Olhei meu reflexo no espelho e senti uma pontinha de tensão. Passei as mãos pelo maiô, ajeitando o tecido sobre o corpo, depois puxei as alças para cima, tentando acomodar melhor os seios, que pareciam completamente amassados ali dentro. Virei de costas para conferir se estava tudo no lugar e se nada aparecia mais do que deveria.
Prendi os cabelos em um coque firme com a presilha que carregava no pulso, coloquei a touca, certificando-me de esconder todos os fios, e deixei os óculos de natação apoiados na cabeça. Por fim, vesti o roupão, amarrei a faixa na cintura, tranquei o armário com o cadeado e guardei a chave no bolso antes de sair do vestiário.
Atravessei o pequeno corredor e logo a piscina aquecida do condomínio surgiu à minha frente. Para minha sorte, estava completamente vazia. Não sabia se era por causa do horário ou se aquilo era comum, mas agradeci em silêncio. Jessica conversava com outra mulher na borda da piscina e caminhei até as duas.
— Oi. — Cumprimentei, fazendo ambas se virarem para mim.
— , esta é Debbie. Ela será sua personal trainer. Não só agora, mas durante toda essa fase. — Assenti e observei melhor a mulher de pele morena e cabelos platinados. Ela era bonita e tinha aquele jeito de quem vivia cercada por academias e exercícios.
— Me disseram que você nadava quando era mais nova, certo? — perguntou.
— Sim, bastante.
Ela olhou rapidamente para Jessica.
— Você acha que isso vai ser suficiente para ela ganhar condicionamento físico e entrar em forma?
— A natação é um excelente exercício. Trabalha o corpo inteiro, melhora o preparo físico e nem parece tão pesada porque estamos na água. — Debbie sorriu de leve. — Mas quero complementar com exercícios aeróbicos. Colocar você para correr um pouco também, para não ficar condicionada apenas à piscina.
Jessica concordou com um movimento de cabeça.
— Vamos começar? — Debbie perguntou.
Assenti.
— Pode entrar.
Tirei o roupão, pendurei-o em um dos ganchos da parede e deixei os chinelos ao lado. Aproximei-me da borda, mergulhei um pé na água e sorri discretamente ao sentir a temperatura agradável. Sem pensar muito, me impulsionei para dentro da piscina, afundando o corpo por completo. A água aquecida envolveu meus músculos e, por alguns segundos, senti uma sensação de relaxamento tomar conta de mim. Fazia bastante tempo que eu não entrava em uma piscina.
— Vamos ver como você está. — Debbie se aproximou da borda enquanto eu segurava o apoio. — Quero quatro idas e voltas no crawl. Cada ida e volta conta como uma, tudo bem?
Confirmei com a cabeça.
— Quando quiser.
Abaixei os óculos sobre os olhos, respirei fundo e apoiei os pés na parede da piscina. No impulso seguinte, deslizei pela água mantendo o corpo esticado até sentir a primeira necessidade de respirar. Então comecei a alternar as braçadas, tentando reencontrar um ritmo que meu corpo parecia conhecer melhor do que eu imaginava.
Fazia tempo que eu não nadava, mas a memória muscular ainda estava ali. Quando percebi, meus pés já tocavam a outra extremidade da piscina e eu iniciava o caminho de volta. O problema não era lembrar como nadar; era perceber o quanto meu condicionamento havia diminuído. Fazia pouco mais de um ano que eu não praticava qualquer atividade física.
— Muito bom! — Debbie elogiou quando completei a primeira ida e volta, batendo palmas. — Faltam três!
Mergulhei novamente. Sempre que levantava a cabeça para respirar, conseguia ouvir pedaços da voz dela.
— Uma hora por dia, hein?
Voltei a afundar e soltei o ar em pequenas bolhas. Minha agenda aumentava em um ritmo assustador e eu começava a me perguntar se realmente existiriam horas suficientes no dia para tudo o que estavam planejando para mim. Só consegui afastar esse pensamento quando concluí a segunda volta. Parei na borda da piscina, apoiando os braços enquanto recuperava o fôlego. Meu coração batia acelerado e permaneci alguns segundos parcialmente submersa, respirando fundo antes de continuar.
Coloquei uma roupa qualquer que estava pendurada atrás da porta e deixei a toalha estendida no box para secar. Coloquei o aparelho nos dentes e me joguei na cama, puxando o notebook para perto. Na tela, Marina acenou assim que a chamada estabilizou.
—
E aí, famosa? — perguntou, sorrindo. —
Como você está?
— Tudo certo. E você?
—
Tá difícil falar com você, hein?
Soltei uma risada.
— Nem me fale. Mas eu sempre tento arranjar alguns minutos para responder aos e-mails, geralmente antes de dormir.
—
É... Mas não antes de mandar mensagens pela metade e me deixar completamente perdida.
Ri de novo.
— Prometo compensar vocês. Quando começar a ganhar dinheiro de verdade, trago vocês para cá. Estou morando em um apartamento enorme, num bairro incrível... É tudo muito diferente daqui.
—
Vou cobrar essa promessa. — Ela riu. —
Espera um pouquinho. Minha colega de quarto está me chamando.
A imagem desapareceu da tela e apoiei a cabeça nas mãos enquanto esperava. Fechei os olhos por um instante. Pareceu uma eternidade, embora eu tivesse certeza de que só alguns segundos haviam passado. Talvez ela demorasse um pouco mais.
— !
Senti alguém tocar meu ombro e abri os olhos de repente. O notebook continuava ligado à minha frente. Virei o rosto e encontrei Jessica parada ao lado da cama.
— Vamos. Você ainda tem outro compromisso hoje.
Pisquei algumas vezes para afastar o sono e olhei para a tela. Havia uma nova mensagem de Marina.
"Voltei e você estava dormindo. Espero que todo esse esforço te traga muitas coisas boas, amiga. A gente se fala depois."
Soltei um suspiro, abaixei a tampa do notebook e me levantei.
— ... — Jessica chamou novamente. Esfreguei os olhos.
— Dois segundos. — Procurei meus tênis pelo quarto e me sentei na cama para amarrar os cadarços. — Estou deixando minhas amigas e minha família de lado.
Jessica suspirou.
— Vai melhorar, eu prometo. Esse começo é o mais puxado. Depois você consegue equilibrar melhor a vida pessoal. — Assenti em silêncio, terminando o laço.
— Ou pior. — Ela deu de ombros. Ergui o rosto para encará-la.
— Se piorar, é porque deu certo. — Ela sorriu.
Não consegui evitar uma risada.
— É... Acho que você tem razão.
— Cheguei. — Fechei a porta da sala atrás de mim, vendo Jessica, Brandon e mais algumas pessoas que eu não conhecia dentro da sala de música da gravadora. Todos olharam para mim assim que entrei.
— Boa tarde, . — Jessica se levantou e eu me aproximei do grupo, que estava reunido ao redor de alguns instrumentos.
— Oi, oi! — Cumprimentei o pessoal e me sentei no sofá ao lado de Brandon. — O que eu vou aprender hoje? — perguntei, sentindo a respiração um pouco pesada.
— Hoje você vai aprender a cantar. — Ela sorriu.
Franzi a testa.
— Ok...
Brandon se levantou ao meu lado.
— Você tem uma voz maravilhosa, , mas ainda não tem técnica. Não controla a respiração, não sabe fazer a passagem entre graves e agudos e não aguentaria um pocket show, se fosse necessário.
Afirmei com a cabeça.
— Eu realmente não entendo disso, então aceito tudo o que vocês disserem. — Eles riram discretamente.
— Como eu adoro pessoas compreensivas. — Brandon brincou.
— Enfim... — Jessica continuou, levantando-se. — A partir de agora, todos os dias você terá três horas de aula de canto, no horário que for melhor para você. Nessas aulas vamos fortalecer sua voz, desenvolver sua técnica e levá-la o mais próximo possível do seu potencial máximo. — Ela respirou fundo. — Sabemos que isso não será alcançado em quatro meses, mas será suficiente para lançarmos você.
Afirmei com a cabeça.
— Como assim?
— Com esse treinamento você conseguirá fazer pequenos shows, apresentações em programas de TV, gravações de CDs e tudo o mais que precisará nesse começo. — Ela sorriu. — Para atingir seu potencial máximo, isso pode levar anos, e realmente não podemos esperar tanto.
— Mas nesses primeiros meses eu vou conseguir fazer tudo o que precisarei fazer?
Jessica confirmou com a cabeça.
— Vai. E, com o passar do tempo, você mesma aprenderá a manter esse treinamento, fazer exercícios vocais, desenvolver sua potência... Seu preparo físico também vai ajudar muito.
Assenti novamente.
— Ok, então vamos lá.
— Primeiro, vou te apresentar o nosso trio favorito. O Trio M. — Brandon apontou para as três pessoas que estavam ali. — Esses são Michael, Melody e Mikayla. Eles serão seus professores.
— Oi. — Acenei para eles.
Os três sorriram. Não tinham aquele brilho típico de artistas famosos. Eram pessoas comuns, aparentando ter entre trinta e cinquenta anos.
— Cada um é especializado em uma área diferente: potência vocal, técnica, controle da respiração... — Brandon explicou. — Você passará uma hora por dia com cada um deles.
— Certo. — Suspirei.
— Já vou adiantar que isso vai cansar você, . — Michael falou. — Haverá dias em que sua voz ficará rouca, suas cordas vocais vão doer e pode haver algum inchaço. Nosso trabalho é justamente evitar que isso aconteça em um dia importante, como uma apresentação.
— Nós vamos exigir bastante de você para que evolua. — Mikayla completou com um sorriso. — Mas prometemos que vai valer a pena.
Respirei fundo e afirmei com a cabeça.
— Ok. Com quem eu começo?
— Com todos. — Melody, a mais velha do grupo, aproximou-se. — Nós vimos seu vídeo e já ouvimos falar muito sobre você, mas precisamos descobrir exatamente do que sua voz é capaz.
— Tudo bem. Como isso vai funcionar?
— Selecionamos várias músicas, cada uma com um estilo e um nível de exigência diferente. Vamos pedir para que você cante todas elas. Assim conseguimos identificar em quais ritmos e notas você tem mais facilidade e quais ainda precisam ser trabalhados. — Ela pegou algumas folhas sobre a mesa.
— Então é uma avaliação?
— Exatamente. — Ela sorriu. — As letras estão aqui. Se você conhecer a música, pode cantar normalmente. Se não conhecer, tocaremos a primeira estrofe e o primeiro refrão para que você pegue a melodia e entre na segunda parte.
Engoli em seco.
— Certo.
— Pode vir até o microfone, por favor. — Aproximei-me e apoiei as folhas na pequena mesa que havia à minha frente.
— Vou pedir que vocês nos deixem a sós, para que ela fique mais confortável. — Melody olhou para Jessica e Brandon.
Arregalei os olhos.
— Claro. — Jessica sorriu para mim. — Estaremos lá fora. — Assenti, vendo os dois deixarem a sala.
— Nós não vamos te torturar, . Prometemos. — Mikayla disse com um sorriso gentil. — Soltei uma risada fraca.
— Eu só estou um pouco assustada.
— Não precisa ficar. — Ela passou a mão de leve em meu cabelo. — Vamos começar? O dia ainda vai ser longo.
Fechei os olhos por um instante, respirei fundo e assenti.
— Claro.
— Eu realmente preciso comer alguma coisa, Jessica. — Falei, sentindo o estômago roncar e a garganta reclamar enquanto a seguia pelos corredores da gravadora.
— Eu sei. Por isso fui muito boazinha e marquei essa reunião no restaurante mexicano do outro lado da rua. — Ela sorriu enquanto chamava o elevador.
— Obrigada! — Sorri, e ela passou um braço pelos meus ombros.
— Já descobri do que você gosta, mulher. Faz pouco tempo que nos conhecemos, mas estou começando a entender você, . — As portas do elevador se abriram e entramos.
— Só achei injusto você marcar outra reunião quando eu mal consigo fazer minha voz sair. — Minha voz falhou justamente nas palavras com "s", e eu engoli em seco, levando a mão à garganta.
— Eu sei, eu sei! — Ela ergueu as mãos em rendição enquanto saíamos do prédio. Já era noite. — Mas essa conversa não podia esperar. Precisamos resolver isso ainda esta semana.
Assenti em silêncio justamente quando vi Juan se aproximando com o carro.
— Ainda não, Juan. Aguenta mais um pouco. — Segurei suas mãos, arrancando um sorriso dele. — Quer saber? Vou voltar para casa a pé. São só dois minutos. — Ele riu.
— Tem certeza?
— Absoluta. Vai descansar. Te vejo amanhã cedo.
Juan sorriu, beijou delicadamente minhas mãos e voltou para o carro. Corri para alcançar Jessica, que já atravessava a rua.
— Com quem eu vou falar hoje? — Ela conversava com uma funcionária na entrada do restaurante, mas virou para mim assim que ouviu minha pergunta.
— Com a mais nova integrante da sua equipe. — Franzi a testa enquanto a acompanhava para dentro.
— Como assim?
— Além de mim e do Brandon, você vai precisar de muito mais gente ao seu redor. Produtores, músicos, conselheiros... pessoas em quem possa confiar.
Assim que entrei, reconheci Brandon sentado à mesa ao lado de um homem que eu já havia visto algumas vezes pelos corredores da gravadora.
— ! — Brandon abriu um sorriso e veio me abraçar. Retribuí imediatamente. — Quero apresentar Henry George.
O homem se levantou.
Henry tinha cabelos loiros quase brancos, pele muito clara e parecia um pouco mais alto que Brandon. Também era mais velho. Devia ter algo próximo da idade de Patrick, talvez um pouco menos.
— É um prazer conhecê-la, senhorita. — Ele apertou minha mão e fez um leve cumprimento antes de soltá-la.
— O prazer é meu.
— Foi o Henry quem encontrou você. — Jessica comentou. — Olhei para ele surpresa.
— Sério?
— Sim. — Ele sorriu. — Você canta muito, menina. Essa perda de voz é temporária. Logo passa. — Soltei uma risada.
— Ainda bem. Amanhã tenho uma apresentação na faculdade. Quero só ver como isso vai acontecer.
Henry riu e Jessica indicou as cadeiras. Sentei-me de frente para ele, enquanto Brandon ocupava o lugar ao lado.
— Henry é produtor musical e braço direito de Patrick. É ele quem procura novos talentos para a gravadora e costuma acompanhar o início da carreira deles.
— Além disso, sou músico. — Henry completou. — Toco trompete, saxofone... e tuba. — Não consegui segurar a risada.
— Acho que é a primeira pessoa que conheço que diz tocar tuba. — Ele riu junto.
— Então você vai fazer parte da minha equipe?
— Se você quiser. — Olhei para Jessica e Brandon antes de dar de ombros.
— Eu não entendo nada desse mundo. Se vocês dizem que ele é bom, vou confiar. Além disso... ele parece simpático.
Henry sorriu.
— E convenhamos... quem toca tuba hoje em dia? Vai que um dia eu precise disso na minha banda.
Brandon gargalhou bem alto no exato momento em que uma garçonete deixava os cardápios sobre a mesa.
— Agora você tocou num ponto importante, . — Henry abriu um bloco de anotações. — Sua banda. — Endireitei a postura na cadeira.
— Minha banda?
— Você vai poder escolher quem vai tocar com você. — Jessica respondeu. Meus olhos se arregalaram.
— Eu vou escolher?
— Nós vamos aconselhar você, claro. Mas a decisão também será sua. — Meu sorriso apareceu sozinho.
— Meu Deus... isso é muito legal! — Fechei o cardápio sem nem olhar o que tinha para comer.
— Jessica me contou que, quando vocês conversaram pela primeira vez, você praticamente visualizou tudo na cabeça. Quero saber exatamente o que imaginou. Assim conseguimos ver o que é possível fazer.
Respirei fundo antes de responder.
— Acho que não imagino nada muito diferente do básico. Só quero que tudo o que gravarmos possa ser reproduzido ao vivo.
— Como assim?
— Tem músicas cheias de efeitos ou sons gravados que não conseguem ser reproduzidos no palco. Eu queria uma banda capaz de fazer aquilo acontecer de verdade. — Henry assentiu enquanto fazia algumas anotações.
— O que você imagina?
— Um guitarrista, um baterista... talvez alguém para fazer apoio vocal, pelo menos no começo. Pretendo aprender alguns instrumentos, mas acho que isso já seria um ótimo começo.
— Vou pesquisar entre os músicos ligados à gravadora e, também, entre os materiais que recebemos todos os dias. Quero encontrar gente que combine com você. — Assenti.
— Pessoas que contribuam.
Jessica repetiu a expressão.
— Como assim?
— Gente que entenda de música. Que componha, produza, tenha ideias. Pessoas que colaborem de verdade, e não músicos que apenas recebam uma partitura, toquem e vão embora. — Henry voltou a escrever.
— Acho que consigo encontrar esse perfil. — Jessica sorriu.
— Mais alguma exigência? — Balancei a cabeça.
— Acho que não...
Passei os olhos distraidamente pela pequena bandeira do México impressa no cardápio. Enquanto todos começavam a escolher o que pedir, fiquei observando aquela bandeira por alguns segundos. Eu tivera uma oportunidade. Por que outras pessoas não poderiam ter também?
Levantei os olhos novamente.
— Na verdade... acho que tenho mais uma.
Os três voltaram a olhar para mim.
— Diversidade. — Brandon franziu a testa.
— Como? — Respirei fundo.
— Vocês deram uma oportunidade para uma brasileira. Uma menina que não fazia parte desse mundo e que provavelmente vai enfrentar preconceito só por estar aqui. Mas vocês olharam além disso. — Fiz uma pequena pausa. — Então façam o mesmo com outras pessoas. — Os três permaneceram em silêncio.
— Não procurem só americanos. Procurem gente de outros países também. Deem oportunidade para quem normalmente não teria uma.
Henry sorriu antes mesmo de terminar de anotar.
— Acho que consigo mexer alguns pauzinhos para isso.
Sorri de volta e, finalmente, abri o cardápio.
— Não surta, ok? — Falei para meu pai enquanto destrancava a porta do apartamento.
— Filha, você tem um motorista particular, mora num condomínio de luxo... eu realmente nem sei mais o que esperar. — Soltei uma risada enquanto empurrava a porta.
— Seja bem-vindo.
Dei espaço para ele entrar.
— Meu Deus...
Sorri ao vê-lo caminhar devagar pela sala.
Era a primeira vez que meu pai vinha me visitar. Ele conseguira deixar um gerente responsável pelo restaurante durante alguns dias para conhecer um pouco do meu novo mundo.
Sem dizer muita coisa, começou a explorar o apartamento. Passou pela sala, pela cozinha, pela sala de jantar, entrou no quarto, abriu a porta do closet, voltou e, quando retornou para a sala, ainda carregava a mesma expressão de surpresa.
— Tudo isso sem pagar nada?
Assenti.
— Eles chamam de investimento. Quando cheguei, os armários já estavam cheios de comida, produtos de limpeza e higiene. Conforme as coisas acabam, sou eu quem compra.
Ele passou a mão pelos livros da faculdade espalhados sobre a mesa de jantar.
— E você tem tudo de que precisa por aqui?
— Tenho. Supermercado, restaurantes, academia... muito delivery também.
Ele riu.
— Isso é incrível, . Mas você não se sente sozinha?
Balancei a cabeça.
— É meio difícil ficar sozinha quando saio de casa às sete da manhã e volto às onze da noite... às vezes até meia-noite.
Ele riu novamente e se aproximou, segurando minhas mãos.
— Você está dando conta de tudo isso? Parece cansada, filha.
Sorri de leve.
— Estou, sim. — Assenti. — Mas já estou começando a ver resultado. E isso faz tudo valer a pena. — Ele sorriu satisfeito.
— Você está diferente. — Inclinei a cabeça.
— Como assim?
— Seu rosto está mais leve, você emagreceu, seus braços estão mais definidos... — Ele me observou por mais alguns segundos. — Nem parece a mesma menina que vi há três meses.
Sorri.
— Faz parte da transformação da Virgin Records. — Ele deu uma risada.
— Mas, acima de tudo... você parece feliz. — Seu comentário me fez sorrir ainda mais.
— Eu estou, pai. Estou gostando de tudo isso. É cansativo, mas sinto que estou construindo alguma coisa. — Olhei para a porta no instante em que ouvi a fechadura girar.
— A única parte ruim é quase não ter privacidade... — A porta se abriu.
— Oi! — Jessica entrou apressada.
— Graças a Deus você está aqui! Estou tentando falar com você há um tempão. Você deveria estar na piscina faz duas horas. — Revirei os olhos.
— Eu sei. Fui buscar meu pai no aeroporto. — Afastei-me um pouco para que ela pudesse vê-lo. Jessica arregalou os olhos.
— Senhor ! — Ela estendeu a mão.
— Olavo, por favor. — Meu pai apertou sua mão sorrindo.
— Eu não fazia ideia de que o senhor vinha. — Olhei para ela de lado.
— Quando digo que você não me escuta, não estou brincando. Faz uma semana que estou falando que meu pai chegaria hoje. — Ela ergueu as mãos, rendida.
— Desculpa. — Depois voltou a olhar para ele.
— Sei que vocês devem querer colocar a conversa em dia, mas... o que o senhor acha de acompanhar um pouco do treinamento da sua filha? — Meu pai nem precisou pensar.
— Acho que seria ótimo. — Assenti.
— Só vou pegar minha bolsa. — Entrei rapidamente no quarto, peguei a mochila da academia e voltei para a sala.
— Pronto. Podemos ir.
— Então vamos. — Jessica abriu a porta. — Antes de sair, virei-me para meu pai.
— Se der tempo, levo você para jantar depois. — Ele passou um braço pelos meus ombros enquanto saíamos do apartamento.
— Vai ser um prazer.
— Olá, Megan! — Cumprimentei a morena quando as portas do elevador se abriram.
— Olá, ! — Ela sorriu.
Equilibrei os livros da faculdade nos braços e os apoiei sobre a bancada.
— Guarda para mim?
— Como sempre. — Ela riu. — Sorri de volta, tirei o moletom da UCLA e o coloquei sobre a pilha de livros.
— Obrigada!
Dei alguns passos pelo corredor e logo avistei Robb parado de braços cruzados em frente à sala dele. Fiz uma careta.
— Eu sei, estou atrasada. — Ergui as mãos em rendição. — Tive prova de espanhol e precisei ficar até o fim. — Na verdade, eu já sabia que tinha ido mal, mas preferi ignorar esse detalhe.
— O que vamos fazer hoje? — Ele prendeu os lábios para conter um sorriso.
— Hoje vou dar um jeito nesse seu cabelo. — Imediatamente levei a mão às pontas dos fios, acompanhando-o até o salão.
— Achei que essa transformação visual já tivesse acabado.
Ele riu.
— Acabou. Mas você anda sob muito estresse. Seu cabelo está ressecado, sem corte, sem cuidados... sem contar o cloro da piscina, que acaba com qualquer fio. Então vamos resolver isso. — Ele apontou para o lavatório.
— Pode sentar. — Obedeci, apoiando a cabeça para trás.
— O que pretende fazer?
— Cortar um pouquinho, só para tirar esse formato de triângulo nas pontas. Depois uma boa hidratação para recuperar os fios e valorizar essas ondas naturais.
Enquanto falava, começou a molhar meu cabelo.
— Talvez algumas mechas loiras...
— Não! — Abri os olhos imediatamente e olhei para ele. — Eu amo meu cabelo castanho. Então, por favor... não vamos mexer na cor. Pelo menos por enquanto.
Sorri de leve. Robb continuou lavando meu cabelo.
— Tem certeza?
— Tenho. Quero fazer minha primeira aparição pública parecendo comigo mesma, e não com alguém completamente diferente. — Ele ficou pensativo por um instante antes de assentir.
— Tudo bem. Sem mechas.
Fechei os olhos enquanto ele massageava meu couro cabeludo.
Quando conheci Robb, imaginava que ele fosse apenas um personal stylist. Com o passar das semanas, porém, comecei a encontrá-lo constantemente naquele salão, cuidando do cabelo de outras pessoas.
Na verdade, aquilo funcionava quase como um spa. Muita gente passava por ali ao longo do dia, fazia o que precisava e ia embora. Como ficava no mesmo prédio da gravadora, os dois lugares tinham uma parceria bastante conveniente.
Depois da lavagem, Robb me levou até a cadeira em frente ao espelho.
Penteou cuidadosamente meus cabelos, alinhando todos os fios antes de cortar apenas as pontas, deixando o comprimento uniforme, inclusive na parte da frente. Como eu nunca usara franja, o resultado ficou bastante natural.
Em seguida, começou a secá-los.
Não fez escova nem modelou nada. Apenas secou.
Mesmo assim, demorou um bom tempo. Eu sempre tivera muito cabelo, e ele era comprido.
— Vou admitir uma coisa, ... — comentou por cima do barulho do secador. — Seu cabelo é realmente muito bonito.
Sorri discretamente, mas nem tentei responder. O secador fazia tanto barulho que qualquer conversa seria inútil.
Quando terminou, separou meus cabelos em várias mechas e abriu um enorme pote de creme.
Foi passando o produto fio por fio, penteando cuidadosamente cada mecha com um pente fino para distribuir e retirar o excesso antes de seguir para a próxima. Levou um bom tempo.
Quando terminou, envolveu todo o meu cabelo em uma toalha.
— Acho que você pode ir para a aula de canto enquanto isso.
Olhei para ele pelo espelho.
— Assim? — Ele riu.
— Vai se acostumando, querida. — Sorri.
— Ainda vai chegar um momento em que você ficará confortável demais andando desse jeito na nossa frente.
Soltei uma risada enquanto me levantava da cadeira e seguia em direção à porta do salão.
Bati na porta da sala de música e, pelo vidro, vi Jessica, Brandon e Henry lá dentro. Jessica fez um gesto para que eu entrasse, e eu obedeci, ouvindo a porta se fechar automaticamente atrás de mim.
— E aí? Por que me chamaram? — perguntei, aproximando-me deles.
Jessica virou o rosto para mim.
— Se você topar, achamos o primeiro membro da sua banda. — Arregalei os olhos imediatamente e puxei uma cadeira para me sentar ao lado deles.
— Sério? — Os três riram.
— Sério! — Henry abriu uma ficha e começou a ler. — O nome dele é Giovanni Bolzan, mas prefere ser chamado de Jack. É italiano, de Turim, tem dezenove anos, estuda música desde os três e faz um cover praticamente perfeito do Adam Levine.
Franzi a testa.
— Esse nome não me é estranho.
— Ele é o vocalista do Maroon 5. Conhece? — perguntou Jessica. — Arregalei os olhos.
— São eles que cantam
"This love has taken its toll on me, she said goodbye too many times before..."?
— Eles mesmos! — Jessica respondeu, rindo.
— Parece que alguém está melhorando. — Brandon comentou. — Ri baixo.
— Sim... Mas eu não sirvo para cantar essa música. É muito aguda.
Os três riram.
— E é exatamente por isso que pensamos nele. — Henry virou-se para mim. — Sua voz é naturalmente mais grave, . Você consegue alcançar notas altas, mas seria interessante ter alguém que sustentasse as notas mais baixas quando fosse necessário.
Pensei por um instante e balancei a cabeça.
— Faz sentido.
— Olha só. — Henry deu play no vídeo.
A música que eu havia cantarolado pouco antes começou a tocar, claramente vinda das caixas de som do ambiente. Jack usava uma calça jeans e uma camisa polo. Movia discretamente as mãos acompanhando a batida, como se estivesse marcando o tempo, até começar a cantar.
—
I was so high I did not recognize the fire burning in her eyes, the chaos that controlled my mind...
Me surpreendi. Ele realmente cantava muito parecido com Adam Levine.
—
Whispered goodbye and she got on a plane, never to return again, but always in my heart...
Na última palavra, afastou levemente o rosto do microfone, deixando a voz desaparecer no ar antes de respirar fundo.
—
This love has taken its toll on me, she said goodbye too many times before...
Continuei observando enquanto a câmera aproximava seu rosto. Ele era o típico italiano que eu costumava ver nas transmissões de futebol: cabelos curtos e pretos contrastando com a pele clara, olhos escuros, boca larga e um nariz marcante. O corpo era magro, mas aparentava ser alto.
Inclinei-me um pouco sobre os ombros de Henry e Jessica, pausei o vídeo e voltei a me recostar na cadeira, coçando a testa enquanto pensava.
Os três ficaram em silêncio, esperando minha reação.
— Em quanto tempo ele pode estar aqui? — perguntei. Jessica abriu um sorriso.
— Entraremos em contato hoje mesmo. Se tudo der certo, ele pode estar aqui em até uma semana.
— Será que ele aceita?
— Ele faz parte do nosso banco de talentos. — Jessica deu de ombros. — Na verdade, ele está esperando uma oportunidade como essa há algum tempo. — Assenti lentamente.
— Então temos um.
— Vou preparar um contrato de backing vocal. — Jessica se levantou. — Observei Henry por um instante.
— Você acha que fiz a escolha certa? — Ele sorriu.
— Acho. Jack é bom e reúne exatamente as características que você pediu. — Levantou dois dedos. — Tem conhecimento musical e é estrangeiro.
Soltei uma risada.
— Espero que ele seja legal.
— Eu também. — Henry respondeu, sincero.
Brandon fechou o notebook.
— E-mail enviado. Se ele não responder em até doze horas, eu mesmo ligo para a Itália. — Levantei-me e empurrei a cadeira de volta para o lugar.
— Bem, já que resolvemos isso, acho melhor eu voltar para o treinamento vocal. — Os dois homens riram.
— Melhor mesmo. — Henry sorriu. — Porque ele está dando resultado. — Acenei para eles, rindo, antes de sair da sala.
Um, dois, três, quatro.
Ergui a cabeça, passei o braço e puxei o ar com força.
Cinco.
Voltei a mergulhar e encarei os azulejos da piscina.
Um, dois, três, quatro.
Repeti o movimento da respiração, dessa vez virando a cabeça para o outro lado e vendo Debbie me acompanhar pela borda da piscina.
Percebi que a parede estava próxima. Girei o corpo quase em uma cambalhota, impulsionei-me com um chute forte e voltei.
Um, dois, três, quatro.
Ergui a cabeça outra vez para respirar, ouvindo Debbie gritar alguma coisa, mas sem conseguir entender. Eu estava no fim. Não iria parar agora.
Forcei os braços a trabalharem mais forte e puxei o ar novamente, percebendo que não seria suficiente. Na volta seguinte, precisei respirar na terceira braçada.
Inspirei, mergulhei outra vez e continuei contando. Minha respiração já falhava, mas eu ainda conseguia chegar até o fim.
Levantei a cabeça na última respiração e vi a parede novamente à minha frente. Na braçada final, deixei o corpo deslizar até bater a mão na borda e emergi.
— É isso! — Debbie gritou, comemorando enquanto batia palmas. — Isso, garota!
Virei de costas, apoiando as costas na parede e a nuca na borda da piscina enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Como fui? — perguntei, ainda ofegante.
Ela correu pela lateral da piscina até parar atrás de mim.
— Treze chegadas em dez minutos. — Ela sorriu. — Você bateu outro recorde, menina! — Virei o corpo na água e bati na mão que ela estendeu.
— Nossa...
Puxei o ar profundamente e mergulhei por um instante, deixando o corpo tocar o fundo antes de voltar à superfície e passar as mãos pelo rosto.
— Vamos de novo? — ela perguntou, sentando-se na plataforma de salto.
Joguei a cabeça para trás, boiando.
— Me dá cinco minutos, por favor.
Ela riu.
— Estou contando!
Suspirei, passei a mão na barriga, dei uma cambalhota para trás e voltei a ficar em pé na piscina.
Apoiei os braços na borda e respirei fundo, sentindo a touca apertar minhas orelhas. Ajustei-a, certificando-me de que não havia entrado água. Meu corpo já estava acostumado à rotina, mas o cabelo exigia hidratação a cada duas semanas. Era a única parte ruim de nadar todos os dias.
Ainda assim, os resultados compensavam.
Eu havia perdido doze quilos desde que começara os treinos. Meu corpo tinha mudado bastante. A barriga ainda guardava algumas gordurinhas, mas estava firme, assim como meus braços e minhas coxas. Aos poucos, eu finalmente estava entrando em forma.
Claro que isso tinha um preço.
Minha alimentação era extremamente controlada. Às vezes eu chegava a chorar de vontade de morder uma barra de chocolate ou simplesmente tomar um achocolatado no café da manhã. Em vez disso, meus dias começavam com café e cereais sem açúcar, seguidos de muita salada no almoço e no jantar.
Doces? Apenas aos domingos. E, mesmo assim, em porções controladas.
Acho que a última vez que comi um brigadeiro sem culpa foi na pequena festa de despedida que fizeram para mim no Brasil. Quase quatro meses antes.
Mas, apesar de todas as restrições, valia a pena. Eu enxergava o resultado no espelho, nas roupas e, principalmente, no meu desempenho. Isso me dava vontade de continuar.
Também era gratificante ver Patrick e Brent passarem pela gravadora e perceberem a evolução. O investimento deles estava dando resultado. Jessica, inclusive, fazia reuniões semanais com os dois para mostrar vídeos, fotos e relatórios sobre tudo o que eu vinha conquistando.
— Vamos de novo! — Debbie gritou. — Coloquei os óculos de natação.
— Em três... dois... um...
Mergulhei, impulsionei-me contra a parede e comecei a ondulação do nado borboleta, elevando os braços para fora da água enquanto puxava o ar profundamente antes de mergulhar outra vez.