Capítulo 1
(POV Voss)
Se alguém me dissesse, três meses atrás, que eu estaria prestes a abrir uma turnê mundial, eu teria rido. Talvez cuspido minha água. Mas ali estava eu — com um crachá dourado pendurado no pescoço, com as palavras “Artista – Banda de Abertura” impressas embaixo do meu nome.
— Vocês estão tão nervosas quanto eu? — perguntou, ajeitando o cabelo enquanto a van se aproximava da arena.
— Tenho certeza que sim — respondeu, suspirando.
A viagem desde Londres tinha sido surreal. Foram semanas de reuniões, contratos, treinos quase militares. Quando o e-mail com o “sim” chegou, a gente se abraçou e gritou tanto que uma vizinha bateu na porta achando que era briga. Não era. Era só o nosso sonho finalmente acontecendo.
Desde então, tudo foi uma sequência de “primeiras vezes”. Primeiro álbum oficial. Primeira entrevista de rádio. Primeiro figurino montado por uma stylist. E agora: primeiro país da turnê, primeira arena e primeira vez abrindo o show dos meninos do 5 Seconds of Summer.
Meu estômago revirava, com tamanha ansiedade, mas mesmo assim eu sorria porque, no fundo, eu sabia que essa era a nossa hora.
A van estacionou na lateral do estádio. Vários caminhões enormes estavam descarregando equipamentos. Pessoas com fones e planilhas andavam apressadas. Um cara com colete laranja olhou para o motorista e fez sinal de “pode descer”.
A porta se abriu e eu respirei fundo. foi a primeira a pular, com a mochila cheia de chaveiros barulhentos. colocou os óculos escuros e foi logo atrás, por fim, e eu nos olhamos.
— Vamos?
Eu concordei com a cabeça e então descemos juntas. O sol de Los Angeles era diferente. Tinha cheiro de oportunidade. Ou talvez só de equipamento quente e fritura de food truck. Ainda assim, parecia um filme.
— The Sirens, certo? — uma mulher loira chamou, com uma prancheta debaixo do braço. — Sou a Becca, assistente de produção. Bem-vindas! Os meninos estão terminando a passagem de som. Querem dar uma olhada no palco?
— Queremos — todas dissemos em uníssono.
Seguimos pelo corredor interno. Estava frio por dentro, com o ar-condicionado estalando nos canos. As batidas de uma música ecoavam à frente — um refrão acelerado, que reconheci na hora: Don’t Stop.
E então, entramos na lateral do palco.
Luzes giravam no teto da arena vazia. Os instrumentos vibravam no chão sob nossos pés. Era surreal vê-los ao vivo pela primeira vez, ensaiando como se estivessem num estádio lotado.
Luke estava com os olhos fechados, totalmente imerso. Michael fazia caretas enquanto dedilhava a guitarra. Ashton batucava com aquela precisão irritantemente sexy de sempre. E Calum estava encostado no microfone, os dedos deslizando pelo baixo com uma naturalidade absurda, como se aquilo fosse a extensão do próprio corpo.
Do outro lado da parede, as vozes da plateia que começavam a chegar na fila pareciam um mar de expectativas. Mas ali, naquele estúdio improvisado nos bastidores, os meninos pareciam completamente alheios ao caos que crescia lá fora.
A música terminou com uma última batida da bateria do Ashton e um acorde final puxado por Luke. Eles riram de algo entre si, meio ofegantes. Só então, os quatro perceberam que não estavam sozinhos.
Os olhos de Calum passaram rápido pelos bastidores e pousaram brevemente nos meus. Foi menos de um segundo. Um reconhecimento silencioso.
Nos conhecemos meses atrás, numa premiação em que nossa produtora nos levou pra circular e “conhecer gente do meio”, como ela mesma dizia. A carreira da banda ainda estava engatinhando naquela época, e encontrar os meninos do 5SOS foi surreal.
Depois disso, esbarramos com eles mais algumas vezes — premiações, festivais, bastidores de evento. Eles sempre foram legais, do tipo que lembravam seu nome, contavam piadas absurdas e te ofereciam batata frita no camarim. Mas o Calum... ele sempre foi um pouco diferente.
A gente acabou se aproximando. Conversávamos mais e até trocávamos mensagens de vez em quando. E teve um after, depois de um festival em San Diego, que as coisas meio que aconteceram. E foi bom, muito. Quer dizer, ele toca baixo, as mãos dele são... enfim.
Só que eu realmente não achei que isso fosse sair daquele contexto. E com certeza não imaginei que um dia abriria os shows dele. Muito menos que veria o Calum Hood todos os dias por meses.
Eles trocaram umas palavras baixas entre si, e antes que a gente decidisse se devia sair dali ou não, os quatro já estavam descendo do palco — meio suados, meio bagunçados.
Luke veio à frente, sorrindo.
— Até que enfim chegaram. Já estávamos apostando se vocês iam se perder no aeroporto.
— Aposto que foi o Michael que falou isso — retruquei, cruzando os braços, encarando o garoto de cabelos vermelhos.
— Óbvio! — respondeu Michael. — Vocês têm zero cara de pontuais.
— Isso é preconceito! A gente só tem um ar desorganizado, mas na prática funcionamos — brincou.
— Mas e aí, gostaram do backstage? — Calum perguntou, após tomar um longo gole de água.
— Ainda estamos nos acostumando com o luxo. Não é todo dia que tem um camarim com espelho que não tem fita crepe segurando — comentou, dando uma risadinha.
— Tem até refrigerante sem estar vencido — completou, dramática.
— Olha o nível de exigência dessas estrelas. — Luke riu. — Daqui a pouco vão querer toalha com bordado dourado…
— Mas falando sério — Mike voltou a falar —, é muito bom ter vocês aqui.
— Mas também é tipo… surreal. Ainda parece que estamos sonhando. Nunca pensei que dividiríamos um palco, sendo sincera — comentei, olhando ao redor.
— Ei, se for um sonho, é coletivo. Porque a gente também ficou animado quando disseram que vocês iam abrir — Ashton falou, sincero.
— Isso e o fato de que agora temos com quem dividir os snacks do camarim. — Michael piscou.
— Desde que não toquem nas minhas balas de uva… — comentou.
— Drama — Luke murmurou.
Rimos todos juntos. Era leve. Era bom.
— Meninas, agora o palco é oficialmente de vocês. — Becca quem falou. Olhei rapidamente para o centro e vi que haviam trocado os instrumentos e microfones enquanto conversávamos.
— Estamos ansiosos para ver vocês tocarem — Ash disse, animado.
— Vocês vão nos assistir também? — perguntou .
— Óbvio — respondeu Michael. — A gente nunca perde a estreia das bandas que abrem pra gente. É tipo… tradição.
— Nos vemos depois então? — Ash perguntou.
— Claro — concordou, e Luke sorriu.
— Bom ensaio, meninas. Até depois.
Eles foram voltando para o backstage, conversando entre si. Eu respirei fundo, caminhando para o centro do palco e ajustando a alça do baixo no ombro.
— Acho que eu vou vomitar — disse, parada ao meu lado.
— Só não vomita nos nossos microfones — respondeu. — São alugados.
Rimos — não porque era engraçado de verdade, mas porque era isso ou surtar de vez. Rir ainda era a melhor defesa contra o nervosismo que queimava no estômago.
O técnico de som nos deu sinal.
As luzes da arena estavam suaves, azuladas, ainda em modo de ensaio. Só o bastante para ver onde pisar. Caminhei até meu lugar, testei o peso do baixo, toquei uma nota grave só para garantir. Tudo certo.
ajustava os botões da guitarra com movimentos rápidos, quase automáticos. deu umas palhetadas secas nas cordas, concentrada. batucava o aro da caixa com aquele foco absoluto de sempre.
Dei o sinal com a cabeça. A bateria marcou o tempo — uma batida seca, marcada, segura. A guitarra entrou abafada, criando a tensão certa. Respirei fundo e fui:
— Turn the dial up, feel the spark…
A voz saiu mais firme do que eu esperava. Talvez por causa da adrenalina. Talvez porque essa música morava na minha garganta fazia semanas.
— You're the rhythm lighting up my dark…
O baixo entrou ali, encorpando o som. Meus dedos deslizaram pelas cordas no tempo certo. e entraram nos vocais de apoio no final do verso, suaves, mas certeiras.
No segundo verso, o som crescia.
— Static's rising when you’re near... Electric tension, crystal clear…
Cada verso deixava meu corpo mais leve. Como se, por um momento, não existisse mais nada — nem os fios no chão, nem o eco da arena, nem os meninos assistindo no fundo...
Aliás, eles estavam ali. Vi de relance quando fui para o centro do palco: Luke com os braços cruzados, Ashton sorrindo, Michael batucando no próprio braço e Calum marcando as batidas com o pé.
— You're my magnetic pulse, my high voltage beat…
O refrão explodiu do jeito certo. Voz no centro, guitarra cortando de leve, a bateria segurando tudo com força.
— Tuning into you, you're all I need…
Senti e nas harmonias — elas sustentavam as notas, que subiam cada vez mais, de forma intensa.
— On your frequency I can't resist…
Dei um passo à frente, soltei o corpo.
— Every note you play feels like a kiss…
O final do refrão se desfez em um acorde mais longo, com o delay preenchendo o espaço vazio. No terceiro verso, andei um pouco mais pelo palco. As luzes mudavam, seguindo o ritmo da música, ficando mais azuis e fortes.
— Strumming heartstrings out of tune... You're the gravity inside my room... Your energy’s a wildfire burn... I’m the compass, you're my north to turn...
levantou a guitarra, bateu nas cordas com força, marcava cada batida como se fosse a última. Minha voz saiu rasgada, emocional.
— Every note you play feels like a kiss...
A música terminou com um acorde longo, que vibrou por baixo dos nossos pés. Silêncio. A gente se olhou, meio sem respirar.
E então — palmas.
Do fundo da arena, os quatro bateram palma. Michael foi o primeiro. Ashton e Calum assobiaram e Luke levantou os polegares, rindo.
— Caramba — Michael disse, alto. — Isso foi muito bom.
— Vocês são ainda melhores ao vivo — Ashton completou, sorrindo com os olhos.
Eu não consegui responder. Só sorri. Grande demais pra caber no rosto.
Depois de horas de ensaio, a gente se separou dos meninos. Eles foram pro camarim e a gente mergulhou no nosso ritual de preparação — um vai e vem de stylist, maquiadores, cabeleireiros, um movimento frenético pré-show.
O camarim estava cheio de movimento. Escovas, sprays e pinceis passavam de mão em mão entre as profissionais que se revezavam com leveza enquanto nos preparavam. Ninguém falava alto, mas o espaço estava longe de ser silencioso — havia sempre alguma coisa acontecendo. Um zíper subindo, um secador ligado, risadas abafadas, o tilintar de bijuterias sendo ajustadas.
Enquanto ajeitavam meu cabelo num penteado mais solto, com ondas naturais, eu mastigava distraidamente metade de um sanduíche. Nada pesado — só o bastante pra enganar o estômago. A gente sabia que o palco ia exigir energia, e ficar de barriga vazia não era uma opção.
As meninas também comiam alguma coisa entre um retoque e outro. equilibrava uma garrafinha de água no colo enquanto passavam um brilho labial nela. Seu cabelo cacheado e dourado caía sobre os ombros feito espuma leve, e os olhos esverdeados piscavam concentrados na tela do celular. se olhava no espelho, enquanto a cabeleireira ajeitava os grampos nos seus fios loiros impecáveis. limpava as mãos com um lencinho antes de prender a fivela do coturno. A pele bronzeada destacava o batom vinho recém-aplicado, e o cabelo num tom marsala vibrava contra o preto da camisa.
Nossa paleta era escura e a maquiagem seguia a mesma linha: delineado, pele bem feita e batom escuro. Era o tipo de visual que parecia nosso, só um pouco mais afiado, como se a gente tivesse elevado o nível. O que de fato havia acontecido.
Eu tinha escolhido uma saia de babados mais estruturada e uma blusa justa. As botas pretas vinham até quase o joelho — e sim, faziam barulho no corredor, exatamente como eu queria. Minhas amigas não ficavam muito pra trás, na verdade todas tínhamos gostos bem parecidos nesse sentido.
Lá fora, o tempo corria mais rápido. Conforme os minutos passavam, começamos a ouvir o som da plateia vazando pelos corredores.
Gritos. Risinhos nervosos. Várias vozes misturadas, algumas cantando trechos de músicas do 5SOS, outras só gritando os nomes deles como se isso fosse o bastante. E, para muitos ali, era mesmo.
Um arrepio subiu pelas minhas costas.
Estavam ali milhares de pessoas, esperando. Gente que comprou ingresso com meses de antecedência. Que decorou letras, que esperou na fila o dia inteiro, que se arrumou como se fosse para encontrar alguém especial — e, de certa forma, era mesmo.
A gente não conseguia ver o público ainda, mas dava para sentir a presença deles. O som dos passos acelerados nos corredores, dos rádios nos bastidores, da equipe chamando atenção para os horários. Tudo ganhava um ritmo próprio.
Estava chegando a hora. E ninguém precisava dizer em voz alta para saber isso.
Os minutos finais antes de entrar no palco pareciam arrastar e acelerar ao mesmo tempo. O som da plateia ficava cada vez mais nítido, uma mistura de vozes, palmas e gritos que ecoavam nos corredores.
As luzes do camarim estavam baixas, só o suficiente pra gente enxergar os últimos detalhes — um último retoque no batom, um suspiro profundo, um olhar rápido no espelho.
Pouco antes de entrarmos no palco, os meninos apareceram para dar boa sorte. Eles sorriram, trocaram abraços apertados com cada uma de nós, elogiaram o nosso visual e ficaram ali por alguns minutos, nos lembrando que estariam lá nos bastidores, assistindo e nos apoiando. Depois, se despediram com um aceno e saíram, deixando o espaço para a gente se concentrar no que vinha.
O coração já pulsava acelerado, a expectativa crescendo. A hora de subir no palco estava chegando — e com ela, toda a emoção de fazer música, de estar diante daquele mar de vozes que começava a se formar lá fora.
— Trinta segundos. Linha do palco. Vamos, Sirens. — Foi Becca quem falou na porta do camarim, nos aguardando.
Respirei fundo e então todas seguimos a produtora até a entrada para o palco.
me olhou pela última vez antes da gente subir na plataforma. Os olhos dela brilhavam. estalava os dedos, girando a palheta entre eles, e girava as baquetas como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Eu sentia meu coração martelando no peito, mas as mãos estavam firmes no baixo. Quando finalmente subimos e as luzes atingiram o palco, as primeiras notas de ecoaram.
O barulho foi imediato. Um grito coletivo. Tinha gente pulando, apontando o celular, e outros simplesmente encarando a gente como se não acreditassem que era real.
Vi bocas cantando ”Magnetic Pulse” com a gente — cada refrão, cada mudança de tom. Algumas meninas na grade até levantaram cartazes com nossos nomes. Eu me forcei a manter o foco, mas, por dentro, uma onda absurda de emoção me atravessou.
“Turn the dial up feel the spark
(Aumenta o volume, sente a faísca)
You're the rhythm lighting up my dark
(Você é o ritmo que ilumina minha escuridão)
Every move you're making's on my wave
(Cada movimento seu tá na minha sintonia)
Caught in your current can't escape
(Presa na sua corrente, não dá pra fugir)
Static's rising when you’re near
(A tensão sobe quando você se aproxima)
Electric tension crystal clear
(Eletricidade pura, tão nítida)
You’re the melody that pulls me in
(Você é a melodia que me atrai)
A frequency beneath my skin
(Uma frequência sob a minha pele)
You're my magnetic pulse my high voltage beat
(Você é meu pulso magnético, meu batimento de alta voltagem)
Tuning into you you're all I need
(Sintonizando em você, é só isso que eu preciso)
On your frequency I can't resist
(Na sua frequência, eu não resisto)
Every note you play feels like a kiss
(Cada nota que você toca parece um beijo)
Ah (ah)”
A multidão respondeu com gritos. Eu olhei para as meninas e elas tinham o mesmo brilho nos olhos: surpresa misturada com aquele reconhecimento silencioso de quem pensou “isso está acontecendo de verdade.”
“Strumming heartstrings out of tune
(Dedilhando minhas emoções fora do tom)>br> You're the gravity inside my room
(Você é a gravidade no meu quarto)
Your energy's a wildfire burn
(Sua energia é um incêndio em expansão)
I’m the compass you’re my north to turn
(Sou a bússola e você é meu norte a seguir)
Waves collide like the ocean's roar
(Ondas colidem como o rugido do mar)
I’m your echo craving more and more
(Sou seu eco querendo sempre mais)
Voltage dancing through the air Tonight
(Voltagem dançando pelo ar essa noite)
Let’s crash together in this neon light
(Vamos colidir nessa luz neon)
You're my magnetic pulse my high voltage beat
(Você é meu pulso magnético, meu batimento de alta voltagem)
Tuning into you you're all I need
(Sintonizando em você, é só isso que eu preciso)
On your frequency I can't resist
(Na sua frequência, eu não resisto)
Every note you play feels like a kiss
(Cada nota que você toca parece um beijo)
Ah (ah)”
Durante as notas suaves de , voltei para a beirada do palco com , o suor ainda escorrendo pela têmpora e o coração batendo forte no ritmo da música. A luz era quente, dourada, quase como um pôr do sol engarrafado, e iluminava os rostos emocionados bem na frente da grade. Algumas mãos se esticaram e, sem pensar duas vezes, me abaixei para alcançar o toque de algumas delas. Eram rápidas, entrelaçadas, apertos breves e genuínos. Olhos brilhando, celulares tremendo, um garoto chorando de emoção, uma menina com o nome da banda pintado no rosto — tudo parecia ainda mais real dali.
se abaixou também, deu um beijo estalado no ar e acenou com as duas mãos, arrancando mais gritos. Eu ri, ainda ofegante, e fiz um coração com as mãos para uma menina de camiseta roxa que segurava uma placa dizendo ", casa comigo!". Meu peito apertou e, por um instante, senti que podia ficar ali para sempre. Mas as luzes mudaram, um novo acorde ecoou, e voltamos para nossos lugares. Era a parte final.
“You're my magnetic pulse my high voltage beat
(Você é meu pulso magnético, meu batimento de alta voltagem)
Tuning into you you're all I need
(Sintonizando em você, é só isso que eu preciso)
On your frequency I can't resist
(Na sua frequência, eu não resisto)
Every note you play feels like a kiss
(Cada nota que você toca parece um beijo)
Ah (ah)”
Durante as músicas, a energia tinha sido elétrica. A plateia entrou no ritmo desde o primeiro acorde — dava pra sentir o chão vibrando de leve sob nossos pés. Entre uma música e outra, trocávamos sorrisos rápidos, pequenos acenos, como se disséssemos "tá funcionando". A plateia sabia as letras, pulava nos refrões, gritava nossos nomes. E isso só fazia tudo fluir ainda mais.
No fim da oitava música, eu respirei fundo, segurei o baixo firme e me aproximei do microfone com um meio sorriso. Minha voz saiu segura:
— Chegamos na última da noite. Obrigada por ouvirem a gente, vocês foram ótimos essa noite! Essa se chama Wild Hearts com.
A luz ficou mais baixa. Um foco iluminou meu rosto. Eu fechei os olhos e deixei o instrumental me guiar.
“Drive fast down the midnight street
(Dirija rápido pela rua à meia-noite)
Sneaking out past city beats
(Escapando escondida pelos ritmos da cidade)
Laughing loud, no plans in sight
(Rindo alto, sem planos à vista)
Living fast, we own the night
(Vivendo rápido, a noite é nossa)
We don’t care what they all say
(Não ligamos para o que todos dizem)
We’re just kids who wanna play
(Somos só jovens querendo se divertir)
Chasing dreams and chasing thrills
(Correndo atrás de sonhos e emoções)
Breaking rules, we’ve got the skills
(Quebrando regras, temos o talento)
Raise your glass, here’s to the spark
(Erga seu copo, um brinde à faísca)
Wild hearts beating in the dark
(Corações selvagens batendo no escuro)
Under lights, we come alive
(Sob as luzes, ganhamos vida)
Own the streets, tonight we ride
(Dominamos as ruas, hoje à noite é nossa)”
se aproximou de mim e tocou com um sorriso discreto no rosto. soltou a voz no backing com tanta clareza que eu me virei um pouco só para vê-la. A presença dela ali era a nossa cola. aumentou a intensidade da batida, conduzindo a gente com firmeza.
“Late night talks and secret stares
(Conversas tarde da noite e olhares secretos)
Cigarettes and messy hair
(Cigarros e cabelos bagunçados)
We’re reckless, yeah, but we don’t mind
(Somos imprudentes, sim, mas não nos importamos)
This is youth, one of a kind
(Isto é juventude, única e incomparável)
We don’t care what they all say
Não ligamos para o que todos dizem)
We’re just kids who wanna play
Somos só jovens querendo se divertir)
Chasing dreams and chasing thrills
Correndo atrás de sonhos e emoções)
Breaking rules, we’ve got the skills
Quebrando regras, temos o talento)
Raise your glass, here’s to the sparks
(Erga seu copo, um brinde às faíscas)
Wild hearts beating in the dark
(Corações selvagens batendo no escuro)
Under lights, we come alive
(Sob as luzes, ganhamos vida)
Own the streets, tonight we ride
(Dominamos as ruas, hoje à noite é nossa)"
Eu caminhei até o centro do palco. O baixo preso no ombro, o microfone na mão. Era como se a música passasse por mim. As luzes seguiram meus passos e, por um instante, eu deixei o público guiar aquela parte com a gente.
No slowing down, no turning back
(Sem diminuir, sem olhar pra trás)
On this wild and winding track
(Nessa estrada selvagem e cheia de curvas)
We’re alive, so feel the beat
(Estamos vivos, então sinta a batida)
Every moment, wild hearts meet
(A cada momento, corações selvagens se encontram)
Iniciei o solo e seguiu, alternando com , que entrou no momento certo. As duas tocando, costas com costas, enquanto o público gritava seus nomes. Então as batidas de entraram, ligando tudo em uma só coisa.
Eu fechei os olhos por um segundo, só para guardar aquele momento.
Caminhei até a beirada do palco. Me agachei ali mesmo, perto das luzes, olhando para a multidão. O barulho foi diminuindo aos poucos, quase como se o público soubesse o que vinha a seguir — como se estivessem prendendo a respiração comigo.
I lit a match in a room full of smoke
(Acendi um fósforo em uma sala cheia de fumaça)
Chasing the echoes of words you once spoke
(Caçando os ecos das palavras que você disse uma vez)
Your shadow lingers like a ghost in my head
(Seu fantasma permanece como um eco na minha cabeça)
But I’m alive and I’m burning instead
(Mas eu tô viva e queimando no lugar disso)
Electric heartbeat surging through my veins
(Batimento elétrico pulsando nas minhas veias)
Breaking the silence, tearing off the chains
(Quebrando o silêncio, rompendo as correntes)
Feel the fire in every chord I play
(Sinto o fogo em cada acorde que eu toco)
I’m alive, I’m alive, I won’t fade Away
(Eu tô viva, eu tô viva, eu não vou desaparecer)
Cracked mirrors show the lines on my face
(Espelhos rachados mostram as linhas no meu rosto)
Each scar a story I refuse to erase
(Cada cicatriz uma história que eu me recuso a apagar)
The night is loud with the sound of my scream
(A noite é alta com o som do meu grito)
I’m not the victim, I’m living the dream
(Eu não sou a vítima, eu tô vivendo o sonho)
Electric heartbeat surging through my veins
(Batimento elétrico pulsando nas minhas veias)
Breaking the silence, tearing off the chains
(Quebrando o silêncio, rompendo as correntes)
Feel the fire in every chord I play
(Sinto o fogo em cada acorde que eu toco)
I’m alive, I’m alive, I won’t fade Away
(Eu tô viva, eu tô viva, eu não vou desaparecer)
O público gritava. Não sei se era pela batida, pela letra, ou só pelo jeito como estávamos vivendo aquilo ali com eles. Mas era real. Tudo real.
Shattered glass like the stars in the sky
(Vidro quebrado como as estrelas no céu)
Every piece of me learning to fly
(Cada pedaço de mim aprendendo a voar)
I won’t look back as the world starts to spin
(Não vou olhar pra trás enquanto o mundo começa a girar)
This is my moment, this is where I begin
(Este é meu momento, é aqui que eu começo)
Electric heartbeat surging through my veins
(Batimento elétrico pulsando nas minhas veias)
Breaking the silence, tearing off the chains
(Quebrando o silêncio, rompendo as correntes)
Feel the fire in every chord I play
(Sinto o fogo em cada acorde que eu toco)
I’m alive, I’m alive, I won’t fade Away
(Eu tô viva, eu tô viva, eu não vou desaparecer)
Silêncio. E, após dois segundos, então, a multidão explodiu em aplausos e gritos.
— Somos as The Sirens. Obrigada! — falei no microfone uma última vez, enquanto as meninas acenavam para o público e as cortinas se fechavam.
Eu virei de costas, respirei fundo. A luz bateu no meu rosto quando encostou o ombro no meu e murmurou, com a voz baixa, só pra gente:
— Isso foi insano.
Eu só consegui sorrir. Não precisava de resposta. A gente sabia.
(POV’s Calum Hood)
O som dos gritos ainda ecoava no backstage quando eu encostei na parede, tentando disfarçar o sorriso. As luzes do palco ainda piscavam lá fora, mas as meninas tinham acabado de sair, suadas, sorrindo e com aquela expressão de quem sabia que tinha mandado bem. E mandaram. Muito.
passou por mim com o baixo pendurado no ombro, os cabelos longos colados na testa, ainda úmidos de suor. As tatuagens nos braços se destacavam sob a luz do backstage, quase como se brilhassem com a adrenalina do show. Ela ria de alguma coisa que a falou e, por um segundo, antes de entrar no camarim, virou o rosto. Nossos olhos se encontraram. Rápido. Um aceno de cabeça, um sorrisinho no canto da boca.
— Já começou a imaginar o nome dos filhos? — Michael apareceu do nada, com a voz carregada de sarcasmo e um copo de energético na mão.
— Vai se ferrar. — Revirei os olhos, tentando ignorar o sorriso que insistia em formar em meu rosto.
Luke apareceu logo atrás, encostando a guitarra no suporte.
— Eu achei fofo. Ele ficou parado igual uma estátua enquanto elas tocavam. Só faltou a plaquinha com “, eu te amo”.
— Vocês dois são insuportáveis — retruquei.
Ashton se aproximou batucando as coxas, ainda aquecendo os dedos, e comentou:
— Mas falando sério... elas foram boas. Tipo, de verdade. Não só boas pra banda nova.
Assenti, sem conseguir esconder.
— Eu já tinha ouvido umas faixas gravadas, mas ao vivo? É outra coisa. A segura o palco como se tivesse nascido ali.
Eles me encararam com um sorrisinho, e eu fiz questão de completar:
— Elas todas. Mandaram bem como grupo.
— Claro — Michael respondeu, claramente se divertindo.
Depois que soubemos que elas iam abrir os shows da turnê, foi uma reação meio coletiva ali no grupo. Primeiro, todo mundo ficou animado — de verdade. As meninas eram divertidas. A gente já tinha cruzado com elas antes, em premiação, festival… e acabou pegando intimidade rápido. Tipo, em uma semana, já estavam fazendo piada interna com o Ashton e dividindo batata frita com o Mike.
Segundo… bom, aí começou a parte em que a minha vida virou inferno.
Porque meus queridos amigos descobriram — ou lembraram com gosto — que eu e a já tínhamos um certo… histórico.
Um after, algumas conversas, uma noite muito boa que ficou ali, meio suspensa. Eu só não esperava que, alguns meses depois, estaria dividindo o backstage com ela. Todos os dias. Por meses.
E agora, com ela no palco, rindo, suando, com o baixo pendurado no ombro e aquele olhar que parecia ver tudo de um jeito meio afiado… era impossível ignorar. Mesmo com os idiotas dos meus amigos me provocando o tempo todo.
Mas antes que pudesse continuar pensando nisso, os técnicos sinalizaram que já era a nossa vez, e eu respirei fundo, pegando meu baixo e prendendo a alça no ombro.
— Certo. Vamos lá!
O som da plateia aumentou quando anunciaram a gente. Subimos rápido, luzes seguindo nossos passos. A primeira música foi “18”, para abrir com força, e funcionou. A galera pulava, cantava, gritava nossos nomes.
O resto do show foi uma explosão. A gente passou por “Heartache on the Big Screen”, depois “Amnesia” — que sempre deixava a plateia meio nostálgica — e, quando entramos em “Beside You”, o pessoal cantava mais alto que a gente. Era impossível não se perder naquela energia.
Luke soltava os gritos nos refrões, Ashton tocava como se tivesse mais dois braços escondidos, e Michael fazia piada até entre uma música e outra. Eu só tentava manter a concentração, mas em algum momento, entre “Long Way Home” e “Disconnected”, meus olhos voltaram para o lado do palco.
Elas ainda estavam lá. , encostada com o baixo pendurado, conversava algo com a , sorrindo. Às vezes, ela olhava para a gente. Às vezes, só balançava a cabeça no ritmo da música. Mas estavam todas ali.
End Up Here chegou rápido. Uma das minhas favoritas. Quando ela acabou, Luke deu um passo à frente, ainda recuperando o fôlego. O público estava em êxtase.
— Vocês ainda aguentam mais uma?
A resposta foi um grito uníssono. Ashton levantou as baquetas, como se aquilo fosse a confirmação de que sim, eles aguentavam.
— Então... — Michael começou, com aquele tom de suspense ensaiado. — Temos uma pequena surpresa pra vocês.
Enquanto ele falava, a equipe no fundo do palco corria. Movimentação rápida. Instalaram mais uma bateria ao lado da do Ashton, os cabos foram conectados em segundos, e Luke olhou pra lateral do palco com um sorriso.
— Sirens, vem com a gente.
O grito da plateia quase estourou meus tímpanos.
As meninas entraram no palco correndo, rindo, pulando, como se aquilo fosse o mais normal do mundo. segurava uma guitarra e andava como se já estivesse ali há anos. veio logo atrás com a sua também, e acenava para o público. se posicionou lá em cima com o Ashton, já girando as baquetas entre os dedos e, assim que se aproximou, deu um high five com ele. E estava com o baixo preso ao corpo e o cabelo solto, bagunçado pelo suor do show anterior. Ela veio direto para o meu lado, correndo.
Ela sorriu, ainda ofegante, e ajustou o instrumento. As luzes coloridas refletiam nas correntes da calça dela. O público não parava de gritar.
— Tudo certo? — ela perguntou, quase no meu ouvido, por causa do barulho.
— Melhor agora — respondi, sem conseguir me controlar em provocá-la, dando uma piscadinha. Vi seus olhos azuis rolarem, falhando em esconder o sorriso que aparecia em seus lábios.
E então a música What I Like About You começou com força.
A multidão gritou junto, pulando. A bateria em dobro deixava tudo mais potente, e os dois baixos ressoavam no peito como trovões. Eu troquei olhares com Ashton lá atrás, e ele sorria feito uma criança em brinquedo novo.
Luke assumiu os vocais:
“Hey! Hey!
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
You hold me tight
(Você me abraça apertado)
And tell me I'm the only one
(E diz que eu sou o único)
Wanna come over tonight?
(Quer vir aqui hoje à noite?)
Yeah!
Keep on whispering in my ear
(Continue sussurrando no meu ouvido)
Tell me all the things that I wanna hear
(Me diga todas as coisas que eu quero ouvir)
'Cause it's true, that's what I like about you
(Porque é verdade, é isso que eu gosto em você)”
O público acompanhava palavra por palavra. pulava ao lado do Michael, e ele fazia umas caras dramáticas só para provocar mais gritos. estava concentrada nos acordes, mas com aquele sorriso dela de quem estava no controle. E então veio o segundo verso.
se aproximou do meu microfone, com o baixo ainda pendurado, e sem hesitar, cantou me olhando diretamente, apontando um dedo em meu peito, como se aquilo fosse só uma brincadeira. Uma provocação sutil:
“Yeah what I like about you
(Sim, o que eu gosto em você)
You really know how to dance
(Você realmente sabe dançar)
When you go up, down, jump around
(Quando você sobe, desce, pula por aí)
Think about true romance, yeah
(Penso em um romance de verdade, sim)
Keep on whispering in my ear
(Continue sussurrando no meu ouvido)
Tell me all the things that I wanna hear
(Me diga todas as coisas que eu quero ouvir)
'Cause it's true, that's what I like about you
(Porque é verdade, é isso que eu gosto em você)”
Me arriscava a dizer que ela sabia exatamente o que estava fazendo.
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
Hey!”
Continuei tocando sem quebrar o ritmo, mas a voz dela ficou na minha cabeça, como se ela ainda estivesse ali, bem perto, mesmo quando se afastou do microfone.
O refrão chegou e todos cantaram juntos, a multidão vibrava com as duas bandas misturadas no palco, criando algo caótico, barulhento e perfeito.
Ashton assumiu o vocal principal, e o público foi ao delírio só de ouvir a voz dele ecoar pelos alto-falantes:
— Escutem isso, Los Angeles!
“What I like about you
(O que eu gosto em você)
You hold me real tight
(Você me abraça bem forte)”
Ele cantava sorrindo, batendo nas laterais da bateria com energia dobrada. A plateia gritou ainda mais alto, como se cada palavra da música fosse um comando para levantar os braços e cantar junto.
“Never wanna let you go
(Nunca quero te deixar ir)
Know you make me feel alright
(Sei que você me faz sentir tão bem)”
Então e Ash fizeram um solo rápido de batidas, se acompanhando com uma sintonia quase coreografada.
“Keep on whispering in my ear
(Continue sussurrando no meu ouvido)
Tell me all the things that I wanna hear
(Me diga todas as coisas que eu quero ouvir)
'Cause it's true, that's what I like about you
(Porque é verdade, é isso que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
Assim que o último acorde de "What I Like About You" ecoou pelos alto-falantes, as luzes pulsaram com força, acompanhando os gritos da plateia. As meninas riram no palco, ofegantes.
O público respondeu com mais gritos e aplausos enquanto as meninas se juntavam no centro do palco e faziam uma reverência exagerada, rindo.
Eu e os meninos nos aproximamos, formando uma fila. Assim que elas se viraram para sair, passaram uma por uma por nós, correndo, dando toques rápidos. E então, elas desapareceram atrás da cortina novamente.
Ajeitei o baixo no ombro, respirei fundo. A adrenalina ainda estava em alta. Olhei para os caras e Mike deu aquele sorrisinho que ele sempre dá antes de tocar “Good Girls”.
— Ok… — ele disse no microfone, meio ofegante. — A gente ainda não terminou com vocês.
A resposta do público foi absurda. Gritos, pulos, gente se abraçando na grade. Ash bateu as baquetas três vezes e a gente começou a tocar.
Mesmo depois de toda a energia da última música, o público continuava animado, como se o show tivesse acabado de começar. Cada refrão era cantado a plenos pulmões.
E então chegou a última. “She Looks So Perfect”. Assim que Luke tocou os primeiros acordes, a plateia enlouqueceu. A gente entregou tudo até o fim, sem economizar um segundo.
— Obrigado por nos receberem, Los Angeles! Vocês foram ótimos!
Então as luzes se apagaram, a cortina se fechou devagar e a gente saiu do palco ainda ofegantes, com o som dos gritos ecoando atrás da gente.