Puxei a coberta, me escondendo embaixo dela, e suspirei, franzindo os olhos. Eu não queria acordar.
Virei meu corpo na cama e percebi que tinha girado um pouco mais do que o costume, o que me assustou. Abri meus olhos imediatamente e soltei a respiração forte, finalmente me encontrando.
Eu não estava em Relva. Eu estava em Los Angeles.
Passei a mão pela testa e me sentei na cama, pegando meus óculos ao lado. Dei uma olhada naquele quarto que parecia gigante para mim. Não que eu morasse em um cubículo no Brasil, mas pela decoração e pelo espaço vazio, tudo parecia muito maior.
Joguei a coberta para o lado e saí da cama de casal, encontrando o notebook jogado no chão. Aquilo era praticamente novo para mim. Eu nunca tinha visto algo daquele tamanho.
Desamassei minha calça de moletom e arrumei a cama. Se eu realmente fosse morar sozinha, pelo menos tentaria me manter organizada.
Peguei o aparelho no chão e coloquei sobre a cama, ligando-o novamente. Provavelmente eu tinha deixado minhas amigas falando sozinhas no ICQ na noite passada. E agora elas deveriam estar dormindo.
Olhei para o relógio em uma das mesas de cabeceira e vi que era pouco depois das nove da manhã. Ainda era relativamente cedo.
Peguei minha mala e minha mochila, que estavam jogadas em um canto do quarto, e coloquei tudo sobre a cama, abrindo-as.
Comecei a separar minhas roupas por categorias: blusas de manga comprida, camisetas, regatas. Shorts, calças jeans, calças de moletom, roupas de ginástica, roupas íntimas, roupas de banho e calçados.
Eu literalmente tinha limpado meu armário em Relva. Tinham sobrado apenas algumas roupas mais antigas.
Entrei no closet e acendi a luz. Aquele lugar era enorme.
Minhas roupas pareciam poucas demais para aquele espaço, mas suspirei e comecei a organizar tudo. Depois de algumas idas e vindas entre o quarto e o closet, consegui ajeitar minhas coisas nas prateleiras.
Provavelmente mudaria tudo depois de alguns dias, mas por enquanto estava bom.
Coloquei meus tênis, sandálias e rasteirinhas em uma das prateleiras que parecia ter sido reservada para isso. Tinham umas doze ao todo, de cima a baixo, e eu usei apenas duas para sapatos e três para roupas, além das gavetas onde guardei minhas calcinhas, sutiãs e meias.
Voltei para o quarto e tirei alguns produtos de beleza que eu tinha trazido do Brasil na mochila: sabonetes, cremes, xampus, condicionadores, maquiagem e um secador de cabelo.
Atravessei o pequeno corredor e entrei no banheiro. Ele também era enorme e tinha um armário embaixo da pia, onde coloquei tudo.
Fiquei feliz quando encontrei alguns rolos de papel higiênico.
Aquele apartamento realmente estava preparado para mim.
Voltei para o quarto e guardei a mala no fundo do closet, fechando a porta em seguida. Dei uma volta pelo quarto, conferindo se tudo estava minimamente organizado.
Aparentemente, sim.
Soltei um suspiro e fui até o computador, encontrando um e-mail do meu pai e algumas mensagens das minhas amigas que eu claramente não tinha respondido na noite passada.
Respondi primeiro meu pai.
Ele queria saber como tinha sido o voo, se eu estava gostando de tudo e como eu estava me sentindo.
Falei que estava tudo bem até agora e que eles tinham praticamente me dado um apartamento.
Era isso que parecia.
A resposta dele chegou logo depois. Ele estava surpreso com a preocupação que estavam tendo comigo e esperava que aquilo continuasse por bastante tempo.
Escrevi um novo e-mail desejando bom dia, apesar de que no Brasil já era quase hora do almoço, e falei que estava um pouco perdida sobre o que aconteceria naquele dia, mas que estava tudo bem.
Fechei o notebook novamente e calcei meus chinelos.
Eu ainda não sabia como lavaria minhas roupas, mas esperava que elas demorassem para sujar.
Abri a porta do quarto e fui até a sala, pensando no que eu poderia tomar de café da manhã. Os americanos tinham uma alimentação um pouco diferente da minha, mas me lembrei do cereal.
Serviria por enquanto.
— Bom dia!
Me assustei, erguendo o rosto e encontrando Jessica sentada no sofá da sala de TV com diversos papéis em sua frente.
Coloquei a mão no peito, sentindo minha respiração acelerar.
— Pelo amor de Deus...
— Pode se acostumar! Isso vai ser frequente — ela falou, abrindo um sorriso.
Suspirei e me aproximei.
— Você poderia ter me avisado ontem.
— Assim não teria tanta graça.
Revirei os olhos, mas acabei soltando uma risada fraca.
— Ok, está valendo! — falei, suspirando. — A gente tem algum compromisso hoje? — perguntei.
Ela se levantou, juntando alguns papéis em cima da mesa.
— Vários! — respondeu. — Mas acho que você merece um café da manhã primeiro.
Afirmei com a cabeça e ela apontou em direção à cozinha.
— Eu espero.
Passei por Jessica e entrei na cozinha, dando uma olhada rápida nos armários. Encontrei o cereal que eu tinha pensado pouco antes e abri a geladeira, encontrando também uma garrafa de leite.
Coloquei o cereal em uma vasilha e enchi um copo com leite, levando-o ao micro-ondas por alguns segundos. Enquanto esperava, fui guardando as coisas que tinha tirado do lugar.
Assim que o aparelho apitou, coloquei o leite sobre o cereal e misturei com uma colher de açúcar.
Peguei a tigela e voltei para a sala, onde Jessica estava novamente sentada no sofá, revisando seus papéis.
Sentei na poltrona, erguendo meus pés e comecei a comer.
— O que temos para hoje? — perguntei.
Ela virou o rosto para mim por um momento, mas logo voltou sua atenção aos documentos.
— Você vai ter uma reunião com Patrick Wilson hoje. — Franzi a testa, colocando mais uma colherada na boca.
— Ok... — falei, ainda tentando entender.
— Ele é o atual presidente da Virgin Records de Los Angeles.
Arregalei os olhos, surpresa.
— Foi a equipe dele que encontrou você e é a ele que você responde financeiramente e administrativamente. — Ela soltou uma risada fraca. — Que, no caso dele, é praticamente a única coisa que importa. Dinheiro.
Dei uma pequena risada.
— Economia e música não combinam muito bem. — Ela suspirou. — Mas ele é o chefe, então... fazer o quê?
Abaixei a tigela, apoiando-a no colo.
— E o que eu devo esperar dessa reunião?
Jessica nem levantou os olhos dos papéis.
— Muito nariz empinado e arrogância.
Soltei um suspiro e coloquei a tigela na mesa de centro. Passei as mãos uma na outra, estralando os dedos, enquanto me levantava.
Eu estava pensando se deveria falar ou não o que estava passando pela minha cabeça.
— O quê? — ela perguntou, finalmente olhando para mim.
— Eu sou esquentada, Jessica. — Peguei a tigela novamente. — Eu não levo desaforo para casa.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— E por que você está me dizendo isso?
— Porque, se ele começar a falar besteira, eu provavelmente vou responder à altura. — Jessica abriu um pequeno sorriso.
— Vai ser interessante para ele ver alguém realmente lutando pelo que quer. — Franzi a testa.
— Como assim?
Ela colocou os papéis sobre a mesa e se levantou.
— Digamos que a Virgin tem um certo status.
— Sim, é famosa por ser uma das melhores gravadoras do mundo.
— Exatamente. — Ela suspirou.
— E isso atrai muitas pessoas com dinheiro. Pais ricos que enxergam um simples talento em um filho e querem transformar isso em investimento.
Ela caminhou até o corredor e fez um gesto para que eu a acompanhasse.
— Então eles colocam dinheiro na gravadora, nós fazemos o filho ficar famoso e pronto. — Franzi a testa.
— E isso é ruim?
— É que normalmente não dura muito. — Ela me soltou e apontou para o quarto. — Então, , você está fazendo parte de uma pequena revolução.
Pisquei algumas vezes.
— Como assim?
— Você é uma das primeiras pessoas a ser contratada por talento bruto e não por dinheiro. — Ela deu de ombros. — Você não entrou aqui trazendo investimento. Nós entramos investindo em você. Esperando que o retorno seja milhões de vezes maior do que uma passagem, moradia e aulas.
Balancei a cabeça, tentando absorver aquilo.
— Ok... e daí?
— Daí que ele está um pouco incomodado com isso. Dinheiro entrando é sempre melhor do que dinheiro saindo, certo?
Ela sorriu de lado.
— Mas eu acredito em você.
Suspirei.
— Tá bom.
Ela apontou novamente para o quarto.
— Agora vai se trocar.
— E eu visto o quê? — Jessica soltou uma risada.
— O que você usaria na sua casa.
Entrei no closet e suspirei ao olhar em volta.
Estava calor em Los Angeles. Era julho, então eu podia usar algo mais leve, mas não queria abusar. Shorts eram o que eu usaria em casa, mas talvez não fosse a melhor ideia para uma reunião.
Passei pelos meus vestidos pendurados e abri um sorriso.
Meus vestidos eram simples. A maioria tinha flores ou estampas coloridas e todos iam até o joelho, comprados em lojas comuns no Brasil.
Eu não era uma pessoa de marcas. Não por não gostar, mas porque não fazia sentido gastar quinhentos reais em uma blusa quando eu poderia gastar vinte e comprar várias.
Escolhi um vestido azul com desenhos de folhas em um tom mais escuro e me olhei no espelho.
Respirei fundo, inclinando a cabeça para o lado.
Era simples. Mas era eu.
Abaixei o corpo e coloquei uma rasteirinha, quase perdendo o equilíbrio e precisando me apoiar na parede.
Saí do closet e Jessica me olhou de cima a baixo, assentindo com um sorriso.
— Está boa.
Sorri e segui até o banheiro.
Primeiro, passei fio dental e escovei os dentes. Deixei meu sorriso o mais bonito possível. Era complicado usar aparelho fixo, mas eu fazia o meu melhor. Olhei para meu cabelo no espelho e passei a escova, percebendo tarde demais que tinha feito uma péssima escolha. Meu cabelo era ondulado. Ou seja: eu tinha acabado de deixá-lo enorme. Franzi a testa e peguei uma presilha que estava jogada por ali, prendendo meu cabelo para trás.
Passei corretivo nas espinhas mais visíveis do rosto, pelo menos tentando disfarçar um pouco. Não perderia meu tempo com base. Demoraria demais. Passei um lápis escuro nos olhos e um batom discreto nos lábios, apenas para hidratá-los. Saí do banheiro e fechei a porta.
— O que acha? — perguntei.
Jessica me olhou por alguns segundos e abriu um sorriso.
— Acho que está ótima. — Assenti.
— Vamos, então.
Ela começou a sair do apartamento e eu só tive tempo de pegar minha bolsa, jogar meu celular e meu passaporte dentro dela antes que o elevador quase fechasse na minha frente.
Juan estava lá embaixo nos esperando novamente. Ele era uma pessoa simpática. Enquanto Jessica permanecia fechada, focada em seu celular que abria para cima, com tela colorida, teclado completo e várias funções que eu achava incríveis, ele conversava comigo. Mostrava lugares, dava dicas de restaurantes e comentava sobre a cidade.
Não que tivéssemos muito tempo para conversar. Assim que saímos do condomínio, ele virou à esquerda, depois à esquerda novamente, seguiu por uma avenida por alguns minutos e entrou na Wilshire Boulevard, parando pouco tempo depois.
Com certeza passamos mais tempo esperando naquele semáforo lá atrás.
Desci do carro animada e dei uma olhada ao redor. O prédio ao nosso lado era feito de granito marrom e vidros escurecidos. A arquitetura era diferente, quase como se tivesse sido construída em camadas, cada uma mais alta que a anterior.
Logo notei alguns carros de luxo estacionados por perto. Apesar disso, eu tinha acabado de sair de uma BMW Série 5 preta, modelo 2004. Então, provavelmente, o grupinho do outro lado da rua estava tão impressionado comigo quanto eu estava com eles.
Do outro lado da avenida havia um shopping. Não daqueles enormes que encontramos por aí, mas uma galeria cheia de lojas e restaurantes. Fiquei feliz ao ver uma Starbucks. Seria útil nos dias em que eu estivesse com preguiça de preparar café da manhã.
— Vamos! — Jessica chamou.
Acenei para Juan e a segui através das portas do prédio.
Entramos imediatamente em um elevador. Jessica apertou o botão do segundo andar e aproveitei o trajeto para observar os detalhes do lugar. Assim que as portas se abriram, vi o enorme logo vermelho da Virgin Records e não consegui evitar um sorriso.
Aquilo estava realmente acontecendo.
Jessica cumprimentou a recepcionista, e eu fiz o mesmo. Ela era bonita, tinha cabelos pretos brilhantes e usava um vestido vermelho justo. Por um instante fiquei imaginando se esperavam que eu me vestisse daquele jeito. Se fosse o caso, teríamos sérios problemas.
Mas deixei isso para depois.
Assim que passamos pela recepção, chegamos a um grande salão. E quando digo grande, quero dizer enorme. Devia ocupar boa parte do andar e, pelas placas que eu tinha visto do lado de fora, aquele prédio ainda tinha muito mais espaço.
Havia sofás espalhados pelo ambiente, pessoas conversando, outras andando de um lado para o outro. A maioria parecia relaxada. Ninguém ali devia estar tão nervoso quanto eu.
Respirei fundo.
Ao redor do salão, várias portas exibiam placas vermelhas indicando seus destinos: sala de produtores, escritórios, estúdios de gravação, salas de ritmo, estúdio de orquestra, banheiros e tantas outras coisas que eu nem tive tempo de ler direito.
— Ei, Brandon! — Jessica chamou. Virei o rosto na direção dele.
— Olha só, ela veio! — Brandon disse.
Apressei o passo para alcançá-los. Ver um rosto conhecido me deixou imediatamente mais tranquila.
— Como está? — ele perguntou, estendendo a mão. Em vez de apertá-la, bati na palma dele.
— Um pouco nervosa, mas estou bem — respondi, sorrindo.
— É isso que eu gosto de ouvir.
— Vai participar da reunião? — Jessica perguntou.
— Nem a pau. Tenho que terminar umas mixagens com o D. — Ele deu de ombros. — Mas quem sabe um almoço mais tarde? — voltou-se para mim. — Gosta de comida mexicana?
Franzi a testa.
— Nunca comi, na verdade. Mas não sou fresca para comida. — Ele riu.
— Ah, vou gostar de você. — Sorri.
— Vai dar tudo certo.
— Espero que sim.
— Stone!
Eu e Jessica viramos a cabeça ao mesmo tempo.
Um homem mais velho se aproximava. Devia ter mais ou menos a idade dela. Usava terno e tinha uma expressão séria o suficiente para fazer qualquer um se endireitar na cadeira.
— É ele? — sussurrei.
— Não. Mas vamos. — Segui ao lado dela, tentando manter a calma.
— Você está atrasada — o homem comentou.
Jessica nem piscou.
— Eu estaria atrasada se alguém tivesse estipulado um horário.
Ela suspirou.
— Cadê seu pai? Fui chamada para falar com ele, não com você.
Precisei me esforçar para não soltar um "toma".
— Essa é ela? — ele perguntou, olhando para mim. Franzi a testa.
— "Essa" tem nome, senhor. É .
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me analisando de cima a baixo.
— Sou Brent. Prazer, senhorita . — Assenti.
— Prazer.
— Vamos entrar.
Ele apontou para a porta.
Jessica entrou primeiro e eu fui logo atrás.
A sala era comprida e estreita. Havia uma mesa de vidro cercada por poltronas de couro preto e, mais à frente, uma pequena mesa de centro entre dois sofás.
O senhor que eu imaginava ter vindo conhecer estava sentado em um deles. Parecia relaxado, mas seus olhos permaneciam atentos à televisão presa na parede.
Tinha cabelos brancos e volumosos, algumas rugas marcando o rosto, mas ainda passava uma imagem forte. Considerando que era pai do tal Brent, estava muito bem.
Assim que entramos, ele se levantou e ajeitou o paletó antes de nos cumprimentar.
— Patrick! — Jessica disse, apertando sua mão.
— Jessica.
Ele retribuiu o cumprimento e voltou a atenção para mim.
— Você deve ser , certo?
Ele tropeçou um pouco no meu sobrenome e eu assenti, segurando a risada.
— Acho que pronunciei errado.
— Está tudo bem.
Apertei sua mão.
— Sentem-se.
Nos acomodamos. Jessica e eu ficamos no mesmo sofá, enquanto Brent sentou ao lado do pai.
— Eu sou Patrick Wilson, . Imagino que já tenha ouvido falar de mim.
— Sim. Por um momento achei que fosse aquele ator. — Soltei a resposta sem pensar. Patrick riu de leve.
— Isso acontece bastante. — O tom sério voltou quase imediatamente.
— O que ouviu falar sobre mim?
— Que você é o diretor da Virgin Records e que, provavelmente, vou responder mais a você do que a qualquer outra pessoa.
— Só isso?
Mentira.
Mas assenti mesmo assim.
— E sabe o que isso significa?
— Que você é responsável pelo investimento em mim. Em outras palavras, é você quem está gastando dinheiro comigo.
Pela expressão dele, a resposta pareceu agradá-lo.
— E você acredita merecer esse investimento?
Percebi Jessica se mover discretamente ao meu lado.
— Com todo respeito, senhor, acho que essa pergunta deveria ser respondida por você.
Patrick arqueou uma sobrancelha.
— Desculpe?
Me ajeitei no sofá.
— Vocês vieram atrás de mim, não o contrário.
O silêncio tomou conta da sala.
— Eu estava vivendo minha vida no Brasil quando bateram na minha porta oferecendo uma oportunidade. Não sou idiota, então aceitei ouvir. Mas foram vocês que vieram até mim.
Ninguém disse nada.
Nem Patrick. Nem Brent. Nem Jessica. Então resolvi ficar quieta também.
Talvez eu tivesse sido sincera demais.
Jessica tinha feito um certo terrorismo psicológico sobre Patrick Wilson, mas, até aquele momento, ele parecia apenas alguém acostumado a tomar decisões difíceis.
— Quero que me convença de que estou investindo bem.
Inclinei a cabeça.
— Você não está feliz por eu estar aqui, está?
— ... — Jessica começou.
Levantei uma mão.
— Não é fácil encontrar um talento fora dos Estados Unidos e ter que engolir o próprio orgulho, certo?
Patrick permaneceu em silêncio.
— Minha nacionalidade não define quem eu sou. Mas faz parte de quem eu sou. E, se estou aqui, é porque valorizo essa oportunidade.
Cruzei as mãos sobre o colo.
— Se eu não soubesse cantar, teria recusado tudo isso. Ou você sabe cantar, ou não sabe.
Dei de ombros.
— E eu sei.
Patrick me encarou por alguns segundos. Então apontou para mim.
— Cante.
— Desculpe?
— O que quiser. A música que quiser. Mas cante.
Olhei imediatamente para Jessica.
— Faça o que ele está pedindo — ela respondeu.
Suspirei.
— E não se esqueça de que eu já vi seu vídeo.
Ótimo.
Minha melhor carta já tinha sido descartada.
Thank You For The Music estava fora de questão.
Fechei os olhos por alguns segundos, tentando pensar em alguma alternativa.
Nada. Absolutamente nada.
Então meu olhar percorreu a sala. Até parar em um pôster antigo de Os Miseráveis. Um sorriso surgiu sozinho.
Ah. Essa funcionaria.
Deixei a bolsa no sofá e me levantei. Cantar sentada era possível, mas em pé a respiração funcionava melhor. Endireitei a postura. Fiz uma contagem rápida na cabeça.
Ouvi o piano na minha memória.
E comecei.
—
I dreamed a dream in time gone by...
Mantive a voz suave, quase contida.
—
When hope was high and life worth living... I dreamed that love would never die, I dreamed that God would be forgiving...
Minha voz saiu um pouco mais fina do que o normal, mas continuei.
—
Then I was young and unafraid...
Sustentei a última palavra por mais tempo, sentindo a voz finalmente se acomodar.
—
And dreams were made and used and wasted...There was no ransom to be paid, no song unsung, no wine untasted...
As mãos ameaçaram subir, como sempre acontecia quando eu me aproximava das notas mais altas. Forcei-as a permanecer ao lado do corpo.
—
But the tigers come at night...
Deixei a voz descer. Mais grave. Mais intensa.
—
With their voices soft as thunder...
Alonguei a última palavra.
—
As they tear your hope apart, as they turn your dream to shame...
A nota vibrou pela sala. Um arrepio percorreu meu corpo. Puxei o ar para continuar.
— Chega.
Pisquei. Olhei para Patrick.
Por um instante, achei que tinha estragado tudo.
Voltei para o sofá e me sentei.
Jessica colocou a mão sobre minha perna. Quando olhei para ela, encontrei um sorriso. Um sorriso de verdade.
— Então? — perguntei, voltando à pergunta anterior. — Está investindo em algo bom?
Patrick permaneceu em silêncio por alguns segundos. A surpresa ainda era visível em seu rosto.
— Não foi perfeito. — Meu coração afundou. — Mas sim.
Voltou a se levantar. E, imediatamente, todos nós fizemos o mesmo.
— Quero ela pronta para lançamento em seis meses.
Meu cérebro levou alguns segundos para processar a frase.
— Incluindo uma mudança visual, Jessica.
Ele já caminhava em direção à própria mesa quando terminou de falar. Jessica colocou uma mão em minhas costas e me conduziu para a porta. Eu ainda estava tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Quando percebi, já estava do lado de fora da sala e a porta fechada atrás de mim.
Estava completamente perdida.
— O que aconteceu? — Ela se afastou apenas o suficiente para olhar para mim.
— Você entrou. — Franzi a testa.
— Entrei onde?
Jessica soltou uma risada incrédula.
— Você tem um contrato com a Virgin Records.
Dei um gritinho involuntário. Levei as mãos à boca.
— Meu Deus! — Ela riu.
— Eu sabia que essa seria a reação.
— Isso é incrível!
— Foi uma ótima escolha cantar I Dreamed a Dream.
— Apostei no sentimental.
— E funcionou. — Ela esfregou os próprios braços.
— Eu arrepiei.
Meu sorriso aumentou.
— E eu não me arrepio facilmente. — Senti minhas bochechas esquentarem. — Vamos providenciar o contrato? — ela perguntou.
Assenti imediatamente. Começamos a caminhar de volta pelo corredor. Então uma dúvida voltou à minha cabeça.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você não gosta do Brent?
Jessica soltou uma risada curta. Uma daquelas risadas que parecem surgir do nada.
— Eu fui casada com ele.
Parei de andar. Literalmente.
— O quê? — Ela riu da minha expressão.
— É, essa costuma ser a reação. — Voltei a acompanhá-la.
— Espera... vocês foram casados?
— Fomos.
— E trabalham juntos?
— Trabalhamos.
— E se falam normalmente?
— Mais ou menos. — Não consegui evitar uma risada.
— Isso explica muita coisa.
— Explica.
Ela deu de ombros.
— Comecei a beber por causa de muita coisa. A pressão da indústria, minha própria vida... e aquele casamento certamente não ajudou.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Não sabia exatamente o que responder.
— Mas já passou.
Ela acenou para a recepcionista.
— Contrato musical de . Para Jessica Stone. — A mulher digitou alguma coisa no computador.
— Está imprimindo.
Jessica me levou até a impressora que ficava ao lado do balcão. Esperamos alguns minutos.
Folha após folha começou a sair.
E sair.
E sair.
— Meu Deus...
Jessica riu.
— Assustador, né?
— Isso é maior que alguns livros que eu já li.
— Bem-vinda ao mundo dos contratos.
Jessica pegou o calhamaço de folhas da impressora e o apoiou sobre o balcão da recepção.
Aquilo era enorme.
Ela pegou um furador, abriu dois buracos nas folhas e passou um prendedor por elas. Em seguida, folheou rapidamente algumas páginas para conferir alguma informação antes de me entregar tudo. Segurei o contrato com as duas mãos. Pesava mais do que eu esperava.
— Onde eu assino? — Jessica estendeu a mão e pegou o documento de volta.
— Em lugar nenhum. — Franzi a testa.
— Como assim?
— Você vai levar isso para casa. — Pisquei algumas vezes.
— Eu vou?
— Vai ler tudo.
Ela enfatizou a última palavra.
— Vai analisar nossas condições, seus direitos e seus deveres. E, se não concordar com alguma coisa, vai sugerir algo melhor.
Olhei para o contrato.
Depois para ela.
Depois para o contrato novamente.
— Você está me dizendo para negociar com a Virgin Records?
— Estou dizendo para você ler antes de assinar.
— Isso parece sensato.
— É porque é. — Não consegui evitar uma risada.
Jessica apoiou os braços no balcão.
— , uma das piores coisas que um artista pode fazer é assinar um contrato sem entender o que está assinando. — Assenti. — Se quiser a opinião de um advogado, eu posso indicar o nosso.
— Certo.
— Mas quero que você leia primeiro.
Passei a mão pela capa do documento.
— Tem alguma coisa que eu deveria olhar com mais atenção?
Jessica pensou por alguns segundos.
— Sim. Eles estão oferecendo um vínculo para cinco álbuns.
Meu conhecimento jurídico era praticamente inexistente, mas até eu sabia que aquilo parecia muito.
— Cinco?
— Cinco. — Ela assentiu. — Dependendo do seu ritmo de produção, isso pode significar dez anos. Talvez doze. — Fiz uma careta.
— Nossa.
— Pois é. — Ela cruzou os braços.
— Eu negociaria.
— Quanto?
— Três.
Ponderei por alguns segundos.
— Por quê?
— Porque dois podem parecer pouco comprometimento. — Ela inclinou a cabeça. — E três mostram que você está disposta a construir uma carreira junto com a gravadora.
Assenti lentamente.
Fazia sentido.
— Vou pensar nisso.
— Pense mesmo.
Olhei novamente para a pilha de folhas.
— Isso vai demorar.
— Vai.
— Muito?
— Bastante.
— Ótimo.
Jessica riu.
— Você é a primeira artista que conheço que fica feliz em receber centenas de páginas para ler.
— Faço Letras.
Ela levantou as mãos em rendição.
— Certo. Argumento irrefutável.
Sorri, satisfeita.
— Me passa o contato do advogado também?
— Vou mandar por e-mail.
Assenti.
— Obrigada. — Jessica sorriu.
— Está ficando mais tranquila? — Pensei por alguns segundos.
— Um pouco.
— Só um pouco?
— Ainda existe uma parte de mim esperando descobrir que tudo isso é uma pegadinha. — Ela soltou uma gargalhada. Foi bom ver Jessica rindo abertamente.
— Justo.
Olhei para o elevador.
— Posso ir para casa?
— Claro. — Jessica apontou para as portas de vidro lá na frente.
— Juan está te esperando lá embaixo.
Soltei um suspiro aliviado.
— Graças a Deus.
— Cansada?
— Um pouco.
— Aproveita enquanto pode. — Isso me fez parar.
— Isso foi uma ameaça?
— Talvez. — Estreitei os olhos. Jessica apenas sorriu.
— Eu deveria me preocupar?
— Provavelmente. — Balancei a cabeça, rindo.
Cliquei no botão do elevador. Enquanto esperávamos, uma última dúvida surgiu.
— Ah, Jessica?
— Sim?
— O que Patrick quis dizer com "mudança visual"?
Ela soltou uma risada imediata. Daquelas que surgem antes mesmo da pessoa conseguir responder.
— Calma, .
— Isso não me tranquiliza.
— Tem muita coisa para acontecer ainda.
As portas do elevador se abriram.
Entrei.
— Jessica?
— O quê?
— Eu gostei ainda menos dessa resposta.
Ela riu novamente.
As portas começaram a se fechar. Ela gritou a tempo.
— Amanhã você descobre.
— Jessica!
— Boa sorte! — As portas se fecharam completamente.
Fiquei encarando meu reflexo no metal do elevador.
Depois olhei para o contrato nas minhas mãos.
Depois para mim.
Depois para o contrato.
Suspirei.
Eu tinha acabado de assinar — ou quase assinar — o início de uma vida completamente diferente.