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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 31/10/2025

O silêncio da noite foi quebrado por um berro aflito.

Liam Whitaker ergueu a cabeça da poltrona velha, os olhos cansados se estreitando para o relógio da parede. Quase duas da manhã. O som veio de novo – um lamento longo, abafado e desesperado vindo do pasto atrás do celeiro. Ele franziu o cenho e se levantou devagar, alcançando a lanterna que sempre deixava na estante.
— Se for aquele maldito coiote de novo… — murmurou, vestindo a jaqueta gasta.
Lá fora, o frio cortava como faca. A luz da lanterna tremia com o vento que soprava entre as árvores retorcidas. Ele andou pelo caminho de terra batida até o cercado. O farol da fazenda piscava longe, falhando como se a própria noite estivesse tentando engolir a claridade. Quando o facho da lanterna alcançou os bodes caídos, Liam parou no mesmo instante.
— Mas que…
O estômago virou. Três dos animais estavam deitados na lama, imóveis, os corpos marcados por cortes profundos e secos. Não havia sangue. Os olhos de um deles estavam completamente pretos, como se queimados por dentro. Liam abriu a boca em um sussurro rouco e tateou pelo celular no bolso, começando a discar. Mas, antes mesmo que a ligação completasse, um estalo soou à sua direita, como garras arranhando madeira. Ele se virou de repente… nada.
— Tem alguém aí?
Outro som, agora mais próximo. A respiração de Liam ficou curta. Um cheiro forte, de carne podre e terra molhada, invadiu suas narinas e a lanterna apagou de repente.
— Droga…
O barulho de algo correndo veio logo atrás. Antes que pudesse reagir, uma força brutal o jogou no chão. Ele gritou e o som foi cortado no meio, engolido pela escuridão.

O Impala avançava pela estrada de terra, levantando poeira sob o céu nublado.
— Ainda acha que é um chupacabra? — Sam perguntou, folheando o jornal local.
Dean manteve os olhos na estrada, o maxilar tenso.
— Marca nos animais, olhos queimados, nenhum sangue… parece chupacabra. Ou alguma versão mais perigosa dele.
— O fazendeiro sobreviveu. Isso é estranho. A maioria dessas criaturas não deixa testemunha.j
Dean deu um leve sorriso.
— Talvez ele tenha gosto ruim.
Minutos depois, eles estacionaram diante da fazenda Whitaker. O local estava cercado por uma fita policial já amassada. Sam passou sob ela sem cerimônia e Dean o seguiu, caminhando até os animais abatidos. As carcaças já estavam cobertas, mas o cheiro no ar era forte. Algo entre morte e metal queimado.
— Bom… isso definitivamente não é natural. — Dean murmurou, erguendo a lona de um dos corpos.
Mas, antes que pudessem continuar a análise, uma voz surgiu atrás deles, cortante como navalha.
— Sabiam que invadir uma cena de investigação é crime? Ou só gostam de brincar de CSI no tempo livre?
Os dois se viraram. Dean foi o primeiro a encará-la. Ela usava um macacão, luvas, prancheta em uma mão e caneta na outra. O cabelo preso num rabo de cavalo não tirava a força do olhar – firme, irritado, julgando cada centímetro deles. O Winchester mais velho soltou o meio sorriso que costumava desarmar qualquer mulher, mas não funcionou com ela.
— E você? Veterinária infiltrada ou dona da fazenda?
, veterinária. Eu fiquei responsável por examinar os corpos. Vocês são…?
— Agentes do FBI. — Sam respondeu, já estendendo uma carteira falsa, e Dean fez o mesmo. — Thomas Reaves e ele é Colin Jansen. Estamos investigando o caso.
olhou de relance para os documentos. Não parecia impressionada, mas seu semblante era confuso.
— E por que o FBI está tão interessado em possíveis ataques de coiotes em rebanhos, policial Reaves?
Sam sustentou o olhar, mantendo a expressão neutra.
— Esses não são os primeiros. Casos semelhantes têm ocorrido por todo o estado nas últimas semanas. — Explicou. — Padrões estranhos, corpos dilacerados, nenhum rastro do predador. Quando isso começa a se repetir em áreas diferentes, com o mesmo tipo de mutilação, chamamos de comportamento anômalo. E o FBI investiga anomalias.
Dean acrescentou, como se completasse um número ensaiado:
— E sempre que um fazendeiro termina no hospital falando de cheiro de carne podre e sendo arremessado por uma sombra com garras... bom, isso chama a nossa atenção.
— Ah, claro. Porque nada grita “credibilidade” como dois homens bisbilhotando cadáveres de boi sem aviso nenhum. — ergueu uma sobrancelha, cética.
— A gente podia ter esperado, mas aí perderíamos a chance de ver você tão simpática assim logo de cara. — Dean ergueu as sobrancelhas, divertindo-se, e ela deu um sorriso frio como resposta.
— Continue assim e eu deixo você entrar na cerca com os porcos. Eles são mais educados.
Sam pigarreou, tentando manter a calma na conversa.
— O senhor Whitaker disse que não conseguiu ver o que o atacou?
assentiu, ainda sem desviar os olhos de Dean.
— Disse que viu alguns bodes mortos, sentiu cheiro de carne podre e uma força absurda o jogou no chão. Desmaiou na hora. Quando acordou, mais animais estavam mortos.
— Isso bate com o que temos. — Disse Sam, anotando mentalmente.
Dean se abaixou ao lado de um dos corpos.
— E você acha que foi o quê? Um coiote com superpoderes?
— Não sei ainda. As feridas são profundas, mas limpas. Nada que um animal comum faria. Tem alguma ideia genial, agente?
Ele ergueu os olhos para ela, o olhar carregado de desafio.
— Tenho várias, mas duvido que você consiga acompanhar.
— Ego inflado também faz parte do treinamento do FBI?
— Só quando é merecido.
sorriu com sarcasmo, depois se virou e começou a anotar algo na prancheta, como se tivesse decidido que ele não valia mais seu tempo.
— Vou pedir para levarem os corpos até a clínica veterinária da cidade. A equipe vai fazer uma necropsia completa em alguns dos animais. Quem sabe a gente descobre o que de fato aconteceu aqui. — Disse, o tom levemente ácido. — Mas fiquem à vontade para continuarem… investigando, agentes. — Ela guardou a caneta no bolso do macacão e ergueu os olhos para Dean, que ainda a observava com aquele meio sorriso irritantemente confiante. — Cuidado pra não sujar os sapatos, cowboy. Isso aqui não é um set de filme de ação.
O loiro arqueou uma sobrancelha.
— E você devia pensar em trabalhar no setor de turismo, com toda essa hospitalidade.
deu um sorriso torto, andou até ele e se inclinou um pouco, como se fosse confidenciar algo, mas a voz dela era perfeitamente audível.
— Eu só sou simpática com quem merece. Spoiler: não é o seu caso.
Antes que ele respondesse, a veterinária já estava se afastando em direção à caminhonete estacionada próxima, onde alguns funcionários da fazenda conversavam. Dean seguiu os movimentos dela com os olhos, vagando do cabelo preso ao jeito determinado com que ela caminhava, até sumir atrás do veículo. Sam não resistiu.
— Tá quase babando.
O mais velho soltou um riso seco e desviou o olhar.
— Não tô não.
— Tava olhando como se ela fosse um cheeseburger com bacon duplo.
Dean fez uma careta, mas acabou rindo baixo, empurrando o ombro do irmão de leve.
— É só que… ela é mandona, irritante, metida…

E gostosa…

— E você adorou isso tudo. — Sam o encarou com a sobrancelha erguida.
Ele abriu a boca para retrucar, mas preferiu mudar de assunto, e olhou de volta para os corpos cobertos.
— Acha que vale a pena dar uma olhada nos arquivos da delegacia? Se tem mais relatos parecidos?
— Tava pensando nisso. E talvez seja bom passar na clínica onde trabalha, depois que os corpos chegarem. A gente pode ver os resultados das necropsias e… tentar colaborar com ela.
— Colaborar com gente que tem um ego maior que o meu? Parece suicídio.
— Bom, você é ótimo em provocações. Vai ser interessante ver alguém que não engole tão fácil suas piadinhas idiotas.
Dean estreitou os olhos para ele.
— Minhas piadas são de altíssima qualidade, obrigado.
Sam riu, seguindo na direção do carro.
— Claro, claro. Vamos ver se ela também acha isso quando a gente aparecer na clínica.
Dean lançou mais um olhar em direção à caminhonete onde conversava com os outros, depois seguiu o irmão em silêncio, as mãos nos bolsos e um sorrisinho indecifrável no rosto. Algo naquele caso – e naquela mulher – dizia que a estadia na cidade estava prestes a se tornar muito mais interessante.

A delegacia era pequena, com paredes bege descascadas e um velho ventilador girando preguiçosamente no teto. O xerife local, um homem robusto de barba malfeita e olhar cansado, parecia aliviado por finalmente ter ajuda do “FBI”, mesmo que fossem só dois homens com credenciais falsificadas e feições confiantes.
— Então… vocês acham que foi um animal selvagem? — O xerife perguntou, enquanto se apoiava no balcão.
— Ainda não descartamos essa possibilidade. — Respondeu Sam, confiante. — Por isso queríamos saber se houveram outros incidentes parecidos com esse nos últimos meses. Qualquer coisa com gado, ovelhas, até cachorros.
O xerife Simons coçou a cabeça, pensativo.
— Bom, agora que vocês falaram… teve um caso umas semanas atrás. Fazenda do Sr. Gutierrez. Cinco cabras mortas, sem sangue nenhum no chão. Ele achou que fossem coiotes, mas o veterinário achou estranho demais. Disse que os cortes eram limpos demais pra um ataque de animal comum.
Dean trocou um olhar rápido com Sam. Bingo.
— Pode nos mostrar o relatório? Ou qualquer outro parecido?
— Claro. Me deem um minuto.
Enquanto o xerife se afastava, Dean se encostou no balcão, os olhos vasculhando o ambiente.
— Cê já pensou que pode ser um ninho?
— Um ninho de chupacabras? — Sam ergueu os olhos.
— Por que não? Se tiver um ninho perto da cidade, talvez não estejam caçando por fome…
— Talvez seja territorial. Um ninho ativo pode indicar filhotes, e isso muda tudo.
— Ótimo. Agora temos que procurar uma creche demoníaca. Então, se acharmos o ninho, acabamos com a infestação de uma vez só.
pode ter mais informações quando terminar as necropsias.
Ele fez uma careta, como se não quisesse admitir, mas concordou.
— É… a veterinária do caos pode ser útil no fim das contas.
Sam riu, mas logo o xerife voltou com uma pasta surrada nas mãos. Ele jogou os documentos sobre a mesa e começou a mostrar os relatórios mais antigos. Sam se inclinou para analisar, enquanto Dean folheava uma das páginas, tentando traçar uma linha de padrão entre os ataques. Datas, localizações, tipo de animal atacado… a quantidade era maior do que eles pensavam.
— Se esses pontos forem conectados… — o mais novo disse, puxando um mapa da parede da delegacia. — … os ataques parecem formar uma espécie de semicírculo. Todos ao redor da área das montanhas ao norte.
Dean assobiou baixo.
— Aposto minha Baby que é ali que eles estão escondidos.
— Precisamos confirmar com os exames da . E talvez ir até a fazenda do Gutierrez, ver se encontramos algum rastro.
— Ótimo. Mais estrada, calor, e uma nova visita à nossa adorável veterinária.
— Só tenta não transformar isso num flerte com faca. — Sam revirou os olhos e ele ergueu as mãos em rendição.
— Vou ser um cavalheiro. Quer dizer… até onde ela deixar.
O mais novo deu uma risada baixa, mas seu olhar voltou ao mapa.

O som de latidos, miados e vozes apressadas tomava conta da clínica veterinária. Era quase como entrar em uma estação de trem lotada, mas com muito mais pelos e cheiro de antisséptico. Os irmãos trocaram um olhar assim que empurraram a porta de vidro e deram de cara com o caos organizado. Uma cadela em trabalho de parto estava sendo levada em uma maca. Um gato escapava dos braços de um assistente. Um porquinho-da-índia grunhia de dentro de uma gaiola, claramente indignado com a confusão geral.
— Isso aqui parece mais um episódio daquelas séries de “Plantão Veterinário”. — Dean murmurou ao passar pela porta da clínica.
— Com licença? — Sam se aproximou da recepção, onde uma moça concentrada no computador levantou os olhos ao ouvi-lo, e mostrou o distintivo falso com um leve sorriso. — Agentes Reaves e Jansen. Procuramos a doutora .
— Vocês são os agentes interessados nos ataques de coiotes? — Perguntou com um tom quase debochado, como se aquilo fosse a coisa mais absurda que ela ouvira naquele dia, e Dean fez uma careta automática. Ela não resistir aos seus charmes ele até entendia – não aceitava, mas entendia – mas transformá-lo numa piada? Isso já era demais.
— Sim, somos os agentes que estão perseguindo os coiotes. — Respondeu, seco. — E não estamos com tempo para piadinhas, então dá pra nos levar até ela logo?
A mulher ergueu as mãos num gesto de rendição.
— Tudo bem, senhores. — Ela pegou um walkie-talkie, disse algo rápido e depois se levantou, conduzindo-os até os fundos da clínica. — Ela vai começar a necropsia dos animais agora.
Eles atravessaram corredores movimentados até chegarem a uma porta de vidro fosco com a plaquinha “NECROPSIA — AUTORIZADA SOMENTE A EQUIPE”. O cheiro de formol e algo metálico os atingiu antes mesmo de entrarem. Ao adentrarem a sala fria e iluminada, foram recebidos pelo som de luvas estalando e instrumentos sendo organizados sobre bandejas metálicas. estava lá, de macacão, cabelo preso com uma touca, máscara, luvas de borracha e olhos atentos sobre o corpo rígido de um bode estendido sobre a mesa de aço. Mais dois veterinários e alguns assistentes estavam a postos ao lado, prontos para começar. Ela levantou os olhos quando os irmãos entraram.
— O que estão fazendo aqui? — Perguntou, arqueando uma sobrancelha, a voz claramente provocativa. — Pensei que o trabalho de vocês já tinha acabado. Ou vieram atrás do coiote assassino para prendê-lo?
Um dos assistentes soltou um risinho e até mesmo uma das veterinárias do fundo abafou uma risada atrás da máscara cirúrgica. Dean descansou as mãos no cinto com um sorriso forçado.
— A gente achou que podia dar uma mãozinha. Nunca se sabe quando o coiote volta com um plano de fuga.
Sam pigarreou, tentando suavizar o clima.
— Na verdade, queríamos observar a necropsia. Podem haver detalhes que nos ajudem com a investigação.
cruzou os braços, ainda olhando para Dean como se ele fosse a piada do dia.
— Ah, claro. Os agentes do FBI estão interessados em cortes de tecido e ausência de hemoglobina. Muito suspeito.
— A gente é detalhista. — Dean disse, piscando. — Faz parte do charme profissional.
— Vocês podem ficar… — ela começou, seca, se virando de volta para a mesa. — … mas nada de comentários desnecessários. — Olhou diretamente para Dean. — Isso inclui piadinhas, brincadeiras e insinuações idiotas.
— Eu nem disse nada ainda. — Ele rebateu, erguendo as mãos em falsa inocência.
— O que só prova que estou certa em prevenir. — Respondeu, voltando os olhos para o animal.
Mais uma risadinha ecoou do canto da sala e Dean bufou, sem conseguir esconder a irritação, olhando diretamente para a “plateia”.
— Vem cá, isso aqui é uma clínica ou um show de stand-up?
— Se vocês desmaiarem com cheiro de sangue ou entrarem em choque, eu mesma aplico algo para apagar vocês… e sem analgesia. — vestiu a máscara e começou a abrir o animal com movimentos firmes e precisos.
O silêncio na sala foi preenchido apenas pelo som metálico dos instrumentos e o murmúrio técnico dos assistentes ao redor. Sam prestava atenção a cada detalhe, enquanto Dean… bom, alternava o olhar entre o bode e a veterinária. Depois de alguns minutos, um dos assistentes comentou:
— Sem sangue visível na cavidade torácica também.
franziu o cenho, intrigada. Ela trocou um olhar com a colega e se inclinou.
— Os órgãos estão praticamente colapsados. Parece que foram drenados… mas não tem perfuração interna. Só as externas, e são muito limpas.
Sam se aproximou um pouco mais.
— Algum sinal de hemorragia interna?
— Não… o corpo parece seco por dentro. — Ela se calou por um momento, depois voltou os olhos para Dean. — Acha que o coiote usou um canudinho?
Ele ergueu uma sobrancelha, sorrindo de canto.
— Bom… talvez o coiote seja mais esperto do que pensávamos.
— Ou talvez vocês saibam mais do que estão dizendo. — Ela respondeu, voltando ao trabalho, a voz quase cortante.
Dean abriu a boca para retrucar, mas Sam o cortou.
— Vamos deixar vocês terminarem. Mas se encontrar qualquer outra coisa incomum… avise a gente.
assentiu, ainda olhando o corpo do bode, e Dean lançou um último olhar antes de sair da sala. Mesmo com macacão, luvas sujas e um cadáver à sua frente, havia algo naquela mulher que o deixava intrigado e, pra ser sincero, um pouco fascinado.

Na manhã seguinte, os Winchester estavam sentados no banco da caminhonete, o diário do pai aberto entre eles.
— Ele passou por essa região anos atrás… — Sam comentou. — Registrou dois ataques semelhantes e escreveu que suspeitava de um grupo de chupacabras, mas não conseguiu localizar o ninho antes de ser chamado pra outro caso.
— Se for a mesma criatura, ou uma da mesma linhagem… o ninho pode estar ativo há décadas. — Dean completou. — Vamos até a fazenda do Gutierrez. O velho pode ter visto algo e nem se deu conta.
A visita à fazenda revelou mais algumas pistas: cercas destruídas, solo revolvido e relatos de outros animais sumidos semanas antes. Horas depois, os irmãos se separaram para aprofundar a investigação: Sam seguiu para a biblioteca da cidade, tentando cruzar informações com os registros do diário do pai, enquanto Dean decidiu tentar algo mais… direto. O bar local era pequeno, abafado e com cheiro de cerveja derramada. O Winchester mais velho sentou-se no balcão, pediu uma dose de uísque e começou a puxar conversa com o barman e alguns frequentadores mais velhos. O assunto surgiu naturalmente: “animais mortos”, “coisas estranhas à noite”, “barulhos vindos da floresta”. Estava prestes a se dar por satisfeito quando sentiu uma mudança no ar e, ao virar o rosto devagar, viu – mas não a versão de jaleco e cabelo preso. Os fios castanhos caíam soltos pelos ombros e a jaqueta de couro realçava a silhueta, combinada com uma blusa justa e calça jeans de cintura alta, que o fizeram esquecer por um segundo como se falava.
— Também gosta de bebida forte depois de um dia “de trabalho”? — Ela perguntou, já se aproximando.
Dean girou no banco, admirando descaradamente a nova imagem à sua frente.
— Não sabia que veterinárias faziam trabalho de campo depois do expediente.
— Eu faço quando algo fede… — respondeu, apoiando-se no balcão. — E, no caso, não tô falando só dos animais mortos. — Ela não sorriu, nem piscou – Dean achou aquilo extremamente sexy. — Descobri que os ataques mais antigos seguem o mesmo padrão dos que estão acontecendo agora. E sabe o que mais? Nenhum rastro de coiotes nos locais. Nenhum. Os próprios caçadores da região têm dito que não veem um há semanas.
O homem manteve o sorriso, apesar do maxilar se enrijecer.
— Talvez tenham fugido. — Deu de ombros. — Pressentiram perigo maior.
— E vocês? Também pressentiram? — inclinou o rosto. — Porque eu descobri outra coisa. Thomas Reaves e Colin Jansen não existem… nenhum registro oficial. Nada. Nem uma multa de trânsito.
Dean virou a dose de uísque num único gole, sem tirar os olhos dela.
— Você foi fundo.
— E você não respondeu nada ainda.
— Porque cê não vai querer ouvir. — Ele rebateu, sem o charme de antes.
— Ah não? — se aproximou mais, o calor do corpo dela e o perfume adocicado mexendo com sua cabeça. — Tá com medo de me assustar?
Dean soltou uma risada seca e se inclinou para mais perto, deixando a voz grave e baixa.
— Tô dizendo isso porque, se soubesse mesmo o que tá acontecendo, não estaria aqui e sim trancada na sua clínica, rezando pra isso não chegar perto de você.
— E você sempre tem esse costume de subestimar quem não usa arma no cinto?
— Só quando aparecem de noite, com esse olhar de “eu sei mais do que você”, me pressionando como se tivessem algum tipo de vantagem.
— E se eu tiver?
— Eu te dou um prêmio.
riu de leve e balançou a cabeça, baixando o tom:
— Eu só quero entender o que tá acontecendo. Não gosto de trabalhar no escuro.
Dean suspirou. Queria confiar nela – uma parte sua já estava fazendo isso, mesmo sem admitir. Mas envolver civis… envolvê-la… afastou-se um pouco, tentando esfriar o clima.
— Olha, é melhor deixar isso pra gente. Cuida dos seus animais, doc. Esquece esse caso.
— Engraçado, fala como se tivesse autoridade pra me dizer o que fazer.
— Eu tô tentando te proteger.
— Ah, claro. Porque você é um herói mascarado com identidade falsa.
Dean respirou fundo, já meio cansado da troca – ou, talvez, cansado da própria atração que crescia sem controle.
— Você sempre fica tão curiosa com casos assim… ou só quando quer levar alguém pra cama?
ficou imóvel por dois segundos, até soltar um riso debochado e se aproximar novamente, vagando os olhos pelo rosto dele.
— Eu fico curiosa quando sinto que tem algo grande demais pra ser ignorado. E você tá berrando perigo por todos os poros. Então, me diz… — ela quase sussurrou. — … eu vou ter que aplicar um tranquilizante de cavalo e esperar você falar a verdade no pós-sedação, ou vai facilitar pra mim?
Dean arqueou uma sobrancelha, mordendo o canto do lábio, e acompanhou o movimento.
— Depende… promete cuidar de mim depois?
— Só se você for um bom menino.
— Isso é impossível. — Ele respondeu, os olhos cravados nos dela.
Por um instante, parecia que o bar inteiro havia sumido e só restavam os dois, num jogo perigoso de provocações e segredos, até ela se afastar devagar, lançando-lhe um último olhar antes de se juntar a um grupo com outras pessoas acomodado no canto do bar.
— Boa noite, “agente”. Nos vemos por aí.
— Tô ferrado. — Murmurou, ainda olhando na direção em que ela se afastara. Seus pensamentos foram interrompidos pela vibração insistente no bolso. Atendeu rápido, a voz rouca, como se estivesse tentando recuperar o fôlego. — Fala, Sammy.
— Eu achei algumas coisas interessantes na biblioteca. — O irmão começou, em tom baixo. — Padrões antigos, registros que voltam quase vinte anos. Mas... — ele fez uma pausa breve. — Acho que tô sendo seguido.
— Seguido? — Dean franziu a testa e se endireitou no banco. — Por quem?
— Não sei ainda. Mas tem alguém que não desgruda de mim desde que saí da biblioteca. Tá mantendo distância, mas tá ali.
Dean apoiou o cotovelo no balcão, os olhos automaticamente varrendo o bar.
— Estranho. Por que diabos alguém ia seguir a gente num caso de chupacabras?
Do outro lado da linha, Sam soltou um suspiro pesado.
— Pois é. Só se… esse caso for mais complexo do que pensávamos.
Dean ficou em silêncio por um segundo, absorvendo aquilo.
— Tá. Vai direto pro motel. Não dá bobeira. Eu encontro você lá.
— Certo. — Sam desligou.
Dean guardou o celular no bolso e, antes de sair, olhou de novo para o canto do bar. estava lá, o copo de vidro entre os dedos, os olhos fixos nele com uma intensidade que o fez engolir seco. Não havia sorriso, só aquela curiosidade perigosa misturada a uma confiança que parecia desnudar cada mentira dele. Ele desviou primeiro. Empurrou a porta do bar, sentindo o ar frio da noite bater no rosto, e caminhou até o carro. Enquanto o motor do Impala roncava na escuridão, uma coisa ficou clara na mente dele: o caso não era o único problema. E, de todos os perigos à espreita, talvez fosse o maior.

A estrada de terra se estendia sob os faróis baixos do carro, cercada apenas por campos intermináveis e algumas árvores retorcidas pelo vento. A música baixa no rádio se misturava ao riso despreocupado do casal dentro do veículo.
— A gente vai se perder. — Disse Gina, entre risadas, ajeitando os pés no painel.
— Relaxa. — Spencer acelerou um pouco mais, os olhos brilhando de excitação. — É isso que torna divertido.
A garota revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso. O namoro tinha começado há poucos meses e o que ela mais gostava nele era essa energia de querer transformar tudo numa aventura.
— Você é louco. — Murmurou, balançando a cabeça.
— Louco? Eu diria… rebelde.
Ele fez uma curva brusca, parando o carro ao lado de uma cerca de arame farpado que delimitava uma fazenda.
— O que você tá fazendo? — Gina perguntou, já desconfiada.
— Que tal fazermos algo que a gente vai lembrar pra sempre? Invadir uma propriedade. Só por uns minutos. — Ele piscou para ela, saltando para fora do carro.
— Você tá brincando… — a risada nervosa dela denunciou que, no fundo, também estava tentada.
Quando ele estendeu a mão, Gina hesitou só um segundo antes de agarrá-la. Juntos, pularam a cerca e caíram do outro lado, rindo feito crianças. Mas a diversão logo se dissolveu. Os animais no campo não estavam tranquilos. Ovelhas e cabras corriam em círculos, berrando desesperadas, como se algo invisível as estivesse caçando. O vento trouxe o cheiro metálico de sangue, forte demais para ser ignorado.
— Tá ouvindo isso? — Perguntou, agarrando mais firme a mão dele.
— Deve ser algum coiote. Ouvi dizer que estão tendo muitos ataques ultimamente. — Spencer forçou um sorriso. — Vem, vamos ver.
— Eu não acho uma boa ideia... — ela tentou recuar, mas ele já a puxava em direção ao celeiro no final da trilha.
A cada passo, o barulho ficava mais estranho – não era só o som dos animais e sim algo como uma sucção ritmada, molhada. Quando empurraram a porta do celeiro, o ar pesado quase os fez recuar e a cena à frente os paralisou. No chão de palha, cabras se contorciam em espasmos finais e, sobre uma delas, curvado e ossudo, estava algo que jamais deveria existir: pele acinzentada, costelas salientes, olhos vermelhos que brilhavam como brasas no escuro. Os dentes cravados no pescoço do animal sugavam cada gota de sangue, enquanto o corpo da cabra definhava. A criatura ergueu a cabeça num estalo, encarando-os com o focinho e a boca cobertos de sangue.
— Corre! — Spencer gritou, puxando-a para fora do celeiro.
Eles dispararam pelo campo, o coração explodindo no peito, mas não chegaram longe. Do meio da mata, outras figuras surgiram, rastejando rápido demais, com garras arranhando a terra. Mais dois, três, quatro… eles estavam cercados. O grito de Gina foi cortado quando uma das criaturas saltou. A última visão do garoto foi o brilho dos dentes contra a lua antes de tudo se perder na escuridão. A noite engoliu os sons, só restando o silêncio mortal sobre o campo.


Continua...


Nota da autora: Eu sempre quis fazer uma fic com o Dean e quando pensei nesse plot coincidiu com a época que surgiu o especial de Halloween. Espero que gostem das interações desses dois, porque eu me diverti horrores escrevendo.

🪐

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