Última Atualização: 27/06/2026
Atenção
Essa história é focada no mundo dos famosos. Todos os artistas da vida real existem, mas as músicas e filmes expressos aqui poderão ter autores, diretores e datas de lançamento diferente da vida real. Exemplo: Demi Lovato é uma pessoa real na história, mas uma música dela lançada em 2008, usada na história, não será dela e sim da personagem principal e pode ter um lançamento mais antigo ou mais atual. Como outros artistas e filmes que podem ter seus diretores ou astros diferentes do que é na vida real.
O som de uma notificação me fez sobressaltar. A tela do notebook iluminou o ambiente escuro.
Ergui a cabeça com dificuldade e encarei a luz, estreitando os olhos. Um e-mail — de uma conta que eu não usava há anos — aparecia na caixa de entrada. Remetente: alguém da Virgin Records.
Cliquei.
“Acho que está na hora de voltar.”
Franzi a testa e deixei escapar uma risada fraca, embriagada.
“Não tenho motivos para isso.”
Respondi sem pensar muito — provavelmente errando metade das palavras — e já ia fechar o notebook quando outro aviso soou.
“Tem sim. Assista.”
Abaixo, um vídeo anexado.
Me ajeitei na poltrona e cliquei para baixar. O símbolo carregava lentamente enquanto eu suspirava, pegando a garrafa de água ao meu lado e virando o restante na boca antes de jogá-la, vazia, no lixo.
Assim que terminou, abri o vídeo.
Uma mulher loira estava no centro de uma quadra escolar. Atrás dela, várias pessoas sentadas, assistindo. Ela olhava para um papel antes de se aproximar do microfone e falar em uma língua que eu não reconheci — uma legenda improvisada apareceu na tela.
— “E agora, nossa última competidora é , cantando Thank You For The Music.”
Aplausos.
Uma garota de cabelos castanhos, usando óculos e um vestido preto até o joelho, levantou-se. Caminhou até o microfone com passos inseguros, mexendo constantemente as mãos.
Ela parou. Respirou fundo.
— Vai nessa, ! — alguém gritou da plateia.
Ela sorriu de leve, virou o rosto para o lado e fez um pequeno aceno. A música começou.
— “I'm nothing special, in fact I'm a bit of a bore…”
As pessoas reagiram quase imediatamente. Inclinei levemente a cabeça.
A voz não era extraordinária… mas tinha algo ali.
— “But I have a talent, a wonderful thing…”
Então veio a mudança.
Meus olhos se arregalaram.
— “I'm so grateful and proud…”
Ela cresceu.
Não tecnicamente perfeita — longe disso — mas… verdadeira.
Quando chegou ao refrão, já não parecia mais a mesma garota nervosa.
— “So I say thank you for the music…”
Ela sentia cada palavra.
E, por algum motivo, aquilo me incomodou.
Ou… tocou.
Quando terminou o trecho, a plateia explodiu em aplausos e gritos. Continuei assistindo em silêncio.
Ao longo da música, ela se soltou completamente. As mãos deixaram de ficar presas ao corpo, os gestos surgiram, a presença apareceu.
Quando acabou, todos estavam de pé.
Ela sorriu — surpresa, envergonhada — e foi abraçada pela mulher loira do início.
A tela escureceu.
Outro e-mail chegou.
Abri.
“Diamante bruto, não? Acha que consegue lapidar? A gravadora a quer… ACHE.”
Soltei uma risada baixa.
Fiquei alguns segundos olhando para a tela.
Depois, me levantei.
Peguei o telefone fixo ao lado da porta. Disquei o número que eu já tinha tentado tantas vezes — e sempre desligava antes de completar a chamada.
Dessa vez, não.
— Centro de Reabilitação de Los Angeles.
Fechei os olhos por um segundo.
— Aqui é Jessica Stone. Eu gostaria de me internar… por favor.
Engoli em seco.
— Preciso que venham me buscar.
— Claro. Só precisamos do endereço.
Ato Um:
Make a Wish – 2004 a 2005
Make a Wish – 2004 a 2005
Passei pelo banheiro, joguei um pouco de água no rosto e segui para a cozinha, cantarolando baixinho. Deslizei pelo tapete no meio do caminho, já no automático.
Abri o armário, peguei um pacote de pipoca e joguei no micro-ondas. Três minutos. Enquanto ela estourava, procurei uma bacia.
O som dos estouros me trouxe de volta da tentativa frustrada de decorar conteúdo para a prova de Literatura Brasileira. Tirei o pacote do micro-ondas, despejei tudo na bacia e, sem pensar duas vezes, enchi de sal — ignorando completamente o fato de que meu cardiologista provavelmente me mataria na próxima consulta.
Antes de voltar para os clássicos brasileiros, a campainha tocou.
Atravessei a sala quase saltitando e tentei espiar pelo olho mágico — o que era ridiculamente difícil, já que ele ficava muito abaixo da minha altura.
Do outro lado, uma loira muito bem arrumada ajeitava os cabelos lisos.
Franzi a testa.
Bonita demais pra ser uma das namoradas do meu pai.
Segurei a maçaneta com uma mão e abracei a bacia de pipoca com a outra. Abri a porta com o rangido infernal de sempre, colocando só a cabeça para fora primeiro. A taxa de crime na cidade era praticamente zero… mas ainda assim.
E, bem, não era todo dia que alguém aparecia na sua porta com uma BMW novinha estacionada na rua.
— Ei — falei, saindo um pouco mais, consciente demais do meu short e regata. — Posso te ajudar?
Ela sorriu.
— Hey. — O sotaque era forte. — You speak English? Entende inglês?
— Inglês? Sim. — respondi, usando tudo o que seis anos de aula particular podiam oferecer. — Está procurando alguém?
Os olhos dela praticamente brilharam.
— Sim. Sou Jessica Stone, de Los Angeles, Estados Unidos.
— Eu sei onde fica Los Angeles — respondi, com um meio sorriso torto.
Ela riu, de leve.
— Bom sinal. Eu procuro por . É você?
Franzi a testa, já pronta pra fechar a porta.
— Depende… quem quer saber?
Joguei uma pipoca na boca.
— Eu sou empresária de músicos, trabalho com uma gravadora em Los Angeles. Recebi um vídeo seu… e gostaria de conversar.
— Sobre o quê?
Aquilo estava ficando estranho rápido demais.
— Imagino que esteja desconfiada — ela disse, tirando um cartão do bolso. — Trabalho na Virgin Records. Recebemos um vídeo seu cantando e gostaríamos de te oferecer um contrato.
Soltei uma risada curta.
— Desculpa, é que… é meio absurdo. Uma mulher de Los Angeles vindo pro Brasil — melhor, pra Relva — pra me oferecer um contrato? E que vídeo é esse?
Percebi que estava falando rápido demais.
— Encontrar boas vozes nunca é fácil — ela respondeu, com um sorriso calmo. — Mas temos nossos meios. E, sobre o vídeo… foi numa formatura, certo?
Ela abriu a pasta e tirou um notebook. Me inclinei imediatamente, curiosa. Quando a tela acendeu, um vídeo começou a rodar.
— Meu Deus… aquelas vacas! — soltei em português, passando a bacia de pipoca pra ela sem nem perceber.
Era eu.
No palco do concurso de talentos do ensino médio, no fim do ano passado.
— Onde você conseguiu isso?
— Um colega da gravadora me enviou. Antes disso… acredito que estava circulando pelo ICQ.
— Aquelas…
— Você canta muito bem — ela continuou, olhando para a tela. — Precisa de treino, claro. Mas com os professores certos… pode ir muito longe.
Olhei para ela, ainda desconfiada.
— E você é mesmo da Virgin Records?
Ela assentiu.
— A gravadora de The Rolling Stones, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Spice Girls?
— Vejo que você fez a lição de casa — ela sorriu.
Suspirei, devolvendo o notebook.
— Ainda é difícil de acreditar. Essas coisas não acontecem assim.
— Foi a única forma de te encontrar. Estamos tentando há quase um ano, senhorita.
Quase engasguei com a pipoca.
— Um ano?
— Queremos te tornar famosa.
Passei a mão no rosto.
— Isso é… muita coisa.
— Posso te provar. Tem algum responsável em casa?
Pisquei algumas vezes.
— Posso ligar pro meu pai.
— Brandon, venha — ela chamou, um pouco mais alto.
Um homem mais velho, gordo e barbudo, cheio de correntes douradas, saiu da BMW e se aproximou.
— Então é você o nosso próximo sucesso? — ele perguntou, estendendo a mão.
Olhei para ele… depois para ela.
Depois para o carro.
Depois para minha roupa.
— Eu… não sei.
Jessica e Brandon entraram em casa, e eu não consegui evitar um certo receio.
Eles ainda eram dois estranhos. E, por mais que dissessem trabalhar na Virgin Records… o que exatamente estavam fazendo na porta da minha casa?
Ok, eu cantava bem. Minha voz funcionava em “Thank You For The Music”… mas e daí?
Quantas pessoas no mundo também não cantavam bem?
Indiquei o sofá da sala para eles e deixei a pipoca ali, sem saber se estavam com fome — ou o que se fazia numa situação dessas.
Na verdade, eu não fazia ideia de como agir.
Corri para o quarto e liguei imediatamente para meu pai, que trabalhava em um restaurante no centro da cidade. Pedi que ele viesse para casa — disse que era uma emergência. Não dei detalhes.
Como pai solteiro, ele só respondeu que chegaria o mais rápido possível.
Soltei o ar devagar.
Antes de voltar, parei em frente ao espelho.
Eu sou… estranha.
Uso aparelho, óculos — não muito fortes, mas suficientes para esconder meus olhos castanhos — e meu cabelo era castanho, ondulado, sempre meio fora de controle.
Meu corpo também não ajudava. Eu tinha um metro e oitenta, ombros largos, postura ruim… e uma barriguinha que fazia questão de aparecer.
Nunca tive namorado.
E, pra ser honesta, eu nem sabia direito como lidar com isso.
Tinha 17 anos. Me fazia de forte.
Mas nem sempre era.
Ajeitei a blusa caída no ombro, respirei fundo algumas vezes e voltei para a sala, tentando parecer minimamente normal.
Antes de entrar, observei os dois novamente.
Brandon parecia… surpreendentemente tranquilo. Apesar da barba longa e das correntes, havia algo calmo nele. Se a barba fosse branca, poderia facilmente ser confundido com um Papai Noel alternativo.
Já Jessica…
Jessica era bonita. Muito.
Mas estava cansada.
O tipo de cansaço que não se esconde com maquiagem.
— Você voltou! — Brandon comentou.
Assenti e me sentei na poltrona.
— Então…?
Minhas mãos não paravam quietas.
— Queremos te oferecer um contrato, — ele disse.
Respirei fundo, arregalando os olhos.
— Desculpa, mas eu ainda estou desconfiada. Isso… não pode estar acontecendo. — franzi a testa. — Eu não sei nem como deixei vocês entrarem sem chamar a polícia.
Jessica sorriu de canto.
— Porque você é curiosa. Quer saber onde isso vai dar.
Pensei por um segundo… e suspirei.
— Posso conhecer melhor vocês antes?
— Claro.
Jessica se inclinou para frente, apoiando os braços nos joelhos.
— Meu nome é Jessica Stone. Tenho 42 anos. Sou formada em música pela Juilliard, em Nova York, com foco em produção musical. Também estudei administração, relações públicas e produção fonográfica em Los Angeles.
Arregalei os olhos.
— Trabalho há 22 anos com a Virgin Records. Meu foco é desenvolver e produzir novos artistas. Já trabalhei na produção de álbuns das Spice Girls, Mariah Carey e Lenny Kravitz.
— Nossa… — soltei, sincera. — Isso é… incrível.
Ela sorriu.
— Obrigada.
— Eu já sou menos impressionante — Brandon entrou na conversa, arrancando uma risada minha. — Não tenho formação acadêmica. Meu negócio é estúdio. Produção.
Assenti, interessada.
— Tenho 49 anos. Trabalho de forma independente — artistas me contratam para produzir músicas ou álbuns.
Ele deu de ombros.
— Talvez você conheça alguns: “Crazy in Love”, da Beyoncé… “Someday”, do Nickelback… “Fighter”, da Christina Aguilera.
— Isso é sério?! — praticamente pulei na poltrona.
Eles assentiram.
— Jessica me chamou pessoalmente pra trabalhar com você — ele completou.
Olhei para os dois, ainda tentando processar.
— Tá… supondo que isso seja real… como funcionaria?
Jessica respondeu:
— Primeiro, faríamos uma entrevista mais aprofundada com você. Entender seu estilo, seus gostos, sua identidade artística. Depois, montaríamos uma banda para te acompanhar.
Assenti, absorvendo tudo.
— Em seguida, vem a transformação — imagem, posicionamento, como você será apresentada ao público.
— Você também teria aulas de canto — Brandon completou — e, se quiser, de instrumentos.
— Depois disso — Jessica continuou — entramos na produção: composições, gravações, videoclipes, shows…
— Eu não sei escrever música — interrompi.
— Isso não é problema — ela respondeu imediatamente. — Temos compositores. Mas sempre baseamos as músicas em quem você é.
Aquilo me fez sorrir.
Me joguei para trás na poltrona.
— Isso é sério mesmo? Tipo… vocês não vão me sequestrar, roubar ou me matar?
Brandon riu alto.
— Se fosse esse o plano, a gente já tinha feito.
Ri também.
— Justo.
Passei a mão no rosto.
— Eu não sei o que fazer.
Jessica me observou com atenção.
— Então começa me dizendo quem você é.
Me ajeitei na poltrona.
— Eu sou .
Respirei fundo.
— Tenho 17 anos. Nasci e cresci em Relva, interior de São Paulo. Nunca saí muito daqui.
Eles ouviram em silêncio.
— Faço Letras em São Paulo. Viajo todo dia. Primeiro ano.
Dei de ombros.
— Eu… não vivi muita coisa ainda. Nunca namorei. Nunca fiz sexo. Não sou de festa.
Respirei.
— Mas eu gosto de cantar. Gosto de competir com minhas amigas no karaokê — ganhando, claro.
Brandon riu.
— E… se eu fosse famosa… — hesitei por um segundo — eu queria ser alguém que as pessoas gostassem de acompanhar. Não alguém que trata fã mal.
Mordi o lábio.
— Eu gosto de pop, rock, pop rock, punk… música brasileira… praticamente tudo.
Sorri, sem perceber.
— Amo bateria. Amo guitarra. Mas também amo um violino que arrepia… ou um sopro bem feito.
Respirei fundo.
— E amo música que dá vontade de dançar. Daquelas que você nem percebe e já está se mexendo.
Quando terminei, eu estava sorrindo.
Jessica também.
— Impressionante.
— O quê?
— Você viu isso tudo na sua cabeça, não viu?
Ri, sem graça.
— Já pensei nisso… muitas vezes.
— E se a gente não tivesse vindo?
Neguei na hora.
— Não é o tipo de sonho que gente como eu corre atrás.
Silêncio.
— E agora? — ela perguntou. — Você se daria uma chance?
Hesitei.
— Pessoas não dão muita atenção pra brasileiros lá fora… talvez fosse perda de tempo.
Jessica segurou minha mão.
— Eu vou te contar uma coisa que não deveria.
Franzi a testa.
— Eu saí da Virgin há três anos. Fui demitida.
Respirei fundo.
— Eu sou alcoolista.
Fiquei em silêncio.
— Eu bebia o tempo todo. Isso me destruiu.
Ela apertou minha mão.
— Mas quando encontraram seu vídeo… vieram até mim.
Olhei para ela.
— E quando eu te ouvi… eu soube.
Engoli em seco.
— Eu me internei.
Meu coração acelerou.
— Fiquei quase um ano em reabilitação… enquanto te procuravam.
Silêncio.
— Então não me diga que isso é perda de tempo — ela completou. — Porque eu estou disposta a nunca mais beber… pra te ver brilhar.
Senti algo apertar no peito.
— Você vai ser enorme, . Só precisa querer.
Respirei fundo.
— Eu… não sei o que dizer.
Ela sorriu.
— Não precisa.
Nesse momento, a porta da garagem abriu com força.
— Filha! Qual é a emergência?!
— Deixa eu ver se eu entendi… — meu pai levantou a mão, com aquele inglês travado de sempre, e respirou fundo. — Vocês querem fazer minha filha famosa?
— Na verdade, queremos produzi-la. A fama vem como consequência — Brandon respondeu.
Jessica revirou os olhos de leve e voltou a encarar meu pai.
— Sim. Queremos.
Meu pai se recostou no sofá e passou a mão pela cabeça, soltando o ar devagar.
Eu não sabia exatamente o que ele estava pensando… mas podia imaginar.
Meu pai tem 40 anos. Me criava sozinho desde que eu tinha seis meses.
Minha mãe foi embora assim que me desmamou.
Motivo? Nunca soube.
Onde ela estava? Também não.
E, sinceramente… não fazia diferença.
Ele sempre deu conta.
Entre um relacionamento ou outro, sempre trabalhou. É dono de um restaurante italiano no centro da cidade — que crescia junto com Relva.
A gente vivia em horários opostos.
Ele trabalhava de dia. Eu estudava à noite.
E funcionava.
Mas… se eu aceitasse aquilo…
Tudo mudaria.
Pra mim.
E pra ele.
Passei a mão no rosto, respirando fundo.
Os três me olhavam, esperando.
Suspirei.
Levantei.
— Até quando vocês ficam na cidade?
— Vamos embora amanhã — Jessica respondeu, levantando-se também. — Mas você pode nos ligar.
Assenti.
— Eu… preciso conversar com ele. — apontei para meu pai com a cabeça. — É um grande passo.
— Claro — ela disse, com um sorriso compreensivo.
Ela se aproximou e me entregou um cartão.
— Espero te ver novamente, senhorita do sobrenome diferente.
Ri.
— Não desperdice seus sonhos — ela completou, apertando levemente minha mão.
— Espero seu e-mail, — Brandon disse.
Assenti.
— Espero que receba.
Eles saíram.
A porta se fechou com um estalo.
Segundos depois, o ronco da BMW se afastou pela rua.
O silêncio ficou.
Virei para o meu pai.
Ele estava… parado.
Fui até ele e me sentei ao seu lado, passando os braços pela sua cintura e apoiando a cabeça em seu ombro.
Ele me abraçou de volta.
Ficamos assim por alguns segundos.
Dei o tempo que ele precisava.
Fazendo um carinho leve nas costas dele.
Até que ele se mexeu.
Se afastou um pouco, passou as mãos pelos olhos — que estavam levemente inchados — e sorriu.
— O quê? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Você tem que aceitar.
Arregalei os olhos.
— Pai…
— Lembra quando eu dizia que você era a minha estrela… e as pessoas riam?
Assenti, soltando uma risada pequena.
— Agora você vai provar que eu estava certo.
Não consegui segurar o sorriso.
O abracei forte.
Ele me apertou de volta.
— Pai…
Ele segurou meu rosto com as duas mãos.
— Você não fala… mas eu sei que você sonha com isso.
Engoli em seco.
— E você sonha porque pode.
Ele sorriu.
— Sua voz é linda.
Senti meus olhos arderem.
— Eu vou deixar essa decisão com você — ele continuou. — Você já é grande o suficiente pra escolher o seu caminho.
Assenti, emocionada.
Ele beijou minha bochecha.
— Preciso voltar pro restaurante. Mas pensa com carinho, tá?
— Tá.
— Eu te amo.
— Eu também te amo, pai.
Ele se levantou, ajeitou o terno e saiu pela porta da garagem.
A casa ficou em silêncio de novo.
Olhei para a mesa.
Para os livros.
Suspirei.
— Prova de literatura brasileira… — murmurei. — Nota zero.
Voltei para o meu quarto e fechei o livro de Machado de Assis. Com sorte, eu ainda lembraria alguma coisa sobre Capitu e Bentinho… ou, quem sabe, a professora deixaria usar o livro na prova.
Sonhar não custava nada.
Joguei o exemplar da biblioteca sobre a cama, limpei a escrivaninha e liguei o estabilizador e a CPU. O barulho alto do computador preenchendo o quarto já era familiar.
Sentei na cadeira e esperei.
Assim que iniciou, meu papel de parede apareceu: uma foto do Simple Plan.
Soltei uma risada fraca.
Aquilo podia muito bem ser o computador de outra pessoa.
Balancei a cabeça, afastando o pensamento, quando o ICQ abriu automaticamente. Dessa vez, não cliquei em “conectar”.
Fechei.
Abri o navegador.
“Jessica Stone.”
Enter.
A setinha do mouse girava enquanto eu prendia a respiração.
Quando a página carregou, os títulos vieram um atrás do outro:
“Jessica Stone está de volta à Virgin Records”.
“Jessica Stone é internada em centro de reabilitação”.
“Produtora é demitida por alcoolismo”
Arregalei os olhos.
Comecei a abrir os links, um por um.
Entre matérias soltas, encontrei um texto mais completo:
“Virgin Records e seus empresários: Jessica Stone”
Era de um blog de música — aparentemente de alguém relevante.
Li com atenção.
Falava sobre como ela começou cedo, sobre a habilidade absurda em produzir, empresariar… construir artistas.
Mas também dizia que ela era rígida.
Dura.
Franzi a testa.
Não parecia a mesma pessoa que estava sentada na minha sala mais cedo.
Ignorei.
Preferia formar minha própria opinião.
Continuei lendo.
O texto também mencionava o alcoolismo — mas ali, diferente das manchetes, falava da pressão da indústria. Do peso de descobrir artistas, de manter nomes grandes, de expectativas que nunca diminuíam.
Engoli em seco.
Rolei mais para baixo.
Fotos.
Algumas recentes — exatamente como eu a tinha visto: bonita, mas cansada.
Outras antigas.
Muito mais jovem.
Até uma com vinte anos.
E várias… com artistas que eu reconhecia.
Muitos.
Credenciais penduradas no pescoço. Bastidores. Shows. Eventos.
Senti um sorriso surgir sem perceber.
— Essa mulher é foda.
Fechei a página.
Voltei ao campo de busca.
“Brandon…”
Parei.
Eu nem sabia o sobrenome dele.
Pensei por um segundo e digitei:
“Brandon produtor Crazy in Love”
Enter.
A página carregou.
Uma matéria apareceu primeiro:
“Beyoncé lança nova música…”
No resumo, uma frase:
“…parceria com os produtores… Brandon Barret.”
Foquei no nome.
Voltei para a busca.
Cliquei em imagens.
A capa de Crazy in Love apareceu.
Digitei novamente:
“Brandon Barret”
Esperei.
E então abri uma foto.
Meu coração deu um pulo.
Era ele.
O mesmo homem que tinha sentado na minha sala algumas horas antes.
Em algumas imagens, mais novo. Barba menor. Sem tantas correntes.
Ri sozinha.
— Meu Deus…
Soltei uma gargalhada baixa, olhando para a tela.
Era real.
Tudo aquilo era real.
Passei a mão no rosto, ainda sem acreditar.
Cliquei na pasta de vídeos.
Abri um dos arquivos.
O concurso de talentos da escola.
Assim que o vídeo começou, eu sorri.
Eu lembrava daquele dia.
Do nervosismo.
Das mãos tremendo.
Até então, eu só tinha cantado em aniversários, natais… e algumas vezes no restaurante do meu pai.
Aquilo era diferente.
Era a primeira vez… de verdade.
A escola não era grande. A cidade também não.
Mas, naquele dia, parecia enorme.
Alunos de várias séries. Professores. Pais.
Gente demais.
Respirei fundo, só de lembrar.
E eu fui.
Mesmo com medo.
Meu olhar desviou para a estante.
O troféu ainda estava lá.
E os 300 reais… bem, esses tinham virado viagem de formatura com minhas amigas.
Sorri.
A comissão não era formada por produtores famosos.
Eram meus professores.
Matemática.
Educação física.
Português.
Mesmo assim… eles tinham ficado impressionados.
Lembrava deles vindo falar comigo depois.
Perguntando por que eu nunca tinha mostrado aquilo antes.
Um arrepio percorreu meu corpo.
Levei a mão ao rosto.
Uma lágrima escorreu.
Se eles acreditavam… era uma coisa.
Mas aquilo…
Aquilo era outra completamente diferente.
Produtores.
Uma gravadora gigante.
Gente que realmente entendia do assunto.
E eles acreditavam em mim.
E estavam dispostos a esperar.
Balancei a cabeça, tentando organizar os pensamentos.
Me joguei para trás na cadeira e encarei o teto.
— Eu não faço ideia do que fazer com a minha vida.
As duas gritaram ao mesmo tempo e eu até me assustei, olhando ao redor da lanchonete. Algumas pessoas encaravam a nossa mesa. Soltei uma risada fraca e tomei mais um gole do refrigerante.
— Isso é sério? — Marina perguntou, inclinando-se para frente.
— Pelo jeito, sim… — respondi. — Eu pesquisei sobre eles. São… incríveis.
— Meu Deus! Minha amiga vai ser famosa! — Lara praticamente pulou na cadeira.
— Calma! Eu ainda não aceitei nada!
— O quê?! — as duas gritaram de novo.
Revirei os olhos.
— Você não vai perder essa chance — Marina disse, firme. — Eu não vou deixar.
— Eu não sei, gente…
— Não! Não e não! — Lara bateu as mãos na mesa. — Uma das minhas melhores amigas tem chance de fazer sucesso no mundo todo e ainda fica pensando?!
Ri, sem graça.
— Olha a sua voz, !
Senti minhas bochechas esquentarem.
— Mas e se não der certo? — perguntei. — E se eles não gostarem de mim? E se eu virar cantora de um sucesso só?
Marina me encarou.
— Você tá cheia de “e se” negativo.
Ela apoiou os braços na mesa.
— Então deixa eu te dar um só.
Pisquei.
— E se der certo?
Meu corpo arrepiou.
Desviei o olhar.
— Eu não sei… existe um preconceito enorme com brasileiros lá fora.
— Não foi a Jessica que disse que faria de tudo por você? — Marina insistiu.
Suspirei e me joguei contra a cadeira.
— E outra — Lara entrou — você não tem nada a perder. O investimento é deles. Você só precisa estar lá.
— E se der errado com eles — Marina completou — alguém vai te ver.
Franzi a testa.
— E se eu não concordar com o que eles quiserem? Com as músicas, com a imagem…
Lara deu de ombros.
— Você faz o que todo mundo faz. Aceita no começo… e quando tiver poder, muda.
— Exato! — Marina concordou.
Balancei a cabeça, rindo.
— Vocês são práticas demais.
— Alguém precisa ser — Lara respondeu, sorrindo.
Marina então segurou minha mão por cima da mesa.
— Falando sério, … seu pai já te apoiou. A gente também.
Engoli em seco.
— Você pesquisou. Sabe que eles são reais.
Ela apertou minha mão.
— A única coisa te segurando… é você.
Assenti devagar.
Lara colocou a mão por cima das nossas.
— Só não esquece da gente quando ficar famosa.
Sorri.
— Impossível esquecer você, Lara.
— Ainda bem — Marina riu. — Porque alguém precisa te lembrar de quem você era.
— Ei! — Lara fingiu indignação, e nós três rimos.
Voltamos a comer.
Batata frita, lanche, refrigerante.
Normal.
Mas nada parecia normal.
“Mudar.”
A palavra da Jessica voltou à minha cabeça. O que exatamente ela queria dizer com aquilo? Entre tudo que passava pela minha mente, uma coisa era clara: não existiam famosos “comuns”. Até os mais… diferentes… tinham algo.
Presença.
Imagem.
Algo que chamava atenção.
E eu?
Olhei para minhas mãos.
Suspirei.
— Eu sempre achei que nunca teria chance.
As duas me olharam na hora. Lara ainda mastigava batata quando respondeu:
— Talvez.
Engoli em seco.
— Mas agora você tem.
Ela apontou levemente pra mim.
— E você vai agarrar isso com tudo.
Sorriu.
— Porque você consegue.
Senti meu corpo arrepiar.
Assenti.
Soltando o ar devagar.
— Toc, toc!
Virei o rosto e dei de cara com meu pai encostado na porta.
— Ei! — respondi, largando o lápis e ignorando o espanhol por um momento.
— Posso entrar?
Franzi a testa.
— Alguma vez eu te impedi?
Ele riu baixo, entrou e se sentou na minha cama, abotoando as mangas da camisa social.
— Por que você tá tão misterioso?
Ele passou a mão pelos cabelos grisalhos.
— Amanhã eu vou pra São Paulo, ver uns fornecedores… e quero que você vá comigo.
— Pai, eu amo comer, mas odeio visitar fornecedor — resmunguei, arrancando uma risada dele.
— Eu sei — ele sorriu. — Mas você vai.
Joguei a cabeça para trás.
— Por quê?
Ele me encarou.
— Porque eu marquei pra você tirar passaporte e visto.
Meu coração deu um pulo.
— Pai…
Ele se levantou e veio até mim.
— Você vai, filha. E eu não vou ser o cara que impediu você de realizar o seu sonho.
Engoli em seco.
— Mas e você?
Ele sorriu de lado.
— Eu sei o que você tá pensando.
Abaixou-se na minha frente, segurando minhas mãos.
— Você tá com medo de me deixar sozinho.
Não respondi.
Não precisava.
— Eu vou ficar bem — ele disse, firme. — Já aguentei coisa pior.
Apertei as mãos dele.
— Então vem comigo.
Ele negou, sorrindo.
— Não. Isso você vai encarar sozinha.
Suspirei.
— Você vai ficar bem mesmo?
— Claro que vou. Não sou tão fraco assim… — ele fez uma pausa — …nem tão velho.
Revirei os olhos.
— Pai, eu tô falando sério.
— Eu também.
Ele sorriu, mais calmo agora.
— Imagina daqui a alguns anos… eu indo te visitar, e você ocupada com show, entrevista, sessão de fotos…
Mordi o lábio, rindo baixo.
— Eu sempre vou ter tempo pra você.
— E pras suas amigas — ele completou.
— Principalmente pra elas.
Ele riu.
Depois ficou sério e sentou-se novamente na cama.
— Posso te pedir uma coisa?
— Claro.
Ele me olhou com atenção.
— Não muda quem você é.
Meu peito apertou.
— Você é humilde, batalhadora, alegre… — ele continuou — autêntica.
Engoli em seco.
— Não perde isso, tá?
Assenti.
— Dá valor pra quem estiver com você… e, principalmente, pra quem te amar de verdade.
Apertei os lábios.
— E nunca esquece de onde você veio.
— Nunca — respondi, sincera.
Ele sorriu.
— E quando tudo isso acontecer… — fez um gesto vago com a mão — cuidado. Você vai chamar atenção.
Franzi a testa.
— Não entra em escândalo, não se perde no meio disso.
— Até parece que você não me conhece.
Ele riu.
— Conheço… por isso mesmo tô falando.
Se levantou.
— Vou voltar pro restaurante. Mas parece que você também tem coisa pra fazer.
Olhei para o livro na mesa.
— Pois é… boa sorte pra mim.
— Ah — ele completou, já na porta — não esquece de mandar o e-mail pra Jessica.
— Era isso o misterioso?
Ele deu de ombros… e saiu.
Fiquei alguns segundos em silêncio, depois ri. Liguei o computador novamente, peguei meu Nokia 1100 e mandei a mesma mensagem pra Lara e Marina:
“Eu vou pra Hollywood!”
Ri sozinha.
Voltei para a tela, abri o e-mail, peguei o cartão da Jessica no porta-lápis e encarei o endereço.
Respirei fundo.
Quase um mês.
Será que ainda dava tempo?
Abri uma nova mensagem.
Pensei em escrever algo bonito.
Formal.
Perfeito.
Não escrevi.
“Ainda me querem? Porque eu aceito.”
Enviei.
Sem pensar duas vezes.
Fechei os olhos.
Agora… era esperar.
Mas não demorou, um som alto veio das caixas de som.
Abri os olhos.
Resposta.
“Pela sua demora, você parece ser uma pessoa bem racional. Quando te vejo?”
Ri, incrédula.
Respondi rápido:
“Vou tirar passaporte e visto amanhã. Pode demorar alguns dias.”
Outra resposta.
Quase imediata.
“Vou providenciar uma carta explicando sua vinda. Isso ajuda com o visto. E um contrato de trabalho provisório — não é o definitivo.”
Suspirei, aliviada.
“Obrigada! Vou esperar.”
Mais um e-mail.
“Posso preparar sua chegada?”
Sorri.
“Com certeza.”
Me joguei na cadeira.
Outro som.
“Quando estiver tudo pronto, me avise para reservar sua passagem. Por nossa conta.”
Arregalei os olhos.
Sorri.
“Pode deixar. Tô animada.”
Mais um.
Atualizei a página.
E então li:
“Acredite… nós também.”
Me joguei na cadeira.
Sorrindo.
— Não chora! — falei, firme.
Meu pai assentiu, puxando o ar com força.
— É impossível…
Ele me abraçou, apertando meu corpo contra o dele. Passei os braços pela sua cintura.
— Se cuida, tá? — ele murmurou. — E me mantém informado… é só isso que eu peço.
— Pode deixar, pai.
Respirei fundo.
— Assim que eu chegar, vou tentar comprar um chip de lá… e um computador pra gente se falar.
Ele sorriu, mesmo com os olhos vermelhos, e beijou minha bochecha.
— Por favor.
Assenti.
— Eu coloquei dinheiro na sua conta — ele continuou. — Usa o cartão, não pensa duas vezes.
— Tá bom.
— Fique bem, minha querida — minha avó disse, me puxando para um abraço apertado.
Sorri, me abaixando um pouco para envolvê-la.
— Seu pai vai ficar bem.
Assenti, sentindo o nó na garganta apertar.
— Obrigada, vovó.
Ela beijou minha bochecha.
— Pode deixar.
— E não esquece da gente! — Lara apareceu já me abraçando junto com Marina.
Ri, mesmo com os olhos ardendo.
— Nunca!
Abracei Lara primeiro. Ela segurou meus ombros e me olhou nos olhos.
— A gente confia em você. Não deixa ninguém te diminuir só porque você ainda tá aprendendo.
Engoli em seco.
— Você vai aprender. E vai ser a melhor.
Sorri, emocionada.
Marina me puxou em seguida, escondendo o rosto no meu pescoço.
— Eu nunca achei que isso ia acontecer… — ela murmurou. — A gente sempre planejou tudo juntas…
Fechei os olhos.
— Mas essa é a sua vez — ela continuou, se afastando para me olhar. — E você vai dar conta.
Respirei fundo.
— Promete que quando você voltar… vai ser com a gente aqui te esperando… e um monte de gente querendo seu autógrafo?
Ri, entre lágrimas.
— Eu prometo.
Passei a mão no rosto, tentando me recompor.
— Vai, filha — meu pai chamou, olhando o relógio. — Já liberaram o embarque.
Assenti.
— Eu amo vocês.
Ele me abraçou de novo — mais forte dessa vez. E agora ele chorava.
— Eu também, meu anjo.
Me soltou devagar. Olhei para a passagem na minha mão, respirei fundo e ajustei a mochila nas costas, segurei a bolsa... e fui.
Entrei na fila do embarque internacional, caminhando devagar. Cada passo parecia mais pesado que o outro. Eu estava indo. Só… não sabia quando voltaria.
— Boa tarde — a atendente disse.
Entreguei a passagem, tentando segurar as lágrimas.
— Pode passar.
Dei um passo.
Mas parei.
Olhei para trás.
Meu pai. Minha avó. Lara. Marina.
Todos com os olhos vermelhos.
Tentando sorrir.
Assim como eu.
Levantei a mão, eles fizeram o mesmo, sorrisos tremidos, olhos brilhando...
Respirei fundo.
Fechei os olhos por um segundo.
E virei de volta.
— Vai lá e arrasa, !
A voz da Lara me fez olhar mais uma vez. Soltei uma risada leve, mesmo chorando.
Sorri.
E segui.
Entrando na sala de embarque, com as lágrimas finalmente livres.
Puxei minha mala pesada assim que passei pela imigração e segui pelos corredores do LAX, acompanhando as placas em direção à saída. Jessica tinha dito que alguém estaria me esperando, mas não disse quem, nem como eu reconheceria.
Suspirei.
Tudo bem.
Eu estava em Los Angeles.
As portas automáticas se abriram quando me aproximei, revelando um mar de pessoas esperando outras pessoas. Motoristas com placas. Famílias. Abraços. Reencontros.
Passei os olhos pelo lugar, ajeitando o cabelo — que devia estar um desastre depois da viagem — e dei alguns passos para o lado, tentando não atrapalhar o fluxo.
— !
Ouvi meu nome — ou algo bem próximo disso.
Virei o rosto na direção da voz e soltei o ar. Jessica estava do outro lado, segurando uma placa com meu nome.
Sorri na hora.
Atravessei a pequena multidão até ela, vendo-a abrir um sorriso enquanto se aproximava e já esticava a mão para pegar minha mala.
— É bom te ver — ela disse, passando um braço pelos meus ombros.
— É bom estar aqui — respondi, ainda meio sem acreditar. — Demorei muito?
— Nada — ela sorriu. — Vem, tem um carro esperando.
Assenti e comecei a andar ao lado dela, olhando tudo ao redor, tentando absorver cada detalhe.
— Bom dia! — um homem, na casa dos trinta, nos cumprimentou.
Sorri.
— , esse é o Juan — Jessica disse. — Ele vai ser seu motorista aqui em Los Angeles, quando precisar.
— Oi! — falei, um pouco sem saber como agir, estendendo a mão.
Ele sorriu e apertou com firmeza.
— Prazer, senhorita.
— Prazer!
— Posso pegar suas coisas? — ele perguntou, com um forte sotaque espanhol.
Assenti, entregando a bolsa e tirando a mochila das costas. Observei enquanto ele colocava tudo no porta-malas. Jessica abriu a porta de trás para mim. Entrei, ajeitando o cinto.
— Espero que goste daqui, — ela disse, fechando a porta.
Respirei fundo.
— Eu também.
O carro começou a se mover.
— Foi difícil a despedida?
Assenti.
— Foi…
Desviei o olhar e abaixei um pouco o vidro. O ar diferente entrou, olhei para fora e tudo parecia… maior.
— Você deve estar cansada — Jessica comentou.
— Um pouco. Mal dormi.
Ela assentiu.
— A gente resolve isso.
O celular dela tocou logo em seguida.
Enquanto ela atendia, voltei minha atenção para a janela.
Prédios.
Carros.
Placas.
Um mundo completamente diferente.
Encostei a cabeça no banco, ainda sem acreditar que eu estava mesmo ali.
Eu não conhecia muito de Los Angeles pra saber exatamente por onde estávamos passando. Mas o trajeto do aeroporto até o nosso destino levou quase quarenta minutos — o suficiente pra me deixar um pouco assustada com o tamanho da cidade.
Assim que saímos do aeroporto, vi as letras gigantes do LAX, aquelas mesmas dos filmes.
E sorri.
Agora tinha caído a ficha.
Eu estava mesmo ali.
O restante do caminho foi quase todo por avenidas largas e vias expressas. Carros passando rápido demais, prédios surgindo e desaparecendo antes que eu pudesse realmente observar.
Mesmo assim, deu pra notar a mudança.
As ruas começaram a ficar mais bonitas. Mais verdes. Casas e prédios com uma arquitetura moderna, jardins bem cuidados… tudo parecia mais… caro. Eu não fazia ideia de onde estava, mas, sinceramente, não importava.
— Nessa rua fica a gravadora — Jessica apontou, enquanto parávamos no semáforo.
Olhei para o lado.
Prédios empresariais, todos imponentes.
Engoli em seco.
Seguimos mais algumas quadras antes de Juan virar à direita e parar na portaria de um condomínio.
Tentei ler o nome.
Park Brea LA Apartments.
Arregalei os olhos.
Aquilo era enorme.
Não… enorme não.
Era uma cidade.
Torres altas, ruas internas, carros circulando, pessoas andando, crianças brincando. Fiquei olhando tudo, meio perdida, enquanto o carro avançava até parar em frente a uma das torres.
Saí ao lado de Jessica, ainda absorvendo tudo.
— Pode subir as malas, Juan? — ela pediu.
— Claro, senhorita.
— Obrigada! — falei, acenando.
Jessica já estava entrando quando percebi, então apressei o passo para acompanhá-la. O hall era espaçoso, moderno, bonito demais.
— Entra — ela disse, já dentro do elevador.
Entrei e vi o número 12 acender.
O elevador subiu rápido — rápido demais.
Senti uma leve vertigem.
As portas se abriram. Jessica saiu na frente, tirando uma chave do bolso enquanto caminhava pelo corredor.
Quatro portas.
Ela parou em uma.
112.
— Espero que goste.
A porta se abriu.
E eu parei.
Você entrava direto na sala.
Sala de estar e jantar integradas, tudo organizado, bonito, silencioso.
Mesa de vidro.
Sofá claro.
Televisão de tela fina.
Móveis escuros contrastando com o resto.
Aquilo… não parecia real.
— Vai, pode olhar — Jessica incentivou.
Fui direto para a primeira porta.
Cozinha.
Completa.
Armários planejados, eletrodomésticos que eu só tinha visto em loja, tudo limpo, organizado.
Voltei.
Outra porta.
Banheiro.
Simples, mas perfeito.
Mais uma.
O quarto.
Cama de casal.
Tapete claro.
Abajures.
E um móvel com porta-retratos… vazios.
Aquilo me deu uma sensação estranha.
Como se estivesse esperando alguém.
Abri outra porta.
Closet.
Espaçoso.
Com roupas de cama e toalhas já organizadas.
Respirei fundo.
Voltei para a sala.
Jessica estava ali, com Juan e minhas malas. Olhei para ela, ainda tentando entender.
— E aí? Gostou?
Ri, meio sem reação.
— Gostei… mas… o que é isso?
Ela sorriu.
— Sua nova casa, .
Meu coração disparou.
— O quê?
— Um dos apartamentos da gravadora — ela explicou. — É seu pelo tempo que precisar. E você não paga nada.
Passei a mão na testa, tentando processar.
— Meu Deus…
— Regras básicas — ela continuou, prática. — Sem barulho depois das dez, pode ter animais, interfone na cozinha, telefone na sala com ligação internacional…
Assenti, ainda meio aérea.
— Tem comida, tudo funcionando… e — ela estendeu o cartão — meu número.
Peguei.
— Obrigada… por tudo.
Ela me abraçou.
— É o mínimo.
Se afastou, segurando meu rosto com as mãos.
— Quero que você se sinta em casa. E pode falar comigo sobre qualquer coisa.
Assenti.
— Obrigada.
— Agora descansa. Amanhã a gente começa.
Ela caminhou até a porta.
— Espero que goste daqui — Juan disse.
— Eu já gostei — respondi, sorrindo.
Eles saíram.
A porta se fechou.
Silêncio.
Fiquei parada no meio da sala, olhei em volta.
Sofá.
Mesa.
Janela.
Minhas malas.
Minha vida.
Soltei o ar devagar. Eu estava sozinha em Los Angeles no meu apartamento. E, pela primeira vez desde que cheguei… aquilo tudo pareceu real.
Virei meu corpo na cama e percebi que tinha girado um pouco mais do que o costume, o que me assustou. Abri meus olhos imediatamente e soltei a respiração forte, finalmente me encontrando.
Eu não estava em Relva. Eu estava em Los Angeles.
Passei a mão pela testa e me sentei na cama, pegando meus óculos ao lado. Dei uma olhada naquele quarto que parecia gigante para mim. Não que eu morasse em um cubículo no Brasil, mas pela decoração e pelo espaço vazio, tudo parecia muito maior.
Joguei a coberta para o lado e saí da cama de casal, encontrando o notebook jogado no chão. Aquilo era praticamente novo para mim. Eu nunca tinha visto algo daquele tamanho.
Desamassei minha calça de moletom e arrumei a cama. Se eu realmente fosse morar sozinha, pelo menos tentaria me manter organizada.
Peguei o aparelho no chão e coloquei sobre a cama, ligando-o novamente. Provavelmente eu tinha deixado minhas amigas falando sozinhas no ICQ na noite passada. E agora elas deveriam estar dormindo.
Olhei para o relógio em uma das mesas de cabeceira e vi que era pouco depois das nove da manhã. Ainda era relativamente cedo.
Peguei minha mala e minha mochila, que estavam jogadas em um canto do quarto, e coloquei tudo sobre a cama, abrindo-as.
Comecei a separar minhas roupas por categorias: blusas de manga comprida, camisetas, regatas. Shorts, calças jeans, calças de moletom, roupas de ginástica, roupas íntimas, roupas de banho e calçados.
Eu literalmente tinha limpado meu armário em Relva. Tinham sobrado apenas algumas roupas mais antigas.
Entrei no closet e acendi a luz. Aquele lugar era enorme.
Minhas roupas pareciam poucas demais para aquele espaço, mas suspirei e comecei a organizar tudo. Depois de algumas idas e vindas entre o quarto e o closet, consegui ajeitar minhas coisas nas prateleiras.
Provavelmente mudaria tudo depois de alguns dias, mas por enquanto estava bom.
Coloquei meus tênis, sandálias e rasteirinhas em uma das prateleiras que parecia ter sido reservada para isso. Tinham umas doze ao todo, de cima a baixo, e eu usei apenas duas para sapatos e três para roupas, além das gavetas onde guardei minhas calcinhas, sutiãs e meias.
Voltei para o quarto e tirei alguns produtos de beleza que eu tinha trazido do Brasil na mochila: sabonetes, cremes, xampus, condicionadores, maquiagem e um secador de cabelo.
Atravessei o pequeno corredor e entrei no banheiro. Ele também era enorme e tinha um armário embaixo da pia, onde coloquei tudo.
Fiquei feliz quando encontrei alguns rolos de papel higiênico.
Aquele apartamento realmente estava preparado para mim.
Voltei para o quarto e guardei a mala no fundo do closet, fechando a porta em seguida. Dei uma volta pelo quarto, conferindo se tudo estava minimamente organizado.
Aparentemente, sim.
Soltei um suspiro e fui até o computador, encontrando um e-mail do meu pai e algumas mensagens das minhas amigas que eu claramente não tinha respondido na noite passada.
Respondi primeiro meu pai.
Ele queria saber como tinha sido o voo, se eu estava gostando de tudo e como eu estava me sentindo.
Falei que estava tudo bem até agora e que eles tinham praticamente me dado um apartamento.
Era isso que parecia.
A resposta dele chegou logo depois. Ele estava surpreso com a preocupação que estavam tendo comigo e esperava que aquilo continuasse por bastante tempo.
Escrevi um novo e-mail desejando bom dia, apesar de que no Brasil já era quase hora do almoço, e falei que estava um pouco perdida sobre o que aconteceria naquele dia, mas que estava tudo bem.
Fechei o notebook novamente e calcei meus chinelos.
Eu ainda não sabia como lavaria minhas roupas, mas esperava que elas demorassem para sujar.
Abri a porta do quarto e fui até a sala, pensando no que eu poderia tomar de café da manhã. Os americanos tinham uma alimentação um pouco diferente da minha, mas me lembrei do cereal.
Serviria por enquanto.
— Bom dia!
Me assustei, erguendo o rosto e encontrando Jessica sentada no sofá da sala de TV com diversos papéis em sua frente.
Coloquei a mão no peito, sentindo minha respiração acelerar.
— Pelo amor de Deus...
— Pode se acostumar! Isso vai ser frequente — ela falou, abrindo um sorriso.
Suspirei e me aproximei.
— Você poderia ter me avisado ontem.
— Assim não teria tanta graça.
Revirei os olhos, mas acabei soltando uma risada fraca.
— Ok, está valendo! — falei, suspirando. — A gente tem algum compromisso hoje? — perguntei.
Ela se levantou, juntando alguns papéis em cima da mesa.
— Vários! — respondeu. — Mas acho que você merece um café da manhã primeiro.
Afirmei com a cabeça e ela apontou em direção à cozinha.
— Eu espero.
Passei por Jessica e entrei na cozinha, dando uma olhada rápida nos armários. Encontrei o cereal que eu tinha pensado pouco antes e abri a geladeira, encontrando também uma garrafa de leite.
Coloquei o cereal em uma vasilha e enchi um copo com leite, levando-o ao micro-ondas por alguns segundos. Enquanto esperava, fui guardando as coisas que tinha tirado do lugar.
Assim que o aparelho apitou, coloquei o leite sobre o cereal e misturei com uma colher de açúcar.
Peguei a tigela e voltei para a sala, onde Jessica estava novamente sentada no sofá, revisando seus papéis.
Sentei na poltrona, erguendo meus pés e comecei a comer.
— O que temos para hoje? — perguntei.
Ela virou o rosto para mim por um momento, mas logo voltou sua atenção aos documentos.
— Você vai ter uma reunião com Patrick Wilson hoje. — Franzi a testa, colocando mais uma colherada na boca.
— Ok... — falei, ainda tentando entender.
— Ele é o atual presidente da Virgin Records de Los Angeles.
Arregalei os olhos, surpresa.
— Foi a equipe dele que encontrou você e é a ele que você responde financeiramente e administrativamente. — Ela soltou uma risada fraca. — Que, no caso dele, é praticamente a única coisa que importa. Dinheiro.
Dei uma pequena risada.
— Economia e música não combinam muito bem. — Ela suspirou. — Mas ele é o chefe, então... fazer o quê?
Abaixei a tigela, apoiando-a no colo.
— E o que eu devo esperar dessa reunião?
Jessica nem levantou os olhos dos papéis.
— Muito nariz empinado e arrogância.
Soltei um suspiro e coloquei a tigela na mesa de centro. Passei as mãos uma na outra, estralando os dedos, enquanto me levantava.
Eu estava pensando se deveria falar ou não o que estava passando pela minha cabeça.
— O quê? — ela perguntou, finalmente olhando para mim.
— Eu sou esquentada, Jessica. — Peguei a tigela novamente. — Eu não levo desaforo para casa.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— E por que você está me dizendo isso?
— Porque, se ele começar a falar besteira, eu provavelmente vou responder à altura. — Jessica abriu um pequeno sorriso.
— Vai ser interessante para ele ver alguém realmente lutando pelo que quer. — Franzi a testa.
— Como assim?
Ela colocou os papéis sobre a mesa e se levantou.
— Digamos que a Virgin tem um certo status.
— Sim, é famosa por ser uma das melhores gravadoras do mundo.
— Exatamente. — Ela suspirou.
— E isso atrai muitas pessoas com dinheiro. Pais ricos que enxergam um simples talento em um filho e querem transformar isso em investimento.
Ela caminhou até o corredor e fez um gesto para que eu a acompanhasse.
— Então eles colocam dinheiro na gravadora, nós fazemos o filho ficar famoso e pronto. — Franzi a testa.
— E isso é ruim?
— É que normalmente não dura muito. — Ela me soltou e apontou para o quarto. — Então, , você está fazendo parte de uma pequena revolução.
Pisquei algumas vezes.
— Como assim?
— Você é uma das primeiras pessoas a ser contratada por talento bruto e não por dinheiro. — Ela deu de ombros. — Você não entrou aqui trazendo investimento. Nós entramos investindo em você. Esperando que o retorno seja milhões de vezes maior do que uma passagem, moradia e aulas.
Balancei a cabeça, tentando absorver aquilo.
— Ok... e daí?
— Daí que ele está um pouco incomodado com isso. Dinheiro entrando é sempre melhor do que dinheiro saindo, certo?
Ela sorriu de lado.
— Mas eu acredito em você.
Suspirei.
— Tá bom.
Ela apontou novamente para o quarto.
— Agora vai se trocar.
— E eu visto o quê? — Jessica soltou uma risada.
— O que você usaria na sua casa.
Entrei no closet e suspirei ao olhar em volta.
Estava calor em Los Angeles. Era julho, então eu podia usar algo mais leve, mas não queria abusar. Shorts eram o que eu usaria em casa, mas talvez não fosse a melhor ideia para uma reunião.
Passei pelos meus vestidos pendurados e abri um sorriso.
Meus vestidos eram simples. A maioria tinha flores ou estampas coloridas e todos iam até o joelho, comprados em lojas comuns no Brasil.
Eu não era uma pessoa de marcas. Não por não gostar, mas porque não fazia sentido gastar quinhentos reais em uma blusa quando eu poderia gastar vinte e comprar várias.
Escolhi um vestido azul com desenhos de folhas em um tom mais escuro e me olhei no espelho.
Respirei fundo, inclinando a cabeça para o lado.
Era simples. Mas era eu.
Abaixei o corpo e coloquei uma rasteirinha, quase perdendo o equilíbrio e precisando me apoiar na parede.
Saí do closet e Jessica me olhou de cima a baixo, assentindo com um sorriso.
— Está boa.
Sorri e segui até o banheiro.
Primeiro, passei fio dental e escovei os dentes. Deixei meu sorriso o mais bonito possível. Era complicado usar aparelho fixo, mas eu fazia o meu melhor. Olhei para meu cabelo no espelho e passei a escova, percebendo tarde demais que tinha feito uma péssima escolha. Meu cabelo era ondulado. Ou seja: eu tinha acabado de deixá-lo enorme. Franzi a testa e peguei uma presilha que estava jogada por ali, prendendo meu cabelo para trás.
Passei corretivo nas espinhas mais visíveis do rosto, pelo menos tentando disfarçar um pouco. Não perderia meu tempo com base. Demoraria demais. Passei um lápis escuro nos olhos e um batom discreto nos lábios, apenas para hidratá-los. Saí do banheiro e fechei a porta.
— O que acha? — perguntei.
Jessica me olhou por alguns segundos e abriu um sorriso.
— Acho que está ótima. — Assenti.
— Vamos, então.
Ela começou a sair do apartamento e eu só tive tempo de pegar minha bolsa, jogar meu celular e meu passaporte dentro dela antes que o elevador quase fechasse na minha frente.
Juan estava lá embaixo nos esperando novamente. Ele era uma pessoa simpática. Enquanto Jessica permanecia fechada, focada em seu celular que abria para cima, com tela colorida, teclado completo e várias funções que eu achava incríveis, ele conversava comigo. Mostrava lugares, dava dicas de restaurantes e comentava sobre a cidade.
Não que tivéssemos muito tempo para conversar. Assim que saímos do condomínio, ele virou à esquerda, depois à esquerda novamente, seguiu por uma avenida por alguns minutos e entrou na Wilshire Boulevard, parando pouco tempo depois.
Com certeza passamos mais tempo esperando naquele semáforo lá atrás.
Desci do carro animada e dei uma olhada ao redor. O prédio ao nosso lado era feito de granito marrom e vidros escurecidos. A arquitetura era diferente, quase como se tivesse sido construída em camadas, cada uma mais alta que a anterior.
Logo notei alguns carros de luxo estacionados por perto. Apesar disso, eu tinha acabado de sair de uma BMW Série 5 preta, modelo 2004. Então, provavelmente, o grupinho do outro lado da rua estava tão impressionado comigo quanto eu estava com eles.
Do outro lado da avenida havia um shopping. Não daqueles enormes que encontramos por aí, mas uma galeria cheia de lojas e restaurantes. Fiquei feliz ao ver uma Starbucks. Seria útil nos dias em que eu estivesse com preguiça de preparar café da manhã.
— Vamos! — Jessica chamou.
Acenei para Juan e a segui através das portas do prédio.
Entramos imediatamente em um elevador. Jessica apertou o botão do segundo andar e aproveitei o trajeto para observar os detalhes do lugar. Assim que as portas se abriram, vi o enorme logo vermelho da Virgin Records e não consegui evitar um sorriso.
Aquilo estava realmente acontecendo.
Jessica cumprimentou a recepcionista, e eu fiz o mesmo. Ela era bonita, tinha cabelos pretos brilhantes e usava um vestido vermelho justo. Por um instante fiquei imaginando se esperavam que eu me vestisse daquele jeito. Se fosse o caso, teríamos sérios problemas.
Mas deixei isso para depois.
Assim que passamos pela recepção, chegamos a um grande salão. E quando digo grande, quero dizer enorme. Devia ocupar boa parte do andar e, pelas placas que eu tinha visto do lado de fora, aquele prédio ainda tinha muito mais espaço.
Havia sofás espalhados pelo ambiente, pessoas conversando, outras andando de um lado para o outro. A maioria parecia relaxada. Ninguém ali devia estar tão nervoso quanto eu.
Respirei fundo.
Ao redor do salão, várias portas exibiam placas vermelhas indicando seus destinos: sala de produtores, escritórios, estúdios de gravação, salas de ritmo, estúdio de orquestra, banheiros e tantas outras coisas que eu nem tive tempo de ler direito.
— Ei, Brandon! — Jessica chamou. Virei o rosto na direção dele.
— Olha só, ela veio! — Brandon disse.
Apressei o passo para alcançá-los. Ver um rosto conhecido me deixou imediatamente mais tranquila.
— Como está? — ele perguntou, estendendo a mão. Em vez de apertá-la, bati na palma dele.
— Um pouco nervosa, mas estou bem — respondi, sorrindo.
— É isso que eu gosto de ouvir.
— Vai participar da reunião? — Jessica perguntou.
— Nem a pau. Tenho que terminar umas mixagens com o D. — Ele deu de ombros. — Mas quem sabe um almoço mais tarde? — voltou-se para mim. — Gosta de comida mexicana?
Franzi a testa.
— Nunca comi, na verdade. Mas não sou fresca para comida. — Ele riu.
— Ah, vou gostar de você. — Sorri.
— Vai dar tudo certo.
— Espero que sim.
— Stone!
Eu e Jessica viramos a cabeça ao mesmo tempo.
Um homem mais velho se aproximava. Devia ter mais ou menos a idade dela. Usava terno e tinha uma expressão séria o suficiente para fazer qualquer um se endireitar na cadeira.
— É ele? — sussurrei.
— Não. Mas vamos. — Segui ao lado dela, tentando manter a calma.
— Você está atrasada — o homem comentou.
Jessica nem piscou.
— Eu estaria atrasada se alguém tivesse estipulado um horário.
Ela suspirou.
— Cadê seu pai? Fui chamada para falar com ele, não com você.
Precisei me esforçar para não soltar um "toma".
— Essa é ela? — ele perguntou, olhando para mim. Franzi a testa.
— "Essa" tem nome, senhor. É .
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me analisando de cima a baixo.
— Sou Brent. Prazer, senhorita . — Assenti.
— Prazer.
— Vamos entrar.
Ele apontou para a porta.
Jessica entrou primeiro e eu fui logo atrás.
A sala era comprida e estreita. Havia uma mesa de vidro cercada por poltronas de couro preto e, mais à frente, uma pequena mesa de centro entre dois sofás.
O senhor que eu imaginava ter vindo conhecer estava sentado em um deles. Parecia relaxado, mas seus olhos permaneciam atentos à televisão presa na parede.
Tinha cabelos brancos e volumosos, algumas rugas marcando o rosto, mas ainda passava uma imagem forte. Considerando que era pai do tal Brent, estava muito bem.
Assim que entramos, ele se levantou e ajeitou o paletó antes de nos cumprimentar.
— Patrick! — Jessica disse, apertando sua mão.
— Jessica.
Ele retribuiu o cumprimento e voltou a atenção para mim.
— Você deve ser , certo?
Ele tropeçou um pouco no meu sobrenome e eu assenti, segurando a risada.
— Acho que pronunciei errado.
— Está tudo bem.
Apertei sua mão.
— Sentem-se.
Nos acomodamos. Jessica e eu ficamos no mesmo sofá, enquanto Brent sentou ao lado do pai.
— Eu sou Patrick Wilson, . Imagino que já tenha ouvido falar de mim.
— Sim. Por um momento achei que fosse aquele ator. — Soltei a resposta sem pensar. Patrick riu de leve.
— Isso acontece bastante. — O tom sério voltou quase imediatamente.
— O que ouviu falar sobre mim?
— Que você é o diretor da Virgin Records e que, provavelmente, vou responder mais a você do que a qualquer outra pessoa.
— Só isso?
Mentira.
Mas assenti mesmo assim.
— E sabe o que isso significa?
— Que você é responsável pelo investimento em mim. Em outras palavras, é você quem está gastando dinheiro comigo.
Pela expressão dele, a resposta pareceu agradá-lo.
— E você acredita merecer esse investimento?
Percebi Jessica se mover discretamente ao meu lado.
— Com todo respeito, senhor, acho que essa pergunta deveria ser respondida por você.
Patrick arqueou uma sobrancelha.
— Desculpe?
Me ajeitei no sofá.
— Vocês vieram atrás de mim, não o contrário.
O silêncio tomou conta da sala.
— Eu estava vivendo minha vida no Brasil quando bateram na minha porta oferecendo uma oportunidade. Não sou idiota, então aceitei ouvir. Mas foram vocês que vieram até mim.
Ninguém disse nada.
Nem Patrick. Nem Brent. Nem Jessica. Então resolvi ficar quieta também.
Talvez eu tivesse sido sincera demais.
Jessica tinha feito um certo terrorismo psicológico sobre Patrick Wilson, mas, até aquele momento, ele parecia apenas alguém acostumado a tomar decisões difíceis.
— Quero que me convença de que estou investindo bem.
Inclinei a cabeça.
— Você não está feliz por eu estar aqui, está?
— ... — Jessica começou.
Levantei uma mão.
— Não é fácil encontrar um talento fora dos Estados Unidos e ter que engolir o próprio orgulho, certo?
Patrick permaneceu em silêncio.
— Minha nacionalidade não define quem eu sou. Mas faz parte de quem eu sou. E, se estou aqui, é porque valorizo essa oportunidade.
Cruzei as mãos sobre o colo.
— Se eu não soubesse cantar, teria recusado tudo isso. Ou você sabe cantar, ou não sabe.
Dei de ombros.
— E eu sei.
Patrick me encarou por alguns segundos. Então apontou para mim.
— Cante.
— Desculpe?
— O que quiser. A música que quiser. Mas cante.
Olhei imediatamente para Jessica.
— Faça o que ele está pedindo — ela respondeu.
Suspirei.
— E não se esqueça de que eu já vi seu vídeo.
Ótimo.
Minha melhor carta já tinha sido descartada.
Thank You For The Music estava fora de questão.
Fechei os olhos por alguns segundos, tentando pensar em alguma alternativa.
Nada. Absolutamente nada.
Então meu olhar percorreu a sala. Até parar em um pôster antigo de Os Miseráveis. Um sorriso surgiu sozinho.
Ah. Essa funcionaria.
Deixei a bolsa no sofá e me levantei. Cantar sentada era possível, mas em pé a respiração funcionava melhor. Endireitei a postura. Fiz uma contagem rápida na cabeça.
Ouvi o piano na minha memória.
E comecei.
— I dreamed a dream in time gone by...
Mantive a voz suave, quase contida.
— When hope was high and life worth living... I dreamed that love would never die, I dreamed that God would be forgiving...
Minha voz saiu um pouco mais fina do que o normal, mas continuei.
— Then I was young and unafraid...
Sustentei a última palavra por mais tempo, sentindo a voz finalmente se acomodar.
— And dreams were made and used and wasted...There was no ransom to be paid, no song unsung, no wine untasted...
As mãos ameaçaram subir, como sempre acontecia quando eu me aproximava das notas mais altas. Forcei-as a permanecer ao lado do corpo.
— But the tigers come at night...
Deixei a voz descer. Mais grave. Mais intensa.
— With their voices soft as thunder...
Alonguei a última palavra.
— As they tear your hope apart, as they turn your dream to shame...
A nota vibrou pela sala. Um arrepio percorreu meu corpo. Puxei o ar para continuar.
— Chega.
Pisquei. Olhei para Patrick.
Por um instante, achei que tinha estragado tudo.
Voltei para o sofá e me sentei.
Jessica colocou a mão sobre minha perna. Quando olhei para ela, encontrei um sorriso. Um sorriso de verdade.
— Então? — perguntei, voltando à pergunta anterior. — Está investindo em algo bom?
Patrick permaneceu em silêncio por alguns segundos. A surpresa ainda era visível em seu rosto.
— Não foi perfeito. — Meu coração afundou. — Mas sim.
Voltou a se levantar. E, imediatamente, todos nós fizemos o mesmo.
— Quero ela pronta para lançamento em seis meses.
Meu cérebro levou alguns segundos para processar a frase.
— Incluindo uma mudança visual, Jessica.
Ele já caminhava em direção à própria mesa quando terminou de falar. Jessica colocou uma mão em minhas costas e me conduziu para a porta. Eu ainda estava tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Quando percebi, já estava do lado de fora da sala e a porta fechada atrás de mim.
Estava completamente perdida.
— O que aconteceu? — Ela se afastou apenas o suficiente para olhar para mim.
— Você entrou. — Franzi a testa.
— Entrei onde?
Jessica soltou uma risada incrédula.
— Você tem um contrato com a Virgin Records.
Dei um gritinho involuntário. Levei as mãos à boca.
— Meu Deus! — Ela riu.
— Eu sabia que essa seria a reação.
— Isso é incrível!
— Foi uma ótima escolha cantar I Dreamed a Dream.
— Apostei no sentimental.
— E funcionou. — Ela esfregou os próprios braços.
— Eu arrepiei.
Meu sorriso aumentou.
— E eu não me arrepio facilmente. — Senti minhas bochechas esquentarem. — Vamos providenciar o contrato? — ela perguntou.
Assenti imediatamente. Começamos a caminhar de volta pelo corredor. Então uma dúvida voltou à minha cabeça.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você não gosta do Brent?
Jessica soltou uma risada curta. Uma daquelas risadas que parecem surgir do nada.
— Eu fui casada com ele.
Parei de andar. Literalmente.
— O quê? — Ela riu da minha expressão.
— É, essa costuma ser a reação. — Voltei a acompanhá-la.
— Espera... vocês foram casados?
— Fomos.
— E trabalham juntos?
— Trabalhamos.
— E se falam normalmente?
— Mais ou menos. — Não consegui evitar uma risada.
— Isso explica muita coisa.
— Explica.
Ela deu de ombros.
— Comecei a beber por causa de muita coisa. A pressão da indústria, minha própria vida... e aquele casamento certamente não ajudou.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Não sabia exatamente o que responder.
— Mas já passou.
Ela acenou para a recepcionista.
— Contrato musical de . Para Jessica Stone. — A mulher digitou alguma coisa no computador.
— Está imprimindo.
Jessica me levou até a impressora que ficava ao lado do balcão. Esperamos alguns minutos.
Folha após folha começou a sair.
E sair.
E sair.
— Meu Deus...
Jessica riu.
— Assustador, né?
— Isso é maior que alguns livros que eu já li.
— Bem-vinda ao mundo dos contratos.
Jessica pegou o calhamaço de folhas da impressora e o apoiou sobre o balcão da recepção.
Aquilo era enorme.
Ela pegou um furador, abriu dois buracos nas folhas e passou um prendedor por elas. Em seguida, folheou rapidamente algumas páginas para conferir alguma informação antes de me entregar tudo. Segurei o contrato com as duas mãos. Pesava mais do que eu esperava.
— Onde eu assino? — Jessica estendeu a mão e pegou o documento de volta.
— Em lugar nenhum. — Franzi a testa.
— Como assim?
— Você vai levar isso para casa. — Pisquei algumas vezes.
— Eu vou?
— Vai ler tudo.
Ela enfatizou a última palavra.
— Vai analisar nossas condições, seus direitos e seus deveres. E, se não concordar com alguma coisa, vai sugerir algo melhor.
Olhei para o contrato.
Depois para ela.
Depois para o contrato novamente.
— Você está me dizendo para negociar com a Virgin Records?
— Estou dizendo para você ler antes de assinar.
— Isso parece sensato.
— É porque é. — Não consegui evitar uma risada.
Jessica apoiou os braços no balcão.
— , uma das piores coisas que um artista pode fazer é assinar um contrato sem entender o que está assinando. — Assenti. — Se quiser a opinião de um advogado, eu posso indicar o nosso.
— Certo.
— Mas quero que você leia primeiro.
Passei a mão pela capa do documento.
— Tem alguma coisa que eu deveria olhar com mais atenção?
Jessica pensou por alguns segundos.
— Sim. Eles estão oferecendo um vínculo para cinco álbuns.
Meu conhecimento jurídico era praticamente inexistente, mas até eu sabia que aquilo parecia muito.
— Cinco?
— Cinco. — Ela assentiu. — Dependendo do seu ritmo de produção, isso pode significar dez anos. Talvez doze. — Fiz uma careta.
— Nossa.
— Pois é. — Ela cruzou os braços.
— Eu negociaria.
— Quanto?
— Três.
Ponderei por alguns segundos.
— Por quê?
— Porque dois podem parecer pouco comprometimento. — Ela inclinou a cabeça. — E três mostram que você está disposta a construir uma carreira junto com a gravadora.
Assenti lentamente.
Fazia sentido.
— Vou pensar nisso.
— Pense mesmo.
Olhei novamente para a pilha de folhas.
— Isso vai demorar.
— Vai.
— Muito?
— Bastante.
— Ótimo.
Jessica riu.
— Você é a primeira artista que conheço que fica feliz em receber centenas de páginas para ler.
— Faço Letras.
Ela levantou as mãos em rendição.
— Certo. Argumento irrefutável.
Sorri, satisfeita.
— Me passa o contato do advogado também?
— Vou mandar por e-mail.
Assenti.
— Obrigada. — Jessica sorriu.
— Está ficando mais tranquila? — Pensei por alguns segundos.
— Um pouco.
— Só um pouco?
— Ainda existe uma parte de mim esperando descobrir que tudo isso é uma pegadinha. — Ela soltou uma gargalhada. Foi bom ver Jessica rindo abertamente.
— Justo.
Olhei para o elevador.
— Posso ir para casa?
— Claro. — Jessica apontou para as portas de vidro lá na frente.
— Juan está te esperando lá embaixo.
Soltei um suspiro aliviado.
— Graças a Deus.
— Cansada?
— Um pouco.
— Aproveita enquanto pode. — Isso me fez parar.
— Isso foi uma ameaça?
— Talvez. — Estreitei os olhos. Jessica apenas sorriu.
— Eu deveria me preocupar?
— Provavelmente. — Balancei a cabeça, rindo.
Cliquei no botão do elevador. Enquanto esperávamos, uma última dúvida surgiu.
— Ah, Jessica?
— Sim?
— O que Patrick quis dizer com "mudança visual"?
Ela soltou uma risada imediata. Daquelas que surgem antes mesmo da pessoa conseguir responder.
— Calma, .
— Isso não me tranquiliza.
— Tem muita coisa para acontecer ainda.
As portas do elevador se abriram.
Entrei.
— Jessica?
— O quê?
— Eu gostei ainda menos dessa resposta.
Ela riu novamente.
As portas começaram a se fechar. Ela gritou a tempo.
— Amanhã você descobre.
— Jessica!
— Boa sorte! — As portas se fecharam completamente.
Fiquei encarando meu reflexo no metal do elevador.
Depois olhei para o contrato nas minhas mãos.
Depois para mim.
Depois para o contrato.
Suspirei.
Eu tinha acabado de assinar — ou quase assinar — o início de uma vida completamente diferente.
