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Traidores, nunca vencem

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Parte I


RIVIERA FRANCESA — CANNES, 13H DA TARDE

Caravaggio

O terno que visto não é preto. Não é azul-marinho. Não é nenhum dos tons obedientes que meu pai prefere para ocasiões em que o mundo inteiro pode estar olhando.
É marfim.
Um erro calculado.
Caravaggio precisa parecer arte, não protocolo — diz Lucien Morel, o estilista, enquanto ajusta o tecido nos meus ombros como se estivesse terminando uma escultura. — Hoje você não é um filho de diplomata. É uma imagem.
Meu pai não gostou disso. Nunca gosta quando alguém tenta me transformar em algo que não seja previsível.
O tecido é leve demais para o calor de Cannes, mas pesado o bastante para me lembrar de que estou preso dentro dele. O espelho do hotel reflete alguém que parece à vontade no luxo, e é quase ofensivo como a mentira é convincente. No elevador, meu pai fica em silêncio. Ele só fala quando entramos na limusine, como se o mundo externo precisasse ser mantido longe da conversa.
— Lembre-se de quem você é hoje, — diz, enquanto o carro desliza para fora do hotel. — Não é um garoto. É o Caravaggio.
Ele não precisa dizer mais nada. Eu sei exatamente o que isso significa.
Meu pai representa a Itália na ala mais rígida da diplomacia europeia, acordos econômicos, tratados militares, o tipo de poder que não aparece em manchetes, mas decide o destino de países inteiros. Cannes, para ele, não é um festival. É um campo neutro, onde as alianças são negociadas sob flashes e vestidos de alta-costura.
O tipo de poder que não aparece nos jornais, mas move bilhões e redefine fronteiras. Cannes, para ele, não é sobre cinema. É sobre presença. Sobre ser visto no mesmo lugar que ministros, magnatas, herdeiros de impérios e investidores que financiam guerras e filmes com a mesma naturalidade.
O Festival é o disfarce perfeito.
Arte na superfície.
Política por baixo.
Enquanto atores posam para fotos, contratos são assinados em salões privados. Enquanto estilistas disputam capas de revista, governos disputam influência. E meu pai precisa estar ali, caminhando no tapete vermelho, como se fosse apenas mais um convidado elegante, quando, na verdade, está afirmando: a Itália ainda importa.
Eu também sou parte desse teatro.
O filho bonito ao lado dele. O Caravaggio que parece moderno o bastante para tranquilizar a imprensa e tradicional o bastante para não assustar ninguém.
— É só um evento de cinema — digo, porque sempre digo alguma coisa.
Ele me olha como se eu tivesse acabado de contar uma piada.
— Em Cannes, nada é só o que parece.
A cidade surge pela janela como uma miragem cara demais para ser real: o azul impossível do Mediterrâneo, o brilho dos hotéis, o tapete vermelho sendo preparado como um altar. Meu celular vibra no bolso do paletó. Uma mensagem da minha namorada, perguntando se eu já cheguei.
Não respondo.
Meu pai percebe o pequeno movimento do meu corpo, o jeito automático com que meus dedos quase procuram o telefone.
— Quem foi? — ele pergunta, sem me olhar.
— A Maya — respondo, porque não faz sentido mentir sobre isso.
Ele, enfim, vira o rosto na minha direção. Seu olhar é clínico, avaliando não a pessoa que eu amo, mas o impacto político que ela representa.
— Então responda.
— Pai…
— Agora, . — A voz dele não se eleva, o que é ainda pior. — Nada cria mais rumores do que um herdeiro apaixonado que parece distante.
Pego o telefone. Digito algo curto, educado, o tipo de mensagem que parece íntima, mas não revela nada. Já estou chegando. Te ligo depois. Envio. O celular volta ao meu bolso como uma prova de que até o meu afeto passa pelo crivo dele.
Meu pai se recosta no banco.
— Relacionamentos são alianças, meu filho — diz. — Nunca se esqueça disso.
Ele se recosta no banco como se tivesse acabado de encerrar uma negociação, não uma conversa.
Maya…o nome pesa menos do que deveria.
Ela é bonita, educada, fácil de gostar. Filha de um empresário que meu pai respeita. Frequenta os mesmos jantares, ri nos momentos certos, nunca faz perguntas que importem. Às vezes acho que foi escolhida para mim antes mesmo de eu perceber que estava com ela.
Não é que eu a odeie. O problema é exatamente o contrário.
Ela me ama com a calma de quem acredita que o futuro está garantido. Eu a beijo como alguém que cumpre um hábito. Mandamos mensagens, viajamos juntos, dormimos na mesma cama, mas há sempre algo entre nós que não se move. Como um móvel antigo demais para ser jogado fora, confortável demais para ser questionado.
Maya me conhece o suficiente para saber quando estou cansado. Não o bastante para saber por quê. Talvez seja isso que meu pai goste nela. Maya não exige que eu seja inteiro. Só que eu esteja presente.
A limusine faz uma curva, e Cannes explode em luz do lado de fora. O tapete vermelho começa a aparecer entre grades e câmeras. Pessoas gritam meu sobrenome como se ele lhes pertencesse.
Caravaggio.
Caravaggio.
Caravaggio.

E eu penso, com uma estranha pontada no peito, que Maya ama esse nome quase tanto quanto ama a ideia de mim. E eu olho pela janela outra vez, para o mar brilhando como uma promessa que nunca foi feita para mim, e penso que talvez seja por isso que eu esteja tão cansado de ser impecável.
Quando a limusine entra na área isolada do evento, o ar muda. Paparazzi´s se comprimem atrás das grades, gritando nomes como se isso lhes desse o direito de possuir quem passa.
Eu vejo atores que ganharam Oscars, modelos que vivem de não comer, herdeiros que só são famosos por terem nascido certos. Vejo gente que finge naturalidade enquanto é devorada por lentes.
E então sinto. Aquele arrepio estranho de ser visto. Não como , mas como uma versão minha que o mundo decidiu consumir. As portas se abrem.
Os flashes começam.
E eu penso, com uma clareza quase dolorosa: talvez o pior tipo de prisão seja aquele que parece glamour, afinal, segue sendo jaula, mesmo que seja de ouro
A porta da limusine se abre completamente, e o som de Cannes me atinge como uma onda: gritos, câmeras, meu nome repetido com uma familiaridade que nunca autorizei. O ar cheira a perfume caro e expectativa.
Meu pai sai primeiro. Eu sigo.
O tapete vermelho é mais macio do que parece, um detalhe absurdo que só serve para lembrar que até o chão aqui foi feito para parecer mais gentil do que realmente é.
! ! — alguém grita.
Quem você está vestindo?
Qual filme você está mais ansioso para ver esta noite?
— Você veio representar a nova geração da diplomacia europeia?
As perguntas caem sobre mim como confetes.
Eu abro a boca para responder, sobre Lucien Morel, sobre o último filme brasileiro que assisti, sobre qualquer coisa que seja minha, mas sinto a mão do meu pai tocar de leve meu braço. Não aperta. Não precisa.
É um aviso.
Eu fecho os lábios e sorrio.
Aprendi cedo que, nesses momentos, meu papel não é falar. É existir da maneira certa. Olhar para a lente. Inclinar a cabeça. Deixar que me fotografem como se eu fosse parte do cenário.
Meu pai acena para a imprensa, tranquilo, confortável naquele palco que conhece tão bem. Ele negocia com o mundo inteiro e, mesmo assim, o tapete vermelho é uma de suas mesas favoritas.
Eu apenas poso.
Cada flash apaga um pouco mais do que eu poderia dizer.
Meu pai se afasta por um instante para falar com alguém, depois volta e se coloca ao meu lado no tapete, o ombro quase tocando o meu. Os fotógrafos enlouquecem com a imagem perfeita: o diplomata e o herdeiro, duas gerações da mesma autoridade.
Ele inclina levemente o corpo em minha direção.
É estranho como esse gesto mínimo, estar ao meu lado, é o mais perto que chegamos de carinho. Não há abraços. Não há palavras. Só a coreografia de parecermos unidos. Eu sustento o sorriso, enquanto os flashes explodem, porque sei que, para ele, isso é afeto: dividir o enquadramento, me incluir na fotografia oficial do mundo.
Então o barulho muda.
Primeiro é só um burburinho, depois vozes mais altas, câmeras se voltando para outro ponto do tapete. Algo acontece atrás de nós. Um deslocamento de atenção, como se o ar tivesse sido puxado para outro lugar.
Eu tento olhar, mas meu pai endurece.
Seu corpo fica rígido de um jeito que reconheço.
Ofendido. Alertado.
— O que está acontecendo? — murmuro.
Ele não responde.
Apenas vira o rosto na direção do tumulto, e vejo nos olhos dele algo que não é raiva… é cálculo. Aquele tipo de desconforto que surge quando uma variável inesperada entra num cenário cuidadosamente ensaiado.
A mão do meu pai, Alessandro Caravaggio, toca minhas costas com firmeza, me guiando para fora do foco das câmeras antes que alguém perceba qualquer fissura no espetáculo. Para quem assiste de fora, parece apenas um gesto elegante, um pai conduzindo o filho para dentro do evento. Para mim, é um comando.
Deixamos o tapete vermelho e entramos no saguão do Palais des Festivals et des Congrès como se atravessássemos uma fronteira invisível. O som dos fotógrafos se dissolve em um eco distante, substituído por música baixa, taças tilintando e conversas em meia-voz.
— Quem chegou? — pergunto, ainda tentando entender a tensão que tomou conta dele.
Alessandro ajeita o nó da própria gravata, um hábito que só repete quando algo saiu do controle.
— Bellini.
Vittorio Bellini.
O nome cai entre nós como uma peça de xadrez mal posicionada.
— O pai da . — Ele continua. — Eu tinha sido claro que a presença dele neste evento deveria ser… discreta.
— Por quê?
Ele me lança um olhar rápido, afiado.
— Porque Cannes não é lugar para exibições diplomáticas desnecessárias. — Pausa. — E muito menos para encenações de poder entre famílias que não deveriam dividir o mesmo espaço sob holofotes.
Nós paramos por um segundo perto de uma parede de espelhos. Meu reflexo parece intacto. Por dentro, algo já começou a se mover.
— Eu avisei os organizadores — Alessandro diz, mais para si mesmo do que para mim. — Esse tipo de chegada cria ruído. Chama atenção. Desestabiliza.
Meu pai nunca precisou me explicar quem ele é. Alguns nomes circulam em nossa casa como se fossem tempestades: você não precisa vê-las para saber que vêm aí. Vittorio representa o outro lado do tabuleiro europeu, o sul econômico, as alianças mediterrâneas, uma diplomacia mais populista, mais midiática, mais agressiva. Onde Alessandro constrói pontes silenciosas, Bellini prefere incendiar salas e negociar sobre as cinzas.
Eles não se cruzam.
Não oficialmente.
Anos atrás, disputaram o mesmo tratado comercial, o mesmo bloco de influência, o mesmo apoio internacional. Alessandro perdeu algo que nunca comentou em voz alta. Bellini ganhou algo que gosta de exibir. Desde então, existe entre eles uma espécie de acordo invisível: não dividir o mesmo espaço, não provocar o outro sob luz direta.
Cannes é luz demais para essa história.
E o fato de Vittorio Bellini ter chegado assim, chamando atenção, puxando flashes, quebrando o roteiro, significa apenas uma coisa: alguém decidiu que hoje seria um dia de guerra vestida de Versace.
Por dentro, o festival é menos mágico e muito mais perigoso.
O salão principal parece um aquário de luxo: gente bonita demais, taças de champanhe que nunca esvaziam, risos que não significam nada. As paredes são de vidro, mas ninguém ali é transparente. Cannes por dentro não é sobre filmes, é sobre quem está ao lado de quem, quem é fotografado junto, quem se afasta no momento certo.
Eu sou puxado para um pequeno círculo de herdeiros que se reconhecem de longe. Os mesmos sobrenomes, os mesmos colégios, as mesmas fotos de infância em iates.
Você viu quem chegou? — diz um deles, girando o copo.
Bellini nunca perde uma chance de roubar a cena.
Seu pai vai adorar isso, Caravaggio.
Sorrio por reflexo.
Nepo-babys são assim: todos criados para parecer descolados, todos treinados para nunca dizer nada que importe. Falamos de moda, de diretores europeus, de quais marcas vão dominar a próxima temporada, como se nossas famílias não estivessem decidindo o futuro de países a alguns metros de distância.
Alessandro me observa de longe, como se estivesse avaliando se continuo útil. Quando termina uma conversa em francês baixo demais para ser ouvido, faz um gesto sutil com a cabeça.
Hora de andar.
Eu o sigo por corredores laterais, salões menores, varandas que dão para o mar escuro. Aqui, as vozes diminuem. Aqui, Cannes mostra a verdadeira face: homens e mulheres que apertam as mãos não para cumprimentar, mas para testar forças.
Meu pai troca poucas palavras com cada um. Nada fica registrado. Nada é oficial. Pequenos acenos, promessas vagas, silêncios calculados. Acordos velados. E eu caminho ao lado dele como se fosse apenas o filho bonito, quando, na verdade, sou parte da mensagem.
Caravaggio ainda tem herdeiro.
A Itália ainda está no jogo.
Alessandro faz um gesto curto, quase impaciente, e me conduz de volta ao salão principal. A música sobe de novo, os risos retornam, os flashes reaparecem como se nada tivesse acontecido. Ele se posiciona perto de uma coluna de mármore, de onde tem visão ampla do ambiente, estratégia disfarçada de casualidade.
— Sente-se ali — murmura. — Perto dos Bellini. Observe.
Não é um pedido. Nunca é.
Eu me acomodo em um sofá baixo, a poucos metros de Vittorio Bellini. Ele está exatamente como meu pai descreveu: confortável demais sob os holofotes, como se tivesse sido moldado por eles. Um homem que sabe que o mundo o observa e gosta disso.
— O que vê? — Alessandro pergunta, sem olhar diretamente para mim.
Eu olho.
E é então que encontro os olhos dela.
Não sei quem ela é.
Não ainda.
Ela está ao lado de Vittorio Bellini, isso basta para que, oficialmente, ela não precise de nome. Em Cannes, filhos são extensões, silhuetas herdadas. Mesmo assim… algo nela escapa disso.
Ela é linda de um jeito que não pede aprovação. O cabelo cai de forma quase indisciplinada sobre os ombros, como se tivesse se soltado da produção ao longo da noite. Os olhos, escuros, profundos, não procuram câmeras. Eles parecem… procurar saídas. Ou verdades. Ou algo que ninguém ali tem.
Os lábios dela não sorriem. São cheios, firmes, como se guardassem coisas que não podem ser ditas em público. O contorno do pescoço, exposto pelo vestido, me chama atenção de um jeito absurdo. Há algo vulnerável ali, pele, pulso, vida em meio a tanto poder armado.
Sinto um arrepio que não combina com o ar condicionado do salão.
— Eles estão conversando com… — começo, para meu pai, como se estivesse observando apenas mais um grupo — dois representantes espanhóis. Parece cordial.
Mentira.
Ela se inclina em direção a Bellini, falando rápido demais. O corpo tenso. O maxilar levemente travado. Vittorio responde com um sorriso rígido, desses que se usam quando não se pode perder o controle.
Ela balança a cabeça, frustrada. A mão desenha um gesto no ar, elegante demais para ser raiva, grande demais para ser obediência.
— Ela parece… — continuo, tentando não a encarar diretamente — incomodada. Talvez cansada da exposição.
Alessandro apenas murmura um hm distraído.
Ela pega uma taça. Depois outra. Depois outra. O movimento é bonito. Irritante. Quase desafiador. Bellini segura o pulso dela por um instante. Um gesto pequeno, mas cheio de propriedade. Ela se solta com um movimento seco, que não chega a ser uma cena, ainda.
Agora os dois discutem em voz baixa. Ele está inclinado, controlado. Ela ereta, tensa, os olhos brilhando de algo que não é medo.
— Bellini está tendo uma pequena… divergência familiar — digo, como se fosse apenas isso.
Mas não consigo parar de olhar.
Não sei o nome dela. Não sei nada sobre ela.
Só sei que há algo no jeito como ela ocupa o próprio corpo, como se estivesse sempre à beira de explodir ou fugir, que faz meu peito se contrair de um jeito inexplicável.
Não é atração.
Não pode ser.
É só… uma perturbação.
Uma variável.
Uma presença que não deveria importar e, ainda assim, importa.
E então ela olha de volta.
Não é um olhar rápido, desses que escorregam. Ela sustenta. Os olhos escuros se fixam nos meus com uma clareza quase indecente, como se tivesse me escolhido no meio do salão inteiro. Há algo ali, curiosidade, talvez desafio, que me atravessa sem pedir licença.
Por um segundo, o barulho de Cannes some.
Vejo seus lábios se moverem. Ela se inclina levemente na direção de Bellini e diz algo em voz baixa, sem tirar os olhos de mim. Vittorio segue a linha do olhar dela, me encontra e seu rosto se fecha com uma precisão treinada.
Merda.
Ele ajusta o paletó, recompõe o sorriso social e, sem hesitar, começa a caminhar na nossa direção.
— Caravaggio. — A voz de Vittorio chega antes do corpo. Calma, elegante, carregada de lâmina. — Que coincidência deliciosa o encontrar aqui.
Meu pai se vira, imediatamente alerta, mas impecável.
— Bellini — Alessandro responde, no mesmo tom polido que esconde guerras. — Cannes sempre nos obriga a dividir o mesmo ar.
Eles se aproximam da nossa mesa como dois generais fingindo que estão apenas bebendo.
— E este deve ser o herdeiro. — Vittorio olha para mim, avaliando mais do que reconhecendo. — , certo? Já vi seu rosto em… muitos lugares.
Sorrio porque fui treinado para isso.
— É um prazer — digo, mesmo sem saber exatamente para quem.
Procuro ela.
Procuro o cabelo solto. Os olhos escuros. O vestido que parecia conter uma tempestade.
Nada.
Ela sumiu.
— Imagino que Cannes esteja sendo… intenso para você. — Vittorio continua, agora falando comigo, enquanto seu verdadeiro duelo acontece no silêncio entre ele e meu pai.
— Sempre é — respondo, distraído, os olhos varrendo o salão, tentando encontrá-la entre dezenas de vestidos caros e rostos entediados.
— Meu pai sempre diz que é preciso aprender a dançar entre os tubarões — ele comenta, com um meio sorriso que soa mais como ameaça do que conselho.
Alessandro solta um riso baixo.
— Alguns preferem nadar sozinhos — diz. — Outros gostam de fingir que não mordem.
Os dois se encaram.
E eu só consigo pensar numa coisa:
Ela me viu.
Me escolheu.
E agora desapareceu.
Meu telefone vibra no bolso do paletó. O som é pequeno, mas me atravessa como um alarme fora de hora. Tiro o aparelho com cuidado, tentando não chamar atenção de Alessandro nem de Vittorio, que continuam presos naquele duelo de sorrisos. A notificação brilha na tela.
Maya.
Abro. É uma foto. Demais pele para uma sala cheia de chefes de Estado. A luz do banheiro dela é quente, íntima demais para Cannes. O enquadramento é estudado. Sedutor. O tipo de imagem que deveria me provocar algo.
Não provoca.
Só um cansaço estranho.
“Você sumiu. Está me evitando?” ela escreve logo embaixo.
Meu estômago se contrai, mas não de desejo. De culpa. De irritação. De uma sensação vaga de estar preso numa vida que não escolhi, apenas aceitei.
Levanto os olhos do celular… e, por um segundo, quase espero ver ela ali. A garota sem nome. O olhar que me atravessou como uma falha no sistema.
Nada.
Só Maya na minha tela, oferecendo o corpo como uma âncora. Guardo o telefone com força demais, como se pudesse esmagar aquela realidade com os dedos.
— meu pai murmura, sem tirar os olhos de Bellini. — Fique atento.
Alessandro se inclina na minha direção como se fosse apenas para comentar algo irrelevante sobre o salão. O riso dos convidados cobre tudo.
— Você está olhando para o lugar errado — ele murmura.
— Como?
— Para as pessoas erradas.
Seu queixo se move um centímetro. Sutil. Calculado.
— Está vendo aquela jovem perto da escadaria? Vestido azul-acinzentado, ao lado de Étienne Valcourt.
Sigo a linha invisível do gesto.
Ela é linda de um jeito treinado. Elegante, intocável, como se tivesse sido moldada para capas de revista e retratos oficiais. O sorriso dela parece ensaiado há anos.
— Aquela é a filha dele. — Alessandro continua. — E, esta noite, ela vale mais do que metade dos homens nesta sala.
Sinto o estômago apertar.
— O que isso tem a ver comigo?
Ele finalmente me encara. Não como pai. Como alguém que toma países como quem escolhe vinhos.
— Tudo.
O silêncio entre nós se enche de algo perigoso.
— Bellini está tentando conquistar Valcourt — Alessandro diz. — Se conseguir, eu perco. E não perco duas vezes para o mesmo homem.
— E você acha que eu…
— Eu não acho. Eu sei. — Ele corta. — Se você for visto ao lado da filha de Valcourt, o jogo muda. O pai dela entenderá a mensagem. A imprensa fará o resto.
— Você quer que eu use alguém.
— Eu quero que você seja estratégico. — A voz dele é baixa, implacável. — A vida não te pediu permissão para nascer Caravaggio. Ela só te exige que jogue como um.
Olho de novo para a garota ao lado de Valcourt.
Ela ri de algo que alguém diz, sem saber que já foi colocada numa equação.
— E a Maya? — arrisco.
— Um risco — Alessandro responde sem hesitar. — Termine.
Meu peito se fecha.
— Agora?
— Antes que vire problema.
Há algo de irremediável naquele momento.
— Você está me transformando numa ferramenta.
— Não — ele diz. — Eu estou te lembrando do que você sempre foi.
E, naquela fração de segundo, eu entendo: se eu obedecer, não haverá volta. Não para Maya. Não para mim. E isso é o que começa a me empurrar para fora daquela sala.
Fico parado por um segundo a mais do que deveria. O salão continua se movendo ao meu redor, taças se tocando, risos estudados, alianças sendo costuradas em sussurros, e eu, no centro disso, tentando respirar.
Talvez meu pai esteja certo.
Talvez não exista saída.
Talvez a única liberdade possível para alguém como eu seja escolher como vai ser usado.
Olho de novo para a filha de Valcourt.
Ela está exatamente onde Alessandro disse que estaria. Linda. Preparada. Pronta para ser o futuro de alguém. Dou o primeiro passo em direção a ela. Enquanto caminho, começo a montar o roteiro na minha cabeça.
Bonjour. É um prazer finalmente conhecê-la. Seu pai fala muito bem de você. Talvez possamos sair em Mônaco. Um jantar discreto. Sorrir para os fotógrafos. Não tocar demais. Não tocar de menos.
Um segundo roteiro se sobrepõe a esse.
Maya, isso não é sobre você. Minha vida está… complicada. Você merece alguém que possa estar presente.
Tudo ensaiado.
Tudo falso.
Tudo mais fácil do que sentir qualquer coisa. Dou mais alguns passos. E então… eu a vejo.
Não a filha de Valcourt.
.
Ela surge do nada, perto do bar lateral, como se tivesse sido cuspida pelo próprio caos do salão. O vestido escuro, o cabelo solto, o rosto bonito demais para aquele ambiente. Ela não sorri. Não posa. Parece deslocada, como se estivesse num filme errado.
Meu corpo reage antes da mente. Um arrepio curto, elétrico, me atravessa. Não sei por quê.
Não sei quem ela é. Só sei que algo em mim acaba de sair do eixo. Todo o roteiro evapora.
Valcourt.
Maya.
Meu pai.
O jogo.
Tudo vira ruído. Porque, no meio daquele campo de guerra vestido de seda, ela é a única coisa que parece real. E eu sei, com uma clareza quase assustadora: não importa o que eu deveria fazer a partir de agora. Eu já não vou conseguir.
atravessa o salão como se estivesse tentando desaparecer dentro dele, desviando de corpos, de vozes, de olhares. Eu sigo. Não perto o suficiente para chamar atenção. Não longe o suficiente para perdê-la. É um instinto estranho, quase animal, como se algo em mim tivesse reconhecido nela uma saída.
Ela empurra uma porta lateral.
O jardim.
O som de Cannes muda ali. O mar distante, o farfalhar das folhas, a música do gala virando um eco abafado. Lanternas baixas iluminam caminhos de pedra, arbustos recortados demais para serem naturais.
— Espera. — Quase digo.
Mas ela não ouve. Ou finge não ouvir. some entre duas sebes altas, e quando eu chego ao mesmo ponto… ela já não está mais lá.
Paro.
O coração ainda batendo rápido demais para alguém que não fez nada além de andar.
Merda.
Passo a mão pelo rosto. Pelo cabelo. Tudo em mim ainda vibra por causa dela, uma presença que eu não consigo explicar, muito menos aceitar.
E então, o que sobra é o resto.
Cannes.
Meu pai.
Maya.
Valcourt.
O roteiro da minha vida escrito por mãos que não são as minhas. Eu odeio tudo isso. Odeio a forma como cada passo meu é uma decisão política. Odeio como até o meu desejo é monitorado. Odeio como estar ali me faz sentir como uma peça bonita numa máquina que não se importa se eu quebro.
Fugir… fugir, de repente, não parece covardia. Parece o único gesto de controle que me resta.
Sigo pelo jardim até uma área mais escura, perto da saída de serviço. Há uma fileira de carros esperando, pretos, reluzentes, todos iguais, todos pertencendo a pessoas que nunca dirigem a própria vida.
Um chofer se afasta de um deles. Um Aston Martin baixo, elegante, rápido demais para Cannes. O tipo de carro que não espera.
Ele dá alguns passos para atender alguém. Vira de costas. Meu coração dispara. Não penso. Me agacho entre dois veículos, o tecido caro do meu terno raspando no chão. O cheiro de asfalto quente e gasolina invade o ar. Me movo rápido, silencioso demais para quem nunca teve que fugir antes.
Abro a porta do Aston.
Entro.
O banco de couro é frio. O painel brilha com uma promessa de velocidade. Minhas mãos tremem quando encontro o botão de ignição. Por um segundo, penso em Maya. No meu pai. No nome Caravaggio. Então lembro dos olhos de .
E giro a chave.
O motor ruge baixo, perigoso, como um animal acordando. E, pela primeira vez naquela noite, o mundo não está decidindo por mim.
O motor ainda vibra sob minhas mãos quando a adrenalina começa a cair. De repente, tudo parece uma ideia idiota. Um erro caro. Um escândalo prestes a nascer.
Minha respiração fica pesada. O silêncio dentro do carro é alto demais.
O que eu estou fazendo?
Posso simplesmente desligar. Sair. Voltar para Cannes, para o tapete, para o roteiro. Minha mão vacila perto da ignição.
Então a porta do passageiro se abre com violência. Ela entra.
.
Ofegante, o cabelo solto, o vestido desalinhado de um jeito que a deixa ainda mais perigosa. Ela bate à porta, aperta o botão de trava como se estivesse fechando o mundo para fora.
Clique.
Os olhos dela encontram os meus. Por um segundo, nenhum de nós fala. Ela cheira a champanhe, sal e algo mais, adrenalina, talvez. Liberdade em estado bruto.
— Você… — começo, sem saber o que dizer.
Mas a verdade escapa.
— Você é… — engulo em seco — absurdamente linda.
Ela ri sem humor.
— Não agora.
A mão dela já está no painel.
— Dirige. Agora.
— O quê?
— Eles estão vindo. — Ela olha pelo vidro traseiro. — Os meus seguranças.
Meu coração dispara de novo.
Olho para trás. Dois homens de terno escuro atravessam o estacionamento em passos rápidos, falando nos rádios, os olhos varrendo os carros como predadores.
— Merda — murmuro.
— Se você parar, eles me levam. — diz, a voz firme demais para alguém que está fugindo. — E se eles me levam, acabou.
Ela se vira para mim, os olhos queimando.
— Então pisa!
Não sei se ela está blefando. Mas sei que acredito nela. Aperto o acelerador. O Aston Martin responde como se estivesse esperando por isso. E Cannes fica para trás.

Parte II

AVENIDA DE LA CROISETTE, 19H DA NOITE

Bellini

Eu não lembro do momento exato em que Cannes virou um labirinto. Só lembro do som do motor gritando sob meus pés, do vento arrancando meus brincos, e do gosto metálico de adrenalina na língua.
— Vira à direita — digo, sem pensar. — Agora. Confia em mim.
obedece como se não tivesse escolha. Talvez não tenha mesmo. O carro corta uma rua lateral estreita, passa rente a um restaurante onde turistas ainda brindam com taças de champanhe, alheios ao fato de que, a poucos metros dali, duas heranças milionárias estão em fuga.
No retrovisor, os faróis pretos dos carros de segurança surgem como predadores.
— Eles não vão desistir — murmuro. — Meu pai não aceita perder.
Ele acelera. O motor responde como um animal ferido, rápido demais, barulhento demais.
— Vai pela marina — digo. — Tem um trecho sem câmeras por trinta segundos. Meu pai odeia pontos cegos. Eu adoro.
solta um riso curto, quase histérico, e vira o volante com mais força do que deveria. O carro desliza, depois se endireita. Por um segundo, sinto algo perigoso e elétrico: liberdade.
O celular dele vibra no painel.
Uma vez.
Duas.
Três.
O nome acende na tela: Alessandro (pai).
— Não atende — ele diz, a voz tensa. — Não agora.
Eu estendo a mão antes mesmo de pensar.
— Me dá isso.
Ele me olha, dividido entre o pânico e a curiosidade, mas me entrega o telefone. Coloco no viva-voz e atendo.
. — A voz de Alessandro sai limpa demais para alguém que acabou de ser desobedecido. — Onde você pensa que está indo?
Inclino o banco para frente, sorrindo como se ele pudesse me ver.
— Ele está ocupado — digo, doce. — Dirigindo.
Silêncio do outro lado. Um silêncio pesado, calculado.
— Quem é você? — ele pergunta.
— Alguém que seu filho não deveria conhecer. E, mesmo assim, conheceu.
Os faróis dos carros atrás piscam, tentando nos forçar a parar. Faço um gesto para virar novamente, entrando numa rua ainda mais escura.
— Você está colocando ele em perigo — Alessandro rosna. — Solte o telefone. Agora.
Eu rio. Um som curto, quase bonito demais para o que está acontecendo.
— Perigo é a língua nativa dessa família, não é? — respondo. — Só que hoje ele resolveu aprender outra.
não toma decisões — Alessandro rebate, frio. — Ele segue ordens. E você vai pagar por fazê-lo esquecer disso por cinco minutos.
Os faróis atrás de nós se aproximam, engolindo o asfalto com uma luz branca agressiva. Um dos carros de segurança emparelha por um segundo. Vejo um rosto no banco do passageiro. Um auricular. Um dedo apontando para nós.
— Eles estão quase — digo, calma demais. — Talvez o senhor devesse escolher palavras melhores. As atuais não funcionam.
— Escute bem. — Alessandro baixa o tom, o que o torna mais perigoso. — Quem quer que você seja, está brincando com um sistema que engole pessoas inteiras. Eu posso fazer você desaparecer antes que o nome que você carrega importe.
— Eu já vivo desaparecendo — murmuro. — Hoje só troquei o lugar.
vira o volante com força, jogando o carro numa rua estreita ladeada por palmeiras. O pneu canta no asfalto. Um dos carros atrás quase perde o controle.
— Última chance — Alessandro diz. — Diga a ele para parar. Agora.
Inclino a cabeça, observando Cannes se transformar em borrões de luz e sombra.
— Não.
E desligo.
O silêncio que fica dentro do carro é mais alto que o motor. me encara por meio segundo, os olhos escuros, assustados, vivos.
— Você acabou de comprar uma guerra — ele diz.
Não devolvo o telefone. Jogo no porta-luvas e bato, como se pudesse trancar o pai dele lá dentro.
Os carros continuam atrás de nós. Um pisca alto. Outro se aproxima pela lateral.
— Eles vão tentar nos fechar — aviso. — Meu pai gosta de encurralar antes de esmagar. O seu parece igual.
— Ótimo — murmura, pisando mais fundo no acelerador. — Então vamos quebrar o círculo.
A avenida se abre à frente como uma promessa falsa de liberdade. O mar reflete as luzes de Cannes, bonito demais para uma cidade que quer nos devorar. E, pela primeira vez na vida, eu não estou correndo porque fui empurrada. Estou correndo porque escolhi.
O carro não corre. Ele foge. Há uma diferença. Correr é vaidade. Fugir é sobrevivência.
O vento entra pela janela aberta e chicoteia meu cabelo contra meu rosto, mas eu não ouso pedir para fechá-la. Preciso ouvir. Preciso sentir. Preciso saber se os motores atrás de nós ainda existem.
— Agora. Vira agora — digo, apontando para uma rua que parece estreita demais para aquele carro elegante demais.
Ele vira sem perguntar. É isso que mais me desarma: ele não tenta me controlar, ele só confia.
Os faróis atrás piscam. Não são sirenes — ainda —, mas é pior. É o tipo de perseguição que não quer testemunhas.
me lança um olhar rápido. O maxilar dele está tenso, mas há algo de febril ali, uma energia que eu reconheço em mim.
Vejo um carro preto surgir no retrovisor. Muito perto.
, acelera — murmuro. — Agora.
Ele pisa. O mundo vira um borrão de luzes, postes, placas que não lemos. Sorrio. Não porque é engraçado. Mas porque é perigoso.
O carro atrás tenta nos fechar. joga o volante para a direita e entramos numa estrada costeira estreita, escura, com o mar invisível à esquerda e o penhasco implícito à direita.
— Faróis — digo.
Ele apaga. Por um segundo, só existimos nós e o som dos pneus no asfalto. Meu coração bate tão forte que tenho certeza de que eles podem ouvir.
— Se eles nos virem aqui, acabou — murmuro.
— Não vão — ele diz, sem saber.
Ou talvez sabendo. Um poste aparece. Uma curva. Um descampado.
— Ali. — Aponto. — Entra ali.
É um pequeno mirante abandonado. Uma máquina de refrigerante quebrada. Uma luz branca fraca. Nada de turistas. Nada de glamour. Nada de nomes. puxa o freio de mão. O carro para com um soluço. Ficamos imóveis.
Respirando.
Esperando.
Nenhum motor. Nenhum farol. Só o mar, finalmente audível, batendo lá embaixo como um coração enorme. Abro a porta primeiro. O ar frio me atravessa como se estivesse lavando algo de mim.
Dou dois passos para fora… e então paro.
— Espera.
me olha, confuso, ainda meio suspenso naquele estado pós-adrenalina em que nada parece totalmente real.
— O quê?
Eu me viro para ele, encostada na porta aberta do carro.
— Me empresta sua camisa.
Ele pisca.
— Minha… camisa?
— Sim. Essa. — Aponto para o peito dele, ainda perfeitamente alinhado dentro do terno de gala. — Agora.
— Por quê?
— Porque eu não vou passar mais um minuto presa dentro desse vestido assassino. — Cruzo os braços. — Ele é lindo, mas claramente foi criado por alguém que odeia respirar… e sentar… e existir.
Ele abre a boca, fecha. Me encara como se estivesse tentando entender se eu estou brincando.
— Você acabou de fugir de Cannes roubando um carro — digo. — Não começa a ser sensato agora.
solta uma risada curta, nervosa.
— Você é insana.
— Você estará sem camisa daqui a cinco segundos.
Ele suspira, derrotado, e começa a desabotoar o paletó. Depois o colete. Depois a camisa branca impecável.
— Se alguém aparecer…
— Não vai aparecer — digo, sem paciência.
Quando ele puxa a camisa pelos braços, revelando a pele ainda quente da corrida, eu desvio o olhar por meio segundo. Não porque não quero ver. Mas porque quero demais.
Pego a camisa da mão dele.
— Vira.
— O quê?
— Vira, Caravaggio.
— Você sabe meu sobrenome?
— Todo mundo sabe.
Ele obedece, ficando ali no frio da Riviera, só de calça social e sapatos caros, enquanto eu passo a camisa pelos ombros, ainda cheirando a perfume, calor e algo perigosamente íntimo.
Abotoo só dois botões. O resto fica aberto. Livre. Quando termino, ele se vira. Os olhos dele percorrem meu corpo devagar, como se algo tivesse sido reescrito ali.
— Melhor? — ele pergunta, baixo.
— Muito.
Saio do carro e fecho a porta com cuidado. Ele me acompanha, ainda meio atordoado. Caminhamos juntos até o parapeito do mirante. O mar se estende diante de nós, negro e infinito, como se o mundo acabasse ali.
Nenhum fotógrafo.
Nenhum pai.
Nenhum contrato.
Só nós.
E, pela primeira vez naquela noite, o silêncio não pesa. Ele observa o horizonte. Eu o observo. E penso, sem querer: talvez fugir seja isso. Não ir para longe. Mas, por alguns minutos, existir onde ninguém nos reconhece.
O mar bate lá embaixo, lento, insistente, como se estivesse tentando nos lembrar que o mundo ainda existe. Eu me encosto no parapeito do mirante. O metal está gelado, mas não reclamo. Prefiro o frio físico ao outro, aquele que carrego há anos.
fica ao meu lado. Não perto demais. Não longe demais. O tipo de distância que parece uma escolha.
— Você faz isso com frequência? — ele pergunta.
— Fugir?
— Desaparecer.
Sorrio de lado.
— Eu desapareço o tempo todo. Só não costumo dirigir.
Ele solta uma risada baixa. Não aquela treinada de tapete vermelho. Uma de verdade.
— Eu nunca desapareço — diz. — Mesmo quando quero.
Olho para ele. A camisa dele no meu corpo parece um detalhe íntimo demais para alguém que conheci há… quanto? Vinte minutos? Uma vida?
— Você parecia querer — respondo. — No salão.
— Eu pareço querer muitas coisas — ele diz. — É parte do figurino.
O silêncio que vem depois é macio. Denso. Cheio de coisas que quase… percebo de repente o óbvio.
— A gente… — começo. — A gente não sabe nem o nome um do outro.
Ele pisca, como se aquilo fosse mais íntimo do que tirar a camisa.
.
.
Digo meu nome como quem joga uma moeda num lago. Pequeno gesto. Grande risco.
— Combina com você — ele diz, sério demais para ser só educação.
— E você combina com… — faço um gesto vago para ele inteiro — crises existenciais de terno.
Ele ri de novo. E dessa vez dói um pouco, porque é fácil demais.
— Seu pai — ele arrisca — parece do tipo que decide destinos entre um canapé e outro.
— O seu também.
— Política não é sobre países — ele diz. — É sobre quem pertence a quem.
— E sobre quem nunca escolhe — completo. — Só obedece.
Ele me olha como se eu tivesse lido algo que estava escrito por dentro.
— Você escolheu fugir.
— Por cinco minutos — respondo. — Já é mais do que me deixam escolher.
Abro a boca para dizer mais, para explicar o cansaço, o peso de um futuro já escrito… quando ouço de novo. Um motor. Mais perto.
vira o rosto na direção da estrada.

— Eu sei.
Corro até a máquina de salgadinhos quebrada, enfio moedas que não sei de onde tirei e puxo o primeiro pacote que cai: algo industrial, salgado demais, absolutamente inútil.
— Você está roubando comida agora?
— Eu sempre fico com fome quando estou em perigo.
Jogo o pacote para ele.
— Come. Última refeição antes da próxima péssima decisão.
Os faróis já desenham a curva da estrada.
— Para o carro — digo, já correndo. — Agora.
Ele não pergunta. Nunca pergunta. Entramos quase ao mesmo tempo, portas batendo, motor rugindo.
lança um olhar rápido para mim, os olhos brilhando daquele jeito estranho de quem acabou de cruzar um limite.
— Pronta, copilota?
Sorrio, sentindo o sangue ainda quente nas veias.
— Sempre.
Ele pisa fundo, e eu pego o painel, tateando até achar o sistema de som.
— O que você está fazendo? — ele pergunta, meio incrédulo, enquanto a estrada some sob os faróis.
— Meu trabalho.
— Seu trabalho?
Encontro uma playlist qualquer, dessas cheias de pop exagerado e batida impossível de ignorar, e aumento o volume até o carro inteiro vibrar.
— É isso que copilotos fazem — digo, dando de ombros. — Eles escolhem a trilha sonora do desastre.
solta uma risada curta, nervosa, quase aliviada. E, por um segundo absurdo, enquanto somos perseguidos por seguranças e fantasmas, parece que somos apenas dois jovens roubando uma noite que nunca nos foi prometida.
A música explode pelo carro enquanto atravessamos uma avenida iluminada demais para ser real. Letreiros, vitrines, gente elegante atravessando a rua como se nada estivesse acontecendo, como se duas vidas não estivessem sendo reescritas em alta velocidade bem no meio da Riviera.
Abro o pacote de salgadinhos com os dentes.
— Isso é horrível — digo, já enfiando outro na boca. — E perfeito.
Pego um, estico a mão na direção de .
— Abre.
— Você está me alimentando agora?
— Copilotos fazem isso.
Ele obedece, e, por um segundo, observo seu rosto enquanto o sal explode na boca dele. O jeito como a mandíbula se move. Como os olhos piscam rápido demais. Não é discreto da minha parte. Não é educado. É… curioso. Quase faminto.
E eu sinto. Não sei o nome. Mas sinto.
No retrovisor, os carros aparecem por um segundo, pretos, sem alma, e depois desaparecem quando entramos numa avenida ainda mais cheia, turistas, câmeras, luzes.
— Agora — digo.
Não espero a reação dele. Subo no banco, metade do corpo para fora do teto solar, o vento arrancando um riso de mim que eu nem sabia que tinha.
— Você enlouqueceu?! — ele grita.
— Confia em mim!
Puxo o vestido e o deixo cair no ar, como se estivesse me livrando de uma pele antiga. Depois as joias: colar, brincos, pulseiras, tudo voando, cintilando, caindo na rua como se Cannes estivesse chovendo dinheiro.
As pessoas param.
Gritam.
Correm.
O trânsito engasga.
— Santo Deus… — murmura, pisando mais fundo.
Os seguranças ficam presos no caos que eu criei. Caio de volta no banco, ofegante, o cabelo completamente fora de controle, o coração em chamas.
— É por isso que eu odeio coisas caras — digo. — Todo mundo esquece de tudo por causa delas.
Rimos. Alto. Descontrolados. Por um segundo, é só isso: nós, o carro, a música, a noite.
Minutos depois, paramos num mercadinho de esquina, como dois adolescentes fugidos de casa. Compramos chocolate barato, balas, refrigerante e uma vodca tão ruim que o atendente quase pede desculpa.
Sentados no meio-fio, provo um gole e faço uma careta.
— Isso deveria ser ilegal.
— Combina com a noite — ele diz.
Ele bebe, tosse, ri de si mesmo.
— Uau. Isso… isso é uma agressão.
— É uma experiência cultural — retruco.
Ficamos ali, dividindo aquela coisa horrível como se fosse um segredo. Ele me observa por cima da boca da garrafa.
— Você não parece alguém que bebe vodca de mercadinho.
— Você não parece alguém que rouba carros em Cannes.
Touché.
Há algo fácil em falar com ele agora. Como se não houvesse testemunhas. Como se nossas versões públicas tivessem ficado no tapete vermelho, presas entre flashes.
— Então… — digo, brincando com a tampa da garrafa. — Você foge de quê, ?
Ele demora a responder. Olha para o chão. Depois para mim.
— De ser útil demais.
— Útil?
— Para o meu pai. Para a imagem. Para o país. — Ele dá de ombros. — Ninguém nunca quer saber quem eu sou. Só o que eu represento.
Aquilo me atinge mais do que deveria.
— Eu sei exatamente como é — digo. — Às vezes sinto que sou só um endereço bonito onde as decisões dos outros moram.
Ele me encara. Não com pena. Com reconhecimento.
— E quem você seria… sem isso tudo?
Penso.
— Provavelmente alguém que come salgadinho no meio da rua e joga vestidos caros fora da janela.
Ele sorri. Um sorriso lento, quase terno.
— Eu gostaria dessa versão de você.
O jeito que ele diz isso me aquece mais do que a vodca jamais conseguiria. Passo a garrafa de volta. Nossos dedos se encostam. Não recuamos.
— E você? — pergunto. — Quem você seria?
Ele pensa por um segundo.
— Alguém que não responde mensagens que não quer responder.
— Parece… perigoso.
— Parece.
Ficamos em silêncio por um momento. Não um silêncio vazio. Um que pulsa.
— Você percebe — digo, baixo — que isso aqui… nós… é uma péssima ideia.
— Todas as melhores são.
Olho para ele. Para a boca. Para os olhos que ainda carregam a velocidade da fuga.
— Nós vamos nos machucar.
— Provavelmente.
— Arruinar coisas.
— Com certeza.
Mesmo assim, quando ele se inclina um pouco mais perto, eu não me afasto. A noite ao nosso redor é pequena, comum, esquecível. Mas ali, sentados no meio-fio, dividindo uma vodca horrível e verdades perigosas, eu sinto algo que não estava nos planos.
E isso… isso me assusta mais do que qualquer perseguição.
quebra o silêncio primeiro.
— Quero saber coisas sobre você — diz, baixo. — Coisas que não aparecem em revista, nem em comunicado de imprensa, nem em legenda de tapete vermelho.
Olho para ele por cima da boca da garrafa. Há uma seriedade ali que me desarma mais do que qualquer flerte.
— Tipo… meus pecados favoritos? — Tento brincar.
— Tipo… — ele inclina a cabeça, como se estivesse escolhendo com cuidado — o que te faz sentir em casa. O que te irrita. O que você faria se ninguém estivesse olhando.
Aquilo me pega de surpresa. Ninguém nunca pergunta assim. Normalmente querem saber o que eu visto, com quem eu apareço, o que meu pai pensa. Nunca o que eu penso.
— Eu não sou muito boa em versões resumidas de mim — digo.
— Ótimo. — Ele sorri. — Eu odeio sinopses.
Rio, baixo, sentindo algo em mim ceder um pouco.
— Eu gosto de coisas que não servem para nada — começo. — Cafés ruins. Livros com finais abertos. Lugares que não aparecem no Google Maps. Acho que as coisas mais importantes quase nunca são eficientes.
— Você é contra a produtividade emocional — ele observa.
— Totalmente. — Dou de ombros. — As pessoas usam isso como desculpa para não sentir.
Ele me encara como se estivesse guardando aquilo.
— Sua vez — digo. — O que você odeia?
— Quando me dizem o que eu deveria querer.
— Clássico. — Sorrio. — E perigoso.
O silêncio volta, mas agora é confortável. Ele bebe mais um gole de vodca, faz uma careta e me devolve a garrafa.
— Vamos fazer um jogo? — proponho, de repente.
— Perigoso.
— Sempre é. Mas esse é inofensivo. Prometo.
— Duvido.
— Perguntas bobas — explico. — Nada que renda manchete.
— Estou dentro.
Penso por um segundo.
— Animal favorito.
Ele pisca.
— O quê?
— Vai. Não pensa demais.
— Uh… golfinho?
— Péssima escolha — digo, imediatamente.
— Ei!
— Golfinhos são sociopatas do mar. — Sorrio. — Eles só parecem fofos.
Ele ri, de verdade.
— E o seu?
— Gato — respondo sem hesitar. — Eles não fingem que gostam de você. Ou gostam ou não. Acho isso honesto.
— Você é uma pessoa-gato.
— Absolutamente.
— Minha vez — ele diz, se animando. — Cor favorita.
— Verde escuro.
— Por quê?
— Porque parece calma, mas esconde um monte de coisa viva dentro.
Ele me olha como se aquilo tivesse sido uma confissão.
— Música que você escuta quando ninguém está ouvindo?
— Pop ruim dos anos 2000 — admito. — Do tipo que você dança sozinha no quarto.
— Eu sabia.
— E você?
— Piano triste — ele responde. — Quando quero sentir alguma coisa sem ninguém perceber.
Aquilo me atravessa.
Continuamos assim. Com perguntas pequenas que abrem coisas grandes. Com risadas no meio. Com silêncios que não precisam ser preenchidos.
E, em algum momento, me dou conta.
Eu estou… leve. Como se alguém tivesse tirado um peso invisível dos meus ombros.
— Sabe o que é estranho? — digo, olhando para o chão.
— O quê?
— Ninguém nunca me perguntou essas coisas. — Engulo em seco. — Não de verdade. Nunca quiseram saber qual é o meu animal favorito. Ou o que eu ouço quando estou sozinha. Só… o que eu represento.
Ele fica quieto por um segundo.
— Comigo é igual — diz, por fim. — Sempre querem o sobrenome. Nunca o resto.
Nossos olhares se encontram. Há algo ali que não é grandioso. Não é cinematográfico. É íntimo. E talvez por isso seja tão perigoso.
Divido mais um gole de vodca com ele. Horrível. Perfeita. E penso, com uma clareza que me assusta: talvez seja isso que eu sempre quis. Não fugir. Mas, por alguns minutos, ser vista por alguém que não quer me usar.
O dono do mercadinho pigarreia alto atrás do balcão. As luzes piscam uma vez… duas… e então se apagam quase por completo, deixando só um brilho fraco sobre as prateleiras.
— Acho que fomos oficialmente expulsos — digo.
— Nossa reputação cresce rápido — responde, se levantando e fazendo uma pequena reverência dramática. — Duas compras e já estamos proibidos.
Rimos baixo, como se a noite pudesse nos ouvir. Ele pega a garrafa de vodca, observa o rótulo torto por um segundo, e então despeja o resto no bueiro ao lado da calçada.
— Ei! — protesto, meio de brincadeira.
— Segurança acima de tudo — ele diz. — Não quero que a gente morra intoxicado por algo que claramente odeia a humanidade.
— Justo.
Ficamos ali, de pé, sem realmente nos afastar. Perto demais para ser casual. Longe demais para ser confortável. Ele não dá um passo em direção ao carro. Como se ambos soubéssemos: sair daqui significa voltar a ser quem éramos antes.
— Parece que… — começo, e paro, sem saber como terminar.
— Que a gente não quer ir embora — ele completa.
Nossos olhares se prendem outra vez. Não é delicado. Não é ensaiado. É como se algo entre nós tivesse ficado cansado de esperar permissão. O beijo acontece assim: direto, intenso, um pouco torto, como tudo nessa noite. O mundo não desaparece, mas fica distante o suficiente para não importar.
Quando nos afastamos, ofegantes, ele encosta a testa na minha por um instante.
— Eu conheço um lugar — diz baixo. — Uma praia. Quase ninguém vai lá. Não tem seguranças. Nem flashes. Nem expectativas.
Meu coração bate mais rápido.
— Parece perigoso — respondo.
O canto da boca dele se curva num sorriso.
— Acho que essa é a nossa especialidade hoje.
E, pela primeira vez, não sinto medo do que vem depois. Só vontade.


LE GRAND JARDIN, 23H DA NOITE

Caravaggio

Não foi a fuga. Nem o carro roubado. Nem o caos. Nem o perigo. Foi o jeito como ela me olhou quando tudo isso acabou. Como se eu não fosse um sobrenome. Nem um ativo diplomático. Nem o herdeiro de uma máquina de poder.
Só um garoto com as mãos ainda tremendo no volante.
Em algum ponto entre Cannes e esse silêncio, deixou de ser a filha de um inimigo. Deixou de ser um erro. Deixou de ser um risco calculado. Ela virou… um centro de gravidade. Tudo em mim começou a girar ao redor dela sem que eu percebesse.
O jeito como fala quando não está performando. Como ocupa espaço sem pedir desculpa. Como a raiva e a ternura convivem no mesmo olhar. Ela não me quer. Ela não precisa de mim. E talvez seja por isso que eu esteja tão perdido.
Porque todo o meu mundo foi construído em torno de ser necessário.
Útil.
Negociável.
E ela me olha como se eu fosse algo que se escolhe.
Cada gesto dela me atravessa como uma pergunta que ninguém nunca fez: — Quem você é quando ninguém está te usando? E eu não tenho resposta. Só sei que, se ela for embora agora, vai levar algo comigo que eu ainda nem aprendi a nomear.
Não é amor.
É pior.
É a sensação de que alguém acabou de tocar uma versão de mim que nunca foi autorizada a existir. E eu já estou rendido.
A praia da minha família não aparece em mapa nenhum. Não porque não exista. Mas porque tudo que é realmente valioso aprende cedo a se esconder.
O carro desacelera por uma estrada estreita, cercada por ciprestes e muros baixos de pedra clara. O mar surge de repente, aberto, escuro, enorme. Nenhum hotel. Nenhum letreiro. Só uma faixa de areia quase branca, uma casa antiga de verão ao fundo, e luzes discretas que parecem respirar junto com as ondas.
— Bem-vinda ao meu segredo — digo, desligando o motor.
O silêncio aqui é diferente do de Cannes. Não é vazio. É denso. Como se o mundo estivesse segurando o fôlego.
Desço primeiro, sentindo o chão frio sob os sapatos caros que nunca tocaram nada assim. sai do outro lado, ainda usando a minha camisa, o vestido perdido em alguma rua iluminada por gente que não importa mais.
Por um segundo, ela só olha.
O mar.
A areia.
A ausência de testemunhas.
— Isso… — ela murmura — não parece real.
— É por isso que funciona.
Caminho à frente, puxando o portão baixo, que range como se estivesse sendo acordado de um sono antigo. Tudo ali foi feito para desaparecer quando não está em uso. Para proteger. Para esconder.
Meu pai chama isso de segurança. Eu chamo de prisão bonita. A lua se reflete na água, quebrada pelas ondas suaves. tira os sapatos e afunda os pés na areia, como se estivesse testando se o mundo ainda responde a ela.
Observo de longe por um instante.
A garota que desafiou dois impérios diplomáticos agora parece… só uma garota. Vulnerável. Viva. E isso me atinge com uma força que não estava no roteiro.
— Ninguém vai nos encontrar aqui — digo. — Nem ele. Nem o seu pai.
Ela me olha. O rosto iluminado pela lua, o cabelo ainda selvagem da fuga.
— Você promete?
Eu hesito. Porque promessas são coisas que aprendi a nunca fazer.
Mas, mesmo assim, digo:
— Sim.
E, naquele segundo, eu não estou falando como Caravaggio. Estou falando como alguém que quer, desesperadamente, que aquela noite não seja roubada de nós também.
Ela não me pergunta nada.
só dá um passo à frente, como se tivesse cansada de esperar o mundo decidir por ela. A areia afunda sob os pés descalços, a camisa branca dela ondula no vento, e, por um segundo, eu penso que devia parar isso.
Não paro.
Ela ergue o rosto, tão perto que sinto o sal da pele, o cheiro de noite e fuga, e então sua boca toca a minha.
Não é suave.
Não é tímido.
É urgente, como se algo estivesse acabando.
Eu a beijo de volta com a mesma fome, como se cada segundo fosse um território prestes a ser retomado por forças maiores do que nós. Minhas mãos encontram sua cintura, e o mundo inteiro se reduz a esse ponto exato onde estamos colidindo.
É errado.
Eu sei.
Ela sabe.
E, ainda assim, nunca pareceu tão certo. Quando nos afastamos, o ar parece diferente, mais pesado, mais vivo. me encara, os lábios ainda próximos demais.
— Isso foi uma péssima ideia — ela murmura.
Ela ri, um som curto, quase quebrado, e então se vira de repente, caminhando em direção ao mar como se estivesse fugindo de algo dentro de si.
— Vem — ela diz, sem olhar para trás.
Eu sigo.
A água toca nossos pés, fria, chocante, real demais. O vestido improvisado dela, minha camisa, começa a pesar. O mar nos puxa como uma promessa que não quer ser cumprida. Entramos mais.
Até os tornozelos.
Até os joelhos.
Até que a água apaga o calor do beijo.
fecha os olhos quando uma onda bate em suas pernas.
— Eu odeio o quanto isso é bonito — ela diz. — Parece mentira.
— A Riviera inteira é uma mentira — respondo. — Mas isso aqui… — faço um gesto vago entre nós — não.
Ela me olha. O cabelo molhado grudando no rosto. O brilho da lua refletido nos olhos. Por um segundo, somos só duas pessoas dentro do mar.
E eu penso, com uma clareza que me dói: talvez a pior parte de fugir seja descobrir exatamente o que você quer no momento em que sabe que não pode ter.
A água sobe mais um pouco.
O beijo ainda queima.

Parte III

LE GRAND JARDIN, 23H DA NOITE

Caravaggio

Não foi a fuga. Nem o carro roubado. Nem o caos. Nem o perigo. Foi o jeito como ela me olhou quando tudo isso acabou. Como se eu não fosse um sobrenome. Nem um ativo diplomático. Nem o herdeiro de uma máquina de poder.
Só um garoto com as mãos ainda tremendo no volante.
Em algum ponto entre Cannes e esse silêncio, deixou de ser a filha de um inimigo. Deixou de ser um erro. Deixou de ser um risco calculado. Ela virou… um centro de gravidade. Tudo em mim começou a girar ao redor dela sem que eu percebesse.
O jeito como fala quando não está performando. Como ocupa espaço sem pedir desculpa. Como a raiva e a ternura convivem no mesmo olhar. Ela não me quer. Ela não precisa de mim. E talvez seja por isso que eu esteja tão perdido.
Porque todo o meu mundo foi construído em torno de ser necessário. Útil. Negociável.
E ela me olha como se eu fosse algo que se escolhe.
Cada gesto dela me atravessa como uma pergunta que ninguém nunca fez: — Quem você é quando ninguém está te usando? E eu não tenho resposta. Só sei que, se ela for embora agora, vai levar algo comigo que eu ainda nem aprendi a nomear.
Não é amor. É pior.
É a sensação de que alguém acabou de tocar uma versão de mim que nunca foi autorizada a existir. E eu já estou rendido.
A praia da minha família não aparece em mapa nenhum. Não porque não exista. Mas porque tudo que é realmente valioso aprende cedo a se esconder.
O carro desacelera por uma estrada estreita, cercada por ciprestes e muros baixos de pedra clara. O mar surge de repente, aberto, escuro, enorme. Nenhum hotel. Nenhum letreiro. Só uma faixa de areia quase branca, uma casa antiga de verão ao fundo, e luzes discretas que parecem respirar junto às ondas.
— Bem-vinda ao meu segredo — digo, desligando o motor.
O silêncio aqui é diferente do de Cannes. Não é vazio. É denso. Como se o mundo estivesse segurando o fôlego.
Desço primeiro, sentindo o chão frio sob os sapatos caros que nunca tocaram nada assim. sai do outro lado, ainda usando a minha camisa, o vestido perdido em alguma rua iluminada por gente que não importa mais.
Por um segundo, ela só olha.
O mar. A areia. A ausência de testemunhas.
— Isso… — ela murmura — não parece real.
— É por isso que funciona.
Caminho à frente, puxando o portão baixo que range como se estivesse sendo acordado de um sono antigo. Tudo ali foi feito para desaparecer quando não está em uso. Para proteger. Para esconder.
Meu pai chama isso de segurança. Eu chamo de prisão bonita. A lua se reflete na água, quebrada pelas ondas suaves. tira os sapatos e afunda os pés na areia, como se estivesse testando se o mundo ainda responde a ela.
Observo de longe por um instante.
A garota que desafiou dois impérios diplomáticos agora parece… só uma garota. Vulnerável. Viva. E isso me atinge com uma força que não estava no roteiro.
— Ninguém vai nos encontrar aqui — digo. — Nem ele. Nem o seu pai.
Ela me olha. O rosto iluminado pela lua, o cabelo ainda selvagem da fuga.
— Você promete?
Eu hesito. Porque promessas são coisas que aprendi a nunca fazer.
Mas, mesmo assim, digo:
— Sim.
E naquele segundo, eu não estou falando como Caravaggio. Estou falando como alguém que quer, desesperadamente, que aquela noite não seja roubada de nós também.
Ela não me pergunta nada.
só dá um passo à frente, como se tivesse cansado de esperar o mundo decidir por ela. A areia afunda sob os pés descalços, a camisa branca dela ondula no vento, e, por um segundo, eu penso que devia parar isso.
Não paro.
Ela ergue o rosto, tão perto que sinto o sal da pele, o cheiro de noite e fuga, e então sua boca toca a minha.
Não é suave. Não é tímido. É urgente, como se algo estivesse acabando.
Eu a beijo de volta com a mesma fome, como se cada segundo fosse um território prestes a ser retomado por forças maiores do que nós. Minhas mãos encontram sua cintura, e o mundo inteiro se reduz a esse ponto exato onde estamos colidindo.
É errado. Eu sei. Ela sabe.
E, ainda assim, nunca pareceu tão certo. Quando nos afastamos, o ar parece diferente, mais pesado, mais vivo. me encara, os lábios ainda próximos demais.
— Isso foi uma péssima ideia — ela murmura.
Ela ri, um som curto, quase quebrado, e então se vira de repente, caminhando em direção ao mar como se estivesse fugindo de algo dentro de si.
— Vem — ela diz, sem olhar para trás.
Eu sigo.
A água toca nossos pés, fria, chocante, real demais. O vestido improvisado dela, minha camisa, começa a pesar. O mar nos puxa como uma promessa que não quer ser cumprida. Entramos mais.
Até os tornozelos. Até os joelhos. Até que a água apaga o calor do beijo.
fecha os olhos quando uma onda bate em suas pernas.
— Eu odeio o quanto isso é bonito — ela diz. — Parece mentira.
— A Riviera inteira é uma mentira — respondo. — Mas isso aqui… — faço um gesto vago entre nós — não.
Ela me olha. O cabelo molhado grudando no rosto. O brilho da lua refletido nos olhos. Por um segundo, somos só duas pessoas dentro do mar. E eu penso, com uma clareza que me dói: talvez a pior parte de fugir seja descobrir exatamente o que você quer no momento em que sabe que não pode ter.
A água sobe mais um pouco. O beijo ainda queima. é a primeira a se afastar. Não muito. Só o suficiente para que a água exista outra vez entre nós.
Ela passa as mãos pelo cabelo molhado, o jogando para trás, e me encara com aquele mesmo olhar que me encontrou do outro lado de um salão cheio de gente importante. Só que agora não há ninguém para interromper.
Nenhum Bellini.
Nenhum Caravaggio.
Nenhuma câmera.
Só eu.
— O quê? — pergunto.
— Nada. — Ela estreita os olhos.
— Você está me olhando.
— Infelizmente.
— Você é sempre assim depois de beijar alguém? — Solto uma risada.
— Assim como?
— Insuportável. — Ela sorri. E então joga água em mim.
Demoro um segundo inteiro para entender o que acabou de acontecer. A água escorre pelo meu rosto, salgada, gelada, entrando nos meus olhos. já está recuando.
— Você acabou de... — Outra onda de água me acerta antes que eu termine. — . — Ela ri.
Não aquele riso curto que soltou no carro quando desligou na cara do meu pai. Nem o quase debochado que usa quando quer esconder alguma coisa. É uma gargalhada. Aberta. Bonita. Despreocupada.
E, por alguns segundos, eu simplesmente fico parado. Porque não me lembro de tê-la ouvido rir assim. Na verdade, não me lembro da última vez em que ouvi alguém rir assim perto de mim sem conferir primeiro quem estava olhando.
— Você vai ficar aí? — ela provoca. — Achei que Caravaggios fossem melhores sob pressão.
— Você não devia ter feito isso.
— Estou aterrorizada. — Avanço. Ela percebe tarde demais. — , não… — Jogo água nela. solta um grito indignado e tenta se proteger com os braços. — Seu idiota!
— Você começou.
— Eu estava brincando!
— Eu também.
— Não, você está tentando me afogar.
— Dramática.
— Italiano.
— Isso nem é um insulto.
— Foi do jeito que eu disse. — Ela tenta fugir.
A água chega quase à cintura agora, dificultando cada passo, mas insiste, tropeçando entre as ondas e rindo enquanto olha por cima do ombro. Eu vou atrás.
— Não chega perto de mim.
— Você sabe que dizer isso enquanto foge só piora as coisas, não sabe?
— Eu estou falando sério.
— Claro. — Ela tenta jogar água outra vez. Seguro seu pulso. usa a outra mão. Seguro também.
— Isso é trapaça — protesta.
— Isso é estratégia.
— Seu pai ficaria orgulhoso.
A frase deveria estragar tudo. Por algum motivo, não estraga.
— Retira.
— Nunca.
Ela tenta escapar. Eu puxo. E, de repente, ela está contra mim. O riso desaparece. Não completamente. Ainda existe alguma coisa dele no canto da boca dela, na respiração rápida, nos olhos brilhantes.
Mas o resto muda.
As mãos que eu segurava deixam de lutar. O mar continua se movendo ao nosso redor. Uma onda bate nas minhas costas e me empurra um pouco mais para perto. ergue o rosto.
— Isso também faz parte da estratégia? — pergunta, mais baixo.
— Não tenho estratégia nenhuma desde que você entrou naquele carro.
— Isso é preocupante. — Ela me observa.
— Muito.
Não sei quem se move primeiro. Talvez os dois. A boca dela encontra a minha e não existe surpresa dessa vez.
Só vontade.
A mão de escapa da minha e sobe até minha nuca. Meus dedos encontram sua cintura por baixo do tecido molhado da camisa. Ela está fria por causa da água, mas a pele sob minhas mãos não está.
O beijo muda.
Fica mais lento por um instante. Depois não fica. Ela me puxa para mais perto. Eu deixo. É assustador como é fácil. Como se meu corpo tivesse passado a noite inteira esperando chegar exatamente aqui. interrompe o beijo só para respirar.
— Nós somos muito ruins em tomar decisões. — A testa encosta na minha.
— Fale por você.
— Você roubou um carro. — Ela solta um riso contra minha boca.
— Tecnicamente, ainda não sabemos se foi roubo.
. — Ela afasta o rosto.
— Talvez eu devolva.
— Ah, claro. Nesse caso, tudo certo.
— Viu?
— Você é um desastre.
— Você entrou no carro.
— Porque estava fugindo.
— Então eu sou um desastre conveniente.
Ela tenta esconder o sorriso. Não consegue. Eu beijo aquele sorriso. Dessa vez ela não brinca. As mãos dela deslizam pelos meus ombros e existe uma urgência diferente agora. Menos sobre fugir. Mais sobre ficar. E é justamente isso que deveria me assustar. Porque desejo eu conheço.
Desejo é simples. É uma coisa que existe no corpo, exige alguma coisa e depois passa. Isso não parece simples. me toca como se não soubesse quem eu deveria ser. E eu percebo que talvez seja a primeira pessoa a fazer isso.
Não Caravaggio.
Não o filho de Alessandro.
Não o namorado que deveria responder mensagens.
Eu.
Só eu.
Então Maya atravessa meu pensamento. Não como rosto. Como culpa. É rápido. Brutal. O suficiente para fazer meu corpo hesitar. percebe.
Claro que percebe.
Ela se afasta alguns centímetros.
— O que foi?
Eu poderia parar. Talvez devesse. Voltar para a areia. Procurar meu telefone. Encarar tudo que deixei do outro lado dessa noite. Fazer uma coisa certa depois de tantas erradas. Mas olho para .
Molhada.
Ofegante.
Esperando.
Não me pressionando. Não pedindo nada. Só esperando que a decisão seja minha. E talvez seja isso que destrua o último pedaço de bom senso que ainda tenho. Eu a beijo.
Escolho.
Pela primeira vez em muito tempo, escolho alguma coisa sabendo exatamente que existe um preço. E pago mesmo assim. corresponde antes que eu possa transformar a decisão em pensamento outra vez.
As mãos dela seguram meu rosto, os dedos frios por causa do mar, e eu a puxo para mais perto pela cintura. A camisa molhada entre nós já não protege ninguém de nada. Gruda na pele dela, pesada de água, e quando meus dedos encontram a barra do tecido, eu paro.
Não porque não quero continuar. Porque quero.
Muito.
Mas existe uma diferença entre fugir sem pensar e escolher sem perguntar. Afrouxo o abraço.
— O que foi? — abre os olhos.
A respiração dela ainda toca minha boca. Por um instante, quase rio da situação. Passei a noite inteira seguindo uma garota que entrou num carro roubado e começou a dar ordens como se já me conhecesse. Agora, pela primeira vez, não quero presumir nada.
— Tem certeza?
Ela fica imóvel. Não parece constrangida. Parece surpresa. Como se ninguém esperasse que eu perguntasse. Então a expressão muda. A provocação desaparece um pouco. O sorriso também.
E sobra .
— Tenho.
Não me movo. Ela percebe.
.
— O quê?
— Eu tenho certeza.
A mão dela encontra a minha. Entrelaça nossos dedos. E é ela quem diminui novamente a distância. Dessa vez, quando nos beijamos, alguma coisa muda. Não existe pressa para chegar a lugar nenhum. Ainda há urgência, mas ela deixou de ser desespero.
Minha mão sobe pelas costas dela, enquanto passa os braços pelo meu pescoço. A pele dela está fria onde o mar tocou e quente onde meu corpo encontra o seu.
Ela estremece.
— Está com frio?
— Não estrague o momento.
— Foi uma pergunta. — Riu contra sua boca.
— Uma pergunta idiota.
— Você inventou o jogo.
— O jogo está suspenso.
— Autoritária.
— Cala a boca. — Ela me beija antes que eu consiga responder. E eu obedeço.
É estranho perceber que passei a vida inteira sendo tocado por pessoas que sabiam exatamente quem eu era. Mãos apertadas em recepções. Abraços calculados. Beijos diante de fotógrafos. Até carinho pode virar protocolo quando seu sobrenome chega a um lugar antes de você.
Com não existe nada disso. As mãos dela não carregam expectativa. Não procuram o filho de Alessandro. Não procuram Caravaggio. Só me procuram. E talvez seja por isso que cada toque pareça mais perigoso do que deveria.
Saímos da água quase tropeçando um no outro. ri quando uma onda nos alcança por trás e quase me faz perder o equilíbrio.
— Muito elegante — provoca.
— A areia é instável.
— Claro. Culpa da areia.
— Estou descalço.
— Mais uma tragédia na vida de Caravaggio.
— Você é péssima em criar clima.
— E mesmo assim você continua aqui.
Ela tem razão.
Continuo. Sigo até quando alcançamos a parte seca da praia. Até quando ela para. Até quando o riso diminui. A lua desenha metade do rosto dela e, por um segundo, ficamos apenas nos olhando. A realidade tenta voltar.
Maya.
Meu pai.
Bellini.
Cannes.
Amanhã.
Tudo existe em algum lugar. Só não aqui. toca meu peito com a ponta dos dedos. Um gesto quase distraído. Meu corpo reage como se não fosse. Seguro sua mão.
— Ainda pensando demais? — Ela ergue os olhos para mim.
— Provavelmente.
— Péssimo hábito.
— Estou descobrindo.
— Então para. — Ela aproxima meu rosto do dela.
E eu paro. Pelo menos tento. Beijo sua testa. Depois a têmpora. O canto da boca. solta uma risada baixa quando percebe o que estou fazendo.
— Agora você resolveu ter paciência?
— Posso voltar a ser irresponsável.
— Não reclamei. — Isso me faz sorrir. Ela também.
E existe alguma coisa quase absurda naquela mistura. Desejo e riso. Nervosismo e confiança. Duas pessoas que não deveriam estar ali tentando descobrir uma à outra sem mapa. Sem instruções. Sem ninguém dizendo qual é o movimento correto. Quando voltamos a nos beijar, segura minha mão outra vez.
E dessa vez não solta.
O resto acontece assim. Sem elegância. Sem roteiro. Às vezes devagar demais. Às vezes com a urgência de quem sabe que a noite não vai durar.
Há momentos em que ela ri contra meu ombro e outros em que simplesmente fecha os olhos e encosta a testa na minha, como se precisasse lembrar que isso está realmente acontecendo.
Eu também preciso.
Talvez mais do que ela.
Porque existe um momento, pequeno, quase ridículo, em que abre os olhos e me encontra olhando para ela. Não para seu corpo.
Para ela.
— O quê? — sussurra.
A mesma pergunta de antes.
Mas agora não consigo inventar uma resposta.
— Nada.
— Mentiroso. — Ela estreita os olhos.
Sou.
Fui treinado para isso.
Mas não dessa vez. Dessa vez apenas não sei dizer:
Quero lembrar.
Então beijo outra vez. E guardo. O som do mar. A areia fria contra a pele. Os dedos dela presos aos meus. Meu nome na voz dela sem nenhuma formalidade. A sensação quase assustadora de não precisar ser bom em nada.
Não precisar impressionar.
Não precisar vencer.
Só estar ali.
Com ela.
Quando tudo desacelera, não sei quanto tempo passou. Minutos. Horas. A Riviera inteira poderia ter desaparecido e talvez eu não tivesse percebido. Fico deitado na areia, ainda tentando recuperar o fôlego, enquanto permanece perto de mim.
Perto de verdade.
Por alguns segundos, nenhum dos dois fala. É aí que o constrangimento chega. Não arrependimento. Isso seria mais simples. É consciência.
Aquela percepção súbita e quase cômica de que acabei de dividir uma intimidade absurda com uma garota cujo sobrenome é inimigo do meu e cujo animal favorito eu só descobri algumas horas atrás.
Viro o rosto. está olhando para o céu. Minha camisa voltou para o corpo dela, abotoada de qualquer jeito. O cabelo começa a secar em ondas desorganizadas sobre os ombros. Ela parece tranquila. Eu definitivamente não estou. Sei cumprimentar chefes de Estado em quatro idiomas. Sei conversar com ministros. Sei sorrir para jornalistas enquanto evito perguntas capazes de destruir negociações inteiras.
Não faço ideia do que se diz agora. Abro a boca.
— Golfinho continua sendo uma escolha péssima — fala primeiro.
Fico olhando para ela. Um segundo. Dois. Então começo a rir. Não consigo evitar. Passo a mão pelo rosto, rindo de um jeito completamente idiota.
— É nisso que você está pensando?
— Faz alguns minutos.
— Alguns minutos?
— Eu precisava de tempo para processar o fato de que você teve acesso a todos os animais existentes e escolheu golfinho.
— Você é inacreditável.
— Eu sou coerente.
— Você acabou de...
— Cuidado — ela interrompe, levantando um dedo. — Dependendo do que vier depois dessa frase, eu posso jogar você no mar de novo.
— Você pesa cinquenta quilos.
Ela vira o rosto devagar.
Merda.
— O quê?
— Nada.
— Você acabou de dizer meu peso?
— Foi uma estimativa.
.
— Uma estimativa ruim.
— Você quer morrer nessa praia? — Ela se apoia nos cotovelos.
— Meu pai provavelmente quer me matar de qualquer maneira.
— Posso facilitar o trabalho. — Sorrio.
Ela tenta continuar séria. Dura três segundos. Depois ri também. E ali está outra vez. Aquele som. Aquela garota. . Fico olhando tempo demais.
— Para. — Ela percebe.
— O quê?
— Isso.
— Isso o quê?
— Me olhar desse jeito.
— Que jeito?
— Esquece. — Ela revira os olhos e volta a deitar.
Mas eu não esqueço. Acho que já estou começando a entender que não vou esquecer nada dessa noite. O mercadinho. A vodka horrível. O cabelo dela voando enquanto jogava milhares de euros em joias. A minha camisa no corpo dela. O gosto de sal na boca.
Golfinhos.
Tudo.
Informações completamente inúteis. Talvez sejam minhas favoritas.
— Então o jogo continua? — pergunto.
— Você quer continuar? — Ela olha para mim.
— Quero.
— Mesmo depois de descobrir que eu julgo severamente suas preferências zoológicas?
— Principalmente por isso.
— Certo. Mas temos uma regra nova. — sorri e cruza os braços atrás da cabeça.
— Claro que temos.
— Podemos passar.
— Passar?
— Uma pergunta. — Ela vira o rosto para mim. — Se você não quiser responder, não responde. Sem justificativa. Sem insistência.
É uma regra específica demais para ser inocente.
— Você já está planejando não responder alguma coisa? — Observo-a por alguns segundos.
— Talvez.
— Isso parece manipulação.
— Isso parece consentimento, Caravaggio. — Fecho a boca. Ela sorri, satisfeita.
— Justo.
— Ótimo. — pensa por alguns segundos. — Pior hábito.
— Fácil. Não respondo mensagens.
— Isso não é um hábito. É falta de educação.
— Você me conheceu hoje e já está me corrigindo?
— Alguém precisa.
— Sua vez. — Ela pensa.
— Eu fujo.
— Isso também não é hábito.
— Você ficaria surpreso. — Há alguma coisa na resposta que eu quase alcanço. Mas ela já continua. — Lugar onde você moraria se pudesse escolher qualquer um.
Olho para o mar. A resposta automática seria Roma. A resposta esperada seria Paris. Londres. Genebra. Algum lugar que faça sentido para alguém como eu. Mas ela não perguntou o que faz sentido.
— Algum lugar onde ninguém saiba meu sobrenome. — fica em silêncio.
— Isso não é um lugar.
— Para mim, é.
— Então eu escolheria o mesmo. — Ela me encara por alguns segundos.
Sinto alguma coisa apertar no meu peito. Desvio antes que ela veja.
— Minha vez. — Penso. — Você sabe cozinhar?
— Sei.
— Mentira.
— Sei, sim.
— O quê?
— Várias coisas.
— Nomeia três.
— Massa. — Ela estreita os olhos.
— Isso é uma categoria.
— Risoto.
— Uma.
— Ovos.
— Ovos?
— Existem várias formas de fazer ovos.
— Você está contando ovos como habilidade culinária?
— Você sabe fazer? — Abro a boca. Fecho. começa a rir. — Meu Deus.
— Eu nunca precisei.
— Essa é provavelmente a coisa mais rica que você disse a noite inteira.
— Eu roubei um carro de cento e cinquenta mil euros.
— E, ainda assim, não saber fritar um ovo é pior.
— Sei fazer café.
— Apertar um botão não conta.
— Você não sabe como eu faço café.
— Você tem cara de quem tem uma máquina que custa o salário anual de alguém.
— Isso foi estranhamente específico.
— Acertei? — Não respondo. Ela gargalha.
— Próxima pergunta.
Continuamos. Pior filme que já assistiu. Comida que não suporta. Uma música que sabe inteira, mas jamais admitiria em público. Primeira coisa que compraria se tivesse apenas dez euros. Praia ou montanha. Cidade ou campo. Dormir cedo ou fingir que não precisa dormir. Coisas pequenas.
Ridículas.
Inúteis.
E eu quero todas.
Quero saber por que ela odeia azeitonas. Quero saber por que sempre escolhe o lado da janela em aviões mesmo tendo medo de turbulência. Quero saber por que prefere livros usados aos novos. Quero saber por que ela nunca termina uma série quando gosta demais dela. É absurdo.
Passei a vida aprendendo informações que poderiam ser usadas. Quem devia favores. Quem tinha inimigos. Quem estava se divorciando. Quem precisava de dinheiro. Quem queria poder. Informação sempre foi moeda. Com , pela primeira vez, quero saber coisas que não compram absolutamente nada.
— Minha vez — digo.
— Vai. — Ela está desenhando círculos na areia com a ponta do dedo.
Penso. Talvez seja a madrugada. Talvez seja o jeito como ela está perto. Talvez eu tenha esquecido que algumas perguntas mudam o ar depois que são feitas.
— Você já esteve apaixonada? — O dedo dela para. Só por um segundo. Mas eu vejo.
— Essa não parece uma pergunta boba. — continua olhando para a areia.
— Você não especificou o nível de bobagem.
— Trapaceiro.
— Estrategista.
— Já — responde. Ela sorri, mas alguma coisa mudou.
Uma palavra. Só isso. Espero. Ela não acrescenta nada.
— E?
— E o quê?
— Nada. — Ela me encara. — Sua vez de responder.
— Não foi isso que eu perguntei.
— O jogo não tem regras suficientes para impedir.
— Você acabou de criar regras.
— E posso criar outras.
— Ditadora. — Sorrio.
— Covarde.
— Já.
A palavra sai antes que eu pense. fica quieta.
— Já esteve apaixonado?
— Acho que sim. — Olho para o céu.
— Acha?
— É complicado.
— Essa é a frase favorita de homens prestes a dizer alguma coisa decepcionante.
— Eu tenho uma namorada. — Solto o ar pelo nariz.
O silêncio muda. Não desaparece. Muda. não se mexe. Os olhos continuam no céu. Mas sinto seu corpo ficar um pouco mais rígido ao meu lado.
— Tem — ela repete.
Não é uma pergunta.
— Tenho.
Ela vira o rosto.
— Essa informação teria sido moderadamente útil algumas horas atrás.
— Eu sei.
— Antes do carro.
— Eu sei.
— Antes do primeiro beijo.
— Eu sei.
— Definitivamente antes de...
. — Ela fecha a boca. Não parece furiosa. Isso seria mais fácil. Parece estar pensando.
— Maya? — pergunta.
— Você sabe quem ela é. — Meu estômago afunda.
— Todo mundo sabe quem você é, lembra?
Claro.
Fotos.
Eventos.
Capas.
Viagens.
Uma relação perfeitamente fotografável.
— Eu deveria ter contado.
— Deveria.
Não tento discutir. Não existe argumento que transforme aquilo em outra coisa.
— Eu deveria ter terminado antes — digo.
— Antes de hoje? — me observa.
— Muito antes.
Ela fica em silêncio. O mar ocupa o espaço entre uma frase e outra.
— Então por que não terminou?
Essa é pior. Porque não existe uma resposta bonita.
— Porque era fácil.
— Fácil? — Ela franze a testa.
— Maya conhece a minha vida. Conhece as pessoas. Sabe onde sentar, o que dizer, quando sorrir. Meu pai gosta dela. A família dela gosta de mim. Ninguém precisa explicar nada para ninguém.
— Parece romântico.
— Eu não disse que era.
— Você a ama? — olha novamente para o céu.
Demoro. Tempo demais.
— Acho que já amei o que estar com ela significava.
— Isso é uma resposta horrível. — vira o rosto para mim.
— Eu sei.
— E triste.
Essa dói mais. Porque é. Passo uma mão pela areia, deixando os grãos escaparem entre meus dedos.
— Com ela, eu sabia exatamente quem precisava ser. — Engulo em seco. — Acho que durante muito tempo confundi isso com estar confortável.
— E agora?
Olho para . Não deveria. Mas olho.
— Agora não parece confortável.
Ela sustenta meu olhar. Por um segundo, ninguém brinca. Ninguém foge. Então ela desvia.
— Minha vez.
Eu quase sorrio. Quase.
— Você está fugindo.
— Essa não é uma pergunta.
— Ainda.
Ela espera.
— E você?
O rosto dela fica imóvel.
— Eu o quê?
— Tem alguém?
Silêncio. Dessa vez eu vejo claramente. Não é surpresa. É cálculo. Pequeno. Rápido. Mas existe. Bellini volta por um segundo. A garota que sabe onde estão as câmeras. Que calcula as ruas. Que conhece pontos cegos.
— Passo — diz.
Uma palavra.
A regra.
Eu poderia perguntar.
Quem?
Por quê?
É sério?
Poderia lembrar que ela acabou de me interrogar sobre Maya. Mas foi ela quem criou a regra. Então engulo todas as perguntas.
— Certo.
— Certo? — me olha como se não esperasse que eu aceitasse tão facilmente.
— Você passou.
— E você não vai perguntar?
— Você disse sem insistência.
Ela continua me olhando. Há alguma coisa estranha no rosto dela. Culpa, talvez. Ou alívio.
Não sei. Ainda não sei muitas coisas sobre Bellini. Mas começo a entender seus silêncios.
— Obrigada — ela murmura.
— Não agradece ainda. Vou usar isso para fazer uma pergunta pior. — Dou de ombros.
— Tente. — O canto da boca dela sobe.
Olho para o mar.
Penso no salão.
No meu pai.
Na filha de Valcourt.
Na vida que estava sendo decidida enquanto eu permanecia parado, bonito e obediente, esperando instruções. Depois penso em entrando naquele carro. Dirige. Agora. Talvez aquela tenha sido a primeira ordem da noite que eu realmente quis obedecer.
— Se você acordasse amanhã e ninguém soubesse quem você é... — Começo. — Sem Bellini. Sem seu pai. Sem imprensa. Sem nada. O que faria primeiro?
não responde imediatamente. Ela olha para o horizonte escuro, onde o céu começa, muito lentamente, a perder um pouco do preto.
— Eu iria embora.
— Para onde?
— Não sei.
— Isso parece pouco planejado para você.
— Esse é o ponto. — Ela puxa os joelhos para perto do peito. — Eu entraria num trem sem olhar o destino. Ou num avião. Escolheria alguma cidade onde ninguém soubesse pronunciar meu sobrenome. Alugaria um apartamento pequeno.
— Pequeno?
— Minúsculo.
— Você duraria três dias.
— Cala a boca. — Ela me empurra com o ombro. — Teria uma janela. Talvez uma varanda.
— Muito específico.
— E plantas.
— Você sabe cuidar de plantas?
— Não.
— Então seriam plantas mortas.
— Seriam minhas plantas mortas.
Sorrio.
Ela também.
Mas o sorriso desaparece devagar.
— Eu acordaria quando quisesse. — Continua. — Vestiria coisas que ninguém escolheu. Iria a lugares sem segurança. Compraria pão. Talvez aprendesse a cozinhar alguma coisa além de ovos só para não ter que ouvir você reclamar.
— Eu não reclamei dos ovos.
— Reclamou com os olhos.
— Continue.
— Eu teria amigos que não soubessem quem é meu pai. — Ela respira fundo. A voz muda. Quase nada. Mas muda. — Talvez alguém me conhecesse e não pesquisasse meu nome depois. Talvez eu pudesse contar uma história sobre mim sem precisar explicar primeiro de qual família venho. — Ela olha para as próprias mãos. — Acho que eu queria descobrir se existe alguma coisa em mim que é realmente minha. — Não respondo. Porque qualquer frase parece pequena demais. olha para mim. — E você?
Penso em Roma.
Nos corredores da casa onde cresci.
Nos ternos.
Nos jantares.
Nos homens apertando minha mão desde que eu era criança e dizendo ao meu pai que eu seria importante um dia. Ninguém nunca perguntou se eu queria ser.
— Eu tocaria piano.
— Piano? — Ela pisca. Assinto.
— Eu tocava quando era criança.
— Você nunca falou disso.
— Você me conhece há algumas horas.
— Detalhe. — Sorrio.
— Eu gostava.
— E parou por quê?
— Meu pai achava que eu passava tempo demais praticando. — Olho para minhas mãos.
— E?
— E havia coisas mais importantes para aprender.
Idiomas.
Política.
Economia.
Como entrar numa sala.
Como sair dela.
Como apertar uma mão.
Como mentir sem parecer que estou mentindo.
Como ser Caravaggio.
— Você era bom? — me observa por alguns segundos.
— Muito.
— Convencido.
— Você perguntou.
— E se ninguém soubesse seu sobrenome? — Olho para o mar.
— Talvez eu descobrisse se ainda sou.
Ela não diz nada. Apenas se aproxima. Sem anúncio. Sem provocação. deita a cabeça no meu peito. Meu corpo inteiro fica imóvel. É ridículo. Nós acabamos de transar. Eu conheço o gosto da boca dela. O som da respiração dela quando esquece de controlar. A temperatura da pele dela contra a minha.
E isso...
Isso me assusta.
A cabeça dela sobre meu peito. O peso pequeno do corpo encostado no meu. A mão pousada distraidamente sobre meu estômago. Isso parece íntimo demais. Demoro alguns segundos antes de tocar seu cabelo. Quando faço, não se afasta. Passo os dedos lentamente pelos fios ainda úmidos. Nenhum de nós fala. O mar fala por nós.
E penso em Maya.
Penso no meu pai.
Penso no carro que não é meu estacionado em algum lugar atrás das árvores. Penso em Vittorio Bellini descobrindo quem levou sua filha. Tudo deveria parecer urgente. Não parece. Porque está respirando contra meu peito. E, pela primeira vez na minha vida, ninguém está me pedindo nada. Não preciso representar. Não preciso decidir. Não preciso ser útil. Só preciso ficar. Então fico. Por um tempo que não sei medir. Até falar, a voz baixa e sonolenta:
?
— Hm?
— Uma última pergunta.
— Achei que você nunca fosse parar. — Olho para o céu.
— Você acha que dá para fugir de quem a gente nasceu para ser? — Sinto o sorriso dela contra minha pele.
Minha mão para no cabelo dela. A pergunta fica ali. Entre nós. Maior do que deveria. Olho para o horizonte. A noite ainda existe. Mas já não é tão escura quanto antes.
— Não sei.
É a única resposta honesta que tenho. Ela fica quieta. Então entrelaça os dedos nos meus. Um gesto pequeno. Quase nada. E talvez por isso me destrua. Aperto sua mão.
— Mas acho que vale a pena tentar.
não responde. Só fica. E eu fico também. O problema é que, em algum momento entre o carro, o mercadinho, o mar e agora, eu parei de querer apenas mais algumas horas. Quero amanhã. O pensamento aparece tão simples que quase não percebo. Amanhã.
Quero acordar e descobrir que ela ainda está aqui. Quero perguntar mais coisas inúteis.
Quero descobrir qual café ruim ela prefere. Quero ouvi-la insultar golfinhos outra vez.
Quero vê-la tentar manter vivas as plantas daquele apartamento imaginário.
Quero ouvi-la tocar na ferida de tudo que eu poderia ter sido e, talvez, descobrir quem ainda posso ser.
Depois quero o dia seguinte. E o outro. E é aí que finalmente sinto medo. Porque conheço Bellini há algumas horas. Algumas horas. E já estou desejando tempo. Tempo é a única coisa que pessoas como nós nunca possuem. O céu começa a clarear muito longe, quase imperceptível. Ainda não é manhã. Mas vai ser. Olho para . Os olhos dela estão fechados. A mão continua presa à minha. E penso que meu pai passou a vida inteira me ensinando a reconhecer uma ameaça antes que ela se aproximasse. Como prever movimentos. Como calcular riscos. Como nunca permitir que alguma coisa importante demais caísse nas mãos erradas. Alessandro ficaria decepcionado.
Porque a maior ameaça que já encontrei está deitada sobre meu peito. E eu não quero fugir dela. Quero ficar. Talvez seja assim que uma traição realmente comece. Não quando você escolhe o outro lado. Mas quando, pela primeira vez, percebe que existe um.

Parte Final

COSTA DE CANNES, 05H DA MANHÃ

Bellini

Acordo com motores. Não com o mar. Não com o vento. Não com respirando perto de mim. Motores. Muitos. Por um segundo, meu corpo ainda não entende.
Estou quente apesar do frio da madrugada, com a cabeça apoiada no peito de e uma das pernas presa entre as dele. A camisa branca que roubei horas atrás está torta sobre meu corpo, cheirando a sal, areia e ele.
O céu já não é preto. Existe uma linha cor-de-rosa muito fina no horizonte. Bonita. Quase ofensiva. Então ouço de novo. Pneus sobre cascalho. Portas. Vozes. Meu coração para.
. — Ele não se mexe. Ergo a cabeça. — . — Nada. Bato no peito dele. — !
— O quê? — Ele desperta num susto.
— Levanta.
...
— Levanta agora.
Alguma coisa na minha voz termina de acordá-lo. Ele se senta, confuso, o cabelo cheio de areia, os olhos ainda pesados de sono. Então escuta. O rosto muda. O garoto desaparece primeiro. Caravaggio volta em seguida. Ele se levanta. Eu também. Corremos os olhos pela praia como se ainda existisse alguma possibilidade de fuga.
Não existe. Vejo os primeiros faróis entre os ciprestes. Depois outros. Meu estômago despenca.
— Merda.
olha para o outro lado. Mais luzes. Mais carros. Por alguns segundos, nenhum de nós fala. É quase engraçado. Passamos a noite inteira escapando de homens treinados para encontrar pessoas. E eles finalmente aprenderam.
— São os seus? — pergunta.
Reconheço os carros pretos antes mesmo que parem.
— De um lado.
Ele olha para o outro acesso. Dois veículos surgem quase ao mesmo tempo. O maxilar dele trava.
— Os meus.
Solto uma risada. Não porque tenha graça. Porque é isso ou gritar.
— Claro.
...
— Claro que eles fariam isso.
— Fazer o quê?
— Uma operação militar conjunta para buscar dois filhos adultos numa praia. — Abro os braços.
— Tecnicamente, roubamos um carro.
— Não ajuda.
As primeiras portas se abrem. Homens descem. Conheço alguns. Marco. Dimitri. Dois agentes que meu pai usa quando quer fingir que não está preocupado. Do outro lado, homens de Alessandro avançam pela areia. Não estão correndo ainda. Mas vão.
olha para trás. Para o mar. Eu sei exatamente o que ele está pensando. Porque penso também. Mais uma vez. Correr. Não importa para onde. Entrar na água. Subir as pedras. Encontrar outra estrada. Roubar outro carro.
Desaparecer.
Por mais uma hora. Mais dez minutos. Mais cinco. Qualquer coisa.
— A gente pode... — Ele começa.
— Não.
A palavra sai antes que eu queira.
— Não? — me encara.
Olho para os homens se aproximando. Depois para ele.
— Acabou.
Dizer dói mais do que deveria. Alguma coisa muda no rosto dele. Pequena. Quase invisível. Mas eu vejo. Passei poucas horas aprendendo sobre Caravaggio e já sei reconhecer quando ele está tentando não demonstrar alguma coisa.
— Não precisa acabar — ele diz.
Meu peito aperta. Precisa. Ele só não sabe ainda.
! — A voz vem de longe. Um dos meus seguranças. Não respondo.
— Senhor Caravaggio! — Outra voz. também ignora.
Por alguns segundos, ficamos parados no meio da praia, enquanto dois mundos inteiros avançam para nos buscar. Olho para ele. De verdade. E tudo volta. O terno marfim. A primeira vez que nossos olhos se encontraram do outro lado daquele salão.
Dirige. Agora.
O carro. O telefone do Alessandro na minha mão. A cara de quando desliguei na cara do pai dele. O mirante. A camisa.
.
.
O mercadinho.
A vodca horrível.
Golfinhos.
A risada dele.
As perguntas.
A primeira vez que alguém quis saber coisas sobre mim que não poderiam ser colocadas numa matéria.
O primeiro beijo.
O segundo.
O mar.
A areia.
As mãos dele nas minhas.
Piano.
Plantas mortas.
Uma vida imaginária em algum lugar onde ninguém soubesse nossos sobrenomes.
Tudo cabe em algumas horas.
É injusto. Uma vida inteira pode passar sem nada acontecer. E então uma única noite pode acontecer inteira.
— Ei. — A voz dele me traz de volta. está me olhando.
Há medo ali agora. Não dos homens. Não dos nossos pais. De mim. Como se estivesse esperando que eu desapareça primeiro. Dou um passo. Ele também. E não precisamos decidir. Talvez seja a única coisa naquela noite que não exige decisão. Eu seguro o rosto dele. me puxa pela cintura. E nos beijamos.
Não como antes.
Não é a urgência do mercadinho.
Nem o desejo dentro do mar.
Não é descoberta. É despedida. E eu odeio isso. Odeio o gosto de sal. Odeio o sol começando a nascer. Odeio os motores. Odeio Cannes. Odeio nossos pais. Odeio meu sobrenome. Odeio o dele. Odeio o fato de que, por algumas horas, descobri exatamente como poderia ser a minha vida se ela me pertencesse.
E agora alguém veio buscá-la de volta. Beijo com tudo que não posso dizer. Eu queria mais. A mão dele sobe até meu rosto. Eu também. Eu queria amanhã. Os dedos dele se prendem ao meu cabelo. Eu queria todos. Uma mão agarra meu braço. Sou arrancada para trás.
— Não! — O grito sai de mim antes que eu perceba. tenta me alcançar.
— Solta ela! — Outro homem segura seus ombros.
— Senhor Caravaggio, por favor.
— Tira a mão de mim!
Nunca o ouvi falar assim. Dois seguranças o puxam para trás, enquanto Marco me segura pela cintura.
— Me solta! — Eu chuto.
— Senhorita Bellini...
— Eu mandei me soltar!
! — A voz paralisa todo mundo. Meu pai.
Vittorio Bellini está alguns metros atrás dos homens. E, por um segundo, eu não o reconheço. Não porque esteja diferente. Porque nunca o vi assim. A gravata está torta. O primeiro botão da camisa, aberto. O cabelo, que normalmente parece incapaz de desobedecer, está fora do lugar. Mas são os olhos. Meu pai parece cansado.
Não.
Assustado.
Ele olha para mim como se precisasse contar braços, pernas, cabeça. Como se estivesse confirmando que estou inteira. Do outro lado da praia, Alessandro Caravaggio aparece. E ele está quase igual. Sem paletó. Camisa amassada. O rosto pálido de quem passou horas imaginando possibilidades que homens como eles jamais admitem imaginar.
Alessandro olha para . Depois para mim. Depois outra vez para o filho.
— Você está bem? — parece tão surpreso quanto eu.
Talvez porque esperasse outra pergunta.
O que você fez?
Você sabe o tamanho do escândalo?
Você enlouqueceu?
Mas não.
Você está bem?
— Estou. — A voz dele sai rouca. Alessandro fecha os olhos por um instante.
Só um. Quando abre, já parece um pouco mais com o homem que conhecemos.
— Você está ferida? — Meu pai chega até mim.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Os olhos dele descem pela minha roupa. Pela camisa masculina. Pelos pés descalços. Pelo cabelo. Pela areia grudada nas minhas pernas. Não preciso olhar para saber o que ele entendeu. A preocupação dá lugar a outra coisa. Não raiva. Pior.
Constrangimento.
Vittorio olha para Alessandro. Alessandro olha para ele. Depois os dois olham para nós. O silêncio que se forma é tão absurdo que, em qualquer outra situação, eu riria. Meu pai limpa a garganta.
— Caravaggio.
— Bellini.
É a primeira vez que os vejo dizer os nomes um do outro sem veneno. Talvez estejam cansados demais para odiar direito.
— Isso… — Vittorio passa a mão pelo rosto.
— Não. — Alessandro levanta uma mão.
— Concordo. — Meu pai olha para ele.
— Não aconteceu.
— Absolutamente nada aconteceu.
me olha. Eu mordo a parte interna da bochecha.
— Nenhum de nós comenta isso. — Alessandro continua.
— Nunca — meu pai completa.
— Com ninguém.
— Especialmente com a imprensa.
— Obviamente.
Os dois ficam em silêncio. Vittorio ajeita a própria camisa. Alessandro olha para o horizonte. É quase fascinante. Dois homens que provavelmente conseguiriam discutir durante seis horas sobre uma vírgula num tratado internacional acabam de construir o acordo diplomático mais eficiente da história em aproximadamente vinte segundos.
— Então estamos de acordo — Alessandro diz.
— Pela primeira e última vez — meu pai responde.
solta um som estranho. Quase uma risada. Eu olho para ele. Erro. Porque ele está olhando para mim. E tudo volta a doer.
— Levem-no — Alessandro ordena.
— Vamos. — Meu pai faz um gesto.
Marco solta meu braço, mas permanece perto. Dou um passo. Depois outro. Na direção do carro. Cada um parece errado. Atrás de mim, ouço sendo levado para o lado oposto. Não olho. Se olhar, não vou.
Dou mais dois passos.
Três.
Quatro.
Não consigo.
Paro.
Meu pai percebe.
.
Viro. está fazendo exatamente a mesma coisa. Parado. O segurança fala alguma coisa para ele. Ele não escuta. Eu também não. Então corremos.
! — Meu pai.
! — Alessandro.
Não importa. Corro descalça pela areia. Ele vem na minha direção. E, por um segundo, estamos fugindo outra vez. Não para algum lugar. Um para o outro. me alcança no meio do caminho. Seus braços me envolvem e eu seguro seu rosto e o beijo. De novo. Uma última vez. De verdade.
O tipo de beijo que não pede permissão ao futuro porque sabe que não vai existir nele. Quando nos afastamos, mantém a testa contra a minha. Ele está sorrindo.
Triste.
Bonito.
Meu peito parece pequeno demais para tudo que está acontecendo dentro dele.
— Acho que quebramos todas as regras possíveis em uma noite — ele murmura.
Uma risada escapa de mim. Molhada. Quase um choro.
— Não todas.
— Tem alguma sobrando?
Olho para ele. Então lembro. A música tocando alto demais no carro. A Riviera desaparecendo pelas janelas. Nós dois cantando um refrão que parecia apenas engraçado algumas horas atrás.
Traidores.
A palavra me atravessa. Porque é isso que eu sou. Traí meu pai. Minha família. O homem que me espera. Traí uma promessa que fiz antes mesmo de saber meu nome. E, pior de tudo, traí a mim mesma ao fingir por algumas horas que poderia existir uma escolha. Passo o polegar pela boca dele.
— Traidores, como nós, nunca vencem.
Por um segundo, ele apenas me encara. Então entende. A música. A fuga. O carro. O sorriso aparece devagar.
— Você lembrou.
— Eu lembro de tudo.
A resposta apaga um pouco o sorriso dele. abre a boca.
, eu...
Sei o que vem. Ou talvez não saiba. Mas sei que não posso ouvir. Porque se disser qualquer coisa que pareça com fica...
Eu fico.
Se ele disser vamos...
Eu vou.
Se ele me pedir mais uma hora, entrego o resto da minha vida. Então encosto dois dedos sobre seus lábios. Ele para. Meus olhos queimam. Não.
Agora não.
Não vou chorar.
Passei a vida inteira aprendendo a sorrir quando alguma coisa dentro de mim estava quebrando. Posso fazer isso mais uma vez.
— E, além disso... — Minha voz falha. Engulo. Tento outra vez. — Eu me caso hoje.
não se mexe. Nada acontece. E acontece tudo. O sorriso desaparece primeiro. Depois o calor dos olhos. A mão que ainda estava na minha cintura afrouxa. Devagar. Como se o corpo dele entendesse antes da cabeça.
— O quê?
Uma palavra. Quase sem voz. Não consigo responder imediatamente. Porque agora está ali. A traição. Nos olhos dele. Não raiva. Eu queria que fosse raiva. Raiva eu saberia enfrentar. É outra coisa. É o momento exato em que alguém percebe que a história que viveu não era a história inteira.
— Eu...
Não existe frase que conserte.
Eu ia contar.
Mentira.
Eu não tive oportunidade.
Mentira.
Tivemos horas.
Perguntas.
Silêncios.
Ele me contou sobre Maya.
Eu passei.
Ele respeitou.
E eu deixei.
— Hoje? — pergunta. Assinto.
Os olhos dele ficam brilhantes. Só um pouco. O suficiente. Meu peito se parte. Porque eu também fui traída. Não por . Talvez nem pelo homem com quem vou me casar. Pela vida. Passei anos aceitando que amor era uma palavra superestimada por pessoas que tinham liberdade demais.
Uma inconveniência. Uma história bonita para quem podia escolher. E então conheço Caravaggio. E o universo tem a crueldade de me mostrar, em menos de vinte e quatro horas, exatamente aquilo que passei a vida inteira acreditando que não precisava.
Só para arrancar de mim antes do amanhecer. É injusto. Tão absurdamente injusto que quase quero rir. Conheci o amor e perdi no mesmo dia. Talvez em horas. Talvez isso nem seja amor. Talvez seja pior. Porque agora sei que poderia ser.
...
— Não. — Tiro os dedos dos lábios dele. Não posso continuar tocando.
— Eu não sabia. — Ele fecha os olhos.
— Eu sei.
— Você devia ter me contado. — Assinto.
A frase não vem cruel. Isso torna pior.
— Eu sei.
olha para mim por mais um segundo. E eu vejo todas as perguntas que ele não faz.
Você o ama?
Você quer casar?
Por que fugiu?
Por que eu?
Por que deixou isso acontecer?
Não sei qual delas destruiria mais. Atrás de nós, meu pai chama meu nome. Dessa vez, não grita.
.
Acabou. De verdade. Dou um passo para trás. A mão de tenta encontrar a minha por reflexo. Nossos dedos se tocam. Escapam.
— Adeus, Caravaggio. — Ele me encara.
Há alguma coisa quebrada no sorriso que tenta dar.
— Adeus, Bellini. — Viro antes que ele veja a primeira lágrima.
Caminho. Não corro dessa vez. Talvez porque finalmente tenha entendido que não existe mais para onde fugir. Meu pai espera ao lado do carro. Não diz nada quando me aproximo. Nem quando entro. A porta fecha. O som é definitivo demais. Vittorio entra do outro lado.
— Você tem ideia do que… — Não escuto. Ele continua falando.
Alguma coisa sobre irresponsabilidade. Segurança. Imprensa. O casamento. O horário. Minha mãe. As pessoas esperando. Consequências. Palavras. Sempre tantas palavras.
Olho pela janela. Do outro lado da praia, está sendo colocado no carro de Alessandro. Ele para antes de entrar. Olha para trás. Para mim. Não sei se consegue me ver através do vidro. Mas fico olhando mesmo assim. Ele entra. As portas fecham. Os motores ligam.
Por alguns segundos, os carros permanecem parados, apontados para direções opostas. Perfeito. Caravaggio para um lado. Bellini para o outro. Como sempre deveria ter sido. O carro começa a andar. O dele também. Meu coração bate forte. Inclino o corpo discretamente, tentando manter no campo de visão pelo vidro traseiro. O carro preto vai ficando menor. Mais distante.
Então vejo movimento. se vira no banco. Olha para trás. E leva a mão à boca. Meu coração para. Ele manda um beijo.
Idiota.
Um beijo pelo vidro traseiro enquanto nossas famílias nos arrastam em direções opostas depois de termos destruído tudo em uma única noite. A coisa mais ridícula que alguém poderia fazer. A coisa mais que alguém poderia fazer. Sinto minha boca se curvar.
Pequeno.
Involuntário.
Um sorriso.
Viro para frente antes que ele desapareça completamente. Meu pai continua falando. Não ouço uma palavra. Encosto a cabeça no banco e fecho os olhos. Ainda sinto sal na boca. Areia na pele. Os dedos dele entre os meus. E, apesar de tudo que me espera quando o sol terminar de nascer... eu sorrio. Porque existe uma última coisa que nenhum deles sabe.
Caravaggio me ama.
E Bellini ama .
TRAIDORES, NUNCA VENCEM
FIM
Nota da autora
Olá, pessoal! Quero agradecer a todo mundo que acompanhou essa história até aqui. Devo agradecer também à diva Taylor por compor tão lindamente e permitir que a arte dela nos atinja de tal forma que uma história como essa possa surgir.
Traidores, Nunca Vencem nasceu de uma música, de uma ideia de fuga e daquela vontade muito específica de escrever sobre duas pessoas que, por algumas horas, pudessem simplesmente esquecer quem deveriam ser.
E, no fim, acho que foi exatamente nisso que essa história se transformou.
Confesso que escrever o final partiu um pouquinho meu coração, porque uma parte de mim queria deixá-los naquela praia para sempre. Sem Caravaggio. Sem Bellini. Sem casamento. Sem pais esperando do outro lado do amanhecer.
Mas toda fuga precisa terminar. Ainda assim, não acho que aquela noite tenha sido em vão.
Obrigada por fugirem pela Riviera com eles e comigo.
E lembrem-se: traidores, como nós, nunca vencem.

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