Remus Lupin não estava tendo um bom dia.
Primeiro, desde o momento em que acordara, já começara a sentir os sintomas de uma lua cheia se aproximando. Era quarta feira e a transformação seria apenas sábado, mas ele podia sentir a irritação em sua pele, seus sentidos aguçados e uma constante dor de cabeça que ele, com onze anos como licantropo, havia aprendido a conviver, mas nunca parecia ser menos intensa.
E tudo aquilo levava a um segundo problema.
Remus possuía uma enorme dificuldade de fazer amigos e confiar nas pessoas. Passara a vida inteira sendo um fardo aos pais e, agora, por algum motivo desconhecido, Dumbledore e seus amigos haviam tomado esse papel voluntariamente. Porém, no fundo, Lupin sabia que ele era um incômodo. Nunca poderia ser grato o suficiente a essas pessoas porque sabia que nunca encontraria pessoas mais leais, todavia, mesmo assim, às vezes uma súbita vontade de fugir e desaparecer se instalava em seu peito. Assim, nunca mais ia ferir nem incomodar ninguém.
No entanto, ele ainda era egoísta, já que sentiria falta demais dos amigos para tomar qualquer atitude. Remus tinha uma nova família e faria de tudo para mantê-la.
Apesar de ter os melhores amigos que qualquer um poderia sequer sonhar, contudo, ele tinha consciência de que eram seus únicos amigos. Ele tinha um grande medo de se envolver com qualquer um e o arrastar para seus problemas, além de ser difícil saber que tipo de pessoa ele poderia ou não confiar. Por isso, desde que chegara a Hogwarts, fora parte dos marotos e aquilo era mais do que suficiente.
Até o dia em que chegara.
O garoto ainda não sabia explicar o que era tudo aquilo que sentia, mas, desde o momento no vagão em que a conhecera, ela fora a primeira pessoa além dos garotos (e Lily, claro, mas ela já era uma parte dos marotos) com quem ele sentira qualquer mínimo conforto por perto. O que era completamente estranho, pois ele tinha todos os motivos para não confiar nela.
Ela dissera que seu sobrenome era Picquery, quando na verdade ela era uma Black. Prima de seu melhor amigo, pertencente a uma família nada confiável. Depois, fora selecionada para a Sonserina e um grifinório não tendia a confiar nos sonserinos. E não sem motivo: os últimos bruxos das trevas estavam vindo de lá.
Mas, mesmo assim, Lupin não conseguira se conter. Ela tinha um magnetismo próprio que o intrigava e parecia o chamar para mais perto. Nos momentos mais improváveis, ele se vira conversando com ela e tentando de toda forma prolongar aquilo. Pela primeira vez em anos, ele sentira vontade de estar com alguém que não fosse seus amigos.
Porém, como tudo na sua vida, aquilo não poderia dar certo. Mas ele queria que desse, por Merlim, ela até mesmo flertara com ele na biblioteca! Ela estava há duas semanas na escola e eles já haviam passado por situações bem curiosas, mas de longe aquele momento havia sido o melhor de todos.
Isso é, antes de ele estragar tudo.
Por que a maldita reunião do clubinho do Slug tinha que ser naquele sábado? Naquela lua cheia?
Ele nem pudera dar uma desculpa decente. O que diria? Que era um lobisomem? Podia estar confiando nela, mas não era estúpido. Por isso, o que quer que fosse que eles poderiam estar criando, havia morrido ali. A maneira que ela havia saído deixava aquilo muito claro.
E aquilo era só mais uma vez a vida lhe mostrando que, não importava o quanto ele tentasse ser normal, ele nunca seria. E sempre acabaria afastando as pessoas.
Naquele café da manhã, havia recebido todo tipo possível de conselho dos amigos:
— Você quer que a gente invente alguma desculpa pra ela? Aí ela passa a odiar a gente e não você — Pontas falou.
— Valeu, mas não. Ia só virar uma rede de mentiras.
— É uma pena, Remus, mas com certeza vão existir outras garotas. Você é um cara incrível — Lily o consolou, sempre gentil.
— E uma delas vai achar que ter um problema peludo é algo charmoso. — James o cutucou, o animando.
— E sua namorada gosta da sua galhada, Pontas? — Sirius provocou, deixando uma careta na cara do primeiro.
— É charmoso. — Lily riu.
— Pelo menos ele não cheira a cachorro molhado — Peter disse, levando um tapa amigável de Black.
— Mas é sério. Eu não vou com a cara dela, então acho que foi melhor pra você — Almofadinhas colocou, sua testa se franzindo. — Não que isso importe. O que importa é que a gente tá aqui.
E eles estavam mesmo. Apesar de tudo, Remus não podia deixar de se sentir sortudo por conhecer aquelas pessoas. Por que tivera tanta sorte?
Mas sua sorte era limitada. Ele conseguia ver os olhares mortais que atravessavam o Salão Principal em sua direção. Os olhos escuros de estavam fixos nele com puro ódio. Ele sabia que tinha que deixar aquilo para lá. Deixar para lá. Mas até isso sua maldita licantropia conseguia atrapalhar.
Como deixá-la para lá se estava sempre tão consciente da sua presença? Seu maldito olfato apurado havia fixado o cheiro dela. Aquele maldito cheiro fresco de peônias que o distraía sempre que ele conseguia focar na aula. Em certo ponto, ele simplesmente desistiu e se deixou viajar com aquele cheiro. Por mais que não pudesse encará-la, pensou que poderia ao menos sentir um pouco da sua presença.
E também podia ouvi-la. O maldito som da respiração saindo por seus lábios com certeza o enlouqueceria a qualquer minuto.
Quando as aulas finalmente acabaram, Remus fez o que fazia de melhor: fugiu. Ele sentiu o cheiro de peônias se afastar e respirou aliviado por ter sua mente no controle novamente. Se escondeu em seu terceiro refúgio naquela escola.
O primeiro era o dormitório com os amigos, mas ele estava precisando de um pouco de tempo. O segundo era uma forma de escapar em sua forma mais literal possível: o local apelidado como Casa dos Gritos, embora ninguém além dos marotos soubessem que aqueles gritos infelizmente eram seus. E o terceiro era a biblioteca. O cheiro dos livros, assim como o barulho unicamente das penas riscando o papel, eram perfeitos para alguém que estava com o corpo inteiro sensível demais. Além disso, Lupin precisava urgentemente colocar em dia tudo o que perdera nas aulas por causa das distrações.
Ele quase riu da ironia da situação. A lua cheia estava se aproximando, e ele só pensava em uma garota que ele mal conhecia. Quem diria que ela conseguiria se sobrepor a todos os desconfortos de seu corpo, deixando sua mente tão agitada e culpada.
Perdido naqueles pensamentos, o garoto passou todo o seu final de tarde ali, apenas ele, os livros e o barulho da pena no pergaminho. Só parou quando sentiu seu estômago roncar. Aquela era outra coisa ruim de ser lobisomem. Um adolescente no geral já possuía um apetite enorme, agora pense num adolescente com licantropia, especialmente quando se evita a dieta que um lobisomem geralmente tem. Seu estômago roncou novamente, mas Lupin não sentiu nenhuma animação em ir jantar. Por sorte, ser parte dos marotos tinha muitas vantagens.
Quando saiu da biblioteca, ao invés de seguir o fluxo que se dirigia ao Salão Principal, ele desceu até as masmorras. Quando alcançou a pintura com uma taça de frutas, Remus parou e fez cócegas na pera. Qualquer um poderia achar aquilo uma completa loucura, mas, o que poucos sabiam, é que aquela era a entrada para a cozinha de Hogwarts.
A pera se transformou em uma maçaneta verde, finalmente revelando a passagem, e logo ele estava dentro do ambiente. Diversos elfos domésticos de uniforme iam de um lado para o outro nas bancadas, arrumando as comidas que magicamente apareceriam no Salão Principal. Na hora em que o notaram, começaram a fazer reverências.
— Senhor, como podemos ajudá-lo? — um deles disse.
Remus sempre sentia a ironia da situação. Aquelas pobres criaturas sempre o trataram com imensa dignidade, mas mal sabiam que, em questões de direitos e tratamento dos bruxos, eles não estavam nem um pouco distantes uns dos outros. Por isso, ele sempre tentava ser gentil.
— Boa noite — ele disse para todos. — Não quero de forma alguma atrapalhar vocês, mas, se não for incômodo, eu poderia comer alguma coisa aqui? Não estou me sentindo muito bem para subir.
Então, Lupin começou a receber o tratamento de um rei. Bolinhos de carne lhe eram estendidos, assim como copos com suco de abóbora, sobremesas variadas e muito mais. Seu estômago, que tanto roncava, foi logo se enchendo com diversas comidas diferentes, frescas e deliciosas. Aquele era um dos melhores lugares que os marotos poderiam ter descoberto.
Depois de agradecer imensamente aos elfos e ter sido pressionado a levar diversas tortinhas doces nos bolsos, Remus se despediu e deixou o local.
Quando estava saindo da cozinha, no entanto, ouviu passos e se esgueirou mais no corredor, de forma a não ser visto. Não queria se meter em confusão por não ter aparecido no jantar e nem revelar aquele local secreto. Observando silenciosamente, percebeu uma figura familiar se aproximar com um andar esquisito. No momento em que a pessoa se aproximou mais de uma das tochas do corredor, Lupin teve que segurar um arquejo surpreso.
Era Regulus Black com o rosto todo marcado de machucados. O olho estava inchado, o nariz e os lábios sangravam, suas mãos estavam vermelhas e, estranhamente, uma lágrima silenciosa escorria de seu olho bom. Remus ficou ali quieto, esperando e olhando até Black sumir no corredor, provavelmente indo para o dormitório da Sonserina.
Regulus era um garoto complicado. Lupin notara isso desde que o menino entrara em Hogwarts, um ano depois dele, já sendo colocado na Sonserina, arrumando problemas com Sirius ou perto deles, começando a andar com os meninos que todos os alunos já sabiam que tinham ligação com Você-Sabe-Quem. Porém, alguma coisa no jeito que ele andava mostrava que ele não tinha arrumado problema com nenhum garoto problemático da própria casa.
Não, aquilo cheirava a Sirius. Literalmente, já que ele conseguia registrar leves traços do cheiro do amigo vindo do garoto. E outro cheiro nada promissor.
Antes que desse por si, Remus estava correndo, farejando Sirius. Colocou-se no modo automático, animal, predatório. Abstraiu os caminhos solitários que percorriam, tendo em mente apenas o amigo como foco. Quando deu por si, estava de frente para o quadro da Mulher Gorda.
Piscou rapidamente até sair daquele estado e retornar ao seu senso humano.
— Boa noite, Mulher Gorda. Mandrágora — ele disse, ansioso.
— Boa noite, querido — ela respondeu, sorridente, enquanto o quadro se movia, liberando passagem para ele. — Se puder, avise seu amigo que, na próxima vez, eu não vou encobri-lo.
— Encobri-lo? — Remus indagou, confuso, mas o quadro já havia se fechado, o deixando sozinho no salão comunal da Grifinória. Com aquela pequena confusão da fala da Mulher Gorda, ele perdeu o foco de seu faro e passou a sentir o cheiro de tudo novamente, não mais do amigo.
E então ele percebeu. Peônias.
O mesmo cheiro que ele achava que tinha sentido em Regulus.
Mais uma vez, seu instinto o moveu e ele subiu desesperado para seu dormitório, sentindo o cheiro cada vez mais forte. Ele sentiu a irritação, a confusão e muitos outros sentimentos surgirem em seu corpo.
Abriu a porta com mais força do que devia e percebeu Sirius sentado em uma poltrona, as mãos cobertas com uma substância gosmenta que eles tinham de reserva no quarto para caso um deles se machucasse (principalmente, Remus). Porém, o mais chocante naquela cena era a garota com o uniforme da Sonserina, que se sobressaltou, olhando para ele. Da cama de Sirius.
— O que ela tá fazendo aqui?
Remus queria socar alguma coisa. Por que ela estava na cama de Sirius? Eles não eram primos? Bom, os pais do amigo também eram. Mas ele não dissera que não a suportava? O que ela estava fazendo ali, tão próxima de onde ele dormia? Aquele foi outro pensamento que teve que abstrair, já sentindo uma leve agitação percorrer seu corpo.
Finalmente, Almofadinhas se pronunciou:
— , fique deitada, você não tá em condições de levantar. — E lançou um olhar sério para o amigo. — Aluado, vem comigo.
Remus não queria sair. Não queria deixar aquele cômodo, nem aquela garota. E como assim ela não estava em condições de sair? Ele sentia que estava perdendo algum detalhe importante naquela cena.
Então, olhando de leve para a garota, que o encarava de forma que parecia prestes a esmagá-lo, percebeu que ela tentava ajeitar o cabelo e cobrir o pescoço que estava cheio de hematomas.
Lupin congelou, sem saber exatamente o que sentia.
— Que merda...?
— Lá fora. — Sirius, que já havia se levantado, o puxou, fechando a porta do dormitório atrás de ambos.
Tudo ali cheirava, literalmente, a Regulus, Sirius e . Além disso, ele também conseguia captar algumas emoções: raiva, medo, ódio, dor. Aquilo estava tirando-o do sério e, somado às suas constantes dores de cabeça, dores no corpo e fácil irritabilidade, ele simplesmente precisava entender tudo aquilo ou poderia acabar tendo um colapso.
— Desembucha — ele disse para Sirius, antes mesmo de terminarem de descer as escadas do dormitório.
— É melhor você se sentar primeiro. — Almofadinhas apontou a poltrona, mas aquilo só fez Remus ficar mais ansioso. Porém, para agilizar aquela conversa, ele se sentou em um assento oposto ao que Sirius estava.
— Então? — Aluado colocou, ansioso. Não aguentava aquele suspense.
— Por onde começar? Bom, eu estava saindo das masmorras depois de ter, han, encontrado Margaret Diggory. Eu ia jantar quando... — Os punhos de Sirius se fecharam, o que fez o corpo de Remus inteiro se resetar. Ele esperou o amigo continuar. — Se você visse aquilo, Aluado... Foi quase como se o universo quisesse me fazer pagar com a língua. Eu jurava que ela era uma mentirosa, amiguinha do Regulus, ou coisa muito pior, e...
— Almofadinhas, se você não me contar logo, eu vou acabar destruindo essa almofada. — Lupin apontou para o objeto acolchoado que apertava com mais força do que deveria.
— É melhor você largar a almofada antes que eu continue — Sirius disse, e sua voz estava tão séria quanto no dia em que oficialmente saíra de casa. Aquilo fez seu corpo tenso quase explodir, mas Remus largou a almofada. — Melhor. Bom, vamos lá. — Sirius suspirou. — Eu vi a garota largada no corredor, inconsciente. E, na frente dela, o maldito do meu irmão. — O ódio que fora cuspido naquela frase era intenso. — A mão de merda dele encaixava em cada machucado no corpo dela. Não foi difícil deduzir. Porra, Aluado, ele a enforcou até ela quase... E ainda ficou encarando, parado ali como se não fosse nada!
Lupin se levantou imediatamente, a raiva animalesca se transformando dentro de si. Sempre fora uma pessoa muito controlada e tinha muito orgulho daquilo, mas não havia quem pudesse receber aquela notícia e ficar bem. Ainda mais que, de acordo com a história de Sirius, se aquilo se passara perto das masmorras, Remus teria chegado pouco depois de todo o incidente, por pouco não tendo encontrado Regulus e ele mesmo.
Aquilo o lembrou de outro ponto.
— Mas a história não acabou aí, acabou? — Lupin indicou nada discretamente a mão de Almofadinhas ainda com a substância gosmenta.
Sirius nem tentou esconder a mão do amigo, simplesmente dando de ombro.
— Ela não quis contar pra ninguém, mas ele não podia sair impune. Você não vai me dizer que eu não deveria fazer nada, né?
Remus olhou para a própria mão retesada e soube que não podia discordar. Talvez, com a irritação do corpo no nível em que estava, ele mesmo poderia ter feito pior. Como teria sido se ele encontrasse e não Sirius?
— Quero vê-la — Lupin disse, subitamente.
— Cara, quem sou eu pra falar alguma coisa, mas não acha que é melhor dar um tempo pra ela? Ela já passou por coisa demais em muito pouco tempo.
— Você... tá certo — Remus relutantemente concordou, querendo qualquer motivo que pudesse justificar o contrário. — E ela... contou por que Regulus fez isso? — ele indagou, tentando controlar a raiva.
Sirius se mexeu desconfortavelmente na poltrona.
— Ahn... Não exatamente. Briga de família?
— Você é um péssimo mentiroso, Almofadinhas.
Sirius bufou, olhando para a mão machucada.
— Parece que ele provocou , ela retribuiu, ele ficou puto e deu nisso.
— Isso parece muito raso — Remus retrucou.
— Cara, eu não sei muita coisa. E também é uma parada pessoal, né? Não quis me intrometer muito. Ela... mal tava conseguindo falar.
Lupin subitamente se sentiu mal com aquele interrogatório. Ele estava sendo paranoico, enquanto estava mal a poucos metros de distância dele, mas não conseguia evitar as diversas cenas que percorriam sua cabeça, especialmente as piores cenas. Se ele soubesse o que Regulus havia feito quando o encontrou...
Ele não teria se controlado. E aquilo era preocupante.
Remus olhou de relance para Sirius e percebeu que o amigo parecia mais abalado do que estava se deixando demonstrar. O que era óbvio, já que não deveria ter sido fácil para ele encontrar o próprio irmão e brigar com ele.
De novo.
— Como você tá, Almofadinhas? — Lupin se viu dizendo.
Sirius mostrou um sorriso debochado que poderia convencer qualquer um. Qualquer um, menos um dos seus melhores amigos.
— Um dia com a mão enfiada no rosto daquele merdinha nunca é um dia perdido. Ainda mais quando termina com uma garota bonita na minha cama. — Naquela parte, Remus fechou a cara. — É brincadeira!
— Sei... — Lupin fingiu rir, mas aquele comentário o incomodou mais do que gostaria. Porém, aquilo não importava no momento, apenas como seu amigo estava. — Agora, vai me falar a verdade?
Sirius bufou, mas logo sua pose irritada se desfez em um suspiro.
— Eu o odeio tanto. Ele puxou tudo de pior dos meus pais, ou ao menos tenta mostrar que sim. Mas eu pude ver, enquanto eu metia um soco no olho dele, que ele estava confuso. Ele nem revidou, Aluado, e isso só me deu mais raiva. Porque, no final do dia, ele ainda é meu irmão.
Remus sabia que o amigo estava mal. Por mais que conviver com sua família fosse difícil por causa da licantropia, ao menos sua relação não era nociva como a da família Black. Lupin não tinha sido o único a ser salvo ao entrar naquela escola e conhecer os seus amigos.
— Sirius... Você todo dia mostra para ele que ele pode ser diferente simplesmente por existir. Você dá uma saída, mas não pode forçá-lo a te seguir. Regulus é seu irmão de sangue, mas ele não é sua família. Nós somos a sua família.
Black olhou para o lado e deu uma risadinha.
— Você é sempre bom com as palavras assim, Aluado, ou é a lua cheia que tá te inspirando?
— É a sua presença, Almofadinhas, a sua presença — Remus debochou, porque sabia que o amigo na verdade estava tentando mudar de assunto e tirar o foco de seu rosto que, por mais que Lupin não visse, sabia que o amigo tentava esconder suas lágrimas, tão parecidas com a que o outro irmão Black derramara.
Depois dessa mudança de foco, Sirius voltou a encará-lo, os olhos já secos e sem traços de qualquer choro.
— Cara... Só tem uma coisa que eu preciso te falar. Sobre a .
— O que é? — Lupin indagou imediatamente. Um pequeno incômodo se fez no seu peito e o sentimento de ciúme que sentira ao vê-la na cama do amigo voltara.
“Para. Ela não é nem sua amiga nem nada para sentir qualquer coisa. E Almofadinhas só estava a ajudando”, Remus se repreendeu mentalmente.
— Bom — Sirius começou, deixando o amigo apreensivo —, eu posso ter, impulsivamente, convidado ela pra ir ao jantar comigo do clube do Slug.
— Você o quê?! — Antes que desse conta, Lupin já estava em pé, alcançando o amigo.
— Como amigos! Quer dizer, primos! Ou sei lá o que a gente é, mas nada romântico! Ela não é meu tipo e com certeza tá interessada em você, assim como você nela...
— Eu não tô interessado nela.
— Aham, claro, Aluado, claro que não tá.
— E ela não gosta de mim. Na verdade, ela me odeia — Lupin continuou, ignorando o comentário do amigo.
— Ela odeia que você não vá com ela a um maldito jantar, ou seja, ela se importa.
— E de que adianta se eu não vou ao estúpido jantar e, pior, você vai no meu lugar?
— Calma, lobinho! Porque assim ela não vai com ninguém com real interesse, e eu posso falar bem de você pra ela — Sirius disse, as mãos estendidas para a frente em uma dramática defensiva.
Remus escutou a resposta do amigo e se concentrou. Tinha que se acalmar e ser racional. Não podia deixar seus sentimentos o controlarem, já não bastava não estar no controle durante as luas cheias, precisava ter controle quando desse. Respirou fundo e se concentrou no som dos batimentos do próprio coração, até eles estarem mais lentos. Então, confiou em si mesmo para responder:
— Tá tudo bem. Espero que vocês se divirtam.
E tentou demonstrar o máximo de tranquilidade possível ao dizer aquilo, ao invés da insegurança e do ciúme do amigo poder ir à festa e estar com a garota que ele queria estar.
— Valeu, cara. Mas é sério. Vou falar tanto desse seu rabo peludo que ela vai se encantar.
— Pensando bem, é melhor não falar nada.
Os dois riram juntos, e Sirius subitamente arregalou os olhos.
— Nossa, quase me esqueci. Temos que tirá-la daqui logo. Preciso passar na cozinha também, porra, eu comia até um cabrito agora. Acho que ela também deve estar com fome.
Remus tocou os bolsos, lembrando das tortinhas que carregava. Nunca se sentira tão grato àqueles elfos como naquele momento.
— Aqui, cara, pega. — Lupin deixou algumas tortinhas na mão de Sirius. — Tenho algumas outras aqui, vou levar para a .
Os olhos de Sirius brilhavam de felicidade.
— Remus Lupin, você sabe mesmo como agradar um cara.
Aluado revirou os olhos.
— Usa essa energia renovada e vai procurar o Pontas. Ele deve estar com a capa. É a melhor forma de tirá-la daqui.
— Além de ter docinhos, você é um gênio! Vou atrás do Potter. Por favor, quando eu voltar, tentem estar vestidos! — Sirius disse, já se levantando e correndo até a porta.
— Vai se foder. — Foi a última coisa que Remus disse, com o rosto completamente corado, antes que Sirius fechasse a porta atrás de si.
Lupin olhou em volta, sentindo o ar pesado dentro de si. Aquele tinha sido um dia muito longo. Ainda estava processando tudo o que havia acontecido e, agora, ainda tinha que enfrentar a garota disposta a matá-lo.
Não era nada promissor, mas, respirando fundo, ele se levantou da poltrona e começou a subir para o dormitório.
Parando perto da porta, ele se concentrou no barulho do coração dela. Ele batia, lento, o que fez seu próprio peito se apertar. Será que Regulus teria sido capaz de matá-la? Será que essa perda de controle voltaria a acontecer?
Será que ela realmente ficaria bem?
Sua audição captou então sua respiração suave. estava dormindo. Era melhor entrar agora, antes que ela acordasse e ele a perturbasse. Talvez o dia dele tivesse sido ruim, mas tudo indicava que o dela havia sido muito pior. Com cuidado, ele abriu a porta, constatando que ela realmente estava dormindo. Ele ficou um tempo simplesmente parado ali, a observando, com os olhos fechados serenos. Respirando fundo, entrou no quarto sem fazer barulho e cuidadosamente colocou as tortinhas na cabeceira. O cheiro de peônias era mais irresistível do que nunca, e ele só queria poder ficar por ali, se certificando de que ela estava bem.
Suspirando, Remus sussurrou para ela, em uma confissão que nunca seria ouvida:
— Se em um mundo menos complicado eu fosse normal... Você não precisaria me perdoar porque eu aceitaria contente ir a esse jantar com você. Mas nesse mundo... Não adianta. Eu sempre ia acabar mentindo, e você merece mais.
Olhando-a pela última vez, Remus se levantou e foi em direção à porta, esperando os amigos voltarem.
O que ele não sabia, no entanto, é que sua confissão não morrera ali. Porque a garota, embora sonolenta, estava acordada.
E ouvira tudo.