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Uno Dell’Altro

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Capítulo Único


"Não é o tempo nem a oportunidade que determinam a intimidade, é só a disposição. Sete anos seriam insuficientes para algumas pessoas se conhecerem, e sete dias são mais que suficientes para outras." — Razão e Sensibilidade, Jane Austen.
O que era para ser apenas um jantar harmonioso entre as famílias e amigos mais íntimos acabou por se tornar uma grande festa de gala oferecida por Sua Graça, o Duque de Norland. O Alfa patriarca, respeitado entre a nobreza e por toda a alta sociedade e dono de vastas extensões de terra, não poupou recursos para a ocasião.

Sua digníssima e amável esposa, a Duquesa de Norland, uma Beta, havia dito que seria má ideia; a visita do neto não deveria se transformar em um evento comemorativo de tal proporção. Mas, bem, quem disse que ele lhe deu ouvidos?

A área reservada para as carruagens da propriedade principal de Norland Park estava lotada. A nobreza de quase toda Sussex perambulava deleitosa pelo enorme e garboso salão de baile de sua residência nem um pouco modesta. O Duque de Norland nunca fora conhecido por menos que ostentoso, não tinha tempo para amarguras ou misérias, e esperava permanecer assim até o dia de sua não tão esperada morte, que sentia estar a poucos anos de distância.

O motivo para tal celebração era simples: o nobre senhor, em seus plenos setenta e dois anos, estava deveras feliz. Seu neto diplomata, um dos orgulhos de sua vida, estava finalmente de volta após anos cuidando dos interesses complexos da Coroa no Continente. O Duque nutria a efêmera esperança de que, com um pouco mais de sorte, o jovem Alfa permaneceria em sua companhia por mais do que duas ou três semanas.

Sua Graça se considerava um Alfa abençoado não só por ter tantas riquezas materiais, mas por ser feliz de tal maneira que não conseguia traduzir em palavras. Era claro que amava inegavelmente toda sua família, era apaixonado até mesmo pelos futuros filhotes que sequer existiam, mas não tinha como medir o amor imensurável que sentia por seus três netos, herdeiros de seu falecido filho, e justamente por isso sua risada retumbante pôde ser ouvida até pelos criados na cozinha, sobressaindo-se à valsa executada pela orquestra particular contratada.

— Vovô… — Lorde Thomas Norland, o jovem Conde de Ashdown e neto mais velho de Sua Graça, riu contido, trocando a taça de vinho vazia por uma cheia quando um criado parou ao seu lado. — O senhor sabe que Anthony é um Alfa livre. Que lástima seria um Vínculo de Almas, não é mesmo?

Direcionou um olhar provocador ao irmão. Anthony revirou os olhos do mesmo modo. O Duque sobressaltou, imputando-o. O ar de riso ainda no rosto anafado.

— Ora, meu querido neto, quer dizer que não se encantou por nenhuma Ômega italiana? Ouvi dizer que são esplêndidas, terrivelmente belas. Não deixou nenhum herdeiro perdido por lá, deixou? — perguntou desconfiado, sabia bem que Anthony não era nenhum santo.

O velho Duque estava louco por mais bisnetos, só os filhotes do neto mais velho não bastavam para saciar sua corujice, embora os amasse e os mimasse mais do que era correto.

Anthony sorriu soprado.

Seu avô sempre foi muito astuto e direto, assim como Victor, o irmão caçula dos três, que não estava presente no evento por motivos pessoais em relação à esposa, Cecily. O diplomata desviou o olhar por um instante para algumas senhoritas que tagarelavam sobre qualquer coisa, mapeando perfeitamente a qual classe cada uma pertencia. Uma jovem Beta de olhos verdes e bonitos cachos louros lhe sorriu discreta; ele a retribuiu abertamente, não se importando em parecer indelicado. Logo após mirou o avô de pança saliente sob o colete de tafetá vermelho, que remexia o vinho com o dedo indicador rechonchudo.

— Sì, sono tutte bellissime — assentiu com a face numa expressão saudosa. — Mas não tenho tempo para perder me prendendo a alguém, meu avô. As italianas são nervosinhas demais, uma pequena aventura está de bom tamanho.

Ergueu sua taça de conhaque em reverência às próprias palavras, sorvendo um gole generoso. Thomas o imitou de maneira mais irônica, mantendo a tradição de serem como água e vinho desde muito pequenos. E embora os três irmãos tivessem profundas divergências eram os melhores amigos, os criados daquela mansão poderiam confirmar.

Ambos cochicharam mais algumas farpas entredentes até que Thomas soltou uma risada audível, disfarçando com maestria o absurdo do que acabavam de dizer, seu avô cobriu a boca.

Começaram uma nova conversa sobre política, quando se aproximaram alguns cavalheiros que ansiavam em conhecer o célebre diplomata tão bem falado, que cuidava tanto das relações exteriores de sua pátria. Após os cumprimentos, o Duque tratou de arrastar Anthony pelo imenso salão apresentando-o a Lordes, comerciantes influentes e damas deslumbrantes, nenhuma das quais conseguiu reter a atenção do jovem.

Parando para uma breve pausa, um criado se acercou e sussurrou algo no ouvido de Sua Graça, que revirou os olhos tedioso e despediu-se brevemente dos dois netos com muito drama, pois precisava tratar de um assunto um tanto quanto urgente em seu escritório.

Anthony e Thomas rumaram para um canto mais reservado do salão para fugir do alvoroço dos convidados, almejando ter um pouco mais de privacidade entre eles. O Alfa mais velho desfez-se das luvas, guardando-as no bolso lateral do fraque escuro, enquanto Anthony desabotoou o topo do colete branco de seda e afrouxou o cravat também branco, aliviando um pouco do calor repentino.

Um aroma doce e delicado tomou as narinas do diplomata. Ele farejou o ar, inalando o perfume fascinante. Thomas o observou com graça, e ele sorriu, pigarreando para disfarçar.

— Estão todos olhando para você, mio fratello — Anthony disse ficando de frente para o irmão, porém de costas para os demais.

O Conde de Ashdown soltou uma risada sonora, brincando com o dedo indicador na borda da taça de cristal. O anel de sinete em seu dedo mindinho reluzia, ele umedeceu os lábios grossos.

— Não seja ridículo. Embora eu seja extremamente formoso, não é por mim que estão suspirando. — Ergueu o queixo com imponência, varrendo rapidamente o salão com os olhos. — E mesmo que fosse, eu já sou casado e só a minha mulher me apraz.

Anthony sorriu verdadeiro; sabia com exatidão o quanto seu irmão era devoto a Elinor, uma Ômega de origem humilde. No começo ela não foi aceita por sua mãe. Lady Norland não acreditou que seu primeiro filho, o qual pensou ser o mais prudente, rejeitou os arranjos da corte – a princesa regente o tinha muito apreço e afeição, mas ele não sentia o mesmo – e teve o Vínculo de Almas com uma camponesa maltrapilha que não possuía nenhum dote nem requinte ou onde cair morta; todavia, um tempo depois, a viúva desistiu do preconceito de classes, das humilhações contra a nora e de cobrar mais ambições de seu primogênito, apoiando a união.

O que foi feito está feito.

Em seu íntimo o diplomata gostaria de ter tido a mesma sorte que seu irmão mais velho, pois ele era seu maior exemplo de homem, embora jamais fosse admitir isso em voz alta – ou a mesma sorte de Victor, o caçula que por aquelas horas deveria estar entre as pernas da esposa, acalmando-a em seu cio.

— Você é muito benedetto de tê-la em sua vida.

— Sou — Thomas afirmou orgulhoso, entendia italiano e muitos outros idiomas mais do que bem.

Anthony assobiou fingindo estar impressionado. Thomas era realmente um homem muito estudado e refinado, mesmo que atualmente sua mãe achasse o contrário depois da “loucura” que ele cometeu.

— Del resto, onde ela está? Não a vi desde que cheguei.

Então, Thomas suspirou bem-humorado:

— Provavelmente deve estar correndo descalça com nossos filhotes pelos jardins enquanto aguarda a chegada dos Harewood.

Anthony arqueou uma sobrancelha, intrigado com a menção da família, mas preferiu não interromper. Não se passaram cinco minutos até que os pequenos, George e Anastácia, entrassem no salão feito dois furacões, rindo alto enquanto brincavam com os filhos dos criados. Algumas senhoras franziram o nariz, abanando-se com fervor diante de tamanha afronta às regras do salão. Todavia, engoliram o desdém, pois ninguém ousaria criticar a criação dos netos de Sua Graça em sua própria casa.

Thomas sorriu para os filhos e saboreou tranquilo de sua segunda e última taça de vinho – sua regra pessoal era nunca ir além dessa cota. Anthony se apossou de uma nova taça de conhaque sorvendo um gole cheio de sede. Sua Graça ainda não tinha retornado.

Repentinamente, radiante em sua beleza selvagem, Elinor rompeu esfogueada pelo salão, enlaçando o pescoço do marido com um abraço eufórico, um gesto absolutamente impróprio e escandaloso para os padrões dos nobres ali presentes. A Ômega transpirava levemente, com as bochechas rubras, o vestido bonito quase todo amassado e os cabelos, ora impecáveis, estavam desarrumados, sem resquícios de bandoline. Divertido, Thomas baixou o olhar para os pés da esposa, confirmando que as sapatilhas de seda haviam sido abandonadas pelo caminho.

— Eu não lhe disse, meu irmão? — ergueu as sobrancelhas humorado, alheio aos cochichos que começavam a circular pelo salão. Pouco se importava com o julgamento de outrem.

Anthony riu com franqueza, enquanto Elinor baixava o rosto um pouco envergonhada.

— Não se envergonhe, minha cunhada — consolou-a o diplomata num tom gentil, sabendo que tinha a total anuência do irmão. — Continua deslumbrante, como sempre.

— Obrigada, Anthony! — ela respondeu com um sorriso gracioso, antes de voltar-se para o marido. — Posso calçar as sapatilhas se assim desejar, meu Conde — sua voz soou delicada em uma mistura de lamento e submissão.

Elinor, a Condessa de Ashdown, odiava ser o motivo pelo qual seu Conde recebia olhares reprovadores da sociedade e o desapreço da Corte, que já o havia perdoado. Ele, no entanto, apenas balançou a cabeça, negando. Tomou seu rosto delicado entre as mãos, dedicando-lhe um sorriso terno.

— Quero que se divirta — ele beijou a ponta de seu nariz. — E se lhe agrada continuar descalça, não serei eu a impedi-la.

O rosto de Elinor iluminou-se num sorriso grato e radiante.

— Obrigada, meu amor — sussurrou, aconchegando-se ao peito do marido, fechando os olhos ao sentir o afago carinhoso que ele lhe fazia na nuca.

A etiqueta aristocrática jamais toleraria demonstrações públicas de afeto daquela natureza, muito menos o desdém por normas conservadoras tão rígidas. Contudo, fazia muito tempo que o Conde de Ashdown, futuro Duque de Norland e o Lobo que habitava em seu peito, haviam deixado de curvar-se a regras feitas para inferiorizar sua esposa e a si mesmo quando bem achavam conveniente. Ele nunca mais permitiria que a tratassem com escárnio novamente.

Anthony contemplava o casal com um misto de admiração e afeição, quando uma fisgada lancinante atravessou seu peito, roubando-lhe o ar. O Alfa rosnou baixinho, involuntário, sentindo o sangue martelar nas têmporas. De repente, a claridade dos gigantescos candelabros de cristal pareceu cegante, e um calor sufocante e febril lhe subiu pela pele. O peito doía; nunca havia se sentido daquela maneira antes. Precisava de ar puro ou sucumbiria ali mesmo.

Inquieto, ele murmurou uma licença apressada ao Conde e a Condessa, afastando-se a passos largos. Cruzou o salão com a vista quase turva, ignorando com acenos mecânicos as abordagens de convidados interesseiros que tentavam capturar sua atenção.

Assim que alcançou a galeria deserta que dava acesso aos jardins, seu autocontrole aristocrático ruiu. Tomado por uma urgência quase selvagem, Anthony se desfez do fraque escuro e do colete de seda, arremessando-os sem qualquer cerimônia sobre um banco de mármore. As luvas alvas e o cravat engomado voaram em seguida, libertando o pescoço que parecia queimá-lo por dentro.

A brisa gélida da noite atingiu-lhe o corpo, mas não foi o bastante para apagar o fogo que o consumia. Com os dedos trêmulos, libertou os primeiros botões da camisa de linho branca, expondo a base da garganta e a pele quente e firme do peitoral. Dobrou as mangas de forma desalinhada até os cotovelos, revelando os antebraços fortes enquanto puxava o ar em golfadas desesperadas.

Avançou até a balaustrada de pedra tomada por glicínias, e agarrou o balaústre com força. Curvou o tronco robusto para a frente e o quadril para trás, baixou a cabeça entre os braços e fechou os olhos; respirou fundo, sentindo um pouco de alívio, sem entender que o sobressalto em seu peito não vinha de fato do calor ou cansaço, mas sim do prenúncio inconfundível de que a sua companheira estava próxima.

— Não me parece correto se despir assim em qualquer ambiente, senhor diplomata — indagou uma voz feminina, suave e zombeteira.

Anthony riu nasalado antes de se virar.

— Non mi sembra giusto spiare le persone — retrucou com bom humor.

A moça franziu o cenho, confusa.

— Perdoe-me, receio não tê-lo compreendido — admitiu, dando uma risadinha harmoniosa ao se aproximar alguns passos dele.

Anthony a imitou, inconscientemente encurtando um pouco a distância.

— Eu apenas disse que não me parece correto espiar as pessoas.

— Oh... Eu não o estava espiando! — defendeu-se de pronto, arregalando os olhos e gesticulando as mãos.

Ele se divertiu com a expressão em seu rosto.

— Ora, não a estou julgando; se estivesse em seu lugar, admito que também me espiaria — provocou Anthony, com um sorriso de canto.

A senhorita soltou uma risada nada convencional, quase um gesto de deboche, cruzando os braços sobre os seios, arrancando uma charmosa risada rouca do Alfa.

— Como pode afirmar algo com tamanha convicção? O senhor sequer está nu! — exclamou com indignação divertida, para logo em seguida pôr a mão enluvada de seda fina branca sobre os lábios, dando-se conta da audácia de suas palavras.

— Hm... Então a senhorita estimaria ver-me sem roupas? — Anthony ergueu as sobrancelhas, fingindo espanto.

A jovem entreabriu os lábios, genuinamente chocada.

— Ora! Eu desfrutava tranquilamente de minha própria companhia antes de o senhor surgir, despindo-se como se trajasse formigas sob as roupas! — disparou, afiada.

— Uh. Eu a decepcionei? É por essa razão que está tão irritada, amore mio? — ele sorriu ao enfatizar a última parte.

Ela o fitou de esguelha por um instante, compreendendo que o diplomata buscava apenas testar-lhe a paciência.

— Não darei mais cabimento aos seus despautérios — disse, estreitando os olhos, calando-se.

Anthony limitou-se a piscar devagar, mantendo um silêncio ponderado, embora estivesse secretamente fascinado pela petulância singular daquela desconhecida. Contudo, a quietude durou pouco; ele logo concluiu que a jovem nutria um apreço irrefreável pela conversa.

— Cavalheirismo não é uma de suas virtudes, estou certa? — questionou ela, dando um passo para o lado dele, reparando a imensidão de rosas brancas e vermelhas em tons escuros devido a pouca luz dali. Sua postura era altiva e elegante, quase arrogante.

O Alfa uniu as sobrancelhas, contudo sem demonstrar qualquer ofensa.

— Estamos aqui há sete minutos, senhorita. Não me conheceu o suficiente ao ponto emitir de tal veredito.

— Decerto que não, todavia não necessito de muito — devolveu a Ômega, ousada. Algo na presença daquele Alfa parecia conceder-lhe uma incomum liberdade de espírito.

Anthony moveu a mandíbula sob a pele, assentindo com lentidão. Ela sorriu, saboreando sua pequena vitória.

Permaneceram por longos instantes apenas observando o roseiral. A Ômega aproveitava para espiar discretamente o perfil do Alfa, constatando o quanto ele, de fato, era absurdamente bonito e mais atraente do que deveria, suas feições pareciam esculpidas a cinzel pela mão de um mestre. O aroma forte de Terra molhada e Café de seu Lobo emanando, mesmo que pouco, a fez fechar os olhos por breve segundos, gravando-o na memória, pois desejava se recordar daquela combinação excelente em outras ocasiões.

Ela amava tomar café ao invés do tradicional chá da tarde, e amava ainda mais o cheiro deleitoso que a terra exalava em dias de chuva.

A Ômega respirou fundo, voltando a si, rompendo o silêncio mais uma vez antes que reparasse ainda mais na figura do homem ao seu lado.

— O baile é em sua homenagem. Não deveria estar desfilando pelo salão?

Anthony assentiu, o rosto ganhando uma expressão sutil de cansaço.

— Vi sono così tante cose che dovrei compiere in questo momento... — sussurrou para si mesmo, soltando o ar pesaroso. — Estou exausto. Precisei me afastar dos convidados apenas por um momento. Não tenho o menor apreço por metade das pessoas que se encontram lá dentro. Imagino que terei tempo de sobra para desempenhar o papel de homem irrepreensível, cumprimentar desconhecidos e de ser muitíssimo gentil.

— Então o senhor costuma fingir ser o que não é? — indagou ela, desconfiada.

— A questão não é fingir ser o que não sou, mas tentar ser o melhor para não frustrar as expectativas das pessoas importantes que me cercam e que tanto esperam da minha conduta — justificou com a voz comedida, zelando para não afugentá-la.

Ele abaixou os olhos e fitou a Ômega em seguida.

Ela o contemplava com intensidade e franqueza, e Anthony não soube decifrar o que sua expressão tão cândida significava.

— Acredito que lhe compreendo — ponderou ela, compreensivamente.

— Ottimo, já é um começo — ele assentiu, ela concordou com um leve movimento de cabeça. — Vai me permitir saber o seu nome agora?

A atmosfera do jardim havia mudado completamente. Anthony tinha adquirido muita destreza em alterar a dinâmica de um ambiente sem se fazer notar em suas muitas aventuras pela Itália, do contrário teria retornado casado à força com a herdeira de algum político influente ou damas da corte.

— Por qual razão? — ela sorriu exibindo os dois dentes frontais ligeiramente salientes, adoravelmente semelhantes aos de um coelho.

O Alfa acompanhou o gesto, abertamente encantado, fazendo-a engolir em seco ao atentar-se às belas covinhas profundas e charmosas que se formaram nas bochechas dele.

— Porque a senhorita foi a única questa notte com quem eu consegui ter um diálogo, mesmo que mínimo, que não se ofereceu para mim ou tentou agradar-me.

Ela alisou o tecido de suas saias.

— Mas fique o senhor sabendo que não agi com o intuito de impressioná-lo.

— Estou certo de que não — respondeu ele, com um sorriso fechado.

— Justine — ela revelou com ar de riso, suspirando.

E a mesma sensação estranhamente boa que havia acometido seu interior assim que colocou os pés na propriedade de Sua Graça, voltou ainda mais forte, todavia não sabia explicar o que era.

— Como disse? — ele tinha compreendido perfeitamente, mas apreciou bastante o modo como seus lábios formaram um biquinho adorável ao dizê-lo.

— Justine Harewood — repetiu, e nesse instante uma leve brisa soprou um pouco da parte solta de seu cabelo.

Os aromas entrelaçados de Jasmim e Coco alcançaram as vias nasais do Alfa. Ele inspirou a fragrância sentindo-se meio tonto diante de tal doçura, embora a achasse indiscutivelmente deliciosa. Limpou a garganta para disfarçar o impacto, vislumbrando finalmente a beleza notável de sua companhia. Ele encarou a face corada, tão delicada quanto uma porcelana, e quis tocá-la. Conteve-se; odiaria agir sem a devida compostura. O que ela iria pensar? Ele não era um homem movido por impulsos levianos, contudo não conseguia compreender o que diabos estava acontecendo consigo naquela noite.

Aos trinta e um anos de vida, Anthony Norland já tinha percorrido vários países e descoberto maravilhas aclamadas pelo mundo, mas jurou por Deus, naquele exato instante, que não havia nada mais belo no mundo inteiro do que aquela senhorita de cabelos negros e lábios avermelhados tão convidativos e hipnotizantes.

Justine o encarou de volta por sob os cílios, obrigando-se a manter a firmeza, pois reconhecia que havia realmente algo errado consigo. Parecia que Anthony a chamava para si, todavia ele estava em silêncio.

— Conte-me sobre a Itália, ouvi dizer que é uma terra deslumbrante — ela pediu, realmente interessada em saber, buscando na conversa um meio de aplacar seus nervos.

Anthony assentiu e começou a discorrer sobre as maravilhas italianas. Contou sobre suas bebidas favoritas e explicou a beleza particular da arquitetura clássica, como o verdadeiro apreciador que era. Justine, por sua vez, não sabia se estava mais encantada pela paixão veemente nas palavras do diplomata ou por ele em si. A forma como seus lábios carnudos se moviam ao falar e como o peito forte subia a cada respiração animada... Céus, ela estava se perdendo, já não ouvia mais o que era dito.

Anthony percebeu a distração dela, pois seu próprio coração acelerava a cada ar surpreso da jovem, ainda que mantivesse a aparência de quem apenas apreciava o próprio relato. O que estava acontecendo consigo era um mistério, pois nunca tinha passado por nada semelhante antes. Algo naquela mulher lhe puxava, e se ficasse na presença dela por mais tempo, temia não conseguir se conter devidamente. Decidiu, portanto, encerrar a conversa por ali, não queria dar um passo em falso e cometer um erro.

— Bene... — suspirou para disfarçar a tensão, consultando as horas no relógio de bolso. — Meus minutos de trégua acabaram. Preciso retornar.

Justine sobressaltou-se, piscando os olhos como se tivesse despertado de um transe.

— Mas já? — empertigou-se na postura.

— Sfortunatamente — ela piscou em dúvida, ele sorriu e traduziu. — Eu disse infelizmente.

Justine concordou com um aceno hesitante.

Anthony afastou-se da balaustrada incerto, passando as mãos pelos cabelos negros para ter certeza de que continuava a altura exigida pelo evento. Por alguma razão incompreensível, relutava em deixá-la ali e sentiu-se ridículo pelo apego instantâneo; sorriu da própria fraqueza. Começou a buscar pelas peças de roupa, evitando inalar o cheiro inebriante da Ômega, determinado a não perder o discernimento.

Ele a fitou uma última vez, mirou o céu noturno com poucas estrelas e se tivesse notado antes, a imensidão negro-azulada poderia ser facilmente refletida na negrura estonteante dos olhos tão expressivos de Justine.

— Pois bem. Vá e cumpra o seu papel, senhor diplomata — disse ela, amistosa. Contudo, intimamente, Justine tampouco desejava vê-lo partir, desconhecendo a razão de tal relutância a um homem que acabou de conhecer.

Tudo o que estava sentindo não fazia sentido.

Com um pequeno sorriso, Anthony deu-lhe as costas, caminhando em direção à saída do jardim. Seu Lobo se manifestou contra suas ações pela primeira vez em anos, irritado com a ideia de se afastar dela. No meio do trajeto, o diplomata deteve os passos e apertou os olhos, incrédulo diante da própria atitude.

Virou-se na direção de Justine, que o mirava com visível expectativa.

— A senhorita aceitaria retornar comigo ao salão e me conceder a honra de uma dança? Sono um balletto, promesso. — Talvez estivesse faltando com verdade quanto ao limitar-se a apenas uma dança.

Ela fingiu ponderar o convite, para em seguida recusar com um sorriso amplo e incrivelmente aprazível.

— Por hora, a minha resposta é não — disse, piscando um dos olhos. Se sua mãe testemunhasse tamanha audácia... preferia nem imaginar as consequências.

— E de que modo poderei provar-lhe que sou um nobre signore? — inquiriu ele, valendo-se de seu tom mais galanteador. Justine riu com graciosidade, pois compreendera a insinuação.

— Acredito que não faltarão oportunidades futuras para que o demonstre, meu senhor — insinuou, escondendo um sorriso. Estava sorrindo mais do que de costume.

— Terei o privilégio de vê-la novamente? — quis saber, já ansiando por tal momento.

— Não saberia dizer, mas estimo que sim — umedeceu os lábios, sentindo-se desarmada diante do modo como aquele homem a encarava. Tornava-se cada vez mais difícil sustentar a recusa.

Anthony assentiu, enquanto uma fagulha de esperança ganhava espaço em seu peito. Girou novamente sobre os calcanhares, prestes a ultrapassar o arco folheado da saída, quando a voz de Justine o deteve mais uma vez.

— Sì?

— Tome cuidado.

— Com o quê, exatamente? — questionou, confuso, sentindo um comichão estranho em seu interior.

— Seus olhos brilham como os de alguém prestes a se apaixonar — explicou ela, suavemente. — Agora vá, estão à sua espera.

Anthony deu as costas e finalmente se foi, sem entender por que os olhos de Justine brilharam subitamente em um tom dourado que o manteve enclausurado a ela, por milésimos de segundos. No entanto, não tinha conhecimento de que os seus também brilharam, em tom azul, para ela.

Eles estavam irrevogavelmente enlaçados, tornando-se inteiramente um do outro, a partir daquela noite.

Ali, a sós na penumbra do jardim, Justine notou a presença de uma rosa amarela, a única daquela cor, repousada sobre os ramos de glicínias junto à balaustrada onde o Alfa esteve momentos antes. Tomou-a com cuidado entre os dedos, levando-a ao nariz. O aroma dele estava ali, impregnado nas pétalas. Ela respirou fundo, sorrindo. Beijou a flor com ternura antes de guardá-la em sua bolsa de mão, prometendo a si mesma que, antes que a primeira pétala murchasse, os seus caminhos voltariam a se cruzar.
Fim.
Nota da autora
UDA é uma história muito especial para mim. Ela foi escrita em 2019, para o Projeto de um certo site verdinho muito conhecido e que eu gostava muito de escrever por lá, pelo pseudônimo de “dontcypher”. Ela foi a última fanfic que escrevi com os meninos do BTS. Anthony era o Namjoon (meu UTT na época junto com o Hoseok), Thomas era o Seokjin e o Victor mencionado era o Taehyung. Hoje em dia eu não os acompanho mais, logo não os identifico mais como meus personagens. Gostaria de fazer uma Longfic com ela, mas receio que um capítulo esteja de bom tamanho, haha. Obrigada a todos que leram até aqui, beijão! 💜✨
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