Última Atualização: 20/04/2026
Atenção
Essa história é focada no mundo dos famosos. Todos os artistas da vida real existem, mas as músicas e filmes expressos aqui poderão ter autores, diretores e datas de lançamento diferente da vida real. Exemplo: Demi Lovato é uma pessoa real na história, mas uma música dela lançada em 2008, usada na história, não será dela e sim da personagem principal e pode ter um lançamento mais antigo ou mais atual. Como outros artistas e filmes que podem ter seus diretores ou astros diferentes do que é na vida real.
O som de uma notificação me fez sobressaltar. A tela do notebook iluminou o ambiente escuro.
Ergui a cabeça com dificuldade e encarei a luz, estreitando os olhos. Um e-mail — de uma conta que eu não usava há anos — aparecia na caixa de entrada. Remetente: alguém da Virgin Records.
Cliquei.
“Acho que está na hora de voltar.”
Franzi a testa e deixei escapar uma risada fraca, embriagada.
“Não tenho motivos para isso.”
Respondi sem pensar muito — provavelmente errando metade das palavras — e já ia fechar o notebook quando outro aviso soou.
“Tem sim. Assista.”
Abaixo, um vídeo anexado.
Me ajeitei na poltrona e cliquei para baixar. O símbolo carregava lentamente enquanto eu suspirava, pegando a garrafa de água ao meu lado e virando o restante na boca antes de jogá-la, vazia, no lixo.
Assim que terminou, abri o vídeo.
Uma mulher loira estava no centro de uma quadra escolar. Atrás dela, várias pessoas sentadas, assistindo. Ela olhava para um papel antes de se aproximar do microfone e falar em uma língua que eu não reconheci — uma legenda improvisada apareceu na tela.
— “E agora, nossa última competidora é , cantando Thank You For The Music.”
Aplausos.
Uma garota de cabelos castanhos, usando óculos e um vestido preto até o joelho, levantou-se. Caminhou até o microfone com passos inseguros, mexendo constantemente as mãos.
Ela parou. Respirou fundo.
— Vai nessa, ! — alguém gritou da plateia.
Ela sorriu de leve, virou o rosto para o lado e fez um pequeno aceno. A música começou.
— “I'm nothing special, in fact I'm a bit of a bore…”
As pessoas reagiram quase imediatamente. Inclinei levemente a cabeça.
A voz não era extraordinária… mas tinha algo ali.
— “But I have a talent, a wonderful thing…”
Então veio a mudança.
Meus olhos se arregalaram.
— “I'm so grateful and proud…”
Ela cresceu.
Não tecnicamente perfeita — longe disso — mas… verdadeira.
Quando chegou ao refrão, já não parecia mais a mesma garota nervosa.
— “So I say thank you for the music…”
Ela sentia cada palavra.
E, por algum motivo, aquilo me incomodou.
Ou… tocou.
Quando terminou o trecho, a plateia explodiu em aplausos e gritos. Continuei assistindo em silêncio.
Ao longo da música, ela se soltou completamente. As mãos deixaram de ficar presas ao corpo, os gestos surgiram, a presença apareceu.
Quando acabou, todos estavam de pé.
Ela sorriu — surpresa, envergonhada — e foi abraçada pela mulher loira do início.
A tela escureceu.
Outro e-mail chegou.
Abri.
“Diamante bruto, não? Acha que consegue lapidar? A gravadora a quer… ACHE.”
Soltei uma risada baixa.
Fiquei alguns segundos olhando para a tela.
Depois, me levantei.
Peguei o telefone fixo ao lado da porta. Disquei o número que eu já tinha tentado tantas vezes — e sempre desligava antes de completar a chamada.
Dessa vez, não.
— Centro de Reabilitação de Los Angeles.
Fechei os olhos por um segundo.
— Aqui é Jessica Stone. Eu gostaria de me internar… por favor.
Engoli em seco.
— Preciso que venham me buscar.
— Claro. Só precisamos do endereço.
Ato Um:
Make a Wish – 2004 a 2005
Make a Wish – 2004 a 2005
Passei pelo banheiro, joguei um pouco de água no rosto e segui para a cozinha, cantarolando baixinho. Deslizei pelo tapete no meio do caminho, já no automático.
Abri o armário, peguei um pacote de pipoca e joguei no micro-ondas. Três minutos. Enquanto ela estourava, procurei uma bacia.
O som dos estouros me trouxe de volta da tentativa frustrada de decorar conteúdo para a prova de Literatura Brasileira. Tirei o pacote do micro-ondas, despejei tudo na bacia e, sem pensar duas vezes, enchi de sal — ignorando completamente o fato de que meu cardiologista provavelmente me mataria na próxima consulta.
Antes de voltar para os clássicos brasileiros, a campainha tocou.
Atravessei a sala quase saltitando e tentei espiar pelo olho mágico — o que era ridiculamente difícil, já que ele ficava muito abaixo da minha altura.
Do outro lado, uma loira muito bem arrumada ajeitava os cabelos lisos.
Franzi a testa.
Bonita demais pra ser uma das namoradas do meu pai.
Segurei a maçaneta com uma mão e abracei a bacia de pipoca com a outra. Abri a porta com o rangido infernal de sempre, colocando só a cabeça para fora primeiro. A taxa de crime na cidade era praticamente zero… mas ainda assim.
E, bem, não era todo dia que alguém aparecia na sua porta com uma BMW novinha estacionada na rua.
— Ei — falei, saindo um pouco mais, consciente demais do meu short e regata. — Posso te ajudar?
Ela sorriu.
— Hey. — O sotaque era forte. — You speak English? Entende inglês?
— Inglês? Sim. — respondi, usando tudo o que seis anos de aula particular podiam oferecer. — Está procurando alguém?
Os olhos dela praticamente brilharam.
— Sim. Sou Jessica Stone, de Los Angeles, Estados Unidos.
— Eu sei onde fica Los Angeles — respondi, com um meio sorriso torto.
Ela riu, de leve.
— Bom sinal. Eu procuro por . É você?
Franzi a testa, já pronta pra fechar a porta.
— Depende… quem quer saber?
Joguei uma pipoca na boca.
— Eu sou empresária de músicos, trabalho com uma gravadora em Los Angeles. Recebi um vídeo seu… e gostaria de conversar.
— Sobre o quê?
Aquilo estava ficando estranho rápido demais.
— Imagino que esteja desconfiada — ela disse, tirando um cartão do bolso. — Trabalho na Virgin Records. Recebemos um vídeo seu cantando e gostaríamos de te oferecer um contrato.
Soltei uma risada curta.
— Desculpa, é que… é meio absurdo. Uma mulher de Los Angeles vindo pro Brasil — melhor, pra Relva — pra me oferecer um contrato? E que vídeo é esse?
Percebi que estava falando rápido demais.
— Encontrar boas vozes nunca é fácil — ela respondeu, com um sorriso calmo. — Mas temos nossos meios. E, sobre o vídeo… foi numa formatura, certo?
Ela abriu a pasta e tirou um notebook. Me inclinei imediatamente, curiosa. Quando a tela acendeu, um vídeo começou a rodar.
— Meu Deus… aquelas vacas! — soltei em português, passando a bacia de pipoca pra ela sem nem perceber.
Era eu.
No palco do concurso de talentos do ensino médio, no fim do ano passado.
— Onde você conseguiu isso?
— Um colega da gravadora me enviou. Antes disso… acredito que estava circulando pelo ICQ.
— Aquelas…
— Você canta muito bem — ela continuou, olhando para a tela. — Precisa de treino, claro. Mas com os professores certos… pode ir muito longe.
Olhei para ela, ainda desconfiada.
— E você é mesmo da Virgin Records?
Ela assentiu.
— A gravadora de The Rolling Stones, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Spice Girls?
— Vejo que você fez a lição de casa — ela sorriu.
Suspirei, devolvendo o notebook.
— Ainda é difícil de acreditar. Essas coisas não acontecem assim.
— Foi a única forma de te encontrar. Estamos tentando há quase um ano, senhorita.
Quase engasguei com a pipoca.
— Um ano?
— Queremos te tornar famosa.
Passei a mão no rosto.
— Isso é… muita coisa.
— Posso te provar. Tem algum responsável em casa?
Pisquei algumas vezes.
— Posso ligar pro meu pai.
— Brandon, venha — ela chamou, um pouco mais alto.
Um homem mais velho, gordo e barbudo, cheio de correntes douradas, saiu da BMW e se aproximou.
— Então é você o nosso próximo sucesso? — ele perguntou, estendendo a mão.
Olhei para ele… depois para ela.
Depois para o carro.
Depois para minha roupa.
— Eu… não sei.
Jessica e Brandon entraram em casa, e eu não consegui evitar um certo receio.
Eles ainda eram dois estranhos. E, por mais que dissessem trabalhar na Virgin Records… o que exatamente estavam fazendo na porta da minha casa?
Ok, eu cantava bem. Minha voz funcionava em “Thank You For The Music”… mas e daí?
Quantas pessoas no mundo também não cantavam bem?
Indiquei o sofá da sala para eles e deixei a pipoca ali, sem saber se estavam com fome — ou o que se fazia numa situação dessas.
Na verdade, eu não fazia ideia de como agir.
Corri para o quarto e liguei imediatamente para meu pai, que trabalhava em um restaurante no centro da cidade. Pedi que ele viesse para casa — disse que era uma emergência. Não dei detalhes.
Como pai solteiro, ele só respondeu que chegaria o mais rápido possível.
Soltei o ar devagar.
Antes de voltar, parei em frente ao espelho.
Eu sou… estranha.
Uso aparelho, óculos — não muito fortes, mas suficientes para esconder meus olhos castanhos — e meu cabelo era castanho, ondulado, sempre meio fora de controle.
Meu corpo também não ajudava. Eu tinha um metro e oitenta, ombros largos, postura ruim… e uma barriguinha que fazia questão de aparecer.
Nunca tive namorado.
E, pra ser honesta, eu nem sabia direito como lidar com isso.
Tinha 17 anos. Me fazia de forte.
Mas nem sempre era.
Ajeitei a blusa caída no ombro, respirei fundo algumas vezes e voltei para a sala, tentando parecer minimamente normal.
Antes de entrar, observei os dois novamente.
Brandon parecia… surpreendentemente tranquilo. Apesar da barba longa e das correntes, havia algo calmo nele. Se a barba fosse branca, poderia facilmente ser confundido com um Papai Noel alternativo.
Já Jessica…
Jessica era bonita. Muito.
Mas estava cansada.
O tipo de cansaço que não se esconde com maquiagem.
— Você voltou! — Brandon comentou.
Assenti e me sentei na poltrona.
— Então…?
Minhas mãos não paravam quietas.
— Queremos te oferecer um contrato, — ele disse.
Respirei fundo, arregalando os olhos.
— Desculpa, mas eu ainda estou desconfiada. Isso… não pode estar acontecendo. — franzi a testa. — Eu não sei nem como deixei vocês entrarem sem chamar a polícia.
Jessica sorriu de canto.
— Porque você é curiosa. Quer saber onde isso vai dar.
Pensei por um segundo… e suspirei.
— Posso conhecer melhor vocês antes?
— Claro.
Jessica se inclinou para frente, apoiando os braços nos joelhos.
— Meu nome é Jessica Stone. Tenho 42 anos. Sou formada em música pela Juilliard, em Nova York, com foco em produção musical. Também estudei administração, relações públicas e produção fonográfica em Los Angeles.
Arregalei os olhos.
— Trabalho há 22 anos com a Virgin Records. Meu foco é desenvolver e produzir novos artistas. Já trabalhei na produção de álbuns das Spice Girls, Mariah Carey e Lenny Kravitz.
— Nossa… — soltei, sincera. — Isso é… incrível.
Ela sorriu.
— Obrigada.
— Eu já sou menos impressionante — Brandon entrou na conversa, arrancando uma risada minha. — Não tenho formação acadêmica. Meu negócio é estúdio. Produção.
Assenti, interessada.
— Tenho 49 anos. Trabalho de forma independente — artistas me contratam para produzir músicas ou álbuns.
Ele deu de ombros.
— Talvez você conheça alguns: “Crazy in Love”, da Beyoncé… “Someday”, do Nickelback… “Fighter”, da Christina Aguilera.
— Isso é sério?! — praticamente pulei na poltrona.
Eles assentiram.
— Jessica me chamou pessoalmente pra trabalhar com você — ele completou.
Olhei para os dois, ainda tentando processar.
— Tá… supondo que isso seja real… como funcionaria?
Jessica respondeu:
— Primeiro, faríamos uma entrevista mais aprofundada com você. Entender seu estilo, seus gostos, sua identidade artística. Depois, montaríamos uma banda para te acompanhar.
Assenti, absorvendo tudo.
— Em seguida, vem a transformação — imagem, posicionamento, como você será apresentada ao público.
— Você também teria aulas de canto — Brandon completou — e, se quiser, de instrumentos.
— Depois disso — Jessica continuou — entramos na produção: composições, gravações, videoclipes, shows…
— Eu não sei escrever música — interrompi.
— Isso não é problema — ela respondeu imediatamente. — Temos compositores. Mas sempre baseamos as músicas em quem você é.
Aquilo me fez sorrir.
Me joguei para trás na poltrona.
— Isso é sério mesmo? Tipo… vocês não vão me sequestrar, roubar ou me matar?
Brandon riu alto.
— Se fosse esse o plano, a gente já tinha feito.
Ri também.
— Justo.
Passei a mão no rosto.
— Eu não sei o que fazer.
Jessica me observou com atenção.
— Então começa me dizendo quem você é.
Me ajeitei na poltrona.
— Eu sou .
Respirei fundo.
— Tenho 17 anos. Nasci e cresci em Relva, interior de São Paulo. Nunca saí muito daqui.
Eles ouviram em silêncio.
— Faço Letras em São Paulo. Viajo todo dia. Primeiro ano.
Dei de ombros.
— Eu… não vivi muita coisa ainda. Nunca namorei. Nunca fiz sexo. Não sou de festa.
Respirei.
— Mas eu gosto de cantar. Gosto de competir com minhas amigas no karaokê — ganhando, claro.
Brandon riu.
— E… se eu fosse famosa… — hesitei por um segundo — eu queria ser alguém que as pessoas gostassem de acompanhar. Não alguém que trata fã mal.
Mordi o lábio.
— Eu gosto de pop, rock, pop rock, punk… música brasileira… praticamente tudo.
Sorri, sem perceber.
— Amo bateria. Amo guitarra. Mas também amo um violino que arrepia… ou um sopro bem feito.
Respirei fundo.
— E amo música que dá vontade de dançar. Daquelas que você nem percebe e já está se mexendo.
Quando terminei, eu estava sorrindo.
Jessica também.
— Impressionante.
— O quê?
— Você viu isso tudo na sua cabeça, não viu?
Ri, sem graça.
— Já pensei nisso… muitas vezes.
— E se a gente não tivesse vindo?
Neguei na hora.
— Não é o tipo de sonho que gente como eu corre atrás.
Silêncio.
— E agora? — ela perguntou. — Você se daria uma chance?
Hesitei.
— Pessoas não dão muita atenção pra brasileiros lá fora… talvez fosse perda de tempo.
Jessica segurou minha mão.
— Eu vou te contar uma coisa que não deveria.
Franzi a testa.
— Eu saí da Virgin há três anos. Fui demitida.
Respirei fundo.
— Eu sou alcoolista.
Fiquei em silêncio.
— Eu bebia o tempo todo. Isso me destruiu.
Ela apertou minha mão.
— Mas quando encontraram seu vídeo… vieram até mim.
Olhei para ela.
— E quando eu te ouvi… eu soube.
Engoli em seco.
— Eu me internei.
Meu coração acelerou.
— Fiquei quase um ano em reabilitação… enquanto te procuravam.
Silêncio.
— Então não me diga que isso é perda de tempo — ela completou. — Porque eu estou disposta a nunca mais beber… pra te ver brilhar.
Senti algo apertar no peito.
— Você vai ser enorme, . Só precisa querer.
Respirei fundo.
— Eu… não sei o que dizer.
Ela sorriu.
— Não precisa.
Nesse momento, a porta da garagem abriu com força.
— Filha! Qual é a emergência?!
— Deixa eu ver se eu entendi… — meu pai levantou a mão, com aquele inglês travado de sempre, e respirou fundo. — Vocês querem fazer minha filha famosa?
— Na verdade, queremos produzi-la. A fama vem como consequência — Brandon respondeu.
Jessica revirou os olhos de leve e voltou a encarar meu pai.
— Sim. Queremos.
Meu pai se recostou no sofá e passou a mão pela cabeça, soltando o ar devagar.
Eu não sabia exatamente o que ele estava pensando… mas podia imaginar.
Meu pai tem 40 anos. Me criava sozinho desde que eu tinha seis meses.
Minha mãe foi embora assim que me desmamou.
Motivo? Nunca soube.
Onde ela estava? Também não.
E, sinceramente… não fazia diferença.
Ele sempre deu conta.
Entre um relacionamento ou outro, sempre trabalhou. É dono de um restaurante italiano no centro da cidade — que crescia junto com Relva.
A gente vivia em horários opostos.
Ele trabalhava de dia. Eu estudava à noite.
E funcionava.
Mas… se eu aceitasse aquilo…
Tudo mudaria.
Pra mim.
E pra ele.
Passei a mão no rosto, respirando fundo.
Os três me olhavam, esperando.
Suspirei.
Levantei.
— Até quando vocês ficam na cidade?
— Vamos embora amanhã — Jessica respondeu, levantando-se também. — Mas você pode nos ligar.
Assenti.
— Eu… preciso conversar com ele. — apontei para meu pai com a cabeça. — É um grande passo.
— Claro — ela disse, com um sorriso compreensivo.
Ela se aproximou e me entregou um cartão.
— Espero te ver novamente, senhorita do sobrenome diferente.
Ri.
— Não desperdice seus sonhos — ela completou, apertando levemente minha mão.
— Espero seu e-mail, — Brandon disse.
Assenti.
— Espero que receba.
Eles saíram.
A porta se fechou com um estalo.
Segundos depois, o ronco da BMW se afastou pela rua.
O silêncio ficou.
Virei para o meu pai.
Ele estava… parado.
Fui até ele e me sentei ao seu lado, passando os braços pela sua cintura e apoiando a cabeça em seu ombro.
Ele me abraçou de volta.
Ficamos assim por alguns segundos.
Dei o tempo que ele precisava.
Fazendo um carinho leve nas costas dele.
Até que ele se mexeu.
Se afastou um pouco, passou as mãos pelos olhos — que estavam levemente inchados — e sorriu.
— O quê? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Você tem que aceitar.
Arregalei os olhos.
— Pai…
— Lembra quando eu dizia que você era a minha estrela… e as pessoas riam?
Assenti, soltando uma risada pequena.
— Agora você vai provar que eu estava certo.
Não consegui segurar o sorriso.
O abracei forte.
Ele me apertou de volta.
— Pai…
Ele segurou meu rosto com as duas mãos.
— Você não fala… mas eu sei que você sonha com isso.
Engoli em seco.
— E você sonha porque pode.
Ele sorriu.
— Sua voz é linda.
Senti meus olhos arderem.
— Eu vou deixar essa decisão com você — ele continuou. — Você já é grande o suficiente pra escolher o seu caminho.
Assenti, emocionada.
Ele beijou minha bochecha.
— Preciso voltar pro restaurante. Mas pensa com carinho, tá?
— Tá.
— Eu te amo.
— Eu também te amo, pai.
Ele se levantou, ajeitou o terno e saiu pela porta da garagem.
A casa ficou em silêncio de novo.
Olhei para a mesa.
Para os livros.
Suspirei.
— Prova de literatura brasileira… — murmurei. — Nota zero.
Voltei para o meu quarto e fechei o livro de Machado de Assis. Com sorte, eu ainda lembraria alguma coisa sobre Capitu e Bentinho… ou, quem sabe, a professora deixaria usar o livro na prova.
Sonhar não custava nada.
Joguei o exemplar da biblioteca sobre a cama, limpei a escrivaninha e liguei o estabilizador e a CPU. O barulho alto do computador preenchendo o quarto já era familiar.
Sentei na cadeira e esperei.
Assim que iniciou, meu papel de parede apareceu: uma foto do Simple Plan.
Soltei uma risada fraca.
Aquilo podia muito bem ser o computador de outra pessoa.
Balancei a cabeça, afastando o pensamento, quando o ICQ abriu automaticamente. Dessa vez, não cliquei em “conectar”.
Fechei.
Abri o navegador.
“Jessica Stone.”
Enter.
A setinha do mouse girava enquanto eu prendia a respiração.
Quando a página carregou, os títulos vieram um atrás do outro:
“Jessica Stone está de volta à Virgin Records”.
“Jessica Stone é internada em centro de reabilitação”.
“Produtora é demitida por alcoolismo”
Arregalei os olhos.
Comecei a abrir os links, um por um.
Entre matérias soltas, encontrei um texto mais completo:
“Virgin Records e seus empresários: Jessica Stone”
Era de um blog de música — aparentemente de alguém relevante.
Li com atenção.
Falava sobre como ela começou cedo, sobre a habilidade absurda em produzir, empresariar… construir artistas.
Mas também dizia que ela era rígida.
Dura.
Franzi a testa.
Não parecia a mesma pessoa que estava sentada na minha sala mais cedo.
Ignorei.
Preferia formar minha própria opinião.
Continuei lendo.
O texto também mencionava o alcoolismo — mas ali, diferente das manchetes, falava da pressão da indústria. Do peso de descobrir artistas, de manter nomes grandes, de expectativas que nunca diminuíam.
Engoli em seco.
Rolei mais para baixo.
Fotos.
Algumas recentes — exatamente como eu a tinha visto: bonita, mas cansada.
Outras antigas.
Muito mais jovem.
Até uma com vinte anos.
E várias… com artistas que eu reconhecia.
Muitos.
Credenciais penduradas no pescoço. Bastidores. Shows. Eventos.
Senti um sorriso surgir sem perceber.
— Essa mulher é foda.
Fechei a página.
Voltei ao campo de busca.
“Brandon…”
Parei.
Eu nem sabia o sobrenome dele.
Pensei por um segundo e digitei:
“Brandon produtor Crazy in Love”
Enter.
A página carregou.
Uma matéria apareceu primeiro:
“Beyoncé lança nova música…”
No resumo, uma frase:
“…parceria com os produtores… Brandon Barret.”
Foquei no nome.
Voltei para a busca.
Cliquei em imagens.
A capa de Crazy in Love apareceu.
Digitei novamente:
“Brandon Barret”
Esperei.
E então abri uma foto.
Meu coração deu um pulo.
Era ele.
O mesmo homem que tinha sentado na minha sala algumas horas antes.
Em algumas imagens, mais novo. Barba menor. Sem tantas correntes.
Ri sozinha.
— Meu Deus…
Soltei uma gargalhada baixa, olhando para a tela.
Era real.
Tudo aquilo era real.
Passei a mão no rosto, ainda sem acreditar.
Cliquei na pasta de vídeos.
Abri um dos arquivos.
O concurso de talentos da escola.
Assim que o vídeo começou, eu sorri.
Eu lembrava daquele dia.
Do nervosismo.
Das mãos tremendo.
Até então, eu só tinha cantado em aniversários, natais… e algumas vezes no restaurante do meu pai.
Aquilo era diferente.
Era a primeira vez… de verdade.
A escola não era grande. A cidade também não.
Mas, naquele dia, parecia enorme.
Alunos de várias séries. Professores. Pais.
Gente demais.
Respirei fundo, só de lembrar.
E eu fui.
Mesmo com medo.
Meu olhar desviou para a estante.
O troféu ainda estava lá.
E os 300 reais… bem, esses tinham virado viagem de formatura com minhas amigas.
Sorri.
A comissão não era formada por produtores famosos.
Eram meus professores.
Matemática.
Educação física.
Português.
Mesmo assim… eles tinham ficado impressionados.
Lembrava deles vindo falar comigo depois.
Perguntando por que eu nunca tinha mostrado aquilo antes.
Um arrepio percorreu meu corpo.
Levei a mão ao rosto.
Uma lágrima escorreu.
Se eles acreditavam… era uma coisa.
Mas aquilo…
Aquilo era outra completamente diferente.
Produtores.
Uma gravadora gigante.
Gente que realmente entendia do assunto.
E eles acreditavam em mim.
E estavam dispostos a esperar.
Balancei a cabeça, tentando organizar os pensamentos.
Me joguei para trás na cadeira e encarei o teto.
— Eu não faço ideia do que fazer com a minha vida.
