Capítulo 1
As nove musas
O sol tocava as costas nuas de , que encarava o seu reflexo nas águas do rio Permesso, penteando algumas mechas de seu longo cabelo para trás. O correr da água era sua inspiração preferida, e a fazia cantarolar versos que desconhecia, mas que logo todos os humanos viriam a conhecer. O vento que acariciava seu rosto se encarregava de levar aquelas notas para o reino humano, onde grandes compositores seriam inspirados a escrever poesias líricas.
Poderia passar horas de seus dias ali, banhando-se nas águas límpidas e sentindo a melodia fluir de sua essência para sua boca, mas o universo tinha outros planos.
— .
Ela se virou. Atrás de si, estava sua irmã, Tália. Ela usava suas vestes douradas e segurava sua famosa máscara em mãos. sabia o que isso significava.
— Ele já retornou?
— Logo estará por aqui. Calíope já solicitou nossa presença, e sabe que paciência não é a maior de suas virtudes.
— Certo — disse, sorrindo de leve, antes de soltar um suspiro e se levantar da grama. Não demorou muito para colocar suas vestes e pegar sua flauta. Colocou algumas flores entre seus cabelos porque achava que assim poderia parecer mais encantadora.
Calíope discordaria, mas ela sempre discordava.
As nove encontraram-se na clareira de Delfos, perto do templo do deus. Calíope tomou a frente, olhando para as outras irmãs com uma mistura de carinho e superioridade. não se importava. Ela só se importava com um único momento.
A luz do sol brilhou mais forte, de uma forma que cegaria qualquer mortal. Mas elas não eram mortais. O raio dourado foi tomando a forma de um lindo homem loiro, de corpo bem esculpido, vestindo apenas uma túnica e louros na cabeça, segurando sua lira. E o sorriso em seu rosto lembrava o próprio sol enquanto olhava para cada uma das nove.
— Como é bom ver minhas musas.
Todas se inclinaram em reverência para o deus Apolo.
— Meu senhor, estamos muito contentes com sua vinda — disseram, em uníssono.
E estavam mesmo. Apolo era tudo para elas. A forma que ele lhes ensinara a arte e lhes dera um propósito de vida mudou tudo para cada uma delas. E, por mais que pudessem fazer a arte sem ele, perto dele tudo ficava divino. O ar mudava, parecendo carregado de magia, conforme cada nota da lira de Apolo preenchia os arredores.
Aqueles encontros definiam a parte mais especial da vida de : compor para o deus. Ele fazia com que ela se sentisse especial, como se apenas nesse momento ela realmente ganhasse vida.
As irmãs começaram a cantar em uníssono. Todas eram versadas nas artes, mas a música era a arte de . Era o seu conforto, seu amor. Era a única maneira de viver que conhecia.
Sua voz se ergueu, inspirada, e soltou versos que não entendia, mas sentia. E sentia muito, a ponto de o sol brilhar mais forte, o vento perfumar e os pássaros entoarem junto com sua lírica.
Terminou sua poesia e colocou a mão no peito, sentindo-o vibrar. Ergueu os olhos, sorrindo, e se surpreendeu ao encontrar os olhos quentes do deus a encarando. Ele também tinha reparado em seus versos.
E, do jeito que sorriu, parecia ter gostado. Aquilo fez algo dentro de explodir.
As musas acenaram de forma sincronizada quando o sol começou a se pôr, a deixa da partida de Apolo, que sumiu no horizonte junto com o astro. sentiu o último raio acariciar seu braço de forma muito íntima, e não pôde deixar de sorrir.
Sentiu um beliscão no corpo, rompendo a sensação.
— Ai!
— Tola! — Calíope esbravejou. — Sabe que não é nosso dever nos destacar. Somos uma só inspiração, uma só voz, uma só melodia.
— Mas somos nove musas… — replicou, baixinho. Infelizmente, a irmã ouviu.
— Nunca mais faça isso. Não devemos chamar atenção dos deuses.
— Eu sei, eu não pretendia! Eu só me inspirei. Ele… me inspira.
Calíope cerrou os olhos. As outras sete irmãs ficaram em silêncio, com caras inexpressivas, exceto Érato, que sorria de uma forma levemente maliciosa. Foi Tália quem se aproximou da irmã, estendendo uma flor.
— Vamos? As estrelas já irão aparecer, e Urânia precisará estudar.
As duas caminharam, embora a musa da música ainda sentisse o olhar de Calíope queimar em suas costas.
Chegaram, então, à árvore de , decorada de flores brancas, o chão tomado da relva mais macia da região. Tália ainda segurava sua mão, com o sorriso de sempre no rosto. Não à toa era a musa da comédia.
— Boa noite, . Não se preocupe com Calíope, sua poesia hoje estava linda.
— Obrigada — ela respondeu, suspirando. — Durma com os deuses, Tália.
— Você também.
A irmã se afastou com as sombras, seguida de duas corujas que voaram noite adentro. retirou seus trajes e se deitou na base da árvore, sentindo a grama encostar por toda a base de sua coluna. Encarou o céu e percebeu que Urânia usaria muito bem a inspiração do deus Apolo. As constelações brilhavam, acenando do alto para ela. Ela acenou de volta.
Mas uma estrela continuava se mexendo pelos céus, cada vez mais próxima. Não era como as outras, era mais brilhante, era quente e… familiar.
O brilho dourado se intensificou, começando a se moldar no corpo mais lindo que já havia visto, um que ela conhecia de cor. Ela nem podia acreditar que ele estava ali, na sua frente.
— Meu senhor. — Ela se levantou e fez uma reverência.
— Olá, minha .
O coração dela acelerou com o sorriso que ele lhe abriu. Ela nunca o havia visto à noite e muito menos sozinha.
— O que faz aqui, meu senhor?
— Você estava maravilhosa hoje, sabia? Sua arte inspirou três pólis diferentes.
Ela sentiu as bochechas arderem, embora fosse de satisfação. Ela vivia pela sua arte, e ele era o senhor dela. Agradar Apolo era receber a maior satisfação possível.
— Fico feliz que a arte que nos ensinou tenha se espalhado.
O olhar dele era caloroso em cima dela, e nunca havia se sentido tão eufórica.
Apolo estendeu sua lira para a musa.
— Você quer tocar?
Ela o encarou, maravilhada.
— Senhor…!
— Apolo, . Pode me chamar de Apolo. — Ele abriu um sorriso brincalhão. — Então, gostaria?
Ela assentiu rapidamente, arrancando dele uma gargalhada tão linda quanto os hinos dos templos. Seu dia não poderia estar melhor.
Porém, assim que segurou a lira, pareceu errado não lhe oferecer nada em troca. Ela deu a volta na árvore e buscou sua flauta, estendendo-a para Apolo.
— Me acompanha? — perguntou, timidamente.
— Será um prazer.
Ele levou os instrumentos para os lábios e soprou uma perfeita nota, harmonizando com as cigarras da noite, o olhar fixo no dela. Ela segurou a lira e dedilhou, acompanhando o ritmo da correnteza do rio.
E assim ficaram por horas e horas, e sentiu uma felicidade e conexão que nunca havia sentido. Não havia sono que poderia impedi-la. Sentia que poderia passar toda a sua eternidade assim, desde que estivesse ao lado dele.
Mas tudo precisava encontrar seu fim, então, horas depois, Apolo se levantou, ajudando-a a se erguer junto com ele.
— Preciso partir. O sol irá nascer.
Ela estava corada do esforço de acompanhá-lo na música, e não pôde deixar de sentir uma ponta de tristeza com a partida dele. Mas Apolo era um deus, e um deus sempre tinha muito o que fazer.
— Obrigada pela noite, senhor Apolo.
— Eu quem agradeço. — Ele abriu um sorriso largo, e ela sentiu todo o corpo esquentar. — Até hoje.
Ele se virou, mas ela caminhou alguns passos atrás dele, impressionada, o corpo agitado.
— Irá nos visitar hoje em Delfos, senhor?
Ele se virou para trás, a aura dourada que irradiava do deus iluminando os arredores. Então, Apolo sorriu, olhando-a com intensidade.
— Não. Irei visitar você.
Então, ele foi embora. E ficou ali, as mãos na frente da boca, o entusiasmo transbordando de seu corpo. E assistiu o nascer do sol mais lindo de toda sua existência imortal.
Poderia passar horas de seus dias ali, banhando-se nas águas límpidas e sentindo a melodia fluir de sua essência para sua boca, mas o universo tinha outros planos.
— .
Ela se virou. Atrás de si, estava sua irmã, Tália. Ela usava suas vestes douradas e segurava sua famosa máscara em mãos. sabia o que isso significava.
— Ele já retornou?
— Logo estará por aqui. Calíope já solicitou nossa presença, e sabe que paciência não é a maior de suas virtudes.
— Certo — disse, sorrindo de leve, antes de soltar um suspiro e se levantar da grama. Não demorou muito para colocar suas vestes e pegar sua flauta. Colocou algumas flores entre seus cabelos porque achava que assim poderia parecer mais encantadora.
Calíope discordaria, mas ela sempre discordava.
As nove encontraram-se na clareira de Delfos, perto do templo do deus. Calíope tomou a frente, olhando para as outras irmãs com uma mistura de carinho e superioridade. não se importava. Ela só se importava com um único momento.
A luz do sol brilhou mais forte, de uma forma que cegaria qualquer mortal. Mas elas não eram mortais. O raio dourado foi tomando a forma de um lindo homem loiro, de corpo bem esculpido, vestindo apenas uma túnica e louros na cabeça, segurando sua lira. E o sorriso em seu rosto lembrava o próprio sol enquanto olhava para cada uma das nove.
— Como é bom ver minhas musas.
Todas se inclinaram em reverência para o deus Apolo.
— Meu senhor, estamos muito contentes com sua vinda — disseram, em uníssono.
E estavam mesmo. Apolo era tudo para elas. A forma que ele lhes ensinara a arte e lhes dera um propósito de vida mudou tudo para cada uma delas. E, por mais que pudessem fazer a arte sem ele, perto dele tudo ficava divino. O ar mudava, parecendo carregado de magia, conforme cada nota da lira de Apolo preenchia os arredores.
Aqueles encontros definiam a parte mais especial da vida de : compor para o deus. Ele fazia com que ela se sentisse especial, como se apenas nesse momento ela realmente ganhasse vida.
As irmãs começaram a cantar em uníssono. Todas eram versadas nas artes, mas a música era a arte de . Era o seu conforto, seu amor. Era a única maneira de viver que conhecia.
Sua voz se ergueu, inspirada, e soltou versos que não entendia, mas sentia. E sentia muito, a ponto de o sol brilhar mais forte, o vento perfumar e os pássaros entoarem junto com sua lírica.
Terminou sua poesia e colocou a mão no peito, sentindo-o vibrar. Ergueu os olhos, sorrindo, e se surpreendeu ao encontrar os olhos quentes do deus a encarando. Ele também tinha reparado em seus versos.
E, do jeito que sorriu, parecia ter gostado. Aquilo fez algo dentro de explodir.
As musas acenaram de forma sincronizada quando o sol começou a se pôr, a deixa da partida de Apolo, que sumiu no horizonte junto com o astro. sentiu o último raio acariciar seu braço de forma muito íntima, e não pôde deixar de sorrir.
Sentiu um beliscão no corpo, rompendo a sensação.
— Ai!
— Tola! — Calíope esbravejou. — Sabe que não é nosso dever nos destacar. Somos uma só inspiração, uma só voz, uma só melodia.
— Mas somos nove musas… — replicou, baixinho. Infelizmente, a irmã ouviu.
— Nunca mais faça isso. Não devemos chamar atenção dos deuses.
— Eu sei, eu não pretendia! Eu só me inspirei. Ele… me inspira.
Calíope cerrou os olhos. As outras sete irmãs ficaram em silêncio, com caras inexpressivas, exceto Érato, que sorria de uma forma levemente maliciosa. Foi Tália quem se aproximou da irmã, estendendo uma flor.
— Vamos? As estrelas já irão aparecer, e Urânia precisará estudar.
As duas caminharam, embora a musa da música ainda sentisse o olhar de Calíope queimar em suas costas.
Chegaram, então, à árvore de , decorada de flores brancas, o chão tomado da relva mais macia da região. Tália ainda segurava sua mão, com o sorriso de sempre no rosto. Não à toa era a musa da comédia.
— Boa noite, . Não se preocupe com Calíope, sua poesia hoje estava linda.
— Obrigada — ela respondeu, suspirando. — Durma com os deuses, Tália.
— Você também.
A irmã se afastou com as sombras, seguida de duas corujas que voaram noite adentro. retirou seus trajes e se deitou na base da árvore, sentindo a grama encostar por toda a base de sua coluna. Encarou o céu e percebeu que Urânia usaria muito bem a inspiração do deus Apolo. As constelações brilhavam, acenando do alto para ela. Ela acenou de volta.
Mas uma estrela continuava se mexendo pelos céus, cada vez mais próxima. Não era como as outras, era mais brilhante, era quente e… familiar.
O brilho dourado se intensificou, começando a se moldar no corpo mais lindo que já havia visto, um que ela conhecia de cor. Ela nem podia acreditar que ele estava ali, na sua frente.
— Meu senhor. — Ela se levantou e fez uma reverência.
— Olá, minha .
O coração dela acelerou com o sorriso que ele lhe abriu. Ela nunca o havia visto à noite e muito menos sozinha.
— O que faz aqui, meu senhor?
— Você estava maravilhosa hoje, sabia? Sua arte inspirou três pólis diferentes.
Ela sentiu as bochechas arderem, embora fosse de satisfação. Ela vivia pela sua arte, e ele era o senhor dela. Agradar Apolo era receber a maior satisfação possível.
— Fico feliz que a arte que nos ensinou tenha se espalhado.
O olhar dele era caloroso em cima dela, e nunca havia se sentido tão eufórica.
Apolo estendeu sua lira para a musa.
— Você quer tocar?
Ela o encarou, maravilhada.
— Senhor…!
— Apolo, . Pode me chamar de Apolo. — Ele abriu um sorriso brincalhão. — Então, gostaria?
Ela assentiu rapidamente, arrancando dele uma gargalhada tão linda quanto os hinos dos templos. Seu dia não poderia estar melhor.
Porém, assim que segurou a lira, pareceu errado não lhe oferecer nada em troca. Ela deu a volta na árvore e buscou sua flauta, estendendo-a para Apolo.
— Me acompanha? — perguntou, timidamente.
— Será um prazer.
Ele levou os instrumentos para os lábios e soprou uma perfeita nota, harmonizando com as cigarras da noite, o olhar fixo no dela. Ela segurou a lira e dedilhou, acompanhando o ritmo da correnteza do rio.
E assim ficaram por horas e horas, e sentiu uma felicidade e conexão que nunca havia sentido. Não havia sono que poderia impedi-la. Sentia que poderia passar toda a sua eternidade assim, desde que estivesse ao lado dele.
Mas tudo precisava encontrar seu fim, então, horas depois, Apolo se levantou, ajudando-a a se erguer junto com ele.
— Preciso partir. O sol irá nascer.
Ela estava corada do esforço de acompanhá-lo na música, e não pôde deixar de sentir uma ponta de tristeza com a partida dele. Mas Apolo era um deus, e um deus sempre tinha muito o que fazer.
— Obrigada pela noite, senhor Apolo.
— Eu quem agradeço. — Ele abriu um sorriso largo, e ela sentiu todo o corpo esquentar. — Até hoje.
Ele se virou, mas ela caminhou alguns passos atrás dele, impressionada, o corpo agitado.
— Irá nos visitar hoje em Delfos, senhor?
Ele se virou para trás, a aura dourada que irradiava do deus iluminando os arredores. Então, Apolo sorriu, olhando-a com intensidade.
— Não. Irei visitar você.
Então, ele foi embora. E ficou ali, as mãos na frente da boca, o entusiasmo transbordando de seu corpo. E assistiu o nascer do sol mais lindo de toda sua existência imortal.