— Mas isso não faz o menor sentido — Reydana comentou, mastigando irritada o café da manhã. — Eu tinha certeza de que alguma coisa estava rolando.
concordava com ela, mas se recusou a demonstrar. Seu orgulho já estava ferido o suficiente com o fora nada esperado que recebera de Remus Lupin.
— Ele estava todo simpático com você. Por que ele falou que não iria? — Rey pensava sozinha.
— Ele falou que não podia — corrigiu, sentindo a raiva transbordar no sarcasmo que usava.
— E sem justificativa. — Rey revirou os olhos.
— Pelo visto, não dei tempo o suficiente para ele inventar uma. – revirou os olhos também.
— Mas, pensa, não é obrigatório você levar um par. E muito menos ir. Você nem deveria se submeter a essa tortura — Reydana completou, lembrando mais uma vez a amiga (como se fosse possível esquecer) o quanto ela odiava aquele clube elitista.
Era algo que fazia sentido de se odiar quando estava de fora. Mas, estando dentro... É, certamente queria comparecer.
— Não tem nenhuma chance de você ir comigo, né?
— A não ser que você me queira vomitando a noite inteira, não.
Ela bufou, mesmo sabendo da resposta que a amiga daria. Por que aquilo tinha que ser tão complicado? Ela finalmente estava vendo uma esperança, uma chance de cumprir sua missão e se divertir porque, apesar de ela nunca admitir em voz alta, Remus Lupin era charmoso. E inteligente. E engraçado.
E um filho da puta.
Sua expressão irritada se intensificou e procurou um dos causadores de tudo aquilo. Olhou para o “maroto” na mesa da Grifinória. Ele conversava com os amigos e, embora aparentasse estar abatido, nada mais demonstrava nenhum sinal de que havia algo errado. Talvez por sentir o olhar da sonserina, o garoto levantou os olhos e a viu. Não pôde deixar de ficar satisfeita quando ele se encolheu no banco. Continuou com o olhar firme até ele desviar o seu. Patético.
Então, se lembrou que nem tudo era culpa de Lupin. Não, havia a maldita família Black. Ela os odiava. Odiava com todas as suas forças. Eles estragaram um ano de novas possibilidades. Eles arruinaram tudo e se meteram no que era mais importante para ela: a sua família.
fixou o olhar em Regulus Black, imaginando maneiras torturantes e maravilhosas de assassiná-lo. E claro, na frente da mãe, a idiota que ela amaria atacar em seguida. Rangeu os dentes conforme a fúria crescia. Ela os odiava.
Regulus, que não estava tão distante, ergueu os olhos para a prima. Suas sobrancelhas saltaram em sua testa, mas ele manteve o olhar. Ridículo. Bom, talvez com ele tão focado nela, poderia colocar sua raiva para fora sem que ele percebesse. Poderia dar muito errado, talvez não fosse o mais sensato.
Mas então ele empinou o maldito nariz nojento dele e, para ela, foi a gota d’água. Sacou a varinha por baixo da mesa e, embora olhasse em seus olhos esverdeados e cinzentos, pensou no feitiço e realizou o movimento discretamente. Manteve o olhar nos seus olhos, torcendo para que ele focasse apenas no seu rosto.
–—Regulus — o garoto loiro ao lado dele o chamou.
— Depois, Bartô — ele disse, rosnando.
— Regulus, sua calça. — Bartô o cutucou até que ele olhasse para baixo. Então praguejou, chamando atenção de todos na mesa.
Porque o seu suco de abóbora havia caído na parte superior da sua calça, mas parecia na verdade que ele não chegara ao banheiro a tempo. fez uma cara de surpresa que com certeza deixaria Ashley orgulhosa.
Ele praguejou ainda mais e sacou a varinha para se limpar, mas os risinhos já preenchiam a mesa. Afinal, a mancha estava parecendo de outra coisa. Batendo o pé, Regulus saiu do salão junto ao seu grupinho de idiotas, seguidos pelas risadas.
Ah, o doce sabor da vingança. A sonserina bebeu o seu próprio suco para esconder o sorriso que brotava em seu rosto. Ninguém vira, nem mesmo Snyde.
Ou quase ninguém, porque, do outro lado do salão, Remus a encarava curioso, e algo lhe dizia que ele conseguia ler cada um dos seus pensamentos e saber o que ela fizera. Aquilo a deixou subitamente nervosa e embrulhou meu estômago. Não aguentava mais um segundo estando no mesmo ambiente que ele.
— Rey, esqueci meu livro de Defesa Contra as Artes das Trevas. Já volto.
— Quer que eu vá junto? — ela perguntou, ainda mastigando.
— Não se preocupe. É rápido.
E saiu apressada do salão, confusa com tantas coisas acontecendo. Queria estar em casa. Queria que tudo estivesse normal. Queria ter feito seu último ano em Ilvermorny, com Ashley, onde tudo era confortável e seguro.
Atordoada, olhou em volta e percebeu que estava no segundo andar, ainda vazio. Seu estômago estava embrulhado com a ansiedade e ela só pensava em sair dos corredores que faziam com que ela se sentisse exposta. Caminhou até o banheiro feminino, mas ficou em dúvida se entrava. Reydana havia dito que ninguém usava aquele banheiro, mas nunca explicara muito bem o porquê. Pensando bem, ela nem sabia se Reydana mesma conhecia o motivo.
Bom, não custava nada.
Entrou no local e viu um banheiro bem iluminado e organizado, além de bem espaçoso. Não havia nada de errado ali. Nenhum espelho quebrado, nenhuma porta fora do lugar. Tudo estava em perfeita ordem.
O espaço perfeito para organizar sua cabeça também.
se apoiou na pia, tudo dentro de si doendo. Sentia uma vontade absurda de gritar, chorar, bater em alguma coisa. Qualquer atitude, menos ficar parada aturando tudo aquilo.
Talvez seus pais estivessem provando do próprio veneno ao serem ameaçados por causa do único segredo que teimaram em esconder (até onde ela sabia).
Não, aquilo era injusto com eles. Provavelmente, só queriam afastá-la daquela gente louca. Droga, mas ela queria ao menos ter sabido que poderia acabar tendo que lidar com eles!
Sem aguentar mais, bateu com a mão firme na pia, soltando um arquejo com a dor que invadiu. Garota estúpida!
Atordoada com a dor e sua atitude impensada, ouviu um sussurro baixo e distante. Ela se virou apressada, com um receio inexplicável de ser vista assim tão vulnerável, porém, para sua surpresa, o banheiro estava exatamente igual a quando entrara: vazio. Mas o barulho continuava ali. Ela escutava, tão baixo que era quase inaudível.
— Tanto tempo... — Era tudo que ela conseguia ouvir.
Procurou a origem do barulho, mas parecia estar vindo de nenhum lugar e de todos os lugares ao mesmo tempo. Sua cabeça parecia prestes a explodir. Odiava estar em contato com algo que não conhecia e não podia controlar, mesmo que isso, de certa forma, fosse a definição de magia. Pegou a varinha por precaução e começou a se aproximar das cabines dos banheiros, lentamente.
Uma a uma, abriu as cabines, sentindo a ansiedade acelerar seu coração em cada porta que era aberta: para então sentir um alívio por tudo estar vazio. Finalmente, alcançou a última cabine e, respirando fundo, empurrou a porta.
E sentiu seus tímpanos explodirem com o berro que saiu de lá.
— QUEM É VOCÊ?! O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI?! — A voz aguda saía da cabine. Ao olhar dentro desta, ficou chocada com o que encontrou: o fantasma de uma garota. Não pôde evitar encará-la e perceber suas vestes. Não era uma garota qualquer, era uma aluna.
Ao ver seu rosto se contorcer, percebeu que não havia respondido sua pergunta.
— Ahn, eu... Eu sou Picquery, quer dizer, Black. Black. E eu... tô no banheiro — respondeu, confusa.
— Black? — a fantasma de óculos, maria chiquinhas e voz irritante indagou, parecendo divagar sozinha. — Eu conheci duas Black. Elas eram mais velhas e viviam juntas. Estavam sempre rindo de mim — a garota continuou, a voz parecendo um lamento miúdo. — Elas riam de mim. — Ela parou e olhou para . — É isso que você veio fazer, não é? — Sua voz agora estava ácida. — Rir de mim, como todos. “Ah, olhem a Murta Que Geme, por que não atormentamos sua morte?”. “Por que simplesmente NÃO TIRAMOS SARRO DELA?!”
— Olha, mal aí, eu só queria usar o banheiro — disse, vendo a fantasma começar a se exaltar.
— Ah, só queria usar o banheiro... — ela disse em sua voz suave, olhando para a sonserina. — MENTIROSA! SAIA DAQUI!
A garota morta não parava de gritar, e começou a entender o porquê de ninguém pisar naquele lugar. Pegou sua mochila e começou a sair, quando, de repente, se virou, irritada.
— Ô, maluca! Quer saber? É por isso que ninguém vem aqui e, quem vem, tira sarro de você. Você é insuportável! Aproveita seus anos de morte e vê se cria vergonha na cara! — falou e correu para fora, escutando seus gritos de lamúria se misturando a raiva e surpresa.
Quando já estava longe do banheiro, o sinal tocou e teve que se dirigir logo à sala. Respirou fundo e voltou a andar, ainda incrédula com o que havia acontecido.
Certamente, Hogwarts era uma escola curiosa.
🌖 🌖
Todas as aulas do dia haviam, enfim, acabado. O último ano já era puxado por conta dos exames finais (que aqui eram chamados N.I.E.M.s), e a menina tinha de brinde uma mudança de escola, uma ameaça à sua família e uma vida amorosa desastrosa. Não era exatamente o melhor ano da sua vida.
Suspirou aliviada com o sinal e pegou seu material. Rey não fazia aquela aula de Aritmancia, então iriam se encontrar no Salão Principal para o jantar. seguiu para fora, se misturando aos muitos alunos no corredor, desejando só comer logo que possível. Aquele grupo de pessoas, que ajudava a garota a se misturar e se tornar invisível, também estava a irritando com seus passos lentos e paradas repentinas no corredor.
Ela ainda não conhecia a escola bem o suficiente para se aventurar pelos corredores, no entanto, seu humor já estava péssimo e ela não tinha paciência para aturar aqueles alunos lentos. Por isso, virou em um corredor que tinha quase certeza que também chegaria no Salão e seguiu por aquele caminho, com poucas pessoas e cada vez com menos.
Continuou seguindo pelo corredor até que alcançou as escadas das masmorras. Aí, ela se tocou: havia errado todo o caminho.
Frustrada, bufou alto. Não acreditava que teria que voltar por todo o caminho. Seu estômago roncou, a deixando mais frustrada.
Decidida a aceitar seu destino, ela se virou e recomeçou seu trajeto, quando foi parada por uma voz:
— Ora, ora, se não encontrei justamente a pessoa com quem eu queria conversar.
se virou, irritada e levemente temerosa, para encarar aquele garoto saindo das masmorras que ela desejava nunca ter conhecido.
— O que você quer, Regulus? — perguntou, ainda andando.
Rapidamente, ele a alcançou e se colocou na frente dela.
— Aonde vai com tanta pressa? Temos muito o que conversar.
— Não tenho nada a falar com você — falou, curta e grossa.
— Ah, é? — Ele apoiou uma mão no ombro da garota. — E como vai sua missão?
— Não me toque — ela rosnou, tentando se desvencilhar, porém seu aperto era forte.
— Você não me respondeu. Como vai a missão? Acha que eu não notei aqueles olhares esquisitos no café da manhã?
— Tá me monitorando, é?
— Você sabe que essa é minha função. — Ele a apertou mais forte. — Desembucha.
— Tá bom, seu idiota. Eu tentei me aproximar de Remus chamando-o pra uma festinha, e ele foi escroto. Era isso que você queria? Pronto — resmungou, entredentes.
De repente, ele a empurrou contra a parede, o aperto do braço machucando ainda mais.
— Você se acha muito engraçadinha e corajosa, né? Achando que pode dar essas respostas saidinhas, pensar em festas, abandonar a missão e tentar fazer gracinhas comigo, né?
— Não sei do que você tá falando. — Fuzilou-o com seus olhos.
— Você deve me achar realmente muito idiota pra não descobrir o que você fez hoje no café da manhã.
— Eu não fiz nada — respondeu, sentindo seu coração acelerar, seu estômago embrulhar e a raiva aumentar. — A culpa não é minha se seu controle de bexiga é fraco.
Ela viu a raiva aumentar no olhar dele e o controle ser rompido. Merda. soube que estava ferrada no mesmo instante. Sua varinha estava no bolso, mas não teve tempo de alcançá-la. A outra mão que estava livre avançou rápido demais em direção ao pescoço dela. De repente, não conseguia respirar.
— Vamos entender algumas coisas aqui, — ele comentou, a apertando ainda mais, tirando um arquejo sofrido da garota. Aquilo doía e ela precisava respirar. — Você não tem liberdade. Ou você me obedece, ou sua família morre. Você quer que isso aconteça?
Ela ficou em silêncio, procurando, desesperada, uma maneira de fugir. Ela sentia o pânico e o desespero a invadindo, precisando do ar ao seu redor. A dor se espalhava cada vez mais, queimando seus pulmões.
— Eu perguntei — Regulus repetiu —, você quer que isso aconteça?
Parecia que seus ouvidos estavam submersos e pontos pretos surgiam em sua visão, porém, alcançando o último resquício de ar, tentou gritar uma resposta digna, porém tudo o que saiu foi um sussurro esganiçado:
— Não.
— Então, você vai me obedecer, me entendeu? Você vai fazer tudo o que eu falar sem questionar, não vai me desrespeitar e nem ser uma vadia patética por ter levado um fora. Entendeu?! — ele berrou na cara dela.
Mas ela não conseguia responder. Se sentia tão fraca e parou de escutá-lo, e a visão estava completamente escurecida. A dor diminuía e parecia simplesmente mais fácil ceder àquela escuridão. Era a melhor opção. Na verdade, era a única opção.
Então, no último segundo, ela sentiu aquela mão se soltar do seu pescoço. Respirou fundo com desespero, se engasgando no processo, mas a escuridão não ia embora. E cedeu completamente a ela.
🌖 🌖
Acordou na cama macia e sentiu uma imensa vontade de voltar a dormir. Com os olhos ainda fechados, tentou se virar para ajustar a posição, mas todas as partes do seu corpo doíam, especialmente o ombro direito e o pescoço. Completamente dolorida e desconfortável, ela abriu os olhos.
E tentou gritar. Se a garganta estivesse boa, com certeza teria gritado, mas tudo o que saiu foi um som esganiçado que logo se tornou um acesso de tosses.
E o motivo era que ela não estava no dormitório da Sonserina. Aquele lugar era muito... vermelho. Olhando bem, vermelho e dourado.
As cores da Grifinória.
Com as últimas forças que restavam, se virou levemente na cama para olhar ao redor. O quarto tinha quatro camas, inclusive a que ela estava, todas decoradas com cortinas e cobertores das cores da casa. Era bem parecido com o dormitório da Sonserina, porém bem iluminado, mais simples e com cores muito quentes. Se sentiu dentro de uma lareira, com suas cores fortes e vibrantes, assim como o ambiente em si.
Nesse momento, a porta se abriu, e não podia ficar mais chocada com quem encontrara ali.
— Ah, que bom, você acordou.
Sirius fechou a porta do quarto, chegou mais perto da garota e começou a analisá-la.
“Que bom, você acordou”? A última vez que ele a vira, ele tentara a machucar como...
Como o irmão dele havia a machucado. As cenas voltaram à tona, e ela se sentiu tonta relembrando tudo aquilo.
— Opa, pera aí, cuidado. — Sirius a amparou, percebendo que ela estava prestes a desmaiar de novo.
— O que que eu tô fazendo aqui? — Era o que ela queria perguntar, mas tudo o que saiu da sua boca foi um novo acesso de tosse.
De repente, ela sentiu algo próximo a seus lábios.
— Vai com calma, bebe isso — ele falou, gentil. já havia visto seu jeito engraçadinho, seu jeito irritado. Mas nunca o seu jeito gentil.
Sem muitas opções, bebeu aquele líquido maravilhoso que fez sua garganta ficar melhor imediatamente.
— O que é isso? — perguntou, baixinho, ainda com a garganta sensível.
— A poção mais mágica do mundo. — Ele sorriu, maroto, mais parecido com o Sirius que ela estava acostumada a ver nos corredores. — Água.
Depois de mais alguns copos e uma Poção Estimulante, a garota conseguiu se sentar na cama e sentiu a dor diminuir um tanto, ficando concentrada apenas no pescoço e no ombro. Instintivamente, levou a mão aos locais.
— Como eu vim parar aqui? — indagou, com a voz fraca.
Sirius se sentou na beirada da cama, com o rosto indecifrável.
— Eu a trouxe. Do que você se lembra?
Um arrepio se passou pelo corpo dela. desviou o olhar conforme flashes tomavam sua visão. Involuntariamente, ela sentiu suas mãos tremerem.
— Dele... dele segurando o meu pescoço, falando... algumas coisas. Tudo ficou preto e aí, quando eu achei que... não aguentaria mais, consegui respirar. Só lembro disso — disse, em um sussurro, odiando a fraqueza que escutou em sua própria voz.
— Bom, a verdade é que... — Suas mãos se fecharam em punho. — Eu a encontrei jogada no chão do corredor, inconsciente, enquanto Regulus a encarava. Eu... percebi seus machucados e vi as mãos dele vermelhas. Não foi difícil de deduzir. — Sirius suspirou, mas podia perceber que suas mãos também tremiam: de raiva, e não medo como ela. — Eu deveria tê-la levado para Madame Pomfrey, mas eu congelei, não sabia o que fazer. Eu vim imediatamente para cá.
— É melhor. Não quero... ele...
— Eu entendo. Mas acredito que ele vai pensar duas vezes antes de tentar algo. — Ela percebeu que ele escondeu a mão direita, mas de relance viu alguns pontos avermelhados. — E você, tente não se meter com ele.
Ah, se fosse fácil. Ela nunca teria dirigido uma única palavra a ele por vontade própria.
— E onde eu estou? — indagou, querendo mudar de assunto.
— Bom, acredito que a esse ponto você tenha imaginado a respostas. — Ele riu de leve, apontando ao redor. — Bem-vinda ao dormitório da Grifinória! Muitas garotas sonham em conhecer esse lugar — ele brincou.
Então ela estava certa. Era mesmo um dormitório da Grifinória. E se ela estava ali com Sirius...
Quatro camas. Não era difícil de adivinhar quem dormia ali.
— Por que você tá sendo tão gentil? — perguntou o que não saía de sua cabeça.
— Digamos que eu tenho um fraco por garotas em apuros — ele brincou, a fazendo revirar os olhos, embora ela sorrisse. Sua cabeça latejou um pouco mais forte.
— Sirius...
— O que foi? — Ele se aproximou, visivelmente preocupado.
— Obrigada. Por não me deixar largada no corredor. E por não ter me levado a Madame Pomfrey. Ela... faria perguntas. Como, por exemplo, quem fez isso. E eu não poderia responder sem me assumir um alvo para Regulus.
O semblante de Black ficou ainda mais sério.
— ... Eu entendo que você esteja passando por muita coisa. Mas eu preciso entender. Por que ele fez aquilo?
Ela olhou para o lado, nervosa. Pelo suco de manhã? Sim. Por desrespeitá-lo? Também. Por não ter conseguido êxito na missão de se aproximar de Sirius e de seus amiguinhos? Com certeza.
Mas tudo o que ela pôde fazer foi engolir em seco e desviar o olhar.
— Se não quiser contar... — ele repetiu, e ela pensou que talvez pudesse contar a verdade parcialmente.
— Ele acha que eu derrubei o suco dele no café e o fiz passar vergonha — confessou, com a voz rouca e baixa.
Seus olhos ganharam um brilho extremamente curioso.
— E você fez isso?
Ela deu de ombros, apesar do incômodo e da dor.
— Nunca disse que sim. Também nunca disse que não.
— Entendi. — Sirius riu de leve. — Então, vamos apenas supor que você tivesse feito. Qual seria sua motivação?
Ela se ajeitou de leve na cama apenas para arrumar tempo para pensar. Por que ela o atacaria se não fosse pela missão?
“Você vai fazer tudo o que eu falar sem questionar, não vai me desrespeitar e nem ser uma vadia patética por ter levado um fora”.
— Ele estava... falando coisas nada agradáveis sobre mim. Me desrespeitando por eu ter levado um fora. — De novo, aquela voz que revelava fraqueza.
As sobrancelhas de Sirius de franziram.
— Um fora?
— É, um fora. — bufou. — Não conhece ninguém que deu um fora em mim recentemente, não?
— Alguém que...? Ah. AH! — Ele se sobressaltou ao se dar conta.
— Pois é — resmungou.
— Por que ele estaria te importunando com isso? — Sirius questionou.
A cabeça da sonserina latejava com aquele interrogatório.
— Olha, ele me ouviu contando pra uma amiga e, sendo insuportável como é, Regulus veio zombar da minha cara e, quando eu me irritei, ele se achou no direito de me xingar — respondeu, com a voz beirando à impaciência. — Satisfeito?
Ela levou a mão à cabeça que não parava de doer. Então, rapidamente, tinha mais um copo de água estendido em sua frente.
— Desculpa o interrogatório. Eu devia ter visto que você ainda não estava bem. E eu... sinto muito pelo Regulus. E por mim. Eu fui um idiota de te julgar, mas você deve admitir que foi estranho.
— Relaxa, até hoje eu me sinto confusa — replicou, depois de engolir todo o líquido.
— Mesmo assim... Eu não devia ter feito o que fiz. Não sei exatamente como compensar.
— Não precisa — ela respondeu, honestamente. — Você já fez muito.
Mas então seus olhos se arregalaram.
— Já sei! Rem... Quer dizer, você ficou sem acompanhante pro jantar idiota, certo?
— Ei, quem disse que eu não tenho acompanhante? — retrucou, emburrada.
— Você arrumou um acompanhante?
— Não, mas eu poderia ter arrumado.
— E acabou de arrumar. — Ele sorriu, animado. — Me daria a honra de ser seu acompanhante?
A garota teve que segurar o riso. Sirius conseguia com muita facilidade tornar as coisas mais leves e fazê-la se esquecer do que havia acontecido.
— Você não tá falando sério, né?
— Claro que tô. Vai, eu não posso ser uma opção tão ruim. Muitos me considerariam a melhor. — O garoto piscou.
Se fosse ser sincera consigo mesma, Sirius seria o par perfeito para colocar em dia sua missão. Bom, quase perfeito. Mas o outro idiota estava fora de questão, então Sirius serviria.
— Eu aceito seu convite. — Sorriu para ele.
— Beleza! Esse sábado, né? Vou deixar tudo pronto. Ah, agora tenta deitar mais um pouco. Vou pensar em como voltaremos sem ninguém ver você.
Assentiu, cansada, e se deitou com cuidado na cama novamente. Rey ficaria enlouquecida quando lhe contasse tudo o que acontecera naquele dia, fofoqueira do jeito que era. A mente da garota começou a vagar, mas não importava quanto esforço ela fazia, sempre acabava com a cena de Regulus na sua frente, a mão dele cada vez mais apertada no seu pescoço... As lágrimas que ela tanto segurou começaram a cair, fora do seu controle, e ela torceu que Sirius não prestasse atenção. Se sentia tão impotente. Se encolheu, tentando esconder o choro, até que o sono começou a chegar...
A porta foi escancarada, e acordou com o barulho alto, assustada. Aquilo fez sua cabeça latejar ainda mais. Ela se virou em direção à porta na mesma hora que a pessoa que havia entrado falou:
— O que ela tá fazendo aqui?