daquela música besta. E então passou a se questionar se não deveria ele mesmo interferir e acabar com a dança deles. Cerrou os dentes ao notar como ela tentava educadamente resistir aos avanços do garoto mascarado. Mas educação não levaria a nada com aquele idiota. Estreitou os olhos e apertou a taça com força. A canção continuava a ecoar pelo Grande Salão, o som dos instrumentos enchendo o recinto de alegria para alguns, e raiva para outros. Daemon poderia facilmente ir até lá e puxá-la para longe. O jovem rapaz teria que ceder. Ninguém diria não a um príncipe. Ainda mais se tratando de Daemon Targaryen.
Depois do que lhe pareceu uma eternidade assistindo àquela cena incômoda, o príncipe se levantou. Ele bateu a taça de vinho contra a mesa. Não aguentava mais. Precisava afastá-la daquele… porco. Tinha que intervir o quanto antes.
Enquanto isso, tentava se esquivar pela milésima vez de outro toque indesejado do maldito lordezinho idiota. Se ela estivesse no meio de uma taverna, já teria dado um belo soco na cara dele. Mas aqui não era , a plebeia; era uma moça nobre que tinha que se ater aos bons costumes… mesmo que a tratassem mal. A lógica dos malditos nobres a fazia querer revirar os olhos.
O príncipe Daemon se aproximava no momento em que o garoto escorregava sua mão até os quadris da mulher misteriosa. Aquilo foi demais. Daemon deu um tapinha no ombro dele, um toque um pouco mais forte do que o necessário.
— Chega — falou em um tom que não abria brecha para discussões. Ele não estava nada feliz. — Isso já foi longe demais.
— Me-meu príncipe? — o garoto tropeçou em suas próprias palavras.
não falou nada. Apenas ergueu os olhos para fitar o belo príncipe parado ali com uma cara de poucos amigos. A curiosidade brilhava nos olhos dela como fogo de dragão.
— Você está incomodando a moça — sibilou o príncipe, sua expressão severa. — Suas mãos estão vagando por onde não deveriam.
— Meu príncipe — interviu ela, exageradamente cordial. — Só estávamos dançando, nada mais.
Ela forçou um sorrisinho. Era uma grande mentira, os três sabiam bem disso, mas seria educado da parte dela tratar do assunto daquela maneira. E não queria nenhuma briga ou cena que chamasse atenção indevida. Ninguém poderia descobrir que ela era uma impostora, ou toda a magia da noite se apagaria como uma vela assoprada por alguém.
— Vá! — Daemon ordenou ao garoto, oferecendo sua mão para a mulher. — Eu assumirei a partir daqui.
— Si-sim, é claro, meu príncipe — gaguejou outra vez, corando levemente.
assistiu o lordezinho idiota tirar suas mãos sujas de cima dela como se ela tivesse contraído escamagris de repente. Contente por vê-lo, enfim, se afastar, a garota pegou na mão de Daemon, o aceitando como seu próximo par de dança.
— Meu príncipe — cumprimentou educadamente e inclinou a cabeça em um sinal de respeito.
— Minha lady — respondeu com um aceno de cabeça.
Ele segurou a mão enluvada e não pôde deixar de se perguntar se a pele da garota era tão macia quanto aquela luva preta. Talvez fosse. Tudo nela parecia combinar, então por que isso também não combinaria? Até a pequena pérola da luva, na altura de seu pulso, combinava com o modo como seus olhos brilhavam. Daemon posicionou-se para dançar, antes que fosse acusado de estar a encarando por muito tempo. Repousou as mãos na cintura dela, onde deveriam ficar durante uma dança. E então eles começaram a dançar e a maldita canção sem fim agora parecia sete vezes bendita.
— Então você viu aquele garoto me incomodando e decidiu que era a sua hora de bancar o príncipe charmoso que vem resgatar a donzela em apuros? — alfinetou, com um pequeno sorriso nos lábios.
— Aquele garoto tinha as mãos passeando sobre você como se o seu corpo fosse a maldita Estrada do Rei. — Daemon a segurou perto enquanto se moviam com a música, seguindo o ritmo. — Eu apenas intervim para te salvar dele.
— Então veio mesmo me resgatar — notou. Apesar da diversão, suas palavras tinham um tom afiado. — E agora, meu príncipe? Devo lhe agradecer?
— Deveria me agradecer, sim — respondeu, sem esconder a presunção.
De olhos fixos nela, esperou pela reação. Não sabia o que viria a seguir, afinal, não a conhecia — ou ao menos acreditava que não. Deuses, ela estava tão próxima, que era impossível não pensar sobre isso. Ele podia inalar o perfume dela, e aquilo, de algum modo, incendiava seu corpo.
— Eu lhe agradeço educadamente, meu príncipe. Me ajudou, de fato. Aquele garoto estava me irritando — admitiu ela. — Embora eu não precisasse de você para me salvar.
— Bem, eu não ficaria parado assistindo àquele porco com as mãos onde não deveria. — Ele bufou.
— O Rei do Mar Estreito… Foi assim que se chamou, não? O rei de… sei lá o quê… agora se preocupa com moças sendo tocadas por jovens garotos na frente dele? — provocou. — E não apenas com sua guerrinha particular em Stepstones?
Daemon estreitou os olhos e cerrou a mandíbula. Ele a segurou mais firme, seus corpos mais próximos, porém ainda mantendo a distância social. Tecido do vestido, tecido das luvas… Deuses, o príncipe só queria tocar a pele dela, ainda que suas palavras fossem cortantes.
— E por que não me preocuparia? Homens passando a mão onde não devem em momento inoportunos quando a garota claramente não está gostando…? É patético! — Revirou os olhos. — E sim, eu passei anos lutando em Stepstones. E daí? Alguém tinha que lutar.
— E daí… nada. Eu particularmente tenho um grande interesse por guerreiros — ressaltou. — O que não significa que eu goste de você, é claro.
— É claro — disse. — Então por que dançar comigo?
A moça era agressiva. Daemon gostava disso. A música que parecia infinita agora se aproximava de seu fim, mas ele não tinha a intenção de se afastar até que fosse absolutamente necessário.
— Não é como se eu tivesse escolha, é? — Sorriu, espirituosa. — Eu prefiro estar com um homem do que com um garotinho idiota. E, no fim das contas, você é o príncipe. Eu não posso simplesmente dizer não para o príncipe nesse tipo de situação social.
— Como se não tivesse escolha? Você poderia ter deixado a pista de dança — indicou, com um pequeno sorriso nos lábios. Seus olhos desceram, admirando a maneira como vestido caía sobre sua forma, assentando-se às pequenas curvas. Ele apertou mais as mãos na cintura dela. — O pequeno idiota tinha toda a sua atenção. Você parecia ansiosa para entretê-lo.
— A canção teve seu fim — disse ela, ignorando momentaneamente as observações dele. — Dançaremos outra?
— Você quer isso? — perguntou ele.
Seus corpos mantinham-se próximos, ainda que não dançassem. Daemon queria dançar outra música. Deuses, ele dançaria todas as canções da noite com ela se fosse possível. Era uma ótima desculpa para segurá-la perto dele sem levantar suspeitas. Assim, poderia continuar a sentir o calor do corpo dela através de suas roupas.
— Você quer, meu príncipe? Porque eu sou apenas uma garota inocente nos braços de um homem mais velho. — Levou uma das mãos à testa, fingindo desfalecer. — Que escolha uma ladyzinha como eu poderia ter?
— Tem uma boca bem grande, não é, ladyzinha? — comentou. Era ele quem deveria ter o controle da situação, não ela. No entanto, não conseguia evitar sentir-se atraído pelos seus comentários atrevidos. — Pode continuar dançando ou ir embora.
— Você também pode continuar dançando ou ir embora — salientou. — Veio me resgatar, meu príncipe, e já teve sucesso. Quer ficar e dançar?
— Sim, eu posso ficar — cedeu. Ele não estava pronto para deixar o momento acabar, não antes que ele se deleitasse com cada pequena parte.
— Então eu também posso ficar. — Sorriu de lado, vitoriosa.
— Bom — disse ele.
Eles voltaram a dançar, sempre respeitando as distâncias necessárias. estava gostando daquilo muito mais do que seria saudável. Daemon também. Ele gostaria de entender o que havia nessa mulher misteriosa que o atraía tanto. O cheiro de mel e flores que exalava dela era, com certeza, uma das coisas. Mas nem de longe era a única.
— O que foi que estava dizendo antes? — perguntou ela. — Ah, é mesmo. Você acabou de dizer que eu parecia ansiosa para entreter aquele garotinho idiota… É isso o que pensa de mim, meu príncipe?
— Não — disse ele —, mas você parecia bem apegada ao idiota.
— O que quer dizer com apegada? — ofendeu-se e o príncipe riu. — Diga!
Ele a puxou para perto, talvez perto demais, porém não se importou.
— Sabe bem o que quero dizer — falou, sua respiração batendo na bochecha dela. Assim podia sentir ainda mais seu cheiro inebriante que o deixava completamente intoxicado por ela. — Estava lá, dançando com ele.
— Não tive outra escolha a não ser continuar dançando. Eu tenho bons modos — defendeu-se. A verdade era que não podia fazer uma cena porque temia que os nobres descobrissem sua verdadeira identidade e a expulsassem.
— Bons modos… — Ele quase riu. — Então foram as boas maneiras que a compeliram a manter-se dançando com aquele garoto nojento? Quão… nobre da sua parte.
— Ah, sim, muito engraçado. — Ela revirou os olhos. — Não é nobre no sentido que a palavra merece, nisso você está certo. Mas é tão nobre quanto as outras pessoas nobres daqui — cuspiu as palavras. tinha um desdém pelos fidalgos e suas vidas como qualquer pessoa do povo comum deveria ter.
Daemon fixou o olhar em seus olhos espertos. Uma garota nobre falando assim, refletiu ele. Era impossível não notar uma antipatia pela nobreza no modo como se referia a eles. Era algo que o príncipe, por mais que quisesse, não podia deixar de admirar.
— Sinto que não é muito a favor dos nobres e seus… estilos de vida — comentou.
— Nossos estilos de vida — corrigiu-o, incluindo os dois na equação. Era melhor garantir que não seria deixada de fora dessas menções, afinal, nem ele e nem ninguém ali sabia que ela não era da laia deles. — E não, não sou. Um garoto idiota pode colocar as mãos onde não deveria durante uma dança social, mas uma garota não pode fazer nada para impedir? Que belos e nobres modos!
O príncipe Daemon assentiu, um sorriso surgindo no canto dos lábios como o sol em uma gélida manhã.
— Como sugeriria pará-lo, então? — Suas mãos cravaram-se na cintura dela, mantendo-a firme contra ele, bem perto enquanto dançavam. Inspirou profundamente, ainda intoxicado pelo seu cheiro.
— Quer dizer… o que eu estava me segurando para não fazer aqui no meio do Grande Salão? — verificou. — Eu honestamente estava querendo dar um soco na cara dele.
— Ah, é? — O príncipe riu. — Queria mesmo dar um soco nele?
— Você não? — rebateu ela. — Do jeito que olhou para o pobre garoto, tenho certeza de que ele pensou que o cortaria ao meio.
— Talvez se eu tivesse a minha espada comigo — brincou. — Me pergunto o que você teria feito se eu não estivesse aqui.
— Infelizmente, não teria feito nada. — Ela fez um beicinho, descontente. — Se estivéssemos em uma taverna, eu poderia simplesmente ter batido nele e ninguém se importaria muito. Mas não aqui.
— Ah, uma garota de taverna… — notou. — Está acostumada com tavernas, então?
— Não, eu nunca…! — Ela parou de repente. Se continuasse, ele a pegaria na mentira, então transformou sua fala em uma meia-verdade. frequentava tavernas, vivia ao lado de uma, mas ele não precisava saber dessa parte. — Devo confessar, meu príncipe, que já saí furtivamente uma vez ou outra para visitar uma taverna enquanto fingia ser uma pobre garota da cidade.
— Sair furtivamente para tavernas? — disse ele. — Por que, nos sete infernos, uma pequena lady como você faria uma coisa dessas?
— O que foi? — Estalou a língua. — Uma pequena lady não pode ter um pouquinho de diversão?
— Uma pequena e nobre lady, visitando uma taverna da cidade por vontade própria… — Seus dedos deslizaram pelo material sedoso do vestido dela, ainda na altura de sua cintura. Ele queria sentir mais do que aquilo. Queria sentir a pele macia e quente da garota sob seus dedos. — Você é realmente estranha.
— E você não parece desapontado — denotou.
— Talvez eu goste de mulheres um tanto… afiadas. — O sorriso nunca deixou seus lábios.
— Claro que gosta. — revirou os olhos, mas não pôde esconder o sorriso que iluminava seu rosto. — Vi você uma vez quando estava na taverna.
Era verdade. Obviamente não era uma senhora nobre fingindo ser uma garota pobre. Era uma plebeia bebendo um corno de cerveja na taverna ao lado de onde morava. Estava sendo apenas ela mesma. Então reconhecera o príncipe sentado na outra mesa. Algo nela chamara a atenção dele, que viera até ela. No início, pensara que ele a teria reconhecido como uma criada das cozinhas do castelo, mas logo percebera o óbvio: que os nobres, sejam eles da família real ou não, tendiam a não prestar a mínima atenção aos criados que o serviam. No entanto, o príncipe demonstrara-se interessado nela, mesmo sendo claramente uma qualquer. , porém, não deixara nada acontecer entre os dois. Achara-o muito velho para ela na época. Agora, que era mais velha, pensava diferente.
— É mesmo? — perguntou ele, tomado pela curiosidade. — Quando?
— Antes de Stepstones — revelou. — Por quê? Está tentando descobrir quem é a jovem garota por trás da máscara?
Sim, ele estava. Deuses, ela é tão linda, pensou. Seu olhar mantinha-se fixo nos olhos dela, admirando-os do jeitinho que mereciam.
— Nós temos uma conexão? — indagou, interessado.
— Não sei, meu príncipe, nós temos? — provocou.
Um calor lhe subiu o corpo. A garota era, de fato, ousada. E Daemon gostava disso. Gostava muito. A aparência dela, o modo como o seu corpo parecia se encaixar no dele enquanto dançavam. Deuses, o príncipe desejava levá-la para os seus aposentos o quanto antes. E o pior era que ele ainda nem sabia quem ela era.
— Acho que sim, minha lady — respondeu.
— Está falando de agora? — Suas mãos apertaram os ombros dele. — Ou do passado, naquela taverna?
— Ambos — falou antes que pudesse se conter. Era difícil pensar direito quando ela o tocava daquele jeito, para mostrar que também tinha um certo poder sobre ele, e não apenas o contrário.
— Hmm, isso é interessante. — Ela umedeceu os lábios. — Nós nunca fomos para a cama, caso esteja se perguntando isso sobre o nosso passado. Foram apenas olhares trocados e algumas palavras suas.
— É uma pena — disse em voz baixa, seu coração acelerou. Sete infernos, como ele a queria.
— Que eu não tenha caído nas suas conversas e me entregado a você? — sugeriu.
— A parte de não cair nas minhas conversas eu poderia perdoar. — Uma de suas mãos se moveu para as costas dela, segurando-a firme perto de si. O príncipe quase ignorava o fato de estarem dançando no meio do salão com dezenas e dezenas de olhos atentos sobre eles. — Agora não ter ido para a cama comigo, isso é uma verdadeira pena… a maior de todas até agora.
— Ah, você realmente acha? — O sorriso de se alargou. — Você nem sabe quem eu sou.
— Por isso mesmo é uma pena — falou. Era tão frustrante quanto atraente o modo como ela parecia querer mantê-lo no escuro sobre sua identidade. Quase como um jogo. E Daemon estava decidido a descobrir quem ela era, uma hora ou outra. — Por acaso, você não vai me contar, vai?
— E para onde iria toda a diversão se eu te contasse? — Ela riu.
De algum modo, as provocações o faziam desejá-la ainda mais. Seu olhar vagou até os lábios convidativos da garota e, em um movimento automático, o príncipe inclinou-se para frente. Ele só queria arrancar a máscara dela, revelar seu rosto e nome para a corte inteira. E então a levaria para os seus aposentos e faria tudo o que pudesse com ela até o nascer do sol do novo dia, do novo ano.
— Eu farei valer a pena a perda da diversão — murmurou.
— Não tenho certeza de que você faria — importunou. — Para ser honesta, estou um pouco surpresa com o que está acontecendo entre nós. Pensei que nunca superaria a jovem princesa Rhaenyra.
Os músculos do príncipe se retesaram e ele estreitou os olhos.
— Como sabe disso?
Como ela sabia? Fofoca da criadagem da cozinha, óbvio. Se trabalhasse fora da Fortaleza Vermelha não saberia de tanto. Ainda assim, podia apostar que algo ainda chegaria até ela; ao menos se tivesse os amigos certos — e ela tinha. Contudo não podia dizer isso a ele.
— Se surpreenderia com as coisas que um bom ouvido atento pode ouvir por aí — foi enigmática.
O príncipe não gostou. Não queria saber da princesa naquele momento. Puxou a mulher misteriosa contra si com mais ímpeto para que ela o sentisse de verdade e percebesse que era ela quem ele estava querendo agora.
— Não estamos falando da minha sobrinha — avisou, entredentes.
— Foi o que eu pensei — sussurrou em seu ouvido. — Sempre terá uma coisa com a princesa Rhaenyra.
A verdade era que não se importava com isso. Apenas tocara no assunto para provocá-lo, incomodá-lo. Ela gostava do jogo, talvez até amasse. Era divertido. E as respostas de Daemon demonstravam que o joguinho valia a pena.
— Está sendo atrevida com a sua boca — alertou-a, os lábios quase tocando sua orelha. Se ela não parasse, o príncipe tinha certeza que seria capaz de beijá-la bem ali, no meio do Grande Salão. Que se foda as consequências, pensou. A mulher o enlouquecia.
— Eu sempre sou atrevida com a minha boca — respondeu com um sorriso.
O príncipe mexia com ela, agora mais do que nunca. Sua respiração acelerada a denunciava. Ele afastou-se apenas um pouquinho para poder olhá-la nos olhos outra vez.
— Terei que usar a minha boca para calar a sua, minha lady? — questionou mais baixinho ainda. — Seria esse o único jeito de te fazer parar de falar?
— É uma pena que não possa fazer isso bem aqui. — Um sorrisinho travesso brincou em seus lábios. — Seria muito divertido ver você tentar.
— Ah, seria mesmo divertido te calar, pequena lady. — A mão dele moveu-se pelas costas dela, apertando, já que esse era o único jeito de tocá-la naquele momento. — Fazer você, enfim, parar de tagarelar…
Seus olhos vagaram para a boca dela. Ela sabia exatamente o que fazer ou dizer para atiçá-lo. Era incrível. E ele estava cada vez mais tentado a capturar os lábios dela e fazê-la se calar. Não por realmente querer calá-la — não queria, gostava do efeito que suas palavras tinham nele —, mas porque desejava beijá-la e senti-la mais do que nunca. Queria ver as reações da mulher aos seus toques.
— Seria, não seria? — Mordeu o lábio inferior, sedutora. — Ah, olha só, a canção acabou. — Eles pararam de dançar. — Foi um prazer dançar com você, meu lindo príncipe.
— A música pode ter acabado, minha lady — disse ele, sem soltá-la. — Mas não estou pronto para te deixar ir embora.
Sua voz soara quase desesperada, porém, pela primeira vez em muito tempo, ele não se importou nem um pouco.
— Que tal se tomássemos um vinho, então? — propôs. — Eu amo dançar, amo mesmo, mas já dancei demais hoje. Não voltarei à pista até que os sinos toquem.
Os sinos, pensou Daemon. Ele poderia se agarrar a essa esperança. Se ainda não tivesse descoberto a identidade da mulher misteriosa, quando os sinos soassem, anunciando o fim deste ano e a chegada do próximo, descobriria quando os sinos tocassem. Só tinha que ficar ao lado dela até a hora chegar. Tinha certeza de que não faltava muito agora. E não era como se estivesse fazendo nenhum sacrifício. Se possível, queria estar ao lado dela até que o sol nascesse pela manhã.
Deuses, o que estava acontecendo com ele?