CAPÍTULO UM
Sabe aquele momento da vida que você se pergunta em qual parte da vida a escolha que fez resultou naquele outro resultado? Era exatamente isso que estava se questionando enquanto subia 5 lances de escadas, os quais já até esteve acostumada no passado, mas tinha meses que não aparecia por ali.
Subir aquilo tudo e processar mentalmente os últimos três anos de existência parecia um eterno déjà vu. Só que dessa vez o motivo era outro, um que ela se envergonhava profundamente, mas era orgulhosa demais para admitir.
Quando chegou na frente do apartamento 5B, refletiu mais dez vezes se realmente faria isso. Tudo se resolveria se contasse a verdade, certo? Certo! Só que não queria contar, e, mesmo assim, já tinha começado a mentir o suficiente para começar a retroceder agora. Precisava de uma desculpa plausível para sua mente entender todas as circunstâncias, mesmo que estivesse rezando a todos os santos já inventados para que ele dissesse que sim, toparia.
Bateu na porta. Com pouca força.
Não teve resposta.
Respirou fundo.
Bateu de novo, mais forte dessa vez.
Ouviu um “já vai”.
Exprimiu todo o ar dos pulmões. Será que dava tempo de correr escada abaixo?
Não, não dava, porque enquanto sua mente viajava por quilômetros de distância, a porta se abriu e estava bem na sua frente um homem mais alto que ela, cabelo raspado, barba ralinha e ainda sem camisa, exibindo os músculos tímidos do abdômen, encarando-a de forma curiosa com aqueles belos olhos castanhos. Ele não mudará nada desde da última que o viu, alguns meses atrás, continuava a mesma pessoa irresistível e, aquele perfume... Se tivesse como ficar mais arrependida de todas as decisões, aquele exato momento definitivamente era O momento, já que aquele homem era nada mais e nada menos que , seu ex-namorado.
— ? O que está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? — Ele estava surpreso, mas, ao mesmo tempo, parecia espantando.
Imediatamente, o cérebro da mulher se esvaziou por completo. Como que falava mesmo?
— Er... Então... — Respirando fundo mais uma vez e fechou os olhos. Precisava se recompor. Era só um homem, porra. — Preciso muito de um favor seu.
ergueu uma sobrancelha começando a achar toda aquela situação levemente engraçada, não era do tipo de mulher que ficava sem palavras tão fácil. O que também o deixava mais apavorado; alguém devia ter morrido.
— Não, ninguém morreu. — Ela acrescentou rapidamente, como se lesse seus pensamentos. — Mas preciso que você me escute sem me interromper até que eu termine, ok?
O rapaz cruzou os braços e concordou com a cabeça. Ela apenas soltou o ar que ainda estava segurando
— Bom, como você sabe, minha irmã vai casar nesse próximo final de semana e estava tudo certo até que uma das madrinhas da minha irmã, Rose, aquela loira que estava grávida e tudo mais, lembra? Então o bebê nasceu antes do esperado, o que significa que ela não vai poder mais ir, e agora minha mãe me ligou desesperada perguntando se eu não podia ir mesmo ao casamento porque estão precisando de mais uma madrinha. E como o compromisso que tinha para esse final de semana foi cancelado, confirmei, sim, claro que ia, por que não? É minha irmã quem está se casando, afinal. Só que o marido de Rose também não vai e elas nos querem lá como um casal porque acho que meio que não contei que terminamos e agora não sei como desmentir porque não quero decepcionar minha mãe e surtar minha irmã mais um pouco e tão será que você não poderia assim... ir comigo?
respirou pela primeira vez após tagarelar todo o discurso que tinha pensado da pior maneira possível e sorrindo no final, para passar uma certa segurança (que não tinha), aguardando ansiosamente uma mínima reação do rapaz à sua frente, que continuava quase imóvel.
tentou processar cada palavra vomitada à sua frente de maneira racional, mas estava completamente confuso, nem sabia por onde começar, então tentou pelo óbvio:
— Por que você não contou que terminamos? Ou melhor, que você terminou comigo?
Ela sabia que aquela pergunta viria, só não sabia como responder.
— Não sei.
— Ah, , qual é?
— Olha, minha mãe gosta muito de você e quando conversamos pelo telefone ela só me pergunta como está e respondo que está tudo bem, não tive oportunidade de contar sobre.
— Em quatro meses?!
apertou os lábios com força. Sabe que ele está certo, quase sempre está mesmo. Porra, é uma das pessoas mais inteligentes que já conheceu na sua vida inteira.
— , se você não quiser aceitar, tudo bem, só que precisava vir tentar, ou melhor, implorar que você fizesse esse favor por mim.
O rapaz coçou a cabeça incrédulo, de todas as coisas que teria programado para uma terça-feira à tarde dificilmente seria uma discussão no corredor do prédio com sua ex-namorada.
Eles não se viam tinha quatro meses, ela tinha terminado, ele respeitou o afastamento dela, mesmo que fosse contra, e agora ela estava ali, pedindo que viajassem juntos para um casamento sendo que não estavam juntos? Era maluquice.
— Não vai rolar. — disse por fim. — Arrume uma briga familiar, procure um novo namorado, não sei, não vai acontecer.
— Por favor, sei que não tenho direito, mas...
— É exatamente isso, você não tem. — ele a interrompeu, extremamente indignado. — Você passou meses sem dar notícias, sequer veio saber como fiquei depois que tudo acabou, e agora aparece aqui na minha porta pedindo para fingir que nada aconteceu? Simplesmente não consigo.
— , por favor... — A voz dela já estava levemente embargada, pensou por um instante que ia chorar ali mesmo, na frente dele.
a encarou nos olhos pela primeira vez desde que abriu aquela porta e quase largou todo aquele discurso no lixo. Olhar naqueles olhos tão azuis quanto o mar era sua perdição, sentia tanta falta dela. Era possível que ele quisesse beijá-la bem ali enquanto estavam discutindo? Ele ainda a amava demais.
— Você parou para pensar em todos os passos do que está pedindo? Que vamos ter que conviver como um casal por alguns dias? E quando voltar? Vai continuar mentindo para sua família até surgir outro evento social e tentar me arrastar junto?
— Vou contar para eles que terminamos. Eu juro!
ainda estava desconfiado. Não estava mesmo pensando em concordar com aquela ideia maluca, estava?
— Posso pedir quartos separados, se preferir.
Ele não achava que ia ajudar.
— Eu simplesmente não consigo fingir que tudo está tudo bem, . Simplesmente não consigo.
— Também não vai ser fácil para mim.
— Há alguns meses pareceu extremamente fácil!
Touché.
Ela não ia chorar, não ia.
Não foi fácil para ela também.
Nunca foi.
Mas merecia toda aquela revolta, merecia ouvir toda a frustração sendo despejada bem ali, na porta daquele apartamento, que ela praticamente morou nos últimos anos de tanto que frequentou.
Não sabia em que momento realmente teve a esperança de que ele fosse dizer de bom grado que iria, sim, compactuar com uma farsa que ela bolou só porque é fraca o suficiente para não dizer a verdade para sua mãe. Recusou-se a prologar aquele momento, não estava pronta para a verdade ainda.
— Quer saber? Esquece! Fui idiota demais em pensar que essa conversa levaria para algum lugar — falou, dando meia-volta e seguindo para o lance de escadas quando foi impedida por uma mão segurando o seu braço.
Aquele toque era quase letal para ela, continha algum tipo de eletricidade que irradiava todo o seu corpo, não sabia ao certo se era realmente só um toque no braço ou se tinha acabado de ter uma descarga elétrica.
Já para , ele estava vendo a mulher que o abandonou após meses, e agora ela queria simplesmente sair como se nada tivesse acontecido? De novo? Precisava de respostas.
— O que eu ganho com tudo isso?
mordeu os lábios. Para aquilo não tinha resposta. E nem precisava, pois aquele simples gesto fazia o coração dele ir de 0 a 100 em segundos.
💍
— Sinceramente? Acho que você está ficando maluco.
Assim que saiu da porta do apartamento de , ele rapidamente ligou para Ryan Horner, seu melhor amigo, como a sociedade o caracterizava. Eles se conheceram enquanto cursavam Ciências Políticas, e ambos decidiram seguir carreira juntos, praticamente, mesmo que em estudos diferentes. Naquele estágio da vida, Ryan dava aula na Universidade da Califórnia, enquanto terminava o doutorado na mesma universidade.
Horner era aquele tipo de amigo que toparia ir a um bar perto da universidade em plena terça-feira, às cinco horas da tarde, só para humilhá-lo sem dó depois que você contasse quais decisões tomou na vida. Sem mencionar que ele conseguia arrumar tempo na vida de professor universitário para malhar pesado, dando a ele músculos de sobra para que não ousasse contrariá-lo. Nem os cabelos levemente ondulados que iam até a orelha ou os olhos azuis claros ajudavam a amenizar a postura rígida do professor, apesar que era uns 15 cm mais alto, mas só frequentava a academia “para cuidar da saúde”.
— Eu concordo cem por cento. — Bebeu mais um gole de cerveja, extremamente frustrado do porquê diabos tinha aceitado aquela loucura. — Sabe o que é pior? Eu tenho convicção que estava começando a superá-la.
Ryan riu, negando com a cabeça enquanto bebia da sua cerveja também.
— Não precisa mentir para si mesmo, cara. Lembro claramente de ouvir uma reclamação sua sexta passada.
Tal evento se tratava de um encontro duplo que Horner tinha programado com uma amiga da namorada dele. No final, tudo até que se saiu bem, mas quando o encontro acabou, comentou que a mulher que ele saiu era “até que gente boa, mas não era a ”.
— O que você espera disso tudo, afinal? — O professor arqueou as sobrancelhas, curioso.
— Quero tentar entender por que que ela foi embora sem dar explicação. Acho que mereço saber.
— Você realmente precisa saber? — Ryan questionou de forma retórica, ajeitando a postura e encarando aquele papel de professor conselheiro que odiava. Bebeu mais um gole da cerveja rapidamente, demonstrando como aquele assunto o deixava desconfortável.
tentou, de todas as formas, não se culpar pelo que aconteceu e seguir em frente, um dia de cada vez, só que simplesmente apareceu na porta da casa dele, e aí surgiu a oportunidade perfeita para descobrir por quê, necessitava de uma resposta, mesmo que talvez não fosse gostar tanto dela.
— Você quer voltar com ela?
mexeu os ombros. Não tinha como Ryan voltar a falar de coisas simples como quem venceria a próxima eleição, sei lá?!
— Não está nos meus planos.
— Mas você ainda a ama, não ama?
Ele queria responder àquela pergunta? Ryan apenas soltou um riso nasalado quando ficou sem resposta.
— Se eu fosse apostar, , diria que você não quer saber um porquê, você só quer uma segunda chance. Mas é você quem merece essa chance? Ou ela?
Ryan Horner era um diabinho em pessoa, por isso eram tão amigos.
E era o maior ponto fraco de .
O doutorando em ciências políticas estava completamente apaixonado, rendido por uma garçonete vinda do interior de Illinois.
E a única coisa que ele queria ao final daqueles dias que passariam juntos era não sair tão machucado como da primeira vez em que ela terminou tudo.
💍
chegou na lanchonete que trabalhava por volta das seis horas da tarde, ficaria no expediente até fechar naquele dia. Ela queria poder dizer que estava menos ansiosa agora que tinha aceitado fazer parte do plano que elaborara, mas só de pensar que precisava lidar com a família inteira enquanto mentia cara a cara com eles, fazia-a roer as unhas mais ainda.
sempre teve problemas familiares: seus pais, em geral, sempre foram muito rígidos, e a mulher sempre se sentiu um tremendo fracasso em tudo… Esse teria sido o principal fator que não permitiu que ela contasse que tinha terminado o namoro, primeiramente porque ela ainda precisava entender consigo toda a situação, e, segundo, que, depois de tantos relacionamentos fracassados e de ser taxada como “garota problema” pelos pais, ela finalmente estava tendo um relacionamento duradouro.
— Você acha que sua mãe vai desconfiar? — Quem perguntava era Brooke, uma das melhores amigas que conheceu na Califórnia. Trabalhavam juntas na mesma lanchonete.
— Ela sempre foi muito observadora, acho difícil não perceber, por isso tem que ser perfeito. — Estavam limpando o balcão de atendimentos enquanto tagarelava sobre a infeliz escolha de vida de .
— Acho que ficaria mais preocupada com o fato de ter que conviver com meu ex do que com a minha família.
— Como assim? — largou o que estava fazendo para encarar a amiga, que lhe deu os ombros.
— Você não tem medo de conviver novamente com seu ex? Tipo, carícias e afetos com certeza vão acender alguma faisquinha dentro de vocês, não? Eu sempre acho que superei meu ex, mas quando cruzo com ele no saguão do condomínio meu coração palpita um pouquinho, imagina ter que conviver 24 horas com ele? Eu ia…
nem prestou atenção no restante, porque estava tão focada em não decepcionar sua mãe que tinha esquecido de calcular perfeitamente o fato de que teriam que agir realmente como namorados. A presença dele não seria apenas o suficiente, sem levar em consideração que era muito mais inteligente que ela, não aceitou aquele convite desagradável em troca de nada, alguma consequência teria. E foi assim que ela começou a suar frio novamente; estava ferrada.