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Essa história é focada no mundo dos famosos. Todos os artistas da vida real existem, mas as músicas e filmes expressos aqui poderão ter autores, diretores e datas de lançamento diferente da vida real. Exemplo: Demi Lovato é uma pessoa real na história, mas uma música dela lançada em 2008, usada na história, não será dela e sim da personagem principal e pode ter um lançamento mais antigo ou mais atual. Como outros artistas e filmes que podem ter seus diretores ou astros diferentes do que é na vida real.


Prólogo


Antes de tudo - 2003

Virei mais um gole de tequila e senti o líquido descer queimando pela garganta, arrancando de mim uma careta automática. Apoiei a testa na mesa de madeira, fechando os olhos enquanto a dor de cabeça parecia diminuir por alguns segundos. Respirei fundo.
O som de uma notificação me fez sobressaltar. A tela do notebook iluminou o ambiente escuro.
Ergui a cabeça com dificuldade e encarei a luz, estreitando os olhos. Um e-mail — de uma conta que eu não usava há anos — aparecia na caixa de entrada. Remetente: alguém da Virgin Records.
Cliquei.
“Acho que está na hora de voltar.”
Franzi a testa e deixei escapar uma risada fraca, embriagada.
“Não tenho motivos para isso.”
Respondi sem pensar muito — provavelmente errando metade das palavras — e já ia fechar o notebook quando outro aviso soou.
“Tem sim. Assista.”
Abaixo, um vídeo anexado.
Me ajeitei na poltrona e cliquei para baixar. O símbolo carregava lentamente enquanto eu suspirava, pegando a garrafa de água ao meu lado e virando o restante na boca antes de jogá-la, vazia, no lixo.
Assim que terminou, abri o vídeo.
Uma mulher loira estava no centro de uma quadra escolar. Atrás dela, várias pessoas sentadas, assistindo. Ela olhava para um papel antes de se aproximar do microfone e falar em uma língua que eu não reconheci — uma legenda improvisada apareceu na tela.
“E agora, nossa última competidora é , cantando Thank You For The Music.”
Aplausos.
Uma garota de cabelos castanhos, usando óculos e um vestido preto até o joelho, levantou-se. Caminhou até o microfone com passos inseguros, mexendo constantemente as mãos.
Ela parou. Respirou fundo.
— Vai nessa, ! — alguém gritou da plateia.
Ela sorriu de leve, virou o rosto para o lado e fez um pequeno aceno. A música começou.
“I'm nothing special, in fact I'm a bit of a bore…”
As pessoas reagiram quase imediatamente. Inclinei levemente a cabeça.
A voz não era extraordinária… mas tinha algo ali.
“But I have a talent, a wonderful thing…”
Então veio a mudança.
Meus olhos se arregalaram.
“I'm so grateful and proud…”
Ela cresceu.
Não tecnicamente perfeita — longe disso — mas… verdadeira.
Quando chegou ao refrão, já não parecia mais a mesma garota nervosa.
“So I say thank you for the music…”
Ela sentia cada palavra.
E, por algum motivo, aquilo me incomodou.
Ou… tocou.
Quando terminou o trecho, a plateia explodiu em aplausos e gritos. Continuei assistindo em silêncio.
Ao longo da música, ela se soltou completamente. As mãos deixaram de ficar presas ao corpo, os gestos surgiram, a presença apareceu.
Quando acabou, todos estavam de pé.
Ela sorriu — surpresa, envergonhada — e foi abraçada pela mulher loira do início.
A tela escureceu.
Outro e-mail chegou.
Abri.
“Diamante bruto, não? Acha que consegue lapidar? A gravadora a quer… ACHE.”
Soltei uma risada baixa.
Fiquei alguns segundos olhando para a tela.
Depois, me levantei.
Peguei o telefone fixo ao lado da porta. Disquei o número que eu já tinha tentado tantas vezes — e sempre desligava antes de completar a chamada.
Dessa vez, não.
— Centro de Reabilitação de Los Angeles.
Fechei os olhos por um segundo.
— Aqui é Jessica Stone. Eu gostaria de me internar… por favor.
Engoli em seco.
— Preciso que venham me buscar.
— Claro. Só precisamos do endereço.

Capítulo 1

Larguei os livros de Machado de Assis por um momento — ou acabaria dormindo sentada naquela escrivaninha, e acordar com meu pai gritando não parecia uma boa ideia.
Passei pelo banheiro, joguei um pouco de água no rosto e segui para a cozinha, cantarolando baixinho. Deslizei pelo tapete no meio do caminho, já no automático.
Abri o armário, peguei um pacote de pipoca e joguei no micro-ondas. Três minutos. Enquanto ela estourava, procurei uma bacia.
O som dos estouros me trouxe de volta da tentativa frustrada de decorar conteúdo para a prova de Literatura Brasileira. Tirei o pacote do micro-ondas, despejei tudo na bacia e, sem pensar duas vezes, enchi de sal — ignorando completamente o fato de que meu cardiologista provavelmente me mataria na próxima consulta.
Antes de voltar para os clássicos brasileiros, a campainha tocou.
Atravessei a sala quase saltitando e tentei espiar pelo olho mágico — o que era ridiculamente difícil, já que ele ficava muito abaixo da minha altura.
Do outro lado, uma loira muito bem arrumada ajeitava os cabelos lisos.
Franzi a testa.
Bonita demais pra ser uma das namoradas do meu pai.
Segurei a maçaneta com uma mão e abracei a bacia de pipoca com a outra. Abri a porta com o rangido infernal de sempre, colocando só a cabeça para fora primeiro. A taxa de crime na cidade era praticamente zero… mas ainda assim.
E, bem, não era todo dia que alguém aparecia na sua porta com uma BMW novinha estacionada na rua.
— Ei — falei, saindo um pouco mais, consciente demais do meu short e regata. — Posso te ajudar?
Ela sorriu.
Hey. — O sotaque era forte. — You speak English? Entende inglês?
— Inglês? Sim. — respondi, usando tudo o que seis anos de aula particular podiam oferecer. — Está procurando alguém?
Os olhos dela praticamente brilharam.
— Sim. Sou Jessica Stone, de Los Angeles, Estados Unidos.
— Eu sei onde fica Los Angeles — respondi, com um meio sorriso torto.
Ela riu, de leve.
— Bom sinal. Eu procuro por . É você?
Franzi a testa, já pronta pra fechar a porta.
— Depende… quem quer saber?
Joguei uma pipoca na boca.
— Eu sou empresária de músicos, trabalho com uma gravadora em Los Angeles. Recebi um vídeo seu… e gostaria de conversar.
— Sobre o quê?
Aquilo estava ficando estranho rápido demais.
— Imagino que esteja desconfiada — ela disse, tirando um cartão do bolso. — Trabalho na Virgin Records. Recebemos um vídeo seu cantando e gostaríamos de te oferecer um contrato.
Soltei uma risada curta.
— Desculpa, é que… é meio absurdo. Uma mulher de Los Angeles vindo pro Brasil — melhor, pra Relva — pra me oferecer um contrato? E que vídeo é esse?
Percebi que estava falando rápido demais.
— Encontrar boas vozes nunca é fácil — ela respondeu, com um sorriso calmo. — Mas temos nossos meios. E, sobre o vídeo… foi numa formatura, certo?
Ela abriu a pasta e tirou um notebook. Me inclinei imediatamente, curiosa. Quando a tela acendeu, um vídeo começou a rodar.
— Meu Deus… aquelas vacas! — soltei em português, passando a bacia de pipoca pra ela sem nem perceber.
Era eu.
No palco do concurso de talentos do ensino médio, no fim do ano passado.
— Onde você conseguiu isso?
— Um colega da gravadora me enviou. Antes disso… acredito que estava circulando pelo ICQ.
— Aquelas…
— Você canta muito bem — ela continuou, olhando para a tela. — Precisa de treino, claro. Mas com os professores certos… pode ir muito longe.
Olhei para ela, ainda desconfiada.
— E você é mesmo da Virgin Records?
Ela assentiu.
— A gravadora de The Rolling Stones, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Spice Girls?
— Vejo que você fez a lição de casa — ela sorriu.
Suspirei, devolvendo o notebook.
— Ainda é difícil de acreditar. Essas coisas não acontecem assim.
— Foi a única forma de te encontrar. Estamos tentando há quase um ano, senhorita.
Quase engasguei com a pipoca.
— Um ano?
— Queremos te tornar famosa.
Passei a mão no rosto.
— Isso é… muita coisa.
— Posso te provar. Tem algum responsável em casa?
Pisquei algumas vezes.
— Posso ligar pro meu pai.
— Brandon, venha — ela chamou, um pouco mais alto.
Um homem mais velho, gordo e barbudo, cheio de correntes douradas, saiu da BMW e se aproximou.
— Então é você o nosso próximo sucesso? — ele perguntou, estendendo a mão.
Olhei para ele… depois para ela.
Depois para o carro.
Depois para minha roupa.
— Eu… não sei.

Jessica e Brandon entraram em casa, e eu não consegui evitar um certo receio.
Eles ainda eram dois estranhos. E, por mais que dissessem trabalhar na Virgin Records… o que exatamente estavam fazendo na porta da minha casa?
Ok, eu cantava bem. Minha voz funcionava em “Thank You For The Music”… mas e daí?
Quantas pessoas no mundo também não cantavam bem?
Indiquei o sofá da sala para eles e deixei a pipoca ali, sem saber se estavam com fome — ou o que se fazia numa situação dessas.
Na verdade, eu não fazia ideia de como agir.
Corri para o quarto e liguei imediatamente para meu pai, que trabalhava em um restaurante no centro da cidade. Pedi que ele viesse para casa — disse que era uma emergência. Não dei detalhes.
Como pai solteiro, ele só respondeu que chegaria o mais rápido possível.
Soltei o ar devagar.
Antes de voltar, parei em frente ao espelho.
Eu sou… estranha.
Uso aparelho, óculos — não muito fortes, mas suficientes para esconder meus olhos castanhos — e meu cabelo era castanho, ondulado, sempre meio fora de controle.
Meu corpo também não ajudava. Eu tinha um metro e oitenta, ombros largos, postura ruim… e uma barriguinha que fazia questão de aparecer.
Nunca tive namorado.
E, pra ser honesta, eu nem sabia direito como lidar com isso.
Tinha 17 anos. Me fazia de forte.
Mas nem sempre era.
Ajeitei a blusa caída no ombro, respirei fundo algumas vezes e voltei para a sala, tentando parecer minimamente normal.
Antes de entrar, observei os dois novamente.
Brandon parecia… surpreendentemente tranquilo. Apesar da barba longa e das correntes, havia algo calmo nele. Se a barba fosse branca, poderia facilmente ser confundido com um Papai Noel alternativo.
Já Jessica…
Jessica era bonita. Muito.
Mas estava cansada.
O tipo de cansaço que não se esconde com maquiagem.
— Você voltou! — Brandon comentou.
Assenti e me sentei na poltrona.
— Então…?
Minhas mãos não paravam quietas.
— Queremos te oferecer um contrato, — ele disse.
Respirei fundo, arregalando os olhos.
— Desculpa, mas eu ainda estou desconfiada. Isso… não pode estar acontecendo. — franzi a testa. — Eu não sei nem como deixei vocês entrarem sem chamar a polícia.
Jessica sorriu de canto.
— Porque você é curiosa. Quer saber onde isso vai dar.
Pensei por um segundo… e suspirei.
— Posso conhecer melhor vocês antes?
— Claro.
Jessica se inclinou para frente, apoiando os braços nos joelhos.
— Meu nome é Jessica Stone. Tenho 42 anos. Sou formada em música pela Juilliard, em Nova York, com foco em produção musical. Também estudei administração, relações públicas e produção fonográfica em Los Angeles.
Arregalei os olhos.
— Trabalho há 22 anos com a Virgin Records. Meu foco é desenvolver e produzir novos artistas. Já trabalhei na produção de álbuns das Spice Girls, Mariah Carey e Lenny Kravitz.
— Nossa… — soltei, sincera. — Isso é… incrível.
Ela sorriu.
— Obrigada.
— Eu já sou menos impressionante — Brandon entrou na conversa, arrancando uma risada minha. — Não tenho formação acadêmica. Meu negócio é estúdio. Produção.
Assenti, interessada.
— Tenho 49 anos. Trabalho de forma independente — artistas me contratam para produzir músicas ou álbuns.
Ele deu de ombros.
— Talvez você conheça alguns: “Crazy in Love”, da Beyoncé… “Someday”, do Nickelback… “Fighter”, da Christina Aguilera.
— Isso é sério?! — praticamente pulei na poltrona.
Eles assentiram.
— Jessica me chamou pessoalmente pra trabalhar com você — ele completou.
Olhei para os dois, ainda tentando processar.
— Tá… supondo que isso seja real… como funcionaria?
Jessica respondeu:
— Primeiro, faríamos uma entrevista mais aprofundada com você. Entender seu estilo, seus gostos, sua identidade artística. Depois, montaríamos uma banda para te acompanhar.
Assenti, absorvendo tudo.
— Em seguida, vem a transformação — imagem, posicionamento, como você será apresentada ao público.
— Você também teria aulas de canto — Brandon completou — e, se quiser, de instrumentos.
— Depois disso — Jessica continuou — entramos na produção: composições, gravações, videoclipes, shows…
— Eu não sei escrever música — interrompi.
— Isso não é problema — ela respondeu imediatamente. — Temos compositores. Mas sempre baseamos as músicas em quem você é.
Aquilo me fez sorrir.
Me joguei para trás na poltrona.
— Isso é sério mesmo? Tipo… vocês não vão me sequestrar, roubar ou me matar?
Brandon riu alto.
— Se fosse esse o plano, a gente já tinha feito.
Ri também.
— Justo.
Passei a mão no rosto.
— Eu não sei o que fazer.
Jessica me observou com atenção.
— Então começa me dizendo quem você é.
Me ajeitei na poltrona.
— Eu sou .
Respirei fundo.
— Tenho 17 anos. Nasci e cresci em Relva, interior de São Paulo. Nunca saí muito daqui.
Eles ouviram em silêncio.
— Faço Letras em São Paulo. Viajo todo dia. Primeiro ano.
Dei de ombros.
— Eu… não vivi muita coisa ainda. Nunca namorei. Nunca fiz sexo. Não sou de festa.
Respirei.
— Mas eu gosto de cantar. Gosto de competir com minhas amigas no karaokê — ganhando, claro.
Brandon riu.
— E… se eu fosse famosa… — hesitei por um segundo — eu queria ser alguém que as pessoas gostassem de acompanhar. Não alguém que trata fã mal.
Mordi o lábio.
— Eu gosto de pop, rock, pop rock, punk… música brasileira… praticamente tudo.
Sorri, sem perceber.
— Amo bateria. Amo guitarra. Mas também amo um violino que arrepia… ou um sopro bem feito.
Respirei fundo.
— E amo música que dá vontade de dançar. Daquelas que você nem percebe e já está se mexendo.
Quando terminei, eu estava sorrindo.
Jessica também.
— Impressionante.
— O quê?
— Você viu isso tudo na sua cabeça, não viu?
Ri, sem graça.
— Já pensei nisso… muitas vezes.
— E se a gente não tivesse vindo?
Neguei na hora.
— Não é o tipo de sonho que gente como eu corre atrás.
Silêncio.
— E agora? — ela perguntou. — Você se daria uma chance?
Hesitei.
— Pessoas não dão muita atenção pra brasileiros lá fora… talvez fosse perda de tempo.
Jessica segurou minha mão.
— Eu vou te contar uma coisa que não deveria.
Franzi a testa.
— Eu saí da Virgin há três anos. Fui demitida.
Respirei fundo.
— Eu sou alcoolista.
Fiquei em silêncio.
— Eu bebia o tempo todo. Isso me destruiu.
Ela apertou minha mão.
— Mas quando encontraram seu vídeo… vieram até mim.
Olhei para ela.
— E quando eu te ouvi… eu soube.
Engoli em seco.
— Eu me internei.
Meu coração acelerou.
— Fiquei quase um ano em reabilitação… enquanto te procuravam.
Silêncio.
— Então não me diga que isso é perda de tempo — ela completou. — Porque eu estou disposta a nunca mais beber… pra te ver brilhar.
Senti algo apertar no peito.
— Você vai ser enorme, . Só precisa querer.
Respirei fundo.
— Eu… não sei o que dizer.
Ela sorriu.
— Não precisa.
Nesse momento, a porta da garagem abriu com força.
— Filha! Qual é a emergência?!

— Deixa eu ver se eu entendi… — meu pai levantou a mão, com aquele inglês travado de sempre, e respirou fundo. — Vocês querem fazer minha filha famosa?
— Na verdade, queremos produzi-la. A fama vem como consequência — Brandon respondeu.
Jessica revirou os olhos de leve e voltou a encarar meu pai.
— Sim. Queremos.
Meu pai se recostou no sofá e passou a mão pela cabeça, soltando o ar devagar.
Eu não sabia exatamente o que ele estava pensando… mas podia imaginar.
Meu pai tem 40 anos. Me criava sozinho desde que eu tinha seis meses.
Minha mãe foi embora assim que me desmamou.
Motivo? Nunca soube.
Onde ela estava? Também não.
E, sinceramente… não fazia diferença.
Ele sempre deu conta.
Entre um relacionamento ou outro, sempre trabalhou. É dono de um restaurante italiano no centro da cidade — que crescia junto com Relva.
A gente vivia em horários opostos.
Ele trabalhava de dia. Eu estudava à noite.
E funcionava.
Mas… se eu aceitasse aquilo…
Tudo mudaria.
Pra mim.
E pra ele.
Passei a mão no rosto, respirando fundo.
Os três me olhavam, esperando.
Suspirei.
Levantei.
— Até quando vocês ficam na cidade?
— Vamos embora amanhã — Jessica respondeu, levantando-se também. — Mas você pode nos ligar.
Assenti.
— Eu… preciso conversar com ele. — apontei para meu pai com a cabeça. — É um grande passo.
— Claro — ela disse, com um sorriso compreensivo.
Ela se aproximou e me entregou um cartão.
— Espero te ver novamente, senhorita do sobrenome diferente.
Ri.
— Não desperdice seus sonhos — ela completou, apertando levemente minha mão.
— Espero seu e-mail, — Brandon disse.
Assenti.
— Espero que receba.
Eles saíram.
A porta se fechou com um estalo.
Segundos depois, o ronco da BMW se afastou pela rua.
O silêncio ficou.
Virei para o meu pai.
Ele estava… parado.
Fui até ele e me sentei ao seu lado, passando os braços pela sua cintura e apoiando a cabeça em seu ombro.
Ele me abraçou de volta.
Ficamos assim por alguns segundos.
Dei o tempo que ele precisava.
Fazendo um carinho leve nas costas dele.
Até que ele se mexeu.
Se afastou um pouco, passou as mãos pelos olhos — que estavam levemente inchados — e sorriu.
— O quê? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Você tem que aceitar.
Arregalei os olhos.
— Pai…
— Lembra quando eu dizia que você era a minha estrela… e as pessoas riam?
Assenti, soltando uma risada pequena.
— Agora você vai provar que eu estava certo.
Não consegui segurar o sorriso.
O abracei forte.
Ele me apertou de volta.
— Pai…
Ele segurou meu rosto com as duas mãos.
— Você não fala… mas eu sei que você sonha com isso.
Engoli em seco.
— E você sonha porque pode.
Ele sorriu.
— Sua voz é linda.
Senti meus olhos arderem.
— Eu vou deixar essa decisão com você — ele continuou. — Você já é grande o suficiente pra escolher o seu caminho.
Assenti, emocionada.
Ele beijou minha bochecha.
— Preciso voltar pro restaurante. Mas pensa com carinho, tá?
— Tá.
— Eu te amo.
— Eu também te amo, pai.
Ele se levantou, ajeitou o terno e saiu pela porta da garagem.
A casa ficou em silêncio de novo.
Olhei para a mesa.
Para os livros.
Suspirei.
— Prova de literatura brasileira… — murmurei. — Nota zero.

Voltei para o meu quarto e fechei o livro de Machado de Assis. Com sorte, eu ainda lembraria alguma coisa sobre Capitu e Bentinho… ou, quem sabe, a professora deixaria usar o livro na prova.
Sonhar não custava nada.
Joguei o exemplar da biblioteca sobre a cama, limpei a escrivaninha e liguei o estabilizador e a CPU. O barulho alto do computador preenchendo o quarto já era familiar.
Sentei na cadeira e esperei.
Assim que iniciou, meu papel de parede apareceu: uma foto do Simple Plan.
Soltei uma risada fraca.
Aquilo podia muito bem ser o computador de outra pessoa.
Balancei a cabeça, afastando o pensamento, quando o ICQ abriu automaticamente. Dessa vez, não cliquei em “conectar”.
Fechei.
Abri o navegador.
“Jessica Stone.”
Enter.
A setinha do mouse girava enquanto eu prendia a respiração.
Quando a página carregou, os títulos vieram um atrás do outro:
“Jessica Stone está de volta à Virgin Records”.
“Jessica Stone é internada em centro de reabilitação”.
“Produtora é demitida por alcoolismo”

Arregalei os olhos.
Comecei a abrir os links, um por um.
Entre matérias soltas, encontrei um texto mais completo:
“Virgin Records e seus empresários: Jessica Stone”
Era de um blog de música — aparentemente de alguém relevante.
Li com atenção.
Falava sobre como ela começou cedo, sobre a habilidade absurda em produzir, empresariar… construir artistas.
Mas também dizia que ela era rígida.
Dura.
Franzi a testa.
Não parecia a mesma pessoa que estava sentada na minha sala mais cedo.
Ignorei.
Preferia formar minha própria opinião.
Continuei lendo.
O texto também mencionava o alcoolismo — mas ali, diferente das manchetes, falava da pressão da indústria. Do peso de descobrir artistas, de manter nomes grandes, de expectativas que nunca diminuíam.
Engoli em seco.
Rolei mais para baixo.
Fotos.
Algumas recentes — exatamente como eu a tinha visto: bonita, mas cansada.
Outras antigas.
Muito mais jovem.
Até uma com vinte anos.
E várias… com artistas que eu reconhecia.
Muitos.
Credenciais penduradas no pescoço. Bastidores. Shows. Eventos.
Senti um sorriso surgir sem perceber.
— Essa mulher é foda.
Fechei a página.
Voltei ao campo de busca.
“Brandon…”
Parei.
Eu nem sabia o sobrenome dele.
Pensei por um segundo e digitei:
“Brandon produtor Crazy in Love”
Enter.
A página carregou.
Uma matéria apareceu primeiro:
“Beyoncé lança nova música…”
No resumo, uma frase:
“…parceria com os produtores… Brandon Barret.”
Foquei no nome.
Voltei para a busca.
Cliquei em imagens.
A capa de Crazy in Love apareceu.
Digitei novamente:
“Brandon Barret”
Esperei.
E então abri uma foto.
Meu coração deu um pulo.
Era ele.
O mesmo homem que tinha sentado na minha sala algumas horas antes.
Em algumas imagens, mais novo. Barba menor. Sem tantas correntes.
Ri sozinha.
— Meu Deus…
Soltei uma gargalhada baixa, olhando para a tela.
Era real.
Tudo aquilo era real.
Passei a mão no rosto, ainda sem acreditar.
Cliquei na pasta de vídeos.
Abri um dos arquivos.
O concurso de talentos da escola.
Assim que o vídeo começou, eu sorri.
Eu lembrava daquele dia.
Do nervosismo.
Das mãos tremendo.
Até então, eu só tinha cantado em aniversários, natais… e algumas vezes no restaurante do meu pai.
Aquilo era diferente.
Era a primeira vez… de verdade.
A escola não era grande. A cidade também não.
Mas, naquele dia, parecia enorme.
Alunos de várias séries. Professores. Pais.
Gente demais.
Respirei fundo, só de lembrar.
E eu fui.
Mesmo com medo.
Meu olhar desviou para a estante.
O troféu ainda estava lá.
E os 300 reais… bem, esses tinham virado viagem de formatura com minhas amigas.
Sorri.
A comissão não era formada por produtores famosos.
Eram meus professores.
Matemática.
Educação física.
Português.
Mesmo assim… eles tinham ficado impressionados.
Lembrava deles vindo falar comigo depois.
Perguntando por que eu nunca tinha mostrado aquilo antes.
Um arrepio percorreu meu corpo.
Levei a mão ao rosto.
Uma lágrima escorreu.
Se eles acreditavam… era uma coisa.
Mas aquilo…
Aquilo era outra completamente diferente.
Produtores.
Uma gravadora gigante.
Gente que realmente entendia do assunto.
E eles acreditavam em mim.
E estavam dispostos a esperar.
Balancei a cabeça, tentando organizar os pensamentos.
Me joguei para trás na cadeira e encarei o teto.
— Eu não faço ideia do que fazer com a minha vida.

Capítulo 2

— O quê?!
As duas gritaram ao mesmo tempo e eu até me assustei, olhando ao redor da lanchonete. Algumas pessoas encaravam a nossa mesa. Soltei uma risada fraca e tomei mais um gole do refrigerante.
— Isso é sério? — Marina perguntou, inclinando-se para frente.
— Pelo jeito, sim… — respondi. — Eu pesquisei sobre eles. São… incríveis.
— Meu Deus! Minha amiga vai ser famosa! — Lara praticamente pulou na cadeira.
— Calma! Eu ainda não aceitei nada!
— O quê?! — as duas gritaram de novo.
Revirei os olhos.
— Você não vai perder essa chance — Marina disse, firme. — Eu não vou deixar.
— Eu não sei, gente…
— Não! Não e não! — Lara bateu as mãos na mesa. — Uma das minhas melhores amigas tem chance de fazer sucesso no mundo todo e ainda fica pensando?!
Ri, sem graça.
— Olha a sua voz, !
Senti minhas bochechas esquentarem.
— Mas e se não der certo? — perguntei. — E se eles não gostarem de mim? E se eu virar cantora de um sucesso só?
Marina me encarou.
— Você tá cheia de “e se” negativo.
Ela apoiou os braços na mesa.
— Então deixa eu te dar um só.
Pisquei.
— E se der certo?
Meu corpo arrepiou.
Desviei o olhar.
— Eu não sei… existe um preconceito enorme com brasileiros lá fora.
— Não foi a Jessica que disse que faria de tudo por você? — Marina insistiu.
Suspirei e me joguei contra a cadeira.
— E outra — Lara entrou — você não tem nada a perder. O investimento é deles. Você só precisa estar lá.
— E se der errado com eles — Marina completou — alguém vai te ver.
Franzi a testa.
— E se eu não concordar com o que eles quiserem? Com as músicas, com a imagem…
Lara deu de ombros.
— Você faz o que todo mundo faz. Aceita no começo… e quando tiver poder, muda.
— Exato! — Marina concordou.
Balancei a cabeça, rindo.
— Vocês são práticas demais.
— Alguém precisa ser — Lara respondeu, sorrindo.
Marina então segurou minha mão por cima da mesa.
— Falando sério, … seu pai já te apoiou. A gente também.
Engoli em seco.
— Você pesquisou. Sabe que eles são reais.
Ela apertou minha mão.
— A única coisa te segurando… é você.
Assenti devagar.
Lara colocou a mão por cima das nossas.
— Só não esquece da gente quando ficar famosa.
Sorri.
— Impossível esquecer você, Lara.
— Ainda bem — Marina riu. — Porque alguém precisa te lembrar de quem você era.
— Ei! — Lara fingiu indignação, e nós três rimos.
Voltamos a comer.
Batata frita, lanche, refrigerante.
Normal.
Mas nada parecia normal.
“Mudar.”
A palavra da Jessica voltou à minha cabeça. O que exatamente ela queria dizer com aquilo? Entre tudo que passava pela minha mente, uma coisa era clara: não existiam famosos “comuns”. Até os mais… diferentes… tinham algo.
Presença.
Imagem.
Algo que chamava atenção.
E eu?
Olhei para minhas mãos.
Suspirei.
— Eu sempre achei que nunca teria chance.
As duas me olharam na hora. Lara ainda mastigava batata quando respondeu:
— Talvez.
Engoli em seco.
— Mas agora você tem.
Ela apontou levemente pra mim.
— E você vai agarrar isso com tudo.
Sorriu.
— Porque você consegue.
Senti meu corpo arrepiar.
Assenti.
Soltando o ar devagar.

— Toc, toc!
Virei o rosto e dei de cara com meu pai encostado na porta.
— Ei! — respondi, largando o lápis e ignorando o espanhol por um momento.
— Posso entrar?
Franzi a testa.
— Alguma vez eu te impedi?
Ele riu baixo, entrou e se sentou na minha cama, abotoando as mangas da camisa social.
— Por que você tá tão misterioso?
Ele passou a mão pelos cabelos grisalhos.
— Amanhã eu vou pra São Paulo, ver uns fornecedores… e quero que você vá comigo.
— Pai, eu amo comer, mas odeio visitar fornecedor — resmunguei, arrancando uma risada dele.
— Eu sei — ele sorriu. — Mas você vai.
Joguei a cabeça para trás.
— Por quê?
Ele me encarou.
— Porque eu marquei pra você tirar passaporte e visto.
Meu coração deu um pulo.
— Pai…
Ele se levantou e veio até mim.
— Você vai, filha. E eu não vou ser o cara que impediu você de realizar o seu sonho.
Engoli em seco.
— Mas e você?
Ele sorriu de lado.
— Eu sei o que você tá pensando.
Abaixou-se na minha frente, segurando minhas mãos.
— Você tá com medo de me deixar sozinho.
Não respondi.
Não precisava.
— Eu vou ficar bem — ele disse, firme. — Já aguentei coisa pior.
Apertei as mãos dele.
— Então vem comigo.
Ele negou, sorrindo.
— Não. Isso você vai encarar sozinha.
Suspirei.
— Você vai ficar bem mesmo?
— Claro que vou. Não sou tão fraco assim… — ele fez uma pausa — …nem tão velho.
Revirei os olhos.
— Pai, eu tô falando sério.
— Eu também.
Ele sorriu, mais calmo agora.
— Imagina daqui a alguns anos… eu indo te visitar, e você ocupada com show, entrevista, sessão de fotos…
Mordi o lábio, rindo baixo.
— Eu sempre vou ter tempo pra você.
— E pras suas amigas — ele completou.
— Principalmente pra elas.
Ele riu.
Depois ficou sério e sentou-se novamente na cama.
— Posso te pedir uma coisa?
— Claro.
Ele me olhou com atenção.
— Não muda quem você é.
Meu peito apertou.
— Você é humilde, batalhadora, alegre… — ele continuou — autêntica.
Engoli em seco.
— Não perde isso, tá?
Assenti.
— Dá valor pra quem estiver com você… e, principalmente, pra quem te amar de verdade.
Apertei os lábios.
— E nunca esquece de onde você veio.
— Nunca — respondi, sincera.
Ele sorriu.
— E quando tudo isso acontecer… — fez um gesto vago com a mão — cuidado. Você vai chamar atenção.
Franzi a testa.
— Não entra em escândalo, não se perde no meio disso.
— Até parece que você não me conhece.
Ele riu.
— Conheço… por isso mesmo tô falando.
Se levantou.
— Vou voltar pro restaurante. Mas parece que você também tem coisa pra fazer.
Olhei para o livro na mesa.
— Pois é… boa sorte pra mim.
— Ah — ele completou, já na porta — não esquece de mandar o e-mail pra Jessica.
— Era isso o misterioso?
Ele deu de ombros… e saiu.
Fiquei alguns segundos em silêncio, depois ri. Liguei o computador novamente, peguei meu Nokia 1100 e mandei a mesma mensagem pra Lara e Marina:
“Eu vou pra Hollywood!”
Ri sozinha.
Voltei para a tela, abri o e-mail, peguei o cartão da Jessica no porta-lápis e encarei o endereço.
Respirei fundo.
Quase um mês.
Será que ainda dava tempo?
Abri uma nova mensagem.
Pensei em escrever algo bonito.
Formal.
Perfeito.
Não escrevi.
“Ainda me querem? Porque eu aceito.”
Enviei.
Sem pensar duas vezes.
Fechei os olhos.
Agora… era esperar.
Mas não demorou, um som alto veio das caixas de som.
Abri os olhos.
Resposta.
“Pela sua demora, você parece ser uma pessoa bem racional. Quando te vejo?”
Ri, incrédula.
Respondi rápido:
“Vou tirar passaporte e visto amanhã. Pode demorar alguns dias.”
Outra resposta.
Quase imediata.
“Vou providenciar uma carta explicando sua vinda. Isso ajuda com o visto. E um contrato de trabalho provisório — não é o definitivo.”
Suspirei, aliviada.
“Obrigada! Vou esperar.”
Mais um e-mail.
“Posso preparar sua chegada?”
Sorri.
“Com certeza.”
Me joguei na cadeira.
Outro som.
“Quando estiver tudo pronto, me avise para reservar sua passagem. Por nossa conta.”
Arregalei os olhos.
Sorri.
“Pode deixar. Tô animada.”
Mais um.
Atualizei a página.
E então li:
“Acredite… nós também.”
Me joguei na cadeira.
Sorrindo.

— Não chora! — falei, firme.
Meu pai assentiu, puxando o ar com força.
— É impossível…
Ele me abraçou, apertando meu corpo contra o dele. Passei os braços pela sua cintura.
— Se cuida, tá? — ele murmurou. — E me mantém informado… é só isso que eu peço.
— Pode deixar, pai.
Respirei fundo.
— Assim que eu chegar, vou tentar comprar um chip de lá… e um computador pra gente se falar.
Ele sorriu, mesmo com os olhos vermelhos, e beijou minha bochecha.
— Por favor.
Assenti.
— Eu coloquei dinheiro na sua conta — ele continuou. — Usa o cartão, não pensa duas vezes.
— Tá bom.
— Fique bem, minha querida — minha avó disse, me puxando para um abraço apertado.
Sorri, me abaixando um pouco para envolvê-la.
— Seu pai vai ficar bem.
Assenti, sentindo o nó na garganta apertar.
— Obrigada, vovó.
Ela beijou minha bochecha.
— Pode deixar.
— E não esquece da gente! — Lara apareceu já me abraçando junto com Marina.
Ri, mesmo com os olhos ardendo.
— Nunca!
Abracei Lara primeiro. Ela segurou meus ombros e me olhou nos olhos.
— A gente confia em você. Não deixa ninguém te diminuir só porque você ainda tá aprendendo.
Engoli em seco.
— Você vai aprender. E vai ser a melhor.
Sorri, emocionada.
Marina me puxou em seguida, escondendo o rosto no meu pescoço.
— Eu nunca achei que isso ia acontecer… — ela murmurou. — A gente sempre planejou tudo juntas…
Fechei os olhos.
— Mas essa é a sua vez — ela continuou, se afastando para me olhar. — E você vai dar conta.
Respirei fundo.
— Promete que quando você voltar… vai ser com a gente aqui te esperando… e um monte de gente querendo seu autógrafo?
Ri, entre lágrimas.
— Eu prometo.
Passei a mão no rosto, tentando me recompor.
— Vai, filha — meu pai chamou, olhando o relógio. — Já liberaram o embarque.
Assenti.
— Eu amo vocês.
Ele me abraçou de novo — mais forte dessa vez. E agora ele chorava.
— Eu também, meu anjo.
Me soltou devagar. Olhei para a passagem na minha mão, respirei fundo e ajustei a mochila nas costas, segurei a bolsa... e fui.
Entrei na fila do embarque internacional, caminhando devagar. Cada passo parecia mais pesado que o outro. Eu estava indo. Só… não sabia quando voltaria.
— Boa tarde — a atendente disse.
Entreguei a passagem, tentando segurar as lágrimas.
— Pode passar.
Dei um passo.
Mas parei.
Olhei para trás.
Meu pai. Minha avó. Lara. Marina.
Todos com os olhos vermelhos.
Tentando sorrir.
Assim como eu.
Levantei a mão, eles fizeram o mesmo, sorrisos tremidos, olhos brilhando...
Respirei fundo.
Fechei os olhos por um segundo.
E virei de volta.
— Vai lá e arrasa, !
A voz da Lara me fez olhar mais uma vez. Soltei uma risada leve, mesmo chorando.
Sorri.
E segui.
Entrando na sala de embarque, com as lágrimas finalmente livres.

Puxei minha mala pesada assim que passei pela imigração e segui pelos corredores do LAX, acompanhando as placas em direção à saída. Jessica tinha dito que alguém estaria me esperando, mas não disse quem, nem como eu reconheceria.
Suspirei.
Tudo bem.
Eu estava em Los Angeles.
As portas automáticas se abriram quando me aproximei, revelando um mar de pessoas esperando outras pessoas. Motoristas com placas. Famílias. Abraços. Reencontros.
Passei os olhos pelo lugar, ajeitando o cabelo — que devia estar um desastre depois da viagem — e dei alguns passos para o lado, tentando não atrapalhar o fluxo.
!
Ouvi meu nome — ou algo bem próximo disso.
Virei o rosto na direção da voz e soltei o ar. Jessica estava do outro lado, segurando uma placa com meu nome.
Sorri na hora.
Atravessei a pequena multidão até ela, vendo-a abrir um sorriso enquanto se aproximava e já esticava a mão para pegar minha mala.
— É bom te ver — ela disse, passando um braço pelos meus ombros.
— É bom estar aqui — respondi, ainda meio sem acreditar. — Demorei muito?
— Nada — ela sorriu. — Vem, tem um carro esperando.
Assenti e comecei a andar ao lado dela, olhando tudo ao redor, tentando absorver cada detalhe.
— Bom dia! — um homem, na casa dos trinta, nos cumprimentou.
Sorri.
, esse é o Juan — Jessica disse. — Ele vai ser seu motorista aqui em Los Angeles, quando precisar.
— Oi! — falei, um pouco sem saber como agir, estendendo a mão.
Ele sorriu e apertou com firmeza.
— Prazer, senhorita.
— Prazer!
— Posso pegar suas coisas? — ele perguntou, com um forte sotaque espanhol.
Assenti, entregando a bolsa e tirando a mochila das costas. Observei enquanto ele colocava tudo no porta-malas. Jessica abriu a porta de trás para mim. Entrei, ajeitando o cinto.
— Espero que goste daqui, — ela disse, fechando a porta.
Respirei fundo.
— Eu também.
O carro começou a se mover.
— Foi difícil a despedida?
Assenti.
— Foi…
Desviei o olhar e abaixei um pouco o vidro. O ar diferente entrou, olhei para fora e tudo parecia… maior.
— Você deve estar cansada — Jessica comentou.
— Um pouco. Mal dormi.
Ela assentiu.
— A gente resolve isso.
O celular dela tocou logo em seguida.
Enquanto ela atendia, voltei minha atenção para a janela.
Prédios.
Carros.
Placas.
Um mundo completamente diferente.
Encostei a cabeça no banco, ainda sem acreditar que eu estava mesmo ali.

Eu não conhecia muito de Los Angeles pra saber exatamente por onde estávamos passando. Mas o trajeto do aeroporto até o nosso destino levou quase quarenta minutos — o suficiente pra me deixar um pouco assustada com o tamanho da cidade.
Assim que saímos do aeroporto, vi as letras gigantes do LAX, aquelas mesmas dos filmes.
E sorri.
Agora tinha caído a ficha.
Eu estava mesmo ali.
O restante do caminho foi quase todo por avenidas largas e vias expressas. Carros passando rápido demais, prédios surgindo e desaparecendo antes que eu pudesse realmente observar.
Mesmo assim, deu pra notar a mudança.
As ruas começaram a ficar mais bonitas. Mais verdes. Casas e prédios com uma arquitetura moderna, jardins bem cuidados… tudo parecia mais… caro. Eu não fazia ideia de onde estava, mas, sinceramente, não importava.
— Nessa rua fica a gravadora — Jessica apontou, enquanto parávamos no semáforo.
Olhei para o lado.
Prédios empresariais, todos imponentes.
Engoli em seco.
Seguimos mais algumas quadras antes de Juan virar à direita e parar na portaria de um condomínio.
Tentei ler o nome.
Park Brea LA Apartments.
Arregalei os olhos.
Aquilo era enorme.
Não… enorme não.
Era uma cidade.
Torres altas, ruas internas, carros circulando, pessoas andando, crianças brincando. Fiquei olhando tudo, meio perdida, enquanto o carro avançava até parar em frente a uma das torres.
Saí ao lado de Jessica, ainda absorvendo tudo.
— Pode subir as malas, Juan? — ela pediu.
— Claro, senhorita.
— Obrigada! — falei, acenando.
Jessica já estava entrando quando percebi, então apressei o passo para acompanhá-la. O hall era espaçoso, moderno, bonito demais.
— Entra — ela disse, já dentro do elevador.
Entrei e vi o número 12 acender.
O elevador subiu rápido — rápido demais.
Senti uma leve vertigem.
As portas se abriram. Jessica saiu na frente, tirando uma chave do bolso enquanto caminhava pelo corredor.
Quatro portas.
Ela parou em uma.
112.
— Espero que goste.
A porta se abriu.
E eu parei.
Você entrava direto na sala.
Sala de estar e jantar integradas, tudo organizado, bonito, silencioso.
Mesa de vidro.
Sofá claro.
Televisão de tela fina.
Móveis escuros contrastando com o resto.
Aquilo… não parecia real.
— Vai, pode olhar — Jessica incentivou.
Fui direto para a primeira porta.
Cozinha.
Completa.
Armários planejados, eletrodomésticos que eu só tinha visto em loja, tudo limpo, organizado.
Voltei.
Outra porta.
Banheiro.
Simples, mas perfeito.
Mais uma.
O quarto.
Cama de casal.
Tapete claro.
Abajures.
E um móvel com porta-retratos… vazios.
Aquilo me deu uma sensação estranha.
Como se estivesse esperando alguém.
Abri outra porta.
Closet.
Espaçoso.
Com roupas de cama e toalhas já organizadas.
Respirei fundo.
Voltei para a sala.
Jessica estava ali, com Juan e minhas malas. Olhei para ela, ainda tentando entender.
— E aí? Gostou?
Ri, meio sem reação.
— Gostei… mas… o que é isso?
Ela sorriu.
— Sua nova casa, .
Meu coração disparou.
— O quê?
— Um dos apartamentos da gravadora — ela explicou. — É seu pelo tempo que precisar. E você não paga nada.
Passei a mão na testa, tentando processar.
— Meu Deus…
— Regras básicas — ela continuou, prática. — Sem barulho depois das dez, pode ter animais, interfone na cozinha, telefone na sala com ligação internacional…
Assenti, ainda meio aérea.
— Tem comida, tudo funcionando… e — ela estendeu o cartão — meu número.
Peguei.
— Obrigada… por tudo.
Ela me abraçou.
— É o mínimo.
Se afastou, segurando meu rosto com as mãos.
— Quero que você se sinta em casa. E pode falar comigo sobre qualquer coisa.
Assenti.
— Obrigada.
— Agora descansa. Amanhã a gente começa.
Ela caminhou até a porta.
— Espero que goste daqui — Juan disse.
— Eu já gostei — respondi, sorrindo.
Eles saíram.
A porta se fechou.
Silêncio.
Fiquei parada no meio da sala, olhei em volta.
Sofá.
Mesa.
Janela.
Minhas malas.
Minha vida.
Soltei o ar devagar. Eu estava sozinha em Los Angeles no meu apartamento. E, pela primeira vez desde que cheguei… aquilo tudo pareceu real.

Capítulo 3

Puxei a coberta, me escondendo embaixo dela, e suspirei, franzindo os olhos. Eu não queria acordar.
Virei meu corpo na cama e percebi que tinha girado um pouco mais do que o costume, o que me assustou. Abri meus olhos imediatamente e soltei a respiração forte, finalmente me encontrando.
Eu não estava em Relva. Eu estava em Los Angeles.
Passei a mão pela testa e me sentei na cama, pegando meus óculos ao lado. Dei uma olhada naquele quarto que parecia gigante para mim. Não que eu morasse em um cubículo no Brasil, mas pela decoração e pelo espaço vazio, tudo parecia muito maior.
Joguei a coberta para o lado e saí da cama de casal, encontrando o notebook jogado no chão. Aquilo era praticamente novo para mim. Eu nunca tinha visto algo daquele tamanho.
Desamassei minha calça de moletom e arrumei a cama. Se eu realmente fosse morar sozinha, pelo menos tentaria me manter organizada.
Peguei o aparelho no chão e coloquei sobre a cama, ligando-o novamente. Provavelmente eu tinha deixado minhas amigas falando sozinhas no ICQ na noite passada. E agora elas deveriam estar dormindo.
Olhei para o relógio em uma das mesas de cabeceira e vi que era pouco depois das nove da manhã. Ainda era relativamente cedo.
Peguei minha mala e minha mochila, que estavam jogadas em um canto do quarto, e coloquei tudo sobre a cama, abrindo-as.
Comecei a separar minhas roupas por categorias: blusas de manga comprida, camisetas, regatas. Shorts, calças jeans, calças de moletom, roupas de ginástica, roupas íntimas, roupas de banho e calçados.
Eu literalmente tinha limpado meu armário em Relva. Tinham sobrado apenas algumas roupas mais antigas.
Entrei no closet e acendi a luz. Aquele lugar era enorme.
Minhas roupas pareciam poucas demais para aquele espaço, mas suspirei e comecei a organizar tudo. Depois de algumas idas e vindas entre o quarto e o closet, consegui ajeitar minhas coisas nas prateleiras.
Provavelmente mudaria tudo depois de alguns dias, mas por enquanto estava bom.
Coloquei meus tênis, sandálias e rasteirinhas em uma das prateleiras que parecia ter sido reservada para isso. Tinham umas doze ao todo, de cima a baixo, e eu usei apenas duas para sapatos e três para roupas, além das gavetas onde guardei minhas calcinhas, sutiãs e meias.
Voltei para o quarto e tirei alguns produtos de beleza que eu tinha trazido do Brasil na mochila: sabonetes, cremes, xampus, condicionadores, maquiagem e um secador de cabelo.
Atravessei o pequeno corredor e entrei no banheiro. Ele também era enorme e tinha um armário embaixo da pia, onde coloquei tudo.
Fiquei feliz quando encontrei alguns rolos de papel higiênico.
Aquele apartamento realmente estava preparado para mim.
Voltei para o quarto e guardei a mala no fundo do closet, fechando a porta em seguida. Dei uma volta pelo quarto, conferindo se tudo estava minimamente organizado.
Aparentemente, sim.
Soltei um suspiro e fui até o computador, encontrando um e-mail do meu pai e algumas mensagens das minhas amigas que eu claramente não tinha respondido na noite passada.
Respondi primeiro meu pai.
Ele queria saber como tinha sido o voo, se eu estava gostando de tudo e como eu estava me sentindo.
Falei que estava tudo bem até agora e que eles tinham praticamente me dado um apartamento.
Era isso que parecia.
A resposta dele chegou logo depois. Ele estava surpreso com a preocupação que estavam tendo comigo e esperava que aquilo continuasse por bastante tempo.
Escrevi um novo e-mail desejando bom dia, apesar de que no Brasil já era quase hora do almoço, e falei que estava um pouco perdida sobre o que aconteceria naquele dia, mas que estava tudo bem.
Fechei o notebook novamente e calcei meus chinelos.
Eu ainda não sabia como lavaria minhas roupas, mas esperava que elas demorassem para sujar.
Abri a porta do quarto e fui até a sala, pensando no que eu poderia tomar de café da manhã. Os americanos tinham uma alimentação um pouco diferente da minha, mas me lembrei do cereal.
Serviria por enquanto.
— Bom dia!
Me assustei, erguendo o rosto e encontrando Jessica sentada no sofá da sala de TV com diversos papéis em sua frente.
Coloquei a mão no peito, sentindo minha respiração acelerar.
— Pelo amor de Deus...
— Pode se acostumar! Isso vai ser frequente — ela falou, abrindo um sorriso.
Suspirei e me aproximei.
— Você poderia ter me avisado ontem.
— Assim não teria tanta graça.
Revirei os olhos, mas acabei soltando uma risada fraca.
— Ok, está valendo! — falei, suspirando. — A gente tem algum compromisso hoje? — perguntei.
Ela se levantou, juntando alguns papéis em cima da mesa.
— Vários! — respondeu. — Mas acho que você merece um café da manhã primeiro.
Afirmei com a cabeça e ela apontou em direção à cozinha.
— Eu espero.
Passei por Jessica e entrei na cozinha, dando uma olhada rápida nos armários. Encontrei o cereal que eu tinha pensado pouco antes e abri a geladeira, encontrando também uma garrafa de leite.
Coloquei o cereal em uma vasilha e enchi um copo com leite, levando-o ao micro-ondas por alguns segundos. Enquanto esperava, fui guardando as coisas que tinha tirado do lugar.
Assim que o aparelho apitou, coloquei o leite sobre o cereal e misturei com uma colher de açúcar.
Peguei a tigela e voltei para a sala, onde Jessica estava novamente sentada no sofá, revisando seus papéis.
Sentei na poltrona, erguendo meus pés e comecei a comer.
— O que temos para hoje? — perguntei.
Ela virou o rosto para mim por um momento, mas logo voltou sua atenção aos documentos.
— Você vai ter uma reunião com Patrick Wilson hoje. — Franzi a testa, colocando mais uma colherada na boca.
— Ok... — falei, ainda tentando entender.
— Ele é o atual presidente da Virgin Records de Los Angeles.
Arregalei os olhos, surpresa.
— Foi a equipe dele que encontrou você e é a ele que você responde financeiramente e administrativamente. — Ela soltou uma risada fraca. — Que, no caso dele, é praticamente a única coisa que importa. Dinheiro.
Dei uma pequena risada.
— Economia e música não combinam muito bem. — Ela suspirou. — Mas ele é o chefe, então... fazer o quê?
Abaixei a tigela, apoiando-a no colo.
— E o que eu devo esperar dessa reunião?
Jessica nem levantou os olhos dos papéis.
— Muito nariz empinado e arrogância.
Soltei um suspiro e coloquei a tigela na mesa de centro. Passei as mãos uma na outra, estralando os dedos, enquanto me levantava.
Eu estava pensando se deveria falar ou não o que estava passando pela minha cabeça.
— O quê? — ela perguntou, finalmente olhando para mim.
— Eu sou esquentada, Jessica. — Peguei a tigela novamente. — Eu não levo desaforo para casa.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— E por que você está me dizendo isso?
— Porque, se ele começar a falar besteira, eu provavelmente vou responder à altura. — Jessica abriu um pequeno sorriso.
— Vai ser interessante para ele ver alguém realmente lutando pelo que quer. — Franzi a testa.
— Como assim?
Ela colocou os papéis sobre a mesa e se levantou.
— Digamos que a Virgin tem um certo status.
— Sim, é famosa por ser uma das melhores gravadoras do mundo.
— Exatamente. — Ela suspirou.
— E isso atrai muitas pessoas com dinheiro. Pais ricos que enxergam um simples talento em um filho e querem transformar isso em investimento.
Ela caminhou até o corredor e fez um gesto para que eu a acompanhasse.
— Então eles colocam dinheiro na gravadora, nós fazemos o filho ficar famoso e pronto. — Franzi a testa.
— E isso é ruim?
— É que normalmente não dura muito. — Ela me soltou e apontou para o quarto. — Então, , você está fazendo parte de uma pequena revolução.
Pisquei algumas vezes.
— Como assim?
— Você é uma das primeiras pessoas a ser contratada por talento bruto e não por dinheiro. — Ela deu de ombros. — Você não entrou aqui trazendo investimento. Nós entramos investindo em você. Esperando que o retorno seja milhões de vezes maior do que uma passagem, moradia e aulas.
Balancei a cabeça, tentando absorver aquilo.
— Ok... e daí?
— Daí que ele está um pouco incomodado com isso. Dinheiro entrando é sempre melhor do que dinheiro saindo, certo?
Ela sorriu de lado.
— Mas eu acredito em você.
Suspirei.
— Tá bom.
Ela apontou novamente para o quarto.
— Agora vai se trocar.
— E eu visto o quê? — Jessica soltou uma risada.
— O que você usaria na sua casa.
Entrei no closet e suspirei ao olhar em volta.
Estava calor em Los Angeles. Era julho, então eu podia usar algo mais leve, mas não queria abusar. Shorts eram o que eu usaria em casa, mas talvez não fosse a melhor ideia para uma reunião.
Passei pelos meus vestidos pendurados e abri um sorriso.
Meus vestidos eram simples. A maioria tinha flores ou estampas coloridas e todos iam até o joelho, comprados em lojas comuns no Brasil.
Eu não era uma pessoa de marcas. Não por não gostar, mas porque não fazia sentido gastar quinhentos reais em uma blusa quando eu poderia gastar vinte e comprar várias.
Escolhi um vestido azul com desenhos de folhas em um tom mais escuro e me olhei no espelho.
Respirei fundo, inclinando a cabeça para o lado.
Era simples. Mas era eu.
Abaixei o corpo e coloquei uma rasteirinha, quase perdendo o equilíbrio e precisando me apoiar na parede.
Saí do closet e Jessica me olhou de cima a baixo, assentindo com um sorriso.
— Está boa.
Sorri e segui até o banheiro.
Primeiro, passei fio dental e escovei os dentes. Deixei meu sorriso o mais bonito possível. Era complicado usar aparelho fixo, mas eu fazia o meu melhor. Olhei para meu cabelo no espelho e passei a escova, percebendo tarde demais que tinha feito uma péssima escolha. Meu cabelo era ondulado. Ou seja: eu tinha acabado de deixá-lo enorme. Franzi a testa e peguei uma presilha que estava jogada por ali, prendendo meu cabelo para trás.
Passei corretivo nas espinhas mais visíveis do rosto, pelo menos tentando disfarçar um pouco. Não perderia meu tempo com base. Demoraria demais. Passei um lápis escuro nos olhos e um batom discreto nos lábios, apenas para hidratá-los. Saí do banheiro e fechei a porta.
— O que acha? — perguntei.
Jessica me olhou por alguns segundos e abriu um sorriso.
— Acho que está ótima. — Assenti.
— Vamos, então.
Ela começou a sair do apartamento e eu só tive tempo de pegar minha bolsa, jogar meu celular e meu passaporte dentro dela antes que o elevador quase fechasse na minha frente.

Juan estava lá embaixo nos esperando novamente. Ele era uma pessoa simpática. Enquanto Jessica permanecia fechada, focada em seu celular que abria para cima, com tela colorida, teclado completo e várias funções que eu achava incríveis, ele conversava comigo. Mostrava lugares, dava dicas de restaurantes e comentava sobre a cidade.
Não que tivéssemos muito tempo para conversar. Assim que saímos do condomínio, ele virou à esquerda, depois à esquerda novamente, seguiu por uma avenida por alguns minutos e entrou na Wilshire Boulevard, parando pouco tempo depois.
Com certeza passamos mais tempo esperando naquele semáforo lá atrás.
Desci do carro animada e dei uma olhada ao redor. O prédio ao nosso lado era feito de granito marrom e vidros escurecidos. A arquitetura era diferente, quase como se tivesse sido construída em camadas, cada uma mais alta que a anterior.
Logo notei alguns carros de luxo estacionados por perto. Apesar disso, eu tinha acabado de sair de uma BMW Série 5 preta, modelo 2004. Então, provavelmente, o grupinho do outro lado da rua estava tão impressionado comigo quanto eu estava com eles.
Do outro lado da avenida havia um shopping. Não daqueles enormes que encontramos por aí, mas uma galeria cheia de lojas e restaurantes. Fiquei feliz ao ver uma Starbucks. Seria útil nos dias em que eu estivesse com preguiça de preparar café da manhã.
— Vamos! — Jessica chamou.
Acenei para Juan e a segui através das portas do prédio.
Entramos imediatamente em um elevador. Jessica apertou o botão do segundo andar e aproveitei o trajeto para observar os detalhes do lugar. Assim que as portas se abriram, vi o enorme logo vermelho da Virgin Records e não consegui evitar um sorriso.
Aquilo estava realmente acontecendo.
Jessica cumprimentou a recepcionista, e eu fiz o mesmo. Ela era bonita, tinha cabelos pretos brilhantes e usava um vestido vermelho justo. Por um instante fiquei imaginando se esperavam que eu me vestisse daquele jeito. Se fosse o caso, teríamos sérios problemas.
Mas deixei isso para depois.
Assim que passamos pela recepção, chegamos a um grande salão. E quando digo grande, quero dizer enorme. Devia ocupar boa parte do andar e, pelas placas que eu tinha visto do lado de fora, aquele prédio ainda tinha muito mais espaço.
Havia sofás espalhados pelo ambiente, pessoas conversando, outras andando de um lado para o outro. A maioria parecia relaxada. Ninguém ali devia estar tão nervoso quanto eu.
Respirei fundo.
Ao redor do salão, várias portas exibiam placas vermelhas indicando seus destinos: sala de produtores, escritórios, estúdios de gravação, salas de ritmo, estúdio de orquestra, banheiros e tantas outras coisas que eu nem tive tempo de ler direito.
— Ei, Brandon! — Jessica chamou. Virei o rosto na direção dele.
— Olha só, ela veio! — Brandon disse.
Apressei o passo para alcançá-los. Ver um rosto conhecido me deixou imediatamente mais tranquila.
— Como está? — ele perguntou, estendendo a mão. Em vez de apertá-la, bati na palma dele.
— Um pouco nervosa, mas estou bem — respondi, sorrindo.
— É isso que eu gosto de ouvir.
— Vai participar da reunião? — Jessica perguntou.
— Nem a pau. Tenho que terminar umas mixagens com o D. — Ele deu de ombros. — Mas quem sabe um almoço mais tarde? — voltou-se para mim. — Gosta de comida mexicana?
Franzi a testa.
— Nunca comi, na verdade. Mas não sou fresca para comida. — Ele riu.
— Ah, vou gostar de você. — Sorri.
— Vai dar tudo certo.
— Espero que sim.
— Stone!
Eu e Jessica viramos a cabeça ao mesmo tempo.
Um homem mais velho se aproximava. Devia ter mais ou menos a idade dela. Usava terno e tinha uma expressão séria o suficiente para fazer qualquer um se endireitar na cadeira.
— É ele? — sussurrei.
— Não. Mas vamos. — Segui ao lado dela, tentando manter a calma.
— Você está atrasada — o homem comentou.
Jessica nem piscou.
— Eu estaria atrasada se alguém tivesse estipulado um horário.
Ela suspirou.
— Cadê seu pai? Fui chamada para falar com ele, não com você.
Precisei me esforçar para não soltar um "toma".
— Essa é ela? — ele perguntou, olhando para mim. Franzi a testa.
— "Essa" tem nome, senhor. É .
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me analisando de cima a baixo.
— Sou Brent. Prazer, senhorita . — Assenti.
— Prazer.
— Vamos entrar.
Ele apontou para a porta.
Jessica entrou primeiro e eu fui logo atrás.
A sala era comprida e estreita. Havia uma mesa de vidro cercada por poltronas de couro preto e, mais à frente, uma pequena mesa de centro entre dois sofás.
O senhor que eu imaginava ter vindo conhecer estava sentado em um deles. Parecia relaxado, mas seus olhos permaneciam atentos à televisão presa na parede.
Tinha cabelos brancos e volumosos, algumas rugas marcando o rosto, mas ainda passava uma imagem forte. Considerando que era pai do tal Brent, estava muito bem.
Assim que entramos, ele se levantou e ajeitou o paletó antes de nos cumprimentar.
— Patrick! — Jessica disse, apertando sua mão.
— Jessica.
Ele retribuiu o cumprimento e voltou a atenção para mim.
— Você deve ser , certo?
Ele tropeçou um pouco no meu sobrenome e eu assenti, segurando a risada.
— Acho que pronunciei errado.
— Está tudo bem.
Apertei sua mão.
— Sentem-se.
Nos acomodamos. Jessica e eu ficamos no mesmo sofá, enquanto Brent sentou ao lado do pai.
— Eu sou Patrick Wilson, . Imagino que já tenha ouvido falar de mim.
— Sim. Por um momento achei que fosse aquele ator. — Soltei a resposta sem pensar. Patrick riu de leve.
— Isso acontece bastante. — O tom sério voltou quase imediatamente.
— O que ouviu falar sobre mim?
— Que você é o diretor da Virgin Records e que, provavelmente, vou responder mais a você do que a qualquer outra pessoa.
— Só isso?
Mentira.
Mas assenti mesmo assim.
— E sabe o que isso significa?
— Que você é responsável pelo investimento em mim. Em outras palavras, é você quem está gastando dinheiro comigo.
Pela expressão dele, a resposta pareceu agradá-lo.
— E você acredita merecer esse investimento?
Percebi Jessica se mover discretamente ao meu lado.
— Com todo respeito, senhor, acho que essa pergunta deveria ser respondida por você.
Patrick arqueou uma sobrancelha.
— Desculpe?
Me ajeitei no sofá.
— Vocês vieram atrás de mim, não o contrário.
O silêncio tomou conta da sala.
— Eu estava vivendo minha vida no Brasil quando bateram na minha porta oferecendo uma oportunidade. Não sou idiota, então aceitei ouvir. Mas foram vocês que vieram até mim.
Ninguém disse nada.
Nem Patrick. Nem Brent. Nem Jessica. Então resolvi ficar quieta também.
Talvez eu tivesse sido sincera demais.
Jessica tinha feito um certo terrorismo psicológico sobre Patrick Wilson, mas, até aquele momento, ele parecia apenas alguém acostumado a tomar decisões difíceis.
— Quero que me convença de que estou investindo bem.
Inclinei a cabeça.
— Você não está feliz por eu estar aqui, está?
... — Jessica começou.
Levantei uma mão.
— Não é fácil encontrar um talento fora dos Estados Unidos e ter que engolir o próprio orgulho, certo?
Patrick permaneceu em silêncio.
— Minha nacionalidade não define quem eu sou. Mas faz parte de quem eu sou. E, se estou aqui, é porque valorizo essa oportunidade.
Cruzei as mãos sobre o colo.
— Se eu não soubesse cantar, teria recusado tudo isso. Ou você sabe cantar, ou não sabe.
Dei de ombros.
— E eu sei.
Patrick me encarou por alguns segundos. Então apontou para mim.
— Cante.
— Desculpe?
— O que quiser. A música que quiser. Mas cante.
Olhei imediatamente para Jessica.
— Faça o que ele está pedindo — ela respondeu.
Suspirei.
— E não se esqueça de que eu já vi seu vídeo.
Ótimo.
Minha melhor carta já tinha sido descartada.
Thank You For The Music estava fora de questão.
Fechei os olhos por alguns segundos, tentando pensar em alguma alternativa.
Nada. Absolutamente nada.
Então meu olhar percorreu a sala. Até parar em um pôster antigo de Os Miseráveis. Um sorriso surgiu sozinho.
Ah. Essa funcionaria.
Deixei a bolsa no sofá e me levantei. Cantar sentada era possível, mas em pé a respiração funcionava melhor. Endireitei a postura. Fiz uma contagem rápida na cabeça.
Ouvi o piano na minha memória.
E comecei.
I dreamed a dream in time gone by...
Mantive a voz suave, quase contida.
When hope was high and life worth living... I dreamed that love would never die, I dreamed that God would be forgiving...
Minha voz saiu um pouco mais fina do que o normal, mas continuei.
Then I was young and unafraid...
Sustentei a última palavra por mais tempo, sentindo a voz finalmente se acomodar.
And dreams were made and used and wasted...There was no ransom to be paid, no song unsung, no wine untasted...
As mãos ameaçaram subir, como sempre acontecia quando eu me aproximava das notas mais altas. Forcei-as a permanecer ao lado do corpo.
But the tigers come at night...
Deixei a voz descer. Mais grave. Mais intensa.
With their voices soft as thunder...
Alonguei a última palavra.
As they tear your hope apart, as they turn your dream to shame...
A nota vibrou pela sala. Um arrepio percorreu meu corpo. Puxei o ar para continuar.
— Chega.
Pisquei. Olhei para Patrick.
Por um instante, achei que tinha estragado tudo.
Voltei para o sofá e me sentei.
Jessica colocou a mão sobre minha perna. Quando olhei para ela, encontrei um sorriso. Um sorriso de verdade.
— Então? — perguntei, voltando à pergunta anterior. — Está investindo em algo bom?
Patrick permaneceu em silêncio por alguns segundos. A surpresa ainda era visível em seu rosto.
— Não foi perfeito. — Meu coração afundou. — Mas sim.
Voltou a se levantar. E, imediatamente, todos nós fizemos o mesmo.
— Quero ela pronta para lançamento em seis meses.
Meu cérebro levou alguns segundos para processar a frase.
— Incluindo uma mudança visual, Jessica.
Ele já caminhava em direção à própria mesa quando terminou de falar. Jessica colocou uma mão em minhas costas e me conduziu para a porta. Eu ainda estava tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Quando percebi, já estava do lado de fora da sala e a porta fechada atrás de mim.
Estava completamente perdida.
— O que aconteceu? — Ela se afastou apenas o suficiente para olhar para mim.
— Você entrou. — Franzi a testa.
— Entrei onde?
Jessica soltou uma risada incrédula.
— Você tem um contrato com a Virgin Records.
Dei um gritinho involuntário. Levei as mãos à boca.
— Meu Deus! — Ela riu.
— Eu sabia que essa seria a reação.
— Isso é incrível!
— Foi uma ótima escolha cantar I Dreamed a Dream.
— Apostei no sentimental.
— E funcionou. — Ela esfregou os próprios braços.
— Eu arrepiei.
Meu sorriso aumentou.
— E eu não me arrepio facilmente. — Senti minhas bochechas esquentarem. — Vamos providenciar o contrato? — ela perguntou.
Assenti imediatamente. Começamos a caminhar de volta pelo corredor. Então uma dúvida voltou à minha cabeça.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você não gosta do Brent?
Jessica soltou uma risada curta. Uma daquelas risadas que parecem surgir do nada.
— Eu fui casada com ele.
Parei de andar. Literalmente.
— O quê? — Ela riu da minha expressão.
— É, essa costuma ser a reação. — Voltei a acompanhá-la.
— Espera... vocês foram casados?
— Fomos.
— E trabalham juntos?
— Trabalhamos.
— E se falam normalmente?
— Mais ou menos. — Não consegui evitar uma risada.
— Isso explica muita coisa.
— Explica.
Ela deu de ombros.
— Comecei a beber por causa de muita coisa. A pressão da indústria, minha própria vida... e aquele casamento certamente não ajudou.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Não sabia exatamente o que responder.
— Mas já passou.
Ela acenou para a recepcionista.
— Contrato musical de . Para Jessica Stone. — A mulher digitou alguma coisa no computador.
— Está imprimindo.
Jessica me levou até a impressora que ficava ao lado do balcão. Esperamos alguns minutos.
Folha após folha começou a sair.
E sair.
E sair.
— Meu Deus...
Jessica riu.
— Assustador, né?
— Isso é maior que alguns livros que eu já li.
— Bem-vinda ao mundo dos contratos.
Jessica pegou o calhamaço de folhas da impressora e o apoiou sobre o balcão da recepção.
Aquilo era enorme.
Ela pegou um furador, abriu dois buracos nas folhas e passou um prendedor por elas. Em seguida, folheou rapidamente algumas páginas para conferir alguma informação antes de me entregar tudo. Segurei o contrato com as duas mãos. Pesava mais do que eu esperava.
— Onde eu assino? — Jessica estendeu a mão e pegou o documento de volta.
— Em lugar nenhum. — Franzi a testa.
— Como assim?
— Você vai levar isso para casa. — Pisquei algumas vezes.
— Eu vou?
— Vai ler tudo.
Ela enfatizou a última palavra.
— Vai analisar nossas condições, seus direitos e seus deveres. E, se não concordar com alguma coisa, vai sugerir algo melhor.
Olhei para o contrato.
Depois para ela.
Depois para o contrato novamente.
— Você está me dizendo para negociar com a Virgin Records?
— Estou dizendo para você ler antes de assinar.
— Isso parece sensato.
— É porque é. — Não consegui evitar uma risada.
Jessica apoiou os braços no balcão.
, uma das piores coisas que um artista pode fazer é assinar um contrato sem entender o que está assinando. — Assenti. — Se quiser a opinião de um advogado, eu posso indicar o nosso.
— Certo.
— Mas quero que você leia primeiro.
Passei a mão pela capa do documento.
— Tem alguma coisa que eu deveria olhar com mais atenção?
Jessica pensou por alguns segundos.
— Sim. Eles estão oferecendo um vínculo para cinco álbuns.
Meu conhecimento jurídico era praticamente inexistente, mas até eu sabia que aquilo parecia muito.
— Cinco?
— Cinco. — Ela assentiu. — Dependendo do seu ritmo de produção, isso pode significar dez anos. Talvez doze. — Fiz uma careta.
— Nossa.
— Pois é. — Ela cruzou os braços.
— Eu negociaria.
— Quanto?
— Três.
Ponderei por alguns segundos.
— Por quê?
— Porque dois podem parecer pouco comprometimento. — Ela inclinou a cabeça. — E três mostram que você está disposta a construir uma carreira junto com a gravadora.
Assenti lentamente.
Fazia sentido.
— Vou pensar nisso.
— Pense mesmo.
Olhei novamente para a pilha de folhas.
— Isso vai demorar.
— Vai.
— Muito?
— Bastante.
— Ótimo.
Jessica riu.
— Você é a primeira artista que conheço que fica feliz em receber centenas de páginas para ler.
— Faço Letras.
Ela levantou as mãos em rendição.
— Certo. Argumento irrefutável.
Sorri, satisfeita.
— Me passa o contato do advogado também?
— Vou mandar por e-mail.
Assenti.
— Obrigada. — Jessica sorriu.
— Está ficando mais tranquila? — Pensei por alguns segundos.
— Um pouco.
— Só um pouco?
— Ainda existe uma parte de mim esperando descobrir que tudo isso é uma pegadinha. — Ela soltou uma gargalhada. Foi bom ver Jessica rindo abertamente.
— Justo.
Olhei para o elevador.
— Posso ir para casa?
— Claro. — Jessica apontou para as portas de vidro lá na frente.
— Juan está te esperando lá embaixo.
Soltei um suspiro aliviado.
— Graças a Deus.
— Cansada?
— Um pouco.
— Aproveita enquanto pode. — Isso me fez parar.
— Isso foi uma ameaça?
— Talvez. — Estreitei os olhos. Jessica apenas sorriu.
— Eu deveria me preocupar?
— Provavelmente. — Balancei a cabeça, rindo.
Cliquei no botão do elevador. Enquanto esperávamos, uma última dúvida surgiu.
— Ah, Jessica?
— Sim?
— O que Patrick quis dizer com "mudança visual"?
Ela soltou uma risada imediata. Daquelas que surgem antes mesmo da pessoa conseguir responder.
— Calma, .
— Isso não me tranquiliza.
— Tem muita coisa para acontecer ainda.
As portas do elevador se abriram.
Entrei.
— Jessica?
— O quê?
— Eu gostei ainda menos dessa resposta.
Ela riu novamente.
As portas começaram a se fechar. Ela gritou a tempo.
— Amanhã você descobre.
— Jessica!
— Boa sorte! — As portas se fecharam completamente.
Fiquei encarando meu reflexo no metal do elevador.
Depois olhei para o contrato nas minhas mãos.
Depois para mim.
Depois para o contrato.
Suspirei.
Eu tinha acabado de assinar — ou quase assinar — o início de uma vida completamente diferente.

Capítulo 4

Acabei ligando para o advogado que Jessica tinha indicado, o senhor Jeffrey White, mas apenas para perguntar o que deveria fazer caso quisesse alterar alguma cláusula.
Achei que o processo seria complicado. Não era. Segundo ele, eu podia simplesmente riscar o trecho, escrever a alteração à mão e devolver o contrato.
No fim, mudei poucas coisas.
A primeira foi exatamente o que Jessica havia sugerido: reduzir o compromisso de cinco álbuns para três. Não que eu estivesse planejando ir para outra gravadora, mas aquilo parecia mais razoável para um começo. Na verdade, eu nem entendia direito porque cinco tinham sido a proposta inicial.
Também notei que teria quinze anos para entregar esses álbuns.
Quinze anos.
Parecia uma eternidade. Mas resolvi não mexer nisso. Se uma cláusula me beneficiava, eu não via motivo para reclamar.
Outra alteração envolvia a carga de trabalho. Na prática, aquilo funcionava quase como um emprego formal.
Durante os períodos de produção, eu deveria estar disponível por até oito horas diárias para gravações, ensaios, videoclipes, eventos da empresa e qualquer outra atividade relacionada à carreira.
Achei justo.
A última mudança foi na parte dos produtores. O contrato citava um tal de Henry George, que eu não conhecia. Então acrescentei o nome de Brandon. Nem sabia se aquilo seria aceito, mas ele parecia saber exatamente o que estava fazendo. Se eu pudesse escolher alguém para trabalhar ao meu lado, fazia sentido tentar.
Cochilei três vezes enquanto lia aquelas cento e trinta e nove páginas.
Era muita coisa.
Muitas cláusulas.
Muito juridiquês.
A maior parte eu não entendia completamente, mas também tinha certeza de que metade daquilo nunca afetaria minha vida.
Alguns detalhes, porém, chamaram minha atenção.
Durante a vigência do contrato, o apartamento onde eu estava morando seria considerado minha residência oficial, com aluguel, contas e despesas totalmente cobertos pela gravadora.
Aquilo era ótimo.
Pelo menos eu não precisaria me preocupar com moradia por um bom tempo.
Outra cláusula mencionava um motorista disponível vinte 24 horas por dia. Logo abaixo estava o nome de Juan.
Sorri.
Ainda bem. Eu já tinha me acostumado com ele.
Também encontrei uma parte que talvez explicasse o comentário de Patrick sobre uma "mudança visual". Havia uma lista enorme de profissionais que trabalhariam comigo. E não estou falando de músicos.
Estou falando de especialistas em saúde, imagem e bem-estar. Professores de educação física. Cabeleireiros. Maquiadores. Dermatologistas. Dentistas. E várias outras especialidades que eu nem sabia exatamente para que serviam.
Depois disso, conversei um pouco com meu pai. Ele estava no restaurante, cuidando do caixa, com o computador aberto na página do e-mail. Foi bom falar com ele de verdade. Tanta coisa tinha acontecido em tão pouco tempo que eu nem sabia por onde começar. E olha que o dia nem tinha sido tão longo assim.
Acabei pulando o almoço. Quando meu pai precisou voltar ao trabalho por causa do horário do jantar no Brasil, meu estômago já estava colado nas costas. Revirei os armários da cozinha até encontrar macarrão. Depois achei queijo na geladeira.
E me americanizei de vez. Preparei meu primeiro mac and cheese. Provavelmente não ficou exatamente como mandava a receita. Mas ficou gostoso.
Antes de encerrar o dia, resolvi descer para conhecer um pouco melhor o condomínio. Juan ainda estava lá quando cheguei ao térreo. Expliquei que não pretendia sair para lugar nenhum naquele dia e que ele podia ir para casa. Ele apenas assentiu e me entregou um cartão com seu telefone, caso eu precisasse.
O condomínio era enorme. Fazia sentido. Eram muitas torres espalhadas pela propriedade. Havia piscinas, quadras poliesportivas, quadras de tênis, academias e várias outras áreas de lazer. Não me preocupei em conhecer ninguém. As pessoas passavam por mim de cabeça baixa, focadas na própria vida. Então resolvi fazer o mesmo.
Quando voltei para o apartamento, me joguei no sofá e fiquei assistindo aos filmes que passavam na televisão.
Sem perceber, acabei dormindo.
Quando acordei, passava das três da manhã.
Um filme estranho ocupava a tela.
Bocejando, me levantei, desliguei a televisão e me arrastei até o quarto. Mal toquei o colchão e já estava dormindo de novo. Acho que ainda não tinha me acostumado ao fuso horário.

— Ontem você me perguntou o que eu quis dizer com mudança visual, certo? — Jessica comentou enquanto caminhávamos em direção ao prédio da gravadora.
— É. Mas acho que já descobri isso pelo contrato.
— Sim, mas ainda preciso explicar melhor.
Ela apertou o botão do elevador.
— Você é uma menina bonita, . Mas não é exatamente o que a indústria considera... vendável.
Franzi a testa.
— Vendável?
— Sim. — Ela suspirou.
— As pessoas costumam se inspirar nas pessoas que veem na televisão, certo? — Olhei para o chão por um instante.
— E ninguém sonha em usar aparelho, óculos... essas coisas. Entendi. — Revirei os olhos.
— Exatamente. — Jessica entrou no elevador ao meu lado. — Eu sei que é chato. Mas é uma exigência da gravadora.
As portas se fecharam.
— Também não estamos falando apenas de aparência. Vamos cuidar da sua saúde, da sua preparação física, da sua rotina. — Ponderei por alguns segundos.
— Não vou mentir para você e dizer que estou feliz com quem eu sou. Porque quase ninguém da minha idade está. — Ela me observou em silêncio. — Só quero te pedir uma coisa.
As portas do elevador se abriram. Do outro lado havia um enorme salão de beleza.
— Diga. — Jessica segurou a porta para mim.
— Eu não quero mudar quem eu sou. — Suspirei. — Por dentro.
Ela me puxou gentilmente para fora do elevador. Então parou. Olhou diretamente nos meus olhos. E assentiu.
— Espero que não. — Seu tom ficou mais sério. — E espero que você lute para continuar sendo quem é, .
Continuei ouvindo.
— As pessoas costumam perder a própria identidade quando entram nesse mundo. — Ela suspirou. — Não perca a sua.
Senti um nó estranho na garganta.
— Agora é fácil falar.
Jessica arqueou uma sobrancelha.
— É?
— Então me ajuda.
Por um segundo, ela ficou em silêncio. Depois sorriu, passou um braço pelos meus ombros.
— Vamos fazer isso juntas.
Não sei por que, mas aquilo me tranquilizou imediatamente.
— Eu nunca tive a oportunidade de ser mãe. — Ela começou a caminhar novamente. — E você não tem uma mãe com quem possa contar há muito tempo. — Engoli em seco. — Então vamos fazer isso juntas, ok?
Assenti.
— Ok.
— E não precisa ter medo. — Ela apontou para o interior do andar. Todas as pessoas que vão trabalhar com você são de confiança. — Ela parou por um segundo. — Alguns são um pouco excêntricos.
— Um pouco? — Jessica riu.
— Tá bom. Alguns são muito excêntricos. — Acabei rindo também.
— Mas isso dá a eles o direito de serem.
— Justo.
— Você é uma boa pessoa, . — Olhei para ela. — Mas também sabe o que quer. — Sorri sem graça. — E, ironicamente, isso significa que você provavelmente vai se dar bem nesse mundo.
Assenti. Tentando ignorar o fato de que aquela conversa estava me deixando estranhamente emotiva.
— Eu normalmente não choro fácil.
— Então vamos seguir em frente antes que isso aconteça.
Sorri. E a acompanhei. Aquele andar lembrava bastante a estrutura da Virgin Records. O conceito era parecido: um grande salão central cercado por salas. Mas as diferenças chamavam atenção imediatamente. Ali, o branco predominava. Nada dos tons amarronzados, carpetes escuros e madeira da gravadora. Além disso, quase todas as salas possuíam paredes de vidro. Era possível observar as pessoas trabalhando lá dentro. Jessica abriu a porta de uma das poucas salas fechadas. Franzi a testa e a segui.
— Ah, ela chegou!
A voz era aguda.
Jessica foi imediatamente abraçada por uma pessoa absurdamente alta.
— Como está, Robb? — ela perguntou.
Foi só então que consegui observá-lo direito. Ele tinha cabelos cacheados escuros. A pele extremamente clara. Óculos grandes. E um sorriso alegre demais para alguém que eu tinha acabado de conhecer. Será que era ele quem cuidaria de mim?
Confesso que fiquei um pouco preocupada.
— Essa é ela? — ele perguntou. Virou-se na minha direção.
E eu juro que fiquei parada igual a um manequim.
— É ela sim — Jessica respondeu.
Os dois passaram a me observar. E eu não gostei nem um pouco daquilo. Robb começou a andar ao meu redor.
Uma volta.
Depois outra.
E mais uma.
Eu tinha quase certeza de que estava sendo analisada como um projeto. Ele retirou meus óculos. Observou meus olhos. Colocou os óculos de volta. Passou as mãos pelos meus cabelos. Apalpou os fios. Depois examinou meu rosto. Meu corpo. As costas. A cintura. A barriga. E então tentou apertar um dos meus seios. Dei um tapa imediato em sua mão.
— Ei!
— Só conferindo! — ele respondeu, levantando as duas mãos em rendição.
Voltou para perto de Jessica como se aquilo fosse perfeitamente normal.
— E então? — ela perguntou. Robb levou a mão ao queixo. Soltou alguns suspiros dramáticos.
— Não vou mentir. — Olhou para mim. — Temos bastante trabalho pela frente.
Meu coração afundou.
— Mas não será nenhum desafio. — Jessica sorriu. — Ela é bonita.
Apontou para mim.
— De um jeito mais rústico.
Não sabia se aquilo era um elogio.
— Precisamos cuidar dessas espinhas, mostrar esses olhos, corrigir os dentes, dar uma ajeitada nesse cabelo...
Ele continuou listando coisas.
— Colocá-la em forma...
— Dá para fazer isso em seis meses? — Jessica perguntou.
Robb soltou uma gargalhada.
— Se ela fizer tudo o que eu mandar, fazemos em menos.
Comprimi os lábios. Pensei por alguns segundos. E assenti.
— Ok.
Os dois me olharam.
— Quando começamos?

— Primeiro vamos fazer uma avaliação sua, ok? — Robb disse, pegando uma prancheta cheia de papéis.
— Ok. — Suspirei. — E isso consiste em...?
— Perguntas e mais perguntas sobre você e seus hábitos diários.
Ele se acomodou na poltrona à minha frente.
— Preparada?
— Acho que sim.
Olhei para Jessica, que parecia ocupada demais com outras coisas para prestar atenção em mim.
— Nome completo.
.
— Idade.
— Dezessete anos.
Suspirei. Aquilo ia demorar.
— Data de nascimento.
— Vinte e sete de junho de mil novecentos e oitenta e seis.
Escorreguei um pouco mais na poltrona.
— Profissão dos pais.
— Meu pai é dono de um restaurante italiano.
— E sua mãe?
— Me abandonou quando eu tinha seis meses. — Robb ergueu os olhos por cima da prancheta. — Isso não é relevante.
Ele deu de ombros e voltou para as anotações.
— Alguma doença genética?
— Tenho bronquite desde que nasci. Isso conta?
— Conta.
Ele fez uma anotação.
— Principalmente para uma cantora.
Olhei para Jessica.
Ela apenas deu de ombros.
— Vamos resolver isso.
Assenti.
— É alérgica a algum medicamento?
— Sim. Alguns.
— Vou precisar dos nomes.
— Posso pedir para o meu pai.
Ele anotou novamente. As perguntas continuaram.
E continuaram.
E continuaram.
Saúde.
Histórico médico.
Tratamentos anteriores.
Cabelo.
Pele.
Visão.
Dentição.
Cirurgias.
Alimentação.
Exercícios físicos.
Hobbies.
Vida pessoal.
Em determinado momento, ele até perguntou se eu era virgem.
Naquele ponto, eu já tinha desistido de me surpreender.
— Eu nadava durante o ensino médio — respondi quando ele perguntou sobre atividades físicas. Robb anotou.
— Gostava?
— Bastante.
Dei de ombros.
— Melhor do que ficar olhando os minutos passarem lentamente dentro de uma academia.
Ele pareceu refletir sobre aquilo.
— Você sabe que natação aumenta os ombros, certo?
— Sei. — Cruzei os braços.
— Mas não é como se eu fosse uma pessoa pequena.
Uma risada escapou dele.
— Justo.
Voltou a escrever.
Aquela conversa durou quase duas horas.
E eu não estou exagerando.
O relógio atrás dele parecia ter entrado em greve. Em alguns momentos eu estava sentada corretamente. Em outros, já tinha esticado as pernas sobre outra poltrona. E, perto do final, estava praticamente deitada em um sofá, lutando contra o sono.
Aquilo era exaustivo.
Se eu ainda tinha algum segredo ou pudor, provavelmente já não tinha mais. Quando terminasse de preencher aquela ficha, Robb saberia mais sobre mim do que eu mesma.
Finalmente, ele largou a caneta.
— Pronto, Jessica.
Soltei um suspiro tão alto que os dois olharam para mim.
— Vou analisar tudo e montar um plano completo para ela.
Fechou a prancheta.
— Mas você já pode levá-la para a Kate. Podemos começar alguns tratamentos imediatamente.
— Perfeito.
Jessica se levantou. Eu também tentei. A palavra correta era tentei. Meu corpo claramente não concordava.
— Vamos? — ela perguntou. Bocejei.
— Vamos. — Saímos da sala.
— Até mais tarde, anjinho! — Robb gritou atrás de nós. Acenei sem olhar para trás.
— Te vejo depois.
Assim que a porta fechou, virei para Jessica.
— É dele que você estava falando quando mencionou excentricidade? — Ela pensou por alguns segundos.
— Parcialmente.
Não consegui evitar a risada.
— Isso não me tranquiliza nem um pouco.
— Imaginei.

— Ai! Tá doendo, tá doendo, tá doendo! — Eu repetia sem parar.
— Calma! Tá saindo! — Kate respondeu enquanto espremia mais um cravo. — É o último! — Senti outra pontada no rosto.
— Você fala isso faz tempo... Ai! — Gemi quando ela apertou novamente.
— Eu juro que está acabando! — Outra espremida, dessa vez perto da boca.
Meu rosto praticamente entortou. O "está acabando" dela ainda demorou mais algumas apertadas para realmente acontecer. Aquilo já estava virando tortura. E o pior era que ela nem tinha começado a mexer nas espinhas. Estava cuidando apenas dos cravos.
Meu rosto devia estar completamente vermelho.
— Agora vou passar um creme para acalmar a pele. — Assenti. — Pode arder um pouco, mas vai ajudar a reduzir as marcas.
Senti algo gelado tocar meu rosto.
Finalmente.
— E o resto? — perguntei, abrindo os olhos.
— Você não tem tantas espinhas quanto imagina.
Kate continuou espalhando o produto cuidadosamente.
— A maioria eram cravos que acabaram inflamando. E muitos deles já foram removidos.
Assenti.
— Você vai tomar uma medicação específica. Ela faz com que todas as espinhas apareçam de uma vez antes de desaparecerem. — Fiz uma careta.
— Isso parece assustador.
— Um pouco.
Ela riu.
— Mas funciona. — Voltou a espalhar o creme. — Depois que controlarmos as espinhas, vamos trabalhar nas manchas.
— E isso melhora em menos de seis meses?
— Com a dose que vamos usar, sim. — Ela assentiu.
— Não é o melhor tratamento do mundo para seus exames de sangue, por isso vamos monitorar tudo duas vezes por mês. — Assenti novamente. — E, para ajudar, tente não mexer nas espinhas.
Suspirei e fechei os olhos.
— Além dos comprimidos, você vai precisar lavar o rosto duas vezes por dia com os produtos que eu indicar. — Ela fez uma pausa. — E aprender a usar protetor solar. — Abri um dos olhos.
— Tá tão ruim assim? — Kate suspirou profundamente.
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Não estou falando de você.
Abri os dois olhos agora.
— Então?
— É que as pessoas vêm aqui, fazem os tratamentos, recebem todas as orientações... — Ela ergueu as mãos. — E depois simplesmente ignoram tudo. — Ri.
— Aí quem leva a culpa sou eu.
— Justo.
— Muito justo. — Ela suspirou novamente.
— Desculpe. Não deveria estar reclamando.
— Eu estou disposta a fazer o que vocês mandarem, Kate. — Ela me encarou.
— Está?
— Estou.
Dei de ombros.
— Eu não faço ideia de como esse mundo funciona. — Olhei para o teto. — Mas sei que vocês entendem muito mais disso do que eu. — Kate permaneceu em silêncio. — Então vou fazer o que você pedir. — Voltei a olhar para ela.
— Eu quero que isso dê certo. — Ela me observou por alguns segundos. Depois abriu um pequeno sorriso.
— Espero conseguir acreditar em você, senhorita. — Inclinei a cabeça.
— Por quê?
— Porque você é diferente.
— Diferente como?
— Você chegou até nós de uma forma diferente. — Pensei por um instante.
— Então vocês esperam resultados diferentes. — Kate assentiu.
— Exatamente.
— Se estão me dando a chance de fazer isso direito...
Respirei fundo.
— Então vocês vão ter meu esforço. — Ela assentiu devagar. Pareceu satisfeita com a resposta.
— Jessica me contou sobre seus receios. — Virei o rosto para ela.
— Sobre ser brasileira?
— Sim.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— Você acha que eu não deveria ter medo?
Kate pensou antes de responder. Não foi uma resposta imediata. Nem automática.
— Eu vi o seu vídeo. — Franzi a testa.
— E? — Ela sorriu.
— E você não tem que ter medo de nada.
Senti um sorriso surgir no meu rosto antes mesmo de perceber. Pequeno, mas sincero.
— Espero que você esteja certa.
Fechei os olhos novamente. Dessa vez, mais tranquila.

— Ah! Tá doendo, tá doendo, tá doendo!
Repeti pela décima vez.
— Calma! Não estou arrancando seus dentes! — a dentista respondeu, sem parar o que fazia. — Isso não está tão ruim quanto me disseram.
Revirei os olhos. Era fácil falar quando ela não era a pessoa com um alicate dentro da boca.
— Bem, claro que você vai precisar usar um aparelho móvel pelo resto da vida. Mas isso é tranquilo de resolver.
Ela soltou meu lábio e se afastou um pouco.
— Eu comecei a usar aparelho de novo porque alguns dentes estavam saindo do lugar. — Passei a língua pelos dentes. — Estava ficando feio.
— Então você está usando apenas contenção. — Ela pegou alguns instrumentos sobre a bancada.
— Deve ser isso. — Assenti.
— Eu ainda deveria usar o aparelho por mais um ano.
A dentista fechou os olhos. Suspirou. Depois suspirou de novo.
— Como esse povo gosta de me dar desafios... — Não consegui segurar a risada.
— Vou tirar seu aparelho fixo, fazer o molde para um novo aparelho móvel e realizar um clareamento. — Ela apontou para mim.
— E amanhã você volta para buscar tudo.
— Combinado. — Assenti. Ela voltou a mexer na minha boca. Logo começaram os estalos.
Um.
Outro.
Mais um.
Ela estava retirando os braquetes inferiores. Eu já tinha usado aparelho antes. Sabia exatamente o que estava acontecendo. E também sabia qual seria o resultado.
Dentes levemente amarelados. Algumas manchas claras onde os braquetes estavam. Nada bonito.
A cada estalo, porém, eu ficava mais feliz. Eu odiava aparelho. Não porque doía. Mas porque era inconveniente. Você passava meia hora escovando os dentes. Usava fio dental. Escovinha. Enxaguante. Tudo certinho. E ainda corria o risco de descobrir, horas depois, que estava conversando com alguém enquanto um pedaço de comida permanecia preso no aparelho. Era humilhante.
— Pronto. — A dentista ergueu a cadeira.
— Seus lábios vão ficar um pouco estranhos por alguns dias. É normal. — Assenti.
Ela me entregou um espelho. Sorri imediatamente.
— Obrigada! — Observei meus dentes.
Estavam exatamente como eu esperava, mas livres.
— Vou fazer o molde agora e depois resolvemos essa parte da cor, ok? — Assenti novamente.
Enquanto ela preparava os materiais, voltei minha atenção para a parede de vidro. Jessica estava do outro lado. Folheava uma revista enquanto esperava. A dentista começou a misturar uma massa rosada sobre uma bancada. Observei em silêncio. Aquilo parecia cimento.
Meu Deus. Aquilo ia entrar na minha boca?
Franzi a testa. Mas, se fosse necessário... Suspirei.
Eu realmente estava mudando.
Normalmente eu teria recusado metade das coisas que estavam acontecendo.
Mas, considerando que eu tinha atravessado um continente, assinado um contrato com uma gravadora e estava morando sozinha antes dos dezoito anos... talvez um pouco de massa estranha na boca não fosse o maior dos meus problemas.
— Vou colocar isso na sua boca agora. — Ela se aproximou segurando uma moldeira cheia daquela substância rosada. — É um pouco desagradável.
— Isso não me tranquiliza. — Ela riu.
— Vai colar nos seus dentes. Quando formar vácuo, eu tiro. — Assenti.
A dentista abriu minha boca e encaixou o molde. Na mesma hora senti uma ânsia violenta. Mas não havia espaço suficiente nem para reclamar. Ela pressionou a moldeira contra os dentes e o céu da boca. Alguns segundos depois, o material começou a endurecer. Então ela puxou.
— Pronto! — Ela analisou o molde.
— Perfeito. — Colocou-o sobre a bancada.
— Água? — Assenti imediatamente. Ela me entregou uma mangueirinha e praticamente enxaguei a alma.
— Isso é nojento! — Passei a língua pelos dentes para conferir se não tinha sobrado nada.
— Tá acabando, prometo. — Ela trouxe a moldeira inferior. Respirei fundo.
— Você prometeu isso na última vez também. — A dentista apenas sorriu. O processo se repetiu.
Quando terminou, fiquei alguns minutos olhando meu reflexo no espelho. Meus lábios estavam estranhos. Mas era bom estar sem aparelho novamente. Muito bom.
Pouco depois ela voltou. Abaixou a cadeira. E começou o clareamento. Preciso admitir: essa parte foi desconfortável. A limpeza com bicarbonato era extremamente salgada. Toda vez que eu engolia um pouco sem querer, um arrepio horrível percorria meu corpo.
Quando finalmente terminou, meus óculos precisaram ser limpos. Meus lábios também. E ainda teve o flúor. Se eu achava que já tinha sentido ânsia o suficiente naquele dia, o flúor provou que eu estava errada.
— Segura por um minuto.
Um minuto. Parecia uma eternidade.
Mas sobrevivi.
E, quando saí dali, apesar da sensibilidade nos dentes...
Gostei do resultado.

— Oi, . Eu sou Max, seu novo oftalmologista. — O homem mais velho, de cabelos loiros, estendeu a mão para me cumprimentar.
Apertei sua mão e entrei no consultório, enquanto Jessica permanecia do lado de fora mais uma vez.
— Oi. — Minha voz saiu um pouco fanha por causa do aparelho móvel.
— Desculpe. — Max soltou uma risada leve.
— Não se preocupe. — Ele indicou uma cadeira.
— Pode se sentar. — Me acomodei enquanto ele ocupava o lugar do outro lado da mesa.
— Acho que nem preciso perguntar por que você está aqui, não é? — Ele tocou os próprios óculos. Assenti.
— Pois é.
— Me empresta os seus, por favor. — Tirei os óculos e os entreguei.
Imediatamente tudo ficou embaçado. Max caminhou até uma das máquinas do consultório e começou a analisar as lentes. Enquanto isso, aproveitei para observar o ambiente. Ou pelo menos tentar. Sem os óculos, tudo parecia uma pintura borrada. E eu já estava cansada. Muito cansada.
Aquilo tudo parecia só o começo.
— Você tem graus altos. — Assenti.
— Bastante.
— Eu estou distorcido para você?
— Um pouco. — Ele fez outra anotação.
— Certo.
Voltou para perto de mim.
— Vamos ver o que conseguimos fazer. — Indicou outra cadeira.
— Sente aqui. — Troquei de lugar.
Logo depois ele posicionou um daqueles aparelhos enormes na frente do meu rosto. Como óculos gigantescos.
— Você vai me dizer quando melhorar ou piorar, combinado? — Assenti. As lentes estavam geladas.
— Combinado. — Ele começou a trocar as lentes.
— Consegue identificar o quadro? — Olhei para frente.
— Ficou pior. — Outra lente.
— E agora?
— Melhor. — Mais uma troca.
— Agora?
— Pior de novo. — Seguimos assim por vários minutos. Eu já conhecia aquele teste.
— E agora? Consegue ler? — Olhei para as letras. Sorri.
— Agora sim.
— Leia para mim.
— A, F, O, L...
— A linha de baixo.
— X, S, N... — Ele continuou trocando lentes.
— E a menor? — Franzi os olhos, mas consegui.
— K, G, P, Q. — Max retirou o aparelho.
— Sem alteração de grau. — Respirei aliviada.
— Mas parabéns.
— Pelo quê?
— Poucas pessoas conseguem ler a última linha. — Ri.
— Finalmente sou boa em alguma coisa relacionada à visão. — Ele riu também.
— Vamos voltar para a mesa. — Nos sentamos novamente.
— A gravadora quer que eu te adapte para usar lentes de contato. — Assenti.
— Mas existe um problema.
— Sempre existe. — Max sorriu.
— Você tem miopia e astigmatismo. E os seus graus são altos. — Apontei para ele.
— Aí está o problema.
— Exatamente. — Ele cruzou os braços.
— Para o seu caso, as lentes ideais são rígidas. — Fiz uma careta.
— Já ouvi falar delas.
— Então sabe que não são exatamente confortáveis.
— Isso é uma forma educada de dizer que elas são horríveis? — Max riu.
— Mais ou menos. — Abriu uma gaveta.
— Existe outra opção.
— Estou ouvindo.
— Lentes gelatinosas.
— Parece melhor.
— Parece.
Ele enfatizou a palavra.
— O problema é que elas não corrigem totalmente o seu grau. — Pensei por alguns segundos.
— Quanto eu deixaria de enxergar?
— O suficiente para não ler placas distantes.
— Só isso?
— Só. — Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Você vai conseguir andar, se locomover, conversar, identificar pessoas, se apresentar em um palco. — Assenti.
— Ver seus colegas de banda.
— Ótimo.
— Só não vai conseguir ler cartazes do outro lado da rua. — Ponderei.
— Não parece tão ruim.
— Não é. — Max assentiu. — Desde que você não use essas lentes o tempo todo.
— Porque vou forçar a visão.
— Exatamente. — Balancei a cabeça. Aquilo parecia um compromisso razoável.
— Então faz as duas. — Ele ergueu uma sobrancelha.
— As duas?
— As rígidas para situações importantes. — Comecei a contar nos dedos.
— As gelatinosas para shows e eventos. — Levantei mais um dedo.
— E óculos bonitos para o resto do tempo. — Max abriu um sorriso.
— Era exatamente o que eu ia sugerir.
— Então somos gênios. — Ele riu.
— Promete uma coisa?
— Depende.
— Não use as gelatinosas o tempo todo. — Me encarou de forma séria.
— Prometo.
— Mesmo?
— Eu mal consigo viver sem enxergar. — Isso arrancou outra risada dele.
— Justo. — Pegou uma folha de papel.
— As lentes devem ficar prontas em cerca de uma semana. — Começou a escrever. — E vou deixar uma receita para você fazer novos óculos quando quiser.
— Obrigada.
Observei a caneta deslizar pelo papel. Mais uma etapa concluída.
E, pela primeira vez desde que cheguei a Los Angeles, comecei a acreditar que talvez eu realmente conseguisse me acostumar àquela nova vida.

— Ei, Jessica. — Entrei na sala dela naquela manhã.
— Ei, garota. Tudo certo? — Assenti.
— Tem dois minutos?
— Claro. — Ela se ajeitou na poltrona.
— Entra. — Fechei a porta atrás de mim e atravessei a sala.
— O que aconteceu?
— Eu queria conversar sobre uma coisa que venho pensando nas últimas semanas. — Me sentei na poltrona à frente da mesa dela. Jessica apoiou os cotovelos sobre a superfície.
— Estou ouvindo. — Respirei fundo.
— Eu gostaria de continuar a faculdade. — Imediatamente ela franziu a testa. Eu já esperava aquilo. — Vocês estão fazendo um investimento enorme em mim. — Cruzei as mãos sobre o colo. — Mas eu gostaria de ter uma segunda opção caso isso não dê certo.
Jessica se recostou na cadeira. Permaneceu em silêncio por alguns segundos. Olhando para algum ponto distante. Pensei que ela fosse negar. Mas ela apenas refletia. Então voltou a me encarar.
— Eu não sei, . — Suspirou. — Eu entendo o seu lado. — Fez uma pausa. — Mas você consegue? - Inclinei a cabeça.
— Como assim?
— Você vai conseguir conciliar tudo isso? — Respondi sem hesitar.
— Eu era uma das melhores alunas da minha turma no Brasil. — Jessica continuou ouvindo. — E ainda ajudava meu pai no restaurante. — Dei de ombros. — Eu só quero ter uma segunda opção. — Meu tom ficou mais sério. — Porque, se isso não der certo, vou precisar correr atrás de outra coisa.
Ela me observou por alguns segundos.
— Se você realmente acredita que consegue...
— Eu consigo. — Assenti. — E vou conseguir.
Me inclinei um pouco para frente.
— Posso estudar de manhã. — Comecei a contar nos dedos. — E dedicar minhas tardes e noites à gravadora. — Levantei outro dedo. — Se for necessário, estudo de madrugada.
Jessica fez uma careta.
— Essa parte eu não gostei. — Ri.
— Eu só quero uma segunda opção.
Ela permaneceu pensativa por mais alguns instantes.
— Você já pensou em alguma faculdade?
— Não muito. — Balancei a cabeça. — A única que conheço aqui é a UCLA. — Soltei uma risada. — E imagino que seja impossível entrar lá.
— O que você fazia no Brasil?
— Letras. — Respondi em português. — É uma área que estuda línguas, literatura, linguística, pesquisa...
— Um segundo.
Jessica virou para o computador. Começou a digitar. Enquanto isso, voltei a tamborilar os dedos no braço da cadeira. Alguns segundos depois ela encontrou o que procurava.
— Linguística. — Virou a tela para mim.
— Parece ser o equivalente mais próximo.
Aproximei a cadeira.
— "Estudo da natureza da linguagem, gramática, história linguística..." — Continuei lendo. — "...relações com filosofia, antropologia e psicologia cognitiva." — Levantei os olhos. — Parece exatamente o que eu fazia.
— Foi o que pensei. — Jessica voltou a se recostar. — Podemos tentar.
Sorri.
— Mas eu não tenho dinheiro para isso. — ela disse.
— Eu sei. — afirmei.
— E também não faz parte do contrato da gravadora.
— Eu sei disso também. — Ela apoiou o queixo sobre uma das mãos. — O que significa que talvez seja melhor esconder essa conversa de Brent e Patrick por algum tempo.
Não consegui evitar a risada.
— Você fala deles como se fossem monstros.
— Porque às vezes eles são. — Ri novamente. Jessica apontou para mim. — Mas tenho uma ideia.
— Lá vem.
— Universidades adoram alunos interessantes. — Arqueei uma sobrancelha.
— Isso me preocupa.
— Se eu disser que você é uma artista contratada pela Virgin Records...
— Isso é chantagem. — Jessica deu de ombros.
— Só seria chantagem se eu estivesse mentindo. — Acabei rindo. — Vou ligar para a equipe de admissões. Pegou uma agenda.
— Ver se conseguimos marcar uma entrevista. — Meu coração acelerou.
— Sério?
— Sério. — Começou a fazer algumas anotações.
— Se tudo der certo, você entra no próximo semestre. — Sorri.
— Vou avisar meu pai.
— E eu vou infernizar você para aparecer aqui todos os dias à uma da tarde.
— Combinado. — Me levantei.
— Obrigada, Jessica.
— Ei, . — Já estava chegando à porta quando me virei.
— O quê?
Jessica me observou por alguns segundos. Um sorriso apareceu em seu rosto.
— Você está ficando maravilhosa.
Senti minhas bochechas esquentarem imediatamente.
Sorri.
— Obrigada.
Então abri a porta. E saí antes que ela percebesse o quanto aquele comentário tinha me deixado feliz.

— Estou atrasada!
Apertei o botão do elevador várias vezes seguidas, como se isso fosse fazê-lo chegar mais rápido. Não funcionou.
O elevador continuou fechando as portas lentamente e subindo na velocidade normal de sempre. Suspirei. Encostei as costas na parede enquanto ele percorria os dois andares.
Assim que as portas se abriram, dei de cara com uma das atendentes do salão. Cumprimentei-a rapidamente com um sorriso e atravessei o corredor quase correndo. Então virei a esquina. E parei.
— Surpresa!
Jessica, Brandon, Robb e várias outras pessoas que eu encontrava todos os dias estavam reunidos do outro lado do salão.
— Meu Deus!
Soltei uma risada surpresa. O espaço inteiro estava decorado. Balões prateados. Faixas de feliz aniversário. Balões espalhados pelo chão. Uma mesa enorme com bolo, doces e velas formando o número dezoito.
Por alguns segundos eu apenas fiquei olhando.
Sem acreditar.
— Feliz aniversário, menina!
Jessica foi a primeira a se aproximar. Me abraçou forte. E, antes que eu percebesse, senti lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
— Eu não acredito que vocês fizeram isso.
Passei a mão pelos olhos. Jessica se afastou apenas o suficiente para me encarar.
— Dezoito anos é uma data importante. — Sorriu.
— Você já vai passar o aniversário longe das pessoas que ama. — Sua voz ficou mais suave. — Mas isso não significa que não deva comemorar. — Senti meu sorriso aumentar.
Inclinei-me para frente e beijei sua bochecha.
— Obrigada. — Respirei fundo.
— Está incrível.
— Venha. — Ela segurou minha mão.
— Apague as velas. — Jessica me levou até a mesa.
— E não esqueça do pedido. — Fechei os olhos.
Pensei por alguns segundos. Na verdade, nem precisei pensar tanto. Só existia uma coisa que eu queria naquele momento. Uma única coisa pela qual eu vinha lutando desde que chegara ali.
Sucesso.
Respirei fundo e apaguei as velas.
— Obrigada. — Repeti, sorrindo.
— Discurso! — Foi Robb quem começou.
— Discurso! Discurso! — Logo todo mundo estava acompanhando. Revirei os olhos.
— Traidor. — Ele apenas sorriu. Respirei fundo.
— Acho que só tenho a agradecer. — O salão ficou em silêncio. — Todos vocês estão trabalhando muito para me dar uma chance nesse mundo. — Olhei ao redor. — E fizeram isso sem realmente me conhecer. — Senti um nó se formar na garganta. — Eu vou me lembrar disso. — Assenti. — Daqui a alguns anos, quando eu for o sucesso que todos vocês estão apostando que eu vou ser. — Algumas pessoas riram. — Porque eu realmente não esperava nada disso. — Olhei novamente para a decoração. — É muito mais do que eu imaginava. — Prensei os lábios. — Obrigada.
Dessa vez os aplausos vieram imediatamente.
Sorri.
Tentando não chorar de novo.
— Eu preciso dizer uma coisa, .
Brandon se aproximou. Virei-me para ele.
— O quê? — Ele colocou uma das mãos no meu ombro.
— Você é da família agora. — Fiquei em silêncio. — Da família Virgin. — Brandon apontou para todos à nossa volta. — Estamos todos com você.
Assenti. Sem saber exatamente o que responder.
— O seu sucesso será o nosso sucesso. — Ele apertou meu ombro. — Mas antes disso... — Franzi a testa.
— Antes disso o quê?
— Você precisa ser batizada.
— O quê? — Não tive tempo de reagir.
Brandon segurou um lado. Robb apareceu do outro.
— Espera...
Tarde demais. Os dois empurraram minha cabeça diretamente contra o bolo. Ouvi gargalhadas explodirem ao redor. Levantei-me imediatamente. Coberta de glacê. Com pedaços de bolo presos no rosto. Fiquei alguns segundos encarando os dois. Em silêncio.
— Feliz aniversário! — Brandon gritou.
A gargalhada coletiva aumentou. Passei as mãos no rosto. Retirei um pouco do bolo dos olhos. E, contra toda lógica, comecei a rir também.
— Vocês são ridículos.
— Mas agora você faz parte da família!
Brandon me puxou para um abraço, sem se importar se iria se sujar também.
— Estamos juntos nessa, garota.
E, pela primeira vez desde que cheguei a Los Angeles... aquela frase realmente pareceu verdade.

Continua…
Nota da autora
Oi, gente!
Total Stranger é uma fanfic que eu escrevi tem mais de 10 anos, fazia muito tempo que eu não mexia nela, revisava e afins, que desculpa perfeita para isso do que mandar para essa Expedição, certo?
Espero que gostem e não se esqueçam de comentar!
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