Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 06/02/2026— Nos vemos nas próximas férias, querida.
— Até, mamãe — disse, retribuindo seu abraço.
Depois de dezessete anos vivendo com a mãe e recebendo algumas visitas mensais de seu pai, ambos haviam decidido que ia se mudar para a Inglaterra para morar com ele, pois acreditavam que o novo diretor de Ilvermorny estava negligenciando a educação dos alunos. Não só a garota teria que mudar de escola, estava mudando de país. Ou melhor, de continente.
— Vamos? — O pai estendeu a mão.
olhou para trás pela última vez, respirou fundo e pegou a mão dele. Sentiu imediatamente o ar ser comprimido em seu corpo e tudo ficar preto. Quando parecia que não aguentaria mais um segundo, tudo voltou ao normal, e a garota se viu em frente a uma casa bonita, mas simples.
— Chegamos — o pai anunciou, orgulhoso. — Venha, vou lhe mostrar seu quarto.
Os dois subiram uma velha escada que levava a um corredor pequeno com duas portas. ainda estava meio desnorteada por ter viajado para outro país e outro continente em poucos segundos e seguia um pouco hesitante.
— Esse aqui será seu quarto, embora seja temporário, já que logo você irá para a escola. Esse aqui é o meu. E aquela porta do fundo é o banheiro — ele falou, apontando tudo, parecendo estar em uma mistura de nervosismo e animação. — Espero que seja suficiente.
— Vai servir, obrigada, pai — ela agradeceu, meio formal, pela pouca intimidade que tinha com ele. Apesar de ele e sua mãe serem casados, por questões do trabalho dele, os três conviviam apenas em alguns feriados, e ela nunca havia estado na casa dele, mas, uma coisa que havia aprendido era se adaptar.
Naquele momento, a campainha tocou, o deixando tenso.
— Quem pode ser a essa hora? — ele tentou falar, descontraído, mas parecia assustado.
ainda estava analisando a quarto, quando viu um brilho vermelho e ouviu um barulho forte vindo lá de baixo. A garota voltou correndo para olhar o que estava acontecendo e se arrependeu na mesma hora. Seu pai estava estuporado no chão, enquanto seis adultos e um adolescente a encaravam.
— Pai! — Ela correu para ele, mas logo freou perante àqueles estranhos.
— Ora, ora, então é você que meu irmãozinho Alphard esteve escondendo esse tempo todo. — A mulher mais velha se aproximou, puxando uma mecha do cabelo de para analisar, mas ela desviou. Ao contrário do que esperava, isso fez a mulher sorrir. — Certamente, tem o sangue dos Black.
— Quem são vocês? — perguntou, completamente confusa e apavorada. Era inteligente o suficiente para saber que não tinha como duelar, seria uma batalha perdida. E não tinha a menor ideia do que aquelas pessoas queriam.
— Ora, somos sua família — um homem com idade próxima à da mulher e Alphard se pronunciou. — Ah, que rude não nos apresentarmos! Meu nome é Cygnus Black. Essa — ele apontou para a mulher que falava antes — é Walburga Black. Somos irmãos do seu pai, embora ele não pareça tão contente com isso quanto achávamos.
— Eu sou Regulus Black. Como vai, priminha? — o adolescente de cabelos escuros cacheados a cumprimentou com escárnio. — Essas são Bellatrix e Narcisa, suas primas também. — Ele apontou para uma morena com um ar sádico e uma loira de nariz em pé. — E seus maridos, Rodolpho Lestrange e Lucio Malfoy. — Ele apontou para o homem moreno e o loiro, respectivamente.
estava apavorada. Mesmo assim, respirou fundo.
— Eu creio que vocês estão enganados. — Ela se manteve firme e séria, embora parte de si estivesse quase fazendo xixi nas calças. — Eu não conheço vocês e creio que nem nosso sobrenome é o mesmo. Sinto muito, mas é a casa errada.
— Ah, mas isso é apenas um erro de informação — Cygnus falou. — Não é mesmo, Lynx Picquery? — A garota se sobressaltou ao ouvir seu nome todo. Nem seus amigos da escola tinham como saber disso. — Ou, melhor dizendo, Black.
— Como sabem quem eu sou?
— Sabe, nem o seu nome do meio é por acaso — a loira falou, a ignorando. — É tradição de família usarmos nomes de constelações. Nossa antiga e nobre família puro sangue sempre viu essa homenagem com bons olhos.
— E, como família, você deve confiar em nós. — Walburga sorriu para a garota.
— E por que eu confiaria em pessoas que eu nem sequer conheço? — falou, alarmada. Vamos, pai, ela pensava. Acorda.
— Talvez confiança não seja a palavra certa para o caso — a morena sádica disse, se aproximando do pai de com a varinha na mão. — Sabe, por anos, o seu papaizinho manteve você e sua mamãe escondidas. Não vejo o porquê.
— Por sorte, um contato americano vem me avisando sobre o segredo do seu pai nos últimos meses e descobrimos sobre você. E, como uma boa família, ao descobrirmos da sua vinda, viemos recepcioná-la! — Cygnus comentou, em um falso entusiasmo.
— E agora você vai aprender a confiar na sua família. Por bem ou por mal — Walburga comentou, e aquilo tirou do sério.
— Como vocês ousam pisar na casa de meu pai e nos ameaçar? Para uma família que se diz tão respeitável, não conseguem nem manter as boas maneiras — revidou, tentando se impor.
— Orgulhosa. É uma de nós. — Cygnus sorriu.
— Isso é mentira! — ela rebateu, perdendo o controle. Estava apavorada. Aquela gente era maluca e estava atrás dela.
— Ah, queridinha! Não viemos te matar! — Walburga falou. — Apenas desacordamos Alphard para ele não querer complicar as coisas. Não, nós a queremos bem viva. Você é uma de nós! E vai servir o seu propósito.
— E se eu não quiser? — rebateu.
— Se não quiser — Cygnus olhou para o lado, despreocupado —, digamos que o meu contato mora ao lado da Mansão Picquery. Que coincidência! Não é lá que sua mãe, a mestiçinha Annabeth Picquery, mora?
— E seu papai não parece muito bem, não é? — Bellatrix disse, sorrindo como uma maluca.
Aquela família a tinha palma na mão. Eles sabiam disso. E também. Eles haviam vencido.
— Então, , se quer que os dois vivam, é melhor ouvir com muita atenção — Walburga falou, se acomodando em uma poltrona, enquanto erguia os olhos malignos para a garota. — Pronta para ouvir sua missão?
Depois que a família Black foi embora, eles acordaram seu pai e o obliviaram, além de ameaçarem os pais dela explicitamente caso contasse para qualquer um sobre o que eles haviam falado. Por isso, a garota teve que fingir extrema surpresa quando seu pai veio falar com ela antes de entrar no trem.
— , é melhor eu te contar uma coisa agora, para não se assustar depois. Eu te inscrevi em Hogwarts com o meu sobrenome, enquanto na sua antiga casa e escola você usava o da sua mãe, por conta da influência da sua família por lá. Portanto, não se assuste quando te chamarem de Black. Esse também é seu nome. E não significa nada — ele se apressou em dizer, nervoso. — É só por questões burocráticas. — Ele engoliu em seco, parecendo querer evitar aquela conversa ao máximo. — E existem na escola duas pessoas com o mesmo sobrenome — ele disse, cada vez mais nervoso. — São seus primos, Sirius e Regulus Black. Regulus é um garoto confuso, mas acho que pode confiar em Sirius. Conte para ele que sou seu pai. Ele costumava gostar de mim, talvez isso o ajude a te acolher.
Depois disso, ele pediu várias desculpas pelo inconveniente, a abraçou e falou que a amava antes da garota embarcar no trem.
Já dentro do trem, em uma cabine vazia, ela pensava em tudo o que ele havia dito. Ela já sabia que tinha dois primos. Um, conhecera pessoalmente duas semanas atrás, enquanto ele agradavelmente invadiu sua nova casa e, ainda mais gentil, dissera que ia ficar de olho nela na escola para garantir que estava cumprindo a missão. O segundo, Sirius Black, fazia parte de sua nada espontânea missão. Merda, ela nem sabia como ia fazer tudo aquilo.
— ... e aí nós pensamos: com a quantidade de água que essas crianças engolem, e se nós enchêssemos uma piscina inteira de pó de arroto? — A porta da cabine se abriu. Um garoto de cabelos cheios e escuros, com uma postura charmosa, falava com o sotaque britânico carregado que agora todos possuíam, se jogando para dentro do vagão, sem nem notar a garota já instalada.
— Essa foi genial! Eu tive que comprar a ideia! — Um outro garoto de óculos se jogou no banco de frente para o amigo, ainda a ignorando. bufou. Seu humor já não estava dos melhores.
— Er, acho que já tá cheio — um garoto alto e pálido, com cabelos castanhos claros, falou, parecendo meio culpado de ter invadido o lugar. Aquilo fez com que ela se acalmasse um pouco. Só um pouco.
— Ora, então temos companhia! — o garoto de óculos falou, sorrindo para , como se não tivesse problema nenhum eles invadirem o seu vagão.
— Olá, tudo bem? Estranho não nos conhecermos. Eu lembraria de um rosto assim — o moreno charmoso falou, sorrindo.
— Cheguei! Desculpa o atraso, eu tentei escolher bem qual sapo de chocolate eu ia querer. Sabe, isso muda tudo, porque a figurinha de cada um é diferente! — um quarto garoto baixinho e gordinho, com cabelos cor de palha disse, entrando na cabine. — Opa — ele disse, se acuando, e sussurrou nervoso para o amigo alto. — É pra gente sair?
Na mesma hora, um baque atingiu . Ela havia visto uma foto daquele exato grupo semanas atrás.
Por acaso, sua missão começava exatamente em tentar conseguir a confiança daqueles garotos que, por acaso, haviam entrado na sua cabine. E percebeu que sabia o nome de cada um.
Na verdade, o garoto piscando para ela era, inclusive, seu primo.
— Podem ficar — ela disse, lutando contra toda sua vontade de berrar até o ser humano mais próximo dela estar a cinco metros de distância. — Prometo que não incomodo.
O garoto gorducho, que agora ela sabia ser Peter Pettigrew, suspirou aliviado e se sentou para comer seus doces. O garoto alto entrou, ainda a observando, e se sentou em frente à , logo pegando um livro para ler. Ela o reconheceu como Remus Lupin.
— Sabia que íamos chegar a um acordo. — O garoto moreno, que agora ela reconhecia como Sirius Black, sorria abertamente para a garota.
— Não conheço seu rosto. Eu achei que conhecia todos naquela escola — o moreno de óculos, James Potter, retrucou.
— Isso, caro amigo, se deve a um caso especial de cegueira em que tudo que você vê se resume a Lily Evans — Black retrucou, lhe acertando uma bolinha encantada com um estilingue. Pera, de onde ele havia tirado um estilingue?
— Mas é verdade, não conheço você. Quem é você? — Pettigrew perguntou, acanhado, com sua voz fininha. Ela se controlou para ser educada.
— Meu nome é ... Picquery. — Decidiu manter o novo sobrenome encoberto. Walburga havia a alertado que Sirius poderia reagir mal se descobrisse sua ligação com a família logo de cara, mesmo que seu pai achasse que ele seria receptivo. Ela não arriscaria. — E vocês?
— Eu sou Sirius Black — seu primo a cumprimentou, piscando.
— Não liga pra ele. Bateu a cabeça quando nasceu. Eu sou James Potter. — O garoto de cabelos arrepiados apertou a mão dela, cordial.
— Eu sou Peter Pettigrew. — O garoto de cabelos cor de palha ia imitar os amigos, mas os dedos estavam enlambuzados e ele os recolheu, envergonhado.
— E eu sou Remus Lupin — o garoto pálido e alto disse, lançando um rápido olhar gentil por cima dos livros, mas depois voltando a se perder neles. — Você é nova aqui? — ele perguntou, sem tirar os olhos da leitura.
— Sim, eu vim de Ilvermorny, nos Estados Unidos, onde eu morava com minha mãe, mas eu vim para a casa do meu pai esse ano e me mudei para Hogwarts. Vou cursar o sétimo ano.
— Olha, você tem sotaque! — Pettigrew falou.
— Isso é óbvio, cabeça oca — Black falou, revirando os olhos pro amigo. — Bom saber que estamos no mesmo ano. Você já chegou conhecendo as melhores companhias que pode ter.
— Já sabe que casa você quer entrar? — Pettigrew perguntou.
— Bom, eu não conheço as casas de Hogwarts, mas na minha antiga escola eu era da casa Serpente Chifruda — comentou, casualmente. — É dita como a casa dos inteligentes.
— Talvez seja como a nossa Corvinal. Quem sabe você vá para lá — Lupin comentou, agora parecendo atento e curioso com a conversa. Mas, quando olhou para , desviou os olhos para sua leitura novamente.
— Seria bom que você fosse da Grifinória. É a melhor casa. Mas sou suspeito de falar — Potter comentou, rindo. Tinha um sorriso travesso e simpático.
— Olha, só espero que essa sua serpente seja diferente da serpente que representa a casa da nossa escola, a Sonserina. Não queira ir para lá, aquilo é espaço apenas de bruxos malignos — Black falou, carrancudo.
— Nem todos são ruins. Mas ultimamente parece que todos são praticamente Comensais da Morte. — Pettigrew estremeceu.
franziu a testa, confusa.
— O que é isso?
Os amigos se entreolharam, sérios.
— São tempos difíceis por aqui — Lupin começou a falar. — Bruxos das trevas estão se tornando mais fortes.
— Defendendo supremacia dos sangues puros, atacando trouxas e nascidos trouxas. Essa gente é cruel por conta de ideais estúpidos — Sirius disse e parecia estar rosnando.
— Existe um bruxo poderoso das trevas que tá liderando tudo isso e seus seguidores são os Comensais da Morte. Praticamente, todos os sonserinos saem daqui já dentro do grupinho de seguidores malucos dele — James completou.
O clima ficou bem pesado por um tempo. Que incrível, ela pensou. Então, além da sua mudança de continente, casa e escola, além de estar cumprindo uma missão sob ameaça, ela ainda estava em um país cuja guerra podia explodir a qualquer segundo. Cada segundo parecia cada vez mais animador.
— Essas coisas sérias me deixam de mau humor. Vamos falar de algo mais alegre — Sirius disse, bocejando.
— É, conta pra gente da sua escola, — James falou, retornando ao tom animado.
Os cinco ficaram conversando o resto do caminho, só Remus que saiu por um período para patrulhar os corredores porque ele era monitor chefe. Era meio parecido com os representantes de Ilvermorny. No fim, acabou que conversar com eles ajudou a garota a se distrair das coisas ruins e já não ficou tão emburrada.
Talvez aquela missão não fosse tão ruim. Eles pareciam um grupo engraçado e divertido. Se aproximar deles não parecia ruim e ela não estava dispensando amigos. Só tinha medo de causar algum mal a eles. Mas era melhor não ficar martelando isso. Por enquanto, só tinha que fazê-los confiar nela.
Quando estavam chegando, os deixou na cabine e foi se trocar no banheiro do expresso. Já era noite quando chegaram à escola. Diferente de Ilvermorny, que a lembrava um palácio de veraneio, Hogwarts a fazia se sentir como se estivesse em um castelo da Idade Média, mas ele tinha sua beleza, especialmente com aquele céu estrelado refletido em um grande lago. Quando ela desceu do expresso perto dos meninos, contemplou a beleza daquele lugar.
— Alunos novos, por aqui! — Ela ouviu uma voz grave dizer. O seu dono era um homem gigantesco que, se ela não soubesse que gigantes tinham no mínimo 5 metros, ia achar que ele poderia ser um.
— Aquele é o Hagrid. -- James apontou de uma maneira gentil para o homem grande. — Ele é nosso guarda caças.
— É melhor você ir com ele — Remus pontuou.
— Te vemos lá dentro e espero que você seja da Grifinória! — Sirius disse, acenando, e assim todos os quatro entraram em uma carruagem que era puxada por nada visível.
Seguindo junto aos alunos do primeiro ano, ela se dirigiu até aquele homem grandão.
— Hm... É, com licença, sr. Hagrid? — tentou chamar educadamente.
O homem procurou quem o chamava e a encarou com olhos confusos.
— Boa noite, perdeu as carruagens?
— Na verdade, eu sou nova aqui. Transferida de Ilvermorny — ela falou, apressadamente. — Meu nome é . Um monitor me falou que você poderia me levar.
— Ah, claro, claro! — ele falou, dando tapinhas nas costas dela, que provavelmente eram para ser gentis, mas quase a mandaram para dentro do lago. — Entre em algum barco. Quatro alunos por vez!
Ela se sentiu completamente desconfortável e levemente humilhada entre aqueles alunos pequenos. Alguns a olhavam com curiosidade, outros com admiração e alguns com zombaria. Para esses, ela levantou levemente a varinha e olhou séria. Aquilo os fez ficarem quietos.
Quando finalmente desembarcaram, Hagrid os deixou na porta que se abriu e revelou uma mulher de cabelos negros com a cara bem séria. O tipo de pessoa que ela logo percebeu que não se brincava.
— Aqui estão, professora McGonagall, os alunos do primeiro ano. Ah, e nossa transferida. — Ele apontou para , como se fosse necessário apontar pra única garota de 17 anos no meio das crianças de 11.
— Obrigada, Hagrid, agora eu cuido deles.
A professora os conduziu escadas acima até pararem na frente de uma grande porta que abafava o barulho de várias pessoas conversando.
Ela fez um discurso de boas-vindas e falou que ocorreria a seleção que nos dividiria nas quatro casas. Explicou rapidamente o que eram essas casas e seus nomes. Bem parecidas com Ilvermorny mesmo.
— Agora, façam fila e me sigam — ela anunciou no final do discurso.
As portas foram abertas, revelando um lindo salão encantado. O teto tinha um grande céu estrelado, mas havia velas penduradas. Quatro mesas compridas se estendiam na vertical e ela viu de longe quatro garotos na mesa vermelha que pareciam os meninos do trem. Na frente, uma mesa onde todos os professores e diretores estavam sentados. Hagrid estava lá também.
Mas então ela percebeu. Onde estavam as estátuas que faziam a seleção?
A professora McGonagall colocou um banco simples de madeira na frente de todos com um chapéu muito velho em cima. E, de repente, o chapéu estava cantando. Era algo bem idiota sobre a criação de Hogwarts, os fundadores e que, para os alunos serem selecionados, só precisavam experimentar o chapéu que ele anunciaria a casa. Tão diferente de Ilvermorny, onde a estátua representante de cada casa se manifestava se queria o aluno na sua casa.
Quando todos terminaram de aplaudir a música do Chapéu Seletor, como ele tinha se autodenominado, a professora McGonagall falou, lendo um longo pergaminho:
— Quando eu chamar seus nomes, vocês porão o chapéu e se sentarão aqui para a seleção.
E nisso, ela começou a chamar todos os alunos em ordem alfabética, mas o nome da estrangeira nunca chegava. Então, depois que todos os alunos novos foram selecionados e só sobrava ela, no meio do salão, com todos os olhos a encarando, curiosos, a professora anunciou:
— Black, .
Se antes as pessoas estavam a encarando, agora estava tudo muito mais intenso. Especialmente os olhares das mesas vermelhas e verdes. ignorou a todos e andou até o banco de cabeça erguida. Se quisessem a olhar, que vissem seu melhor ângulo.
se sentou no banco de madeira e o chapéu foi colocado na sua cabeça, cobrindo toda a sua visão. Tudo estava preto e uma voz começou a falar em seus pensamentos.
— Interessante. Corajosa, mas não se jogaria em qualquer batalha. É esperta. Inteligente e poderosa. Mente aberta. Mas uma grande vontade de se provar. E não podemos esquecer que é mais uma Black. — Uma pausa se seguiu, com uma risada em seguida. — Ah, mas eu vejo que é mais do que isso. Criança, você não sabe o que você tem dentro de si.
O que isso queria dizer? Tudo era melhor quando era apenas um simples sinal de uma pedra entalhada. Aquilo estava a irritando.
— Não fique impaciente tão cedo! Pois bem, você tem um grande potencial e muito a descobrir. Eu já sei onde você deve ser colocada.
Ele fez uma pausa dramática e agora, em vez de falar apenas na cabeça dela, falou para todo o salão:
— SONSERINA!
olhou para a mesa verde e percebeu que Regulus estava lá, com sua gravata verde e um sorriso enviesado. A garota engoliu em seco. Estava ferrada. Aquele garoto agora ia poder observá-la 24 horas por dia. Como se ela precisasse de mais algo.
Quando se sentou, o diretor Alvo Dumbledore, um dos bruxos mais famosos e poderosos da história, falou algumas palavras esquisitas e falou para o jantar começar. Definitivamente, não era o que ela esperava do grande vencedor do duelo mais famoso do século, mas, na mesma hora, a mesa se encheu de comidas quentinhas e frescas. O estômago de se remexeu, ela nem havia percebido que estava morrendo de fome até aquele momento.
— Ei, Black — uma garota na sua frente falou. — Black! — ela repetiu, e piscou, despertando. Ainda não se acostumara com o sobrenome.
— Ah! Eu?
— É, né? Quem mais? — A garota revirou os olhos. — Então, você é parente do Regulus e do Sirius?
— É, acho que sim! — ela disse, engolindo os bolinhos de carne. — Ouvi falar que eles são meus primos, mas só descobri hoje. Só conheço minha família americana e sempre respondi pelo meu sobrenome americano.
— Que doido chegar a um lugar sem nem conhecer ninguém, sendo que algumas dessas pessoas são até da sua família — ela disse, jogando o cabelo que estava preso em um elaborado penteado para trás e pegando mais suco de abóbora.
— É. E você, qual seu nome? — perguntou.
— Sou Snyde. Reydana Snyde. Mas pode me chamar de Rey — ela disse, estendendo a mão.
— Pode me chamar de ou , como você preferir — ela respondeu, sorrindo. Rey não parecia ser ruim nem nada daquilo que os meninos haviam falado. Pelo contrário, ela parecia legal. E era estilosa.
— Adorei o seu cabelo e suas pulseiras.
— Ah, valeu — Reydana disse, automaticamente, passando as mãos no cabelo e ajeitando o penteado complicado. — Então, você veio dos Estados Unidos? Em que ano você vai estudar?
— Eu era de Ilvermorny e vou fazer meu último ano aqui em Hogwarts — respondeu e percebeu assombrada que o jantar magnífico havia sido substituído por sobremesas mais magníficas ainda.
— Então vamos ser colegas de quarto — ela disse, com um sorriso pequeno, mas sincero. — Se você quiser, eu te ensino a fazer alguns penteados assim.
— Eu amaria! — respondeu, animada.
— Ei, Rosier! — Rey chamou, e tanto um garoto quanto uma garota olharam. — Essa é a . A outra Black.
— E aí — a garota de cabelos loiros e olhos verdes com um rosto enviesado falou, antes de se voltar de novo para a garota do seu lado.
— Tudo bem? — o garoto falou, mais simpático. Tinha traços muito bonitos, mas, diferente da outra, tinha um rosto mais gentil. — Eu sou Evan e aquela é minha irmã, Martha.
— Prazer. — sorriu para eles.
— Aquela conversando com Martha é Layla Greengrass. Elas também são do nosso ano, então elas tão no nosso dormitório. Layla é a monitora chefe e aquele ali — ela apontou para um garoto de cabelos pretos até o ombro e oleosos — é o Severo Snape, o outro monitor chefe. Do lado dele — ela apontou para um garoto de sobrancelhas grossas — é o Jake Wilkes, também do nosso ano e bem amigo do Rosier.
— Quem você fala mais? — perguntou, mordendo um pedaço de uma torta de limão e soltando um gemido. Aquela comida estava simplesmente maravilhosa.
— Normalmente, falo mais com o Rosier e às vezes o Wilkes. Layla também é gente boa, mas vive grudada com Martha e a gente não se bate muito. A gente só se ignora — Rey disse, como se isso fosse super normal. — Você vai adorar nosso salão comunal. Ele é embaixo d'água.
— Que irado! — ela respondeu, tentando parecer animada.
Rey analisou a garota.
— Você não sabe o que é um salão comunal, né?
— Não — ela admitiu.
Por fim, Snyde explicou a ela sobre as aulas, as casas, o quadribol, os salões, os exames (NOMs e NIEMs) e várias outras coisas da escola. Muitas coisas eram parecidas e outras bem diferentes. Como Ilvermorny tinha sido criada por imigrantes bruxos, fazia sentido ter tido tantas inspirações, ela pensou.
Reydana estava terminando de contar sobre a rivalidade da Grifinória e da Sonserina (que era milenar! Briga entre fundadores? Hogwarts tinha. Enquanto isso, em Ilvermorny, os fundadores eram uma família feliz. Bem menos drama), quando o diretor Dumbledore se levantou e começou a discursar.
— Agora que estamos de barriga cheia e mais bem humorados, gostaria de dar algumas palavrinhas.
— Ele é tão engraçado! — sussurrou para Rey. — Não imaginava o maior bruxo do último século assim.
— Ele é um louco. Um velho caduco e chato. Mas é um gênio — Rey murmurou de volta.
— Primeiro, para avisar aos alunos novos e relembrar os antigos, é proibido andar na floresta da propriedade.
— Qualquer um que vá é louco, não se sabe tudo que existe naquela floresta — sua nova amiga falou baixo para ninguém em especial.
— O nosso zelador Argo Filch — o diretor continuou — pediu para lembrar que é proibido fazer magia nos corredores. A lista atualizada de produtos mágicos proibidos estará pendurada perto da sala do sr. Filch. É proibido andar pelos corredores depois do toque de recolher. Mas falemos de coisas boas. Os testes para o time de quadribol começarão daqui a duas semanas, quando seus capitães marcarem. Agora, vamos dormir! Alunos novos, fiquem perto de seus monitores!
Rey fez um gesto com a cabeça, chamando a nova sonserina para segui-la, e ela se levantou da mesa. a seguia e se sentia igual a um cachorrinho perdido, mas fingiu que estava bem resolvida.
Enquanto saíam, viu, do outro extremo do salão, um grupo de quatro alunos vindo em sua direção e a encarando. Ela imaginou que eles estivessem confusos e irritados. Peter tinha uma expressão intrigada, James tinha as sobrancelhas franzidas, Remus a olhava como uma questão particularmente difícil e confusa de uma prova. E Sirius... Não era surpresa que ele estava furioso. Ela olhou para cada um e seguiu sua amiga. Já era muito tarde para explicações.
Seguindo o corredor, ela percebeu que muitos ainda tinham olhos fixos nela.
— Reydana, é impressão minha ou estão realmente me encarando?
— O que você esperava? Você é uma estrangeira novata, com o nome Black e bem atraente — ela disse completamente direta e indiferente, como se estivesse falando do clima.
— Então eles tão interessados em mim? — Ela riu com a ideia.
— Não duvido nem um pouco. Esse bando de bombas de hormônios... Evan tava quase te engolindo com os olhos.
— Não... Afinal, vocês têm alguma coisa, né? — perguntou, cautelosa.
Reydana deu uma gargalhada completamente sarcástica.
— Acredite, a última coisa que eu quero é me envolver com alguém minha vida toda. Beijos são nojentos e amor é uma fraqueza.
— São maneiras de pensar — ela disse, olhando para um garoto que a encarava por alguns segundos já. Em resposta, ela abriu um sorriso. Ele ficou vermelho como um pimentão. não se aguentou de rir. — Você viu aquilo? As pessoas aqui são malucas. Menos você, claro — ela se apressou em completar.
Elas caminharam até o subsolo e chegaram às masmorras.
— Ei, Snape, qual a senha? — Reydana falou, completamente seca.
— Serpensortia — o garoto de cabelos pretos sebosos respondeu no mesmo tom, sem nem olhar para ela. Nesse momento, uma sala se revelou.
Era muito bonita. A luz mais escura não doía os olhos e a visão do que estava submerso no lago era fascinante. Até as chamas verdes da lareira eram hipnotizantes.
— Vamos, vou te mostrar seu dormitório. Já devem ter colocado a cama extra pra você. — Rey a guiou para um corredor na direita. — Aqui são os dormitórios femininos. E aqui é o nosso — ela disse, abrindo uma porta.
Quatro camas de dossel com cortinas e cobertas verde e prata se estendiam com o malão de cada uma, demarcando as camas. Elas haviam chegado primeiro e trocaram o malão de Layla com o de para sua cama ficar do lado da de Rey.
— Elas não vão reclamar. Tão sempre juntas. E se reclamarem, estou o verão todo querendo treinar novos feitiços agora que sou maior de idade — Rey disse, simplesmente.
Elas se ajeitaram para dormir e, pouco depois, as outras garotas chegaram. Basicamente, ficaram a noite inteira em conversas paralelas, até Layla e Martha deitarem e ameaçarem as outras colegas para que calassem a boca (a ameaça veio mais de Martha mesmo). Rey revirou os olhos e parecia prestes a falar ainda mais, contudo, já estava cansada e não queria mais problemas do que a simples existência do Regulus o tempo todo perto de si já iria trazer.
No dia seguinte, acordou bem mais cedo do que queria. Teve um sonho confuso em que sua mãe aparecia na escola com aquelas malditas Walburga e Belatriz, enquanto Regulus dizia de fundo “quem mandou você afastá-los?”. Mesmo assim, para , até alguns pesadelos eram melhores do que acordar cedo para assistir aulas e talvez encontrar um dos personagens do pesadelo tão cedo. Isso se os quatro grifinórios não viessem pedir satisfação antes.
A única coisa que a convenceu a se levantar era que, se o jantar já estava delicioso, o café da manhã, que era sua refeição preferida, teria comidas ainda mais maravilhosas. Seu estômago já roncava com expectativa.
Quase valeu a pena acordar cedo quando, já no Salão Principal, ela se sentou com Rey e devorou deliciosas panquecas. Ah, sua saúde ia se acabar nessa escola.
Quando terminou de comer, decidiu passar seu batom vermelho antes de ir para a aula. Não gostava de passar antes de comer, mas não podia deixar de usar sua marca registrada. Na mesma hora, vários garotos a encararam.
— Ah, isso é meio bizarro, mas tão engraçado — ela disse, rindo para Rey.
— Essa cor é muito Grifinória. Por que não usa um roxo ou preto? — ela respondeu, simplesmente.
— Porque, infelizmente, vermelho é minha cor.
Ela analisou a nova colega.
— É verdade. Combina com sua pele clara, seus cabelos e olhos escuros. E se quer mesmo ter efeito, deixa a gravata meio solta e abre os dois primeiros botões — ela disse. — Coloca a blusa pra dentro da saia.
— Que besteira, Rey — disse, revirando os olhos. Era só uma brincadeira.
— Quem você disse que era extremamente estilosa? Tá duvidando agora?
— Tá bom, Snyde! Você venceu. — pegou as suas coisas e se levantou da mesa. Na mesma hora, olhares de todas as mesas a seguiam. — Caramba, garota, você é boa!
— Claro que eu sou — ela disse, dando de ombros.
— Senhorita Black? — Ouviu uma voz a chamar.
Era o professor Horácio Slughorn. Era o diretor da Sonserina. Ah, por Merlin. Será que ela já tinha feito algo errado? Será que havia quebrado algum código de vestimenta?
— Olá, professor Slughorn. Algum problema? — falou, nervosa.
— Ho-hô! Não mesmo! Vim apenas te entregar seu horário. Baseado nos exames do seu país e das matérias que você assistia, acho que essas vão ser suas aulas — ele disse, entregando um papel para ela.
— Ah, muito obrigada, professor!
— Não há de quê! Mal espero para te ver nas aulas de Poções. — Ele deu dois tapinhas em seu ombro e saiu.
— É claro que ele tá interessado em você — Rey falou. — É uma Black intercambista que ninguém conhecia. Ele vai querer saber da sua família toda e talvez te colocar no Clube do Slugue.
— Que isso?
— Algo muito estranho pra ser descrito por palavras — ela disse, com uma cara de nojo.
— Então, é ruim? — perguntou, nervosa.
— Depende. Tem gente que mal espera pra entrar. Mas acho que artistas como eu não são tão bons pra entrar num grupo como esse apenas para os melhores e mais talentosos.
Ali estava. Um pouco de rancor por não ter sido convidada.
— Qual sua primeira aula? — Rey perguntou, arrancando o papel da mão da garota. — Ah, é Herbologia. Eu também. Bora lá.
Ela guiou a novata até as estufas e assim o dia foi preenchido por várias aulas, algumas matérias mais conhecidas que outras. Foi muito legal conhecer os professores e até outros alunos. E até que estava se saindo muito bem e isso a deixava muito feliz. Nada a deixava melhor do que ser boa em algo e ganhar destaque. Não havia nada errado em uma garota alimentar um pouco seu ego, né? Mas ela logo descobriu que tinha concorrentes à altura.
Esses concorrentes, inclusive, não eram ninguém menos do que os quatro grifinórios. Ela podia sentir a presença deles em todas as aulas que frequentava, cercando-a, deixando-a receosa com o que estava por vir.
No final da última aula do dia, Transfiguração, ela percebeu pelo olhar dos seus quatro acompanhantes do Expresso que não ia conseguir fugir daquele interrogatório. Por isso, no final da aula, ela se virou para Rey e disse:
— Já aprendi o caminho pro Salão. Vai na frente e guarda lugar pra gente. Tenho só que resolver umas coisas.
Ela olhou para os quatro garotos que as encaravam e depois para , por fim dando de ombros, saindo da sala.
A garota fingiu estar organizando sua mochila e ouviu aqueles passos se aproximando.
— Então, olha quem tá aqui. — Ela ouviu a voz de Sirius, cheia de raiva. Ela continuou arrumando a mochila, mas, quando percebeu que eles não falariam nada até ela encará-los, se levantou, jogando o cabelo para trás.
— Até que vocês demoraram — ela disse, num sorriso discreto que eles confundiram com sarcasmo.
— Chega de piadas, sua mentirosa — Sirius exclamou, ainda mais irritado. — Que palhaçada de história é essa que você tá se passando por uma Black?
— Eu vou ser bem honesta com vocês. — Os quatro pares de olhos a encaravam, carrancudos. — Eu descobri ontem sobre isso do meu nome também — ela mentiu. — Sempre usei o sobrenome da minha mãe, que foi o que disse pra vocês...
— Com licença — a professora McGonagall chamou, sem paciência. — Existem dezenas de espaços nesse castelo para conversinhas, mas essa sala precisa ser trancada.
— Ah, certo, professora — Lupin disse, nervoso.
— Já estamos saindo — Potter acrescentou.
— Foi mal, professora! — disse, acenando um tchauzinho.
Os cinco já haviam saído da sala, quando Black agarrou o braço da garota.
— Que porr...
— Nem pense em sair. Você não vai a lugar nenhum — ele disse, me interrompendo.
— E quem disse que eu ia?! — protestou, tentando soltar seu braço, mas ele continuou preso.
— Sirius, larga ela — Remus colocou.
— É, cara, pode machucar — Pettigrew falou, assustado como se fosse ele na situação.
— Me solta — murmurou, chocada com a força do garoto. — Eu quero falar com vocês.
Black a encarou profundamente, com ódio nos olhos, mas depois olhou os amigos e se acalmou um pouco. Por fim, ele a soltou. mexeu o braço com cuidado, ainda sentindo a pele arder. Aquilo ia deixar marca, com certeza.
— É melhor continuar falando, Picquery. Antes que eu mude de ideia.
suspirou. Aquele garoto tinha muitos problemas, mas ela tinha que conquistar a confiança dele e dos amigos, então continuou:
— No dia do embarque, meu pai me chamou em um canto e me disse que eu estava inscrita com o sobrenome dele, um sobrenome que eu nem conhecia. — Ela respirou fundo, tentando passar vulnerabilidade em seu olhar, o que não era difícil considerando sua situação. — E ainda me disse que eu tinha dois primos na escola. Regulus, que ele disse ser complicado. E você.
— Então você já sabia na cabine, mas não falou nada — James constatou.
— Eu tinha acabado de descobrir! E meu pai falou que você não era muito fã da família — ela disse, olhando para Sirius. — Eu sou nova, de outro continente, chegando a um lugar onde todos já se conhecem e ainda descubro que tenho outra família não muito amigável. Vocês foram minha primeira chance de amizade, não queria perdê-la por um sobrenome que eu nem sinto que é meu.
Ela deixou um suspiro escapar, não estava de todo mentindo. Parecendo perceber uma pontada de honestidade, Peter, Remus e James passaram a olhá-la de forma mais simpática. Mas Sirius ainda a encarava feio.
— Então seu pai me conhece e conhece meu irmãozinho — ele disse, sarcástico, o sotaque britânico gritante. — E disse que somos primos. Quem é seu pai?
— Alphard — ela falou, simplesmente, mas viu o choque em seu olhar.
— O quê?! Tio Alphard... tem filhos?
— Eu diria só filha, a não ser que eu também tenha irmãos e não saiba — falou, confusa. — Não seria a maior surpresa da semana.
— Então ele te escondeu da família esse tempo todo. Esperto... — Sirius disse, com raiva.
— E Regulus? Como reagiu? — Remus perguntou, curioso.
— Ele não veio falar comigo, só me olha feio de longe. Parece meio maluco.
— Ele com certeza é. — James revirou os olhos.
— Olha, não importa suas desculpas. Você mentiu — Sirius disse, a raiva voltando aos olhos. — E ainda foi pra Sonserina, então coisa boa em você não tem.
— Pera lá — a garota disse, irritada. — Você tá me julgando sem me conhecer só pela minha casa. E um monte de gente de lá foi simpática comigo.
— Claro que foram simpáticos com você, você é da casa deles — James falou.
— Eles só tratam bem os seus iguais — Sirius confirmou.
— Ué, e você não tá assumindo coisas ruins sobre mim só por ser da Sonserina? Não tá sendo rude? Mas os seus iguais você trata com respeito. Acho que isso não é exclusivo da minha casa, é?
— Touché — Lupin exclamou.
— Cala a boca, Remus. Tá do lado de quem? — Sirius disse, emburrado. O amigo só abriu um sorrisinho e revirou os olhos.
— Olha, eu sei que eu menti, mas eu já expliquei o porquê e disse tudo o que podia. Falei a verdade.
— E por que a gente deveria acreditar se você já mentiu antes? — Pettigrew falou. A garota se encolheu um pouco. Peter parecia o mais gentil, mas aquela alfinetada havia doído.
— Eu não sei — ela admitiu. — Mas já respondi vocês. Cabe a vocês acreditarem ou não.
Naquele momento, o braço de ardeu onde Sirius havia apertado, e ela instintivamente o segurou com a outra mão. O movimento não passou despercebido pelo garoto. Subitamente, seu rosto ficou mais sombrio.
— Eu... me desculpa. Preciso... preciso pensar — Black disse e seguiu o corredor em direção às escadas.
— Você não parece má gente, . Espero que não seja — Potter falou, sorrindo, antes de correr atrás do amigo.
— Desculpa o jeito que falamos com você. Er… tchau! — Pettigrew saiu como um rato apavorado atrás dos outros.
— É melhor dar uma olhada nesse braço — Lupin, o último que tinha ficado, constatou.
— Não é nada demais, já passa.
— Por experiência própria, machucados que deixamos de lado são muito piores depois de cuidar.
— Ainda acho desnecessário, mas obrigada pela preocupação. É parte do trabalho de monitor ou você é assim? — ela o provocou, sorrindo.
— Acho que tá mais pra parte de um pedido de desculpas. — Ele deu de ombros. — Não se chateie com o Sirius. Ele foi um babaca, mas não é assim sempre. Família é algo delicado pra ele, e sei que ele se arrepende te ter te machucado.
— Você é um bom amigo ao falar isso, mas quem precisa se tocar disso é ele. — Os dois se encararam, as expressões amistosas, e Remus mexeu no cabelo castanho claro. Era um cabelo bem bonito, não pôde deixar de notar. — Bom, acho melhor você encontrar seu grupinho. Tenho a impressão de que vocês estão sempre grudados.
— É, os marotos gostam de andar juntos. Tchau, — ele se despediu, gentil, antes de seguir o mesmo caminho dos seus amigos.
Marotos? Que nome ridículo, ela pensou, rindo. Mas, por algum motivo, sentiu que combinava com eles.
Com todos longe, respirou fundo. Aquilo havia sido muito mais intenso do que havia pensado que seria. Seu braço ainda ardia e seu coração batia acelerado no meu peito. A sonserina sentia a missão escorregar para longe de seu alcance. Ela tinha que fazê-los gostarem dela. Mas, droga, como ia fazer aquilo com eles cheios de desconfiança?
sentia saudades da antiga escola e o jeito que todos eram unidos. Claro, todos tinham competições e rixas, mas nada nesse nível. Sentia falta de estar em um lugar que conhecia. De falar com Ashley, que entenderia tudo o que ela falava e a ajudaria naquela missão ridícula. De estar no conforto de casa. Sentia falta da mãe.
E sentia falta de não ver a vida de seus pais ameaçada.
respirou fundo e decidiu ir para o Salão Principal jantar. Seu estômago roncava, mesmo ainda um pouco embrulhado de nervosismo, e nada melhor para afastar as preocupações do que comer.
Mas, logo na entrada, ela já encontrou alguém capaz de arruinar o seu humor.
— Ora, ora, se não é minha priminha estrangeira — Regulus disse, sorrindo sem nenhum humor, e ela revirou os olhos.
— Olha, se não estiver claro, eu estou morrendo de fome, não tenho tempo para uma reunião de família — reclamou, começando a se afastar. A garota sempre quisera primos, mas, pensando bem, antes ela estava muito melhor sem eles.
— Olha aqui você, sua vadia — ele disse, agarrando seu braço machucado. não pôde evitar gemer de dor. Ele se aproximou e começou a sussurrar. — É melhor você lembrar a sua posição aqui. Então respeite quem pode mudar sua vida em apenas um segundo. Sou eu quem pode dizer que você tá se esforçando na sua missão e deixar seu papaizinho salvo. Ou... — Ele segurou o braço dela ainda mais forte, fazendo-a gritar de dor. — Sou eu que posso dizer que você tá falhando, e aí sua mamãezinha sofre nas nossas mãos
Antes que ela pudesse reagir de raiva, ele já tinha sumido na massa de alunos. Ninguém havia o visto ameaçando . E mesmo que tivessem visto, o que poderiam fazer?
Ela entrou no Salão, dividida entre o ódio e a dor. Reydana a encarou e ergueu uma sobrancelha enquanto a garota sentava.
— Parece ter sido uma conversa bem agradável — Snyde disse, botando mais ensopado no prato.
— Esses garotos me estressam — Black reclamou, bufando.
Aos poucos, ela foi se acalmando com a comida e ficou mais feliz vendo que tinha torta de limão no jantar. As duas sonserinas conversaram um pouco sobre o primeiro dia para se distraírem, até que Rey olhou na cara de com uma expressão de quem conseguia ler a alma dos outros.
— O que tá te preocupando?
ficou assustada, mas tentou tirar o assunto de foco.
— Eu? Nada. Qual a aula de amanhã?
— Você tá sim. Parece... frustrada. Como se algo tivesse dado errado.
— É que... sinto saudades de casa.
— Verdade. Mas não é isso que tá na sua cabeça.
— Reydana, você já pensou em ser vidente? — A amiga continuava a encarando, e Black percebeu que ela não daria trégua. — Tá bom, é que... algo que eu queria muito que acontecesse não aconteceu.
— E tem a ver com o grupinho irritante da Grifinória? — Ela não conteve o susto e arregalou os olhos. — Foi o que pensei. O que você quer com eles?
— Eu... — Droga, Reydana ia perceber que ela estava mentindo. Tinha que falar a verdade. Só que omitida. — Eu queria muito me aproximar deles.
— Hm — ela disse, provavelmente percebendo a sinceridade. — E por quê?
— Assunto meu — replicou. Gostava de Rey, mas ainda eram recém conhecidas. Precisava de um pouco de cautela, e não seria errado ter alguns segredos.
— Então tá — Rendaya disse, mas os olhos apertados. Duvidando da amiga.
Ela ia ficar curiosa e ia acabar investigando. E descobrindo tudo.
Não. precisava dar um motivo convincente para que ela se contentasse. Mas qual seria um motivo justo e suficiente para uma adolescente fazer isso?
Black se lembrou dos olhares gentis do garoto que ficou para trás para checar se ela estava bem e sua respiração acelerou de leve, constrangida. Ali estava um bom motivo para uma garota adolescente fazer qualquer coisa: um garoto.
— Promete que não vai contar pra ninguém?
— Prometo.
Reydana a olhou e, embora tentasse fingir sua indiferença de sempre, conseguia perceber que ela estava ávida para descobrir tudo.
— Ok. — suspirou e deixou seu nervosismo aflorar. Aquilo tinha que soar real. — Bom, eu sei que eles são da Grifinória, mas... — Mordeu o lábio, segurando uma risadinha. — Eles também são bem bonitos.
Reydana soltou uma risada.
— Claro que tinha que ser sobre esse seu joguinho de conquistas. E o truque do batom vermelho não funcionou com eles?
— Infelizmente, não. — Ela suspirou. — Acho que vou ter que conseguir ser amiga deles primeiro. Só que eles me odeiam só por eu ser da Sonserina. Coisa daqueles caras da morte, não lembro.
— Comensais da Morte — Rey disse, fechando a cara. — Entendo a suspeita deles. Realmente, muitos alunos da Sonserina estão se aliando ao Lorde das Trevas. Até meu irmão e a namorada entraram. E o grupinho do Regulus e do Snape tem adoração por isso. Mas eu não quero — ela disse enfática, levantando o queixo. — E nem vários outros alunos. E já ouvi de vários alunos de outras casas que se aliam. Então, não é a casa que define. A questão é que a maioria dos puros sangues estão aqui na Sonserina e defendem essa supremacia.
— Isso é tão louco! É praticamente impossível não ter uma mistura mesmo que pequena no sangue.
— Pois é, mas quem disse que eles são muito racionais? — Rey disse, limpando a boca e se levantando. — Vamos voltar.
Depois de um dia completamente longo e exaustivo, quando chegaram ao quarto, só pensava em tomar um banho e depois dormir. Dormir por muito tempo. Será que ela podia dormir até a semana seguinte e dizer que alguém havia lhe dado uma poção para dormir? Não seria muito culpa dela, certo?
Quando entraram no dormitório, no entanto, a primeira coisa que ela notou foi um pedaço de pergaminho na sua cama. o cutucou com a varinha e, ao perceber que nada pegou fogo, ela o abriu.
Seus lábios são carmim
Se eu te pedir para me encontrar
No sábado, depois do toque de recolher, na Torre de Astronomia,
Você dirá que sim?
Responda nesse papel e o deixe embaixo do livro amarelo da terceira mesa. Não tente me ver, pois não conseguirá.”
Black se acabou de rir. Ela estava recebendo a proposta de um encontro? Que baboseira de poema brega!
— Que isso? — Rey perguntou e a amiga, ainda rindo, só conseguiu lhe passar o papel. Logo, ela também estava gargalhando. — Pois é, então confirmamos que o batom vermelho fez sucesso!
— Tá maluca, Black? Que que você já tá acordada? — resmungou, um olho aberto e o outro ainda lutando para abrir.
— Acho que estou me acostumando ao fuso horário — respondeu, retocando o batom vermelho. — Além disso, temos aula.
— Não temos, não, hoje é sábado — Reydana replicou, os dois olhos fechados agora.
— Ah, é. Então temos que fazer os deveres — a garota desconversou.
Snyde não a respondeu, e a sonserina imaginou que ela tivesse voltado a dormir.
— Vamos, Rey, você prometeu que hoje me ensinaria algum penteado bonito! — falou, agitada, do lado dela.
— Quer um penteado? Enfia o cabelo na goela e cala a boca — Martha resmungou, jogando os cobertores por cima da cabeça.
Ah, é. As outras meninas também estavam dormindo, lembrou.
— Ops — ela falou, baixinho.
Mas a bronca de Rosier fez Reydana arregalar os olhos e já começar a se espreguiçar, como se tivessem injetado cafeína em seu sangue.
— Tem razão, , hoje é um novo dia que temos que aproveitar! — Rey disse, com seu tom adorável e falso. — Qual penteado você quer?
Os dentes de Martha rangiam.
— Uma trança embutida beeem longa — Black respondeu, segurando o riso.
— Vou só trocar de roupa — Rey anunciou alto.
Depois de revirar seu malão inteiro da forma mais escandalosa possível, Snyde rearrumou suas roupas de forma igualmente barulhenta. Quando ela acordou, Martha estava em pé como um inferi, olhando muito feio para Reydana.
— Martha! Você está acordada! Perdão, não te incomodamos, incomodamos? — Rey continuou a falsa felicidade e simpatia.
A garota Rosier as olhou com puro ódio, resmungou algo muito próximo de uma Maldição Imperdoável e saiu, as fazendo gargalhar.
— O pior é que a coitada da Layla continua dormindo — Rey disse, já em sua forma normal, apontando para a loirinha em um sono profundo.
— Aqui, que que tem entre você e a Rosier? Você disse que vocês não se batem bem, mas é só isso? — indagou, curiosa.
Reydana suspirou fundo.
— Acho que não tem problema te contar. Não é nada muito definido — ela disse, dando de ombros —, ela é a irmã do meu melhor amigo e ela não queria dividi-lo. Sendo sincera, nem eu. — Rey sorriu amarelo. — E a gente meio que criou uma competição. Além disso, Martha acredita completamente na ideia dos Comensais, e eu acho isso ridículo. Evan também, e ela diz que a culpa é minha. — Snyde revirou os olhos. — Nem conhece o próprio irmão.
— Que loucura — falou, arregalando os olhos.
Saíram do dormitório em um longo silêncio, até que Snyde voltou a falar.
— Pra ser sincera, eu tenho medo. Medo de que Evan siga o mesmo caminho de Martha por medo de ela se machucar.
Um silêncio pesado se instalou entre elas.
— Acho que você não tem como interferir muito nisso, Rey, então não vale a pena ficar revirando essas coisas na cabeça — Black respondeu, tentando escolher as melhores palavras. — Só seja uma boa amiga pra Evan e o ajude a lembrar quem ele é.
— É, tanto faz — Rey desconversou, tentando manter a pose de durona desinteressada, mas a amiga viu um pequeno sorriso em seus lábios. — Mas e aí? Pra que acordar tão cedo?
— Sabe como é, muitos deveres pra colocar em dia — respondeu, enquanto elas chegavam à porta do Salão Principal.
— Você não é uma mentirosa ruim, mas eu não sou qualquer uma pra ser enganada fácil — Reydana falou. — Então, me diz. É por que hoje que você vai descobrir o dono do bilhete? Pela sua cara, é óbvio que sim.
Rey tinha acertado em cheio. Desde que ela recebera aquela mensagem, estava extremamente ansiosa para descobrir. E se fosse um garoto bonito querendo se declarar? E se fosse uma pegadinha? Realmente a achavam bonita a esse ponto, ou Rey apenas dizia isso pra a incentivar e não a deixar mal? Ela nunca tinha sido o centro das atenções e, ali, parecia ter ganhado uma semana nos holofotes, ganhando mais olhares do que jamais ganhara na vida. Mas e se estivessem só a achando esquisita? Ou querendo descobrir quem ela era por causa do seu sobrenome?
— Garota, é melhor você parar de pensar tanto, porque, pela sua expressão, sua cabeça vai explodir! — Snyde chamou a atenção dela, empurrando uma tortinha para o prato da amiga.
Ela deu uma risada fraca e decidiu seguir o conselho de Reydana. Não havia como saber. E ela se conhecia. Se tentassem a ridicularizar, ela ia tentar dar um jeito de sair por cima. Nem que tivesse que virar o feitiço contra o feiticeiro. Talvez até literalmente, se jogassem alguma magia.
— Vamos, acaba de comer que eu ainda nem fiz a trança no seu cabelo — Rey disse, limpando a boca cheia de farelos.
— Eu falei zoando, não precisa fazer trança nenhuma.
— Ah, mas eu quero fazer. É mais fácil fazer nos outros do que em si mesma, eu preciso treinar. E você tem que se arrumar para encontrar o poeta hoje.
— E se foi uma pegadinha? — expôs o que estava pensando.
— Difícil. Mas se for, vou te ensinar um feitiço que vai dar uma lição em qualquer um rapidinho.
Ela não pôde deixar de rir e até ficar empolgada enquanto voltavam para o salão comunal. Durante o resto do dia, fizeram os deveres de Transfiguração e Defesa Contra as Artes das Trevas. Ela estava bem adiantada em Transfiguração em Ilvermorny, o que deixou tudo mais fácil, mas teve que se esforçar um pouco mais em DCAT, o que era difícil com Rey contando diversas lendas sobre a maldição do cargo.
No final da tarde, estavam passeando perto do Lago, para aproveitar o fim do verão, enquanto Rey contava mais daquela área, já que passaram a semana praticamente dentro do castelo, sugadas pelas aulas.
— Esse é o Lago Negro. Você veio com os novatos de barco nele, né? — Rey falava.
— Sim! É tão diferente de dia... Menos sinistro. A gente pode nadar? — perguntou, animada.
— Acho que nunca vi isso. — Ela ficou pensativa. — Mas não sei se é por não ser permitido, ou porque as pessoas têm medo dos sereianos e da Lula Gigante.
não pôde deixar de rir.
— As pessoas inventam cada coisa.
Rey franziu a testa.
— Mas tem uma Lula Gigante e sereianos no Lago. E acho que coisa muito pior.
Ela continuou rindo um tempo, até perceber que Reydana continuava impassível. De repente, a ideia de nadar naquelas águas já não estava tão atrativa. Continuaram o tour pela parte externa.
— Esse é o Salgueiro Lutador. Ele tá aqui desde que entrei na escola.
— Uau, é lindo — disse, sem conseguir não se deslumbrar com aquela árvore enorme.
— É maravilhoso. E tem a capacidade de arrancar sua cabeça. Então, só admire de longe.
— Como assim? — indagou, bem confusa.
— Só olha.
Depois de dizer isso, Rey fez as duas se afastarem mais, pegou uma pedra do chão e arremessou na direção da árvore. Aquilo estava patético. A pedrinha bateu no tronco e caiu no chão logo depois. Normal.
Era o que ela achava. Logo em seguida, a árvore começou a se remexer e seus galhos começaram a tentar acertar qualquer coisa que se mexia. Poucos minutos depois, ela voltou a ficar estática. O estômago da sonserina estava meio embrulhado.
— Não existe nada menos mortal por aqui, não? — perguntou, engolindo em seco.
— Tem o corujal. Mas não ofenda nenhuma coruja, ou tudo pode virar mortal também — a amiga caçoou.
Depois de uma tarde aproveitando o ar fresco e cercadas de várias coisas mortais (o terreno era, literalmente, contornado por uma floresta sombria e cheia de criaturas perigosas. Que tipo de escola para crianças era aquela?), elas voltaram e tomaram um banho refrescante antes de cair de cara nos estudos de novo. Teriam exames decisivos no final daquele ano e não podiam dispensar uma boa dedicação.
Quando já estava cansada, a garota escreveu uma carta para a mãe e uma para o pai. Demorou quase uma hora só na carta de Annabeth. Sempre foram muito próximas, e ela sentia saudade, além de ficar preocupada. Queria que houvesse uma maneira de avisá-la que estavam sendo observadas sem que ela fosse colocada em ameaça. Então teve que colocar aquele pensamento de lado e invocar as boas coisas que tinham acontecido naquela semana. Afinal, era só ficar amiga de um grupo de idiotas e ela continuaria segura. Embora não estivesse fazendo muitos avanços.
Como se soubesse o que a amiga estava pensando, quando Rey se levantou para ir ao banheiro, Regulus surgiu e a chamou para um canto. Na verdade, seria mais apropriado dizer que a arrastou.
— Tá maluco, garoto? Não precisa me arrastar — ela ralhou com ele.
— Não importa, quero que isso seja o mais rápido possível. Realmente acha que me agrada ter que ficar de babá de uma sujeitinha como você?
— Você é adorável, priminho. — Bufou.
— Cala a boca e me escuta. Recebi uma carta e tem informação pra você. Um... hãn... amigo da família fez mudanças na missão.
sentiu um calafrio e um súbito frio no estômago. E parecia não ser a única. Regulus não parecia nos seus melhores dias.
— O que é? — Forçou sua voz a sair mais irritada e menos apavorada.
— Recebemos uma informação especial sobre o mestiço e pobretão do grupo, aquele Lupin. Esse amigo tem um interesse particular nele. Eles querem a confiança dele conquistada o mais rápido possível.
— E posso saber por quê? — perguntou, intrigada.
— Se põe no seu lugar, garota. Você cumpre as ordens e não questiona. — Ele explodiu para cima de dela, e a garota quase pegou a varinha. Quase. Uma imagem da mãe sendo torturada foi o que a segurou.
— Certo — falou, entredentes. Sério, na primeira oportunidade, ela ia matar aquele garoto.
— Assim eu acho melhor. É bom ter algum progresso até semana que vem, ou já sabe — Regulus disse, a olhando com tanto desprezo quanto o que ela dirigia a ele, e se voltou aos seus amigos.
Ela ficou tão puta que, quando Rey voltou do banheiro, ainda estava exatamente onde Regulus a deixara, ainda controlando a respiração. A amiga, que às vezes era bem insistente, só a olhou com a sobrancelha erguida, questionadora, mas não comentou nada.
— Vamos, é hora de se arrumar. — Rey a puxou para os dormitórios.
abriu seu malão e começou a vasculhar suas roupas, procurando algo que se encaixasse: arrumado, mas não tanto. Reydana separou algumas peças e tentou combiná-las, até que gritou:
— PERFEITO!
nunca a tinha visto tão animada. Ela levava a sério essa responsabilidade de ser estilosa.
— Que que você escolheu aí?
Ela segurou no ar uma saia preta com correntes, uma meia arrastão e uma camiseta verde escura.
— Hm, sei não — falou.
— Não entendo por que você me elogia se depois não confia em mim. — Ela revirou os olhos. — Veste logo.
A garota colocou a roupa e um coturno preto de salto que Rey separou. Ficou um tempão sentada, esperando a amiga fazer a tal trança embutida que Black tinha pedido de brincadeira (e que, nossa, parecia que puxava até o cérebro!). Snyde emprestou uma gargantilha preta e, por fim, entregou o batom vermelho para a amiga colocar. Depois daquela homenagem, ela não podia deixar de usá-lo, né?
Quando se olhou no espelho, teve uma surpresa extremamente agradável. Tudo combinou perfeitamente, a deixando bonita, mas não arrumada demais. Além disso, ela estava com um toque incrível de Sonserina.
— Rey, obrigada, ficou incrível! — disse, a abraçando.
— Eu sei — ela respondeu, dando de ombros, as fazendo rir.
Black se despediu dela e saiu para o seu primeiro encontro (ou duelo, porque nunca se sabia). Se esgueirou pelos corredores, tentando passar despercebida, e chegou à Torre antes que a sineta tocasse, achando que seria mais fácil esperar ali do que se arriscar mais ainda depois.
Passados alguns minutos, o toque de recolher indicava que estava cada vez mais próxima de encontrar o seu suposto admirador, e seu estômago não parava de se revirar em ansiedade. Ela se sentou no topo da escada, olhando o céu. As estrelas estavam lindas. Não seria nada mal beijar um garoto bonito numa noite assim.
E, mal pensando nisso, ouviu passos subindo a escada. Continuou virada, querendo não parecer muito ansiosa, até ouvir um pigarro.
— Oi, Black. Fico feliz que tenha aparecido.
se virou na direção da voz e encontrou um rosto bonito — bem bonito — e que não era estranho, mas não tinha ideia de seu nome. Provavelmente o tinha avistado em algumas aulas. Ah, ela precisaria contar aquilo depois para Ashley.
Sorriu para ele, educada, mas sem lhe dar muito espaço, sentindo uma leve apreensão no estômago com aquela situação tão nova para si mesma.
— Estudamos juntos, certo? — Arriscou.
— Exato. Phillip Stycer, a sua disposição — ele disse, pegando uma de suas mãos e apertando de leve, antes de depositar um beijo. ergueu uma sobrancelha.
— Bom, certamente eu não preciso me apresentar.
Ele soltou uma risada gostosa.
— Só porque eu sei que seu nome é Black, não significa que eu te conheço. E muito menos que não gostaria de conhecer. — Ele piscou, atrevido.
— Ainda estou avaliando se eu quero te conhecer — ela falou em tom de brincadeira, embora parte da garota levasse aquilo a sério.
— Acho que entendo seu ponto. — Stycer riu, antes de a conduzir para se sentar em um cobertor cheio de pequenos chocolates. se sentiu um pouco mais confortável ao ver que o garoto havia se esforçado um pouco. — Então, me conta aí. Tá gostando de Hogwarts e das aulas?
— Sim, é tudo diferente do que eu conhecia. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. Não parece ser um dos lugares mais acolhedores, mas caí em boas mãos — ela respondeu com um sorriso.
— Acho que é a primeira vez que vejo alguém se referir à Sonserina como “boas mãos” — ele brincou. — Nós, lufanos, que geralmente temos essa fama. Tinha essa disputa também na sua antiga escola? Qual o nome mesmo?
— Ilvermorny — respondeu. — É, as casas lá não são competitivas. E nem tem um monte de gente se auto titulando “comensal da morte”. Acho que nunca mais reclamo das confusões do MACUSA, pelo menos não temos problemas desde Grindewald.
— MACUSA?
— É, nosso ministério.
— Então você tá envolvida no ministério? — ele indagou, do nada.
— Tá maluco? Eu só comentei de lá — falou, exasperada, achando aquilo muito estranho. Afinal, ninguém gostava de se dizer muito envolvido com aquelas políticas duvidosas.
— Foi mal, foi mal, eu só me deixei levar pela curiosidade. Não conheço nada das Américas. Você é meu primeiro contato e, bem — ele a olhou de cima a baixo —, não posso dizer que me desagradou.
Que porcaria de charme. Ela não pôde deixar de sorrir de volta.
— Mas e você? Gosta de Hogwarts? — perguntou, tentando ser simpática.
— Bom, não vejo por que desgostar. É ótimo e, né, não tenho muitos comparativos. — Phillip sorriu para ela. — E você se mudou por quê? Ficar perto da família?
— Na verdade, meus pais desaprovaram os novos métodos de ensino na escola e acharam que uma mudança no último ano faria bem — comentou, sem conseguir conter o sarcasmo. — Eu nem sabia que tinha família aqui.
— Calma, linda, não precisa ficar magoada. — Ele colocou as mãos para cima, em defensiva. — Mas que loucura você não saber de nada. Não tinha nem ideia?
— Não — ela reafirmou, puxando os joelhos para mais perto do queixo.
se sentiu dividida entre aquela sensação amarga que agora associava à sua nova família e certa falta de paciência. Odiava ficar repetindo coisas, especialmente se duvidavam dela, mas depois se deu uma bronca silenciosa: ele só estava tentando ser gentil.
— Bom, e já conheceu sua família, pelo menos? Quer dizer, além dos seus primos, né? — ele falou, gentil, tentando continuar o assunto e superar o súbito silêncio.
— Ah, só coisa rápida — desconversou, sentindo o calafrio que sempre sentia ao lembrar a feição daqueles loucos. E pior, saber que aquela loucura também corria no seu sangue.
— Mas gostou deles? Como foi?
encarou o garoto, a falta de paciência voltando, e arrastou seu corpo para se afastar um pouco, com uma cara feia.
— Olha, se você me chamou aqui no meio da noite pra me interrogar, eu acho que já vou indo.
— Calma, bonitinha, me desculpa! — Ele voltou a erguer as mãos com aquele sorriso muito bonito. Objetivamente, Philip era um dos garotos mais bonitos que ela já havia visto, e era tão estranho ter atenção de alguém assim. — Só quis criar um bom clima. Mas gosto ainda mais dessa sua atitude direta — ele falou isso olhando diretamente para os lábios da sonserina.
— Tudo bem, sei que só quis conversar, mas limites. — Sentiu seu estômago se revirar de ansiedade com a possibilidade de... alguma coisa. — Me desculpa pela grosseria, pode me fazer mais uma pergunta. — Ela sorriu, culpada.
— Uma pergunta? Pretendo usar bem. — Stycer riu, antes de se aproximar e a olhar, maroto. — Já tenho ela em mente. O que eu preciso para poder tirar o seu batom?
ergueu uma sobrancelha, surpresa com sua pergunta direta, mas feliz que tinha sido assim. Talvez fosse melhor só tentar fazer a coisa óbvia que se fazia em encontros.
— Acho que essa resposta não é do tipo verbal. — Ela mordeu o lábio, sorrindo.
Entendendo o convite, Phillip se aproximou até os lábios dele estarem colados aos dela. Nossa, ela não sabia que era capaz de tanta atitude, percebeu ao sentir a pequena eletricidade do beijo a percorrer. Aquilo fez com que ela se sentisse confiante e poderosa. Imersa na sensação, mal percebeu quando ele pediu espaço com a língua para sua boca e, distraída, cedeu.
O beijo era bom. A garota nunca tinha sido do tipo que beijava descontraidamente, sem compromisso, então não tinha muitos parâmetros, mas a princípio o inglês estava causando uma boa impressão. Isso até ele grudar a mão na bunda da garota.
Não era a primeira vez que alguém fazia aquilo com ela, mas era a primeira vez que um total estranho o fazia. O que ela sabia sobre Philip além de ele ser bonito, curioso e lufano? Precisavam viver algumas coisas antes de chegarem àquele ponto.
conduziu a mão dele de volta ao seu rosto, mas ele logo voltou a se aventurar por lá. Ela se afastou, bufando nervosa.
— Qual é a sua, Stycer? Não entendeu que eu não quero?
— Calma, não precisa bancar a difícil — ele falou, manso, a puxando para ele. — Vamos, Black, até parece que não tá gostando.
O tom dele a irritou. Agora que parava para pensar, aquele tom superior e nunca verdadeiramente arrependido esteve ali boa parte da noite.
— Eu estava gostando — ela respondeu, seca. — Não estou mais e não quero mais. Boa noite, passar bem.
Antes que, no entanto, ela pudesse se retirar, a garota sentiu um aperto mais forte no seu braço.
— Você tá de brincadeira, né? Ficou usando aquele batom vermelho a semana toda e vai dizer que não quer nada?
— Sim, é exatamente o que eu estou dizendo — ela replicou, mas ele só continuou a puxando, cada vez mais forte, de forma que começou a machucá-la.
puxou a varinha com a outra mão e berrou:
— Petrificus Totalus!
O aperto no seu braço sumiu, e Phillip Stycer caiu pateticamente para trás. Bufando irritada, ela ajeitou o cabelo e as vestes.
— Que perda de tempo gastar a minha noite com um sujeitinho como você — ela disse, lhe lançando um olhar afiado, enquanto ele não conseguia mexer um único dedo sequer.
Porém, antes de se retirar, ela ouviu os barulhos de alguém subindo correndo. Não tinha lugar nenhum ali onde se esconder e muito menos ocultar um corpo petrificado. Sentiu o desespero e a ansiedade a consumindo. Ela estava, com toda certeza, muito ferrada.
E foi exatamente desse jeito que Remus Lupin a encontrou.
O garoto paralisou no topo da escada, olhando fixamente para a sonserina. Então, ele olhou para o lufano por algum tempo antes de voltar a encará-la.
— Eu poderia me perguntar o que aconteceu aqui, mas não sei se deveria. — Ele tinha as sobrancelhas arqueadas, olhando de Stycer para ela, mas o sorriso de canto o entregava.
— Não se mete, Lupin. Ele pediu por isso. — Deu de ombros, fazendo cara de inocente.
— Talvez ele tenha pedido pelo feitiço. Mas o que dizer sobre você estar fora da cama?
— E você? Qual a sua desculpa? — ela rebateu.
— Eu sou monitor. Faz parte dos meus deveres — ele replicou, impassível, e ela percebeu que estava sem saída.
— Ah, por favor, vai. Eu não sabia que era sério assim. Cobre só essa, juro que não quebro mais as regras. — Provavelmente, uma mentira.
— Não sei se acredito em você, Black — ele pronunciou o sobrenome com o peso de todas as mentiras vividas naquela primeira semana de aula. — Mas dessa vez eu vou deixar passar. Não abuse. Você tá ferrada na próxima.
Seus olhos se arregalaram e ela não pôde deixar de sorrir. Estava livre da detenção, especialmente acompanhada de um nojento.
— Obrigada!
— Só me agradeça se conseguir cair fora daqui a tempo. Filch deve estar a caminho.
— Então vamos logo. Ah, só um segundo — ela pediu, dando meia volta e se aproximando do corpo estático.
colocou seu rosto bem próximo do de Phillip Stycer, sua voz saindo como um sussurro rosnado:
— Se você contar a alguém que eu estive aqui esta noite, ou fizer qualquer coisa parecida novamente, uma noite nas masmorras vai parecer um dia de Natal perto do que farei com você, te fazendo desejar nunca ter me conhecido. Até nunca mais, Phillip Stycer.
Era uma ameaça vazia? Talvez. Mas, depois de anunciada, ela se levantou e jogou os cabelos, sorrindo minimamente com o terror nos olhos do lufano. É, talvez ela tivesse um pouco de sangue Black mesmo.
Resolvida sua ameaça, Eizabeth seguiu rapidamente Lupin pelas escadas, retornando aos corredores escuros de Hogwarts. Sentia a raiva, a angústia e o prazer da vingança percorrendo seu sangue naquele momento, em um turbilhão de emoções.
— Então, vai me contar o que aconteceu lá em cima? — Remus questionou, tirando a garota dos seus pensamentos atribulados.
— Nada que valha a pena ser contado. — Desviou do assunto.
— Bom, pelo seu batom borrado, achei que seria algo emocionante — ele disse, sarcástico.
Automaticamente, ela levou a mão à boca e sentiu suas bochechas um pouco quentes.
— Como eu disse, nada que valha a pena. Não merecia ter estragado minha maquiagem.
Ele deu uma risadinha, mas logo parou ao ouvir passos apressados no corredor. congelou, sem saber se era Stycer, livre do feitiço e ignorando suas palavras, ou o velho zelador que iria colocá-la em encrenca. Movida pelo senso de sobrevivência, ela se jogou em um corredor escuro discreto. Puxou Lupin consigo no último segundo, mas ele apenas se desvencilhou e se colocou à vista para quem estivesse chegando.
— Aluno fora da cama! Aluno fora da cama! — Ela reconheceu a voz do zelador.
— Boa noite, sr. Filch — Remus respondeu, simplesmente.
— A noite realmente vai ser boa com os seus gritos nas masmorras, seu infrator!
— Como você sempre se esquece, eu sou monitor. Estava apenas fazendo minha ronda e cumprindo meu dever.
— Ah..., mas eu te ouvi falando! Deve estar encobrindo algum dos seus amigos delinquentes! — Filch falou e olhou diretamente o corredor escuro. Black sentiu seu sangue gelar.
— Estava falando sozinho para espairecer. Porém, eu realmente escutei algo suspeito vindo da Torre de Astronomia, como alguns feitiços... diria que foi um duelo — ele desconversou rapidamente, e, das sombras, ela pôde ver os olhos de Filch se arregalando, dividido entre tentar encontrar um suposto infrator, ou correr atrás de um possível duelo.
A emoção de pegar alunos duelando no flagra parece ter vencido, porque ele saiu em disparada com seu andar desengonçado na direção de onde eles haviam vindo.
soltou o ar que nem percebera que estava segurando e saiu do corredor, a adrenalina correndo no seu sangue.
— Essa foi por pouco.
— Espero que sirva de lição para não aprontar mais.
— Ei! Pelo que o velhote falou, parece que você e aquele seu grupinho de nome ridículo andam fazendo coisas bem piores — ela sussurrou de volta para ele.
— Nunca coloque um parâmetro ruim para se justificar — Lupin rebateu.
— Então concorda que vocês são ruins?
— Ah, nós com certeza somos péssimos. — Ele sorriu, maroto, e ela não pôde deixar de rir.
— É melhor eu ir andando antes que você me leve para o mau caminho, monitor. — Ela já estava saindo andando, quando se lembrou. — Ah, só mais uma coisa. Se puder deixar tudo isso em segredo, eu agradeço.
O tom de voz saiu um pouco mais raivoso do que suplicante, o fazendo levantar uma sobrancelha.
— Eu não vou contar nada. Na verdade, qualquer um que visse o pânico no olhar daquele garoto hoje, não contaria. Me lembre de nunca me meter com você, Black.
Ela sorriu, a onda de poder a invadindo novamente.
— Você é bem frouxo por não se arriscar, Lupin.
E assim, os dois se separaram, ele subindo para à torre Oeste, e ela seguindo para as masmorras.
— Digamos que não saiu como eu esperava. E prefiro não falar sobre isso.
— Ok... — Ela arregalou os olhos. — Posso pelo menos saber quem foi o pretendente misterioso?
— Stycer — admitiu, depois de engolir em seco. — Phillip Stycer.
— Nossa, aquele lufano bonito?
— As aparências enganam, Reydana — ela disse, simplesmente. — Digamos que os alunos aqui de Hogwarts precisam aprender sobre limites.
As duas seguiram para o Salão Principal, Rey tentando tirar mais informações, e sem desejar muito falar sobre isso. Estavam quase entrando, quando ouviram alguém chamar:
— Ei, Black!
se virou para trás e encontrou Remus Lupin caminhando em sua direção. Bosta de dragão, ela pensou mentalmente. Só faltava ele decidir ignorar seu pedido de ontem.
— Vai na frente, Rey, quero falar com ele rapidinho — ela disse, e sua amiga arregalou os olhos, mas a deixou sozinha.
— Bom dia, Lupin.
— Bom dia, Black.
— Então... como você está? — ele a perguntou.
— Irritada — respondeu simplesmente. — Mas melhor. — Preferiu não entrar em detalhes sobre como se sentia indignada e até mesmo suja.
— Você decidiu fazer algo a respeito?
— Eu prefiro esquecer tudo isso. Acho que a maioria iria se virar contra mim se isso viesse à tona. Descobri que minhas roupas e meus batons falam mais por mim do que eu mesma — reclamou.
— Acho que deveria contar ao diretor, mas, se você prefere assim, tem minha palavra de que ninguém saberá por mim. — Por algum motivo, ela sentia que ele dizia a verdade.
— Obrigada. De verdade. Queria só poder garantir que Stycer vai fazer o mesmo.
— Ah, mas ele não vai contar para ninguém. — Remus deu uma risadinha.
— Acha que ele vai ouvir minha ameaça? — indagou, curiosa.
— Bom, digamos que, depois que eu te deixei na sua sala comunal, eu voltei para ver se Filch o havia encontrado. Não só o encontrou, como o arrastou até as masmorras e o deixou ali, pendurado a noite toda. Eu sou contra esse tipo de atitude e, por isso, tive que contar para todos que Phillip Stycer foi encontrado estuporado e passou a noite algemado no teto das masmorras. Agora, sendo patético como ele é, nunca vai ter coragem de admitir que quem o deixou naquele estado foi uma garota. E claro, além disso, sua ameaça já parecia bem eficaz.
No final, não pôde deixar de rir.
— Não sabia que você era um fofoqueiro, Lupin.
— E não sou. Escapuliu por acidente — ele falou, se fazendo de inocente.
— Obrigada. Você não precisava fazer isso.
— Eu sei. — Ele deu de ombros e sorriu. não pôde deixar de sorrir junto. — Bom, a gente se vê por aí — ele anunciou. — Melhor eu encontrar os marotos.
— Eu nunca vou engolir esse nome idiota. Até!
Ele se afastou e ela voltou para o Salão Principal mais leve. Reydana não podia estar com uma cara de interrogação maior.
— Então quer dizer que agora você é amiga de Remus Lupin?
— Cala a boca — falou, rindo.
A hora do correio chegou e, para a surpresa da americana, três cartas chegaram endereçadas para ela: de sua mãe, de seu pai e de Ashley, que era sua melhor amiga em Ilvermorny. Ela devia estar furiosa porque ainda não lhe mandara nada.
Após o café, ela avisou Snyder que queria olhar o correio e seguiu para o quarto. Olhou para as três cartas, sem saber por onde começar. Pegou a do pai, que provavelmente seria mais curta.
“,
Como você está? Gostou de Hogwarts? Li que você foi selecionada para a Sonserina e não fico surpreso. Eu também fui de lá, assim como toda a família (menos o seu primo Sirius, claro).
O que achou dos meninos, afinal? Estão pegando muito pesado com você? Sirius deve estar furioso... Ele sempre foi meu sobrinho preferido, e eu nunca contei de você.
E você também deve estar furiosa. Me desculpa por te esconder tantas coisas. Um dia, você entenderá.
Espero que tudo esteja bem. Pode sempre contar comigo e com sua mãe se algo estiver errado.
Abraços”.
Ela suspirou, percebendo que entendia muito mais do que ele imaginava as razões dele de a esconder da família. Não sabia como lhe contaria da relação com os meninos sem revelar a missão. Ela pensaria nisso depois.
A carta da mãe foi a segunda.
“Querida ,
Como você está? Fico feliz que já tenha feito uma amiga na Sonserina. Era a mesma casa de seu pai, sabia?
Sinto tantas saudades suas todos os dias. Quando você ia para Ilvermorny, eu sabia que estaria perto qualquer coisa. Agora, estando em outro continente... Parece que tudo ficou pior. Sinto saudades da minha pequena.
Tem certeza de que está se adaptando bem? E gostou do castelo? Sabe que pode nos contar tudo e faremos o melhor por você. Sempre quisemos apenas isso.
Te amo muito e estou morrendo de saudades,
Mamãe”.
Ela terminou de ler tudo com lágrimas idiotas nos olhos. Maldito sentimentalismo. Ela sabia que a mãe sempre quisera o seu melhor, mas relembrar isso agora... Era um peso ainda maior de que era seu dever protegê-la.
Passou para a carta que estava com maior receio de abrir. Ficou incrivelmente surpresa e aliviada por não ser um berrador.
“,
Você tem uma sorte do cacete por ser minha amiga. E sabe por quê? Porque só eu para entender essa sua cabecinha e entender o porquê diabos você ainda não me escreveu!
Você sempre foi magnífica ao se adaptar em situações novas. Mas sempre fez isso muito bem porque se fechava para qualquer sentimento ligado a esse passado. Você acha que eu me esqueci como você foi a única criança no primeiro ano que não chorou de saudade dos pais em algum momento?
Mas eu te peço, de verdade, que, por mais que te doa um pouco manter essa amizade à distância, você não se esqueça de mim. Olha isso, era pra eu estar furiosa e cá estou eu, tentando te ajudar! Sua amizade é muito importante para mim e não será um mísero continente que mudará isso. Nós duas já sabemos aparatar, afinal.
Então, agora que eu já enfiei senso nessa sua cabeça, espero que você me conte TUDO da escola! Em que casa você ficou? A seleção é mesmo como nos livros? E os garotos ingleses? Espero que sejam ótimos pra compensar o clima péssimo do país.
Já tem algum interesse? Me conta tudo e não me exclui da sua vida!
Te amo, sua boba,
Ashley".
Ter amigos que a conheciam há tanto tempo era ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Ashley a entendia e, antes mesmo que se tocasse do que estava fazendo, a amiga percebeu que seu afastamento era proposital, por mais que inconsciente. Na sua rápida adaptação, ela se afastou de tudo o que a lembrava de sua antiga vida.
As lágrimas chegaram sem ela nem se tocar e, ali, ela chorou por tudo. Por ter que passar por uma mudança tão abrupta, por sofrer ameaças, pela maldita missão, por seus pais, pela sua amiga e pelo maldito Phillip Stycer. Ela deixou que o choro a libertasse.
O primeiro mês em Hogwarts foi menos pior do que ela imaginava. Reydana se provou uma grande amiga e ambas ganharam a confiança uma da outra muito rapidamente. até que estava indo muito bem nas aulas e ganhava muitos pontos para a Sonserina.
Também se descobriu como fã de Quadribol, muito mais do que já fora na vida. Embora fosse difícil torcer para a Sonserina com seu maldito primo jogando de apanhador. Uma alegria crescia dentro de si sempre que um balaço voava ameaçadoramente perto dele. E se esvaía quando a partida terminava com ele inteiro.
E, falando de Regulus Black, este não parava de a perturbar em cada segundo. Ele queria porque queria saber como estava sua relação com Lupin e exigiu que os dois fossem amigos até o Natal, dizendo que era seu último prazo antes de passar para a segunda parte da missão.
E quanto a Remus... eles se encontravam frequentemente na biblioteca, mas se falavam muito pouco, pois o grupinho dele ainda suspeitava dela. O problema era que alguma parte muito esquisita de gostava de falar com ele.
Era uma típica segunda feira e, depois do café, ela não pôde escapar de uma aula de Herbologia. Com certeza, não era sua área, mas Rey até que se dava bem nessa matéria. Suas mãos cuidadosas e meticulosas com roupas e penteados a ajudavam na hora. Também era, infelizmente, uma das aulas que o lufano babaca estava. Quando a sineta tocou, foi direto para a aula de Poções, fugindo de Phillip que, embora se mantivesse distante, a enojava com sua simples presença.
Black chegou na sala e se sentou na mesma bancada que Snape e Rosier, sendo recebida com indiferença pelo primeiro e um sorriso caloroso do segundo, o que já era rotina. Rey odiava a matéria e não estava cursando.
— Bom dia! Ora, muito bem, vamos apanhar os livros e os materiais para começar nossa aula! Esse ano teremos os NIEMs, como eu já lembrei vocês, e o ritmo é intenso! Teremos que estudar bastante, certo? Ah, Trevor, meu caro, como vai sua mãe?
— Muito bem, senhor — um menino da Corvinal respondeu. — Disse que agora está sentindo a inspiração para criar mais um contrafeitiço.
— Ho-hô, é claro que está! Mande minhas saudosas lembranças para ela. Muito bem, muito bem, hora de começarmos o trabalho! Quem sabe identificar essa nossa primeira poção? — Ele apontou para um caldeirão que tinha o que parecia água.
A mão de uma menina ruiva da Grifinória, Lily Evans, sentada na mesma bancada que Remus Lupin, se levantou. Aquilo era outro hábito bem frequente.
— É a poção Veritaserum, professor.
— Muito bem, Lily, como sempre! E para que ela serve?
Agora Snape tinha a mão erguida.
— É o soro da verdade mais forte que existe e, por não ter cor nem odor, pode ser facilmente colocado em qualquer bebida sem ser percebido.
— Excelente, meu caro Severus. Excelente! Não será uma poção cobrada na prática para vocês por sua longa demora de produção, mas pode estar na sua prova teórica. Agora, podemos começar com a prática. Muito bem, alguém conhece os efeitos da Poção da Insanidade?
Lily levantou novamente a mão. já havia aprendido que ela e Snape eram os nerds das poções.
— A Poção da Insanidade causa extrema euforia e confusão em quem a ingere. A duração de seus efeitos depende de sua dosagem. Pode ser similar a embriaguez.
— Mas com certeza que pode! — o professor concordou, rindo. — Muito bem, cinco pontos para cada pergunta respondida corretamente. Agora, abram seus livros na página 27 e encontrarão o modo de preparo da Poção. Darei uma hora para vocês. Tenham cuidado e não se frustrem se não conseguirem, é uma poção complexa. Muito bem, podem começar!
abriu o livro e encontrou o que parecia uma receita, embora tivesse ingredientes bem diferentes de um bolo. Primeiro, precisava de Visgo do Diabo.
Ela seguiu, junto a todos os alunos, para pegar os ingredientes. Pegou uma boa quantidade daquela planta esquisita e foi pesá-la na balança. Alguns ramos ainda se enrolavam às vezes em seus dedos, e ela tinha que manter a calma para eles se soltarem, a deixando nervosa.
Metade da turma estava presa no início, alguns progrediam lentamente, como ela, enquanto Evans e Snape progrediam de uma forma absurda. Ela espiava o caldeirão do garoto de cabelos negros de vez em quando e percebia que estava muitos passos à frente. Olhou para Rosier, que parecia ter desistido de sua poção.
— Não colocou a infusão de cogumelo? — ela perguntou, puxando assunto enquanto trabalhava no seu ritmo.
— Coloquei, mas cansei de mexer na metade do caminho. — Evan deu de ombros. — E eu só faço a aula porque meus pais insistem. Não levo jeito. Não como Severus. Ele é um gênio das poções.
— Eu só presto atenção, Rosier, coisa que você devia fazer. — Snape se intrometeu, focado em seu caldeirão, voltando a ignorá-los em seguida. Embora falasse aquilo, tinha um sorriso mínimo de orgulho nos lábios.
— Você poderia me ajudar a prestar atenção, mas você desiste — Evan brincou.
— Você não quer ajuda pra prestar atenção, quer que eu faça a poção pra você.
— Não podia nem liberar alguma diquinha?
Snape suspirou.
— Coloque três gramas a menos de pó de infusão de morcego — ele disse, antes de sair para pegar seu último ingrediente.
— Se você diz! — Evan replicou, sorrindo, adicionando o pó esquisito.
— Rosier, você nem tinha terminado de mexer ainda! Não era o próximo passo — ela o alertou.
— Não era mesmo, mas o tempo tá acabando. — Rosier apontou para a ampulheta no fim da sala.
Merda! Ele tinha razão. A garota correu para pesar seu pó de infusão de morcego.
— Lembra, três gramas a menos! — Evan repetiu.
— Mas as instruções não dizem isso.
— Vai por mim, o cara é um gênio. Um saco, mas inteligente.
No último segundo, ela tirou os três gramas e prendeu a respiração, mas percebeu que a poção atingiu a cor exata descrita. Faltavam apenas mais uns cinco minutos fervendo e mexendo no sentido anti-horário e...
— O tempo... acabou! — o professor anunciou. — Por favor, parem de mexer.
Frustrada, ela se afastou do caldeirão. Por tão pouco, não havia terminado a sua poção que, mesmo que pudesse identificar vários erros para não estar perfeita, ia ficar pelo menos boa. Snape e a ruiva foram os únicos que se afastaram sorrindo, embora Lupin também parecesse despreocupado.
— Muito bem, Trevor, muito bem. Embora tenha errado a mão na essência de murtisco, estou certo?
— Uma noite mal dormida, professor, e já confundi tudo. — O corvino riu, e o professor sorriu para ele.
— Muito bem... Vamos ver... — O professor passou rápido pela mesa em que James e Sirius conversavam entre si, com poções razoáveis, mas que pareciam ter sido abandonadas na falta de paciência para ser concluída.
Slughorn sorriu, balançando a cabeça em negação, e foi para a bancada com dois alunos da Lufa-Lufa, sorrindo e dando alguns conselhos, mas claramente sem estar impressionado.
Quando alcançou a mesa dos grifinórios, seu sorriso cresceu muito, e a sonserina pôde ver sua leve predileção aparecendo novamente.
— Ah, Lily Evans, minha jovem! Excelente, excelente como sempre! Devo dizer que ainda me surpreendo com as suas intuições e seu jeito para poções! Dez pontos para a Grifinória pelo excelente trabalho! E, por Merlin, que trabalho!
já estava ficando sem paciência para aquela bajulação, mesmo estando impressionada com a poção. Qual é, ela só seguiu um bando de instruções.
— Ah, parece que o jovem Lupin também se destacou! Meu caro, quando está longe dos outros, você mostra muito potencial! Deveria refletir sobre isso para o seu futuro.
— Ei, Remus, não escuta ele! — Sirius exclamou, e parte da turma riu, enquanto outra parte (Snape, em especial) revirava os olhos.
— Obrigado, professor, mas acredito que pretendo levar mais amizades do que NIEMs para o futuro — Lupin respondeu, educado e envergonhado, fazendo o professor sorrir.
Então, finalmente o professor chegou à mesa dos sonserinos. O caldeirão de Snape fez os olhos do professor dobrarem de tamanho.
— Ho-hô! Parece que dessa vez você teve a melhor poção, meu caro, como sempre! Que talento esplêndido! Daqui a pouco, estarei perdendo meu emprego para você! Quinze pontos para a Sonserina pela melhor poção da sala!
Snape sorria pomposo e ela teve que rir, ao mesmo tempo que revirava os olhos. Talentoso, mas um pouco patético também. Evan foi o próximo a ser analisado, e o professor não formulou nenhum comentário concreto, apenas um “continue tentando", com um sorriso benevolente.
O professor podia ter seus favoritos e isso era extremamente irritante, mas ao mesmo tempo não humilhava ninguém em sala. Não era o melhor para se fazer como um educador, mas provavelmente era o jeito dele. Ela já aprendera a lidar.
— Senhorita Black, bom trabalho! Acredito que mais alguns minutos e você teria completado a poção corretamente! Diga-me, por acaso sua antiga professora era Clarion?
se assustou ao ouvir o nome da sua antiga professora.
— Sim, senhor. Como sabia?
— Ah, Clarion e eu nos conhecemos de muitos congressos bruxos de poções! Excelente professora, brilhante! Deve ter orgulho de nos enviar uma aluna tão boa.
Ela não pôde deixar de sorrir diante dos elogios e sentir provavelmente um pouco do que Evans e Snape deviam sentir perante àquela bajulação.
— Obrigada, professor, mas é muita gentileza sua.
— Bobagem! Bom, antes que nosso tempo se acabe, peguem um frasco e coloquem uma amostra da poção para eu avaliar. E, para casa, procurem as legislações e debates acerca da legalização e uso da Poção da Incoerência. 25 cm de pergaminho, para começarmos a aquecer!
O professor mal terminou de falar e a sineta tocou. Imediatamente, Sirius e James deixaram seus frascos e saíram correndo para fora da sala. Remus depositou seu frasco sem pressa, mas logo já estava na cola dos outros. Quando ela estava deixando sua amostra, o professor a chamou:
— Senhorita Black, se importa de ficar um pouco mais?
engoliu em seco e esperou até restarem apenas os dois na sala.
— Professor, eu fiz algo de errado?
— Ho-hô, certamente que não! Você é muito carismática e engraçada, senhorita, sempre achando que está com problemas.
— É que às vezes pareço atraí-los sem perceber — comentou, dando de ombros, lhe tirando uma risada.
— Acredito que muitos se reconhecem nessa situação. Muito bem, mas eu queria propor-lhe uma coisa.
Seus ouvidos ficaram aguçados.
— Sim, senhor?
— Minha cara, eu não sei se você sabe, mas dei aula para toda sua família! Os Black sempre foram alunos brilhantes, e achei que já estava sendo presenteado com Regulus e Sirius, mas que grande surpresa foi a sua chegada! E Alphard, seu pai, foi um dos meus primeiros alunos. Que grande garoto, e hoje um grande homem! Fiquei muito contente ao descobrir que ele tinha uma filha.
Do jeito que Slughorn falava, parecia que ele estava falando de troféus, e não pessoas, mas ela não pôde deixar de fechar a cara com a menção dos Black, para depois sorrir ao imaginar seu pai tão novo.
— Sabe — o professor continuou —, no próximo sábado, vou fazer uma pequena ceia nos meus aposentos e eu sempre gosto de ter a companhia de astros e estrelas em ascensão, meus brilhantes alunos! Claro, é uma reunião restrita, apenas para alguns selecionados, mas, para esse primeiro jantar, vou permitir que cada um leve um acompanhante, para nos enturmarmos! E então? O que me diz?
Ah, aquele deveria ser o Clube do Slug, ou o que quer que Reydana tivesse chamado. Sabia que ela desaprovaria aquilo, parecendo nutrir um grande rancor, mas um jantar não daria problemas, certo? Até porque ele provavelmente perderia o interesse logo, ela não era muito brilhante.
— Claro, professor — respondeu, dirigindo a ele um dos seus melhores sorrisos. — Será uma honra.
— Ashley, eu não sei... E se ele disser não?
— Aí você não vai sair com ele, o que é exatamente o que vai acontecer se você não for lá. Mas, se você for, ainda terá a chance de ter um sim. Então tira essa bunda daqui e vai convidar esse garoto que você gosta!
se levantou, suando frio. Era horrível ter treze anos e nenhuma experiência com garotos ou encontros. Ou, por Merlin, beijos!
Olhou para a melhor amiga. Ela era tão bonita! Tinha acabado de fazer catorze anos e tinha tantos meninos atrás dela. Ashley nem precisava pensar em convidar alguém e, mesmo se tentasse, a resposta era um sim garantido.
ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha e respirou fundo. Era só chamar. Se desse errado, seria apenas uma lembrança engraçada no futuro. Uma lembrança humilhante que provavelmente a assombraria pelo resto da vida e traria diversos traumas.
Com as mãos tremendo, ela avançou na direção de Jacob Kirst. Ele era um ano mais velho, com o cabelo tão brilhante e o sorriso branco lindo contrastando com sua pele escura. Era impossível não se apaixonar, ainda mais que ele era tão simpático e inteligente e popular e...
Afastou aqueles pensamentos. Não adiantaria nada babar aquele garoto de longe e não tomar atitude. Chegou perto do grupo de garotos saindo da sala de Feitiços e pigarreou. Pateticamente, ela foi completamente ignorada. Pigarreou mais alto e cutucou Jacob. Agora, ele olhou para ela.
Na verdade, todos olharam para ela.
Ai, meu Deus. Como ela ia falar aquilo na frente de todos os amigos mais velhos dele? Ia ficar taxada como piada! Era melhor voltar atrás, sim, era melhor...
— Posso te ajudar? — Jacob perguntou.
Não tinha mais como voltar atrás. Estava presa. Jacob a notara. Por Merlin, Jacob Kirst estava falando com ela! Bom, ele pelo menos agora sabia da sua existência, era melhor não sair como boba, né? levantou o queixo e o encarou, determinada.
— Kirst, eu queria saber se você quer sair comigo.
O primeiro segundo foi de total silêncio. Um alívio tomou seu peito por expulsar aquelas palavras de uma vez, mas então o pânico preencheu cada espaço liberado. O que ele iria responder?
Bom, ela deveria ter esperado, mas mesmo assim tomou um susto quando todos os amigos dele começaram a rir, chamando a atenção de outras pessoas ao redor. queria sumir. Fugir. Ser engolida. Ou melhor, estuporada. Até um Avada Kedavra parecia aceitável. Mas o pior, com certeza, estava por vir.
— Qual é o seu nome, menininha? — Jacob perguntou.
— É... . Picquery.
— E quantos anos você tem, Picquery?
— Treze anos.
— Sabe, , você parece uma boa menina, mas é muito nova. Tenho certeza que um dia você vai achar alguém para você, viu?
já havia relembrado aquela cena diversas vezes desde o momento em que ela acordara. Lembrou como Jacob Kirst tentou ser gentil, mas sua gentileza só aumentou as risadas ao redor e fez com que ela se sentisse uma pirralha idiota. Lembrou de como Ashley a abraçou a noite toda até dormir, enquanto chorava. Depois, ela a fez prometer que nunca mais choraria por homem.
Porém, mesmo sem chorar mais por ninguém, ela nunca mais teve coragem de tomar atitude. Podia flertar, deixar claro suas intenções, mas nunca mais chamou ninguém para sair. Se quisesse, viesse até ela. nunca mais queria levar um fora.
E, por isso, ela estava para morrer com o que estava prestes a fazer.
— Come alguma coisa, Black, parece que você vai desmaiar a qualquer momento. Precisa ir até a Madame Pomfrey? — Reydana disse, mordendo uma torrada.
— Não, eu tô bem. — Black tentou tranquilizá-la, mas a voz saiu um pouco mais aguda do que gostaria.
— Não me diga que é por causa daquele convite que você tá enrolando.
— Shhhh! Oh, Rey, você quer que Hogwarts inteira saiba? Já não basta minha ansiedade sozinha?
— Tá com medo de Hogwarts inteira ou de um tal de Lup...?
— Já deu, Snyde! Você pretende me humilhar por conta própria antes que eu faça isso comigo mesma e só me faz ter vontade de não passar por nenhum!
— Ah, vai! Já tem duas semanas e esse garoto tá sempre te olhando, dando sorrisinhos, te cumprimentando, sendo simpático até demais.
— É porque ele é simpático.
— Não é não. Ele é quieto e só fala com os mesmos amigos. Mas ele tenta falar com você!
— Até parece — falou, mas sentiu um sorriso mínimo querer surgir no rosto. Maldito Remus Lupin, garoto bobo que ela tinha que se aproximar pela missão.
Ou assim ela afirmava o tempo todo, já que essa era sua única motivação. E não aquele sorriso de lado marcado por uma cicatriz leve no lado direito.
— Que sorriso bobo é esse? Ah, não me venha dizer que estava pensando no grifinório — Reydana debochou.
— Claro que não! — Claro que sim, sua cabeça retrucou e teve vontade de socar a si mesma por se entregar tão fácil. — Ahn, Greengrass, que horas são?
Martha e Layla estavam conversando, mas a segunda levou um susto ao ser chamada. Educada como sempre, ela olhou para seu relógio delicado e prateado.
— São sete e meia.
— Olha a hora! Obrigada, Greengrass. Vamos, Rey, temos aula de Transfiguração.
levantou correndo, pegando a mochila com seu material e não olhou para trás. Ouviu passos e logo viu Rey a acompanhando.
— Tá maluca, ?
— Talvez um pouco — admitiu.
— Não vejo a hora de você resolver isso da festinha chata do Slughorn e seu favoritismo.
— Tomara que passe logo mesmo. Ai, eu nem comi direito.
— Toma, eu guardei um bolinho pra você.
Ela olhou para Rey, se sentindo grata pela amizade que tinha conseguido naquela escola. Poderia ter se envolvido com alguém que se aproveitasse dela, ou a excluísse, ou até coisa pior. Mas, já de primeira, havia ganhado uma melhor amiga.
— Para amanhã, entreguem um pergaminho de um metro sobre os possíveis problemas de uma Transfiguração humana mal feita — McGonagall falou, antes que todos se levantassem.
— Essa mulher se diverte com nosso desespero, só pode. Ainda bem que temos um tempo livre agora — Rey resmungou. — E você: tem um trabalho e um convite a fazer.
bufou. Como se tivesse esquecido. Mas ela estava determinada a fingir que esquecera. Agora não tinha volta.
— Tá bom, tá bom, eu vou lá. Já volto.
Levantou da carteira e pegou seu material, se misturando na onda de alunos saindo para discretamente se aproximar do aclamado grupo dos “marotos".
— E pensar que esse é um dever leve para amanhã — James comentou, revirando os olhos. — A Minnie não sabe mesmo ir com calma.
— Meu feitiço é tão fraco que nem problemas ele pode causar — Peter falou em um muxoxo.
— Acho que vou ajudar Lacey Evermonre nos estudos. — Sirius deu de ombros e sorriu de canto.
— Nos acha tão burros a ponto de pensar que acreditaríamos nisso? — Remus rebateu
— Mas eu não menti. Só não disse quais estudos. — Black piscou e os amigos riram, dando tapinhas nas costas dele.
— Isso é o tipo de coisa que eu gostaria de fazer com a Lily. Mas ela leva os estudos apenas para a parte chata. — Potter balançou a cabeça.
— Bem parecida com o nosso amigão Aluado aqui. — Sirius abraçou Lupin de lado. Aluado? Que apelido esquisito.
— Não sei como você aguenta ficar mais de cinco minutos na biblioteca. — Peter estremeceu.
— Bom, Rabicho, sinto lhe informar que é melhor você aprender a gostar também para se manter nessas aulas. — Lupin riu. Aqueles apelidos estavam cada vez piores.
— Eu, pelo menos, não preciso da biblioteca. Vou treinar agora e depois eu vejo o dever. Talvez eu veja minha ruiva favorita nas quadras olhando por mim — James falou, um tom um pouco apaixonado demais na opinião de .
— Entre estar na biblioteca estudando e te ver você acha que ela te escolheu? Certeza que o Ranhoso não colocou nada na sua bebida? — Peter retrucou.
— Como se precisasse. Esse aqui caiu de cabeça quando nasceu. — Sirius deu uma gargalhada meio latida e os dois amigos começaram a trocar socos rindo. Ela não pôde deixar de revirar os olhos. Garotos.
— Eu vou passar na cozinha. Estou nervoso demais para pensar agora — Pettigrew disse com a voz aguda.
— Então eu vou encontrar a Lacey. — Sirius piscou. — E você, Aluado? Ah, como se eu tivesse que perguntar.
— Vou para a biblioteca. Vejo vocês mais tarde.
Os amigos vaiaram.
— Você precisa se divertir, parceiro! É o último ano! — James exclamou.
— E eu me divirto. Amanhã, com meus deveres prontos. — Remus sorriu.
— É bom planejar algo decente para compensar a perda dessa tarde — Sirius rebateu.
— Esperem semana que vem e vocês verão — Lupin disse.
Os “marotos” se separaram no corredor, cada um para o seu destino, e seguiu no mesmo caminho de Lupin: a biblioteca. Talvez ela pelo menos conseguisse terminar aquele maldito dever.
— Pode parar de se esconder agora, Black. — Ela escutou a voz de Remus. Quando focou o olhar, ele já estava bem na sua frente. No meio da sua distração, ele havia parado e ela se aproximou demais.
— E o que te faria achar que eu estava me escondendo? — retrucou, sem ceder.
— Bom, o fato de que estava nos observando desde lá de trás e agora me seguiu por aqui, mas sempre mantendo a distância.
Maldito garoto observador. Mas ele não venceria tão fácil assim. Ela respirou fundo e levantou uma sobrancelha, sorrindo.
— Ora, ora, alguém anda com a auto estima muito boa! Não se pode mais seguir o mesmo caminho da biblioteca que já estou te perseguindo.
— Seguir o mesmo caminho e ouvir conversas alheias são coisas diferentes, .
— Então talvez vocês devessem falar mais baixo, Remus.
Ela viu seu rosto ficar levemente corado e comemorou internamente. Ela não podia já se humilhar sem começar a fazer isso propositalmente?
— Bom, eu vou seguir para a biblioteca, se você não se incomoda. Sabe como é, tenho um pergaminho de um metro para fazer antes das aulas de Feitiços.
Ele pisou para o lado.
— O caminho é seu.
Ela começou a andar, um pouco decepcionada com o rumo das coisas, mas seu sorriso voltou assim que ouviu os passos atrás de si.
Chegaram à biblioteca e pegaram alguns livros do assunto que a McGonagall estava dando. Se sentaram em uma mesa e, por algum tempo, ficaram somente ali, com o barulho das folhas dos livros sendo viradas e as penas arranhando o pergaminho. Era confortável. Mas ela sabia que não podia adiar mais aquilo.
Mas, primeiro, estratégia.
— Já que seus amigos falam alto, acho que eu tenho direito de perguntar. Quem é Lacey Evermonre?
Lupin ergueu os olhos levemente arregalados.
— Você é um pouco atenta demais na conversa dos outros, não?
Ela não pôde deixar de revirar os olhos.
— Talvez se vocês fossem mais discretos, eu não precisaria escutar. Vai, você já sabe que eu ouvi. Não custa me contar.
— Lacey é só uma garota da Corvinal. Mais uma das admiradoras do seu primo.
— Então, ele tem admiradoras? — ela perguntou em um sussurro, contendo o riso.
— Ah, sim. Todas as garotas da escola só falam nele. Metade querem arrancar a cabeça de cima e a outra metade quer a cabeça de baixo.
O riso saiu antes que ela pudesse controlar. Como se fosse chamada pelo barulho, Madame Pince se materializou ali.
— Shhhh!
engoliu o riso o máximo que conseguiu e esperou que ela saísse de perto. Quando a bruxa sumiu, Black se virou para Remus, ainda um pouco sem ar.
— Não sabia que você era tão atrevido, Lupin.
— Sou apenas honesto — ele rebateu.
— Então Sirius é o desejado, Potter é apaixonado pela Lily. Aposto que até o Peter consegue alguém de vez em quando.
— Algumas cervejas amanteigadas no Três Vassouras podem providenciar de tudo.
— E você? Também joga com os encontros no Três Vassouras? — jogou a pergunta, sabendo ser um pouco ousada, mas precisando averiguar a situação.
Não foi à toa que Lupin ergueu as sobrancelhas.
— Cada vez mais intrometida, Black. Uma verdadeira sonserina.
— Você não está parecendo um verdadeiro grifinório para responder minhas perguntas — respondeu na voz sussurrada.
— Acho que não te responder exige certa coragem. Mas não, eu não estou com ninguém. Por que tanto interesse, Black? — ele perguntou, divertido, as malditas sobrancelhas ainda erguidas.
— Por pura curiosidade. Sabe como eu gosto de ser intrometida. — Ela sorriu olhando em seus olhos e depois fingiu ler algo em um dos livros ali dispostos.
— Mais alguma pergunta, senhorita intrometida? — ele ironizou.
— Ah, já que você foi tão gentil em perguntar... Conhece o Clube do Slug?
— Suas perguntas são realmente caixinhas de surpresa, Black.
— Pode me chamar de se responder a esta.
— Tudo bem, — ele pronunciou, olhando nos seus olhos. Ela sentiu um leve arrepio. — E sim, eu conheço. A namorada do meu melhor amigo é a aluninha preferida do Slughorn.
— Conceito interessante, não acha? Não existia isso em Ilvermorny. O que você acha desse clubinho? — perguntou, fingindo inocência.
— Eu acho importante um professor valorizar um bom aluno, mas não exatamente da forma que ele faz. Ele esquece de incentivar os outros no processo, olhando para os talentosos. Por isso que, quando ele me convidou para ser do clube, eu recusei o convite.
Merda. Ela não contava com essa. Mas fazia todo sentido, afinal, Remus Lupin era muito inteligente para não ser chamado, porém com um lado um tanto rebelde influenciado pelos amigos que não permitiria que ele fosse.
Ok, mudança de planos. Ela teria que convencê-lo. E ela só tinha uma maneira de tentar.
chegou sutilmente mais perto dele e se inclinou para pegar um livro que estava próximo dele. Esbarrou no seu braço no caminho e ela sabia que ele estava atento a cada movimento. Ao seu lado, ele estava ficando um pouco mais tenso.
— Você poderia ter pedido para que eu pegasse para você — ele disse, a voz agora ainda mais baixa com a recente proximidade.
— Mas aí não teria graça, certo? — Ela levou um dedo aos lábios, pensativa.
O olhar dele percorreu o movimento da mão da garota e se deteve em sua boca. O estômago de se movimentou um pouco com a ansiedade, mas ela se sentia desejada. E aquilo era incrível. Ele se inclinou levemente e ela decidiu que era agora ou nunca.
— Sabe, eu sei que você odeia o tal Clube do Slug e sei que ainda é terça, mas... Você reconsideraria seu ódio e iria comigo num jantar do clube nesse sábado?
Lupin se resetou imediatamente.
— Eu...
Ela começou a ficar ansiosa. Esperava uma resposta imediata. Caramba, ele estava quase a beijando antes!
sentiu o corpo dele se afastar antes de propriamente ver. Ele se ajeitou na cadeira e olhou para o lado.
— Me desculpa, , mas... Eu não vou.
O sorriso dela murchou.
— Você não quer ir?
— Não, eu quero! Mas... Eu não posso — ele afirmou, a deixando confusa.
— E por quê?
— Porque... Bom, porque... Eu só não posso. Desculpa, .
— Por que você não pode, Lupin? — repetiu, irritada com aquela enrolação.
— Eu... — Ele engoliu em seco e desviou os olhos, ficando em silêncio.
Ela semicerrou os olhos. Nem conseguia inventar uma desculpa. Maldito Remus Lupin. Ela pegou o pergaminho e sua pena e jogou na mochila, levantando rapidamente da cadeira. A voz de culpa dele a atingiu quando ela se virou de costas:
— ...
Ela virou de volta para ele, o ódio frio em seu sangue, e replicou, antes de sair:
— É Black para você.


